Arquivo de Novembro de 2007

Na história da aviação a controvérsia continua

Perspectiva histórica mostra que a evolução inicial da aviação a motor teve lugar na Europa de forma independente e sem a contribuição dos irmãos Wright

Rubens Junqueira Villela

As comemorações do centenário dos vôos dos irmãos Wilbur e Orville Wright de 1903, em dezembro, nos Estados Unidos, deram ensejo a um renovado interesse nos estudos de história da aviação. Apesar da publicação de matérias muitas vezes simplistas e da cerrada barragem publicitária em curso nos Estados Unidos, a verdade é que a controvérsia subsiste através dos anos, a propósito de vários pontos concernentes ao real papel dos Wright, não apenas em relação à primazia do vôo em avião, como também sobre a efetividade da contribuição deles ao progresso da aviação. Persistem as dúvidas até agora não resolvidas (e aparentemente insanáveis) sobre o caráter e as cifras (datas, durações, velocidades etc.) dos vôos de 1903 e 1905, na falta de testemunhas e registros técnicos adequados. Os Wright se recusavam a demonstrar publicamente seu aparelho, e mesmo aos possíveis compradores. Não o fizeram tampouco nas ocasiões propícias em que prêmios foram oferecidos na França (ganhos por Santos Dumont, Farman e outros) e nos próprios Estados Unidos (ganhos por Glenn Curtiss, a quem os Wright processavam por infringência de patente).

Por outro lado, contrastando com o sigilo e isolamento dos Wright, na
Europa, e sobretudo na França, o ambiente aeronáutico era inteiramente
outro. Há fartos registros históricos e técnico-científicos sobre as
realizações de Santos Dumont e outros pioneiros. Havia livre troca de idéias e experiências entre os contendores. As evidências históricas e científicas, quando analisadas com seriedade e isenção, constituem poderoso argumento para atribuir a estes pioneiros, e não aos Wright, o maior acervo de serviços prestados ao desenvolvimento da ciência e da técnica do vôo, na fase primordial e decisiva da aviação. Pelas suas invenções e contribuições, com razão foi Alberto Santos Dumont cognominado “Pioneiro do Ar” por Thomas A. Edison, e “Pai da Aviação” por franceses e brasileiros.

Fred C. Kelly, o biógrafo oficial dos irmãos Wright, relata que na primavera de 1907 um congressista americano de Nova York enviou um recorte da Scientific American ao presidente Theodore Roosevelt, que o encaminhou ao secretário da guerra, sugerindo que a máquina voadora dos Wright fosse avaliada. Mas estes exigiram um pagamento de 100 mil dólares antes que o aparelho fosse demonstrado, e o assunto morreu aí. Os Wright se recusavam a fornecer fotografias, planos e detalhes técnicos para publicação. Era natural que a atitude de mistério e segredo dos Wright despertasse o ceticismo e a incredulidade de todos, seja no público, na imprensa ou nos meios técnicos. Pelo menos até os primeiros vôos públicos dos Wright na França em agosto de 1908 (utilizando motor francês Bariquand et Marre), as dúvidas sobre os alegados vôos anteriores, de 1903 e 1905, persistiram.

Gabriel Voisin, o pioneiro construtor e aviador francês ­ colaborador e
depois competidor de Santos Dumont ­ explica a obsessão dos Wright pelo
segredo, primeiro como um traço deplorável de personalidade (o açambarcador, aquele que acumula e esconde mercadorias etc.), mas mais importante, pela necessidade de esconder graves deficiências técnicas que ainda não haviam resolvido, entre elas: o aparelho não decolava autonomamente, tinha insuficiente motorização, e não voava sem condições adequadas de vento, sendo de pouco valor prático. Voisin, a propósito da visita de Wilbur à França, onde fora recebido com entusiasmo pelo público e pelos colegas aviadores, comenta: “Talvez ele (depois que saiu do isolamento) tivesse compreendido que a pesquisa científica nunca é obra de um homem só, que o homem que forja o elo final trabalha ainda na sombra de outros que o precederam e que um \\’segredo\\’ científico é uma contradição em termos e uma afronta ao progresso humano”. Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-18), 150 mil máquinas voadoras foram construídas pelos beligerantes alemães e franceses, e nesse tempo, os americanos, cerceados pelos processos de patente, não apresentaram nem uma linha sequer de produção de aviões. O sistema de wing warping (torção da asa) para controle lateral patenteado pelos Wright caiu em desuso, substituído pelos ailerons (asículas móveis auxiliares), utilizados por Santos Dumont já em alguns vôos do 14bis.

Quanto ao desempenho “espantoso” do modelo Wright voado em Les Mans em 1908, trata-se de um exagero, já que no mesmo ano Santos Dumont voava o Demoiselle, e tanto ele como outros aviadores franceses realizavam quase rotineiramente proezas iguais ou superiores, em termos de duração, manobrabilidade, velocidade etc.

Sem diminuir o valor dos experimentos e criações dos irmãos Wright, a perspectiva histórica mostra que a evolução inicial da aviação a motor teve lugar na Europa ­ e sobretudo na França ­ de forma totalmente independente e sem a contribuição dos irmãos Wright.

Para conhecer mais
The Wright Brothers,
Fred C. Kelly, Ballantine Books, 1943, 1950.

Men, Women and Kites,
Gabriel Voisin, Putnam, 1963 (tradução do original francês “Mes dix mille
cerfs volants”, 1961).

Revista Scientific American Brasil
http://www2.uol.com.br/sciam/

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Os bancos multiplicaram as tarifas

Hoje já são cobradas 74 modalidades diferenciadas de serviços. Tarifas com valores estratosféricos, juros exorbitantes e falta de transparência fizeram seus lucros baterem recordes às custas da exploração dos clientes.

TARIFAS BANCÁRIAS
ALEGRIA DOS BANQUEIROS,
DESESPERO DOS CLIENTES

O Brasil é o paraíso dos banqueiros. Eles não têm freios, nem limites para ganhar dinheiro, explorar seus funcionários e espoliar seus milhões de clientes. Os sucessivos governos são coniventes com esta situação. O lucro líquido das instituições financeiras bate recorde e mais recorde. Só em 2006 foram R$ 27,5 bilhões. Além de ganhar uma barbaridade com empréstimos e operações de crédito e muitíssimo com títulos públicos, explodiu o ganho com tarifas cobradas dos clientes (quase 100 milhões de correntistas). De 1996 a 2006 a fonte de receita dos bancos com tarifas cresceu 130%, enquanto a despesa administrativa diminuiu 37%.

Além do valor de cada taxa ter aumentado muito além do valor da inflação no período, a cada dia os bancos inventam novas tarifas a serem cobradas dos correntistas. Hoje, pagamos 74 itens diferentes pelos serviços prestados pelos bancos.
As reclamações nos órgãos de defesa do consumidor são inúmeras. Dificuldade na compreensão da taxa cobrada; cobrança indevida; alteração do valor da tarifa sem informação ou consulta do cliente etc. Segundo o Procon, os bancos nunca explicaram de onde vem o custo para a cobrança de cada tarifa. Não há relação, portanto, entre o valor da tarifa e o custo do serviço. Só nos nove primeiros meses desse ano, os 6 maiores bancos arrecadaram quase R$ 22 bilhões com tarifas. Essas receitas superaram com folga o total de despesas com pessoal, R$ 15,8 bi (dados do DIEESE).

E como não há uma definição de qual serviço pode ser tarifado e muito menos uma padronização no nome dado a cada tarifa, muitas são cobradas mais de uma vez e o cliente não tem como perceber. Por exemplo: os bancos cobram uma taxa pela manutenção da conta e outra para saque na agência. Cobram uma tarifa quando a conta fica negativa e mais os juros sobre a dívida. Cobram a taxa para renovação do cadastro do cliente mesmo quando não há alteração alguma!

O cidadão hoje é refém do sistema bancário, sendo muito difícil a troca de instituição financeira, pela baixa concorrência entre os bancos e à medida que o sistema se concentra cada vez mais. Nesse sentido, exigimos do governo uma regulamentação e uma ação firme contra a espoliação, principalmente dos cidadãos de menor renda, contra esse salvo conduto que os banqueiros têm para explorar a população.

NOSSAS PROPOSTAS

Em audiência realizada na Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara dos Deputados, convocada pelo deputado Ivan Valente, com a presença do Ministro Guido Mantega (Fazenda) e Henrique Meireles (Presidente do Banco Central), o parlamentar fez graves denúncias sobre tarifas bancárias exorbitantes, a exploração e a total liberdade dos bancos para criar e aumentar tarifas. Como desdobramento foi formado um Grupo de Trabalho que fez várias propostas que serão analisadas pelo Conselho Monetário Nacional.

Defendemos:

• Eliminação de cobrança de tarifas, ou no mínimo estabelecer um limite ou um teto com redução drástica dos preços, já que os bancos têm um lucro brutal com outras operações;

• transparência entre o custo do serviço e o preço da tarifa, que os bancos teimam em esconder;

• Fim da Tarifa de Abertura de Crédito - TAC, cobrada de todos que contraem empréstimos. É mais uma cobrança absurda, subiu 920% em 5 anos, estando embutida em outras tarifas;

• Fim da Tarifa de Liquidação Antecipada - TLA, cobrada quando o cliente quita antecipadamente as parcelas do empréstimo que contraiu. É na verdade uma multa para inibir a troca de banco, ferindo o Código de Defesa do Consumidor.

• Limitação do número de serviços que podem ser tarifados;

• padronização da nomenclatura das tarifas;

• prazo de no mínimo 1 ano para reajuste e aprovação de novas tarifas;

• mecanismos que garantam a mudança da conta de um banco para o outro, permitindo liberdade de escolha ao cidadão;

• Criação de um sistema público que permita a comparação efetiva entre as tarifas cobradas pelos diferentes bancos.

Site do Deputado Federal Ivan Valente - Psol SP.
http://www.ivanvalente.com.br/

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Chávez e o Império

Carlos Azevedo

O rei de Espanha mandou o presidente da Venezuela calar-se. A euforia tomou conta de todas as direitas, mas também deixou confusa muita gente boa. O que Chávez havia dito durante a Conferência da Comunidade dos Países Íbero-americanos? Que o ex primeiro-ministro espanhol, Aznar, é um fascista. O atual primeiro ministro da Espanha, Zapatero tomou a palavra para dizer que, embora tendo grandes divergências políticas com Aznar, achava que ele devia ser tratado com respeito. Zapatero não podia fazer diferente, tinha que se manifestar, porque sabia que seria cobrado na Espanha se houvesse se mantido em silêncio diante da crítica pública de Chávez. O que fez Chávez enquanto Zapatero falava? Mesmo tendo o som cortado, continuou a falar paralelamente, interrompendo Zapatero, insistindo em seus argumentos contra Aznar, lembrando que este havia apoiado o golpe de Estado que derrubou Chávez do poder por dois dias em 2002 (por ordem de Aznar o embaixador da Espanha foi o primeiro a reconhecer o governo golpista)… Chávez estava cheio de razão, mas, como muitas vezes, foi impulsivo, deselegante, infringindo a etiqueta da diplomacia etc. Nesse momento, impaciente, o rei Juan Carlos exclamou: “por que não se cala?” A imprensa das classes dominantes do Brasil exultou e aproveitou para achincalhar Chávez mais uma vez.
Por que tanta animosidade contra Chávez? Vejamos: quando Chávez foi eleito presidente da República pela primeira vez, em 1998, a Venezuela estava em falência política, suas classes dominantes, mergulhadas em profunda corrupção, desmoralizadas, não conseguiam mais governar. A maior riqueza do país, o petróleo, entregue às multinacionais de petróleo americanas, era partilhada por estas com as elites tradicionais e a alta classe média, ambas americanizadas, vivendo mais nos Estados Unidos que em seu país, seus filhos indo em massa estudar na Flórida, falando mais inglês que espanhol, acostumados todos a ver a Venezuela como uma fazenda de onde extraiam sua boa vida.
A Venezuela é o terceiro maior produtor de petróleo do mundo e exporta a maior parte da produção para os Estados Unidos. Chávez começou por questionar a dominação americana sobre o petróleo. Procurou fortalecer a capacidade de negociação da PDVSA (a empresa estatal venezuelana) com as multis. Além disso, constatando que as políticas das grandes potências haviam levado à redução brutal do preço internacional do petróleo (chegou a menos de 20 dólares o barril de 60 litros, isto é, petróleo estava mais barato que água mineral), assumiu a presidência da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) e desenvolveu uma política de valorização do preço do óleo. Isso causou ódio e remordimento nos Estados Unidos e nos outros países ricos.
Chávez também tratou de retirar das classes dominantes locais parte dos benefícios que recebiam do petróleo para poder investir na melhoria de condição de vida da população trabalhadora, especialmente em educação, saúde, alimentação, habitação. Isso enfureceu os velhos setores dominantes venezuelanos. Também o governo direitista espanhol, então comandado por Aznar, se incomodava. Porque a Espanha, ainda que há muito derrubada de sua condição de potência colonialista na América Latina, mantém grandes investimentos e desenvolve grande influência política por aqui, na condição de país sub-imperialista.
Os americanos, auxiliados pelo governo de Aznar, conspiraram com as classes dominantes locais pela derrubada de Chávez em 2002. Deram o golpe, mas não levaram, impedidos por um levante popular associado a uma tomada de posição de parte das forças armadas em favor legalidade. Chávez reassumiu tendo muito mais clareza de quem eram e como atuavam os inimigos do povo venezuelano.
Aprofundou sua política de nacionalização do petróleo e de destinar os benefícios dessa riqueza para os mais pobres. Sabendo o tamanho da ameaça, tratou também de fortalecer as forças armadas venezuelanas, comprando armas para melhorar a qualidade da defesa do país, vizinho de uma super-armada e pró-americana Colômbia e de várias bases militares dos Estados Unidos. Como diz o velho ditado, “bobo é quem pensa que o inimigo dorme”. Chávez também mudou as leis do país, promoveu a elaboração de uma nova Constituição, reformou a Justiça e o Parlamento, reforçando a participação popular.
Por tudo isso, Chávez é acusado de ditatorial. O interessante é que todas as mudanças promovidas por Chávez foram feitas à partir de eleições, plebiscitos e consultas à população. Desde 1998 realizaram-se dez eleições e plebiscitos no país. Nenhum governo em tempos atuais consultou tão freqüentemente a população como o venezuelano. Eleições cuja lisura não foi contestada por observadores internacionais. Chávez ganhou todas e por larga margem. A oposição golpista, decidida a desmoralizar o regime político do país, esteve ausente de uma eleição. Comandou a abstenção, mas o povo votou em massa em Chávez e em seus candidatos ao Congresso. Resultado, com esse ato estúpido, apolítico, a oposição ficou sem representação nos poderes da República. E depois, saiu acusando Chávez de ditatorial.
Certamente Chávez tem lá seus defeitos. Mas para se adotar uma posição madura sobre ele e seu governo, para ver com clareza no meio desse tiroteio é preciso levar em conta o principal. Registro três aspectos:
1)Trata-se de um governo antiimperialista, construindo a independência de seu país e, por isso, um poderoso aliado de todos os povos latino-americanos na luta contra as políticas imperiais que nos empobrecem e mantêm dependentes. O Brasil e todos os outros países do continente têm sido beneficiados pelas posições e políticas do governo de Chávez.
2) Também é preciso ver que ele vem promovendo políticas de melhoria das condições de vida da população trabalhadora e mais pobre da Venezuela e estimulando seu desenvolvimento econômico.
3) Todas as grandes decisões de governo têm sido respaldadas em eleições legítimas.
Atualmente, a irritação oligárquica contra Chávez alcança um novo ápice. Isso porque seu governo está propondo uma nova reforma constitucional. Uma das propostas é ampliar a possibilidade de reeleição do presidente da República. O povo venezuelano vai votar livremente e dizer se apóia ou não essa proposta. Se apoiar, Chávez poderá se reelegr outras vezes. E o povo venezuelano irá conferir no futuro se tomou uma decisão acertada ou não. É seu direito, é sua responsabilidade. Isso é democracia, é ou não é?
Ou democracia é comprar deputados e fazer passar uma emenda à Constituição no Congresso para permitir a reeleição do presidente, sem consultar a população, como fez FHC mudando a regra do jogo para ganhar um novo mandato em 1998? Isso é democracia ou é golpe? É golpe. Mas para a imprensa oligárquica FHC é o democrata impoluto. E Chávez é que é ditador? Poupem-nos de tanta hipocrisia!

Carlos Azevedo é jornalista.

Caros Amigos
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As Nações Unidas e o poder vacilante

ONU é forte quando os Estados membros se entendem e perde força quando há falta de consenso. Mas aí a culpa não é dela

Joseph S. Nye

Uma vez Joseph Stalin descartou a importância do poder diplomático perguntando: “Quantas divisões tem o papa?” Hoje, muitos auto-intitulados realistas descartam a ONU como ineficaz, argumentando que pode ser ignorada. Eles estão enganados.

O poder é a capacidade de influenciar os outros para obter-se os resultados desejados. O poder impositivo opera usando métodos de recompensas e coerção, enquanto o poder diplomático opera por meio do convencimento e da cooptação. Sem forças militares próprias e com um orçamento relativamente exíguo, a ONU conta somente com o poder diplomático que consegue tomar emprestado de seus Estados membros. Foi criada em 1945 para servir a esses membros, e o artigo 2.7 de seus estatutos protege a jurisdição soberana deles.

Depois do fracasso da Liga das Nações, na década de 30, a ONU foi planejada para que os membros permanentes de seu Conselho de Segurança atuassem como policiais para impor a segurança coletiva. Quando as grandes potências entraram em acordo, a ONU teve um poder coercitivo impressionante, como demonstrado na Guerra da Coréia e na primeira Guerra do Golfo. Mas tais casos são excepcionais. Durante a Guerra Fria, o conselho ficou dividido. Como disse um especialista, o veto dos membros permanentes foi designado para atuar como um quadro de fusíveis de um sistema elétrico, ou seja, é preferível que as luzes se apaguem a que a casa pegue fogo.

Apesar dessas limitações, a ONU tem um considerável poder diplomático que nasce de sua capacidade de legitimar as ações de Estados, particularmente no que diz respeito ao emprego da força. As pessoas não vivem totalmente pelas palavras, mas também não vivem somente pela espada. Por exemplo, a ONU não conseguiu impedir a invasão do Iraque em 2003, mas o fato de não ter dado seu aval elevou grandemente os custos para os governos americano e britânico.

Então, alguns líderes americanos tentaram deslegitimar a ONU, exigindo uma aliança alternativa de democracias. Mas eles não entenderam bem a questão, pois a política do Iraque tinha dividido as democracias aliadas e, com seu quadro universal de associados, a ONU continuou sendo uma fonte importante de legitimidade aos olhos da maior parte do mundo.

O maior malefício à legitimidade da ONU tem sido auto-inflingido. Nos últimos anos, por exemplo, a política de blocos internos entre seus Estados membros produziu um Conselho de Defesa dos Direitos Humanos com pouco interesse em procedimentos justos ou no progresso dos direitos humanos. Da mesma forma, a ineficiência administrativa resultou num desempenho sofrível das tentativas amplamente divulgadas do programa de troca de petróleo por alimentos.

O cargo de secretário-geral da ONU é dotado de muito pouco poder coercitivo, mas algumas pessoas ocuparam o posto com grande força operativa, usando seus recursos de poder diplomático para reforçar o poder coercitivo de governos. Por exemplo, Dag Hammarskjold aproveitou a oportunidade da crise de Suez, surgida quando a Grã-Bretanha e a França invadiram o Egito em 1956, para persuadir os governos a criar forças de paz - uma instituição que não constava dos estatutos originais da ONU. Na esteira dos fracassos da ONU em impedir genocídios e limpeza étnica em Ruanda e Kosovo na década de 90, Kofi Annan trabalhou com outros países para convencer os governos a admitirem uma nova responsabilidade de proteger povos em risco.

Entretanto, tais inovações têm seus limites. Na esteira da guerra entre Israel e Líbano de 2006, os Estados mais uma vez recorreram aos pacificadores da ONU, como fizeram ao lidar com os problemas no Congo e Darfur. Mas, embora atualmente existam mais de 100 mil soldados de vários países servindo em missões da paz da ONU em todo o mundo, os Estados membros não estão fornecendo recursos, treinamento e equipamentos adequados. Além disso, os governos têm encontrado formas de retardar uma ação internacional efetiva, como tem sido no caso do Sudão. Resta saber se a China, preocupada com que seu comércio de petróleo com o Sudão possa prejudicar os Jogos Olímpicos de 2008, decidirá exercer mais pressão.

Embora a Assembléia-Geral tenha estabelecido que os Estados têm a “responsabilidade de proteger”, muitos membros concordaram somente num sentido muito restrito. Particularmente, muitos países em desenvolvimento continuam zelosos de sua soberania e temem que o novo princípio possa infringi-la. Por exemplo, depois da recente e violenta repressão do governo em Mianmar, o secretário-geral conseguiu enviar um representante ao país, mas com poderes limitados a relatar e tentar mediar. Isso talvez fosse o suficiente para convencer alguns governos, mas a junta que governa Mianmar expulsou o representante da ONU depois que ele avisou sobre “a situação humanitária em deterioração”.

A ONU tem um poder notável, tanto diplomático como impositivo, quando os Estados concordam com as políticas constantes do capítulo 7º de seu estatuto. Tem um poder diplomático modesto, porém útil, quando grandes potências discordam, mas estão dispostas a aquiescer no decorrer da ação. E tem um poder muito reduzido quando as grandes potências se opõem a uma ação ou quando governos repressores de Estados membros ignoram as exigências para que exerçam a nova “responsabilidade de proteger”. Em tais casos, não faz sentido culpar a ONU. O poder diplomático é verdadeiro, mas tem seus limites. A falha não está na ONU, mas na falta de consenso entre seus Estados membros.

Jornal O Estado de São Paulo
http://txt.estado.com.br/

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O Talibã está de volta e já controla metade do Afeganistão

Seis anos após a queda do Talibã e a declaração de vitória do presidente George Bush no primeiro conflito da guerra contra o terror, o Afeganistão é uma nação à beira da anarquia.
Os afegãos estão cada vez mais decepcionados com a intervenção ocidental e voltam a confiar nos talibãs. Mas a própria palavra talibã já não é a mais apropriada para designar esses militantes armados. Os novos grupos de guerrilheiros agora são variados, atuam em todo o território e agem cada um por sua conta. O objetivo de suas ações, no entanto, permanece o mesmo: expulsar do país os ocupantes estrangeiros, considerados infiéis e bárbaros pelo islamismo radical ali reinante.

Esses novos rostos de insurgentes guerrilheiros são chamados de neotalibãs. Suas táticas de luta são simples: não existe definição clara de suas frentes de batalha e nem dos campos onde eles são treinados e se preparam para os ataques. São agricultores e estudantes de teologia islâmica que se engajam na guerrilha.

Os neotalibãs são milhares. Eles se tornaram pragmáticos, juram à população terem abandonado métodos primitivos como os apedrejamentos e os enforcamentos públicos. São superarmados e, sobretudo, dominam mais da metade do território nacional. Tentam ser reconhecidos pela população como um exército de resistência, um pouco como o Hezbollah tenta fazer no Líbano.

Dominam as províncias de Farah, Nimroz, Helmand, Kandahar, Uruzgan, Zabul, Paktlika, Ghazni, Wardak, Paktia, Khost, Nangarhar, Kunar e Nuristan. Sua imaginária linha de frente, no momento, engloba inclusive a área de Cabul, embora ainda não tenham conseguido penetrar no perímetro urbano da capital. Mas toda a parte sul do Afeganistão voltou a ser campo de batalha pelo controle do país.

UM RELATÓRIO DE 406 páginas circula em todas as embaixadas e consulados de Cabul, contendo dados sobre os mais recentes avanços dos estudantes corânicos. Ele se intitula “The Retourn of the Taliban” (O Retorno do Talibã) e foi publicado na Inglaterra pelo Security and Development Policy Group (Senlis), um dos mais importantes centros mundiais de estudos sobre relações entre política estrangeira, desenvolvimento, atividades militares e combate ao tráfico de drogas.

AS PREMISSAS DO relatório são assustadoras. Com base na pesquisa do Senlis, 88% dos homens afegãos consideram o Ocidente empenhado numa guerra de religião contra o Islã; 50% dizem que os ocidentais são desonestos; 48% que são egoístas; 46% que não respeitam as mulheres; e terríveis 49% esperam e acreditam em Osama Bin Laden como o seu grande vingador.

Segundo os especialistas, isso não significa que a Al Qaeda tenha ampliado sua influência no Afeganistão. Pelo contrário, “o movimento de inssurreição – afirma o relatório – pode ser descrito hoje como uma coalisão de grupos antigovernamentais que com freqüência operam de maneira independente e nos quais a Al Qaeda e as diversas facções militares operantes no país não desempenham um papel significativo”.

Os grupos de neotalibãs são constituídos por nacionalistas da etnia pashtum, conservadores islâmicos, afegãos que perderam o contato com suas raízes e seu modo tradicional de vida, instrutores militares oriundos do Paquistão e dos países árabes, bem como afegãos mercenários recrutados com dinheiro ou obrigados a combater sob ameaças.

O chefe de polícia de Kandahar, a mais importante cidade do Sul, revela: “Aqui, os talibãs estão em toda parte. Os ocidentais não sabem distingui- los no meio da população, mas os moradores locais sim. As meninas e moças não podem mais freqüentar as escolas, as mulheres permanecem em casa e todos os homens deixam a barba crescer. Certos homens são recrutados com a promessa de um salário mensal de US$ 500, enquanto um policial governamental ganha apenas US$ 80, e com freqüência apela-se para o desespero daqueles que vivem nos campos de refugiados.”

Da mesma forma que seus predecessores, os neotalibãs adotam uma interpretação extremista do islamismo sunita. Mas, do ponto de vista militar, eles evoluíram, adotando agora ações terroristas de forte impacto, desenvolvendo uma guerra dinâmica, altamente organizada e munida de armas sofisticadas e táticas de guerrilha tradicional. O relatório aponta ainda o Paquistão como principal implicado na coordenação, financiamento e organização da insurreição.

Como antigamente, o recrutamento acontece nas madrassas e mesquitas do Paquistão e das províncias do sul do Afeganistão, mas o novo reservatório de combatentes são os campos de refugiados.

QUANTO ÀS ARMAS E munição, o relatório explica que “ao longo da fronteira paquistanesa existe uma florescente indústria especializada na produção de armas copiadas de modelos estrangeiros. Os preços são muito baixos: uma metralhadora Ak 47 é vendida por US$ 250. Com freqüência são os próprios soldados do governo que vendem suas armas, e muitos dos seus comandantes estão envolvidos com o tráfico. Uma bazuca custa apenas US$ 40, um morteiro de 82 milímetros, não mais de US$ 60, e uma peça de artilharia de calibre médio, entre os US$ 80 e US$ 100.

Os neotalibãs também dispõem de armas mais sofisticadas, como os lança- foguetes RPG, que chegam via Usbequistão e Tagiquistão, provenientes da China e do Irã. A tudo isso se somam as mais de 30 mil armas depostas pelos 63 mil militares reformados há quatro anos pelo presidente Karzai. Acusado de ser submisso aos interesses dos Estados Unidos, Karzai é odiado pelos insurgentes.

TAMBÉM NA ÁREA da propaganda e do marketing, os neotalibãs se modernizaram. Sua produção de cassetes, DVDs, jornais e revistas cheios de imagens pode ser encontrada com facilidade nos bazares de Kandahar, glorificando as ações de insurreição e condenando os “invasores”. Uma fotografia publicada num desses jornais mostra um soldado ocidental que revista uma mulher afegã, tocando-a e, portanto, profanando-a. O movimento transmite suas mensagens a partir de uma rádio pirata chamada A Voz da Sharia. Em pelo menos duas províncias foram criados sites na internet que continuamente exibem vídeos de ataques às forças estrangeiras e transmitem mensagens atribuídas ao Mulá Omar.

Na origem dessa situação explosiva – conclui o relatório –, está a falência da política ocidental no Afeganistão. De uma missão antiterrorismo passou-se a uma atividade antiinsurrecional. A presença da ONU e da Otan tornou-se parte do problema, e não mais instrumento de solução.

Os talibãs se fortalecem e estão em contínua ascensão. Para os observadores mais importantes, mesmo que eles não consigam retomar o poder, a batalha civil já está perdida no Afeganistão.

Um fracasso atrás do outro

Há exatos seis anos, os acontecimentos de 11 de setembro de 2001 colocaram em confronto duas culturas globais – a democracia ocidental e o terrorismo muçulmano – da maneira mais dramática possível. Os Estados Unidos lideraram uma resposta militar aos atentados, lançando importantes operações militares no Afeganistão. Sua promessa de acabar com o Talibã e remover as bases terroristas no país foi recebida com muito entusiasmo por parte da população afegã.

Essa ação militar, infelizmente, falhou inteiramente em alguns dos seus objetivos mais importantes. Não conseguiu conter e muito menos eliminar a produção e o tráfico de narcóticos que continua a florescer no Afeganistão. Também não teve sucesso em criar no país uma infra-estrutura mínima de saúde, educação e alimentação.

Hoje, sobretudo na região sul, há grandes bolsões de miséria e fome, e pouco ou nada foi feito para solucionar o problema dos campos de refugiados. As tropas da ONU e o governo do atual presidente, Amid Karzai – aliado dos Estados Unidos e odiado pelos insurgentes, – fracassaram por completo em termos de segurança.

Qual a razão de uma bancarrota tão generalizada? Especialistas dizem que ela é devida sobretudo à incapacidade ocidental de compreender – e respeitar – a particular visão de mundo da população local, que é muito diferente da visão de mundo ocidental. Os afegãos se identificam basicamente com o mundo islâmico, e seu sentido de identidade é estreitamente ligado ao Islã e à Umma – a comunidade islâmica mundial.

Revista Planeta
http://www.terra.com.br/revistaplaneta/

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O verdadeiro escândalo dos alimentos transgênicos

Dick Taverne

Alimentos transgênicos são seguros, saudáveis e essenciais se quisermos atingir padrões de vida decentes para a crescente população mundial. A moralização fora de propósito em torno deles no Ocidente está custando milhões de vidas nos países pobres.

Há sete anos, a revista “Time” apresentou o biólogo suíço Ingo Potrykus em sua capa. Como principal criador do arroz geneticamente modificado -ou “arroz dourado”- ele foi saudado como potencialmente um dos maiores benfeitores da humanidade. O arroz dourado seria o início de uma nova revolução verde para melhorar as vidas de milhões das pessoas mais pobres do mundo. Ele ajudaria a corrigir a deficiência de vitamina A, a causa de entre 1 milhão e 2 milhões de mortes por ano, e poderia salvar até 500 mil crianças por ano da cegueira. Era a nau capitânia da biotecnologia vegetal.

Sete anos depois, a previsão mais otimista é de que serão necessários mais cinco ou seis anos para que o arroz dourado possa ser cultivado comercialmente. A concretização do sonho de Potrykus continua se distanciando.

O que deu errado? As promessas eram irreais ou a tecnologia dos transgênicos, como alegam seus oponentes, é falha -devido aos possíveis danos à segurança de seres humanos ou do meio ambiente, ou por ser inadequada para atender as necessidades dos agricultores pobres no mundo em desenvolvimento?

A discussão pública de alimentos transgênicos nos meios de comunicação britânicos, e por toda a Europa, reflete uma suspeita persistente em relação aos alimentos transgênicos. Os supermercados exibem avisos de que seus produtos são “livres de transgênicos”. As vendas de alimentos orgânicos, promovidos como uma alternativa natural aos produtos da agricultura científica moderna, estão crescendo cerca de 20% ao ano. O público é levado a acreditar que a tecnologia transgênica não é apenas insegura, mas prejudicial ao meio ambiente, e que atende apenas ao lucro das grandes empresas agrícolas. Raramente a percepção pública esteve mais fora de sintonia com os fatos.

Na verdade, a natureza da tecnologia de modificação genética dificilmente seria mais perigosa do que a agricultura convencional. Ao longo da toda a história, agricultores buscaram melhorar sua produtividade cruzando plantas com características desejáveis. Mas o cruzamento é uma loteria e suas conseqüências não podem ser facilmente previstas. Pequenas mudanças genéticas que são desejáveis podem ser acompanhadas por outras que são indesejáveis. Podem ser necessárias gerações de cruzamentos para eliminação das características indesejáveis. O processo é, portanto, não apenas imprevisível, mas lento e caro, e pode ser ainda mais arriscado.

Um dos métodos-padrão mais eficazes de reprodução para obtenção de melhores plantas cultiváveis é bombardear as sementes e plantas com raios gama para alterar seu DNA, causando mutações, sendo que algumas podem ser selecionadas por possuírem características desejadas. (Por acaso, os agricultores orgânicos, em seu desejo de evitar produtos químicos artificiais, são ainda mais dependentes do que os agricultores convencionais de variedades de plantas geradas por irradiação.)

A irradiação altera tanto a estrutura dos cromossomos quanto a seqüência do genoma de forma aleatória. Além disso, não há exigência legal de testar tais produtos irradiados seja pelos efeitos à saúde ou pelo que possam causar ao meio ambiente. Em comparação, a modificação genética em laboratório introduz um gene ou genes bem caracterizados em um genótipo estabelecido sem grande perturbação. O que tal modificação faz é o mesmo que o cruzamento de plantas sempre fez, mas de forma mais rápida e precisa. Os oponentes freqüentemente argumentam que a tecnologia de engenharia genética é diferente por poder transferir genes entre espécies. Mas novamente, isto não é novo, já que ao longo da evolução genes foram transferidos entre espécies naturalmente. Este é o motivo para a existência de tamanha diversidade de vida vegetal.

Além disso, aqueles que são contrários à modificação genética na agricultura freqüentemente abraçam a tecnologia na medicina. A insulina humana usada no tratamento da diabete, por exemplo, é modificada geneticamente: o gene humano responsável pela insulina foi transferido para bactérias e levedo, um processo que envolve o cruzamento da barreira entre espécies. Segundo que raciocínio a tecnologia pode ser segura e ética quando salva vidas em tratamento médico, mas não quando usada para tornar plantas resistentes a pragas visando salvar pessoas da fome?

A história do arroz dourado de Potrykus sugere uma explicação. O desenvolvimento do produto em si foi um grande feito científico. Um gene de bactéria somado a dois genes de narciso foram inseridos no arroz para fazê-lo sintetizar o micronutriente “betacaroteno”, que quando ingerido é convertido em vitamina A. Este processo levou 10 anos. Muitos outros anos foram gastos, com a ajuda da Syngenta e outras empresas de biotecnologia, na solução dos problemas de patente para permitir que o arroz dourado pudesse ser disponibilizado para pequenos agricultores sem pagamento de royalties. Então teve início a luta para obtenção de aprovação regulatória.

Primeiro, apesar de ter sido aceito até mesmo pelos contrários à tecnologia que a presença do betacaroteno no grão de arroz não apresenta nenhum risco possível ao meio ambiente, nenhum campo de teste de pequena escala seria permitido. Assim, todo o arroz dourado deveria ser plantado em estufas -um processo que exige três anos. Cada planta deveria ser comprovada como sendo produto de uma transferência genética de seu DNA em proporções iguais. Então todas as proteínas deveriam ser extraídas e decompostas, caracterizadas bioquimicamente e sua função confirmada -análises que exigem pelo menos dois anos de trabalho intensivo em laboratório bem equipado.

Em seguida, experiências de alimentação com roedores seriam exigidas, apesar da maioria das pessoas já ter comido alegremente estes genes -e as proteínas pelas quais são responsáveis- de outras fontes ao longo de suas vidas, e apesar das proteínas produzidas pelos genes do narciso não terem relação a qualquer toxina ou alérgeno. Nenhum risco hipotético por menor que fosse deveria permanecer não testado.

Por que uma tecnologia com tanto a contribuir é impedida por regulamentações que não fazem sentido? Parte da culpa está no grande agronegócio. Ele inicialmente apreciou a regulamentação elaborada para desencorajar a concorrência de pequenas empresas incapazes de arcar com os custos. De fato, eles resistiram com sucesso a todas as tentativas dos conselheiros no governo Reagan de regular cada nova planta transgênica simplesmente como novo produto, em vez de pelo processo pelo qual foi derivada -uma abordagem que trataria as culturas transgênicas e convencionais de forma semelhante e faria mais sentido científico.

Apesar da regulamentação rígida ter sido apoiada por alguns defensores dos transgênicos, que acreditavam que ela tranqüilizaria o público, ela teve o feito oposto. Se os governos parecem achar que é necessária extrema cautela, o público concluirá que a tecnologia deve ser perigosa.

Mas a principal força por trás da regulação excessiva dos transgênicos é o culto da “volta à natureza”, que também inspirou a propaganda contra a biotecnologia agrícola como um todo. Este culto tem muitas manifestações. Uma é a popularidade da agricultura orgânica, que se baseia no falso princípio de que produtos químicos artificiais são ruins e produtos químicos naturais são bons.

Outra é a crescente moda por medicina alternativa, não comprovada. Os oponentes dogmáticos dos transgênicos na Europa acreditam que a interferência na composição genética das plantas é basicamente uma questão moral. Ela deve ser condenada como parte da tentativa pecaminosa da humanidade de controlar a natureza, que contribuiu para o aquecimento global, epidemias de câncer e todas as pragas da vida moderna.

Apesar desta corrente de sentimento anticiência, há motivo para esperança. Neste ano, o então secretário britânico do meio ambiente, David Miliband, anunciou que não há evidência de que alimento orgânico é mais nutritivo do que alimento cultivado de forma convencional. Em princípio, o governo britânico se declarou pronto para autorizar o cultivo de transgênicos e apoiou sua promoção na Europa.

Além disso, há sinais significativos de mudança em vários países europeus. A Espanha cultiva com sucesso milho transgênico há alguns anos. Na França, o número de hectares dedicados ao plantio de transgênicos aumentou de 500 para 50 mil em três anos. Mas o mais importante é a rápida disseminação de transgênicos na Índia e na China. Os chineses já estão à frente no teste de novas linhagens de arroz transgênico que poderão beneficiar 250 milhões de agricultores. A Índia não está muito atrás e defende um regime regulatório brando.

Há pouca dúvida de que com o tempo os transgênicos serão aceitos mundialmente, mesmo na Europa. Mas ao adiar o cultivo, os lobbies antitransgênicos foram responsáveis por um custo pesado. Sua oposição minou o agronegócio na Europa e empurrou para o exterior grande parte da pesquisa de biotecnologia vegetal. A regulação excessiva pode tornar os custos da tecnologia mais altos do que o necessário. Acima de tudo, o atraso causou a perda desnecessária de milhões de vidas no mundo em desenvolvimento. Estes lobbies e seus amigos no movimento orgânico têm muito pelo que responder.

Prospect Magazine
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Carta de Lee Harvey Oswald é encontrada em arquivos de senador falecido

James Baron

A caixa estava intocada no sótão de uma casa em Washington até recentemente, quando a venda da casa forçou que se fizesse uma limpeza, que se olhasse em lugares há muito esquecidos.

Dentro da caixa havia uma pasta de arquivo chamada: “Lee Harvey Oswald”.

Na pasta estava uma carta escrita à mão, que Oswald enviara da União Soviética, reclamando que o governo soviético não lhe dava um visto de saída para os EUA. Era endereçada ao senador John Tower, republicano do Texas, que havia morado na casa com sua segunda mulher nos anos 80.

Os outros itens da pasta são datilografados -cartas de Tower ao Departamento de Estado, cartas do consulado americano em Moscou a Oswald, cartas do Departamento de Estado a Tower e memorandos da equipe de Tower após o assassinato do presidente John F. Kennedy, quando Tower defendeu-se contra a impressão de que tinha ajudado a abrir o caminho para a volta de Oswald aos EUA.

Uma empresa texana chamada EasySale planeja fazer um leilão on-line dos itens, talvez já na quarta-feira. A EasySale diz que as cartas são originais, não cópias como as que estão entre os documentos de Tower na Universidade de Southwestern em Georgetown, Texas. Um especialista em caligrafia contratado pela EasySale para examinar a carta de Oswald concluiu que a letra apertada era de Oswald.

A carta de Oswald a Tower, que morreu em 1991, não está datada, mas foi amplamente citada após o assassinato de Kennedy e novamente no relatório da Comissão Warren, em 1964.

Ela começa como um apelo de um cidadão: “Meu nome é Lee Harvey Oswald, 22, de Fort Worth, até outubro de 1959″, quando, escreveu, foi para a União Soviética para passar “uma temporada residencial”.

Depois de explicar o problema com o visto, Oswald escreveu: “Eu peço ao senhor, senador Tower, para levantar a questão de detenção pela União Soviética de um cidadão americano, contra sua vontade e desejo expresso!!”

De acordo com o relatório da Comissão Warren, um funcionário no escritório de Tower encaminhou a carta para o Departamento de Estado, sob uma capa que era “assinada pelo senador à máquina”.

Uma cópia da capa estava na pasta do sótão e deixava claro que o escritório de Tower estava simplesmente encaminhando o apelo de Oswald. “Não conheço o senhor Oswald ou quaisquer dos fatos em torno de suas razões para visitar a União Soviética; nem quais ações, se alguma, este governo pode ou deve tomar em seu nome”, dizia a carta.

Sabe-se que Tower deu o arquivo à Comissão Warren para que fosse copiado, mas os originais eram considerados desaparecidos, disse Kathryn Stalard, arquivista da Biblioteca de John Tower em Southwestern. “Estávamos procurando por isso”, disse ela.

O diretor executivo da EasySale, David J. Edmondson, disse que a casa, na seção Kalorama de Washington, era da segunda esposa de Tower, Lilla Burt Cummings Tower, advogada de Washington, que morreu em 1993. Edmondson disse que ela e Tower moraram na casa no início dos anos 80. Eles se divorciaram em 1987 e, dois anos depois, quando o primeiro presidente George Bush nomeou Tower como secretário de defesa, suas declarações que o ex-marido bebia excessivamente ajudaram a derrubar a nomeação. Tower negou as acusações.

A questão da volta de Oswald aos EUA perseguiu Tower após o relatório da Comissão Warren ser divulgado. O arquivo no sótão continha uma carta que Tower escrevera ao secretário de Estado Dean Rusk, em março de 1964, assim como a resposta de Rusk: “Não é agora e não foi no passado, a posição do Departamento de Estado que Oswald teve permissão de voltar a este país como resultado do encaminhamento ao departamento da carta de Oswald ao senhor.”

Edmondson descreveu a EasySale como “uma empresa de consignação on-line”, que pega itens de no mínimo US$ 50 (cerca de R$ 100) que as pessoas não querem mais. “Isso é certamente incomum”, disse ele. “Isso é incomum se comparado com as coisas que as pessoas costumam ter jogadas em casa.”

Jornal New York Times
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Pedro Simon: ‘O Brasil está se decompondo’

Valéria Nader (Colaborou Mateus Alves)
30-Nov-2007

O desenrolar dos acontecimentos da arena política nesse ano foi a mais nítida expressão de como decorrem as negociações para a construção da nação. Seria mesmo construção? A absolvição de um presidente do Congresso cujos indícios de desvio de comportamento eram mais do que cristalinos, a desfaçatez com que este continuou a circular por uma das mais importantes Casas do país, o recentíssimo toma lá, dá cá patrocinado pelo governo para aprovar a outrora tão abominada CPMF são alguns dos espetáculos que nos são propiciados pelos Poderes da nação. Obviamente, e infelizmente, concorrem para a sua desconstrução.

O Correio da Cidadania foi a Brasília para conversar sobre alguns grandes temas atuais com uma das figuras públicas que matem grande destaque no cenário nacional por sua conduta continuamente atuante, propositiva, corajosa e ética. Se esses são atributos que deveriam ser obrigatórios no currículo de qualquer político ou ocupante de cargo público, são, atualmente, sem dúvida alguma, uma raridade.

Indagado sobre como se definiria hoje politicamente, o senador Pedro Simon não poderia ter respondido de forma mais reveladora: “Tenho sido, permanentemente, defensor das mesmas idéias (…) Acho que isso está ficando difícil”.

Correio da Cidadania: Sendo atualmente uma das figuras públicas de grande destaque no cenário nacional, por uma conduta continuamente atuante, propositiva, corajosa e ética, como o senhor se definiria politicamente hoje?

Pedro Simon: Tenho sido, permanentemente, defensor das mesmas idéias. Algo muito concreto sobre isso é a questão da tributação sobre cheques, a CPMF. Ela foi criada no tempo de Fernando Henrique Cardoso e o governo era radicalmente a favor, enquanto Lula e o PT eram radicalmente contra. Agora estamos votando a questão novamente, e FHC e o PSDB estão fanaticamente contra – para o que não enxergo razão - e Lula e o PT não conseguem entender como alguém pode ser contra. Não entendo esse discurso, continuo a mesma pessoa, defendendo as mesmas teses. Acho que isso está ficando difícil.

E ainda no mesmo caso da CPMF, a negociação do governo é na base do troca-troca: dão emendas a senadores e deputados, nomeações… Não há uma linguagem ética, há sim uma linguagem de toma lá, dá cá. Estou ficando superado, não tenho mais muito o que fazer por aqui.

CC: A seu ver, qual é a crise do Brasil de hoje? Trata-se de um problema somente ético?

PS: Eu tenho dito que o Brasil vem se decompondo. Sou de uma geração que se baseava na família, na escola e na Igreja. Hoje, a família se decompõe; aquilo que se conversava com o pai, a mãe, a tia, foi trocado pelo que a televisão diz. Eu era do tempo que famílias faziam visitas, todos se juntavam para ir visitar outra família. Lá no Rio Grande do Sul, isso era muito típico. Quando era estudante, olhávamos o guri na rua e, conforme ele estava vestido, que poderia ser de modo espalhafatoso ou certinho, por exemplo, já sabíamos imediatamente qual era o seu colégio. Se alguém dizia que “precisamos defender nossos direitos”, sabíamos que era do Júlio de Castilho, um colégio público. A escola nos formava; tínhamos um conteúdo profundo de debates e discussões. Hoje, não há mais isso. A escola prepara para o vestibular e nada mais; não tem formação, não tem consistência.

A religião, como um padrão social, moral e ético, também não mais existe. Eu vejo que tudo isso se decompôs no Brasil.

CC: Apropriando-se dessa discussão em nossa política, arena da qual o senhor participa hoje ativamente, muitos estudiosos dizem que não vivemos uma crise institucional no Brasil, dentre outros, porque a República está calcada em uma forte figura presidencial. Ao mesmo tempo, temos um Executivo que legisla, encaminhando uma série de medidas provisórias, e um Congresso que está submetido de forma inconcebível ao Executivo, por exemplo, por hora das liberações orçamentárias. Não estamos diante de, no mínimo, um disfuncionamento em nossa República ?

PS: Se formos analisar os Poderes, não há dúvida nenhuma. O Congresso nunca esteve tão no chão. O Congresso não legisla mais. Veja agora, ainda usando o exemplo da CPMF, que é a última necessidade que Lula teve no Congresso. Trata-se de uma emenda constitucional que precisa ser aprovada. Se for aprovada, até o final do governo, Lula não vai precisar mais do Congresso Nacional. Por meio de medidas provisórias, o governo faz o que quer. Nós não temos o que fazer. O que votamos são coisinhas de nada, e, mesmo assim, o presidente pode vetá-las - já há mais de mil vetos na gaveta.

A atribuição legislativa do Congresso é votar medidas provisórias; sua outra atribuição é a fiscalização, e nisso temos uma posição muito importante. O Congresso fez o impeachment do Collor, fez a CPI dos anões do Orçamento, por exemplo. Essa fiscalização, o Congresso tem feito. Porém, é inconseqüente; até hoje, no Brasil, quem vai para a cadeia é ladrão de galinha. Não há notícia nenhuma de alguma pessoa que seja mais ou menos importante, que pode pagar um bom advogado, que tenha sido presa. O Brasil é o país da impunidade. Você lê notícias de denúncias de corrupção, bandalheira, roubalheira, uma vez, uma segunda vez, três vezes, quatro vezes, e nada acontece. Paulo Maluf, por exemplo, está há 20 anos respondendo a um processo e nada acontece; com pessoas que possuem as mesmas condições que ele também não acontece nada.

O cidadão brasileiro tem, portanto, uma interpretação da sociedade brasileira como uma sociedade de absoluta irresponsabilidade. Podem dizer que não há uma crise institucional porque Lula está muito forte, mas isso não é bem assim. Houve um momento em que Lula estava fraco, alguns queriam o impeachment do presidente após as denúncias que envolviam o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu. No entanto, se esse tipo de processo fosse votado, o Brasil ficaria insustentável. A partir daí, o presidente se solidificou.

Eu diria que não há uma crise institucional porque todo mundo tem medo do que possa acontecer se tirarem Lula do poder. Os militares, hoje, são sérios, responsáveis, mas também vazios. Muita gente não se dá conta de que Castello Branco, quando foi presidente, acabou com a prática existente no militarismo brasileiro, onde, a cada dez anos, se pedia licença e se afastava - ele, Golbery de Couto e Silva, entre outros. Essas pessoas eram generais, e estavam permanentemente de licença. E era a turma que preparava golpes, malandragens.

Hoje, nas forças armadas, não se vê nenhum nome importante, um marechal Henrique Lott, um brigadeiro Eduardo Gomes. O último general que chegou a ter um prestígio enorme foi o general Leônidas, que garantiu que quem assumisse a presidência do Brasil fosse José Sarney ao invés de Ulysses Guimarães. No governo de Sarney, foi um homem poderosíssimo, mas, quando este terminou, foi para casa e ninguém mais soube dele.

Hoje não há uma pessoa forte no meio dos militares; quem exerce tal papel é o ministro da Defesa, Nelson Jobim. Esse fato de os militares terem se retirado e de não terem condições de ficar eliminou a possibilidade de qualquer golpe. Quando Lula publicou o estudo sobre a tortura durante o período da ditadura, houve uma declaração controversa do ministro do Exército. Nelson Jobim disse que, “se falasse, teria resposta”. E ficou por isso mesmo. Antes, uma fala do ministro do Exército gerava uma confusão dos diabos.

Ninguém quer criar um ambiente insustentável para o Brasil. E Lula está se valendo disso, para ficar tudo bem.

Na Venezuela, no Equador, há a possibilidade da reeleição, algo que já começa a ser ventilado por aqui, com a possibilidade de um terceiro mandato de Lula. E vem Fernando Henrique Cardoso e diz que é um absurdo, um escândalo, esquecendo que foi ele quem começou com isso no país. Ele criou a emenda que proporcionou a reeleição no Brasil, algo que não existia – e, até hoje, não saiu o resultado da CPI para provar como as pessoas aprovaram isso. Ele que fique quieto, apesar de não ser mesmo essa a hora de criar a possibilidade de uma nova reeleição.

CC: O senhor crê que tal projeto pode amadurecer, visto que alguns deputados da base aliada ao governo andaram fazendo articulações nesse sentido?

PS: O governo, quando fala em negociar, fala em troca-troca. Isso começou com FHC, e está acontecendo agora com a questão da CPMF. O governo parte para uma negociação tão pesada que termina ganhando. Não se quer votar a emenda no governo, mas sim autorizar um plebiscito para que o povo diga o que quer e o que não quer.

O que tememos é que, nessa altura do campeonato, a máquina do governo e toda a sua publicidade, o Bolsa Família, entre outros, terminem fazendo como na Venezuela, partindo para o improvável. Uma das piores coisas que pode acontecer no Brasil é termos uma permanência no poder, pois a democracia requer renovação, requer uma alternância no poder.

CC: O senhor é a favor da entrada da Venezuela no Mercosul?

PS: Sou a favor sim, apesar de ter grandes restrições ao presidente do país. Mas Hugo Chávez é Hugo Chávez, e a Venezuela é a Venezuela. O Brasil é o grande país da integração da América Latina. Quem sempre lutou por isso fomos nós. Quem se posiciona contra é porque vê o tamanho de nosso país e acha que queremos ser o dono do continente, o que não é verdade.

A Venezuela deve entrar, sim, pois é uma democracia. Tem problemas, mas sobre esses não temos autoridade nenhuma para falar – até ontem, nossos governadores e senadores eram biônicos.

Não vamos esquecer também que quem entra no Mercosul precisa garantir a democracia. Se a Venezuela passar a ter um regime ditatorial, podemos ameaçá-la com o afastamento do bloco. Isso aconteceu com o Paraguai: quando tiveram uma crise, quiseram colocar no poder um general. Aí, os presidentes do Brasil e da Argentina foram lá e disseram que, caso isso acontecesse, o país estava fora do Mercosul. E, por aí, garantiram a democracia.

Deixar a Venezuela entrar no bloco e ter o país do nosso lado serviria para podermos pressionar pela democracia. Mas, caso a pressão seja necessária no futuro, as conseqüências são imprevisíveis.

CC: Em uma entrevista à revista Caros Amigos, o senhor mencionou que rezava todos os dias para que o governo Lula cumprisse pelo menos 30% do prometido. O que pensa em relação a isso hoje em dia?

PS: Lula tem um saldo positivo que somos obrigados a reconhecer: o Bolsa Família. O mal do programa é que não foi feito com a perspectiva do provisório, mas sim com o intuito de ser mantido para comprar votos. Usam, inclusive, o programa para fazer ameaças, dizendo que será retirado se o PT não for reeleito. É uma chantagem.

Nos Estados Unidos, na época da Grande Depressão, o presidente Roosevelt criou um auxílio para os necessitados, algo que foi difícil para encerrar depois. As pessoas se acomodam.

Mas há, sim, um lado positivo. Muitas pessoas dizem para mim “digam o que quiserem, mas esse dinheiro está fazendo com que a minha família não passe fome”.

Agora, é sempre melhor ensinar a pescar do que dar peixe às pessoas. Esse deve ser um programa de transição, que facilite a entrada das pessoas no mercado de trabalho.

Do ponto de vista da ética e da seriedade, as coisas pioraram muito. Está, inclusive, pior do que na época do Fernando Henrique. Este disse para “esquecermos o que escreveu”; Lula e o PT disseram “esqueçam o que éramos”.

Não há nada mais parecido com o governo FHC do que o governo Lula. É a mesma coisa. Votamos na social-democracia, representada pelos tucanos, e entramos em um regime centralizador de centro-direita. Votamos nos candidatos trabalhistas, de esquerda, e elegemos algo igual ao governo tucano.

Porém, uma das coisas que foi pior no governo FHC, e que não aconteceu agora, foi a privatização de uma empresa com o porte e importância da Vale do Rio Doce. Era uma empresa importante, uma das maiores empresas de mineração do mundo, e os tucanos a deram de graça.

CC: O senhor é a favor da reestatização da empresa?

PS: Acho que reestatizá-la é quase impossível. Mas sou a favor de algumas medidas, como verificar onde foi parar o dinheiro da venda, ver como foi possível ter sido dada de presente, sendo vendida por apenas R$ 3 bilhões, e ainda por cima emprestados pelo BNDES.

Na época, eu fui favorável às privatizações, mas privatizações de empresas que o governo não tinha condições de tocar, não a da Vale do Rio Doce.

Todos os levantamentos e pesquisas feitos, todas as áreas prospectadas, deveriam ter permanecido com o governo brasileiro. Deram a Vale, e deram, portanto, junto com a empresa, todo o subsolo brasileiro. Sou a favor de se avaliar o que a Vale possui e que o país fique com aquilo que ainda não foi explorado. É preciso ir contra o que FHC fez e que o PT não mudou.

CC: Uma revisão seria, então, o mínimo a ser feito?

PS: Deveria ser feita essa revisão e acho que haverá uma CPI para ver como a privatização foi executada e onde foi parar o dinheiro. A Vale deve ir adiante, progredir, mas que não fique dona de nosso subsolo.

CC: Nesse sentido, o senhor não seria também a favor de uma revisão na Lei do Petróleo, para impedir o leilão de nossas áreas ricas em petróleo, especialmente agora com a descoberta de novos campos?

PS: FHC queria acabar com a Petrobras, até mudou o nome da empresa. Para votar as modificações na Lei do Petróleo, ele teve que dizer que não mexeria nem na Petrobras, nem no Banco do Brasil e nem na Caixa Econômica Federal – e, na verdade, não mexeu, mas que falava em mexer, falava.

O governo atual fez a mesma coisa que FHC fez na Amazônia. Há reservas que estão sendo entregues ao capital estrangeiro. Nunca me passou pela cabeça que o PT iria fazer isso. Estão entregando áreas do tamanho de um país a empresas que podem repassá-las a empresas estrangeiras por 40 anos, renováveis por mais 40. São oitenta anos, e é o PT que está fazendo isso.

CC: Como está a sua relação com o governo hoje?

PS: Acho que sou respeitado. Não sou anti-PT, como não era anti-FHC. Era para eu ter sido líder do governo do Fernando Henrique, pois era líder do governo Itamar e ele era o nosso candidato. Mas fui me afastando e terminei quase do outro lado.

Com Lula, aconteceu a mesma coisa. Ele, inclusive, me convidou para ser ministro, mas, com o tempo, fui me afastando. Tenho respeito e rezo, pois sou um homem de fé, para que acerte, para que tudo dê certo, mas não aceito certas coisas.

Meu afastamento em relação a Lula começou com o caso Waldomiro. Quando vi o petista, na TV, recebendo o dinheiro e dizendo como fazia seus negócios, não havia mais nada o que explicar. Ali, ficava tudo claro. Nunca entendi como Lula não demitiu Waldomiro logo em seguida e não permitiu a CPI.

Uma coisa é alguém ser réu, mas outra coisa é essa pessoa ser ministro quando há uma série de evidências contra ele. E Lula deixou que isso acontecesse, os ministros ficaram; se ele tivesse tomado providências logo após as denúncias, a corrupção não teria andado como andou no governo.

CC: Senador, considerando esse caminho nefasto que tem percorrido a nação nos últimos anos, não seria o momento de promover uma cruzada nesse país, a exemplo daquela levada a cabo pelo senador Teotônio Vilela em prol da redemocratização? O senhor corroboraria a hipótese de que um homem com a sua estatura e sensibilidade poderia ter uma postura social ainda mais agressiva nesse sentido?

PS: Olha, não tenho a capacidade de Teotônio. Ele foi mais importante do que Ulysses, mais do que Tancredo. Um homem com quatro cânceres, duas bengalas, cabeça raspada, percorrer o Brasil foi algo fantástico. Médicos diziam para ir tratar-se em Paris, pois lá a medicina era mais desenvolvida, mas ele dizia que, enquanto ele, doente, fazia isso no Brasil, jovens saudáveis ficavam sentados.

E o problema, hoje, é mais grave ainda. Naquele tempo, o inimigo estava claro: era a ditadura militar. Hoje, a luta é mais difícil do que aquela.

Lembro-me de ocasião em que fizemos uma reunião em Porto Alegre , Brizola havia conseguido dinheiro de Fidel Castro, alguns queriam a revolução, outros tinham idéias alternativas. Mas tínhamos quatro objetivos claros: diretas já, a formação de uma assembléia constituinte, o fim da tortura e a liberdade de imprensa. Era isso o que queríamos; quem quisesse a luta armada, que deixasse o PMDB. Era fácil de identificar as pessoas.

No Rio Grande do Sul, tivemos uma luta fantástica, Brizola e Jango eram de lá. Quem era do PMDB era do PMDB, e eu achava que éramos heróis. Depois vi que não era bem assim, que tinha vigarice que não acabava mais. Uma coisa era ser o que outrora éramos, outra coisa era ser governo.

Aí veio o PSDB, resultante do expurgo do PMDB. Covas, Montoro, FHC, Serra fundaram um partido, chegaram no governo e aconteceu o que aconteceu.

Isso se repetiu com Lula. O PT foi, na minha opinião, o partido de oposição mais espetacular que vi no mundo. Ninguém nunca soube atirar pedras com tanta categoria nos telhados de vidro dos outros como o PT. E, quando chegaram no governo, não quiseram fazer o que pregavam anteriormente. E essa gente era tão pura, tão espetacular, se quisessem eram ordenados padres…

Eu posso dizer que sei o que sou, pois fui líder do governo, já fui ministro, já fui governador, mas o cidadão comum não sabe o que vai ser até a hora em que sentar-se à mesa como governo. O PT chegou no governo e não souber o que fazer.

Hoje, digo que Lula não tem perdão, pois naquele momento, embora não estivesse preparado para ser governo, que pelo menos não se juntasse à bandalheira. Eu digo para todo mundo que, quando fui governador, não admitia que contratassem parentes. O chefe da Brigada Militar tinha um filho que estava numa lista para assumir certo cargo – e isso era até correto. Quando questionei o chefe, ele me disse que eu não podia prejudicar o seu filho – e respondi que não mesmo, por isso ele é quem teria que sair.

Um governador da oposição fazer isso com um militar, na época da ditadura, foi uma demonstração de enfrentamento. E depois disso, ninguém colocou mais nenhum parente como funcionário de meu governo.

Quando Lula foi condenado, todos que eram pró-democracia foram lá, buscar a sua soltura. Agora, veja os seus amigos: todo mundo que é rico virou amigo dele. E o pior é que ele acha que são mesmo seus amigos!

Mas voltando à sua questão, acho que, hoje, há uma incredibilidade geral. Depois do Teotônio, os dois fatos que fizeram com que o povo fosse às ruas foram as Diretas Já e o impeachment do Collor. E, hoje, o povo não quer saber de mais nada nesse sentido. Não há uma referência. Não há um Montoro, não há um Tancredo, um Covas.

O que tenho feito é percorrer o Brasil dizendo para a mocidade ir às ruas. Mas não ir à rua atrás do Congresso, pois de lá é de onde menos devemos esperar sair algo de bom. A própria Justiça toma algumas decisões, mas é também uma das grandes responsáveis pelo Brasil ser o país da impunidade. De lá também não sai nada. E de Lula, muito menos.

Está faltando efervescência. A UNE, por exemplo, está subordinado ao governo. E o PT, que era quem levava à mobilização, agora é governo.

CC: Mas não estaria ocorrendo também paralelamente uma espécie de “cooptação” dos movimentos sociais pelo governo - os quais, ademais, espontaneamente paralisaram-se em função das dificuldades de enfrentar um partido e um presidente com todo o prestígio histórico que carregam?

PS: Sim, infelizmente é isso aí.

CC: Como o senhor vê a esquerda hoje no país?

PS: Durante a luta do PMDB, considerava suas posições como de esquerda. Não que Tancredo fosse exatamente de esquerda, mas estava bem mais próximo dela do que o Sarney, que acabou sendo presidente. Com Fernando Henrique, achávamos que teríamos um governo social-democrata como o de François Mitterrand na França, como o trabalhismo inglês, e tivemos um governo de direita.

Lula e o PT eram de esquerda, realmente de esquerda. Mas estão fazendo um governo de direita.

Se olharmos, por outro lado, para o mundo hoje, há também um pragmatismo. Há coisas ridículas por aí, como o fato de americanos convocarem 50 países para fazerem uma conferência de paz em uma pequena cidade dos Estados Unidos. Fomos lá correndo, para discutir o Oriente Médio – mesmo sabendo ser o governo Bush muito culpado pelo que ocorre por lá, ao não aceitar as resoluções impostas pela ONU.

Acredito que, hoje, são atuais as idéias de Alberto Pasqualini. Ele dizia que o homem é filho de Deus, um animal social com direitos intransferíveis à vida e ao trabalho, e que precisa receber como remuneração por esse trabalho um valor justo em relação às questões prioritárias de moradia, educação, saúde e lazer.

CC: Isso definiria, a seu ver, “ser socialista” atualmente?

PS: Isso é ser humanista, é ser cristão. É o que de mais importante podemos, nesse momento, tentar conseguir.

Pasqualini dizia que os meios de produção não precisavam estar nas mãos do Estado, mas que, em cima dos bens privados, deveria haver uma “hipoteca social”. Tudo deveria servir ao bem-estar da sociedade. Se todo mundo tem terra, trabalho, educação, moradia, saúde, alguns podem ter palacetes, comer caviar, desde que todos concordem.

CC: Pensando em seu partido, senador, como o senhor enxerga o PMDB atualmente? O que o senhor responderia à apreciação já usual de que se trata de um partido da ordem, muitas vezes fisiológico? E qual é a aspiração daqueles mais próximos à sua visão política para o partido?

PS: Eu te devolvo a pergunta: o que é o PT hoje? O que é o PCdoB? O que se espera deles? O Brasil não tem verdadeiros partidos políticos. É o país que apresenta a esfera mais triste de partidos políticos no mundo. No Uruguai, na Argentina, no Chile, existem partidos fundados desde a independência destes países.

O Brasil nunca teve nenhum partido político com conteúdo. Durante todo o Império e durante toda a Primeira República, os partidos que existiam eram de mentira. Quando derrubaram Getúlio, em 1945, foram fundados o PTB, o PSD, a UDN; eram partidos nacionais, mas sem nenhum conteúdo ideológico. Aí veio o golpe militar e criaram a Arena e o MDB, um partido de mentira e outro de mentirinha.

Com o tempo, a Arena se desmoralizou, e o PMDB começou a ter credibilidade. E, hoje, há essa série de partidos que não valem nada.

Na história dessa vida, o PMDB é o único partido que teve lugar. Na época da ditadura, foi o partido que uniu a coligação e conseguiu a democracia. Conseguiu eleger um presidente e criar uma assembléia constituinte, conseguiu a anistia, o fim da tortura, a liberdade de imprensa. Aí, o Tancredo fez uma sacanagem com a gente – ele não podia ter morrido ou, pelo menos, poderia ter deixado outro que não o Sarney no poder. A partir daí, foi uma desgraça, nunca mais o partido conseguiu se erguer.

CC: O PMDB terá um candidato próprio para as próximas eleições à presidência?

PS: Veja, Ulysses Guimarães, foi candidato à presidente da República em uma hora em que não poderia ter sido. Sua depressão o deixou muito debilitado, e aquela história de não ser “nem Sarney nem oposição” o levou ao chão. Se fosse candidato quatro anos depois, ganhávamos brincando, mas o Quércia quis concorrer nas prévias do partido. Itamar era presidente, era do nosso partido, estava fazendo um bom governo, mas o partido não topou a candidatura de Ulysses e FHC venceu o pleito.

Depois disso, o PMDB não teve candidato próprio, ou estava vendido para o PT ou para Fernando Henrique. Aí, o partido se esfacelou.

As próximas eleições serão interessantes, pois tivemos oito anos de FHC e oito anos de PT. O PMDB tem grandes chances de ser uma terceira opção para o povo votar, mas acho que, até lá, Lula já terá comprado metade do partido e o PSDB o resto.

CC: Não posso encerrar essa conversa sem perguntar sobre a situação do seu estado, o Rio Grande do Sul, no Brasil de hoje?

PS: O Rio Grande do Sul vive uma situação dramática. Getúlio Vargas ficou 20 anos na presidência da república, e não deu um copo d’água para o estado.

Nos últimos 80 anos, mais de um milhão e meio de gaúchos saíram do estado e se mudaram para outros. Hoje, metade dos gaúchos está na parte norte e metade na parte sul do país. É capaz de fazermos um movimento, não separatista, mas de rebelião, devido ao tratamento que o governo federal tem dado ao Rio Grande do Sul.

Terminaram com o imposto sobre exportações. São Paulo exporta muito mais que o Rio Grande do Sul, mas importa uma variedade de coisas. Isso fez com que deixássemos de receber mais de R$ 1 bilhão, que o governo deveria nos compensar conforme está explicitado na Lei Kandir. Mas esse dinheiro não veio. E estamos cobrando isso. O governo do Rio Grande do Sus fez estradas federais, e hoje o governo federal não nos paga o dinheiro que nos deve.

Construímos toda a infra-estrutura do pólo petroquímico, que foi privatizado pelo governo e nunca vimos a cor do dinheiro. Uma empresa de aço, também criada pelo estado, foi repassada ao governo federal, que a privatizou e não nos deu um tostão.

Há uma série de coisas que estão acontecendo que estão acabando com o Rio Grande. Ou Lula dá uma de patriota e atende ao estado ou não sei o que pode acontecer.

Correio da Cidadania
http://www.correiocidadania.com.br/

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Natureza em construção

PROFESSOR EMÉRITO DA UNIVERSIDADE DE CHICAGO, MARSHALL SAHLINS FALA DE SUA EXPERIÊNCIA COM NATIVOS DA OCEANIA E COMPARA A GUERRA DO IRAQUE AOS CONFRONTOS ENTRE ESPARTA E ATENAS

FRANÇOIS ARMANET
GILLES ANQUETIL

M arshall Sahlins, 76, é professor emérito da Universidade de Chicago. Colaborador de Claude Lévi-Strauss nos anos 1960, Sahlins é considerado o maior antropólogo americano vivo. Ele é autor de livros como “História e Cultura” (ed. Jorge Zahar) e “Esperando Foucault, ainda” (Cosacnaify).
Especialista nas culturas do Pacífico, conservou seu espírito de contestador, forjado com a Guerra do Vietnã, como se verifica na entrevista abaixo. Sahlins também fala da Guerra do Iraque e a compara aos confrontos entre Atenas e Esparta, na Antigüidade.

PERGUNTA - De origem russa, o sr. nasceu em Chicago, berço de uma grande escola da antropologia norte-americana. De onde lhe veio o gosto por essa disciplina?
MARSHALL SAHLINS - A Universidade de Chicago de fato foi berço de uma grande escola de antropologia, mas quando cheguei a ela, em 1973, esse movimento já tinha envelhecido. Foi a escolha de Radcliffe-Brown para uma cadeira de professor, nos anos 1930, que fez de Chicago o posto avançado, nos EUA, da antropologia social britânica, ao preço de várias conciliações com a cultura local, como é o caso nesse gênero de situação colonial.
A universidade ficava no South Side, um bairro que, além da equipe de beisebol rival, abrigava judeus alemães bastante esnobes, mais cultos e ricos que os judeus originários da Europa Oriental que viviam no West Side. A gente não se misturava.
Sempre faço questão de acrescentar que tive uma criação inteiramente laica numa família não-praticante. Quanto à política, minha família não era filiada a nenhum partido, mas minha mãe admirava Emma Goldman [1869-1940, militante anarquista] e, durante o levante russo de 1905, quando ainda era criança, chegou a transportar folhetos revolucionários escondidos em sua mala escolar!
Havia, portanto, afinidades entre esse meio de imigrantes esquerdistas do Meio-Oeste americano e as teorias antropológicas de Leslie White [1900-75], que foi meu mentor na Universidade de Michigan. White era um dos grandes “intelectuais orgânicos” contestatários que a América rural e das pequenas cidades produziu na primeira metade do século 20, entre os quais figuram também Thorstein Veblen, Clarence Ayres, Charles Beard e C. Wright Mills.
Eles eram, por assim dizer, os ateus da aldeia: universitários marginais em revolta contra os exploradores, as classes dominantes, os dogmas ideológicos da sociedade americana.

PERGUNTA - Em 1965, em plena Guerra do Vietnã, o sr. lançou o primeiro “teach-in” [manifestação em forma de aula] dos EUA. Poderia nos relatar essa experiência e o papel que esse evento exerceu em seu pensamento?
SAHLINS - Lancei a idéia de um “teach-in”, em oposição ao projeto inicial de “teach-out” lançado por cerca de 20 professores, que teria consistido em suspender as aulas para organizar debates sobre a Guerra do Vietnã, fora do campus.
Diante das críticas virulentas de nossos colegas, propus, então, que ocupássemos as salas de aula após as aulas, fizéssemos “teach-ins” e criticássemos a guerra até tarde da noite.
É verdade que eu talvez tivesse uma predisposição para as oposições binárias, pois nos anos 1960 os americanos estavam se apaixonando por [Claude] Lévi-Strauss.
Mas existiam, também, condições estruturais mais gerais, especialmente o abismo de gerações, que se aprofundava nessa época: os estudantes, que até então vinham sendo aprendizes de adultos burgueses, começavam a imitar a classe operária -Levi Strauss, os jeans, não os livros!
No pós-guerra havia apenas um tipo de música popular que estava na moda nos EUA, e era apreciada igualmente por adultos e adolescentes. Então surgiram Elvis e os Beatles, comprovando que Confúcio e Platão tinham razão ao se preocuparem com a relação entre a música e a harmonia política.
De fato, já existiam na juventude americana movimentos contraculturais e contestatários dignos desse nome antes mesmo da intensificação do conflito no Vietnã, em fevereiro de 1965.
Ao reavaliar o papel que desempenhei nessa conjuntura, cheguei à conclusão de que o papel histórico dos indivíduos autoriza a si próprio uma estrutura -ou seja, uma posição no interior de um sistema, mesmo se essa posição não basta para determinar o que eles farão.
O poder coletivo pode encarnar-se em um indivíduo: seja por uma iniciativa feliz e oportuna -como no caso dos “teach-ins”, que tiveram grande sucesso-, seja pela autoridade constituída do indivíduo agindo na condição de dirigente designado de uma coletividade estruturalmente organizada para refletir e fazer ouvir tudo o que um George W. Bush pode fazer ou suportar.
Em todos os casos, porém, se esse indivíduo determina o destino da coletividade, esta, por sua vez, não determina sua própria individualidade. Como diz Sartre, o grupo é obrigado a se realizar, da mesma maneira como se deixa personificar.
De maneira geral, na esteira da Guerra Fria, a Guerra do Vietnã exerceu impacto considerável sobre praticamente todas as disciplinas universitárias nos EUA. Considerações políticas e estratégicas afetaram ou até mesmo ditaram a escolha das pesquisas científicas a serem empreendidas, das línguas a serem ensinados, das regiões do mundo a serem estudadas.
Se consideramos até que ponto a Guerra Fria impregnou todos os campos de reflexão, a época se prestava idealmente ao pensamento de Foucault, que, também ele, enxergava o poder por toda parte.
Globalmente, as ciências humanas e as letras optaram por combater os poderes instituídos, desenvolvendo uma crítica anti-hegemônica do nacionalismo, do imperialismo, do Estado, do racismo, do sexismo e de outros demônios planetários. Elas correram o risco de se debaterem numa contradição inevitável, já que, privilegiando os contradiscursos libertadores da anti-estrutura ou da desconstrução, implicitamente ratificaram certos discursos de dominação como sendo relatos fundadores, mais especialmente a versão foucaultiana.
Mas se, para muitas pessoas, a lição dos anos 1960 foi a de se opor a todas as formas de poder, a lição do Vietnã me ensinou sobretudo a celebrar todas as formas de cultura. O êxito dos vietnamitas diante do poderio americano não reforçou minha confiança no determinismo tecnológico que eu aprendera na universidade.

Iniciei uma série de estudos sobre o que chamei de a “indigenização da modernidade”, fazendo referência aos diferentes métodos culturais empregados pelos esquimós, os povos da Nova Guiné, os polinésios etc.
para inscreverem um “sistema mundial” invasor dentro de um contexto ainda mais englobador: seu próprio sistema do mundo.

PERGUNTA - Em 1968 e 1969 o sr. trabalhou com Lévi-Strauss em Paris. O que tirou desse confronto?
SAHLINS - É impossível para mim sintetizar tudo o que aprendi nessa época no laboratório de Lévi-Strauss no Collège de France. Permita que eu resuma essa experiência. Em 1969 apresentei uma pesquisa sobre determinados sistemas de troca tradicionais da Austrália e da Melanésia, precisando bem, no preâmbulo, que eu não era estruturalista, pois não falava de uma troca de mulheres ou de palavras, mas de uma infra-estrutura material bastante real e concreta -cuja análise Lévi-Strauss já concedera a Marx.
Durante a discussão que se seguiu, ele afirmou que eu era estruturalista, sim: afinal, aquilo que eu demonstrara com relação às trocas materiais correspondia a certas estruturas de troca matrimonial que ele descrevera em “As Estruturas Elementares do Parentesco” [ed. Vozes]. Protestei, citando o trecho em “O Pensamento Selvagem” [Papirus] em que ele declara que o estruturalismo é especificamente uma ciência de superestruturas.
“É verdade”, ele retrucou, “mas o sr. deve compreender que aprendi antropologia com Franz Boas [1858-1942] e Robert Lowie [1883-1957], que discutiam com índios de reservas os costumes de gerações passadas” -ele chamava isso de “arqueologia do vivo”. “Ninguém prestava atenção à existência de índios contemporâneos”, ele acrescentou. “Mas hoje é preciso estender o estruturalismo às infra-estruturas.”
Retruquei que eu acreditava que sua restrição do estruturalismo às superestruturas era uma questão de princípio científico, e não pude me impedir de lhe perguntar: “O que é o estruturalismo, afinal?”. Ele me respondeu: “É a boa antropologia, em suma”. E, de fato, segundo esse critério, admito que eu era estruturalista.

PERGUNTA - Desde quando vem seu interesse pela Polinésia e por Fiji? Pode nos explicar sua opção por uma etnografia histórica, fundamentada nos arquivos mais que no trabalho de campo? O que o sr. aprendeu sobre essas sociedades?
SAHLINS - Como muitos homens de minha geração, minha iniciação na antropologia seguiu, em sua própria escala modesta, a trajetória do primeiro grande mestre americano, Lewis Henry Morgan [1818-81]. Ele decidiu fazer um estudo de campo sobre as tribos iroquesas locais e, com isso, inaugurou a tradição etnográfica americana.
Da mesma maneira, minha infância -passada brincando de caubói e índio e lendo os romances de Fenimore Cooper [1789-1851, de “O Último dos Moicanos”] escritos em falsa linguagem indígena- me levou a fazer um estudo de campo sobre um tipo de clã incomum, por ser hierarquizado, que qualificamos como “clã cônico”.
Eu acabava de concluir um estudo das hierarquias políticas polinésias, e era em Fiji que se podia realizar um estudo etnográfico desse tipo de hierarquia de clã.

PERGUNTA - Por que o sr. escreve que a tradição nessas sociedades do Pacífico pode ser também uma modalidade de mudança?
SAHLINS - Desde o século 19, os povos do Pacífico, à medida que a sobrevivência de sua comunidade o permitiu, continuaram a ser atores e motores de suas próprias histórias.
Emprego o plural desse termo propositalmente, pois é sobretudo em suas culturas respectivas que eles foram buscar os recursos para continuar a serem atores de suas histórias. Logo, a tradição se tornou o mediador e a medida das transformações por que passaram. Basta estudar dois exemplos muito distintos de cristianização, ambos seguindo um modelo protestante e até mesmo puritano: de um lado os urapmins da Nova Guiné, que não demoraram a se perceber atingidos pelo pecado original e, portanto, se converteram em massa -por contato com outros povos da Nova Guiné- antes mesmo de terem visto qualquer missionário europeu. E, de outro lado, os havaianos, sobretudo aqueles das camadas populares, que se mantiveram “devassos” e resistiram à conversão durante décadas, porque, como freqüentemente observaram os missionários americanos, “lhes faltava a aversão por eles mesmos”.
Eu me contentarei em mencionar alguns elementos culturais para demonstrar essa diferença. Para começar, o caráter fortemente centralizado da sociedade havaiana, segundo o qual a existência e a felicidade das camadas populares dependia das ações de seus chefes. Independentemente de suas próprias convicções, como repetiam aos missionários desesperados, as pessoas comuns se converteriam ao cristianismo quando seu chefe lhes desse o exemplo.
Mas, em vista do valor político e material das relações eróticas no sistema -o famoso “espírito aloha”, que governava a sorte tanto dos chefes quanto dos não-nobres-, era difícil convencê-los a praticar a abstinência e a mortificação nas quais os protestantes enxergavam o sinal da graça divina. Um missionário deplorou o fato de os havaianos disporem de 20 palavras diferentes para designar o adultério: se ele escolhesse uma delas para traduzir o sétimo mandamento, eles pensariam que as outras formas de adultério continuariam a ser lícitas.
Inversamente, os urapmins formam um pequeno grupo, relativamente igualitário, de 360 pessoas que se casam entre si e se vêem envolvidas em relações recíprocas e complexas de parentesco, intensas e freqüentemente incompatíveis. Seria possível dizer que, em seu sistema tradicional, qualquer boa ação era também uma má ação na medida em que a escolha de viver com alguém implicava deixar de lado outra pessoa, não menos próxima; ao dar um presente a alguns, incentivava-se a crítica por ter desprezado suas obrigações em relação aos outros.
Assim, não surpreende que, para traduzir o conceito cristão de pecado, os urapmins empreguem o termo “dívida”. Mas eles se enganavam ao crer que o cristianismo seria sua redenção. Como não podiam renunciar pura e simplesmente a sua cultura tradicional, eles apenas agravaram seu caso, pois sua cultura era incompatível com os ideais de harmonia cristã.

PERGUNTA - Qual o papel da cultura em sua pesquisa antropológica?
SAHLINS - Para mim a cultura é tudo. Em suas formas e em suas transformações, seu papel na história das sociedades e na organização dos indivíduos, a cultura é o objeto por excelência de todo saber antropológico.
A melhor maneira de ilustrar essa convicção talvez seja contestar o folclore do determinismo genético que ficou tão em voga nos EUA: esse movimento pretende remeter toda forma cultural a uma “natureza humana” universal fundamentada no interesse pessoal e no espírito de competição.
Associadas às teorias econômicas da “escolha racional”, disciplinas vulgarizadas, como são a sociobiologia e a psicologia evolutiva, estão criando uma ciência humana de múltiplos usos, a ciência do “gene egoísta”. Naturalmente, é fácil reconhecer nessa suposta natureza humana o velho sujeito burguês.

Uma parcela grande demais dos americanos ainda está convencida de que “a espécie sou eu”. Entretanto, como prova a antropologia mais elementar, viver sua vida em conformidade com sua cultura permite que se tenha a possibilidade e que se reconheça a necessidade de satisfazer nossas inclinações naturais no modo simbólico, segundo definições significantes de nós mesmos, de nosso ambiente, de nossas relações e de nossas produções.
De fato, a cultura humana é bem mais antiga que nossa natureza enquanto espécie, pois ela remonta a pelo menos 2 milhões de anos, sendo que o Homo sapiens surgiu há apenas 200 mil anos, engendrado dentro de e por um contexto cultural que tomava a reprodução humana a seu cargo. Se evoluímos biologicamente, isso se deu sob a pressão da seleção cultural, ou seja, a necessidade de culturalizar nossa animalidade.
Isso não faz de nós ou de nossos ancestrais “páginas em branco” despidas de qualquer imperativo biológico; quer dizer simplesmente que o que foi selecionado de maneira específica pelo gênero Homo foi a capacidade de realizar esses imperativos de mil maneiras diferentes e pouco conhecidas, mas demonstradas pela história e pela antropologia.
O fato mais pertinente para compreender as relações entre cultura e natureza humana não é (por exemplo) o fato de que todas as culturas conhecem a sexualidade, mas que toda sexualidade conhece a cultura. As pulsões sexuais são diversamente expressas e reprimidas segundo as definições, específicas de cada cultura, de o que são os parceiros, as circunstâncias, os lugares, os momentos e as funções corporais apropriados.
Alguns chegam a praticar sexo por telefone. Outro exemplo de manipulação (o jogo de palavras é proposital) conceitual é a célebre réplica do ex-presidente Bill Clinton: “Não fiz sexo com essa mulher”.
Inversamente, sublimamos nossa sexualidade genérica de mil maneiras, incluindo a de transcendê-la e dar preferência à castidade, valorizada pelo pensamento cristão.
O mesmo se aplica à agressividade: podemos brincar de guerra, desancar impiedosamente o livro mais recente de um acadêmico inimigo ou, mesmo, à moda nova-iorquina, responder a um “tenha um bom dia” com “não preciso receber ordens de você!”.
Sejam quais forem nossas necessidades, pulsões, inclinações inatas, quer sejam de ordem agressiva, egoísta, alimentar, social ou altruísta, elas são frutos de uma definição simbólica, portanto de ordem cultural. Na espécie humana, a biologia é um determinante culturalmente determinado.

PERGUNTA - O verdadeiro pensamento selvagem é o do capitalismo contemporâneo?
SAHLINS - Não no sentido estrito do termo. Mais exatamente, o capitalismo contemporâneo implica uma mesma lógica cultural do concreto sob a forma de valores de uso, que, uma vez fetichizados como preços e colocados em ação para fins lucrativos, fazem inegavelmente o efeito de um pensamento selvagem incontrolado. Por mais que nossa racionalidade pecuniária o tenha ocultado, se ergue sobre todo um sistema de valores culturais motivados que associam sujeitos e objetos, logo, preferências e produtos, em razão de suas características distintivas.
É claro que essa realidade passa despercebida aos olhos dos sujeitos burgueses -que geralmente vivem seus valores culturais como um hábito, sem prestar atenção a ele- e dos economistas, que, tendo definido seu domínio como uma racionalidade prudente, enquadram as formas culturais nos limbos dos fatores “exógenos” ou mesmo “irracionais”.
Não nos damos conta de que nossas escolhas racionais -por exemplo, não serviremos hambúrgueres a convidados que respeitamos- são baseadas num código de valores que não guarda relação nenhuma com o caráter nutritivo e que tem tudo a ver com a significação respectiva dos órgãos e dos músculos, da carne e dos cortes, do cortado e do moído, dos pratos e dos sanduíches etc.
Da mesma maneira, não são as qualidades concretas das roupas que explicam a diferença de estilo de vestimenta que manifesta a distinção social em vigor entre homens e mulheres em situações de trabalho e de lazer, entre empresários e policiais, bailes de debutantes e boates: basta pensar em todos os significados veiculados por uma peça de vestuário, como [Roland] Barthes nos ensinou.
Vivemos hoje em um mundo que se encanta com objetos semioticamente construídos e culturalmente relativos, como o ouro, a seda, as cepas de pinot noir, o petróleo, o filé mignon, os tomates “primeira colheita” e a água pura de Fiji.
Assistimos a uma construção da natureza por meio de esquemas culturais historicamente determinados, mas cujas qualidades simbólicas são transformadas em qualidades pecuniárias, cujas fontes sociais são atribuídas a desejos individuais e cuja satisfação arbitrária é travestida em escolha universalmente racional.
Mas, como é impelido à competição pelo interesse financeiro, esse encantamento produz uma infinidade de objetos, enquanto ainda for possível metamorfosear as distinções sociais dos sujeitos e dos objetos em mercadorias rentáveis.

PERGUNTA - O sr. não hesita em traçar comparações entre civilizações geográfica e historicamente distantes, como, por exemplo, entre as guerras do Peloponeso narradas por Tucídides e as de Fiji. O que lhe traz esse olhar cruzado?
SAHLINS - O conflito entre os reinos fijianos de Bau e de Rewa (e seus respectivos aliados), que durou de 1843 a 1855, foi a maior guerra travada nos mares do Sul antes da Segunda Guerra Mundial.
Como Bau (como Atenas) era uma potência naval imperialista, e Rewa (como Esparta) era uma velha potência terrestre, a guerra da Polinésia já tinha levado os visitantes europeus do século 19 a traçar comparações entre ela e as guerras do Peloponeso. A diferença de estrutura política entre Bau e Rewa procedia de uma interdependência, comparável à relação entre o parentesco de sangue (consangüinidade) e o parentesco por casamento (afinidade), o que autoriza a pensar que os próprios fijianos teriam consciência de que essas estruturas eram o espelho invertido (a antítese) uma da outra.
Da mesma maneira, Atenas e Esparta constituem antitipos estruturais e históricos: essas duas cidades eram, respectivamente, cosmopolita e xenófoba, marítima e terrestre, comerciante e autárquica, luxuosa e frugal, democrática e oligárquica, urbana e campônia, autóctone e imigrante…
Poderíamos continuar ao infinito com essas dicotomias. O que lembra a injunção tão influente de Lévi-Strauss em “Race et Histoire” [Raça e História]: “É preciso evitar estudar a diversidade das culturas humanas caso a caso, pois essa diversidade nasce menos do isolamento dos diversos grupos que das relações entre eles”.
Como esse princípio é confirmado várias vezes em “Mythologiques” [Mitológicas], somos tentados a concluir que, apesar de seu apego à sincronia, o estruturalismo é igualmente fortemente historicista.

PERGUNTA - O que as guerras do Peloponeso podem nos ensinar sobre a guerra do Iraque, hoje?
SAHLINS - Substituindo os mitos de Heródoto pelo lógos, Tucídides usurpou o título de “pai da história”, tornando-se o queridinho dos pragmáticos das relações internacionais e outros adeptos ocidentais da “realpolitik”.
Mas o paralelo mais esclarecedor com o Iraque nos é oferecido pela guerra civil anárquica (”estase”) que devastou Corcira, onde espartanos e atenienses se envolveram no conflito interno que opunha os oligarcas locais aos democratas, disputando o controle da cidade. Em Corcira, assim como no Iraque, quando as instituições de Estado perderam toda legitimidade e a violência se tornou o recurso privilegiado de todas as causas partidárias, os valores sagrados da justiça, da moral e da religião foram afogados no sangue e reduzidos a nada.
Platão observou um dia que cada “pólis” é na verdade composta de várias “pólei”, pois ela se divide em cidade dos ricos e cidade dos pobres, em guerra de um contra o outro, e cada uma é dividida, ela própria, entre facções opostas. E, quando as causas e as forças internacionais -como a dominação ateniense sobre Corcira ou a oposição entre democracia e fundamentalismo islâmico no Iraque- se somam às dissensões locais, tem-se a impressão de assistir a um colapso da ordem cultural e à irrupção da natureza humana sob sua forma mais brutal.
Em Corcira, escreve Tucídides, “até as palavras foram obrigadas a renunciar a seu sentido habitual e aceitar aquele que se lhes era dado”. Desse modo, a premeditação virou “legítima defesa”; a moderação, “falta de virilidade”, a prudência, “covardia”.
Ecoando alguns argumentos dos sofistas, opondo o caráter superficial da cultura (”nómos”) ao caráter irresistível da natureza (”physis”), o historiador antigo afirmava que essa manifestação desenfreada de hipocrisia e injustiça se produziria cada vez que o desejo natural de poder e de lucro se chocasse com as frágeis convenções da ordem social.
E ainda encontramos os ecos dessa ideologia no comentário feito por Donald Rumsfeld [então secretário da Defesa] sobre o caos que se seguiu à ocupação americana de Bagdá: “Isso teria que acontecer, cedo ou tarde”, uma versão asseptizada de “Cedo ou tarde a coisa teria que explodir”. É um defeito que os ocidentais sempre atribuem aos outros povos, mas eles próprios tendem rapidamente a confundir natureza e cultura.
Quer seja em Corcira ou no Iraque, foi preciso uma combinação gigantesca de causas morais e políticas conflitantes para produzir esse suposto estado de natureza. Em Corcira, assim como no Iraque, a intervenção de fatores externos poderosos conferiu um valor novo e absoluto aos cismas internos da cidade, tornando-os tão insolúveis quanto abstratos e ideológicos.
Daquele momento em diante, as pessoas passaram a lutar por ou contra generalidades: a “liberdade”, a “escravidão”, a “democracia”, o “islã”, a “ditadura”, o “terrorismo”, o “imperialismo”. Fato que prova simplesmente que é necessária muita cultura para criar um estado de natureza.

Jornal Folha de São Paulo
http://www.folha.uol.com.br/

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AUDIÊNCIA PÚBLICA

Venha participar da Audiência Pública onde discutiremos com vários técnicos e a população, o Projeto de Construção da Escola Ambiental na Chácara Silvestre.

Dia 13 de Dezembro de 2007 - Às 19h – no Plenário ‘Tereza Delta’ – Câmara Municipal de São Bernardo – Praça Samuel Sabatini nº 50 – Centro.

Exerça sua cidadania!
Participe

SOS Chácara Silvestre

Contatos: Tel. 7475-6899
Site: http://chacarasilvestre.vilabol.com.br
E-mail: chacarasilvestre@gmail.com

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Os estragos do vício

O Irã é um dos países com mais viciados em heroína e ópio no mundo: oficialmente, são 1,2 milhão de toxicômanos e 800 mil consumidores ocasionais

Cédric Gouverneur

A Pérsia está habituada há séculos a um consumo de ópio recreativo e moderado, no âmbito de práticas culturais ligadas à poesia e ao misticismo
Cai a tarde sobre os milhares de casebres de taipa do gueto de Shir-Abad, situado atrás das pistas do aeroporto de Zahedan. Um grupo de refugiados afegãos está reunido na encosta da colina, sobre detritos, em volta de uma fogueira. Têm entre 15 e 50 anos. Alguns fugiram de seu país há vinte anos. Outros, em dezembro de 2001. No fogo, queimam as cinzas de um cigarro de heroína que acabaram de fumar. Recuperados dessa maneira, os resíduos adquirem uma segunda vida e são imediatamente reinjetados. Aqui, HIV ou não, as mesmas seringas usadas são partilhadas por braços cobertos de feridas. O mais jovem dos viciados suplica a nosso acompanhante, com grandes olhos vidrados: “Me dê um dinheiro para comprar uma dose! Me dê!” Um de seus companheiros tem a presença de espírito de afastar as numerosas crianças da vizinhança que, intrigadas, vêm observar o curioso ritual dos adultos. Oficialmente, Shir-Abad não existe: o bairro nem é mencionado nos mapas da cidade.

O Irã é um dos países do mundo com mais viciados em heroína e ópio1. Haveria oficialmente, no interior da República Islâmica, 1,2 milhão de toxicômanos e 800 mil consumidores ocasionais, para um total de 73 milhões de habitantes. “Esses números de 1999 são muito subestimados”, avalia um jornalista iraniano especialista no assunto. “Aqui, a droga continua sendo um tabu.” Vejamos um exemplo: em meados de janeiro, em Teerã, a polícia interrogou no parque de Haft-e-Tir dezenas de “pervertidos sexuais que importunavam as mulheres”, segundo a versão oficial da televisão estatal, controlada pelos conservadores. Tratava-se, na verdade, de toxicômanos e de revendedores. Nas ruas e parques do sul de Teerã, é comum cruzar com os rostos pálidos dos viciados em heroína e em ópio. Este é vendido a 20 mil rials (6,50 reais) o grama, a heroína, a 10 mil rials a dose. São preços no varejo, que triplicaram a partir do verão. Misturada em mais de 90%, essa heroína provoca regularmente ondas letais de intoxicações – cerca de oitenta em três meses, no último outono, somente na região de Teerã.

O tédio da juventude
Atualmente, o consumo de opiáceos passou do campo cultural para o campo social, devido à oferta abundante de tóxicos e à demanda pelos consumidores
A Pérsia está habituada há séculos a um consumo de ópio recreativo e moderado, no âmbito de práticas culturais ligadas à poesia e ao misticismo. Em Kerman, em Isfahan, entre os nômades Lor, em Chiraz entre os nômades Kashkai, nas províncias curdas e azerbaijanas do oeste do país, o cachimbo de ópio continua a ser usado normalmente, principalmente entre as pessoas de idade madura. Atualmente, o consumo de opiáceos passou do campo cultural para o campo social, em razão da oferta super-abundante de tóxicos e da grande demanda dos consumidores, exacerbada pelas frustrações econômicas e sociais – o desemprego atinge 20% da população e 53% dos iranianos vivem abaixo do nível de pobreza. Nas classes populares urbanas, a toxicomania atinge em particular os mohajirs (refugiados): afegãos, iranianos deslocados por ocasião da guerra Irã-Iraque, ou devido ao êxodo rural, vulneráveis por serem deserdados, desterrados e pouco aceitos pelo controle social comunitário. No Khorasan, no Sistan-Baluchistão e em Kerman, as regiões mais atingidas pela droga, 70% dos divórcios são motivados pelo vício do cônjuge.

Segundo os estudiosos do assunto, o tédio da juventude seria também um dos fatores explicativos dessa toxicomania: a nova geração – 70% dos iranianos têm menos de 35 anos – privilegia os aspectos nacionais e ocidentais de sua identidade indo-européia, por oposição aos valores islâmicos. Ora, a cultura ocidental é rigorosamente banida pelas autoridades religiosas. A maior parte dos jovens deve, portanto, apelar para passatempos ilegais: música pop proveniente dos países vizinhos ilicitamente ou via Internet, vídeo cassetes de filmes vendidos clandestinamente, shows e festas clandestinas, álcool de contrabando… Nesse contexto de proibições, uma droga pesada pode ser assimilada a um passatempo ilegal como qualquer um outro. Um abrandamento, mesmo parcial, das restrições culturais que os conservadores – repudiados de eleição em eleição desde 1997 – impõem à sociedade civil, daria um pouco de fôlego à juventude. Mas esse avanço parece, por enquanto, ilusório: como alguns desses conservadores se preocupam com o sucesso dos ciber-cafés, estes serão proibidos, em breve…

Modernização desmascara tabus
Os ciber-cafés fazem grande sucesso entre os jovens. Preocupadas com isso, as autoridades conservadores irão proibi-los, em breve
“Quando alguém não consegue se adaptar à sociedade, droga-se para encontrar energia e inspiração.” Hossein Dezhakam sabe do que está falando. Esse assistente social usou “todos os tipos de drogas” durante mais de vinte anos. Atualmente um ativista da ONG Aftab (O sol), em Teerã, tenta tirar do vício os toxicômanos. Todos os dias, umas cinqüenta pessoas, homens e mulheres, de 14 a 70 anos, vêm à sede da Aftab para partilhar suas experiências em terapias de grupo baseadas no modelo dos Alcoólatras Anônimos. “Infelizmente, as drogas são atraentes”, observa Dezhakam. Daí a necessidade de desenvolver a prevenção. Se, em janeiro de 2002, existiam apenas três cartazes de prevenção em toda Teerã – 12 milhões de habitantes –, a informação, no entanto, está progredindo. Há alguns anos, oficialmente, a toxicomania havia desaparecido com o regime do Xá.

Atualmente, nas campanhas de prevenção, as autoridades deixaram de lado o discurso institucional para adotar a linguagem da rua. Na televisão, os clips multiplicam-se, destinados aos jovens, aos pais de família, enfatizando a degradação provocada pela heroína e o ópio. Em meados de janeiro, o governo autorizou a liberação pelas farmácias de seringas esterilizadas, a fim de limitar as contaminações relacionadas às injeções. É uma decisão inimaginável até pouco tempo atrás. Com a reeleição de Mohamad Khatami em 2001, os iranianos exigiram a avaliação, com toda a transparência, das fragilidades do sistema. A lenta supressão dos tabus que cercam a toxicomania está inserida nesse movimento.

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1Segundo as Nações Unidas, em 2000, o Irã contaria com 2,8% de viciados em heroína e em ópio, o Laos com 2,1%, o Tadjiquistão, com 2%, e o Paquistão, com 1,7%. (http://undep.org/)

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/
março 2002

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Quinta-feira, páginas foram retiradas do ar

Bruno Ribeiro
Do Diário do Grande ABC

O site do Insefusa – ferramenta que comprova a ineficiência da entidade –
saiu do ar, quinta-feira, após o contato do Diário com a reitoria da
Fundação Santo André. A reportagem havia gravado as páginas antes de serem
retiradas da internet.

O site trazia um Calendário com a mensagem “Em manutenção”. A área
Atividades do Insefusa estava em branco. O boletim informativo mais
recente era de março de 2006. Até o curso de pós-graduação em Segurança
Pública da Fundação (coordenado por Vanderlei Siraque) aparecia lá. O
curso foi dado em 2005.

A assessoria de imprensa da Fundação informou que o site estava
desatualizado. O coordenador-geral do Insefusa, Nelso Stepanha, alegou que
alguns dos funcionários que apareciam na lista do site não trabalham mais
na entidade.

Não existiria mais, por exemplo, a Coordenadoria de Comunicação.
Entretanto, os funcionários da coordenadoria, um deles ex-assessor de
Siraque (veja quadro), continua trabalhando na Fundação Santo André.

Panfleto - Não é só o site que está abandonado. Quinta-feira, a reportagem
esteve no Insefusa, que fica no Anexo I da Fundação Santo André. A única
funcionária trabalhando era a secretária administrativa. Ela entregou um
panfleto sobre o Insefusa ao ser questionada sobre o que a entidade fazia.

O panfleto – impresso em português e inglês – é ainda mais antigo ainda do
que o site. Traz o corpo docente da Fundação da gestão passada (que
terminou em 2004), quando a vice-presidente da Fundação era Maria Zorello
Laporta, e não Oduvaldo Cacalano.

O informativo, de 26 páginas, traz todo o conteúdo do Curso de
Pós-Graduação em Políticas de Segurança Pública da Fundação, com
disciplinas e horários. Seria coordenado por Vanderlei Siraque. O curso
durou apenas um ano.

Diário do Grande ABC
http://home.dgabc.com.br/

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Siraque defende instituto e nega indicações

Bruno Ribeiro
Do Diário do Grande ABC

“A Fundação Santo André não merece o Insefusa”, é o que acredita o
deputado estadual Vanderlei Siraque (PT). Ele diz que a faculdade deveria
estimular centros de pesquisa como o instituto, mas que as disputas
internas entre os cursos da Fundação tornam inviáveis qualquer tipo de
ação na instituição de ensino.

Siraque diz que os custos do Insefusa são altos porque a entidade não
busca financiamentos externos. E que a entidade não faz tais buscas,
novamente, por conta das brigas internas da Fundação.!!!!!!

O deputado, que membro da Comissão de Segurança Pública na Assembléia
Legislativa, negou que o Insefusa seja um reduto de aliados políticos
dele. “Só nomeie duas pessoas para o Insefusa: o coronel Jânio Brendamini
e Maximino Fernandes Filho. Ambos saíram de lá para outros empregos”, diz
o deputado, afirmando que os demais funcionários do instituto passaram por
processo de seleção e foram empregados pela reitoria da Fundação. O
próprio deputado não teria, hoje, vínculo nenhum com o Insefusa.

Já em clima de campanha eleitoral para prefeito, Siraque afirmou que as
saídas para a Fundação são a federalização da entidade (uma faculdade
pública e gratuita mantida pelo governo federal) ou a dissolução do Centro
Universitário. “Aí a Prefeitura nomeia e destitui o reitor e pronto”, diz
o deputado, afirmando que não há saída para a crise política vivida hoje
na Fundação.

Reitor - O reitor da Fundação Santo André, Odair Bermelho, não quis dar
entrevistas sobre o assunto. Foi sob a gestão de Bermelho que o Insefusa
foi criado. O instituto está vinculado à Fundação de tal forma que é
função do Conselho Diretor da Fundação preservar e garantir a existência
do Insefusa.

“Esse Insefusa só deveria existir se esses fossem tempos de vagas gordas.
E não são. Não podemos nos dar ao luxo de manter uma instituição assim”,
diz o vice-reitor da Fundação, Oduvaldo Cacalano.

Diário do Grande ABC
http://home.dgabc.com.br/

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Após 3 anos, Insefusa ainda é ‘fantasma’

Bruno Ribeiro
Do Jornal Diário do Grande ABC-dia 27/11/2007

Funcionando há três anos e três meses e com uma estimativa de custos acima
de R$ 2 milhões nesse período, o Insefusa (Instituto de Políticas de
Segurança da Fundação Santo André) aparenta ser uma instituição fantasma.
Tem um custo anual cinco vezes maior do que sua previsão de arrecadação e
cobra para fazer trabalhos de diagnósticos que já são feitos gratuita e
diariamente pela Secretaria de Segurança Pública.

O instituto foi criado pelo deputado estadual Vanderlei Siraque (PT), em
2004, na época em que era professor da Fundação. Tinha a missão de
elaborar estudos ligados à área de segurança pública, “com o ideário de
levar de forma prática, objetiva e científica as questões referentes à
violência e à segurança pública para dentro da universidade”, segundo
texto do site.

“Levantamos boletins de ocorrência de uma área e determinamos os tipos de
crimes mais comuns e os horários em que eles ocorrem. Nossos clientes são
diversas cidades”, explica o coordenador-geral do Insefusa, Nelso
Stepanha. O trabalho é idêntico ao realizado pelas polícias Civil e
Militar. A diferença é que o Insefusa cobra. Mesmo assim, quatro
municípios do Estado já contrataram o Insefusa desde a sua criação.

Stepanha afirma que o diferencial da Secretaria de Segurança Pública é que
o Insefusa faz projeções de quais crimes crescerão e propõe alternativas
de combate. E lembra que o instituto faz cursos de formação para Guardas
Municipais em Santo André e São Bernardo.

Estimativas apresentadas pelo Insefusa ao Conselho Diretor da Fundação
trazem uma previsão de arrecadação de R$ 59,1 mil para este ano com os
contratos de prestação de serviços. Já a previsão orçamentária da Fundação
para manter o Insefusa durante o ano é de quase R$ 350 mil.

O dinheiro para manter o instituto sai do bolso dos estudantes da
Fundação. O combate à entidade é uma das bandeiras dos alunos e
professores da Fafil (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras), que
protagonizaram a recente greve na faculdade.

“Esse instituto não tem nada a ver com a atividade-fim da Fundação Santo
André que é educar. Ele não traz retorno algum, só prejuízos. Tem seis
funcionários e consome cerca de R$ 350 mil porano. O que não daria para fazer com esse
dinheiro por ano?”, afirma o Vice-Reitor da Fundação Santo André, Oduvaldo
Cacalano.

Cabide - Os professores acusam o Insefusa de ser um cabide de empregos de
Vanderlei Siraque. O coordenador-geral da entidade, Nelso Stepanha, é
ex-funcionário do deputado. Ele foi assessor parlamentar de Siraque na
Câmara Municipal de Santo André até 2004.

A situação é a mesma com seis dos oito membros declarados do Insefusa.
Todos já trabalharam com o deputado. Siraque não faz parte da Fundação
Santo André desde 2005.

Diário do Grande ABC
http://home.dgabc.com.br/

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Liberdade para matar

Luiz Eça

“Atirar primeiro, perguntar depois” no Velho Oeste era normal. Na Bagdá de hoje, também. Foi assim que seguranças da Blackwater, que protegiam um comboio de diplomatas, mataram 16 civis inocentes. Investigações, tanto da polícia iraquiana quanto do comando central do exército americano, concluíram que não havia nada que justificasse a ação.

Apesar disso, ninguém foi preso. É que, no Iraque, os profissionais contratados pelo governo de Washington não estão sujeito às leis do país. Mesmo que cometam assassinatos.

Foi um legado deixado pela administração americana ao conceder independência ao Iraque, em 2004. Algo que lembra a China dos tempos do Império do Meio, quando as potências ocidentais possuíam concessões no país onde vigoravam suas próprias leis.

Três anos se passaram. Beneficiados por esta “licença para matar”, os seguranças, todos eles contratados pelo Departamento de Estado, mataram muitos civis, em circunstâncias pelo menos duvidosas. Foi necessário o sacrifício de 16 inocentes em pleno centro de Bagdá para que o governo iraquiano fizesse alguma coisa.

Indignado, o primeiro ministro Nouri al-Maliki declarou que expulsaria a Blackwater e todos os mil seguranças dela que trabalham no país.

Mas três dias depois, pressionado pelo governo Bush, mudou o discurso: a expulsão seria adiada para o fim do contrato da Blackwater, daqui a 6 meses.

Enquanto isso, os autores do crime viajaram rapidamente para os Estados Unidos, certos da sua impunidade. Até que tinham razão. Não estando sob a responsabilidade do exército americano, não podiam ser julgados pela Justiça Militar. Pela civil, seria complicado, pois tudo acontecera no exterior. Estavam num limbo legal.

Premido pela opinião pública mundial, o governo americano ordenou um inquérito que, iniciado pelo Departamento de Estado, passou em seguida para o FBI. Aí aconteceu uma surpresa. Ao serem re-inquiridos, a maioria dos indigitados recusou-se a prestar qualquer informação, invocando a Constituição. Foi então denunciado que membros do Departamento de Estado ofereceram imunidade aos seguranças que prestaram depoimento a eles. Isso significa que não poderiam ser processados por tudo o que dissessem.

A investigação do FBI ficou, assim, seriamente prejudicada, pois caso os seguranças fossem a julgamento, a promotoria estaria impedida de usar suas declarações.

Líderes do partido Democrata protestaram diante desta escandalosa proteção. O senador Barack Obama solicitou esclarecimentos de Condoleezza Rice, a quem está adstrito o Departamento de Estado.

Por sua vez, George W. Bush fugiu a uma resposta direta, mas declarou que apreciava os “valiosos serviços da Blackwater e os sacrifícios feitos por seus funcionários na proteção das vidas de pessoas”…

Chocante, talvez, mas absolutamente natural. A família de Erik Price, que dirige a Blackwater, tem sido uma das maiores financiadores do Partido Republicano desde 1990. Ele próprio financia as campanhas de Bush há muito tempo.

A Blackwater é a maior empresa de mercenários do mundo, com 2.300 “soldados” atuando em vários países. No Iraque, ela é a líder, com mais guardas e equipamentos do que as duas maiores concorrentes juntas. O faturamento total das três é de 520 milhões de dólares por ano na proteção de diplomatas e empresários no país.

As empresas de segurança não se limitam a prestar esse tipo de serviço. Elas atuam como verdadeiras unidades de apoio ao exército americano. Um bom exemplo é o que aconteceu em Abu Ghraib. No relatório ao alto comando militar, do major general Antonio M. Taguba, ele acusa os mercenários da empresa de segurança CACI de serem “direta ou indiretamente responsáveis pelas torturas”. O relatório Taguba mencionou especificamente um mercenário da CACI, Steven Stephanowicz, por ter estimulado um policial sob seu comando a aterrorizar presos, “deixando claro que suas instruções incluíam violências físicas”.

Ao que se sabe, o pessoal da CACI envolvido nas barbaridades de Abu Ghraib foi deixado em paz. Não poderia ser de outro modo. Afinal, a justiça militar americana poupou também todos os oficiais e agentes da CIA denunciados nos depoimentos de réus e testemunhas – a patente mais alta levada a julgamento foi de sargento.

A verdade é que, apesar de repetidas declarações em contrário, o exército americano não tem se distinguido pelo cuidado em poupar inocentes. Ao ponto de o dócil primeiro ministro al-Maliki ter se queixado de o general David Petraeus, atual comandante das forças americanas, ter adotado uma política de “mão pesada”, que infringiu muitas e desnecessárias baixas na população civil. As Nações Unidas informaram que 88 iraquianos foram mortos por ataques aéreos no período abril-junho deste ano, exigindo um rigoroso inquérito no último deles, no qual morreram 15 pessoas, inclusive 9 crianças.

Evidentemente, os americanos, sendo uma força de ocupação, também gozam do direito de não serem julgados pelas leis locais. Exigir que esse privilégio acabasse seria demais para o governo iraquiano. No entanto, eles tiveram coragem para, em 30 de outubro, aprovar uma lei submetendo as empresas de segurança e os mercenários à justiça do Iraque. Sabe-se que também insistem em processar em Bagdá os assassinos da Blackwater.

Nada disso é do agrado da Casa Branca. Como ela reagirá?

Bush não tem por norma desagradar leais seguidores, especialmente quando também financiadores. Mas agora que ele se apronta para tomar medidas mais radicais contra o Irã não é bom desagradar seus aliados que governam o Iraque. Muito menos o povo local, que se encontra pra lá de revoltado.

Bush confia que, com a passagem do tempo, o primeiro ministro al-Maliki e seus colegas de gabinete acabarão baixando o tom, pois sabem que, sem os americanos, não durariam muito no poder.

Quanto ao povo, esta é uma categoria cujo humor só preocupa Bush quando se trata do americano, por seu poder de eleger os governos do país.

Correio da Cidadania
http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_frontpage&Itemid=1

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Ouro preto

Aninhada entre as montanhas da Serra do Espinhaço (MG), Ouro Preto conserva as genuínas características de seu esplendor como metrópole do ciclo do ouro no Brasil colonial. Palácios, igrejas e casarões testemunham o fausto da capital das Minas, nascida da febre do garimpo, no fim do século 17.

Ângelo Oswaldo de Araújo Santos

Ouro Preto é uma cidade aninhada entre duas grandes montanhas, na Serra do Espinhaço, no coração de Minas Gerais. Conserva, de modo mágico, as características genuínas de seu esplendor como metrópole do ciclo do ouro no Brasil colonial. Palácios, igrejas e casarões testemunham o fausto da capital das Minas, nascida da febre dos garimpos, no final do século 17.

Ao longo de apenas cem anos, a cidade evoluiu e se transformou em um sofisticado centro de cultura, que gerou a arte de Aleijadinho, a música de Lobo de Mesquita, a poesia de Cláudio Manuel de Costa e o sonho libertário de Tiradentes.

Em 1933, o presidente Getúlio Vargas declarou Ouro Preto monumento nacional. Um ano depois, com os debates da Constituinte sobre Patrimônio Histórico, surgiu a Inspetoria de Monumentos, que deu início a diversas restaurações na cidade. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) foi criado em 1937 e, no ano seguinte, a cidade tombou na linha do horizonte visual da área urbana.

Em 1980, ela foi o primeiro monumento brasileiro a integrar a lista do Patrimônio da Humanidade. Desde os anos 50, missões da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) atestaram a importância do conjunto urbano e de suas obras de arte. Ao comemorar 70 anos, o Iphan pode se orgulhar do que fez para um acervo como Ouro Preto.

A Praça Tiradentes demarca o centro da velha capital. A casa de câmara e cadeia é o palácio que acolhe o Museu da Inconfidência, com uma museografia sensacional, moderna e instigante. Do outro lado, o Palácio dos Governadores guarda uma das maiores coleções mineralógicas do mundo, além de um observatório astronômico.

Revista Planeta
http://www.terra.com.br/revistaplaneta/

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Todos estaremos nus na internet

Estrela de ‘High School Musical’ clicou-se para o namorado e foi parar na rede. A tecnologia pôs fim à privacidade

Pedro Doria

Na fotografia, Vanessa Hudgens está nua. De pé, seus longos cabelos negros para trás, ela sorri. Não é a melhor das fotos: um quê desfocada, pouco iluminada, o cenário é um quarto bagunçado. Ela tem 18 anos, fará 19 em dezembro. É a estrela de High School Musical, o telefilme que se tornou o maior sucesso recente dos Estúdios Disney. O álbum com a trilha sonora foi o disco mais vendido de 2006. High School Musical 2 estreou em agosto. Uma versão para o cinema está para ser lançada.

Mas agora a atriz favorita das pré-adolescentes está nua na internet. A foto amadora, tirada para o namorado com uma câmera digital, vazou ninguém sabe explicar bem como.

“Gostaria de me desculpar perante meus fãs, cujo apoio e confiança significam tudo para mim”, declarou Vanessa numa mensagem por escrito. “Estou envergonhada por conta dessa situação e me arrependo de ter tirado essas fotos.” Em 2004, quando um dos seios da cantora Janet Jackson apareceu disfarçadamente e de longe durante um concerto transmitido ao vivo, ela foi obrigada a pedir desculpas públicas inúmeras vezes enquanto ia perdendo patrocinadores e contratos para shows e participações em séries de TV.

Vanessa se desculpou uma única vez e, quando ficou claro que nenhuma onda de críticas viria, a Disney aceitou suas desculpas, encerrando o caso.

“A internet nos deixou mais confortáveis com a nudez”, diz o professor Paul Levinson, chefe do departamento de comunicação da universidade jesuíta Fordham, de Nova York. Para ele, a ampla disponibilidade de câmeras digitais e acesso de banda larga à rede produzirá cada vez mais imagens de pessoas nuas, sejam famosas ou não, que terminarão acidentalmente online. Ficarão tão comuns nos próximos anos que deixarão de chocar por completo. “Nossos cérebros são programados para querer ver pessoas do sexo oposto nuas”, ele sugere. “Considero quem reclama da nudez dos outros um grupo de fanáticos e vejo, pelos meus alunos, pelos meus filhos, que as gerações mais jovens tendem a concordar comigo.”

Se, dessa vez, não despertaram a ira de colunistas conservadores que cobram das estrelas bons exemplos, certamente as fotografias fizeram sucesso na rede. O nome de Vanessa deve terminar setembro como o mais buscado no Google durante o mês. Desde que aquela única imagem veio à tona, foram divulgadas também outras da série, nas quais aparece parcialmente vestida. E os sites especializados em fofocas estão numa caça desenfreada por mais imagens.

A Disney é considerada um dos estúdios de cinema mais pudicos e não à toa: como lida diretamente com crianças e adolescentes mais jovens, está sob a constante vigilância da imprensa conservadora americana. Se, para o estúdio, o episódio é tenso, a história das fotos que vazaram para a rede de Vanessa Hudgens não é única - trata-se apenas do episódio mais recente.

Há algumas semanas, caíram na internet fotos tiradas por um paparazzo da atriz britânica Sienna Miller numa praia européia. Fotos pessoais que vazaram ou que foram pescadas por fotógrafos em praias ou casas com muros altos, nos últimos anos, capturaram Uma Thurman, Gwyneth Paltrow, Alyssa Milano e a cantora francesa Vanessa Paradis. Não são novidade - até Jacqueline Kennedy Onassis foi flagrada nua por um fotógrafo indiscreto, nos anos 1970. A diferença é a internet, que amplia a distribuição das imagens e contribui para que seja impossível apagá-las.

No início do mês, aconteceu com a atriz brasileira Nathália Rodrigues, da TV Record. “Deixa o fotógrafo ser feliz com o dinheiro que ele ganhou”, sugeriu Nathália a um dos sites de fofocas da rede. E deu de ombros. Ela estava na Praia do Abricó, dedicada ao nudismo, no Rio.

“A cultura da internet vai se desenvolver de uma forma que é difícil prever”, diz cautelosa a professora Ruth Barcan, antropóloga da Universidade de Sydney, na Austrália. Ela, que escreveu Nudity, a Cultural Anatomy - Nudez, uma anatomia cultural - não vê a situação como Levinson. Se é verdade que a rede tornou a disponibilidade da nudez mais ampla e usual, não quer dizer que ela tenha se tornado mais aceitável.

Para ela, não é a internet mas sim a própria cultura que vem, nas últimas décadas, ampliando a representação da nudez. Isso não se traduz em maior aceitação do corpo. “Hábitos sexuais são mais tolerados, imagens de nudez mais comuns”, ela diz, “mas a cultura também nega o corpo, ao afirmar que ele só é aceitável após passar por transformações, como o uso do desodorante, cirurgias plásticas ou tintura de cabelo.”

High School Musical é a adaptação para uma escola secundária de Romeu e Julieta. Vanessa faz a boa aluna de física que se apaixona pelo astro do time de futebol americano - e, como cabe às velhas narrativas de Hollywood, seu namorado na vida real é o ator Zac Efron, com quem contracena. Perante o comportado romance adolescente - que até parece nascido duma campanha de marketing -, as fotos pessoais destoam.

“Não podemos nos esquecer que a internet é muito diversa”, diz a professora Barcan. “Então o tipo de nudez nela varia muito, da arte mais sofisticada à pornografia mais grosseira.” No amplo inventário da nudez online, cada vez mais é comum aquilo que Vanessa fez: a jovem moça que posa para seu namorado. É comum a toda sua geração, que cresceu online, habituada a tecnologia. E é um hábito universal.

O New York Times já registrou jovens casais de países repressores, como o Irã, que mal podem se ver pessoalmente, mas se expõem um para o outro em conversas filmadas por webcams, isolados cada um em seu respectivo quarto. No Brasil, há sites especializados em “fotos de namoradas”, de universitárias, que vêm à tona num ritmo semanal.

Nesse sentido, as fotos que Vanessa tirou um dia, protegida em seu quarto, para enviar ao namorado por e-mail, a tornam uma legítima representante de sua geração. “Todo mundo terá a sua foto nu”, diz Farhad Manjoo, comentarista da revista eletrônica Salon. “E essa foto vai parar na web. Com o tempo, reconheceremos tais imagens como nada mais do que a prova de uma vida vivida ao máximo.”

Talvez. Autor de The Transparent Society - A sociedade transparente -, o futurista David Brin vê diferentemente. A tecnologia, diz ele, eliminou qualquer possibilidade de haver privacidade. Só isso. Teremos que nos habituar.

Jornal O Estado de São Paulo
http://txt.estado.com.br/

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EUA gastaram US$ 100 milhões para proteger arsenal nuclear do Paquistão

da Folha Online

O governo dos Estados Unidos gastou quase US$ 100 milhões em um programa secreto nos últimos seis anos para ajudar o Paquistão a proteger seu arsenal nuclear, segundo a edição deste sábado do jornal “New York Times”.

Citando funcionários do alto escalão do governo, o jornal afirmou que, no entanto, diante da incerteza devido à situação política no Paquistão, “intensifica-se o debate” sobre se os Estados Unidos fizeram o suficiente para ajudar o ditador paquistanês, Pervez Musharraf, a resguardar os laboratórios e armas nucleares.

Também surgem dúvidas sobre se a negativa do governo paquistanês em revelar certos detalhes sobre seu arsenal nuclear “enfraquece a eficácia desses esforços de segurança”.

A ajuda, incluída em contribuições secretas do Orçamento federal, estava destinada à capacitação de funcionários paquistaneses em território americano e à construção de um centro de capacitação sobre segurança nuclear no Paquistão, segundo o jornal, que cita ex-funcionários do governo de Washington.

O centro devia ter entrado em funcionamento este ano, mas sua construção não foi concluída.

O jornal afirma que os Estados Unidos entregaram ao Paquistão “vários equipamentos”, de helicópteros a lentes infravermelhas para a detecção de centrais nucleares, para reforçar a segurança do armamento nuclear e os laboratórios onde ocorreu “o pior caso de proliferação nuclear na era atômica”.

Embora aparentemente o arsenal esteja protegido e o Paquistão tenha dado garantias aos EUA nesse sentido, “em muitos casos o governo paquistanês se mostrou reticente a mostrar às autoridades americanas onde e como se usam esses armamentos”, afirma a reportagem.

Segundo o “New York Times”, “os paquistaneses não querem revelar a localização de suas armas ou o tipo ou a quantidade” do combustível produzido no país.

O diário afirmou que dispunha há três anos da informação sobre a ajuda americana ao programa nuclear paquistanês, mas que havia decidido não publicá-la a pedido da Casa Branca –que considerava, por sua vez, que a revelação poderia comprometer os esforços para garantir a segurança dessas armas.

Segundo Daniel Markey, um ex-alto funcionário do departamento de Estado que trabalha hoje para o centro de política internacional Council of Foreign Relations, a hipótese de uma tomada de poder por parte dos islâmicos seria “horrível” –porque obrigaria as forças armadas americanas a localizar e a proteger as instalações nucleares paquistanesas. Para este analista, “é impossível ter a certeza de encontrar” tais instalações devido à falta de informações da inteligência sobre o assunto.

Evitar este “cenário de pesadelo” pressupõe “boas relações de trabalho” com o exército paquistanês, mas “isso não significa que apoiamos um ditador”, declarou Markey à agência France Presse.

Se o governo americano decidir deixar de apoiar Musharraf, deverá tomar cuidado para não romper as relações com as instituições paquistanesas. “É esse equilíbrio que é complicado”, explicou o especialista.

Estima-se que o Paquistão, o único país muçulmano a contar com a bomba atômica, possua cerca de 50 armas nucleares.

O programa de ajuda secreta foi criado depois dos atentados de 2001, quando o governo do presidente George W. Bush analisava se os EUA deveriam compartilhar ou não o chamado sistema Pals, que impede a detonação de uma arma se não forem usados os devidos códigos e autorizações.

O governo Bush decidiu que, devido a restrições legais, não podia compartilhar com os paquistaneses o sistema, considerado “uma das jóias da coroa da tecnologia de proteção nuclear”, afirmou o “New York Times”.

Eleições

Musharraf recomendará à comissão eleitoral que organize eleições gerais para o 8 de janeiro próximo, segundo um comunicado governamental deste domingo.

O ditador tornou a data pública depois de ter se reunido com o número dois do departamento de Estado americano, John Negroponte, que o aconselhou a suspender o estado de emergência, em vigor desde o último doa 3, a organizar eleições livres e transparentes e a conversar com a oposição para resolver a crise política na qual seu país está imerso.

No sábado, a comissão eleitoral paquistanesa se comprometeu a revelar a data destas eleições em 21 de novembro.

Antes da declaração deste domingo, Musharraf tinha anunciado eleições legislativas e provinciais para antes de 9 de janeiro.

Jornal Folha de São Paulo
http://www.folha.uol.com.br/

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A arte de falar sozinho

Gabriel Perissé
28-Nov-2007

Observem. Pelo menos na cidade de São Paulo tenho visto muitas pessoas falando sozinhas. Não deve ser fenômeno apenas desta cidade de correrias sem destino. Talvez não seja fenômeno exclusivo de grandes cidades. Talvez seja fenômeno mundial.

Rubem Braga, em alguma crônica, escreveu que Paris era indiscutivelmente uma boa cidade para se falar sozinho na rua, mesmo em português. Toda rua é palco para monólogos com ou sem audiência atenta.

Sempre houve pessoas falando sozinhas na rua, gesticulando, olhando o infinito. Nem sempre é loucura. Ou nunca é loucura. Ou então somos todos loucos, porque todos falam sozinhos. Pensar é falar consigo mesmo. Dialogar com outras vozes habitantes em nós. Somos legião. Moram em nós outras vozes, com as quais concordamos ou discordamos o tempo todo.

Aliás, há pessoas que, até quando falam com alguém, sozinhas estão falando, porque não estão realmente falando com o outro. Estão apenas falando. Falando consigo mesmas. Não querem ser compreendidas ou rejeitadas. Querem falar porque precisam falar. O outro poderia ser uma parede. Poderia ser um espelho.

Há pessoas que conversam com objetos, outra forma de falar sozinhas. Há pessoas que dirigem palavras ao computador. Xingam o computador. Pedem que ele não trave. Pedem que ele colabore.

Rezar é falar sozinho? Sonhar é falar sozinho? Cantarolar uma música é falar sozinho? Falar sozinho é conversar com o diabo?

Também falam sozinhos aqueles que escrevem. O leitor não está ali. Falamos sozinhos, ou com as palavras conversamos. E o leitor, depois, ao ler o texto, também está falando sozinho. O autor não está ali, apenas a sua sombra, o eco, a imagem, a lembrança, a palavra.

José Angelo Gaiarsa, no livro As vozes da consciência, de 1991, afirmava algo insólito: “a finalidade última do homem é falar sozinho”. Uma frase talvez ridícula, pensava o próprio autor. Mas essa frase algo me diz. Converso sozinho com a minha consciência, e a minha consciência conta-me coisas.

Falar sozinho não é egoísmo, não é idiossincrasia, não é problema. É solução. É saudável introspecção. Falando de mim para mim, eu saio de fora para dentro. Saio da dispersão, entro em contato com esse estranho eu que eu sou.

O poeta português José Gomes Ferreira disse tudo: “Que o primeiro poeta que nunca falou sozinho pelas ruas se levante e me atire a primeira estrela!”.

Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor.

Correio da Cidadania
http://www.correiocidadania.com.br/

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Luta jurídica frenética antecede a última execução de pena de morte dos EUA

Kevin Johnson

Michael Wayne Richard já estava vestido para sua execução no corredor da morte do Texas, no dia 25 de setembro, quando Suprema Corte americana anunciou, às 19h30, que não ia adiar a injeção letal do assassino condenado.

“Gostaria que os membros da minha família cuidassem uns dos outros”, pediu Richard, vestindo um jaleco branco, calças combinando e chinelos. “Vamos nessa. Acho que é isso.”

Às 20h23, Richard, 48, estava morto. Ele foi a 42ª pessoa executada nos EUA neste ano e a 26ª no Texas, Estado que mais impõe a pena de morte.

Agora, sua execução pelo estupro e assassinato de uma enfermeira em 1986 tornou-se o mais recente ponto no debate nacional sobre se a pena capital está sendo aplicada com justiça. A execução ocorreu depois de uma frenética luta judicial nos bastidores, que provocou intensas críticas do sistema de justiça do Texas e confusão sobre as ações do principal tribunal do país.

A Suprema Corte dos EUA, sem comentários, recusou-se a intervir na execução de Richard -apesar de, horas antes, ter dito que usaria um caso de Kentucky para rever questões sobre a injeção letal.

A decisão da corte efetivamente deteve as execuções no país. Desde que permitiu a execução de Richard, os juizes suspenderam as próximas três, inclusive outra no Texas. A não ser que a Suprema Corte permita uma execução na Flórida, marcada para quinta-feira, a execução de Richard talvez seja a última até que a Suprema Corte decida sobre o caso de Kentucky no próximo ano, dizem os analistas.

Entrevistas com advogados de defesa e autoridades estaduais, junto com documentos da justiça e da prisão, revelam o caos que ocorreu nas horas antes da execução de Richard.

Enquanto os advogados de defesa corriam para terminar os recursos de último minuto, colapsos de seu sistema de computador descarrilaram-nos repetidamente. Com a execução marcada para 18h, a principal corte criminal do Estado decidiu não estender seu horário de funcionamento para além das 17h, impedindo que os advogados de Richard pedissem o adiamento da execução até que a Suprema Corte decidisse o caso de Kentucky.

Justo antes da hora marcada para a execução de Richard, o advogado de defesa Greg Wiercioch recebeu um ultimato do promotor geral do Texas: o Estado daria seis minutos aos advogados para entrarem com um recurso final na Suprema Corte ou seguiria com a injeção letal, segundo Wiercioch. Os advogados de Richard, lutando com os problemas de computador, mal cumpriram o prazo.

Jerry Strickland, porta-voz do promotor geral do Texas, Greg Abbott, admite que o escritório “instou (os advogados de Richard) a entrarem com os recursos restantes o mais rápido possível”, mas diz que não foi uma ameaça. Strickland diz que o Estado adiou a execução até receber nota da Suprema Corte dizendo que não ia interceder.

Essa concessão fez pouco para acalmar os críticos. Pela primeira vez em seus 49 anos de história, a Associação Nacional de Advogados de Defesa Criminal entrou com queixa contra um juiz, chamando o fechamento da Corte de Recursos Criminais do Texas em noite de execução de “fracasso chocante” do sistema de justiça.

Carmen Hernandez, presidente da Associação Nacional de Advogados de Defesa Criminal, diz que o grupo pediu à Comissão de Conduta Judicial do Texas para rever as ações da juíza Sharon Keller, presidente da corte que autorizou o fechamento. Keller recusou-se a comentar.

No mês passado, em aparente concessão às críticas, a Corte Criminal de Recursos disse que ia começar a aceitar pedidos eletrônicos em casos de pena de morte ou outros apelos de emergência.

Lee Coffee, o primeiro a processar Richard há mais de duas décadas em Houston por matar a enfermeira Marguerite Dixon, admite que o processo legal poderia ter funcionado melhor no final.

Entretanto, qualquer desconforto que Richard possa ter tido antes ou durante a execução é pequeno se comparado com o que sofreu a família de Dixon, diz Coffee.

“É uma pena que a família da vítima tenha sido torturada por mais de 20 anos”, diz Coffee, referindo-se à longa estadia de Richard no corredor da morte. “Este caso deveria ter chegado a uma conclusão há um tempo.”

O argumento pelo adiamento
Mesmo na morte, Michael Richard nunca foi uma figura particularmente simpática.

Dois meses depois de sua condicional por condenações de furto de automóveis e fraude, Richard atacou Dixon dentro de sua casa em um subúrbio de Houston, violentou-a, atirou em sua cabeça, pegou duas televisões e fugiu na van da família Dixon, de acordo com os registros da prisão.

Se Richard merecia morrer ou não pelo crime de 1986 não fazia parte do argumento que seus advogados utilizaram em seu último pedido à Suprema Corte para adiar a execução. Em vez disso, eles argumentaram que, como a Suprema Corte tinha anunciado mais cedo naquele dia que ia revisar todo o processo de injeção letal, simplesmente não era hora de Richard morrer.

Por dois meses antes da execução, Wiercioch, David Dow e outros advogados da pena de morte do Serviço de Defesa do Texas em Houston entraram com apelos alegando que Richard, ex-mecânico, era retardado mental. Seu QI foi medido em 64; um índice de 70 ou menos em geral indica retardamento, diz Wiercioch. (Em 2002, a Suprema Corte determinou que executar retardados mentais criminosos violava a oitava Emenda da Constituição que proíbe punição cruel e incomum.)

Na manhã de 25 de setembro, os advogados de Richard entraram com o que achavam que seria seu último apelo à Suprema Corte na questão do adiamento. Às 9h da manhã, a Suprema Corte anunciou que havia aceitado o caso de Kentucky, que testa o padrão para decidir se a mistura de três drogas usadas nas injeções letais carrega um risco de sofrimento. A maior parte dos Estados, inclusive o Texas, adotou a mesma mistura de sódio tiopental, um barbitúrico, brometo de pancurônio, agente paralisante, e cloreto de potássio, que pára o coração.

Dow soube da decisão da corte às 10h15, quando terminou de dar uma aula na Universidade de Houston.

Às 11h40, ele estava em uma conferência telefônica com seis advogados do Serviço de Defesa do Texas em Houston e Austin, para redigir um novo recurso à Corte de Recursos Criminais do Texas. Se rejeitado, eles pediriam à Suprema Corte para deter a execução até que os juizes decidissem a questão da injeção letal.

A notícia da ação da Suprema Corte no caso de Kentucky espalhou-se rapidamente pelo corredor da morte em Livingston. Na madrugada daquela manhã, Richard tinha empacotado todos seus pertences -24 pacotes de sopa instantânea, carne seca, biscoitos e uma saboneteira, um radio e correspondências- em cinco sacas de cebola. As sacas foram endereçadas para entrega para sua família após sua morte.

A nova possibilidade de recurso ofereceu novas esperanças para Richard e sua família. “Ele achou que ia ficar”, diz Parecia Miller, sua irmã. “Todos estão falando isso.”

Wiercioch diz que a equipe de defesa não entrou com questionamento à injeção letal anteriormente por duas razões: os advogados acreditavam que os argumentos de retardamento mental eram mais fortes e questionamentos anteriores do procedimento de execução fracassaram repetidamente. “No Texas, (questionar a injeção letal) era um cachorro morto”, diz Wiercioch.

Os planos da equipe de defesa começaram a fracassar às 15h15, quando seu sistema de computador do escritório de Houston do Serviço de Defesa do Texas, grupo que funciona com fundos privados e se especializa em pena capital, caiu enquanto os advogados tentavam redigir o recurso. A queda cortou os contatos eletrônicos entre Houston e Austin onde os assistentes e advogados estavam esperando para imprimir as 10 cópias dos documentos e entregá-las à corte de recursos do Texas, antes do fechamento das 17h.

Esforços repetidos para consertar os computadores fracassaram. Às 16h30, a equipe de defesa em Austin começou a alertar a secretária na Corte Criminal de Recursos sobre o problema, disse Dow, e a probabilidade do recurso de Richard chegar atrasado.

Louise Pearson, secretária da corte, não respondeu ao pedido de comentários. Advogados de defesa dizem que foram negados ao menos quatro pedidos de mais tempo para enviarem o recurso -o último foi às 16h48, depois dos advogados recuperarem as operações de computação. Dow diz que sua equipe pediu à corte para entrar com o recurso eletronicamente. O pedido foi rejeitado, diz ele.

“Todo mundo no escritório ficou revoltado”, diz Dow.

Menos de meia hora antes da hora marcada para a execução, quando a equipe de defesa voltou-se para sua última opção -a Suprema Corte- os problemas de computador recomeçaram.

O recurso contra a injeção letal assumiu importância maior cerca de 17h30, quando a corte rejeitou o argumento de retardo mental. Dow diz que o pedido de adiamento devido ao questionamento da injeção letal à Suprema Corte talvez tivesse sido enfraquecido porque a corte do Texas nunca o havia julgado, então não deixou registro para a Suprema Corte considerar.

Enquanto os advogados de defesa corriam para superar os problemas técnicos às 17h55, Wiercioch diz que recebeu um telefonema incomum do subpromotor geral do Texas, Baxter Morgan.

Segundo Wiercioch, a promotoria estava ciente dos problemas que afligiam a defesa. Ele disse que Morgan ligou para avisar que o Estado ainda planejava seguir com a execução.

“Eu disse: ‘Calma, calma!’”, lembra-se Wiercioch, acrescentando que pediu mais tempo. A resposta de Morgan, segundo Wiercioch, foi: “Você tem seis minutos.”

“Foi uma conversa chocante”, diz o advogado de defesa. “Era como falar com um robô.”

Strickland, porta-voz da promotoria, diz que “a caracterização da conversa pelo Serviço de Defesa do Texas e Greg Wiercioch não é precisa”.

Strickland, entretanto, não nega especificamente que Morgan referiu-se ao prazo de seis minutos. Ele diz que as palavras de Morgan foram mal caracterizadas como ultimato. “O advogado de Richard sabia muito bem que a ordem de execução… seria efetiva às 18h”, diz Strickland.

Mesmo assim, Strickland diz que, imediatamente após a conversa, a promotoria instruiu as autoridades carcerárias a suspenderem a execução até que a Suprema Corte se pronunciasse.

“A integridade do processo”
As 29 testemunhas da execução estavam reunidas em salas próximas à câmara de morte, quando a Suprema Corte recebeu o novo recurso de Richard.

As 18h se passaram e o atraso se prolongava. Miller -um dos três apoios de Richard designados para assistir a execução- disse que um funcionário da prisão sugeriu que o atraso podia ser um “bom sinal”.

Cerca de 20h10, entretanto, as testemunhas foram levadas para assistir o evento.

Miller diz que viu seu irmão preso à maca. “Dava para ouvi-lo”, diz Miller, referindo-se à breve declaração final de Richard. “Ele fechou os olhos, ouvimos seu último suspiro.”

Nada da descrição de Miller indicou que Richard apresentou sinais de dor, questão importante para a Suprema Corte avaliar o caso de Kentucky.

A execução de Richard, se de fato foi indolor, foi estranhamente similar a como Richard previu que seria, mais de duas décadas atrás em uma conversa com Coffee, hoje juiz no Tennessee.

Coffee diz que a conversa começou quando o ex-promotor ofereceu a Richard a sentença de prisão perpétua em troca de ele se dizer culpado. Coffee diz que a família de Dixon concordou com a oferta para evitar o estresse de um julgamento público. Mas Richard rejeitou o acordo “friamente”.

“Ele me disse que a pena de morte seria seu último barato”, diz Coffee. “Ele disse que o Estado do Texas ia dar a ele um monte de drogas e ele ia cair no sono.”

Vinte anos depois, Coffee rejeita a noção que Richard estava tentando se gabar ou falara com a mente nublada por deficiência mental. “Você não vê muitas pessoas tão frias, tão duras. Ele não tinha medo”, diz.

Hernandez, presidente do grupo de advogados de defesa nacional, diz que os fatos assustadores do caso e a conduta ofensiva de Richard não deviam ser a questão.

“É sobre a integridade do processo”, diz Hernandez. “O teste do sistema é como funciona em um caso difícil, quando não há fatores mitigantes e o réu não é particularmente simpático. No caso de pena de morte, há um fim irrecuperável. Você não pode fechar as portas dos tribunais, especialmente em um dia de execução.”

Jornal Usa Today
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Consertando o Iraque sem os norte-americanos

Kevin Cullen

Quando políticos e elaboradores de políticas falam sobre consertar o Iraque, o problema é geralmente retratado como um conflito religioso não administrável entre pessoas incapazes de deixarem de lado as suas fidelidades sectárias e tribais. E grande parte dos norte-americanos acredita que nós teremos que consertar essa situação - ou simplesmente escaparmos, deixando os iraquianos lutarem perpetuamente.

Mas uma nova abordagem para a resolução de conflitos desenvolvida por um pequeno grupo de negociadores da África do Sul e da Irlanda do Norte sugere que existe uma nova maneira de pensar sobre o conflito civil no Iraque, uma maneira na qual os Estados Unidos não desempenham um papel central e na qual os iraquianos simplesmente assumem o controle sobre o seu próprio processo de decisão.

Essa abordagem consiste em enxergar o Iraque como uma sociedade dividida, de forma semelhante à Irlanda do Norte - um país cujo povo está cindido por desacordos e desconfianças fundamentais, mas que não está irreversivelmente fragmentado ou condenado ao caos. O conserto de uma sociedade dividida exige um conjunto de instrumentos que não estão associados à diplomacia tradicional: começar de forma pequena, trazer os grupos antagônicos para um território neutro e não esperar que respostas surjam a partir dos governos.

“Governos são incapazes de lidar com sociedades divididas, porque eles não as entendem”, explica Padraig O’Malley, professor da Universidade de Massachusetts em Boston que vem trabalhando em uma estratégia de negociação para o Iraque. “Pessoas de sociedades divididas estão em uma posição melhor para ajudar integrantes de outras sociedades divididas”.

O processo pode ser lento e gradual, e por natureza é destituído de discursos políticos. Mas se ele funcionar, pode compensar de uma forma que não está ao alcance da diplomacia tradicional: criando uma paz duradoura a partir do seio da própria sociedade, em vez de se basear em um acordo imposto por grandes potências estrangeiras.

Com esse objetivo, O’Malley recentemente ajudou a promover o transporte de um grupo de políticos iraquianos, tanto sunitas quanto xiitas, para se reunirem com líderes civis e políticos sul-africanos e irlandeses em um remoto resort finlandês durante quatro dias. Eles esperam que a conferência possa ser o primeiro passo para uma abordagem nova e simplificada para a resolução daquilo que é visto por muita gente como o conflito mais complicado do mundo.

As raízes dessa abordagem remontam à transição da África do Sul para além do regime de apartheid. Durante anos, a elite formada pela minoria branca daquele país simplesmente ignorou a maioria negra, recusando-se a reconhecer o mandato democrático desta última, e mais importante, a própria humanidade dela. Quando o regime do apartheid começou a perder o controle sobre o poder, a situação passou a contar com todos os ingredientes para a explosão de uma cruenta guerra civil.

Mas quando Cyril Ramaphosa, o principal negociador do Congresso Nacional Africano, e o seu congênere do Partido Nacional, Roelf Meyer, começaram a se reunir regularmente em sessões discretas e não divulgadas publicamente, eles descobriram que tinham um vínculo em um nível básico e humano. A enormidade do abismo que separava os dois lados começou a estreitar-se quando eles passaram a conversar sobre o tipo de país que desejavam para os seus filhos.

A inesperada transição suave para além do apartheid teve um efeito profundo sobre O’Malley. Um acadêmico nascido em Dublin que passou grande parte das décadas de 1970 e 1980 na Irlanda do Norte, ele começou a permanecer durante longos períodos na África do Sul. Em ambos os países, ele não se limitou a apenas estudar os conflitos, tendo se envolvido na solução, tentando fazer com que os combatentes que conversavam com ele se comunicassem também entre si.

Em 1992, O’Malley ajudou a trazer os sul-africanos que contribuíram para o fim do apartheid para Boston para se reunirem com representantes de várias facções beligerantes da Irlanda do Norte. Eles se encontraram no Museu e Biblioteca John F. Kennedy, com o propósito de discutir como uma declaração de direitos poderia ajudar a resolver conflitos que se arrastavam havia gerações nos dois países. Mas, para O’Malley, a reunião dizia mais respeito a fazer com que os africanos e os irlandeses se conhecessem. Em 1996, com o auxílio de O’Malley, Ramaphosa e Meyer foram a Belfast para uma segunda rodada de discussões com os indivíduos da Irlanda do Norte.

No ano seguinte, em uma conferência na África do Sul, Nelson Mandela, então presidente da África do Sul, conversou com dois grupos distintos da Irlanda do Norte - sindicalistas protestantes que queriam que a região continuasse fazendo parte do Reino Unido, e nacionalistas católicos e republicanos, que desejavam a união com a República da Irlanda. Mandela não suavizou as palavras. Ele afirmou que o Exército Republicano Irlandês (IRA) teria que propor um cessar-fogo. E disse que os sindicalistas precisavam conversar com os republicanos irlandeses, antes mesmo que o IRA renunciasse às armas.

Membros do Sinn Fein, o braço político do IRA, quase todos eles ex-integrantes do IRA, ficaram impressionados com Mac Maharaj, o último líder militante do Congresso Nacional Africano a baixar as armas. Maharaj, que era um herói para diversos líderes do IRA, explicou como Mandela, seu antigo companheiro de cela em Robben Island, o convenceu de que a luta armada tornara-se contraproducente, e de que eles precisavam negociar com os afrikaners.

“Pessoas que não podiam ser vistas conversando entre si em Belfast conversaram em Boston e em Johannesburgo”, diz O’Malley. “Houve conexões humanas reais”.

No ano passado, contrariamente à maioria das previsões, o IRA desmobilizou-se e renunciou às suas armas. Em maio último, contra todas as previsões, o pregador protestante fundamentalista, reverendo Ian Paisley, líder do maior partido sindicalista, abandonou uma vida inteira de retórica anti-católica e anti-republicana e ingressou em um governo de compartilhamento de poder com Martin McGuinness, o ex-comandante do IRA.

McGuinness declarou que Mandela teve um profundo efeito sobre ele, ao dizer: “Você faz a paz com os seus inimigos, não com os seus amigos”.

“É algo que soa muito simples”, disse McGuinness. “Mas quando ele fez essa afirmação, ela significou algo. Ele nos pediu que fizéssemos algo que ele próprio fizera”.

As experiências na África do Sul e na Irlanda do Norte forneceram a O’Malley e aos negociadores desses países alguns princípios básicos que eles acreditam que foram cruciais para o sucesso, e eles vêem o Iraque como um outro caso no qual isso poderia funcionar.

Primeiro, o conflito civil no Iraque precisa ser percebido não como um vertiginoso choque de civilizações, mas como um confronto em uma sociedade dividida devido a um conjunto específico de circunstâncias históricas. Tais conflitos estão enraizados nas emoções humanas básicas de medo, desconfiança e preconceito.

Os políticos iraquianos com os quais O’Malley tem conversado reclamam de que a divisão sunita-xiita é um paradigma simplista usado por forasteiros para reduzir uma divisão social complexa a algo que o Ocidente consiga entender. Os iraquianos insistem em dizer que a divisão não se baseia na religião, mas em influência e poder - quem controla e distribui recursos e empregos. Havia um paradigma similar na Irlanda do Norte: o conflito era freqüentemente descrito como sendo entre católicos e protestantes, quando os próprios combatentes insistiam que ele realmente dizia respeito a identidade nacional e poder, e que a filiação religiosa era coincidente, e não causal.

Segundo, esses negociadores descobriram que indivíduos, e não governos, contam com a chave para resolver o conflito. Diplomatas de alto escalão dificilmente vivem em meio ao conflito, e não estão condenados a viver com as conseqüências do fracasso. Aqueles que viveram situações de conflito violento contam com uma credibilidade consideravelmente maior junto àqueles que atualmente vivenciam tal realidade.

“É como um vício”, opina O’Malley. “Somente quando você coloca os viciados juntos eles se relacionam uns com os outros de uma forma que os outros não conseguem fazer. Eles trocam histórias nas quais reconhecem os seus próprios comportamentos”.

A autodeterminação e a posse do processo também são cruciais. Durante as conversações da Irlanda do Norte, Mandela insistiu que os facilitadores do seu país só continuariam a fazer as intermediações se as facções norte-irlandesas solicitassem formalmente o envolvimento deles. Isso estabeleceu um princípio-chave na nova abordagem: nada seria imposto, e aqueles engajados no conflito teriam que tomar todas as grandes decisões.

Terceiro, não há problema nenhum - e na verdade isso é provavelmente necessário - em que as partes antagônicas confrontem-se fora do seu ambiente. O’Malley e os outros descobriram que inimigos políticos ou rivais são capazes de conversar uns com os outros de forma mais aberta e honesta caso saiam do aquário da política doméstica, e quando não dão coletivas à imprensa enquanto negociam, já que estas poderiam reduzir o processo a uma barganha, ou, pior do que isso, à demagogia. O’Malley afirma que é crucial que as negociações sigam o seu curso natural, durante meses ou anos, sem que sejam objeto de posturas partidárias.

Desde o sucesso que tiveram na Irlanda do Norte, os negociadores individuais tanto da África do Sul quanto da Irlanda do Norte viajaram para outras regiões mergulhadas em conflitos profundos - tendo conversado com os bascos, os palestinos e os bósnios, entre outros. Os resultados foram mistos. Por exemplo, após alguns passos promissores nas conversações entre os separatistas bascos e o governo espanhol, as negociações empacaram e recentemente a violência ressurgiu.

O’Malley acredita que essa abordagem pode dar frutos no Oriente Médio, onde as grandes negociações de paz, ensaiadas e patrocinadas pelos governos, tais como os Acordos de Oslo, geraram bastante atenção, mas não produziram nenhum resultado duradouro.

Durante a última semana de agosto, O’Malley levou um grupo de 16 iraquianos até um resort finlandês a algumas horas de carro de Helsinque. Lá eles foram recebidos por um grande grupo de negociadores africanos e irlandeses - na primeira vez em que estes se reuniram e tentaram reproduzir o sucesso que tiveram em acabar com os problemas na Irlanda do Norte.

A conferência foi organizada pela iniciativa privada, e financiada por Robert Bendetson, diretor da rede de lojas de móveis Cabot House e um ex-aluno de O’Malley na Universidade Tufts.

A delegação iraquiana era composta de políticos sunitas e xiitas, incluindo aqueles leais ao clérigo xiita radical Moqtada al-Sadr, e de deputados ligados a várias milícias e grupos insurgentes. Ela também incluiu o ministro da Reconciliação Nacional, Akram al-Hakim.

Os africanos e os irlandeses não começaram explicando como tiveram sucesso, mas falando sobre onde eles inicialmente fracassaram. Foi uma estratégia deliberada para não dar a impressão de que agiam como conselheiros que tinham respostas para tudo. Quando os políticos norte-irlandeses explicaram a dificuldade de tentar conversar com os inimigos ao mesmo tempo tentar garantir aos seus eleitores que você não está se vendendo, os iraquianos acenaram a cabeça em sinal de aprovação.

Uma sessão foi dirigida por McGuinness, o ex-comandante do IRA e atual vice-primeiro-ministro do governo de coalizão na Irlanda do Norte, e por Jeffrey Donaldson, um dos principais membros do Partido Sindicalista Democrático, que representa a maioria dos protestantes na Irlanda do Norte. Dez anos atrás, Donaldson recusou-se a estar na mesma sala que McGuinness durante uma conferência de paz na África do Sul, por vê-lo como um assassino.

Quintin Oliver, um estrategista político da Irlanda do Norte, diz que os iraquianos reagiram durante a conferência de forma bastante semelhante aos norte-irlandeses quando estes primeiro se reuniram com os facilitadores sul-africanos em Boston e nas conferências seguintes: nos dois primeiros dias eles se dedicaram principalmente a fazer perguntas aos irlandeses e africanos, mas a seguir os iraquianos começaram a conversar entre si.

Um dos iraquianos veio até O’Malley e lhe disse: “Nunca conversamos sobre os nossos problemas de forma tão franca”.

No último dia, os iraquianos se reuniram apenas entre eles. Após passarem cinco horas juntos, apresentaram um comunicado de 12 pontos comprometendo-se com os princípios democráticos e a reconciliação. Grande parte disso se baseava nos Princípios Mitchell, o roteiro usado nas conversações da Irlanda do Norte uma década atrás por George Mitchell, o ex-senador dos Estados Unidos pelo Estado do Maine.

À medida que as notícias da conferência na Finlândia se espalhavam, os céticos não perdiam tempo em observar que poucos daqueles que dela participaram tinham qualquer poder real no Iraque, tanto na política formal quanto junto aos diversos grupos armados. O’Malley responde dizendo que esta abordagem do conflito é uma progressão, que existe um processo inicial de sondagem, e que as sessões seguintes passam a atrair um conjunto mais amplo e influente de personalidades.

“A maneira como essas coisas começam é sempre a mesma”, disse ele. “Você começa com a etapa de colocar as partes juntas. A seguir, faz com que eles se acostumem a estar juntos, a entender que há lições importantes a serem aprendidas com essas outras experiências, especialmente no que diz respeito à formulação do compartilhamento de poder e à reforma dos serviços de segurança. Caso eles aceitem esses princípios como uma base para como as negociações possam ocorrer, haverá uma nova rodada. Mas, antes que eles negociem, é necessário que saibam quem está participando ou não, quais são as regras básicas, e como o grupo trata as pessoas que permanecem fora do processo. A negociação das regras é o prelúdio da negociação real”.

Cabe ao Iraque decidir se haverá outra conferência similar àquela na Finlândia. O’Malley pretende retornar ao Iraque no mês que vem para avaliar o apetite por uma nova rodada de conversações.

Se houver tal apetite, como ele prevê, haverá representantes mais graduados e influentes dos grupos xiita e sunita, bem como das várias facções insurgentes.

O’Malley também espera estender a sua idéia de patrocínio de negociações até outras áreas em conflito. Nesta semana representantes de comissões de verdade e reconciliação da Guatemala, de El Salvador, do Chile e da África do Sul irão se reunir na Universidade de Massachusetts em Boston para trocar as suas experiências com representantes da Irlanda do Norte e da Sérvia, onde tais comissões ainda estão em estágios de planejamento.

“Antes de correr, é necessário caminhar”, afirma O’Malley.

Jornal The Boston Globe
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/boston/

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‘Terror financeiro’ é nova arma para tentar prorrogar a CPMF

Osiris Lopes Filho
28-Nov-2007

Divulgada a arrecadação dos tributos federais, o resultado tem sido auspicioso para o Fisco. Anuncia-se que, no acumulado de janeiro a outubro deste ano, o governo federal arrecadou R$ 491 bilhões de reais, uma elevação de 12%, em relação a igual período de 2006.

Estima-se que até o final do ano haja um excesso de arrecadação em torno de 50 bilhões de reais, o que é superior aos 40 bilhões, que se projetou como receita a ser obtida em 2008, caso haja a prorrogação da CPMF.

A catástrofe financeira para a saúde, anunciada com veemência apocalíptica pelo presidente Lula, está longe de acontecer, ainda que negada a prorrogação desse tributo perverso.

O que impressiona na trajetória da vida do Lula é a sua transformação de líder operário a estadista usurário, utilizando técnicas terroristas para obter adesão dos senadores à prorrogação da CPMF. É preciso muita desenvoltura no manejo das cifras, para se afirmar que os 40 bilhões de reais estimados como arrecadação a ser realizada em 2008, se mantida a CPMF, são imprescindíveis à saúde, à previdência e à assistência social.

É que, paralelamente à prorrogação da CPMF, prevê-se a prorrogação da Desvinculação das Receitas da União – a DRU. Por este mecanismo financeiro, criou-se dreno nas receitas dos impostos e contribuições arrecadados pela União, pelo qual 20% dessa receita são desviados de sua finalidade original, prevista na lei e na Constituição, e vão compor o superávit primário, criação eufêmica imposta pela banca internacional, mediante a intervenção do FMI para garantir o financiamento da dívida pública da União.

A DRU possibilita que cerca de 8 bilhões sejam retirados da finalidade da CPMF e direcionados para formar o bolo que assegura a credibilidade financeira do país, no plano internacional. Portanto, o governo federal, entre saciar o apetite dos rentistas, credores da União, e atender ao povão necessitado do amparo estatal, realiza essa cunha de cerca de 8 bilhões de reais nos recursos que são retirados dos contribuintes brasileiros em nome da generosidade social. Porém, em realidade, a proteção à saúde constitui tema para ameaça terrorista ao Senado, e não matéria para efetiva ação governamental.

O discurso do presidente Lula é objetivo. Coloca navalha afiada na carótida dos senadores. Em verdade, o governo teve quatro anos, contados a partir de 2003, para cumprir a Constituição e dar efetividade ao caráter temporário da CPMF. Embromou e não se preparou para viabilizar a extinção da CPMF. Acena com a catástrofe da saúde do povo, para ameaçar os senadores. Mas a realidade desmente o discurso terrorista. É o próprio Executivo federal que opta por favorecer o apetite argentário dos rentistas em detrimento da saúde do nosso povo. Os dados foram lançados há muito tempo. O governo federal é caloteiro, em matéria de dívida social do país.

Osiris de Azevedo Lopes Filho, advogado, professor de Direito na Universidade de Brasília – UnB – e ex-secretário da Receita Federal.

Correio da Cidadania
http://www.correiocidadania.com.br/

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TV Digital: O povo fora do foco

Ivan Valente (P-Sol SP)

“Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, a TV Digital entra no ar neste domingo, dia 2 de dezembro. Uma festa, cheia de pompa e circunstância, está sendo organizada para 600 convidados das empresas de radiodifusão em São Paulo. As emissoras já anunciam que será a revolução na televisão brasileira! O presidente Lula fará um pronunciamento à nação às oito da noite. O número de cidadãos que assistirá a tal pronunciamento em versão digital, no entanto, é ridículo. Somente há uma semana os conversores da TV digital chegaram ao mercado e praticamente ninguém os adquiriu.

Por uma razão muito simples: os chamados set top boxes estão sendo vendidos por um preço muito superior ao que foi anunciado pelo governo federal. O aparelho mais barato, que oferecerá apenas a imagem em qualidade de DVD, não custa menos do que 500 reais. Para ter acesso à alta definição, o consumidor não pagará menos do que 700 reais no conversor, mais os milhares de reais do próprio aparelho de TV, já que os atuais não estão aptos para receber tais imagens.

E pior: nenhuma das caixinhas disponíveis no mercado está preparada para a interatividade, uma das grandes promessas do ministro Hélio Costa para a TV digital. Quem quiser ter acesso à interatividade terá que trocar de aparelho depois.

Sr. Presidente, o que estamos vivenciando é a síndrome do “eu não disse?”. Durante o processo de discussão sobre a nova tecnologia, o governo foi alertado inúmeras vezes sobre os riscos dos altos custos e os possíveis prejuízos da adoção do padrão japonês pelo Brasil, que privilegia a alta definição. Jogou fora no lixo milhões de reais investidos em pesquisa e tecnologia nacional e, para atender à pressa e à pressão dos radiodifusores, preferiu importar um modelo não desenvolvido para as características do nosso país.

Na época, os pesquisadores brasileiros já afirmavam que os conversores para a alta definição do ISDB (o padrão japonês) custariam pelo menos 700 reais, sem calcular os royalties e as licenças. Mas o Ministério das Comunicações insistia em garantir que os conversores seriam acessíveis à maioria da população. Quantas vezes não ouvimos o ministro Hélio Costa dizer que o conversor da TV Digital custaria entre 100 e 200 reais? Agora o governo joga a culpa na má-fé dos empresários, que estariam boicotando a revolução da TV Digital no Brasil, como se a escolha pelo padrão japonês não interferisse nesses custos.

O ministro afirma que o padrão a ser usado no país é o nipo-brasileiro. Ou seja, que foram introduzidas algumas mudanças no sistema japonês para incorporar tecnologia nacional. Essas alterações, no entanto, só complicaram mais a situação do país. Por um lado, seguimos dependentes da tecnologia externa e, por outro, operamos com um modelo que só existe no Brasil. Ou seja, estamos isolados inclusive do próprio mercado japonês, o que dificultará a queda no preço dos conversores. Os aparelhos importados diretamente podem simplesmente não funcionar. Já os produzidos aqui, o governo alega que cairão de preço quando crescer a procura.

Mas qual parcela da população investirá mil reais para receber a TV aberta com imagem melhorada, já que parte da classe média e a maioria da classe alta já possui TV por assinatura, com boa qualidade de imagem e muito mais opções de canais? Quem dará escala à produção desses conversores para que o preço caia e a população mais pobre consiga comprá-lo?

Isso sem falar que em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, onde o espectro da televisão já está congestionado, não haverá espaço na TV Digital sequer para os chamados canais públicos criados pelo decreto do Presidente. Quanto mais para a transmissão em sinal aberto da TV Câmara, Senado ou Justiça. Essa semana, o escritório da Anatel em São Paulo não soube informar onde esses canais, incluindo a TV Brasil, serão alocados.

Enquanto isso, o governo dá mais espaço para as emissoras que já descumprem os princípios e regras para a exploração da radiodifusão funcionarem no modo digital. Os supermercados eletrônicos, que vendem produtos 24 horas por dia na TV - o que é proibido -, terão espaço na TV digital. Já os canais públicos, comunitários, universitários seguem sem garantia alguma de veiculação no novo formato.

Ou seja, Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, o que entrará no ar neste domingo em São Paulo nada mais é do que o símbolo de uma das decisões mais equivocadas tomadas por este governo. E a sociedade brasileira, que foi totalmente excluída e alijada do processo de decisão sobre a nova televisão para o país, é que vai pagar por isso.

Muito obrigado.

Plenário da Câmara dos Deputados – 28/11/07

Discurso do dep. fed. Ivan Valente no plenário da Câmara, 28/11/07 sobre a TV Digital, que “estréia” no Brasil neste domingo.
http://www.ivanvalente.com.br/CN02/noticias/nots_07_det.asp?id=1428

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O PROBLEMA ONDE ESTÁ

Jânio de Freitas

O TEMPO, já cinco anos, não atenua o pasmo diante do despudor com que petistas, no Congresso e no governo, adotam atitudes que renegam todo o seu passado, renegam portanto a eles próprios, e invertem hoje tudo o que ontem ensinaram a seus filhos, sustentaram à sua volta e pregaram publicamente em busca da confiança alheia.

E esse espetáculo sem novidade é tudo o que sobressai da novela emperrada em torno da usurpação de mais R$ 40 bilhões da população, sob o rótulo de CMPF, pretendidos pelo governo com o argumento inverídico de ser dinheiro indispensável à continuidade de suas ações. Por toda parte da administração, há verbas orçamentárias retidas pelo Tesouro, o Planejamento e a Fazenda, imensos recursos disponíveis porque, a mês e meio do fim do ano, não foram destinados às suas finalidades previstas para os meses passados. Verbas, inclusive, para atividades essenciais.

O espetáculo do despudor de tantos petistas sobressai, mas, de fato, ainda nos exibem outro. Sem novidade, também, apenas reiterado com ênfase renovada. É a demonstração de que entre o governo e seus operadores políticos, se encontram congressistas que não querem se vender para determinada votação, não têm sequer a competência mínima para jogar o jogo político, o das articulações e da negociação parlamentar. Ou é a transação de corruptor e corrupto, ou é a sucessão de tropeções e nonsense que se tem visto no Senado. Diz-se, não é de agora, que os problemas políticos e administrativos do Brasil vêm da falta de reforma política, reforma tributária, reforma eleitoral, reforma disso e daquilo. O problema mesmo, político e administrativo, é a extensão da falta de caráter.

Duas datas As águas do petróleo ficam mais claras, menos poluídas pela contaminação marqueteira. A primeira perfuração com encontro de petróleo na área Tupi, esta que é agora o centro da grande revelação, tem já dois anos. A segunda, que teve o mérito de perfuração confirmatória da reserva petrolífera, foi feita no ano passado.

O recuo Se a bagunça a que os passageiros estão sujeitos, ao precisarem usar aviões comerciais, depende do “sistema aeroportuário deficiente” e “do tempo”, como disse ontem o ministro Nelson Jobim, por que sua pressão, pública e rombuda, para afastar os diretores da Anac, contra os quais, exceto no caso de Denise Abreu, não foi apontada irregularidade ou suspeita alguma? Entre as poucas medidas adotadas por Nelson Jobim, das tantas propaladas, figurou a restrição do uso de Congonhas, em São Paulo, para vôos com mais mil quilômetros. Era para evitar os numerosos vôos com conexão naquele aeroporto. O limite foi ampliado agora em mais 500 km. Por pressão das empresas aéreas. De duas, duas: ou o limite anterior não tinha sentido, e foi um erro; ou melhorava as condições do aeroporto, e não deveria ser modificado por sujeição a pressões de finalidade comercial. A bagunça não é criada só pelo sistema deficiente e pelo tempo. É, sobretudo, obra humana. E financeira.

Site Chico Alencar
http://www.chicoalencar.com.br/chico2004/index.php

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Sai o petróleo, entra o milho

Químicos renováveis aumentam participação na indústria

POR SCOTT KILMAN
THE WALL STREET JOURNAL

Agora a gigantesca instalação – que tem uma tubulação suspensa de altura e galpões de metal de 2,5 quilômetros quadrados – também está produzindo o que pode ser a futura grande novidade do mundo rural: uma nova geração de químicos renováveis.

A alta do petróleo, que alimenta a construção de usinas de álcool, está melhorando a viabilidade econômica da fabricação de plásticos, espumas e lubrificantes feitos a partir de produtos agrícolas, em vez de matéria fossilizada enterrada nas profundezas do Oriente Médio.

A soja e o milho estão aparecendo em carpetes, copos descartáveis, sacos para embalar saladas, grama artificial, velas, batons, meias, pranchas de surfe, fluido refrigerante para transformadores elétricos industriais, e até na lataria de colheitadeiras da Deere & Co. Também tem havido uma crescente demanda por embalagens feitas com plástico renovável em grandes varejistas como a Wal-Mart Stores Inc., que recentemente ficaram sensíveis a pressões ambientalistas.

A Cargill, a gigante agrícola americana de capital fechado que tem sede em Minneapolis, vislumbra fabricar milhões de toneladas de químicos renováveis anualmente a partir do milho e da soja. “temos o desejo de enfrentar as empresas químicas em seu próprio campo”, diz Yusuf Wazirzada, que dirige a divisão de polióis de uretano à base de soja da Cargill.

A iniciativa de desviar mais produtos agrícolas para os setores energético e industrial pode levar ao limite a capacidade dos produtores rurais de atender à demanda sem levar os preços das commodities às alturas. E há outros problemas. Para muitos fabricantes, o custo de ajustar seus equipamentos para usar químicos renováveis é proibitivo.

Mesmo assim, o uso de produtos agrícolas para substituir plásticos e outros produtos está animando produtores rurais, muitos dos quais estão ansiosos por diversificar além da produção de alimentos e álcool combustível. Ao mesmo tempo, parece haver motivos mercadológicos para a mudança rumo aos químicos à base de milhos, especialmente como uma proteção contra as incertezas relacionadas ao petróleo.

A Hickory Springs Manufacturing Co. está substituindo alguns dos petroquímicos que usa para fabricar espuma de poliuretano por um composto da Cargill à base de soja.

A fabricante de espuma procurou a Cargill depois que seus fornecedores de químicos elevaram os preços em cerca de 50% depois do Furacão Katrina. “Nós hoje nos damos conta de que não podemos depender de petroquímicos”, diz Bobby W. Bush, um dos vice-presidentes da Hickory Springs.

A varejista Crate & Barrel está começando a vender um sofá recheado com a espuma da Hickory Springs.

A Ford Motor Co. está considerando usar em assentos de veículos a espuma feita com soja. Agora que seus cientistas descobriram como usar raios ultravioletas para eliminar o cheiro rançoso da espuma, o apetite da montadora pela safra pode alcançar milhares de toneladas anualmente.

Faz muito tempo que os cientistas sabem como fazer químicos a partir de plantas. Antes da era do petróleo, as fabricantes extraíam o carbono e o hidrogênio das plantas para fazer tudo que é tipo de produto industrial. Décadas antes de a soja virar um alimento usado por toda a parte, ela era usada para fazer cola e tinta. O celulóide, um antecessor do plástico, veio do algodão. O motor a diesel funcionou primeiro com óleo vegetal.

Avanços tecnológicos, entretanto, estão viabilizando um renascimento dos bioquímicos. A promessa do biodegradável foi abandonada: o argumento agora é a capacidade do material de se decompor sem causar danos numa questão de meses, numa operação industrial de compostagem. Novidades químicas, e a capacidade de criar microorganismos transgênicos que ajudam no processo industrial, estão derrubando os custos e aumentando a gama de biomateriais.

Embora a Cargill esteja apresentando seu plástico derivado do milho como a primeira nova categoria de plásticos desde os anos 70, o novo produto é uma minúscula parte de seu negócio, e o será mim, futuro previsível.

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

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Heloisa Helena em Santo André - SP

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Pensamento do dia

Não é triste mudar de idéias, triste é não ter idéias para mudar

Barão de Itararé (1895-1971), pseudônimo de Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, escritor brasileiro

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Crítico ataca aura de santidade das ONGs

Como combater a tentação de se considerar o salvador do Terceiro Mundo. “As ONGs sérias têm de denunciar as que são na verdade puras empresas”, diz Jordi Raich, a voz crítica da santidade das ONGs, autor de “El Espejismo Humanitario”

Maricel Chavarría

Todo ato solidário não deixa de ser um ato egoísta. Os profissionais da cooperação experimentam com freqüência uma grande satisfação ao voltar de uma temporada em campo, e entram em crise: acreditam ter encontrado seu lugar no mundo e, ao deixá-lo, se vêem deslocados. Se além disso esse trabalho traz consigo o agradecimento dos beneficiários e um reconhecimento social, o espírito crítico pode diminuir.

Os profissionais da cooperação têm muito presente essa combinação de fatores, por isso as ONGs destinam muitos recursos às entrevistas psicológicas com os candidatos para garantir que seu perfil não seja executivo demais nem assistencialista demais. E sobretudo que tenham certa estabilidade. No entanto, o magma de ONGs cujos líderes são amadores da boa vontade obscurece o panorama. O último escândalo no setor, protagonizado no Chade pela ONG francesa que tentava tirar do país uma centena de crianças com o fim de salvá-las, indica que as boas intenções, combinadas com a onipotência, têm resultados inaceitáveis.

“Você pode ser um bom líder, mas sem espaços de reflexão e pessoas ao seu redor que o questionem e o façam crescer, você estagna em sua dinâmica”, diz Ignasi Carreras, diretor do Instituto de Inovação Social, que forma líderes de ONGs. “Os especialistas dizem que um bom líder da cooperação o é entre sete e dez anos. A partir daí sua rentabilidade diminui. Como líder de uma ONG, não é conveniente que prolongue seu cargo além de uma década, porque impede a entrada de gente nova, com um novo olhar”, acrescenta o ex-diretor da Intermón Oxfam.

Os líderes e colaboradores com personalidade prepotente e atuações duvidosas abundavam em uma etapa pioneira da cooperação, explica Carreras. “A recompensa nas ONGs não é econômica: é que sua causa avance. A identificação com a causa é tão grande que se você a deixar sente que deixa a si mesmo, que deixa de ser”, indica Carreras.

Isso ocorre quando há uma combinação de fatores: que haja uma fonte de inspiração, seja política, social, espiritual… que as causas pelas quais se trabalha progridam, isto é, que valham a pena; que as pessoas com as quais se realiza a atividade o enriqueçam e, finalmente, que se obtenha reconhecimento social.

“Milhares de colaboradores iniciam com a intenção de fazer o bem e no princípio sentem que ajudam a melhorar a vida das pessoas. Mas depois começa-se a indagar se serve para algo alimentar uma família em Darfur cercada de 400 mil pessoas que não se pode ajudar, e percebe-se que o problema é muito maior do que distribuir bolachas ou sandálias, e sente-se frustração. No entanto, ao voltar, sua sociedade o faz sentir-se um herói. Todos o elogiam, o que o faz sentir-se melhor consigo mesmo. E por que não, se outros sentem satisfação fazendo o mal? Mas é discutível.” Quem fala assim é Jordi Raich, a voz crítica da santidade das ONGs, autor de “El Espejismo Humanitario” [A ilusão humanitária].

“Há de tudo no mundo da cooperação: os que se iniciam por crença religiosa; os que pensam que querem levar uma vida alternativa à sociedade de consumo; esses são os utópicos que querem mudar o mundo. Também há os que depois de 20 anos num escritório se cansam e se inscrevem porque idealizaram, e muitos outros que fogem de fracassos matrimoniais, profissionais…”, explica Raich.

Da Arca de Zoé -a ONG apanhada no Chade- se desconhece se esconde uma ação humanitária mal compreendida, de gente ingênua que foi enganada por locais; se aplicou a premissa fundamentalista solidária de faça o que fizer, algo fica, ou se se trata de um puro negócio. Para Raich, “existem máfias e grupos disfarçados de ONGs que operam com adoções, tráfico de órgãos ou financiam grupos terroristas”. “Há uma série de organizações que aproveitam essa aura de santidade que demos às ONGs”, acrescenta.

“Tudo indica” , conclui Raich, “que cedo ou tarde a ilusão humanitária explodirá. As ONGs que se consideram sérias e transparentes, das quais se exigem garantias, deveriam ser as primeiras a denunciar esses casos e, no entanto, são as últimas, porque acreditam que, tratando-se de outra ONG, não podem opinar. Mas até que interfiram no assunto os escândalos se sucederão. A imagem de santidade será estilhaçada. E me alegro: isso deve se transformar em uma profissão, um trabalho. A proliferação de ONGs vai em detrimento das vítimas que se pretendem ajudar. Recursos são desperdiçados. O Estado deve não só registrar e auditar, mas fazer uma regulação de qualidade.”

“Aceite que não pode fazer tudo”
“Não julgamos as razões pelas quais as pessoas querem trabalhar na Médicos Sem Fronteiras. Há muitos fatores, mas tentamos ver se suas expectativas são realistas e se entenderam bem o que é a MSF, pois muitas vezes se idealiza esse trabalho. As emergências são duras, tem-se muita responsabilidade e é preciso agüentar a pressão.” Teresa Murray, responsável por recrutamento e seleção de pessoal da MSF, explica que a entidade mudou seu sistema: se antes insistia nos compromissos e valores, agora, sem esquecê-los, se baseia mais na competência.

“É mais eficaz medir a atuação do indivíduo no grupo, reflete mais as circunstâncias do terreno que uma entrevista e reduz o risco de enviar alguém que não se enquadre”, diz Murray. Se uma personalidade prepotente passar no primeiro teste, depois há uma entrevista intensiva com o grupo na qual ela é observada. Já em campo o colaborador humanitário é avaliado a cada seis meses por seu supervisor.

Segundo Carla Uriarte, coordenadora de apoio social das equipes da MSF, uma mensagem chave para os candidatos é: aceite seus limites. “A onipotência de ‘vou salvar o mundo’ acontece com as pessoas menos experientes, mas o terreno é um banho de humildade”. Não aceitar que a ajuda humanitária é limitada causa estresse, acrescenta Uriarte. “Mesmo que morram crianças, é preciso continuar dormindo e comendo, do contrário você começa a cometer erros.”

Jornal La Vanguardia
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/lavanguardia/

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Açúcar e Escravidão

Jelson Oliveira

Acabo de ver o filme Alexandre, de Oliver Stone. E me lembrei da história do açúcar. Por quê? Ora, no final quase cansativo, depois de muitas batalhas e longos monólogos, o longametragem conta a chegada do herói à Índia, com impressionantes imagens de seu último prélio, protagonizado por seu cavalo preto chamado Bucéfalo (!) e um grande elefante indiano. Bem… o açúcar, pelo que se conta na História da comida, teria sua origem nestas terras. Desconhecido dos gregos até então, foi pelas mãos de um soldado de Alexandre, chamado Niarchos, enviado para a conquista da Índia Oriental por volta de 325 a. C. que o caldo da cana entrou para a literatura ocidental. Narra o almirante alexandrino que as populações nativas do Vale do Indo bebiam o suco da cana fermentado. Com a alcunha de “sal indiano”, passou a ser importado a preços elevadíssimos pelos gregos e romanos. Também chamado de “mel sem abelhas”, ou “mel manufaturado” ou ainda de “mel de cana”, não é difícil imaginar como o suco da cana impressionara os conquistadores da época. Coube a um escritor romano o registro latino do nome saccharum (donde sacarose). Tudo narrado no interessante livro do escritor norte-americano William Dufty, Sugar Blues.
Segundo Dufty, teria sido pelas mãos de professores e estudantes da Escola de Medicina e Farmacologia da Universidade de Djondisapour, na Pérsia, por volta do ano 600 d.C. que o suco da cana passou a ser processado em açúcar, a fim de que fosse estocado sem que fermentasse, possibilitando o transporte e o comércio. A partir daí começou a ser plantado também pelos persas e importado pela China como uma preciosidade. Mais tarde, com o fim do império persa, a “receita” do processamento do açúcar (tratado como medicamento) passou para as mãos do Islã e teria sido levado à Meca. Pouco tempo depois, os árabes teriam assumido o controle de todo o negócio, dada a expansão das suas conquistas: consta que os soldados árabes levavam consigo mudas de cana-de-açúcar para serem cultivadas. Alguns historiadores chegam a afirmar que a dependência (o termo é usado de propósito pelo autor de Sugar Blues) do açúcar pelos guerreiros teria lhes tirado a agressividade. Esse teria sido o primeiro alarme científico contra os efeitos do açúcar sobre o corpo humano.

Foi assim que o açúcar se transformara numa importante arma política. Diz-se que os cristãos, durante as Cruzadas, desenvolveram um gosto todo especial pelo condimento de tal forma que muitos se lançavam àquelas terras simplesmente para receber suas doses do doce suco. Era também com açúcar que se subornavam os embaixadores europeus no Egito. Numa passagem interessante, Dufty relata o interesse do Papa Clemente V, em 1306, pela tomada das terras do Sultão em benefício do suprimento da cristandade com o açúcar, abrindo definitivamente o ocidente para o uso do acepipe indiano e dando início a oito séculos de escravidão, genocídio, devastação ambiental e crime organizado em nome do mercado açucareiro. Graças a Niarchos, o almirante de Alexandre e os seus sucessores.

No seu livro A História do Açúcar, o historiador inglês Noel Deer afirma que o trabalho escravo deve ter atingido 20 milhões de africanos, dois terços dos quais usados como mão-de-obra na produção do açúcar, numa corrida na qual os portugueses saíram na frente, já que os árabes haviam introduzido o ingrediente durante a ocupação da Península Ibérica. Sem encontrar terras na África para produção do açúcar (como era seu objetivo inicial), Dom Henrique, por volta de 1444, teria descoberto muitos negros para trabalho forçado em fazendas de cana. Abençoado pelo Sumo Pontífice da época, o tráfico negreiro fomentou a expansão do Império Português, a começar pelas ilhas da Madeira e Canárias e, óbvio, pelo Brasil. Açúcar e escravidão foram, desde o início, ingredientes deste progresso, fazendo com que os portugueses detivessem por volta do século XV o monopólio do comércio do açúcar na Europa, seguido pela Espanha, que já tinha suas “mudinhas” de cana, deixadas pelos mouros após a sua expulsão do território espanhol.

Colombo, em sua segunda viagem ao Novo Mundo, teria trazido algumas mudas de cana-de-açúcar e iniciado uma campanha pelo cultivo das mesmas com mão-de-obra escrava, o que veio a ocorrer em 1510, com o Rei Fernão de Aragão. Logo mais tarde, em 1532, foi fundado por Martin Afonso de Souza o primeiro engenho de açúcar no Brasil. Com uma refinaria de açúcar fundada em Antuérpia (hoje a segunda maior cidade da Bélgica e um dos maiores portos do mundo, nas margens do rio Escalda) os holandeses nesta época recebiam o açúcar bruto produzido pelos portugueses, o processavam e exportavam para Alemanha, Inglaterra e os chamados Estados Bálticos. As taxas sobre este mercado teriam enriquecido o Rei Carlos V, da Espanha e o açúcar se transformara no produto que mais influenciara a história ocidental. Até hoje, como vemos e sentimos.

Mas a França também não ficou de fora deste lucrativo mercado consumidor. Consta que em 1700 o açúcar refinado era o principal produto de exportação francês, persistindo até a época das guerras napoleônicas, quando as refinarias francesas foram isoladas pelo bloqueio inglês, resultando numa elevação do preço do açúcar e dos bombons. Em 1812 um cientista francês teria inventado um meio de transformar a beterraba babilônica num tipo de açúcar e Napoleão Bonaparte ordenou que toda a França fosse plantada com o vegetal, com amplo apoio para estudos, pesquisa e construção de refinarias. Mais tarde a beterraba fora levada pelos quakers (religiosos de uma seita cristã fundamentalista criada pelo inglês George Fox, em 1650) para a Inglaterra, mas a indústria da cana considerou isso uma subversão e os religiosos foram punidos.

Com o declínio de Portugal e Espanha, foi a vez da Inglaterra dominar o mercado: mesmo hesitando de início, não tardou para que a Rainha Elisabeth I conquistasse para Inglaterra, em 1588, o monopólio do tráfico de escravos. Nas terras americanas, a produção da cana vai de vento em popa, com o extermínio da população nativa e a introdução da mão-de-obra escrava negra. Malgrado isso, já se sentia a resistência dos negros que fugiam das fazendas para os quilombos e começavam uma luta pelos seus direitos e contra o mercado do açúcar muito antes do que muitos imaginam.

Impulsionados pelo açúcar, mas também pelo comércio do rum e do melado, o comércio açucareiro rendia infinitos lucros para a Inglaterra por volta de 1660 até 1880, período no qual assistimos a uma tentativa das colônias de comercializar livremente o açúcar, o que fora impedido pela Inglaterra, que não queria perder o lucrativo monopólio.

Desde então, o açúcar que chegava à Europa vinha manchado com o sangue da escravidão. E isso já vinha sendo denunciado desde o século XVIII. Todas as fortunas e os progressos de plantadores, mercadores e traficantes, estavam legitimadas na exploração dos escravos do Novo Mundo.

Em 1792 foi formada, segundo Dufty, a primeira Sociedade Anti-sacarita do mundo. As Companhias inglesas do Oriente passaram, então, a usar o açúcar para promover o ópio, outra substância em moda na época. “O açúcar das Índias Orientais não é produzido por escravos”, era o seu lema publicitário, fazendo as contas de quantos negros eram mortos com o consumo semanal de açúcar de uma família européia (triste coincidência com a pretendida campanha contra o açúcar brasileiro e em favor do açúcar europeu!). Na lição da história, o lucrativo comércio do açúcar não consegue sobreviver sem a mão-de-obra escrava. E ontem, como hoje, ele continua fazendo suas vítimas. Como dependente do açúcar a Inglaterra teve de se tornar também dependente da escravidão. Como dependente do agronegócio da cana, nossos governos têm de se tornar também dependentes do trabalho escravo e da violação das leis trabalhistas. Não existe uma coisa sem a outra.

Popularizado através do rebaixamento do preço, o açúcar se tornara cada vez mais necessário nas mesas dos trabalhadores: em 100 anos (de 1700 a 1800) o consumo de açúcar foi multiplicado por 8 na Inglaterra.

Os franceses foram os primeiros a abolir a escravidão em lei, em 1807, sendo que a Inglaterra só o fez em 1833. Foi o começo do declínio do grande mercado europeu do açúcar, que veio a ser conduzido a partir do século XIX pelos Estados Unidos, com a invenção do açúcar branco, refinado, como o temos hoje - conforme nos explica Dufty, isso só foi possível depois da invenção da panela de pressão, do carvão feito a partir de ossos de animais e do motor a vapor. Os americanos fizeram de Cuba um grande canavial onde plantavam a matéria-prima para suas refinarias “de última geração”: 90% do açúcar consumido nos EUA nesta época vinham da Ilha cubana e o mercado americano cresceu astronomicamente, patrocinado por uma grande campanha que introduzira definitivamente a antiga especiaria nas mesas dos norte-americanos comuns e da maior parte da população mundial.

Como podemos sentir nesta rápida reunião de informações, a história do açúcar esconde (ou revela) uma tragédia onde o lucro e a ostentação de alguns foi patrocinada pela desgraça, a miséria e a morte de milhares de seres humanos. Em nome da iguaria branca, terras vem sendo devastadas ao redor do mundo, rios têm sido apagados do mapa para dar lugar às longas extensões da cana verde, as águas todas poluídas com a pulverização das lavouras… e o mais triste: milhares de seres humanos escravizados sob o sol escaldante e o picumã uniforme que entristece seus olhares e sobretudo seu espírito, aplacado pelo cansaço das longas e injustas jornadas de trabalho. Hoje, como ontem, continuamos pagando o mesmo preço. Até quando?

Para encerrar, me lembrei da música Zumbi, do Jorge BenJor: “Aqui onde estão os homens, de um lado cana-de-açúcar, de outro lado o cafezal. Ao centro os senhores sentados, vendo a colheita do algodão branco, sendo colhido por mãos negras”. E seu refrão efusivo: “Eu quero ver, quando Zumbi chegar, o que vai acontecer”. Que o espírito de Zumbi, pleno de liberdade e de rebeldia, possa nos inspirar nesta hora de resistência!

“… Considerando que o que o governo nos promete
Está muito longe de nos inspirar confiança
Nós decidimos tomar o poder
Para podermos levar uma vida melhor.
Considerando: vocês escutam os canhões
Outra linguagem não conseguem compreender
Deveremos então, sim, isso valerá a pena
Apontar os canhões contra os senhores!”.
(Trecho de “Os dias da Comuna” de Bertold Brecht)

Revista Adital
http://www.adital.com.br/site/index.asp?lang=PT

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Taipé orgulhosamente chinesa

A cultura chinesa mantém um ar de mistério para o Ocidente. Livre de amarras, Taipé, capital de Taiwan, mesmo se modernizando, traduz três mil anos de tradições dessa civilização

Heitor e Silvia Reali

Conhecer a cultura de outro país é uma atração a mais para um viajante observador. No caso dos do Oriente - tão diferente de nós em tudo - dez minutos no aeroporto internacional de Taipé confirmam essa tese. Monges com túnicas marrons ou alaranjadas, taiwanesas esguias vestidas com os seus trajes típicos e jovens que adotaram a moda oriental da lolita fashion (vestem-se como bonecas) por ali transitam, expondo o rico contraste que habita aquele solo. Mas há muito mais a ser descoberto neste país pressionado desde os primórdios de sua história.

São muitas as Chinas. A continental com 1,3 bilhão de pessoas, considerada a nação que mais cresce economicamente no mundo; a de Hong Kong, que vive sob um regime chinês denominado “Um País, Dois Sistemas”, que prevalecerá até 2047, data limite de sua independência administrativa e econômica; e a de Taiwan (República da China), em Formosa, distante 150 quilômetros do continente, vista como “Província rebelde” pelo governo de Pequim.

Em termos de ARTES cênicas, os CHINESES fizeram tudo antes de todo MUNDO

“Será que uma nação ou povo tem o direito de impor sua vontade a outro? Pode haver justificativa para que uma política baseada na supremacia militar fique ameaçando nos invadir?”, questiona o engenheiro Henri Sen, ao se referir a uma possível invasão de seu país pela República Popular da China. Está em jogo a sobrevivência de um povo que optou por um regime político diverso do vigente na China continental. Enquanto as relações diplomáticas patinam ao sabor de uma decisão bilateral, os 23 milhões de taiwaneses sempre sabem em que pé estão as relações políticas e, lógico, temem que essa ameaça se concretize.

Taipé provoca no visitante ocidental a sensação de entrar numa mescla de culturas. À primeira vista se parece com tantas outras cidades asiáticas: ruas cheias de gente, de motos, bicicletas e uma sobrecarga visual que não faz economia de imagens. Enormes letreiros luminosos, placas e faixas que atravessam as ruas de um lado a outro, em ideogramas chineses, alardeando um produto ou loja. Nesses locais predomina a arquitetura chinesa com seus telhados vermelhos com as pontas viradas para cima.

OUTROS LUGARES estão sendo redesenhados, mas com inspiração ocidental. Alamedas à moda francesa e fervilhantes ao jeito chinês, e gigantescos prédios, como o Tower 101. Com 508 metros de altura, é o edifício mais alto do mundo. Sua silhueta norteia a cidade. Um elevador, considerado o mais rápido existente, leva ao observatório localizado no 89° andar em menos de um minuto. De seus janelões, a cidade é revelada em 360°. Em dias claros, dali pode-se avistar o continente. A distância entre Ocidente e Oriente, porém, é mais evidente ao amanhecer. Enquanto corremos ou nos exercitamos em academias, os chineses se ligam nos delicados movimentos do tai chi chuan (arte marcial chinesa cujos movimentos são inspirados nos dos animais), acompanhados ao som de música suave. Isso pode ser notado em todos os parques da cidade, mas o espetáculo se destaca quando realizado logo cedo nos jardins do Memorial Chiang Kai-shek. Centenas de praticantes fazem uma performance que acalma até quem assiste. A gigantesca obra do Memorial ancora duas construções de rara beleza arquitetônica: o National Concert Hall e o Nacional Theater.

Sensibiliza perceber a paixão dos taiwaneses pelas artes, desde a caligrafia e a cerâmica até o teatro, a dança, a música e a ópera. Aliás, em termos de artes cênicas, os chineses fizeram tudo antes de todo mundo. A ousadia e o espírito inventivo aplicados ao exercício dessas artes podem ser vistos em diferentes locais desta cidade de 2,5 milhões de habitantes.

A ópera não está ligada apenas à dança, mas também às máscaras. Elas se constituem em um de seus elementos mais expressivos e indissociáveis. As apresentações cênicas, o ritual do chá, a Lin Na Tai Historical Home, o National Center for Tradicional Arts, o Museu de Arte Moderna e o Museu Nacional Palácio, provam que não faltam atrações culturais na cidade.Nesse quesito, o Museu Nacional Palácio é nota máxima. Sua arte está em fazer o visitante participar de uma viagem de milhares de anos retratada pela criatividade de artistas de diferentes gerações, particularmente na cerâmica, bronze, jade e porcelana.

Com acervo de quase 700 mil peças, o museu abriga a maior coleção de arte chinesa do mundo, embora o público tenha acesso apenas a 3% de sua coleção. A maior parte dos objetos é originária da Cidade Proibida de Pequim e foi trazida por Chiang Kai-shek, quando ele se refugiou na Ilha de Formosa. A despeito de riquíssimas obras, a “monalisa” do museu é uma pequena acelga esculpida em jade com um grilo sobre as folhas.

Comunicar-se com a população local é difícil, pois poucas pessoas falam uma língua ocidental. Recorrer à mímica, nem pensar. A simbologia muda de país para país e, de repente, o que você está gesticulando é algo totalmente avesso ao que pretendia. Por natureza, os chineses são gentis, mas ainda um muito povo reservado.

Desejava saber se o taiwanês é confucionista, taoista ou budista - se pertence à escola Dju, Tao ou Fu. Para eles, essa pergunta não têm importância. No centro do pensamento filosófico da China antiga estão os “Sábios e as Cem Escolas de Pensamento”, cujas mais notáveis são as escolas confuciana, taoísta, maoísta, dialética e legalista e as que surgiram depois do século 3, a metafísica e a budista.

São ensinamentos éticos que propõem estratégias diferentes de sobrevivência, mas que têm um ponto em comum: a recomendação da humildade. Suas crenças são aceitas sem destruir as raízes de qualquer uma das escolas. Vários templos da cidade atestam esse fato: ostentam altares dedicados a deuses e monges sagrados das três principais religiões.

A AURA DE mistério que cerca a cultura chinesa se manifesta com mais força nos templos. Taipé cultua o passado, como se pode observar no Templo de Longshan, onde os fiéis vão pedir bênçãos e revelações dadas pelos oráculos. É visível como a mística permeia a vida dos habitantes. O templo é também um convite para se admirar a arquitetura religiosa chinesa. Construído em 1738, notabilizou-se por sua história e sofisticada arte.

A arquitetura chinesa segue os princípios do equilíbrio e da simetria. Alguns estudiosos vêem um paralelo entre a linha da arquitetura chinesa e os traços de pincel da sua caligrafia.

O uso de armação estrutural de madeira e paredes de barro cercando a construção em três lados remonta milênios, pois a madeira para os chineses representa vida. A ornamentação em seu interior é primorosa e expõe elementos que incluem a pintura multicolorida, a cerâmica e esculturas em madeira, pedra e argila. O dragão e a fênix estão em quase toda parte. Durante o dia e a noite, acontecem celebrações e cerimônias de oferendas de flores e frutas aos deuses e o som é os das peças de bambu em formato de meia-lua. Elas representam o yin e o yang e são jogadas ao solo para se receber a instrução dos deuses. Entrar em Longshan é compreender um pouco mais a cultura chinesa.

O uso de armação estrutural de madeira e paredes de barro cercando a construção em três lados remonta milênios, pois a madeira para os chineses representa vida. A ornamentação em seu interior é primorosa e expõe elementos que incluem a pintura multicolorida, a cerâmica e esculturas em madeira, pedra e argila. O dragão e a fênix estão em quase toda parte. Durante o dia e a noite, acontecem celebrações e cerimônias de oferendas de flores e frutas aos deuses e o som é os das peças de bambu em formato de meia-lua. Elas representam o yin e o yang e são jogadas ao solo para se receber a instrução dos deuses. Entrar em Longshan é compreender um pouco mais a cultura chinesa.

Alas dedicadas aos peixes e frutos do mar se alinham entre os cereais e bancas que vendem carnes de pato, de galinha e de cobra. É preciso entender que a fartura e a diversidade são essenciais para a culinária chinesa. Os taiwaneses adoram comer. Prova disso é a habitual saudação de “Como vai?”, para eles, “Chih fan le mei?”, que numa tradução livre significa “Você já se alimentou hoje?

O DIM-SUM (bolinho de arroz cozido em cestas de bambu), a omelete com ostras e o ovo milenar, o pi dam, que é negro, pois ficou enterrado durante meses, estão entre nossas descobertas. O dragão vermelho é uma das frutas mais vistosas. De cor rosachoque ou vermelha e com pétalas de pontas verdes, tem seu interior todo pipocado de minúsculas sementes pretas.

Outra ala do mercado muito concorrida é a da medicina chinesa e das massagens. Visitar uma farmácia é entrar num pequeno museu de ciência natural. Centenas de gavetas e potes de cerâmica guardam produtos animais, vegetais e minerais. Cada um com uma finalidade específica.

O conteúdo de uma receita prescrita por um médico chinês é inusitado para nós. Pode incluir o cinabre e o âmbar para relaxar os músculos, caroço de pêssego e açafrão para melhorar a circulação e a efedrina para induzir a transpiração. Estabelecida há mais de dois milênios, a estrutura teórica da medicina oriental prega que o homem vive entre o céu e a terra, e compreende um universo em miniatura em si mesmo. No pensamento clínico, a enfermidade é apenas uma manifestação de desequilíbrio.

Embora abrigue tantos contrastes entre o moderno e a tradição e tenha costumes, hábitos e cultura tão diferentes dos nossos, Taiwan é uma cidade única. E com muita história para contar. Faz parte de um arquipélago vulcânico e montanhoso formado por 80 ilhas - cuja principal é Formosa.

Para CONHECER melhor essa CIVILIZAÇÃO milenar, é preciso VISITAR os mercados

Separado da China continental por uma faixa de mar de 150 quilômetros, Taiwan teve sua história ligada à China até o século 15. Cobiçado por portugueses, espanhóis e holandeses nos séculos seguintes, as ilhas foram entregues ao Japão em 1895, após a Guerra Sino-Japonesa. Mas voltou ao domínio da China no fim da Segunda Guerra (1939-1945).

Quatro anos depois, os comunistas liderados por Mão Tsé-tung venceram os nacionalistas, sob o comando de Chian Kai-shek, que se refugiaram em Formosa: dois milhões de chineses desembarcaram na ilha que, na época, contava com quatro milhões de habitantes. Atualmente, Taiwan mantém relações diplomáticas com cerca de 30 países. O Brasil não é um deles, embora os dois países tenham relações econômicas e culturais.

Considerado um dos tigres asiáticos pela pujança de sua economia, Taiwan deve essa condição à iniciativa do seu governo que, no início dos anos 60,investiu para que as famílias criassem pequenas fábricas em casa, para completar a renda. “A primeira preocupação era matar a fome e a segunda, a educação dos filhos. Essa geração se graduou em escolas norte-americanas e européias e depois voltou para criar grandes empresas”, diz Felix Chang, do Ministério de Relações Exteriores. “A fabriquinha da minha família era de guarda-chuva”, orgulha-se ele.

Revista Planeta
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