Arquivo de 2 de Novembro de 2007

Primavera de Praga

Alexander Dubcek, o reformador e estadista da Checoslováquia, lidera as forças de libertação em 1968, na famosa Primavera de Praga. É expulso do Partido Comunista, mas, vinte anos depois, volta ao cenário político.

Praga, 1989. As imensas manifestações populares que resultam na Revolução de Veludo puseram fim a vinte anos de totalitarismo. A União Soviética, que controlava a Checoslováquia desde 1968, dessa vez não envia seu exército. O povo checoslovaco elege presidente um homem que tinha sido preso como dissidente pelos soviéticos. É o dramaturgo Vaclav Havel. Alexander Dubcek é eleito presidente do Parlamento Checoslovaco.

Em 1968, Dubcek foi nomeado secretário do Partido Comunista da Checoslováquia, quando Ludwuig Svoboda era presidente. A Primavera de Praga começa. Dubcek introduz uma série de reformas econômicas e políticas, inclusive abolição da censura e maior liberdade de expressão. Os que estavam presos injustamente são reabilitados e os sindicatos tornam-se independentes do Partido Comunista. Moscou não aprova esses atos liberalizantes, e Leonid Brejnev manda um aviso para Dubcek.

Os soviéticos e outras tropas do Pacto de Varsóvia agrupam-se na fronteira. Mas, a ameaça de invasão não detém o movimento democrático.

O manifesto de duas mil palavras exige uma liquidação total do antigo regime. Outros países do Pacto de Varsóvia tentam deter Dubcek. Mas o presidente Tito, da Iugoslávia, e o ditador Ceaucescu, da Romênia, que também quer distanciar-se de Moscou, apóiam essa nova imagem de um socialismo mais humano.

Em 20 de agosto de 1968, na calada da noite, os tanques soviéticos entram em Praga e milhares de paraquedistas soviéticos caem no campo de pouso. Na manhã de 21 de agosto, duzentos mil soldados do Pacto de Varsóvia - da Bulgária, Hungria, Rússia, Alemanha Oriental e Polônia - ocupam Praga. Uma semana depois, serão seiscentos mil. São enviados para Praga sete mil e quinhentos tanques e onze mil canhões.

O povo checo tenta desesperadamente convencer os soldados a passar para o seu lado, em vão. Milhares de pessoas são presas. Do ponto de vista militar, a operação é um sucesso. Estava preparada desde julho pelas altas patentes do governo soviético. Mas, politicamente, a invasão tem efeito contrário. O povo checo torna-se ainda mais hostil aos soviéticos e o forte movimento de protesto continua.

Dubcek vai a Moscou, onde lhe garantem que as tropas deixarão a Checoslováquia se as reformas liberalizantes pararem. Ele aceita os termos, mas seus esforços não satisfazem os chefes soviéticos.

Em 1969, alguns meses depois da retirada das tropas do Pacto, Dubcek é substituído por um presidente pró-soviético, Gustav Husak. Um ano depois, Dubcek é expulso do Partido Comunista.

Em 1989, um maciço levante popular que inicia a Revolução de Veludo força o governo comunista de Husak a renunciar. É eleito um novo Parlamento e Alexander Dubcek, que estava afastado da política, é eleito seu novo presidente.

Embora as sementes da Revolução de Veludo levassem muito tempo para germinar, tinham sido semeadas havia vinte anos, com a Primavera de Praga.

Alô Escola TV Cultura
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Eleições na Europa: pouca mudança

Eleições na Polônia e na Suíça: naquela, um novo governo conservador, para alívio de todos… Nesta, uma eleição que surpreendeu pela violência: no país da hora certa, o relógio político anda aos solavancos…

Flávio Aguiar

Neste fim de semana e na segunda-feira o tema geral na imprensa européia foi eleitoral. Começando de longe, na China o 17° Congresso do Partido Comunista Chinês elegeu um novo Comitê Central, em dimensão adequada para o país. São mais ou menos 200 membros que constituem o “petit comité” governante. Destes, saem os nove dirigentes máximos. Por um lado, não houve surpresas: o atual mandatário na China, Hu Jintao, foi reconduzido à chefia do partido, o que quer dizer que em breve será mantido como presidente do país e chefe das Forças Armadas. Por outro lado, houve sim uma surpresa: o atual vice-presidente, Zeng Qinghong, não só não ficou entre os nove mas sequer entre os 200. Foi defenestrado para valer, o que mostra que a luta sucessória para os postos de Hu Jintao, daqui a alguns anos, já começou. O que isso significa na esfíngica política chinesa e para o país que mantém taxas de crescimento econômico altíssimas, sendo já a 4ª economia do mundo (e fora do clube do G-8), ao lado de uma desagregação rápida e violenta do tecido social, ninguém sabe ainda precisar.

Um pouco mais a oeste, na conturbada cena paquistanesa, a ex-premiê Benazir Bhutto sugeriu que houvesse ajuda internacional na investigação do atentado contra ela que produziu, segundo as cifras correntes hoje, 129 mortos e mais de 300 feridos. No clima eleitoral (as eleições devem ocorrer em meados de janeiro) a sugestão de Benazir tem como alvo o bastidor do governo do presidente (e general) Pervez Musharraf. Num projeto aparentemente desenhado em Washington, ou pelo menos do agrado da Casa Branca, Benazir concordaria em se aliar com o antigo adversário, dividindo com ele o poder, caso saia vencedora, para formar uma aliança anti-Al Qaeda no Paquistão e anti-talebã no vizinho Afeganistão. Mas ela acusa a participação de membros do Serviço Secreto paquistanês na organização do atentado que, diz ela, sem isso, não poderia acontecer. Ao mesmo tempo, Benazir declarou que segue em campanha, o que deve lhe trazer novos riscos, uma vez que no Paquistão as viagens dos candidatos são imprescindíveis para o sucesso eleitoral. Mas para o governo de Musharraf seria na verdade péssimo um novo atentado contra essa incômoda aliada/adversária, uma vez que com ou sem sucesso um acontecimento desses comprometeria definitivamente a imagem de seu governo, dentro e fora do país.

Aterrissando na Europa, a Polônia tem novo governante, o primeiro ministro Donald Tusk, do Partido da Plataforma Cívica, descrito como “liberal conservador”. O comparecimento às urnas foi de 55% do eleitorado, descrito como o maior dos últimos tempos. Da direita à esquerda houve um alívio pela Europa inteira, pois seu antecessor, Jaroslaw Kaczynski, era considerado como um político de extrema direita, seguidamente descrito como “nacionalista e populista”. Explique-se que na Europa os termos “nacionalista” e “populista” são predominantemente aplicados a políticos de direita, ao contrário da América Latina, onde ambos são brandidos pela direita contra políticos de ou à esquerda, como Hugo Chávez ou Lula.

Kacynski caracterizou-se por um governo extremamente conservador, por perseguições a seus adversários através do aparato policial, e por criar contenciosos com seus vizinhos, inclusive a Rússia e a Alemanha. Era um entusiasta da idéia de que os EUA instalassem novos mísseis no país. Seu partido, o “da Lei e da Justiça” (imagine um partido no Brasil chamado da “Lei e da Ordem”). Teve 31,3% dos votos, enquanto o de Tusk ficou com 44,2. O partido dos social-democratas e comunistas ficou com 13% e o Partido Camponês, com 8%. Este último deve entrar em coalizão com o da Plataforma Cívica, não se sabendo ainda o que farão social-democratas e comunistas.

A cena não é para muito alento. Tusk deve manter o apoio à idéia dos mísses norte-americanos, mas os comentários indicam que fará novas exigências compensatórias a Washington. Em todo caso, antes da eleição ele se manifestou contrário à permanência de tropas polonesas no Iraque, ao contrário de Kaczynski, que com seu irmão Lech (que continua como presidente do país), era um entusiasta da idéia.

Políticas do novo e pequeno Partido Feminista, formado este ano por descontentes com os partidos estabelecidos, manifestaram seu desalento diante do quadro em que mesmo partidos à esquerda não se manifestam sobre temas polêmicos como o aborto. A prática do aborto era legal na Polônia comunista e foi posta fora da lei depois da queda do regime por pressão do Vaticano de João Paulo II e da conservadoríssima Igreja Católica polonesa. Manuela Gretkowska e Magdalena Sroda, do partido, comentaram que na Polônia pós-comunista, entretanto, é mais fácil fazer um aborto do que falar sobre isso, uma vez que as estimativas correntes falam em de 140 a 180 mil abortos clandestinos por ano no país.

Já na Suíça, o relógio político parece ter desandado. As eleições para o governo e o parlamento foram marcadas por conflitos de rua e por um nacionalismo xenófobo por parte do atual homem forte em Berna e Zurique, Cristoph Blocher, do Partido do Povo, que foi o mais votado, com 29 % dos sufrágios.

A Suíça tem um sistema original de governo, pois o executivo é formado por sete membros dos quatro partidos mais votados nas eleições. O partido de Cristoph garantiu mais seis cadeiras no Parlamento e com isso, pelo menos dois cargos no executivo. O homem forte do governo é do partido mais votado, independentemente do cargo. Cristoph Blocher, por exemplo, é Ministro da Justiça.

Ele, seguidamente descrito também como “populista e nacionalista”, fez uma campanha baseada num anti-islamismo marcante e num racismo disfarçado, se é que se pode usar esse termo. Brandindo a idéia de que o perigo para a Suíça são a União Européia e a esquerda, defendeu idéias como a de que o governo possa “deportar os criminosos”, o que equivale a dizer que no país os criminosos são necessariamente estrangeiros.

Um dos principais cartazes de sua campanha mostrava quatro ovelhas num território vermelho como a bandeira suíça. Três das ovelhas, brancas, expulsavam a quarta, negra. O cartaz provocou tanto repúdio que até a ONU interpelou o candidato sobre o seu racismo, ao que ele retrucou que a expressão “ovelha negra” era comum a várias línguas e não implicava necessariamente racismo. Em todo caso o cartaz e a campanha foram eloqüentes no sentido de atrair o eleitorado conservador, num cenário em que os social-democratas foram descritos como os grandes perdedores e o Partido Verde cresceu, chegando a 10% dos votos.

Enquanto isso, nos Estados Unidos a senadora Hillary Clinton reafirmava sua liderança entre os democratas segundo uma pesquisa do jornal Washington Post, que lhe dava 52% das intenções de voto entre os membros do partido, contra 22% de Barack Obama, em segundo lugar. Além disso, novos dados lhe favoreciam, pois o eleitorado feminino nos EUA chegou a 54% do total, e na pesquisa 94% dos eleitores com 35 anos ou menos declararam que preferiam votar numa mulher. Ainda não se sabe o que fará Al Gore depois de ter recebido o Prêmio Nobel da Paz, mas certamente lhe será desconfortável ter de enfrentar a esposa de seu, digamos, ex-chefe, na corrida democrata. Obama, por outro lado, pode tornar-se o fiel da balança se se dispuser a ser o vice de alguém, coisa que ele até agora descarta por razões óbvias. O fator Al Gore jogou na arena política, com toda a força, o tema ambiental. Mas o nó dessa eleição ainda permanece o Iraque, questão espinhosa para todos, inclusive os republicanos. Ainda mais agora que o exército turco começou a bombardear o norte do Iraque, contra os guerrilheiros curdos do Partidos Trabalhadores Curdos (ou Partido Curdo dos Trabalhadores), que continuam provocando baixas nos adversários, entre mortos, feridos e prisioneiros. O ataque turco pode desestabilizar a única região mais ou menos tranqüila até agora para os ocupantes do país, cuja situação é universalmente descrita na Europa (e agora também entre os norte-americanos) como caótica e testemunho do fracasso da política norte-americana, como no caso do Afeganistão.

Carta Maior
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TRABALHO NÃO PRODUTIVO

Robert Kurz

Quando, nos debates públicos burgueses, se invoca com aparente inocência a “produtividade”, em nome da localização do investimento, trata-se não apenas do aspecto técnico e do respectivo nível de qualificação, mas também, sempre, de espremer até ao tutano a força de trabalho remanescente, ainda utilizável em termos capitalistas. É um sintoma do limite interno da valorização do capital na terceira revolução industrial que hoje mesmo o trabalho antes “normal” seja considerado não produtivo, que o trabalho se torne cada vez mais pesado, até ao limite da dor e para além dele, que a duração do trabalho seja sucessivamente prolongada, que sejam suprimidos intervalos, dias de folga e de férias etc. Há muito que isto se aplica também aos domínios do trabalho qualificado.

O problema diz respeito também ao carácter do trabalho para criar os pressupostos sociais de uma produção “cientificizada”. Na medida em que este trabalho, por exemplo de instituições científicas, culturais e de ensino, tem de garantir as condições sociais objectivas ao nível da terceira revolução industrial, trata-se de trabalho não produtivo em termos capitalistas, na forma de “faux frais” (Marx), ou seja, de “custos mortos”, que têm que ser retirados da massa de mais-valia real. É verdade que, uma vez que a produtividade acrescida faz baixar o valor dos bens de consumo, e com ele os custos de reprodução (e logo também o preço) da mercadoria força de trabalho, a “mais-valia relativa” (Marx) cresce, ou seja, cresce a quota parte do capital no valor novo produzido por força de trabalho. Este efeito, porém, dilui-se quando os “custos mortos” do trabalho não produtivo na ciência e na educação se elevam fortemente, enquanto ao mesmo tempo se reduz a massa de trabalho verdadeiramente produtiva de capital. É precisamente esta tenaz que hoje se aperta.

Como reacção a isso, os sectores que dão custos são em parte suprimidos, em parte privatizados. A privatização, porém, é apenas uma solução formal aparente, uma vez que estes sectores, como empresas de mercado, têm de obter lucros, os quais por sua vez têm de ser alimentados pela massa de mais-valia social. Pois o carácter não produtivo permanece em todo o ciclo do capital. Por outro lado, a produção de mais-valia real reduzida ao mínimo também não se expande com o outsourcing para países de baixos salários. Ainda que o emprego nominal cresça fortemente, por exemplo na China, sob as condições do standard de produtividade da microelectrónica e da globalização, uma grande parte desse trabalho barato com aplicação de capital relativamente baixa permanece não produtivo no plano da “mais-valia mundial”, ainda que “conte” do ponto de vista empresarial.

Independentemente disso, acresce que são não produtivos do ponto de vista capitalista todos os trabalhos, mesmo se aparentam ser evidentemente industriais, cujos produtos são comprados com dinheiro obtido apenas a partir das bolhas financeiras, sem qualquer base em proventos obtidos na criação anterior de mais-valia real. Isto aplica-se a grande parte da exportação para o deficit no Pacífico, bem como à presente produção meramente especulativa a nível mundial de materiais e máquinas para a construção civil e de edifícios. Se, presentemente, a suposta “conjuntura mundial robusta” corre o risco de ser estrangulada pelas crises financeiras, é porque atrás dela está a massa monstruosamente acrescida de diferentes espécies de trabalho não produtivo do ponto de vista capitalista. O que é apenas outra expressão para o facto de o capitalismo já não conseguir manter sob a égide da sua forma social limitada as potencialidades por ele próprio produzidas.

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A morte de Che Guevara

Voltaire Schilling

Morto a tiros nos fundões da Bolívia no dia 9 de outubro de 1967, o argentino Ernesto “Che” Guevara tombou como um mártir da causa da revolução latino-americana.
O seu nome, que atingiu proporções mitológicas universais, está intimamente ligado aos levantes anticolonialistas das décadas de cinqüenta e sessenta do século XX que se espalharam pela África, Ásia e América Latina.

Herança infeliz

O resultado dessa luta, entretanto, foi trágico, visto que, os que, na América Latina, escolheram o caminho da transformação pela luta guerrilheira amargaram um triste final, pois os novos regimes implantados, no caso de Cuba e da Nicarágua, não conseguiram superar a pobreza e as dificuldades materiais que os seus países herdaram de tempos remotos.

Esse fracasso, todavia, não ensombrou a imagem de Che Guevara que, para todos os efeitos, restou intacta, sendo reproduzida em pôsteres, camisas, boinas, bottoms e até como marca de cerveja. Virou grife da sociedade de consumo contra quem ele também moveu guerra.

A morte de Guevara

“Para os revolucionários não há descanso no túmulo”
Saint-Just, 1793

Num antigo poema grego Aquiles, o herói da Guerra de Tróia, considerava que, de certo modo, fora bom ele ter morrido ainda guapo, em pleno ardor da batalha, porque o valente não se imaginava alcançando a velhice, enrugado e cercado de netos, andando meio tonto pela casa como se fora um traste que ninguém sabe onde colocar.

Ernesto Guevara, o “Che”, talvez tenha também pensado assim nos segundos que antecederam sua execução por ordem do governo boliviano no dia 9 de outubro de 1967, em La Higuera, um remoto fundão boliviano onde ele havia sido capturado ferido.

Da mesma forma que todo o jovem grego idealizou Aquiles, nele se inspirando, milhares de rapazes latino-americanos idolatravam Guevara, cuja imagem em pôster – lembrando um Cristo rebelde – fazia parte da decoração de quarto de estudante naqueles anos que chumbo e sangue.

E, até nos dias de hoje, nos lugares mais diversos, especialmente nos ambientes universitários, vê-se ainda jovens com a imagem de Che estampada nas camisetas ou fixada nas paredes dos corredores.

Guevara era um tipo estranho, um aventureiro que entrou na revolução cubana assim que como por acaso. Verdade que desde os tempos de jovem acadêmico ele viajava pela América Latina e, crescentemente, se indignava com a miséria, a injustiça e a brutalidade que via instalada por toda a parte.

Aventurando-se pela América Latina

Formado em medicina chegou a ter a idéia, quando estava de passagem pelo Peru, de ir tratar os hanseáticos confinados na ilha da Páscoa.

Revelava um sentimento de afeto pelos seus vizinhos latino-americanos rara num argentino, povo que, em sua maioria, acreditam viverem num recanto europeu à beira do Rio da Prata, um exclusivo nicho civilizado encravado num continente cercado por bugres e bárbaros.

Quando Fidel Castro, exilado no México em 1956, organizava sua expedição de revolucionários para retornar a Cuba, para dar início a uma guerra contra a ditadura de Fulgêncio Batista, alguém lhe sugeriu o nome do Doutor Guevara.

Os cubanos precisavam de um médico e o “Che” concordou em participar da aventura. A sua última ocupação na capital mexicana era no mínimo prosaica: vendia coleções de livros - viam-no sentado nos bancos das praças lendo-os ao invés de negociá-los. Era um excêntrico!

Na Sierra Maestra

Partido do México, feita a travessia a bordo do superlotado iate “Granma”, os revolucionários quase foram dizimados nos dias seguintes ao desembarque no oriente da ilha, ocorrido em 2 de dezembro de 1956. Na verdade o barco não ancorou na praia, ele simplesmente afundou. De uma partida inicial de 82 rebeldes, emboscados pelos soldados do ditador Batista, eles viram-se reduzidos a apenas 18 sobreviventes armados no alto da Sierra Maestra.

O doutor, premido pelo tiroteio, entre seus apetrechos de socorro e uma arma, teve que deixar de lado as ataduras e pegar num rifle. Eis que em pouco tempo revelou-se mais destro com ele do que com o bisturi. Trata-se de um fenômeno psicológico intrigante explicar como um ser educado como Ernesto Guevara (formado numa faculdade de medicina portenha e pertencente a uma família tradicional) transformou-se num astuto e incansável líder de guerrilhas.

Apesar de ser estrangeiro, um argentino, em pouco tempo conseguiu a admiração dos seus companheiros cubanos. A tal ponto chegou o seu prestígio junto ao grupo que Fidel Castro entregou-lhe, na etapa derradeira, o comando de uma coluna revolucionária, a que tomou Santa Clara de assalto. Episódio que pôs a correr do palácio o ditador Fulgêncio Batista.

Quando por fim os guerrilheiros chegaram ao poder no Ano Novo de 1959, nomearam-no ministro da revolução. Che assumiu a presidência do Banco Nacional, chegando a imprimir um peso com sua assinatura. Mas aí já era tarde. Guevara não se adaptou mais ao trabalho em tempo de paz. Viver do cheiro da pólvora já fazia parte do seu sangue.

Na busca da revolução universal

O seu olhar, em pouco tempo, deu para contemplar outros horizontes, outras batalhas. Seu ódio aos norte-americanos fez com que imaginasse transformar a America Latina numa “imensa Sierra Maestra”, local de onde legiões de guerrilheiros poderiam ameaçar o colossal império dos ianques. “Um não, mas vinte Vietnãs!”, como disse por aquela época.

Converteu-se então num peregrino da Revolução Mundial convicto de que sua “teoria do foquismo” - segundo a qual um pequeno grupo de gente decidida, de armas na mão, independente das condições objetivas, dava início a uma insurgência - poderia ser aplicada em qualquer canto do Terceiro Mundo. A essência do pensamento revolucionário dele concentrava-se na crença não-marxista de que a força da vontade era auto-suficiente como promotora das mudanças sociais necessárias.

No seu desprezo pela classe média, minimizou a importância social e cultural dela. Assim ele considerava positivo que os revolucionários pusessem para fora de Cuba os “pequeno-burgueses”, não se dando conta que com isso, ao mandá-los para o exílio na Flórida, retirava da revolução os seus elementos mais empreendedores, capazes e instruídos. Gente qualificada que foi enriquecer a economia daquele estado, visto que a comunidade cubana tornou-se a mais próspera de todas.

Cuba virou uma ilha de pobres, governada por um estado que manifesta pavor a qualquer iniciativa individual que esteja fora do seu controle. Desde então, o empreendedor por lá foi percebido como um anti-social, uma semente da contra-revolução, um potencial inimigo do regime.

Em março de 1965, depois de trotar pelo globo como o arauto da revolução, ele abandonou a importante posição no alto comando da revolução embrenhando-se no Congo e, a seguir, na selva boliviana. Montou sua base em Ñancahuazú, um fundão de mundo situado nas beiradas da mata amazônica, onde ele terminou seus dias.

Ao invés do apoio esperado, deparou-se com a gélida indiferença dos camponeses descendentes de índios. Aqueles rostos pétreos cor de cobre, de olhares inexpressivos, assinalaram a proximidade do seu fim, como se fossem prenúncios da lápide da sua futura sepultura. Na época, sabedor das andanças dele pela região, o governo local colocou sua cabeça a prêmio por U$ 4.200.

O fim em La Higuera

Denunciado por uma camponesa, cercado pelos rangers bolivianos sob o comando do capitão Gary Prado num lugar acidentado chamado de Quebrada Del Yuro, depois de um tiroteio, Guevara levemente ferido foi aprisionado na escolinha de La Higuera. Quando se vira perdido Che disse aos soldados que o cercavam: “Não disparem. Sou Che Guevara, e valho mais vivo do que morto.” Mas de nada lhe serviu.

No dia seguinte, após uma ordem expedida de La Paz, foi metralhado pelo tenente Mário Terán. Segundo os militares presentes suas últimas palavras foram: “Digam a Fidel que esse fracasso não significa o fim da revolução, que ela triunfará em qualquer outra parte. Digam a Aleida que esqueça tudo isso, que volte a casar, que seja feliz e cuide para que os meninos continuem estudando. Peçam aos soldados que façam boa pontaria.”

A foto do seu cadáver, posto sobre uma maca na lavandeira do Hospital Nuestro Señor de Malta, no lugarejo Vallegrande, para onde ele fora removido de helicóptero, foi mostrado ao mundo.

Havia um quê de místico naquele corpo emagrecido e perfurado de balas, estirado sozinho naquele lugar singelo. Imagem que lembra muito os santos martirizados das épocas primeiras do cristianismo Soube-se que, para fins de rigorosa identificação, os soldados bolivianos o mutilaram cortando-lhe as mãos que foram guardadas em formol.

Transcorridos trinta anos da sua morte, achados por fim os seus despojos enterrados secretamente nos arredores de Vallegrande, os cubanos, recambiando-lhe os ossos, deram-lhe um enterro decente num memorial erguido em Santa Clara (cidade que ele tomou antes de chegar a Havana), onde ele continua sendo um ícone nacional.

Por outro lado talvez ele não gostasse de estar vivo hoje para ter que testemunhar como tudo acabou num trágico, triste e melancólico fracasso. Analisando-se em retrospecto os descaminhos da revolução, presenciando-se o isolamento de Cuba e as crescentes dificuldades do regime de Fidel Castro, foi bem melhor para Guevara ter morrido moço.

Bibliografia

Anderson, Jon Lee - Che Guevara, Uma Biografia (Editora Objetiva, Rio de Janeiro,1997)

Castañeda, Jorge. C. - Che Guevara, uma vida em vermelho (Editora Companhia. das Letras, São Paulo, 1997)

Karol, K.S. - Los guerrilleros en el poder (Editora Seix Barral, Barcelona, 1972)

Rojo, Ricardo - Meu amigo Che (Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1968)

Terra Educação - Voltaire Schilling
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Qual é a velocidade do derretimento das geleiras e sua causa principal?

Pergunta da ouvinte Ivani Souza Nascimento, levada ao ar no programa de rádio Pesquisa Brasil de 16/9/2006

Resposta de Alberto Setzer, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e coordenador do programa meteorológico antártico:

O que causa o derretimento das geleiras é o aquecimento do planeta. A velocidade do derretimento das geleiras depende muito do local em que elas se encontram e do quanto estão sujeitas ao aquecimento global. Há geleiras derretendo no Alasca, nos Andes, no Himalaia, nas montanhas da África, como o Kilimanjaro, e na Antártica. Desde que iniciaram os registros climáticos em 1860, é possível verificar que o aquecimento está cada vez mais intenso. O século XX, com base em evidências históricas, foi o mais quente dos últimos 2 mil anos.

O caso da Antártica é um pouco mais intenso, principalmente se falarmos da Península Antártica, uma das regiões que têm um dos maiores índices de aquecimento do planeta. Na Ilha Rei George, onde fica a base brasileira, foi constatado um aquecimento de cerca de 0,5 °C a cada dez anos. No último século, a temperatura ali chegou a subir de 5 a 6°C no local, causando conseqüências como o derretimento das geleiras, a fragmentação e destruição das placas e mantos de gelo que existem naquela região.O derretimento de gelo na Antártica é uma das grandes preocupações no contexto de mudanças climáticas. Só na última década, uma área superior a milhares de quilômetros quadrados se fragmentou da plataforma de gelo Larsen B.

Revista da FAPESP
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Por que as pessoas no Brasil tendem a trocar o “R” pelo “L” e o “L” pelo “R”?

Pergunta do ouvinte Luciano Gerard, levada ao ar no programa de rádio Pesquisa Brasil de 9/9/2006

Reposta de Paulo Chagas de Souza, professor de Lingüística da Universidade de São Paulo (USP):

Para compreender melhor essa questão é necessário não pensar só na língua portuguesa e tentar ter uma visão mais abrangente das línguas. Muitas vezes, dois sons que são semelhantes não são distinguidos em uma língua, como é o caso do “S” e do “Z” no espanhol, mas são distinguidos no português. O “L” e o “R” são sons muito semelhantes em termos da articulação. Quando pronunciamos esses dois sons fazemos com a língua movimentos muito próximos. A diferença é que, ao pronunciarmos o “L”, deixamos o som escapar lateralmente, o que não acontece com o “R”. Por isso, muitas línguas, como o chinês e o japonês, não diferenciam esses dois sons.

Se pensarmos na história do português, é muito comum transformarmos o “L” em “R”.Muitas palavras que tinham “L” em latim, ao passarem para o português, tiveram a pronúncia alterada, sendo inclusive, consideradas corretas. A palavra latina “gluten” deu origem à nossa palavra “grude” e a palavra “nobile” originou “nobre”.

Como no português acontece com freqüência esse tipo de substituição, principalmente do “L” pelo “R”, as pessoas geralmente têm dúvidas sobre a forma correta. Por exemplo, a palavra “sicrano” geralmente é pronunciada, de forma incorreta, como “siclano”. Outros exemplos são as palavras “galfo” em vez de “garfo”, e “forga” em vez de “folga”. Essa confusão na pronúncia é chamada pelos lingüistas de hipercorreção.

Revista da FAPESP
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Quantas bombas atômicas já foram detonadas e onde explodiram?

Pergunta do professor de Geografia da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, em Vitória da Conquista, João Phelipe Santiago, levada ao ar no programa de 14/10/06

Resposta de Emico Okuno, professora livre-docente do Departamento de Física Nuclear do Instituto de Física da USP:

O primeiro teste nuclear foi realizado num deserto dos Estados Unidos em 16 de julho de 1945, quando foi detonada uma bomba equivalente àquela que seria lançada na cidade de Nagasaki. No total, os americanos fizeram 1054 testes nucleares sendo que o último foi em 1992. A maioria das explosões foi realizada no deserto de Nevada e 66 bombas foram detonadas no arquipélago das Ilhas Marshall entre os anos de 1946 e 1958.

Na União Soviética, foram detonadas 715 bombas, principalmente na Sibéria, sendo a primeira em 1949 e a última em 1990.

A França, por sua vez, realizou testes no Atol de Mururoa e de Fangataufa, o primeiro deles foi em 1960 e o último em 1996, totalizando 210 testes nucleares.

Os ingleses realizaram 45 testes, todos nas Christmas Islands, a primeira bomba detonada foi em 1952 e a última em 1991.

Detonando 43 bombas no seu próprio continente, a China iniciou seus testes em 1964 e cessou em 1996.

A Índia realizou seis testes nucleares, o primeiro em 1974 e os outros em 1998. Para responder aos testes dos indianos, o Paquistão detonou no ano de 1998 seis bombas atômicas.

E, neste ano, no dia 8 de outubro, a Coréia do Norte realizou um teste nuclear subterrâneo.

Nota da redação: Em alguns testes nucleares, mais de uma bomba atômica pode ter sido detonada.

Revista da FAPESP
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Controvérsia cresce

Olá, tudo bem?

A popularidade do Blog CONTROVÉRSIA vem superando as expectativas e o número de acessos mensais comprova isto. Fechamos o último mês com mais de 1.600 visitas/dia.

O ALEXA, site (em inglês) que mede a posição que a página da internet ou blog ocupa no mundo, confirma esta popularidade do Blog. Quando do seu lançamento (em julho de 2006) ocupávamos a posição 3.500.000 aproximadamente, porém, com o aumento das visitações nossa situação melhorou muito.

Hoje (no momento desta postagem) ocupamos o lugar 1.141.483.

Clique aqui e confira.

Mais uma vez obrigado pela audiência.

Grande abraço.

Ricardo Alvarez

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Pensamento do dia

Eu aprendi que para se crescer como pessoa e preciso me cercar de gente mais inteligente do que eu.

William Shakespeare

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Cores ilusórias & o cérebro

Novas ilusões visuais sugerem que a percepção de cores está associada à de formas e profundidade.

John S. Werner, Baingio Pinna e Lothar Spillmann

Importantes informações são perdidas quando se vê o mundo em preto-e-branco. As cores não apenas nos permitem enxergar o mundo com mais precisão, mas também criam qualidades emergentes que não existiriam sem elas. A fotografia da página ao lado, por exemplo, revela folhas de outono nas plácidas águas de uma fonte, juntamente com reflexos de árvores e um céu vespertino azul-escuro atrás delas. Na mesma cena vista em preto-e-branco, as folhas se destacam menos, os reflexos de luz são fracos, a água é quase invisível e a diferença aparente de profundidade entre o céu, as árvores e as folhas boiando não existe mais.

Ainda sim, esse papel que as cores exercem e mesmo sua verdadeira natureza não são bem reconhecidos. Muitas pessoas acreditam que a cor é uma propriedade definidora e essencial dos objetos, que depende inteiramente dos comprimentos de onda de luz específicos que são refletidos deles.

Mas essa crença é equivocada. A cor é uma sensação criada pelo cérebro. Se as cores que percebemos dependessem apenas do comprimento de onda da luz refletida, a cor de um objeto pareceria mudar drasticamente com variações de iluminação, com névoa, fumaça e luz de fundo. Pelo contrário, os padrões de atividade no cérebro mantêm a cor de um objeto relativamente estável, apesar de variações no seu ambiente.

Muitos pesquisadores que estudam a visão sustentam que a cor meramente nos auxilia na discriminação de objetos quando diferenças no brilho são insuficientes para tal tarefa. Alguns vão ainda mais longe e dizem que a cor é um luxo, e não realmente uma necessidade: afinal de contas, pessoas completamente daltônicas e muitas espécies de animais parecem se dar bem sem o grau de percepção de cor que a maioria dos humanos tem. A via de reações cerebrais responsável pela navegação e movimento, por exemplo, é essencialmente insensível às cores.

Pessoas que deixam de enxergar cores após um acidente vascular cerebral parecem ter, fora esse problema, percepção visual normal. Tais observações têm sido usadas para defender a idéia de que o processamento das cores tem uma natureza insular e não auxilia na percepção de características visuais como profundidade e forma – ou seja, que as cores têm a ver apenas com matiz, saturação e brilho.

Mas o estudo das cores ilusórias – que o cérebro é induzido a enxergar – demonstra que o processamento de cores no cérebro está atrelado ao processamento de outras propriedades, tais como formas e bordas. Por dez anos, tentamos compreender como as cores influenciam a percepção de outras propriedades dos objetos. Para isso, testamos uma série de novas ilusões, muitas delas criadas por nós. Elas têm nos ajudado a entender como o processamento neural de cores resulta em propriedades emergentes envolvendo formas e bordas. Antes de começar nossa discussão sobre essas ilusões, entretanto, precisamos relembrar como o sistema visual humano processa as cores.

As Vias das Ilusões
A percepção visual começa com a absorção de luz – mais precisamente, a absorção de pacotes discretos de energia chamados fótons – pelos cones e bastonetes localizados na retina (ver quadro na próxima pág.). Os cones são usados para a visão diurna; os bastonetes são responsáveis pela visão noturna. Um fotorreceptor do tipo cone responde de acordo com o número de fótons que captura, e sua resposta é transmitida a dois tipos diferentes de neurônios, as chamadas células bipolares on e off (palavras em inglês para ligado e desligado, respectivamente). Esses neurônios, por sua vez, fornecem input para células ganglionares on e off, que se encontram lado a lado na retina.
As células ganglionares possuem os chamados campos receptores centro-periferia (em inglês, center-surround). O campo receptor de qualquer neurônio relacionado à visão é a área de espaço no mundo físico que influencia a atividade desse neurônio. Um neurônio com um campo receptor centro-periferia responde de maneiras diferentes dependendo da quantidade relativa de luz no centro do campo e na região em volta do centro.

Uma célula ganglionar on dispara intensamente (com freqüência mais alta) quando o centro é mais claro que a periferia e fracamente quando o campo receptor é uniformemente iluminado. Células off se comportam da maneira oposta: respondem quando o centro é mais escuro que a periferia e quase não disparam quando o centro e a periferia são uniformes. Esse antagonismo entre o centro e a periferia significa que as células ganglionares respondem ao contraste, e dessa maneira refinam a resposta do cérebro a margens e bordas.

Os axônios das células ganglionares (fibras) transmitem seus sinais para o cérebro, especificamente para o núcleo geniculado lateral do tálamo (próximo ao centro do cérebro), e daí para o córtex visual (na parte de trás do cérebro). Diferentes populações de células ganglionares são sensíveis a atributos distintos dos estímulos visuais, tais como movimento e forma, e suas fibras conduzem os sinais com velocidades diferentes. Os sinais de cor, por exemplo, são levados pelas fibras mais lentas.

Acredita-se que cerca de 40% ou mais do cérebro humano esteja envolvido no processamento de estímulos visuais. Nas áreas estimuladas no princípio do processamento visual (partes do córtex visual chamadas V1, V2 e V3), os neurônios são organizados em mapas que fornecem uma representação ponto a ponto do campo visual. Daí, os sinais visuais se dispersam para mais de 30 áreas diferentes, interconectadas por mais de 300 circuitos. Cada uma dessas áreas tem funções especializadas, como o processamento de cor, movimento, profundidade e forma, embora nenhuma delas seja a mediadora exclusiva de uma qualidade perceptual. De alguma maneira, no final todas essas informações são combinadas numa percepção unitária de um objeto com cor e forma particulares. Os neurocientistas ainda não entendem com detalhes como isso acontece.

É interessante notar que danos bilaterais a determinadas áreas visuais levam a déficits na percepção de forma e cor, o que fornece ainda mais evidências de que a cor não é desincorporada das outras propriedades de um objeto. A mistura dos sinais de cores no cérebro com sinais contendo informações sobre a forma dos objetos pode resultar em percepções que uma análise dos comprimentos de onda refletidos desses objetos não prevê que ocorram. As ilusões que utilizamos demonstram isso claramente.

O Efeito Aquarela
Um dos nossos primeiros experimentos com cor ilusória ilustra a importância das cores para delinear a extensão e a forma de uma figura. Sob certas condições, a cor percebida muda em resposta à cor circundante; ela pode tornar-se mais distinta (o que é chamado contraste) ou mais semelhante (o que é chamado assimilação). O espalhamento de cores semelhantes (sensação de que uma cor se espalha por uma área maior do que a que ela realmente ocupa) já tinha sido notado em distâncias pequenas, em concordância com o achado de que a maior parte das conexões entre neurônios visuais no cérebro tem um alcance relativamente curto. Assim, ficamos surpresos ao descobrir que quando uma área sem cor é encerrada por duas linhas limitantes de cores diferentes – com a linha interna mais clara que a externa – a cor da linha interna parece se espalhar e preencher o espaço adjacente, mesmo através de distâncias bastante longas.

Porque a cor percebida como espalhada se assemelha a um véu diáfano, como o que é visto em algumas pinturas com aquarela, demos a essa ilusão o nome de efeito aquarela. Descobrimos que o espalhamento requer que os dois contornos sejam contíguos, de maneira que a cor mais escura possa agir como uma barreira que confina o espalhamento da cor mais clara ao interior, ao mesmo tempo que impede que essa se espalhe para o exterior. A figura definida pela aquarela ilusória parece densa e levemente elevada.

Quando as cores do contorno duplo são invertidas, a mesma região parece levemente afastada, e com uma fria cor branca.

O efeito aquarela define o que se torna figura e o que se torna fundo mais poderosamente que as propriedades descobertas pelos psicólogos da Gestalt na virada do século XX, tais como proximidade, boa continuidade, fechamento, simetria e assim por diante. O lado do contorno duplo que tem a cor mais clara preenche o interior com a aquarela, e é percebido como figura, enquanto o lado que tem a cor mais escura é percebido como fundo. Assim, essa assimetria elimina ambigüidades na percepção de uma figura. O fenômeno é reminiscente da noção de Edgar Rubin, um dos pioneiros da pesquisa sobre figura-fundo, de que a borda pertence à figura, e não ao fundo.

Uma explicação neurológica possível para a ilusão da aquarela é que a combinação de um contorno mais claro ladeado por um contorno mais escuro (sobre um fundo ainda mais claro) estimula neurônios que respondem apenas a um contorno que é mais claro no interior do que no exterior, ou a um contorno que é mais escuro no interior que no exterior, mas não a ambos. A posse da borda (se ela pertence à figura ou ao fundo) é provavelmente codificada nas áreas cerebrais V1 e V2, responsáveis pelos estágios iniciais de processamento no córtex visual. Em experimentos com macacos, neurofisiologistas descobriram que aproximadamente metade dos neurônios do córtex visual responde à direção do contraste (se esse fica mais claro ou mais escuro), e portanto poderia delinear a borda. Esses mesmos neurônios têm um papel na percepção de profundidade, que pode contribuir para a distinção entre figura e fundo.

Nossas investigações mostraram que linhas curvas e tortuosas produzem um espalhamento em aquarela mais forte que as linhas retas, provavelmente porque as bordas ondulantes ativam mais neurônios que respondem à orientação. A cor sinalizada por essas margens desiguais deve ser propagada por regiões do córtex que suprem grandes áreas do campo visual, continuando o espalhamento da cor até que células sensíveis a bordas do outro lado da área fechada forneçam uma barreira ao fluxo. Cor e forma são, portanto, ligadas inextricavelmente no cérebro e na percepção, nesse nível de análise cortical.

A ilusão da linha radial fornece mais evidências sobre o papel que a cor exerce na distinção entre figura e fundo. Em 1941, o psicólogo alemão Walter Ehrenstein demonstrou que uma figura circular brilhante preenche visivelmente o espaço central entre uma série de linhas radiais. A figura e a borda circular que a delimita não possuem nenhum correlato no estímulo físico; elas são ilusórias. A superfície ilusória brilhante parece encontrar-se levemente à frente das linhas radiais.

O comprimento, a largura, o número e o contraste entre as linhas radiais determinam a intensidade desse fenômeno. A configuração espacial das linhas necessária para que a ilusão tenha efeito implica a existência de neurônios que respondem à terminação de uma linha. Tais células, chamadas end-stopped, já foram identificadas no córtex visual, e talvez expliquem esse efeito. Esses sinais locais se combinam e viram inputs para um outro neurônio (de segunda ordem), que preenche a área central com brilho aumentado.

Em nossos estudos sobre a ilusão de Ehrenstein, avaliamos variações no número, comprimento e largura das linhas radiais, e os exemplos que apresentamos neste artigo representam os arranjos mais impressionantes que encontramos (ver as ilustrações numeradas). Uma vez que determinamos as características das linhas radiais que produziam o círculo central mais brilhante (1), experimentamos com variações nas propriedades cromáticas do espaço central. Primeiro, adicionamos um ânulo, ou anel, de cor preta à figura de Ehrenstein, e o brilho do espaço central desapareceu completamente – a ilusão foi destruída, como Ehrenstein também já havia notado (ver figura na pág. anterior, em cima). Suspeitamos que esse efeito surge porque o anel silencia as células que sinalizam as terminações das linhas.

Contudo, se o ânulo é colorido, outras células podem ser excitadas por essa mudança. Quando adicionamos cor ao ânulo, o disco branco não apenas pareceu muito mais claro (autoluminoso) que na figura de Ehrenstein, mas também tinha uma aparência mais densa, como se uma pasta branca tivesse sido aplicada à superfície do papel (2). Esse fenômeno nos surpreendeu; qualidades de autoluminosidade e superfície normalmente não aparecem juntas, e são até mesmo consideradas modos opostos, ou mutuamente excludentes, de aparência. Chamamos esse fenômeno de indução de brilho anômala. Como no efeito aquarela, acredita-se que células nas áreas corticais primárias causem essa ilusão.

Em seguida, inserimos um disco cinza no espaço central de uma figura de Ehrenstein (3). Surgiu outro fenômeno chamado lustro cintilante, no qual o brilho ilusório dá lugar à percepção de um brilho trêmulo que ocorre com cada movimento do padrão ou do olho. A cintilação pode surgir por causa da competição que ocorre entre os sistemas on e off: o brilho induzido pela linha (incremento ilusório) compete com o disco cinza escuro (decremento físico). Quando substituímos os discos brancos centrais dentro dos anéis coloridos por discos pretos e utilizamos um contorno preto (4), os discos ganharam aspecto ainda mais escuro que a área circundante fisicamente idêntica. O negrume parece gerar um vazio, ou um buraco negro, que absorve toda a luz.

Quando o disco central dentro do anel cromático era cinza em vez de preto ou branco, o disco parecia piscar e se tingir com a cor complementar do ânulo quando os olhos eram movimentados ou padrão se movia – por exemplo, de verde quando o anel circundante era roxo (5). O contraste anômalo de cor cintilante depende das linhas radiais e do ânulo cromático da mesma maneira que os outros dependem, mas também possui qualidades únicas que não parecem ser uma simples combinação de outros efeitos conhecidos. Nessa ilusão, a cor induzida parece tanto autoluminosa quanto cintilante. Surpreendentemente, ela parece flutuar acima do resto da imagem. A cor da superfície e a cor autoluminosa não se misturam; pelo contrário, uma pertence ao disco na página, e a outra emerge de uma combinação das outras características dos estímulos.

No contraste anômalo de cor cintilante, é possível que as linhas radiais ativem neurônios end-stopped locais, como foi proposto para o preenchimento de espaços pelos contornos ilusórios, mas a atividade dessas células não explica completamente a combinação de cintilação e cor complementar. Não está claro se as linhas radiais exercem um efeito direto sobre o contraste de cor, ou se a vivacidade da cor é derivada indiretamente do lustro e da cintilação causados pela combinação entre as linhas radiais e o centro cinza.

Os conhecimentos atuais sobre o cérebro não permitem explicar tudo o que ocorre nesse processo ilusório. A complexidade da ilusão sugere que é improvável que ela resulte de um processo unitário, e sim que ela representa uma tentativa do cérebro de reconciliar sinais provenientes de múltiplas vias especializadas que rivalizam entre si. Muito trabalho ainda é necessário para entender como o cérebro percebe o mundo físico. Felizmente, pesquisas em andamento sobre cores ilusórias continuarão a oferecer instigantes vislumbres das complexidades do sistema visual humano.

Há muito tempo pesquisadores sustentam que o processamento de cores no cérebro é separado do processamento de outros atributos, tais como profundidade e forma.

O estudo das cores ilusórias, no entanto, demonstra que a percepção de cores gera propriedades emergentes de forma e profundidade.

Os autores utilizaram a chamada ilusão de Ehrenstein para revelar como cor e forma estão relacionadas na percepção do mundo visual pelo cérebro.

Como o cérebro percebe as cores

A percepção das cores começa com a absorção de luz por células chamadas cones, localizadas na retina. A resposta dos cones é transmitida para células bipolares on e off. Por sua vez, estas fornecem input para as células ganglionares on e off também na retina. As células ganglionares têm campos receptores – espaços do mundo físico que determinam a atividade do neurônio – do tipo centro-periferia. Uma célula ganglionar on dispara com alta freqüência quando o centro é mais claro que a periferia e com baixa freqüência quando o campo receptor é iluminado de maneira uniforme. Uma célula off dispara intensamente quando o centro é mais escuro que a periferia e fracamente quando o centro e a periferia são uniformes. Os axônios das células ganglionares transmitem seus sinais ao cérebro, primeiro ao núcleo geniculado lateral, e daí para o córtex visual.

Para conhecer mais
Neon color spreading: a review. P. Bressan, E. Mingolla, L. Spillmann e T. Watanabe, em Perception, vol. 26, no 11, págs. 1353-1366, 1997.

The watercolor effect: a new principle of grouping and figure-ground organization. B. Pinna, J. S. Werner e L. Spillmann, em Vision Research, vol. 43, no 1, págs. 43-52, janeiro de 2003.

The visual neurosciences. Editado por L. M. Chalupa e J. S. Werner. MIT Press, 2004.

Figure and ground in the visual cortex: V2 combines stereoscopic cues with gestalt rules. F. T. Qiu e R. von der Heyt, em Neuron, vol. 47, no 1, págs. 155-166, 7 de julho de 2005.

The watercolor illusion and neon color spreading: a unified analysis of new cases and neural mechanisms. B. Pinna e S. Grossberg, em Journal of the Optical Society of America, vol. 22, no 10, págs. 2207-2221, 2005.

Scientific American Brasil
http://www2.uol.com.br/sciam/

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Balzac e os jornalistas

CARLOS HEITOR CONY

“O jornal é o jornal e o político é o seu profeta”, diz o autor de “A Comédia Humana”

DOIS TEXTOS de Balzac que poderiam ser considerados marginais, “Monografia da Imprensa Parisiense” e “Os Salões Literários”, seriam obras circunstanciais e menores de qualquer outro autor, não fosse esse autor o responsável pelo maior monumento literário da humanidade.
Produzidos nos meados do século 19, no tumulto da maior realização romanesca da literatura universal, os dois trabalhos bem que poderiam figurar como apêndice de “A Comédia Humana”. Diferem da colossal galeria de tipos e situações que criaram o primeiro e articulado estudo da sociedade humana. Mas revelam o mesmo sopro avassalador que fez de Balzac o autor único de um único gênero: o painel que pretendia ser apenas literário, mas foi considerado por Marx como obra além da literatura, criadora do embrião que geraria a moderna sociologia.
Temos aqui o Balzac puro, autêntico, anedótico quase. Não o artista de tantas obras-primas que marcaram a ficção do seu século, mas o homem sangüíneo e rude, esbanjando inteligência e cólera, personificando o panfletário que ele mesmo define; “O verdadeiro panfleto é obra do mais alto talento, se todavia não for o grito do gênio”.
O tema escolhido é a imprensa -da qual ele pinçou personagens e situações que persistem na mídia do início do século 21. Tal como em “A Comédia Humana”, que permanece como o estudo mais completo da sociedade de seu tempo, seu mergulho na imprensa parisiense do século 19 pode parecer obra de um genial mistificador contemporâneo que retrata a imprensa de hoje com o disfarce -permitido na literatura- de outro cenário a ser atribuído a outro autor.
“Nos jornais da situação, alguns redatores têm um futuro: tornam-se cônsules-gerais nas paragens mais distantes, são nomeados secretários de ministros, ou cumprem outras missões oficiais; enquanto que aqueles da oposição só têm como asilo as academias de ciências morais e políticas.”
“As coisas mais interessantes, os grandes e pequenos artigos, tudo se torna uma questão de paginação entre meia-noite e uma hora da manhã, a hora fatal dos jornais, hora na qual as notícias aparecidas no início da noite exigem destaque.”
“Com os anúncios tomando um quarto da edição, com as amenidades ocupando um quarto do que resta, os jornais não têm espaço.” “Se há um concorrente para o mesmo posto e alguém quer ser nomeado para ele, pode impedir a nomeação do rival fazendo badalar a sua por todos os jornais.”
“O jornal é o jornal e o político é o seu profeta. Ora, os profetas são profetas muito mais por aquilo que eles dizem do que por aquilo que eles disseram. Não há nada mais infalível do que um profeta mudo.”
“Todo crítico é um autor impotente. (…) A crítica se tornou uma espécie de alfândega para as idéias.” “O redator de amenidades vive nas folhas como um verme na seda. Se queixa como os sultões de ter prazer demais.” “Para o jornalista, tudo o que é provável é verdadeiro.”
Seria o caso de perguntar se algum ressentimento pessoal guiou a mão famosa que emergia daquele burel que ainda se pode ver no museu Balzac, em Paris.
É possível que, tal como Marcel Proust no início do século seguinte, Balzac tivesse suas queixas. Contudo, o próprio Proust, cuja genialidade deve ser comparada à sua, enquadra-se em alguns dos tipos esboçados meio século antes.
Se houve ressentimento, independentemente de seu grau e oportunidade, não vem ao caso. Para quem traçou com pinceladas igualmente vigorosas o imenso mural da sociedade, captando a unidade na variedade da condição humana, não importam as motivações que o levaram a ser tão cáustico.
Ele via o homem de um posto de observação privilegiado. Distribuía carapuças como o dono do galinheiro distribui milho às galinhas: enchendo a mão de grãos e jogando aqui e ali, que cada qual bicasse de acordo com a sua fome.
Sua meta não era moral. Transcendia ao interesse ético, religioso, político ou social. Era observador da comédia da qual também era personagem, testemunha e cúmplice. Daí um de seus axiomas: “Se a imprensa não existisse, seria preciso não inventá-la”.

(Prefácio para a edição de “Os Jornalistas”, de Honoré de Balzac, Ediouro.)

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Teerã avança na América Latina

NEWTON CARLOS

O Irã “pode ser um parceiro perigoso”. O aviso foi feito pelo embaixador Paul Trivelli, dos EUA, diante da decisão do presidente nicaragüense, Daniel Ortega, de assinar contratos de centenas de milhões de dólares com os iranianos. Banana, café e alimentos serão os objetos de troca em projetos de infra-estrutura.
Os negócios do Irã com a Nicarágua, pais pobre, sem um grão de areia de poder militar, não representam nenhuma ameaça estratégica para Washington, mas se contrapõem à política do governo Bush de “contenção” do regime islâmico iraniano, tido pelo Departamento de Estado como o que mais desafia interesses americanos.
Um dos itens da “contenção” é o isolamento e o Irã tenta e consegue executar inserções, algumas a fundo, numa região sob influência direta dos EUA.
Tem embaixadas em pleno funcionamento em México, Venezuela, Cuba, Brasil, Argentina e Nicarágua e trata de se entender, em presença diplomática e projetos comuns, com Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Uruguai.
A Chancelaria do Irã abrigou o “primeiro [no Irã] seminário internacional sobre a América Latina”. Na agenda, o papel dos latino-americanos no “sistema internacional do futuro”.
Trivelli e o Departamento de Estado encaram a aproximação da Nicarágua com Teerã como reforço da operação Irã-América Latina, que tem como eixo dois países petrolíferos, o próprio Irã e a Venezuela. Mas não se deve esquecer que nos anos 80 a Nicarágua foi palco de guerra orquestrada por Washington, com o argumento de que era preciso bloquear a via de acesso do comunismo à região.
O “Guardian”, de Londres, disse que Hugo Chávez fez entrada motorizada numa fábrica, “joint venture” entre Venezuela e Irã, destinada a produzir três coisas: tratores, influências e angústias. Os tratores irão para cooperativas pobres e socialistas na América Latina. Os primeiros “carros antiimperialistas” em breve começarão a rodar. Supõe-se que as angústias sejam dos americanos. Hugo Chávez já esteve seis vezes no Irã e ele mesmo diz que a cada viagem Washington fica preocupada.

Jornal Folha de S. Paulo
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As novas armas biológicas

Um relatório da Associação Médica Britânica alerta: indústrias e governos podem explorar os avanços da genômica e da biologia para desenvolver fármacos que provocam colapso dos processos vitais — ou produzem soldados sem medo e sem memória. EUA, Europa e China seriam a vanguarda desta corrida para a morte

Steve Wright

A Associação Médica Britânica (AMB) acaba de publicar um novo relatório sobre o “uso de drogas como armas” [1]. É a terceira publicação da entidade alertando para a militarização da medicina e seu potencial para criar novos artefatos de guerra. Mas até que ponto devemos nos preocupar com o avanço crescente da farmacologia tática?

O assunto esteve em cena pelo menos por quatro décadas. O especialista em armas químicas e biológicas Julian Perry Robinson, do Programa de Harvard-Sussex, relatou experimentos governamentais em seres humanos com as drogas alucinógenas incapacitantes LSD e BZ [2]; o uso de CS no campo de batalha do Vietnã; a pesquisa russa de codinome Bonfire, destinada a transformar os peptídeos humanos regulatórios em armas; o emprego de material químico em interrogatórios; e uma desconcertante linha de produtos psicoquímicos – paralisantes que interrompem a transmissão de impulsos nervosos, produtores de dor, irritantes baseados em componentes encontrados em fontes tão variadas quanto as urtigas (uruxiol) e o sapo comum (bufotenina) [3].

Mas a natureza altamente técnica dessa pesquisa restringiu o debate aos grupos envolvidos na criação de conhecimento organizado sobre armas não-convencionais, como o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, o Fórum de Genebra, o Programa Harvard-Sussex e o Pugwash [4]. Enquanto isso, tem havido um interesse militar crescente pelas armas bioquímicas incapacitantes, à medida que o desenvolvimento das ciências da vida vem criando novas possibilidades. Essa pesquisa se acelerou depois do onze de setembro, com a liberação de recursos substanciais direcionados a tecnologias e armas que possam ser utilizadas em conflitos assimétricos, nos quais aliados e inimigos estão eventualmente misturados ou são indistinguíveis.

Revolução nas neurociências permite tratar doenças incuráveis ou… construir mentes sem medo e memória
A revolução que está ocorrendo nas neurociências tem clara ligação com o relatório da AMB. A genômica e a biologia de sistemas estão rompendo as fronteiras entre processos químicos e biológicos, que antes eram vistos como distintos. Agora, as moléculas podem ser reprojetadas racionalmente para afetar processos de biorregulação, como o funcionamento neurológico, cardiovascular etc. No passado, este era um procedimento experimental laborioso, mas agora a maior parte do trabalho pode ser computadorizada, de modo que os compostos bioativos mais promissores são identificados automaticamente, em uma velocidade prodigiosa.

Novos compostos podem ser projetados para agir como mecanismos de liberação que, por si sós, não causam doença. São produzidos rapidamente. E variantes desses novos agentes podem ser exploradas por meio da química combinacional, que se beneficia da alta capacidade de exame por varredura, investigando milhares de ligações potenciais. Enquanto isso, a genômica, a metodologia de microarray (utilizada para investigar a expressão simultânea de um grande número de genes) e a inteligência artificial fornecem previsões de toxicidade, evolução direcionada, proteômica (codificação de proteínas pelos genes), bioinformática e modelagem computadorizada de estruturas receptoras do cérebro.

Ninguém negaria tais facilidades à medicina e à indústria farmacêutica, pois apresentam um incrível potencial para curar doenças humanas e prolongar vidas ativas. Mas esta revolução das neurociências também traz o espectro da iminente militarização da biologia, acompanhado pelo circo de horrores de novos mecanismos para induzir paralisia, de técnicas avançadas de repressão, de tortura em massa, dor e terror.

Este uso perverso das neurociências pode não ficar restrito apenas aos oponentes do Estado. No Iraque, vimos as forças aliadas dos Estados Unidos utilizarem drogas para acentuar o estado de alerta de seus soldados. Em um futuro próximo, de acordo com Wheelis e Dando, poderemos presenciar soldados indo para a ação com agressividade e resistência ao medo, à dor e ao cansaço quimicamente aumentadas. E até mesmo com suas memórias desagradáveis removidas pela farmacologia militar [5].

Após o 11 de setembro, Europa derruba veto à pesquisa de armas capazes de afetar o cérebro
O relatório da AMB alerta para o fato de que, apesar das proibições das armas químicas e biológicas, os governos “demonstram considerável interesse na possibilidade de usar drogas como armas”. Parte desse interesse vem do desejo insatisfeito pelas assim chamadas “armas não-letais”. Parte decorre da mudança de atitude provocada pelo 11 de setembro. Antes disso, o Comitê de Assuntos Externos, Segurança e Política de Defesa do Parlamento Europeu tinha pedido uma “proibição global de qualquer trabalho de pesquisa e desenvolvimento, militar ou civil, que busque aplicar conhecimentos sobre o funcionamento químico, elétrico, ligado a vibrações sonoras ou outros meios do cérebro humano para o desenvolvimento de armas que possam permitir qualquer forma de manipulação de seres humanos” [6].

Depois do 11 de setembro, emudeceram as inquirições e críticas aos avanços indesejáveis das tecnologias de segurança de Estado nos EUA. Há muito menos pressão política sobre a responsabilidade do complexo de segurança industrial. E, em muitos sentidos, esse complexo está agora criando a agenda política [7]. É claro que tais desdobramentos não estão acontecendo apenas nos EUA e na Europa. A AMB alerta também para a pesquisa chinesa.

Para a organização, o uso militar de drogas levanta questões éticas cruciais, porque elas não são utilizáveis “sem gerar uma significativa mortalidade entre a população-alvo”. A droga que simplesmente tiraria as pessoas momentaneamente de ação, sem risco de morte, “não existe e é improvável que venha a existir em um futuro visível”.

Um caso emblemático e trágico: o uso de fentanil pelas tropas russas, na reação a atentado terrorista
As preocupações da AMB são múltiplas e universais, estendendo-se, para além da Grã-Bretanha, aos clínicos de toda parte. Elas dizem respeito, especificamente, a: 1.Envolvimento de médicos no planejamento e execução de ataque, usando drogas como armas; 2. Coleta de dados sobre os efeitos das armas em questão; 3. O papel da medicina e do saber médico no desenvolvimento de armas; 4. A dupla responsabilidade dos médicos – de um lado, não prejudicar pessoas; de outro, apoiar a “segurança nacional”; 4. O papel dos médicos no apoio à legislação internacional.

A relevância dessas preocupações veio à tona quando as Forças Especiais Russas utilizaram um anestésico do tipo fentanil para resgatar os reféns do cerco terrorista ao Teatro de Moscou, em 23 de outubro de 2002. Na ocasião, 130 dos 900 reféns morreram, na proporção de um para sete. As chamadas armas não-letais provaram ser letais – na realidade, mais letais do que as usadas em guerra, para as quais a taxa de mortalidade esperada é de um em 16. Este é um resultado importante a ser considerado, pois a participação dos médicos em semelhantes ações militares suscita questões éticas sobre seu papel e ressalvas quanto à adequação de seu treinamento para enfrentar tal tipo de ocorrência. No fim, ficou claro que participação médica foi muito mal-vista.

Há também alegações de que as autoridades, que ainda se recusam a identificar o produto usado, alteraram os certificados de óbito deliberadamente, para respaldar a idéia de que o material era inofensivo. Bem menos discutido foi o número de pessoas deixadas permanentemente inválidas por essa operação. Grupos em defesa das vítimas relataram 174 mortes e casos de invalidez permanente entre os sobreviventes [8]. O grupo também observou a liquidação de todos os tchetchnos suspeitos de terrorismo, reforçando a visão de que esses compostos podem facilitar a execução sumária, substituindo um processo legal.

Hipótese alarmante: potências militares poderiam terceirizar a pesquisa e produção das novas armas
Os médicos possuem altos padrões para indicar remédios e testes a pacientes. O relatório da AMB identifica uma potencial pressão futura dos fabricantes de armas sobre a indústria farmacêutica, com o objetivo de baixar esses padrões. Há repercussões de um alerta, publicado no Le Monde Diplomatique, em 2003, pela professora Chantal Bismuth e o coronel Patrick Barriot, de que as armas químicas de amanhã possam vir a ser encontradas nos catálogos de medicamentos [9].

A AMB cita um estudo do Centro de Pesquisa Aplicada da Faculdade de Medicina da Universidade de Pennsylvania que pede à indústria farmacêutica para levar em conta as milhares de drogas descartadas ou deixadas em prateleiras sem pesquisa concluída, devido a efeitos colaterais indesejados. O mesmo estudo identifica vários “produtos farmacêuticos órfãos”, com nove tipos diferentes de sistemas como neurotransmissor/receptor e outras classes de compostos, inclusive convulsivantes [10].

O que aconteceria se alguns países decidissem que tais armas químicas não precisam de testes clínicos? E, se esses testes forem realizados, como investigações em idosos, doentes e crianças poderiam ser permitidas por um comitê de ética médica? Uma preocupação de peso é que tal tipo de pesquisa possa ser “terceirizado” para um país onde dinheiro e capital político sejam mais importantes do que a ética médica. Trata-se de um ponto importante. Uma vez que a relutância em usar armas bioquímicas perigosas no contra-terrorismo ou na contra-insurgência tenha sido quebrada, é possível antever uma rápida evolução de novas variantes, com ampla gama de indução de efeitos de imobilização e dor. E o cenário de pesadelo de armas seletivas por etnia já foi apontado pela AMB, que lançou um grande alerta para o fato de estar em curso uma corrida às armas de avental branco. [11].

Sabe-se que pesquisadores militares estão estudando as propriedades da endotelina – uma cadeia de 21 aminoácidos, similar em estrutura a certos venenos de cobra – e toda uma nova classe de biorreguladores, com efeitos potenciais sobre o sistema circulatório. Entre outros compostos em análise, está a chamada “substância P”, uma taquiquinina que pode provocar intensa broncoconstrição.

Em paralelo às drogas, surgem armas para transportá-las: bombas dispersoras, pistolas, micro-cápsulas…
Outros riscos em discussão referem-se a compostos bioquímicos que podem induzir doenças de aparecimento tardio, como o câncer do fígado, favorecendo atos de genocídio retardados por talvez vinte anos. De igual importância neste debate é o fato de que, além de as drogas serem pesquisadas para se tornarem armas, novas armas estão sendo projetadas para transportá-las ao alvo, como seringas voadoras estabilizadas, bombas para a dispersão de grandes quantidades de produtos químicos, pistolas de paintball modificadas, micro-cápsulas que soltam o produto químico quando pisadas, veículos não-tripulados etc. O caso mais recente é o acordo comercial entre as companhias norte-americanas Taser, fabricante de pistolas que dão eletrochoques, e a iRobot, fabricante de veículos de guerra não-tripulados para exploração de terreno [12]. É só uma questão de tempo para que os novos modelos desses veículos incorporem pistolas para lançar armas químicas e que estas armas tenham opções algorítmicas autônomas.

A AMB enfatiza corretamente suas preocupações legais por três razões. As normas legais internacionais que protegem a humanidade de veneno e da disseminação deliberada de doença, adotadas depois de décadas de negociação, correm o risco de ser enfraquecidas. A disponibilidade ampla, mas responsável, de drogas com potencial emprego militar inevitavelmente resultaria na chegada delas às mãos de agentes, estatais ou não, para os quais a mortalidade no meio da população-alvo não teria importância. Usar as drogas existentes como armas, com conhecimento de causa, significa subir ao topo de uma ladeira escorregadia, no fim da qual está o espectro da militarização da biologia, que poderia trazer a manipulação intencional das emoções, memória, resposta imunológica e até a fertilidade das pessoas.

E o horror continua. O Sunshine Project, dos Estados Unidos, revelou documentação de uma pesquisa norte-americana orientada para utilizar a mudança de orientação sexual como tática de luta [13]. Como o mundo reagirá se um Estado militarizado decidir alterar a química do cérebro feminino, para produzir civis hormonalmente receptivas ao estupro militar em massa?

O papel decisivo da Convenção de Armas Químicas, que deverá ser revista em 2008
A visão comum é que, se todas as armas químicas e biológicas são proibidas pelas convenções internacionais, então não há problema, Porém, mesmo aqui, existe uma brecha: a Convenção de Armas Químicas (CAQ), no artigo II(9)d, permite uma exceção para o controle de conflitos internos. Isso era visto, essencialmente, como autorização do uso de armas químicas policiais destinadas ao controle de multidões (como o gás lacrimogênio, por exemplo) e do uso de injeção letal destinada à execução legal. Contudo, o emprego de produtos incapacitantes como armas contra o terrorismo abriu uma significativa janela. A questão agora é saber que tipos de compostos, além do gás lacrimogênio padrão, são permitidos em ações de manutenção da paz. Essa brecha enfraquece potencialmente a Convenção de Armas Químicas [14].

De acordo com o professor Malcolm Dando, da Escola de Estudos para a Paz da Bradford University: “A melhor solução para as dificuldades com o artigo II.9(d) seria os Estados signatários concordarem que não existe permissão para o uso de produtos químicos além dos produtos-padrão para o controle de distúrbios. Contudo, se isso não for possível, os Estados signatários teriam que relatar regularmente quais produtos químicos para esse tipo de ação eles possuem, em que quantidades e com quais os dispositivos de disseminação”.

A Convenção de Armas Químicas vai ser revista em 2008. O relatório da AMB alcançará seu propósito se os negociadores que se encontrarem em Genebra no ano que vem escutarem o alerta de pôr a mão nesse assunto antes que seja tarde demais.

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[1] British Medical Association: “The use of drugs as weapons: the concerns and responsibilities of healthcare professionals”, 2007. Disponível em http://www.bma.org.uk/ap.nsf/Content/drugsasweapons

[2] Benzilato de quinuclidinil, uma droga que pode causar delírio durante dias.

[3] Robinson, Julian Perry: “Disabling Chemical Weapons: A Documentary Chronology of Events, 1945-2003)”, 2004. Documento de trabalho não publicado, Programa de Havard-Sussex.

[4] Em 1955, Bertrand Russel e Joseph_Rotblat criaram, na cidade canadense de Pugwash, uma conferência para trabalhar contra as ameaças de conflitos mundiais.

[5] Wheelis, M. e Dando, M.: “Neurobiology: a case study of the imminent militrarisation of biology”, em International review of the Red Cross, vol.87, no. 859, pp.553-571, 2005.

[6] Parlamento Europeu, Comitê de Assuntos Externos, Segurança e Política de Defesa: Report on the Environment, Security and Foreign Policy (Relatora Mrs. Maj. Britt Theorin), PE 227.710/fin, 14 de janeiro de 1999, p.10.

[7] Para uma excelente análise desta vertente, ver Hayes, B.: “Arming Big Brother: the EU’s security research programme”, TNI/Statewatch, Amsterdam, 2006. http://www.statewatch.org/news/2006/apr/bigbrother.pdf

[8] Burban, L., Gubareva, S., Karpova, T., Karpov, N., Kurbatov, V., Milovidov, D., Finogenov, P.: ‘Investigation Unfinished’, Regional Public Organization for Support of Victims of Terrorist Attacks, Moscou, 2006. Disponível em russo no site: http://www.pravdabeslana.ru/nordost/doklad.zip. Há também uma versão reduzida em inglês (sem apêndices) em: http://www.pravdabeslana.ru/nordost/dokleng.doc-> http://www.pravdabeslana.ru/nordost/dokleng.doc]

[9] Chantal Bismuth e Patrick Barriot, “A falsa retórica da classificação de armas”, Le Monde Diplomatique Brasil, maio de 2003

[10] Lakoski, J., Bosseau, M.W., Kenny, JM.: “The advantages and limitations of calmatives for use as a non-lethal technique”, College of Medicine Applied Research Laboratory, Pennsylvania State University, 2000.

[11] Para uma revisão abrangente desses fatos, ver Davison, N., Lewer N.: Research Report no 8, Bradford Non-Lethal Weapons Research Project, 2006.

[12] http://uk.biz.yahoo.com/28062007/290/taser-international-forms-strategic-alliance-irobot.html

[13] http://www.sunshine-project.org/incapacitants/jnlwdpdf/

[14] Para uma análise clara destes temas ver Pearson, A: “Incapacitating bio-chemical weapons: science, technology, and policy for the 21st Century”, Non Proliferation Review, vol. 13, no 2, julho de 2006, pp. 151-179.

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

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