Arquivo de 8 de Novembro de 2007

A tríplice fronteira e a hegemonia norte-americana

José Farhat

O Conselho de Relações Islâmico-Estadunidenses (CAIR), com sede em Washington, emitiu comunicado, no início de 2003, protestando contra a intimação, por parte do Federal Bureau of Investigations (FBI), para o comparecimento em seus escritórios regionais dos religiosos responsáveis pelas mesquitas norte-americanas, munidos de listas com os nomes e endereços de todos os fiéis dos templos sob sua responsabilidade. Não se tem notícia de que religiosos responsáveis pelas Igrejas Cristãs ou Sinagogas Judias, ou qualquer outro responsável por outros templos de outras religiões, tenham sido submetidos a este tipo de vexame.

Esta era mais uma demonstração de como a chamada “guerra contra o terrorismo” virou terrorismo contra as liberdades individuais e os direitos humanos. Esta fúria contra os muçulmanos veio a nos atingir de perto, pois motiva o empenho do governo estadunidense em forçar os governos brasileiro, argentino e paraguaio para uma ação conjunta contra os muitos muçulmanos da tríplice fronteira, gente pacata que nada teve com o 11 de Setembro. São entre 8 ou 15 mil, alguns deles resgatados do Líbano, onde veraneavam, pelo governo brasileiro, como resultado da agressão israelense.

A situação geográfica da tríplice fronteira permite a muçulmanos, cristãos e judeus, sem distinção, auferir lucros. Só que o governo obtuso dos Estados Unidos só vê os muçulmanos daqui, da vizinhança da Casa Branca e do mundo inteiro como se fossem seguidores de Osama Bin Laden e de Hassan Nasrallah.

Nota publicada pelo Ministério das Relações Exteriores anuncia que “deverá entrar em funcionamento, nas próximas semanas, nas dependências da Delegacia de Polícia Federal em Foz do Iguaçu, o Centro Regional de Inteligência (CRI), integrado por funcionários do Brasil, da Argentina e do Paraguai”.

O Brasil assumiu este compromisso no âmbito do “Grupo 3 + 1” integrado pelos três países da região: Argentina, Brasil e Paraguai e, também, pelos Estados Unidos. Este país já tem ali perto, em terra paraguaia, um pequeno grupo de suas forças armadas, um núcleo que pode crescer.

O prefeito de Foz do Iguaçu, Paulo MacDonald Ghisi, citado pela Folha de São Paulo (16-08-06), diz que a preocupação do governo norte-americano com a região começou há cerca de dez anos, devido ao comércio em Ciudad del Leste, ligada à cidade paranaense pela Ponte da Amizade. Na época, segundo o prefeito, parte dos produtos comercializados ali era norte-americana, mas com a chegada dos sul-coreanos, taiwaneses e chineses, eles perderam terreno.

A simples perda de mercado não deve ser tudo, pois o governo norte-americano não colocaria tropas e forçaria a criação da CRI simplesmente porque deixaram de vender alguns vinténs que os orientais passaram a negociar.

Potência hegemônica, ela se preocupa muito mais com a proliferação de regimes que não lêem por sua cartilha, na região, e com a crescente influência de Hugo Chávez, o qual, pelos parâmetros deles, influencia a Bolívia e a Argentina.

Com a Argentina, os norte-americanos têm algo em comum neste assunto. Os Estados Unidos estão sendo assediados pelo lobby israelense para intervir, ou fazer com que alguém o faça, na região, pois acreditam que foram muçulmanos da Tríplice Fronteira os responsáveis pelos ataques a instituições judias na Argentina. Esses dois países e Israel chegaram a qualificar os perpetradores, até hoje não identificados, de pertencerem ao Hizbollah. A Argentina, também influenciada pelas organizações judias, está indo além e patrocina a assinatura, pelo Mercosul, de um tratado de livre comércio com Israel.

O Banco Mundial tem um programa de investigação da corrupção, cujo resultado habilita ou não os países investigados a obter ou não créditos junto a esta entidade internacional. O Brasil foi selecionado para que as investigações começassem agora, mas o governo brasileiro conseguiu que o Banco Mundial adiasse o processo para depois das eleições. Esta é mais uma tentativa de intimidar o Brasil para que se afaste da Venezuela de Chávez, da Bolívia de Morales, da Argentina de Kirchner, da Cuba de Castro, os quais o inquilino da Casa Branca, a qualquer momento, os incluirá no rol de “países patifes” tais como o Irã e a Coréia do Norte.

A corrente junta suas argolas se lembrarmos que o atual manda-chuva do Banco Mundial é ninguém menos que Paul D. Wolfowitz, ex-vice Secretário da Defesa, mentor e idealizador de tudo aquilo que se tem feito na atual administração George W. Bush, a favor da hegemonia norte-americana, da guerra das civilizações e contra os muçulmanos, em geral, e os árabes, em particular.

A Tríplice Fronteira é parte de toda esta trama.

José Farhat, cientista político e empresário

Icárabe

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Redução de Postos de Trabalho e Fusionite – Duas Faces da Mesma Moeda

Robert Kurz

Uma dupla subida de temperatura grassa no panorama global das empresas. Há um febril planejamento de redução de postos de trabalho em larga escala, corresponde, por outro lado, uma crescente “febre de aquisições”. As duas realidades estão estreitamente relacionadas. A onda de racionalização da microelectrónica atingiu esferas até agora poupadas. Após os recém conhecidos despedimentos em massa nos sectores da banca e seguros, seguem-se novos processos de despedimento nas áreas administrativas das empresas industriais. Depois dos sectores “de fato-macaco”, também os sectores “de gravata” foram apanhados por este desenvolvimento. Diz-se que se trata de uma industrialização das funções administrativas, que abrange não apenas a indústria automóvel, os serviços (energia, etc), mas também outros ramos. Com as infraestruturas de comunicação cada vez mais acessíveis, atingiu-se a “massa crítica” para a estandardização e automatização do processamento contabilístico-financeiro, gestão de pessoal e aprovisionamento. A consequência não é só uma crescente redução de centenas de postos de trabalho locais, mas até a deslocalização para países de baixos salários se torna um modelo descontinuado.

Esta nova qualidade de desemprego estrutural em massa que se avizinha vem de mãos dadas com novos recordes de fusões e aquisições, cujo volume, em 2006, será superior em 120% ao do ano anterior. Tal percentagem refere-se, quer às fusões e aquisições já concretizadas, quer às que estão na forja na Europa e fora dela, por firmas sediadas na RFA. Contudo, este facto nada tem a ver com uma nova “posição de vanguarda económica da Alemanha”, como a esquerda tradicional quer fazer crer obstinadamente. Pelo contrário, trata-se, sim, de uma transnacionalização de capitais em estado avançado, que há muito saltou do enquadramento económico nacional e já não se encontra sob qualquer directiva estatal. Enquanto isto, a transnacionalização citada apenas numa pequena parte se desenrola ao nível da economia real. Com cada nova vaga de racionalização-eliminação de força de trabalho, desaparece o “trabalho abstracto” (Marx) como substância da acumulação real, o que se traduz, no mercado, numa redução do poder de compra. Os lucros são cada vez menos da produção e venda de mercadorias, e cada vez mais apenas do mercado de fusões e aquisições. Aquilo que é abatido por “caçadores de empresas” é desmanchado para ser vendido mais caro em partes separadas a sociedades de investimento, que tomam conta do crédito e dos activos em caixa, até que o residual desemboque num qualquer tribunal de falências.

O recorde de subida dos lucros, por exemplo no Deutscher Bank (32 %), Grupo-Allianz (64 %), BMW (44,5 %) ou BASF (17 %), na sua maioria já não provém da produção de mais valia real, mas sim dessas transacções na circulação, no “mercado empresarial”. E estes lucros exorbitantes são canalizados, por um lado, para investimentos que, por sua vez, gerarão mais racionalizações e, por outro lado, para novos projectos de aquisição e desmantelamento de empresas. A redução de postos de trabalho já não é consequência de uma estratégia económica real; ela surge como um momento da precária autonomização do “capital fictício” (Marx). O embaratecimento das mercadorias, tendo como objectivo uma parte maior do mercado e um ganho extra, tornou-se um efeito secundário; aliás os custos com pessoal tornaram-se uma insignificante parte do capital investido. As novas racionalizações servem predominantemente para fazer subir o valor das acções ou o preço de venda das empresas. Perante a sociedade, este processo surge como uma crise social, que, todavia, é uma crise da própria acumulação de capital. Daí não fazer qualquer sentido armar um escândalo moral com a aparente desproporção entre ganhos elevados no mercado de fusões e aquisições (Mergers and Acquisitions) e, apesar disso, despedimentos em massa. Esta desproporção não provém de uma má vontade subjectiva, mas sim das condições reais do capitalismo de crise, desprovido da sua substância trabalho na terceira revolução industrial, que agora abrange novos sectores. Esta febre de redução de postos de trabalho e aquisição-desmantelamento de empresas segue a mesma lógica. A saudade dos investimentos em postos de trabalho torna-se uma ideologia perigosa; em vez disso, o próprio sistema do trabalho assalariado deveria ser deslegitimado.

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Fukuyama, neoconservador arrependido?

Em seu mais recente livro, o formulador da hipótese de “fim da História” critica duramente o governo Bush, reconhece o papel dos Estados nacionais e admite que o poder dos EUA tem limites

Hubert Védrine

Na sua mais recente obra, America at the crossroad [1], Francis Fukuyama, que se tornou célebre por seu controverso livro sobre o “fim da história” [2] após a queda da URSS e que, durante muito tempo se dizia um neoconservador – entrega-se a um verdadeiro ato de ruptura com o governo Bush, e talvez com todo o neoconservadorismo.

Certamente, ele continua prestando homenagem a essa corrente de pensamento pelo seu “anticomunismo eterno”, dos anos 1930 até hoje. E ainda lembra a constante oposição dessa corrente à “realpolitik” de Henry Kissinger (assunto que mereceria uma ampla discussão). Na verdade, Fukuyama não se afasta dos grandes princípios do neoconservadorismo. Ele sempre pensa que – contrariamente ao que afirmam os “realistas” – a natureza interna dos regimes não é indiferente nas relações internacionais, sendo preciso preocupar-se com ela e, se necessário, transformar as ditaduras em democracias. Ele não contesta – pelo contrário – a tese de que os Estados Unidos devem estar engajados nos assuntos internacionais, já que eles estariam, quase por sua própria natureza, a serviço de “fins morais”. Ele acredita que é necessário desconfiar das ambições excessivas de transformação social e, finalmente, que não se deve alimentar ilusões quanto à lei e às instituições internacionais, pouco capazes de impor a segurança e a justiça.

É sobre o grau de importância da natureza dos regimes nas relações internacionais que está a maior polêmica entre os neoconservadores (dentre os quais Fukuyama ainda hoje) e os realistas clássicos, à maneira de Kissinger. Sobre o multilateralismo, os neoconservadores se opõem aos liberais internacionalistas wilsonianos (democratas americanos; social-democratas europeus e europeus em geral). Quanto à necessidade do engajamento dos EUA (a “nação indispensável”, segundo Madeleine Albright), sobressai o isolacionismo recorrente, mas impraticável nos nossos dias, da opinião pública norte-americana. Os neoconservadores podem ter forjado um coquetel ideológico original, mas se inspiraram em antigas correntes norte-americanas de pensamento.. Durante seu primeiro mandato, George W. Bush foi talvez uma caricatura, mas não uma aberração.

Se de certa maneira Fukuyama continua neoconservador, com quem ele rompe hoje e por quê? Essencialmente com o governo Bush, por causa da sua política para o Iraque. Segundo Fukuyama, o governo cometeu três erros graves com a guerra: enganou quanto à ameaça, não previu a virulenta oposição mundial ao exercício da pretensa “benevolent hegemony” (hegemonia benevolente) norte-americana e avaliou muito mal as dificuldades da pacificação e reconstrução do país.
Uma crítica aos preconceiros sobre o Islã

Remontando à raiz desses erros, Fukuyama começa por se distinguir completamente da retórica que ele julga imprópria, ilusória e prejudicial da “guerra contra o terrorismo”. Prestando homenagem a Olivier Roy e Gilles Kepel, ele estigmatiza as confusões permanentes, nos Estados Unidos, entre fundamentalistas islâmicos, islamitas, islamitas radicais e muçulmanos. Afirma que a democracia ocidental não é uma solução a curto prazo ao problema do terrorismo. Admite – posição corajosa para um norte-americano – que o rancor antiamericano no mundo árabe, derivado do que é visto como um apoio unilateral dos EUA a Israel, facilita a ação dos terroristas. E, sobretudo, mesmo que lembre algumas ações preventivas justificadas ao longo da história e lamente que outras não tenham ocorrido, estima que uma ação preventiva seja extremamente difícil contra um programa nuclear (ela pode deixar este último mais lento, mas não interrompê-lo por completo). Além disso, acredita que tal ação poderia inclusive estimular a proliferação desse programa, e que o processo de mudança de regime, que supostamente decorreria, é extremamente incerto.

Fukuyama não se mostra mais flexível quando julga insuperável a contradição entre a crença dos EUA no seu “excepcionalismo” (ele o vê como algo próximo a uma religião, que remonta ao próprio George Washington e justifica hoje o perigoso conceito de guerra preventiva) e a necessidade de legitimação internacional. “Não é suficiente que os americanos creiam em suas boas intenções – reconhece ele – e ainda é necessário que estejam convencidos disso aqueles que não são americanos!”. Principalmntequando os Estados Unidos não chegam a provar ex post a legitimidade de suas intervenções, a competência do “poder hegemônico” não está à altura de suas pretensões. Em resumo, o governo Bush teria se equivocado em todas as suas ações, como escreveu o especialista democrata Philip Gordon (”The end of the Bush Revolution” [3]), em Foreign Affairs.

Fukuyama faz mais duas observações que parecem essenciais, especialmente para os europeus que refletem sobre suas futuras políticas externas. Ele redescobre que, antes de falar em democratização, é necessário haver um Estado. A construção do Estado (”state building”) é uma coisa em si, a promoção da democracia não o assegura ipso facto. Além disso, a receptividade das forças democráticas de um país à ajuda externa, particularmente a oferecida peldos Estados Unidos, depende muito da história particular da sociedade e do tipo de nacionalismo em ação. Em outras palavras, a democracia não é facilmente imposta do exterior e os países ocidentais – colonizadores de ontem e poder dominante de hoje – não estão, necessariamente, bem posicionados para tanto. Estou bem contente de ver Fukuyama admitir, por sua própria conta, a diferença que destaco há anos entre “processo de democratização” - necessário, longo e difícil - e uma ilusória “democracia instantânea”, sobretudo imposta do exterior. Nada de instituição, nada de democratização sem demanda interna. Na mesma via, e isso é fundamental, ele desmente o pretenso (e supostamente salutar) desaparecimento dos Estados.
Permanece a desconfiança em relação à ONU

Não façamos de Fukuyama um intelectual europeu multilateralista. A “hegemonia benevolente” norte-americana tem limites, mas Fukuyama não compartilha nenhuma das ilusões dos europeus e da esquerda norte-americana com relação às instituições internacionais. Ele chega a estimar que, pelo próprio fato da sua existência, a Organização das Nações Unidas dispensa a reflexão sobre esse assunto. Prova disso é que a ONU não é reformável. Ele vê, antes de tudo, o desenvolvimento de um leque de formas de cooperação internacional extremamente diversas, da mais formal e legítima (ONU) à mais informal (os códigos das empresas, ISO, ICANN [4]), sendo que a mais legítima não significa a mais eficaz.

Como qualquer outro norte-americano, Fukuyama não contesta o leadership de seu país. Além disso - como os wilsonianos, os neoconservadores americanos, grande parte das organizações não-governamentais e das opiniões ocidentais -, ele não renuncia de forma alguma ao proselitismo e continua a pensar que é preciso mudar os regimes não-democráticos. Mas a questão continua colocada: uma vez que Fukuyama está completamente consciente dos limites do unilateralismo, e como um wilsoniano realista, em nome de que e de que forma lhe parece ilusório esperar pelas instituições internacionais?

Fukuyama lamenta que as idéias neoconservadoras – nas quais acreditou e ainda acredita, em grande parte – tenham sido utilizadas por péssimas equipes, em lugares inapropriados e da pior forma, o que acabou por desacreditá-las amplamente. Mas ele está consciente de que os Estados Unidos não podem exigir que o resto do mundo lhes dê confiança, se eles não demonstram que são capazes de ver mais longe do que os outros e se não percebem que o poder é mais forte quando é apenas sugerido. Assim, Fukuyama se separa do governo atual, talvez para marcar sua disponibilidade para uma nova política externa norte-americana por vir. Ele previne: “Restaurar a credibilidade americana não será somente uma questão relativa às relações públicas, mas requererá uma nova equipe e novas políticas”.

Seria muito bom para os europeus ler e pensar sobre Fukuyama. Sua reflexão é forte e sua progressão, interessante, mesmo que ambas sejam naturalmente contestáveis. E, sobretudo, essas discussões lhes interessam diretamente. De fato, as manifestações européias contra a guerra no Iraque mascararam uma convergência ocidental mais profunda: há mais europeus do que se pensa que compartilham certas convicções dos neoconservadores, incluindo a esquerda francesa. Desde o fim da URSS, ocidentais, norte-americanos e europeus sentem-se mais do que nunca engajados na sua secular missão civilizadora, de democratizar o resto do planeta: Rússia, China, mundo árabe-islâmico e África.

Tornou-se um “lugar-comum”, por parte das mídias e de certos políticos, denunciar as políticas “realistas” – bode expiatório cômodo – que supostamente “sacrificam os direitos do homem” em nome de considerações econômicas, comerciais, energéticas, etc. Sendo que o pressuposto dessas posições seria a indiscutível legitimidade dos ocidentais em propagar os direitos humanos, assim como também se vê como incontestável sua capacidade de realizar tal ação de forma eficaz e durável. Os neoconservadores norte-americanos não dizem outra coisa. A principal divergência entre norte-americanos e europeus se refere aos meios – recorrer ou não à força armada – e não aos fins.

Portanto, considerando as diversas correntes que – tanto no seio da direita como no da esquerda francesa – militam, neste ano pré-eleitoral, em favor de um abandono da linha diplomática da 5ª República (supondo-se que ela tenha sido seguida), em benefício de uma diplomacia mais militante e “transformacional” (para retomar a linguagem de Condoleeza Rice), pode-se dizer que essas correntes se expõem aos mesmos desapontamentos ou decepções que a política neoconservadora. Mesmo que essas correntes sejam apenas uma pálida cópia. Assim, antes de montar novamente – com um ardor renovado e correndo riscos – sobre o cavalo manco e “supermaquiado” do “dever de civilização”, essas correntes deveriam se interessar em estudar por que Francis Fukuyama distanciou-se de seus antigos colegas, que se tornaram aprendizes de feiticeiro.

Tradução: Leonardo Teixeira da Rocha leorocha2003@yahoo.com.br

[1] Francis Fukuyama, O Dilema Americano, Rocco, São Paulo, 2006.
[2] Francis Fukuyama, O fim da História e o último homem, Rocco, São Paulo,1992.
[3] Foreign Affairs, Palm Coast julho/agosto 2006.
[4] A International Standards Organization (Organização Internacional de Normalização), o maior organismo de normalização do mundo, tem como atividade principal a elaboração de normas técnicas. Criada em 1998, a Internet Corporation for Assigned Names and Numbers é a autoridade de regularização da Internet. Sua competência é mundial e suas decisões se impõem aos Estados, embora esteja juridicamente vinculada ao Estado norte-americano da Califórnia.

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

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Estados Unidos, uma lição de barbárie

Assistimos, nas duas gestões de George W. Bush, a um retrocesso histórico-político sem precedentes. O capital, autonomizado da política, faz tábua rasa dos preceitos mais elementares da modernidade.

Gilson Caroni Filho

Quando George W. Bush acena com a redução gradual de soldados no Iraque, mas se recusa a promover uma mudança radical de estratégia, afirmando que a presença militar americana continuará após sua saída da Casa Branca, que leitura se pode fazer? O ocaso do império e a perda de dinamismo da economia serão inversamente proporcionais à ferocidade de seu papel de polícia do mundo, por mais desmoralizado que ele se encontre. Uma vez instalada, a barbárie não retrocede aos apelos kantianos por uma paz perpétua. Não nos iludamos com o médio prazo. Tentemos aprender com as lições recentes.

Os saques promovidos contra o Museu Nacional de Bagdá, em 2003, não devem ser debitados apenas à “negligência” das forças de ocupação anglo-americanas. A destruição de tesouros arqueológicos das civilizações que viveram às margens do Tigre e do Eufrates foi, talvez, o mais emblemático ato da invasão imperialista. A mais significativa aplicação prática da doutrina expressa no “Project for New American Century”: o avanço sobre destroços. Não como conseqüência inelutável de confronto surgido em uma conjuntura inesperada, mas como premissa de expansão mundial, calcada na supremacia militar e no fundamentalismo neoconservador que empolgou o poder norte-americano. Bush é Deus e Paul Wolfowitz (lembram dele?) seu profeta.

A terra arrasada será sempre a do “outro”, dos bárbaros, dos que não foram “eleitos” dentro dos cânones pentecostais para purificar o mundo. Os predestinados têm algo a destruir para preservar os interesses nacionais. O que precisava ser eliminado não eram apenas o Iraque, muito menos o Irã, Coréia ou Cuba.

O verdadeiro “eixo do mal” é, na ótica do império, a civilização e sua história. Quanto menos vestígios, maior a possibilidade de êxito da desconstrução em andamento. Francis Fukuyama, apesar do arrependimento, terá, custe o que custar, dado a palavra final. E será o final da palavra. A vida, tal como prenunciou Macbeth, será uma história cheia de som e fúria contada por um idiota e que, no fim das contas, nada significará.

Superpotência condenada por debilidades estruturais de sua economia, os Estados Unidos convivem com crescente perda de hegemonia mundial. A incapacidade - apesar do colossal aparato midiático - de universalizar os seus interesses específicos se dá em um cenário de gigantescos déficits fiscais e comerciais, dependência de aportes de capitais europeus e asiáticos , além da necessidade de ampliação de reservas petrolíferas para atender à demanda doméstica. Tais fatos, somados às deformações constitutivas apontadas por Tocqueville, explicam o fim do regime republicano no maior país capitalista do mundo e a lógica da barbárie que se avizinha.

Assistimos, nas duas gestões de George W. Bush, a um retrocesso histórico-político sem precedentes. O capital, autonomizado da política, faz tábua rasa dos preceitos mais elementares da modernidade. No coração do Império, a distinção, tão cara ao republicanismo, entre “Imperium” e “dominium” se esfuma na absorção da sociedade política pela lógica do mercado.

O patrimonialismo, quem diria, se instalou fagueiro na terra do Tio Sam. O establishment se descolou da democracia, vista como obstáculo à governabilidade. Fraturada a hegemonia, só restou avançar fazendo ouvidos moucos à opinião pública mundial. Nunca caminhamos tão celeremente de volta ao estado de natureza hobbesiano. A ironia está no Estado Policial como avalista do esfacelamento da sociedade civil. De momento de eticidade em Hegel, o “glorioso” Estado se tornou o gestor executivo de uma ordem que anuncia o lema dos tempos pós-industriais: “homini lupus homini”. Hobbes se vinga de Rousseau.

Para a tradição socialista, tão mais combativa quanto preparada teoricamente estiver, o quadro aterrorizante não surpreende. Há muito tempo, autores como Rosa Luxemburgo atentaram para o fato de que capitalismo e barbárie não eram incompatíveis. Pelo contrário, a segunda decorreria do desenvolvimento do primeiro.

Termos sucumbidos a ilusões reformistas, talvez tenha sido a maior vitória ideológica dos filhos de Adam Smith. Que, justiça seja feita, nunca descuraram das condições subjetivas para a reprodução de sua ordem social. O confinamento na vida privada, o narcisismo exacerbado, a competitividade sem sentido e o individualismo irrestrito semearam a despolitização para colher o assentimento aos ditames do” homo demens”.

Felizmente o quadro acima é restrito à formação social norte-americana. Não encontra equivalente, ao menos na mesma escala, em outros países. E é da impossibilidade de enquadramento geral que nasce o temor da classe dirigente estadunidense. A truculência nazista de Rumsfeld, Bush, Cheney e Wolfowitz, em seus dias de prestígio, era proporcional ao medo da resistência que pressentiam. Sabiam que o pragmatismo cínico não elimina o devir. Que as contradições não são eliminadas por decreto.

Para eles, a civilização é um incômodo a ser removido. Um mal a ser extirpado a ferro e fogo. O caráter simbólico das ações predatórias encontra aqui sua real intenção. Se o que pretendem é eliminar o “mal” da herança humanista, melhor destruir seu berço. Que se evaporem 5.000 anos de história escrita, as tradições sumerianas, as lembranças dos Impérios da Babilônia e dos persas. Que se destrua Najaf, que sítios arqueológicos sejam saqueados, e estátuas e cerâmicas destroçadas.

Essa é a contribuição de quem pode oferecer bomba de fragmentação e um “mclanche feliz”. Para o ex- secretário de Defesa, Donald Rummsfeld, isso era natural: “A liberdade é bagunçada mesmo”. Essa foi a contribuição neoliberal para o caro conceito de liberdade forjado nos marcos da Revolução Francesa.

EUA e os então governantes da Inglaterra e Espanha anunciaram o fim da modernidade. Em troca, tal como está no “Project for New American Century” prometeram “uma dominação de espectro amplo”. Nisso contam com o posto avançado dos Estados Unidos no Oriente: o Estado de Israel e sua política externa, calcada no extermínio sistemático do povo palestino.
Talvez a opinião pública mundial já tenha isolado o vírus causador da barbárie e elaborado o antídoto. Terá porções de Thomas Jefferson, doses de “Magna Carta”, sensibilidade ante o horror de Guernica e a cultura libertária da diáspora judaica.

Vencida a primeira etapa, há que se erguer as bases para um novo contrato interestatal que tenha como premissas a multilateralidade e uma ordem socialista e democrática. As bases de peças de terracota terão demonstrado aos mísseis “Tomahawk” que nem tudo que é sólido se desmancha no ar.

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, e colaborador do Jornal do Brasil e Observatório da Imprensa.

Carta Maior
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Que pátria é esta?

O Brasil do desamparo social, disperso e não raro ausente, é fruto de uma sociedade civil inventada pelo Estado, na pessoa de Pedro I, para ser coadjuvante tutelada e frágil.

José de Souza Martins

Às vezes, a pátria imensa parece imensamente pequena. Aprendemos todos, na escola, lições inesquecíveis e belas sobre a grandeza da pátria. A própria bandeira tremulava cores da imensidão de nossas matas, da abundância do nosso ouro, do nosso céu azul mais azul e sem limites. Era um recurso metafórico para que aprendêssemos a amar a nossa terra. Não aprendemos: derrubamos e queimamos a mata, exaurimos sem resultados o ouro, poluímos o céu. As cores, na verdade, tinham origem na história das bandeiras de Portugal. Não obstante, a pátria ficou em nosso peito e em nossas esperanças.

Não é estranho que se encontrem aqui e ali, com mais freqüência do que nossa dignidade gostaria, expressões de uma consciência de pátria que preocupa e comove. É a consciência da orfandade dos brasileiros que, vivendo em exílio na imensidão da terra brasileira, se pensam estrangeiros porque da pátria só receberam privação, sofrimento, abandono, injustiça e dor.

Lembro de Regimar, uma menina bonita, de uns l O ou 11 anos de idade, magrinha, o rosto moreno, bem brasileiro, delicado, cheio de ternura e inocência. Foi no que era então um povoado muito pobre nascido da noite para o dia no meio da selva, no limite entre o Maranhão e o Pará. Era uma das crianças que eu estava entrevistando sobre a experiência humana do deslocamento da chamada frente pioneira na Amazônia.

Sentamos nuns tocos de pau ao pé da escola de pau-a-pique, cobertura de palha e chão de terra batida. Ao lado, um tronco imenso, caído, diâmetro quase da altura de Regimar. Servira como trincheira num dos tiroteios recentes entre pistoleiros de um grileiro do Pará, que queria se apossar da terra já ocupada, e os dez mil posseiros pobres que cultivavam arroz na terra adubada por seu suor e pelas cinzas da floresta. Num dos ataques, enquanto os pais das crianças estavam na roça distante, os criminosos tocaram fogo na mata ao redor, o chamado fogo de encontro.

O fogo cercaria todo o povoado, queimaria as casas. Ali só havia crianças e velhos. Gente indefesa como Regimar, que cozinhava, lavava e cuidava dos irmãos pequenos e da casa. Um sopro de vento providencial levou o fogo para outra direção. Regimar narrou serenamente o acontecido. Ao notar que eu me afligia, quis tranqüilizar-me: “Mas tudo isso vai acabar. Minha família vai embora do Brasil. Nós vamos para Roraima…”

Desse estranho Brasil falou-me, também, uma velha índia carajá, na aldeia de Santa Isabel do Morro, na ilha do Bananal. Conversávamos. Achei-a triste, quis saber por quê. O filho tinha se casado com uma brasileira e “foi embora para o Brasil”, disse-me ela apontando para o Mato Grosso, no outro lado do rio Araguaia, que dali se via.

E “naquele Brasil”, numa rua de terra de São Félix do Araguaia, à beira do rio, v\ um bando de crianças debochando e gritando insultos para um índio carajá que passava, cabisbaixo, no rosto, sob os olhos, os círculos que são a marca distintiva da identidade de sua tribo. Ralhei com eles e lhes perguntei por que faziam aquilo se aquele índio era gente como nós? Um dos meninos arregalou os olhos e me corrigiu: “Ele não é gente que nem eu, não. Eu sou cristão. Ele é gentio.” Eco que vinha do fundo dos tempos, da época colonial, quando a humanidade deste país era classificada de outro modo, dividida entre convertidos ao catolicismo e ímpios. Gente e bicho, segundo a definição crua que ouvi pêlos sertões do Brasil, herança da religião colonial.

Esse Brasil disperso e não raro ausente, de gente brasileira sem Brasil, tem suas causas históricas. Fernando Henrique Cardoso, em estudo sociológico do início dos anos 1970, sublinhou o fato de que aqui, diversamente do que ocorreu em outros países latino-americanos, a independência política não foi o resultado de uma revolução da sociedade civil que nos contrapusesse à metrópole portuguesa. A sociedade não foi a autora do Brasil independente. O próprio herdeiro da coroa de Portugal, isto é, o próprio Estado, proclamou a independência da colônia sem a participação do povo. Aqui a sociedade civil foi inventada pelo Estado, como uma sociedade coadjuvante, tutelada e frágil.

O chamado “grito do Ipiranga”, na tarde de 7 de setembro de 1822, na colina histórica, não teve a intencionalidade que muitos supõem. O improvisado ato apenas abriu um hiato de incerteza quanto ao futuro da colônia que já fora declarada reino em 1815, unido ao de Portugal e Algarve. E só no dia 12 de outubro, com a coroação do imperador d. Pedro I, herdeiro também da coroa de Portugal, é que ficou claro que o Brasil se tornava uma nação independente. Nos 35 dias que separaram as duas datas, desenrolou-se a trama que transformou o Brasil de Reino Unido a Portugal, dos sonhos do príncipe, no Brasil independente do ideário de José Bonifácio e dos que o assediaram desde as primeiras horas do grito incerto. Nesses 35 dias, foi gestado e inventado o Brasil que conhecemos. Em 12 de outubro, ficou d. Pedro sabendo que criara uma pátria.

O plano da independência do Brasil, porém, vinha de longe e também de outros. Na Biblioteca Britânica, em Londres, encontra-se um documento, anterior a junho de 1806, que é o esboço de um esquema para transportar d. João, príncipe regente de Portugal, futuro d. João VI, ou seu filho, d. Pedro, para o Brasil, acompanhado por uma força militar inglesa, para apoiar a emancipação da América do Sul portuguesa e espanhola e abrir o comércio dessa região ao comércio britânico.

Só em fins de 1807 a família real fugiria para o Brasil, aqui chegando em 1808, retornando a Portugal em 1821. Antes de partir, deixava aqui o rei, de propósito, seu próprio filho e herdeiro, com a recomendação de que colocasse sobre a cabeça a coroa no caso de que o Brasil se separasse de Portugal.

Muitas e desencontradas cabeças imaginaram o destino do Brasil, mas de um Brasil sem povo, de um Estado sem sociedade, deitado eternamente em berço esplêndido.

José de Souza Martins é professor titular de sociologia da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP)

Publicado em Valor Econômico (8,9 e 10 de setembro de 2006)

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Amigo

Eu creio em mim mesmo. Creio nos que trabalham comigo, creio nos meus amigos e creio na minha família. Creio que Deus me emprestará tudo que necessito para triunfar, contanto que eu me esforce para alcançar com meios lícitos e honestos. Creio nas orações e nunca fecharei meus olhos para dormir, sem pedir antes a devida orientação a fim de ser paciente com os outros e tolerante com os que não acreditam no que eu acredito. Creio que o triunfo é resultado de esforço inteligente, que não depende da sorte, da magia, de amigos, companheiros duvidosos ou de meu chefe. Creio que tirarei da vida exatamente o que nela colocar. Serei cauteloso quando tratar os outros, como quero que eles sejam comigo. Não caluniarei aqueles que não gosto. Não diminuirei meu trabalho por ver que os outros o fazem. Prestarei o melhor serviço de que sou capaz, porque jurei a mim mesmo triunfar na vida, e sei que o triunfo é sempre resultado do esforço consciente e eficaz. Finalmente, perdoarei os que me ofendem, porque compreendo que às vezes ofendo os outros e necessito de perdão.

Mahatma Gandhi

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Um novo estado do mundo

Fracassos da máquina militar dos EUA, reviravoltas no Oriente Médio, avanço da Ásia, migrações intensas e risco de catástrofe climática. Cinco anos após os atentados de 11 de setembro, multiplicam-se os sinais de que a globalização pode estar sofrendo uma mudança de rumos

Ignacio Ramonet

Trágicas labaredas de verão no incêndio permanente do mais antigo conflito planetário, as recentes hostilidades em Gaza e no Líbano testemunham, cada uma à sua maneira, características da nova situação mundial, cinco anos após os atentados do 11 de setembro. Deduzidos a partir deste contexto e a título de esboço cartográfico para ajudar a caminhada nos labirintos da atualidade, eis aqui, em
quatro observações gerais e dez breves considerações, alguns modestos elementos de orientação.

Primeira observação geral

O fenômeno central de nossa época, a globalização econômica, não parece influenciar diretamente os confrontos no Oriente Médio. Nem atiçá-los e tampouco apaziguá-los, o que confirmaria dois postulados: o caráter arcaico desta guerra em que se mesclam, como no século 19, disputas territoriais, tensões oriundas de nacionalismos e fervor religioso; e o equívoco da ideologia liberal de acreditar que o simples aumento do livre comércio gera a paz.

Segunda observação geral

O fato de o Oriente Médio encontrar-se mais uma vez sob o foco da mídia não deve permitir que se esqueça a importância estratégica da Ásia. É lá que se está desenrolando em grande parte o destino do século 21, devido ao crescimento dos dois gigantes, Índia e China. E tendo em vista que os perigos de conflitos entre a China e Taiwan, Coréia do Norte e Japão, Índia e Paquistão, não são de se menosprezar…

Tampouco se deve subestimar a África sub-saariana, onde se acumulam problemas de todos os gêneros (como os da miséria extrema e migração clandestina) que terminarão por explodir diante dos países ricos.

Terceira observação geral

A guerra nuclear torna-se novamente uma das duas maiores ameaças que pesam sobre o mundo (a outra é a catástrofe ecológica). Israel que, durante os recentes combates, penou para impor-se claramente através de meios militares convencionais, possui armamento nuclear. No entanto,não aderiu ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear, do mesmo modo que dois outros Estados rivais: o Paquistão e a Índia. Não longe deste teatro, três potências nucleares investiram militarmente e fracassaram: os Estados Unidos, o Reino Unido e a Rússia. As duas primeiras no Iraque e no Afeganistão e a terceira na Tchechênia. Além disso, a mais importante aliança militar, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), da qual a França (ela própria uma potência nuclear) faz parte, também combate no Afeganistão.

Ainda que os perigos de conflito nuclear existam em outros lugares – península coreana e estreito de Taiwan [1] - na zona que se estende das fronteiras ocidentais da Índia até o Canal de Suez, concentra-se o arsenal mais devastador de todos os tempos. Excetuando a China, todas as grandes potências são militarmente ativas ali. Uma simples faísca pode levar a uma deflagração…

Esta é a razão por que a gestão das crises, que se sucederam na região, requer um saber diplomático cuja chave apenas as Nações Unidas possuem. Mas como isso acaba de ser mostrado no Líbano, a ONU, em sua configuração atual, permanece indispensável e ao mesmo tempo terrivelmente impotente diante dos grandes contenciosos (das grandes incertezas) contemporâneos. Quanto à União Européia, escolada pela sua longa história de guerras desastrosas, constituiria o melhor dos mediadores… caso não continuasse a ser um anão político.

Quarta observação geral

Para compreender as estratégias em prática atualmente, convém distinguir bem os três tabuleiros de xadrez sobre os quais se joga o nosso futuro:

- o militar, onde dominam os Estados-Nações, condicionados pelo fator territorial e pelos ciclos eleitorais curtos (o que os torna pouco aptos a abordar os problemas planetários e de longo prazo). Aqui a supremacia dos Estados Unidos é total, assim como sua vontade de impor um mundo unipolar;

- o econômico e comercial, onde funcionam em regime integral as lógicas da globalização definidas pelo Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional (FMI) e pela Organização Mundial do Comércio (OMC). Onde reinam as empresas privadas e os interesses financeiros em uma multiplicidade de trocas que deixa entrever a perspectiva de um mundo multipolar;

- o ecológico e social, onde se acumulam problemas em três níveis relativos ao meio ambiente (alteração climática, efeito-estufa, poluição, desmatamento, água potável, biodiversidade); à necessidade de novas regras internacionais (para lutar contra a injustiça da ordem mundial que alimenta as tensões internacionais, para gerenciar as migrações, a utilização de transgênicos, a propriedade intelectual, pesquisas genéticas, evasão fiscal e delinqüências modernas). E também o destino das populações da Terra (África, pandemias, miséria, desigualdades quanto ao acesso à Internet, grandes aglomerações, fome, educação, trabalho, catástrofes naturais), onde predominam pobreza, desordens, perigos e caos.

Entre estes três tabuleiros de xadrez as articulações são aleatórias. Freqüentemente evidentes, às vezes inexistentes, e em certos casos, enigmáticas.

Além dessas observações gerais, algumas considerações prudentes podem ser tiradas do recente conflito no Oriente Médio.

Primeira consideração

A nova recrudescência do conflito no Oriente Médio leva a uma confirmação de caráter geopolítico. Esta região de conflito constitui, desde a guerra do Golfo em 1991, o epicentro do atual “pólo de perturbações mundiais”. Desde 1914 e até o fim da Guerra Fria, este foco situava-se na Europa. Agora, engloba uma área geográfica onde o Islã é a religião predominante, e onde se encontra, do Paquistão ao Egito, a maioria dos grandes embates contemporâneos: Caxemira, Afeganistão, Tchechênia, Cáucaso, Curdistão, Iraque, Líbano, Palestina, Somália, Darfur…

Esta zona também acumula fortes tensões internacionais: conflito entre o Paquistão e a Índia a propósito de Caxemira; ameaças do Irã, suspeito de produzir armas nucleares; pressões da Rússia na região transcaucasiana; temores sobre a relação entre a Turquia e o Curdistão iraquiano; numerosos litígios pelo controle da água doce; ganâncias suscitadas pela existência das principais reservas de petróleo no centro de um vasto triângulo formado pelo Golfo, Irã e Mar Negro.

Segunda consideração

Se, por um lado é indiscutível que Israel tem o direito de se defender, por outro, a desproporcionalidade dos castigos infligidos aos civis palestinos e libaneses traduz, paradoxalmente, um tipo de impotência maluca. Por uma simples razão que os próprios norte-americanos começam a compreender e que o ex-presidente William Clinton exprime de seguinte maneira: “Não podemos matar todos os nossos inimigos.” [2] Os de Israel na região são muitos.

Em uma guerra assimétrica, uma superioridade esmagadora não garante nenhuma vitória. Os Estados Unidos estão vivendo esta amarga experiência. “Temo bastante que o Iraque se torne nosso pior desastre desde a guerra do Vietnã”, declara a ex-ministra das Relações Exteriores dos Estados Unidos Madeleine Albright. [3]

Recorrer a um militarismo excessivo e ultrapassado não leva a uma solução política, enquanto a paz – única garantia para a segurança de Israel - não for alcançada. E a paz passa sempre pelas negociações com o inimigo.

Terceira consideração

A frente midiática parece mais decisiva do que nunca. Mas o contexto de informação se metamorforseou. O intenso bombardeio israelense nas usinas elétricas, centrais telefônicas e estações de televisão (Al-Manar TV particularmente) [4], para tornar o sistema de comunicação do adversário cego, surdo e mudo, revelou-se ineficaz.

Os celulares, as câmeras em miniatura e os blogs de combatentes ou de testemunhas oculares permitem uma difusão global quase instantânea de imagens denunciadoras. Por mais intensos que sejam os bombardeios, eles não podem destruir as redes de Internet, concebidas para resistir ao fogo nuclear. Também neste caso os israelenses parecem não ter aprendido a lição das desventuras norte-americanas no Iraque, após a difusão de cenas da prisão Abu Ghraib e de outros testemunhos consternadores; tampouco do declínio da imagem dos Estados Unidos aos olhos da opinião pública mundial. [5]

Quarta consideração

Nesta região, a democracia que Washington garante querer instaurar em toda parte [6], não constitui absolutamente um escudo contra os ataques de Israel, ele próprio um Estado democrático… Tomado ao pé da letra pelos palestinos, únicos cidadãos árabes do Oriente Médio - juntamente com os libaneses - a terem votado democraticamente, em janeiro de 2006, elegendo o Hamas, o governo Bush fechou os olhos e deixou massacrar os (maus) democratas e prender seus eleitos em Gaza.

Adotada para “combater o terrorismo”, a punição infligida à Gaza e ao Líbano produzirá sem dúvida o efeito contrário. “Uma operação que mata cinco insurgentes é contra-produtiva, se os efeitos colaterais levam ao recrutamento de cinqüenta novos rebeldes”, lembra William Paff [7]. Os excessos que acabam por criar o que Mao Tse-tung chamava de “mar onde nadam os combatentes da guerrilha”.

Como na Palestina e no Líbano, o islamismo radical está em expansão no “pólo de perturbrações”. Com seus diversos elementos, e apesar de todas as reservas que pode inspirar, ele constitui a principal força política a opor-se às armas e à dominação imperialista dos Estados Unidos. Enquanto ideologia messiânica para o sucesso futuro, pela qual os militantes estão dispostos a sacrificar a própria vida, em parte o islamismo radical toma o lugar do que foram, por exemplo, o anarquismo ou o comunismo no século 19 e 20. Ainda que esta comparação possa chocar…

Enquanto a violência política recua em outras regiões [8], no Afeganistão (ler o artigo de Syed Saleem Shahzad, nesta edição), onde os talibãs estão de volta e as forças da OTAN na defensiva, na Somália (ler artigo de Gerard Prunier), no Iraque, na Palestina e no Líbano, a corrente salafista vai de vento em popa.

Quinta consideração

O poder das organizações não-estatais não pára de crescer, particularmente as ONGs de caráter humanitário, ecológico, social ou jurídico, às vezes instrumentalizadas, nem sempre desinteressadas. Porém, no seio do pólo de perturbações, pululam especialmente as organizações não-estatais armadas que desempenham um papel determinante nos múltiplos antagonismos. Confirmam este fato a audaciosa ação da facção armada do Hamas em Gaza, em 25 de junho, e a das milícias do Hezbollah no Líbano, que levaram Israel a reagir.

Deve-se observar que em alguma parte desta zona se situa o quartel general do “inimigo público número 1″ dos Estados Unidos. É a organização islamista armada Al-Quaeda, liderada por Osama Bin Laden, que assumiu a responsabilidade dos atentados de 11 de setembro de 2001. Fato que levou Washington a declarar a atual “guerra infinita contra o terrorismo internacional”.

Sexta consideração

Os acontecimentos do 11 de setembro nos fizeram, de fato, entrar em uma nova era. O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, e seus colaboradores pensaram que o choque coletivo causado pela tragédia lhes daria, enfim, carta branca para colocarem em prática velhos delírios geopolíticos.

Lembremo-nos de três delas: reivindicação do papel “de império” dos Estados Unidos na condução de questões internacionais; classificação de toda luta de resistência nacional (como as do Hamas e do Hezbollah) com o terrorismo e prioridade dada à vigilância generalizada dos cidadãos às custas de suas liberdades (ler o artigo de Philip S. Golub, nesta edição).

Em nome desse corpo doutrinário, a CIA e outros serviços de inteligência autorizaram a “liqüidar” suspeitos ou a seqüestrá-los em qualquer lugar, a fim de levá-los para prisões secretas. Desconsiderando as Convenções de Genebra e fora de qualquer quadro jurídico, a prisão norte-americana de Guantánamo foi criada para encarcerar e maltratar pessoas suspeitas de terem conexões com o Al-Qaeda…

Com base em mentiras (na realidade, para colocarem a mão no petróleo), o Iraque, que não estava absolutamente envolvido com os atentados do 11 de setembro e não possuía nenhuma “arma de destruição em massa”, foi invadido. Em um ímpeto wilsoniano, Washington declarou-se pronto para redesenhar o “Grande Oriente Médio” e nada menos.

Sabemos o que adveio destas ambições absurdas. Hoje o mundo está mais perigoso. E um novo mega atentado não é pouco provável.

A duvidosa máquina militar encontra-se atolada no Iraque, na arapuca de uma guerra assimétrica perdida, reduzida a praticar ou a encobrir, ela também as atrocidades (prisão em massa, massacres, torturas sistemáticas [9]) que dizia ter banido desde o fiasco na guerra do Vietnã [10].

O fracasso político é ainda mais assombroso. Graças às intervenções norte-americanas, o Irã, principal inimigo regional dos Estados Unidos, desvencilhou-se de seus adversários limítrofes: o regime dos talibãs no Afeganistão e o de Saddam Hussein no Iraque [11]. E Teerã se arma a partir de agora para se defender. Por outro lado, enquanto Washington fixava sua atenção nesta região, na América Latina, seu próprio quintal, velhos adversários aproveitavam para tomar o poder democraticamente na Venezuela, no Brasil, na Argentina, no Uruguai, no Chile, no Panamá, na República Dominicana, na Bolívia… Uma maré rosa ou vermelha inédita que, além do mais, veio confortar Cuba e Fidel Castro.

Durante estes anos, Bush acreditou poder atribuir os problemas do mundo somente ao terrorismo e tratá-lo exclusivamente com repressão militar. Esmagando princípios, violou direitos de tal maneira que Noam Chomsky chega a falar do “governo mais perigoso da História norte-americana”, e não hesita em qualificar seu país de principal “Estado terrorista” [12] do planeta.

Sétima consideração

A guerra do Iraque é muito cara. Em 2005, as despesas militares dos Estados Unidos atingiram a soma astronômica de 500 bilhões de dólares [13], o equivalente às despesas militares do resto do mundo. Em conseqüência da globalização, o sistema econômico dos Estados Unidos não repousa mais apenas sobre sua capacidade manufatureira, porém sobre o consumo. Os Estados Unidos funcionam como uma máquina à base de aplicação financeira, importando capital a um ritmo de 700 a 800 bilhões de dólares ao ano. Capital que financia o consumo de bens importados. Este sistema de injeção financeira com capital internacional cria uma situação insustentável. O déficit comercial estadunidense pesa nas finanças internacionais, arriscando provocar uma desvalorização do dólar, um aumento das taxas de juros, uma queda nas bolsas [14] de valores, e uma recessão mundial, sendo um dos principais problemas (invisíveis) atuais.

Oitava consideração

Estimado em cerca de 700 bilhões de dólares, o déficit norte-americano traz vantagens aos países com mão-de-obra barata. Dentre eles, situa-se em primeiro lugara China [15], mas também outros países emergentes (Índia, Coréia do Sul, Taiwan, Brasil, México) cuja expansão econômica começa a preocupar as grandes potências. Tanto que a cotação das matérias-primas (dentre elas o petróleo) está em alta, para grande benefício da Rússia, Cazaquistão,Venezuela, Chile, Argélia…

A concorrência das empresas destes países torna-se mais ameaçadora. Já existem cerca de 25 multinacionais globais nos países do hemisfério Sul e, em breve, haverá uma centena. As ofertas espetaculares de aquisição vão se multiplicar, como a do grupo chinês National Offshore Oil, que foi impedido de comprar a petroleira estadunidense Unocal, ou a fusão da siderúrgica indiana Mittal Steel com a Arcelor européia [16].

Conseqüentemente, pode-se apostar que a globalização está se aproximando do final de um ciclo. Com seu dinamismo atual, ela poderia ameaçar o domínio das velhas potências de sempre. Portanto, uma nova onda de protecionismo não deve ser excluída.

Nona consideração

Os combates entre Israel e o Líbano suscitaram um deslocamento forçado de aproximadamente 1,2 milhão de pessoas (900 mil libaneses e 300 mil israelenses). Estes deslocamentos decorrentes de guerra permanecem pontuais, enquanto as migrações internacionais de mão-de-obra são estruturais e atingem 175 milhões de pessoas. Por conta dos lucros de produção, o crescimento econômico, quando existe, pode criar riquezas, mas não empregos suficientes. Mesmo a China, que se beneficia de taxas de crescimento de mais de 9%, cria cerca de 10 milhões de empregos por ano, ou seja, duas vezes menos que o número de pessoas entrando em seu mercado de trabalho [17].

Os outros devem resignar-se à pobreza, ou então emigrar. Só que clandestinamente. Pois, como constata o historiador Eric Hobsbawm, “a economia de mercado favorece a livre circulação de todos os meios de produção, com exceção da mão-de-obra, que continua amplamente sob o controle do Estado” [18]. Grupos de pessoas, freqüentemene jovens e em bom estado de saúde, tentam penetrar nas raras ilhas de prosperidade do planeta, arriscando a própria vida (como vimos em Melilla e estamos vendo nas Ilhas Canárias). Mais de 20 milhões deles conseguiram migrar para os Estados Unidos [19],onde a partir de agora a questão de pessoas em situação ilegal é tratada, como na Europa, em termos de segurança nacional. No entanto, a bomba da imigração ilegal não explodiu ainda. Este grande drama humano vai submeter todas as sociedades desenvolvidas a uma dura prova.

Décima consideração

Em 14 de julho de 2006, a aviação israelense bombardeou as reservas de óleos de combustão da central elétrica de Jiyê, no sul de Beirute. Cerca de 15 mil toneladas de combustível foram derramadas no mar. No início de agosto, a maré negra atingiu um terço das praias libanesas e o litoral da Síria, ameaçando alcançar o Chipre, a Turquia, Grécia… e Israel [20].

Esta catástrofe ecológica, “efeito colateral” das hostilidades, faz lembrar que os problemas ligados ao meio ambiente vão se tornar altamente estratégicos. Na cúpula do G-8 em Gleneagles, em julho de 2005, a luta contra o aquecimento do planeta já era um dos temas centrais. Com alguns graus a mais em média, a Terra não será mais o mesmo planeta. A elevação do nível do mar levará a catástrofes inéditas. Correções drásticas serão necessárias, enquanto se aproxima o momento em que não se poderá mais extrair petróleo (cujo consumo agrava o efeito estufa) suficiente para atender a demanda.

Neste sucinto panorama da nova situação mundial, este fatos – alerta quanto às alterações climáticas e o fim da era do petróleo - anunciam-se para a humanidade como dois dos maiores desafios a serem enfrentados.

Tradução: Simone Pereira Gonçalves simonepg@hotmail.com
[1] Em 15 de julho de 2005, o general chinês Zhu Chenghu, responsável pela Universidade da Defesa Nacional, não excluiu a possibilidade de que a China possa ter um conflito nuclear com os Estados Unidos, se seus interesses relativos a Taiwan forem ameaçados. Cf. Martine Bulard, “A China sacode a ordem mundial”, Le Monde Diplomatique-Brasil, agosto de 2005.
[2] Le Monde, 10 de agosto de 2005.
[3] Newsweek, 24 de julho de 2006.
[4] Canal do Hezbollah xiita libanês.
[5] International Herald Tribune, Paris, 14 de junho de 2006.
[6] Em nome do princípio caro aos neoconservadores, de que as democracias não fazem guerra entre si. Isto supõe que Israel coexistiria pacificamente com uma Palestina democrática. No entanto, Jerusalém acaba de demonstrar o contrário. E os fatos comprovam que Washington aceita as piores “ditaduras amigas” (Egito, Arábia Saudita, Jordânia, Azerbaijão, Paquistão, jamais qualificadas de “bastiões avançados da tirania”, mas que jogam sua população empobrecida, reprimida e cansada da corrupção nos braços de organizações islamistas radicais.
[7] Le Monde, 19 de julho de 2006.
[8] A relação Guerra e Paz no século 19, publicada pelo Human Security Center da Universidade de British Columbia de Vancouver (Canada) observa uma redução do número de conflitos desde o fim da guerra fria. No seio da União Européia, as duas organizações armadas mais violentas, a Força Armada Republicana da Irlanda (IRA) e o Euskadi ta Askatasuna (ETA) basco decidiram abandonar a luta armada. O IRA ordenou a seus militantes, em 28 de julho de 2005, a “deposição das armas” e o ETA anunciou, em 22 de março de 2006, um cessar-fogo permanente.
[9] Um relatório do Human Right Watch estima que “a tortura dos prisioneiros no Iraque era autorizada pelo exército americano”. Le Monde, 25 de julho de 2006.
[10] Los Angeles Times revelou, em 6 de agosto de 2006, que as atrocidades cometidas pelos norte-americanos no Vietnã foram maiores do que se pensava.
[11] Ler Joe Klein, “The Iran factor”, Time, 24 de julho de 2006.
[12] Le Point, Paris, 20 de julho de 2006.
[13] Dedicaram apenas 18 bilhões de dólares ao desenvolvimento, ou seja, 0,16% do PIB!
[14] O simples temor de ver os bancos centrais aumentarem as taxas de juros provocou, em 21 de maio de 2006, uma queda espetacular nas principais bolsas mundiais.
[15] Em 2005, os Estados Unidos venderam produtos por 47,8 bilhões de dólares à China, enquanto importavam deste país por 201,6 bilhões, ou seja, uma vantagem de 153,8 bilhões para Pequim que detém, além disso, 320 bilhões de títulos do Tesouro norte-americano.
[16] Ler Capital, agosto de 2006.
[17] Le Figaro, 20 de junho de 2006.
[18] L’Express, 8 de junho de 2006.
[19] International Herald Tribune, 29 de junho de 2006.
[20] Ler Caroline Pailhe, “Israël, Palestine, Liban: Le chemin le plus long vers la paix”, GRIP, Bruxelas, 8 de agosto de 2006.

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

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Eu, etiqueta

Carlos Drummond de Andrade

Em minha calça está grudado um nome
que não é meu de batismo ou de cartório,
um nome… estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
que jamais pus na boca, nesta vida.
Em minha camiseta, a marca de cigarro
que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
que nunca experimentei
mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
de alguma coisa não provada
por este provador de idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
minha gravata e cinto e escova e pente,
meu copo, minha xícara,
minha toalha de banho e sabonete,
meu isso, meu aquilo,
desde a cabeça até o bico dos sapatos,
são mensagens,
letras falantes,
gritos visuais,
ordem de uso, abuso, reincidência,
costume, hábiot, premência,
indispensabilidade,
e fazem de mim homem-anúncio intinerante,
escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É doce estar na moda, ainda que a moda
seja negar minha identidade,
trocá-la por mil, açambarcando
todas as marcas registradas,
todos os logotipos de mercado.
Com que inocência demito-me de ser
eu que antes era e me sabia
tão diverso de outros, tão mim-mesmo,
ser pensante, sentinte e solitário
com outros seres diversos e conscientes
de sua humana invencível condição.
Agora sou anúncio,
ora vulgar, ora bizarro,
em língua nacional ou em qualquer língua
(qualquer, principalmente).
E nisto me comprazo, tiro glória
de minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
para anunciar, para vender
em bares festas praias pérgulas piscinas,
e bem à vista exibo esta etiqueta
global no corpo que desiste
de ser veste e sandália de uma essência
tão viva, independente,
que moda ou suborno algum compromete.
Onde terei jogado fora
meu gosto e capacidade de escolher,
minhas indiossicrasias tão pessoais,
tão minhas que no rosto se espelhavam,
e cada gesto, cada olhar,
cada vinco de roupa
resumia uma estética?
Hoje sou costurado, sou tecido,
sou gravado de forma universal,
asio de estamparia, não de casa,
da vitrine me tiram, me recolocam,
objeto pulsante mas objeto
que se oferece como signo dos outros
objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
de ser não eu, mas artigo industrial,
peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem,
meu nome novo é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente.

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O futuro da democracia

Rousseau foi quem melhor definiu o ideal da democracia, que hoje está em conflito com as democracias reais: uma sociedade só é democrática quando ninguém for tão rico que possa comprar alguém e ninguém seja tão pobre que tenha de se vender a alguém.

Boaventura de Sousa Santos

Analisada globalmente, a democracia oferece-nos duas imagens muito contrastantes. Por um lado, na forma de democracia representativa, ela é hoje considerada internacionalmente o único regime político legítimo. Investem-se milhões de euros e dólares em programas de promoção da democracia, em missões de fiscalização de processos eleitorais, e, quando algum país do chamado Terceiro Mundo manifesta renitência em adotar o regime democrático, as agências financeiras internacionais têm meios de o pressionar através das condições de concessão de empréstimos. Por outro lado, começam a proliferar os sinais de que os regimes democráticos instaurados nos últimos trinta ou vinte anos traíram as expectativas dos grupos sociais excluídos, dos trabalhadores cada vez mais ameaçados nos seus direitos e das classes médias empobrecidas.

Sondagens recentes feitos na América Latina revelam que em alguns países a maioria da população preferiria uma ditadura desde que lhe garantisse algum bem-estar social. Acrescente-se que as revelações, cada vez mais freqüentes, de corrupção levam à conclusão que os governantes legitimamente eleitos usam o seu mandato para enriquecer à custa do povo e dos contribuintes. Por sua vez, o desrespeito dos partidos, uma vez eleitos, pelos seus programas eleitorais parece nunca ter sido tão grande. De modo que os cidadãos se sentem cada vez menos representados pelos seus representantes e acham que as decisões mais importantes dos seus governos escapam à sua participação democrática.

O contraste entre estas duas imagens oculta um outro, entre as democracias reais e o ideal democrático. Rousseau foi quem melhor definiu este ideal: uma sociedade só é democrática quando ninguém for tão rico que possa comprar alguém e ninguém seja tão pobre que tenha de se vender a alguém. Segundo este critério, estamos ainda longe da democracia. Os desafios que são postos à democracia no nosso tempo são os seguintes. Primeiro, se continuarem a aumentar as desigualdades sociais entre ricos e pobres ao ritmo das três últimas décadas, em breve, a igualdade jurídico-política entre os cidadãos deixará de ser um ideal republicano para se tornar uma hipocrisia social constitucionalizada.

Segundo, a democracia atual não está preparada para reconhecer a diversidade cultural, para lutar eficazmente contra o racismo, o colonialismo e o sexismo e as discriminações em que eles se traduzem. Isto é tanto mais grave quanto é certo que as sociedades nacionais são cada vez mais multiculturais e multiétnicas. Terceiro, as imposições econômicas e militares dos países dominantes são cada vez mais drásticas e menos democráticas. Assim sucede, em particular, quando vitórias eleitorais legítimas são transformadas pelo chefe da diplomacia norte-americana em ameaças à democracia, sejam elas as vitórias do Hamas, de Hugo Chávez ou de Evo Morales.

Finalmente, o quarto desafio diz respeito às condições da participação democrática dos cidadãos. São três as principais condições: ser garantida a sobrevivência: quem não tem com que se alimentar e alimentar a sua família tem prioridades mais altas que votar; não estar ameaçado: quem vive ameaçado pela violência no espaço público, na empresa ou em casa, não é livre, qualquer que seja o regime político em que vive; estar informado: quem não dispõe da informação necessária a uma participação esclarecida, equivoca-se quer quando participa, quer quando não participa. Pode dizer-se com segurança que a promoção da democracia não ocorreu de par com a promoção das condições de participação democrática. Se esta tendência continuar, o futuro da democracia, tal como a conhecemos, é problemático.

Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).

Carta Maior
http://www.agenciacartamaior.com.br/

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Guy Debord, o irrecuperável

Lançada, na França, a obra completa do autor que dissecou a “Sociedade do Espetáculo”. Da crítica da arte à análise política, textos revelam pensamento que, ao destacar o caráter alienador do capitalismo, defendia o direito do ser humano a inventar sua própria vida

Guy Scarpetta

É paradoxal a situação de Guy Debord no panorama intelectual francês; de um lado, todos o citam, fazem referência a ele, mesmo os personagens do espetáculo a quem ele sempre se opôs; de outro lado, impressionamo-nos com a indiferença da imprensa diante do lançamento do conjunto de sua obra em um só volume [1]. Tal livro, além de suas obras já publicadas, traz uma preciosa coletânea de cartas, intervenções, artigos publicados em revistas e notas inéditas. É sem dúvida um acontecimento que permite, de uma só vez, vislumbrar o desenvolvimento desse pensamento, ano após ano, e encontrar sua impressionante coerência. Mas é como se a partir de agora, Debord devesse estar submetido a clichês, a fórmulas estereotipadas e vazias sobre a “sociedade do espetáculo”. Isso em detrimento da indefectível orientação revolucionária daquele que não teve, em seus textos ou em sua vida, outro objetivo além de lesar a ordem vigente, ou ao menos não lhe fazer qualquer concessão.

No início dos anos 50, Debord integrava um pequeno grupo de jovens que, na linha de certas vanguardas do início do século, esforçavam-se na argüição de que a arte estava morta enquanto fosse entidade “separada”. Defendiam que, a partir de então, a poesia deveria transbordar para a vida. Dada, pensavam eles, tentou suprimir a arte sem realizá-lo; já o surrealismo quis realizar a arte sem a suprimir. Tratava-se justamente de superar esse antagonismo. Cada vida deve ser inventada e não sofrida passivamente; a cidade (no caso Paris) é o próprio lugar da “deriva”, das aventuras (donde o escândalo que fomentaram contra Le Corbusier, culpado segundo eles de uma concepção urbanística que tendia à “destruição da rua”). O objetivo é “criar situações” – o que implica um declarado desdém por toda a arte existente, e, de forma mais genérica, por toda a cultura “alienada”, ausente de experiência direta. Podemos assim tomar conhecimento da “decomposição” dessa cultura e imaginar (segundo Lautréamont) as técnicas que nos permitem mudar esta realidade…

“A sociedade do Espetáculo” e maio de 1968

Num segundo período (correspondente a grosso modo à passagem da “Internacional literária” à “Internacional Situacionista”), Debord alargaria muito seu campo de ação, politizando-o. A contestação da cultura desemboca, necessariamente, na contestação da própria sociedade. O encontro com Marx torna-se inevitável – ainda que se trate, neste caso, de um marxismo heterodoxo, antípoda do comunismo oficial (para Debord e seus amigos, foi a contra-revolução que triunfou no século 20, quando o Estado totalitário foi substituído pelo poder dos sovietes, ou quando os levantes libertários da guerra civil espanhola foram massacrados pela burocracia stalinista ).

Debord percebe acima de tudo o seguinte: a lógica da “mercadoria”, que Marx havia analisado no sistema de produção, estende-se agora a todos os aspectos da vida cotidiana. O lazer criado pela evolução tecnológica, longe de suscitar liberdades, acaba alimentando o espetáculo, fomentando necessidades artificiais, renovadas incessantemente, submetendo nossas vidas a representações manipuladas e afetadas, que acabam virando nosso liame com o mundo. Para Debord, é a época de novas cumplicidades internacionais, de alianças táticas avalizadas por “manifestos” (e o grupo não pára de se recompor), e também de uma intensa elaboração teórica – que resultaria em 1967 nesse livro decisivo que é A sociedade do espetáculo [2], implacável coletânea de teses exaustivamente trabalhadas.

“O espetáculo”, escreve Debord, “não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre as pessoas, midiatizada por imagens”; a “sociedade do espetáculo” não é somente a hegemonia do modelo midiático ou publicitário; é, além disso, o “reino autocrático da autonomia mercantil, em que ela goza um status de irresponsável soberania e as diversas novas técnicas de governo que sustentam este reino”. Conhecemos o corolário: a difusão subliminar dessas teses, sua ramificação no meio estudantil, de Estrasburgo a Nanterre, e para terminar, os acontecimentos de maio de 1968, cujo espírito Situacionista aparece como um foco secreto, ardente, irradiante, talvez menos por sua influência direta (especialmente na Sorbonne, no “Comité de Manutenção da Ocupação”), do que por sua inspiração difusa. É ele quem vibra nos slogans, nos cartazes, na escrita que invade as ruas.

O que segue é mais sombrio. Debord se dá conta, em tempo, de que o que ele sugere pode, por extensão, cair no lugar comum – isto é, ser diluído numa “contestação” banalizada, conformista. De onde a dissolução de sua “Internacional” (que nunca teve, na melhor das hipóteses, mais de 15 membros), retiradas e exílios voluntários (principalmente para a Itália, em tempo de mostrar a verdadeira natureza do “compromisso histórico” solicitado pelos comunistas e de apontar, com incomparável lucidez, a manipulação e infiltração do poder estatal nas Brigadas Vermelhas).

Debord encontra então um mecenas: Gérard Lebovici, que publica seus autores prediletos (de Gracian a Orwell), e dedica uma sala à difusão exclusiva de seus filmes (já que toda essa aventura sempre esteve pontuada por uma singular atividade cinematográfica, que tentava destruir o espetáculo a partir de seu interior, usando suas próprias armas). Lebovici, seria assassinado em circunstâncias não bem elucidadas. Debord, cada vez mais irredutível e isolado em seu radicalismo, numa época em que a maioria dos partidários do maio de 68 se unem à ordem liberal instalada, dedicaria seus últimos dias defendendo-se das críticas, geralmente caluniosas, que eram feitas a ele e suas obras.

Os grandes traços do “espetáculo integrado”

Engajando-se em uma escrita a um só tempo clássica, subversiva, soberana, condensada, desabusada; não hesitando mais em evocar sua própria experiência (o que culmina no prodigioso Panegírico [3]), em primeira pessoa – não por narcisismo (pois também o narcisismo é ingrediente do espetacular), mas para sugerir que a resistência a um mundo integralmente mercantilizado serve também para afirmar que, contra tudo e todos, um outro modo de vida é possível além daquele que nos foi imposto.

O livro maior deste último período, é certamente “Comentários sobre a Sociedade do Espetáculo [4]”, de 1988, onde Debord estende e aprofunda suas análises de 1967, deixando-nos o mais penetrante diagnóstico do mundo contemporâneo, e as chaves-mestras de sua compreensão. Um ano antes da queda do muro de Berlim ele declara que a oposição entre as formas concentrada do espetáculo (os regimes comunistas) e difusa (o capitalismo ocidental) estava a ponto de ser superada, fundindo-se num “espetáculo integrado”, reinando universalmente sem cisão. Seus traços característicos? “A inovação tecnológica permanente” (por exemplo, o produto de informática imposto, que transforma todo usuário em cliente rendido); a “fusão econômico-estatal” (a absorção do Estado pelo mercado); a “generalização do segredo” (as verdadeiras decisões são inacessíveis, o modelo mafioso triunfa no âmbito estatal); o “falso sem réplica” (pela primeira vez, os donos do mundo são também aqueles de sua representação); o “presente perpétuo” (a abolição de toda consciência histórica).

Disso resulta um universo de servilismo voluntário sem precedente (a verdadeira novidade do espetáculo, segundo Debord, foi “ter conseguido submeter uma geração a suas leis”). “Quem sempre observa para saber o que está por vir não agirá nunca, e assim deve ser o espectador”. O momento, evidentemente, não é mais o das grandes utopias coletivas, o espetáculo invadiu tudo, absorveu tudo, incluindo as críticas parciais, localizadas, de seu sistema, que visam somente efeitos periféricos – já não é possível rejeitar radicalmente esse sistema. O que enfim, com Debord, não exclui uma certa dose de nostalgia: a regressão é tal que é possível ser revolucionário ao lamentar certos aspectos extintos do passado – justamente aqueles que o espetáculo aniquilou.

No conjunto, portanto, é uma obra apaixonante, onde podemos acompanhar o desenvolvimento de Debord em todas as suas etapas, nenhuma sendo a negação das precedentes. Imperdível é o destaque de certos textos ali publicados, até então inéditos ou impossíveis de serem encontrados. Por exemplo, a “Mensagem aos revolucionários da Argélia”, de 1965, na época em que o golpe de Houari Boumedienne depôs Ahmed Ben Bella; ou o impressionante artigo de 1967, sobre a revolução cultural da China, analisada em todas as suas contradições; ou ainda, mais próximas de nossa realidade, as “Notas inéditas sobre a questão dos imigrantes” de dezembro de 1985, em que Debord lança a mais perturbadora das perguntas a respeito: a quem exatamente os imigrantes devem “se integrar”, no momento em que o espetáculo está prestes a americanizar totalmente o que resta da França?…

Há muitas análises precisas, claras, antecipatórias, sem ceder ao lugar comum (opostas portanto aos estereótipos e falta de visão da esquerda conformista). Não se trata aqui somente de perceber que Debord nunca manifestou a mínima complacência com a “turma socialista”, ou com as ditaduras de terceiro mundo. É preciso que nos perguntemos por que, com ele, é a busca do ponto de vista mais revolucionário que gera o máximo de inteligência e lucidez sobre esses assuntos.
Um cinema contra a ditadura da imagem

Outra coisa notável são os extraordinariamente interessantes textos cinematográficos. Ainda que para ele se tratasse de destruir esse código a partir de seu cerne (atacando toda a fascinação do espectador ao dissociar sistematicamente imagem e som e afirmar a primazia do pensamento sobre o “visual”, freqüentemente levado a imagens documentárias e planos distorcidos), os filmes de Debord (sobretudo essa obra-prima que é In girum imus nocte et consumimur igni [5]) representam uma tentativa inédita de projetar na consciência (histórica e subjetiva), uma arte que a princípio dedica-se a sua supressão. Donde filmes que contêm ao mesmo tempo ensaio, confissão, meditação, compreensão do mundo através de imagens, sem paralelos além, talvez, de Jean-Luc Godard em suas últimas realizações (a nós resta lamentar que nenhum diálogo tenha sido possível entre esses dois gigantes que se detestavam cordialmente [6])…

Pode-se, claro, não apoiar incondicionalmente tudo o que Debord escreveu ou defendeu. Achar excessivo e injusto, por exemplo, seu repúdio quase sistemático a toda arte e literatura de seu tempo – enquanto fica claro que é exatamente toda essa efervescência criativa do século 20 que o espetáculo tende a destruir ou tornar indecifrável. Tampouco é proibido achar suspeita a tendência de Debord a gerar, dentro dos grupos de que se cercava, freqüentes rupturas, exclusões e expurgos – que se dirigiam às vezes aos mais próximos, reduzindo o caráter coletivo, e conseqüentemente político, de suas posições. Mas talvez, no fundo, esse era o preço de sua intransigência, de sua exigência quase absoluta de radicalismo – ele que sabia que todo grupo subversivo deve esperar ser, um após o outro, “desviado, provocado, infiltrado, manipulado, usurpado e refeito”. É esse radicalismo, em suma, que faz com que o pensamento de Debord seja hoje o único capaz de dar conta, de maneira crítica, de todos os aspectos da mercantilização do mundo e da “falsa consciência” que ela conseguiu propagar. É nisso que Debord se revela, apesar de todos os artifícios modistas para tornar seu pensamento inofensivo, profundamente irrecuperável. “É muito notório”, escreve ele, “que em nenhum ponto fiz concessões às idéias dominantes de minha época”. Essa é a grande lição que ele nos lega; é preciso saber, como ele soube, fazê-la transbordar para nossas vidas.

Tradução: Leonardo Abreu leonardoaabreu@yahoo.com.br.

[1] Guy Debord, Ogras, Coleção “quarto”, Gallimard, Paris 2006; edição elaborada e comentada por Jean-Louis Rançon, em colaboração com Alice Debord, 1904 páginas, ainda sem tradução para o português.
[2] Debord, Guy, Sociedade do Espetáculo, editora Contraponto, 1997, 240 páginas , R$ 38.
[3] Debord, Guy, Panegírico, editora Conrad, 2002, 77 páginas, 17,00 reais.
[4] Disponível, em português , no site do Centro Interdisciplinar de Semiótica da Cultura e da Mídia (CISC):
[5] “De noite andamos em círculos e somos consumidos pelo fogo”, frase que em latim é um palíndromo, isto é pode ser lida de trás para a frente que é a mesma coisa, o que traduz a idéia de círculo.
[6] Essa proximidade contraditória entre Debord e Godard foi muito bem apontada por Cécile Guilbert (Pour Guy Debord, Gallimard, Paris 1996) em um dos melhores ensaios dedicados a ele.

Jornal Le Monde
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