Arquivo de Novembro de 2007

Na história da aviação a controvérsia continua

Perspectiva histórica mostra que a evolução inicial da aviação a motor teve lugar na Europa de forma independente e sem a contribuição dos irmãos Wright

Rubens Junqueira Villela

As comemorações do centenário dos vôos dos irmãos Wilbur e Orville Wright de 1903, em dezembro, nos Estados Unidos, deram ensejo a um renovado interesse nos estudos de história da aviação. Apesar da publicação de matérias muitas vezes simplistas e da cerrada barragem publicitária em curso nos Estados Unidos, a verdade é que a controvérsia subsiste através dos anos, a propósito de vários pontos concernentes ao real papel dos Wright, não apenas em relação à primazia do vôo em avião, como também sobre a efetividade da contribuição deles ao progresso da aviação. Persistem as dúvidas até agora não resolvidas (e aparentemente insanáveis) sobre o caráter e as cifras (datas, durações, velocidades etc.) dos vôos de 1903 e 1905, na falta de testemunhas e registros técnicos adequados. Os Wright se recusavam a demonstrar publicamente seu aparelho, e mesmo aos possíveis compradores. Não o fizeram tampouco nas ocasiões propícias em que prêmios foram oferecidos na França (ganhos por Santos Dumont, Farman e outros) e nos próprios Estados Unidos (ganhos por Glenn Curtiss, a quem os Wright processavam por infringência de patente).

Por outro lado, contrastando com o sigilo e isolamento dos Wright, na
Europa, e sobretudo na França, o ambiente aeronáutico era inteiramente
outro. Há fartos registros históricos e técnico-científicos sobre as
realizações de Santos Dumont e outros pioneiros. Havia livre troca de idéias e experiências entre os contendores. As evidências históricas e científicas, quando analisadas com seriedade e isenção, constituem poderoso argumento para atribuir a estes pioneiros, e não aos Wright, o maior acervo de serviços prestados ao desenvolvimento da ciência e da técnica do vôo, na fase primordial e decisiva da aviação. Pelas suas invenções e contribuições, com razão foi Alberto Santos Dumont cognominado “Pioneiro do Ar” por Thomas A. Edison, e “Pai da Aviação” por franceses e brasileiros.

Fred C. Kelly, o biógrafo oficial dos irmãos Wright, relata que na primavera de 1907 um congressista americano de Nova York enviou um recorte da Scientific American ao presidente Theodore Roosevelt, que o encaminhou ao secretário da guerra, sugerindo que a máquina voadora dos Wright fosse avaliada. Mas estes exigiram um pagamento de 100 mil dólares antes que o aparelho fosse demonstrado, e o assunto morreu aí. Os Wright se recusavam a fornecer fotografias, planos e detalhes técnicos para publicação. Era natural que a atitude de mistério e segredo dos Wright despertasse o ceticismo e a incredulidade de todos, seja no público, na imprensa ou nos meios técnicos. Pelo menos até os primeiros vôos públicos dos Wright na França em agosto de 1908 (utilizando motor francês Bariquand et Marre), as dúvidas sobre os alegados vôos anteriores, de 1903 e 1905, persistiram.

Gabriel Voisin, o pioneiro construtor e aviador francês ­ colaborador e
depois competidor de Santos Dumont ­ explica a obsessão dos Wright pelo
segredo, primeiro como um traço deplorável de personalidade (o açambarcador, aquele que acumula e esconde mercadorias etc.), mas mais importante, pela necessidade de esconder graves deficiências técnicas que ainda não haviam resolvido, entre elas: o aparelho não decolava autonomamente, tinha insuficiente motorização, e não voava sem condições adequadas de vento, sendo de pouco valor prático. Voisin, a propósito da visita de Wilbur à França, onde fora recebido com entusiasmo pelo público e pelos colegas aviadores, comenta: “Talvez ele (depois que saiu do isolamento) tivesse compreendido que a pesquisa científica nunca é obra de um homem só, que o homem que forja o elo final trabalha ainda na sombra de outros que o precederam e que um \\’segredo\\’ científico é uma contradição em termos e uma afronta ao progresso humano”. Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-18), 150 mil máquinas voadoras foram construídas pelos beligerantes alemães e franceses, e nesse tempo, os americanos, cerceados pelos processos de patente, não apresentaram nem uma linha sequer de produção de aviões. O sistema de wing warping (torção da asa) para controle lateral patenteado pelos Wright caiu em desuso, substituído pelos ailerons (asículas móveis auxiliares), utilizados por Santos Dumont já em alguns vôos do 14bis.

Quanto ao desempenho “espantoso” do modelo Wright voado em Les Mans em 1908, trata-se de um exagero, já que no mesmo ano Santos Dumont voava o Demoiselle, e tanto ele como outros aviadores franceses realizavam quase rotineiramente proezas iguais ou superiores, em termos de duração, manobrabilidade, velocidade etc.

Sem diminuir o valor dos experimentos e criações dos irmãos Wright, a perspectiva histórica mostra que a evolução inicial da aviação a motor teve lugar na Europa ­ e sobretudo na França ­ de forma totalmente independente e sem a contribuição dos irmãos Wright.

Para conhecer mais
The Wright Brothers,
Fred C. Kelly, Ballantine Books, 1943, 1950.

Men, Women and Kites,
Gabriel Voisin, Putnam, 1963 (tradução do original francês “Mes dix mille
cerfs volants”, 1961).

Revista Scientific American Brasil
http://www2.uol.com.br/sciam/

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Os bancos multiplicaram as tarifas

Hoje já são cobradas 74 modalidades diferenciadas de serviços. Tarifas com valores estratosféricos, juros exorbitantes e falta de transparência fizeram seus lucros baterem recordes às custas da exploração dos clientes.

TARIFAS BANCÁRIAS
ALEGRIA DOS BANQUEIROS,
DESESPERO DOS CLIENTES

O Brasil é o paraíso dos banqueiros. Eles não têm freios, nem limites para ganhar dinheiro, explorar seus funcionários e espoliar seus milhões de clientes. Os sucessivos governos são coniventes com esta situação. O lucro líquido das instituições financeiras bate recorde e mais recorde. Só em 2006 foram R$ 27,5 bilhões. Além de ganhar uma barbaridade com empréstimos e operações de crédito e muitíssimo com títulos públicos, explodiu o ganho com tarifas cobradas dos clientes (quase 100 milhões de correntistas). De 1996 a 2006 a fonte de receita dos bancos com tarifas cresceu 130%, enquanto a despesa administrativa diminuiu 37%.

Além do valor de cada taxa ter aumentado muito além do valor da inflação no período, a cada dia os bancos inventam novas tarifas a serem cobradas dos correntistas. Hoje, pagamos 74 itens diferentes pelos serviços prestados pelos bancos.
As reclamações nos órgãos de defesa do consumidor são inúmeras. Dificuldade na compreensão da taxa cobrada; cobrança indevida; alteração do valor da tarifa sem informação ou consulta do cliente etc. Segundo o Procon, os bancos nunca explicaram de onde vem o custo para a cobrança de cada tarifa. Não há relação, portanto, entre o valor da tarifa e o custo do serviço. Só nos nove primeiros meses desse ano, os 6 maiores bancos arrecadaram quase R$ 22 bilhões com tarifas. Essas receitas superaram com folga o total de despesas com pessoal, R$ 15,8 bi (dados do DIEESE).

E como não há uma definição de qual serviço pode ser tarifado e muito menos uma padronização no nome dado a cada tarifa, muitas são cobradas mais de uma vez e o cliente não tem como perceber. Por exemplo: os bancos cobram uma taxa pela manutenção da conta e outra para saque na agência. Cobram uma tarifa quando a conta fica negativa e mais os juros sobre a dívida. Cobram a taxa para renovação do cadastro do cliente mesmo quando não há alteração alguma!

O cidadão hoje é refém do sistema bancário, sendo muito difícil a troca de instituição financeira, pela baixa concorrência entre os bancos e à medida que o sistema se concentra cada vez mais. Nesse sentido, exigimos do governo uma regulamentação e uma ação firme contra a espoliação, principalmente dos cidadãos de menor renda, contra esse salvo conduto que os banqueiros têm para explorar a população.

NOSSAS PROPOSTAS

Em audiência realizada na Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara dos Deputados, convocada pelo deputado Ivan Valente, com a presença do Ministro Guido Mantega (Fazenda) e Henrique Meireles (Presidente do Banco Central), o parlamentar fez graves denúncias sobre tarifas bancárias exorbitantes, a exploração e a total liberdade dos bancos para criar e aumentar tarifas. Como desdobramento foi formado um Grupo de Trabalho que fez várias propostas que serão analisadas pelo Conselho Monetário Nacional.

Defendemos:

• Eliminação de cobrança de tarifas, ou no mínimo estabelecer um limite ou um teto com redução drástica dos preços, já que os bancos têm um lucro brutal com outras operações;

• transparência entre o custo do serviço e o preço da tarifa, que os bancos teimam em esconder;

• Fim da Tarifa de Abertura de Crédito - TAC, cobrada de todos que contraem empréstimos. É mais uma cobrança absurda, subiu 920% em 5 anos, estando embutida em outras tarifas;

• Fim da Tarifa de Liquidação Antecipada - TLA, cobrada quando o cliente quita antecipadamente as parcelas do empréstimo que contraiu. É na verdade uma multa para inibir a troca de banco, ferindo o Código de Defesa do Consumidor.

• Limitação do número de serviços que podem ser tarifados;

• padronização da nomenclatura das tarifas;

• prazo de no mínimo 1 ano para reajuste e aprovação de novas tarifas;

• mecanismos que garantam a mudança da conta de um banco para o outro, permitindo liberdade de escolha ao cidadão;

• Criação de um sistema público que permita a comparação efetiva entre as tarifas cobradas pelos diferentes bancos.

Site do Deputado Federal Ivan Valente - Psol SP.
http://www.ivanvalente.com.br/

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Chávez e o Império

Carlos Azevedo

O rei de Espanha mandou o presidente da Venezuela calar-se. A euforia tomou conta de todas as direitas, mas também deixou confusa muita gente boa. O que Chávez havia dito durante a Conferência da Comunidade dos Países Íbero-americanos? Que o ex primeiro-ministro espanhol, Aznar, é um fascista. O atual primeiro ministro da Espanha, Zapatero tomou a palavra para dizer que, embora tendo grandes divergências políticas com Aznar, achava que ele devia ser tratado com respeito. Zapatero não podia fazer diferente, tinha que se manifestar, porque sabia que seria cobrado na Espanha se houvesse se mantido em silêncio diante da crítica pública de Chávez. O que fez Chávez enquanto Zapatero falava? Mesmo tendo o som cortado, continuou a falar paralelamente, interrompendo Zapatero, insistindo em seus argumentos contra Aznar, lembrando que este havia apoiado o golpe de Estado que derrubou Chávez do poder por dois dias em 2002 (por ordem de Aznar o embaixador da Espanha foi o primeiro a reconhecer o governo golpista)… Chávez estava cheio de razão, mas, como muitas vezes, foi impulsivo, deselegante, infringindo a etiqueta da diplomacia etc. Nesse momento, impaciente, o rei Juan Carlos exclamou: “por que não se cala?” A imprensa das classes dominantes do Brasil exultou e aproveitou para achincalhar Chávez mais uma vez.
Por que tanta animosidade contra Chávez? Vejamos: quando Chávez foi eleito presidente da República pela primeira vez, em 1998, a Venezuela estava em falência política, suas classes dominantes, mergulhadas em profunda corrupção, desmoralizadas, não conseguiam mais governar. A maior riqueza do país, o petróleo, entregue às multinacionais de petróleo americanas, era partilhada por estas com as elites tradicionais e a alta classe média, ambas americanizadas, vivendo mais nos Estados Unidos que em seu país, seus filhos indo em massa estudar na Flórida, falando mais inglês que espanhol, acostumados todos a ver a Venezuela como uma fazenda de onde extraiam sua boa vida.
A Venezuela é o terceiro maior produtor de petróleo do mundo e exporta a maior parte da produção para os Estados Unidos. Chávez começou por questionar a dominação americana sobre o petróleo. Procurou fortalecer a capacidade de negociação da PDVSA (a empresa estatal venezuelana) com as multis. Além disso, constatando que as políticas das grandes potências haviam levado à redução brutal do preço internacional do petróleo (chegou a menos de 20 dólares o barril de 60 litros, isto é, petróleo estava mais barato que água mineral), assumiu a presidência da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) e desenvolveu uma política de valorização do preço do óleo. Isso causou ódio e remordimento nos Estados Unidos e nos outros países ricos.
Chávez também tratou de retirar das classes dominantes locais parte dos benefícios que recebiam do petróleo para poder investir na melhoria de condição de vida da população trabalhadora, especialmente em educação, saúde, alimentação, habitação. Isso enfureceu os velhos setores dominantes venezuelanos. Também o governo direitista espanhol, então comandado por Aznar, se incomodava. Porque a Espanha, ainda que há muito derrubada de sua condição de potência colonialista na América Latina, mantém grandes investimentos e desenvolve grande influência política por aqui, na condição de país sub-imperialista.
Os americanos, auxiliados pelo governo de Aznar, conspiraram com as classes dominantes locais pela derrubada de Chávez em 2002. Deram o golpe, mas não levaram, impedidos por um levante popular associado a uma tomada de posição de parte das forças armadas em favor legalidade. Chávez reassumiu tendo muito mais clareza de quem eram e como atuavam os inimigos do povo venezuelano.
Aprofundou sua política de nacionalização do petróleo e de destinar os benefícios dessa riqueza para os mais pobres. Sabendo o tamanho da ameaça, tratou também de fortalecer as forças armadas venezuelanas, comprando armas para melhorar a qualidade da defesa do país, vizinho de uma super-armada e pró-americana Colômbia e de várias bases militares dos Estados Unidos. Como diz o velho ditado, “bobo é quem pensa que o inimigo dorme”. Chávez também mudou as leis do país, promoveu a elaboração de uma nova Constituição, reformou a Justiça e o Parlamento, reforçando a participação popular.
Por tudo isso, Chávez é acusado de ditatorial. O interessante é que todas as mudanças promovidas por Chávez foram feitas à partir de eleições, plebiscitos e consultas à população. Desde 1998 realizaram-se dez eleições e plebiscitos no país. Nenhum governo em tempos atuais consultou tão freqüentemente a população como o venezuelano. Eleições cuja lisura não foi contestada por observadores internacionais. Chávez ganhou todas e por larga margem. A oposição golpista, decidida a desmoralizar o regime político do país, esteve ausente de uma eleição. Comandou a abstenção, mas o povo votou em massa em Chávez e em seus candidatos ao Congresso. Resultado, com esse ato estúpido, apolítico, a oposição ficou sem representação nos poderes da República. E depois, saiu acusando Chávez de ditatorial.
Certamente Chávez tem lá seus defeitos. Mas para se adotar uma posição madura sobre ele e seu governo, para ver com clareza no meio desse tiroteio é preciso levar em conta o principal. Registro três aspectos:
1)Trata-se de um governo antiimperialista, construindo a independência de seu país e, por isso, um poderoso aliado de todos os povos latino-americanos na luta contra as políticas imperiais que nos empobrecem e mantêm dependentes. O Brasil e todos os outros países do continente têm sido beneficiados pelas posições e políticas do governo de Chávez.
2) Também é preciso ver que ele vem promovendo políticas de melhoria das condições de vida da população trabalhadora e mais pobre da Venezuela e estimulando seu desenvolvimento econômico.
3) Todas as grandes decisões de governo têm sido respaldadas em eleições legítimas.
Atualmente, a irritação oligárquica contra Chávez alcança um novo ápice. Isso porque seu governo está propondo uma nova reforma constitucional. Uma das propostas é ampliar a possibilidade de reeleição do presidente da República. O povo venezuelano vai votar livremente e dizer se apóia ou não essa proposta. Se apoiar, Chávez poderá se reelegr outras vezes. E o povo venezuelano irá conferir no futuro se tomou uma decisão acertada ou não. É seu direito, é sua responsabilidade. Isso é democracia, é ou não é?
Ou democracia é comprar deputados e fazer passar uma emenda à Constituição no Congresso para permitir a reeleição do presidente, sem consultar a população, como fez FHC mudando a regra do jogo para ganhar um novo mandato em 1998? Isso é democracia ou é golpe? É golpe. Mas para a imprensa oligárquica FHC é o democrata impoluto. E Chávez é que é ditador? Poupem-nos de tanta hipocrisia!

Carlos Azevedo é jornalista.

Caros Amigos
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As Nações Unidas e o poder vacilante

ONU é forte quando os Estados membros se entendem e perde força quando há falta de consenso. Mas aí a culpa não é dela

Joseph S. Nye

Uma vez Joseph Stalin descartou a importância do poder diplomático perguntando: “Quantas divisões tem o papa?” Hoje, muitos auto-intitulados realistas descartam a ONU como ineficaz, argumentando que pode ser ignorada. Eles estão enganados.

O poder é a capacidade de influenciar os outros para obter-se os resultados desejados. O poder impositivo opera usando métodos de recompensas e coerção, enquanto o poder diplomático opera por meio do convencimento e da cooptação. Sem forças militares próprias e com um orçamento relativamente exíguo, a ONU conta somente com o poder diplomático que consegue tomar emprestado de seus Estados membros. Foi criada em 1945 para servir a esses membros, e o artigo 2.7 de seus estatutos protege a jurisdição soberana deles.

Depois do fracasso da Liga das Nações, na década de 30, a ONU foi planejada para que os membros permanentes de seu Conselho de Segurança atuassem como policiais para impor a segurança coletiva. Quando as grandes potências entraram em acordo, a ONU teve um poder coercitivo impressionante, como demonstrado na Guerra da Coréia e na primeira Guerra do Golfo. Mas tais casos são excepcionais. Durante a Guerra Fria, o conselho ficou dividido. Como disse um especialista, o veto dos membros permanentes foi designado para atuar como um quadro de fusíveis de um sistema elétrico, ou seja, é preferível que as luzes se apaguem a que a casa pegue fogo.

Apesar dessas limitações, a ONU tem um considerável poder diplomático que nasce de sua capacidade de legitimar as ações de Estados, particularmente no que diz respeito ao emprego da força. As pessoas não vivem totalmente pelas palavras, mas também não vivem somente pela espada. Por exemplo, a ONU não conseguiu impedir a invasão do Iraque em 2003, mas o fato de não ter dado seu aval elevou grandemente os custos para os governos americano e britânico.

Então, alguns líderes americanos tentaram deslegitimar a ONU, exigindo uma aliança alternativa de democracias. Mas eles não entenderam bem a questão, pois a política do Iraque tinha dividido as democracias aliadas e, com seu quadro universal de associados, a ONU continuou sendo uma fonte importante de legitimidade aos olhos da maior parte do mundo.

O maior malefício à legitimidade da ONU tem sido auto-inflingido. Nos últimos anos, por exemplo, a política de blocos internos entre seus Estados membros produziu um Conselho de Defesa dos Direitos Humanos com pouco interesse em procedimentos justos ou no progresso dos direitos humanos. Da mesma forma, a ineficiência administrativa resultou num desempenho sofrível das tentativas amplamente divulgadas do programa de troca de petróleo por alimentos.

O cargo de secretário-geral da ONU é dotado de muito pouco poder coercitivo, mas algumas pessoas ocuparam o posto com grande força operativa, usando seus recursos de poder diplomático para reforçar o poder coercitivo de governos. Por exemplo, Dag Hammarskjold aproveitou a oportunidade da crise de Suez, surgida quando a Grã-Bretanha e a França invadiram o Egito em 1956, para persuadir os governos a criar forças de paz - uma instituição que não constava dos estatutos originais da ONU. Na esteira dos fracassos da ONU em impedir genocídios e limpeza étnica em Ruanda e Kosovo na década de 90, Kofi Annan trabalhou com outros países para convencer os governos a admitirem uma nova responsabilidade de proteger povos em risco.

Entretanto, tais inovações têm seus limites. Na esteira da guerra entre Israel e Líbano de 2006, os Estados mais uma vez recorreram aos pacificadores da ONU, como fizeram ao lidar com os problemas no Congo e Darfur. Mas, embora atualmente existam mais de 100 mil soldados de vários países servindo em missões da paz da ONU em todo o mundo, os Estados membros não estão fornecendo recursos, treinamento e equipamentos adequados. Além disso, os governos têm encontrado formas de retardar uma ação internacional efetiva, como tem sido no caso do Sudão. Resta saber se a China, preocupada com que seu comércio de petróleo com o Sudão possa prejudicar os Jogos Olímpicos de 2008, decidirá exercer mais pressão.

Embora a Assembléia-Geral tenha estabelecido que os Estados têm a “responsabilidade de proteger”, muitos membros concordaram somente num sentido muito restrito. Particularmente, muitos países em desenvolvimento continuam zelosos de sua soberania e temem que o novo princípio possa infringi-la. Por exemplo, depois da recente e violenta repressão do governo em Mianmar, o secretário-geral conseguiu enviar um representante ao país, mas com poderes limitados a relatar e tentar mediar. Isso talvez fosse o suficiente para convencer alguns governos, mas a junta que governa Mianmar expulsou o representante da ONU depois que ele avisou sobre “a situação humanitária em deterioração”.

A ONU tem um poder notável, tanto diplomático como impositivo, quando os Estados concordam com as políticas constantes do capítulo 7º de seu estatuto. Tem um poder diplomático modesto, porém útil, quando grandes potências discordam, mas estão dispostas a aquiescer no decorrer da ação. E tem um poder muito reduzido quando as grandes potências se opõem a uma ação ou quando governos repressores de Estados membros ignoram as exigências para que exerçam a nova “responsabilidade de proteger”. Em tais casos, não faz sentido culpar a ONU. O poder diplomático é verdadeiro, mas tem seus limites. A falha não está na ONU, mas na falta de consenso entre seus Estados membros.

Jornal O Estado de São Paulo
http://txt.estado.com.br/

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O Talibã está de volta e já controla metade do Afeganistão

Seis anos após a queda do Talibã e a declaração de vitória do presidente George Bush no primeiro conflito da guerra contra o terror, o Afeganistão é uma nação à beira da anarquia.
Os afegãos estão cada vez mais decepcionados com a intervenção ocidental e voltam a confiar nos talibãs. Mas a própria palavra talibã já não é a mais apropriada para designar esses militantes armados. Os novos grupos de guerrilheiros agora são variados, atuam em todo o território e agem cada um por sua conta. O objetivo de suas ações, no entanto, permanece o mesmo: expulsar do país os ocupantes estrangeiros, considerados infiéis e bárbaros pelo islamismo radical ali reinante.

Esses novos rostos de insurgentes guerrilheiros são chamados de neotalibãs. Suas táticas de luta são simples: não existe definição clara de suas frentes de batalha e nem dos campos onde eles são treinados e se preparam para os ataques. São agricultores e estudantes de teologia islâmica que se engajam na guerrilha.

Os neotalibãs são milhares. Eles se tornaram pragmáticos, juram à população terem abandonado métodos primitivos como os apedrejamentos e os enforcamentos públicos. São superarmados e, sobretudo, dominam mais da metade do território nacional. Tentam ser reconhecidos pela população como um exército de resistência, um pouco como o Hezbollah tenta fazer no Líbano.

Dominam as províncias de Farah, Nimroz, Helmand, Kandahar, Uruzgan, Zabul, Paktlika, Ghazni, Wardak, Paktia, Khost, Nangarhar, Kunar e Nuristan. Sua imaginária linha de frente, no momento, engloba inclusive a área de Cabul, embora ainda não tenham conseguido penetrar no perímetro urbano da capital. Mas toda a parte sul do Afeganistão voltou a ser campo de batalha pelo controle do país.

UM RELATÓRIO DE 406 páginas circula em todas as embaixadas e consulados de Cabul, contendo dados sobre os mais recentes avanços dos estudantes corânicos. Ele se intitula “The Retourn of the Taliban” (O Retorno do Talibã) e foi publicado na Inglaterra pelo Security and Development Policy Group (Senlis), um dos mais importantes centros mundiais de estudos sobre relações entre política estrangeira, desenvolvimento, atividades militares e combate ao tráfico de drogas.

AS PREMISSAS DO relatório são assustadoras. Com base na pesquisa do Senlis, 88% dos homens afegãos consideram o Ocidente empenhado numa guerra de religião contra o Islã; 50% dizem que os ocidentais são desonestos; 48% que são egoístas; 46% que não respeitam as mulheres; e terríveis 49% esperam e acreditam em Osama Bin Laden como o seu grande vingador.

Segundo os especialistas, isso não significa que a Al Qaeda tenha ampliado sua influência no Afeganistão. Pelo contrário, “o movimento de inssurreição – afirma o relatório – pode ser descrito hoje como uma coalisão de grupos antigovernamentais que com freqüência operam de maneira independente e nos quais a Al Qaeda e as diversas facções militares operantes no país não desempenham um papel significativo”.

Os grupos de neotalibãs são constituídos por nacionalistas da etnia pashtum, conservadores islâmicos, afegãos que perderam o contato com suas raízes e seu modo tradicional de vida, instrutores militares oriundos do Paquistão e dos países árabes, bem como afegãos mercenários recrutados com dinheiro ou obrigados a combater sob ameaças.

O chefe de polícia de Kandahar, a mais importante cidade do Sul, revela: “Aqui, os talibãs estão em toda parte. Os ocidentais não sabem distingui- los no meio da população, mas os moradores locais sim. As meninas e moças não podem mais freqüentar as escolas, as mulheres permanecem em casa e todos os homens deixam a barba crescer. Certos homens são recrutados com a promessa de um salário mensal de US$ 500, enquanto um policial governamental ganha apenas US$ 80, e com freqüência apela-se para o desespero daqueles que vivem nos campos de refugiados.”

Da mesma forma que seus predecessores, os neotalibãs adotam uma interpretação extremista do islamismo sunita. Mas, do ponto de vista militar, eles evoluíram, adotando agora ações terroristas de forte impacto, desenvolvendo uma guerra dinâmica, altamente organizada e munida de armas sofisticadas e táticas de guerrilha tradicional. O relatório aponta ainda o Paquistão como principal implicado na coordenação, financiamento e organização da insurreição.

Como antigamente, o recrutamento acontece nas madrassas e mesquitas do Paquistão e das províncias do sul do Afeganistão, mas o novo reservatório de combatentes são os campos de refugiados.

QUANTO ÀS ARMAS E munição, o relatório explica que “ao longo da fronteira paquistanesa existe uma florescente indústria especializada na produção de armas copiadas de modelos estrangeiros. Os preços são muito baixos: uma metralhadora Ak 47 é vendida por US$ 250. Com freqüência são os próprios soldados do governo que vendem suas armas, e muitos dos seus comandantes estão envolvidos com o tráfico. Uma bazuca custa apenas US$ 40, um morteiro de 82 milímetros, não mais de US$ 60, e uma peça de artilharia de calibre médio, entre os US$ 80 e US$ 100.

Os neotalibãs também dispõem de armas mais sofisticadas, como os lança- foguetes RPG, que chegam via Usbequistão e Tagiquistão, provenientes da China e do Irã. A tudo isso se somam as mais de 30 mil armas depostas pelos 63 mil militares reformados há quatro anos pelo presidente Karzai. Acusado de ser submisso aos interesses dos Estados Unidos, Karzai é odiado pelos insurgentes.

TAMBÉM NA ÁREA da propaganda e do marketing, os neotalibãs se modernizaram. Sua produção de cassetes, DVDs, jornais e revistas cheios de imagens pode ser encontrada com facilidade nos bazares de Kandahar, glorificando as ações de insurreição e condenando os “invasores”. Uma fotografia publicada num desses jornais mostra um soldado ocidental que revista uma mulher afegã, tocando-a e, portanto, profanando-a. O movimento transmite suas mensagens a partir de uma rádio pirata chamada A Voz da Sharia. Em pelo menos duas províncias foram criados sites na internet que continuamente exibem vídeos de ataques às forças estrangeiras e transmitem mensagens atribuídas ao Mulá Omar.

Na origem dessa situação explosiva – conclui o relatório –, está a falência da política ocidental no Afeganistão. De uma missão antiterrorismo passou-se a uma atividade antiinsurrecional. A presença da ONU e da Otan tornou-se parte do problema, e não mais instrumento de solução.

Os talibãs se fortalecem e estão em contínua ascensão. Para os observadores mais importantes, mesmo que eles não consigam retomar o poder, a batalha civil já está perdida no Afeganistão.

Um fracasso atrás do outro

Há exatos seis anos, os acontecimentos de 11 de setembro de 2001 colocaram em confronto duas culturas globais – a democracia ocidental e o terrorismo muçulmano – da maneira mais dramática possível. Os Estados Unidos lideraram uma resposta militar aos atentados, lançando importantes operações militares no Afeganistão. Sua promessa de acabar com o Talibã e remover as bases terroristas no país foi recebida com muito entusiasmo por parte da população afegã.

Essa ação militar, infelizmente, falhou inteiramente em alguns dos seus objetivos mais importantes. Não conseguiu conter e muito menos eliminar a produção e o tráfico de narcóticos que continua a florescer no Afeganistão. Também não teve sucesso em criar no país uma infra-estrutura mínima de saúde, educação e alimentação.

Hoje, sobretudo na região sul, há grandes bolsões de miséria e fome, e pouco ou nada foi feito para solucionar o problema dos campos de refugiados. As tropas da ONU e o governo do atual presidente, Amid Karzai – aliado dos Estados Unidos e odiado pelos insurgentes, – fracassaram por completo em termos de segurança.

Qual a razão de uma bancarrota tão generalizada? Especialistas dizem que ela é devida sobretudo à incapacidade ocidental de compreender – e respeitar – a particular visão de mundo da população local, que é muito diferente da visão de mundo ocidental. Os afegãos se identificam basicamente com o mundo islâmico, e seu sentido de identidade é estreitamente ligado ao Islã e à Umma – a comunidade islâmica mundial.

Revista Planeta
http://www.terra.com.br/revistaplaneta/

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O verdadeiro escândalo dos alimentos transgênicos

Dick Taverne

Alimentos transgênicos são seguros, saudáveis e essenciais se quisermos atingir padrões de vida decentes para a crescente população mundial. A moralização fora de propósito em torno deles no Ocidente está custando milhões de vidas nos países pobres.

Há sete anos, a revista “Time” apresentou o biólogo suíço Ingo Potrykus em sua capa. Como principal criador do arroz geneticamente modificado -ou “arroz dourado”- ele foi saudado como potencialmente um dos maiores benfeitores da humanidade. O arroz dourado seria o início de uma nova revolução verde para melhorar as vidas de milhões das pessoas mais pobres do mundo. Ele ajudaria a corrigir a deficiência de vitamina A, a causa de entre 1 milhão e 2 milhões de mortes por ano, e poderia salvar até 500 mil crianças por ano da cegueira. Era a nau capitânia da biotecnologia vegetal.

Sete anos depois, a previsão mais otimista é de que serão necessários mais cinco ou seis anos para que o arroz dourado possa ser cultivado comercialmente. A concretização do sonho de Potrykus continua se distanciando.

O que deu errado? As promessas eram irreais ou a tecnologia dos transgênicos, como alegam seus oponentes, é falha -devido aos possíveis danos à segurança de seres humanos ou do meio ambiente, ou por ser inadequada para atender as necessidades dos agricultores pobres no mundo em desenvolvimento?

A discussão pública de alimentos transgênicos nos meios de comunicação britânicos, e por toda a Europa, reflete uma suspeita persistente em relação aos alimentos transgênicos. Os supermercados exibem avisos de que seus produtos são “livres de transgênicos”. As vendas de alimentos orgânicos, promovidos como uma alternativa natural aos produtos da agricultura científica moderna, estão crescendo cerca de 20% ao ano. O público é levado a acreditar que a tecnologia transgênica não é apenas insegura, mas prejudicial ao meio ambiente, e que atende apenas ao lucro das grandes empresas agrícolas. Raramente a percepção pública esteve mais fora de sintonia com os fatos.

Na verdade, a natureza da tecnologia de modificação genética dificilmente seria mais perigosa do que a agricultura convencional. Ao longo da toda a história, agricultores buscaram melhorar sua produtividade cruzando plantas com características desejáveis. Mas o cruzamento é uma loteria e suas conseqüências não podem ser facilmente previstas. Pequenas mudanças genéticas que são desejáveis podem ser acompanhadas por outras que são indesejáveis. Podem ser necessárias gerações de cruzamentos para eliminação das características indesejáveis. O processo é, portanto, não apenas imprevisível, mas lento e caro, e pode ser ainda mais arriscado.

Um dos métodos-padrão mais eficazes de reprodução para obtenção de melhores plantas cultiváveis é bombardear as sementes e plantas com raios gama para alterar seu DNA, causando mutações, sendo que algumas podem ser selecionadas por possuírem características desejadas. (Por acaso, os agricultores orgânicos, em seu desejo de evitar produtos químicos artificiais, são ainda mais dependentes do que os agricultores convencionais de variedades de plantas geradas por irradiação.)

A irradiação altera tanto a estrutura dos cromossomos quanto a seqüência do genoma de forma aleatória. Além disso, não há exigência legal de testar tais produtos irradiados seja pelos efeitos à saúde ou pelo que possam causar ao meio ambiente. Em comparação, a modificação genética em laboratório introduz um gene ou genes bem caracterizados em um genótipo estabelecido sem grande perturbação. O que tal modificação faz é o mesmo que o cruzamento de plantas sempre fez, mas de forma mais rápida e precisa. Os oponentes freqüentemente argumentam que a tecnologia de engenharia genética é diferente por poder transferir genes entre espécies. Mas novamente, isto não é novo, já que ao longo da evolução genes foram transferidos entre espécies naturalmente. Este é o motivo para a existência de tamanha diversidade de vida vegetal.

Além disso, aqueles que são contrários à modificação genética na agricultura freqüentemente abraçam a tecnologia na medicina. A insulina humana usada no tratamento da diabete, por exemplo, é modificada geneticamente: o gene humano responsável pela insulina foi transferido para bactérias e levedo, um processo que envolve o cruzamento da barreira entre espécies. Segundo que raciocínio a tecnologia pode ser segura e ética quando salva vidas em tratamento médico, mas não quando usada para tornar plantas resistentes a pragas visando salvar pessoas da fome?

A história do arroz dourado de Potrykus sugere uma explicação. O desenvolvimento do produto em si foi um grande feito científico. Um gene de bactéria somado a dois genes de narciso foram inseridos no arroz para fazê-lo sintetizar o micronutriente “betacaroteno”, que quando ingerido é convertido em vitamina A. Este processo levou 10 anos. Muitos outros anos foram gastos, com a ajuda da Syngenta e outras empresas de biotecnologia, na solução dos problemas de patente para permitir que o arroz dourado pudesse ser disponibilizado para pequenos agricultores sem pagamento de royalties. Então teve início a luta para obtenção de aprovação regulatória.

Primeiro, apesar de ter sido aceito até mesmo pelos contrários à tecnologia que a presença do betacaroteno no grão de arroz não apresenta nenhum risco possível ao meio ambiente, nenhum campo de teste de pequena escala seria permitido. Assim, todo o arroz dourado deveria ser plantado em estufas -um processo que exige três anos. Cada planta deveria ser comprovada como sendo produto de uma transferência genética de seu DNA em proporções iguais. Então todas as proteínas deveriam ser extraídas e decompostas, caracterizadas bioquimicamente e sua função confirmada -análises que exigem pelo menos dois anos de trabalho intensivo em laboratório bem equipado.

Em seguida, experiências de alimentação com roedores seriam exigidas, apesar da maioria das pessoas já ter comido alegremente estes genes -e as proteínas pelas quais são responsáveis- de outras fontes ao longo de suas vidas, e apesar das proteínas produzidas pelos genes do narciso não terem relação a qualquer toxina ou alérgeno. Nenhum risco hipotético por menor que fosse deveria permanecer não testado.

Por que uma tecnologia com tanto a contribuir é impedida por regulamentações que não fazem sentido? Parte da culpa está no grande agronegócio. Ele inicialmente apreciou a regulamentação elaborada para desencorajar a concorrência de pequenas empresas incapazes de arcar com os custos. De fato, eles resistiram com sucesso a todas as tentativas dos conselheiros no governo Reagan de regular cada nova planta transgênica simplesmente como novo produto, em vez de pelo processo pelo qual foi derivada -uma abordagem que trataria as culturas transgênicas e convencionais de forma semelhante e faria mais sentido científico.

Apesar da regulamentação rígida ter sido apoiada por alguns defensores dos transgênicos, que acreditavam que ela tranqüilizaria o público, ela teve o feito oposto. Se os governos parecem achar que é necessária extrema cautela, o público concluirá que a tecnologia deve ser perigosa.

Mas a principal força por trás da regulação excessiva dos transgênicos é o culto da “volta à natureza”, que também inspirou a propaganda contra a biotecnologia agrícola como um todo. Este culto tem muitas manifestações. Uma é a popularidade da agricultura orgânica, que se baseia no falso princípio de que produtos químicos artificiais são ruins e produtos químicos naturais são bons.

Outra é a crescente moda por medicina alternativa, não comprovada. Os oponentes dogmáticos dos transgênicos na Europa acreditam que a interferência na composição genética das plantas é basicamente uma questão moral. Ela deve ser condenada como parte da tentativa pecaminosa da humanidade de controlar a natureza, que contribuiu para o aquecimento global, epidemias de câncer e todas as pragas da vida moderna.

Apesar desta corrente de sentimento anticiência, há motivo para esperança. Neste ano, o então secretário britânico do meio ambiente, David Miliband, anunciou que não há evidência de que alimento orgânico é mais nutritivo do que alimento cultivado de forma convencional. Em princípio, o governo britânico se declarou pronto para autorizar o cultivo de transgênicos e apoiou sua promoção na Europa.

Além disso, há sinais significativos de mudança em vários países europeus. A Espanha cultiva com sucesso milho transgênico há alguns anos. Na França, o número de hectares dedicados ao plantio de transgênicos aumentou de 500 para 50 mil em três anos. Mas o mais importante é a rápida disseminação de transgênicos na Índia e na China. Os chineses já estão à frente no teste de novas linhagens de arroz transgênico que poderão beneficiar 250 milhões de agricultores. A Índia não está muito atrás e defende um regime regulatório brando.

Há pouca dúvida de que com o tempo os transgênicos serão aceitos mundialmente, mesmo na Europa. Mas ao adiar o cultivo, os lobbies antitransgênicos foram responsáveis por um custo pesado. Sua oposição minou o agronegócio na Europa e empurrou para o exterior grande parte da pesquisa de biotecnologia vegetal. A regulação excessiva pode tornar os custos da tecnologia mais altos do que o necessário. Acima de tudo, o atraso causou a perda desnecessária de milhões de vidas no mundo em desenvolvimento. Estes lobbies e seus amigos no movimento orgânico têm muito pelo que responder.

Prospect Magazine
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Carta de Lee Harvey Oswald é encontrada em arquivos de senador falecido

James Baron

A caixa estava intocada no sótão de uma casa em Washington até recentemente, quando a venda da casa forçou que se fizesse uma limpeza, que se olhasse em lugares há muito esquecidos.

Dentro da caixa havia uma pasta de arquivo chamada: “Lee Harvey Oswald”.

Na pasta estava uma carta escrita à mão, que Oswald enviara da União Soviética, reclamando que o governo soviético não lhe dava um visto de saída para os EUA. Era endereçada ao senador John Tower, republicano do Texas, que havia morado na casa com sua segunda mulher nos anos 80.

Os outros itens da pasta são datilografados -cartas de Tower ao Departamento de Estado, cartas do consulado americano em Moscou a Oswald, cartas do Departamento de Estado a Tower e memorandos da equipe de Tower após o assassinato do presidente John F. Kennedy, quando Tower defendeu-se contra a impressão de que tinha ajudado a abrir o caminho para a volta de Oswald aos EUA.

Uma empresa texana chamada EasySale planeja fazer um leilão on-line dos itens, talvez já na quarta-feira. A EasySale diz que as cartas são originais, não cópias como as que estão entre os documentos de Tower na Universidade de Southwestern em Georgetown, Texas. Um especialista em caligrafia contratado pela EasySale para examinar a carta de Oswald concluiu que a letra apertada era de Oswald.

A carta de Oswald a Tower, que morreu em 1991, não está datada, mas foi amplamente citada após o assassinato de Kennedy e novamente no relatório da Comissão Warren, em 1964.

Ela começa como um apelo de um cidadão: “Meu nome é Lee Harvey Oswald, 22, de Fort Worth, até outubro de 1959″, quando, escreveu, foi para a União Soviética para passar “uma temporada residencial”.

Depois de explicar o problema com o visto, Oswald escreveu: “Eu peço ao senhor, senador Tower, para levantar a questão de detenção pela União Soviética de um cidadão americano, contra sua vontade e desejo expresso!!”

De acordo com o relatório da Comissão Warren, um funcionário no escritório de Tower encaminhou a carta para o Departamento de Estado, sob uma capa que era “assinada pelo senador à máquina”.

Uma cópia da capa estava na pasta do sótão e deixava claro que o escritório de Tower estava simplesmente encaminhando o apelo de Oswald. “Não conheço o senhor Oswald ou quaisquer dos fatos em torno de suas razões para visitar a União Soviética; nem quais ações, se alguma, este governo pode ou deve tomar em seu nome”, dizia a carta.

Sabe-se que Tower deu o arquivo à Comissão Warren para que fosse copiado, mas os originais eram considerados desaparecidos, disse Kathryn Stalard, arquivista da Biblioteca de John Tower em Southwestern. “Estávamos procurando por isso”, disse ela.

O diretor executivo da EasySale, David J. Edmondson, disse que a casa, na seção Kalorama de Washington, era da segunda esposa de Tower, Lilla Burt Cummings Tower, advogada de Washington, que morreu em 1993. Edmondson disse que ela e Tower moraram na casa no início dos anos 80. Eles se divorciaram em 1987 e, dois anos depois, quando o primeiro presidente George Bush nomeou Tower como secretário de defesa, suas declarações que o ex-marido bebia excessivamente ajudaram a derrubar a nomeação. Tower negou as acusações.

A questão da volta de Oswald aos EUA perseguiu Tower após o relatório da Comissão Warren ser divulgado. O arquivo no sótão continha uma carta que Tower escrevera ao secretário de Estado Dean Rusk, em março de 1964, assim como a resposta de Rusk: “Não é agora e não foi no passado, a posição do Departamento de Estado que Oswald teve permissão de voltar a este país como resultado do encaminhamento ao departamento da carta de Oswald ao senhor.”

Edmondson descreveu a EasySale como “uma empresa de consignação on-line”, que pega itens de no mínimo US$ 50 (cerca de R$ 100) que as pessoas não querem mais. “Isso é certamente incomum”, disse ele. “Isso é incomum se comparado com as coisas que as pessoas costumam ter jogadas em casa.”

Jornal New York Times
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Pedro Simon: ‘O Brasil está se decompondo’

Valéria Nader (Colaborou Mateus Alves)
30-Nov-2007

O desenrolar dos acontecimentos da arena política nesse ano foi a mais nítida expressão de como decorrem as negociações para a construção da nação. Seria mesmo construção? A absolvição de um presidente do Congresso cujos indícios de desvio de comportamento eram mais do que cristalinos, a desfaçatez com que este continuou a circular por uma das mais importantes Casas do país, o recentíssimo toma lá, dá cá patrocinado pelo governo para aprovar a outrora tão abominada CPMF são alguns dos espetáculos que nos são propiciados pelos Poderes da nação. Obviamente, e infelizmente, concorrem para a sua desconstrução.

O Correio da Cidadania foi a Brasília para conversar sobre alguns grandes temas atuais com uma das figuras públicas que matem grande destaque no cenário nacional por sua conduta continuamente atuante, propositiva, corajosa e ética. Se esses são atributos que deveriam ser obrigatórios no currículo de qualquer político ou ocupante de cargo público, são, atualmente, sem dúvida alguma, uma raridade.

Indagado sobre como se definiria hoje politicamente, o senador Pedro Simon não poderia ter respondido de forma mais reveladora: “Tenho sido, permanentemente, defensor das mesmas idéias (…) Acho que isso está ficando difícil”.

Correio da Cidadania: Sendo atualmente uma das figuras públicas de grande destaque no cenário nacional, por uma conduta continuamente atuante, propositiva, corajosa e ética, como o senhor se definiria politicamente hoje?

Pedro Simon: Tenho sido, permanentemente, defensor das mesmas idéias. Algo muito concreto sobre isso é a questão da tributação sobre cheques, a CPMF. Ela foi criada no tempo de Fernando Henrique Cardoso e o governo era radicalmente a favor, enquanto Lula e o PT eram radicalmente contra. Agora estamos votando a questão novamente, e FHC e o PSDB estão fanaticamente contra – para o que não enxergo razão - e Lula e o PT não conseguem entender como alguém pode ser contra. Não entendo esse discurso, continuo a mesma pessoa, defendendo as mesmas teses. Acho que isso está ficando difícil.

E ainda no mesmo caso da CPMF, a negociação do governo é na base do troca-troca: dão emendas a senadores e deputados, nomeações… Não há uma linguagem ética, há sim uma linguagem de toma lá, dá cá. Estou ficando superado, não tenho mais muito o que fazer por aqui.

CC: A seu ver, qual é a crise do Brasil de hoje? Trata-se de um problema somente ético?

PS: Eu tenho dito que o Brasil vem se decompondo. Sou de uma geração que se baseava na família, na escola e na Igreja. Hoje, a família se decompõe; aquilo que se conversava com o pai, a mãe, a tia, foi trocado pelo que a televisão diz. Eu era do tempo que famílias faziam visitas, todos se juntavam para ir visitar outra família. Lá no Rio Grande do Sul, isso era muito típico. Quando era estudante, olhávamos o guri na rua e, conforme ele estava vestido, que poderia ser de modo espalhafatoso ou certinho, por exemplo, já sabíamos imediatamente qual era o seu colégio. Se alguém dizia que “precisamos defender nossos direitos”, sabíamos que era do Júlio de Castilho, um colégio público. A escola nos formava; tínhamos um conteúdo profundo de debates e discussões. Hoje, não há mais isso. A escola prepara para o vestibular e nada mais; não tem formação, não tem consistência.

A religião, como um padrão social, moral e ético, também não mais existe. Eu vejo que tudo isso se decompôs no Brasil.

CC: Apropriando-se dessa discussão em nossa política, arena da qual o senhor participa hoje ativamente, muitos estudiosos dizem que não vivemos uma crise institucional no Brasil, dentre outros, porque a República está calcada em uma forte figura presidencial. Ao mesmo tempo, temos um Executivo que legisla, encaminhando uma série de medidas provisórias, e um Congresso que está submetido de forma inconcebível ao Executivo, por exemplo, por hora das liberações orçamentárias. Não estamos diante de, no mínimo, um disfuncionamento em nossa República ?

PS: Se formos analisar os Poderes, não há dúvida nenhuma. O Congresso nunca esteve tão no chão. O Congresso não legisla mais. Veja agora, ainda usando o exemplo da CPMF, que é a última necessidade que Lula teve no Congresso. Trata-se de uma emenda constitucional que precisa ser aprovada. Se for aprovada, até o final do governo, Lula não vai precisar mais do Congresso Nacional. Por meio de medidas provisórias, o governo faz o que quer. Nós não temos o que fazer. O que votamos são coisinhas de nada, e, mesmo assim, o presidente pode vetá-las - já há mais de mil vetos na gaveta.

A atribuição legislativa do Congresso é votar medidas provisórias; sua outra atribuição é a fiscalização, e nisso temos uma posição muito importante. O Congresso fez o impeachment do Collor, fez a CPI dos anões do Orçamento, por exemplo. Essa fiscalização, o Congresso tem feito. Porém, é inconseqüente; até hoje, no Brasil, quem vai para a cadeia é ladrão de galinha. Não há notícia nenhuma de alguma pessoa que seja mais ou menos importante, que pode pagar um bom advogado, que tenha sido presa. O Brasil é o país da impunidade. Você lê notícias de denúncias de corrupção, bandalheira, roubalheira, uma vez, uma segunda vez, três vezes, quatro vezes, e nada acontece. Paulo Maluf, por exemplo, está há 20 anos respondendo a um processo e nada acontece; com pessoas que possuem as mesmas condições que ele também não acontece nada.

O cidadão brasileiro tem, portanto, uma interpretação da sociedade brasileira como uma sociedade de absoluta irresponsabilidade. Podem dizer que não há uma crise institucional porque Lula está muito forte, mas isso não é bem assim. Houve um momento em que Lula estava fraco, alguns queriam o impeachment do presidente após as denúncias que envolviam o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu. No entanto, se esse tipo de processo fosse votado, o Brasil ficaria insustentável. A partir daí, o presidente se solidificou.

Eu diria que não há uma crise institucional porque todo mundo tem medo do que possa acontecer se tirarem Lula do poder. Os militares, hoje, são sérios, responsáveis, mas também vazios. Muita gente não se dá conta de que Castello Branco, quando foi presidente, acabou com a prática existente no militarismo brasileiro, onde, a cada dez anos, se pedia licença e se afastava - ele, Golbery de Couto e Silva, entre outros. Essas pessoas eram generais, e estavam permanentemente de licença. E era a turma que preparava golpes, malandragens.

Hoje, nas forças armadas, não se vê nenhum nome importante, um marechal Henrique Lott, um brigadeiro Eduardo Gomes. O último general que chegou a ter um prestígio enorme foi o general Leônidas, que garantiu que quem assumisse a presidência do Brasil fosse José Sarney ao invés de Ulysses Guimarães. No governo de Sarney, foi um homem poderosíssimo, mas, quando este terminou, foi para casa e ninguém mais soube dele.

Hoje não há uma pessoa forte no meio dos militares; quem exerce tal papel é o ministro da Defesa, Nelson Jobim. Esse fato de os militares terem se retirado e de não terem condições de ficar eliminou a possibilidade de qualquer golpe. Quando Lula publicou o estudo sobre a tortura durante o período da ditadura, houve uma declaração controversa do ministro do Exército. Nelson Jobim disse que, “se falasse, teria resposta”. E ficou por isso mesmo. Antes, uma fala do ministro do Exército gerava uma confusão dos diabos.

Ninguém quer criar um ambiente insustentável para o Brasil. E Lula está se valendo disso, para ficar tudo bem.

Na Venezuela, no Equador, há a possibilidade da reeleição, algo que já começa a ser ventilado por aqui, com a possibilidade de um terceiro mandato de Lula. E vem Fernando Henrique Cardoso e diz que é um absurdo, um escândalo, esquecendo que foi ele quem começou com isso no país. Ele criou a emenda que proporcionou a reeleição no Brasil, algo que não existia – e, até hoje, não saiu o resultado da CPI para provar como as pessoas aprovaram isso. Ele que fique quieto, apesar de não ser mesmo essa a hora de criar a possibilidade de uma nova reeleição.

CC: O senhor crê que tal projeto pode amadurecer, visto que alguns deputados da base aliada ao governo andaram fazendo articulações nesse sentido?

PS: O governo, quando fala em negociar, fala em troca-troca. Isso começou com FHC, e está acontecendo agora com a questão da CPMF. O governo parte para uma negociação tão pesada que termina ganhando. Não se quer votar a emenda no governo, mas sim autorizar um plebiscito para que o povo diga o que quer e o que não quer.

O que tememos é que, nessa altura do campeonato, a máquina do governo e toda a sua publicidade, o Bolsa Família, entre outros, terminem fazendo como na Venezuela, partindo para o improvável. Uma das piores coisas que pode acontecer no Brasil é termos uma permanência no poder, pois a democracia requer renovação, requer uma alternância no poder.

CC: O senhor é a favor da entrada da Venezuela no Mercosul?

PS: Sou a favor sim, apesar de ter grandes restrições ao presidente do país. Mas Hugo Chávez é Hugo Chávez, e a Venezuela é a Venezuela. O Brasil é o grande país da integração da América Latina. Quem sempre lutou por isso fomos nós. Quem se posiciona contra é porque vê o tamanho de nosso país e acha que queremos ser o dono do continente, o que não é verdade.

A Venezuela deve entrar, sim, pois é uma democracia. Tem problemas, mas sobre esses não temos autoridade nenhuma para falar – até ontem, nossos governadores e senadores eram biônicos.

Não vamos esquecer também que quem entra no Mercosul precisa garantir a democracia. Se a Venezuela passar a ter um regime ditatorial, podemos ameaçá-la com o afastamento do bloco. Isso aconteceu com o Paraguai: quando tiveram uma crise, quiseram colocar no poder um general. Aí, os presidentes do Brasil e da Argentina foram lá e disseram que, caso isso acontecesse, o país estava fora do Mercosul. E, por aí, garantiram a democracia.

Deixar a Venezuela entrar no bloco e ter o país do nosso lado serviria para podermos pressionar pela democracia. Mas, caso a pressão seja necessária no futuro, as conseqüências são imprevisíveis.

CC: Em uma entrevista à revista Caros Amigos, o senhor mencionou que rezava todos os dias para que o governo Lula cumprisse pelo menos 30% do prometido. O que pensa em relação a isso hoje em dia?

PS: Lula tem um saldo positivo que somos obrigados a reconhecer: o Bolsa Família. O mal do programa é que não foi feito com a perspectiva do provisório, mas sim com o intuito de ser mantido para comprar votos. Usam, inclusive, o programa para fazer ameaças, dizendo que será retirado se o PT não for reeleito. É uma chantagem.

Nos Estados Unidos, na época da Grande Depressão, o presidente Roosevelt criou um auxílio para os necessitados, algo que foi difícil para encerrar depois. As pessoas se acomodam.

Mas há, sim, um lado positivo. Muitas pessoas dizem para mim “digam o que quiserem, mas esse dinheiro está fazendo com que a minha família não passe fome”.

Agora, é sempre melhor ensinar a pescar do que dar peixe às pessoas. Esse deve ser um programa de transição, que facilite a entrada das pessoas no mercado de trabalho.

Do ponto de vista da ética e da seriedade, as coisas pioraram muito. Está, inclusive, pior do que na época do Fernando Henrique. Este disse para “esquecermos o que escreveu”; Lula e o PT disseram “esqueçam o que éramos”.

Não há nada mais parecido com o governo FHC do que o governo Lula. É a mesma coisa. Votamos na social-democracia, representada pelos tucanos, e entramos em um regime centralizador de centro-direita. Votamos nos candidatos trabalhistas, de esquerda, e elegemos algo igual ao governo tucano.

Porém, uma das coisas que foi pior no governo FHC, e que não aconteceu agora, foi a privatização de uma empresa com o porte e importância da Vale do Rio Doce. Era uma empresa importante, uma das maiores empresas de mineração do mundo, e os tucanos a deram de graça.

CC: O senhor é a favor da reestatização da empresa?

PS: Acho que reestatizá-la é quase impossível. Mas sou a favor de algumas medidas, como verificar onde foi parar o dinheiro da venda, ver como foi possível ter sido dada de presente, sendo vendida por apenas R$ 3 bilhões, e ainda por cima emprestados pelo BNDES.

Na época, eu fui favorável às privatizações, mas privatizações de empresas que o governo não tinha condições de tocar, não a da Vale do Rio Doce.

Todos os levantamentos e pesquisas feitos, todas as áreas prospectadas, deveriam ter permanecido com o governo brasileiro. Deram a Vale, e deram, portanto, junto com a empresa, todo o subsolo brasileiro. Sou a favor de se avaliar o que a Vale possui e que o país fique com aquilo que ainda não foi explorado. É preciso ir contra o que FHC fez e que o PT não mudou.

CC: Uma revisão seria, então, o mínimo a ser feito?

PS: Deveria ser feita essa revisão e acho que haverá uma CPI para ver como a privatização foi executada e onde foi parar o dinheiro. A Vale deve ir adiante, progredir, mas que não fique dona de nosso subsolo.

CC: Nesse sentido, o senhor não seria também a favor de uma revisão na Lei do Petróleo, para impedir o leilão de nossas áreas ricas em petróleo, especialmente agora com a descoberta de novos campos?

PS: FHC queria acabar com a Petrobras, até mudou o nome da empresa. Para votar as modificações na Lei do Petróleo, ele teve que dizer que não mexeria nem na Petrobras, nem no Banco do Brasil e nem na Caixa Econômica Federal – e, na verdade, não mexeu, mas que falava em mexer, falava.

O governo atual fez a mesma coisa que FHC fez na Amazônia. Há reservas que estão sendo entregues ao capital estrangeiro. Nunca me passou pela cabeça que o PT iria fazer isso. Estão entregando áreas do tamanho de um país a empresas que podem repassá-las a empresas estrangeiras por 40 anos, renováveis por mais 40. São oitenta anos, e é o PT que está fazendo isso.

CC: Como está a sua relação com o governo hoje?

PS: Acho que sou respeitado. Não sou anti-PT, como não era anti-FHC. Era para eu ter sido líder do governo do Fernando Henrique, pois era líder do governo Itamar e ele era o nosso candidato. Mas fui me afastando e terminei quase do outro lado.

Com Lula, aconteceu a mesma coisa. Ele, inclusive, me convidou para ser ministro, mas, com o tempo, fui me afastando. Tenho respeito e rezo, pois sou um homem de fé, para que acerte, para que tudo dê certo, mas não aceito certas coisas.

Meu afastamento em relação a Lula começou com o caso Waldomiro. Quando vi o petista, na TV, recebendo o dinheiro e dizendo como fazia seus negócios, não havia mais nada o que explicar. Ali, ficava tudo claro. Nunca entendi como Lula não demitiu Waldomiro logo em seguida e não permitiu a CPI.

Uma coisa é alguém ser réu, mas outra coisa é essa pessoa ser ministro quando há uma série de evidências contra ele. E Lula deixou que isso acontecesse, os ministros ficaram; se ele tivesse tomado providências logo após as denúncias, a corrupção não teria andado como andou no governo.

CC: Senador, considerando esse caminho nefasto que tem percorrido a nação nos últimos anos, não seria o momento de promover uma cruzada nesse país, a exemplo daquela levada a cabo pelo senador Teotônio Vilela em prol da redemocratização? O senhor corroboraria a hipótese de que um homem com a sua estatura e sensibilidade poderia ter uma postura social ainda mais agressiva nesse sentido?

PS: Olha, não tenho a capacidade de Teotônio. Ele foi mais importante do que Ulysses, mais do que Tancredo. Um homem com quatro cânceres, duas bengalas, cabeça raspada, percorrer o Brasil foi algo fantástico. Médicos diziam para ir tratar-se em Paris, pois lá a medicina era mais desenvolvida, mas ele dizia que, enquanto ele, doente, fazia isso no Brasil, jovens saudáveis ficavam sentados.

E o problema, hoje, é mais grave ainda. Naquele tempo, o inimigo estava claro: era a ditadura militar. Hoje, a luta é mais difícil do que aquela.

Lembro-me de ocasião em que fizemos uma reunião em Porto Alegre , Brizola havia conseguido dinheiro de Fidel Castro, alguns queriam a revolução, outros tinham idéias alternativas. Mas tínhamos quatro objetivos claros: diretas já, a formação de uma assembléia constituinte, o fim da tortura e a liberdade de imprensa. Era isso o que queríamos; quem quisesse a luta armada, que deixasse o PMDB. Era fácil de identificar as pessoas.

No Rio Grande do Sul, tivemos uma luta fantástica, Brizola e Jango eram de lá. Quem era do PMDB era do PMDB, e eu achava que éramos heróis. Depois vi que não era bem assim, que tinha vigarice que não acabava mais. Uma coisa era ser o que outrora éramos, outra coisa era ser governo.

Aí veio o PSDB, resultante do expurgo do PMDB. Covas, Montoro, FHC, Serra fundaram um partido, chegaram no governo e aconteceu o que aconteceu.

Isso se repetiu com Lula. O PT foi, na minha opinião, o partido de oposição mais espetacular que vi no mundo. Ninguém nunca soube atirar pedras com tanta categoria nos telhados de vidro dos outros como o PT. E, quando chegaram no governo, não quiseram fazer o que pregavam anteriormente. E essa gente era tão pura, tão espetacular, se quisessem eram ordenados padres…

Eu posso dizer que sei o que sou, pois fui líder do governo, já fui ministro, já fui governador, mas o cidadão comum não sabe o que vai ser até a hora em que sentar-se à mesa como governo. O PT chegou no governo e não souber o que fazer.

Hoje, digo que Lula não tem perdão, pois naquele momento, embora não estivesse preparado para ser governo, que pelo menos não se juntasse à bandalheira. Eu digo para todo mundo que, quando fui governador, não admitia que contratassem parentes. O chefe da Brigada Militar tinha um filho que estava numa lista para assumir certo cargo – e isso era até correto. Quando questionei o chefe, ele me disse que eu não podia prejudicar o seu filho – e respondi que não mesmo, por isso ele é quem teria que sair.

Um governador da oposição fazer isso com um militar, na época da ditadura, foi uma demonstração de enfrentamento. E depois disso, ninguém colocou mais nenhum parente como funcionário de meu governo.

Quando Lula foi condenado, todos que eram pró-democracia foram lá, buscar a sua soltura. Agora, veja os seus amigos: todo mundo que é rico virou amigo dele. E o pior é que ele acha que são mesmo seus amigos!

Mas voltando à sua questão, acho que, hoje, há uma incredibilidade geral. Depois do Teotônio, os dois fatos que fizeram com que o povo fosse às ruas foram as Diretas Já e o impeachment do Collor. E, hoje, o povo não quer saber de mais nada nesse sentido. Não há uma referência. Não há um Montoro, não há um Tancredo, um Covas.

O que tenho feito é percorrer o Brasil dizendo para a mocidade ir às ruas. Mas não ir à rua atrás do Congresso, pois de lá é de onde menos devemos esperar sair algo de bom. A própria Justiça toma algumas decisões, mas é também uma das grandes responsáveis pelo Brasil ser o país da impunidade. De lá também não sai nada. E de Lula, muito menos.

Está faltando efervescência. A UNE, por exemplo, está subordinado ao governo. E o PT, que era quem levava à mobilização, agora é governo.

CC: Mas não estaria ocorrendo também paralelamente uma espécie de “cooptação” dos movimentos sociais pelo governo - os quais, ademais, espontaneamente paralisaram-se em função das dificuldades de enfrentar um partido e um presidente com todo o prestígio histórico que carregam?

PS: Sim, infelizmente é isso aí.

CC: Como o senhor vê a esquerda hoje no país?

PS: Durante a luta do PMDB, considerava suas posições como de esquerda. Não que Tancredo fosse exatamente de esquerda, mas estava bem mais próximo dela do que o Sarney, que acabou sendo presidente. Com Fernando Henrique, achávamos que teríamos um governo social-democrata como o de François Mitterrand na França, como o trabalhismo inglês, e tivemos um governo de direita.

Lula e o PT eram de esquerda, realmente de esquerda. Mas estão fazendo um governo de direita.

Se olharmos, por outro lado, para o mundo hoje, há também um pragmatismo. Há coisas ridículas por aí, como o fato de americanos convocarem 50 países para fazerem uma conferência de paz em uma pequena cidade dos Estados Unidos. Fomos lá correndo, para discutir o Oriente Médio – mesmo sabendo ser o governo Bush muito culpado pelo que ocorre por lá, ao não aceitar as resoluções impostas pela ONU.

Acredito que, hoje, são atuais as idéias de Alberto Pasqualini. Ele dizia que o homem é filho de Deus, um animal social com direitos intransferíveis à vida e ao trabalho, e que precisa receber como remuneração por esse trabalho um valor justo em relação às questões prioritárias de moradia, educação, saúde e lazer.

CC: Isso definiria, a seu ver, “ser socialista” atualmente?

PS: Isso é ser humanista, é ser cristão. É o que de mais importante podemos, nesse momento, tentar conseguir.

Pasqualini dizia que os meios de produção não precisavam estar nas mãos do Estado, mas que, em cima dos bens privados, deveria haver uma “hipoteca social”. Tudo deveria servir ao bem-estar da sociedade. Se todo mundo tem terra, trabalho, educação, moradia, saúde, alguns podem ter palacetes, comer caviar, desde que todos concordem.

CC: Pensando em seu partido, senador, como o senhor enxerga o PMDB atualmente? O que o senhor responderia à apreciação já usual de que se trata de um partido da ordem, muitas vezes fisiológico? E qual é a aspiração daqueles mais próximos à sua visão política para o partido?

PS: Eu te devolvo a pergunta: o que é o PT hoje? O que é o PCdoB? O que se espera deles? O Brasil não tem verdadeiros partidos políticos. É o país que apresenta a esfera mais triste de partidos políticos no mundo. No Uruguai, na Argentina, no Chile, existem partidos fundados desde a independência destes países.

O Brasil nunca teve nenhum partido político com conteúdo. Durante todo o Império e durante toda a Primeira República, os partidos que existiam eram de mentira. Quando derrubaram Getúlio, em 1945, foram fundados o PTB, o PSD, a UDN; eram partidos nacionais, mas sem nenhum conteúdo ideológico. Aí veio o golpe militar e criaram a Arena e o MDB, um partido de mentira e outro de mentirinha.

Com o tempo, a Arena se desmoralizou, e o PMDB começou a ter credibilidade. E, hoje, há essa série de partidos que não valem nada.

Na história dessa vida, o PMDB é o único partido que teve lugar. Na época da ditadura, foi o partido que uniu a coligação e conseguiu a democracia. Conseguiu eleger um presidente e criar uma assembléia constituinte, conseguiu a anistia, o fim da tortura, a liberdade de imprensa. Aí, o Tancredo fez uma sacanagem com a gente – ele não podia ter morrido ou, pelo menos, poderia ter deixado outro que não o Sarney no poder. A partir daí, foi uma desgraça, nunca mais o partido conseguiu se erguer.

CC: O PMDB terá um candidato próprio para as próximas eleições à presidência?

PS: Veja, Ulysses Guimarães, foi candidato à presidente da República em uma hora em que não poderia ter sido. Sua depressão o deixou muito debilitado, e aquela história de não ser “nem Sarney nem oposição” o levou ao chão. Se fosse candidato quatro anos depois, ganhávamos brincando, mas o Quércia quis concorrer nas prévias do partido. Itamar era presidente, era do nosso partido, estava fazendo um bom governo, mas o partido não topou a candidatura de Ulysses e FHC venceu o pleito.

Depois disso, o PMDB não teve candidato próprio, ou estava vendido para o PT ou para Fernando Henrique. Aí, o partido se esfacelou.

As próximas eleições serão interessantes, pois tivemos oito anos de FHC e oito anos de PT. O PMDB tem grandes chances de ser uma terceira opção para o povo votar, mas acho que, até lá, Lula já terá comprado metade do partido e o PSDB o resto.

CC: Não posso encerrar essa conversa sem perguntar sobre a situação do seu estado, o Rio Grande do Sul, no Brasil de hoje?

PS: O Rio Grande do Sul vive uma situação dramática. Getúlio Vargas ficou 20 anos na presidência da república, e não deu um copo d’água para o estado.

Nos últimos 80 anos, mais de um milhão e meio de gaúchos saíram do estado e se mudaram para outros. Hoje, metade dos gaúchos está na parte norte e metade na parte sul do país. É capaz de fazermos um movimento, não separatista, mas de rebelião, devido ao tratamento que o governo federal tem dado ao Rio Grande do Sul.

Terminaram com o imposto sobre exportações. São Paulo exporta muito mais que o Rio Grande do Sul, mas importa uma variedade de coisas. Isso fez com que deixássemos de receber mais de R$ 1 bilhão, que o governo deveria nos compensar conforme está explicitado na Lei Kandir. Mas esse dinheiro não veio. E estamos cobrando isso. O governo do Rio Grande do Sus fez estradas federais, e hoje o governo federal não nos paga o dinheiro que nos deve.

Construímos toda a infra-estrutura do pólo petroquímico, que foi privatizado pelo governo e nunca vimos a cor do dinheiro. Uma empresa de aço, também criada pelo estado, foi repassada ao governo federal, que a privatizou e não nos deu um tostão.

Há uma série de coisas que estão acontecendo que estão acabando com o Rio Grande. Ou Lula dá uma de patriota e atende ao estado ou não sei o que pode acontecer.

Correio da Cidadania
http://www.correiocidadania.com.br/

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Natureza em construção

PROFESSOR EMÉRITO DA UNIVERSIDADE DE CHICAGO, MARSHALL SAHLINS FALA DE SUA EXPERIÊNCIA COM NATIVOS DA OCEANIA E COMPARA A GUERRA DO IRAQUE AOS CONFRONTOS ENTRE ESPARTA E ATENAS

FRANÇOIS ARMANET
GILLES ANQUETIL

M arshall Sahlins, 76, é professor emérito da Universidade de Chicago. Colaborador de Claude Lévi-Strauss nos anos 1960, Sahlins é considerado o maior antropólogo americano vivo. Ele é autor de livros como “História e Cultura” (ed. Jorge Zahar) e “Esperando Foucault, ainda” (Cosacnaify).
Especialista nas culturas do Pacífico, conservou seu espírito de contestador, forjado com a Guerra do Vietnã, como se verifica na entrevista abaixo. Sahlins também fala da Guerra do Iraque e a compara aos confrontos entre Atenas e Esparta, na Antigüidade.

PERGUNTA - De origem russa, o sr. nasceu em Chicago, berço de uma grande escola da antropologia norte-americana. De onde lhe veio o gosto por essa disciplina?
MARSHALL SAHLINS - A Universidade de Chicago de fato foi berço de uma grande escola de antropologia, mas quando cheguei a ela, em 1973, esse movimento já tinha envelhecido. Foi a escolha de Radcliffe-Brown para uma cadeira de professor, nos anos 1930, que fez de Chicago o posto avançado, nos EUA, da antropologia social britânica, ao preço de várias conciliações com a cultura local, como é o caso nesse gênero de situação colonial.
A universidade ficava no South Side, um bairro que, além da equipe de beisebol rival, abrigava judeus alemães bastante esnobes, mais cultos e ricos que os judeus originários da Europa Oriental que viviam no West Side. A gente não se misturava.
Sempre faço questão de acrescentar que tive uma criação inteiramente laica numa família não-praticante. Quanto à política, minha família não era filiada a nenhum partido, mas minha mãe admirava Emma Goldman [1869-1940, militante anarquista] e, durante o levante russo de 1905, quando ainda era criança, chegou a transportar folhetos revolucionários escondidos em sua mala escolar!
Havia, portanto, afinidades entre esse meio de imigrantes esquerdistas do Meio-Oeste americano e as teorias antropológicas de Leslie White [1900-75], que foi meu mentor na Universidade de Michigan. White era um dos grandes “intelectuais orgânicos” contestatários que a América rural e das pequenas cidades produziu na primeira metade do século 20, entre os quais figuram também Thorstein Veblen, Clarence Ayres, Charles Beard e C. Wright Mills.
Eles eram, por assim dizer, os ateus da aldeia: universitários marginais em revolta contra os exploradores, as classes dominantes, os dogmas ideológicos da sociedade americana.

PERGUNTA - Em 1965, em plena Guerra do Vietnã, o sr. lançou o primeiro “teach-in” [manifestação em forma de aula] dos EUA. Poderia nos relatar essa experiência e o papel que esse evento exerceu em seu pensamento?
SAHLINS - Lancei a idéia de um “teach-in”, em oposição ao projeto inicial de “teach-out” lançado por cerca de 20 professores, que teria consistido em suspender as aulas para organizar debates sobre a Guerra do Vietnã, fora do campus.
Diante das críticas virulentas de nossos colegas, propus, então, que ocupássemos as salas de aula após as aulas, fizéssemos “teach-ins” e criticássemos a guerra até tarde da noite.
É verdade que eu talvez tivesse uma predisposição para as oposições binárias, pois nos anos 1960 os americanos estavam se apaixonando por [Claude] Lévi-Strauss.
Mas existiam, também, condições estruturais mais gerais, especialmente o abismo de gerações, que se aprofundava nessa época: os estudantes, que até então vinham sendo aprendizes de adultos burgueses, começavam a imitar a classe operária -Levi Strauss, os jeans, não os livros!
No pós-guerra havia apenas um tipo de música popular que estava na moda nos EUA, e era apreciada igualmente por adultos e adolescentes. Então surgiram Elvis e os Beatles, comprovando que Confúcio e Platão tinham razão ao se preocuparem com a relação entre a música e a harmonia política.
De fato, já existiam na juventude americana movimentos contraculturais e contestatários dignos desse nome antes mesmo da intensificação do conflito no Vietnã, em fevereiro de 1965.
Ao reavaliar o papel que desempenhei nessa conjuntura, cheguei à conclusão de que o papel histórico dos indivíduos autoriza a si próprio uma estrutura -ou seja, uma posição no interior de um sistema, mesmo se essa posição não basta para determinar o que eles farão.
O poder coletivo pode encarnar-se em um indivíduo: seja por uma iniciativa feliz e oportuna -como no caso dos “teach-ins”, que tiveram grande sucesso-, seja pela autoridade constituída do indivíduo agindo na condição de dirigente designado de uma coletividade estruturalmente organizada para refletir e fazer ouvir tudo o que um George W. Bush pode fazer ou suportar.
Em todos os casos, porém, se esse indivíduo determina o destino da coletividade, esta, por sua vez, não determina sua própria individualidade. Como diz Sartre, o grupo é obrigado a se realizar, da mesma maneira como se deixa personificar.
De maneira geral, na esteira da Guerra Fria, a Guerra do Vietnã exerceu impacto considerável sobre praticamente todas as disciplinas universitárias nos EUA. Considerações políticas e estratégicas afetaram ou até mesmo ditaram a escolha das pesquisas científicas a serem empreendidas, das línguas a serem ensinados, das regiões do mundo a serem estudadas.
Se consideramos até que ponto a Guerra Fria impregnou todos os campos de reflexão, a época se prestava idealmente ao pensamento de Foucault, que, também ele, enxergava o poder por toda parte.
Globalmente, as ciências humanas e as letras optaram por combater os poderes instituídos, desenvolvendo uma crítica anti-hegemônica do nacionalismo, do imperialismo, do Estado, do racismo, do sexismo e de outros demônios planetários. Elas correram o risco de se debaterem numa contradição inevitável, já que, privilegiando os contradiscursos libertadores da anti-estrutura ou da desconstrução, implicitamente ratificaram certos discursos de dominação como sendo relatos fundadores, mais especialmente a versão foucaultiana.
Mas se, para muitas pessoas, a lição dos anos 1960 foi a de se opor a todas as formas de poder, a lição do Vietnã me ensinou sobretudo a celebrar todas as formas de cultura. O êxito dos vietnamitas diante do poderio americano não reforçou minha confiança no determinismo tecnológico que eu aprendera na universidade.

Iniciei uma série de estudos sobre o que chamei de a “indigenização da modernidade”, fazendo referência aos diferentes métodos culturais empregados pelos esquimós, os povos da Nova Guiné, os polinésios etc.
para inscreverem um “sistema mundial” invasor dentro de um contexto ainda mais englobador: seu próprio sistema do mundo.

PERGUNTA - Em 1968 e 1969 o sr. trabalhou com Lévi-Strauss em Paris. O que tirou desse confronto?
SAHLINS - É impossível para mim sintetizar tudo o que aprendi nessa época no laboratório de Lévi-Strauss no Collège de France. Permita que eu resuma essa experiência. Em 1969 apresentei uma pesquisa sobre determinados sistemas de troca tradicionais da Austrália e da Melanésia, precisando bem, no preâmbulo, que eu não era estruturalista, pois não falava de uma troca de mulheres ou de palavras, mas de uma infra-estrutura material bastante real e concreta -cuja análise Lévi-Strauss já concedera a Marx.
Durante a discussão que se seguiu, ele afirmou que eu era estruturalista, sim: afinal, aquilo que eu demonstrara com relação às trocas materiais correspondia a certas estruturas de troca matrimonial que ele descrevera em “As Estruturas Elementares do Parentesco” [ed. Vozes]. Protestei, citando o trecho em “O Pensamento Selvagem” [Papirus] em que ele declara que o estruturalismo é especificamente uma ciência de superestruturas.
“É verdade”, ele retrucou, “mas o sr. deve compreender que aprendi antropologia com Franz Boas [1858-1942] e Robert Lowie [1883-1957], que discutiam com índios de reservas os costumes de gerações passadas” -ele chamava isso de “arqueologia do vivo”. “Ninguém prestava atenção à existência de índios contemporâneos”, ele acrescentou. “Mas hoje é preciso estender o estruturalismo às infra-estruturas.”
Retruquei que eu acreditava que sua restrição do estruturalismo às superestruturas era uma questão de princípio científico, e não pude me impedir de lhe perguntar: “O que é o estruturalismo, afinal?”. Ele me respondeu: “É a boa antropologia, em suma”. E, de fato, segundo esse critério, admito que eu era estruturalista.

PERGUNTA - Desde quando vem seu interesse pela Polinésia e por Fiji? Pode nos explicar sua opção por uma etnografia histórica, fundamentada nos arquivos mais que no trabalho de campo? O que o sr. aprendeu sobre essas sociedades?
SAHLINS - Como muitos homens de minha geração, minha iniciação na antropologia seguiu, em sua própria escala modesta, a trajetória do primeiro grande mestre americano, Lewis Henry Morgan [1818-81]. Ele decidiu fazer um estudo de campo sobre as tribos iroquesas locais e, com isso, inaugurou a tradição etnográfica americana.
Da mesma maneira, minha infância -passada brincando de caubói e índio e lendo os romances de Fenimore Cooper [1789-1851, de “O Último dos Moicanos”] escritos em falsa linguagem indígena- me levou a fazer um estudo de campo sobre um tipo de clã incomum, por ser hierarquizado, que qualificamos como “clã cônico”.
Eu acabava de concluir um estudo das hierarquias políticas polinésias, e era em Fiji que se podia realizar um estudo etnográfico desse tipo de hierarquia de clã.

PERGUNTA - Por que o sr. escreve que a tradição nessas sociedades do Pacífico pode ser também uma modalidade de mudança?
SAHLINS - Desde o século 19, os povos do Pacífico, à medida que a sobrevivência de sua comunidade o permitiu, continuaram a ser atores e motores de suas próprias histórias.
Emprego o plural desse termo propositalmente, pois é sobretudo em suas culturas respectivas que eles foram buscar os recursos para continuar a serem atores de suas histórias. Logo, a tradição se tornou o mediador e a medida das transformações por que passaram. Basta estudar dois exemplos muito distintos de cristianização, ambos seguindo um modelo protestante e até mesmo puritano: de um lado os urapmins da Nova Guiné, que não demoraram a se perceber atingidos pelo pecado original e, portanto, se converteram em massa -por contato com outros povos da Nova Guiné- antes mesmo de terem visto qualquer missionário europeu. E, de outro lado, os havaianos, sobretudo aqueles das camadas populares, que se mantiveram “devassos” e resistiram à conversão durante décadas, porque, como freqüentemente observaram os missionários americanos, “lhes faltava a aversão por eles mesmos”.
Eu me contentarei em mencionar alguns elementos culturais para demonstrar essa diferença. Para começar, o caráter fortemente centralizado da sociedade havaiana, segundo o qual a existência e a felicidade das camadas populares dependia das ações de seus chefes. Independentemente de suas próprias convicções, como repetiam aos missionários desesperados, as pessoas comuns se converteriam ao cristianismo quando seu chefe lhes desse o exemplo.
Mas, em vista do valor político e material das relações eróticas no sistema -o famoso “espírito aloha”, que governava a sorte tanto dos chefes quanto dos não-nobres-, era difícil convencê-los a praticar a abstinência e a mortificação nas quais os protestantes enxergavam o sinal da graça divina. Um missionário deplorou o fato de os havaianos disporem de 20 palavras diferentes para designar o adultério: se ele escolhesse uma delas para traduzir o sétimo mandamento, eles pensariam que as outras formas de adultério continuariam a ser lícitas.
Inversamente, os urapmins formam um pequeno grupo, relativamente igualitário, de 360 pessoas que se casam entre si e se vêem envolvidas em relações recíprocas e complexas de parentesco, intensas e freqüentemente incompatíveis. Seria possível dizer que, em seu sistema tradicional, qualquer boa ação era também uma má ação na medida em que a escolha de viver com alguém implicava deixar de lado outra pessoa, não menos próxima; ao dar um presente a alguns, incentivava-se a crítica por ter desprezado suas obrigações em relação aos outros.
Assim, não surpreende que, para traduzir o conceito cristão de pecado, os urapmins empreguem o termo “dívida”. Mas eles se enganavam ao crer que o cristianismo seria sua redenção. Como não podiam renunciar pura e simplesmente a sua cultura tradicional, eles apenas agravaram seu caso, pois sua cultura era incompatível com os ideais de harmonia cristã.

PERGUNTA - Qual o papel da cultura em sua pesquisa antropológica?
SAHLINS - Para mim a cultura é tudo. Em suas formas e em suas transformações, seu papel na história das sociedades e na organização dos indivíduos, a cultura é o objeto por excelência de todo saber antropológico.
A melhor maneira de ilustrar essa convicção talvez seja contestar o folclore do determinismo genético que ficou tão em voga nos EUA: esse movimento pretende remeter toda forma cultural a uma “natureza humana” universal fundamentada no interesse pessoal e no espírito de competição.
Associadas às teorias econômicas da “escolha racional”, disciplinas vulgarizadas, como são a sociobiologia e a psicologia evolutiva, estão criando uma ciência humana de múltiplos usos, a ciência do “gene egoísta”. Naturalmente, é fácil reconhecer nessa suposta natureza humana o velho sujeito burguês.

Uma parcela grande demais dos americanos ainda está convencida de que “a espécie sou eu”. Entretanto, como prova a antropologia mais elementar, viver sua vida em conformidade com sua cultura permite que se tenha a possibilidade e que se reconheça a necessidade de satisfazer nossas inclinações naturais no modo simbólico, segundo definições significantes de nós mesmos, de nosso ambiente, de nossas relações e de nossas produções.
De fato, a cultura humana é bem mais antiga que nossa natureza enquanto espécie, pois ela remonta a pelo menos 2 milhões de anos, sendo que o Homo sapiens surgiu há apenas 200 mil anos, engendrado dentro de e por um contexto cultural que tomava a reprodução humana a seu cargo. Se evoluímos biologicamente, isso se deu sob a pressão da seleção cultural, ou seja, a necessidade de culturalizar nossa animalidade.
Isso não faz de nós ou de nossos ancestrais “páginas em branco” despidas de qualquer imperativo biológico; quer dizer simplesmente que o que foi selecionado de maneira específica pelo gênero Homo foi a capacidade de realizar esses imperativos de mil maneiras diferentes e pouco conhecidas, mas demonstradas pela história e pela antropologia.
O fato mais pertinente para compreender as relações entre cultura e natureza humana não é (por exemplo) o fato de que todas as culturas conhecem a sexualidade, mas que toda sexualidade conhece a cultura. As pulsões sexuais são diversamente expressas e reprimidas segundo as definições, específicas de cada cultura, de o que são os parceiros, as circunstâncias, os lugares, os momentos e as funções corporais apropriados.
Alguns chegam a praticar sexo por telefone. Outro exemplo de manipulação (o jogo de palavras é proposital) conceitual é a célebre réplica do ex-presidente Bill Clinton: “Não fiz sexo com essa mulher”.
Inversamente, sublimamos nossa sexualidade genérica de mil maneiras, incluindo a de transcendê-la e dar preferência à castidade, valorizada pelo pensamento cristão.
O mesmo se aplica à agressividade: podemos brincar de guerra, desancar impiedosamente o livro mais recente de um acadêmico inimigo ou, mesmo, à moda nova-iorquina, responder a um “tenha um bom dia” com “não preciso receber ordens de você!”.
Sejam quais forem nossas necessidades, pulsões, inclinações inatas, quer sejam de ordem agressiva, egoísta, alimentar, social ou altruísta, elas são frutos de uma definição simbólica, portanto de ordem cultural. Na espécie humana, a biologia é um determinante culturalmente determinado.

PERGUNTA - O verdadeiro pensamento selvagem é o do capitalismo contemporâneo?
SAHLINS - Não no sentido estrito do termo. Mais exatamente, o capitalismo contemporâneo implica uma mesma lógica cultural do concreto sob a forma de valores de uso, que, uma vez fetichizados como preços e colocados em ação para fins lucrativos, fazem inegavelmente o efeito de um pensamento selvagem incontrolado. Por mais que nossa racionalidade pecuniária o tenha ocultado, se ergue sobre todo um sistema de valores culturais motivados que associam sujeitos e objetos, logo, preferências e produtos, em razão de suas características distintivas.
É claro que essa realidade passa despercebida aos olhos dos sujeitos burgueses -que geralmente vivem seus valores culturais como um hábito, sem prestar atenção a ele- e dos economistas, que, tendo definido seu domínio como uma racionalidade prudente, enquadram as formas culturais nos limbos dos fatores “exógenos” ou mesmo “irracionais”.
Não nos damos conta de que nossas escolhas racionais -por exemplo, não serviremos hambúrgueres a convidados que respeitamos- são baseadas num código de valores que não guarda relação nenhuma com o caráter nutritivo e que tem tudo a ver com a significação respectiva dos órgãos e dos músculos, da carne e dos cortes, do cortado e do moído, dos pratos e dos sanduíches etc.
Da mesma maneira, não são as qualidades concretas das roupas que explicam a diferença de estilo de vestimenta que manifesta a distinção social em vigor entre homens e mulheres em situações de trabalho e de lazer, entre empresários e policiais, bailes de debutantes e boates: basta pensar em todos os significados veiculados por uma peça de vestuário, como [Roland] Barthes nos ensinou.
Vivemos hoje em um mundo que se encanta com objetos semioticamente construídos e culturalmente relativos, como o ouro, a seda, as cepas de pinot noir, o petróleo, o filé mignon, os tomates “primeira colheita” e a água pura de Fiji.
Assistimos a uma construção da natureza por meio de esquemas culturais historicamente determinados, mas cujas qualidades simbólicas são transformadas em qualidades pecuniárias, cujas fontes sociais são atribuídas a desejos individuais e cuja satisfação arbitrária é travestida em escolha universalmente racional.
Mas, como é impelido à competição pelo interesse financeiro, esse encantamento produz uma infinidade de objetos, enquanto ainda for possível metamorfosear as distinções sociais dos sujeitos e dos objetos em mercadorias rentáveis.

PERGUNTA - O sr. não hesita em traçar comparações entre civilizações geográfica e historicamente distantes, como, por exemplo, entre as guerras do Peloponeso narradas por Tucídides e as de Fiji. O que lhe traz esse olhar cruzado?
SAHLINS - O conflito entre os reinos fijianos de Bau e de Rewa (e seus respectivos aliados), que durou de 1843 a 1855, foi a maior guerra travada nos mares do Sul antes da Segunda Guerra Mundial.
Como Bau (como Atenas) era uma potência naval imperialista, e Rewa (como Esparta) era uma velha potência terrestre, a guerra da Polinésia já tinha levado os visitantes europeus do século 19 a traçar comparações entre ela e as guerras do Peloponeso. A diferença de estrutura política entre Bau e Rewa procedia de uma interdependência, comparável à relação entre o parentesco de sangue (consangüinidade) e o parentesco por casamento (afinidade), o que autoriza a pensar que os próprios fijianos teriam consciência de que essas estruturas eram o espelho invertido (a antítese) uma da outra.
Da mesma maneira, Atenas e Esparta constituem antitipos estruturais e históricos: essas duas cidades eram, respectivamente, cosmopolita e xenófoba, marítima e terrestre, comerciante e autárquica, luxuosa e frugal, democrática e oligárquica, urbana e campônia, autóctone e imigrante…
Poderíamos continuar ao infinito com essas dicotomias. O que lembra a injunção tão influente de Lévi-Strauss em “Race et Histoire” [Raça e História]: “É preciso evitar estudar a diversidade das culturas humanas caso a caso, pois essa diversidade nasce menos do isolamento dos diversos grupos que das relações entre eles”.
Como esse princípio é confirmado várias vezes em “Mythologiques” [Mitológicas], somos tentados a concluir que, apesar de seu apego à sincronia, o estruturalismo é igualmente fortemente historicista.

PERGUNTA - O que as guerras do Peloponeso podem nos ensinar sobre a guerra do Iraque, hoje?
SAHLINS - Substituindo os mitos de Heródoto pelo lógos, Tucídides usurpou o título de “pai da história”, tornando-se o queridinho dos pragmáticos das relações internacionais e outros adeptos ocidentais da “realpolitik”.
Mas o paralelo mais esclarecedor com o Iraque nos é oferecido pela guerra civil anárquica (”estase”) que devastou Corcira, onde espartanos e atenienses se envolveram no conflito interno que opunha os oligarcas locais aos democratas, disputando o controle da cidade. Em Corcira, assim como no Iraque, quando as instituições de Estado perderam toda legitimidade e a violência se tornou o recurso privilegiado de todas as causas partidárias, os valores sagrados da justiça, da moral e da religião foram afogados no sangue e reduzidos a nada.
Platão observou um dia que cada “pólis” é na verdade composta de várias “pólei”, pois ela se divide em cidade dos ricos e cidade dos pobres, em guerra de um contra o outro, e cada uma é dividida, ela própria, entre facções opostas. E, quando as causas e as forças internacionais -como a dominação ateniense sobre Corcira ou a oposição entre democracia e fundamentalismo islâmico no Iraque- se somam às dissensões locais, tem-se a impressão de assistir a um colapso da ordem cultural e à irrupção da natureza humana sob sua forma mais brutal.
Em Corcira, escreve Tucídides, “até as palavras foram obrigadas a renunciar a seu sentido habitual e aceitar aquele que se lhes era dado”. Desse modo, a premeditação virou “legítima defesa”; a moderação, “falta de virilidade”, a prudência, “covardia”.
Ecoando alguns argumentos dos sofistas, opondo o caráter superficial da cultura (”nómos”) ao caráter irresistível da natureza (”physis”), o historiador antigo afirmava que essa manifestação desenfreada de hipocrisia e injustiça se produziria cada vez que o desejo natural de poder e de lucro se chocasse com as frágeis convenções da ordem social.
E ainda encontramos os ecos dessa ideologia no comentário feito por Donald Rumsfeld [então secretário da Defesa] sobre o caos que se seguiu à ocupação americana de Bagdá: “Isso teria que acontecer, cedo ou tarde”, uma versão asseptizada de “Cedo ou tarde a coisa teria que explodir”. É um defeito que os ocidentais sempre atribuem aos outros povos, mas eles próprios tendem rapidamente a confundir natureza e cultura.
Quer seja em Corcira ou no Iraque, foi preciso uma combinação gigantesca de causas morais e políticas conflitantes para produzir esse suposto estado de natureza. Em Corcira, assim como no Iraque, a intervenção de fatores externos poderosos conferiu um valor novo e absoluto aos cismas internos da cidade, tornando-os tão insolúveis quanto abstratos e ideológicos.
Daquele momento em diante, as pessoas passaram a lutar por ou contra generalidades: a “liberdade”, a “escravidão”, a “democracia”, o “islã”, a “ditadura”, o “terrorismo”, o “imperialismo”. Fato que prova simplesmente que é necessária muita cultura para criar um estado de natureza.

Jornal Folha de São Paulo
http://www.folha.uol.com.br/

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AUDIÊNCIA PÚBLICA

Venha participar da Audiência Pública onde discutiremos com vários técnicos e a população, o Projeto de Construção da Escola Ambiental na Chácara Silvestre.

Dia 13 de Dezembro de 2007 - Às 19h – no Plenário ‘Tereza Delta’ – Câmara Municipal de São Bernardo – Praça Samuel Sabatini nº 50 – Centro.

Exerça sua cidadania!
Participe

SOS Chácara Silvestre

Contatos: Tel. 7475-6899
Site: http://chacarasilvestre.vilabol.com.br
E-mail: chacarasilvestre@gmail.com

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Os estragos do vício

O Irã é um dos países com mais viciados em heroína e ópio no mundo: oficialmente, são 1,2 milhão de toxicômanos e 800 mil consumidores ocasionais

Cédric Gouverneur

A Pérsia está habituada há séculos a um consumo de ópio recreativo e moderado, no âmbito de práticas culturais ligadas à poesia e ao misticismo
Cai a tarde sobre os milhares de casebres de taipa do gueto de Shir-Abad, situado atrás das pistas do aeroporto de Zahedan. Um grupo de refugiados afegãos está reunido na encosta da colina, sobre detritos, em volta de uma fogueira. Têm entre 15 e 50 anos. Alguns fugiram de seu país há vinte anos. Outros, em dezembro de 2001. No fogo, queimam as cinzas de um cigarro de heroína que acabaram de fumar. Recuperados dessa maneira, os resíduos adquirem uma segunda vida e são imediatamente reinjetados. Aqui, HIV ou não, as mesmas seringas usadas são partilhadas por braços cobertos de feridas. O mais jovem dos viciados suplica a nosso acompanhante, com grandes olhos vidrados: “Me dê um dinheiro para comprar uma dose! Me dê!” Um de seus companheiros tem a presença de espírito de afastar as numerosas crianças da vizinhança que, intrigadas, vêm observar o curioso ritual dos adultos. Oficialmente, Shir-Abad não existe: o bairro nem é mencionado nos mapas da cidade.

O Irã é um dos países do mundo com mais viciados em heroína e ópio1. Haveria oficialmente, no interior da República Islâmica, 1,2 milhão de toxicômanos e 800 mil consumidores ocasionais, para um total de 73 milhões de habitantes. “Esses números de 1999 são muito subestimados”, avalia um jornalista iraniano especialista no assunto. “Aqui, a droga continua sendo um tabu.” Vejamos um exemplo: em meados de janeiro, em Teerã, a polícia interrogou no parque de Haft-e-Tir dezenas de “pervertidos sexuais que importunavam as mulheres”, segundo a versão oficial da televisão estatal, controlada pelos conservadores. Tratava-se, na verdade, de toxicômanos e de revendedores. Nas ruas e parques do sul de Teerã, é comum cruzar com os rostos pálidos dos viciados em heroína e em ópio. Este é vendido a 20 mil rials (6,50 reais) o grama, a heroína, a 10 mil rials a dose. São preços no varejo, que triplicaram a partir do verão. Misturada em mais de 90%, essa heroína provoca regularmente ondas letais de intoxicações – cerca de oitenta em três meses, no último outono, somente na região de Teerã.

O tédio da juventude
Atualmente, o consumo de opiáceos passou do campo cultural para o campo social, devido à oferta abundante de tóxicos e à demanda pelos consumidores
A Pérsia está habituada há séculos a um consumo de ópio recreativo e moderado, no âmbito de práticas culturais ligadas à poesia e ao misticismo. Em Kerman, em Isfahan, entre os nômades Lor, em Chiraz entre os nômades Kashkai, nas províncias curdas e azerbaijanas do oeste do país, o cachimbo de ópio continua a ser usado normalmente, principalmente entre as pessoas de idade madura. Atualmente, o consumo de opiáceos passou do campo cultural para o campo social, em razão da oferta super-abundante de tóxicos e da grande demanda dos consumidores, exacerbada pelas frustrações econômicas e sociais – o desemprego atinge 20% da população e 53% dos iranianos vivem abaixo do nível de pobreza. Nas classes populares urbanas, a toxicomania atinge em particular os mohajirs (refugiados): afegãos, iranianos deslocados por ocasião da guerra Irã-Iraque, ou devido ao êxodo rural, vulneráveis por serem deserdados, desterrados e pouco aceitos pelo controle social comunitário. No Khorasan, no Sistan-Baluchistão e em Kerman, as regiões mais atingidas pela droga, 70% dos divórcios são motivados pelo vício do cônjuge.

Segundo os estudiosos do assunto, o tédio da juventude seria também um dos fatores explicativos dessa toxicomania: a nova geração – 70% dos iranianos têm menos de 35 anos – privilegia os aspectos nacionais e ocidentais de sua identidade indo-européia, por oposição aos valores islâmicos. Ora, a cultura ocidental é rigorosamente banida pelas autoridades religiosas. A maior parte dos jovens deve, portanto, apelar para passatempos ilegais: música pop proveniente dos países vizinhos ilicitamente ou via Internet, vídeo cassetes de filmes vendidos clandestinamente, shows e festas clandestinas, álcool de contrabando… Nesse contexto de proibições, uma droga pesada pode ser assimilada a um passatempo ilegal como qualquer um outro. Um abrandamento, mesmo parcial, das restrições culturais que os conservadores – repudiados de eleição em eleição desde 1997 – impõem à sociedade civil, daria um pouco de fôlego à juventude. Mas esse avanço parece, por enquanto, ilusório: como alguns desses conservadores se preocupam com o sucesso dos ciber-cafés, estes serão proibidos, em breve…

Modernização desmascara tabus
Os ciber-cafés fazem grande sucesso entre os jovens. Preocupadas com isso, as autoridades conservadores irão proibi-los, em breve
“Quando alguém não consegue se adaptar à sociedade, droga-se para encontrar energia e inspiração.” Hossein Dezhakam sabe do que está falando. Esse assistente social usou “todos os tipos de drogas” durante mais de vinte anos. Atualmente um ativista da ONG Aftab (O sol), em Teerã, tenta tirar do vício os toxicômanos. Todos os dias, umas cinqüenta pessoas, homens e mulheres, de 14 a 70 anos, vêm à sede da Aftab para partilhar suas experiências em terapias de grupo baseadas no modelo dos Alcoólatras Anônimos. “Infelizmente, as drogas são atraentes”, observa Dezhakam. Daí a necessidade de desenvolver a prevenção. Se, em janeiro de 2002, existiam apenas três cartazes de prevenção em toda Teerã – 12 milhões de habitantes –, a informação, no entanto, está progredindo. Há alguns anos, oficialmente, a toxicomania havia desaparecido com o regime do Xá.

Atualmente, nas campanhas de prevenção, as autoridades deixaram de lado o discurso institucional para adotar a linguagem da rua. Na televisão, os clips multiplicam-se, destinados aos jovens, aos pais de família, enfatizando a degradação provocada pela heroína e o ópio. Em meados de janeiro, o governo autorizou a liberação pelas farmácias de seringas esterilizadas, a fim de limitar as contaminações relacionadas às injeções. É uma decisão inimaginável até pouco tempo atrás. Com a reeleição de Mohamad Khatami em 2001, os iranianos exigiram a avaliação, com toda a transparência, das fragilidades do sistema. A lenta supressão dos tabus que cercam a toxicomania está inserida nesse movimento.

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1Segundo as Nações Unidas, em 2000, o Irã contaria com 2,8% de viciados em heroína e em ópio, o Laos com 2,1%, o Tadjiquistão, com 2%, e o Paquistão, com 1,7%. (http://undep.org/)

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/
março 2002

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