Arquivo de 6 de Novembro de 2007

Fibra óptica

A tecnologia de hoje nos dá acesso às redes de videocomunicação e nos permite ver a pessoa com quem falamos ao telefone. Isso é possível por meio de fibras ópticas.

No telefone, a voz é ouvida a distância por meio de milhares de quilômetros de fios de cobre, obtendo-se um máximo de informações em um mínimo de tempo.

Nos anos 70, aperfeiçoou-se um novo sistema de sinais de transmissão: a óptica.

Até então, os sinais eram transmitidos eletricamente por fios de cobre. O novo sistema mantém a energia e as matérias-primas, mas um número maior de informações é transmitido em uma linha única. A base desse fantástico avanço tecnológico é um vidro muito mais transparente do que o vidro comum, feito de quartzo derretido e purificado.

Por ser altamente transparente, o vidro de fibra óptica transmite os raios de luz a grandes distâncias com absoluta nitidez. No início dos anos 80, conseguiu-se uma fibra óptica tão transparente, que se a água tivesse essa transparência daria para ver o fundo de um oceano.

O vidro é estirado até formar um fio longo e fino, como um fio de cabelo de menos de um décimo de milímetro de diâmetro. A fibra é sólida, leve e flexível, deixando a luz passar quase perfeitamente. O som e as imagens visuais são codificados para os raios de luz e captados por um receptor que emite uma corrente elétrica ao detectar o raio de luz. Essas informações são decodificadas e reproduzidas em uma tela ou amplificador sonoro. E assim se estabelece a comunicação. A mensagem foi transmitida por uma fibra óptica.

Hoje, até os cabos de cobre mais sofisticados estão sendo substituídos por minúsculas fibras de vidro.

No início dos anos 80, todos os países industrializados fizeram experiências em pequena escala com redes de telecomunicação óptica. Muitos engenheiros acreditam que as redes de videocomunicação poderão substituir as tradicionais redes telefônicas.

Juntamente com os satélites, já em uso comum, a fibra óptica irá contribuir para o desenvolvimento das comunicações do mundo inteiro. Com a ajuda do microchip eletrônico, as mensagens serão transmitidas com mais facilidade, rapidez e eficiência, tudo em miniatura.

Com a fibra óptica, as informações serão transmitidas pela luz.

Alô Escola TV Cultura
http://www.tvcultura.com.br/aloescola/index.asp

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Efeito Camaleão

Lesões no lobo frontal podem desencadear a síndrome de Zelig, distúrbio raro, em que pacientes assumem novas identidades em resposta a estímulos ambientais

Daniela Ovadia

Até os 65 anos o professor de literatura João D. era um líder político na pequena cidade onde morava. Apaixonado por teatro, atuou desde a adolescência em montagens de grupos amadores. Após sofrer uma lesão cerebral causada pela falta de oxigênio no cérebro durante um infarto, porém, sua vida se transformou. Semanas após receber alta do hospital, sua mulher, Lúcia, levou-o de volta à instituição, queixando-se de seu comportamento irritadiço e repetitivo. Ela estava assustada: João agora perdia facilmente o controle e, em algumas situações, parecia ser outra pessoa. Quando entrou no consultório, o professor mostrou-se cordial e colaborou com o neurologista que o examinava. Em dado momento, declarou: “Eu também sou médico”.

Por trás do paciente, Lúcia abanava a cabeça, fazendo sinal negativo para o neurologista. A entrevista e os exames clínicos foram suficientes para mostrar graves distúrbios de memória autobiográfica (que compreende episódios importantes da própria história de vida), ocorrência de confabulações (discursos fantasiosos e incoerentes) e desconhecimento da própria doença. João D. sofria também de amnésia anterógrada, disfunção que impede a fixação de novos eventos. Na prática, ele vive a contínua renovação do presente, desvinculada do passado – e esquece o que acabou de acontecer. Preocupada, Lúcia contou ao médico que o marido afirma ser colega de profissão de cada pessoa com quem se encontra. “Há poucos dias ele convenceu um advogado de ter feito curso de direito e de trabalhar até recentemente num escritório jurídico.”

A amnésia anterógrada é uma forma singular de perda de memória: não danifica recordações precedentes ao aparecimento da doença, mas impede a fixação mnemônica de qualquer evento posterior. Os pacientes vivem o eterno presente e ignoram inclusive o fato de estarem doentes. Casos de amnésia anterógrada pura são muito raros; sua ocorrência está freqüentemente associada à amnésia retrógrada. A manifestação simultânea decorre de lesões em áreas fundamentais da memória: hipocampo e corpos mamilares, duas pequenas protuberâncias na base do cérebro e fundamentais na consolidação das recordações.

Esses distúrbios mnêmicos não interferem na memória semântica, a das recordações de fatos e situações gerais, nem na memória episódica, que reúne lembranças não ligadas a vida pessoal. Registros atuais de amnésia anterógrada sinalizam que pode ser provocada por ansiolíticos benzodiazepínicos ou drogas usadas como pré-anestésicos. O neurologista americano Oliver Sacks tornou a patologia conhecida com a descrição de dois casos em seu livro O homem que confundiu sua mulher com um chapéu (Companhia das Letras, 1997). No primeiro relato, um marinheiro, ex-combatente da Segunda Guerra Mundial, tem sua capacidade de recordação limitada a sete segundos. É como se tudo o que aconteceu depois de 1945 nunca tivesse existido. Como não registra as experiências posteriores a essa data, sente-se eternamente jovem. Na segunda história um dependente de álcool com significativa destruição dos corpos mamilares não se lembra de nada que lhe aconteceu após a manifestação da doença e, como João D., assume variadas personalidades: ao vestir uma camisa branca garante que é médico ou dentista, mas também pode se tornar açougueiro ou barbeiro. O personagem incorpora o papel e se identifica com pessoas, situações e objetos que o circundam.

CENA DIAGNÓSTICA

O médico suspeitou de uma doença neurológica rara, provocada pela perda de uma das funções do lóbulo frontal, área do cérebro que controla o comportamento e exerce censura sobre ações inoportunas. O distúrbio leva o paciente a imitar seu interlocutor e é sempre acompanhado do chamado comportamento de utilitarismo: basta o ambiente oferecer estímulos (como a presença de uma pessoa ou objeto) para que o paciente adapte sua própria personalidade à situação. Se ele encontrar numa sala uma bancada de sapateiro, por exemplo, aproveitará a situação e dirá que trabalha com conserto de sapatos.

Para comprovar a hipótese do distúrbio em decorrência da lesão no lóbulo frontal, a equipe médica decidiu submeter João a um teste pouco convencional cujo objetivo era compreender a imitação e determinar por quanto tempo esse comportamento permaneceria. O quadro clínico inusitado exigiu criatividade dos profissionais, que decidiram, com a autorização de Lúcia, “encenar” uma situação que lhes permitisse entender as reações do paciente.

Numa tarde, João e Lúcia encontravam-se na lanchonete do hospital, quando médicos da equipe iniciaram um diálogo a poucos metros do casal. Um deles declarou em voz alta: “Seria interessante agora tomar um belo drink”. Imediatamente, João colocou-se atrás do balcão e começou a manipular garrafas e copos: “Sou barman, estou aqui por um período de estágio durante duas semanas e espero ser admitido em caráter definitivo”, disse aos médicos.

O comportamento surpreende pela intensidade da identificação: na seqüência, João passa a explicar como o bar deve ser organizado e quais providências pretende tomar para atrair mais clientes. Ele mantém o seu papel por 15 minutos, até que os personagens que o impeliram à “interpretação” saiam de cena.

Em outra situação, João se sentiu no dever de contar que é um chef especializado no preparo de massas para pacientes em recuperação. Quando questionado sobre a alimentação adequada a pessoas com diabetes, ofereceu um ponto de vista genérico: “Devem evitar doces e comer coisas leves”. Durante a conversa os médicos o convidaram a utilizar alguns utensílios de cozinha à sua disposição, coisa que ele não fez, ainda que continuasse afirmando que era, de fato, cozinheiro.

Evidentemente, a identificação do paciente com o contexto se deve às relações tecidas com outras pessoas presentes e não somente aos objetos que o circundam. Essa constatação é confirmada num terceiro experimento: o paciente é levado à lavanderia do hospital e convidado a se ocupar dos panos sujos. Desta vez, porém, a reação não é de identificação: aceita com má vontade aquilo que lhe pedem para fazer e manifesta um grande desejo de terminar logo a tarefa, parecendo ansiar pela hora de ir embora.

Os médicos notam que em todas as situações João escolhe papéis de liderança, nos quais possa transmitir conhecimentos, em plena sintonia com o que aconteceu em sua vida. Durante os exames neurológicos, ele repete invariavelmente que é médico, e numa dessas ocasiões consegue manter seu papel por mais de 40 minutos. “Sou cardiologista, tenho inúmeros pacientes porque não faço questão de cobrar honorários exorbitantes como muitos de meus colegas; às vezes atendo pessoas até mesmo sem cobrar”, contou.

MIMETISMO E INSEGURANÇA

A síndrome da dependência ambiental foi também chamada síndrome de Zelig, por causa de Leonard Zelig, um provável portador do distúrbio que viveu nos Estados Unidos nos anos 20. O personagem se tornou famoso em 1983 com o filme homônimo dirigido e interpretado por Woody Allen. Usando efeitos especiais o diretor alternou seqüências em preto-e-branco para reproduzir imagens de época e conseguiu transformar em arte o drama de um homem “sem personalidade”. A dependência dos outros o induz não somente à identificação psicológica, mas também física. Zelig, chamado de “camaleão urbano”, tornou-se famoso. Na trama, a psiquiatra Eudora Fletcher, interpretada por Mia Farrow, procura restituir a identidade do personagem, o que de fato ocorre numa sessão de hipnose. O mimetismo psicológico encobre, na verdade, uma enorme insegurança e a busca desesperada por aprovação. Na tentativa de proteger-se contra um mundo a seu ver demasiadamente hostil, Zelig descobre que o melhor modo de agradar a qualquer pessoa é assemelhar-se a ela. E para isso se anula.

Ajudar João, infelizmente, é impossível: uma tomografia por emissão de pósitrons (PET) confirmou lesão irreversível no lobo frontal. Além do mais, a síndrome da identificação é agravada por amnésia anterógrada, que o impede de recordar as inúmeras personalidades que assume a cada momento. Os neurologistas reconhecem, porém, que não importa qual o comportamento assumido, algumas de suas características de personalidade permanecem preservadas. Como médico, barman ou chef ele mantém o entusiasmo, o desejo de ensinar e liderar, está sempre pronto para colocar as mãos em um novo projeto. No fundo, João faz agora aquilo que sempre desejou em sua longa carreira de ator amador: interpretar mil papéis importantes sobre o palco da vida.

Para conhecer mais:
Zelig (1983). Roteiro e direção de Woody Alen. Com Woody Allen, Mia Farrow e John Buckwalter. 79 min. Disponível em DVD.

ESPELHO DAS EMOÇÕES

O comportamento de identificação imposta pelo ambiente foi descrito pela primeira vez em 1986 pelo neurologista francês François Lhermitte. O indivíduo afetado por essa patologia adapta sua personalidade ao espaço onde se encontra e assume características da pessoa com quem conversa. O estímulo pode ser concreto (móveis, objetos etc.) ou partir de sinais apresentados pelo interlocutor. Na base deste distúrbio encontra-se uma lesão muito grave dos lóbulos frontais, em particular da área que governa o comportamento social do indivíduo e mantém a relação entre personalidade e ambiente, de modo que seja sempre coerente. Na prática, trata-se de um sistema que, dentro do cérebro, cria a identidade individual.

Evidências científicas indicam que esse comportamento pode ser atribuído a distúrbios em circuitos que governam a capacidade de empatia e a possibilidade de “sintonizar-se” com emoções do outro. Nesse processo encontramos os neurônios-espelho: na falta de freios inibidores provenientes dos lóbulos frontais, porém, o mecanismo especular tem a vantagem de provocar a perda da identidade pessoal em favor de uma contínua adequação à personalidade alheia.

Revista Mente e Cérebro
http://www2.uol.com.br/vivermente/

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Bermelho impede rediscução de sua exoneração

Liora Mindrisz (liora@abcdmaior.com.br)

Reunião do Conselho Diretor impede punições de alunos e professores

Mantido no cargo na reunião do Conselho Diretor da Fundação Santo André, o
reitor Odaior Bermelho, tentou dar algumas compensações aos alunos e
professores em reunião realizda nesta segunda-feira (05/111), mas impediu
que a rediscussão sobre permanência no comando da universidade fosse
questionada. Na reunião, o conselho aprovou que os processos contra
estudantes e professores movidos por ele mesmo fosse revogados.

O processo de reintegração de posse contra 50 pessoas, 29 professores e 21
alunos foi aprovado na reunião, que contou com a presenção de
representantes do Conselho Diretor e de professores.

Comissão - Na reunião foi proposta a formação de uma comissão com quatro
representantes dos alunos e professores e quatro representantes da
reitoria, que irão discutir as propostas feitas pelo reitor. A prefeitura
será o órgão responsável pela conciliação das duas partes da comissão. Se
ainda assim os problemas persistirem, o acordo volta para as mãos do
Conselho Diretor, que será a instância máxima de resolução dos problemas,
e da qual o reitor é presidente. A comissão tem 48 horas para ser formada.

A principal questão do encontro, no entanto, não foi votada porque o
reitor impediu a deliberação: a reavaliação da exoneração de bermelho,
tendo em vista que o representante da Câmara, Orivaldo Oliveira Lopes,
declarou ter seu voto prejudicado na quinta-feira (01/11), quando faltaram
dois votos para Bermelho deixar o cargo.

Enrolação - Mesmo com o documento pedindo a reavaliação do voto do
representante da Câmara de Santo André, não foi reavaliada a proposta de
afastamento do reitor. “Diversas vezes as propostas não eram votadas,
inclusive dos próprios conselheiros como o Bressiani e o Acylino. O reitor
enrolava e não fazia o encaminhamento”, reclamou a professora Lúcia
Rodrigues, que participou da reunião.

Para Lúcia, apesar do bloqueio do reitor, algumas questões foram decididas
favoravelmente aos professores e alunos. “Nós conseguimos aprovar com
votos dos conselheiros que os processos fossem retirados e que nenhuma
retaliação fosse impostas à alunos e professores, porque essa é uma
questão sine qua non para se começar a conversar”, explicou a professora.

Punições - Para o representante dos alunos no Conselho Diretor, José Dalmo
Viana Duarte, a decisão não deixa de ser uma vitória. “A não punição
evidentemente que freia os interesses do reitor, é notório que ele já
ameaçava punir e demitir, e nesse aspecto é uma vitória do movimento”,
disse o representante dos alunos. “Mesmo assim, um fato concreto é que
Odair continua, então isso, pela reivindicação do movimento, não deixa de
ser uma derrota”, afirmou Dalmo.

O movimento de greve dos alunos e dos professores fará assembléia geral
nesta terça-feira (06/11) às 19h30 ,no prédio da Fafil (Faculdade de
Filosofia) para decidir se acatam as propostas para que as aulas voltem ao
normal ou não. Alguns alunos não ficaram satisfeitos com as idéias e
sugeriram uma nova invasão da reitoria.

Destituição - Na última reunião do Conselho Diretor, na quinta-feira,
realizada no Fórum João Mendes, na Capital, foi decido que Bermelho
permanece no cargo. Para sua destuição, eram necessários dez votos dos 15
conselheiros. No entanto, somente oito votaram a favor da saída do reitor,
dentre eles os cinco votos de representantes da Prefeitura, o
representante do Fórum de Cidadania do ABC, um representante dos
professores e o representante dos alunos.

Além do representante da Câmara, que voltou atrás na abstenção do seu
voto, houve outras abstenções: a de Celso Soares Nogueira do Sindicato dos
Auxiliares de Administração Escolar, representando as entidades dos
trabalhadores do município, e o advogado Manoel Alcides Nogueira de Sousa,
representando as entidades de outros segmentos sociais.

Estudantes e professores exigem a saída de Bermelho, acusado de ter
acionado a Polícia Militar para desalojar os ocupantes da reitoria, em 13
de setembro. Contra o reitor também eixstem acusações de iregularidades na
administração da universidade e a mudança ilegal do estatuto da Fundação
para conseguir empréstimos que antes não eram possíveis.

ABCD Maior

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O que funciona na educação: as lições segundo a McKinsey

Para consultoria, escolas precisam obter os melhores professores, extrair o máximo dos docentes e intervir quando os alunos começam a ficar para trás

O governo britânico, diz Sir Michael Barber, antigo assessor do ex-primeiro ministro Tony Blair, mudou quase todos os aspectos da política educacional na Inglaterra e no País de Gales, e em muitos casos mais de uma vez. “As verbas das escolas, a gestão, os padrões curriculares, os sistemas de avaliação, o papel dos governos local e nacional, o alcance e a natureza das agências nacionais, a política de admissão escolar” -pode escolher: tudo isso foi mudado, e em certos casos posteriormente devolvido à forma original.
A única coisa que não mudou foram os resultados. De acordo com a Fundação Nacional de Pesquisa Educacional britânica, não houve (até recentemente) melhora mensurável nos padrões de alfabetização e de domínio da matemática nas escolas básicas -e isso ao longo dos últimos 50 anos.
A Inglaterra e o País de Gales não estão sozinhos. A Austrália quase triplicou seus gastos por aluno, de 1970 para cá. Nenhuma melhora. Nos Estados Unidos, os dispêndios quase dobraram depois de 1980, e os tamanhos das turmas são os menores de todos os tempos. Uma vez mais, resultado algum. Não importa o que se faça, aparentemente, os padrões se recusam a mudar. Parafraseando Woody Allen: quem não faz ensina; quem não consegue ensinar se torna diretor de escola. Certamente há quem deva imaginar por que tanto esforço. Nada parece fazer efeito. Mas é certo que algo deve funcionar.
Existem grandes variações nos padrões educacionais dos países. Elas foram avaliadas e reavaliadas pelo Pisa (Programa de Avaliação Internacional de Estudantes), da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), e isso serviu para estabelecer, primeiro, que os países de desempenho mais forte se saem muito melhor do que os piores e, segundo, que os mesmos países lideram essas avaliações, a cada vez que são realizadas: Canadá, Finlândia, Japão, Cingapura, Coréia do Sul.
Essas constatações provocam uma pergunta que deveria ser bastante frutífera: o que os países de maior sucesso têm em comum? Mas encontrar a resposta parece ser tarefa das mais complicadas. Não se trata de maior investimento: Cingapura gasta menos dinheiro por aluno do que a maioria dos demais países. Tampouco de períodos mais longos de estudo: os alunos finlandeses começam as aulas mais tarde, e estudam menos horas, do que os dos demais países ricos.

Outro olhar
Agora, uma organização que vem de fora do setor de educação -a consultoria McKinsey, que assessora empresas e governos- decidiu que audaciosamente iria ao lugar que raros educadores ousaram visitar e faria recomendações estratégicas com base nas constatações do Pisa.
Segundo a empresa (em “How the world’s best performing schools systems come out on top” [como os melhores sistemas escolares do mundo chegam ao topo]), as escolas precisam fazer três coisas: obter os melhores professores, extrair o máximo deles e intervir quando os alunos começam a ficar para trás. Isso talvez não pareça exatamente uma recomendação “sem precedentes” (a definição usada por Andreas Schleicher, diretor de pesquisa educacional da OCDE, para a abordagem da McKinsey): as escolas com certeza já devem agir dessa maneira. Mas a verdade é que não o fazem. Se essas idéias fossem realmente levadas a sério, seria possível mudar a educação radicalmente.
O primeiro passo é contratar os melhores. Não resta dúvida de que, como declarou um funcionário do governo sul-coreano, “a qualidade de um sistema educacional não pode superar a qualidade de seus professores”.
Estudos feitos no Tennessee e em Dallas mostraram que, se alunos de capacitação média forem entregues a professores que estão entre os 20% mais competentes de sua profissão, terminam se posicionando entre os 10% de estudantes com melhor desempenho; caso os professores que os ensinam venham dos 20% menos competentes, os alunos terminam entre os 10% de pior desempenho.
A qualidade dos professores exerce a maior influência sobre o desempenho dos alunos.
Mas a maioria dos sistemas escolares não se esforça demais para selecionar os melhores. A Nova Comissão sobre a Capacitação da Força de Trabalho dos Estados Unidos, uma organização sem fins lucrativos, diz que as escolas norte-americanas tipicamente recrutam professores que estão no terço mais baixo de desempenho, entre os formandos das universidades.
A cidade de Washington recentemente contratou como diretora-geral de suas escolas públicas uma integrante da organização Teach for America, que identifica os melhores formandos e os contrata para lecionar por dois anos. Tanto a indicação da diretora quanto a organização que ela representa geraram grande controvérsia.

Falta de dinheiro
A predisposição contra os mais capazes surge em parte pela falta de dinheiro (os governos temem que não terão verba para contratá-los) e em parte porque outros objetivos interferem. Quase todos os países ricos vêm tentando reduzir os tamanhos de suas turmas escolares, nos últimos anos. Mas, se não houver outras variações, turmas menores querem dizer mais professores a serem contratados com a mesma verba, o que reduz o salário médio e o status profissional da categoria.
Isso pode explicar o paradoxo de que, depois da educação básica, parece haver pouca ou nenhuma correlação entre o tamanho das turmas e as realizações educacionais.
A McKinsey argumenta que os sistemas de educação que apresentam melhor desempenho mesmo assim conseguem atrair os melhores profissionais. Na Finlândia, todos os novos professores precisam ter mestrado. A Coréia do Sul contrata professores de ensino básico entre os 5% de formandos com melhor desempenho, Cingapura e Hong Kong entre os 30% de melhor desempenho.
E esses países o fazem de maneira surpreendente. Seria possível imaginar que as escolas oferecem o máximo de dinheiro possível para tentar atrair um grande quadro de interessados em formação educacional, o que permitiria selecionar os melhores dentre eles.
Mas não é assim, segundo a McKinsey. Se o dinheiro fosse tão importante, então os países com os melhores salários para os professores -Alemanha, Espanha e Suíça- teriam presumivelmente sistemas de ensino posicionados entre os melhores. E isso não procede. Na prática, os países com melhor desempenho pagam salários não superiores à média.
E eles tampouco tentam atrair um grande quadro de interessados para selecionar entre eles os mais bem sucedidos. Quase que o contrário. Cingapura avalia os candidatos rigorosamente antes de admiti-los aos cursos de formação de professores e aceita apenas o número de candidatos suficiente para cobrir as vagas nos quadros da educação.
A Finlândia também limita a oferta de cursos de treinamento de professores à demanda. Em ambos os países, o ensino é uma profissão de status elevado (porque é altamente competitiva), e os fundos destinados a cada professor em treinamento são generosos (porque o número deles é baixo). A Coréia do Sul demonstra como os dois sistemas produzem resultados diferentes.
Seus professores de ensino básico têm de obter um diploma de graduação em uma de apenas 12 universidades. A admissão requer notas altas; o número de vagas é racionado de acordo com o número de postos de ensino em aberto. Em contraste, os professores de escolas secundárias podem obter seus diplomas em qualquer uma das 350 faculdades do país, e os critérios de seleção são mais frouxos. Isso gera um enorme excedente de professores secundários recentemente qualificados -cerca de 11 por vaga, de acordo com as mais recentes estatísticas. Como resultado, o ensino secundário é uma profissão com menos status na Coréia do Sul, onde todo mundo prefere trabalhar no ensino básico. A lição parece ser a de que a admissão aos sistemas de treinamento de professores precisa ser difícil, e não fácil.

Ensinando os professores
Depois de selecionar pessoal de boa qualidade, a tentação é a de trancá-los nas classes e deixar que eduquem. Por motivos compreensíveis, os professores raramente recebem muito treinamento nas salas de aula em que lecionam (enquanto os médicos, em contraste, treinam muito nos hospitais). Mas os países de maior sucesso no ramo podem fazer muito para superar essa dificuldade.
Cingapura provê cem horas de treinamento aos seus professores a cada ano e aponta professores veteranos para supervisionar o desenvolvimento profissional em cada escola.
No Japão e na Finlândia, grupos de professores visitam as classes de colegas e planejam aulas juntos. Na Finlândia, professores têm uma tarde de folga semanal com esse objetivo.
Em Boston, cidade cujo sistema educacional demonstra um dos melhores ritmos de progresso nos EUA, os cronogramas de aulas são organizados de forma a permitir que os professores das mesmas disciplinas tenham períodos de folga coincidentes, para que possam planejar juntos. Isso ajuda a difundir as melhores idéias.
Como apontou um educador, “quando um professor norte-americano brilhante se aposenta, quase todos os planos de aula e práticas que ele desenvolveu também são aposentados. Quando um professor japonês se aposenta, deixa um legado”.
Por fim, os países de maior sucesso são singulares não só no que tange às pessoas que contratam para que as coisas saiam bem mas também com relação àquilo que fazem quando as coisas vão mal.
Nos últimos anos, quase todos os países começaram a dedicar mais atenção aos processos de avaliação, a mais comum maneira de verificar se os padrões estão em queda. A pesquisa da McKinsey é neutra quanto à utilidade do método, apontando que, embora Boston teste todos os alunos anualmente, a Finlândia em larga medida abriu mão de exames nacionais.
De maneira semelhante, escolas na Nova Zelândia e na Inglaterra são testadas a cada três ou quatro anos, e os resultados são divulgados em público, enquanto a Finlândia, líder mundial na educação, não tem processo formal de revisão e mantém sigilo sobre os resultados de suas auditorias informais.
Mas existe um padrão quanto ao que os países fazem quando os alunos e as escolas começam a falhar. Os países de melhor desempenho não hesitam em intervir, e o mais cedo possível. A Finlândia dispõe de mais professores de educação especial encarregados de ensinar os alunos retardatários do que qualquer outro país -em certas escolas, chega a ser um professor em cada sete.
A cada dado ano, um terço dos alunos recebe educação suplementar em sessões individuais. Cingapura oferece aulas adicionais aos 20% de alunos com desempenho mais fraco, e existe a expectativa de que os professores fiquem na escola depois das aulas -ocasionalmente por horas- a fim de ajudar os alunos.
Nada disso é muito complexo. Mas são práticas que contrariam algumas das suposições silenciosas da política educacional. Quando professores, dirigentes de escolas ou até pais são convidados a se expressar sobre a questão, muitas vezes dizem que é impossível obter os melhores professores sem pagar salários altos; que os professores de Cingapura, digamos, têm status elevado devido aos valores confucianos; ou que os estudantes asiáticos são bem comportados e atentos por motivos culturais.
As conclusões da McKinsey parecem mais otimistas: obter bons professores depende de como você os seleciona e treina; lecionar pode se tornar uma carreira para os melhores formandos mesmo que não sejam oferecidos salários milionários; e, com as políticas corretas, as escolas e os alunos não estão condenados ao atraso.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

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A responsabilidade da inteligência*

FLORENTAN FERNANDES

Em poucas fases na história da humanidade tem-se preocupado tanto com a função da inteligência e portanto com a sua responsabilidade, como nesta em que vivemos (são os “testamentos”, as “plataformas” das “gerações”, procurando-se esclarecer os problemas e o modo pelo qual êstes são encarados pelos intelectuais: os debates, em que se discute, profunda ou superficialmente, qual ou como o intelectual deve tomar posição na vida da sociedade e dela participar etc. etc.). E os motivos justificam a preocupação. De fato estamos numa fase crítica - no sentido do “ponto crítico” em geometria: mudança de direção - e as necessidades relacionadas à renovação exigem da inteligencia que ela atue sôbre os casos e os problemas com que nos debatemos, que em parte podem ser postos em seu ativo.

Já não se trata, atualmente, de retornar a questão puramente acadêmica que sempre dividiu os intelectuais em dois grandes grupos: os partidários da “torre de marfim”, do isolamento do intelectual, e os que pretendem ver nele um reflexo de um certo ambiente social. Tão pouco se trata de conceber uma posição de oportunista verdadeiro para o intelectual, que se isola do meio durante um certo tempo, perdendo-se em categorias universais e problemas pseudamente humanos explicáveis na maioria das vêzes por uma intensa insinceridade do eu consigo mesmo, e depois volta - quando a oportunidade é boa e a massa dorme - como uma espécie de Júpiter, providencial, munido de todos os raios precisos para alumiar o caminho dos pobres-homens.

As necessidades do momento e a dolorosa história da tragédia humana nestes últimos trinta anos - tragédia no sentido mais amplo, espiritual e material - põem o tema de um modo preciso e exatamente determinado: a função da inteligência e sua responsabilidade. Não se trata mais, pois, de focalizar o intelectual numa posição, com certas idéias e com outros tantos tics e tacs. Êle é representado como um indivíduo que tem certa capacidade de trabalho e do qual a sociedade espera, como de todos os demais membros, uma atividade útil e criadora. Êle tem - como os outros - suas funções e a responsabilidade da inteligência aparece justamente no momento em que ela as exerce e mais ainda no momento em que ela consente que essas funções não sejam exercidas. Assim, tende-se a conceber a ação do intelectual controlada (permitam-me…) por um conjunto de elementos que representam a coletividade, num sentido amplo, e encarnando um modo de ser e uma ética profissional extensivos unicamente ao grupo, num sentido restrito.

Vê-se que esta solução não é uma síntese nem uma conciliação e tão pouco se restringe a uma das duas posições acadêmicas. É uma situação de fato a que tendemos chegar por um desenvolvimento natural e inevitável. Apareceu em virtude do comodismo e depois do sacrifício do intelectual, vitimado pela tolerância ou pela incompreensão de suas funções na sociedade. E tende a se precisar, dia a dia, por causa da reação subseqüente da inteligência - que vive o segundo ato do drama tolerado, admitido e criado, em parte, por ela mesma, muitas vêzes por covardia e não por simples comodismo.

Essas considerações surgiram à medida que lia o artigo de José Medina Echavarria: “Responsabilidade de la Inteligencia”, primeiro no livro com êsse título. Em parte elas traduzem uma ponte, ligando a inteligência, como existiu até hoje em nossas sociedades, e a trágica situação que o mundo vive agora. O comêço dessa ligação está no que Medina chama “viver de segundo grau” em que o intelectual afasta-se paulatinamente da vida imediata, deixando de participar “das atividades criadoras, dos fatos e dos acontecimentos que nos rodeiam” acumulando conhecimento sôbre tôdas as coisas, sem contudo “participar realmente delas”. É o que êsse autor chama depravação da inteligência que, renunciando às próprias funções, consome-se num círculo vicioso, perigoso para ela e para a sociedade. O conventilhismo, a “torre de marfim”, caracteriza essa primeira etapa.

A segunda é escrita tendo por pena a ponta da espada, por tinta o sangue dos oprimidos e por fundo a tragédia dos sacrificados, entre os quais se encontram os intelectuais. O assalto ao poder já estava feito e uma nova etapa da “ordem” assombrava a inteligência desarmada e confundida: nada mais restava a fazer e os intelectuais calaram-se para não serem suprimidos. Em tôda parte descobriu-se meios eficientes para os obrigar a trocar em miúdo consigo mesmo as suas idéias ou as suas revoltas; a função da inteligência desaparecia terrivelmente, pois as grandes como as pequenas idéias só valem quando se estendem a um povo inteiro. Para evitar isso, justamente, o Estado-Polvo foi alastrando os seus tentáculos e aí aparece o momento mais crítico a supressão mesma do intelectual. Nada, pois, restava a fazer. Mas foi assim que a inteligência atravessou a ponte. Agora estamos entrando na outra fase, em que a inteligência angustiada volta-se sôbre si mesma para tomar consciência de sua missão e de sua fôrça e procura na sociedade a razão de ser de suas funções.

Naquele artigo de Echavarria vemos os intelectuais da Alemanha - como os de outros países - perdidos completamente numa geral confusão de idéias e de valores, subdivididos em grupos ou grupinhos, cada qual orientando sua conduta e a sua ação conforme uma “atitude pessoal”, eliminando-se assim a possibilidade de uma realização qualquer por parte da inteligência. Isso quando não faziam conventilhismo ou não eram tolhidos pela covardia. Depois, cremos que agora - aproveitamos o esquema que conhecemos de outro país - da própria opressão vieram as fôrças ativas do ressurgimento e da renovação. Já há, pois, muita coisa a fazer.

O panorama oferecido pela “depravação da inteligência”, que Medina tece sôbre a situação do intelectual alemão post-14, a propósito (ao comentar “Ideologia e Utopia”) poderia ser assim esboçado. A necessidade da participação do intelectual na vida social - como uma de suas grandes fôrças - também encontra o seu lugar. Para evitar, aliás, aquêle isolamento esclerosante do intelectual, afastado da realidade e conseqüentemente sem consciência de sua fôrça e função. Medina Echavarria, pensa que as sociedades do futuro devem “inserir a inteligência em seu funcionamento normal e cotidiano” (veja-se o prefácio).

É aqui que discordamos do ilustre sociólogo. A questão para os intelectuais não se põe dêste modo, passivamente, como se fôssem meninos mal comportados que o mestre-escola reintegra na classe. Infelizmente a questão é muito mais grave; e em última análise, foi essa atitude passiva que todos - ou quase todos - os intelectuais assumiram diante da “ordem” chamada nova em seu estado nascente, quando podia ser sufocada. E vimos, por uma experiência muito dolorosa para ser repetida, qual o seu resultado.

O intelectual não deve ser “inserido” na sociedade, mas deve tomar nela o lugar que lhe compete, ativamente, como os demais membros do grupo. A inteligência, se quiser sobreviver terá que tomar parte ativa na vida social. E um dos aspectos da vida social ativa será o de conseguir ela mesma o seu próprio lugar, porque fora disto não se compreende um funcionamento normal da inteligência.

Revista Espaço Acadêmico
http://www.espacoacademico.com.br/

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Lucro do Itaú em 9 meses supera lucro anual de qualquer banco no Brasil

Folha Online

Segundo levantamento da consultoria Economática, o lucro do Itaú em nove meses de 2007, de R$ 6,444 bilhões, já supera o lucro anual (em 12 meses) de qualquer banco brasileiro de capital aberto nos últimos 20 anos. Os números do Itaú foram divulgados nesta terça-feira pela instituição.

O maior lucro anual pertencia ao Banco do Brasil, que em 2006 somou, de janeiro a dezembro, R$ 6,224 bilhões –valor ajustado pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) até setembro de 2007.

O lucro de R$ 6,444 bilhões divulgado pelo Itaú significa um crescimento de 112,7% em relação ao resultado obtido no mesmo período de 2006, de R$ 3,029 bilhões. No terceiro trimestre, o lucro do banco ficou em R$ 2,428 bilhões, uma expansão de 14,8% em relação ao segundo trimestre deste ano, quando o lucro foi de R$ 2,115 bilhões.

Até agora, os três maiores bancos que já publicaram seus números dos nove meses de 2007 (Itaú, Bradesco e Santander) já ultrapassam o lucro anual de 2006.

O Bradesco teve lucro de R$ 5,817 bilhões em 2007, ante R$ 5,205 bilhões (janeiro a dezembro de 2006 ajustado pelo IPCA). O Santander anotou R$ 1,309 bilhões nos nove meses de 2007 contra R$ 828 milhões.

O Bradesco é o segundo maior banco por ativos entre os bancos de capital aberto da América Latina e o maior entre bancos privados do continente –o Banco do Brasil atualmente se encontra na liderança geral entre as instituições no país. O Itaú, por sua vez, segundo a Economática, é o quarto maior banco de capital aberto da América Latina, atrás ainda do Santander BR/ABN Brasil.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

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PODER MUNDIAL

A hora da verdade para Teerã?

Restando pouco mais de um ano de governo, Bush já é de fato um dos piores presidentes da História dos Estados Unidos. Qualquer ação no sentido de superar esta mancha na sua história deveria dar-se nos próximos 3 a 5 meses.

Francisco Carlos Teixeira

Desde as eleições presidenciais que levaram Mahmud Ahmenidjad ao poder em Teerã, este país vive em um estado permanente de sobressaltos e crises em sua política interna e externa. Em política interna acentuou-se a penúria de bens, aumentou a inflação e outros bens – paradoxalmente a gasolina! – quase desapareceram. No último dia 8 de outubro de 2007 algumas centenas de estudantes da Universidade de Teerã desafiaram o esquema policial iraniano e gritaram fortes slogans contra Ahmenidjad. No plano externo as ações de enfrentamento com os Estados Unidos acentuaram, nos últimos dias, o conflito entre os dois países.

Energia Nuclear e Geopolítica Regional.
O ponto central do contencioso entre Teerã e Washington centra-se na produção e posse de armas nucleares. O Irã é signatário do Tratado Contra a Proliferação de Armas Nucleares e reafirma constantemente o seu objetivo de dotar-se de energia nuclear exclusivamente para fins pacíficos. Contudo, a natureza fechada, autoritária, do regime iraniano não permite qualquer avaliação concreta sobre o que se passa nas principais usinas nucleares do país.

Os vizinhos dos iranianos – em seus dois flancos – são regimes adversários possuidores de armas nucleares. Referimos-nos a Israel, a quem Teerã vota a maior parte de suas energias em política externa e, do outro lado da fronteira, o Paquistão, dominantemente sunita e wahabita, e um forte aliado dos Estados Unidos. Além disso, o mais importante vizinho do Norte, às margens do Mar Cáspio, é a Federação Russa. Também é notório que a frota americana estacionada no Golfo Pérsico é dotada de forte armamento nuclear. Assim, não seria Teerã o introdutor de “armas de destruição em massa” na complexa geopolítica regional. O ponto central, contudo, para os Estados Unidos seria a caracterização da política externa do Irã (i.) de rompimento do TNP, portanto o Irã transformar-se-ia em um “Out-law State” e (ii.) o caráter não confiável do regime religioso existente no país.

A primeira questão, o Irã como um “Out-law State” é complexa e não representaria, de forma alguma, um casus beli clássico. A França, em 1993, no Atol de Mururoa no Pacífico realizou vários testes nucleares de superfície, contrariando frontalmente a comunidade mundial. Outros países, como o Sudão ou Mianmar, agem de forma brutal, mesmo genocidária, contra suas populações sem mereceram uma ação armada da comunidade mundial. Em relação a ser um “regime não-confiável” não podemos deixar de esquecer que o Paquistão – uma ditadura militar comandada por Pervez Musharaf e assediada por grupos islâmicos radicais – possui varias ogivas nucleares e é um dos maiores aliados dos Estados Unidos.

Onde, em fim, reside a ameaça iraniana?

Golfo Pérsico/Ásia Central: uma geopolítica delicada:
Na verdade, a produção de armas atômicas no Irã – tecnicamente possível para fontes neutras num espaço de 3 até 5 anos – seria um mudança brutal de status estratégico para Israel. As relações com as duas outras potências nucleares da região – Rússia, Paquistão – praticamente não seriam alteradas, posto que ambos os países possuem dossiês mais complexos com outros atores regionais. Contudo, no caso de Israel a mudança seria drástica. O poder dissuasório final de Israel – fragilizado em termos demográficos e pela ausência de profundidade territorial – baseado na possibilidade de uso das armas nucleares, seria anulado pelo poder (futuro) nuclear de Teerã. Na verdade, devemos destacar isso, Teerã, e o Hamas na Faixa de Gaza, são hoje os únicos adversários em frente aberta de Israel. O apoio, municiamento e financiamento do Hizbollah, em 2006, durante a chamada “Guerra dos 34 Dias”, no Líbano, já teria quebrado aspectos centrais da estratégia militar israelense. A excelência da Inteligência israelense, bem como o seu poder dissuasório baseado numa maciça retaliação convencional – embora tenha se dado, com a destruição ampla da infra-estrutura libanesa – não foi suficiente para dobrar o Hizbollah ou alcançar seus objetivos no Líbano.

Assim, a posse de armas nucleares por Teerã acentuaria, num percepção israelense, de forma insuportável a perda de dissuasão por Israel. Devemos notar, ainda, que Teerã desenvolveu uma balística comprovadamente eficiente no raio de até 3000 quilômetros, dotando-se assim de vetores competentes para uma eventual arma nuclear.

Para outros aliados de Washington na Região Golfo Pérsico/Oriente Médio a situação não é melhor. O primeiro estado árabe sunita a se fragilizar seria a Arábia Saudita. Dominantemente sunita, mesmo wahabita, Riad possui – exatamente no Golfo e nas suas importantes regiões petrolíferas, uma vasta população xiita -, que se identifica e relaciona com outros xiitas do Golfo Pérsico. Várias das chamadas “Petro-Monarquias” do Golfo, são dominantemente xiitas, como o Bahrein. Um aumento de poder iraniano na região – que poderia ser fortalecido pela vitória xiita no Iraque ou ao menos na formação de uma República Islâmica no sul do Iraque, em torno de Basra – seria um tremendo fator de desestabilização do Reino Saudita, abrindo caminho para uma República Islâmica na Península.

Também a Turquia, aliada dos Estados Unidos e cooperante com Israel, poderia se sentir obrigada a entrar na corrida armamentista, evitando tornar-se, frente a um Irã atômico, uma potência de segunda ordem. Identicamente o Egito, em face a uma crise política e religiosa na Arábia Saudita, e dos movimentos de armamentismo na Turquia estaria na “obrigação” de buscar o diferenciador nuclear. Isto poderia desestabilizar todo o Maghreb – o norte da África árabe – e levar a Argélia na mesma direção. Nestas condições, os países europeus do Mediterrâneo – em especial Espanha, Itália e França – ver-se-iam em um impensável estado de insegurança.

Assim, o movimento iraniano em direção às armas nucleares, embora de razões claramente fincadas na geopolítica regional do Golfo Pérsico, poderia ser o estopim para um dominó nuclear de amplas dimensões e imensas conseqüências.

Dissuadindo o Irã:
Mais uma vez as potências do Conselho de Segurança da ONU não conseguem chegar a uma mínimo consenso sobre a questão. Até a eleição de Nicolas Sarkozy, em 2007, a França, Rússia e a China Popular haviam assumido uma posição contraria a qualquer ação militar contra o Irã. Já duvidosos do êxito americano no Iraque e da OTAN no Afeganistão, os três países associaram-se numa tentativa de deter uma ação unilateral dos Estados Unidos. Ao final de 2006 tal frente diplomática – aliada ao endurecimento da resistência iraquiana e ao clímax da Crise Coreana (por idênticas razões) conseguiu eficazmente manter o contencioso no plano diplomático.

De outro lado, os Estados Unidos e a Inglaterra (que no início de 2006 teve um enfrentamento direto com Teerã, pela apreensão de um barco patrulha britânico) e a França (agora com Sarkozy) deixaram claro que “todas as opções” (incluindo aí as ações militares) estão sendo estudadas para evitar que o Irã tenha armas nucleares. O Ministro francês de Relações Exteriores chegou, mesmo, a advertir sobre a possibilidade de uso máximo de força do Ocidente contra o Irã.

Assim as ações do “Grupo de Contato” europeu – França, Inglaterra e Alemanha – esgotaram-se desde 2006 e estes países passaram a uma clara posição de exigência de renúncia unilateral por parte de Teerã à posse de armas nucleares.

Para a Federação Russa qualquer ação unilateral e militar seria uma catástrofe para a região. Um grande tumulto militar e político na Região do Mar Cáspio, onde Moscou possui interesses diretos, soberanos e importantíssimos poderia abrir outra brecha de agitação islâmica em seu território. Além disso, traria os Estados Unidos – possivelmente através do uso de portos e aeroportos do Azerbaidjão (ex-república da URSS) - para dentro da região de imensas jazimentos de gás e petróleo. Por tais razões – muito mais relevantes do que o florescente comércio de armas, máquinas e equipamentos entre Moscou e Teerã – é que a Rússia insiste na “metodologia coreana de negociações”. Seria a formação de um grupo regional de contato, mais Estados Unidos, para uma negociação direta e ampla sobre todos os temas (e não só sobre arma nucleares) entre Washington e Teerã. Para Teerã seria uma vitória, uma das razões da recusa americana em aceitar a proposta russa.

Os Estados Unidos, que haviam chegado ao limiar do enfrentamento no começo de 2006, estavam por demais envolvidos na Batalha de Bagdá, buscando garantir um mínimo de segurança para alguns bairros centrais da capital iraquiana na ocasião, perdendo autonomia para uma nova frente de ação militar. Por outro lado, a Administração Bush encontrava-se sob fogo cerrado, da mídia e da oposição democrata, sendo obrigado a demitir colabores próximos da presidência (Karl Rove, Alberto Gonzáles e Donald Rumsfeld). Por fim, o dossiê coreano – com forte risco de descontrole regional e envolvimento numa guerra convencional de grande porte podendo escalar para um conflito nuclear – paralisou os homens em Washington.

Contudo, depois de agosto de 2007 Washington sentiu mais segura para deslanchar uma ação definitiva na Região Golfo Pérsico/Oriente Médio.
Assim, em 2006, o conflito que estava agendado foi adiado. Até quando?

Por que os Estados Unidos atacariam?
O Irã pratica, depois de 2006, uma extensa e intensa política externa, buscando diversificar suas relações políticas e comerciais, além de estabelecer apoios para um eventual enfrentamento na ONU com os Estados Unidos. Assim, de forma inédita, e para grande irritação de Washington, o Irã investiu fortemente na América Latina. Conduzido por outro desafeto americano, o Comandante Hugo Chavez. Ahmandinejad estabeleceu acordos com Caracas, Manágua e La Paz, além de ter fechado protocolos de cooperação com Brasília.

Toda esta movimentação, “en el pátio” estadunidense, deixa claro para Washington que as ações iranianas – ainda mais associadas a Caracas – são um forte desprestígio para a política externa americana. Além disso, e de forma central no pensamento estratégico americano, Teerã desafia as posições americanas junta aos aliados tradicionais dos Estados Unidos no Golfo/Oriente Médio. O crescimento político do Irã, depois do começo da Guerra do Iraque em 2003 e do malfadado discurso de Bush sobre o Eixo do Mal, em 2002, pode relativizar a influência americana em Riad, Ancara e Cairo. Da mesma forma, Israel ficaria fortemente isolado na região e os movimentos radicais de resistência, tais como o Hamas e o Hizbollah – pagos e armados por Teerã – teriam um papel crescente na região.

Além disso, teríamos típicas razões de política interna e mesmo de psicologia própria da Administração Bush para explicar um eventual ataque americano ao Irã. Restando pouco mais de um ano de governo, Bush já é de fato um dos piores presidentes da História dos Estados Unidos. Qualquer ação no sentido de superar esta mancha na sua história deveria dar-se nos próximos 3 a 5 meses. E, estaria aí, a chance de alterar os sinais da corrida eleitoral em curso, desbancando o favoritismo dos Democratas.

Trata-se, em suma, de um típico projeto de “rabo que abana cachorro”.

Quais os sinais evidentes da crise atual?
Nas últimas semanas os Estados Unidos se movimentaram com uma agilidade diplomática não vista nos últimos 7 anos. Vejamos:

i. O Presidente Bush garantiu o apoio e a continuidade da assistência dos Estados Unidos ao governo ditatorial de Pervez Musharaf – sob forte pressão da oposição interna - no Paquistão. Trata-se de uma base fundamental, na fronteira do Irã, para garantir a segurança de ações contra Teerã;

ii. Condoleeza Rice e Robert Gates estiveram na Arábia Saudita e Egito e assinaram acordos no valor de U$40 bilhões para a transferência de complexos sistemas de detecção adiantada de ataques aéreos ( mísseis e aviação ) além de sistemas de defesa antiaérea;

iii. Os americanos enviaram “pessoal técnico” para o Azerbaidjão – na fronteira norte do Irã, junto ao Mar Cáspio, para examinar as condições de portos e aeródromos locais;

iv. Condoleeza Rice foi em missão preparatória a Israel e a Palestina visando garantir o sucesso da Conferência de Anápolis, em novembro de 2008, entre palestinos e israelenses. Temas tabus da Questão Palestina ( saída das colônias judias, partilha de Jerusalém ) foram colocados em pauta;

v. Vladimir Putin, da Rússia, multiplicou seus esforços diplomáticos em encontros sucessivos com Angela Merkel ( Alemanha ) e Nicolas Sarkozy ( França ) em favor de uma abordagem diplomática da questão. Em seguida a tais encontros Putin foi a Teerã, onde defendeu um mundo multipolar e a excelência das ações diplomáticas.

A Guerra Americana contra o Irã
O encadeamento de tais ações apontaria para a construção de uma retaguarda diplomática e para o estabelecimento das condições estratégicas para um ataque americano ao Irã. Este ataque seria radicalmente diferente da “nova guerra altamente tecnológica” que Rumsfeld criou para o Iraque. Em vez de uma “Blitzkrieg tecnológica”, os Estados Unidos (secundados por Israel, Inglaterra e França) deslanchariam uma poderoso ataque aeronaval contra o Irã.

O ataque deveria ter o caráter preempção e manter o principio de “Espanto e Terror”, só que não seria acompanhado de qualquer ação de “boots on the ground” e deveria potencializar os ataques aéreos (partindo de bases e da marinha deslocada para o local) de forma intensa e contínua. Os primeiros ataques deveriam ser tão poderosos que a capacidade balística iraniana deveria ser anulada sem qualquer possibilidade de retaliação. O uso de armas nucleares táticas não seria assim descartado, bem ao contrário. Os Estados Unidos deveriam direcionar, simultaneamente, seus ataques para as instalações nucleares (Bushsher, Natanz, Araki, etc…) e para o sistema de defesa e resposta do Irã. Assim, as bases navais no Golfo Pérsico e as bases de mísseis distribuídas pelo interior do país deveriam se atingidas simultaneamente, cobrindo mais de 100 alvos diferentes diários e contínuos. O ataque maciço e preemptivo deveriam contar com elementos da Guerra dos Seis Dias, de Israel contra os países árabes, e da Guerra de Kossovo, usando ao máximo poder aéreo para evitar uma retaliação contra Israel, Arábia Saudita e mesmo as tropas aliadas em embasadas no Iraque.

Carta Maior
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BONS AMIGOS

Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir.
Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende.
Amigo a gente sente!

Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar.
Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende.
Amigo a gente entende!

Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro pra chorar.
Porque amigo sofre e chora.
Amigo não tem hora pra consolar!

Benditos sejam os amigos que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade.
Porque amigo é a direção.
Amigo é a base quando falta o chão!

Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros.
Porque amigos são herdeiros da real sagacidade.
Ter amigos é a melhor cumplicidade!

Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho,
Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!

Machado de Assis

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Sonho Impossível

J. Darion - M. Leigh - Versão Chico Buarque e Ruy Guerra/1972
Para o musical para O Homem de La Mancha de Ruy Guerra

Sonhar
Mais um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender
Sofrer a tortura implacável
Romper a incabível prisão
Voar num limite improvável
Tocar o inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo
Cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão

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Na prisão da vergonha - parte 3

Antonio Caño

No antigo aeroporto da base, a quinze minutos de carro dos centros de detenção, está sendo levantado o que se denomina oficialmente Expeditionary Legal Complex (Complexo Jurídico Expedicionário) e que na gíria local se conhece como Acampamento Justiça, um verdadeiro mar de barracas de campanha que deverá alojar as futuras comissões militares, os tribunais castrenses que entraram em vigor com a lei aprovada pelo Congresso no outono de 2006.

Trata-se de um investimento milionário para construir 500 barracas de aparência provisória, mas dotadas da mais moderna tecnologia e preparadas para abrigar cinco julgamentos ao mesmo tempo em cinco idiomas diferentes, segundo o responsável pela operação, Scott McDonald, advogado com a patente de sargento da reserva.

Essa construção é a melhor prova de que os responsáveis por Guantánamo estão decididos a seguir adiante, apesar de todas as objeções feitas tanto pela Justiça americana como pelo Congresso e a opinião pública.

Os principais candidatos presidenciais do Partido Democrata pediram o fechamento de Guantánamo. Os editoriais dos principais jornais pediram o fechamento de Guantánamo. A Suprema Corte já disse em duas ocasiões que os presos de Guantánamo devem ser protegidos pela Convenção de Genebra, e é muito provável que em breve também diga que eles têm direito a recorrer aos tribunais comuns dos EUA. Órgãos internacionais de direitos humanos, diversos governos, a ONU, o Vaticano… criticaram a existência de uma prisão como a de Guantánamo.

Todo mundo parece concordar com a necessidade de fechar Guantánamo, menos os responsáveis do governo americano, que, pelo contrário, dão passos para sua consolidação.

Um dos passos mais discutidos é o do novo centro de detenção conhecido como Camp VI, construído segundo o modelo das mais modernas prisões de alta segurança dos EUA e no qual estão encerrados os presos considerados mais perigosos.

Depois de visitar Camp VI, tem-se a impressão de que Camp I ou Camp IV, onde estão os detidos menos valiosos para a segurança americana, são modestas cabanas de recreio. Nestas, os presos (pelo menos o que se vê deles) passam várias horas à luz do dia, praticam algum esporte, podem assistir a um filme de vez em quando, solicitar um livro ou revista da biblioteca da prisão e até ir à escola, convenientemente amarrados aos ganchos instalados no piso de cada carteira.

A cena que o jornalista contempla em Camp IV não é a do inferno que imaginava. Dois presos de uniforme branco (os menos “perigosos”) conversam sentados no pátio, enquanto um deles zomba dos fotógrafos que o retratam. Outro, porém, oculta seu rosto da câmera quando passa com sua roupa para fazer a lavagem.

Isso é o que se observa no limite de nossa visão. O resto são alambrados, portas fechadas, torres de vigilância, corredores inacessíveis e guardas em suas tarefas.

Camp VI é assustador desde o início. Os corredores das celas são separados do saguão central por um vidro que só permite a visão do lado em que está o jornalista. Do outro, nesse momento, um preso de uniforme bege (”perigo médio)” é tirado de sua cela por dois soldados. Tem físico forte, a cabeça raspada e uma longa barba escura. Está algemado pelos pés e pelas mãos e seus braços estão agarrados por dois guardas, com luvas de borracha azuis e uma tela de plástico protegendo o rosto. Eles param no meio do corredor e o preso atira uma gargalhada estremecedora que projeta sua cabeça para trás. Deste lado do vidro, explicam que provavelmente ele viu a luz dos flashes e isso o fez rir. Os flashes, com certeza, foram disparados inutilmente porque a foto foi depois censurada pelos responsáveis militares e não pode ser publicada. Todo o material fotográfico obtido em Guantánamo é submetido a revisão e censura.

Não se pode fotografar o rosto dos presos. Um deles, também em Camp VI, deixou ver o seu pela pequena janela gradeada que há na porta de cada cela. Era um rosto vazio, com olhos perdidos. Por esse pequeno espaço se observa outro preso caminhar de um lado para outro em sua cela. Em outra se vê o inquilino forçado levantar e baixar a cabeça em ritmo harmônico. “Está rezando”, diz um dos vigias. “É a oração do pôr-do-sol”, acrescenta. “Como ele sabe quando é o pôr-do-sol?”, pergunta o jornalista. “Bem, aqui todos os horários são definidos com precisão”, responde o carcereiro. “Além disso, por essa clarabóia se pode ver a luz do dia”, afirma.

Essa clarabóia é, aparentemente, a única luz natural que ilumina o edifício, atualmente o mais habitado de toda a prisão. Não foi possível visitar o interior das celas, por isso não se pôde determinar se a luz do dia penetra nelas ou não. Mas a sensação de escuridão e claustrofobia do lugar -combinada durante a visita com vozes e ruídos metálicos impossíveis de identificar- é arrasadora.

Os vigilantes afirmam que a maioria dos presos sai para um pátio descoberto -pequenas celas entre alambrados- quase todos os dias por duas horas, em média. Essa é uma das atenções que os responsáveis por Guantánamo insistem em repetir aos visitantes.

Outras, embora sendo verdadeiras, são um tanto grotescas no contexto brutal em que as conhecemos. Por exemplo, os guardas têm ordens de manipular o Corão com extremo cuidado, nunca tocá-lo com suas mãos nuas, deixá-lo permanentemente pendurado em uma pequena sacola de tecido colocada em cada cela para esse fim.

O cuidado com a orientação religiosa dos detidos é um dos principais aspectos com que os responsáveis por tudo isso tentam humanizar sua obra. “Eu sou um homem medianamente religioso e respeito sua religião; quando rezam, me calo; se precisam de algo, tento conseguir”, afirma o sargento Justin Ardrey, um dos guardas autorizados a revelar seu nome.

Outro, o major Rivera, afirma que os vigilantes foram treinados para conhecer os aspectos básicos do islã, e tira do bolso um pequeno manual no qual são explicadas as normas a seguir durante o período de Ramadã, recém terminado.

Os guardas não sabem os nomes dos presos -referem-se a eles por seus números- nem podem, é claro, desenvolver qualquer tipo de ligação afetiva com eles. Também não estão autorizados a responder às perguntas que os presos possam lhes fazer. “A única coisa que precisam saber é o que devem fazer e quem está no comando”, afirma Ardrey.

Esse tratamento frio e distanciado é mais difícil para os soldados que estão servindo aqui depois de ter combatido no Afeganistão ou no Iraque, como o sargento John Kopinski. “Há alguns dias um deles me olhou e disse que tinha me visto no campo de batalha no Afeganistão”, lembra. Não sabe se é verdade, mas a impressão persiste.

Para evitar essas cenas, a cada três meses um quarto dos carcereiros é substituído, e eles não costumam passar mais de seis meses em seus postos, trabalhando quatro dias por semana.

Os anfitriões dessa base enorme (mais de 100 quilômetros quadrados de terra e mar) mostram com orgulho as cozinhas nas quais é preparada a comida dos presos -um cardápio de aspecto decente, é verdade- e os instrumentos de higiene que são oferecidos.

A jóia da coroa dessa instalação, do ponto de vista de seus gestores, é o hospital dos presos, um centro que foi tão profundamente propagado que o diretor de cinema Michael Moore tentou visitá-lo com um barco cheio de americanos doentes em seu documentário “Sicko”.

O hospital (vazio no momento da visita) tem boa aparência e estaria equipado para enfrentar diversas emergências. É o que afirma o médico que dirige a instalação, que só pode ser identificado como dr. SMO.

As críticas mais duras contra os métodos empregados em Guantánamo chegaram a incluir o dr. SMO, um médico militar, como um dos cúmplices das torturas. Se elas existem, é difícil que o chefe do serviço médico não saiba de sua ocorrência. Mas o dr. SMO garante que não.

Também nunca lhe pediram, segundo ele, que sedasse alguém desnecessariamente, o fizesse dormir ou manter acordado à força, ou qualquer atividade que possa ser contrária ao código de ética de um profissional da medicina. No cárcere de Guantánamo, ele explica, são receitados cerca de 500 comprimidos por dia, tudo seguindo o mesmo critério que em qualquer centro de saúde dos EUA. “Não existe nenhum remédio não autorizado nem há qualquer administração forçada”, afirma. Os tratamentos em geral são por questões menores e passageiras, como cabe a uma população carcerária com idade média de 30 anos. Mas também se realizam testes de próstata ou colonoscopias em alguns detidos que têm entre 50 e 60 anos. Só alguns presos, segundo o médico, recusam o tratamento.

Os casos mais difíceis para o dr. SMO são os de greve de fome. Um preso é considerado legalmente nessa situação depois de ter renunciado a nove refeições consecutivas, isto é, três dias sem comer ou beber ou ambos. Quando isso ocorre, é transferido para o hospital e alimentado por meio de sonda, com autorização de um superior. O médico não está autorizado a contar quantos casos de greve de fome tratou ou se está tratando algum atualmente.

Um dos principais colaboradores de SMO no hospital é o dr. J., chefe do serviço de psiquiatria. Seu trabalho aqui, ele afirma, é semelhante ao de qualquer outra clínica do mundo: depressões, problemas de sono… 20% dos presos de Guantánamo receberam em algum momento algum tipo de tratamento psiquiátrico; só alguns tiveram necessidade de ser internados “conforme os mesmos critérios de internação seguidos nos EUA”.

Em geral, segundo o dr. J., a saúde mental dos presos de Guantánamo é “melhor do que se poderia suspeitar”. Ele atribui isso principalmente aos fortes laços afetivos que existem entre quase todos os detidos. “Talvez por suas crenças religiosas, talvez porque se conhecessem em seu lugar de origem”, explica o psiquiatra, “a verdade é que se apóiam muito entre si, mantêm o espírito elevado”. “Quando chegam más notícias para algum”, acrescenta, “os outros estão ao seu lado para consolá-lo e acompanhá-lo.” Às vezes, segundo o médico, os próprios presos o procuram para lhe dizer que algum “irmão” -como se chamam entre eles- está com problemas.

Cerca de 80 presos que contam com luz verde para serem transferidos para outros países esperam em Guantánamo que tenham êxito as solicitações que o Departamento de Estado realiza para buscar um lugar de destino. Deve-se reconhecer que soa hipócrita quando os responsáveis lamentam que esses 80 tenham de continuar aqui porque não se pode aceitar sua transferência para um país que não cumpra as normas básicas de respeito aos direitos humanos.

Quem sabe se acreditam nisso ou repetem por ofício, mas os chefes de Guantánamo dizem agir em nome da liberdade e da democracia. Se não crêem, porque mostram?

El País
http://www.elpais.com/

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Na prisão da vergonha - parte 2

Antonio Caño

Nesses interrogatórios, segundo seu responsável, se indaga sobre uma ampla gama de objetivos: conversas, lugares, nomes pelos quais se pergunta várias vezes durante dias e dias, semanas e semanas, meses e meses, tentando vencer a resistência (quem sabe a ignorância) dos presos. Segundo Rester, “com muitos deles chegamos a encontrar um terreno comum, chegamos a concordar que estamos em desacordo”.

O Departamento da Defesa dos EUA afirma que os presos de Guantánamo, ou a maioria deles, se comportam de acordo com o que é conhecido como Documento de Manchester, um suposto manual de instruções da Al Qaeda encontrado pela polícia britânica na cidade de Manchester em 2000 no computador de um suspeito de atividades terroristas.

Na linguagem oficial de Guantánamo, neste campo de prisioneiros estão frente a frente a Convenção de Genebra e o Documento de Manchester. Este repórter não tem provas para afirmar que os presos obedeçam a esse suposto manual. Também não encontrou -esta visita à prisão foi organizada pelo Pentágono e realizada sob meticulosa atenção de responsáveis militares- provas que sustentem as diversas denúncias sobre torturas feitas por muitos presos libertos e as queixas apresentadas por alguns advogados de detidos. Mas é uma realidade que os EUA não cumprem a Convenção de Genebra com os presos de Guantánamo.

De fato, nem sequer são oficialmente chamados de presos ou prisioneiros, para não lhes outorgar a situação jurídica de prisioneiros de guerra. Oficialmente são só “detidos”, aos quais, por generosidade de seus captores, “são tratados humanamente conforme o espírito da Convenção de Genebra”, como afirma o responsável máximo por tudo o que se faz aqui, o chefe da Base Naval de Guantánamo, contra-almirante Mark Buzby.

O espírito de Genebra parece ser entendido aqui, porém, de forma bastante frouxa. A Terceira Convenção de Genebra estabelece pelo menos dez direitos dos quais os presos de Guantánamo não desfrutam: 1. Responder só seu nome, patente e número de identidade. 2. Manter objetos pessoais. 3. Estar aquartelados nas mesmas condições que os captores. 4. Acesso a refeitório. 5. Exibir símbolos nacionais. 6. Trabalhar em condições apropriadas. 7. Receber pagamento por esse trabalho. 8. Ter representantes diante de diversas entidades. 9. Ser julgados só diante de tribunais militares. 10. Ser libertados e repatriados quando o conflito tiver terminado.

Alguns dos presos, em função das circunstâncias, também são privados do direito de realizar atividade física e de ter acesso a banho e asseio, ambos também estabelecidos pela Convenção de Genebra.

O contra-almirante Buzby, porém, mostra-se satisfeito com a forma como está dirigindo Guantánamo. Afirma que não quer ocultar nada. Ao contrário. “Quero a verdade e toda a verdade sobre o que acontece aqui”, afirma. “Quero que venham todas as pessoas que puderem e vejam com seus próprios olhos. Gostaria que comprovassem que muitas das coisas negativas que se dizem de Guantánamo não são verdadeiras.”

O chefe da base defende o trabalho de seu pessoal -cerca de 5 mil homens e mulheres-, que segundo ele se desenvolve em condições muitas vezes adversas -”é difícil atuar com tranqüilidade em uma situação na qual freqüentemente estão lhe dizendo ‘vou matá-lo’, ‘vou matar sua família’, ‘vamos matar todos os americanos’”- e afirma, com ligeiro ceticismo, que “o tempo se encarregará de demonstrar se a decisão de abrir esta prisão foi certa”.

Enquanto isso, até que o tempo dê a sentença, o que vai acontecer aqui? Buzby afirma que “a maioria dos presos sabe que não vai passar o resto da vida aqui”. “Talvez não todos, mas a maioria sabe que não vai passar a vida inteira aqui”, afirma.

Fora as impressões do contra-almirante, é inegável que todo o edifício jurídico construído pelo governo Bush a propósito de Guantánamo desmoronou e que os presos ainda não sabem de que são acusados, nem quando e por quem serão julgados. Muito menos que possibilidades têm de ser libertados.

Enviamos estas perguntas a um escritório no interior do campo de prisioneiros Delta, dirigido pelo capitão Ted Fessel, responsável pelo que se conhece como Escritório para a Revisão Administrativa da Detenção dos Combatentes Inimigos (OARDEC na sigla em inglês).

O capitão Fessel se encarrega de constituir os tribunais administrativos nos quais se decide se o detido corresponde ou não à categoria de “combatente inimigo”, o que se entende, nas palavras do oficial, como “alguém que representa uma ameaça para os EUA ou seus aliados”. Uma vez por ano são constituídos, também sob seu controle, outros tribunais de supervisão que decidem sobre o grau de periculosidade do preso (alto, médio ou baixo) e, em conseqüência, se recomenda sua continuidade na prisão, sua transferência para outro país ou sua libertação.

Esse procedimento corresponde a uma fase administrativa. Eventualmente, esses presos serão julgados por comissões militares de acordo com os códigos da justiça militar americana. Mas todo esse esquema está hoje seriamente ameaçado por uma sentença pendente da Suprema Corte dos EUA e pela decisão de dois juízes militares que se negaram a julgar os presos por um defeito formal em sua classificação como “combatentes inimigos”, quando, de acordo com a lei, deveriam ter sido acusados de “combatentes inimigos ilegais”.

Neste momento, Fessel e toda a sua equipe estão procurando a maneira de sanar esses defeitos formais por meio de novas acusações, e sentem na nuca o hálito de um governo que quer seguir adiante com essa montagem seja como for. “É verdade que se detecta em Washington um apetite para saber se há mais provas, se é possível obter mais”, reconhece o capitão. Segundo ele, os tribunais de revisão administrativa têm poder para reconsiderar as acusações feitas anteriormente.

O caso é que todo o imbróglio pode desmoronar a qualquer momento e deixar em evidência a ilegalidade dessas detenções. Mas até que chegue esse momento, se chegar, o capitão Fessel e outros em Guantánamo continuam fazendo seu trabalho e defendendo o sentido desse esquema sem precedentes na história.

Fessel nega que os presos não saibam de que são acusados. Afirma que cada detido que comparece diante dos tribunais administrativos é posteriormente informado da decisão tomada em relação à sua situação e seu futuro. Explica que se foi necessário recorrer a uma situação tão excepcional como Guantánamo é porque “nos vimos diante de um tipo de detidos que nunca existiu na história, que não vestem uniforme, não pertencem a nenhum país, não podem ser classificados como prisioneiros de guerra nem podem ser julgados como criminosos nos EUA”.

O capitão Fessel confessa ao jornalista, com um gesto de orgulho, que todos os dias, quando vai dormir, se encontra um pouco mais satisfeito por “fazer as coisas da forma mais justa possível”.

Outras instâncias judiciais e políticas nos EUA já estão revisando se essa é a forma mais justa possível, mas nem o capitão Fessel nem seus colaboradores podem negar, dentro de seu próprio e discutível sistema de justiça, buracos tão enormes como os seguintes:

- Muitos presos realmente já conhecem sua posição. Mas alguns outros ainda não.

- É impossível saber quantos estão em cada situação porque o número exato de detidos, assim como seus nomes, continua sendo considerado um segredo. Por isso, tecnicamente, em Guantánamo continua havendo desaparecidos.

- Os detidos não podem ser assessorados por advogados nem podem apresentar testemunhas em seu favor nesses tribunais administrativos nos quais se decide seu futuro.

- Aqueles para os quais é recomendado um processo estão à espera de um sistema que ainda não está estabelecido.

- Aqueles para os quais ainda não se pede um processo, mas tampouco sua libertação, simplesmente não têm um horizonte legal. “Depende de como anda a guerra”, afirma Fessel; “a melhor maneira de podermos libertá-los sem medo de que voltem a combater é que não existam mais grupos aos quais eles possam se unir para combater”.

- Inclusive aqueles para os quais é recomendada a libertação ou a transferência continuam sendo presos até que algum país aceite recebê-los, com o que se transformaram em uma espécie de seqüestrados à espera de um resgate.

Apesar da fragilidade jurídica do sistema, todos os sinais que se detectam em Guantánamo indicam que o governo Bush por enquanto não pretende atender às numerosas solicitações a favor de seu fechamento.

El País
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Na prisão da vergonha - parte 1

EL PAÍS percorreu a implacável máquina de Guantánamo. Desde o chefe dos interrogadores até o contra-almirante falam, e seus métodos são descobertos

Antonio Caño

Depois de ter dirigido ou analisado cerca de 30 mil interrogatórios, Paul Rester acredita saber algo sobre os presos de Guantánamo.

Meio mundo o qualificaria simplesmente como o chefe dos torturadores, mas Rester ocupa o cargo de diretor do Joint Intelligence Group (grupo conjunto de inteligência), ou JIG, e certamente é a pessoa que mais sabe sobre os presos de Guantánamo. Por isso, seu escritório no segundo andar do quartel-general da base americana nesta baía no sudeste de Cuba é um dos mais solicitados e menos acessíveis de todo o complexo.

Seu nome só veio à luz depois que ele concordou em dar uma entrevista exclusiva à rede de televisão ABC para negar que seus interrogadores praticam tortura. Documentos revelados recentemente mostram que é muito possível que o atual governo americano permita que os detidos sejam submetidos a danos como hipotermia, privação do sono ou simulação de asfixia, sem considerar que isso seja legalmente tortura. Mas a verdade é que Paul Rester, um civil, insiste a EL PAÍS que nem ele nem seus homens -270 fixos e diversos convidados- torturam.

“Não somos torturadores. Estou aqui cercado de todos esses manuais que definem estritamente as condições de nosso trabalho. E digo categoricamente que não torturamos. O fato de os detidos não serem reconhecidos como prisioneiros de guerra não impede que respeitemos o espírito da Convenção de Genebra”, afirma o diretor do JIG.

Esta reportagem vai se aprofundar mais adiante nas condições de vida dos presos (as que são visíveis) e nas numerosas denúncias apresentadas contra a versão desse funcionário. Mas Paul Rester decidiu correr o risco de revelar sua identidade, depois de 40 anos dedicados à inteligência militar, para defender sua missão em Guantánamo.

E defendê-la não só em relação ao tratamento dos presos, mas quanto ao valor da informação que estes revelam a cada dia. Homem áspero e de poucas palavras, Rester não se preocupa com o rumo jurídico que Guantánamo possa tomar, nem com a sorte dos presos. “Eu não estou aqui”, ele afirma, “para obter informação que permita declará-los culpados, não estou aqui para satisfazer os desejos de promotores nem de ninguém. Só estou aqui para obter informação útil para a segurança nacional.”

Essa informação, cuidadosamente esmiuçada e comparada com outras fontes -Rester viaja com freqüência ao Oriente Médio-, é enviada “aos que devem conhecê-la”. Cerca de mil pessoas do sofisticado aparelho da inteligência e da segurança americanas lêem diariamente as informações que ele consegue. O uso que farão posteriormente delas está fora da responsabilidade desse homem.

Muitos nos EUA duvidam de que os detidos, depois de vários anos aqui (um número considerável dos presos atuais chegou pouco depois que a prisão foi aberta, em janeiro de 2002), forneçam alguma informação valiosa sobre potenciais ameaças contra esse país, mesmo aceitando que se tratem dos perigosos terroristas que seus captores dizem que são.

Rester acredita que sim. “Não continuaríamos com os interrogatórios se não tivéssemos ainda muitas perguntas concretas para fazer em busca de respostas concretas”, afirma. Nas celas de Guantánamo se realizam por semana entre 80 e cem interrogatórios. Entre 40 e 50 presos são interrogados nesse período, alguns deles várias vezes. “Quatro ou cinco se negam a ser interrogados e alguns se oferecem voluntariamente”, afirma o diretor do JIG. Segundo seus cálculos, só 110 ou 120 dos cerca de 330 presos que restam atualmente na base militar são submetidos periodicamente a interrogatórios. Os demais já perderam todo o valor para a inteligência americana, mas continuam sendo formalmente “perigosos” demais para ser libertados.

Não há mais detalhes sobre a categoria dos presos ou seu grau de importância dentro do novo organograma terrorista que se tenta investigar. A única coisa que um dos porta-vozes -anônimo, como a grande maioria das pessoas com as quais se fala em Guantánamo- afirma é que “nem todos foram detidos porque usavam turbante ou um fuzil AK-47″ e que, obviamente, entre os presos mais “valiosos” estão os 14 que foram transferidos para cá há um ano de prisões secretas da CIA, especialmente Khalid Sheik Mohamed, que em março passado se declarou o organizador dos ataques de 11 de setembro de 2001.

Rester não divulga, é claro, a informação obtida de Mohamed e de outros, mas afirma que os interrogatórios permitiram conhecer com maior precisão a rede terrorista criada no Afeganistão pela Al Qaeda e em torno do governo taleban. Esses dados, segundo ele, são muito úteis para enfrentar a ameaça global do terrorismo. Sem dar detalhes, o diretor do JIG explica que os presos confessaram pertencer a uma estrutura bem planejada, na qual “cada um estava separado três degraus de seu companheiro mais próximo”. “Aqui tentamos reconstruir essa estrutura através de alguém que conhece alguém que por sua vez conhece alguém…”

O chefe dos interrogadores diz enfrentar um grupo compacto e bem preparado de presos, no qual existem líderes que planejam cuidadosamente suas táticas na prisão e que “sabem que Guantánamo é apenas outra parte do campo de batalha onde devem lutar”. Nesse âmbito, embora oficialmente não tenham se repetido casos tão graves como a greve de fome de 2006 ou os três casos de suicídio do ano seguinte, os presos organizam de forma periódica atos de protesto (”esta semana nos negamos a fazer tal coisa e na seguinte outra”, explica Rester), insultam ou ameaçam seus guardiões. O maior perigo para estes são os chamados coquetéis, feitos de um punhado de excrementos. Agora os guardas têm o rosto protegido por uma tela plástica -semelhante à utilizada pelos policiais antidistúrbios- para evitar os impactos dessa munição peculiar.

Rester se nega a descrever as condições exatas dos interrogatórios. Os guardas mostram para o jornalista uma pequena sala sem nada que chame a atenção além de duas câmeras para gravar o que acontece ali e uma poltrona na qual o preso permanece amarrado a uns ganchos. Mas, fora o possível uso de violência física por parte dos interrogadores, ficam muitas perguntas sem respostas: a que hora ocorrem os interrogatórios? Como os presos estão alimentados nesse momento? Em que condições psicológicas os detidos enfrentam o momento dos interrogatórios? Que linguagem ou ameaças os interrogadores utilizam?

El País
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Museus, pilhagem colonial e reparações

Prevista pela ONU e cada vez mais reivindicada pelos países do Sul, a restituição do patrimônico histórico roubado pelos colonizadores é um direito. Que fazer para levá-lo à prática?

Bernard Muller

Ao longo deste primeiro ano de existência, o museu do Quai Branly, em Paris — ou museu das artes e civilizações não-ocidentais da África, Ásia, Oceania e Américas — conheceu um imenso sucesso. Disputaram espaço em suas salas 1,7 milhão de visitantes e centenas de pesquisadores. Em 20 de junho de 2006, as festividades de inauguração marcaram a apoteose de um processo que afetou, em diversos graus, a quase totalidade dos museus de arte e civilização não-ocidentais das antigas potências coloniais. A festa foi bela, as intenções foram louváveis. Era preciso se beliscar para não sucumbir à tentação de acreditar que a França renovava seu papel de mensageira universal da paz, à altura dos princípios humanistas de que ela se gaba com tanta freqüência.

De fato, o passado ressurge em nossos dias de maneira impressionante: enquanto a conquista, o trabalho forçado e a administração colonial são trazidos à ordem do dia por várias associações e movimentos militantes, com o objetivo de elucidar o processo de colonização, os objetos coletados durante esse período suscitam um entusiasmo sem precedentes. Acompanhando tal fenômeno, quase todos os museus de artes e civilizações não-ocidentais se renovam. Desde 2000, o British Museum dedica novos espaços às coleções etnográficas. O Dahlem Museum de Berlim desenvolveu um projeto inédito, que permite redescobrir coleções que a guerra fria havia dispersado. A França inaugurou, como se viu, o museu do Quai Branly.

Espera-se que os museus de arte e civilização não-européias, renovados e em sintonia com o mundo de hoje, transformem-se em um espaço de discussão, em uma “zona de contato”. [1]. Ela seria capaz de fomentar debates que envolverão as sociedades de onde vieram os objetos ali expostos, na esperança de abordar sem complexos o dilema pós-colonial. Esperamos, portanto, que o tratamento por qual passam os museus em questão convide a uma nova maneira de perceber os laços que unem as nações contemporâneas num mundo alarmado pelo “choque de civilizações” [2] especialmente entre o Norte e o Sul, para além do disfarce etno-turístico da diversidade cultural.

Restituição do patrimônio é determinada por resolução da ONU
A natureza dos objetos conservados pelos museus e, sobretudo, o contexto em que foram incorporados, oferecem uma oportunidade única para abrir dessas discussões, que deveriam gerar conseqüências concretss e práticas. A grande maioria dos objetos foi coletada entre 1870 e a I Guerra Mundial, período que coinciede com a conquista colonial. Em 1880, os europeus controlavam apenas 35% da superfície do planeta; em 1914, essa proporção já era de 84,4 %. Ainda mais grave: um bom número desses objetos foi saqueado durante campanhas militares. Eles não falam somente da cultura dos “outros” mas também de um capítulo complexo da história humana de que são o vestígio.

Um forte sinal dessa vontade de cooperação poderia ser o reconhecimento simbólico do caráter, hoje problemático, da presença de espólios de guerras coloniais nas coleções de museus das antigas metrópoles.

Esses saques permanecem vivos na memória dos povos outrora colonizados, como testemunhos da criatividade artística que eles possuem ainda hoje. É natural que as sociedades que fabricaram os objetos desejem ter acesso a eles, para descobrir a própria história. O preâmbulo da resolução 42/7 votada pela ONU, em 1987, versa sobre o tema: “A devolução dos bens culturais de valor espiritual e cultural a seus países de origem é de capital importância para os povos envolvidos, para que se construam coleções representativas de seu patrimônio cultural” [3].

O caráter explosivo da questão provoca algumas iniciativas: a água começa a furar a pedra. De forma ainda tímida, mas determinada, os mesmos museus que assinaram a “Declaração sobre a Importância e o Valor dos Museus Universais” organizam encontros, colóquios e exposições que permitirão gradativamente desenhar os contornos do conflito.

Parece cada vez mais urgente a abordagem da questão da posse dos bens culturais em mãos dos museus do Norte e a espinhosa questão de sua devolução. Abdul Diuf, secretário geral da Organização Internacional da Francofonia, afirmava que “o problema da restituição, freqüentemente apresentado de forma polêmica, merece um tratamento razoável, como prevê a resolução de “Retorno ou restituição dos bens culturais a seus países de origem”, adotada pela ONU em dezembro de 2002” [4].

Cresce, nos países do Sul, o movimento pela restituição
Na África, o movimento a favor da reparação e da restituição dos bens culturais espoliados desenvolveu-se no início dos anos 80. Foi retomado no início da década de 90, quando a Organização para Unidade Africana adotou o princípio da “reparação”, principalmente sob a forma de indenização, pela escravidão e o colonialismo. Durante o encontro de 1992, os chefes de Estado africanos criaram um grupo de especialistas — co-presidido por Moshod Abiola [5] e o antigo diretor da UNESCO, Amadou-Mahtar M’Bow — encarregados de estudar a questão. Essa iniciativa resultou, em abril de 2003, na Proclamação de Abuja. Ela refere-se à “dívida moral” e à “dívida compensatória” devida à África pelos países envolvidos nos negócios negreiros, no colonialismo e no neo-colonialismo. Exige o retorno dos bens roubados e dos tesouros tradicionais. Convencida de que os danos sofridos pelos povos africanos não são “coisa do passado” e de que muitas pilhagens, roubos e apropriações foram impostas aos povos africanos, a Proclamação convida aqueles que estão em posse desses bens espoliados a restituí-los a seus proprietários legítimos. A Proclamação incita a comunidade internacional a reconhecer a dívida moral sem precedentes que é devida aos povos africanos [6].

A questão do retorno e da restituição dos bens culturais africanos foi até mesmo inscrita no plano estratégico da comissão da União Africana para 2004-2007.

Nesse sentido, os pedidos de restituição conheceram um crescimento importante a partir da década de 1980, e parece razoável pensar que aumentaram paralelamente à visibilidade nos museus. Deve-se lembrar que a Nigéria pediu, desde o início dos anos 1980, a restituição, por parte do Reino Unido, de centenas de placas de bronze que evocam a história do reino Edo e foram saqueadas durante a exposição de 1897. A Etiópia reclama do mesmo Estado a devolução de objetos saqueados, em 1868, durante o cerco de Magdala. Os descendentes de Béhanzin, “último” rei de Abomey (República do Benin), deposto pelos franceses, em 1892, pediram, por meio de requisição endereçada ao governo (pela deputada francesa Christiane Taubira), em 18 de novembro de 2005, a restituição do tesouro real, hoje mantido no museu do Quai Branly.

Uma associação internacional reclama ao governo austríaco a devolução da coroa do rei asteca Montezuma (México), levada por soldados de Hernán Cortés, em 1519, e hoje mantida no Museum für Völkerkunde de Viena. O Egito exige da Alemanha a devolução do busto de Nefertiti. A China Popular pede a devolução dos objetos pilhados durante o saque do palácio de verão, feito em conjunto por tropas inglesas e francesas durante a guerra do ópio, em 1860. A Coréia reclama a restituição de 297 volumes de manuscritos saqueados do arquivo real, em 1866, por militares franceses e, hoje, guardados na Biblioteca Nacional da França. Nos farrapos de um outro império, o Japão deve também enfrentar diversos pedidos feitos pelos governos de suas antigas colônias, como a Coréia. Em 2005, Tóquio devolveu à Coréia do Norte o “monumento à grande vitória” de Pukgwan, levado pelos japoneses em 1905, por ocasião da conquista da península.

Estranho argumento dos museus do Norte para manter as coleções
Apesar da complexidade jurídica para a transferência de um objeto inalienável de um patrimônio a outro, a restituição é possível. Ela já foi feita diversas vezes e certos objetos fizeram o caminho de volta. O selo do dei de Argel, saqueado pelo exército francês durante a tomada dessa cidade, em 1830, foi entregue ao presidente Abdelaziz Boutéflika por Jacques Chirac, em 2 de março de 2003. Em 1954, foi devolvido à Tanzânia o crânio do sultão Mkwaka, que enfrentou um batalhão do exército alemão e foi levado à Alemanha como troféu em 1898. O tratado de Versalhes, de 1918 previa a restituição. Uma parte do tesouro da Ilha de Lombok, onde reinavam as famílias principescas de Bali, foi devolvida à Indonésia pela Holanda, em 1977, depois de ter sido roubada em 1893.

A resposta dos museus da Europa à multiplicação dos pedidos é, no entanto, inequívoca. A “Declaração sobre a importância e o valor dos museus universais”, redigida em dezembro de 2002 e assinada por 19 diretores de alguns dos principais museus do mundo (entre eles o British Museum, o Louvre, o Metropolitan Museum of Art de New York, o Prado de Madri, o Rijksmuseum de Amsterdam e o Hermitage de São Petersburgo) é edificante. Os signatários chegam a colocar ênfase na “natureza destruidora da restituição dos objetos”, acrescentando, em seguida, que “os museus são agentes do desenvolvimento cultural, cuja missão é encorajar a produção de conhecimento, mantendo um processo permanente de reinterpretação. Não estão a serviço dos cidadãos de uma só nação, mas dos povos de todas as nações”.

Afirmar-se a impossibilidade de receber pedidos de restituição apelando ao princípio da universalidade, de inspiração humanista, em que se fundam os museus.

Os pedidos de restituição encontram uma resposta mais favorável junto às instituições transnacionais. Desde 1907, a convenção de Haia sobre os Costumes e Leis da Guerra Terrestre estipula em seu artigo 28 que “é proibido entregar à pilhagem uma cidade ou localidade, ainda que tomada de assalto”. A Convenção para a Proteção dos Bens Culturais em caso de Conflito Armado, ratificada em 1954, em Haia, depois das maciças destruições infligidas aos bens culturais pela II Guerra Mundial, foi o primeiro instrumento internacional de âmbito universal exclusivamente focado na proteção do patrimônio cultural. Mais recentemente, o Código de Deontologia do Conselho Internacional dos Museus (ICOM) publicou uma declaração clara, cujo artigo 6.1 estipula que “se uma nação ou comunidade de origem pede a restituição de um objeto ou espécime que foi exportado ou, de qualquer forma, transferido em desacordo com os princípios das convenções internacionais e nacionais e que se saiba parte do patrimônio cultural ou natural desse país ou comunidade, o museu em questão deve, se existe possibilidade legal, apressar-se em tomar as medidas necessárias para facilitar o retorno do bem [7].”

Um problema: como restituir patrimônio a ditaduras?
Pergunta-se hoje se a comunidade internacional abordará um dia as espoliações coloniais com a mesma seriedade com que se aborda a espoliação dos bens culturais judeus [8]. Para que isso aconteça será necessário que se admita que a conquista foi uma guerra e não uma sucessão de expedições visando a pacificação.

Por que não devolver esses objetos àqueles que os pedem? Tal gesto, certamente, relaxaria as tensões. Seria interpretado como a expressão autêntica de uma vontade de cooperação universal verdadeiramente humanista. O reconhecimento do princípio da restituição está inscrito num processo que visa o reconhecimento de uma responsabilidade moral e histórica. Esse trabalho de memória não deve se limitar a fingir um arrependimento de bom tom, mas implicar ativamente todos os agentes da exploração colonial. Aliás, é impossível negar a legitimidade moral dos pedidos de restituição dos saques de guerra, uma vez que “o colonialismo foi uma perversão que se apossou de um discurso civilizador para justificar suas conquistas” [9].

Para fazer sentido, o retorno ao passado que o debate sobre a restituição dos saques permite não deve vir somente dos países ocidentais. Deve envolver também os agentes locais do mecanismo de exploração colonial, que ainda hoje estão à frente de ditaduras. Seria inadequado oferecer um pedido de desculpas ou restituir os saques a representantes de Estados sangüinários e obscurantistas. Mas o fato de eles não representarem a população não prejudica a legitimidade dos pedidos. Então o que fazer? Como sair desse impasse a não ser afirmando a universalidade desse patrimônio? Não seria necessário colocar os objetos da polêmica na lista do patrimônio universal, de maneira a garantir que juridicamente não pertençam a ninguém? Essa lista seria feita por comissões internacionais que incluíssem, evidentemente, os representantes dos interessados, os curadores dos museus das antigas colônias e, sobretudo, os agentes da cena cultural dos países envolvidos.

Tais comissões deveriam estudar as restituições caso a caso e, principalmente, organizar exposições itinerantes que permitam fazer circular os objetos. Um exemplo é a recente exposição “Behanzin, rei de Abomey” organizada conjuntamente, entre dezembro de 2006 e março de 2007, pelo museu do Quai Branly e a fundação Zinsou [10] em Cotonou, República do Benin, concomitante ao centenário da morte do soberano. Ou ainda a exposição “Reis e rituais do Benin: a arte da corte nigeriana” [11], que começou em maio, no Museum für Völkerkunde de Viena, onde permanece até setembro de 2007, reunindo mais de 300 objetos da corte do reino Edo (atual Nigéria) pilhados pelos ingleses em 1897, e que se espera visite também a África. Essa exposição não tenta esconder o contexto colonial em que os objetos foram coletados.

Três princípios: afirmação da verdade, reparação e reconciliação
Para atender aos objetivos de uma verdadeira “restituição”, com valor simbólico e como forma de conhecimento, essas exposições devem ser acompanhadas de projetos pedagógicos. Tal processo implica reconhecer a utilidade dos museus do Sul e seu suporte por meio de financiamentos adequados, que em parte poderia vir de um imposto sobre os lucros auferidos no mercado de arte não-européia. O processo deve dar grande importância à difusão de informações inerentes aos objetos: arquivos, bancos de dados, publicações — que em muitos casos permanecem inacessíveis.

É fundamental que as novas gerações do Norte e do Sul tenham acesso aos frutos da pesquisa e da conservação realizadas pelos museus do Norte. Para ter crédito, os “museus universais” devem realmente prover os meios para a circulação de seus projetos museográficos. Antes que o interesse das novas gerações se apague totalmente e fique um vazio na memória coletiva, tornado ainda maior na ausência de tais objetos.

O importante é retirar esses objetos da letargia do museu, desse limitador etnológico e estético, tornando possível diversas e contraditórias reapropriações, encorajando a multiplicidade de pontos de vista. É essencial trazê-los à luz por meio de um debate construtivo que se apóie mais no princípio da reconciliação que no de reparação, de maneira a evitar que as pilhagens das guerras coloniais e os objetos dos outros se tornem armas de enfrentamento, com o risco de transformar o museu universal em espaço de confronto generalizado.

É preciso, como disse o escritor nigeriano Wole Soyinka, “encontrar respostas que permitam atingir os três objetivos incontornáveis para que algo parecido com a paz possa se instalar no século 21 multicultural: a afirmação da verdade, a reparação e a reconciliação” [12]

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[1] James Clifford, Routes: Travel and Translation in the Late Twentieth Century, Harvard University Press, Cambridge, 1997. Ainda sem tradução para o português.

[2] Samuel Huntington, O choque de civilizações, Editora Objetiva, São Paulo, 2001, 456 páginas. R$ 54,90.

[3] ONU, “Resolução 42/7 : Retorno ou restituição dos bens culturais a seus países de origem”, (42ª sessão : 21 setembro a 21 dezembro de 1987, comunicado à imprensa GA/7612 de 29 de janeiro de 1988).

[4] Atas do colóquio organizado no senado francês, em 28 de março de 2003

[5] Moshood Abiola foi o efêmero presidente da Nigéria que governou o país de 6 a 31 de julho de 1993.

[6] Ler mais em http://www.awrrtc.org/the-accra-declaration.php

[7] O Código de Deontologia foi adotado por unanimidade pela Assembléia Geral da ICOM, reunida em Buenos Aires, Argentina, em 4 de novembro de 1986, modificado pela 20ª Assembléia Geral, em Barcelona, na Espanha, em 6 de julho de 2001, e revisado na Assembléia Geral de Seul, na Coréia do Sul, em 8 de outubro de 2004. Ver http://icom.museum/ethics_fr.html#debut

[8] Leia mais: http://icom.museum/spoliation_fr.html#resolution

[9] Tzvetan Todorov, “L’esprit des Lumières a encore beaucoup à faire dans le monde d’aujourd’hui”, Le Monde, 4 de março de 2006

[10] Ler mais em http://www.fondation-zinsou.lescorsaires.be

[11] Ler mais em http://www.ethno-museum.ac.at/en/frameset.html

[12] Wole Soyinka, The Burden of Memory and the Muse of Forgiveness, Oxford University Press, 1999. Ainda sem tradução para o Português.

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

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