Arquivo de 4 de Novembro de 2007

O gigante invisível do sudeste da Ásia

Philip Bowring

“Temos que ser suficientemente corajosos para indagar: o que o mundo faria sem a Indonésia?”. Quando recentemente apresentou esta questão para os seus compatriotas, a ministra do Comércio da Indonésia, Mari Pangestu, tinha em mente o papel do país como principal fornecedor de diversos produtos importantes.

Mas a pergunta poderia muito bem ter dito respeito à relevância mais ampla da Indonésia para o mundo. Isso pode soar prepotente, mas a observação constituiu-se em um contraponto para a visibilidade internacional extremamente baixa do país, como resultado de uma mistura de deferência, olhar voltado para a política interna e ausência persistente de líderes dispostos a assumir uma postura articulada no cenário mundial.

A Indonésia está prestes a assumir a presidência do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). É improvável que isso altere a sua postura internacional, mas o fato proporciona uma oportunidade para indagar por que a Indonésia é mais importante do que geralmente parece ser, e por que o país não consegue deixar uma grande marca no cenário global.

A Indonésia é a quarta nação mais populosa do mundo, é o maior país predominantemente muçulmano e a terceira maior (depois da Índia e dos Estados Unidos) democracia, consistindo de um arquipélago de 4.800 quilômetros de extensão que domina rotas-chave da navegação internacional - os estreitos de Malaca, de Sunda Lombok e de Makassar.

Mas a Indonésia não é levada muito a sério como um país muçulmano. Embora os muçulmanos do Oriente Médio e do mundo árabe em particular tenham muito a aprender com a tradição de tolerância religiosa que está no cerne do Estado indonésio, os muçulmanos do oeste da Ásia, e os árabes que alegam ter uma espécie de status especial como fonte da religião, pouco se interessam por aprender com o leste.

Embora o mundo exterior se empolgue com o crescimento econômico da China e da Índia, ele dificilmente percebe a igualmente notável transformação da política indonésia nos dez anos que se seguiram à queda do regime autoritário de 30 anos do presidente Suharto.

O país conta agora com o mais aberto, extenso e descentralizado sistema democrático de todo o sudeste asiático, alcançado possivelmente com algum custo em termos de crescimento econômico, mas com poucas e localizadas desordens, e com a louvável resolução de questões como a de Aceh e a de Timor Leste.

Trata-se também de uma sociedade notavelmente pluralista - uma prova disso é o cargo ocupado por Pangestu, que é mulher, de etnia chinesa e cristã - e que mantém uma vitalidade cultural que envergonha grande parte da região obcecada por dinheiro. É claro que há tensões entre comunidade e ocasionais derramamentos de sangue. Mas o exemplo indonésio constitui-se em um contraste salutar com os seus vizinhos ricos menores, mas mais visíveis, a Malásia, um país no qual existe uma crescente intolerância religiosa e uma divisão racial cada vez mais intensa, e Cingapura, um Estado cujo desenvolvimento social e político fica bem atrás da sua economia movimentada pelos investimentos estrangeiros.

Mas apesar dos seus atributos e do tamanho, a influência da Indonésia é modesta. Os seus esforços no sentido de se tornar um ator de peso têm sido apáticos, e até mesmo a sua empresa aérea de aviação não faz vôos para a Europa. Ela deveria ser a líder natural da Associação de Nações do Sudeste da Ásia (Asean), com sede em Jacarta, que neste ano comemora o seu 40° aniversário. Mas a voz diplomática da Indonésia é quase inaudível.

Se algum país da Asean tem uma chance de persuadir a junta birmanesa a mudar de rumo, a democratizar-se gradualmente sem se fragmentar, este país é a Indonésia. Ela fez tal transição, embora a partir de um tipo de governo autoritário bem diferente e mais bem sucedido.

Ao contrário de Cingapura, da Tailândia e da Malásia, a Indonésia não tem interesses comerciais locais que ditem a sua política com relação a Mianmar. Mas uma relutância a se pronunciar, a abandonar a doutrina de “não interferência” da era Suharto, a assumir a liderança da Asean, em vez de ser um jogador em um time sem líder, fez com que a maneira como a Asean abordou o problema birmanês ficasse por conta de Cingapura, que é uma segunda casa para os generais birmaneses e as suas mulheres.

Coisa semelhante ocorre com a sua economia. A Indonésia pode nunca ter sido um “tigre” econômico, e sofreu mais do que qualquer outro país com a crise asiática. Ela pode ainda enfrentar mais problemas com a corrupção e a burocracia do que os seus principais competidores asiáticos. A Indonésia teve até a temeridade de não sucumbir à demanda de todo investidor estrangeiro ao proporcionar níveis de proteção de emprego que não são vistos na China. E os seus políticos tampouco enchem os bolsos de dinheiro como fazem os da China. Sob uma ótica de longo prazo, durante os 40 anos desde que a China e a Indonésia foram ambas traumatizadas em meados da década de 1960, a Indonésia alcançou conquistas respeitáveis.

Os olhares estrangeiros podem estar voltados para a China e a Índia. Mas, ao olharmos para o futuro, os recursos naturais provavelmente serão mais escassos do que a mão-de-obra barata desses dois países. Ela também é menos dependente, pelo menos quando comparada com a China, da demanda ocidental por produtos manufaturados asiáticos. A mistura indonésia de recursos, fundamentos, composição demográfica atraente, cultura vibrante e potencial demanda doméstica tem em grande parte passado despercebida, até mesmo por um governo tão concentrado nas questões domésticas e na política local.

Resumindo, a Indonésia e o resto do mundo poderiam se beneficiar bastante caso se conhecessem melhor.

Herald Tribune
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COTIDIANO

Chico Buarque de Holanda

Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã

Todo dia ela diz que é pra eu me cuidar
E essas coisas que diz toda mulher
Diz que está me esperando pro jantar
E me beija com a boca de café

Todo dia eu só penso em poder parar
Meio dia eu só penso em dizer não
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijão

Seis da tarde, como era de se esperar
Ela pega e me espera no portão
Diz que está muito louca pra beijar
E me beija com a boca de paixão

Toda noite ela diz pra eu não me afastar
Meia-noite ela jura eterno amor
Me aperta pra eu quase sufocar
E me morde com a boca de pavor

Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode as seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã

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Bomba atômica

Vinicius de Moraes

Deusa, visão dos céus que me domina
…tu que és mulher e nada mais!
(Deusa, valsa carioca.)
Dos céus descendo
Meu Deus eu vejo
De pára-quedas?
Uma coisa branca
Como uma fôrma
De estatuária
Talvez a fôrma
Do homem primitivo
A costela branca!
Talvez um seio
Despregado à lua
Talvez o anjo
Tutelar cadente
Talvez a Vênus
Nua, de clâmide
Talvez a inversa
Branca pirâmide
Do pensamento
Talvez o troço
De uma coluna
Da eternidade
Apaixonado
Não sei indago
Dizem-me todos
É A BOMBA ATÔMICA.

Vem-me uma angústia.

Quisera tanto
Por um momento
Tê-la em meus braços
A coma ao vento
Descendo nua
Pelos espaços
Descendo branca
Branca e serena
Como um espasmo
Fria e corrupta
Do longo sêmen
Da Via Láctea
Deusa impoluta
O sexo abrupto
Cubo de prata
Mulher ao cubo
Caindo aos súcubos
Intemerata
Carne tão rija
De hormônios vivos
Exacerbada
Que o simples toque
Pode rompê-la
Em cada átomo
Numa explosão
Milhões de vezes
Maior que a força
Contida no ato
Ou que a energia
Que expulsa o feto
Na hora do parto.

II

A bomba atômica é triste
Coisa mais triste não há
Quando cai, cai sem vontade
Vem caindo devagar
Tão devagar vem caindo
Que dá tempo a um passarinho
De pousar nela e voar…
Coitada da bomba atômica
Que não gosta de matar!

Coitada da bomba atômica
Que não gosta de matar
Mas que ao matar mata tudo
Animal e vegetal
Que mata a vida da terra
E mata a vida do ar
Mas que também mata a guerra…
Bomba atômica que aterra!
Pomba atônita da paz!

Pomba tonta, bomba atômica
Tristeza, consolação
Flor puríssima do urânio
Desabrochada no chão
Da cor pálida do helium
E odor de rádium fatal
Lœlia mineral carnívora
Radiosa rosa radical.

Nunca mais, oh bomba atômica
Nunca, em tempo algum, jamais
Seja preciso que mates
Onde houve morte demais:
Fique apenas tua imagem
Aterradora miragem
Sobre as grandes catedrais:
Guarda de uma nova era
Arcanjo insigne da paz!

III

Bomba atômica, eu te amo! és pequenina
E branca como a estrela vespertina
E por branca eu te amo, e por donzela
De dois milhões mais bélica e mais bela
Que a donzela de Orleans; eu te amo, deusa
Atroz, visão dos céus que me domina
Da cabeleira loura de platina
E das formas aerodivinais
– Que és mulher, que és mulher e nada mais!
Eu te amo, bomba atômica, que trazes
Numa dança de fogo, envolta em gazes
A desagregação tremenda que espedaça
A matéria em energias materiais!
Oh energia, eu te amo, igual à massa
Pelo quadrado da velocidade
Da luz! alta e violenta potestade
Serena! Meu amor, desce do espaço
Vem dormir, vem dormir no meu regaço
Para te proteger eu me encouraço
De canções e de estrofes magistrais!
Para te defender, levanto o braço
Paro as radiações espaciais
Uno-me aos líderes e aos bardos, uno-me
Ao povo, ao mar e ao céu brado o teu nome
Para te defender, matéria dura
Que és mais linda, mais límpida e mais pura
Que a estrela matutina! Oh bomba atômica
Que emoção não me dá ver-te suspensa
Sobre a massa que vive e se condensa
Sob a luz! Anjo meu, fora preciso
Matar, com tua graça e teu sorriso
Para vencer? Tua enérgica poesia
Fora preciso, oh deslembrada e fria
Para a paz? Tua fragílima epiderme
Em cromáticas brancas de cristais
Rompendo? Oh átomo, oh neutrônio, oh germe
Da união que liberta da miséria!
Oh vida palpitando na matéria
Oh energia que és o que não eras
Quando o primeiro átomo incriado
Fecundou o silêncio das Esferas:
Um olhar de perdão para o passado
Uma anunciação de primaveras!

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Pela 16ª vez, ONU pede o fim do bloqueio a Cuba

Nova resolução aprovada nesta terça-feira pela Organização das Nações Unidas pede que EUA suspendam embargo econômico, comercial e financeiro que já dura quatro décadas. Medida fere Carta da ONU e direito internacional.


Marco Aurélio Weissheimer

A Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) votou, nesta terça-feira, pelo 16° ano consecutivo, uma resolução para pressionar os Estados Unidos a suspender seu embargo de quatro décadas contra Cuba. Intitulada de “necessidade de encerrar o embargo econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos da América a Cuba”, a resolução foi aprovada com 184 votos a favor, quatro contra e uma abstenção.

A medida não teve nenhum impacto na política norte-americana nas ocasiões anteriores e o mesmo deve ocorrer agora. Na semana passada, o presidente George W. Bush rejeitou qualquer relaxamento das sanções sem que haja o que denominou de “transição democrática completa no país”. Segundo Bush, o fim das sanções apenas incentivaria a permanência do atual governo no comando da ilha.

“Arrogância unilateral”
O relator especial de Direito à Alimentação da ONU, Jean Ziegler, condenou o embargo realizado pelos EUA contra Cuba, qualificando-o como uma “arrogância unilateral” e um ataque à ordem internacional. Em matéria de alimentação, destacou Ziegler, Cuba lida “com muita criatividade com as limitações e com o sofrimento que o bloqueio ocasionou”, o qual, segundo dados do governo cubano, já provocou perdas de 89 bilhões de dólares em mais de 45 anos de vigência.

O bloqueio total do comércio entre EUA e Cuba foi decretado formalmente mediante uma ordem executiva do presidente John F. Kennedy, no dia 3 de fevereiro de 1962. No entanto, as medidas punitivas contra a ilha começaram poucas semanas depois o triunfo da Revolução Cubana, em 1° de janeiro de 1959. No dia 12 de fevereiro daquele ano, os EUA negaram a concessão de um crédito para Cuba manter a estabilidade da moeda nacional.

Posteriormente, foram sendo aplicadas outras medidas como a restrição do fornecimento de combustível pelas empresas transnacionais norte-americanas, a paralisação de plantas industriais, a proibição de exportações a Cuba e a supressão parcial, e depois total, da quota de açúcar. Todas essas medidas tinham como objetivo asfixiar economicamente a recém-nascida revolução cubana.

Em função do bloqueio, Cuba não pode, entre outras restrições, exportar nenhum produto para o mercado norte-americano, nem receber turistas vindos dos EUA. Além disso, não tem acesso a créditos e nem pode utilizar o dólar em suas transações com o exterior. Os navios e aviões cubanos estão proibidos de tocar portos e aeroportos dos EUA. Essa política tem um caráter extraterritorial, uma vez que impede importações de subsidiárias norte-americanas instaladas em outros países e sanciona investimentos estrangeiros em Cuba.

Os aliados dos EUA: Israel, Palau e Ilhas Marshall
A resolução aprovada pela ONU exortou “mais uma vez todos os Estados a absterem-se de promulgar ou aplicar o embargo e aos que o aplicam a deixar de o fazer, em conformidade com as obrigações que lhes impõem a Carta (das Nações Unidas) e o direito internacional que, nomeadamente, consagram a liberdade de comércio e de navegação”. Como ocorreu em 2006, além dos EUA, Israel, Palau e ilhas Marshall votaram contra a resolução. Já a abstenção ficou por conta da Micronésia.

As resoluções da Assembléia Geral da ONU não têm efeito vinculativo. No caso do bloqueio a Cuba, refletem a crescente e majoritária oposição internacional à política patrocinada pelos EUA. A cada ano que passa o bloqueio vem sendo condenado por uma maioria crescente de Estados. Quando a primeira resolução foi apresentada, em 1992, obteve apenas 59 votos a favor. Subiu para 179 em 2004 e 183 em 2006.

Representantes de vários países manifestaram-se contra o bloqueio. O embaixador da Venezuela, Jorge Valero, disse que as recentes manifestações de Bush, rejeitando o fim do bloqueio e defendendo a mudança de regime na ilha, representam uma “nova e vã tentativa de derrotar a revolução e reconquistar Cuba”. Já o representante do Egito, Maged Abdelaziz, falando em nome dos países não-alinhados, disse que o embargo “além de ser unilateral e contrário à Carta da ONU, ao direito internacional e ao princípio da boa vizinhança, está causando danos materiais e econômicos ao povo de Cuba”.

O grupo dos 77, através do representante paquistanês Farukh Amil, também pediu que os EUA “substituam a política de embargo pelo diálogo e pela cooperação”. O Brasil também votou favoravelmente ao fim do bloqueio comercial contra a ilha.

Carta Maior
http://www.agenciacartamaior.com.br/

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Mecanismos de um reator nuclear natural

Há 2 bilhões de anos, partes de um depósito de urânio na África sofreram fissão nuclear espontânea. Os detalhes desse fenômeno notável só agora são esclarecidos.

Alex P. Meshik

Em maio de 1972, o funcionário de uma usina de processamento de combustível nuclear da França percebeu algo suspeito. Ele fazia uma análise rotineira do urânio proveniente de uma fonte aparentemente normal de minério. Como é o caso com qualquer urânio natural, o material em estudo continha três isótopos, ou seja, três formas do mesmo elemento com diferentes massas atômicas: urânio-238, a variedade mais abundante; urânio-234, a mais rara; e urânio-235, a mais cobiçada, pois pode sustentar uma reação nuclear em cadeia. Em todos os outros lugares da crosta terrestre, na Lua e mesmo em meteoritos, os átomos de urânio-235 perfazem 0,72% do total. Mas nessas amostras, que vinham do depósito de Oklo, no Gabão (ex-colônia francesa na África equatorial), o urânio-235 constituía 0,717%. Essa pequena discrepância, porém, foi o bastante para intrigar os cientistas franceses. Outras análises mostraram que o minério de pelo menos uma parte da mina tinha bem pouco urânio-235: pareciam estar faltando cerca de 200 quilos do material, suficientes para produzir meia dúzia de bombas nucleares.

Durante semanas, os especialistas da Comissão de Energia Atômica (CEA) da França permaneceram perplexos. A resposta veio apenas quando alguém se lembrou de uma previsão publicada 19 anos antes. Em 1953, George W. Wetherill, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, e Mark G. Inghram, da Universidade de Chicago, alertaram que alguns depósitos naturais de urânio poderiam ter operado como versões naturais dos reatores de fissão nuclear que estavam então se tornando populares.

Pouco depois, Paul K. Kuroda, químico da Universidade do Arkansas, especulou sobre o que seria preciso para que um corpo de minério de urânio sofresse espontaneamente a fissão nuclear. Nesse processo, um nêutron livre ocasiona a quebra no núcleo de um átomo de urânio-235, o que gera mais nêutrons, fazendo com que outros desses átomos se quebrem, em uma reação nuclear em cadeia.

A primeira condição definida por Kuroda era a de que o tamanho do depósito de urânio deveria superar a distância padrão que os nêutrons indutores de fissão viajam, entre 60 cm e 70 cm. Esse pré-requisito seria necessário para que os nêutrons liberados por um núcleo em fissão fossem absorvidos por outro antes de escaparem do veio de urânio.

Um segundo pré-requisito seria o urânio-235 estar presente em abundância suficiente. Hoje, mesmo o maior depósito de urânio não pode se transformar em um reator nuclear, pois a concentração de urânio-235 é muito baixa. Mas o isótopo é radioativo e decai cerca de seis vezes mais rápido que o urânio-238, o que significa que a fração fissionável era muito maior no passado distante. Por exemplo, há dois bilhões de anos, o urânio-235 deveria constituir cerca de 3%, aproximadamente o nível conseguido de modo artificial no urânio enriquecido para abastecer a maior parte das usinas nucleares.

O terceiro ingrediente importante é um “moderador” de nêutrons, uma substância que possa reduzir a velocidade dos nêutrons liberados quando um núcleo de urânio se cinde, de maneira que fiquem mais aptos a induzir outros núcleos de urânio a quebrar. Por último, não deve haver grandes quantidades de boro, lítio ou outras substâncias absorventes de nêutrons, que fazem qualquer reação nuclear parar rapidamente.

Surpreendentemente, as condições que de fato prevaleciam dois bilhões de anos atrás em 16 áreas separadas determinadas por pesquisadores dentro das minas de Oklo e da vizinha Okelobondo eram muito parecidas com o que Kuroda tinha descrito. Essas áreas foram todas identificadas décadas atrás, mas só recentemente meus colegas e eu esclarecemos detalhes fundamentais sobre o que acontecia em um desses reatores antigos.

Provas Sutis
Os físicos confirmaram a idéia básica de que reações naturais de fissão eram as responsáveis pela escassez de urânio-235 em Oklo logo após a descoberta da quantidade anômala. Uma prova irrefutável veio da verificação dos elementos mais leves que são gerados quando um núcleo pesado se quebra em dois. A abundância desses produtos de fissão se mostrou tão alta que não era possível tirar nenhuma outra conclusão. Uma reação nuclear em cadeia, similar à que Enrico Fermi e seus colegas demonstraram em 1942, tinha acontecido. Mas dessa vez, por si só, e uns 2 bilhões de anos atrás.

Pouco depois dessa descoberta surpreendente, físicos de todo o mundo estudaram as evidências sobre o aparecimento desses reatores nucleares naturais e mostraram seu trabalho conjunto sobre o “fenômeno de Oklo” em uma conferência especial realizada em 1975, em Libreville, capital do Gabão. No ano seguinte, George A. Cowan, que representara os Estados Unidos na conferência, escreveu um artigo para a SCIENTIFIC AMERICAN.

Em A natural fission reactor (Um reator de fissão natural), na edição de julho de 1976, ele explicava o que os cientistas supunham sobre a operação desses antigos reatores.

Cowan descreveu, por exemplo, como alguns dos nêutrons liberados durante a fissão do urânio-235 seriam capturados pelo urânio-238, mais abundante, que se tornaria urânio-239 e, depois de emitir dois elétrons, viraria plutônio-239. Mais de duas toneladas desse isótopo de plutônio foram formadas dentro do depósito de Oklo. Embora quase todo esse material, com meia-vida de 24 mil anos, já tenha desaparecido (sobretudo por meio de decaimento radioativo natural), uma parte do próprio plutônio foi fissionada, como pôde ser atestado pela presença dos produtos característicos dessa fissão. A abundância desses elementos mais leves permitiu que os cientistas deduzissem que as reações de fissão continuaram por centenas ou milhares de anos. Com a quantidade de urânio-235 consumida, calcularam a energia total liberada: 15 mil megawatts-ano. A partir dessa e de outras evidências, puderam chegar à média de potência produzida, provavelmente menos de 100 quilowatts - digamos, o suficiente para aquecer algumas dúzias de torradeiras.

É realmente impressionante pensar que mais de uma dezena de reatores naturais surgiram espontaneamente e conseguiram manter uma produção de potência modesta por talvez alguns milênios. Por que é que essas partes do veio de minério não explodiram e foram destruídas logo depois que as reações em cadeia começaram? Que mecanismo conseguiu prover o sistema com a necessária auto-regulação? Essas reações aconteciam de maneira contínua ou em períodos isolados? As soluções desses enigmas surgiram aos poucos, depois da descoberta inicial do fenômeno de Oklo não respondida. De fato, a última questão permaneceu não respondida por mais de três décadas antes que meus colegas e eu, da Universidade de Washington, começamos a examinar um pedaço desse enigmático minério africano.

Gás Nobre e Revelador
Nosso trabalho recente sobre um dos reatores de Oklo se concentrou na análise do xenônio, um gás inerte e pesado, que pode ficar aprisionado dentro de minerais por bilhões de anos. O xenônio tem nove isótopos estáveis, produzidos em várias proporções por diferentes processos nucleares.

Sendo um gás nobre, ele evita se ligar a outros elementos e, portanto, é fácil de ser purificado para análise isotópica. O xenônio é extremamente raro, o que permite que os cientistas o usem para detectar e rastrear reações nucleares, mesmo aquelas que ocorreram nos meteoritos primitivos antes que o Sistema Solar viesse a existir.

Para analisar a composição isotópica do xenônio, é necessário um espectrômetro de massa, instrumento que pode separar átomos de acordo com sua massa atômica. Tive o privilégio de poder usar um espectrômetro de massa de xenônio extremamente preciso, construído por meu colega da Universidade de Washington Charles M. Hohenberg. Mas, antes de usar o aparelho, tínhamos de extrair o xenônio de nossa amostra. Os cientistas normalmente aquecem o material hospedeiro, muitas vezes acima de seu ponto de fusão, para que a rocha perca sua estrutura cristalina e não consiga mais segurar o depósito escondido de xenônio. Para obter mais informações sobre a gênese e a retenção desse gás, adotamos uma estratégia mais delicada, chamada de extração a laser, que libera seletivamente o xenônio de cada grão mineral, deixando intactas as áreas vizinhas.

Aplicamos essa técnica a muitos pequenos pontos no nosso único fragmento disponível da rocha de Oklo, que tinha apenas 1 mm de largura e 4 mm de comprimento. Obviamente, precisávamos primeiro decidir o local exato onde miraríamos o raio laser. Aqui, Hohenberg e eu contamos com a ajuda de nossa colega Olga Pravdivtseva, que tinha construído um mapa detalhado de nossa amostra com raios X e identificado os minerais constituintes. Depois de cada extração, purificamos o gás resultante e passamos o xenônio no espectrômetro de massa de Hohenberg.

Nossa primeira surpresa foi a localização do xenônio. Ele não foi encontrado, como esperávamos, em quantidade significativa nos grãos minerais ricos em urânio. Em vez disso, a maior parte estava aprisionada em minerais de fosfato de alumínio, que não contêm urânio nenhum. Impressionantemente, esses grãos mostravam a concentração mais alta de xenônio já encontrada em qualquer material natural. A segunda revelação foi que o gás extraído tinha um padrão isotópico de forma significativa, diferente daquele que normalmente é produzido em reatores nucleares. Ele tinha, ao que parecia, perdido uma porção grande de xenônio-136 e 134, que certamente teria resultado da fissão. Ao mesmo tempo, possuía apenas pequenas alterações de quantidade nas variedades mais leves do elemento.

Como poderia ter aparecido uma mudança como essa na composição isotópica? As reações químicas não dariam conta do recado, já que todos os isótopos são quimicamente idênticos. Talvez fossem reações nucleares, como a captura de nêutrons, mas uma análise cuidadosa permitiu que rejeitássemos essa possibilidade também. Pensamos ainda em um rearranjo físico de diferentes isótopos que às vezes acontece: os átomos mais pesados movem-se um pouco mais lentamente que seus correspondentes mais leves e podem, portanto, separar-se deles. Usinas de enriquecimento de urânio - instalações industriais cuja construção requer certa habilidade técnica - tiram proveito dessa propriedade para produzir combustível nuclear. Mas mesmo se a Natureza pudesse criar por milagre um processo similar em escala microscópica, os isótopos de xenônio nos grãos de fosfato de alumínio estariam diferentes da situação medida. Por exemplo, comparado com a quantidade de xenônio-132 presente, o xenônio-134 (sendo duas unidades de massa mais pesado) seria duas vezes mais abundante do que o xenônio-136 (quatro unidades de massa mais pesado) se tivesse ocorrido esse rearranjo físico, mas não notamos esse padrão no mineral.

Nosso entendimento da composição anômala do xenônio só veio depois de nos concentrarmos em como esse gás apareceu ali. Nenhum dos isótopos de xenônio que medimos era o resultado direto de fissão do urânio. Em vez disso, eram o produto do decaimento de isótopos radioativos de iodo, que por sua vez foram formados a partir de telúrio radioativo e assim por diante, de acordo com uma seqüência bem conhecida de reações nucleares que dá origem ao xenônio estável.

Nossa principal sacada foi perceber que os diferentes isótopos de nossa amostra de Oklo foram criados em diversas épocas - seguindo um padrão que dependia das meias-vidas dos “pais” de iodo e dos “avós” de telúrio. Quanto mais um determinado precursor radioativo vive, mais ele adia a formação do xenônio. Por exemplo, a produção do xenônio-136 começou em Oklo apenas um minuto depois do começo da fissão auto-sustentada.

Uma hora depois, o isótopo leve mais próximo, xenônio-134, apareceu. Então, alguns dias após o início da fissão, os xenônios 132 e 131 vieram à tona. Por último, alguns milhões de anos mais tarde (e bem depois que as reações nucleares em cadeia terminaram), formou-se o xenônio-129.

Se o depósito de Oklo tivesse permanecido um sistema fechado, o xenônio acumulado durante a operação de seus reatores naturais teria preservado a composição isotópica normal produzida pela fissão. Mas os cientistas não têm razão para crer que o sistema fosse fechado. Na verdade, há bons motivos para acreditar no contrário. A evidência vem da consideração do simples fato de que os reatores de Oklo regulavam a si mesmos. O mecanismo mais provável envolve a ação de lençóis freáticos, que presumidamente evaporaram depois que a temperatura atingiu um dado nível crítico. Sem a água para atuar como moderador natural, reações nucleares em cadeia teriam cessado temporariamente. Apenas depois que as coisas tivessem esfriado o suficiente, e a água subterrânea novamente permeasse a área de reação, voltaria a acontecer a fissão.

Essa hipótese sobre como os reatores de Oklo provavelmente funcionavam ressalta dois pontos importantes: provavelmente eles se ligavam e se desligavam periodicamente de alguma maneira, e grandes quantidades de água devem ter se movimentado através dessas rochas - o suficiente para levar alguns dos precursores do xenônio, telúrio e iodo, que são solúveis em água.

A presença de água também ajuda a explicar por que a maior parte do xenônio agora se encontra em grãos de fosfato de alumínio, em vez de estar nos minerais ricos em urânio nos quais a fissão criou esses precursores radioativos em primeiro lugar. O xenônio não migrou simplesmente de um conjunto de minerais preexistentes para outro - é improvável que minerais de fosfato de alumínio estivessem presentes antes que os reatores de Oklo começassem a funcionar. Ao contrário, esses grãos de fosfato de alumínio provavelmente se formaram no local por meio da ação de água aquecida pela reação nuclear, uma vez que ela tivesse se resfriado a cerca de 300oC.

Durante cada período ativo de operação de um reator de Oklo e durante algum tempo depois, enquanto a temperatura permanecia alta, foi expelida boa parte do gás xenônio (incluindo xenônio-136 e 134, que foram gerados relativamente rápido). Quando o reator esfriava, os precursores de xenônio mais longevos (aqueles que no fim criariam o xenônio-132, 131 e 129) eram incorporados de preferência por grãos de fosfato de alumínio que se formavam. Então, quando mais água retornava à zona de reação, nêutrons tornavam-se moderados e a fissão voltava a acontecer, permitindo que o ciclo de aquecimento e resfriamento se repetisse. O resultado foi a segregação dos isótopos de xenônio que revelamos.

As forças que mantiveram o xenônio dentro dos minerais de fosfato de alumínio por quase metade da vida do planeta não são totalmente claras. Por que, em particular, o xenônio gerado durante um dado pulso operacional não foi liberado durante o pulso seguinte? Presumidamente, ficou aprisionado na estrutura em forma de gaiola dos minerais de fosfato de alumínio, que conseguiram segurar gás em seu interior mesmo sob altas temperaturas. Os detalhes continuam nebulosos, mas sejam quais forem as respostas finais, uma coisa está clara: a capacidade do fosfato de alumínio de capturar xenônio é realmente impressionante.

Agenda da Natureza
Depois que já tinhamos pensado de maneira geral sobre como o conjunto de isótopos de xenônio foi criado dentro dos grãos de fosfato de alumínio, tentamos modelar o processo matematicamente. Esse exercício revelou muito sobre a regulagem de tempo da operação do reator, com todos os isótopos dando mais ou menos a mesma resposta. O reator de Oklo que estudamos se “ligava” por 30 minutos e ficava desligado por pelo menos duas horas e meia. O padrão não é muito diferente do que se vê em alguns gêiseres, que lentamente se aquecem, fervem sua cota de água subterrânea de maneira espetacularmente visível, reenchem-se e repetem o ciclo, dia e noite, ano após ano. Essa semelhança dá suporte à noção de que o lençol freático, passando através do depósito de Oklo, não era apenas um moderador de nêutrons, mas também que sua ebulição nos momentos necessários para a auto-regulação protegeu os reatores naturais da autodestruição. A água impediu que houvesse sequer uma explosão por centenas de milhares de anos.

Alguém poderia questionar se os engenheiros da indústria energética nuclear podem aprender uma ou duas coisas com o caso de Oklo. Na verdade podem, embora não necessariamente sobre projetos de reatores.

É provável que as lições mais importantes sejam sobre como lidar com lixo nuclear. Afinal, Oklo serve como uma boa analogia de um depósito geológico de longo prazo. Por isso cientistas examinaram em grande detalhe como os vários produtos da fissão migraram para longe desses reatores naturais com o tempo. Também observaram uma zona similar de fissão nuclear antiga encontrada em poços de perfuração em um sítio chamado Bangombe, a cerca de 35 km dali. O reator de Bangombe merece especial atenção, porque estava enterrado em profundidades menores do que as das minas de Oklo e Okelobondo, e recebeu mais fluxo de água em tempos recentes. De modo geral, as observações aumentam a confiança no processo de seqüestro subterrâneo de muitos tipos diferentes de lixo nuclear perigoso.

Oklo também demonstra uma maneira de guardar algumas formas de lixo nuclear cuja contaminação ambiental era antes tida como inevitável.

Desde o advento da geração de energia nuclear, grandes quantidades de xenônio-135, criptônio-85 e outros gases inertes radioativos foram liberados na atmosfera. Os reatores naturais de fissão sugerem a possibilidade de prender esses dejetos em minerais de fosfato de alumínio, que têm capacidade única de capturar e reter esses gases por bilhões de anos.

Os reatores de Oklo ainda podem proporcionar aos cientistas o estudo de mudanças em uma constante física fundamental, chamada ? (alfa), que controla quantidades universais como a velocidade da luz. Por três décadas, o fenômeno de Oklo, de dois bilhões de anos, foi utilizado contra a idéia de que ? tinha mudado. Mas, no ano passado, Steven K.

Lamoreaux e Justin R. Torgerson, do Laboratório Nacional Los Alamos, citaram Oklo para afirmar que essa constante, na verdade, variou de maneira significativa (estranhamente, ao contrário do que outros propuseram há pouco). Os cálculos de Lamoreaux e Torgenson se apóiam em certos detalhes sobre como Oklo operava e, a esse respeito, o trabalho que meus colegas e eu fizemos pode ajudar a elucidar esse assunto intrigante.

Seriam esses reatores antigos no Gabão os únicos a se formar na Terra? Dois bilhões de anos atrás, as condições necessárias para a fissão auto-sustentada não eram tão raras, e portanto talvez outros reatores naturais ainda sejam descobertos. Imagino que um pouquinho de xenônio possa ajudar nessa busca.

Para conhecer mais
On the nuclear physical stability of the uranium minerals. Paul Kazuo Kuroda, em Journal of Chemical Physics, vol. 25, no 4, págs. 781-782, 1956.

A natural fission reactor. George A. Cowan, em SCIENTIFIC AMERICAN, vol. 235, no 1, págs. 36-47, julho de 1976.

Neutron moderation in the Oklo natural reactor and the time variation of alpha. S. K. Lamoreaux e J. R. Torgerson, em Physical Review D, vol. 69, no 12, Artigo 121701(R), junho de 2004. Prévia disponível em arxiv.org/abs/nucl-th/0309048

Record of cycling operation of the natural nuclear reactor in the Oklo/Okelobondo area of Gabon. A. P. Meshik, C. M. Hohenberg e O. V. Pravdivtseva, em Physical Review Letters, vol. 93, no 18, Artigo 182302, 29 de outubro de 2004.

Scientific American Brasil
http://www2.uol.com.br/sciam/

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Estudo Errado

Gabriel, O Pensador

Eu tô aqui Pra quê?
Será que é pra aprender?
Ou será que é pra aceitar, me acomodar e obedecer?
Tô tentando passar de ano pro meu pai não me bater
Sem recreio de saco cheio porque eu não fiz o dever
A professora já tá de marcação porque sempre me pega
Disfarçando espiando colando toda prova dos colegas
E ela esfrega na minha cara um zero bem redondo
E quando chega o boletim lá em casa eu me escondo
Eu quero jogar botão, vídeo-game, bola de gude
Mas meus pais só querem que eu “vá pra aula!” e “estude!”
Então dessa vez eu vou estudar até decorar cumpádi
Pra me dar bem e minha mãe deixar ficar acordado até mais tarde
Ou quem sabe aumentar minha mesada
Pra eu comprar mais revistinha (do Cascão?)
Não. De mulher pelada
A diversão é limitada e o meu pai não tem tempo pra nada
E a entrada no cinema é censurada (vai pra casa pirralhada!)
A rua é perigosa então eu vejo televisão
(Tá lá mais um corpo estendido no chão)
Na hora do jornal eu desligo porque eu nem sei nem o que é inflação
- Ué não te ensinaram?
- Não. A maioria das matérias que eles dão eu acho inútil
Em vão, pouco interessantes, eu fico pu..
Tô cansado de estudar, de madrugar, que sacrilégio
(Vai pro colégio!!)
Então eu fui relendo tudo até a prova começar
Voltei louco pra contar:
Manhê! Tirei um dez na prova
Me dei bem tirei um cem e eu quero ver quem me reprova
Decorei toda lição
Não errei nenhuma questão
Não aprendi nada de bom
Mas tirei dez (boa filhão!)
Quase tudo que aprendi, amanhã eu já esqueci
Decorei, copiei, memorizei, mas não entendi
Quase tudo que aprendi, amanhã eu já esqueci
Decorei, copiei, memorizei, mas não entendi
Decoreba: esse é o método de ensino
Eles me tratam como ameba e assim eu num raciocino
Não aprendo as causas e conseqüências só decoro os fatos
Desse jeito até história fica chato
Mas os velhos me disseram que o “porque” é o segredo
Então quando eu num entendo nada, eu levanto o dedo
Porque eu quero usar a mente pra ficar inteligente
Eu sei que ainda num sou gente grande, mas eu já sou gente
E sei que o estudo é uma coisa boa
O problema é que sem motivação a gente enjoa
O sistema bota um monte de abobrinha no programa
Mas pra aprender a ser um ingonorante (…)
Ah, um ignorante, por mim eu nem saía da minha cama
(Ah, deixa eu dormir)
Eu gosto dos professores e eu preciso de um mestre
Mas eu prefiro que eles me ensinem alguma coisa que preste
- O que é corrupção? Pra que serve um deputado?
Não me diga que o Brasil foi descoberto por acaso!
Ou que a minhoca é hermafrodita
Ou sobre a tênia solitária.
Não me faça decorar as capitanias hereditárias!! (…)

Vamos fugir dessa jaula!
“Hoje eu tô feliz” (matou o presidente?)
Não. A aula
Matei a aula porque num dava
Eu não agüentava mais
E fui escutar o Pensador escondido dos meus pais
Mas se eles fossem da minha idade eles entenderiam
(Esse num é o valor que um aluno merecia!)
Íííh… Sujô (Hein?)
O inspetor!
(Acabou a farra, já pra sala do coordenador!)
Achei que ia ser suspenso mas era só pra conversar
E me disseram que a escola era meu segundo lar
E é verdade, eu aprendo muita coisa realmente
Faço amigos, conheço gente, mas não quero estudar pra sempre!
Então eu vou passar de ano
Não tenho outra saída
Mas o ideal é que a escola me prepare pra vida
Discutindo e ensinando os problemas atuais
E não me dando as mesmas aulas que eles deram pros meus pais
Com matérias das quais eles não lembram mais nada
E quando eu tiro dez é sempre a mesma palhaçada

Refrão
Encarem as crianças com mais seriedade
Pois na escola é onde formamos nossa personalidade
Vocês tratam a educação como um negócio onde a
ganância a exploração e a indiferença são sócios
Quem devia lucrar só é prejudicado
Assim cês vão criar uma geração de revoltados
Tá tudo errado e eu já tou de saco cheio
Agora me dá minha bola e deixa eu ir embora pro recreio…

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Negócios das máfias representam 7% do PIB da Itália

Relatório de grupo patronal denuncia as chantagens do crime organizado

Laura Lucchini

Com um negócio que gera um faturamento anual de 90 bilhões de euros, a máfia é a empresa mais rentável da Itália. As receitas do crime organizado equivalem a 7% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo informou na segunda-feira o relatório SOS Empresa da associação Confesercenti, que reúne as pequenas e médias empresas da Itália. O estudo sobre o crime organizado foi apresentado na sede do Ministério do Interior em Roma.

As máfias italianas (incluindo suas variantes territoriais Cosa Nostra, ‘Ndrangheta, Camorra e Sacra Corona Unida) mantêm no mercado uma posição difícil de superar, já que suas atividades abrangem exploração da prostituição, tráfico de armas e drogas, extorsão, agiotagem e roubos. Ou seja, áreas que nunca conhecem crises.

O estudo da SOS apresenta um quadro dramático. Segundo os dados coletados, a agiotagem, com 30 bilhões de euros de faturamento anual, representa a principal fonte de renda dessa empresa. A extorsão, uma atividade antiga da máfia, faz os diversos clãs ganharem cerca de 10 bilhões de euros, enquanto 7 bilhões chegam diretamente de furtos e roubos. Cerca de 4,6 bilhões provêm de fraudes e 7,4 bilhões do contrabando. Por último, o setor imobiliário, lugar privilegiado para lavagem de dinheiro, constitui para a máfia uma receita de 13 bilhões de euros.

“Do ramo alimentar ao turismo, dos serviços às empresas, das licitações ao abastecimento público, do setor imobiliário ao financeiro, a presença do crime organizado se consolida em toda atividade econômica”, indica o relatório.

O estudo denuncia também que o crime penetrou nas grandes empresas italianas, sobretudo as dedicadas a obras públicas, que preferem “pactuar com a máfia em vez de denunciar as chantagens”. As grandes empresas “se rebaixam a pactuar para viver tranqüilas, quase fazem um seguro preventivo em uma cumplicidade que as torna mais fortes em relação à concorrência”, indica a organização patronal. Nesse sentido, o documento acusa, citando fontes policiais, o “colosso” grupo do cimento Italcementi de ter cedido às pressões da ‘Ndrangheta, a máfia calabresa, “suportando mais custos e assumindo mais riscos que facilitam a expansão econômica do clã mafioso dos Mazzagatti”.

Também denunciaram essas práticas nas obras da estrada entre as cidades de Salerno e Reggio Calabria, no sul do país, onde, segundo o estudo, as construtoras Impregilo e Condotte “foram obrigadas a tratar com a máfia calabresa”.

O subsecretário do Interior, Marco Minniti, que participou da apresentação do relatório, salientou que o governo vai aprovar um pacote de medidas para a segurança no mundo empresarial, pois se estima que as firmas sofram 1.300 delitos por dia. Segundo Minniti, “é preciso atacar o patrimônio das organizações criminosas”. Ele anunciou que se dará prioridade ao endurecimento das medidas penais.

El País
http://www.elpais.com/

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Abrindo o guarda-chuva verde

As cidades precisam de mais árvores, mas há prós e contras em plantar mais exemplares no meio urbano


Marcos Buckeridge

Ter árvores em regiões urbanas tem prós e contras. Algumas desvantagens: elas, às vezes, sombreiam demais o ambiente e prejudicam o gramado. Criam nichos que podem servir de esconderijo para traficantes e usuários de drogas. Árvores ainda podem cair sobre carros e machucar pessoas. Folhas e galhos caem nas calçadas e são carregados pelas enxurradas, entupindo bueiros. Mais ainda: elas atraem insetos que podem invadir as nossas casas. Também funcionam como suportes para muitas aranhas construírem teias.

Com tantos pontos negativos, podemos dizer que as árvores são as vilãs das cidades? Não. Não é bem assim. Árvores podem cortar a incidência da luz em mais de 90%, diminuindo a temperatura e a luz direta sobre quem caminha ou se exercita sob elas. Áreas cobertas com árvores, em uma cidade como São Paulo, por exemplo, podem ter a temperatura até 10oC mais baixa do que em locais não arborizados no mesmo horário. Além dos benefícios diretos para a sociedade, há também os indiretos: as árvores controlam o fluxo de água entre o solo e atmosfera.

Pela manhã, ao iniciar a fotossíntese, as árvores sugam a água do solo, água esta que é distribuída por toda a planta ao longo do dia. Ao mesmo tempo, as folhas sugam o CO2 da atmosfera. Porém, para fazer isto, elas têm que manter abertos seus estômatos, milhares de aberturas que ficam na parte de baixo de cada folha. Dessa forma perdem vapor de água por evaporação. A água do solo, portanto, forma uma coluna de ligação direta com a atmosfera, um fenômeno denominado transpiração. Para se ter uma idéia, uma única árvore de grande porte pode transpirar 150 mil litros de água em um ano, ou seja, uma média de 400 litros por dia.

Temos que lembrar que, se o solo estivesse limpo ou todo asfaltado, o índice de evaporação seria máximo. E iria diminuir o tempo de residência de uma molécula de água na superfície para a ordem de minutos. Mas, se a água penetrar no solo à sombra de uma árvore, a temperatura menor fará com o tempo de residência aumente. Mais do que isso, se uma molécula de água for absorvida pela raiz da árvore, ela terá que seguir um caminho bem mais longo por entre as células e tecidos da planta até voltar à atmosfera através de um estômato. A molécula de água poderá ficar dias ou até semanas dentro do vegetal antes de sair da planta. Muitas moléculas de água ficarão presas no corpo da planta pelo resto da vida, caso sejam utilizadas para formar as ligações entre açúcares como a celulose. Isso ilustra o fato de que a água é fundamental para o seqüestro de carbono pelas plantas.

Para a saúde humana, as árvores podem trazer mais benefícios do que problemas. É certo que o plantio de poucas espécies leva a uma inundação da cidade com pólen de um único tipo e os alérgicos podem sofrer com isso. Mas o desconforto talvez possa ser minimizado com o plantio de maior diversidade de árvores.

Um ponto que será crucial com as mudanças climáticas é que o aumento esperado na temperatura poderá causar vários tipos de enfermidades, incluindo infecções. Além dos problemas de saúde, gastaremos uma fortuna para equipar e manter hospitais e serviços médicos para a população maior de idosos que deveremos ter por volta de 2050. Abrindo o nosso guarda-chuva verde de árvores agora, e de forma estratégica, estaríamos garantindo a minimização dos impactos negativos causados pelo aumento de temperatura nos próximos 20 a 30 anos.

Há também benefícios menos palpáveis, mas não menos desprezíveis da presença das árvores no meio urbano. Pesquisas mostram que pessoas que vivem em cidades arborizadas têm menor tendência ao estresse e à depressão. Podemos dizer que uma cidade arborizada seria mais tranqüila e teria moradores mais felizes. Se considerarmos o quanto seria economizado em hospitais, seríamos também coletivamente mais ricos!
Mas calma: não saia já plantando árvores a esmo. O plantio de uma árvore é algo que tem de ser planejado. Pode-se estar comprando um cão da raça São Bernardo para viver com a família em um apartamento de 50 metros quadrados. É preciso pensar bem e, principalmente, aprender mais sobre o assunto. Em primeiro lugar, é preciso conhecer ao máximo sobre a espécie que se quer plantar. Se é de sombra ou de sol? Se cresce rápido ou devagar? Qual o seu tamanho final? Como e quando tem que ser podada enquanto cresce? Como se comportam as raízes e os ramos? Qual a densidade da madeira? Se perde total ou parcialmente as folhas? Quando dá flores? Os frutos são muito pesados?

Tudo isso é importante para que se acompanhe o desenvolvimento das árvores. E isso quer dizer que não adianta sair por aí jogando sementes e plantando árvores de qualquer tipo em qualquer lugar. Você pode estar plantando em seu jardim (ou no do vizinho) uma espécie de árvore que irá desenvolver raízes que podem atingir a tubulação de esgoto. A mesma árvore poderá se enroscar nos fios que lhe fornecem energia e produzir frutos tão pesados que, ao caírem, podem amassar o seu carro. Os resultados aí serão desastrosos, pois daqui a alguns anos seu carro viverá amassado, você ficará sem banheiro em algum momento e sob risco de ficar sem telhado e sem energia elétrica após tempestades. Nesse caso, a decisão de matar a árvore terá como base a defesa dos bens materiais e dos familiares.

É imperativo planejar antes de plantar uma árvore, mas tão importante quanto plantar é assumir a responsabilidade sobre ela, o que significa acompanhar o desenvolvimento, podar, adubar etc. Isso fará com que a árvore cresça mais rápido e ajude melhor a controlar a água e a temperatura no ambiente, além de prestar o bom serviço de seqüestrar carbono da atmosfera. É provável que as prefeituras assumam uma parte dessa responsabilidade no futuro, mas, ainda assim, os habitantes no entorno têm que compreender que se trata de um ser vivo e que merece carinho e cuidados iguais aos que prestamos aos nossos animais de estimação.

Na maioria das cidades brasileiras, estamos desprotegidos para enfrentar o aquecimento que vem ocorrendo devido às mudanças climáticas. Temos que começar a abrir o guarda-chuva verde das árvores agora, pois o crescimento delas é lento e podemos não ter tempo de cultivá-las para nos proteger.

Revista da FAPESP
http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

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As sem-razões do amor

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Carlos Drummond de Andrade

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Os EUA entre a contenção e a agressão ao Irã

NEWTON CARLOS

Num press release Nicholas Burns, subsecretário de Estado americano, reproduziu o que disse depois numa comissão do Congresso sobre o Irã no lugar da ex-União Soviética na Guerra Fria. O regime iraniano representaria hoje o que Moscou foi no passado, o maior desafio aos interesses do Ocidente, sobretudo dos EUA. É adotada a mesma estratégia que derrotou e acabou destruindo a ex-URSS, a da “contenção”. Emprego de “diplomacia pesada”, com inserções de ameaças militares, como o envio ao golfo Pérsico de um segundo porta-aviões.
A ABC News informou que Bush autorizou a CIA a executar “operações encobertas” que desestabilizem o Irã. É a velha guerra suja, ontem contra a “ameaça comunista”, hoje contra a “ameaça islâmica radical”. Em 1953, ela ajudou a derrubar o governo nacionalista do mesmo Irã. A “contenção” pode esticar limites, mas a sua essência, como foi feito com a ex-URSS, é alcançar objetivos por meio de pressões e intimidações, sem chegar às vias de fato.
Há riscos; e sérios. Um especialista em Oriente Médio, Roger Hardy, avisou que “tanto em Washington como em Teerã existem diferentes centros de poder com agendas próprias, de pombos a falcões”. O diretor da Agência Internacional de Energia Atômica, Mohamed el Baradei, falou da existência de “malucos que gostariam de ir em frente e bombardear o Irã”.
O alvo da irritação foi a turma do vice-presidente americano, Dick Cheney. A secretária de Estado, Condoleezza Rice, a cargo da “contenção” junto com o secretário da Defesa, Robert Gates, saiu em campo de imediato. “Nossa opção é a diplomacia”, afirmou Rice. Ela e Gates conduzem a montagem de uma frente anti-Irã juntando paises árabes “moderados” e Israel. As promessas de entregas bilionárias de armas são parte do esquema. Nele também se incluem manifestações de “soft power”. Washington gasta milhões de dólares em transmissões em farsi. Como não tem relações com o Irã, instalou escutas sobretudo em Dubai, onde é grande a concentração de iranianos.
E se a contenção falhar, não conseguindo isolar o Irã, conter a expansão de sua influência e ambições nucleares? Uma das hipóteses é a de que o caminho ficaria livre para a turma de Cheney, da qual faz parte Elliot Abrams, um dos personagens de ponta da guerra dos anos 80 na América Central. Hoje cuida do Oriente Médio no Conselho de Segurança Nacional.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

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Um banco pelos direitos humanos?

Em meio à crise do FMI e do Banco Mundial, países latino-americanos preparam-se para lançar o Banco do Sul. Seu caráter ainda não está definido, mas algumas propostas farão dele, se aprovadas, uma instituição revolucionária

Eric Toussaint, Damien Millet

Punido! Como poderia o todo-poderoso Banco Mundial aceitar, em 2005, que o jovem ministro equatoriano da economia, Rafael Correa, tomasse a decisão de revisar a utilização dos recursos petroleiros, reduzir o ritmo do reembolso da dívida e aumentar as despesas sociais, sob pretexto de que o país estava passando por uma crise político-social de extrema gravidade? O banco suspendeu imediatamente um empréstimo de 100 milhões de dólares prometido ao Equador e, com a ajuda de alguns amigos, ocupou-se seriamente da carreira do ministro em questão. “Os donos do petróleo, os Estados Unidos, o Fundo Monetário Internacional [FMI], o Banco Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento [BID] pressionaram o presidente [Carlos Mesa]”, contaria Rafael Correa mais tarde. “Eu perdi a sua confiança, seu apoio [1]”. Ao se ver desautorizado, o jovem economista optou então por se demitir.

Eleito presidente da República, em 3 de dezembro de 2006, Correa ainda mantém vivo o episódio, na memória, nos seus mínimos detalhes — inclusive as atitudes de desprezo com a soberania do país. Em 20 de abril de 2007, num gesto espetacular, ele mandou declarar persona non grata no Equador o representante do Banco Mundial, Eduardo Somensatto. Além disso, confrontado com uma dívida pública de US$ 10,5 bilhões, decidiu que a parte do orçamento dedicada ao seu reembolso cairá de 38%, em 2006, para 11,8% em 2010. Alguns dias depois, a Venezuela anunciou que está deixando o FMI e o Banco Mundial. Já a Bolívia divulgou que não reconhece mais a autoridade do Centro Internacional para a Solução dos Litígios relativos aos Investimentos (Cirdi), um dos instrumentos do Banco Mundial.

Desde os anos 1950, as intervenções do Banco Mundial e do FMI na América Latina têm sido influenciadas pelas prioridades da política externa de Washington. As instituições de Bretton Woods proporcionaram sustentação ao ditador nicaragüense Anastásio Somoza durante cerca de trinta anos, até a sua derrubada em 1979 [2]. Na Guatemala, em 1954, essas instituições boicotaram o governo progressista de Jacobo Arbenz, e se apressaram a apoiar a junta militar que o derrubou.

FMI e Banco Mundial: um currículo de saque e apoio a ditaduras
Na América do Sul, as determinações de Bretton Woods sabotam os regimes democráticos que empreendem reformas destinadas a reduzir as desigualdades. No Brasil, a partir de 1958, fizeram oposição ao presidente Juscelino Kubitschek, que recusou as condições determinadas pelo FMI, e boicotaram o seu sucessor, João Goulart, quando esse anunciou uma reforma agrária e a nacionalização do petróleo, em 1963. Em contrapartida, a partir da instalação do governo militar, em abril de 1964, o FMI e o Banco Mundial apoiaram o governo. Fizeram o mesmo no Chile, em setembro de 1973, depois da derrubada e da morte de Salvador Allende. Em março de 1976, na Argentina, o FMI ofereceu ajuda à ditadura do general Jorge Videla. Em 2002, o Fundo foi a primeira instituição (junto com os Estados Unidos e a Espanha, então governada por José Maria Aznar) a oferecer seus serviços ao breve governo que assumiu o poder em decorrência da derrubada do presidente venezuelano Hugo Chávez.

Em toda parte, as classes dominantes locais encontraram nas instituições de Bretton Woods um apoio à sua resistência às reformas. Vale acrescentar que o Chile de Pinochet e a Argentina de Videla funcionaram como verdadeiros laboratórios para as políticas neoliberais que, sob formas adaptadas, seriam aplicadas mais tarde nos países mais industrializados — começando pela Grã-Bretanha de Margaret Thatcher, a partir de 1979, seguida pelos Estados Unidos de Ronald Reagan, depois de 1981.

O Banco Mundial e o FMI incentivaram deliberadamente a América Latina a se endividar. Entre 1970 e 1982, o conjunto da dívida externa pública da região passou de US$ 16 bilhões para US$ 178 bilhões [3]. Em 1982, quando a crise da dívida tomou conta da região, as duas instituições utilizaram a arma do super-endividamento para impor as políticas que seriam codificadas mais tarde no âmbito do Consenso de Washington: ajustes estruturais, privatizações, abertura econômica, abandono dos controles sobre o câmbios e os movimentos de capitais, redução das despesas sociais, aumento das taxas de juros locais etc. Os capitais que haviam afluído para a região, sob a forma de empréstimos, voltaram a migrar rumo aos países industrializados como reembolso da dívida e fuga de capitais.

Numa nova conjuntura, espaço para posturas independentes
Ao tomarem o lugar das juntas militares, a partir da segunda metade da década de 1980, os governos democráticos aplicaram docilmente as instruções neoliberais. O resultado dessa política é devastador. Da revolta popular de abril de 1984, na República Dominicana, ao “argentinazo” de dezembro de 2001 contra o governo de Fernando de la Rua, passando pelo “caracazo” de 27 de fevereiro de 1989, contra o presidente venezuelano Carlos Andrés Pérez, os motins se multiplicam. A rejeição do Consenso de Washington e dos seus instrumentos acabou provocando uma guinada para a esquerda a partir da eleição de Hugo Chávez à presidência da Venezuela, em 1998.

Depois da derrubada do presidente Fernando de la Rua, em dezembro de 2001, as autoridades argentinas, sob a pressão do descontentamento popular, desafiaram abertamente o FMI e o Banco Mundial ao suspenderem, até março de 2005, o pagamento da dívida pública externa junto aos credores privados e ao Clube de Paris. Embora os sucessivos governos peronistas de Rodríguez Saa, Eduardo Duhalde e Nestor Kirchner evitem a ruptura direta com as instituições de Bretton Woods (que seguem recebendo os seus pagamentos…), também contribuem para enfraquecê-las. Demonstram que é possível suspender o pagamento da dívida, dar um novo impulso ao crescimento econômico, e impor um acordo aos credores. Estes aceitaram, numa proporção de 76%, uma redução de mais da metade das quantias reclamadas.

A partir de 2005, uma mudança conjuntural da situação econômica mundial alterou, de maneira favorável, as relações da maioria dos países em desenvolvimento com seus credores. As cotações das matérias-primas e de certos produtos agrícolas tendem a subir, enquanto as taxas de juros e os prêmios de risco pagos para obter empréstimos sofrem uma queda histórica. Na América Latina e Caribe, o aumento das exportações permite ampliar as reservas em dólares e outras divisas: entre 2002 e 2007, elas passaram de US$ 157 bilhões para mais de US$ 350 bilhões. Vários governos -– Argentina, Brasil, México, Uruguai, Venezuela, além da Tailândia, Indonésia e Coréia do Su — tiraram proveito da situação para saldar as suas pendências com o FMI.

Alguns dos movimentos favoráveis ao cancelamento da dívida criticam os governos, afirmando que esta atitude “legitima” a diva e desperdiça capitais que seriam úteis para conduzir políticas sociais. Os governantes rebatem, afirmando que tais reembolsos lhes permitem recuperar liberdade em relação a uma instituição que impõe políticas impopulares.

O risco: esterilizar as reservas, emprestando dinheiro aos ricos
O que os governos têm feito, até agora, na sua maioria, com as suas reservas de câmbio? Depois de utilizar uma parte para reembolsar certos organismos internacionais, aplicam o restante sob a forma de bônus do Tesouro norte-americanos, ou depósitos em bancos dos Estados Unidos (e, marginalmente, de outros países industrializados). Emprestam, portanto, o dinheiro público do Sul para potências do Norte, em particular para o principal país que os domina.

Além disso, a aplicação das reservas sob forma de bônus do Tesouro, sejam norte-americanos ou de outros países, pode se combinar, surpreendentemente, com a captação de novos empréstimos no mercado interno ou internacional. A remuneração das reservas aplicadas em bônus dos Tesouros estrangeiros ou em bancos privados é sempre inferior aos juros pagos sobre os novos empréstimos. O desfalque amplia-se porque os Estados Unidos os reembolsam as aplicações em dólares, moeda que tem sofrido uma desvalorização constante, ao longo dos últimos anos.

Deter reservas importantes em divisas fortes desencadeia outro mecanismo perverso: os bancos centrais dos países que se encontram nesta situação compram os dólares obtidos pelos exportadores, oferecendo em troca títulos da dívida pública. E remuneram estes papéis com altas taxas de juros, o que representa um custo suplementar para o Tesouro público [4].

Longa costura política leva a Assução, onde surgirá o novo banco
A relativa abundância de reservas à disposição dos governos da América Latina trouxe mais água para o moinho do presidente Chávez, que vem propondo, há alguns anos, a criação de um fundo humanitário internacional e, desde 2006, a fundação de um Banco do Sul. Ao anunciarem, em fevereiro de 2007, o nascimento dessa instituição, a Argentina e a Venezuela deram um passo decisivo para a sua viabilização. Sem demora, a Bolívia, o Equador e o Paraguai associaram-se à iniciativa. O Brasil, que se manteve hesitante durante três meses, acabou assinando a declaração de Quito de 3 de maio, por ocasião de uma reunião de cúpula dos ministros das Finanças da Argentina, da Bolívia, do Brasil, do Equador, do Paraguai e da Venezuela. Uma cúpula que reunirá os ministros da Economia desses países, a ser realizada em Assunção, em 28 e 29 de junho, deverá marcar oficialmente o lançamento do Banco do Sul.

Várias opções ainda são tema de discussões, mas um consenso parece ter se desenhado em relação a vários pontos. Esse organismo financeiro reunirá, ao menos, esses seis países da América do Sul (a porta permanecerá aberta para os outros) e terá por função financiar o desenvolvimento da região. Existe, também, vontade de criar um fundo monetário de estabilização [5]. Já existe um Fundo Latino-Americano de Reserva (FLAR), do qual fazem parte cinco países andinos (Bolívia, Peru, Colômbia, Equador, Venezuela) e um país da América Central, a Costa Rica. Essa entidade poderia ser transformada ou, caso isso se revele impossível, um novo fundo poderá surgir. Seu objetivo seria de fazer frente a ataques especulativos e a outros choques externos por meio de um caixa comum, no qual os países-membros compartilhariam uma parte das suas reservas de câmbio.

Trata-se, portanto, de dispensar os serviços do FMI, com uma ambição suplementar: implantar uma unidade de conta que poderia, um dia, desembocar numa moeda comum. Ou seja, criar uma divisa equivalente ao que era o ECU europeu antes da criação do euro. Atualmente, as operações comerciais entre países da América do Sul são pagas em dólares. Mas Argentina e Brasil acabam de afirmar a intenção de pagar suas transações mútuas — um valor anual de US$ 15 bilhões — em pesos argentinos e em reais.

As propostas que podem significar grande inovação
Durante a reunião de Quito, a delegação do Equador apresentou uma concepção revolucionária do Banco do Sul (e do Fundo). Segundo seus autores, a instituição deveria funcionar a partir de uma base democrática, diferentemente dos modos de funcionamento do Banco Mundial, do FMI e do BID. Seria um instrumento encarregado, entre outros, de zelar pela aplicação dos tratados internacionais relativos aos direitos humanos, sociais e culturais, ao passo que o Banco Mundial considera não ter obrigação nenhuma em relação a esses tratados. O Banco do Sul deverá financiar projetos públicos, enquanto as instituições existentes privilegiam o setor privado.

Além do mais, se os chefes de Estado chegarem a um acordo a esse respeito, o Banco do Sul deverá estar fundamentado no princípio de “um país, um voto”. Atualmente, no Banco Mundial, FMI e BID, o direito de voto dos países depende da sua contribuição financeira inicial. Os Estados Unidos são detentores, por si só, de mais de 15% dos votos, o que lhes confere um direito de veto de fato. Além disso, os dirigentes e funcionários do Banco do Sul seriam responsáveis perante a Justiça, diferentemente dos do Banco Mundial, protegidos por imunidade total, suspensa apenas se a instituição o desejar. Os arquivos pertenceriam ao domínio público (a regra contrária está em vigor no FMI e no Banco Mundial). Por fim, o novo estabelecimento financeiro não se endividaria no mercado dos capitais. O seu capital seria formado pelos países-membros, que o financiariam por meio de uma contribuição inicial, de empréstimos, e ainda por meio de tributos – por exemplo, sobre transações com capital especulativo, do tipo Tobin. [6]

Ainda é cedo para conhecer o destino que a proposta terá. Os governos brasileiro e argentino mostram-se mais interessados em criar um banco que venha reforçar suas grandes empresas privadas ou de economia mista, no âmbito de um bloco econômico e político a ser construído segundo o modelo de uma União Européia dominada pela lógica capitalista. Mas o debate ainda não foi concluído. De qualquer forma, não há como negar: na América Latina, o FMI e o Banco Mundial não ditam mais a lei.

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[1] Maurice Lemoine, “Nos bastidores da vitória de Rafael Correa”, Le Monde Diplomatique-Brasil, janeiro de 2007.

[2] Para uma apresentação detalhada do apoio do Banco Mundial e do FMI às ditaduras, ler Eric Toussaint, Banco Mundial: o Golpe de Estado permanente. A agenda oculta do Consenso de Washington, CADTM-Syllepse, Liège-Paris, 2006.

[3] Banco Mundial, Global Development Finance, Washington D.C., 2006.

[4] Ibid.

[5] A adesão da Venezuela não está garantida porque, inicialmente, Hugo Chávez queria que o Banco do Sul acumulasse as funções de banco de desenvolvimento e de fundo monetário de estabilização.

[6] Este tributo incidiria sobre as transações envolvendo câmbio, efetuadas nos seis países

Jornal Le Monde
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Vera Cruz, A Companhia Cinematográfica

Fernando Navarro

Em 1949, empresários de São Paulo criam a Companhia Cinematográfica Vera Cruz. Durante quatro anos, a Vera Cruz realiza 18 filmes de longa-metragem e marca uma época no cinema brasileiro.

Após o fim da Segunda Guerra Mundial e da ditadura do Estado Novo, em 1945, São Paulo vive um momento de efervescência cultural. Revistas de divulgação artística, conferências, seminários e exposições agitam a vida paulista.

No final dos anos 40, são inaugurados o Museu de Arte Moderna e o MASP - Museu de Arte de São Paulo. Na mesma época, Franco Zampari, empresário de origem italiana, monta uma companhia teatral de alto nível, o TBC - Teatro Brasileiro de Comédia. Cresce o interesse pelo cinema. Intelectuais fundam cineclubes e movimentam grupos de debates.

Em 1949, Franco Zampari e um grupo de empresários fundam a Companhia Cinematográfica Vera Cruz, em São Bernardo do Campo.
Constróem estúdios gigantescos e caros. Importam os melhores equipamentos disponíveis no exterior. Os empresários tomam como modelo o cinema de Hollywood, nos Estados Unidos.

“Produção Brasileira de Padrão Internacional.” Com este lema, a Vera Cruz se propõe a realizar um cinema brasileiro em bases industriais. A primeira produção da Vera Cruz é o filme “Caiçara”, dirigido por Adolfo Celi.

“Caiçara” é todo filmado em Ilhabela, litoral de São Paulo, para onde foram deslocados o elenco, a equipe técnica e os pesados equipamentos de filmagem. O lançamento de “Caiçara” é feito com grande publicidade.

O ritmo de produção da Vera Cruz é intenso.
Os lançamentos se sucedem, às vezes em intervalos de poucos meses.

Em janeiro de 1953, estréia “O Cangaceiro”, dirigido por Lima Barreto. “O Cangaceiro” é premiado no Festival de Cannes como o melhor filme de aventura daquele ano e torna-se um sucesso de bilheteria.

O sonho brasileiro de uma indústria de cinema dura poucos anos. Em 1954, a Companhia Vera Cruz entra em declínio. Entre os motivos de sua decadência está a ausência de um sistema próprio de distribuição. Os distribuidores e os exibidores ficavam com mais de 60% da arrecadação. Havia ainda a dificuldade de colocar o filme brasileiro no competitivo mercado internacional.

A Vera Cruz é prejudicada também pela concorrência desigual com os filmes estrangeiros no Brasil. O preço dos ingressos das salas de cinema era tabelado. A inflação diminuía o valor real do ingresso e fazia cair a arrecadação dos filmes. Para os filmes estrangeiros norte-americanos, o governo brasileiro pagava a diferença entre o câmbio do dólar oficial e do paralelo.

Apesar de só ter durado alguns anos, a Vera Cruz formou uma geração de cineastas e profissionais de cinema. A qualidade técnica e artística de seus filmes marcou uma época e mostrou a viabilidade do cinema brasileiro.

Alô Escola TV Cultura
http://www.tvcultura.com.br/aloescola/index.asp

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