Arquivo de 7 de Novembro de 2007

Entre a feijoada e o chucrute

Criado conforme o modelo original, partido nazista no Brasil foi “se amolecendo, se abrasileirando, se tropicalizando”, diz pesquisadora

Carlos Haag

Quando se fala em nazistas no Brasil, a imagem que nos vem à cabeça é de um bando ridículo de gaúchos louros levantando o braço direito em meio à fumaceira de um churrasco. Em verdade, a presença nazista foi menos folclórica e de uma importância política notável, em especial para a consolidação do Estado Novo varguista, que completa, neste ano, 70 anos. Nazismo tropical? “O partido nazista no Brasil”, tese de doutorado de Ana Maria Dietrich, recém-defendida na Universidade de São Paulo, traz novas luzes sobre um velho chavão. Pesquisando em arquivos alemães, entrevistando antigos militantes do partido no país e até as filhas do Führer tupiniquim, Hans Henning von Cossel, o chefe da célula nazista brasileira, Ana descobriu que mesmo o nazismo é passível de tropicalização quando abaixo do Equador. “Essa tropicalização ocorreu de acordo com as nuances que a realidade brasileira impôs ao nazismo. Assim foi possível aos alemães e descendentes ao mesmo tempo comemorar o aniversário de Hitler e uma Festa de São João, tomar cerveja alemã e comer canjica”, explica a pesquisadora.

Esse é o lado anedótico do nazismo à brasileira, mas há fatores mais importantes e igualmente desconhecidos: o partido nazista brasileiro funcionou por dez anos no país, atuando em 17 estados brasileiros (incluindo-se improváveis Bahia, Pará e Pernambuco), com 2.900 integrantes, um contingente só superado pelo partido na Alemanha. Dos 83 países que tiveram uma “filial” do NSDAP hitleriano, o Brasil ocupa o primeiro lugar, na frente da Áustria, país natal do Führer. Aliás, antes mesmo de Adolf chegar ao poder, em 1933, o partido nazista já existia por aqui. Em 1928, antecedendo em cinco anos a ascensão de Hitler, foi criado um grupo em Benedito Timbó, Santa Catarina, não só a primeira célula estrangeira do país, como a primeira do movimento nazista no exterior. Assim como o comunismo preconizava sua internacionalização, nazistas, seus rivais, queriam o mesmo. “O partido nazista no Brasil era para a Alemanha muito mais importante do que para o Brasil. Enquanto o governo brasileiro não se incomodou por dez anos com sua existência, o governo hitlerista fez dele o representante do povo alemão em território brasileiro e as ações contra este partido tinham conseqüências diretas nas relações com o Brasil”, observa Dietrich. Sua articulação e controle eram feitos pela Auslandorganisation der NSDAP (Organização do partido nazista no exterior, ou A.O.), cujo chefe, Ernst von Bohle, estava diretamente subordinado a Rudolf Hess, o segundo da hierarquia nazista, e tinha o mesmo status de dirigentes como Joseph Goebbels. O mandamento central da A.O. era a manutenção do Deutschtum, a “germanidade”, dos alemães no exterior, que não deveriam se misturar com os estrangeiros ou usar a língua local. “Em contrapartida, como solidariedade a Gastland (terra de hospedagem), os países onde estavam as comunidades de alemães, não era permitida aos partidários a participação na política local. Os nazistas deveriam se manter neutros com relação à política interna e não poderiam divulgar suas idéias aos nativos”, nota a pesquisadora.

A propaganda apelava à responsabilidade do alemão no exterior com sua pátria. “A Alemanha de Hitler resgatava e oficializava o sentimento de ‘pertencimento’ do povo alemão à nação alemã, cujas origens remontam ao pangermanismo e ao anti-semitismo eliminacionista germânicos manifestos desde a segunda metade do século XIX”, afirma a historiadora Maria Luíza Tucci Carneiro, diretora do Laboratório de Estudos sobre a Intolerância, da Universidade de São Paulo (USP). A eleição de Hitler, em 1933, contou com preciosos votos desses “hóspedes”, inclusive brasileiros. A suástica, porém, não abrigava todos. Um dos fatores da tropicalização, observa Dietrich, era que os “alemães puros” eram considerados superiores aos teuto-brasileiros, a geração nascida nos trópicos. Essa divisão seria a perdição nazista: “A criação de um movimento fascista à brasileira, o integralismo, se expandiu e despertou fascínio na comunidade teuto-brasileira, com inúmeras adesões, pois, na década de 1930, o integralismo atraiu, pelo seu conteúdo ideológico, muitos alemães e descendentes, em especial os ‘desprezados’ pelo nazismo internacional por suas origens mistas”, nota a autora.

Mas, como tudo que é nazista, há situações folclóricas. Num espírito digno dos nazistas hollywoodianos de Indiana Jones, houve expedições do Reich ao Brasil, visto como um laboratório racial, com o objetivo de verificar as condições de colonização da raça branca em terras tropicais. Em 1936, lembra Dietrich, o Instituto Tropical de Hamburgo enviou um grupo de cientistas germânicos para estudar as populações alemãs que viviam no Espírito Santo. Receberam auxílio do governo brasileiro e apoio de Henrique da Rocha Lima, segundo a pesquisadora, saudado pelos nazistas como “nosso velho amigo, o professor”. Rocha Lima (que recebeu uma comenda das mãos do Führer) participou ativamente dos estudos sobre a febre amarela com Oswaldo Cruz e esteve à frente de Manguinhos, quase levando um Nobel por seus estudos sobre uma variante de tifo transmitido por piolhos aos combatentes em trincheiras. O resultado da pesquisa capixaba mostrou que “a raça ariana poderia sobreviver bem nos trópicos, desde que evitada a mistura com a população local”. Dentro do espírito do Lebensraum (a busca do “espaço vital” via expansionismo militar), o Brasil tinha potencial, embora, nas palavras do próprio Führer, “não vamos desembarcar tropas e conquistar o Brasil com armas na mão. As armas que temos, para a ação no exterior, são as que não se vêem”. A Amazônia igualmente interessava ao Reich. Entre 1935 e 1937, outra expedição percorreu o rio Jari até a fronteira com a Guiana Francesa, resultando num documentário sobre o “enigma do inferno da mata”, feito pela UFA, o célebre estúdio cinematográfico alemão. Houve a “tentativa de fazer amizade entre alemães e índios”, sem falar nas caixas de peles de animais, esqueletos, fósseis e milhares de artefatos arqueológicos levados para a Vaterland, em sigilo, para análise posterior. Até hoje uma cruz de madeira amazônica, com a suástica, marca o lugar onde está enterrado Josef Greiner, intérprete do grupo nazista.

Segundo Dietrich, o partido brasileiro tinha ligação direta com o Reich e designou Hans von Cossel para chefiar a célula nacional, a partir de São Paulo. Ele viajava com freqüência para a Alemanha, onde foi apresentado a Hitler e elogiado por Joachim von Ribbentropp, o ministro das Relações Exteriores do III Reich, como “um dos mais bem afortunados e confiáveis chefes nacionais do NSDAP que comanda o maior grupo nacional da A.O.”. Em 1938 teve o privilégio de ganhar uma festa de despedida organizada pelo vice de Hitler, Hess. Cossel chegou ao Rio em 1931, como adido cultural à embaixada alemã e impressionou seus chefes a ponto de ser indicado à chefia do grupo, em 1934, no lugar de um colega corrupto, graças a sua capacidade de transitar com facilidade entre brasileiros e alemães, como por sua familiaridade com os estadistas Vargas e Hitler. Ana Dietrich, na Alemanha, conseguiu entrevistar as filhas de Cossel que revelaram ser ele “muito bem visto por Vargas, que lhe deu de presente uma pintura sua com uma bela moldura”. Elas também contaram à pesquisadora que, ao deixar o Brasil, em 1942, após o rompimento do Estado Novo com o Eixo, Cossel, convidado a trabalhar no Ministério das Relações Exteriores, declinou e foi servir na Marinha. “Meu pai disse que os olhou e afirmou: ‘Nisso não colaboro’. Ele também nos disse que não se impressionara com Hitler e só enviava relatórios a ele. O partido nazista no Brasil foi algo diferente. Como meu pai entrou, as pessoas acham que ele sabia de tudo, mas não foi assim. No exterior, as pessoas são mais alemãs porque existe um sentimento de pátria”, afirmou Gisela von Cossel. Memórias familiares nem sempre são confiáveis. “A relação de Cossel com Hitler e Vargas (que, em carta ao Führer, o chamava de “grande e bom amigo”) tem um caráter especial que mostra a amplitude do movimento nazista no Brasil. Não era apenas um movimento de colonos ‘saudosistas’, e sim algo que interferiu nos grandes escalões de poder da sociedade”, prefere acreditar, com razão, a pesquisadora.

E quanto à questão judaica? Como agiram os nazistas brasileiros em relação a uma comunidade que, nos anos 1930, tinha 40 mil integrantes? “A convivência de alemães com judeus era rara, só há poucos registros. O anti-semitismo local era um discurso importado, ou seja, na prática ele quase inexistia (embora tenha existido) e, na teoria, ele existia na publicação de artigos contra judeus. Mas o tom era de luta entre os ‘judeus de lá’ contra os ‘alemães de lá’”, diz Dietrich. O “racismo tropical” era mais forte contra os negros e mestiços, classificados como “brasileiros” de forma pejorativa. Há mesmo casos hilários sobre casamentos “étnicos”, como o de um colono catarinense que resolveu “importar” uma noiva ariana, apenas para descobrir que se casara com uma mulher “feia e com uma perna mais curta do que a outra”. Há outros, mais sintomáticos, como o de Roland Braun, da diretoria do partido nazista em São Paulo, que se casou com uma brasileira e batizou sua filha brasileira de Irene. “Igualmente, não houve, ao contrário do que se costuma afirmar, um isolamento dessas comunidades, rurais ou urbanas, que interagiam com a sociedade local e absorviam hábitos e costumes desta.”

O Reich fazia “vista grossa” para esses pecadilhos tropicais, já que a comunidade brasileira, além dos serviços diplomáticos informais que fazia para a Vaterland, igualmente era fonte de recursos: “Morando no Brasil desde 1924, Otto Braun coordenava toda uma série de transações proibidas de câmbio e, ao ser preso, em 1942, forneceu detalhes de como se faziam espionagem e fraudes financeiras no Brasil por meio do Banco Alemão Transatlântico, que transferia dinheiro da comunidade para bancos suíços, que depois eram enviados à Alemanha”, revela Dietrich. A verdadeira face tropical do nazismo, porém, foi política e acabou sendo um “presente” para o Estado Novo: a relação entre nazistas e a Ação Integralista Brasileira (AIB), de Plínio Salgado, com suas camisas verdes e seu “anauê”. “O integralismo pode ser visto como importante característica do nazismo tropical por ser algo extraordinário que não estava nos planos originais da organização do partido nazista no Brasil”, explica Dietrich. O canto de sereia integralista era doce: “Se tu fosses alemão serias Nacional Socialista. És brasileiro, inscreve-te, portanto, nas Legiões Integralistas e vem vestir a camisa verde dos que se batem pelo bem do Brasil”. Só que, enquanto a AIB, como movimento nacionalista, não concordava com o nacionalismo alemão (embora, com fins de propaganda, se apresentasse como a solução viável para a materialização do Deutschtum tropical), o nazismo não queria a assimilação da comunidade alemã no Brasil. “Caracterizando-o pejorativamente como nativista, o NSDAP era totalmente contrário a que os alemães e seus descendentes se filiassem à AIB, pois se achava que isso iria afetar a germanização do Brasil. Sob a visão do III Reich, o integralismo destacava principalmente a questão racial, visando melhorar a raça com a diminuição de negros e índios e o aumento de europeus. O governo nazista chamava isso de ‘lusitanização’, encarada como ameaça ao Deutschtum.”

Visto com desprezo pelos alemães de Berlim, conta a pesquisadora, o integralismo tornou-se um anátema após a patética tentativa de golpe contra Vargas, em 1938, com a suspeita de participação de nazistas brasileiros. Além de desobediência aos ditames da Alemanha, o putsch tupiniquim também deixava o Estado alemão numa saia-justa indesejável com o governo brasileiro, ao qual procurava, sem sucesso, agradar, mesmo ciente de que Oswaldo Aranha era o chanceler de Getúlio. Este preferia virar o jogo em favor dos Estados Unidos, que considerava parceiros mais valiosos do que a Alemanha, embora, nos anos 1930, o comércio entre tedescos e brasileiros fosse o dobro do feito com os ianques. Plínio Salgado, de pedra no sapato do ditador brasileiro, virou pedregulho nas botas de Hitler por um erro de cálculo de Berlim. “Por culpa da proibição de descendentes de alemães de entrar no partido, este perdeu uma de suas maiores forças no Sul, onde a comunidade alemã mais expressiva era de teuto-brasileiros. Assim, houve uma reação ao nazismo segregacionista, líderes não foram aceitos e o integralismo se tornou a opção viável”, analisa a historiadora. Tomando do próprio remédio, o nazismo tradicional errou no passo de ganso para a sua versão tropical. O movimento conservador, direitista e nacionalista de Salgado atendia ao que os alemães nascidos no Brasil queriam, mas eram alijados pela Vaterland.

No fim das contas, ao vencedor, muitas Kartoffel. Diante do imbróglio que envolvia nazistas e integralistas, Vargas pôde, sem problemas, colocar várias organizações na clandestinidade, inclusive a célula do NSDAP no país. “Afinal, entre 1938 e 1942, dentro do projeto de nacionalização do Brasil almejado por Vargas, o alemão passa de perigo ideológico, pela divulgação do ideário nazista, para perigo étnico, como alienígena ao ‘Homem Novo’ que se desejava construir. Com a entrada do Brasil, na Segunda Guerra Mundial, em 1942, ao lado dos Aliados, o perigo vira ‘militar e ideológico’”, observa a pesquisadora. Vargas estava com o melhor dos mundos políticos graças à inabilidade de nazistas e integralistas. Dessa forma, não precisava mais se preocupar com indivíduos que venerassem Hitler, e não a ele. Ao mesmo tempo, nota, pôde canalizar a seu favor toda a demanda autoritária, xenófoba e nacionalista desses grupos. Bastava fazer com que se sentissem vinculados ao Estado Novo, e não ao III Reich. Lá estava, para todos, um chefe “pai da nação”, anticomunista, adepto da ordem, do progresso e das massas.

O mesmo ocorreu entre a Itália de Mussolini e a AIB. “A ação fascista, que de início apoiou Salgado, foi muito útil à direita nacional ao popularizar as idéias autoritárias e estimular muitas pessoas a uma maior simpatia em relação ao Estado Novo”, observa o historiador João Fábio Bertonha, que, em seu doutorado, trabalhou com a contrapartida italiana da tese de Ana Dietrich. Os fascistas, melhores políticos do que os germânicos, por um longo tempo fizeram um jogo duplo com Vargas e seus inimigos, os integralistas, apostando em ganhar em quem vencesse no futuro. Como o que houve com os nazistas brasileiros, foram os filhos de imigrantes italianos que optaram pelo apoio total à AIB, ao contrário de seus pais ou avós, italianos natos, que eram fascistas à Mussolini. Também, como no caso alemão, havia uma preocupação étnica implicada no apoio ao movimento de Salgado e, após 1938, um total descrédito na capacidade revolucionária dos integralistas. A italianidade falava mais alto, como a germanidade. Aqui Salgado deu-se melhor, pois antes de ser esquecido recebeu grandes somas de dinheiro vindas de Roma. Curiosamente, a poderosa burguesia paulistana, fervorosa apoiadora do fascismo italiano, fechou seus cofres ao integralismo. “Sobraram os descendentes italianos que, influenciados por esse contexto político-nacional, por seus problemas de aceitação na sociedade brasileira como filhos de imigrantes e pelo clima geral de apoio às idéias de direita, suscitado pela propaganda italiana, poderiam ter sido cooptados pelos fascios, mas acabaram, dada a sua aculturação e o desejo de serem vistos como brasileiros e de participar da política brasileira ativamente, por aderir à AIB”, nota Bertonha. Quando essa se quebrou, dirigiram seu entusiasmo ao similar nacional que estava no poder: o varguismo. Nazismo que acabou em “feijoada”?

Há quatro variáveis que demonstram a tropicalização do nazismo no Brasil: o racismo tropical, ou seja, além dos judeus, houve preconceito contra outros grupos, como os negros e mestiços, que estavam mais em contato com o partido; a possibilidade de casamentos interétnicos e certa resistência da população local ao germanismo, já que até o diretor da célula nazista paulista, Roland Braun, era casado com uma brasileira e muitos alemães diziam se ‘sentir em casa’ na Gastland nacional; a presença do integralismo que distorceu a lógica do modelo; e a mistura de hábitos, já que, ao contrário do preconizado, não houve a formação de guetos teutônicos, mas uma interação com a sociedade local, em que os alemães absorviam hábitos e costumes”, enumera Dietrich. Ainda assim, as estratégias de propaganda desenvolvidas surtiram efeito sobre os colonos do Sul, que, observa Tucci Carneiro, “se tornaram apáticos à política brasileira com tendências ao auto-enclausuramento”, conforme documentou um jornal da colônia nazista: “Somos 1 milhão de alemães no Brasil. Somos um exército sem soldados, uma igreja sem torre, aceitai o desafio agora. Vós fostes chamados para serem líderes deste povo, pois sois o povo mais inteligente desta terra”. Igualmente a colônia alemã estava fragmentada em relação aos judeus. “Getúlio Vargas cercou-se de germanófilos convictos, políticos e intelectuais que não ocultavam seu fascínio pelas conquistas empreendidas pela nova Alemanha”, observa Tucci Carneiro. Parte da comunidade alemã no Sul do Brasil acreditava que reproduzia, em “microrregionalidades”, a sua “velha Alemanha” agora reavivada pelo Führer.

Essa aproximação dos teutos com a cultura original provocou um isolamento lingüístico e cultural que, durante o Estado Novo, foi combatido pelas autoridades políticas que interpretavam essa postura como “erosão do espírito de brasilidade”. Segundo a pesquisadora, esse discurso nacionalista não apenas serviu para combater os quistos raciais, mas também para encobrir valores racistas e anti-semitas sustentados pela elite política que falava em “promover o homem brasileiro, defender o desenvolvimento econômico e a paz social do país”. A professora lembra que o conjunto de decretos nacionalistas e xenófobos promulgados em 1938 pelo Estado Novo, assim como a Polícia Política, serviu para legitimar a ação repressiva e preventiva contra aqueles que, segundo o discurso oficial, eram considerados como elementos ameaçadores para a composição racial e para a ordem política brasileiras. “Quem eram os elementos corrosivos da nação brasileira? Os judeus tornados apátridas pelos nazi-fascistas. Somavam-se a essa ‘escória’ os comunistas, os ciganos, os negros, tratados como párias da humanidade.”

Assim, segundo Tucci Carneiro, a postura de neutralidade de Vargas ante os países do Eixo era uma fachada, uma máscara adequada aos grandes estadistas coroados pelos louros do fascismo. “Essa leitura possibilita compreender o árduo processo de gestação dos direitos humanos no Brasil. A história do Brasil contemporâneo ainda está para ser escrita trazendo a público a postura omissa do governo brasileiro diante da questão judaica. O Brasil, a partir de 1937, editou uma série de circulares secretas proibindo a concessão de vistos aos judeus e facilitando a entrada de ‘arianos puros’.” Há várias cartas anônimas em arquivos do Deops com denúncias de desembarque de judeus nos portos do Rio e Santos. Assim como a historiadora descobriu uma carta do chanceler de Vargas, Oswaldo Aranha, que, como presidente das Nações Unidas, criou o Estado de Israel: “Nela, Aranha afirma a importância de se criar Israel justamente para evitar a migração de mais judeus e pôr fim à entrada ‘indesejada’ deles no Brasil”, conta Tucci Carneiro. A união de chucrute e feijoada certamente provocou indigestões históricas que merecem ser recuperadas.

Revista da FAPESP
http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

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Cristina Kirchner obteve maior apoio entre mais pobres

Em 2001, o país mergulhou em uma grave crise que arrastou a economia, a política e o orgulho nacional para o fundo do poço. Seis anos depois, o PIB argentino cresce a uma taxa anual de 9%. Apatia atingiu eleitores e candidatos da direita, que tiveram um desempenho pífio.

Marco Aurélio Weissheimer

PORTO ALEGRE - A maioria dos analistas políticos, dentro e fora da Argentina, escolheu a palavra “apatia” para descrever o ambiente que marcou a disputa presidencial vencida, no primeiro turno, pela senadora Cristina Kirchner. A esposa do atual presidente, Néstor Kirchner, foi eleita com cerca de 44% dos votos, confirmando o favoritismo que a acompanhou durante toda a campanha. A apatia mencionada pelos analistas pode ser lida de duas maneiras: um desinteresse da maioria da população pelo destino do país, ou a expressão da superação de um trauma ainda muito vivo na memória do povo.

Em 2001, o país mergulhou em uma grave crise que arrastou a economia, a política e o orgulho nacional para o fundo do poço. Seis anos depois, o Produto Interno Bruto argentino cresce a uma taxa anual de 9%. Um “detalhe” que talvez ajude a entender porque a maioria optou pela continuidade, recusando maiores debates.

O povo argentino visitou o inferno social, político e econômico, deu um tapa na cara do diabo e voltou à vida. Não está no paraíso, mas chegou a um lugar muito melhor do que estava até bem pouco tempo. Considerando os traumas recentes, parece razoável que tenha recusado debater mudanças de rumo neste momento.

Além da recuperação econômica, o governo Kirchner acumulou uma considerável poupança no terreno da memória do país, ao decidir não varrer para debaixo do tapete o problema dos crimes da ditadura militar. Nenhum outro governante de um país da América Latina, que tenha passado por uma ditadura, fez o que Kirchner fez. Não é pouca coisa. Se é assim, seria até estranho que a eleição presidencial deste ano fosse marcada por um acalorado debate sobre os rumos do país. Até porque um setor da oposição a Kirchner integra o grupo social e político que quase acabou com a nação.

Um país fragmentado
Julio Blanck, articulista do jornal Clarín, definiu a eleição de Cristina como um prêmio outorgado por um país fragmentado. “Um terço de nós vive como se vive razoavelmente no chamado Primeiro Mundo. Outro terço de nós sobrevive na carência e na desesperança cotidianas. Essa fragmentação teve expressão palpável no corte social do voto. A vitória de Cristina rotunda e sem objeções, apoiou-se nos setores que mais precisam de proteção social por parte do Estado. O seu mandato terá o compromisso de governar para esses setores. Mas também terá que fazê-lo para a metade do país que não votou nela”, escreve Blanck.

A senadora foi eleita, sustenta o mesmo articulista por um voto conservador: o voto daqueles que querem conservar os avanços dos últimos quatro anos. Esse foi justamente o sentido do lema da campanha de Cristina: “el cambio recién empieza” (a mudança só está começando).

Na mesma direção, J.M. Pasquini Duran escreveu no jornal Página 12: “Essa eleição significa continuidade da gestão e, neste sentido, não só aposta no futuro, como manifesta sua aprovação pelo passado imediato, um passado de 59 meses contínuos de recuperação econômica, de formação da Corte Suprema sem nenhuma subordinação ao Poder Executivo e de firme compromisso contra a impunidade do terrorismo de Estado”. Duran também destaca o apoio maciço que Cristina obteve junto aos setores mais humildes do país, o que pode garantir também uma maioria no Congresso.

O fracasso da direita
Os números do escrutínio indicam que, se houve apatia, esta não se deu entre os apoiadores do governo Kirchner. O desempenho dos candidatos mais identificados com a direita argentina foi pífio. López Murphy e Jorge Sobisch não conseguiram chegar a mais de três pontos percentuais.

Dividida em 13 chapas, a oposição a Kirchner centrou seu discurso em temas como inflação, segurança pública e corrupção. Não conseguiu empolgar. Os seus melhores desempenhos ficaram por conta de Elisa Carrió, que fez cerca de 23% dos votos (venceu em Buenos Aires), e do ex-ministro da Economia, Roberto Lavagna, com 16,89% dos votos. A partir deste resultado, Carrió, da Coalizão Cívica, tentará se firmar agora como principal líder da oposição, embora tenha prometido não disputar mais a presidência da República. A candidata da Coalizão Cívica encontrou forte apoio entre setores da classe média argentina. Sabedora disso, Cristina Kirchner fez de suas primeiras declarações um apelo à concórdia e à concertação social. A senadora sabe que mais de metade do país não votou nela e que precisará ampliar sua base de apoio social para governar. Por isso fala em conciliação e união.

Esquerda dividida. Para variar…
Quanto à esquerda argentina, esta permanece dividida e, apesar de todo o desgaste dos partidos tradicionais, não conseguiu apresentar um programa capaz de conversar com setores mais amplos da sociedade. O melhor desempenho que obteve foi com a candidatura do cineasta Fernando Solanas, do Partido Socialista Autêntico, que obteve cerca de 1,6% dos votos. Durante a campanha, Solanas fez pesadas críticas ao governo Kirchner.

Para ele, Kirchner “aprofundou os elementos estruturais do modelo neoliberal ao confirmar e estender o processo de privatização nos setores petrolífero, de gás e minérios, propiciar a concentração da propriedade agrícola e a monocultura em favor das corporações, das commodities (especialmente da soja) e do projeto de agrocombustíveis, tudo isso com um custo ambiental que será pago pelas próximas gerações”.

As críticas de Solanas apontam embates futuros. Superado o trauma da crise de 2001, a Argentina volta-se para um novo período. Cristina aproveitou a poupança acumulada pelo governo Kirchner e sabe que não poderá governar apenas com esse recurso. Enfrentará problemas sérios, como a ameaça da volta da inflação, a pobreza, o desemprego e a crescente desnacionalização do território argentino. Suas escolhas desenharão a imagem do seu governo e mostrarão até onde o povo argentino está disposto a ir na trilha da mudança do modelo que, há seis anos, levou o país à ruína.

Carta Maior
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50 anos da era espacial

Marcelo Gleiser

O mundo hoje depende dos satélites de comunicação, heranças do Sputnik

No dia 4 de outubro de 1957, cientistas soviéticos mudaram a história. Nesse dia, o primeiro satélite artificial -um objeto criado por mãos humanas capaz de girar em órbita da Terra- foi lançado ao espaço. A pequena esfera metálica, pesando em torno de 90 quilos, circundou a Terra 14 vezes por dia, viajando a quase 30 mil km/h a uma altitude de 940 km. O feito causou ondas de choque pelo mundo, especialmente nos EUA.
Em meio à Guerra Fria, a tensão entre os americanos e os soviéticos era explosiva. O fato de os soviéticos terem desenvolvido foguetes capazes de lançar objetos de cem quilos ao espaço significava que poderiam facilmente armá-los com explosivos nucleares.
O lançamento do Sputnik marca não só o início da corrida espacial como, também, o de uma plausível guerra nas estrelas. O mundo todo ouviu os sons de rádio em duas freqüências: “bip, bip”. Um som vindo do espaço, criado pelos homens. Para quem não era soviético, aquilo era assustador.
No dia 6 de novembro, os soviéticos ampliaram o feito, lançando o Sputnik-2. Pesando dez vezes mais do que o Sputnik-1, esse satélite levou o primeiro ser vivo da Terra ao espaço, a cadela Laika.
Os americanos tentaram responder à altura. No dia 6 de dezembro do mesmo ano, equipes de jornalismo foram convidadas ao Cabo Canaveral para registrar o lançamento do primeiro satélite americano. Após subir menos de dois metros, o foguete explodiu, causando um vexame nacional e muita gozação dos soviéticos. O feito americano foi logo apelidado de “Flopnik”, “Dudnik”, “Kaputnik”.
No dia 31 de janeiro de 1958, Werner von Braun salvou a situação. Usando um foguete Júpiter C, Von Braun lançou o primeiro satélite norte-americano em órbita, o Explorer-1. Desta vez, a imprensa não foi convidada. O satélite, munido com um contador Geiger, registrou pela primeira vez evidência de que a Terra é cercada por cinturões de partículas carregadas, aprisionadas pelo campo magnético terrestre, os cinturões de Van Allen. O espaço não era apenas palco de ameaças bélicas; era, também, um gigantesco laboratório científico, esperando para ser explorado.
Uma mistura de prestígio e vaidade nacional empurraram os programas espaciais americano e soviético. Mais uma vez, foram os soviéticos que assumiram a liderança: Yuri Gagárin circundou a Terra no dia 12 de abril de 1961. O homem não estava mais preso ao seu planeta-mãe.
Os americanos tinham de fazer algo, e rápido. No dia 25 de maio de 1961, John Kennedy anunciou que o objetivo principal da recém-criada Nasa era “levar um homem à Lua e retorná-lo, são e salvo, à Terra”. O sucesso da missão Apollo foi tremendo. Lembro-me de assistir, com meus primos, ao astronauta Neil Armstrong dando seus primeiros passos na Lua, no dia 20 de julho de 1969. A bandeira americana, rígida, foi fincada em solo alienígena.
Passados 50 anos, sondas espaciais exploram mundos nos confins do sistema solar e até além, com as missões Voyager-1 e 2. Mas muitos dos sonhos que tantos tinham ainda não foram realizados: a exploração humana de Marte, colônias espaciais, viagens tripuladas até as estrelas. Após a Lua, faltou a continuação do simbolismo mítico de ir além, de explorar o desconhecido. Os custos são imensos, os riscos e desafios tecnológicos também.
Mas convém lembrar que o mundo hoje depende de modo essencial dos satélites de comunicação, dos aparelhos de GPS, todos heranças do Sputnik. Nossa visão cósmica mudou após o telescópio espacial Hubble. Estamos ainda dando os primeiros passos; a jornada até as estrelas é longa.

Jornal Folha de S. Paulo Ciência
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Entre riscos e benefícios

O uso continuado de antidepressivos por crianças e adolescentes pode levar a alterações imprevisíveis na química e na estrutura cerebral. O tema preocupa autoridades de saúde e divide a opinião dos médicos

Paul Raeburn

Em fevereiro de 2004, o corpo da universitária Traci Johnson, de 19 anos, foi encontrado no banheiro de uma clínica, preso por uma echarpe ao cano do chuveiro. O motivo pelo qual a jovem acabara com a própria vida era um mistério; a família e os amigos disseram que ela não apresentava sinais de depressão ou descontentamento. Semanas depois, porém, tornou-se suspeito o fato de Traci ter sido voluntária em um ensaio clínico de uma droga antidepressiva. Os pesquisadores da empresa Eli Lilly notaram, então, que outros quatro pacientes, que haviam recebido o mesmo medicamento em estudos clínicos semelhantes, também haviam se suicidado. Em outubro do mesmo ano, o FDA, departamento americano de controle de alimentos e medicamentos, determinou que as embalagens dos antidepressivos tivessem advertências, em tarja preta, sobre o risco de suicídio entre crianças e jovens tratados com esses fármacos.

A morte de Traci e a advertência do FDA chamaram atenção da opinião pública para a dificuldade de tratar a depressão em populações mais jovens tema sobre o qual muitos médicos ainda divergem. O psiquiatra Graham Emslie, do Centro Médico da Universidade do Texas em Dallas, foi um dos primeiros a usar, na década de 80, esse tipo de droga em crianças e adolescentes gravemente deprimidos que, segundo ele, corriam risco de vida. Na época, o Prozac havia acabado de ser lançado e estava se mostrando muito eficaz no tratamento de adultos. Apesar disso, ninguém sabia dos seus efeitos no cérebro em desenvolvimento.

Frustrados com a falta de alternativas, no entanto, Emslie e mais alguns psiquiatras começaram a prescrevê-los para uso pediátrico, na esperança de que os benefícios fossem maiores que os riscos, ainda que não existisse evidência alguma a favor dessa hipótese. Apesar das incógnitas, o uso de antidepressivos em crianças e adolescentes explodiu durante os anos 90. Segundo a farmacêutica Julie M. Zito, da Universidade de Maryland, cerca de 1,5 milhão de indivíduos menores de 18 anos estão sendo tratados com essas drogas nos Estados Unidos.

ALÍVIO INSTANTÂNEO

Pesquisas recentes sugerem, entretanto, que o suicídio é apenas um dos riscos potenciais do tratamento farmacológico da depressão. Há evidências de que o Prozac e outras drogas semelhantes podem interferir no processo de desenvolvimento e maturação do cérebro infantil. Embora os estudos não sejam conclusivos, alguns especialistas acreditam que nesses casos seja não propriamente um tratamento, mas a troca de um diagnóstico por outro. Muitas crianças que tomam esses medicamentos conseguem alívio de curto prazo para, mais tarde, desenvolverem outros problemas psíquicos.

O psiquiatra Amir Raz, da Universidade McGill em Montreal, é um dos principais críticos do uso continuado de antidepressivos em crianças e adolescentes. “O cérebro humano está em franco desenvolvimento nas primeiras duas décadas de vida”, diz. “A exposição a esses fármacos pode afetar a formação de circuitos neurais importantes, sobretudo os relacionados à regulação das emoções e do stress.”

Prozac, Cipramil, Zoloft e Paxil são algumas das marcas comerciais de drogas que pertencem à classe terapêutica dos chamados inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS). São moléculas que impedem que esse neurotransmissor seja recapturado na fenda sináptica, o que conseqüentemente prolonga seus efeitos nos receptores dos neurônios pós-sinápticos.

Raz acha má idéia interferir nos níveis de serotonina de crianças e adolescentes, pois, além de ser um neurotransmissor, ela age também como fator de crescimento neuronal nos primeiros anos da vida, seja estimulando a formação de sinapses, seja modulando a resposta aos eventos que, na idade adulta, são responsáveis pelo stress. Além disso, a serotonina pode ser encontrada fora do sistema nervoso central, cumprindo outras funções fisiológicas. Portanto, os antidepressivos ISRS, administrados durante esses anos críticos de desenvolvimento, poderiam alterar a função cerebral de forma imprevisível.

Há até bem pouco tempo prevalecia a idéia de que o sistema nervoso central crescia rapidamente durante a infância e estaria com todos os seus circuitos prontos e acabados por volta dos 12 anos. “Esse é basicamente o mesmo raciocínio ensinado até hoje nas faculdades de medicina e psicologia”, diz o psiquiatra Jay Giedd, do Instituto Nacional de Saúde Mental, Estados Unidos, um dos pesquisadores cujos trabalhos pioneiros demoliram essa velha concepção. O que se constatou, explica Giedd, é justamente o contrário: o cérebro adolescente é um canteiro de obras que passa por contínuas mudanças e remodelamentos até, no mínimo, os 25 anos.

Usando técnicas de imageamento cerebral, Giedd e outros cientistas mostraram que a substância cinzenta - que concentra o corpo celular dos neurônios se expande extraordinariamente nos pré-adolescentes. Já na puberdade, no entanto, boa parte dela é podada - o cérebro descarta neurônios e sinapses de que já não mais precisa. Algumas conexões neuronais são fortalecidas e outras, enfraquecidas. Uma jovem estudante de piano, por exemplo, fortaleceria as conexões da parte auditiva do cérebro. Algumas dessas mesmas conexões poderiam diminuir num aluno com talento para matemática, enquanto, por outro lado, sinapses relacionadas ao pensamento abstrato ganhariam força. Trata-se, na verdade, de uma versão neurológica da velha lei do uso e desuso. Esse processo ainda não é bem compreendido; mas se o cérebro adolescente ainda estiver em formação, remodelando-se em resposta a estímulos externos, então talvez inundá-lo com drogas que afetam os circuitos de serotonina pode ser uma péssima idéia, segundo diversos pesquisadores.

A preocupação não é apenas teórica. Algumas evidências dão apoio ao ponto de vista de Raz, como a do estudo realizado pelo psiquiatra Jay A. Gingrich, do Instituto Sackler de Psicobiologia do Desenvolvimento da Universidade Colúmbia. Gingrich usou camundongos geneticamente modificados para que não tivessem a capacidade de recapturar a serotonina na fenda sináptica. “Nós queríamos animais cujo cérebro fosse parecido ao das pessoas tratadas cronicamente com Prozac”, explica o psiquiatra. Obviamente, eles deveriam estar livres de qualquer coisa parecida com depressão e ansiedade.

Como não podia conversar sobre sentimentos com os animais, Gingrich aplicou testes de stress, pois a dificuldade de lidar com estímulos estressantes é uma característica importante da depressão. Ele instalou no chão, num dos cantos da gaiola, uma placa metálica que dava choque. Os camundongos saudáveis rapidamente aprenderam a evitar essa região. Já os geneticamente modificados não conseguiram fazer o mesmo, ao contrário, costumavam “congelar” de medo e levar muitos choques. Reagiam como se tivessem algum tipo de transtorno de ansiedade.

PENSAMENTOS SOMBRIOS

O psiquiatra admite que não é simples comparar o estado comportamental de um camundongo ao que chamamos de depressão nos seres humanos. Afinal, não dá para imaginar um animal deprimido, incapaz de sair da toca, atormentado por dúvidas e medos, perdendo o interesse pela comida e acalentado pensamentos sombrios de autodestruição.

Mas por mais que a comparação seja absurda, o cérebro deles é muito parecido com o nosso, muitos circuitos neurais são muito parecidos e alguns genes relacionados à serotonina são absolutamente idênticos. “Podemos demonstrar que alterações em seu comportamento têm certa semelhança com as oscilações de humor de uma pessoa deprimida”, explica o psiquiatra.

Gingrich pensou que, talvez, os camundongos ansiosos sofressem por causa da alteração genética. Então repetiu o experimento, desta vez administrando Prozac aos camundongos saudáveis quando eles ainda eram filhotes. Quando ficaram adultos, foram submetidos ao teste do stress. Os resultados dos dois experimentos foram publicados em 2004. “Eles realmente desmoronaram”, conta Gingrich. “Ocorreu alguma coisa no modo como os circuitos cerebrais se formaram e ela foi causada pelo antidepressivo.” É claro que a constatação desses efeitos em roedores está muito longe de demonstrar que o mesmo acontece em humanos, mas o objetivo desses estudos é pesquisar problemas potenciais e levantar questões. Sem dúvida, o trabalho de Gingrich é perturbador e joga forte suspeita sobre a segurança dos antidepressivos em crianças e adolescentes. Outra evidência preocupante veio do pediatra Tim Oberlander, da Universidade da Colúmbia Britânica, Canadá. Ele demonstrou que bebês expostos aos ISRS ainda no ventre da mãe são menos sensíveis à dor. Ninguém ainda conseguiu estabelecer uma relação entre esse achado e os de Gingrich, exceto a de também levantar suspeitas sobre os efeitos dessas drogas no cérebro em desenvolvimento.

Em janeiro de 2003, o FDA relatou que crianças que tomaram Prozac por 19 semanas ficaram 2,5 cm abaixo da média e com cerca de 1 kg a menos que as que receberam placebo. “Não sabemos se é um efeito temporário ou se pode se tornar mais acentuado com o passar do tempo”, escreveu na Science o farmacologista Thomas Laughren, que coordena o serviço de avaliação de psicofármacos do FDA. “Esse é um dos problemas do uso de qualquer medicamento em crianças: não sabemos quais os riscos a longo prazo.”

Apesar de todas essas evidências, muitos psiquiatras acreditam que os antidepressivos fazem mais bem do que mal para as crianças e adolescentes que sofrem de depressão. Como Graham Emslie, o psiquiatra do Texas, Harold Koplewicz, da Universidade de Nova York prescreve os ISRS há mais de uma década. “Fui provavelmente o primeiro médico a fazer uso dessas drogas em pediatria”, diz. Segundo ele, até há poucos anos a maioria dos psiquiatras ainda achava que a psicoterapia era a melhor intervenção para esse tipo de paciente, mas essa idéia vem mudando rapidamente. Koplewicz defende sua postura com base no que viu em adolescentes deprimidos e não tratados. “Depois de um único episódio de depressão, a probabilidade de outro é de 60%. Se tiverem dois, o risco do terceiro é de 90%. Além disso, as crises subseqüentes são mais difíceis de tratar”, explica o psiquiatra.

PAPEL DO GLUTAMATO
Algumas evidências mais recentes apóiam a opinião de Koplewicz. Na tentativa de descobrir como os antidepressivos funcionam nos jovens, o psiquiatra David Rosenberg, da Universidade Estadual Wayne, está usando técnicas de imageamento cerebral nesse tipo de paciente. “Observamos alterações incríveis na química cerebral”, diz Rosenberg. Mas não exatamente as que os críticos esperavam. Sua pesquisa concentra-se no neurotransmissor glutamato. “O glutamato funciona como uma espécie de interruptor de luz”, explica. “Se a serotonina fosse a iluminação da sala, o glutamato seria o interruptor que liga e desliga a serotonina.” -Rosenberg descobriu que a depressão está relacionada a níveis mais baixos de glutamato em certas partes do cérebro. E o efeito dos antidepressivos é evidente: depois do tratamento, o glutamato volta ao nível normal e os sintomas da depressão diminuem. “Quando corretamente prescritos, os antidepressivos fazem mais bem do que mal”, diz.

Mais importante ainda, o imageamento cerebral realizado por Rosenberg mostrou que a depressão sem tratamento consome partes importantes do tecido cerebral. “Em adultos, quanto maior a duração da doença, menos substância cinzenta encontramos em áreas como amígdala, hipocampo e lobo temporal”, explica. Todas essas regiões estão associadas ao pensamento e ao aprendizado. Resultados preliminares sugerem que o mesmo ocorre em crianças e adolescentes.

Segundo Rosenberg, os benefícios superam o prejuízo potencial somente quando esses medicamentos são prescritos corretamente. Isso é particularmente problemático em crianças e adolescentes, nos quais o diagnóstico é uma tarefa difícil para o médico. “Principalmente na puberdade, quando o organismo está imerso em hormônios”, acrescenta Kople-wicz. Adultos deprimidos geralmente reconhecem que têm um problema e querem resolvê-lo. Crianças e adolescentes, porém, dificilmente pedem para ir a um psiquiatra; precisam ser convencidos ou de alguma forma atraídos para o consultório. Chegar lá, entretanto, resolve apenas parte do problema. A maioria dos médicos não está capacitada para trabalhar com crianças. Por outro lado, clínicos gerais e pediatras - que são os que geralmente prescrevem essas drogas - não têm experiência suficiente com transtornos de humor. Muitas vezes, o diagnóstico é resultado de uma série de tentativas e erros. Tenta-se determinado medicamento; se não funcionar, escolhe-se outro e assim sucessivamente, até encontrar algum que faça o efeito desejado.

DECISÃO MÉDICA

Pacientes como os de Koplewicz e de Emslie, os primeiros a fazer uso continuado, desde criança, dessas drogas, são cobiçados pelos pesquisadores que querem estudar efeitos a longo prazo. Se esses indivíduos tornaram-se adultos sem grandes problemas psíquicos, então talvez toda a preocupação tenha sido inútil. Emslie ainda acompanha alguns dos pacientes aos quais ele deu antidepressivos pela primeira vez há 15 anos. Embora não sejam examinados rigorosamente, o médico acredita, com base numa avaliação geral, que eles parecem bem. “Não há características flagrantes, não encontramos evidência de problemas no desenvolvimento”, diz. No entanto, se essas drogas causam alterações sutis, mas importantes, ele jamais terá condições de identificá-las. Para ter certeza de que elas são saudáveis, seria necessário comparar os indivíduos com um grupo-controle adultos, em condições semelhantes, que não tomaram antidepressivos na infância.

Também é possível que esses pacientes estivessem bem pior se não tivessem sido medicados quando mais jovens. Mas, de novo, sem um grupo-controle é impossível saber. O tema é de difícil abordagem: não seria ético negar medicamentos potencialmente úteis a crianças que precisam deles, nem administrá-los a crianças saudáveis.

Emslie acredita que o uso de antidepressivos em cérebros jovens poderia realmente prejudicar o desenvolvimento de circuitos neurais envolvidos. “Claro que é possível influenciar, nas fases iniciais da vida, o modo como esses circuitos se formam. E, nas crianças, é possível que os efeitos colaterais não sejam os mesmos observados nos adultos”, argumenta o psiquiatra.

Estudo realizado na Universidade de Pittsburgh, publicado em abril deste ano, agitou novamente o debate. Os pesquisadores revisaram 27 estudos sobre o efeito dos antidepressivos ISRS em crianças e adolescentes e concluíram que os benefícios superam os riscos. O passo seguinte foi pedir ao FDA que reconsiderasse a advertência sobre o uso de antidepressivos nessa população. O órgão americano, no entanto, não se pronunciou.

Sem dúvida, a discussão e a polêmica ainda estão longe do fim. Enquanto isso, alguns médicos, como Emslie, continuarão a prescrever ISRS para crianças porque julgam não haver opção melhor. Depressão sem tratamento é um flagelo que aflige não apenas os jovens, mas também pais, irmãos, professores e amigos. Ela transforma a infância numa sombria batalha interior pela sobrevivência. Nem só os psiquiatras defendem a continuidade do uso desses medicamentos; muitos de seus pacientes e dos pais deles também buscam o tratamento farmacológico. “Parece que o impacto da depressão, até onde podemos julgar, é maior que o impacto do tratamento”, afirma Emslie. Koplewicz concorda. “Neste momento o melhor tratamento para adolescentes são fármacos da família do Prozac”, conclui.

CONCEITOS-CHAVE
Entre as décadas de 80 e 90, a prescrição de antidepressivos para crianças e adolescentes triplicou, embora seus efeitos no cérebro em desenvolvimento não fossem conhecidos. Atualmente, muitos especialistas afirmam que pacientes conseguem alívio a curto prazo; mais tarde, porém, podem desenvolver outros problemas psíquicos. O psiquiatra Amir Raz, da Universidade McGill, Montreal, por exemplo, acredita que o uso de inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS) por jovens pode alterar a função cerebral de forma imprevisível.

Ação de antidepressivos ISRS, como o Prozac, popularizado nos anos 80, prolonga efeitos da serotonina, impedindo sua recapturação na fenda sináptica.

Até pouco tempo acreditava-se que os circuitos do sistema nervoso central atingiam o desenvolvimento por volta dos 12 anos. Estudos recentes demonstraram alterações e remodelamentos no cérebro jovem até, no mínimo, os 25 anos. Técnicas de imageamento cerebral revelaram grande expansão da área que concentra o corpo celular dos neurônios durante a pré-adolescência. Já na puberdade, o cérebro descarta neurônios em desuso.

Para o psiquiatra David Rosenberg, da Universidade Estadual Wayne, Estados Unidos, há mais vantagens que riscos na terapêutica quando a prescrição é correta. Ele argumenta que a depressão sem tratamento consome partes importantes do tecido cerebral associadas ao pensamento e ao aprendizado.

SOB VIGILÂNCIA
O uso de antidepressivos em pacientes com até 18 anos triplicou entre 1987 e 1996, depois dobrou em 2000, mas logo se estabilizou devido às suspeitas do aumento do risco de suicídio. Apesar da polêmica, porém, estudos demonstraram que essas drogas são eficazes no tratamento de crianças e jovens deprimidos.

Em 2004, estudo financiado pelo Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos constatou que adolescentes tratados tanto com antidepressivos como com psicoterapia responderam melhor que os que receberam uma das opções isoladamente. Todos os tratamentos diminuíram o pensamento suicida, mas a combinação teve um efeito mais proeminente.

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária também emitiu alerta, em 2004, sobre os riscos de suicídio em crianças e adolescentes em uso contínuo de antidepressivos. Desde então, a bula dos medicamentos contém advertências sobre sinais, como nervosismo, agitação, mau humor e problemas de sono, que podem surgir ou se agravar durante o tratamento; nesses casos, recomenda-se que o médico interrompa o uso do remédio.

COMUNICAÇÃO ENTRE NEURÔNIOS
A serotonina (esferas vermelhas) é um neurotransmissor excitatório secretado pelos neurônios pré-sinápticos que se liga aos receptores (verde) dos neurônios pós-sinápticos. A resposta destes é influenciada pela quantidade de serotonina na fenda sináptica, bem como pelos tipos de receptores presentes.

Os níveis de serotonina nas sinapses podem ser reduzidos por dois tipos de moléculas pré-sinápticas: os auto-receptores, que instruem a célula a inibir a produção do neurotransmissor, e os transportadores de recaptação, que absorvem a serotonina. Vários antidepressivos, entre eles o Prozac, bloqueiam esses transportadores e, logo, aumentam a quantidade de serotonina na fenda sináptica.

TRATAMENTO OU TRAUMA?
O cérebro humano passa por diversos estágios de desenvolvimento, e compreendê-los é fundamental tanto para avaliações neuropsicológicas quanto para a escolha dos medicamentos que devem (e podem) ser ministrados. Em relação à pesquisa científica, entretanto, parece haver uma contradição: embora a puberdade seja reconhecida por especialistas como fase crucial no processo de maturação humana, o cérebro dos adolescentes é, em geral, menos estudado do que o de crianças e adultos.

Sabe-se hoje que os processos fisiológicos que implicam a maturação das habilidades executivas só ocorrem no fim da adolescência, por volta dos 20 anos. Imagens obtidas por ressonância magnética funcional (fMRI) realizadas em cérebros adolescentes surpreenderam a psicóloga Beatriz Luna, diretora do Laboratório de Desenvolvimento Neurocognitivo da Universidade de Pittsburgh. Segundo ela, as áreas acionadas para determinadas funções (como a memória de trabalho) se alteram ao longo desses períodos – e muitas dessas transformações ainda são desconhecidas pela ciência.

Além dos aspectos neurológicos envolvidos no uso de medicamentos por crianças e adolescentes, há também questões psíquicas a serem consideradas. O próprio uso da medicação continuada e sem acompanhamento psicológico adequado pode ser traumático e passar a ocupar lugares simbólicos, excessivamente importantes na vida do paciente, desencadeando, por exemplo, fantasias de autodepreciação. A droga pode desempenhar papéis variados no imaginário de cada família, sendo vista como um recurso necessário para lidar com a situação, estigmatizando a “insanidade” de um dos membros do grupo ou confirmando o fracasso de pais e filhos.

PARA CONHECER MAIS
A depressão em crianças e adolescentes e seu tratamento. Saint-Clair Bahls. Lemos Editorial, 2004.

Antidepressant use in children, adolescents, and adults. Food and Drug Administration. Disponível em www.fda.gov/cder/drug/antidepressants/default.htm

Revista Mente e Cérebro
http://www2.uol.com.br/vivermente/

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Anti-sionismo é um anti-semitismo?

Prólogo:

Em agosto de 1967, foi publicada uma carta de Martin Luther King (1929-1968) – um dos principais líderes do movimento pelos direitos civis nos EUA – em que adverte a um amigo sobre o perigo de o anti-semitismo, ao vestir o disfarce do anti-sionismo, ser atualizado com novos ares de legitimidade na cena política dos EUA e do mundo. Seguindo uma retórica de púlpito batista, a carta de Luther King apresenta sua tese desde o início e, depois de desenvolver todos os pontos que a sustentam, retorna a ela no último parágrafo para conseguir o efeito de convencimento desejado. É marcante o jogo de palavras, a busca de boas rimas e sonoridade, como se sua carta fosse mais “para ser proferida” do que “lida”. No entanto, não foi possível preservar toda esta dimensão discursiva ao traduzi-la. Assim, optei por apresentar o original ao lado da tradução.

As advertências de Luther King tinham uma razão de ser: desde 1947, com a formação do Estado de Israel, associado com a discriminação e subordinação política e social dos palestinos, passou a ser recorrente confundir a identidade de um Estado (Israel) com um fato social e cultural mais abrangente – ser judeu. Ora, nem todos os judeus concordavam com a existência ou com as práticas do governo do Estado de Israel. Muitos sequer interpretavam que o “retorno à Terra Santa” significava algo concreto neste mundo. Além disso, durante a década de 1960, muitos judeus norte-americanos passaram a militar com líderes negros no “movimento pelos direitos civis”, sendo às vezes discriminados como “judeuzinhos amantes de negros”. Assim, não é sem razão que Luther King receasse uma nova onda anti-semita depois da Guerra dos Seis Dias. Esta guerra ocorreu entre 5 e 10 de junho de 1967 e foi o terceiro confronto militar entre Israel e Estados do Oriente Médio, quando o primeiro impôs rápida derrota ao Egito, Síria e Jordânia. Este evento foi precedido pelo Tratado de Defesa Conjunta (1966) entre Egito e Síria e pelo fechamento do Estreito de Tiran à passagem de embarcações israelenses, isolando o porto de Eilath. Depois da retirada das forças da ONU da Península do Sinai e da Faixa de Gaza e a sua substituição pelas forças armadas egípcias em maio de 1967, o governo de Israel alegou que seria atacado e precisaria proteger as suas fronteiras. Deste modo, desfechou fulminante ofensiva, ocupando aquelas porções asiáticas do território egípcio, além de ter tomado a Cisjordânia da Jordânia e as Colinas do Golã da Síria.

Deve-se considerar que algumas lideranças carismáticas do movimento pelos direitos civis nos EUA tinham uma visão ingênua do que chamavam de “drama do Terceiro Mundo”. Por isso, não surpreende que, em plena onda descolonizante da África, Luther King enxergasse “nossos irmãos africanos” buscando o seu “direito fundamental à soberania”, ou seja, valores da democracia liberal norte-americana e européia e, portanto, tivesse apenas uma “visão de cima” do verdadeiro drama de construir soberanias nacionais (e identidade nacional) num continente artificialmente retalhados pelo neocolonialismo. E mais ainda: nivelasse este “drama histórico” ao “drama milenar” do “povo judeu”, de forma que judeus e negros se vissem do “mesmo lado” – aquele dos discriminado, perseguidos e espoliados da História. Afinal, se nossos “irmãos africanos” lutavam por um direito fundamental, por que o “povo judeu” não poderia?

Tal “visão de cima” tem menos a ver com uma real percepção de política externa no Oriente Médio ou na África do que com a necessidade de se manter a unidade entre as facções do movimento pelos direitos civis nos EUA num momento em que um evento internacional poderia fragmentá-las mais ainda em “rixas bairristas”. Superficialmente, podemos também perceber na carta de Luther King a lente “pan-africanista” de lideranças dos processos de independência que dividiam os mesmo valores e conceitos de seus antigos colonizadores no que tangia à percepção de soberania política, território, cidadania e potenciais projetos de modernização. Portanto, a sua carta, como um artefato político e cultural de uma época, deve ser referida criticamente e adequadamente ao seu contexto.

“Anti-Zionism = Anti-Semitism”

From Martin Luther King Jr., “Letter to an Anti-Zionist Friend”, Saturday Review XLVII (Aug. 1967), p. 76.

Reprinted in Martin Luther King Jr., “This I Believe: Selections from the Writings of Dr. Martin Luther King Jr”.

“…You declare, my friend, that you do not hate the Jews, you are merely ‘anti-Zionist’. And I say, let the truth ring forth from the high mountain tops, let it echo through the valleys of God’s green earth: When people criticize Zionism, they mean Jews – this is God’s own truth. Antisemitism, the hatred of the Jewish people, has been and remains a blot on the soul of mankind. In this we are in full agreement. So know also this: anti-Zionist is inherently antisemitic, and ever will be so.

Why is this? You know that Zionism is nothing less than the dream and ideal of the Jewish people returning to live in their own land. The Jewish people, the Scriptures tell us, once enjoyed a flourishing Commonwealth in the Holy Land. From this they were expelled by the Roman tyrant, the same Romans who cruelly murdered Our Lord. Driven from their homeland, their nation in ashes, forced to wander the globe, the Jewish people time and again suffered the lash of whichever tyrant happened to rule over them.

The Negro people, my friend, know what it is to suffer the torment of tyranny under rulers not of our choosing. Our brothers in Africa have begged, pleaded, requested – DEMANDED the recognition and realization of our inborn right to live in peace under our own sovereignty in our own country. How easy it should be, for anyone who holds dear this inalienable right of all mankind, to understand and support the right of the Jewish People to live in their ancient Land of Israel. All men of good will exult in the fulfilment of God’s promise, that his People should return in joy to rebuild their plundered land. This is Zionism, nothing more, nothing less.

And what is anti-Zionist? It is the denial to the Jewish people of a fundamental right that we justly claim for the people of Africa and freely accord all other nations of the Globe. It is discrimination against Jews, my friend, because they are Jews. In short, it is antisemitism.

The antisemite rejoices at any opportunity to vent his malice. The times have made it unpopular, in the West, to proclaim openly a hatred of the Jews. This being the case, the antisemite must constantly seek new forms and forums for his poison. How he must revel in the new masquerade! He does not hate the Jews, he is just ‘anti-Zionist’!

My friend, I do not accuse you of deliberate antisemitism. I know you feel, as I do, a deep love of truth and justice and a revulsion for racism, prejudice, and discrimination. But I know you have been misled – as others have been – into thinking you can be ‘anti-Zionist’ and yet remain true to these heartfelt principles that you and I share. Let my words echo in the depths of your soul: When people criticize Zionism, they mean Jews – make no mistake about it.”

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“Anti-Sionismo = Anti-Semitismo”

De Martin Luther King Jr., “Carta para um amigo anti-sionista”, Saturday Review XLVII (Aug. 1967), p. 76.

Reimpresso em Martin Luther King Jr., “Eu acredito nisso: Seleções dos Escritos do Dr. Martin Luther King Jr.”

“…Meu amigo, você declara que não odeia os judeus, que é meramente ‘anti-sionista’. E eu digo: Deixe a verdade ultrapassar os altos cumes de montanha, deixe-a ecoar através dos vales da vicejante terra divina. Quando alguém critica o sionismo, quer dizer judeus – esta é a própria verdade divina. O anti-semitismo – o ódio contra pessoas judias – tem sido e permanece uma mácula no espírito da humanidade. Nesse sentido, tenha conhecimento disso: anti-sionismo é inerentemente anti-semita, e será sempre assim.

Por que isso? Você sabe que o sionismo não é nada mais do que o sonho e ideal de o povo judeu retornar a viver em sua própria terra. As Escrituras nos contam que o povo judeu só gozou de um florescente Estado na Terra Santa, da qual foram expulsos pelo tirano romano – os mesmos Romanos que assassinaram Nosso Senhor. Arrancado de seu lar, com sua nação em frangalhos, o povo judeus foi forçado a perambular pelo globo, constantemente sofrendo o castigo de qualquer tirano que por ventura estendesse sua autoridade sobre si.

Meu amigo, o povo negro sabe o que é sofrer o tormento da tirania de governantes que não são de nossa escolha. Nossos irmãos na África têm esmolado, suplicado, requerido e pedido o reconhecimento e realização de nosso direito natural de viver em paz sob nossa própria soberania em nosso país[1]. Para qualquer um que se agarrasse a este inalienável direito de toda a humanidade, seria tão fácil entender e apoiar o direito de o povo judeu viver em sua antiga Terra de Israel. Todo homem de boa vontade exulta no cumprimento da promessa de Deus de que seu povo deveria retornar e gozar da reconstrução de sua espoliada terra[2]. Isto é o sionismo, sem nada mais, nem nada menos.

E o que é anti-sionismo? É a negação ao povo judeu de um direito fundamental que nós justamente clamamos para o povo africano e com o qual todas as nações do globo concordam. Meu amigo, trata-se de discriminação contra os judeus por eles serem judeus. Em suma, é anti-semitismo.

O anti-semita regozija-se com toda a oportunidade de espalhar sua malícia. No Ocidente, os tempos têm tornado impopular proclamar abertamente o ódio aos judeus[3]. Sendo este o caso, o anti-semita busca constantemente novas formas e fóruns para seu veneno. Como ele deve deleitar-se em novo disfarce!…Ele não odeia judeus, ele é ‘anti-sionista’!…

Meu amigo, não acuso você de deliberado anti-semitismo. Sei que você sente, como eu, um profundo amor pela verdade e justiça, e uma repulsa contra racismo, preconceito e discriminação. No entanto, sei que você, como tantos outros, tem sido mal conduzido a pensar que pode ser ‘anti-sionista’ e ainda permanecer fiel a estes sinceros princípios que dividimos. Deixe ecoar minhas palavras na profundeza de seu espírito: Quando alguém critica o sionismo, quer dizer judeus – não se engane quanto a isso”.

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[1]Luther King funde aqui a luta pela descolonização da África e as dificuldades abertas pelo sistema eleitoral norte-americano, principalmente nos estados do sul, para a participação da população negra como eleitores e candidatos.

[2]Luther King retira do sionismo o seu conteúdo político e histórico, colocando no nível das coisas reveladas por Deus. No entanto, a visão de “povo escolhido”, por definição, implica num exclusivo. Nesse sentido, qual o lugar da população negra nesse sistema?

[3]Sob os efeitos midiáticos dos Julgamentos de Nuremberg, quando se tornou público para o mundo o genocídio em massa organizado pelo projeto estético de Estado do Fascismo Alemão, os julgamentos e preconceitos anti-semitas perderam espaço na cena pública. Em 1951, Hannah Arendt publicou “Sobre a Origem do Totalitarismo” e, em 1963, publicou “Eichmann em Jerusalém”. No entanto, para além da sofisticação analítica de Hannah Arendt, houve uma forte tendência no pós-II Guerra Mundial de constituir entre os judeus uma “identidade de vítima”, que inclusive esteve presente como justificativa para a estratégica criação do Estado de Israel. Em termos político, isso desdobrou-se numa prospeção perigosa: constituir uma identidade nacional centrada num “trauma fundador pós-dispórico” que acabou por fazer com que a história dos judeus fosse contada como se houvesse uma transtemporal unidade cultural e identitária de “povo escolhido e perseguido” que necessariamente deveria desembocar na existência histórica do Estado de Israel – ponto final para todo o sofrimento. Para saber como este mecanismo interfere na cena política e ajuda a atenuar perigosamente a especificidade histórica da lógica de genocídio numa sociedade de massa, ver: TODOROV, Tzvetan. Em face ao Extremo. Papirus: São Paulo, 1995; TODOROV, Tzvetan. O Homem Desenraizado. Rio de Janeiro: Record, 1999; SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. “Clausuras Contemporâneas: Individuação, Regressão e Terror”. In Escritos sobre História e Educação: Homenagem a Maria Yedda Linhares. Rio de Janeiro: Mauad, 2001. pp.73-85

Revista Espaço Acadêmico
http://www.espacoacademico.com.br/

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Loucos e Santos

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que “normalidade” é uma ilusão imbecil e estéril.

Oscar Wilde

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Iraque em tempos de guerra civil

NEWTON CARLOS

Tem cobertura acadêmica o aviso do general David Petraeus, chefe das tropas dos Estados Unidos no Iraque, de que pode durar anos o combate à insurgência no país. A Brookings Institution, centro de estudos independente em Washington, dá selo de validade às conclusões de que o pais invadido está à caminho de um guerra civil.
Outros -talvez intimamente o próprio Petraeus- não têm dúvidas de que esta já se instalou, e autoridades no assunto procuram dizer o que isso significaria. São citados, de modo especial, Paul Collier, James Fearon e Bárbara Walter, de Oxford, Stanford e Universidade da Califórnia em San Diego.
A primeira constatação bate com o “”pessimismo” de Petraeus. As guerras civis têm sido mais longas do que as convencionais. Há registros de até dez anos. De 1945 até hoje, a média ficou em sete. Foram oito anos sangrentos na Argélia, às vezes citados como repositórios de pontos de identificação com o Iraque. Começaram com levante de pouca intensidade contra a metrópole colonial, a França, e acabaram coletando todos os ingredientes de conflitos armados “não-convencionais”, nos quais se enquadram as guerras civis. Guerrilha, terrorismo contra não-combatentes, tortura, contra-insurgência etc. Os franceses ganharam a batalha de Argel, a capital conflagrada, mas perderam a guerra politicamente.
Um filme sobre essa batalha tem sido objeto de estudo da inteligência militar americana. A nova estratégia de Bush no Iraque, a cargo de Patraeus, parte da crença de que o envio de mais tropas resultará na imposição da lei do mais forte e que um triunfo na batalha de Bagdá destruirá a insurgência em todo o Iraque. Independentemente dos equívocos que essa espécie de raciocínio possa produzir, que opções restariam a Bush em sua decisão de não dar o braço a torcer? Conseguir um compromisso político?
Estudos cobrindo 50 guerras civis mostraram que as sectárias, como a do Iraque, são muito mais difíceis de terminar por meio de acordos do que as ideológicas, como a de El Salvador. Fearon acrescenta que é ainda mais complicado alcançar compromissos políticos quando há subdivisões em ambos os lados. No Iraque, xiitas e sunitas abrigam milícias que brigam entre si. Além disso, a história das guerras civis registra que as negociações em geral só acontecem quando se chega a impasses, o que não parece ser o caso do Iraque.
Lideranças xiitas e sunitas e seus centuriões estariam convencidas de que conseguirão o que querem, por meio da força, quando (ou se) os americanos caírem fora. É possível, diz Fearon, que as ambições permaneçam até que sejam postas à prova, algo possível apenas com a saída dos Estados Unidos.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

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O levante da Hungria

Outubro de 1989: o Partido Comunista Húngaro se autodissolve. Trinta e três anos antes, a história era bem outra.

1953: a Guerra Fria dividiu o mundo em Leste e Oeste, entre Estados Unidos e União Soviética.

Imre Nagy torna-se premiê da Hungria. Faz críticas à influência soviética no país e, em 1955, é substituído por Matyas Rakosi que, por sua vez, é substituído por Erno Gero. Um ano depois, Nagy volta ao poder.

Dia 23 de outubro de 1956: estudantes húngaros saem às ruas em manifestações a favor da democracia. As demonstrações evoluem e tomam feições de levante. Nagy exclui a Hungria do Pacto de Varsóvia - a aliança militar de influência soviética.

Moscou decide que Nagy foi longe demais. As tentativas diplomáticas de superar a crise não dão resultado.

Dia 3 de novembro de 1956: três semanas depois de Nagy ter reassumido o poder, os tanques soviéticos cercam Budapeste. Às 4 horas da madrugada seguinte, tomam a cidade. Oito mil húngaros são mortos.

O levante da Hungria é sufocado em 12 de novembro. Um governo da confiança de Moscou, sob o comando de Janos Kadar, substitui Nagy. O povo conta e enterra os seus mortos.

Nagy se refugia na embaixada da Iugoslávia. O presidente Tito, que se opôs à intervenção soviética, recebe a garantia de Kadar de que Nagy não será molestado. Mas, uma vez fora da embaixada, Nagy é preso e, dois anos depois, executado.

As tropas russas se retiram e a Hungria volta a se alinhar entre os países do Pacto de Varsóvia. O povo dá sinais de insatisfação com o governo de Kadar. Recomeçam os protestos, rapidamente sufocados. Os operários declaram-se em greve geral e o movimento estende-se por semanas.

Muitos dos líderes do levante são mandados para a União Soviética. E vários deles não voltam à pátria. Cento e cinqüenta mil húngaros fogem para o Ocidente. Entre estes, grande número de especialistas de alta qualificação. É outra dura perda que a Hungria sofre, superior até aos danos materiais.

Janos Kadar comandará a Hungria durante trinta anos. Graças à glasnost, Imre Nagy - 31 anos depois de ter sido executado - recebe a homenagem de seu povo e é reconhecido como herói nacional.

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Na Suíça, a direita ultranacionalista consolida a sua posição dominante nas eleições legislativas

Agathe Duparc

Depois de uma campanha legislativa agressiva, orientada contra todos aqueles que querem “abusar” da Suíça - que eles sejam estrangeiros, delinqüentes, dependentes da assistência social, ou até mesmo funcionários europeus -, a União Democrática do Centro (UDC) confirma a sua posição de líder entre os partidos suíços.

A agremiação nacionalista e conservadora do conselheiro federal (ministro) Christoph Blocher fortaleceu, no domingo, 21 de outubro, a sua presença no Conselho Nacional (a Câmara Alta que conta 200 eleitos) ao conquistar 29% dos votos (contra 26,7% em 2003), obtendo com isso uma ampla dianteira em relação aos outros partidos.

O Partido Socialista registra uma queda acentuada, com 19,5% (contra 23,3% em 2001), o seu pior resultado desde meados dos anos 1980. Ele é seguido pelos radicais (15,6%) e pelos democrata-cristãos (14,6%), enquanto os Verdes obtêm um resultado melhor que os precedentes (9,6%). Por sua vez, o Conselho dos Estados - a Câmara Alta, que conta 46 representantes dos cantões - continua sendo dominado pela direita clássica, uma vez que a UDC nele conquistou apenas sete assentos. Os doze mandatos que ainda estão por ser atribuídos serão disputados por ocasião de um segundo turno, em 25 de novembro.

Exigências inéditas
Na noite de domingo, Ueli Maurer, o chefe da UDC, que saboreava o seu triunfo, considerou que todas “as pessoas que se opõem ao ingresso da Suíça na UE, que querem pagar menos impostos, querem ver a sua segurança reforçada e ver diminuir a criminalidade estrangeira”, haviam apoiado o seu movimento. Ele também constatou que se tratava do “resultado mais elevado já obtido por um partido desde a introdução do sistema eleitoral em 1919″.

O restante da classe política, por sua vez, tenta compreender o que aconteceu. Os socialistas e os centristas, além de procederem a uma autocrítica ainda discreta, denunciam a quantidade excessiva de meios financeiros investidos pela UDC nesta campanha. Segundo diversas estimativas, as despesas totais do partido se aproximaram dos 20 milhões de francos suíços (R$ 30,7 milhões), contra 1 milhão (R$ 1,53 milhão) para o Partido Socialista.

Tudo isso sem que se saiba de onde provêm esses fundos, uma vez que não existe nenhuma legislação sobre o financiamento dos partidos políticos, e que não foi estipulado nenhum limite para as despesas eleitorais. Recentemente, um grupo de observadores da Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE), que acompanhou o pleito na Suíça, manifestou a sua preocupação diante desta falta de transparência.

Por meio de encartes publicados nos jornais, de manifestações, espaços promocionais, cartazes colocados em todos os locais possíveis - dentre os quais aquele, xenófobo, que representa carneiros brancos botando para fora da Suíça o “estrangeiro criminoso” simbolizado por um carneiro preto -, a UDC terá inundado o país com as suas mensagens. Para tanto, ela contou com o apoio constante do carismático conselheiro federal Christoph Blocher, que, desprezando sem cerimônia as regras políticas suíças, se comportou mais como um chefe de partido do que como ministro da justiça e da polícia.

A UDC provocou uma surpresa na Suíça Romanda. Ela obtém o primeiro lugar no cantão de Vaud, ultrapassa o limite dos 20% em Genebra, e torna-se a terceira força no Jura, um cantão até então muito reticente. Estes avanços confirmam que o partido foi capaz de conduzir uma campanha nacional, algo bastante incomum na Suíça.

Diante deste resultado, toda intenção de articular a expulsão de Christoph Blocher do governo - o conselheiro federal é acusado de ter desrespeitado, durante a campanha, o funcionamento consensual do governo -, torna-se caduca. Em 12 de dezembro, as duas câmaras do Parlamento votarão no sentido de definir a composição do Conselho Federal e, neste contexto, é a UDC que impõe as suas condições daqui para frente. A diretoria do partido já informou que, embora ela aceite a manutenção da “fórmula mágica” atual - dois representantes da UDC, dois socialistas, dois radicais e uma democrata-cristã -, ela deseja ver a saída dos três ministros mais antigos que atuam no cargo. Dentre eles está Samuel Schmidt que, apesar de ser um membro da UDC é julgado por demais moderado pelos “blocherianos”. Estas exigências inéditas confirmam, aos olhos dos observadores, a vontade da UDC de transgredir os costumes políticos em vigor.

Jornal Le Monde
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