Arquivo de 5 de Novembro de 2007

Khun Sa, rei do Triângulo Dourado das drogas, morre aos 73 anos

Thomas Fuller

Khun Sa, o senhor das drogas do Triângulo Dourado que adorava publicidade e prosperava no caldeirão matar-ou-morrer de rivalidades étnicas e exércitos particulares financiados pela heroína da região, morreu aos 73 anos em Yangun, Mianmar, segundo um oficial da milícia que ele já liderou.

Kon Jern, um comandante do Exército do Estado de Shan, um grupo separatista, disse em uma entrevista por telefone que soube da morte por meio de parentes de Khun Sa. A causa da morte é desconhecida, mas ele supostamente sofria de pressão alta, doença cardíaca e diabete.

As agências de notícias, citando fontes anônimas em Yangun, disseram que ele morreu na sexta-feira e foi cremado na madrugada de terça-feira. O país está fechado a jornalistas estrangeiros desde que a junta militar que governa Mianmar reprimiu os recentes protestos antigoverno.

Por décadas, Khun Sa simbolizou a aparente impunidade dos traficantes de heroína no Triângulo Dourado, a área que abrange o norte de Mianmar, Laos e Tailândia.

Mas sua rendição para as autoridades birmanesas em 1996 levou a reduções dramáticas no cultivo de papoula para ópio no Triângulo Dourado e prenunciou o eclipse da região. Apesar da produção de ópio em Mianmar ter aumentado cerca de 30% neste ano em comparação ao ano passado, o Triângulo Dourado produz apenas 5% do ópio mundial, em comparação a 70% há três décadas. O Afeganistão atualmente é o maior produtor mundial.

Khun Sa foi um líder guerrilheiro no movimento separatista dos shan, o grupo étnico lingüisticamente relacionado aos tailandeses que habita o nordeste de Mianmar. Seu império das drogas trocava ópio por armas e usava as armas para consolidar seu controle sobre grandes trechos da região remota, escarpada e empobrecida de Shan.

No auge do seu poder, nos anos 80, ele controlava cerca de 70% do tráfico de heroína do país, que lhe permitia financiar um exército de dezenas de milhares de soldados e laboratórios de heroína de grande escala.

Entre seus aliados, Khun Sa ainda é admirado pelo seu apoio aos shan.

“Ele teve que vender drogas porque não teve escolha”, disse Kon Jern, o comandante rebelde. “Ele teve que vender as drogas para ganhar dinheiro e usar tal dinheiro para lutar pela independência do Estado de Shan.”

Os historiadores retratam Khun Sa como charmoso, maquiavélico e impiedoso.

Khun Sa nasceu em 17 de fevereiro de 1934, segundo Bertil Lintner, um dos principais especialistas em Mianmar que o entrevistou várias vezes. Seu pai era chinês e sua mãe era shan; eles viveram no Estado de Shan, no norte. Ele mudou seu nome de Chang Chi-fu (também soletrado Chufu ou Shee-fu) para seu nome de guerra, Khun Sa, nos anos 70.

Um historiador do Sudeste Asiático, o falecido Michael Leifer, o descreveu como um “jovem incapaz com tendência criminosa”.

Seu pai morreu quando ele era jovem e sua mãe se tornou amante de um coletor de impostos local, segundo Lintner. Ele não recebeu educação formal mas teve treinamento militar como soldado na forças nacionalistas chinesas que fugiram para a Birmânia, que atualmente é conhecida como Mianmar, após a vitória dos comunistas de Mao em 1949.

Ele entrou no negócio de ópio em 1963, quando o governo birmanês autorizou ele e outros a formarem milícias aliadas ao governo central como forma de terceirizar o trabalho de combater os grupos rebeldes. Em menos de um ano ele rompeu seus laços com o exército birmanês e estabeleceu um feudo independente nos trechos mais ao norte da Birmânia, perto da fronteira com a China.

Seu início de carreira foi marcado pelo fracasso. Ele desafiou o domínio dos nacionalistas no narcotráfico no Triângulo Dourado, mas perdeu a batalha. Ele foi capturado pelo governo central birmanês e ficou preso de 1969 a 1974.

Logo após ser solto ele se juntou novamente a seus simpatizantes no nordeste e montou uma base em Baan Hin Taek, ao longo da fronteira montanhosa perto da cidade tailandesa de Chiang Rai. Sua rede de drogas cresceu e logo passou a dominar o tráfico de heroína na Birmânia.

Nos anos 80 e 90 grande parte das drogas que passavam por sua rede era enviada para os Estados Unidos. Em 1990, o Departamento Antidrogas dos Estados Unidos calculou que 45% de toda a heroína que chegava ao país vinha do Triângulo Dourado.

Os historiadores divergem sobre o alcance de seu poder.

Lintner disse que Khun Sa era iletrado e um testa-de-ferro de uma organização dominada por chineses da província de Yunnan que ainda atua. “Ele era basicamente uma pessoa rude do campo”, disse Lintner. “Era um camponês e nunca o cérebro por trás da organização.”

Mas Alfred McCoy, que narrou a ascensão do Triângulo Dourado em “The Politics of Heroin” (a política da heroína), descreveu Khun Sa como “o único senhor da guerra shan que dirigia uma organização de contrabando realmente profissional, capaz de transportar grandes quantidades de ópio” e “o primeiro dos senhores da guerra do Triângulo Dourado digno da coroa de ‘chefão’ atribuída pela imprensa”.

Khun Sa adorava cultivar sua imagem. Em uma entrevista para o falecido jornal “Bangkok World”, ele chamou a si mesmo de “Rei do Triângulo Dourado”.

Embaraçadas e sob forte pressão dos Estados Unidos, as autoridades tailandesas buscaram expulsar Khun Sa da Tailândia.

Em 1980, o primeiro-ministro tailandês, Prem Tinsulanonda, ordenou que a força aérea bombardeasse sua base, mas fracassou em desalojá-lo. Em 1982, o exército tailandês, liderado pelo general Chavalit Yongchaiyut, que posteriormente se tornou primeiro-ministro, lançou um ataque em grande escala. Khun Sa perdeu 130 homens na batalha que se seguiu e recuou para Mianmar, onde prosseguiu com seu negócio de heroína.

Pouco se sabe sobre sua vida em Yangun após sua rendição para as autoridades de Mianmar. Kon Jern, o comandante shan, disse que Khun Sa foi mantido sob prisão domiciliar. Outros relatos dizem que ele vivia confortavelmente, apesar de não luxuosamente. Ele teve três filhas e cinco filhos, segundo Lintner, todos eles educados no exterior.

The New York Times
http://www.nytimes.com/

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Carros: paixão masculina

Para a maioria dos homens os automóveis são objetos de desejo; simbologias arcaicas explicam por que despertam afetos intensos e fazem sonhar

Emanuela Zerbinatti

O automóvel é um dos ícones mais poderosos da modernidade, um elemento fundamental, presente na paisagem urbana e determinante na mudança de costumes, estilos de vida e comportamentos. Ainda hoje, mais de um século após sua invenção, é o símbolo da passagem veloz para um futuro cada vez mais avançado, em direção à perfeição tecnológica. De fato, o carro mudou a maneira de percebermos o tempo e as distâncias, alargou horizontes – fez com que nos tornássemos “auto-móveis”. Às vezes nos esquecemos de que se trata de uma máquina e a consideramos quase uma prótese do corpo, capaz de conferir potência e velocidade. Esses atributos, historicamente associados ao sexo masculino, não parecem seduzir tanto as mulheres. Para a maioria delas, o carro é um instrumento como outro qualquer. Para eles, é um objeto de desejo, alvo de afetos intensos.

Para o psicólogo Francesco Albanese, presidente do laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento em Psicologia (Psicolab), na Itália, que há anos estuda psicologia do trânsito, para entender onde nascem essas diferenças é preciso voltar a Sigmund Freud e à psicanálise. Por estar associado subjetivamente a atributos considerados viris, como velocidade e potência (idéia amplamente reforçada pela propaganda), o carro se presta melhor a ser alvo de um processo de identificação masculina. E onde há identificação, há projeção da própria personalidade. Não por acaso, o homem tende a revestir o carro de significados simbólicos, a ponto de humanizá-lo como se fosse uma garota a ser cuidada ou uma mulher a ser amada.

Os homens – ou pelo menos grande parte deles- – se tornam incrivelmente mais profundos quando o assunto é carro: não basta olhá-lo, é preciso vivê-lo e senti-lo com os cinco sentidos. Já as mulheres se permitem usar o veículo e, quando ele deixa de ser adequado às suas necessidades práticas, não lhes parece tão doloroso trocá-lo por outro. E, na maioria dos casos, limitam-se à estética e avaliam a relação custo–benefício. Raramente se ouve falar, por exemplo, de uma mulher que “se apaixonou” por um carro antigo e empregou tempo livre e economias na tarefa de restaurar o veículo.

COM A FAMÍLIA
Se colocarmos homens e mulheres à mesma mesa para falarem de carros, o efeito pode ser hilário, garantem os psicólogos que trabalham com marketing: enquanto eles procuram um modelo potente e veloz, elas querem um produto seguro e, de preferência, fácil de estacionar. Eles adoram o som do motor, elas querem silêncio (até porque desejam ser ouvidas quando falam). Em geral, homens se inebriam com o cheiro de carro novo; muitas mulheres ficam enjoadas com o odor. No carro deles não há quase nada; no delas, tem de tudo – de batom a guarda-chuva, de revistas a peças de roupa. Essas diferenças têm grande importância para os estudiosos da psicologia do consumo e para os especialistas em publicidade. Até há pouco tempo era tudo mais simples: o carro era usado (e adquirido) pelo “pai de família”.

Hoje, porém, não é mais assim. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), de 2006, o total de mulheres chefes de família no Brasil aumentou 79% em dez anos, passando de 10,3 milhões, em 1996, para 18,5 milhões no ano passado. No mesmo período, o número de homens responsáveis pela família aumentou 25%. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e estatística (IBGE), houve crescimento acentuado no número de mulheres casadas que assumem as rédeas da família. Esse percentual saltou de 9,1% em 1996 para 20,7% em dez anos. E quem tem o dinheiro também é, na maior parte das ocasiões, quem decide quando e como gastá-lo. Portanto, é preciso oferecer um veículo que responda às expectativas do potencial comprador – um mecanismo denominado personalização.

Assim, as propagandas de carros “femininos” trazem referência a valores como amizade, bem-estar e elegância; apresentam mulheres esguias e charmosas (mas nunca excessivamente belas, apenas o suficiente para que a consumidora se identifique com a modelo). Por outro lado, nos comerciais de carros mais “masculinos”, os automóveis superequipados viajam por entre belas paisagens, sugerindo o quanto pode ser emocionante e desafiador descobrir novos caminhos.

Em linhas gerais, a mensagem que a publicidade tenta passar toma por base a teoria freudiana: o homem anseia por ser forte e livre – e cultiva intimamente a fantasia, trazida da infância, de que poderá experimentar a completude, sem que nada possa detê-lo. Entre essas duas formas tão diversas de olhar para o automóvel coloca-se um novo alvo que vem tirando o sono de muitos publicitários: o carro da família. O que há de convidativo num carro em que devem caber cadeirinhas de segurança para crianças, o carrinho de bebê, a sacola de fraldas e um monte de bichos de pelúcia?

O carro para a família fez nascer, na mente dos psicólogos de marketing, um novo modelo masculino, o do homem de terno, obviamente com uma mulher jovem e bonita ao seu lado (mas não tão sensual a ponto de criar antipatias inconscientes nas companheiras que colaboram com a compra). E, claro, não podem faltar os filhos sorridentes; esse novo homem saboreia a liberdade, mas quer partilhar seus melhores momentos com a família, desfrutando o conforto que a tecnologia oferece. Essa espécime contemporânea deve saber que a verdadeira essência do macho não está em mergulhar em águas barrentas para apanhar um jacaré com as próprias mãos – mas em recuperar um coelho de pelúcia que a menina chorosa perdeu. Para depois retornar triunfante para seu domesticado off-road 4x4.

COMO SE FOSSE A CASA
Que demonstre mais ou menos seus sentimentos, pouco importa: em geral, o homem dedica ao próprio meio de transporte atenções que não reserva para nenhum outro objeto. O mesmo indivíduo que nem sonharia em dar uma enxaguada nos pratos sujos na pia num fim de semana é capaz de ficar debaixo de um sol escaldante aguardando para deixar brilhante o tão amado veículo. A mulher, por mais que seja preocupada com limpeza e atenta à organização doméstica, raramente se porta da mesma forma em relação ao carro: na maioria das vezes, leva o veículo para ser lavado quando está sujo e não se incomoda em acompanhar cada etapa do serviço. Afinal, para ela, a casa é uma parte de si, mas o carro absolutamente não é.

A mania por brilho, tipicamente masculina, também fez florescer uma verdadeira indústria de detergentes, ceras e polidores, sem falar nos sprays para painéis com “cheirinho de novo”, exatamente aquele cheiro “eau de plástico” que as mulheres realmente não suportam. Já os homens dificilmente toleram os perfumes para ambientes, tão bem aceitos por elas.

Essas diferenças foram estudadas também com métodos científicos: recentemente, um grupo de psicólogos da Universidade Harvard mostrou para homens e mulheres imagens de carros brilhantes e sujos, novos e velhos, e assim por diante, e pediu-lhes que definissem o caráter do proprietário com base no aspecto do automóvel. Para os homens um carro limpo e brilhante está associado ao sucesso social, à estabilidade financeira e ao cuidado com a propriedade. Para as mulheres, um carro sujo é sinônimo de pessoa atarefada, que tem pouco tempo para detalhes insignificantes (mas dentro de certos limites: se o carro, além de sujo, for também velho e tiver a carroceria danificada, ele passa a ser identificado com um fracassado social).

O sexo de um pretenso comprador também influencia os meios usados pelos vendedores das concessionárias, como demonstra um curioso estudo realizado por pesquisadores da Escola de Economia da Universidade Yale e publicado na American Economic Review. Os psicólogos da universidade americana instruíram 300 voluntários de ambos os sexos e de várias etnias (brancos, negros e hispânicos) a negociar a compra de um carro usado. Conclusão: os vendedores tendem a aumentar os preços para as minorias e para as mulheres, ao passo que os homens brancos, valendo-se da mesma negociação, conseguem oferta melhor. E não é só isso: contando com a provável ignorância feminina sobre o assunto, os vendedores “empurram” a elas os carros em pior estado ou modelos menos valorizados pelo mercado.

“Esse fenômeno contradiz as leis da economia, já que, em todos os outros setores, quanto mais abastado parecer o comprador, mais alto será o preço que conseguirá”, observa o pesquisador Ian Ayres, um dos autores do estudo. Segundo ele, no caso de carros, porém, há aspectos específicos a serem considerados. “Cria-se uma espécie de aliança entre o homem comprador e o homem vendedor: ambos deixam-se enredar em intermináveis discussões sobre as qualidades do veículo, da mecânica à carroceria, e desse modo os papéis se confundem: da simpatia nasce o desconto. Para as mulheres e, às vezes, também para as minorias étnicas, se instaura um mecanismo oposto. É como se o vendedor olhasse o carro e dissesse: ´Pobre criatura, em que mãos vai acabar!´.”

VIDAS NO LIMITE
A forma como dirigimos pode ser vista como uma representação de nosso funcionamento psicológico, revelando não só escolhas, hábitos e crenças – muitas delas originadas na infância –, mas também aspectos reprimidos ou disfarçados de nossa personalidade. Há, porém, uma explicação neurobiológica para o fascínio pelas altas velocidades: a consciência (ainda que parcial) do risco desencadeia no organismo reações neurológicas e hormonais. A elevação dos níveis de adrenalina induz à hiperatividade do sistema nervoso e confere uma espécie de euforia artificial que, para alguns, pode resultar em satisfação.

É o que acontece aos protagonistas do premiado Crash, de David Cronenberg, de 1996, adaptado do polêmico romance homônimo de James Ballard, que está sendo reeditado no Brasil. Nesse caso, os personagens buscam satisfação sexual ao correr como loucos e provocar acidentes.

Parece haver na história a simbologia de uma “contaminação” do ser humano pela máquina, sugerida pela metáfora do carro como prótese do corpo, como fusão entre metal e carne, numa realidade em que as pessoas, para escapar do achatamento afetivo, precisam de uma experiência violenta levada às últimas conseqüências. No filme, as cenas de sexo são frias e mecânicas, não há troca de olhares e, sobretudo, o que satisfaz nunca é o encontro afetivo. As emoções mais intensas são vividas quando os personagens assistem aos vídeos de acidentes.

CONCEITOS-CHAVE
- Associado subjetivamente a atributos considerados viris, como velocidade e potência (idéia reforçada pela propaganda), o carro se tornou alvo da identificação masculina.

- A forma como dirigimos pode ser uma representação de nosso funcionamento psicológico, revelando não só escolhas, hábitos e crenças (muitas delas originadas na infância), mas também aspectos reprimidos ou disfarçados de nossa personalidade.

- O fascínio pelas altas velocidades pode ter explicações neurobiológicas: a consciência (ainda que parcial) do risco desencadeia no organismo reações neurológicas e hormonais. A elevação dos níveis de adrenalina induz à hiperatividade do sistema nervoso e confere uma espécie de euforia artificial que, para alguns, pode resultar em sensação de satisfação.

CENTAUROS E GUERREIROS
A identificação do homem com um meio de transporte não é um fenômeno novo: numa época em que o carro nem sequer havia sido remotamente imaginado, a mitologia criou a figura do centauro, um ser de tronco humano num corpo de cavalo. Ao cavalgá-lo era possível adquirir os mesmos dons de velocidade e potência que hoje atribuímos ao carro. Pois, no fundo, existe a consciência de que essas qualidades não pertencem completamente ao homem – mas podem ser comandadas (como uma prótese); surge aí a ilusão de onipotência que faz aquele que guia se sentir capaz de superar qualquer obstáculo. Esse olhar psicológico evoca de imediato a triste realidade dos massacres nas estradas, que quase sempre se devem ao excesso de velocidade e à imprudência.

“Voltando a Freud, podemos pensar que a escolha de chegar até o limite máximo de velocidade do automóvel é, para algumas pessoas, uma forma de compensação, utilizada para nivelar traços pessoais deficitários e ostentar potência e força”, afirma Albanese. O pesquisador alerta, porém, que essa atitude revela um ato falho implícito. “Esses motoristas demonstram exatamente o contrário, pois já é de domínio do senso comum que quem é realmente forte não precisa demonstrá-lo de forma tão acintosa. Ao passarem em alta velocidade, colocando em risco a própria vida e a dos outros, esses indivíduos desafiam a lei, a física e também a morte. O próprio desejo de possuir carros barulhentos remete ao espírito do guerreiro ancestral: seria possível incutir medo no exército inimigo se não produzíssemos nenhum som?”

Talvez não por acaso o potente centauro da Antigüidade estava a serviço de Marte, deus da guerra, e era, com efeito, violento e arrogante. “De fato, de carro a maioria das pessoas se sentem muito mais prontas para suas próprias guerras pessoais (quaisquer que sejam elas). Nesse nicho nos sentimos protegidos, escondidos da visão dos demais pelos vidros, pelos reflexos e pela própria distância física, como se estivéssemos num tanque de guerra. O outro lado da moeda é que o outro tampouco estará completamente visível para nós e, portanto, não é identificado como uma pessoa digna de respeito ou piedade.”

PARA CONHECER MAIS
Comportamento humano no trânsito. Maria Helena Hoffmann, Roberto Moraes Cruz e João Carlos Alchieri. Casa do Psicólogo, 2003.

Psicologia do trânsito: conceitos e processos básicos. Reinier J. Rozestraten. Epu/Edusp, 1998.

Psicologia ambiental e psicologia do trânsito: uma agenda de trabalho. H. Günther. Série Textos de Psicologia Ambiental, nº 8. Laboratório de Psicologia Ambiental da Universidade de Brasília (UnB), 2004. Disponível em www.unb.br/ip/lpa/pdf/08PAePT.pdf.

Revista Mente e Cérebro
http://www2.uol.com.br/vivermente/

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Todo homem é filósofo

ANTONIO GRAMSCI

É preciso destruir o preconceito, muito difundido, de que a filosofia é algo muito difícil pelo fato de ser a atividade intelectual própria de uma determinada categoria de cientistas especializados ou de filósofos profissionais e sistemáticos. É preciso, portanto, demonstrar preliminarmente que todos os homens são ‘filósofos’, definindo os limites e as características desta ‘filosofia espontânea’, peculiar a ‘todo o mundo’, isto é, da filosofia que está contida: 1) na própria linguagem, que é um conjunto de noções e de conceitos determinados e não, simplesmente, de palavras gramaticalmente vazias de conteúdo; 2) no senso comum e no bom senso; 3) na religião popular e, consequentemente, em todo o sistema de crenças, superstições, opiniões, modos de ver e de agir que se manifestam naquilo que geralmente se conhece por ‘folclore’.

Após demonstrar que todos são filósofos, ainda que a seu modo, inconscientemente – já que, até mesmo na mais simples manifestação de uma atividade intelectual qualquer, na ‘linguagem’, está contida uma determinada concepção do mundo, passa-se ao segundo momento, ao momento da crítica e da consciência, ou seja, ao seguinte problema: é preferível ‘pensar’ sem disto ter consciência crítica, de uma maneira desagregada e ocasional, isto é, ‘participar’ de uma concepção do mundo ‘imposta’ mecanicamente pelo ambiente exterior, ou seja, por um dos muitos grupos sociais nos quais todos estão automaticamente envolvidos desde sua entrada no mundo consciente (e que pode ser a própria aldeia ou a província, pode se originar na paróquia e na ‘atividade intelectual’ do vigário ou do velho patriarca, cuja ’sabedoria’ dita leis, na mulher que herdou a sabedoria das bruxas ou no pequeno intelectual avinagrado pela própria estupidez e pela impotência para a ação), ou é preferível elaborar a própria concepção do mundo de uma maneira consciente e crítica e, portanto, em ligação com este trabalho do próprio cérebro, escolher a própria esfera de atividade, participar ativamente na produção da história do mundo, ser o guia de si mesmo e não mais aceitar do exterior, passiva e servilmente, a marca da própria personalidade?

Pela própria concepção do mundo, pertencemos sempre a um determinado grupo, precisamente o de todos os elementos sociais que compartilham um mesmo modo de pensar e de agir. Somos conformistas de algum conformismo, somos sempre homens-massa ou homens-coletivos. O problema é o seguinte: qual é o tipo histórico de conformismo, de homem-massa do qual fazemos parte? Quando a concepção do mundo não é crítica e coerente, mas ocasional e desagregada, pertencemos simultaneamente a uma multiplicidade de homens-massa, nossa própria personalidade é compósita, de uma maneira bizarra: nela se encontram elementos dos homens das cavernas e princípios da ciência mais moderna e progressista, preconceitos de todas as fases históricas passadas estreitamente localistas e intuições de uma futura filosofia que será própria do gênero humano mundialmente unificado. Criticar a própria concepção do mundo, portanto, significa torná-la unitária e coerente e elevá-la até o ponto atingido pelo pensamento mundial mais evoluído. Significa também, portanto, criticar toda a filosofia até hoje existente, na medida em que ela deixou estratificações consolidadas na filosofia popular. O início da elaboração crítica é a consciência daquilo que é realmente, isto é, um ‘conhece-te a ti mesmo’ como produto do processo histórico até hoje desenvolvido, que deixou em ti uma infinidade de traços acolhidos sem análise crítica. Deve-se fazer, inicialmente, essa análise.”

Revista Espaço Acadêmico
http://www.espacoacademico.com.br/

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Esquerda, volver… ma non troppo.

Depois de uma década de pequenos sucessos e grandes derrotas, em toda Europa social-democratas e socialistas tentam reencontrar-se com seu passado. Chegou a vez da Alemanha, onde novas lideranças prometem “corrigir o rumo” do Partido Social-Democrata (SPD, conforme a sigla alemã). Será que vai funcionar?

Flávio Aguiar

Os resultados pífios dos social-democratas nas recentes eleições na Suíça e na Polônia, onde decididamente não estiveram entre as figuras relevantes para as decisões, parecem ter acendido uma luz vermelha (a cor é adequada) no SPD alemão, como também já vinha ocorrendo em outros países, entre os partidos descritos como de centro-esquerda.

O SPD alemão é o partido mais antigo do país, e dos mais antigos da Europa e do mundo, com seus respeitáveis 114 anos de história. Mas passa por dificuldades gritantes. Depois da queda do muro de Berlim, em 1989, e da subseqüente dissolução da União Soviética, o Partido Social-Democrata alemão tornou-se exemplar no que toca à ventania política que levou todos os partidos do gênero, na Europa, a se moverem para a direita.

O líder desta virada na Alemanha foi Gerard Schröder, que chegou a ser primeiro ministro no começo do século XXI. Schröder, seguindo vaga mundial, fez uma série de reformas no sistema social alemão, adequando-o aos tempos de liberalismo requentado (também chamado de neo-liberalismo…) que marcaram esse momento. Basicamente isso consistia, como alhures, em desconstruir direitos trabalhistas e fazer do Estado o vigilante dessa batida em retirada e restrição do campo social.

Aparentemente, isso devia assegurar uma nova popularidade ao partido, com um sucesso eleitoral duradouro. Não foi o que aconteceu. Derrotas eleitorais em eleições provinciais levaram Schröder a antecipar as eleições gerais, e o resultado foi algo surpreendente, pois a líder da conservadora União Democrata Cristã (CDU), Ângela Merkel, tornou-se a primeira ministra quando seu partido venceu o pleito, ainda que por estreita margem.

Merkel leu corretamente o resultado, e diante de um eleitorado dividido praticamente pela metade, chamou o SPD para uma coalizão, e a cúpula deste partido aceitou o chamado. Novamente, o plano era um, mas o resultado foi outro. A aproximação com Merkel afastou ainda mais a base da cúpula do partido.

A própria Ângela Merkel surpreendeu o eleitorado e a Europa. Eleita com um discurso conservador, prometendo arrancar mais direitos sociais, Merkel fez um movimento considerado brilhante pelos analistas políticos convencionais na Alemanha. Compensou seu discurso com uma preocupação assistencialista com os idosos, os doentes e aqueles que podem ser descritos como “padecendo de fragilidade social” (mulheres em necessidade, jovens mães, por exemplo). Tendo ao lado vizinhos que brandem discursos ferozmente eurocêntricos, como Nicolas Sarkozy na França e Cristoph Blocher na Suíça (este último beirando o racismo explícito), Merkel caracterizou-se por uma fala bem mais branda com relação aos imigrantes, embora mantenha uma posição dura em relação ao Irã e ao que aqui é chamado de “extremismo islâmico”. Para completar, Merkel compreendeu rapidamente o “fator Al Gore” na cena mundial,e num país onde existem leis rígidas e amplas em relação aos direitos do consumidor, e o meio-ambiente é uma preocupação permanente e em escala mundial (nada deixa um humanista alemão com maior brilho no olhos do que falar em “Amazônia”, por exemplo), ela tornou-se uma campeã do tema.

Na reunião do G-8 (os sete países mais industrializadas do hemisfério norte mais a Rússia), em junho deste ano, realizada em Rostok, no norte da Alemanha, Merkel agitou suficientemente a questão ambiental, o efeito estufa, e temas associados, para considerar-se na imprensa que ela de fato enfrentou a indiferença a respeito sempre manifesta pelo governo Bush.

Essa ofensiva de Merkel roubou a cena aos social-democratas e até mesmo, em parte, ao Partido Verde. Para completar o cenário difícil, uma parte dos dissidentes do SPD uniu-se a uma parte dos remanescentes comunistas e fundaram um novo partido, Die Linke, literalmente A Esquerda.

Acossados pelos dissidentes, por Merkel, pelos Verdes, que atraem uma parte do eleitorado jovem e/ou também de esquerda, o SPD ameaçava soçobrar na perda completa de identidade. Entretanto um novo fator, chamado Kurt Beck, apareceu no horizonte, galvanizando o temor das numerosas bases do partido, ainda remanescentes, de que o SPD se tornasse apenas um partido conservador com umas pintas róseas, mais do que vermelhas, no passado.

Enfrentando a resistência dos spedistas que estão no governo, inclusive a do atual ministro do Trabalho, Franz Münfering, Beck conseguiu reverter algumas das posições cristalizadas no partido desde o tempo de Schröder. Recentemente o pleno do SPD decidiu abraçar a proposta de ampliar direitos sociais, como: passar o tempo de salário-desemprego pleno de 18 para 24 meses, no caso de quem tenha mais de 55 anos; aumentar a pensão dada aos trabalhadores de mais de 60 anos que continuem trabalhando; opor-se à proposta de que a idade de aposentadoria passe de 65 para 67 anos (na Alemanha o cidadão se aposenta no dia em que completa 65 anos, sem consideração de outros fatores). Fala-se até em discutir uma proposta de salário mínimo!

Será possível que isto interrompa o que vem sendo descrito na imprensa como a “hemorragia de perda de votos” que vem atingindo o partido? Não se sabe. Beck é um líder ousado, toma atitudes aqui descritas como “populistas”, freqüentando festas populares, tirando fotos com marcas de beijos na bochecha, e assim por diante. Conseguiu, é certo, galvanizar o descontentamento interno do partido. Se o fará em relação ao eleitorado, cavando espaço entre Merkel, os Verdes e a Die Linke, é outra história.

Ele tem a seu favor a percepção pessimista do eleitorado quanto a sua situação econômica, pois é grande a descrença na população de que vá ter melhorias de vida nos próximos tempos. Além disso, há certas condições de vida que estão piorando. O sistema de saúde está com problemas no país.

Recentemente há um outro fato que desperta preocupações. Outro dia minha companheira ao sair de casa de manhã cedo tropeçou (literalmente)… numa raposa. O animal se escondeu logo no jardim de uma escola próxima. O fato pitoresco na verdade é sintoma de um problema grave. As raposas estão invadindo as cidades alemãs. O que isso significa? Isso significa que os campos próximos não estão mais lhes oferecendo condições adequadas de sobrevivência. E por outro lado, isso significa que nas cidades está havendo uma proliferação de ratos. Ratos e raposas conjugados transmitem pelas fezes doenças incuráveis para os seres humanos… Bom, além de uma preocupação sócio-ambiental, isto já é tema para o flautista de Hamelin.

Carta Maior
http://www.agenciacartamaior.com.br/

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Aquecimento global “engorda” as plantas

Mudanças climáticas podem, em tese, acelerar os processos ecológicos e gerar vegetais obesos e que vivem menos

Marcos Buckeridge

Um trabalho publicado em dezembro de 2006 na revista Nature Review Genetics por Bruce A.Edgar, do Fred Hutchinson Cancer Research Center, de Seattle, Estados Unidos (How flies get their size: genetics meet physiology), mostra uma foto de moscas que foram subalimentadas ao longo da vida. Elas são menores do que o padrão da espécie devido ao tamanho reduzido de suas células. Desde que a subalimentação não comprometa o seu estado nutricional, os insetos que comem pouco, tendem a viver mais tempo do que seus pares que se fartam de alimentos. Há bastante literatura científica sugerindo que ingerir menos calorias aumenta a longevidade de várias formas de vida, de vermes até o ser humano. No artigo, Edgar propõe que o tamanho reduzido das moscas não é conseqüência apenas da menor disponibilidade de alimentos. Elevações na temperatura da atmosfera, capazes de alterar a fisiologia dos insetos, também podem contribuir para encolher suas células e, com isso, diminuir seu tamanho. Se essa hipótese for verdadeira para o reino vegetal, poderíamos então inferir que as mudanças climáticas agora em curso – desencadeadas pela elevação dos níveis de gás carbônico atmosférico, que amplificam o efeito estufa – fariam com que as plantas ficassem menores e vivessem por mais tempo?

Sim e não, pois a situação é bem mais complexa. A temperatura não é o único fator que altera o crescimento dos organismos. Se um clima mais quente pode fazer com que as plantas cresçam menos, uma atmosfera com mais CO2 pode produzir justamente o efeito contrário: levá-las a se expandir e acumular mais reservas, ou seja, ficarem maiores ou mais “gordas”. Uma quantidade maior de carbono disponível nas plantas talvez tenha repercussões negativas sobre a sua longevidade e para as teias alimentares de seu ecossistema. No caso da longevidade, a morte prematura de certas espécies de árvores pode abrir clareiras com mais freqüência e acelerar a sucessão ecológica, processo que forma a floresta. Como se sabe, as plantas estão na base das teias alimentares e quaisquer alterações nelas tendem a se refletir nos demais níveis da cadeia. Assim, se o processo de sucessão for acelerado, e houver um aumento no armazenamento de carbono (amido, por exemplo), os animais que dependem desse amido terão maior disponibilidade de carbono e energia. Como conseqüência, a taxa de reprodução pode se elevar, aumentando a população do predador. Essa situação pode tanto atingir um equilíbrio, como alterar fortemente os padrões da biodiversidade.

Não se pode desconsiderar também a possibilidade de, no final das contas, o aumento de temperatura e a elevação nos níveis de gás carbônico se anularem e não ocorrerem grandes alterações de tamanho nos vegetais em razão das mudanças climáticas. Na realidade, é provável que, com o aumento de CO2 e de temperatura, tenhamos um período em que os efeitos sejam positivos, acelerando o metabolismo da planta até um ponto ótimo, depois do qual surgem efeitos compensadores ou até negativos. Nada disso é 100% certo, mas sabemos que a fotossíntese das plantas em todo o mundo está aumentando em razão do aumento na concentração de CO2 atmosférico desde a revolução industrial até hoje – e que essa alteração está fazendo os vegetais ficarem mais pesados. Portanto, se é para apostar numa das duas tendências, diria que as plantas têm chances maiores de engordar do que emagrecer por causa das mudanças climáticas. Pelo menos até cerca de 2050.

A maioria dos experimentos e observações científicas indica que uma atmosfera com mais CO2 – e, por tabela, com temperaturas mais elevadas – deverá provocar um aumento geral na biomassa das plantas. Provavelmente, as plantas não ficarão maiores em termos de tamanho, mas sim mais “gordas”, pois acumulariam mais amido e mais celulose num ambiente com fartas concentrações de gás carbônico. As pesquisas de minha equipe na USP e do Instituto de Botânica de São Paulo com algumas espécies vegetais, como o jatobá e a cana-de-açúcar, indicam que essas plantas produzem mais amido em ambientes ricos em CO2.

Aqui cabe uma explicação sobre o crescimento dos seres vivos. O tamanho máximo que cada organismo deve ter está documentado em seu genoma. Durante o desenvolvimento de um organismo, e de cada um de seus órgãos, há programas que determinam quando, onde e com qual intensidade cada um dos seus genes será expresso (ativado). Esse sistema faz com que cada uma das proteínas esteja no lugar certo e na hora certa para construir o organismo. O nível de precisão é incrível e a informação sobre que tamanho um organismo deve ter é fundamental para seu desenvolvimento. Durante a fase de reprodução, por exemplo, é decisivo que os órgãos sexuais de machos e fêmeas de uma espécie tenham tamanho e forma compatíveis. Isso pode determinar se uma espécie continuará a existir ou não. Sabe-se que há exceções e que organismos podem aumentar ou diminuir seu tamanho ao longo da evolução, mas isso geralmente ocorre de forma lenta e sincronizada com eventos de longo prazo.

A determinação do tamanho de um organismo parece estar diretamente relacionada ao fluxo de energia que por ele passa durante seu desenvolvimento, um parâmetro que tem repercussões sobre a sua longevidade (relembrando: os obesos tendem a viver menos). Durante seu desenvolvimento, cada órgão passa por três etapas de crescimento: primeiro, ocorre uma expansão lenta; depois, há uma aceleração do crescimento, que entra numa fase exponencial; e, por fim, a velocidade da expansão diminui drasticamente. A duração da fase de aumento exponencial do crescimento está relacionada ao fluxo de energia num organismo. Ou seja, quando a produção de açúcares e aminoácidos aumenta muito num ser vivo, uma via de sinalização avisa as células para pararem de se dividir e/ou de expandir. O organismo então entra num período que chamamos Intervalo de Cessação do Crescimento (ICC). Como conseqüência, quando o fluxo de energia em um organismo é muito maior do que o programa de sinalização do ICC pode suportar, a única saída é “crescer para os lados”: armazenar o excesso de carbono e nitrogênio em algum lugar, pois não dá mais para usá-los para crescer para cima. Nos seres humanos, esse é o momento em que engordamos, devido ao acúmulo de gorduras. Nas plantas, o armazenamento do excesso de energia ocorre na forma de amido e celulose.

Mas, afinal, como as mudanças climáticas podem alterar o crescimento e a longevidade dos vegetais e, por tabela, dos membros de suas teias alimentares? Plantas com mais amido, mais “gordas”, disponibilizam mais carboidratos para seus predadores, que, ao ingeri-las, obtêm um maior fluxo de energia em seus corpos do que antes costumavam obter. Dessa forma, é possível que, com as mudanças climáticas, as teias alimentares tenham entrado num regime de trabalho movido a um fluxo energético significativamente maior do que o encontrado antes da revolução industrial, quando o nível de CO2 era metade do atual. Se isso realmente fizer sentido, poderíamos especular que as crescentes atividades do homem, que parecem ser a causa principal das mudanças climáticas, poderiam acelerar os processos ecológicos e fazer com que cada vez mais energia e matéria sejam bombeadas para dentro dos ecossistemas. Dessa escalada energética resultariam, em tese, seres mais gordos e menos longevos. É verdade que uma diminuição geral da longevidade pode ser um problema menor, desde que as relações entre os diferentes organismos de uma comunidade se mantenham. No entanto, um problema sério poderá ocorrer se, em algum momento, essas relações começarem a ser quebradas e as comunidades perderem suas conexões em rede. Nesse caso, espécies que sejam exclusivas de determinadas comunidades, e que não tenham como se conectar a ecossistemas alternativos, poderão ser levadas à extinção. Ainda não sabemos se esse momento de ruptura total das teias alimentares pode realmente ocorrer – ou isso é apenas catastrofismo. Mas essa é certamente uma questão importante a ser pesquisada e discutida para que possamos conhecer melhor como as mudanças climáticas irão afetar os seres vivos em nosso planeta.

Revista da FAPESP
http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

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Controvérsia cresce

Olá, tudo bem?

A popularidade do Blog CONTROVÉRSIA vem superando as expectativas e o número de acessos mensais comprova isto. Fechamos o último mês com mais de 1.600 visitas/dia.

O ALEXA, site (em inglês) que mede a posição que a página da internet ou blog ocupa no mundo, confirma esta popularidade do Blog. Quando do seu lançamento (em julho de 2006) ocupávamos a posição 3.500.000 aproximadamente, porém, com o aumento das visitações nossa situação melhorou muito.

Em 02 de novembro ocupávamos o lugar 1.141.483 (as alterações de posição não são diárias).

Clique aqui e confira.

Mais uma vez obrigado pela audiência.

Grande abraço.

Ricardo Alvarez

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Amizade

Um dia a maioria de nós irá se separar. Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora, as descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos, dos tantos risos e momentos que compartilhamos…

Saudades até dos momentos de lágrima, da angústia, das vésperas de finais de semana, de finais de ano, enfim… do companheirismo vivido… Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre…

Hoje não tenho mais tanta certeza disso. Em breve cada um vai pra seu lado, seja pelo destino, ou por algum desentendimento, segue a sua vida, talvez continuemos a nos encontrar, quem sabe… nos e-mails trocados…

Podemos nos telefonar… conversar algumas bobagens. Aí os dias vão passar… meses… anos… até este contato tornar-se cada vez mais raro. Vamos nos perder no tempo…

Um dia nossos filhos verão aquelas fotografias e perguntarão: Quem são aquelas pessoas? Diremos que eram nossos amigos. E… isso vai doer tanto!!! Foram meus amigos, foi com eles que vivi os melhores anos de minha vida!

A saudade vai apertar bem dentro do peito. Vai dar uma vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente… Quando o nosso grupo estiver incompleto… nos reuniremos para um último adeus de um amigo. E entre lágrima nos abraçaremos…

Faremos promessas de nos encontrar mais vezes daquele dia em diante. Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a viver a sua vidinha isolada do passado… E nos perderemos no tempo…

Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não deixes que a vida passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de grandes tempestades…

Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores… mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!!!

Vinícius de Moraes

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Lucro do Bradesco é o maior do setor financeiro em 20 anos

SÃO PAULO - O Bradesco apresentou hoje lucro líquido de R$ 5,817 bilhões de janeiro a setembro deste ano, um crescimento de 73,6% no comparativo anual. Segundo levantamento da consultoria Economatica, este é o maior resultado já apresentado por um banco brasileiro de capital aberto nos últimos 20 anos.

Com esse resultado, o Bradesco supera o Banco do Brasil, que havia apresentado o maior lucro do período em 2006, quando teve ganho líquido de R$ 4,995 bilhões.

Já considerando todas as empresas brasileiras de capital aberto, o lucro do Bradesco nos nove primeiros meses de 2007 seria o 11o. do período analisado. A liderança no ranking está com Petrobras, que lucrou R$ 21,578 bilhões nos nove primeiros meses de 2006.

Este ranking de maior lucro em nove meses pode mudar amanhã, dependendo do tamanho dos resultados apresentados pelo Itaú.

A Economatica também analisou o valor de mercado dos bancos norte-americanos e brasileiros e verificou que, em 31 de outubro, o Bradesco ocupava a sexta posição, valendo US$ 66,94 bilhões, seguido pelo Itaú, com US$ 65,24 bilhões. O primeiro lugar era ocupado pelo Bank of America com US$ 214,23 bilhões.

Valor Online

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De Havana para Washingnton

NEWTON CARLOS

A idéia de algum diálogo entre Cuba e Estados Unidos parece embutida na cabeça de Raúl Castro, quem sabe com uns poucos novos fios de esperança. As propostas já somam três, uma agora e duas anteriores, talvez calçadas num precedente importante -a recente visita a Cuba de dez parlamentares americanos, tida como “rara incursão”. Juntaram-se nessa empreitada democratas e republicanos, e alguns decidiram romper o silêncio manifestando-se favoráveis a um “abrandamento” das sanções impostas a Cuba no começo dos anos 60.
A nova proposta de diálogo -feita anteontem em discurso do mandatário que ocupa interinamente o posto de Fidel Castro- tem um diferencial. Não foi feita ao governo George W. Bush, mas ao que sucedê-lo. Um especialista em relações interamericanas diz que os atuais ocupantes da Casa Branca e do Departamento de Estado “não entendem nada do que está se passando na América Latina, e a falta de entendimento produz desinteresse”.
A ausência de iniciativas é prova disso. A expectativa é a de que o futuro presidente americano, sobretudo se for democrata, comporte-se de modo “mais compreensivo, mais negociador”.
Andrés Oppenheimer, em sua coluna no “Miami Herald”, falou de possíveis impactos da Guerra do Iraque na política externa dos Estados Unidos, inclusive em relação a Cuba. Envolta numa tragédia, diante de uma “síndrome iraquiana”, a Casa Branca se tornaria mais humilde, disposta a conversar, um super-poder afinal convertido ao multilateralismo.
Poderia haver movimentos “gradativos” de distanciamento da velha política de pressionar Cuba com sanções para que haja uma mudança de regime. Um recuo a algo menos ambicioso como objetivo. Reforma do regime, por exemplo.
Numa reunião do Council on Foreign Relations, entidade de ponta no “establishment” diplomático americano, foram lembrados dois erros graves dos Estados Unidos no Iraque: a destruição do Exército iraquiano e do partido Baath, de Saddam Hussein, instituições-chave que mantinham a integridade do país invadido.

Conselho
O conselho implícito é de que os Estados Unidos não cometam “os mesmos erros” em Cuba, onde também só há duas instituições, o Exército e o Partido Comunista. Terão de lidar com eles em qualquer iniciativa futura. O Exército, por exemplo, estendeu sua influência muito além do campo militar.
Generais são ministros do Interior e do Açúcar e procurador-geral. Militares treinados no exterior em escolas de condução de negócios estão à frente de cerca de 300 empresas com o controle de 80% das exportações de mercadorias e de parcelas consideráveis dos ganhos em turismo e serviços.
Um general, vice-ministro da Defesa, dirige o Grupo de Administração Federal, “holding” do Exército. Controla lugares turísticos, como o Cubanacan, uma cadeia de casas de câmbio, a aviação civil, a Marinha mercante e empresas de pesca.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

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O mundo refém das finanças

Por que o estouro da bolha imobiliária dos EUA é uma ameaça à economia internacional. Quais as novas formas de especulação nos mercados financeiros, e de que modo elas podem propagar a crise. Como os grandes bancos e fundos de investimento transferem a conta de sua irresponsabilidade para os Estados e sociedades

Frédéric Lordon

Há dois séculos, Hegel deplorava a incapacidade crônica dos Estados de aprender com as experiências da história. Os governos não são os únicos poderes incapazes de aprender. O capital – notadamente o financeiro – também parece condenado à perseverança no erro, à aberração recorrente e ao eterno retorno da crise financeira. Apesar de envolver novos “produtos”, a atual crise dos mercados de crédito permite entrever, uma vez mais, os ingredientes quimicamente puros do desastre. Também oferece, a quem quiser enxergar, uma oportunidade a mais para refletir sobre as “vantagens” da liberalização dos mercados de capitais.

É que a crença financeira não se dissipa com facilidade. Logo ela, que se vangloria de ser a encarnação do princípio de realidade, que submete as empresas à “validação dos fatos”, segundo os critérios do “reporting” (prestação de contas trimestral) e do “track record” (histórico de desempenho), mantém-se ignorante do que a história recente — sua própria história — lhe entrega de bandeja. É que o “track record” da liberalização financeira não tem boa reputação. Desde que ela se impôs, tem sido difícil passar mais de três anos seguidos sem um incidente de envergadura. Quase todos poderiam figurar nos livros de história econômica: 1987, quebra dos mercados de ações; 1990, quebra dos “junk bonds” (“títulos podres”) e crise das “savings and loans” (instituições financeiras de poupança e empréstimos) norte-americanas; 1994, crise de debêntures norte-americanos; 1997, primeira fase da crise financeira internacional (Tailândia, Coréia, Hong Kong); 1998, segunda fase (Rússia, Brasil); 2001-2003, estouro da bolha da Internet.

E aqui estamos nós, em 2007. Leitura dos devotos: “A globalização é auspiciosa, mas dolorosa” [1]. No Le Monde, Pierre-Antoine Delhommais deleita-se com a resistência da besta diante de tantos choques de vulto — que parecem prestes a matá-la, apenas para vê-la reerguer-se caminhar com ânimo renovado. Omite-se quanto custou, aos assalariados, pagar a conta da embriaguez financeira em cada ocasião. Invariavelmente, o solavando dos mercados atinge os bancos, e portanto o crédito; em seguida, os investimentos, o crescimento e o emprego.

Seria necessário quem sabe, que o jornal fosse adquirido por um fundo de investimentos um pouco impiedoso para que, ao viver a experiência concreta do “downsizing” (“enxugamento”), o jornalista se visse mais impelido a calcular o número de empregos destruídos em função das práticas do mundo financeiro e de suas crises.

A crise dos mercados de crédito que castiga a economia norte-americana oferece uma visão quase ideal das relações fatais da especulação desenfreada. Como em uma parada, desfilam novamente as toxinas gerais do mundo financeiro, sempre as mesmas e numa ordem absolutamente idêntica: 1. as tendências “Ponzi” da especulação; 2. a lassidão das avaliações de riscos na fase de alta do ciclo financeiro; 3. a vulnerabilidade estrutural a uma pequena mudança de ambiente e o efeito catalizador de um enfraquecimento pontual do sistema, que precipita a reviravolta; 4. a revisão instantânea das estimativas; 5. o contágio de outros setores do mercado; 6. o choque dos bancos excessivamente expostos; 7. a ameaça de um acidente sistêmico, ou seja, de um colapso global, seguido de uma recessão generalizada por estrangulamento do crédito e um pedido de socorro aos bancos centrais feito por todos os fanáticos da livre iniciativa privada.

1. AS TENDÊNCIAS “PONZI” DOS MERCADOS
Como “pirâmides da felicidade”, as bolhas especulativas apóiam-se numa hipótese impossível: a de que novos investidores sempre entrarão na ciranda, para sustentar os ganhos dos que chegaram antes

Provavelmente, ninguém melhor do que Hyman Minsky evidenciou os encadeamentos da economia de mercado, resumidos por ele na eloqüente expressão “cegueira ao desastre” [2]. Minsky dedicou particular atenção aos distúrbios provocados por Charles Ponzi, especulador dos anos 20, que iludiou pessoas ingênuas, seduzidas por promessas de rendimentos extraordinários. Na falta de qualquer ativo real capaz de cobrir os rendimentos anunciados, Ponzi oferecia a seus primeiros clientes o capital aportado pelos que vinham depois. A sustentabilidade do conjunto supunha, portanto, a manutenção infinita do fluxo de novos clientes.

Próximas à fraude, todas as bolhas especulativas baseiam-se num mecanismo bastante semelhante. Elas requerem uma entrada constante de investimentos, para manter o mercado em alta e a ilusão de que, assim, todo mundo ganha. O segredo da bolha é a adesão especulativa. Investimentos de alta rentabilidade atraem aplicadores cada vez mais comuns — portanto, cada vez menos esclarecidos, porém mais numerosos.

Para que o crescimento do mercado imobiliário norte-americano se prolongasse, se possível ad aeternum, era necessário que grupos cada vez mais significativos de famílias fossem levados a procurar o mercado de empréstimos hipotecários. Com a ajuda do sonho norte-americano de ser proprietário, não foi difícil convencê-los no início. Escaldados pela queda das ações no estouro da bolha da internet, eles estavam à procura de outras formas de investimento. Mas o contingente de tomadores de empréstimo “saudáveis” esgotou-se rapidamente. Como o mercado precisava imperativamente ser sustentado, as instituições financeiras foram à procura de novos clientes. Os rios de dinheiro emprestados levaram os preços dos imóveis às alturas.

Mesmo que não seja possível manter o pagamento da dívida, famílias e emprestadores julgam que o imóvel poderá ser vendido com valorização para uns e comissão para outros. A crença no crescimento incessante do mercado leva a aprovar qualquer empréstimo. As torneiras do crédito são abertas por completo, e a alta especulativa parece dar razão a todos. Surge a categoria das hipotecas de segunda linha (subprime mortgages) — cujos beneficiários têm capacidade de pagamento mais que duvidosa. Como a euforia está no auge, todos os limites podem ser ultrapassados. Criam-se figuras como os empréstimos “Ninja”: “No Income, No Job or Asset”, ou seja concedidos a clientes, “sem renda, sem emprego ou sem ativo (a ser dado como garantia)” — e o champanhe de brinde, talvez.

2. LASSIDÃO NAS AVALIAÇÕES DE RISCOS
Fantástico milagre da securitização: em teoria, qualquer empréstimo pode ser fatiado em infinitos pedaços, para que os riscos de inadimplência sejam pulverizados até se tornarem irrisórios

Mas o mercado financeiro, que costuma se dizer especialista em controle de riscos tem alternativas. Ele não peca jamais por falta de criatividade. A grande mágica? Os “produtos derivados”. O problema de um crédito, ainda mais quando de risco, é que ele continua nos livros contábeis de quem o concedeu até sua liquidação — seja ela boa ou ruim. O grande achado, que remonta ao início dos anos 90, consiste em “fundir” um certo número de créditos para, com lastro neles, emitir títulos negociáveis. A grande vantagem dessa operação, adequadamente chamada de “securitização”, é o fato de que os títulos assim “fabricados” podem ser vendidos nos mercados em pequenos lotes a múltiplos investidores (institucionais). E eis que, então, os créditos duvidosos saem do balanço do banco. Compreende-se agora que ele os conceda com tanta facilidade: pode livrar-se deles assim que forem securitizados!

Por que os investidores querem comprar aquilo de que o banco quer se livrar? Para começar, porque adquirem os títulos em pequenas quantidades e, sobretudo, porque esses papéis são negociáveis, ou seja, podem ser novamente vendidos. Além disso, a linha de títulos derivada do grupo inicial de créditos é recortada em diferentes fatias de risco homogêneas. Conforme seu próprio perfil, cada investidor institucional garimpará na fatia que lhe convém, sabendo que sempre encontrará algo — especialmente os “hedge funds” [3]. Mesmo as fatias de alto risco são atraentes, por oferecerem maior retorno… enquanto tudo vai bem.

Evidentemente, a instituição que fez o empréstimo inicial transfere todos os direitos (juros e amortizações) e riscos (de inadimplência) aos portadores desses títulos, chamados de RMBS (“Residential Mortgage Backed Securities”, ou seja, títulos amparados em créditos imobiliários). Porém, esses portadores são tantos — e mudam tanto — que daí decorre uma extraordinária dispersão do risco global. Antes, o banco enfrentava sozinho a inadimplência relativa a um de seus empréstimos. Agora não somente está totalmente desembaraçado como também as conseqüências do não-pagamento estão pulverizadas entre uma miríade de investidores. Cada um assume uma parte mínima do risco, diluída no conjunto de sua própria carteira.

Riscos diluídos… ou subestimados?
Mas então, por que o alarme se, com o milagre da securitização, o mercado financeiro resolveu a quadratura do círculo? Ocorre que as piores fatias de uma dívida recebem um tratamento especial, para serem mais facilmente escoadas. Alguns investidores re-fatiarão os próprios RMBS que adquiriram. Emitirão um novo tipo de títulos negociáveis, os CDO (Collateralised Debt Obligations). Títulos derivados de títulos, os CDOs podem ser de três tipos, correspondentes ao risco de inadimplência da fatia da dívida a que se referem. A fatia superior, chamada de “investment grade”, torna seus portadores imunes aos primeiros 20% ou 30% de inadimplência sobre os créditos imobiliários iniciais. Segue-se uma fatia intermediária, chamada de “mezzanino”, e finalmente uma mais baixa, que sofrerá o choque das primeiras insolvências.

Dá-se o nome pudico de “equity” a essa fatia, mas a linguagem dos mercados diz as coisas mais na lata: “toxic waste”, ou seja, “resíduos tóxicos”. Esses produtos elevam o risco ao quadrado, pois representam a fatia de maior risco dos CDOs, derivada da fatia mais arriscada dos RMBSs, retirados da carteira inicial de créditos. Mas, enquanto o mercado imobiliário seguir em alta e as famílias continuarem pagando as dívidas, sempre haverá quem compre os papéis. Como a toxicidade ainda não está materializada, o que aparece são as remunerações espetaculares.

Um dos segredos do desempenho dos “hedge funds” é levantar fundos a taxas mais baixas e investir em títulos de alto risco, que remuneram proporcionalmente — ou seja, muito. As margens são enormes, os “resíduos tóxicos” são vistos como minas de ouro e os golden boys fazem a festa. Os lucros faraônicos mascaram os riscos objetivos, que ninguém quer enxergar para que a ciranda gire o maior tempo possível.

3. DA VULNERABILIDADE ESTRUTURAL À INSOLVÊNCIA
A construção cresce como um enorme castelo de cartas. Em certo ponto, qualquer pequeno incidente é capaz de ameaçar todo o edifício

A dispersão dos riscos por meio das operações de securitização em cadeia acabou levando a crer que eles não mais existiam. É uma ilusão. Ainda mais porque essa doce embriaguez logicamente induziu a comportamentos cada vez mais aventureiros. Já que estou me desfazendo dos meus créditos, mesmo dos piores, diz a si mesmo o financiador imobiliário, então o negócio é ir cada vez mais fundo nos empréstimos. E já que o mercado está com liquidez, diz a si mesmo, na outra ponta, o “hedge fund”, por que não comprar os CDO mais podres, que são os mais lucrativos? Os riscos certamente foram diluídos, mas a própria diluição engendrou um crescimento totalmente descontrolado de seu volume global e a situação caminha suavemente para as zonas críticas.

A fragilidade estrutural do edifício agora é tal que ele se torna vulnerável a modificações do ambiente a priori insignificantes. A elevação de 0,25% na taxa de juros pelo banco central dos EUA (o Federal Reserve, FED) aparentemente não é nada. Exceto pelo fato de que, na outra ponta da curva de riscos, o crédito imobiliário de Mrs. Brimmage passou dos 6,3%, em 2005, para 11,25%, e suas parcelas mensais subiram de 414 para 691 dólares [4]. Razão mais que suficiente para ela deixar de pagar. Como ela, 14% dos tomadores de empréstimo subprime entraram em inadimplência no primeiro trimestre de 2007.

Falando em termos modestos, as altas da taxa de juros do FED têm um duplo efeito de corte. De um lado, há menos gente entrando no mercado imobiliário e os preços começam a baixar. De outro, aqueles que estão nele vêem as parcelas de suas dívidas se tornarem insuportáveis. A própria possibilidade de “sair” do sistema fica comprometida. A eventual venda da propriedade, para tentar saldar a dívida, se fará por um preço inferior ao previsto. E a multiplicação das vendas acentua a pressão de baixa generalizada dos preços dos imóveis.

Como sempre ocorre nas crises financeiras, uma instituição financeira tem uma grande perda e o abalo provocado por seu colapso dá o sinal da grande virada. Nesse caso, duas falências — nas duas pontas da corrente — vieram colocar um ponto final na embriaguez dos mercados. Primeiro, foi o banco de investimentos Bear Stearns, que teve de fechar dois de seus fundos “dinâmicos”, ou muito lucrativos. Mas também o American Home Mortgage (AHM), agente imobiliário, teve de se colocar claramente sob a proteção do capítulo 11 da lei de falências norte-americana [5]. Esse fato é mais inquietante que o anterior. O AHM não está especialmente comprometido no compartimento dos empréstimos “subprime”. Será sinal de que as inadimplências estão se generalizando? Haverá outras instituições em dificuldades?

4. A REVISÃO IMEDIATA DAS AVALIAÇÕES DE RISCOS
A crise está provavelmente no começo. A queda do preço dos imóveis provocará uma onda de inadimplência que pode atingir os poderosos “hedge funds”

Desta vez, houve uma leve brisa de pânico. Os “toxic wastes” já cheiram bem mal e as pessoas começam a dizer que os CDOs antes tidos como mais seguros talvez estejam bastante contaminados. Mas como se pôde chegar a erros de avaliação tão monumentais? Com certeza, a complexidade objetiva da avaliação dos produtos derivados não tem nada a ver com isso. Com certeza, as agências de avaliação de risco (rating) avaliam essas fatias de CDO e RMBS às centenas. Entretanto, elas são, num certo sentido, impotentes. Seu próprio faturamento provém das instituições financeiras, que emitiram incessantemente títulos a serem avaliados — 40% do rendimento de 2006 da Moody’s foi conseguido com avaliações de produtos estruturados. Para que haja novos produtos a analisar, sem dúvida é preferível que os antigos sejam declarados saudáveis.

As agências de rating nunca souberam ser independentes dos entusiasmos do mercado que deveriam moderar. Na maior parte do tempo, lhe serviram de coro. Quem está próximo ao meio financeiro e vive às suas custas, tem dificuldade se mostrar independente, num momento em que todo mundo está enchendo os bolsos. Catastroficamente pró-cíclicas quando deveriam ser contra-cíclicas, as agências mantêm-se alheias durante a alta. Quando a reviravolta acontece, lançam-se, apavoradas, a fazer à revisão das avaliações anteriores, contribuindo para transformar o sobressalto em colapso.

E a crise provavelmente está apenas no começo. As falências imobiliárias que estão por vir caminham lado a lado com as teasing rates, as taxas muito atraentes que os corretores usam para seduzir os clientes. Nos últimos anos, uma das modalidades mais praticadas ficou conhecida como “2 + 28”. Nos dois primeiros anos, uma taxa de juros simpática. Nos 28 seguintes, a taxa plena, que causa problemas. Portanto, ainda não irrompeu a inadimplência relativa às vendas em 2006, e quase nada da de 2005 — as mais fortes da bolha imobiliária. Sem dúvida serão notáveis. Trarão grandes prejuízos aos “hedge funds”, empanturrados de seus produtos derivados.

E com a globalização das finanças e a estupidez financeira, nada disso se detém nas fronteiras norte-americanas. É nos EUA que o mercado hipotecário delira, mas a securitização daí derivada se oferece a todos os fundos especulativos do planeta. Os alemães, durante muito tempo considerados mornos e tediosos, agarrados a seus melancólicos bancos de varejo, decidiram, na virada do século, tornar-se “modernos” e se voltar mais decididamente para as atividades de mercado. Resultado: depois do grande susto de 1998 (risco russo) e das surras da bolha de internet (2001), eis que um banco, o IKB, encontra-se à beira da falência por causa da superexposição aos papéis subprime…

5. SUSPEITAS POR CONTÁGIO
Num dominó típico das crises financeiras, a descoberta de riscos num setor da economia desperta dúvidas sobre outros. Ninguém confia na solidez de atividades contaminadas pela especulação

Agora, tudo se encadeia de um canto a outro do globo e dos mercados. O frágil equilíbrio dos produtos derivados resistia enquanto ninguém o provocava — ou seja, enquanto todos fingiam acreditar que o mercado tinha liquidez. Mas assim que um dos atores sofre perdas exageradas e considera a hipótese de sair do sistema, vendendo seus CDO, o medo latente se cristaliza e todos os compradores desaparecem. Com a liquidez evaporada, os papéis, formalmente negociáveis, praticamente deixam de sê-lo. Torna-se quase impossível avaliá-los, já que seu preço pode virtualmente cair a zero.

Engraçado — até a hora em que se começa a chorar —, o comunicado do BNP-Paribas, que, em 9 de agosto, fechou três de seus fundos (também eles “dinâmicos”): “O desaparecimento em certos segmentos do mercado da securitização nos Estados Unidos conduz a uma ausência de preço de referência e a uma falta de liquidez quase total dos ativos dos fundos, não importa qual seja a sua qualidade ou classificação” [6]. Tudo isso não havia impedido que Baudoin Prot, controlador do banco, afirmasse categoricamente, uma semana antes, que a liquidez dos três fundos estava assegurada. Significa, sobretudo, que a inquietação ultrapassa amplamente o perímetro dos produtos de maior risco e contamina as fatias consideradas mais seguras.

Nesse seara tão fértil, o contágio não vai parar. Além de atingir todas as classes de risco dos RMBS e seus derivados, ele também se estende a outras partes do mercado que nada têm a ver com crédito imobiliário — exceto o fato de terem também caído na orgia dos créditos indiscriminados. É exatamente o caso do setor de private equity, esses fundos de investimento, vedetes das finanças nos últimos anos, que recompram integralmente empresas tidas como promissoras, fazem-nas sair da bolsa, reestruturam-nas no tranco para revendê-las, dois a quatro anos mais tarde, com forte valorização.

Tais fundos comprometem muito pouco dos seus capitais próprios. Mergulham fundo em dívidas, cujo serviço, aliás, transferem à empresa recomprada. A rentabilidade que resulta é excepcional. Atingiu tais níveis que os bancos literalmente se precipitaram para financiar tais operações. Num estado de quase mistificação, e persuadidos de que se ganha de todos os lados, concederam a esses fundos condições de empréstimo surpreendentes. É o caso dos chamados empréstimos covenant-lite, ou seja, livres de todas as cláusulas relativas a coeficientes financeiros elementares a que são normalmente submetidos os tomadores de empréstimo — “aconteça o que acontecer, nós estamos do seu lado”.

Melhor ainda são os chamados empréstimos PIK (Payment In Kind – pagamento em espécie) ou ainda IOU (I Owe You), cujos juros e principal são reembolsados não em dinheiro, mas em adicional de dívida acrescentado à dívida inicial. Os encargos de crédito orientados para os fundos de private equity atingiram volumes astronômicos. Ora, as operações desse tipo são particularmente vulneráveis no momento de desatá-las, já que se trata de revender ativos notoriamente sem liquidez: não blocos de ações, mas empresas inteiras. Ao primeiro acidente que ocorra em meio a essa operação — revenda impossível, adiada ou com desvalorização — será a vez de todo o setor viver seu momento dramático.

As recentes operações para captação de recursos financeiros acontecem de forma bastante trabalhosa, se comparadas com a facilidade exuberante dos meses anteriores. É que os bancos, antes cúmplices lassivos, tornam-se subitamente reticentes. Por um efeito de amálgama, típico das crises financeiras, a súbita revelação dos riscos em um setor suscita questionamentos paralelos em outros, onde a euforia quase produziu o mesmo estrago. Em 1994, os insucessos do México induziram a dúvida em relação à Tailândia, por um puro efeito de amálgama, com base na categoria “mercados emergentes”. Da mesma forma, hoje, o mercado imobiliário produz efeitos sobre a private equity.

6. CHOQUE NOS BANCOS
Expulso pela porta, o risco implícito nos empréstimos retornou pela janela. Para reequilibrar as contas, será preciso fechar as torneiras do crédito, atingindo trabalhadores e empresas não-financeirizadas

Ainda que tenham conseguido se desfazer de suas carteiras de créditos imobiliários por meio da securitização, os bancos suportam o giro da manivela, por múltiplas vias. Para começar, deixaram seus fundos de gestão se encarregar dos produtos derivados, e o risco hipotecário expulso pela porta voltou pela janela. Mas é, também, o contágio lateral que os ameaça, marcadamente por meio da private equity, onde estão diretamente expostos.

Ora, a regulação prudente do setor bancário não brinca: os bancos são forçados a manter cuidadosos coeficientes de solvência entre seus capitais próprios e compromissos. Se houver desvalorizações de patrimônio — e elas se anunciam com muito mais força, levando as agências de rating a despertar e rever todas as avaliações para baixo —, os bancos devem contabilizar as provisões correspondentes. Para manter seus coeficientes, terão de reduzir o denominador (os créditos concedidos) proporcionalmente à contração do numerador (os capitais próprios onerados pelas provisões).

Em conseqüência, e como sempre, serão os agentes da economia real — assalariados e empresas não-financeirizadas, distantes de todas as piruetas da especulação — que encontrarão as torneiras de crédito fechadas, sem nem mesmo compreender o que fizeram para merecer isso. Porque, para recompor os balanços dos bancos, a contração do crédito será geral, e todos os tomadores de empréstimos serão atingidos.

7. O PEDIDO DE SOCORRO AOS BANCOS CENTRAIS
Quando a crise bate à porta, as finanças engolem o discurso privatista e aconchegam-se nas tetas do Estado. O prejuízo imposto às sociedades é idêntico ao resgate que se cobra de um seqüestrado

Bela figura fazem agora os heróis do mundo das finanças. Modernos e arrogantes quando os mercados estavam em alta, ei-los pendurados nas tetas do Estado, que tanto desprezam, quando a fortuna os estimula ao discuro ideológico privatista. Os bancos centrais, chamados a livrá-los da ruína cortando as taxas de juros para restaurar a liquidez geral, não são o próprio Estado — mas integram o setor público, o fora-do-mercado, detestado quando os lucros correm soltos, requisitado quando fecha o tempo.

Jim Cramer, que tem um programa de aconselhamento financeiro na rede norte-americana de negócios CNBC, teve um ataque de nervos em 3 de agosto. Aos berros e vestindo camisa de mangas curtas, com um fundo musical de hard rock saturado, de buzzers e bulls [7] sobrepostos, insultou [8] Ben Bernanke, presidente do FED, aos gritos de “cut! cut!” — “corta! corta!” (as taxas de juros). E como Bernanke parece dispor de tempo, Cramer premia-o com o insulto supremo: ele não entende nada, não passa de um “intelectual” (acadêmico) [9].

Bem vestidos e não tão vulgares, os outros gestores de fundos consultados no mesmo canal estão totalmente de acordo. Ah, que saudade de Alan Greenspan, que “cortava” as taxas de juros sem reclamar. Um verdadeiro clínico, não se deixava atrapalhar por estudos inúteis. Bastava-lhe simplesmente tatear o lombo da besta, para saber que era preciso afrouxar o nó.

Os menos idiotas começam, porém, a dizer que essa longa tolerância monetária com os excessos das finanças tem algo a ver com o surgimento e multiplicação dos riscos que irromperam agora. Bernanke tendeu, de início, a deixar os operadores mais imprudentes suportarem as conseqüências de sua inconseqüência. Mas não devemos nos enganar. Essa posição do banqueiro central só pode ser mantida se os problemas continuarem localizados. Quando eles se concentram e precipitam um “risco sistêmico” — ou seja, uma quebra generalizada, por efeito-dominó —, não há outra escolha a não ser intervir, e maciçamente.

Aliás, é esse o aspecto mais insuportável dos danos causados pelo mundo das finanças. Sempre encorajado a ir longe demais, ele avança muito além do limite a partir do qual o Estado é obrigado a entrar de cabeça — e a atingir a sociedade — para lhe salvar o pescoço. Nada mais parecido com um seqüestro de reféns.

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[1] Delhommais, Pierre-Antoine, Le Monde, 9 ago. 2007.

[2] Minsky, Hyman P. Stabilizing an Unstable Economy. Yale University Press, 1986.

[3] Fundos de investimentos aplicados em diversos mercados visando diminuir riscos e reduzir eventuais prejuízos ao mesmo tempo (Nota da Edição brasileira

[4] Mortgage Maze May Increase Forclosures, The New York Times, 6 ago. 2007.

[5] Entre outros aspectos, este capítulo libera o empregador de suas obrigações trabalhistas e permite renegociar os acordos salariais.

[6] Comunicado do BNP-Paribas, 9/8/2007

[7] O touro – bull – é o animal que representa a alta da Bolsa.

[8] CNBC, 3 ago. 2007. Veja no YouTube

[9] Ben Bernanke tem um longo passado de economista
acadêmico.

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

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Canal do Panamá

Viajar do Atlântico ao Pacífico e ao mesmo tempo revolucionar o transporte marítimo: este foi o gigantesco empreendimento de Ferdinand de Lesseps em 1876, com seu plano de construção do Canal do Panamá.

O Panamá, famoso pelo seu canal, virou manchete quando foi governado pelo general Manuel Noriega, acusado pelos Estados Unidos de tráfico de drogas.

Em dezembro de 89, os Estados Unidos invadem o país e prendem Noriega. O tráfego do canal se normaliza. O Panamá - um país minúsculo com dois milhões de habitantes, uma próspera zona livre e um paraíso fiscal - volta à democracia.

O comércio internacional do mundo inteiro passa pelo canal. Todo dia, quarenta navios cruzam o eixo das Américas, inclusive três embarcações remanescentes do último século.

Antes da construção do canal, navegar de uma costa a outra dos Estados Unidos significava dar a volta por toda a América do Sul, uma viagem que durava semanas.

Hoje, a passagem do Atlântico para o Pacífico leva apenas dez horas.

Depois de construído o Canal de Suez, ligando o Mar Vermelho ao Mediterrâneo, o engenheiro francês Ferdinand de Lesseps empreendeu esse outro projeto faraônico, nessa região difícil e isolada. Primeiro foi preciso cortar a densa mata virgem.

Vinte e cinco mil operários morreram no primeiro terço da construção do canal. Depois de oito anos de trabalho, os franceses desistiram do desafio e ofereceram os direitos de construção aos americanos.

Mas a Colômbia, co-proprietária, não aceitou essa transferência. Em 1903, tropas e navios de guerra americanos forçaram a Colômbia a abrir mão de seus direitos e os Estados Unidos recomeçaram a construção, dessa vez com muito dinheiro e melhores recursos. O canal foi terminado em dez anos. Esse projeto ambicioso equivalia, na época, à conquista espacial do nosso tempo.

Os franceses pretendiam construir um canal escalonado como o de Suez, mas os americanos preferiram o sistema mais simples de eclusa. Os navios são rebocados através das eclusas por trenzinhos chamados “mulas”.

O Panamá vai se tornar o único dono do canal no ano 2000, segundo um acordo assinado em 1977 em Washington, entre o presidente Carter e o antecessor do general Noriega, Omar Torrijos.

Cerca de 25% da riqueza do Panamá provém do Canal. O país é considerado um paraíso fiscal e um centro bancário internacional. Cerca de cem bancos estrangeiros localizam-se lá. Basta a abertura de uma companhia panamenha para que se obtenha a isenção de impostos.

Outra fonte de renda do Panamá é a zona livre, em Colón, na Costa Atlântica. Ali, tudo é comprado com isenção de taxas e impostos, como em Hong Kong. Grandes fortunas são construídas nesse país.

Há uma base militar permanente no Panamá, com doze mil soldados americanos que protegem os interesses desse eixo de comunicação Atlântico-Pacífico, o verdadeiro centro das três Américas.

Alô Escola TV Cultura
http://www.tvcultura.com.br/aloescola/index.asp

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