Os males de sempre da América Latina
Por Daniela Estrada, da IPS
Santiago, 26/10/2007 – A pobreza em áreas urbanas que crescem sem
planejamento, a perda de biodiversidade, a degradação marinha e a
contaminação da água e do ar são alguns males que continuam afetando
a América Latina e o Caribe, segundo o Informe GEO 4. “Na América do
Sul há muito trabalho a ser feito. Temos problemas de contaminação em
cidades, disponibilidade de recursos hídricos, espécies ameaçadas,
superexploraçao de recursos marinhos e aumento das doenças
(especialmente câncer de pele) provocadas pelo desaparecimento da
camada de ozônio, que afeta muito o extremo sul” do continente, disse
à IPS o engenheiro químico chileno Héctor Jorquera.
Jorquera é um dos autores do capítulo 2, dedicado à atmosfera, do
quarto Informe Perspectivas do Meio Ambiente Mundial (GEO 4),
divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente
(Pnuma). Elabrado por 390 especialistas e revisado por outros mil em
todo o mundo, o GEO 4 descreve as mudanças produzidas desde 1987,
avalia o estado atual da atmosfera, a terra, a água e a diversidade
biológica e identifica prioridades de ação
Um problema transversal na América Latina e no Caribe, também
presente na sub-região sul-americana, é a pobreza em que se encontra
a população majoritariamente urbana, ressaltou o acadêmico da
Universidade Católica do Chile, que participou da apresentação do
informe realizada ontem em Santiago. A América Latina e o Caribe são
a região mais urbanizada do mundo em desenvolvimento. Entre 1987 e
2005 a população urbana passou de 69% para 77% do total de
habitantes. Este número chega a 87% no caso do Cone Sul. Quase 40%
das famílias urbanas estão abaixo da linha da pobreza, ou seja, vivem
com menos de US$ 2 por dia.
A condição de pobreza, que implica pior acesso à saúde, e a serviços
sanitários, como água potável, deixa a população vulnerável a todo
tipo de eventos como inundações, ondas de calor, secas, aumento da
contaminação atmosférica e transmissão de doenças infecciosas
presentes nos esgotos, disse Jorquera. O informe, cujo lema é “Meio
ambiente para o Desenvolvimento”, afirma que são coletados 81% dos
resíduos sólidos gerados nos municípios, mas apenas 23% deles recebem
tratamento adequado. Não é melhor a situação dos esgotos: apenas 14%
são tratados.
A degradação do solo afeta 15% de toda a região, 26% na Mesoamérica e
14% na América do Sul. A América Latina abriga a maior diversidade de
espécies do mundo e possui várias das maiores bacias hídricas. Seis
países – Brasil, Colômbia, Equador, México, Peru e Venezuela – são
considerados megadiversos. As ameaças a diversidade são perda de
habitat, degradação da terra, mudança de uso desta, desmatamento e
contaminação do mar, afirma o documento. Cerca de 66% da perda de
cobertura florestal mundial entre 2000 e 2005 ocorreu nesta região.
“A situação não melhorou muito em relação ao que foi diagnosticado há
vários anos. Os problemas persistem e não há uma resposta mais firme
por parte das diferentes sociedades e governos no sentido de
enfrentar a raiz dos problemas”, disse Jorquera. “Outro aspecto que
precisa ser muito reforçado na região é a disponibilidade de
informação mais detalhada sobre o que está ocorrendo, porque em
muitos lugares não sabemos o que acontece simplesmente por não
dispormos de dados”, acrescentou.
De todo modo, o informe identifica alguns progressos, como a
crescente extensão de zonas protegidas, que cobrem 10,5% de todo o
território da América Latina e do Caribe, com maior proporção na
América do Sul (10,6%). Jorquera também destaca que melhorou a
qualidade de alguns combustíveis e sistemas de transporte e que
existe maior conscientização quanto à agenda ambiental na opinião
pública. “Os problemas continuam sendo recorrentes na América Latina:
erosão do solo (o câncer de nossa terra), desmatamento e contaminação
da água e do ar”, complementou Nicolo Gligo, acadêmico da
Universidade do Chile e responsável pela Informe sobre o Estado do
Meio Ambiente no Chile.
“Qualifico os progressos em função dos números, e não há nenhum
indicando que melhoramos (nessas áreas), salvo a redução dos
contaminantes que afetam a camada de ozônio”, acrescentou Gligo.
Outro aspecto abordado no informe é a vulnerabilidade regional diante
da mudança climática. Segundo a exposição de Jorquera, nos últimos
anos foi constatado aumento de precipitações no sudeste do Brasil, no
Paraguai, Uruguai e nos pampas argentinos, bem como aumento de
inundações na Bolívia e menos chuvas no sul do Chile, sudoeste da
Argentina, sul do Peru e oeste da América Central.
Também há uma importante redução da superfície das geleiras andinas e
da Patagônia chilena e argentina. A dimensão da geleira Antisan do
Equador diminuiu oito vezes mais rápido nos anos 90 do que em décadas
anteriores, e na Bolívia a geleira Chacaltava perdeu mais da metade
de sua área desde 1990, diz o informe. As previsões, segundo
Jorquera, indicam mais redução de geleiras e reservas de água e
degradação de solos e desertificação no centro do Chile e na
Argentina. O aumento do nível domar ameaça a bacia do rio da Prata e
se espera aumento nos casos de câncer de pele no extremo sul do
continente.
Também se prevê menor disponibilidade de água e perda entre 20% e 45%
de espécies de árvores no Brasil até o fim deste século. A falta de
acompanhamento, capital humano e instituições dedicadas à mudança
climática dificulta a capacidade de minimização e adaptação a este
fenômeno, disse o especialista chileno. Qual é a mensagem do informe
aos governos da região? “Que coloquem a agenda ambiental acima de
suas prioridades e que se coordenem para poderem negociar com os
países e grupos de interesses mais poderosos que vão se opor a
maiores melhorias da qualidade ambiental”, disse Jorquera.
Isso passa, “necessariamente, pela exigência de que contaminar tem
preço e que o responsável assuma seus custos e reverta a situação.
Para issoao, é preciso fortaleza institucional e apoio da sociedade”,
concluiu Jorquera. O informe também exorta a resgatar o conhecimento
tradicional de mais de 400 povos indígenas que habitam a região e se
destacam pelo manejo sustentável de seus recursos naturais.
(Envolverde/ IPS)
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Ana Carla Madeira disse,
10 de Outubro de 2008 @ 16h 07m
Estamos indo a lua…temos um montão de sondas…e vamos morrer de sede ligando de um celular caro…eu tenho 11 anos e não entendo?!