Arquivo de 10 de Novembro de 2007

Filosofar é preciso

Na juventude, não devemos hesitar em filosofar; na velhice, não devemos deixar de filosofar. Nunca é cedo nem tarde demais para cuidar da própria alma. Quem diz que não é ainda, ou já não é mais, tempo de filosofar, parece-se ao que diz que não é ainda, ou já não é mais, tempo de ser feliz. Jovens ou velhos, devemos sempre filosofar; no último caso, para rejuvenescermos ao contacto do bem, pela lembrança dos dias passados, e no primeiro, para sermos, embora jovens, tão firmes quanto um ancião diante do futuro. É mister, pois, estudar os meios de adquirir a felicidade; quando a temos, temos tudo; quando a não temos, fazemos tudo por adquiri-la.

Epicuro

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Dois Cavaleiros e um Dragão*

Uri Avnery

HÁ LIVROS que mudam a consciência das pessoas e mudam a história. Alguns, como “A Cabana do Pai Tomás”, de Harriet Beech Stowe, de 1851, deram ímpeto à campanha pelo fim da escravidão. Outros são tratados políticos, como “O Estado Judeu”, 1896, de Theodor Herzl, que deu origem ao movimento sionista. Ou são livros científicos, como “A origem das espécies”, de Charles Darwin, que mudou o modo como vemos a humanidade. E há até sátiras políticas, como “1984″, de George Orwell, que também sacudiram o mundo.

O impacto desses livros foi ampliado pelo momento em que surgiram. Surgiram na hora certa, quando grandes públicos estavam prontos para absorver-lhes a mensagem.

É bem possível que “The Israel Lobby and US Foreign Policy” [”O lobby de Israel e a política externa dos EUA”, março de 2006], dos professores John Mearsheimer e Stephen Walt, seja mais um desses livros. São 355 páginas de um frio relatório científico de pesquisa, mais 106 páginas de bibliografia e fontes.

Não é livro de combate. Ao contrário, o estilo é contido e factual. Os autores evitam cuidadosamente qualquer comentário negativo sobre a legitimidade do lobby e, de fato, voltam ao passado para acentuar o apoio que o mesmo lobby deu à criação e à segurança de Israel. Os fatos são apresentados e falam por eles mesmos. Como pedreiros experientes, os autores vão assentando tijolo sobre tijolo, sistematicamente, passo a passo, sem deixar brechas na argumentação.

A parede assim construída não pode ser demolida por argumentos. Ninguém tentou demoli-la e ninguém tentará. Em vez disso, os autores estão sendo atacados, acusados de se deixarem levar por motivos sinistros. Se fosse possível ignorar o livro, ele teria sido ignorado – como tantos outros livros que foram enterrados vivos.

(Há alguns anos, surgiu na Rússia um livro enorme, de Aleksandr Solzhenitsyn, autor mundialmente conhecido, Prêmio Nobel de literatura, sobre a Rússia e os judeus russos. Esse livro – “200 Years Together” [200 anos juntos] – foi completamente ignorado. Que eu saiba, jamais foi traduzido para língua alguma e com certeza não foi traduzido para o hebraico. Consultei vários intelectuais israelenses e nenhum jamais ouvira falar desse livro; não está à venda pela Amazon.com, que oferece todos os demais trabalhos do mesmo autor.)

OS DOIS professores, John Mearsheimer e Stephen Walt, pegaram o touro pelos chifres. Tratam de um tema que é tabu absoluto nos EUA, que ninguém em seu perfeito juízo jamais mencionará: a enorme influência do lobby pró-Israel na política externa norte-americana.

Sistematicamente, sem culpas ou remorsos, o livro disseca o lobby, mostra como opera, expõe as fontes financeiras e desnuda as relações que o ligam à Casa Branca, às duas casas do Congresso, aos líderes dos dois principais partidos e aos capitães da mídia.

Os autores não questionam a legitimidade do lobby. Ao contrário, mostram que centenas de outros lobbies desempenham papel essencial na democracia norte-americana. O lobby da indústria de armas ou da indústria farmacêutica, por exemplo, são forças políticas poderosíssimas. Mas o lobby pró-Israel cresceu desproporcionalmente, e hoje tem incomparável poder político. É suficientemente poderoso para silenciar qualquer crítica a Israel no Congresso e na imprensa, o que implica ‘demissão’ política de quem se atreva a quebrar o tabu, e impede que prospere qualquer ação que não coincida com o desejo do governo de Israel.

Na segunda parte, o livro mostra como o lobby usa todo esse imenso poder: como tem evitado qualquer pressão sobre Israel para que faça a paz com os palestinos, como empurrou os EUA para invadir o Iraque, como está empurrando os EUA, agora, para a guerra contra o Irã e a Síria, como apoiou os líderes israelenses na recente guerra no Líbano e fez calar todas as vozes que pediam o cessar-fogo, quando o cessar-fogo não interessava ao lobby.

Cada afirmativa aparece comprovada por evidências indiscutíveis, provas escritas (a maioria delas de fontes israelenses) que ninguém pode ignorar.

A MAIOR PARTE dessas informações nada têm de novidade para quem lida com esses temas em Israel.

Eu mesmo poderia acrescentar ao livro um capítulo inteiro, só com minha experiência pessoal.

No final dos anos 50, visitei os EUA pela primeira vez. Viajei a convite de uma grande estação de rádio, para ser entrevistado. Avisaram-me: “Você pode criticar o presidente (Dwight D. Eisenhower) e o secretário de Estado (John Foster Dulles) o quanto quiser, mas, por favor, não critique os líderes de Israel!” No último momento, a entrevista foi cancelada, e convidaram, em meu lugar, o embaixador do Iraque. Pelo visto, tolerariam críticas vindas de um árabe, mas nunca, de modo algum, vindas de um israelense.

Em 1970, o respeitado “Fellowship of Reconciliation” convidou-me para palestras em 30 universidades, patrocinadas pelos rabinos Hillel. Ao chegar a Nova Iorque, fui informado de que 29 palestras haviam sido canceladas. O único rabino que não cancelou o convite, Balfour Brickner, mostrou-me um comunicado secreto da “Liga anti-difamação” [”Anti-Defamation League”] que proibia minhas palestras. Dizia: “Embora Avnery, membro do Knesset, não possa ser considerado traidor, sua fala, nesse momento, dividiria gravemente as opiniões…” Afinal, fiz as 30 palestras, patrocinadas por bispos cristãos.

Lembro especialmente uma experiência triste em Baltimore. Um bom judeu, que se oferecera para me hospedar, ficou furioso por a palestra ter sido cancelada em sua cidade e insistia em mantê-la. Percorremos uma a uma as ruas dos bairros judeus – visitamos todos os estabelecimentos com placas com nomes judeus – e não encontramos uma única sala cujo gerente aceitasse oferecer o espaço para uma palestra de um membro do Knesset israelense. No final, a palestra aconteceu no subsolo do prédio onde eu estava hospedado – e apareceram funcionários da comunidade judaica, para protestar.

Naquele ano, durante o Setembro Negro, dei uma entrevista coletiva à imprensa, em Washington, sob os auspícios dos Quakers. Pareceu um sucesso. Os jornalistas saiam, naquele instante, de uma coletiva com a primeira ministra Golda Meir, e houve muitas perguntas. Estavam representados todos os principais jornais, redes de televisão e de rádio. A coletiva estava prevista para durar uma hora, mas as perguntam não paravam, e foi-se uma hora e meia. No dia seguinte, não publicaram coisa alguma, nem uma linha. 31 anos depois, em outubro de 2001, outra coletiva no Capitólio, em Washington, e a coisa repetiu-se: toda a mídia compareceu, encheram-me de perguntas por mais uma hora – e não publicaram coisa alguma.

Em 1968, uma muito respeitada empresa editora norte-americana (Macmillan) lançou um dos meus livros, “Israel Without Zionists”, depois traduzido para oito línguas. O livro mostrava o conflito árabe-israelense de outro ângulo muito diferente e propunha que se estabelecesse um Estado palestino junto a Israel – idéia revolucionária àquela época. Nenhuma resenha apareceu na mídia norte-americana. Numa das principais livrarias de Nova Iorque, não vi o livro. Perguntei a um vendedor e ele encontrou-o soterrado sob uma pilha de outros títulos e o pôs à vista. Meia hora mais tarde, o livro fora novamente escondido.

Nesse livro, discutia-se a solução “Dois Estados para Dois Povos” muito antes de ela ser consensual em todo o mundo, e apresentava-se minha proposta de integrar-se Israel na “Região Semita”. É verdade, sou patriota israelense e fui eleito para o Knesset por eleitores israelenses. Mas critiquei o governo de Israel – e foi o suficiente.

O LIVRO dos dois professores, que critica o governo de Israel de outro ponto de vista, não pode continuar soterrado. Só o soterramento do livro, nesse caso, equivale a vários volumes de informação e argumentos.

O livro nasceu de um ensaio assinado pelos professores Mearsheimer e Walt, publicado ano passado num jornal britânico, depois de rejeitado por vários periódicos norte-americanos que não se atreveram a tocar no assunto. Agora, uma respeitada editora norte-americana põe o livro à venda – sinal de que alguma coisa está mudando. A situação está inalterada, mas parece que, afinal, se começa a poder falar sobre ela.

Tudo depende da oportunidade, do timing; parece que os tempos estão maduros para esse livro, que chocará muitos bons norte-americanos. No momento, o livro provoca muito alarido.

Claro que os dois professores têm sido acusados de anti-semitismo, racismo e ódio a Israel. Que Israel? Quem odeia grande parte de Israel é o lobby. Em tempos recentes, o lobby caminha cada vez mais para a direita. Alguns dos grupos que o compõem – como os neoconservadores que arrastaram os EUA para a guerra do Iraque – estão abertamente associados à direita do Likud e especialmente a Binyamin Netanyahu. Os bilionários que financiam o lobby são os mesmos que financiam a extrema direita em Israel e quase todos os colonos.

Os grupos de judeus nos EUA que apóiam os movimentos israelenses pela paz, grupos pequenos e determinados, são incansavelmente perseguidos. Poucos mantêm-se ativos por muito tempo. Militantes dos grupos israelenses pela paz que visitam os EUA são boicotados e estigmatizados como “judeus que se auto-odeiam”.

As idéias políticas dos dois professores, brevemente explicitadas no final do livro, são idênticas às idéias das forças que lutam pela paz em Israel: pela solução dos Dois Estados; pelo fim da ocupação; pela volta das fronteiras à Linha Verde; e busca de apoio internacional para que se faça a paz.

Se isso é anti-semitismo, então somos todos anti-semitas. E só os Cristãos Sionistas – que abertamente pregam a volta dos judeus ao seu país, mas secretamente profetizam que todos os não convertidos serão aniquilados na Segunda Vinda do Messias – são os verdadeiros Amantes de Sião.

AINDA que não se possa publicar nos EUA sequer uma linha contra o lobby pró-Israel, o lobby não é uma sociedade secreta, sempre conspirando, como nos “Protocolos dos Sábios de Sião”. Ao contrário: o Comitê de Assuntos Públicos Norte-americanos-Israelenses” (American Israel Public Affairs Committee, AIPAC), a Liga Anti-difamação, a Federação Sionista e outras organizações semelhantes vociferam muito e muito autopropagandeiam seus inacreditáveis sucessos.

Como é normal, os vários grupos que formam o lobby pró-Israel competem uns contra os outros – quem tem mais influência na Casa Branca?, quem intimida mais senadores?, quem controla maior número de jornalistas e colunistas?. Essa competição provoca escalada constante no tom da discussão e nos atos, porque cada sucesso de um grupo obriga os demais a redobrarem os próprios esforços.

Tudo isso pode ser muito perigoso. Um balão que está sendo inflado, que atinge proporções assustadoras e que pode, a qualquer momento, explodir no rosto dos judeus norte-americanos (os quais, aliás, conforme pesquisas recentes, discordam de muitas das idéias disseminadas pelo lobby que diz falar em nome deles).

A maioria do público norte-americano opõe-se à guerra no Iraque a qual, para muitos, é um desastre. Essa maioria ainda não associou essa guerra e a ação do lobby pró-Israel. Nenhum jornal e nenhum político atreve-se a falar sobre essa conexão – pelo menos, até o presente. Mas, se se quebrar esse tabu, o resultado pode ser muito perigoso para os judeus e para Israel.

Sob a superfície, acumula-se muito ódio ao lobby. Os candidatos à presidência, forçados a ajoelhar-se aos pés do AIPAC, os senadores e deputados que o lobby já escravizou, a imprensa impedida de escrever sobre o que ela conhece bem – todos esses grupos detestam secretamente o lobby pró-Israel. Se esse ódio explodir, poderá também nos ferir.

O lobby tornou-se um Golem. Como o Golem da lenda, trará desastre, ao final, para quem o criou.

PERMITAM-ME apresentar também a minha crítica:

Quando da publicação do artigo original dos professores John Mearsheimer e Stephen Walt, comentei que “a cauda está balançando o cachorro e o cachorro está balançando a cauda”. A cauda, é claro, é Israel.

Os dois professores confirmam a primeira parte da equação, mas negam enfaticamente a segunda. A tese central do livro é que, por pressão do lobby, os EUA agem contra seus próprios interesses (e, no longo prazo, também contra os verdadeiros interesses de Israel.) Os autores não aceitam meu argumento, citado no livro, de que Israel atua no Líbano como “Rottweiler dos EUA” (contra o Hizbullah, que é o “Doberman do Irã”).

Concordo que os EUA estejam agindo contra seus reais interesses (e contra os reais interesses de Israel) – mas os líderes norte-americanos não pensam assim. Bush e seu pessoal crêem – mesmo sem o reforço do lobby – que é vantajoso para os EUA estabelecer presença militar constante no centro dessa região de imensas reservas de petróleo. Em minha opinião, esse ato contra-produtivo foi um dos principais objetivos da guerra, além do desejo de eliminar um dos mais ameaçadores inimigos de Israel. Infelizmente, o livro discute apenas superficialmente essa questão.

Essa observação em nada diminui minha profunda admiração pelas qualidades intelectuais, pela integridade e pela coragem de Mearsheimer e Walt, dois cavaleiros que, como São Jorge, avançam para enfrentar um dragão assustador.

Icárabe
http://www.icarabe.org/default.asp

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Frei Betto compara governador do Rio a Hitler

Rio - O teólogo frei Betto criticou duramente o governador do Rio, Sérgio Cabral, e propôs que ele inaugure uma estátua de Adolf Hitler, líder nazista alemão. A sugestão foi feita em entrevista no 6º Encontro Nacional de Fé e Política, em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense, ao comentar a recente declaração do governador fluminense a favor de aborto como forma de reduzir o número de marginais nas favelas.

“O governador do Rio falou do aborto, falou que a Rocinha é fábrica de marginais e recusou-se a receber representante da ONU que está em visita ao Brasil. Acho que ele deveria inaugurar uma estátua de Hitler em praça pública, porque está havendo uma grande coincidência entre sua política de saneamento e de repressão ao narcotráfico com aquilo que fez o III Reich”, disse.

O religioso também criticou a atuação da polícia fluminense durante a gestão de Cabral. “Quando eu vejo que cerca de mil pessoas foram assassinadas pela reação policial, de janeiro para cá, isso para mim é um genocídio”, disse, citando dados da organização não-governamental (ONG) Rio de Paz.

Frei Betto disse ser contrário a ações violentas por parte da polícia e considera que esse tipo de postura só conduz a uma piora de cenário. “A bandidagem você não acaba com aquela receita que está no ‘Tropa de Elite’ (filme do diretor José Padilha, sobre a polícia fluminense): de que, para enfrentar o bandido, é preciso de uma polícia bandida. Assim, nós vamos para barbárie”, disse.

Marcelo Auler

UOL

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A solução neoliberal e os trabalhadores

Wladimir Pomar

É verdade que ainda nos vemos às voltas com soluções neoliberais, misturadas com tentativas de fazer o Estado estimular a expansão do poder de compra e o crescimento da economia, mesmo contra a vontade de certos setores do capital. Ainda temos que lidar com as profundas conseqüências da solução neoliberal sobre a divisão patrimonial e a fragmentação social da sociedade brasileira, durante os anos 1990.

As corporações estrangeiras e nacionais aumentaram, e muito, sua participação na economia brasileira e na apropriação da riqueza por ela gerada, enquanto segmentos médios e pequenos inteiros foram desestruturados, e o mundo do trabalho, esse setor da sociedade que é a raiz de qualquer sistema econômico, foi fracionado, desorganizado e dispersado. A tal ponto que a ideologia neoliberal cunhou a teoria de que, com o desenvolvimento tecnológico, o emprego passara a ser dispensável.

A substituição do emprego pelas “máquinas inteligentes” e por trabalho humano virtual seria o exemplo mais expressivo do fim da sociedade industrial e de sua superação pela sociedade da informação. A chamada classe operária deixaria de existir, e de assombrar a todos com suas tentativas de revolução social, sendo substituída por uma elite de trabalhadores técnicos e científicos.

É lógico que aquela teoria não conseguia explicar como a sociedade da informação continuaria a alimentar, vestir, e suprir seus membros com os bens indispensáveis à vida humana, que antes eram produzidos pela sociedade industrial. Mas a redução da força social e política da classe trabalhadora assalariada, em virtude da des-industrialização, da dispersão e re-localização de empresas, e também da elevação da produtividade, pareceram dar razão à idéia de que a classe operária findara.

O crescimento desmesurado do exército industrial de reserva, como a conseqüência mais direta do pequeno crescimento do número de trabalhadores industriais, e da intensa expropriação dos pequenos proprietários rurais e urbanos, reforçou a impressão de que a solução neoliberal tinha vindo para eternizar-se. A tal ponto, que parcela significativa da esquerda supôs que aquela teoria estava sendo comprovada, e que a única alternativa seria adaptar-se à nova corrente avassaladora do capitalismo.

Em outras palavras, essa parcela, ao pensar do mesmo modo que os ideólogos do capitalismo dos países desenvolvidos, via as folhas secas da “destruição criativa” neoliberal, sem se dar conta de que as raízes que mantinham de pé as árvores capitalistas ainda existiam. Por isso, custaram a dar-se conta de que a classe dos trabalhadores assalariados, da qual faz parte a classe operária industrial, não só continuava a crescer no Brasil, apesar da quase estagnação econômica, como também renascia fortemente na Ásia. Pelo simples fato de que ninguém se alimenta apenas de informação, e de que o capitalismo não sobrevive se não tiver uma classe trabalhadora assalariada que, ao vender sua força de trabalho, lhe forneça o valor indispensável à valorização do capital.

Correio da Cidadania
http://www.correiocidadania.com.br/

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“Os mais velhos sempre dormem pior que os mais novos” e outros mitos do envelhecimento”

Gina Kolata

Como qualquer pesquisador do sono sabe, perguntar aos mais velhos é a maneira mais eficaz de se ouvir queixas sobre a hora de dormir.
“As pessoas mais velhas são, sem dúvida, as que reclamam mais sobre o sono”, diz Michael Vitiello, pesquisador dos distúrbios do sono que também é professor de psiquiatria e de ciências do comportamento na Universidade de Washington.

E por muitos anos, os cientistas que estudam o sono acreditavam que era simples assim - o sono começa a se deteriorar ao final da meia idade e a partir daí vai ficando cada vez mais conturbado. Parecia ser fato tão óbvio que poucos se atreveram a questionar esse saber predominante.
Mas agora uma nova pesquisa está levando muitos especialistas a uma revisão de seus pensamentos. Para grande surpresa dos pesquisadores, agora parece que o sono não muda tanto assim depois dos sessenta anos. E constata-se que noites de sono ruim não acontecem por causa do envelhecimento, mas principalmente por causa de doenças ou dos remédios usados nos tratamentos.

“Quanto mais distúrbios os adultos tiverem, pior será o sono deles”, segundo Sonia Ancoli-Israel, professora de psiquiatria e pesquisadora dos distúrbios do sono na Universidade da California, em San Diego. “Quando examinamos adultos mais velhos que têm muito boa saúde, verificamos que eles raramente têm problemas com o sono.”

E novos estudos indicam que o mau sono pode resultar numa saúde ruim. Pelo menos no que diz respeito a dor, causa freqüente do sono interrompido, uma noite intranqüila pode piorar a sensação no dia seguinte. E como a dor aumenta, o sono pode ficar ainda mais difícil - um ciclo vicioso comum em pessoas com problemas que tendem a afligir os mais velhos, como dores nas costas e artrite..

Essa nova visão do sono surgiu a partir de duas linhas paralelas de pesquisa. Na primeira, perguntava-se sobre os hábitos do sono quando pessoas saudáveis envelheciam. E na segunda linha de pesquisa buscava-se descobrir a relação entre o sono e a dor.

Para descobrir o que acontece no envelhecimento, alguns pesquisadores, incluindo Vitiello, observaram pessoas mais velhas que não apresentavam problemas de sono. Na verdade era um grupo bem amplo - quase metade das pessoas com mais de 65 anos. Será que essas pessoas de alguma forma percebiam mudanças no sono relacionadas ao avançar da idade?

Não percebiam nada de significativo. Mas o sono delas parecia ser diferente do que ocorria no descanso entre os jovens - era um sono mais leve, mais freqüentemente interrompido por rápidos despertares, e mais curto, num tempo entre meia hora e uma hora. Vitiello considerou que as mudanças no padrão do sono relativas ao avançar da idade poderiam não ser propriamente um problema em si. Algum outro fator fazia as pessoas reclamarem de seu próprio sono.

Vitiello e seus colegas cientistas também fizeram perguntas sobre o que havia ocorrido no sono dessas pessoas ao longo do seu ciclo de vida. Há muito tempo se sabia que o sono vai mudando com o tempo, mas até então ninguém havia estudado de maneira sistemática quando exatamente essas mudanças ocorriam e como ocorriam entre pessoas saudáveis.

Analisando 65 estudos sobre o sono, incluindo o que ocorria com 3.577 indivíduos saudáveis com idade entre 5 a 102 anos, os pesquisadores tiveram mais uma surpresa. A maior parte das mudanças nos padrões de sono ocorreram quando as pessoas tinham entre 20 a 60 anos. Quando comparados a adolescentes e jovens adultos, indivíduos saudáveis de meia idade e pessoas mais velhas dormiam de meia hora a uma hora a menos por noite, acordavam durante a noite com uma freqüência um pouco maior e o sono delas era mais leve. Mas após os 60 anos, registrava-se pouca mudança no padrão de sono, pelo menos entre as pessoas que eram consideradas saudáveis.

E mesmo com a mudança do sono durante a vida adulta, muitas das mudanças foram sutis.

Pessoas de meia idade e os mais velhos, por exemplo, não apresentavam uma dificuldade maior em pegar no sono. A única mudança no que diz respeito à chamada latência do sono surgiu quando foi comparada em dois extremos, aos 20 e aos 80 anos. As pessoas da faixa dos 80 anos levavam em média 10 minutos a mais para pegar no sono.

Ao contrário do que esperavam, os pesquisadores não encontraram aumento na sonolência diurna entre pessoas saudáveis de idade mais avançada. E o envelhecimento também não afetou o tempo que as pessoas levam para começar a sonhar depois que adormecem. Em vez disso, a maior mudança foi no número de vezes que as pessoas acordavam depois de terem adormecido.

Jovens adultos saudáveis dormem durante 95% da noite, segundo Donald Bliwise, pesquisador do sono na Emory University: “Eles adormecem e só acordam quando o alarme dispara.”

Quando chegam aos 60 anos, pessoas saudáveis dormem durante 85% da noite. O sono deles é interrompido apenas por rápidos momentos de vigília, que tipicamente duram de três a 10 segundos. “Há um certo aspecto do sono que não será tão bom como o dos tempos em que a pessoa tinha 20 anos”, segundo Bliwis, que acrescenta: “Quando isso ultrapassa a barreira do conforto e se transforma numa queixa significativa é que é difícil de dizer.”

Segundo Bliwis e outros especialistas, os verdadeiros problemas de sono ocorrem mesmo quando as pessoas apresentam uma das condições que as levam a acordar durante a noite, como a apnéia do sono, dores crônicas, síndrome de pernas inquietas ou problemas urinários. Isso, é claro, se encaixa na descrição de muitas pessoas de idade.

“A questão de se obter um sono consistente na velhice é bem ampla”, segundo Bliwise. “Acaba-se perguntando - Afinal de contas, o que é normal? O que eu devo esperar?”

A nova fronteira no campo das expectativas, e sobre o que fazer com elas, envolve estudos sobre a relação do sono com a dor. Não é novidade que a dor pode interromper o sono. Mas o fato novo é que a falta de sono pode aparentemente aumentar a sensação da dor.

Michael T. Smith, diretor de treinamento e pesquisa do programa de medicina comportamental do sono na Johns Hopkins School of Medicine, chegou a essa conclusão analisando o sono de jovens saudáveis. Um grupo dormia normalmente durante oito horas no hospital. Outro grupo era acordado a cada hora por uma enfermeira, mantido em alerta durante 20 minutos. O padrão de sono deles foi estabelecido para reproduzir as condições fragmentadas do sono de pessoas mais velhas. A um terceiro grupo era permitido apenas quatro horas de sono ininterrupto.

Comparando o segundo e o terceiro grupos, foi possível a Smith discernir as causas dos problemas que surgem a partir da fragmentação do sono - mas ocorriam por causa do pequeno total de horas dormidas ou por conta da natureza interrompida do sono?

O cientista descobriu que o sono fragmentado levava a sérios agravamentos da dor no dia seguinte. Os indivíduos sentiam dor com mais facilidade, se tornavam menos capazes de disfarçá-la e até mesmo passaram espontaneamente a ter leves dores de cabeça e nas costas.

Timothy Roehrs, diretor do centro de pesquisas sobre os distúrbios do sono no Hospital Henry Ford em Detroit, também descobriu que jovens saudáveis tornaram-se intensamente sensíveis a dor após uma noite de sono fragmentado.

Passar a dormir mais, conforme Roehrs descobriu, apresentava o efeito oposto. Suas cobaias eram jovens saudáveis que diziam ter sonolência crônica durante o dia, por não conseguir ter horas de sono suficiente à noite. Roehrs fez com que eles ficassem na cama 10 horas por noite. O sono extra, constatou o cientista, reduziu a sensibilidade deles a dor da mesma forma que ocorreria se houvesse ingestão de um comprimido de codeína.

Agora, segundo Michael T. Smith, ele e outros cientistas mudaram significativamente de idéia a respeito da relação entre distúrbios do sono e envelhecimento.

É claro, o cientista reconhece, que o sono é diferente entre pessoas de 20 anos e pessoas de 70 anos. Mas, constata que “não é exatamente normal passar a ter distúrbio clinico de sono quando se envelhece.”

The New York Times
http://www.nytimes.com/

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O Louro sabe das coisas

Os papagaios estão se livrando do estigma de imitadores. Cientistas já reconhecem que a inteligência dessas aves é comparável à dos golfinhos e chimpanzés

Christine Scholtyssex

A campainha toca e Fernanda se apressa em atender, pensando que é o entregador de pizza. Mas ao abrir a porta e ver que não há ninguém do outro lado, o som continua – trata-se de mais uma das “brincadeiras” de Bóris, seu papagaio de estimação. Cenas como essa mostram a fascinante capacidade dessas aves de imitar sons comuns e vozes humanas. Para muitos cientistas, porém, os papagaios são capazes de bem mais que isso. Segundo eles, esses animais conseguem não apenas entender e responder ao que dizemos, mas também compreender conceitos abstratos simples. Há quem diga que papagaios e algumas outras espécies de aves são tão inteligentes quanto golfinhos e primatas.

Durante décadas, os biólogos pensaram que apenas o instinto controlava o comportamento dos papagaios. Essa visão se baseava nas características do cérebro das aves, que é bem menor e aparentemente mais simples que o dos mamíferos. A fala desses animais era considerada pura imitação, desprovida de qualquer significado. No final dos anos 70, a psicóloga Irene Pepperberg, então da Universidade Purdue, em West Lafayette, Indiana, deu início a uma longa série de experimentos que prosseguem até hoje na Universidade Brandeis, em Waltham, Massachusetts. O objetivo da psicóloga, que é professora também do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, é definir até que ponto vai a inteligência dos papagaios.

Antes de mais nada, Pepperberg precisou resolver um problema fundamental: de que forma poderia avaliar as capacidades cognitivas desses pássaros? A solução foi usar justamente a habilidade deles de falar, algo totalmente estranho ao repertório de comportamentos usados na comunicação entre os papagaios, o que significa que talvez eles “falem” justamente para se comunicar conosco.

ALÉM DA IMITAÇÃO

Há muito em comum entre a aquisição da linguagem pelos seres humanos e o aprendizado musical dos pássaros. Ambos se baseiam na imitação do comportamento dos indivíduos mais velhos e exigem muito treino e repetição. Pepperberg adaptou um método de treinamento desenvolvido pelo etologista alemão Dietmar Todt, conhecido como técnica modelo-rival.

A sessão funciona da seguinte forma: numa pequena mesa com vários objetos, há dois treinadores sentados em lados opostos e no meio deles, um papagaio. O treinador pega um objeto, mostra-o ao outro e pergunta: “O que é isto?”. O parceiro responde: “Bola. É uma bola”. Então o treinador no 1 elogia o segundo e, como recompensa, lhe dá a bola. Algumas vezes, porém, o treinador no 2 responde deliberadamente de forma incorreta, dizendo, por exemplo, “é um prendedor de roupa”. O primeiro o reprova e retira o objeto de seu campo de visão por alguns minutos.

Em pouco tempo o papagaio está apto a participar do jogo. É recompensado ou repreendido pelos treinadores conforme as respostas que dá. Quando acerta, pode brincar com o objeto por um tempo. Nesse método, o segundo treinador é, para o papagaio, tanto modelo como rival na disputa pela atenção do treinador no 1. Depois de aprender algumas palavras, o pássaro já pode assumir o papel do treinador no 2 e ensinar outros papagaios.

Depois de 30 anos de treinamento, um papagaio cinza chamado Alex, o primeiro estudado por Pepperberg, adquiriu um respeitável vocabulário, que ainda pode ser ampliado, já que alguns espécimes vivem mais de 60 anos. Alex conhece o nome de 50 objetos, sete cores, cinco formas geométricas, sete materiais, seis números e até alguns verbos.

Vocabulário amplo, porém, não é evidência de funções cognitivas superiores, apenas de boa memória. O que importa saber é se o bicho consegue entender o que está dizendo. Para isso Pepperberg submeteu Alex e três outros papagaios treinados em laboratório a vários experimentos. Os resultados obtidos até agora não deixam dúvida de que as aves compreendem o significado isolado de palavras individuais e são dotadas de algumas capacidades cognitivas superiores.

Os papagaios de Pepperberg responderam de forma precisa a questões como “o que é isto?”. Também compreenderam categorias conceituais como cor, forma e material. Ora, isso envolve o entendimento de que vermelho, verde e azul, por exemplo, são possíveis variantes do mesmo objeto. Alex e seus amigos mostraram que isso é possível. Além disso, aprenderam o significado de “igual” e “diferente”. Quando se colocavam diante deles um círculo e um triângulo, ambos vermelhos, e se perguntava “o que é igual?”, eles respondiam “cor”. Se a pergunta fosse “o que quando não há característica alguma comum ou diferente, demonstrando que conhece o conceito de ausência. Alex também sabe o que significa a partícula “e”. Quando perguntado sobre “o que é triangular e vermelho?”, selecionou, em meio a outros itens, o objeto com as duas características. Seu desempenho ao comparar coisas é impressionante. Ele conseguiu resolver questões como “qual cor maior?” (que significa “qual a cor do objeto maior?”). Isso mostra que o papagaio tem noção de relatividade, isto é, ele identifica qual o item maior ou menor dentro de um conjunto. A idéia de quantidade também foi assimilada. Se mostrarmos a Alex quatro bolas vermelhas, três verdes e mais cinco blocos vermelhos e seis verdes, todos dispostos aleatoriamente, ele responderá corretamente à pergunta “quantos blocos vermelhos?”. Dados recentes sugerem que Alex conta um a um os conjuntos maiores de objetos e reconhece os números menores intuitivamente, de uma tacada só, assim como nós fazemos.

ESPERTO E TEIMOSO

Os papagaios cinza conseguem até mesmo usar verbos e combiná-los com diferentes objetos. Podem dizer, por exemplo, “quero maçã” ou “quero ir cadeira”. Se Pepperberg entrega outro objeto, a ave o rejeita dizendo “não”, repetindo o pedido original. Se levado ao lugar errado, recusa-se a pular no braço do treinador e reitera seu desejo.

Outro exemplo de pensamento abstrato é o chamado problema da permanência do objeto, isto é, a compreensão de que o objeto continua a existir mesmo quando muda de posição ou não pode mais ser visto. Esse conceito básico para o entendimento do meio não é tão óbvio quanto parece. Nos seres humanos essa capacidade se desenvolve gradualmente ao longo do primeiro ano de vida. Cães, gatos e pombos possuem uma idéia rudimentar da permanência dos objetos, mas muito mais fraca do que a observada em papagaios, macacos ou humanos. Eles fracassam, por exemplo, no jogo do copo. Após ver o treinador esconder a bola em um dos três copos e movê-los, um cachorro só acerta o local do objeto por acaso. Alguns primatas e papagaios adultos, porém, têm desempenho tão bom quanto o dos humanos. Estudos com papagaios mais jovens revelaram que a noção da permanência do objeto evolui de acordo com o desenvolvimento de regiões específicas de seu cérebro.

Os papagaios de Pepperberg não se cansam de surpreender a comunidade científica com suas habilidades. E Alex, que é o mais velho, é também o mais inteligente. Já inventou vários termos novos para descrever objetos, como quando devia aprender o termo “maçã”. Nessa época, Alex já havia aprendido os nomes de várias frutas, como banana, cereja e uva. Já havia experimentado maçãs, mas nada lhe fora ensinado sobre elas. Certo dia o treinador pegou uma maçã e perguntou “o que é isto?”. Ele respondeu: “baneja” e deu uma bicada na fruta. Foi corrigido e ouviu “maçã” várias vezes, mas insistia em “baneja”, usando a mesma entonação cuidadosa que o treinador costumava empregar sempre que apresentava um termo novo. Para Alex, as maçãs sempre serão banejas e ninguém jamais saberá ao certo o que ocorreu em seu cérebro quando ele cunhou o termo. Papperberg acha que ele combinou duas palavras conhecidas, “banana” e “cereja”. Talvez as maçãs tenham, para ele, sabor semelhante ao da banana e qualquer fruta com a casca vermelha se pareça com uma grande cereja. “Que cor?” foi a primeira coisa dita por Alex quando ele se viu no espelho pela primeira vez. Estava cansado de ouvir a mesma pergunta, sempre relacionada a objetos coloridos. Isso deixa claro que ele não só compreendeu o conceito de cor, mas que é capaz de usá-lo em situações novas. Surpresa, a psicóloga respondeu: “Cinza, você é um papagaio cinza”. Alex repetiu a mesma pergunta mais cinco vezes e recebeu a mesma resposta. Desde então, “cinza” passou a fazer parte de seu vocabulário.

Os exemplos mencionados são evidências incontestáveis de que os papagaios – e provavelmente várias outras aves – não agem apenas por instinto. Eles são dotados de extraordinária memória e entendem relações complexas. Além de aprender um complicado sistema de comunicação, têm vida social intensa e são muito curiosos. A inteligência que demonstram é comparável à dos primatas e golfinhos e, em algumas situações, até superior. Eles se saíram bem em testes mais exigentes que os aplicados aos mamíferos.

A vida longa dos papagaios permite que estudos de longo prazo sejam feitos. Atualmente os papagaios de Pepperberg estão aprendendo a pronunciar o som das letras e a usar um computador desenvolvido especialmente para eles. Talvez um dia tenham seu próprio site na internet e conversem conosco por e-mail.

APARÊNCIAS E SULCOS ENGANAM

Ao compararmos o cérebro de aves que cantam (canoras) com o de um mamífero, duas constatações chamam a atenção: a forma é similar, mas os sulcos do órgão das aves são bem menos proeminentes. Durante muito tempo, a idéia de que muitas circunvoluções significam funções cognitivas superiores levou os cientistas a pensar que as aves tinham poderes mentais limitados. A opinião foi fortalecida pelo equivocado pressuposto de que o cérebro dos pássaros corresponde a regiões do cérebro dos mamíferos as quais regem funções básicas relacionadas ao comportamento reflexo.

Pesquisas mais recentes indicam, porém, que o pallium, parte maior do cérebro das aves, opera junto com estruturas abaixo dele para controlar comportamentos complexos. Quanto maior o pallium, mais inteligente o animal. O córtex cerebral dos mamíferos se originou dessa região e, quanto maior sua proporção em relação ao resto do cérebro, mais desenvolvida a capacidade cognitiva.

Embora o sistema nervoso das duas classes de animais seja estruturado de forma bem diferente, há muitas semelhanças funcionais. Várias partes do cérebro são conectadas por caminhos neurais com funções similares. Quando os papagaios aprendem a emitir novos sons, por exemplo, as estruturas ativadas são análogas às estimuladas em humanos que aprendem a falar. A equipe de pesquisa coordenada pelo neurologista Erich D. Jarvis, da Universidade Duke, em Durham, na Carolina do Norte, levou em conta essa descoberta para reformular a nomenclatura que descrevia as regiões do cérebro das aves. Os cientistas substituíram antigos termos que são homólogos às regiões correspondentes nos mamíferos.

VALOR DO AMANHÃ

O planejamento e a preocupação com o futuro sempre foram considerados habilidades exclusivas dos seres humanos, ou pelo menos dos primatas. Coisa do passado: cientistas britânicos demonstraram que uma espécie de ave é capaz de se programar para o futuro, segundo estudo publicado na Nature em fevereiro deste ano.

Uma equipe de pesquisadores da Universidade Cambridge, Reino Unido, coordenada pelo biólogo Nicola Clayton, investigou o comportamento do Aphelocoma californica (foto), pertencente à família dos corvos e habitante do oeste dos Estados Unidos e de parte do México. Em diversas situações de cativeiro, foram simuladas situações de abundância ou escassez de alimento. Observou-se que os animais estocavam mais comida sempre que eram submetidos à segunda condição. Além disso, a poupança alimentar era nutricionalmente bastante variada. “Os resultados sugerem que essas aves são dotadas de processos cognitivos complexos capazes de abranger os conceitos de passado, presente e futuro”, afirma Clayton.

INTELIGÊNCIA SELVAGEM

Alex e seus amigos realizam façanhas mentais impressionantes, mas já viveram muito tempo no cativeiro e receberam muitos estímulos. Que dizer dos papagaios silvestres? A ordem dos psitaciformes, à qual pertencem, inclui diversas espécies de vida longa: os periquitos australianos vivem entre dez e 15 anos e as araras podem passar dos 50 anos. Boa memória é essencial, pois os pássaros precisam lembrar o local das diferentes fontes de água e de alimento, bem como dos ninhos e dos companheiros. A longevidade significa também que eles presenciam grandes mudanças ambientais, como cheias e secas. Para sobreviver, é preciso certo grau de flexibilidade mental, sendo necessário lembrar experiências anteriores para se adaptar a novas situações.

Quase todos os papagaios vivem em bandos cuja estrutura se assemelha à dos grupos de primatas, o que exige um alto nível de inteligência social. As aves têm de ser capazes de distinguir entre muitos indivíduos e interagir de forma apropriada, com base em experiências prévias. Como os casais humanos, os de papagaios passam bom tempo juntos mesmo quando não estão cuidando dos filhotes. Em algumas espécies, o par pode até aprender a cantar junto, formando um dueto em que cada indivíduo emite notas para o outro.

O uso de ferramentas também foi observado em várias espécies de aves. Para marcar território, os periquitos machos mordem galhos e os batem no tronco das árvores. Outras espécies usam ramos secos e pedras pequenas para afugentar aves predadoras. A manipulação de objetos, como pedaços de madeira e sementes, também é usada pelos mais jovens para explorar o meio e aprender comportamentos sociais, isto é, os pequenos papagaios também gostam de brincar. E é muito provável que eles sejam capazes de aprender ao longo de toda a vida, ampliando constantemente seu baú de experiências.

PARA CONHECER MAIS
Avian brains and a new understanding of vertebrate brain evolution. E. D. Jarvis et
al., em Nature Reviews Neuroscience, vol. 6, nº 2, págs. 151-159, 2005.

The Alex studies: cognitive and communicative abilities of grey parrots. Irene
Maxine Pepperberg. Harvard University Press, 2002.

Fundação Alex. www.alexfoundation.org.

Revista Mente e Cérebro
http://www2.uol.com.br/vivermente/

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Crítica da Violência: crítica do poder

WALTER BENJAMIN

A tarefa de uma crítica da violência pode ser definida como a apresentação de suas relações com o direito e a justiça. Pois qualquer que seja o efeito de uma determinada causa, ela só se transforma em violência, no sentido forte da palavra, quando interfere em relações éticas. Esfera de tais relações é designada pelos conceitos de direito e justiça. Quanto ao primeiro, é evidente que a relação elementar de toda ordem jurídica é a de meios e fins. A violência, inicialmente, só pode ser procurada na esfera dos meios, não na dos fins. Posto isso, temos mais dados para a crítica da violência* do que talvez pareça. Pois se a violência é um meio, pode parecer que já existe um critério para sua crítica. Tal critério se impõe com a pergunta, se a violência é, em determinados casos, um meio para fins justos ou injustos. Sua crítica, portanto, estará implícita num sistema de fins justos. Mas, não é bem assim. Pois esse tipo de sistema – supostamente acima de quaisquer dúvidas – não incluiria um critério da própria violência como princípio, mas apenas um critério para os casos em que ela fosse usada. Ficaria em aberto a pergunta, se a violência em si, como princípio, é moral, mesmo como meio para fins justos. Para decidir a questão, é preciso Ter um critério mais exato, uma distinção na esfera dos próprios meios, sem levar em consideração os fins a que servem. A eliminação deste tipo de pergunta crítica e mais exata caracteriza uma das grandes correntes da filosofia o direito – o direito natural – e talvez seja sua característica mais marcante. O direito natural não vê problema nenhum no uso de meios violentos para fins justos; esse uso é tão natural como o “direito” do ser humano de locomover seu corpo até um determinado ponto desejado. Segundo essa concepção (que serviu de base ideológica ao terrorismo na Revolução Francesa), a violência é um produto da natureza, por assim dizer, uma matéria-prima utilizada sem problemas, a não ser que haja abuso da violência* para fins injustos. Se, de acordo coma teoria política do direito natural, todas as pessoas abrem mão do seu poder* em prol do estado, isso se faz, por que se pressupõe (como mostra explicitamente Spinoza no Tratado teológico- político) que, no fundo, o indivíduo – antes de firmar esse contrato ditado pela razão – exerce também de jure qualquer tipo de poder que, na realidade, exerce de fato. (…)

À tese, defendida pelo direito natural, do poder* como dado da natureza, se opõe diametralmente a concepção do direito positivo, que considera o poder* como algo que se criou historicamente. Se o direito natural pode avaliar qualquer direito existente apenas pela crítica de seus fins, o direito positivo pode avaliar qualquer direito que surja apenas pela crítica de seus meios. Se a justiça é o critério dos fins, a legitimidade é o critério dos meios. No entanto, não obstante essa contradição, ambas as escolas estão de acordo num dogma básico comum: fins justos podem ser obtidos por meios justos, meios justos podem ser empregados para fins justos. O direito natural visa, pela justiça dos fins, “legitimar” os meios, o direito positivo visa “garantir” a justiça dos fins pela legitimidade dos meios.

A antinomia se revelaria insolúvel, se o pressuposto dogmático comum fosse falso, se meios legítimos de um lado e fins justos do outro lado estivessem numa contradição inconciliável. Sua compreensão não seria possível sem sair do círculo, estabelecendo critérios independentes para fins justos e para fins legítimos.

Para tal investigação, se exclui por enquanto a esfera dos fins e com isso também a busca de um critério da justiça. A questão central passa a ser a da legitimidade de determinados meios que constituem o poder*. Ela não pode ser decidida por princípios de direito natural, que apenas levariam a uma casuística sem fim. Pois, se o direito positivo é cego para o caráter incondicional dos fins, o direito natural é cego para o condicionamento dos meios. No entanto, a teoria do direito positivo é aceitável como base hipotética no ponto de partida da investigação, uma vez que estabelece uma distinção básica quanto aos tipos de poder, independentemente dos casos de seu uso. Distingue entre o poder* historicamente reconhecido, o chamado poder sancionado e o não- sancionado. (…)

Uma máxima geral da legislação européia atual pode ser formulada nestes termos: todos os fins naturais das pessoas individuais entram em colisão com fins jurídicos, quando perseguidos com maior ou menor violência. (A contradição do direito à legítima defesa com esta máxima deve se explicar por si mesma no decorrer das considerações seguintes.) O corolário desta máxima é que o direito considera o poder na mão do indivíduo um perigo de subversão da ordem judiciária. Um perigo no sentido de impedir os fins jurídicos e a executiva judiciária? Não; pois nesse caso condenar-se-ia não simplesmente o poder, mas apenas o poder voltado para fins contrários à lei. Poder-se-ia dizer que um sistema de fins jurídicos é insustentável quando, em algum lugar, fins naturais ainda podem ser perseguidos por meio da violência. Mas isso, por enquanto, é um simples dogma. Por outro lado, talvez deva se levar em consideração a surpreendente possibilidade de que o interesse do direito em monopolizar o poder diante do indivíduo não se explica pela intenção de garantir os fins jurídicos, mas de garantir o próprio direito. Possibilidade de que o poder, quando não está nas mãos do respectivo direito, o ameaça, não pelos fins que possa almejar, mas pela sua própria existência fora da alçada do direito. De modo mais drástico, a mesma suposição pode ser sugerida pela reflexão, quantas vezes a figura do “grande” bandido não suscita a secreta admiração do povo, por mais repugnantes que tenham sido seus fins. Isso é possível não por causa de seus efeitos, mas apenas por causa do poder* que se manifesta nesses feitos. Nesse caso, portanto, o poder – que o direito atual procura retirar do indivíduo em todas as áreas de atuação – se manifesta realmente como ameaça e, mesmo sendo subjugado, ainda assim suscita a antipatia da multidão contra o direito. (…)

Pois o direito positivo, quando está consciente de suas raízes, reivindicará o fato de reconhecer em cada indivíduo o interesse da humanidade e de fomentá-lo. Tal interesse consistiria na apresentação e conservação de uma ordem de destino. Se, por um lado, não se deve poupar críticas a essa ordem, que o direito pretende conservar com razão, por outro lado, qualquer interpelação dessa ordem é impotente, quando se apresenta apenas em nome de uma “liberdade” sem rosto e incapaz de apontar uma ordem de liberdade superior. Sua impotência é total, quando não questiona o próprio corpo da ordem jurídica, mas apenas leis ou costumes jurídicos isolados, que então serão protegidos pelo direito com o seu poder, que consiste na alegação de que só existe um único destino e que justamente o status quo e o elemento ameaçador pertencem à sua ordem de maneira irrevogável. Pois o poder* mantenedor do direito é um poder ameaçador. Só que sua ameaça não tem o sentido de uma intimidação, como costumam interpretá-lo teóricos liberais desinformados. A intimidação no sentido exato exigiria uma definição contrária à essência da ameaça e não atingida por lei nenhuma, uma vez que existe a esperança de escapar a seu braço. A lei se mostra ameaçadora como o destino, do qual depende se o criminoso lhe sucumbe. O sentido mais profundo da indefinição da ameaça do direito se revelará somente pela consideração posterior da esfera do destino, de onde ela se origina. Um indício precioso se encontra na área das punições. Dentre elas, mais do que qualquer outra, a pena de morte suscitou críticas, desde o momento em que se questionou a validade do direito positivo. Embora, na maioria dos casos, os argumentos da crítica tenham sido mal fundamentados, seus motivos têm sido questões de princípio. Sentiam os críticos, talvez sem poder explicá-lo e sem querer senti-lo, que uma contestação da pena de morte não ataca uma medida punitiva, nem as leis, mas o próprio direito na sua origem. Pois se a sua origem for a violência*, a violência coroada pelo destino, não está longe a suspeita de que na instituição do poder* supremo – o poder sobre vida e morte, o qual se apresenta na forma da ordem jurídica – , as origens do poder - violência interferem de maneira representativa na ordem existente e ali se manifestam de forma terrível. Coerentemente, em contextos jurídicos primitivos, a pena de morte é decretada também no caso de delitos contra a propriedade, em relação aos quais parece totalmente “desproporcional”. Seu sentido não é punir a infração da lei, mas afirmar o novo direito. Pois o exercício do poder sobre vida e morte, o próprio direito se fortalece, mais do que em qualquer outra forma de fazer cumprir a lei. Mas ali se manifesta também um elemento de podridão dentro do direito, detectável por uma percepção mais sensível, que se distancia de relações nas quais o destino em pessoa apareceria majestosamente para fazer cumprir a lei. A razão e a inteligência, porém, devem aproximar-se dessas relações da maneira mais decidida, se quiserem levar a termo a crítica do poder* instituinte e do poder* mantenedor do direito.

Os dois tipos de poder estão presentes em outra instituição do Estado moderno: a polícia, numa relação muito mais contrária à natureza que a pena de morte, numa mistura por assim dizer espectral. É verdade que a polícia é um poder para fins jurídicos (com direito de executar medidas), mas ao mesmo tempo com a autorização de ela própria, dentro de amplos limites, instituir tais fins jurídicos (através do direito de baixar decretos). A infâmia dessa instituição – sentida por poucos, por que raramente a competência da polícia é suficiente para praticar intervenções mais grosseiras, podendo, no entanto, investir cegamente nas áreas mais vulneráveis e contra cidadãos sensatos, sob a alegação de que contra eles o Estado não é protegido pelas leis – consiste em que ali se encontra suspensa a separação entre poder* instituinte e poder* mantenedor do direito. Do primeiro se exige a legitimação pela vitória, do segundo, a restrição de não se proporem novos fins. O poder* da polícia se emancipou dessas duas condições. É um poder* instituinte do direito – cuja função característica não é promulgar leis, mas baixar decretos com expectativa de direito – e um poder* mantenedor do direito, uma vez que se põe à disposição de tais fins. A afirmação de que os fins do poder* policial seriam sempre idênticos aos do direito restante ou pelo menos ligados a eles, é falsa. Na verdade o “direito” da polícia é o ponto em que o estado – ou por impotência ou devido às inter- relações imanentes a qualquer ordem judiciária – não pode mais garantir, através da ordem jurídica, seus fins empíricos, que deseja atingir a qualquer preço. Por isso, “por questões de segurança”, a polícia intervém em inúmeros casos, em que não existe situação jurídica definida, sem falar dos casos em que a polícia acompanha ou simplesmente controla o cidadão, sem qualquer referência a fins jurídicos, como um aborrecimento brutal ao longo de uma vida regulamentada por decretos. Ao contrário do direito que, na “decisão” fixada no espaço e no tempo, reconhece uma categoria metafísica, graças à qual ele faz jus à crítica, a observação da instituição da polícia não encontra nenhuma essência. Seu poder* é amorfo, como é amorfa sua aparição espectral, inatacável e onipresente na vida dos países civilizados. E, apesar de a polícia amiúde ter o mesmo aspecto em toda a parte, não se pode negar que seu espírito é menos arrasador na monarquia absoluta – onde ela representa o poder* do soberano, que reúne plenos poderes legislativos e executivos – do que nos regimes democráticos, onde sua existência, não sublimada por nenhuma relação desse tipo, testemunha a maior degenerescência imaginável do poder*. Todo poder* enquanto meio é, ou instituinte ou mantenedor de direito. Não reivindicando nenhum desses dois atributos, renuncia a qualquer validade. Portanto, qualquer poder* enquanto meio, mesmo no caso mais favorável, tem a ver com a problemática geral do direito.

(…) Quando a consciência da presença latente da violência dentro de uma instituição jurídica se apaga, esta entra em decadência. Um exemplo disso, no momento atual, são os parlamentos. Eles oferecem esse espetáculo notório e lamentável porque perderam a consciência das forças revolucionárias às quais devem sua existência. Assim, sobretudo na Alemanha, a última manifestação de tais poderes* transcorreu sem conseqüências para os parlamentos. Falta-lhes o sentido para o poder instituinte de direito, representado por eles; assim, não é de estranhar que não consigam tomar decisões que sejam dignas desse poder,* mas cultivem, com a prática dos compromissos, uma maneira supostamente não violenta de tratar de assuntos políticos. Ora, o compromisso permanece “um produto que, apesar de repelir qualquer violência* aberta, se situa dentro da mentalidade da violência,* porque o impulso que leva a fazer um compromisso não parte dele mesmo, mas vem de fora, justamente do impulso contrário, porque em qualquer compromisso, mesmo quando aceito de bom grado, não se pode fazer abstração do caráter compulsório. ‘Uma solução diferente seria melhor’ – eis o sentimento que está na base de qualquer compromisso” [3] – É significativo que talvez o mesmo número de pessoas que, por causa da guerra, optaram pelo ideal de uma solução não - violenta de conflitos políticos, tenha-se afastado desse ideal por causa da decadência dos parlamentos. (…)

Será que a solução não - violenta de conflitos é em princípio possível? Sem dúvida. As relações entre pessoas particulares fornecem muitos exemplos. Um acordo não- violento encontra-se em toda parte, onde a cultura do coração deu aos homens meios puros para se entenderem. Aos meios legítimos e ilegítimos de toda espécie – que são, todos, expressão da violência* – podem ser confrontados como meios puros os não- violentos. A atenção do coração, a simpatia, o amor pela paz, a confiança e outras qualidades a mais são seu pressuposto subjetivo. Sua manifestação objetiva é determinada pela lei (cujo enorme alcance não pode ser discutido aqui) de que meios puros não sirvam jamais a soluções imediatas, mas sempre a soluções mediatas. Por isso, nunca se referem à solução de conflitos entre duas pessoas de maneira imediata, mas pelo intermédio das coisas. Quando os conflitos humanos se referem, da maneira mais objetiva, a bens, abre-se o campo dos meios puros. Por isso, a técnica, no sentido mais amplo da palavra, é sua área mais própria. Seu exemplo mais profundo talvez seja a conversa, considerada como uma técnica de mútuo entendimento civil. Ali, um acordo não- violento não apenas é possível, mas a eliminação por princípio da violência* pode ser explicitamente comprovada com um tipo de relação importante: a impunidade da mentira. Talvez não exista no mundo nenhuma legislação que originalmente puna a mentira. Quer dizer que existe uma esfera de entendimento humano, não- violenta a tal ponto que seja totalmente inacessível à violência: a esfera propriamente dita do “entendimento”, a linguagem.(…)

Em toda a esfera dos poderes,* que se orientam ou pelo direito natural ou pelo direito positivo, não se encontra nenhum que esteja a salvo dos graves problemas acima mencionados, que afetam todo e qualquer poder* judiciário. Mas como qualquer idéia, qualquer solução imaginável das tarefas humanas – sem falar de uma salvação do círculo compulsório de todas as situações existenciais já ocorridas na história mundial – é irrealizável, quando se exclui por princípio todo e qualquer poder,* impõe-se a pergunta se existem outros tipos de poder,* além daqueles focalizados pela teoria do direito. Ao mesmo tempo impõe-se a pergunta se é verdadeiro o dogma básico, comum àquelas teorias: fins justos podem ser obtidos por meios legítimos, meios legítimos podem ser usados para fins justos. O que aconteceria, se esse tipo de poder,* dependente do destino e usando meios legítimos, se encontrasse num conflito inconciliável com os fins justos em si, e se, ao mesmo tempo, aparecesse um poder* de outro tipo, o qual então, evidentemente, não pudesse ser nem o meio legítimo nem ilegítimo para aqueles fins, mas se relacionaria com os fins não como um meio mas como algo diferente? Assim se lançaria luz sobre a experiência singular e em princípio desanimadora de que, em última instância, É impossível “decidir” qualquer problema jurídico – apoiaria que talvez só possa ser comparada com a impossibilidade de uma decisão taxativa sobre o que é “certo” ou “errado” em linguagens que têm uma evolução histórica. Afinal, quem decide sobre a legitimidade dos meios e a justiça dos fins não é jamais a razão, mas o poder* do destino, e quem decide sobre este é Deus. É uma maneira de ver incomum, mas apenas porque existe o hábito arraigado de pensar os fins justos como fins de um direito possível, ou seja, não apenas universalmente válidos (o que seria uma conseqüência analítica do elemento justiça), mas passíveis de universalização – o que está em contradição com esse elemento, como se poderia demonstrar. Pois, fins que são justos, universalmente reconhecíveis, universalmente válidos para uma determinada situação, não o são para nenhuma outra, por parecida que seja sob outros aspectos. Uma função não mediata da violência, tal como está sendo discutida aqui, aparece na experiência de vida cotidiana. Quanto ao ser humano, a ira, por exemplo, o leva às mais patentes explosões de violência, uma violência que não se refere como meio a um fim proposto. Ela não é meio, e sim manifestação. É verdade que esse tipo de violência tem suas manifestações objetivas, onde ela é sujeita à crítica. Elas se encontram, antes de mais nada e de maneira altamente significativa, no mito.

O poder* mítico em sua forma arquetípica é mera manifestação dos deuses. Não meio para seus fins, quase não manifestação de sua vontade, antes manifestação de sua existência. Disso, a lenda de Níobe oferece um excelente exemplo. É verdade que ação de Apolo e Ártemis pode parecer uma mera punição da transgressão de um direito existente. A hybris de Níobe conjura a fatalidade, não por transgredir a lei, mas por desafiar o destino – para uma luta na qual o destino terá de ser o vencedor, podendo engendrar, na vitória, um direito. Até que ponto o poder divino, no sentido da Antigüidade, não era o poder mantenedor da punição, fica patente nas lendas, onde o herói, por exemplo Prometeu, desafia o destino com digna coragem, luta contra ele, com ou sem sorte, e acaba tendo a esperança de um dia levar aos homens um novo direito. É, no fundo, esse herói e o poder jurídico do mito incorporado por ele que o povo tenta tornar presente, ainda nos dias de hoje, quando admira o grande bandido. A violência* portanto desaba sobre Níobe a partir da esfera incerta e ambígua do destino. Ela não é propriamente destruidora. Embora traga a morte sangrenta aos filhos de Níobe, ela se detém diante da vida da mãe, deixando-a – apenas mais culpada do que antes, por causa da morte dos filhos – como suporte mudo eterno da culpa, e também como marco do limite entre homens e deuses. Se esse poder* imediato quer mostrar, em manifestações míticas, que é parente próximo do poder* instituinte do direito ou lhe é idêntico, ele focaliza um problema deste poder, na medida em que este tinha sido caracterizado – na apresentação anterior da violência* da guerra – como um poder* apenas dos meios. Ao mesmo tempo, esta relação promete esclarecer melhor o destino que em todos os casos está subjacente ao poder* jurídico, e, num grande esboço, levar sua crítica a termo. A função do poder- violência, na institucionalização do direito, é dupla no sentido de que, por um lado, a institucionalização almeja aquilo que é instituído como direito, como o seu fim, usando a violência* como meio; e, por outro lado, no momento da instituição do fim como um direito, não dispensa a violência,* mas só agora a transforma, no sentido rigoroso e imediato, num poder* instituinte do direito, estabelecendo como direito não um fim livre e independente de violência (Gewalt), mas um fim necessário e intimamente vinculado a ela, sob o nome do poder (Macht). A institucionalização do direito é institucionalização do poder e, nesse sentido, um ato de manifestação imediata da violência. A justiça é o princípio de toda instituição divina de fins, o poder (Macht) é o princípio de toda institucionalização mítica do direito.(…)

A crítica da violência, ou seja, a crítica do poder, é a filosofia de sua história. É a “filosofia” dessa história, porque somente a idéia do seu final permite um enfoque crítico, diferenciador e decisivo de suas datas temporais. Um olhar dirigido apenas para as coisas mais próximas perceberá, quando muito, um movimento dialético de altos e baixos nas configurações do poder* enquanto instituinte e mantenedor do direito. A lei dessas oscilações consiste em que todo poder mantenedor do direito, no decorrer do tempo, acaba enfraquecendo indiretamente o poder instituinte do direito representado por ele, através da opressão dos antipoderes* inimigos. (Alguns sintomas disso foram apontados ao longo desta análise.) Isso dura até que novos poderes* ou os anteriormente oprimidos vençam o poder* até então instituinte do direito, estabelecendo assim um novo direito sujeito a uma nova decadência. A ruptura dessa trajetória, que obedece a formas míticas de direito, a destituição do direito e dos poderes* dos quais depende ( como eles dependem dele), em última instância, a destituição do poder do Estado, fundamenta ma nova era histórica. Se a dominação do mito em alguns pontos já foi rompida, na atualidade, o Novo não se situa num ponto de fuga tão inconcebivelmente longínquo, que uma palavra contra o direito seja supérflua. Se a existência do pode, enquanto poder puro e imediato, é garantida, também além do direito, fica provada a possibilidade do poder revolucionário, termo pelo qual deve ser designada a mais alta manifestação do poder puro, por parte do homem. A decisão, porém, se o poder puro, num determinado caso, era real, não é possível da mesma maneira, nem igualmente urgente para o homem. Pois com certeza, apenas o poder mítico será identificado com a violência, não o poder divino, a não ser através de efeitos incomensuráveis, já que o poder que absolve da culpa é inacessível ao homem. De nono, o puro poder divino dispõe de todas as formas eternas que o mito transformou em bastardos do direito. O poder divino pode aparecer tanto na guerra verdadeira quanto no juízo divino da multidão sobre o criminoso. Deve ser rejeitado, porém, todo poder* mítico, o poder* instituinte do direito, que pode ser chamado de um poder que o homem põe (schaltende Gewalt). Igualmente vil é também o poder* mantenedor do direito, o poder* administrado (verwaltete Gewalt) que lhe serve. O poder divino, que é insígnia e chancela, jamais um meio de execução sagrada, pode ser chamado de um poder de que Deus dispõe (waltende Gewalt).

Revista Espaço Acadêmico
http://www.espacoacademico.com.br/

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O capitalismo da catástrofe

Depois do Iraque, o grande negócio da reconstrução entra em ação em Nova Orleans. Desta vez, para “purificar” a cidade de sua população negra e pobre

Mike Davis

A fúria implacável do Katrina atingiu todos os cantos, deixando na sua passagem uma devastação digna de Hiroshima
O furacão que destruiu Nova Orleans é produto de uma grande perturbação atmosférica que aconteceu no dia 23 de agosto, a 200 km das Bahamas. Mas, ao passar pelo golfo do México durante quatro dias, “a tempestade tropical Katrina” se transformou em um verdadeiro monstro. Absorvendo a vasta quantidade de energia acumulada pelas águas do golfo, extraordinariamente quentes – três graus centígrados acima do nível normal para o mês de agosto –, ela se transforma em um furacão de categoria cinco, com ventos de 290 km por hora, engendrando uma gigantesca onda de tempestade de 10 metros de altura.

A quantidade de calor concentrada pelo Katrina foi tal que, “depois de sua passagem, em certas zonas do Golfo, a temperatura caiu brutalmente passando de 30 para 26 graus” 1 . Horrorizados, os meteorologistas admitem ter raramente observado tal aumento de força em um furacão caribenho. E saber se o crescimento explosivo do Katrina é um indicador do efeito do aquecimento climático do planeta sobre a intensidade dos ciclones provoca um grande debate entre os pesquisadores.

Quando chega ao litoral, na manhã de segunda feira de 29 de agosto, em Plaquemines, na Louisiana, no delta do Mississipi, o Katrina já passara para a categoria quatro (ventos de 210 a 249 km/hora). Era apenas um pequeno consolo para os habitantes dos portos petrolíferos, pequenos povoados e vilas de pescadores francófonos que tiveram a infelicidade de estar no caminho do furacão. Em Plaquemines e ao longo de todo o litoral do Mississipi e do Alabama, a fúria implacável do Katrina atinge todos os cantos, deixando na sua passagem uma devastação digna de Hiroshima.

Proteção de papel
Os diques destruídos eram claramente insuficientes para proteger os bairros mais pobres
Inicialmente, Nova Orleans e seus 1,3 milhão de habitantes supostamente estariam protegidos. Porém, a trajetória do furacão desviou para a direita e seu centro se deslocou para 55 km à leste da cidade. Embora poupada por rajadas de vento mais violentas, a capital da Louisiana – que se encontra abaixo do nível do mar, bordejada por duas grandes lagunas de água salgada, o Lago Ponchartrain ao norte e o lago Borgne ao leste – sucumbiu à fúria das águas.

É destes dois lagos que a onda de tempestade impulsionada pelo furacão rompeu os diques claramente insuficientes – e menos elevados que os dos bairros ricos – que supostamente protegeriam os bairros majoritariamente negros e o leste da cidade e o subúrbio operário branco adjacente a Saint Bernard. Na ausência de alerta oficial, a subida das águas se transformou em uma armadilha mortal para centenas de habitantes surpreendidos quando dormiam. Próximo ao meio-dia, um dique claramente mais resistente da zona do canal da Rue 17 também cedeu.

A inundação poupou as zonas turísticas como o Vieux Carré e o Garden District e também certos bairros mais ricos como Audubon Park, construído em um plano mais alto. Mas, por todos os lados, o dilúvio chegou ao nível dos tetos, afetando ou destruindo cerca de 150 mil unidades de habitação. A cidade recebeu então o apelido de “Lago George%E

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Os cadernos inéditos de Che Guevara

Mantidas em sigilo por décadas, estão disponíveis as Notas em que ele aponta as desigualdades do socialismo real, ironiza os “calhamaços soviéticos” que “não deixam pensar” e começa a compreender a necessidade de democratizar o poder revolucionário

Michael Löwy

Pouco a pouco, Ernesto Che Guevara distanciou-se de suas ilusões iniciais sobre a URSS e o marxismo de tipo soviético. No ano de 1965, em carta ao amigo Armando Hart, então ministro da Cultura de Cuba, ele critica duramente o “continuísmo ideológico” que se manifesta na ilha com a edição dos manuais soviéticos para ensino do marxismo – um ponto de vista convergente com o defendido, na mesma época, por Fernando Martínez Heredia, Aurélio Alonso e seus amigos do Departamento de Filosofia da Universidade de Havana, editores da revista Pensamiento Critico. Esses manuais – chamados por ele de “calhamaços soviéticos” – “têm o inconveniente de não deixarem pensar: o Partido já fez isso por você e você deve digeri-lo” [1].

De forma cada vez mais explícita, percebe-se a busca de um outro modelo, de um método diferente de construção do socialismo — mais solidário, igualitário e radical.

A obra de “Che” não é um sistema fechado, um argumento acabado, com resposta para tudo. Para muitas questões — a democracia socialista, a luta contra a burocracia — sua reflexão permanece incompleta, já que foi interrompida pela morte prematura, em 1967. Mas, em relação a esse aspecto, Martínez Heredia está certo ao ressaltar: “O caráter inacabado do pensamento de Che também apresenta aspectos positivos. O grande pensador está lá presente, assinalando problemas, exigindo que seus camaradas pensem, estudem, combinem a teoria e a prática. Torna-se impossível, quando se assume realmente o seu pensamento, dogmatizá-lo e convertê-lo em um baluarte especulativo de frases e de receitas” [2].

Em um primeiro momento — 1960-1962 —, Guevara depositou muita esperança nos “países irmãos” do chamado “socialismo real”. Mas, após algumas visitas à União Soviética e aos países do Leste Europeu, e após ter vivido a experiência dos primeiros anos de transição para o socialismo em Cuba, ele se mostra cada vez mais crítico. Suas divergências são expressas publicamente em várias ocasiões, especialmente durante o célebre Discurso de Argel [3], em 1965. Mas é a partir de 1963-1964, durante o grande debate econômico realizado em Cuba, que aparecem suas tentativas de formular uma abordagem distinta do socialismo.

Um combate contra o “socialismo de mercado”
Tal debate opõe os partidários de uma espécie de “socialismo de mercado” — com autonomia das empresas e busca da rentabilidade, nos moldes soviéticos — e Guevara, que defende o planejamento centralizado, baseado em critérios sociais, políticos e éticos. Muito mais do que bonificações pelo rendimento e preços fixados pelo mercado, ele propõe que alguns bens e serviços sejam gratuitos. No entanto, há uma questão que permanece não muito clara nas intervenções de Che: quem toma as decisões econômicas fundamentais? Em outras palavras, como ele trata a questão da democracia no planejamento?

A respeito desse tema, e de vários outros, os documentos inéditos de Guevara, recentemente publicados em Cuba, oferecem novas perspectivas. Trata-se de suas Notas Críticas ao Manual de Economia Política: uma reflexão sobre o famoso texto da Academia de Ciências da URSS – um desses “calhamaços” que ele criticava na carta dirigida a Hardt. Foram redigidas durante sua estada na Tanzânia e, principalmente, em Praga, em 1965-1966. Não é um livro, nem mesmo ensaio, mas uma coleção de trechos da obra soviética, seguidos de comentários freqüentemente ácidos e irônicos [4].

Há muito tempo, esperava-se a publicação do documento. Durante décadas, esse permaneceu “fora de circulação”: no máximo foi permitido a alguns pesquisadores cubanos consultá-lo e citar certas passagens [5]. Graças a Maria Del Carmen Ariet Garcia, do Centro de Estudos Che Guevara de Havana, que o organizou, agora ele está à disposição dos leitores interessados. Essa edição ampliada contém, aliás, outros materiais inéditos: uma carta de Fidel Castro, de abril de 1965, que serve de prólogo ao livro; notas sobre os escritos de Marx e de Lênin; uma seleção de anotações das conversas de Guevara com seus colaboradores do ministério das Indústrias, em 1963-65 (já publicadas, parcialmente, na França e na Itália, na década de 1970); cartas a diversas personalidades (Paul Sweezy, Charles Bettelhein); trechos de uma entrevista ao jornal egípcio El-Taliah (abril de 1965).

A obra é, ao mesmo tempo, um testemunho da independência de espírito de Guevara, de seu distanciamento crítico em relação ao “socialismo real”, e de sua busca de uma via radical. E mostra também os limites da sua reflexão.

Visão limitada do stalinismo, crítica ácida ao bloco “socialista”
Comecemos pelos limites: Che, naquele momento (não se sabe se sua análise a esse respeito avançou em 1966-1967), não compreendeu a questão do stalinismo. Ele atribui os impasses da URSS na década de 1960 à Nova Política Econômica (NEP) [6]] pós-de Lênin! Certamente, pensa que se Lênin tivesse vivido mais tempo (“Ele cometeu o erro de morrer”, observa com humor) teria corrigido os seus efeitos mais retrógrados. Permanece convencido de que a introdução de elementos capitalistas pela NEP conduziu às tendências nefastas, indo no sentindo da restauração do capitalismo, que observava na União Soviética de 1963.

Mas nem por isso suas críticas à NEP são sem importância. Elas coincidem, às vezes, com aquelas formuladas pela oposição de esquerda da URSS, em 1925-1927. Por exemplo, quando constata que “os quadros se aliaram ao sistema, constituindo uma casta privilegiada”. Mas a hipótese histórica que torna a NEP responsável pelas tendências pró-capitalistas da URSS de Leonid Brejnev é decididamente pouco operacional. Não que Guevara ignorasse o papel nefasto de Stálin. Em uma de suas notas críticas, encontramos esta frase precisa e surpreendente: “O terrível crime histórico de Stálin” foi “o de ter desprezado a educação comunista e de ter instituído o culto ilimitado da autoridade”. Mesmo que ainda não represente uma análise do fenômeno stalinista, já é uma rejeição categórica.

Em Discurso de Argel, Che exigia dos países que se diziam socialistas que pusessem fim a sua “cumplicidade tácita com os países exploradores do Ocidente”, prática traduzida em relações de troca desiguais com os povos em luta contra o imperialismo [7]. Essa questão é retomada várias vezes nas Notas críticas ao manual soviético. Enquanto os autores dessa obra oficial elogiam “a ajuda mútua” entre países socialistas, o revolucionário argentino é obrigado a constatar que isso não corresponde à realidade: “Se o internacionalismo proletário presidisse os atos dos governos de cada país socialista, seria um sucesso. Mas o internacionalismo foi substituído pelo chauvinismo (de grande potência ou de pequeno país) ou pela submissão à URSS. Isso fere todos os sonhos honestos dos comunistas do mundo.”

Algumas páginas adiante, em comentário irônico sobre a exaltação que o manual faz à divisão do trabalho entre os países socialistas, fundada numa “colaboração fraternal”, Guevara observa: “O balaio de gatos que é o Comecon [8] desmente tal afirmação na prática. O texto se refere a um ideal que “somente poderia se estabelecer pela verdadeira prática do internacionalismo proletário, mas que está, lamentavelmente, ausente hoje em dia”. Na mesma linha, outra passagem constata (com amargura) que, nas relações entre os países que se diziam socialistas, encontram-se “fenômenos de expansionismo, troca desigual, concorrência, até certo ponto de exploração e certamente de submissão dos Estados fracos aos fortes”.

Uma tentativa de articular planejamento com democracia
Por fim, quando o manual fala sobre a “construção do comunismo” na URSS, Che comenta: “O comunismo pode ser construído em um único país?”. Uma outra observação segue o mesmo raciocínio: Lênin, observa o revolucionário, “afirmou claramente o caráter universal da revolução, coisa que a seguir foi negada” – crítica explícita ao “socialismo em um só país” [9].

A maior parte das críticas de Guevara ao manual soviético corresponde de perto aos seus escritos econômicos de 1963-1964: defesa do planejamento central contra a lei do valor e as fábricas autônomas, que funcionam segundo as regras do mercado; defesa da educação comunista contra os estímulos materiais individuais. Ele também se preocupa com o recebimento de uma parte dos benefícios pelos dirigentes das fábricas, o qual considera um princípio de corrupção.

Che defende o planejamento como eixo central do processo de construção do socialismo, porque ele “libera o ser humano de sua condição de coisa econômica”. Mas reconhece – em carta a Fidel – que em Cuba “os trabalhadores não participam da elaboração do plano”.

Quem deve planejar? O debate de 1963-1964 não havia respondido à questão. Os avanços mais interessantes que encontramos nas notas críticas de 1965-1966 são sobre tal assunto: algumas passagens apresentam de forma clara o princípio de uma democracia socialista, na qual as grandes decisões econômicas são tomadas pelo próprio povo. “As massas”, escreve Che, “devem participar da elaboração do plano, ao passo que sua execução é um assunto puramente técnico”. Na URSS, em sua opinião, a concepção do plano como “decisão econômica das massas, conscientes do seu papel” foi substituída por um placebo no qual as alavancas econômicas determinam tudo. As massas, ele insiste, “devem ter a possibilidade de dirigir seu destino, decidir quanto vai para a acumulação e quanto vai para o consumo”. A técnica econômica deve operar com esses números – decididos pelo povo – e “a consciência das massas deve garantir a sua realização”.

Reflexão sobre democracia, interrompida por morte prematura
O mesmo tema é retomado em várias ocasiões: os operários, o povo em geral, “decidirão sobre os grandes problemas do país (taxa de crescimento, acumulação/consumo)”, mesmo se o próprio plano for obra de especialistas. Essa separação, por demais mecânica, entre as decisões econômicas e sua execução é discutível, mas, por meio de tais formulações, Guevara se aproxima consideravelmente da idéia de planejamento socialista democrático. Ele ainda não extrai disso todas as conclusões políticas (democratização do poder, pluralismo político, liberdade de organização), mas não se pode negar a importância dessa nova visão da democracia econômica [10].

Tais notas podem ser consideradas uma etapa importante no caminho de Che para uma alternativa comunista/democrática ao modelo soviético. Um caminho brutalmente interrompido, em outubro de 1967, pelos assassinos bolivianos a serviço da CIA (a Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos).

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[1] Tal carta, durante muito tempo inédita, é reproduzida por Nestor Kohan em Ernesto Che Guevara. Otro mundo es posible (Buenos Aires, Nuestra America, 2003, pp.156-158).

[2] Martínez Heredia: “Che, el socialismo y el comunismo”, em Pensar el Che, Centro de Estudios sobre América (Havana, Editorial José Marti, 1989, tomo II, p. 30).

[3] Fragmentos do Discurso de Argel estão disponíveis, em espanhol e formto “pdf”, na página web do Centro de Estudos Manuel Rodríguez, do Chile

[4] Ernesto Che Guevara: Apuntes criticos a la economia politica (Havana, Ocean Press, Editorial de Ciencias Sociales, 2006).

[5] Conforme Carlos Tablada: El pensamiento economico de Ernesto Che Guevara (trinta edições desde 1987, a última pela Ruth Casa Editorial, Panamá, 2005). E também Orlando Borrego: El camino del fuego (Havana, Imagen Contemporánea, 2001).

[6] Política iniciada a partir de 1922, após o fracasso da onda estatista que se seguiu à revolução de 1917, e que ficou conhecida por “Comunismo de Guerra”. A NEP, vista por Lênin como um recuo necessário, devolveu parte dos meios de produção a seus antigos proprietários, ou permitiu que fossem administrados em moldes capitalistas. Nota de edição brasileira

[7] Ernesto Che Guevara, Obras 1957-1967. Paris: François Maspero, 1970, tomo II, p. 574.

[8] Espécie de mercado comum dos países do “socialismo real”.

[9] Em contradição com os preceitos “internacionalistas” antes defendidos por Lênin, a teoria política, defendida por Stálin, em 1924, foi adotada pelo XIV Congresso do Partido Comunista da União Soviética em dezembro de 1925.

[10] É interessante observar que, nas discussões com seus colaboradores do ministério da Indústria, publicadas no mesmo volume, várias vezes encontramos a defesa, por Guevara, do princípio da livre discussão. Dessa forma, em um debate de dezembro de 1964, ele insiste: “Não é possível destruir uma opinião pela força, isso bloqueia o livre desenvolvimento da inteligência”.

Jornal Le Monde
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Antiga escola de ditadores persiste

NEWTON CARLOS

Disposto a preservar parcela da América Latina na guerra contra o terrorismo, o Pentágono trata de evitar o fechamento de uma relíquia dos anos de chumbo, a Escola das Américas. Até 1984 ela funcionou no Panamá, de onde se deslocou para Forte Benning, nos EUA, por imposição do tratado de 1977 acabando com a ocupação americana da zona do canal.
Um deputado do clã dos Kennedy, com o nome de seu avô Joseph, assumiu o compromisso de sepultá-la e neste ano dois parlamentares, Jim McGovern e John Lewis, apresentaram emenda que significaria o seu fim, ainda não alcançado.
Há manifestações hostis diante dos portões de Forte Benning. Uma das presenças constantes é a do ator Martin Sheen, famoso em boa parte pelo papel de presidente num seriado de televisão. ONGs como a School of the Americas Watch denunciam o que significou e pode significar a escola na transição da Guerra Fria para essa nova espécie de conflito sob suspeita de aplicar métodos brutais, inclusive tortura. A má fama da SOA fez com que o Pentágono pedisse e conseguisse do Congresso, em 2002, a mudança de nome.
Agora é o Western Hemisphere Institute for Security Cooperation, ou Whinsec, a sigla em inglês cuja pronúncia, mais difícil, pode amenizar aparências. Em Washington, o Council of Hemispheric Affairs preparou um dossiê sobre origens, denúncias e constatações. A Escola das Américas foi criada em 1946, como instrumento da Guerra Fria. Não tardaram a surgir rumores de que em seus manuais havia técnicas de interrogatório que violavam direitos humanos, como tortura. Um jornal panamenho, o “La Prensa”, chamou-a de “escola de assassinos”. Um ex-presidente do Panamá, Jorge Llueca, considerou-a “a maior base de desestabilização da América Latina”. O apelido mais comum ficou sendo o de “escola de ditadores”. Mas não faltaram outros com apêndices de brutalidade, como “enfermaria de esquadrões da morte”.
Em seus 59 anos, a ex-SOA treinou mais de 60 mil militares latino-americanos em práticas de contra-insurgência. No ano passado foram 670, a grande maioria da Colômbia, o que configura a transição para a guerra contra o terrorismo. Vários ex-ditadores latino-americanos, como o chileno Augusto Pinochet, foram treinados lá. Um de seus ex-alunos mais notórios foi o major Roberto D’Aubuisson, assassino do arcebispo Oscar Romero, de El Salvador. As impressões digitais da ex-SOA ficaram no massacre de El Mozote (900 homens, mulheres e crianças) e no esquadrão da morte do general hondurenho Humberto Regalado. Também há rumores de que os manuais tinham técnicas de gole de de Estado.
O Pentágono enfrenta dificuldades em incorporar militarmente a América Latina na guerra contra o terror. Uma das peças-chave, a base de Manta, no Equador, está sob ameaça de fechamento em 2009, quando expira a concessão. O novo presidente equatoriano, um populista de esquerda, já disse que não vai renová-la. Tampouco andam bem as manobras navais conjuntas Unitas. Mas o Whinsec continua de pé.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

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