Arquivo de 3 de Novembro de 2007

O Socialismo e as Igrejas

Rosa de Luxemburgo

Desde o momento em que os trabalhadores do nosso país e da Rússia começaram a lutar corajosamente contra o governo czarista e contra os exploradores capitalistas, notamos cada vez com mais freqüência que os padres, nos seus sermões, se lançam contra os trabalhadores que lutam. É com extraordinário vigor que o clero combate os socialistas e tenta, por todos os meios, minimizá-los aos olhos dos trabalhadores. Os crentes que vão à igreja, nos domingos e dias festivos, são compelidos, cada vez com mais freqüência, a ouvirem um violento discurso político, uma verdadeira denúncia do Socialismo, em vez de ouvirem um sermão e nele obterem uma consolação religiosa. em vez de confortarem as pessoas que estão cheios de preocupações, e cansadas pela vida difícil, e que vão à igreja com fé no Cristianismo, os padres fulminam os trabalhadores que estão em greve e os opositores do Governo; e ainda mais, exortam-nos a suportar a pobreza e a opressão com humildade e paciência. Transformaram a igreja e o púlpito num lugar de propaganda política.

Os trabalhadores podem convencer-se facilmente que a luta do clero contra os sociais democratas* não é de modo algum provocada por estes. Os sociais democratas propõem-se, como objetivo, unirem-se e organizarem os trabalhadores na luta contra o capital, isto é, contra os exploradores que lhes sugam a última gota de sangue, e na luta contra o governo czarista que impede a libertação do povo. Mas nunca s sociais democratas conduzem os trabalhadores a lutar contra o clero ou tentar interferir com as crenças religiosas; de modo nenhum! Os sociais democratas, de todo o mundo e do nosso próprio país, consideram a consciência e as opiniões pessoais como sendo sagradas.

Todo homem pode ter aquela fé e aquelas opiniões que lhe pareçam capazes de assegurar a felicidade. Ninguém tem o direito de perseguir ou atacar a opinião religiosa particular dos outros. Isto é o que os socialistas pensam. E é por esta razão, entre outras, que os socialistas animam todo o povo a lutar contra o regime czarista, que está continuamente a violentar a consciência das pessoas, perseguindo católicos, católicos russos [1] , judeus, heréticos e livres pensadores. São precisamente os sociais democratas que aparecem mais fortemente em defesa da liberdade de consciência. Portanto, pareceria que o clero tinha obrigação de dar a sua ajuda aos sociais democratas que estão a tentar aliviar o povo oprimido. Se entendermos devidamente os ensinamentos que os socialistas trazem à classe trabalhadora, o ódio do clero contra eles torna-se ainda menos compreensível.

Os sociais democratas propõem-se por fim à exploração do povo pelos ricos. Pensar-se-ia que os servidores da igreja deveriam ter sido os primeiros a desempenhar-se desta tarefa, mais do que os sociais democratas. Não é Jesus Cristo (de quem os padres são servidores) quem ensina que “é mais fácil um camelo passar pelo furo de uma agulha que um rico entrar no Reino dos Céus”? [2] Os sociais democratas tentam trazer a todos os países regimes sociais baseado na igualdade, liberdade e fraternidade de todos os cidadãos. Se o clero realmente deseja que o princípio “Ama o teu próximo como a ti mesmo”seja aplicado na vida real, por que é que não recebe bem e com entusiasmo a propaganda dos sociais democratas? Os sociais democratas tentam, através de uma luta desesperada e da educação e organização do povo, subtraí-lo à opressão em que se encontra e oferecer-lhe um melhor futuro para os filhos. Todos devem admitir que, neste ponto, o clero deveria abençoar os sociais democratas, pois não é ao clero que eles servem, e sim a Jesus Cristo, que diz que “o que fizeres aos pobres é a mim que o fazeis”? [3]

Contudo vemos o clero, por um lado, excomungado e perseguindo os sociais democratas e, por outro, mandando os trabalhadores sofrer com paciência, isto é, deixando-os pacientemente ser explorados pelos capitalistas. O clero atira-se violentamente contra os socialistas democratas, exorta os trabalhadores a não se revoltarem contra os dominadores, mas a submeter-se à opressão deste governo que mata o povo indefeso, que manda para a monstruosa carnificina da guerra milhões de trabalhadores, que persegue católicos. Católicos russos e “velhos crentes” [4] . Assim, o clero, que se torna o porta-voz dos ricos, o defensor da exploração e opressão, põe-se a si próprio em flagrante contradição com a doutrina cristã. Os bispos e os padres não são os propagadores dos ensinamentos cristãos, mas os adoradores do Bezerro de Ouro [5] e do chicote que açoita os pobres e indefesos.

Além disso, todos sabem que os próprios padres tinham proveito do trabalhador,extraem-lhe dinheiro por ocasião do batismo, casamento e funeral. Quantas vezes têm acontecido que o padre, chamado à cabeceira da cama de um doente para administrar os últimos sacramentos, se recusou a ir lá antes de serem pagos os seus “honorários”? O trabalhador vai, desesperado, vender ou hipotecar os seus últimos bens para ser capaz de dar uma consolação ao seu parente.

É verdade que encontramos sacerdotes de outra espécie. Existem alguns que estão cheios de bondade e misericórdia e que não procuram lucros; estes estão sempre prontos a ajudar os pobres. Mas devemos admitir que são, sem dúvida, raros e que podem ser olhados da mesma maneira que graúnas brancas. A maior parte dos padres, de faces rosadas, curvam-se e saúdam cortesmente os ricos e poderosos, perdoando-lhe silenciosamente toda depravação a e toda a iniqüidade. Para com os trabalhadores, o clero comporta-se de maneira bem diferente: pensa apenas em espezinha-los sem piedade; em sermões ríspidos condenam a “cobiça” dos trabalhadores quando estes nada mais fazem do que defender-se contra os erros do capitalismo. A espantosa contradição entre as ações do clero e os ensinamentos do cristianismo deve levar-nos todos a refletir. Os trabalhadores espantam-se de como na luta da sua classe pela emancipação vão encontrar nos servidores as Igreja inimigos e não aliados. Como é que a Igreja desempenha o papel de defesa da opressão rica e sangrenta, em vez de ser o refúgio dos explorados? Para entender esse fenômeno estranho, basta lançar os olhos sobre a história da igreja e examinar a evolução pela qual ela passou ao longo dos séculos.

II

Os sociais democratas desejam pôr em execução o estado de “Comunismo”; é principalmente isso que o clero tem contra eles. Em primeiro lugar, é chocante notar que os padres de hoje, que combatem o comunismo, condenam, na realidade, os primeiros apóstolos cristãos. Estes não passaram, de fato, de ardentes comunistas.

A religião crista desenvolveu-se, como é bem conhecido, na Roma antiga, no período do declínio do império, que fora, antes, rico e poderoso, compreendendo os países que são hoje a Itália e a Espanha, parte da França, parte da Turquia, a Palestina e outros territórios. O estado de Roma, na época do nascimento de Jesus Cristo, parecia-se muito com o da Rússia czarista. Por um lado, ali vivia um punhado de gente rica, gozando da luxúria e todos os prazeres; por outro lado, uma enorme massa de pobres apodrecia na pobreza; sobretudo um governo despótico, assentado na violência e na corrupção, exercia uma vil opressão. Todo o império Romano foi mergulhado em completa desordem e cercado por ameaçadores inimigos externos: a soldadesca desenfreada, no poder, praticava as suas crueldades sobre a população desgraçada; a província estava deserta, a terra jazia abandonada, as cidades, especialmente Roma, a capital, estava cheia de uma pobreza chocante que erguia os olhos carregados de ódio para os palácios dos ricos; o povo estava sem pão, sem abrigo, sem vestuário, sem esperança e sem possibilidades de sair de sua pobreza.

Há apenas uma diferença entre Roma na sua decadência e o império dos czares; Roma nada sabia de capitalismo; não existia ali a indústria pesada. Naquele tempo, a escravatura era a ordem de coisas estabelecidas em Roma. As famílias nobres, os ricos, os financeiros satisfaziam todas as suas necessidades pondo a trabalhar os escravos aprisionados nas guerras. Com o andar dos tempos, estas pessoas ricas tinham deitado a mão a quase todas as províncias da Itália, espoliando da terra os camponeses. Como se apropriavam de cereais em todas as províncias conquistadas, como tributo sem custo, davam-se ao luxo de abandonar, nos seus próprios estados, plantações magníficas, vinhas, pastagens, pomares e ricos jardins, cultivados por exércitos de escravos a trabalhar debaixo de chicote do capataz. Assim se havia formado em Roma um exército numerosos dos que nada possuíam – o proletariado [6] -, não tendo mesmo a possibilidade de vender a força do seu trabalho. Este proletariado, vindo do campo, não podia, ser absorvido pelas empresas industriais como acontece hoje; tornaram-se vítimas da pobreza desesperada e foram reduzidos à mendicidade. Esta numerosa massa popular, morrendo de fome, sem trabalho, enchendo os subúrbios e os espaços livres e as ruas de Roma, constituía um perigo permanente para o governo e para as classes possuidoras. Portanto, o governo sentiu-se compelido, no seu próprio interesse, a aliviar a pobreza. De tempos em tempo, distribuía ao proletariado o cereal e outros gêneros alimentícios armazenados nos celeiros do Estado. Mais, para fazer o povo esquecer as suas amarguras, oferecia-lhe espetáculos gratuitos de circo. Ao contrário do proletariado do nosso tempo, que mantém toda a sociedade pelos seus trabalhos, o enorme proletariado de Roma existia pela caridade.

Eram os escravos miseráveis, tratados como bestas, quem trabalhava para a sociedade romana. Neste caos de pobreza e degradação, um punhado de magnatas romanos passava seu tempo em orgias e devassidão. Não havia possibilidade de sair destas monstruosas condições sociais. O proletariado queixava-se e ameaçava, de vez em quando revoltou-se, mas uma classe de mendigos, vivendo das migalhas caídas da mesa dos senhores, não podia estabelecer uma nova ordem social. Além disso, os escravos que mantinham com o seu trabalho toda a sociedade, estavam muito espezinhados, bastante dispersos, demasiado esmagados pelo jugos, tratados como bestas e viviam bastante isolados das outras classes para serem capazes de transformar a sociedade. Revoltaram-se muitas vezes contra os seus patrões, tentaram libertar-se em batalhas sangrentas, mas o exercito romano esmagou sempre estas revoltas, esmagando os escravos aos milhares e condenando-os à morte na cruz.

Nesta sociedade a desmoronar-se, onde não existe saída desta trágica situaçao para o povo, nem esperança alguma de uma vida melhor, os desgraçados voltam-se para o Céu procurando nele a salvação.a religião crista aparecia a estes infelizes seres como um cintode salvação, uma consolação e um encorajamento e tornou-se, logo desde o princípio, a religião dos proletários romanos. Em conformidade com a posição material dos homens pertencentes a esta classe, os primeiro cristãos fizeram a proposta da propriedade em comum – o comunismo. O que é que poderia ser mais natural? As pessoas careciam dos meios de subsistência e estavam a morrer de pobreza. Uma religião que defendia o povo pedia que os ricos partilhassem com os pobres as riquezas que devem pertencer a todos e não a um punhado de pessoas privilegiadas; uma religião que pregava a igualdade de todos os homens teria grande sucesso. Contudo, isto nada tem em comum com as propostas atuais dos sociais democratas, com vista a transformação em propriedade comum dos instrumentos de trabalho, dos meios de produção, para que toda a humanidade possa trabalhar e viver em unidade harmoniosa.

Vimos que os proletários romanos não vivam do trabalho, mas das esmolas que o governo distribuía. Assim, a exigência, pelos cristãos, da coletivização da propriedade, não diz respeito aos meios de produção, mas aos bens de consumo. Eles não pediam que a terra, as oficinas e os instrumentos de trabalho se tornassem propriedade coletiva, mas apenas que tudo deveria ser repartido entre eles, casas, roupas, alimentos e os produtos acabados mais necessários à vida. Os comunistas cristãos não se preocuparam nada em inquirir acerca da origem destas riquezas. O trabalho de produção recaiu sempre sobre os escravos. O povo cristão desejava apenas que os que possuíam a riqueza abraçassem a religião crista e fizessem das suas riquezas propriedade comum, para que todos pudessem gozar destas coisas boas em igualdade e fraternidade.

Foi, na verdade, deste modo que as primeiras comunidades cristas se organizaram. Um contemporâneo escreveu: “Estas pessoas não acreditam em fortunas, mas pregam a propriedade coletiva e nenhuma de entre elas possui mais do que as outras. Quem desejar entrar na sua ordem é obrigado a pôr a sua fortuna como propriedade comum a essas mesmas pessoas. E pro isso que não há entre eles nem pobreza nem luxo – todos possuindo tudo em comum, como irmãos. Não vivem numa cidade à parte, mas em cada uma têm casas para eles próprios. Se quaisquer estrangeiros pertencentes à sua religião aparecem, repartem a propriedade com eles e podem beneficiar dela como se fosse propriamente sua. Essas pessoas, mesmo que desconhecidas anteriormente uma das outras, dão as boas vindas uns aos outros e as suas relações as muito amigáveis”.

Quando viajam não levam nada senão uma arma para se defender dos ladrões. Em cada cidade têm o seu próprio administrador, que distribui roupa e alimento aos viajantes. Negócio não existe entre eles. Contudo, se um dos membros oferece algum objeto de que ele precisa, recebe outros objetos em troca. Mas também cada um pode pedir o que precisa mesmo que não possa dar em troca”.

Lemos nos “Atos dos Apóstolos” (IV 34, 35) a seguinte descrição da primeira comunidade de Jerusalém: “Entre eles não havia ninguém necessitado, pois todos os que possuíam terras ou casas vendiam-nas, traziam o produto da venda e depositavam-no aos pés dos Apóstolos. E a cada um era distribuído de acordo com a sua necessidade”.

Em 1780, o historiador alemão Vogel escreveu quase a mesma coisa a cerca dos primeiros cristãos: “De acordo com a regra, todo cristão tinha direito à propriedade de todos os membros da comunidade, caso quisesse, podia pedir que os membros mais ricos dividissem a sua fortuna com ele, de acordo com as suas necessidades. Todo o cristão podia fazer uso da propriedade dos seus irmãos. Assim, os cristãos que não tinham casa podiam exigir do que tinha duas ou três que os recebesse; o proprietário conservava para si próprio apenas a sua própria casa. Mas por causa da comunidade de gozo dos bens, tinha de dar-se habitação àquele que a não tinha”.

O dinheiro era colocado em caixa comum e um membro da sociedade. Especialmente escolhido para esse fim, dividia a fortuna coletiva entre todos. Mas sto não era tudo. Entre os primeiros cristãos o comunismo foi levado tão longe que eles tomavam as suas refeições em comum. A sua vida familiar era portanto abolida; todas as famílias cristas, numa sociedade, viviam juntas, como uma única grande família.

Para terminar acrescentamos que certos padres atacam os sociais democratas alegando que somos a favor da comunidade de mulheres. Obviamente que isto é uma grande mentira,proveniente da ignorância ou da irado clero. Os sociais democratas consideram isso como uma distorção vergonhosa e bestial do casamento. E contudo esta prática foi usual entre os primeiros cristãos [7] .

Deste modo, os cristãos do I e II século foram fervorosos adeptos do comunismo. Mas este comunismo era baseado no consumo de produtos acabados e não no trabalho, e mostrou-se incapaz de reformar a sociedade e de pôr fim à desigualdade entre os homens e de derrubar a barreira que separa ricos e pobres. Por isso, exatamente como antes, as riquezas criadas pelo trabalho – para toda a sociedade – era fornecido pelos escravos. O povo, desprovido de méis de subsistência, recebia apenas esmolas.

Enquanto uns poucos (em proporção com a massa do povo) possuírem exclusivamente para seu próprio uso todas as terras cultiváveis, florestas e pastagens, os animais do campo e as casa de lavoura, todas as oficinas, ferramentas e matérias de produção, não pode haver qualquer espécie de igualdade entre os homens. Em tais condições, a sociedade, evidentemente, encontra-se dividida em duas classes, os ricos e os pobres, os do luxo e os da pobreza. Suponhamos, por exemplo, que os ricos proprietários, influenciados pela doutrina crista, oferecessem para distribuir para o povo todas as riquezas que possuíam em forma de dinheiro, cereais, frutas, vestuário e animais. Qual seria o resultado? A pobreza desapareceria por algumas semanas e , durante este tempo, a população poderia alimentar-se e vestir-se. Mas os produtos acabados são rapidamente consumidos. Após um pequeno lapso de tempo, as pessoas, tendo consumido as riquezas distribuídas, teriam uma vez mais as mãos vazias. Os proprietários da terra e dos instrumentos de produção podiam produzir mais, graças ao poder laboral dos escravos, e assim nada se mudaria. Bem. Aqui está porque os sociais democratas consideram estas coisas de um modo diferente dos comunistas cristãos. Eles dizem: “Não queremos que os ricos repartam com os pobres: não queremos nem caridade nem esmolas; ambas as coisas são incapazes de impedir o retorno da desigualdade entre os homens. Não é de modo algum uma partilha entre ricos e pobres que nós desejamos, mas a completa supressão de ricos e pobres”. Isto é possível desde que as fontes de toda a riqueza, a terra, em comum com todos os outros meios de produção e instrumentos de trabalho, se tornem propriedade coletiva do povo trabalhador que irá produzir para si próprio, de acordo com as necessidades de cada um. Os primeiros cristãos acreditaram que podiam remediar a pobreza do proletariado por meio das riquezas oferecidas pelos possuidores. Isso seria deitar água numa peneira! O comunismo cristão foi não só incapaz de mudar ou melhorar a situação econômica, como não substituiu.

Ao principio, quando os seguidores do novo Salvador constituíam um pequeno grupo na sociedade romana, a divisão do pecúlio comum, as refeições em comum e o viver debaixo do mesmo teto, eram praticáveis. Mas quando o numero de cristãos se espalhou pelo território do Império, esta vida comunitária dos seus partidários tornou-se mais difícil. Em breve desapareceu o costume das refeições comuns e a divisão dos bens tomou um novo aspecto. Os cristãos não mais viveram como uma família; cada um tomou cuidado da sua própria propriedade e já não ofereciam o total dos seus bens à comunidade, mas apenas o supérfluo. As ofertas dos mais ricos de entre eles ao organismo geral, perdendo o seu caráter de participação numa vida comum, em breve se transformaram em simples “esmolas”, desde que os cristãos ricos deixaram de fazer caso da propriedade comum e passaram pôr ao serviço dos outros apenas uma parte do que tinham, parte que podia ser maior ou menor, condoante a boa vontade do doador. Assim, no coração do comunismo cristão, apareceu a diferença análoga à que reinava no Império Romano e contra a qual os primeiros cristãos tinham combatido. Em breve foram apenas os cristãos pobres – os proletários – que tomaram parte em refeições comuns; os ricos, tendo oferecido uma parte da sua abundancia, conservavam-se à parte. Os pobres viviam das esmolas atiradas pelos ricos e a sociedade tornou-se outra vez naquilo que tinha sido. Os cristãos não tinham mudado a vontade dos ricos.

Os padres da Igreja lutaram muito ainda, com palavras escaldantes, contra esta penetração da desigualdade social na comunidade crista, flagelando os ricos e exortando-os a voltarem ao comunismo dos primeiros Apóstolos.

S. Basílio, no Século IV depois de Cristo, pregou assim contra os ricos:

“Miseráveis, como vos ireis justificar diante do Juiz do Céu? Vós dizeis-me: “Qual é a nossa falta, quando guardamos o que nos pertence”? eu pergunto-vos: “Como é que arranjastes isso a que chamais de vossa propriedade? Como é que os possuidores se tornam ricos, senão tomando posse das coisas que pertence a todos? Se todos tomassem apenas o que estritamente necessitam, deixando o resto aos outros, não haveria nem ricos nem pobres”.

Foi S. João Crisóstomo, patriarca de Constantinopla, (nascido em Antioquia em 347, falecido, no exílio, na Armênia, em 407) quem pregou mais ardentemente aos cristãos para regressarem ao primeiro comunismo dos Apóstolos. Este célebre pregador, na sua 11ª homilia sobre o Atos dos Apóstolos, disse: “E havia uma grande caridade entre eles ( os Apóstolos); ninguém era pobre entre eles. Ninguém considerava como seu o que lhe pertencia, todas as suas riquezas estavam em comum… uma caridade existia em todos eles. Esta caridade, consistia em que não havia pobre entre eles, de tal modo que os tinham bens apressavam-se a desprender-se deles. Não dividiam as suas fortunas em duas partes, dando uma e guardando a outra; davam o que tinham. Assim não havia desigualdade entre eles. Todos viviam em grande abundancia. Tudo se fazia com o maior respeito. O que davam não passava da mão do doador para a mão do que recebia; as suas dádivas eram sem ostentação; traziam os bens aos pés dos apóstolos que se tornavam os controladores e donos deles e que os usavam, daí para o futuro, como bens da comunidade e já não como propriedade de indivíduos. Por este meio cortaram a possibilidade de vã glória. Ah! Por que é que se terão perdido estas tradições? Ricos e pobres poderiam todos tirar proveito destes costumes piedosos e uns aos outros sentiríamos o mesmo prazer em nos conformarmos com eles. Os ricos não empobreceriam ao desprenderem-se das suas posses, e os pobres seriam esquecidos… Mas tentemos dar uma idéia exata do que se deveria fazer… Ora, suponhamos – e nem pobres nem ricos precisam se alarmar, pois eu estou apenas a supor – suponhamos que vendemos tudo o que nos pertence para pormos o produto da venda numa conta comum. Que somas de ouro se amontoariam! Não sei dizer com exatidão quanto isso iria dar; mas se todos entre nós, sem distinção de sexo, trouxéssemos os nossos tesouros, se vendêssemos os campos, as propriedades, as casas – não falo de escravos, pois não havia nenhum na comunidade cristã e os que houvesse tornavam-se livres – talvez, se todos fizessem o mesmo, creio que conseguiríamos centenas de milhar de libras de ouro, milhões, enormes valores.

“Bem. Quantas pessoas pensam que vivem nesta cidade? Quantos cristãos? Concordam em que haja uns cem mil? O resto será constituído por judeus e gentios. Quantos não conseguiríamos unir? Ora, se contássemos os pobres, quantos seriam? Cinqüenta mil necessitados, no máximo. O que seria necessário para os alimentar em cada dia? Julgo que a despesa não seria excessiva, se o fornecimento e o consumo da alimentação fossem organizados em comum. Dir-se-á ta;vez: “mas o que será de nós quando estes gêneros estiverem consumidos?” Mas o quê? Isso poderia acontecer? A graça de deus não seria mil vezes mais abundante? Não estaríamos nós a fazer um céu na terra? Se anteriormente esta comunidade de bens existiu entre três a cinco mil fiéis e teve tão bons resultados e baniu a pobreza entre eles por que não resultaria numa grande multidão como esta? E entre os próprios pagãos, quem não se apressaria a aumentar o tesouro em comum? E entre o tesouro comum? A riqueza que é possuída por várias pessoas é muito mais fácil e rapidamente gasta: a difusão da propriedade é a causa da pobreza. Tomemos como exemplo uma família composta de marido, esposa e dez filhos, a esposa ocupando-se em fiar a lã, o marido trazendo do seu trabalho fora de casa; digam-me em que gastaria mais esta família, se vivendo em comum ou vivendo separadamente. Obviamente, se estivessem separados. Dez casas, dez mesas, dez criados e dez subsídios especiais seriam necessários para crianças se vivessem separados. O que é que se faria se possuíssem muitos escravos? Não é verdade que para reduzir as despesas se iria aumentá-los numa mesa comum? A divisão é uma causa de empobrecimento; a concórdia e a unidade de vontades é uma causa de riquezas.

“Nos mosteiros, ainda se vive como na primitiva Igreja. E quem morre de fome ali? Quem é que ali não encontra o bastante para comer? Contudo os homens do nosso tempo temem viver dessa maneira mais do que temem cair no mar! Por que é que não tentamos? Temê-lo-íamos. Que grande ato seria esse! Se alguns fiéis, uns escassos oito mil, gostaram, na presença de todo o mundo, onde não tinham senão inimigos, de fazer uma corajosa tentativa de viver em comum, sem qualquer auxílio externo, quanto o melhor o podíamos os fazer hoje, agora que já cristãos em todo o mundo? Permaneceria um único gentio? Nenhum, creio eu. Nós atrai-los-íamos todos e ganhá-lo-íamos para nós” [8] .

Estes ardentes sermões de S. João Crisóstomo foram em vão. Os homens na não mais tentaram estabelecer o Comunismo nem em Constantinopla, nem em parte nenhuma. Ao mesmo tempo que o cristianismo se expandia e se tornava, em Roma, depois do século IV, a religião dominante, os fiéis distanciavam-se cada vez mais do exemplo dos primeiros Apóstolos. Mesmo dentro da própria comunidade cristã, a desigualdade de bens entre os fiéis cresceu.

De novo, no século VI, Gregório, O grande, disse “Não é, de modo algum, bastante não roubar a propriedade dos outros; é errado conservar para si próprio a riqueza que Deus criou para todos. Aquele que não dá aos outros o que possui é um assassino; quando guarda para seu próprio uso o que proveria os pobres, pode dizer-se que está a matar os que podiam ter vivido da sua abundância; quando repartimos com os que estão sofrendo, nós não damos o que nos pertence, mas o que lhes pertence. Isto não é um ato de misericórdia, mas o pagamento de uma dívida”.

Estes apelos foram infrutíferos. Mas a culpa não foi, de modo algum, dos cristãos desses dias, que na verdade correspondiam mais às palavras dos Padres da Igreja do que os cristãos de hoje. Não foi a primeira vez na história da humanidade que as condições econômicas se mostraram elas próprias mais fortes que belos discursos.

O Comunismo, esta comunidade de consumo de bens, que os primitivos cristãos proclamaram, não podia ser posta em prática sem o trabalho comum de toda a população, na terra, como propriedade comum, e também em oficinas comunais. No período dos primeiros cristãos, era impossível iniciar o trabalho comunal (com meios comunais de produção) porque, como nós já afirmamos., o trabalho baseava-se, não em homens livres, mas em escravos que viviam à margem da sociedade.

A Cristandade não tentou abolir a desigualdade entre o trabalho de diferentes homens nem entre a sua propriedade. Razão pela qual, o seu esforço para suprimir a distribuição desigual dos bens de consumo não vingou. As vozes dos Padres da igreja proclamando o Comunismo não encontraram eco. Além disso, estas vozes, em breve, tornaram-se cada vez menos freqüentes e, finalmente, caíram no silêncio completo. Os Padres da Igreja cessaram de pregar a comunidade e a distribuição dos bens, porque o crescimento da comunidade cristã produziu mudanças fundamentais dentro da própria Igreja.

III

No princípio, quando o número de cristão era pequeno, não existia clero no sentido próprio da palavra. Os fiéis, que formavam uma comunidade religiosa independente, uniam-se em comum, em cada cidade. Elegiam um membro responsável para dirigir o serviço de Deus e realizar as cerimônias religiosas. Todo cristão podia tornar-se bispo ou prelado estas funções eram coletivas, sujeitas a revogação, honorárias, e não comunicavam poder além do que a comunidade lhes conferia de livre vontade. [9] À medida que o número de fiéis crescia e as comunidades se tornavam mais numerosas e mais ricas, a gerência dos negócios da comunidade e o desempenho das tarefas tornou-se uma ocupação que exigia muito tempo e uma aplicação total. Como os que exerciam este ofício não podiam executar as suas tarefas e simultaneamente os seus empregos privados, surgiu o costume de eleger entre os membros da comunidade um eclesiástico a quem eram exclusivamente confiadas estas funções. Portanto estes funcionários da comunidade tinham de ser pagos pela sua devoção exclusiva às funções dela. Assim se formou dentro da Igreja uma nova ordem de funcionários da Igreja, que se separou do corpo principal dos fiéis, o clero. Paralelamente à desigualdade entre ricos e pobres, aí apareceu uma outra desigualdade, entre o clero e o povo. Os eclesiásticos, no princípio eleitos entre iguais com vistas a exercerem uma função temporal, em breve se guindaram a uma espécie de casta que governava o povo.

Quanto mais as comunidades cristãs se tornavam numerosas nas cidades do grande Império Romano, tanto mais os cristãos, perseguidos pelo Governo, sentiam a necessidade de se unirem para ganhar força. As comunidades, espalhadas por todo o território do Império, organizaram-se portanto numa única Igreja. Esta unificação foi já uma unificação do clero e não do povo. Desde o séc. IV, os eclesiásticos das comunidades encontravam-se nos concílios. O primeiro concílio realizou-se me Nicéia, em 325. desta forma se formou o clero, numa ordem separada do povo. Os bispos das comunidades mais ricas e poderosas tomavam a presidência dos concílios. É por isso que o bispo de Roma em breve se colocou a si próprio à cabeça de toda a Cristandade e se tornou o Papa. Assim um abismo separava o clero, organizado em hierarquia, do povo.

Ao mesmo tempo, as relações econômicas entre o povo e o clero sofreram uma gande mudança. Antes da formação desta ordem, tudo que os membros ricos da Igreja ofereciam para propriedade comum pertencia aos pobres. Depois, uma grande parte dos fundos era gasta em pagar ao clero e em administrar a Igreja.

Quando, no séc. IV, o Cristianismo foi protegido pelo governo, e foi reconhecido em Roma como sendo a religião dominante, as perseguições dos cristãos terminaram e o culto deixou de ser exercido nas catacumbas ou em modestos compartimentos e passou para igrejas que começaram a ser construídas duma forma cada vez mais magnificente. Estas despesas reduziram assim os fundos destinados aos pobres. Já no século V, os rendimentos da Igreja eram divididos em quatro partes: a primeira para o bispo, a segunda para o clero menor, a terceira para manutenção da Igreja e era apenas a quarta parte que era distribuída para os necessitados. A população cristã pobre recebia portanto uma soma igual à que o Bispo recebia só para si próprio. Com o andar dos tempos foi-se perdendo o hábito de dar aos pobres a importância a eles destinada previamente. Sobretudo, quando o alto clero ganhou importância, os fiéis deixaram de ter o domínio sobre a propriedade da Igreja. Os bispos davam aos pobres a seu bel-prazer. O povo recebia esmolas do seu próprio clero. E não só. No princípio da cristandade, os fiéis faziam ofertas voluntárias para o tesouro comum. Logo que a religião cristã se tornou uma religião de Estado, o clero exigia que as ofertas fossem trazidas tanto pelos pobres como pelos ricos. Desde o século VI o clero impôs uma taxa especial, o dízimo (a décima parte das colheitas), que tinha de ser paga à Igreja. Esta taxa esmagava o povo como um pesado fardo; durante a Idade Média, tornou-se um verdadeiro flagelo para os camponeses oprimidos pela servidão. O dízimo era imposto sobre qualquer porção de terra, sobre qualquer propriedade. Mas foi sempre o servo quem pagou com seu trabalho. Assim os pobres não só perderam o apoio e ajuda da Igreja, mas viram os padres aliarem-se com os seus outros exploradores: príncipes, nobres, agiotas. Na Idade Média, enquanto a população trabalhadora se afundava em pobreza através da escravidão, a Igreja tornava-se cada vez mais rica. Além dos dízimos e de outras taxas, a Igreja beneficiava-se, neste período , de grandes doações, legados feitos por ricos libertinos de ambos os sexos que desejavam compensar, no último momento, a sua vida de pecado. Deram e voltaram a dar à Igreja dinheiro, casas, aldeias inteiras com os seus servos e algumas vezes rendas de terra ou direitos consuetudinários de trabalho.

Deste modo a Igreja adquiriu uma enorme riqueza. Ao mesmo tempo o clero deixou de o ser, para passar a ser o “administrador” da riqueza que a Igreja tinha recebido. Foi abertamente declarado, no século XII, ao formular-se uma lei que se diz vir da Sagrada Escritura, que a riqueza da Igreja pertence não aos fiéis, mas é propriedade individual do clero e do seu chefe, para o Papa, sobretudo. As posições eclesiásticas, portanto, ofereciam as melhores oportunidades para obter grandes rendimentos. Cada eclesiástico dispunha da propriedade da Igreja como se fosse sua e largamente a doava aos seus parentes, filhos e netos. Por este meio os bens da Igreja foram pilhados e desapareceram nas mãos dos familiares do clero. Por esta razão, os Papas declararam-se como proprietários soberanos das fortunas da Igreja e ordenaram o celibato do clero para o manterem intacto e impedir que seu patrimônio fosse disperso. O celibato foi decretado no século XIII, devido à posição do clero. Ainda para impedir a dispersão da riqueza da Igreja, em 1927 o papa Bonifácio VIII proibiu aos eclesiásticos de fazer oferta dos seus rendimentos aos leigos, sem permissão do Papa. Assim a Igreja acumulou enorme riqueza especialmente em terras lavradias e o clero de todos os países cristãos tornou-se o mais importante proprietário de terras. Possuía algumas vezes um terço ou mais do que um terço de todas as terras do país!

Os camponeses pagavam não só os impostos de trabalho mais o dízimo igualmente, e não só nas terras dos príncipes e dos nobres mas também em enormes áreas onde trabalhavam diretamente para bispos, párocos e conventos. Entre todos os poderosos senhores dos tempos feudais, a Igreja aparecia como maior de todos os exploradores. Na França, por exemplo, no fim do século XVIII, antes da Grande Revolução, o clero possuía a 5ª parte de todo o território do país com um rendimento anual de cerca de 100 milhões de francos. Os dízimos pagos pelos proprietários subiam a 23 milhões. Esta soma ia engordar 2.800 prelados e bispos, 5.600 superiores e priores, 60.000 párocos e curas e 24.000 monges e 36.000 freiras que enchiam os conventos. Este exército de padres estava livre de impostos e de obrigações de serviço militar. Nos tempos de calamidade – guerra, más colheitas, epidemias – a Igreja pagava ao tesouro de Estado uma taxa “voluntária” que nunca exercida 16 milhões de francos.

O clero, assim privilegiado, constituía, com a nobreza, uma classe dominante vivendo à custa de sangue e do suor dos servos. Os altos postos na Igreja e os que pagavam melhor eram distribuídos somente aos nobres e permaneciam nas mãos da nobreza. Conseqüentemente no período de escravidão, o clero foi aliado da nobreza dando-lhe apoio e ajuda para oprimir o povo a quem nada oferecia senão sermões, de acordo com os quais o povo devia permanecer humilde e resignar-se com a sua sorte. Quando o proletariado do campo e da cidade se levantava contra a opressão e escravatura, encontrava no clero um opositor feroz. É também verdade que mesmo dentro da Igreja havia duas cl;asses: o alto clero que absorvia toda a riqueza, e a grande massa dos curas rurais cujos modestos recursos não iam além de 500 a 2.000 francos anuais. Portanto esta classe revoltava-se contra o clero superior e, em 1789, durante a Grande Revolução, juntou-se ao povo para combater contra o poder da nobreza eclesiástica e laica. Assim foram as relações entre a Igreja e o povo modificadas com o andar dos tempos. A Cristandade começou como uma mensagem de consolação aos deserdados e pobres. Trazia uma doutrina que combatia a desigualdade social e o antagonismo entre ricos e pobres; ensinou a comunidade de riquezas. Em breve este templo de igualdade e fraternidade tornou-se uma nova fonte de antagonismos sociais. Tendo abandonado a luta contra a propriedade individual que tinha sido feita pelos primeiros apóstolos, o clero juntou ele próprio riquezas, aliou-se coma classe dominante que vivia a explorara o trabalho da classe trabalhadora. Nos tempos feudais a Igreja pertencia à nobreza, à classe dominante, e defendia ferozmente o poder desta contra a revolução. No fim do século XVIII e princípios do século XIX, o povo da Europa Central varreu a escravatura e os privilégios da nobreza. Nesta altura, a Igreja aliou-se outra vez às classes dominantes – à burguesia industrial e comercial. Hoje, a situação mudou e o clero já não possui grandes estados, mas possui capital que tenta tornar produtivo pela exploração do povo através do comércio e indústria, como fazem os capitalistas.

A Igreja Católica na Áustria possuía, de acordo com as suas próprias estatísticas, um capital de mais de 813 milhões de coroas (10), das quais 300 milhões eram em terras lavradias e em propriedades, 387 milhões em obrigações e além disso emprestou a juros total de 70 milhões aos donos de fábricas e aos homens de negócios. Eis como a Igreja, adaptando-se aos tempos modernos, se mudou para uma forma capitalista industrial e comercial a partir de um domínio feudal. Como outrora, ela continua a colaborar com a classe que se enriquece à custa do proletariado rural.

Esta mudança é ainda mais espantosa na organização dos conventos. Em certos países, tais como a Alemanha e a Rússia, os mosteiros foram suprimidos há muito tempo. Mas onde ainda existem, na França, Itália e Espanha, tudo evidencia o papel enorme desempenhado pela Igreja no regime capitalista.

Na Idade Média, os conventos eram o refúgio do povo. Era aí que procuravam refugiar-se para se livrar da severidade dos senhores e príncipes. Era aí que encontravam alimento e proteção em caso de pobreza extrema. Os conventos não recusavam pão e sustento aos esfomeados. Não esqueçamos, especialmente, que a Idade Média nada sabia de comércio como é normal nos nossos dias. Toda propriedade, todo o convento produzia em abundância para si próprio, graças ao trabalho dos servos e dos artífices. Muitas vezes as provisões em reserva não tinha saída. Quando produziam mais cereal, mais legumes, mais madeira do que era necessário para o consumo dos monges, o excedente não tinha valor. Não havia comprador para ele e nem todos os produtores se podiam preservar. Nestas condições, os conventos cuidavam gratuitamente dos seus pobres, em todo o caso oferecendo-lhe apenas uma pequena parte do que tinha sido extraído aos seus servos. (Este era o costume normal neste período e quase todas as propriedades pertencente à nobreza procediam do mesmo modo). De fato, os conventos beneficiavam consideravelmente desta benevolência; tendo fama de abrir as suas portas aos pobres, recebiam grandes dádivas e legados dos ricos e poderosos. Com o aparecimento do capitalismo e da produção para troca, todos os objetos adquiriram um preço e tornaram-se negociáveis. Nesta altura, os conventos, as casas dos senhores e dos eclesiásticos cessaram os seus benefícios. O povo não encontrou aí mais refúgio. Eis uma razão, entre outras, porque no princípio do capitalismo, no século XVIII, quando os trabalhadores não estavam ainda organizados para defender os seus interesses, apareceu uma pobreza não aterrorizadora que parecia que a humanidade tinha regressado aos dias da decadência do Império Romano. Mas enquanto a Igreja Católica, nos primeiros tempos, se esforçou por auxiliar o proletariado romano pregando o comunismo, a igualdade e a fraternidade, no período capitalista agiu de um modo completamente diferente. Procurou sobretudo beneficiar com a pobreza do povo: pôs a mão-de-obra barata a trabalhar. Os conventos tornaram-se literalmente infernos de exploração capitalista, tanto piores quanto tinham ao seu serviço mulheres e crianças. A causa judicial contra o convento Bom Pastora, em França, em 1903, foi um exemplo retumbante destes abusos. Rapariguinhas de 12, 10 e 9 anos eram compelidas a trabalhar em condições abomináveis, sem descanso, arruinando os olhos e a saúde e eram mal alimentadas e sujeitas à disciplina de prisão.

Nesta altura, os conventos estão quase abolidos na França e a Igreja perde a oportunidade de exploração capitalista direta. O dízimo, o açoite dos servos, tinha sido igualmente abolidos há muito tempo. Isto não impede o clero de extorquir dinheiro à classe trabalhadora por outros métodos, e especialmente através de missas, casamentos, funerais e batismos. E os governos que sustentam o clero obrigam o povo a pagar o seu tributo. Mais, em todos os países exxeto nos USA e na Suíça, onde a religião é um assunto pessoal, a Igreja recebe do Estado enormes somas que obviamente provêm do duro trabalho do povo. Por exemplo. Na França os gastos com o clero sobem 40 milhões de francos por ano.

Para resumir, é o trabalho de milhões de explorados que assegura a existência da Igreja, do governo e da classe capitalista. As estatísticas relativas ao rendimento da Igreja na Áustria dão a idéia da considerável riqueza da Igreja, que foi outrora refúgio dos pobres. Há cinco anos (isto é, 19000) as suas receitas anuais ascendiam 35 milhões. Assim, no decurso de um só ano, “punha de lado” 25 milhões à custa do suor e sangue derramados pelos trabalhadores. Aqui estão alguns detalhes desse orçamento:

O Arcebispo de Viena, com rendimento anual de 300.000 coroas, e com despesas não superiores a metade dessa quantia, fazia 150.000 coroas de “economias” por ano; o capital fixo do Arcebispado era de cerca de 7 milhões de coroas. O Arcebispo de Praga goza de um rendimento superior a meio milhão e tem cerca de 300.000 de despesas; o seu capital atinge quase 11 milhões de coroas. O Arcebispado do Olomouce (Olmutz) tem mais meio milhão de rendimentos e cerca de 400.000 de despesa; a sua fortuna excede 14 milhões. O clero subordinado, que muitas vezes alega pobreza, não explora menos a população. Os rendimentos anuais dos párocos da Áustria atingem 35 milhões de coroas, as despesas apenas 21 milhões, com o que as “economias” dos párocos atingem anualmente 14 milhões. Finalmente, os conventos de há cinco anos possuíam, deduzidas todas as despesas, uma receita líquida de 5 milhões por ano. Estas riquezas cresciam todos os anos, enquanto a pobreza dos trabalhadores explorados pelo capitalismo e pelo estado crescia de ano para ano.

No nosso país, e em toda a parte, o estado de coisas, é exatamente como na Áustria.

IV

Depois de termos revistos resumidamente a história da Igreja não podemos surpreender-nos que o clero apóie o governo czarista e os capitalistas contra os trabalhadores revolucionários que lutam por um futuro melhor. Os trabalhadores com consciência de classe, organizados no Partido Social Democrata, lutam por dar realidade à idéia da igualdade social e da fraternidade entre homens, objetivo que fora anteriormente o da Igreja Cristã.

Não é possível empreender a igualdade quer numa sociedade baseada na escravatura quer numa sociedade baseada na servidão: torna-se possível entende-la no nosso tempo, isto é, no regime do capitalismo industrial. O que os apóstolos cristãos não puderam conseguir com os seus ardentes discursos contra o egoísmo dos ricos, os proletários modernos, trabalhadores conscientes da sua posição de classe, podem principiar a realizar no futuro próximo, pela conquista do poder político em todos os países, apoderando-se das fábricas, da terra e de todos os meios de produção dos capitalistas para os tornar propriedade comum dos trabalhadores. O comunismo que os sociais democratas têm em vista não consiste na distribuição entre pobres, ricos e preguiçosos da riqueza produzida por escravos e servos, mas no trabalho comum honesto e unido e no gozo honesto dos frutos comuns desse trabalho. O socialismo não consiste em dádivas generosas feitas pelos ricos aos pobres, mas na abolição total de toda a diferença entre ricos e pobres, obrigando todos igualmente a trabalhar de acordo com a sua capacidade para se suprimir a exploração do homem pelo homem.

Com o propósito de estabelecer a ordem socialista, os trabalhadores organizaram-se no Partido Social Democrata dos Trabalhadores que se propõe a este fim. Eis porque a Social Democracia e o movimento dos trabalhadores enfrentam o ódio feroz das classes proprietárias que vivem à custa dos trabalhadores.

As enormes riquezas acumuladas pela Igreja, sem qualquer esforço da sua parte, vêm da exploração e da pobreza do povo trabalhador. A riqueza dos arcebispos e bispos, dos conventos e paróquias, a riqueza dos donos das fábricas, e dos comerciantes e dos proprietários de terras, é comprada ao preço de esforços desumanos dos trabalhadores da cidade e do campo. Qual é a única origem das dádivas e dos legados que os ricos senhores fazem à Igreja? Obviamente que não é o trabalho das suas mãos e o suor dos seus rostos, mas a exploração dos trabalhadores que trabalham sem descanso para eles; servos ontem, assalariados hoje. Além disso, os subsídios que os governos hoje dão ao clero vêm do Tesouro Público, constituído na maior parte por impostos tirados às massas populares. o clero, não menos do que a classe capitalista, vive do povo, beneficia da degradação, da ignorância e da opressão das pessoas. O clero e os capitalistas parasitas odeiam a classe trabalhadora organizada, consciente dos seus direitos, que luta pela conquista das suas liberdades. Pois a abolição da desordem capitalista e o estabelecimento da igualdade entre os homens desferiram um golpe mortal, especialmente no clero que existe só graças à exploração e à pobreza. Mas sobretudo, o socialismo ajuda a assegurar à humanidade uma felicidade honesta e sólida cá em baixo, a dar ao povo a maior educação possível e o primeiro lugar na sociedade. É precisamente esta felicidade aqui na terra que os servidores da Igreja temem como uma praga.

Os capitalistas moldaram a golpes de martelo os corpos do povo, em cadeias de pobreza e escravatura. Paralelamente a isto, o clero, ajudando os capitalistas e servindo os seus próprios interesses, aprisiona o espírito do povo, mantém-o em ignorância crassa, pois compreende bem que essa educação poria fim ao seu poder. O clero, falsificando o primitivo ensinamento do Cristianismo que tinha por objetivo a felicidade terrena dos humildes, tenta hoje persuadir trabalhadores de que o sofrimento e a degradação que suportam não provêm duma estrutura social defeituosa, mas sim do céu, da vontade da “Providência”. Assim a Igreja mata nos trabalhadores a força, a esperança e o desejo dum futuro melhor, mata a fé em si próprios e o respeito por si mesmos. Os padres de hoje, com seus ensinamentos falsos e venenosos, mantêm continuamente a ignorância e a degradação do povo. Eis algumas provas irrefutáveis.

Nos países onde o clero católico goza de grande poder sobre a mentalidade do povo, na Espanha e na Itália por exemplo, as pessoas são mantidas em completa ignorância. A embriaguez e o crime florescem aí. Por exemplo, comparemos as duas províncias da Alemanha, Baviera e Saxônia. A Baviera é um estado agrícola onde a população vive predominantemente sob influência do clero católico. A Saxônia é um estado industrializado onde os sociais democratas exercem um grande papel na vida dos trabalhadores. Vencem as eleições parlamentares em quase todas as circunscrições, razão pela qual a burguesia mostra o seu ódio contra esta Província social democrata “vermelha”. E o que é que se vê? As estatísticas oficiais mostram que o número de crimes econômicos cometidos na ultracatólica Baviera é relativamente muito mais elevado do que na “Vermelha Saxônia”. Vemos que em 1898, em cada 100.000 habitantes havia:

Roubo com violência
NA BAVIERA - 204
NA SAXÔNIA - 185

Assaltos e ataques
NA BAVIERA - 296
NA SAXÔNIA - 72

Perjúrio
NA BAVIERA - 4
NA SAXÔNIA - 1

Encontramos uma situação completamente similar ao comparar o recorde de crimes em Possen dominada pelos padres como o de Berlim onde a influência da Social Democrata é maior. no curso do ano vemos 100.000 habitantes em Possen, 232 casos de ataques e ferimentos e em Berlim 172 apenas.

Na cidade papal, Roma, durante um único mês do ano de 1869 (o penúltimo ano do poder temporal dos papas), foram condenadas: 279 pessoas por assassínio, 728 por assaltos, 297 por roubo e 21 por fogo posto. Estes são os resultados do domínio clerial sobre o povo assoberbado pela pobreza .

Isto não quer dizer que o clero incite diretamente o povo ao crime. Bem ao contrário, nos seus sermões os padres condenam com freqüência o roubo, os assaltos e a embriagues mas os homens não roubam, não assaltam nem se embebedam porque gostem de o fazer ou de perseverar nesses hábitos. É a pobreza e a ignorância que são causas disso. Portanto aquele que mantém viva a ignorância e a pobreza do povo, aquele que mata sua energia e a sua vontade de sair desta situação, aquele que põe toda a espécie de obstáculos no caminho dos que tentam educar o proletariado, esse é responsável por estes crimes exatamente como se fosse um cúmplice.

A situação nas áreas mineiras da católica Bélgica era semelhante até há pouco tempo. Os sociais democratas foram lá. O seu apelo vigoroso aos infelizes e degradados trabalhadores ecoou através do país: “Trabalhador levanta-te a ti mesmo! Não roubes, não te embebedes, não baixes a cabeça em desespero! Lê, ensina-te a ti mesmo! Junta-te aos teus irmãos de classe na organização, luta contra os exploradores que te maltratam! Emergirás da pobreza, tornar-te-ás um homem!”

Assim, os Sociais Democratas elevam o povo e fortalecem os que perdem a esperança, reúne os fracos numa poderosa organização. Abrem os olhos dos ignorantes e mostram o caminho da igualdade, da liberdade, e do amor aos nossos vizinhos.

Por outro, os servos da Igreja trazem ao povo apenas palavras de humilhação e desencorajamento. E, se Cristo aparecesse hoje na terra, atacaria com certeza os padres, os bispos e arcebispos que defendem os ricos e vivem explorando os desafortunados, como outrora atacou os comerciantes que expulsou do templo para que a presença ignóbil deles não maculasse a Casa de Deus.

Eis porque rebentou uma luta desesperada entre o clero, suporte da opressão, e os sociais democratas anunciadores da libertação. Nesta luta não há comparação com a da noite escura e a do sol nascente? Porque os padres não são capazes de combater o socialismo com a inteligência e a verdade, têm de recorrer à violência e à maldade. As suas falas de Judas caluniam os que levantam a consciência de classe. Por meio de mentiras e calúnias tentam manchar todos os que oferecem as suas vidas pela causa dos trabalhadores. Estes servidores e adoradores do Bezerro de Ouro suportam a aplaudem os crimes do governo czarista e defendem o trono do último déspota que oprime o povo como o Nero.

Mas é em vão que os indignais, que desesperais que degenerais de servidores da Cristandade e vos tornais servidores de Nero. É em vão que ajudais os nossos assassinos, em vão protegeis os exploradores do proletariado sob o sinal da cruz. As vossas crueldades e calúnias nos tempos antigos não puderam impedir a vitória da idéia cristã, a idéia que sacrificaste ao Bezerro de Ouro; hoje os vossos esforços não levantarão nenhum obstáculo à vinda do Socialismo. Hoje sois vós, com as vossas mentiras e ensinamentos, que sois pagãos, e somos nós quem traz aos pobres, aos explorados, as novas da fraternidade e da igualdade. somos nós quem está a marchar para a conquista do mundo como fez aquele que outrora proclamou que é mais fácil a um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que a um rico entrar no reino do céu.

V

Algumas palavras finais

O clero tem ao seu dispor dois meios para combater a Social Democracia. Onde o movimento da classe trabalhadora começa a ser reconhecido, como é o caso do nosso país (Polônia), onde as classes dominantes ainda têm esperança de a esmagar, o clero combate os socialistas com sermões ameaçadores, caluniando-os e condenando a “cobiça” dos trabalhadores. Mas nos países onde as liberdades políticas estão estabelecidas e onde o partido dos trabalhadores é poderoso, como por exemplo na Alemanha, França e Holanda, aí o clero procura outros meios. Esconde o seu fim real e já não encara os trabalhadores como um inimigo declarado, mas como um falso amigo. Deste modo vereis os padres a organizar os trabalhadores e a fundar Federações Industriais Cristãs. Desta maneira tentam apanhar peixe na sua rede, atrair os trabalhadores a esta ratoeira de falsas federações onde ensinam a humildade, ao contrário das organizações da Social Democracia que têm em vista lutar e defender-se contra a opressão.

Quando o governo czarista finalmente cair sob os golpes do proletariado revolucionário na Polônia e da Rússia, e quando a liberdade política existir no nosso país então veremos o mesmo Arcebispo Popiel e os mesmos eclesiásticos que hoje trovejam contra os militantes, começarem repentinamente a organizar os trabalhadores em associações “Cristãs” e “Nacionais” para conduzi-los. Já estamos no princípio desta atividade subterrânea da “Democracia Nacional” que assegura a colaboração futura com os padres e hoje os ajuda a difamar os sociais democratas. Os trabalhadores devem, portanto, ser avisados do perigo para que não se deixe apanhar na vitória próxima da revolução, pelas palavras doces dos que hoje, do alto dos seus púlpitos, ousam defender o governo czarista, que mata os trabalhadores, e o aparelho repressivo do capital, que é a causa principal da pobreza do proletariado. Para os defender contra o antagonismo do clero no tempo presente, durante a revolução e contra a sua falsa amizade de amanhã, depois da revolução, é necessário aos trabalhadores organizarem-se no Partido Social Democrata.

E aqui está a resposta a todos os ataques do clero: A Social Democracia de modo algum combate os sentimentos religiosos. Ao contrário, procura completa liberdade de consciência para todo o indivíduo e a mais ampla tolerância possível para qualquer fé e qualquer opinião. Mas desde o momento que os padres usam púlpito como um meio de luta contra as classes trabalhadoras, os trabalhadores devem lutar contra os inimigos dos seus direitos e da sua libertação. Porque o que defende os exploradores e o que ajuda a prolongar este regime presente de miséria, esse é que é o inimigo mortal do proletariado, quer esteja de batina ou de uniforme de polícia.

_________________________________________________________

* Sociais democratas do início do século.
[1] Cristãos ortodoxos que conheciam a supremacia do Papa.
[2] S. Marcos, X, 25; S. Lucas, XVIII, 25; S. Mateus, XIX, 24.
[3] S. Mateus XXV, 40.
[4] Também conhecidos por “Roskilniki”, uma seita religiosa russa que tinha como contrário à verdadeira fé a revisão dos textos da Bíblia e a reforma litúrgica pelo Patriarca Nikon, em 1654.
[5] Ver Êxodo XXXII, 1-8.
[6] “Proles é o termo latino que significa filhos. Os proletários, portanto, constituíam a classe de cidadãos que nada tinham a não ser os braços de seu corpo e os filhos dos seus ombros”. Communist Journarl, nº 1, Setembro de 1847 (Londres).
Ö proletariado romano viveu à custa da sociedade, enquanto que a sociade moderna vive à custa do proletariado”. Sismondi citado por Karl Marx in The Eighteemth Brumaire. Ver também: Engels, Principles of Communism (questão 2).
[7] Mas ver Tertuliano (c. 160-230): “somos irmãos na nossa propriedade familiar com a qual a maior parte das vezes se dissolve a irmandade. Nós, portanto, que estamos unidos de alma e espírito, não temos dúvidas em ter bens em comum. Entre nós todas as coisas são distribuídas promiscuamente, exceto as esposas. Somente nisto nós dividimos a amizade, aí onde outros (pagãos gregos e romanos) somente a exercem”.
[8] Abbé Bareille, Jean Chrysostome, Paris, 1869, vol. VII, pp. 599-603.
[9] Certamente, contudo, os ministros locais, tal como aparecem nas epístolas de S. Paulo e nos Atos, parecem estar sob autoridade. No entanto eram eleitos, e muitas vezes provavelmente pela nomeação dos profetas locais; Apóstolos foram nomeados por Paulo e Barnabé. Perante a evidência de Atos 6 e das epístolas pastorais penso, com Harnock, que não podemos duvidar razoavelmente de que a nomeação era feita pela oração com imposição de mãos, e “sacramental”. E quando eram durante a vida de S. Paulo eram certamente controlados de cima”. Gore, Dr. Streeter and the Primitive Church, pp 12 e 13.

Revista Espaço Acadêmico
http://www.espacoacademico.com.br/

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Nem tudo o que brilha é verde

A questão ambiental entrou finalmente no discurso público e na agenda política, o que não deixa de causar alguma surpresa aos ativistas dos movimentos ecológicos, sobretudo àqueles que militam há mais tempo e se habituaram a ser chamados de utópicos e inimigos do desenvolvimento.

Boaventura de Sousa Santos

A surpresa é tanto maior se se tiver em conta que o fenômeno não parece estar relacionado com uma intensificação extraordinária da militância ecológica. Quais, pois, as razões?

Ao longo das últimas quatro décadas, os movimentos ecológicos foram ganhando credibilidade à medida que a investigação científica foi demonstrando que muitos dos argumentos por eles invocados se traduziam em fatos indesmentíveis – a perda da biodiversidade, as chuvas ácidas, o aquecimento global, as mudanças climáticas, a escassez de água, etc. – que, a longo prazo, poriam em causa a sustentabilidade da vida na terra. Com isto, ampliaram-se os estratos sociais sensíveis à questão ambiental e a classe política mais esclarecida ou mais oportunista (ainda que por vezes disfarçada de sociedade civil, como é o caso de Al Gore) não perdeu a oportunidade para encontrar nessa questão um novo campo de atuação e de legitimação.

Assim se explica o importante relatório sobre a “conta climática” de um economista nada radical, Nicholas Stern, encomendado por um político em declínio, Tony Blair. Neste processo foram “esquecidos” muitos dos argumentos dos ambientalistas, nomeadamente aqueles que punham em causa o modelo de desenvolvimento capitalista dominante.

Este “esquecimento” foi fundamental para a segunda razão do atual boom ambiental: a emergência do ecologismo empresarial, das indústrias da ecologia (não necessariamente ecológicas) e, acima de tudo, dos agrocombustíveis cujos promotores preferem designar, et pour cause, como biocombustíveis.

As reservas que os movimentos sociais (ambientalistas e outros) levantam a este último fenômeno merecem reflexão tanto mais que, tal como aconteceu antes, é bem provável que só daqui a muitos anos (tarde demais?) sejam aceites pela classe política e opinião pública. A primeira pode formular-se como uma pergunta: é de esperar que as indústrias da ecologia resolvam o problema ambiental quando é certo que a sustentabilidade econômica delas depende da permanente ameaça à sustentabilidade da vida na terra? A eficiência ambiental dos agrocombustíveis é uma questão em aberto que, aliás, se agravará com a “segunda geração de agrocombustíveis” que, entre outras coisas, inclui a introdução de plantas (árvores) geneticamente modificadas.

Por outro lado, a produção dos agrocombustíveis (cana do açúcar, soja e palma asiática) usa fertilizantes, polui os cursos de água e é já hoje uma das causas da desflorestação, da subida do preço da terra e da emergência de uma nova economia de plantação, neo-colonial e global. A segunda reserva está relacionada com a anterior e diz respeito ao impacto da expansão dos agrocombustíveis na produção de alimentos. No início de Setembro, o bushel de trigo (cerca de 36 litros) atingiu o preço recorde de 8 dólares na bolsa de mercadorias de Chicago. Más colheitas (derivadas das mudanças climáticas), o aumento da procura pela China e a Índia e a produção de agrocombustíveis foram as razões do aumento e a expectativa é de que a subida continue.

O aumento do preço dos alimentos vai afetar desproporcionalmente populações empobrecidas dos países do Sul, pois gastam mais de 80% dos seus parcos rendimentos na alimentação. Ao decidir atribuir 7,3 biliões de dólares em subsídios para a produção de agrocombustíveis, os EUA produziram de imediato um aumento (que chegou a 400%) do preço do alimento básico dos Mexicanos, a tortilla. Reside aqui a terceira reserva: os agrocombustíveis podem vir a contribuir para a desigualdade entre países ricos e países pobres. Enquanto na UE a opção pelos agrocombustíveis corresponde, em parte, a preocupações ambientais, nos EUA a preocupação é com a diminuição da dependência do petróleo.

Em qualquer dos casos, estamos perante mais uma forma de protecionismo sob a forma de subsídios à agro-industria, e, como a producão domestica não é de nenhum modo suficiente, é, de novo, nos países do Sul que se vão buscar as fontes de energia. Se nada for feito, repetir-se-á a maldição do petróleo: a pobreza das populações em países ricos em recursos energéticos.

O que há a fazer? Critérios exigentes de sustentabilidade global; democratização do acesso à terra e regularização da propriedade camponesa; subordinação do agrocombustível à segurança e à soberania alimentares; novas lógicas de consumo (se a eficiência do transporte ferroviário é 11 vezes superior à dos transportes rodoviários, porque não investir apenas no primeiro?); alternativas ao mito do desenvolvimento e numa nova solidariedade do Norte para com o Sul. Neste domínio, o governo equatoriano acaba de fazer a proposta mais inovadora: renunciar à exploração do petróleo numa vasta reserva ecológica se a comunidade internacional indenizar o país em 50% da perda de rendimentos derivados dessa renúncia.

Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).

Carta Maior
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Perdendo peso e o bom senso

Norte-americanas de Massachusetts importam pílulas ilegais e perigosas do Brasil para emagrecer rapidamente


Antonio Bianco

Tireóide, Brasil e obesidade. Qualquer uma dessas palavras chama a minha atenção, mas as três juntas, na mesma sentença, me fizeram parar o que estava fazendo e prestar atenção. No meu laboratório, por um motivo ou outro, um rádio está sempre ligado, invariavelmente na National Public Radio (NPR), uma estação sem fins lucrativos que fornece notícias e talk shows sem comerciais para cerca de 26 milhões de pessoas, por semana. Ao escutar a seqüência de palavras-chave, interrompi a conversa com o colega John Harney e sintonizei mentalmente na matéria que estava sendo noticiada por Alan Coukell, um repórter de ciência e saúde da NPR. Coukell estava contando que muitos residentes de Massachusetts estão usando pílulas brasileiras para emagrecer, para perder os quilinhos a mais que ganharam durante o inverno. Essas pílulas, manipuladas no Brasil, são desconhecidas das autoridades locais, portanto ilegais, e potencialmente fatais.

Na sua matéria, Coukell relata a história de Odette Esselman, uma senhora local que queria perder peso. Ela notou que sua conhecida brasileira estava perdendo peso rapidamente e perguntou o segredo do seu sucesso. A brasileira deu o nome e o telefone de um médico no Brasil. Odette ligou, conversou com o médico, o qual solicitou alguns exames de sangue. Odette mandou os exames e o dinheiro para o Brasil e, após uma semana, recebeu as pílulas pelo correio. Aproximadamente 100 dólares para o suprimento de um mês. Em três meses ela perdeu quase 20 quilos, diminuindo o número do seu manequim de 14 para 6, ou mesmo 4. Ela estava emagrecendo tão rapidamente que, às vezes, as roupas novas só serviam por uma semana.

Na seqüência, Coukell relatou a história de outras pessoas que não ficaram tão satisfeitas, pois acabaram no pronto-socorro com palpitações. Outras acabaram ainda no consultório do Dr. Pieter Cohen, um médico de Somerville, cidadezinha vizinha a Boston. Dr. Cohen explicou que as pílulas são diferentes, mas freqüentemente contêm uma mistura de até 17 medicamentos potentes, tais como anfetaminas, valium, laxativos, hormônios tiroideanos, diuréticos, cafeína… Ele também disse que as pílulas podem ser compradas localmente, em Somerville e Allston, um bairro de Boston.

Mais tarde eu conversei com o Dr. Cohen. Ele disse que já atendeu centenas de pacientes sofrendo dos efeitos indesejáveis dessas substâncias. A maioria é de brasileiros, com uma história muito semelhante. São pessoas jovens, que imigram para Massachusetts ilegalmente. Trabalham muitas horas por dia e não têm tempo ou não sabem cozinhar com os ingredientes locais. Por terem dificuldade com o inglês, eles acabam comendo alimentos baratos, que não conhecem muito bem e que freqüentemente são ricos em gordura. Depois de alguns meses, essas pessoas ganham muitos quilos e, por não disporem de assistência educativa ou médica, procuram remédios por intermédio de amigos e acabam recorrendo às famosas pílulas. O Dr. Cohen fala português e já morou por cerca de um ano no Brasil. Ele se diz muito preocupado com a situação e faz o que pode para educar a população local de brasileiros. Regularmente tem feito palestras a grupos de voluntários ligados a uma igreja em Somerville, os quais visitam os imigrantes brasileiros, “levam a palavra de Deus” e alertam sobre as pílulas.

Há muitos anos, venho acompanhando a progressão do uso dessas pílulas no Brasil, principalmente porque muitas delas contêm quantidades muito altas do hormônio da tireóide. Nas doses recomendadas, o hormônio da tireóide melhora a qualidade de vida de milhões de pacientes com hipotiroidismo, nos quais a glândula tireóide não mais funciona. Altas doses de hormônio tiroideano fazem emagrecer de forma muito eficaz, mas apresentam efeitos colaterais devastadores. Arritmia cardíaca, angina, infarte do miocárdio, osteoporose, psicose, insônia etc. … Não existem indicações clínicas para a prescrição dessas superdoses de hormônios da tireóide.

Quando ainda morava no Brasil, há dez anos, conversei com pessoas muito bem-intencionadas, ligadas à Vigilância Sanitária, as quais estavam plenamente cientes do problema, mas que não dispunham de condições para resolvê-lo. Afinal de contas, o Brasil é o campeão mundial no uso de anfetaminas e, logicamente, esse é um problema gigantesco. É inacreditável que um médico possa prescrever e um farmacêutico possa formular essas pílulas. O mais surpreendente é que, algumas vezes, os médicos que prescrevem esses coquetéis, ao contrário do que se poderia esperar, são professores de faculdades e formadores de opinião. Tive ciência disso quando analisei, junto com o pessoal da Vigilância Sanitária, uma pilha de receitas recolhidas de várias farmácias no estado de São Paulo. Por se tratar de medicamentos controlados, as receitas são retidas pela farmácia e ficam à disposição da Vigilância.

Eu conversei também com Coukell, que está trabalhando em uma nova matéria sobre o assunto. Ele atribui o problema das pílulas à cultura do corpo que existe no Brasil. Argumentei que a cultura do corpo existe em todo lugar do mundo, principalmente nos EUA. A prova disso é a velocidade com que o uso dessas pílulas aumenta entre os americanos aqui em Massachusetts. Outro dia, uma amiga brasileira foi fazer uma mamografia e a pessoa que a atendeu mostrou dois frascos de pílulas brasileiras que ela estava usando para emagrecer. Como estava tudo em português, ela queria saber o que estava escrito no rótulo e quais os componentes da fórmula. Interessante é que o frasco continha o nome e o número do registro no Conselho Regional de Farmácia (CRF) do farmacêutico que formulou o medicamento. Minha amiga traduziu, mas alertou que essas pílulas são ilegais. A funcionária da radiologia disfarçou e mudou de assunto.

O uso indiscriminado dessas pílulas em Massachusetts chegou com os brasileiros em função da facilidade com que elas são formuladas no Brasil. Vai ser interessante acompanhar essa história e verificar como as autoridades americanas vão lidar com esse problema. Os médicos brasileiros e os farmacêuticos que, respectivamente, prescrevem e formulam esses narcóticos estão cometendo crime federal na esfera do Drug Enforcement Administration (DEA). Eu não me surpreenderia se alguns desses profissionais fossem presos na imigração americana, ao entrar no país para participar de algum congresso, ou mesmo trazendo os filhos para passear na Disneylândia.

Revista da FAPESP
http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

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O casal Kirchner

Mariana Camarotti, de Buenos Aires

A eleição da primeira mulher para a presidência da Argentina é um acontecimento inédito na história do país. Mas o fato de Cristina Fernández de Kirchner ser a atual primeira-dama e vencer logo no primeiro turno é, no mínimo, curioso. Imaginem, por exemplo, que ela já mora na Quinta de Olivos desde maio de 2003 e, nos próximos quatro anos, continuará lá. O marido, Néstor Kirchner, passará a faixa presidencial para a mulher e, também, seguirá morando na residência oficial até dezembro de 2011, mesmo sem ter sido reeleito.
Candidata pelo Partido Justicialista – que se mantém no poder há sete décadas, salvo durante os governos militares e algumas experiências do Partido Radical – esta advogada de 54 anos, senadora da República, é a nona mulher a presidir uma nação na América Latina. Companheira de Néstor desde o movimento estudantil na universidade, os dois se formaram juntos e acumularam um patrimônio de 3,1 milhões de reais.
Foi ela quem mudou seu gabinete do Congresso Nacional para o palácio presidencial para participar e opinar nas decisões do governo, que defendeu as Mães da Praça de Maio, esteve ao lado do marido na renovação da Corte de Justiça argentina e pediu pelo julgamento dos militares e cúmplices nas torturas da última ditadura (1976-1983).
Foi ela também quem disse que a América Latina precisa de Hugo Chávez, afirmou ao ser eleita que sabe da sua responsabilidade pelas mulheres argentinas e prometeu lutar contra o desemprego, que é de 7,5% atualmente. Mas também foi Cristina quem subiu no mesmo palanque de Menem quando o marido era governador da província de Santa Cruz e preferiu viajar pelo exterior com a comitiva presidencial durante a campanha em vez de percorrer as mazelas do país.
A análise da chegada de Cristina à Casa Rosada pode ser feita através de três vertentes fundamentais para o futuro do país. A primeira delas, a de que os hermanos aprovam o governo desenvolvido por Néstor Kirchner desde maio de 2003 e apostam em sua continuidade através da mulher.
A gestão do atual presidente foi responsável por um crescimento acumulado de 49% do PIB, pela redução da indigência de 24,1% para 10% e da pobreza de 50,9% para 29,2%. Com o discurso de que a população não pode absorver aumento de tarifas e liberação de subsídios às empresas para segurar a defasagem, as tarifas de transportes, água, luz, telefone e gás estão em sua maioria congeladas desde que Kirchner assumiu. Para frear o aumento da carne no mercado interno, o governo chegou a limitar as exportações de um dos setores mais fortes do país.
Os catadores de lixo e papelão continuam na rua, é verdade, mas é bem menos do que quando estive aqui em Buenos Aires para cobrir as eleições passadas. Naquele ano, não se podia comer em um restaurante sem que uma criança entrasse para pedir. Era impossível continuar a refeição sem se sensibilizar com tamanha miséria. As placas de aluga-se e vende-se nos apartamentos nas principais avenidas fazia parte da paisagem da capital. Eram muitos os comércios de porta fechada e as frases pessimistas escutadas quando ao caminhar pelas ruas.
Uma amiga brasileira, que chegou aqui ainda no governo de Carlos Menem, acompanhou toda a crise e lembra: “Podíamos atravessar a avenida 9 de Julho, a mais larga do mundo mesmo com sinal aberto. Não havia trânsito porque as pessoas não saíam de casa. Não sabiam o que ia acontecer”.
A realidade de hoje nem de longe lembra aquela queda livre do país em direção ao abismo social, econômico e político. Dá gosto ver os argentinos indo trabalhar, brincando com os filhos nas praças no final de semana, comprando seu jornal e levando para ler no café mais próximo e programando as férias. Além do dinheiro no bolso, a população recuperou a auto-estima, e isso não é pouco. É por esse motivo que Cristina deitou sobre os louros da gestão de Kirchner, prometeu a continuidade e chegou ao poder.
A segunda análise é a de que, ao elegê-la, o país possa cometer os mesmos erros, concentre o poder na mão de uma família e “piore os vícios”, como disse o adversário Ricardo López Murphy (partido Pro-Recrear, de direita) durante a campanha. Assim como o marido, a primeira-dama não deu entrevistas à imprensa argentina (salvo uma, a quatro dias das eleições a um canal de televisão), negou-se a participar de debates e fez parte da sua campanha em viagens aos Estados Unidos, Europa e América Latina, angariando apoio dos presidentes e prometendo a estabilidade aos empresários que quisessem investir no país.
Ainda entre os erros, podemos citar a falta de acesso e clareza dos dados oficiais do país, como a metodologia para calcular a inflação. Este, aliás, é um tema polêmico há alguns meses entre o governo e a população, já que os números oficiais não batem nem com o que o povo sente no bolso nem com as pesquisas de economistas e associações de consumidores.
A Casa Rosada diz que a inflação deve fechar o ano com até 12%, seguindo as previsões do FMI, enquanto economistas e donas de casa apontam até mais de 20%. Ao ser contestado pelos funcionários do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec, o IBGE argentino), que até armaram protestos nas ruas para denunciar a manipulação das informações, o presidente mandou demiti-los.
E a terceira, e não menos importante, é a de que, com o fortalecimento do poder executivo com esta “reeleição encoberta”, como disseram os adversários, o Congresso Nacional fique ainda mais debilitado do que já é hoje. O Partido Justicialista do “Casal K” tem a imensa maioria na Câmara e no Senado.
Uma série de medidas tomadas durante o atual governo aumentou a autonomia da Casa Rosada em muitas matérias declaradas de urgência, formando os chamados superpoderes, enquanto tirava do legislativo a possibilidade de discutir, propor e derrubar medidas vindas do executivo. E este caminho, que ao que tudo indica continuará sendo trilhado, ameaça rachar uma das bases da democracia: o poder da sua representatividade na casa do povo.

Mariana Camarotti
é correspondente da Caros Amigos em Buenos Aires.

Caros Amigos
http://carosamigos.terra.com.br/

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No rastro de um antigo matador

As pistas estavam frias - os ossos na vala comum tinham 70 milhões de anos. Mas indícios importantes permitiram descobrir a identidade do assassino.

Raymond R. Rogers e David W. Krause

Um dos corpos encontrava-se deitado sobre o lado esquerdo, com a cabeça e o pescoço próximos à pélvis - uma posição clássica de morte. Braços e pernas pareciam intactos anatomicamente, mas uma inspeção mais detida revelou o deslocamento dos ossos das mãos e dos pés - embora a maioria das partes tenha sido encontrada. O crânio também estava desconjuntado, com as partes que o compõem uma ao lado da outra. Curiosamente, a ponta do rabo havia sumido por completo. Os outros corpos das imediações apresentavam diferentes estados de preservação e desarranjo. Enquanto alguns estavam praticamente inteiros, de outros só encontramos o crânio, uma clavícula ou um único osso das pernas ou dos braços. Essas infelizes criaturas teriam morrido aqui ou foram trazidas a esse local após sua morte? Morreram todas no mesmo instante ou em momentos diferentes? E o que as matou?

Nossa equipe começou a levantar tais questões assim que encontramos esse cemitério coletivo em antigos sedimentos no noroeste de Madagascar, no início de 2005 - ilha cuja terra rubra inspirou seu apelido: Grande Ilha Vermelha. Juntamos algumas informações importantes enquanto procurávamos as respostas; no entanto, o caminho até elas talvez seja tão ou mais interessante quanto as respostas em si.

Antes de qualquer coisa, batizamos o sítio arqueológico, designando-o MAD05-42 para indicar o ano em que foi encontrado e sua posição na seqüência de descobertas de sítios arqueológicos na área. O segundo passo foi identificar os mortos. Baseados em nossas descobertas em outros lugares da região, rapidamente inferimos que a maioria dos restos era de dinossauros de várias espécies.

Esse cemitério de dinossauros não é o único no noroeste de Madagascar. Ele faz parte de um padrão que temos observado repetidas vezes ao longo de uma década de pesquisas geológicas nas pradarias semi-áridas nas proximidades do remoto vilarejo Berivotra. Nessa região descobrimos camadas e mais camadas de cemitérios coletivos, com restos de animais grandes e pequenos, jovens e velhos, enterrados juntos formando espetaculares brechas ósseas (bonebed, em inglês). Assim, enquanto trabalhávamos tentando descobrir o que matou os animais no MAD05-42, não podíamos deixar de nos perguntar por que encontramos tantas brechas ósseas naquela região e como elas se mantiveram tão bem preservadas.

Reabrindo o Caso
Chegamos milhões de anos atrasados para usar a maioria das técnicas dos médicos legistas dos dias de hoje. Para termos acesso às informações ocultas sob ossos e pedras, tivemos de recorrer a técnicas de datação geológica e a uma área do conhecimento denominada tafonomia (do grego táphos, sepultura, enterro), que estuda o que acontece com os restos orgânicos quando eles passam do mundo dos vivos à morte.

Após batizarmos o sítio arqueológico, desenterramos os ossos das pedras em que estavam incrustados. Começamos usando pás e picaretas para retirar os sedimentos superficiais, depois passamos a utilizar instrumentos de dentista e pincéis finos para expor os ossos. Tomamos o máximo de cuidado para não danificar as delicadas superfícies ósseas. Uma vez expostos os esqueletos, eles foram mapeados e fotografados exatamente na posição em que haviam sido encontrados, de modo a registrar qualquer relação espacial significativa. Em seguida, embebemos os ossos em colas especiais e os envolvemos cuidadosamente com gesso e gaze. Quando o gesso secou, catalogamos os ossos e os encaixotamos para a longa viagem até os nossos laboratórios nos Estados Unidos, onde pacientemente retiramos qualquer sedimento que tivesse sobrado e começamos a estudar os ossos em detalhes. Procurávamos, sobretudo, quaisquer marcas na superfície que pudessem revelar a identidade do assassino.

No sítio arqueológico, foi possível determinar que os mortos foram preservados em uma camada de sedimentos de rocha conhecida como Formação Maevarano, localizada dezenas de metros abaixo das rochas que se acomodaram durante a passagem do Cretáceo ao Terciário - época, há 65 milhões de anos, em que todos os dinossauros (com exceção dos pássaros) e muitos outros animais foram extintos em escala global. A camada com os restos mortais situava-se 44,5 metros abaixo do estrato correspondente à época da extinção em massa e 14,5 metros abaixo do limite superior local da Formação Maevarano. A medição do decaimento radioativo mineral das rochas vulcânicas nas camadas abaixo da formação resultou em idade de aproximadamente 88 milhões de anos.

Sedimentos marinhos incrustados encontrados acima, originários do movimento das marés ao longo da costa ocidental da ilha, continham conchas e minúsculos esqueletos de microorganismos unicelulares, com datação em outros sítios arqueológicos aproximadamente do final, mas não exatamente dos últimos anos, do período Cretáceo. Esses dados temporais indicam, portanto, que as mortes ocorreram há cerca de 70 milhões de anos. Portanto, o que matou os animais encontrados nas escavações do MAD05-42 não teve relação alguma com a grande extinção global que ocorreu milhões de anos mais tarde.

A tafonomia também ajudou a avançarmos nas nossas investigações. As análises tafonômicas examinam modificações dos ossos (eles foram queimados, quebrados ou mordidos?), alterações na carcaça (desmembramento e retirada seletiva de partes do corpo por carniceiros ou predadores) e o modo como se deu o processo de enterramento (como os corpos foram enterrados e o que aconteceu com eles depois). O estudo do processo de fossilização - basicamente, o que faz os ossos virarem pedras - também é parte desse campo científico.

Quando consideramos os animais mortos encontrados nas escavações do sítio MAD05-42 da perspectiva da tafonomia, pudemos determinar que eles morreram ao longo de um largo período de tempo, talvez semanas ou mesmo meses, pois os corpos revelavam diferentes histórias post-mortem. Por exemplo, algumas carcaças estavam em grande parte intactas, enquanto outras foram desmembradas e espalhadas por todo o local, o que não poderia ter ocorrido de forma instantânea. Além disso, a condição de alguns ossos era excelente, ao passo que outros apresentavam sinais de exposição prolongada ao tempo e degradação ainda na superfície da terra. Caso a morte dos animais encontrados em uma brecha óssea tenha ocorrido em momentos diferentes (damos a esse tipo de sítio o nome de “sítio mediado pelo tempo”), calculamos o tempo transcorrido entre a primeira e a última morte tomando por base os indícios tafonômicos disponíveis. Apesar de não podermos determinar exatamente quanto tempo levou para a formação desse sítio em particular, sabemos que a morte não chegou no mesmo instante para todos os animais nela enterrados.

A Cena do Crime
A história geológica da porção de terra que forma Madagascar também fornece importantes pistas sobre o que matou esses dinossauros. No começo da era Mesozóica (há 250 milhões de anos), Madagascar ficava no coração de Gonduana (a metade sul do supercontinente Pangéia), espremida entre o que hoje são a África e a Índia, com a Antártida próxima a sua ponta sul. A atividade tectônica acabou por rearranjar - em larga escala - as placas litosféricas. Ao final do período Jurássico (160 milhões de anos atrás), Madagascar havia se separado da África, movendo-se em direção ao sul, com a Índia a reboque. Pelos fins do Cretáceo (há 88 milhões de anos), Madagascar se prendeu novamente à placa africana, muito embora a 400 km da porção continental, ao passo que o subcontinente indiano e a Antártida se afastaram, deixando a quarta maior ilha do mundo isolada no oceano Índico.

Depois de se religar à placa africana, Madagascar se moveu para o norte, em direção à sua localização atual, nos trópicos do hemisfério sul. Mas quando as mortes que estamos investigando ocorreram, por volta de 70 milhões de anos atrás, o norte de Madagascar estava situado próximo a 30º de latitude sul - ainda longe, portanto, do trópico de Capricórnio (que hoje em dia cruza o sul de Madagascar) e, presume-se, fortemente sob a influência de padrões climáticos subtropicais. Atualmente há grandes desertos e semidesertos entre as latitudes 15º e 35º a norte e a sul do equador. Esses cinturões áridos refletem padrões de circulação atmosférica de larga escala (conhecidos como célula de Hadley), que empurram massas de ar quente e seco em direção à terra depois de terem perdido sua umidade perto do equador. As zonas de alta pressão resultantes do descenso das células de ar tendem a manter as chuvas afastadas a maior parte do tempo - no entanto, quando conseguem passar, elas podem ser muito fortes.

Rochas da Formação Maevarano apresentam indícios bastante convincentes de um clima semi-árido e com estações bem marcadas durante o final do Cretáceo. As provas mais eloqüentes são a presença de paleossolos (solos antigos) vermelhos oxidados que contêm conjuntos de raízes verticais muito bem preservadas. As raízes verticais hoje são comuns em lugares em que as plantas se adaptaram ao clima seco procurando fontes cada vez mais profundas de umidade e de nutrientes. Além disso, muitos dos vestígios de raízes da Formação Maevarano estão incrustados de carbonato de cálcio ou apresentam porções irregulares e dispersas desse mineral chamadas nódulos de carbonato. Atualmente, solos oxidados enriquecidos de carbonato de cálcio tendem a ocorrer em regiões áridas e semi-áridas em que a evaporação e a transpiração limitam os efeitos da pouca chuva.

Outros sedimentos desse antigo terreno se acomodaram no leito de rios rasos e arenosos. Eles também dão provas fortes de uma história climática subtropical, indicando que a vazão dos rios variava em extremos e muito provavelmente seguindo estações bem delimitadas. Quando os rios estavam cheios, as correntes levavam dunas e ondulações a jusante, o que resultou naquilo que os geólogos chamam de estratificação cruzada: camadas inclinadas empilhadas uma sobre a outra.

Não há dúvida que dinossauros e vários outros animais freqüentavam esses rios em busca de água, alimentos ou refúgio. Com efeito, os ossos encontrados no MAD05-42 estão espalhados em um desses antigos canais. Os rios ficavam secos parte do tempo; às vezes, no entanto, corriam com fúria espumosa, revolvendo massas semifluidas de lama e areia de seu leito. Voltaremos em breve a essas pastas de lama e areia, uma vez que elas guardam papel importante em nossa história.

Identificando o Assassino
Um animal solitário pode encontrar seu fim de várias maneiras - talvez maneiras demais, se nosso objetivo for identificar claramente o matador pelos registros fósseis. Mas as alternativas diminuem significativamente em casos de morte coletiva, tal como o que ocorreu na Formação Maevarano. Para nos ajudar a reduzir o número de possibilidades a apenas uma, recorremos novamente à tafonomia. As brechas ósseas de Madagascar geralmente preservam os restos mortais de mais de um tipo de animal - sejam eles diversas espécies de dinossauros, como no MAD05-42, ou de vários, como no caso das escavações do MAD93-18, que resultaram na descoberta de fósseis de peixes, tartarugas, crocodilos, três tipos diferentes de dinossauros não-voadores, pássaros e mamíferos. Esse assassino matava indiscriminadamente, sem levar em consideração tamanho, idade, taxonomia ou hábitat - fato que leva a excluir um predador, como dinossauros e crocodilos, ambos carnívoros, porque os predadores modernos em geral apresentam algum grau de seleção de suas presas.

Tampouco há razões para pensarmos em uma situação envolvendo epidemia (embora seja bem difícil identificar doenças por restos fósseis). Pelo fato de os animais terem morrido em momentos diferentes, não temos por suspeitos eventos instantâneos e calamitosos como terremotos, inundações ou incêndios. Seja lá o que os tenha matado-, o que sabemos é que ele agiu ao longo do tempo e atacava as vítimas uma a uma quando elas se aproximavam do rio - ao qual chegavam por vontade própria. Também temos indícios irrefutáveis de que o assassino realizava seus ataques em locais diferentes, mas valendo-se sempre da mesma tática. Esses animais não sucumbiram fulminados durante um único dia ruim no Cretáceo tardio - foram vários dias ruins.

Quando todas as evidências são consideradas, é possível apontar com segurança o assassino: a seca. Oportunidade para isso certamente houve. Esse era um ecossistema subtropical com claras indicações de aridez e estações bem marcadas. Além disso, podemos ver que os animais se reuniam no leito seco do rio, muito provavelmente ao redor das poucas poças d\\’água remanescentes, morrendo à medida que a água limpa e os alimentos iam acabando. Na atualidade, secas mortíferas, sobretudo em partes da África e no interior da Austrália, levam os animais a se juntar em torno dos poucos recursos que sobraram. Durante uma seca longa, milhares de animais podem perecer a poucos metros de sua última esperança de beber água, e as carcaças se acumularem em “zonas da morte” por anos e anos.

Estudos de mortandades modernas relacionadas a secas indicam que os desafortunados animais preservados nas brechas ósseas da Formação Maevarano poderiam, em última análise, ter morrido de inúmeras causas: desidratação, insolação, desnutrição, talvez até mesmo intoxicação, uma vez que a água vai aos poucos se tornando pútrida e insalubre. De fato, temos indícios muito seguros de que ocorreram florações de algas nocivas nas poças d\\’água que os atraíram. Michael Zavada, especialista em pólen do Cretáceo da Universidade Estadual do Leste do Tennessee, conseguiu isolar minúsculos esporos de algas nas pedras ligadas aos ossos; no entanto, ainda resta confirmar se esses esporos são indícios de florações de algas tóxicas.

Mas como é que os corpos dos animais puderam ser preservados - alguns, por sinal, em excelentes condições? Restos biológicos tendem a resistir muito pouco na superfície, onde animais necrófagos e o sol devagar e sempre agem sobre os ossos, destruindo até mesmo os maiores, rachando-os até virarem pó. Quando se trata da preservação de registros fósseis por longuíssimos períodos, o enterro deve acontecer o mais cedo possível. Com efeito, poderíamos argumentar que, do ponto de vista de um fóssil, um enterro rápido é o caminho mais curto para a imortalidade.

Felizmente para os que estudam esses fósseis, havia um coveiro muito eficiente trabalhando em conjunto com o clima assassino. As condições de seca que periodicamente levavam o desastre aos leitos ressequidos dos rios tinham, cedo ou tarde, de terminar, e quando voltavam as chuvas desencadeavam, vingadoras, uma corrente caudalosa de detritos. Misturas de lama verde e areia, arrastadas pela erosão causada pela chuva, se derramaram por sobre os ossos, envolvendo-os por completo. As características sedimentárias das camadas em que os ossos foram encontrados indicam um tipo especial de escoamento da água no qual a turbulência é suprimida, fazendo com que tanto a água quanto os sedimentos se movam juntos de forma bastante plástica.

Esse tipo de escoamento em massa, conhecido como escoamento torrencial de lama (em inglês, mudflow), não é incomum nos dias de hoje. Os deslizamentos de terra ocorridos na Guatemala em 2005, gerados pelas chuvas torrenciais do furacão Stan, são um exemplo recente desse fenômeno.

Assim, a cada vez que secas terríveis tomavam o seu quinhão de vidas animais, grossas camadas de lama e areia fluíam sobre os corpos e os ossos espalhados, fossem eles animais que tivessem morrido poucos minutos ou meses antes, enterrando-os todos em um túmulo sedimentário protetor e permanente. Levou mais 70 milhões de anos até que o túmulo fosse aberto e sua incrível história fosse revelada.

Jantando os Mortos
A morte em massa na antiga Madagascar durante o Cretáceo tardio oferecia um lauto banquete para aqueles que se alimentavam dos mortos. Necrofagia, o ato de se alimentar de cadáveres ou de carniça, é um nicho alimentar que precisa ser preenchido para a reciclagem biológica ocorrer a contento, e os profissionais modernos incluem desde bactérias a grandes vertebrados. Ao lado de nosso colega Eric M. Roberts, que nos acompanhou a Madagascar há uma década na condição de estudante de graduação (e que atualmente dá aulas na Universidade de Witwatersrand, em Johanesburgo, África do Sul), encontramos vestígios de atividade de insetos necrófagos nos ossos de dinossauros de Madagascar: cavidades ovais com 1 cm de comprimento, em geral em partes que haviam sido ocupadas por tecido esponjoso dentro dos ossos. Essas cavidades são sinais de que besouros adultos infestavam os cadáveres, se alimentavam da carniça e depois colocavam seus ovos nas proximidades. As larvas também se alimentavam da carniça, usando suas fortes mandíbulas para escavar as cavidades, que serviam como câmaras para formação das crisálidas.

Os insetos não eram as únicas criaturas a se alimentar dos mortos. Análises de marcas de mordidas oferecem dados irrefutáveis de que os dinossauros também se fartavam desse repasto. Trabalhando em colaboração com Kristina Curry Rogers, do Museu de Ciências de Minnesota, registramos marcas de dentes do tetrápode Majungatholus atopus (dinossauro com 7 metros de comprimento) de uma amostra de ossos encontrados em pelo menos três diferentes brechas ósseas.

Comparando o formato e o tamanho das marcas de dentes com as mandíbulas e dentes de vários carnívoros, pudemos excluir todos os outros suspeitos portadores de dentes afiados.

Alguns dos ossos mordidos de nossa amostra pertencem ao Rapetosaurus, um dinossauro saurópode de pescoço longo até então desconhecido, que Curry Rogers descreveu em sua dissertação defendida na Universidade Stony Brook. No entanto, a grande maioria dos ossos com marcas de dentes (basicamente costelas e vértebras) pertencia ao Majungatholus atopus. O canibalismo como estratégia ecológica não é nem de longe raro entre os seres vivos, e ele certamente foi comum entre os dinossauros.

Desenterrar indícios para provar esse ponto, no entanto, é outra coisa, e nas brechas ósseas de Madagascar estão os únicos casos claros e seguros documentados até hoje de canibalismo entre dinossauros. Infelizmente, os sinais de marcas de dentes não são conclusivos quanto a se os Majungatholus atopus de fato matavam os indivíduos dos quais ele se alimentava - predando, assim, a sua própria espécie - ou se eles simplesmente se aproveitavam da oportunidade para se alimentar de restos das carcaças de outros animais.

Indícios Geológicos
A história da massa de terra que forma Madagascar oferece indicações sobre o que matou tantos animais na ilha 70 milhões de anos atrás. No começo da Era Mesozóica (há 250 milhões de anos), Madagascar ficava no coração de Gonduana.

A atividade tectônica rearranjou as placas litosféricas da Terra, e por volta do início do Cretáceo (130 milhões de anos atrás) Madagascar estava posicionada a 400 km do continente africano; ela então se uniu à placa africana e começou a se mover em direção ao norte. Quando as mortes sob investigação se deram, o norte de Madagascar se encontrava próximo a 30º de latitude sul, onde as condições climáticas se alternavam entre secas prolongadas e períodos de chuva intensa.

Para conhecer mais
Monsters of Madagascar. John Flynn e David Krause, em National Geographic, vol. 198, no 4, págs. 44-57, agosto de 2000.

Cannibalism in the Madagascan dinosaur Majungatholus atopus. Raymond R. Rogers, David W. Krause e Kristina Curry Rogers, em Nature, vol. 422, págs. 515-518, 3 de abril de 2003.

The natural history of Madagascar. Harald Schutz, Steven M. Goodman e Jonathan P. Benstead. University of Chicago Press, 2004

Scientific American Brasil
http://www2.uol.com.br/sciam/

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Uma ampla luta para controlar as riquezas de energia do Cáspio

Judy Dempsey

O Cáspio é um mar ou um lago?

A resposta tem imensas repercussões para a indústria de energia. Se for um lago, os países que o margeiam não são obrigados a emitir licenças para navios estrangeiros ou empresas de prospecção. Se for um mar, entretanto, há tratados internacionais obrigando esses países a concederem licenças.

O Cáspio, um dos maiores corpos de água fechados do mundo, tornou-se o centro de um novo jogo de poder envolvendo os EUA e a Rússia e os países que o margeiam, inclusive o Irã, sobre quem deve controlar as vastas reservas de energia sob suas profundezas.

A situação do Cáspio é objeto de discussão desde o colapso da União Soviética, em 1991. Nos últimos poucos anos, os EUA vêm tentando estabelecer rotas de energia alternativas para enfraquecer o domínio regional da Rússia e Irã, enquanto a Rússia procurou controlar as rotas de transporte cruzando essas águas.

Quando o vice-presidente Dick Cheney visitou o Cazaquistão no ano passado, ele usou a ocasião para lançar um feroz ataque contra o presidente Vladimir Putin da Rússia, acusando-o de retrocesso na democracia e supressão de direitos humanos. Fazendo seu discurso no Cazaquistão, o governo Bush estava afirmando a influência dos EUA na região, onde apressou planos de construir um duto para ultrapassar o Irã e a Rússia.

Na terça-feira (16/10), foi a vez de Putin deixar sua marca. Na primeira visita em 64 anos de um líder do Kremlin a Teerã, ele se reuniu com seu colega iraniano Mahmoud Ahmadinejad, cujo país enfrenta uma nova rodada de sanções pela Organização das Nações Unidas se não cumprir as exigências do Conselho de Segurança para interromper seu programa nuclear.

Apesar do impasse entre o Irã e a ONU ter roubado os holofotes, a razão da visita de Putin era uma reunião com Ahmadinejad e três líderes da Ásia Central que agora estão sendo cortejados no jogo de poder do Cáspio.

“A reunião de cúpula em Teerã era sobre o futuro do Mar Cáspio”, disse Johannes Reissner, especialista em Oriente Médio do Instituto para Assuntos Internacionais e de Segurança Alemão em Berlim. “O Irã e a Rússia têm enorme interesse em resolver essa situação. Mas há grandes discordâncias entre eles.”

Além do Irã e da Rússia, Azerbaijão, Cazaquistão e Turcomenistão também têm costa no Cáspio. Apesar de todos eles quererem uma grande parte das reservas de petróleo e usar o mar para transporte, nenhum foi capaz de concordar com o status das águas cobiçadas.

A Rússia e o Irã, historicamente, concordaram que o mar era um lago e que deveria ser compartilhado igualmente entre os dois.

Isso tudo mudou após o colapso da União Soviética, em 1991. Irã e Rússia queriam que os acordos anteriores, assinados em 1921 e em 1940, continuassem vigorando. Moscou conseguiu que as repúblicas recém independentes do Azerbaijão, Cazaquistão e Turcomenistão acatassem os acordos assinados pela União Soviética, da qual tinham sido parte.

Em 1998, entretanto, o Azerbaijão declarou que, como o Cáspio era um lago internacional, deveria ser reconhecido como tal. Em prática, isso significaria que a superfície e solo marinho seriam divididos em cinco setores determinados pelo tamanho da costa de cada país. Sob tal cenário, a Rússia perderia, e o Irã ainda mais.

O Irã opôs-se a esse plano, já que sua parte das águas seria reduzida de cerca de 20% para menos de 14%, de acordo com especialistas. Assim que Putin foi eleito presidente em 1998, ele tentou romper o impasse e agilizar os acordos de energia entre a Rússia e os países da Ásia Central e esvaziar os avanços americanos na região.

Analistas de energia disseram que Putin, vendo que empresas americanas e de outros países ocidentais estavam ansiosas em forjar contratos de exploração de energia com o Azerbaijão e Cazaquistão e influenciar as negociações do Cáspio, tentou fechar acordos entre todos os Estados da costa.

As tentativas para determinar a situação do Cáspio se provaram freqüentemente perigosas, entretanto.

Em 2001, o Irã empregou um navio de guerra e caças como advertência ao Azerbaijão, que havia enviado barcos para explorar petróleo para a British Petroleum ao longo dos campos do Cáspio do Sul. O Azerbaijão, que depende da Rússia para as rotas de transporte de energia, tinha concordado em fechar acordo separado com Putin no qual essas duas nações dividiriam parte do solo marinho. Um acordo similar foi fechado com o Cazaquistão. Nos dois casos, o Irã foi excluído das negociações.

“Nos últimos anos, o Irã sentiu-se cada vez mais isolado”, disse um diplomata europeu que pediu anonimato porque estava envolvido na região. “Ele vê o que a Rússia está fazendo. Está sendo excluído das grandes decisões feitas na região.”

A Rússia não conseguiu manter os EUA fora de sua esfera de influência. Em 2005, os EUA apoiaram o duto Baku-Tbilisi-Ceyhan, que permite que o petróleo seja transportado pela Geórgia e Turquia, ultrapassando o Irã e a Rússia.

Os EUA também estão ativamente apoiando o duto trans-Cáspio, pelo qual o Turcomenistão enviaria gás natural sob o Cáspio para o Azerbaijão e depois para a Europa. De acordo com diplomatas da UE, os EUA gostariam de enfraquecer a dependência que a Europa tem da energia da Rússia e ao mesmo tempo isolar o Irã.

Vladimir Milov, diretor do Instituto de Política Energética em Moscou, disse que tinha dúvidas quanto a um duto sob o Cáspio. “As perspectivas de um duto trans-Cáspio, apesar do otimismo americano, parecem fracas devido às brigas pela divisão do subsolo marinho do Cáspio”, disse no mês passado.

Como se quisesse confirmar isso, a reunião do Cáspio não fez avanços. A agência iraniana de imprensa oficial, Irna, disse que os cinco líderes concordaram em formar uma organização de cooperação econômica. Eles devem se reunir no próximo ano no Azerbaijão, deixando aberto por enquanto a viabilidade de um duto trans-Cáspio e o projeto Nabucco, mas confirmando a influência da Rússia na região.

Herald Tribune
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Pensamento do dia

Os covardes morrem várias vezes antes da sua morte, mas o homem corajoso experimenta a morte apenas uma vez.

William Shakespeare

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Rússia aposta em ordem pós-Iraque

NEWTON CARLOS

Os russos jogam com a expectativa de derrota dos EUA no Iraque e uma redistribuição de poder no mundo. Putin quer viver isso plenamente. Deixa a Presidência em 2008, fica como eminência parda e volta com toda carga em 2012. Algumas cartas já foram jogadas, segundo Moscou. Não vencer no Iraque coloca em xeque o predomínio, a salvo de qualquer desafio, do aparato militar dos EUA. Vai ladeira abaixo o projeto de construção de um “novo século americano”.
Com seus foguetes e antifoguetes, bombardeiros de longo alcance em incursões em profundidade no Pacífico e no Atlântico, mini-submarinos de alta tecnologia plantando a bandeira russa no Ártico, superbombas e uma política externa “afirmativa”, Moscou já estaria manobrando para ocupar lugares nos bancos da frente de uma ordem pós-Iraque.
Moscou bate de frente com a decisão de Bush de instalar antifoguetes em países da Europa do Leste.
Anuncia que uma frota com sua bandeira pode ir para o Mediterrâneo com intenções de presença permanente. Desde o fim da segunda guerra, a Sexta Frota dos EUA navega absoluta no Mediterrâneo.
Navios de guerra de Moscou poderiam usar bases na Síria, com riscos de inserção de Israel nos conflitos potenciais de uma ordem pós-Iraque. Aviões israelenses executaram ações contra alvos não identificados em áreas desérticas da Síria.
Há especulações sobre um programa nuclear sírio com apoio norte-coreano.
Há tensões em alta na configuração de um pós-Iraque. Barcos russos no Mediterrâneo circulariam numa geografia explosiva.
Olhos também na Ásia, nesse esforço de Moscou por dar tonalidades mais fortes ao “perfil estratégico” da Rússia. Mostrou-o a última reunião do Fórum de Cooperação de Xangai, grupo de seis países com russos e chineses à frente.
Especialistas dizem que a China e o restante (países da Ásia Central) estão interessados sobretudo em cooperação e não confronto. O Fórum, no entanto, entrou por caminhos que cruzam com a Otan, manifestando o desejo de estabelecer “relações íntimas” com o Afeganistão. Vinte anos depois de derrotada em seu esforço militar para salvar o regime comunista afegão, a Rússia tenta voltar ao país, em operação à margem do Ocidente.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

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‘Confusão’ motivou voto na Fundação

Bruno Ribeiro
Do Diário do Grande ABC

Orivaldo Oliveira Lopes, representante da Câmara Municipal no Conselho Diretor da Fundação Santo André, apresentou sexta-feira os motivos de sua abstenção na votação que permitiu ao reitor da universidade, Odair Bermelho, continuar no poder.

Ele ligou sexta-feira para o vereador Donizete Pereira (PV), seu chefe direto na Câmara, para explicar o que tinha acontecido: “Ele disse que, na cabeça dele, havia alguma confusão. A Câmara queria a saída de Bermelho, mas não de Cacalano (vice-reitor da Fundação, cuja expulsão também estava em discussão). Se os dois caíssem, alguém ligado a Bermelho assumiria. Por isso, ele preferiu se abster”, disse o vereador Pereira.

Com as abstenções na votação, na prática, ninguém ligado a Bermelho precisou assumir. O próprio reitor continuou como líder máximo da Fundação – posição contrária à defendida pelos vereadores da Câmara de Santo André.

O advogado Manoel Alcides Nogueira de Souza, outro membro do Conselho que negou-se a votar contra Bermelho, não quis dar entrevista.

Sexta-feira à tarde, durante o feriado, ele foi localizado em seu escritório, mas pediu que a reportagem ligasse mais tarde, por estar ocupado com um cliente. Depois, não foi mais localizado.

O terceiro membro que se absteve, Celso Soares Nogueira, não foi localizado para comentar sua posição.

Odair - O reitor Odair Bermelho também foi procurado para comentar a votação. “Não vou falar com você e não vou dar entrevistas”, disse.
Há 44 dias que o reitor não dá declarações. Ele é acusado de usar a Fundação para ostentar uma vida luxuosa, fazer viagens internacionais com o dinheiro da faculdade, desviar recursos da instituição para atividades secundárias e permitir um endividamento milionário da Fundação.

Diário do Grande ABC
http://home.dgabc.com.br/

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A Revolta d