Arquivo de 11 de Novembro de 2007

O papel da ilusão em nossa vida

As ilusões, dizia-me o meu amigo, talvez sejam em tão grande número quanto as relações dos homens entre si ou entre os homens e as coisas. E, quando a ilusão desaparece, ou seja, quando vemos o ser ou o facto tal como existe fora de nós, experimentamos um sentimento bizarro, metade dele complicada pela lástima da fantasia desaparecida, metade pela surpresa agradável diante da novidade, diante do fato real


Charles Baudelaire

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O apedrejamento jornalístico

Gabriel Perissé

Agora é tarde. As pedras já foram lançadas contra Júlio Lancellotti. Aqueles que por algum motivo discordam de sua maneira de ver e atuar estão secretamente felizes. Ou não tão secretamente. Aqueles que praticam o jornalismo do escancaramento, com ou sem evidências, já cumpriram sua missão.

Hermano Freitas, por exemplo, utilizando locuções verbais para exprimir fatos acontecidos (ou não?) em época passada, escreveu: “ex-interno da Febem, Batista teria conhecido e iniciado um relacionamento amoroso com o padre na instituição, onde foi internado aos 16 anos por roubo.” (Folha Online, 27/10/2007). A expressão “relacionamento amoroso” é o que interessa, sobretudo num momento em que casos registrados de pedofilia dentro da Igreja católica criaram e difundiram a sensação de que o mais provável é que se repitam sempre e em todo lugar.

O recurso das aspas funciona como pretexto para reproduzir a fala irresponsável de quem quer que seja sobre o que for. Na mesma matéria de Hermano Freitas, lemos, com as aspas indicando (heróica objetividade…) as palavras de um outro: “‘Eles chegaram a ter relações sexuais dentro da igreja’, disse o advogado de Batista. […] O advogado afirma que o valor dos bens recebidos por seu cliente foi de ‘quase 700 mil reais’ e que o relacionamento entre o padre e ex-detento acabou após Batista ter se casado, em outubro de 2006. Ainda de acordo com ele, o sacerdote mantinha relações sexuais com outros meninos.”

Michael Jackson da Mooca

Diogo Mainardi, na Revista Veja (ed. 2031), adota outro expediente. O da pseudo-insinuação. Chamar o padre de “Michael Jackson da Mooca” é colocá-lo no banco dos réus por antecipação, e reduzir a figura do sacerdote à imagem de um astro pop tupiniquim.

Na Record, o programa “Fala que eu te escuto” emitiu seu veredicto. O problema de Júlio Lancellotti é o celibato. Se não houvesse celibato obrigatório para os padres, esses casos deixariam de existir. Não é bem uma pergunta, ou uma enquete… É condenação mesmo.

No dia 3 de novembro, divulgou-se na mídia o “desabafo público” de Padre Lancellotti, depois das pedradas: “aquelas coisas todas, que foram ditas e colocadas nas manchetes dos jornais e dos noticiários, não aconteceram.”

A mídia não sente culpa. Ninguém admitirá que atirou a primeira, a segunda, todas as pedras.

E sempre há uma chance de, antes do Natal, aplicar o golpe de misericórdia…

Observatório da Imprensa
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/index.asp

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92% dos alemães orientais preferem o comunismo no país

Para marcar a data da queda do Muro de Berlim, o Der Spiegel fez uma pesquisa, divulgada neste sábado (10), com mil alemães que cresceram nos dois lados do país dividido até 9 de novembro de 1989. A conclusão, para desespero do semanário alemão, é que, mesmo depois de 18 anos da queda do muro, 92% dos germânicos orientais, de 35 a 50 anos, ainda preferem o regime comunista ao capitalista. Já 60% dos jovens, de 14 a 24 anos que moram no Leste, lamentam que nada tenha restado do comunismo na sua pátria.

Por Carla Santos

Junto com a TNS Forschung, o Spiegel fez a pesquisa com duas gerações distintas de alemães orientais e ocidentais com o objetivo de obter um retrato dos resultados da unificação na psique nacional. A conclusão é que o muro ideológico ainda permanece nas mentes alemãs, quase duas décadas após a reunificação.

Foram entrevistadas 500 jovens na faixa etária de 14 a 24 anos e seus 500 pais na faixa de 35 a 50 anos. A primeira, tinha no máximo seis anos quando o muro caiu e, evidentemente, possui uma experiência temporal menor do período em que o país estava dividido pela Guerra Fria.

Já a segunda geração tinha pelo menos 17 anos, e no máximo 32, quando ocorreu a debacle do muro. O método da pesquisa constatou que praticamente não há diferenças entre as gerações mais jovens e mais velhas na sua forma de pensar a reunificação.

Socialismo, uma boa idéia

As maiores diferenças na pesquisa aparecem quando os entrevistados orientais e ocidentais compartilham suas opiniões sobre a vida na antiga Alemanha Oriental. O Estado comunista recebe notas muito mais altas dos que moram no Leste com relação aos que moram no Oeste.

Dos alemães orientais de 35 a 50 anos, 92% acreditam que um dos maiores atributos da antiga Alemanha Oriental foi sua rede de segurança social; 47% dos jovens no Leste também pensam assim. No item ‘’padrão de vida'’, os jovens do Leste avaliam a Alemanha comunista de maneira ainda mais positiva que seus país.

Por outro lado, apenas 26% dos jovens ocidentais e 48% dos seus pais expressaram a opinião que a Alemanha Oriental tinha um sistema mais forte de bem estar social comparado com o de hoje.

Os alemães orientais também estão menos satisfeitos e menos otimistas com sua situação do que os que vivem nos Estados que compunham a antiga Alemanha Ocidental. Eles estão muito menos convencidos das virtudes do capitalismo do que seus colegas ocidentais. Muitos acreditam que o socialismo é uma boa idéia que simplesmente não foi bem implementada no passado.

Contudo, apesar da nostalgia pela Alemanha Oriental, a maior parte dos alemães orientais diz que preferiria morar no Oeste, caso um novo Muro de Berlim fosse construído hoje. O que não é de todo contraditório, já que durante a Guerra Fria, com o apoio de todo tipo dos EUA ao Oeste, e também todo tipo de boicote ao Leste, a Alemanha Ocidental oferecia muito mais riqueza, ainda que com alguma desigualdade, do que a Oriental.

Identidades diferentes

Os dados da pesquisa revelam que as diferenças ideológicas se refletem na identidade de cada grupo, já que 67% dos jovens alemães, e 82% de seus pais, orientais e ocidentais não sentem que possuem as mesmas identidades.

Quanto tempo, entretanto, levará para a Alemanha se unificar ideologicamente? Para 25% dos jovens alemães ocidentais, e só 5% dos orientais, ‘’não levará mais do que cinco outros anos'’. Apenas 12% e 4%, respectivamente, de pais concordaram com os filhos.

Muitos jovens alemães orientais vêem a Alemanha de hoje como um lugar onde seus pais têm dificuldades para encontrar um caminho. Apesar da geração mais nova praticamente não ter vivenciado a vida sob o socialismo, o compartilhar das lembranças, opiniões e histórias de seus pais naturalmente os influênciam.

Jovens pensam como seus pais

Esta talvez seja a explicação - que os comentários do Spieguel tentam manipular a favor do Oeste - para que os jovens alemães do Leste vejam a antiga Alemanha Oriental sob uma luz mais otimista do que seus compatriotas no Oeste, e vice-versa.

‘’É uma opinião [as dos jovens da Alemanha Oriental] de lentes cor-de-rosa, que vê uma Alemanha Oriental com emprego para todos, creches para todas as crianças e um sistema de bem estar social que acompanhava o cidadão do berço ao túmulo. É claro, essa geração não foi exposta aos aspectos negativos da vida sob o domínio comunista - como filas de comida e repressão da polícia'’, argumenta o Spiguel.

Porém, a pesquisa indica que o mesmo argumento de ‘’lentes cor-de-rosa'’ para desqualificar a opinião dos jovens do Leste, sobre a Alemanha Oriental, também serve aos jovens do Oeste, com relação a Alemanha Ocidental, com pelo menos um ponto de vantagem para os primeiros. Quem viveu a Alemanha comunista agora está vivendo a capitalista, enquanto que o inverso não foi possível.

Tiro no pé

Como toda manipulação não se sustenta por muito tempo, o próprio Spiguel é obrigado a admitir a realidade, um verdadeiro tiro no pé, no último parágrafo da matéria que noticiou a pesquisa neste sábado.

‘’Ainda assim, os sentimentos positivos para certos aspectos da antiga Alemanha Oriental continuam altos. Dos jovens alemães orientais entrevistados, 60% disseram que achavam ruim que nada tivesse restado das coisas que se podiam orgulhar da Alemanha Oriental'’.

Os resultados da pesquisa fazem lembrar o seriado alemão que - devido ao imenso sucesso no país - virou filme lançado em 2003, chamado Adeus, Lênin!, do diretor alemão Wolfgang Becker.

‘’Adeus, Lênin!'’

No longa, Christiane Becker (Kathrin Sa), que mora na então Alemanha comunista, é abandonada pelo marido, tendo que criar seus dois filhos, Alexander (Daniel Brühl) e Ariane (Maria Simon), sozinha.

Uma vez recuperada do trauma da separação, Christiane torna-se uma cidadã ativa e exemplar, transformando o país em um substituto de seu marido, abraçando assim, o ideal comunista.

Mas ao ver Alexander participando de uma revolta anti-socialista, ela fica gravemente doente e acaba entrando num longo coma que a faz dormir durante a queda do Muro de Berlim e a adaptação ao capitalismo de sua Alemanha Oriental.

Ela acorda do coma, mas frágil demais para se deparar com o choque das mudanças do mundo ao seu redor. Comovido, Alexander precisa forjar a vitória da ideologia do comunismo e sapatear para criar a ilusão na mãe de que nada mudou.

Socialismo vivo

Quatro anos após o lançamento do filme, que teve como pano de fundo o dilema da reunificação sob a égide capitalita com o fim da Guerra Fria, a pesquisa reafirma que o ideal comunista não morrerá tão cedo nos corações dos alemães que viveram as primeiras experiências mais duradouras do regime no mundo.

A manifestação com 50 mil pessoas pessoas em Moscou (Rússia), no último dia 7 de novembro, por ocasião das comemorações dos 90 anos da Revolução Russa, é apenas mais uma fotagrafia do quanto por lá esse sentimento continua extremamente vivo.

Site Vermelho

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ORDEM Nº 2 AO EXÉRCITO DAS ARTES

A vós
- barítonos redondos -
cuja voz
desde Adão até a nossa era

nos atros buracos chamados teatros
estronda o ribombo lírico de árias.

A vós
- pintores -
cavalos cevados,

rumino-relinchante galardão eslavo,
no fundo dos estúdios, cediços como dragos,
pintando anatomias e quadros de flores.

A vós
rugas na testa entre fólios de mística

- micro-futurista,
- imagista,
- acméistas-
emaranhados no aranhol das rimas.

A vós -

descabelando cabelos bem-penteados,
barganhando escarpins por solados,
vates do Proletcult,
remendões do fraque velho de Púchkin.

A vós -

bailadores, sopradores de flauta,
amolecendo às claras
ou em furtivas faltas,
e figurando o futuro nos termos
de um imenso quinhão acadêmico.
A vós todos

eu -
que acabei com berloques e dou duro na Rosta -
gênio ou não gênio, tenho
a dizer: basta!
Abaixo com isso,
antes que vos abata o coice dos fuzis.

Basta!
Abaixo,
cuspi
no rimário,
nas árias,

nos róseos açafates
e mais minincolias
do arsenal das artes.
Quem se interessa
por ninharias
como estas: “Ah pobre coitado!

Quanto amou sem ter sido amado…?
Artífices,
é o que o tempo exige,
e não sermonistas de juba.
Ouvi
o gemido das locomotivas,

que lufa das frinchas, do chão:
“Dai-nos, companheiros,
carvão do Don!
ao depósito, vamos,
serralheiros,
mecânicos!”

À nascente dos rios,
deitados com furos nas costas,
- Petróleo de Baku! - pedem navios
uivando nas docas.

Perdidos em disputas monótonas,

buscamos o sentido secreto,
quando um clamor sacode os objetivos:
“Dai-nos novas formas!”

Não há mais tolos boquiabertos,
esperando a palavra do “mestre”.

“Dai-nos, camaradas, uma arte nova
- nova -
que arranque a republica da escória.

Vladimir Maiakóvski
(Tradução de Haroldo de Campos)

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A crise financeira – um esboço

Gabriel Kolko

A crise financeira global que agora se desdobra era previsível e foi prevista. Ela poderia ter acontecido antes de o colapso das hipotecas subprime nos Estados Unidos tê-la desencadeado, mas é importante sublinhar que era aguardada. “Um acidente à espera de acontecer”, como disse Alan Greenspan, antigo presidente do Federal Reserve. E agora está a apossar-se de bancos, casas de investimento, hedge funds e especuladores – alguns estão apenas a perder enormes somas de dinheiro, outros estão indo para a bancarrota ou estão escalados para a venda a saldo. Onde e como esta crise termina é absolutamente imprevisível, mas ela já é muito séria.

O Fundo Monetário Internacional (FMI), o Bank for International Settlements, a British Financial Services Authorityh, o Financial Times, e inúmeros comentadores dos media “de referência” estão cada vez mais preocupados e advertiram publicamente contra muitas das inovações financeiras que agora implodiram. Warren Buffett, um dos homens mais ricos do mundo, no ano passado denominou os créditos derivativos – apenas uma das muitas novas invenções bancárias – “armas financeiras de destruição maciça”. Instituições e pessoas muito conservadoras previram a reviravolta nas finanças globais que estamos hoje a experimentar.

O FMI tomou a liderança na crítica à nova estrutura financeira internacional, e ao longo dos últimos três anos tem publicado com pormenores as numerosas razões porque ela se tornou tão perigosa para a estabilidade económica do mundo. Os acontecimentos confirmaram o seu prognóstico de que a complexidade e a falta de transparência, a obscuridade dos riscos e a incerteza universal, especialmente quanto à dívida colaterizada e obrigações de empréstimos, provocarão uma fuga para a segurança que secará grande parte da liquidez da banca. “…a própria inovação financeira”, como disse um colunista do Financial Times, “é o problema”. O sistema ultra-criativo está a ficar emperrado porque ninguém entende onde estão localizados os riscos ou como funciona. começou a paralizar este Verão e o seu conserto é cada vez mais improvável.

Ninguém pode medir a extensão das perdas porque não há qualquer acordo sobre o valor destas numerosas inovações. A maior parte dos jogadores que têm interesses nos incontáveis instrumentos de investimento esotéricos são absolutamente ignorantes. Mas as quantias são enormes.

Apenas umas poucas das muitas grandes derrocadas financeiras dão-nos uma estimativa grosseira.

A presente crise começou – mas dificilmente aí terminou – com empréstimos hipotercários subprime nos EUA, os quais foram avaliados em mais de US$1,3 milhão de milhões (10 12 ) mas que, para finalidades práticas, hoje valem menos, muito menos. Podemos ignorar o impacto desta crise sobre os preços da habitação nos EUA, mas algumas projecções são de um declínio de dez por cento – mais uns dois milhões de milhões pouco mais ou menos. Indirectamente, naturalmente, a crise hipotecária também trouxe muitos milhões de pessoas por todos os EUA e cada vez na Europa para dentro de um mais complexo e mais vasto mundo financeiro. Muitos sairão seriamente feridos.

O que o mercado subprime fez foi desencadear um turbilhão muito maior envolvendo bancos na Inglaterra, Alemanha, França, Ásia e por todo o mundo, pondo em causa grande parte do sistema financeiro global tal como ele se desenvolveu ao longo da última década.

Os bancos de investimento possuem cerca de 500 mil milhões em dívidas equity privadas que planeavam colocar – sobretudo em compras alavancadas (leveraged buy-outs). Eles agora são forçados a vende-las com descontos ou a mantê-las nos seus balanços – em qualquer dos casos perderão.

A quase falência do banco alemão Sachsen LB, o qual teve de ser salvo da bancarrota com um crédito 17,3 mil milhões de euros, revelou que os bancos europeus possuem mais 500 mil milhões de dólares nos chamados activos apoiados por papel comercial, grande parte dos quais nos EUA em hipotecas subprime. O Northern Rock britânico, o qual em meados de Setembro viu os depositantes retiraram dois mil milhões de libras em poucos dias e forçou-o à bancarrota virtual, é apenas outro de muitos exemplos. Um fracasso na América também levou a Europa a enfrentar uma crise. O problema não está isolado.

A vítima principal desta reviravolta são os hedge funds. O que são hedge funds? Existem cerca de 10 mil e, todos dizem, eles fazem de tudo. Alguns hedge funds, no entanto, fornecem capital a companhias e competem com êxito com bancos comerciais porque assumem riscos muito maiores. Uma proporção substancial é de simples jogadores; alguns apostam até mesmo nas previsões do tempo. Muitos olham para os seus computadores e a matemática dos modelos para guiar os seus investimentos, e estes perderam a maior parte do dinheiro, mas fundos baseados em outras estratégias também perderam durante o mês de Agosto. O fracasso espectacular do Long-Term Capital Management em 1998 também se deveu à sua confiança em engenhosas proposições matemáticas, mas ninguém aprendeu quaisquer lições disto, o que prova que os apelos à razão e a experiência caem em orelhas moucas se houver dinheiro a fazer.

Alguns ganharam durante a crise de Agosto mas muitos mais perderam e, no conjunto, os hedge funds perderam um grande negócio – seu fascínio pela riqueza rápida foi-se. Houve entre eles algumas bancarrotas e salvações (bailouts) espectaculares, incluindo algumas das maiores firmas de investimento. Investidores que ficaram os pés frios descobriram que a retirada de dinheiro dos hedge funds estava próximo do impossível. O valor real dos seus haveres é raivosamente contestado e a avaliações variam desenfreadamente. Na realidade, não qualquer meio de avaliá-las com realismo – todas elas dependem amplamente daquilo que as pessoas querem acreditar e comprarão, ou do mercado.

Estamos no fim de uma era, a atravessar o pior pânico financeiro em muitas décadas. Agora principia a instabilidade financeira. Na opinião de muitos observadores informados, especialmente, o Financial Times, todo o sistema financeiro e o modo como opera terá de ser reconstruído – radicalmente – e é improvável que isto ocorra. É impossível especular sobre até quando perdurará a confusão – mas agora existe uma incerteza e falta de confiança sem paralelo desde a década de 1930 – e esta ignorância e medo é em si própria um factor crucial. O que é muito claro é que as perdas são maciças e todo o mundo desenvolvido agora está a experimentar a pior crise económica desde 1945, uma crise em que as perturbações num país combinam-se com as de outros.

Todos os bancos centrais estão dilacerados por dilemas. Eles não têm nem os recursos nem o conhecimento, incluindo poderes legais, para remediar o presente turbilhão. Embora haja um clamor de financeiros e operadores variados para que lhes prestem ajuda, o Federal Reserve também deve ponderar as consequências dos seus movimentos, acima de tudo a inflação. E depois há a questão dos “riscos morais”. Será da responsabilidade do Federal reserve salvar aventureiros financeiros das suas próprias loucuras? O seu dilema é que se eles não tentarem salvar estes especuladores politicamente poderosos todo o sistema financeiro pode capotar, e assim eles sido cada vez mais forçados a tentar caucioná-los – portanto a possibilitar-lhes que sobrevivam e no futuro ponham em perigo todo o sistema.

Durante o mês de Agosto os bancos centrais americano e europeu despejaram cerca de 500 mil milhões de dólares no sistema bancário numa tentativa de descongelar os créditos e empréstimos bloqueados que se seguiram à crise subprime – um evento que disparou uma “fuga para a segurança” a qual reduziu muito a disposição dos bancos para conceder empréstimos. Com efeito, o Federal Reserve confiou nos bancos para restaurar a confiança no sistema financeiro, subsidiando os seus esforços.

Só muito parcialmente tiveram êxito os esforços dos bancos centrais mas, no conjunto, eles fracassaram: bancos e investidores agora procuram segurança ao invés de risco, e eles sentarão sobre o seu dinheiro. O Federal Reserve reconhece em privado a sua incapacidade para estar à altura de uma estrutura financeira desordenadamente complexa. Os banqueiros centrais europeus enfrentam exactamente o mesmo dilema: eles simplesmente não sabem o que fazer.

Mas isto mal toca o problema real, o qual é estrutural e choca-se totalmente com o modo como a estrutura do mundo financeiro evoluiu ao longo das últimas duas décadas. Tal como no passado, há uma brecha crítica no mundo da banca e da finança e cada um tem influência política bem como choques de interesses. Ainda mais importante, os bancos centrais não foram concebidos para enfrentar as realidades de hoje e não têm nem poderes legais nem conhecimento para controlá-las.

Neste contexto, os bancos centrais terão problemas crescentes e as soluções que propõem, como no passado, serão absolutamente inadequadas, não porque as suas intenções sejam erradas mas porque é impossível regular uma economia complexa tão vasta – ainda menos hoje do que no passado porque não há mecanismo internacional para assim fazer. A internacionalização das finanças significou menos regulação do que nunca, e a regulação era muito pouco efectiva mesmo a nível nacional.

O sistema financeira global agora está fora de controle. A cobiça é desenfreada. As instituições internacionais existentes não podem mudar esta realidade. Estamos à beira de uma crise séria – se não for agora, será no futuro próximo.

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Iraque, com apoio americano, anula contrato de petróleo russo

Andrew E. Kramer

Orientado por consultores legais americanos, o governo iraquiano anulou um controverso contrato com a companhia russa Lukoil para o desenvolvimento de um vasto campo de petróleo no deserto sul do Iraque, o que o deixa aberto a investimento internacional potencial no futuro.

Em resposta, as autoridades russas ameaçaram revogar um acordo de 2004, sob o Clube de Paris dos países credores, para perdão de US$ 13 bilhões da dívida iraquiana, disse um alto funcionário iraquiano.

O campo, Qurna Ocidental, possui reservas estimadas de 11 bilhões de barris, o equivalente às reservas de petróleo mundiais comprovadas da Exxon Mobil, a maior companhia de petróleo americana. Hussain Al Shahristani, o ministro do petróleo iraquiano, disse em uma entrevista que o campo passaria por novo leilão, talvez no início do próximo ano.

O contrato, que foi assinado e posteriormente cancelado pelo governo de Saddam Hussein, estava em um limbo legal desde a invasão americana. Mas o Kremlin permanecia esperançoso de que poderia ser salvo até setembro deste ano, quando Al Shahristani viajou para Moscou para informar as autoridades que a decisão de cancelamento era final. O governo russo, recém-fortalecido em assuntos internacionais devido à sua crescente riqueza de petróleo, ainda apóia a posição da Lukoil e está protestando pelo que considera um cumprimento seletivo dos contratos no Iraque.

“Nós defenderemos nossos interesses”, disse Dmitri S. Peskov, o porta-voz do Kremlin, em uma entrevista por telefone. “É a obrigação do governo defender os interesses de nossas empresas em países estrangeiros.”

Uma autoridade iraquiana, falando sob a condição de anonimato por estar discutindo conversas diplomáticas confidenciais, descreveu a resposta da Rússia como: “Se fecharem o negócio, nós podemos reunir a força política para perdoar a dívida”.

Qurna Ocidental, mapeado por geólogos soviéticos nos anos 80 mas praticamente inexplorado, é um dos cerca de uma dúzia de campos de petróleo supergigantes do mundo. Eles são conhecidos no setor como ‘elefantes’, campos tão grandes que podem fazer a fortuna de empresas ou países.

O campo produzirá 1 milhão de barris de petróleo por dia depois de quatro a cinco anos de desenvolvimento, segundo tanto as autoridades de petróleo iraquianas quanto a Lukoil; isto equivale aproximadamente à produção atual de North Slope, no Alasca (EUA).

Uma possível evidência do interesse americano
No acordo de co-produção de 1997 com a Lukoil, o governo Saddam concedeu à empresa direitos de desenvolvimento de 11 bilhões de barris de petróleo por um magro bônus de assinatura de US$ 10 milhões. O acordo, concluído quando o Iraque buscava o apoio russo no esforço fracassado de suspender as sanções da ONU, destinava 9,6% da produção para a Lukoil.

O contrato representava um dilema para os Estados Unidos, que foram acusados por alguns críticos de invadirem o Iraque por causa de seu petróleo. Há pouca evidência até o momento de que o esforço de guerra tenha dado às companhias de petróleo americanas uma vantagem em relação às reservas do Iraque, e o acordo com a Lukoil é o único envolvendo uma grande companhia de petróleo que foi anulado desde o início da guerra.

Mas como base de sua política externa, os Estados Unidos defendem vigorosamente que os países honrem seus contratos de petróleo. Diante disto, o apoio à anulação do contrato da Lukoil poderia ser visto por alguns como evidência de dois pesos e duas medidas.

“Do ponto de vista do governo russo, o Iraque é visto como um país ocupado e sua administração dirigida por Washington, particularmente quando se trata de petróleo”, disse Vladimir I. Tikhomirov, economista chefe do banco russo UralSib, em uma entrevista por telefone.

“Os russos consideram a anulação de seu contrato no Iraque como parte do esforço americano para manter o controle sobre a maioria dos campos de petróleo de lá”, ele disse.

O presidente russo, Vladimir V. Putin, abordou o assunto várias vezes com o presidente Bush desde a invasão de 2003. Em uma entrevista para a BBC em junho de 2003, Putin disse que Bush chegou a oferecer garantias.

“Em nosso último encontro”, disse Putin, “Bush disse de forma clara e
direta: ‘Nós não temos nenhuma meta de pressionar empresas russas a deixaram o Iraque e estamos prontos para criar as condições para trabalharmos juntos lá’. Eu não tenho motivos para não acreditar nele”.

A legalidade do contrato da Lukoil permanece nebulosa. É política declarada do Iraque, como estabelecido pela lei de petróleo esboçada que atualmente tramita no Parlamento, honrar os contratos assinados pelo governo Saddam. O país faz isto com os contratos com companhias de petróleo chinesas, vietnamitas, indonésias e indianas.

Mas os iraquianos notam que foi o governo Saddam que cancelou o contrato com a Lukoil. O porta-voz do governo, Tariq Aziz, disse na época que o governo acreditava que os russos estavam negociando com os americanos o cumprimento do contrato em caso de uma invasão.

Nos primórdios da ocupação americana, a questão surgiu sobre se a decisão do governo de Saddam era válida, disse Michael Stinson, o ex-conselheiro-chefe do Ministério do Petróleo iraquiano. A resposta foi fornecida pelo principal consultor legal americano no ministério na época, Robert Maguire, que Stinson disse que na época trabalhava para o Departamento de Defesa. Maguire se apoiou na lei da era pré-Saddam para justificar a anulação, disse Stinson.

The New York Times
http://www.nytimes.com/

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Múltiplas inteligências

Para o psicólogo americano Howard Gardner, criador da teoria das habilidades múltiplas, a predisposição genética e as experiências vividas na infância podem favorecer nossos “computadores mentais”. Em sua opinião, é mais importante estimular do que medir os recursos mentais

Daniele Fanelli

O ser humano tem muitos tipos de inteligência. A hipótese do psicólogo Howard Gardner, formulada em 1982, o tornou conhecido mundialmente. Passados 25 anos, ele sustenta haver, além das reconhecidas habilidades lingüística e lógico-matemática, outras seis formas de inteligência: espacial (mais presente em navegantes e engenheiros); corporal-cinestésica (desenvolvida em atletas ou dançarinos); interpessoal (representada pela capacidade de compreensão dos sentimentos do outro); intrapessoal (expressa pelo autoconhecimento); naturalística (referente à relação da pessoa com a natureza) e musical. Professor da Universidade Harvard, Gardner é considerado um dos “demolidores” do conceito de quociente de inteligência (QI). Suas teorias, entretanto, têm pequena aceitação entre neurobiólogos. Resenha publicada recentemente na revista Educational Psychologist menciona a insuficiência de comprovação empírica. A possibilidade de medir a inteligência pela aplicação de testes simples parece ser um critério para validação das hipóteses.

Artigo publicado em 2004 pela revista Nature Neuroscience relacionava o desenvolvimento de competências a fatores socioeconômicos e a aspectos biológicos como dimensões do cérebro, duração da memória de curto prazo, velocidade de transmissão sináptica e metabolismo neuronal. No mesmo ano foi observada correlação entre o QI de bebês e a velocidade de crescimento do córtex cerebral. Tais descobertas não parecem perturbar o prolífico Gardner, que tem sua teoria aplicada com eficácia em escolas de todo o mundo. Nesta entrevista, ele declara-se mais interessado em estimular virtudes e talentos humanos do que em medi-los.

Mente&Cérebro: O senhor poderia resumir sua teoria da inteligência múltipla?
Howard Gardner: A visão tradicional a respeito da inteligência, que prevalece há centenas de anos, sustenta que em nosso cérebro existe um único computador, de capacidade muito geral. Quando funciona bem, a pessoa é inteligente e capaz de destacar-se em qualquer atividade. Se o desempenho for apenas razoável, o portador consegue resultado satisfatório em diversas circunstâncias. Mas se funcionar mal, o dono desse equipamento é um tolo, incapaz de estabelecer relações coe-rentes. Discordo disso tudo. Creio que a relação cérebro-mente pode ser descrita como um conjunto de oito ou nove sistemas distintos de elaborações fundamentais. Um deles pode atuar muito bem enquanto outro apresenta rendimento mediano e um terceiro funciona mal.

Qualquer observador admitiria que na patologia há fenômenos que sustentam minha hipótese. Existem pessoas dotadas de grande talento artístico ou com habilidade para números e xadrez que, no entanto, são incapazes de compreender os outros e manter relacionamentos. A medicina oficial as considera casos patológicos, mas eu sustento que esses fenômenos são normais.

M&C: Vejamos um exemplo: como o senhor avalia a sua mente?
Gardner: Com base na teoria da inteligência múltipla eu sou, certamente, do tipo lingüístico-musical. Minha lógica é boa, mas jamais fará de mim um matemático. Fisicamente não sou nada especial e sou medíocre na inteligência espacial, mas me viro bem com um mapa. A inteligência interpessoal, diferentemente de outras, pode ser melhorada. Assim, espero continuar aprimorando minha capacidade de compreender outros.

M&C:Uma das principais objeções à sua teoria é a impossibilidade de medir as oito formas de inteligência.
Gardner: Se eu estivesse de fora observando meu trabalho, é provável que dissesse a mesma coisa. Trata-se de uma crítica bem razoável. Mas estou certo de que, se minhas idéias forem um dia levadas a sério, algum pesquisador desenvolverá instrumentos capazes de medir as várias inteligências. Mas para mim isso jamais foi uma prioridade. Não me dediquei ao tema. Robert J. Sternberg [pai da teoria “triárquica”, segundo a qual a inteligência se manifesta em três modalidades distintas: analítica, criativa e prática] tentou fazê-lo no âmbito de sua pesquisa, mas os resultados não me pareceram muito convincentes. Posso deduzir que ou suas teorias são equivocadas, ou medir as diversas inteligências humanas é tarefa mais complicada do que parece.

M&C: Mas a psicometria clássica faz medições. As pontuações que a pessoa obtém nos diversos testes verbais e lógicos estão correlacionadas, o que sugere a existência de uma inteligência “geral”. O QI está vinculado a diversos parâmetros biológicos. O que o senhor pensa sobre isso?
Gardner: Levo a sério essa questão e, se tivesse de reescrever meu livro sobre a inteligência múltipla, trataria mais do tema. Mas há fenômenos que esses estudos não explicam, em particular as razões que nos tornam tão diferentes uns dos outros. Um cientista pode passar a vida tentando acumular provas da existência de uma inteligência geral, mostrando como esta se correlaciona a este ou aquele fator; ou pode tentar explicar por que as pessoas têm habilidades tão diversas, quais as causas dessas diferenças e a que servem.

M&C: Mas as duas coisas não se contradizem. Podemos fazer uma analogia com os músculos do corpo, que se desenvolvem de forma desigual em cada pessoa. Isso não impede que algumas pessoas possuam – graças à combinação de genes, alimentação e exercícios físicos – estrutura muscular bem mais desenvolvida e potente que outras. Nem todos podem se tornar um Schwarzenegger. O que vale para os músculos não poderia valer para os neurônios?
Gardner: Tenho a mente aberta em relação à questão. Caso eu viva mais 30 ou 40 anos e a ciência identifique uma propriedade biológica fundamental – por exemplo, a velocidade de transmissão nervosa ou a plasticidade das conexões entre os neurônios – que explique uma parte maior ou menor das diferenças de inteligência, estarei pronto a rever meu pensamento.

Mas isso não esclarece as razões para alguém ser mais capaz em certos setores que em outros. A resposta pode ser simplesmente que a vida humana não é infinita, e, portanto, não podemos ser excelentes em tudo. Penso que a explicação mais plausível esteja na predisposição genética e nas experiências infantis capazes de “estimular” e potencializar um dos computadores mentais de que dispomos. Um gênio poliédrico como Leonardo da Vinci é exceção, e não regra. E devemos explicar ainda a origem das diferenças nos perfis e talentos.

M&C: O senhor usa os termos “inteligência” e “talento” como sinônimos. Mas, para a maioria das pessoas, esses termos se referem a conceitos bem distintos.
Gardner: De fato. Mas, ao privilegiar o termo “inteligências” em vez de “talentos” ou “habilidades”, fiz um movimento retórico importante. Todos reconhecem a existência de diferentes talentos e habilidades humanas, e provavelmente eu não estaria aqui sendo entrevistado se tivesse usado essas palavras em vez de “inteligências”.

M&C: O que o senhor entende por inteligência?
Gardner: O ponto é que a definição de inteligência não é óbvia. Trata-se de algo debatido por estudiosos e leigos. Segundo minha análise, os pesquisadores orientados pela cultura escolástica se concentraram nas habilidades verbais e lógicas, denominando as “inteligência”. É uma questão de retórica e lingüística. Não é “a” resposta correta. As pessoas com bom desempenho em línguas e lógica são, em geral, bons alunos, e nós as classificamos inteligentes. Nada tenho contra isso, desde que se fale em “inteligência escolástica”. Se, porém, sairmos da escola e estudarmos a inteligência de arquitetos, bailarinos ou comerciantes, descobriremos que podem ser excelentes naquilo que fazem, independentemente do desempenho escolar. Se os homens de negócio tivessem inventado o QI, a avaliação mediria, provavelmente, atitude em relação a risco, iniciativa e capacidade de vender. Nenhuma dessas coisas é medida pelos testes clássicos de inteligência.

M&C: Mas isso não ameaça relativizar o conceito de inteligência, esvaziando-o de seu significado intuitivo e científico?
Gardner: A ciência não deve, necessariamente, reforçar o senso comum, muitas vezes equivocado. Minhas pesquisas, além disso, atingem o campo das ciências sociais, diferentes da física ou da biologia, justamente porque devem sempre elucidar os próprios conceitos, propondo definições novas e mais adequadas. O filósofo Bertrand Russell disse certa vez que as idéias de todos os grandes pensadores podem ser resumidas em uma ou duas frases: o que os torna notáveis é a estrutura argumentativa que criaram para sustentar as afirmações e defendê-las das críticas. Se eu transmitir às pessoas apenas o conceito de que, além da escolástica, existem outras formas de inteligência, já será um enorme progresso. Creio que já alcancei algo nesse sentido. Mas Daniel Goleman conseguiu ainda mais, pois seu conceito de “inteligência emocional” tem apelo intuitivo, aludindo às experiências do cotidiano, sobretudo no mundo do trabalho. O gerente de uma empresa pode ter a mente perfeitamente organizada e revelar-se um desastre para motivar funcionários. A diferença entre nossas pesquisas é que estabeleci oito critérios a serem atendidos por uma suposta inteligência.

M&C: Há poucos anos o senhor identificou a existência de uma oitava inteligência, a naturalística. Pensa em acrescentar outras?
Gardner: Escrevi bastante a respeito da possibilidade de uma inteligência moral. Até há pouco tempo era cético quanto a isso, mas mudei de idéia depois de algumas leituras, em particular o livro escrito pelos neurobiólogos Jean-Pierre Changeaux e Antonio Damásio. Avalio a possibilidade de uma inteligência existencial, mas o problema é saber se é diferente de qualquer outra capacidade filosófica. Se não for, poderá ser explicada pelas inteligências lingüística e lógica. As provas nesse sentido ainda não são conclusivas.

M&C:Haveria em nosso DNA genes que a seleção natural favoreceu, proporcionando assim a inteligência naturalística ou a existencial?
Gardner: Certamente. Há genes para a inteligência naturalística e, provavelmente, para todas as formas de inteligência que menciono. Creio, porém, que cada um desses tipos possui subcomponentes. Na inteligência lingüística, por exemplo, não haveria só um gene, mas centenas. Alguns deles podem predispor às línguas estrangeiras, outros, à poesia e assim por diante. Mas se dissesse em meus livros que há 500 inteligências, ninguém me levaria a sério.

M&C: Falemos de seu último livro, Five minds for the future. O senhor descreve com precisão as cinco mentes que devemos desenvolver para viver na futura sociedade: sintética, respeitosa, ética, disciplinada e criativa. Que mentes não deveríamos cultivar?
Gardner: Ninguém me havia feito esta pergunta até agora. No livro falo, sobretudo, do mau uso que se pode fazer de cada tipo de mente. Temo particularmente e penso que não deveríamos cultivar a mente fundamentalista, aquela determinada a não mudar de idéia sobre as coisas. É uma postura muito mais comum do que pensamos. Basta perguntar a alguém se recentemente mudou de idéia a respeito de algo. Provavelmente dirá que sim, mas se pedirmos um exemplo, terá dificuldade em responder. Sem perceber, nos aferramos facilmente a nossas convicções.

M&C: Permita-me uma provocação. O que o senhor diz é sem dúvida correto. Qualquer um concordaria que é bom ser mais disciplinado, respeitoso, razoável e assim por diante. Qual é, assim, a novidade da mensagem de seu livro?
Gardner: É uma pergunta legítima. Objetivamente, há aspectos da natureza humana sobre os quais é difícil hoje dizer algo de original. Esses temas, entretanto, devem ser reapresentados para cada nova geração de forma que lhe pareçam compreensíveis e sensatos. Creio ser importante fazer isso, sobretudo porque hoje se fala da mente quase que apenas do ponto de vista cognitivo. Em vez disso, eu falo de respeito, ética e educação em um sentido mais clássico. Não deveria valer apenas a nota tirada na prova de matemática, mas o tipo de ser humano que nos revelamos. Em segundo lugar, é verdade que o respeito sempre foi considerado qualidade desejável, mas na era da globalização, num mundo em que os povos podem facilmente se destruir, trata-se de algo indispensável.

M&C: Por qual de seus estudos o senhor gostaria de ser lembrado no futuro?
Gardner: Sou conhecido como “o fulano da bizarra idéia sobre inteligência”, mas gostaria que as pessoas recordassem a pesquisa sobre ética profissional que realizo há 15 anos e que se tornou um estudo sobre a confiança. Não sei se no futuro me darão crédito em relação a esse trabalho, mas não importa, pois estou totalmente convencido de que é indispensável. O domínio cultural exercido pelo mercado nos Estados Unidos está arruinando o que há de mais precioso no ser humano. Os americanos acabarão por destruir a si mesmos e provavelmente ao mundo, pois ignoram qualquer aspecto da vida que não seja comercializável. E porque pensam que, se fizerem uma prece todo domingo de manhã, terão indulto para arruinar qualquer habitante do planeta nos outros seis dias e meio.

Estudando a ética e o sentimento de confiança, gostaria de chamar atenção para coisas antes importantes que hoje não têm mais valor. De fato, a pergunta que você me fez é equivocada. A correta seria: por que as coisas de que falo, que todos deveriam saber, foram esquecidas?

OITO CRITÉRIOS PARA DEFINIR TALENTOS
1. Ser isolável em casos de lesão cerebral;

2. Ser desenvolvida em autistas “eruditos”, prodígios ou indivíduos excepcionais;

3. Basear-se em uma (ou mais) série de operações identificáveis;

4. Atingir níveis diversos de competência identificáveis em todo indivíduo;

5. Ter história evolutiva plausível;

6. Ser apoiada por dados da psicologia experimental;

7. Ser apoiada por provas de psicometria;

8. Ser codificável em um sistema de símbolos.

Para conhecer mais:
Five minds for the future. Howard Gardner. Harvard Business School Press, 2006.

Inteligências múltiplas: a teoria na prática. Howard Gardner. Artmed, 2000.

A matemática na educação infantil – A teoria das inteligências múltiplas na prática escolar. Kátia Smole. Artmed, 2000.

Revista Mente e Cérebro
http://www2.uol.com.br/vivermente/

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A Escola e a Sala de Aula*

FLORESTAN FERNANDES

Em vista da próxima elaboração da nova lei de diretrizes e bases de educação nacional, é fundamental que se revejam as práticas imperantes em nosso ensino, especialmente no primeiro e segundo graus. Começamos por importar idéias francesas e alemãs, no fim do século passado; tentamos depois, também, “reproduzir” o que nos pareceu ser o ensino primário norte-americano e o enciclopedismo iluminista de segundo grau francês. Em ambas imitações falhamos. As instituições importadas não podem ser redefinidas, em seu significado, estruturas e funções fora do seu contexto psicossocial e cultural. Empobrecemos as instituições, as práticas que elas engendram e o seu rendimento pedagógico. O meio brasileiro revelou-se muito árido, a mentalidade reinante demasiado tosca – autoritária ao extremo -, reduzindo o professor aos papéis mínimos de transmissor passivo de “saber” importado e os alunos àquilo que os filósofos e os educadores críticos chamaram, negando-a, a célebre “página em branco”. Em alguns estados e em certas cidades, conseguiu-se um padrão de qualidade sofrível, mas às custas de uma relação repressiva entre professores e alunos que deformava ambos. Afastava-se a sala de aula do núcleo de grande experiência pedagógica. Aproximava-se a escola mais das instituições punitivas e carcerárias, que do cerne elementar de uma pedagogia do aprender fazendo. No grupo escolar em que estudei, por três anos, antes do fim da década de 30, a vice-diretora ficou uma vez com a orelha de um aluno nas próprias mãos. Não previra que suas unhas compridas faziam um corte de navalha… Em outros lugares, nem essa violência repressiva de uma escolarização pobre, autoritária e fundada em uma hierarquia de idade e de classe devastadora, mas só o crescimento da ignorância e da brutalidade que privava as gerações ascendentes da aprendizagem sistemática.

Ocorreram mudanças. Mas foram poucas. O que esperar do ensino em uma sociedade na qual a imensa maioria era excluída da educação escolarizada, na qual a mãe de um aluno procura o diretor, como fez dona Maria Fernandes, para recomendar: “Senhor, faça dele um homem e castigue-o como se fosse o seu pai”? depois de mais de cinqüenta anos, as coisas se alteraram. Mas a “revolução na escola e pela escola” ficou nas utopias dos pioneiros da escola nova e dos pedagogos que os sucederam. A escola – e por meio dela a sala de aula – continuaram presas a uma concepção predatória da pessoa que é mandada. A burocratização criou ardis e abismos imprevisíveis e permanecemos com a carência de uma filosofia de educação democrática, que floresça de baixo para cima (da sala de aula para a escola e desta para a sociedade e para as terríveis “autoridades do ensino”), e de dentro para fora (da sala de aula e da escola para a comunidade e para a sociedade civil como um todo).

O importante, hoje, não é o que a nova lei poderá fazer para acabar com os vestígios de uma pedagogia às avessas, pervertida. É o que ela poderá ser para gerar, a partir de nossos dias, uma educação escolarizada fincada na escola e nucleada na sala de aula. Não basta remover os “excessos” de centralização, que substituem a relação pedagógica pela relação de poder. É preciso construir uma escola auto-suficiente e autônoma, capaz de crescer por seus próprios dinamismos. Conferir à sala de aula a capacidade de operar como o experimentum crucis da prática escolar humanizada, de liberação do oprimido, de descolonização das mentes e corações dos professores e alunos, de integração de todos nas correntes críticas de vitalização da comunidade escolar e de transformação do meio social ambiente.

A nossa pedagogia ficou presa ao pseudolegalismo de uma educação subcapitalista. A lei deu continuidade à dominação férrea das elites dos senhores de escravos – mais tarde, dos fazendeiros burgueses, dos comerciantes dos grandes negócios de exportação… Ora, essa não é a função necessária da lei. A hegemonia pré-burguesa na escola passou pela instrumentalização dos bacharéis, pela burocratização que chegou até a incluir o presidente da República na nomeação de “reitores eleitos” (Safa!) e pela redução dos docentes à condição de servos do poder, de agentes da dominação de classe verdadeiramente cega dos de cima.

A lei, se a sociedade civil se civiliza e se democratiza, tem por fim concorrer para a extinção do servilismo, dos privilégios e do clientelismo bárbaro, que não reconhece nem respeita limites. Até o voto converteu-se, em muitos lugares, em mercadoria! O “dono” do poder compra o voto e com ele elabora a democracia à sua imagem.

Por isso, a sala de aula fica na raiz da revolução social democrática: ou ela forma o homem livre ou ficaremos entregues, de forma mistificadora, a um antigo regime que possui artes para readaptar-se continuamente às transformações da economia, da sociedade e da cultura. Dissociar a sala de aula de seu empobrecimento e deterioração brutais á a saída para gerar a escola de novo tipo que, por sua vez, desencadeará e aprofundará a renovação de mentalidade que carecem os de baixo e os de cima.

Deu-se muita importância ao tope, aos organismos do aparato do Estado (o ministério e as secretarias de educação; os conselhos federal e estaduais de educação etc.), ignorando-se que esse Estado se punha a serviço de causas estreitas, mais empenhado na “defesa da ordem” (e dos privilégios que ela atribuiu a ralas minorias), que com a educação. Devemos dar um giro de 360 graus e situarmos o foco vital onde ele deverá estar: na sala de aula, nas relações entre professores e alunos e no influxo que tal situação provocará sobre a transformação da sociedade para a escola (e vice-versa).

Revista Espaço Acadêmico
http://www.espacoacademico.com.br/

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O capitalismo da catástrofe

Depois do Iraque, o grande negócio da reconstrução entra em ação em Nova Orleans. Desta vez, para “purificar” a cidade de sua população negra e pobre

Mike Davis

A fúria implacável do Katrina atingiu todos os cantos, deixando na sua passagem uma devastação digna de Hiroshima
O furacão que destruiu Nova Orleans é produto de uma grande perturbação atmosférica que aconteceu no dia 23 de agosto, a 200 km das Bahamas. Mas, ao passar pelo golfo do México durante quatro dias, “a tempestade tropical Katrina” se transformou em um verdadeiro monstro. Absorvendo a vasta quantidade de energia acumulada pelas águas do golfo, extraordinariamente quentes – três graus centígrados acima do nível normal para o mês de agosto –, ela se transforma em um furacão de categoria cinco, com ventos de 290 km por hora, engendrando uma gigantesca onda de tempestade de 10 metros de altura.

A quantidade de calor concentrada pelo Katrina foi tal que, “depois de sua passagem, em certas zonas do Golfo, a temperatura caiu brutalmente passando de 30 para 26 graus” 1 . Horrorizados, os meteorologistas admitem ter raramente observado tal aumento de força em um furacão caribenho. E saber se o crescimento explosivo do Katrina é um indicador do efeito do aquecimento climático do planeta sobre a intensidade dos ciclones provoca um grande debate entre os pesquisadores.

Quando chega ao litoral, na manhã de segunda feira de 29 de agosto, em Plaquemines, na Louisiana, no delta do Mississipi, o Katrina já passara para a categoria quatro (ventos de 210 a 249 km/hora). Era apenas um pequeno consolo para os habitantes dos portos petrolíferos, pequenos povoados e vilas de pescadores francófonos que tiveram a infelicidade de estar no caminho do furacão. Em Plaquemines e ao longo de todo o litoral do Mississipi e do Alabama, a fúria implacável do Katrina atinge todos os cantos, deixando na sua passagem uma devastação digna de Hiroshima.

Proteção de papel
Os diques destruídos eram claramente insuficientes para proteger os bairros mais pobres
Inicialmente, Nova Orleans e seus 1,3 milhão de habitantes supostamente estariam protegidos. Porém, a trajetória do furacão desviou para a direita e seu centro se deslocou para 55 km à leste da cidade. Embora poupada por rajadas de vento mais violentas, a capital da Louisiana – que se encontra abaixo do nível do mar, bordejada por duas grandes lagunas de água salgada, o Lago Ponchartrain ao norte e o lago Borgne ao leste – sucumbiu à fúria das águas.

É destes dois lagos que a onda de tempestade impulsionada pelo furacão rompeu os diques claramente insuficientes – e menos elevados que os dos bairros ricos – que supostamente protegeriam os bairros majoritariamente negros e o leste da cidade e o subúrbio operário branco adjacente a Saint Bernard. Na ausência de alerta oficial, a subida das águas se transformou em uma armadilha mortal para centenas de habitantes surpreendidos quando dormiam. Próximo ao meio-dia, um dique claramente mais resistente da zona do canal da Rue 17 também cedeu.

A inundação poupou as zonas turísticas como o Vieux Carré e o Garden District e também certos bairros mais ricos como Audubon Park, construído em um plano mais alto. Mas, por todos os lados, o dilúvio chegou ao nível dos tetos, afetando ou destruindo cerca de 150 mil unidades de habitação. A cidade recebeu então o apelido de “Lago George” em homenagem irônica ao presidente que tinha se revelado totalmente incapaz de auxiliar os habitantes quanto de assegurar a construção de novos diques.

Marcas de classe e raça
Não há nenhum aspecto da catástrofe que não tenha sido marcado pelas desigualdades de classe e de raça
Mesmo depois de ter aventado a possibilidade de que a “tempestade não foi discriminatória”, até mesmo George W.Bush acabou admitindo: não há nenhum aspecto da catástrofe que não tenha sido marcado pelas desigualdades de classe e de raça. O furacão não só pôs a nu as promessa enganosas do Ministério da segurança interior, encarregado de proteger todos os americanos, bem como expôs de forma retumbante as conseqüências devastadoras do abandono no qual são deixadas pelo governo federal as grandes metrópoles com maioria negra e hispânica e suas infra-estruturas vitais.

Quanto à incrível incompetência da Agência federal de gestão das urgências, a Federal Emergency Management Agency (FEMA), ela demonstra o absurdo de confiar cargos de responsabilidade pública tão vitais aos cortesãos políticos ineptos e cegos por sua hostilidade ideológica à intervenção do Estado. Quando pensamos nos prodígios de lerdeza burocrática manifestados pela FEMA, só podemos nos admirar com a rapidez com a qual Washington agiu para suspender as normas salariais em vigor, em virtude do Davis-Bacon Act 2, e abrir as portas de Nova Orleans, para a reconstrução e a “segurança”, aos predadores de colarinho branco de sociedades como a Halliburton, o Shaw Group e Blackwater Security, mantendo exatamente os mesmos lucros fáceis acumulados sobre os rios do Tigre.

Se a agonia de Nova Orleans se deve, amplamente, à incúria das autoridades federais, o governador do Estado e a Prefeitura da cidade têm, também, sua responsabilidade. É o prefeito (democrata) Ray Nagin – um rico empreiteiro afro-americano, dirigente de uma sociedade de televisão a cabo e eleito em 2002 com 87% dos votos dos eleitores brancos3 – que era responsável, em última instância, pela segurança de seus administrados, sendo que cerca de um quarto deles era muito pobre ou muito deficiente para possuir um veículo. Sua incrível incapacidade de mobilizar os recursos necessários para a evacuação dos habitantes não motorizados e dos pacientes dos hospitais – apesar do sinal de alerta que constituía a falta de preparo da municipalidade diante da ameaça do furacão Ivan em setembro de 2004 – reflete mais que uma simples incompetência pessoal: ela personifica o egoísmo de classe das elites da cidade, quer sejam brancas ou negras, perfeitamente insensíveis à sorte dos concidadãos pobres das cidades destruídas e das zonas marginais.

Catástrofe anunciada
Na história dos Estados Unidos, nenhum desastre foi antecipado com tal grau de precisão como o Katrina
História de uma catástrofe anunciada ? De fato, ao longo da história dos Estados Unidos nenhum desastre foi antecipado com tal grau de precisão, contrariamente às afirmações falaciosas do ministro da segurança interior, Michael Chertoff. Se for verdade que os especialistas foram surpreendidos pelo rápido aumento do poder do Katrina, eles não alimentavam nenhuma dúvida sobre as conseqüências de um furacão maior.

Desde a nefasta experiência do furacão Betsy – uma tempestade de categoria dois que já tinha inundado em setembro de 1965 boa parte dos bairros do leste da cidade devastados pelo Katrina –, a vulnerabilidade de Nova Orleans foi estudada a fundo e de maneira completa; e os resultados destes estudos foram amplamente difundidos. Em 1998, depois da passagem do felizmente benigno furacão Georges, redobraram-se os esforços de pesquisa, e uma simulação digital avançada efetuada pela Universidade da Louisiana mencionou a “destruição virtual” da cidade por um ciclone de categoria quatro vindo do sudoeste4. Os diques e os muros de contenção de Nova Orleans são preparados para resistir no máximo a um furacão de categoria três. Mas, depois de novas simulações efetuadas em 2004, pelo corpo da Engenharia do exército, mesmo este nível de proteção constatou-se ser ilusório.

A erosão permanente das ilhas costeiras e de zonas pantanosas do litoral da Louisiana (que faz com que desapareçam entre 60 e 100 quilômetros quadrados de costa por ano) se traduz por um aumento do poder das ondas de tempestade no momento em que elas atingem Nova Orleans, enquanto a própria cidade em si e seus diques afundam-se lentamente. Mesmo um furacão de categoria três, se sua trajetória é suficientemente lenta, pode inundá-la quase inteiramente5.

Negligência federal
Nova Orleans é uma cidade majoritariamente negra, cujos eleitores fazem, muitas vezes, pender a balança em favor dos democratas
Para fazer com que os responsáveis políticos compreendessem estas previsões, outros estudos ofereciam uma avaliação precisa dos estragos antecipados em caso de impacto direto de um ciclone. Todas as simulações em computador reproduziam os mesmos números aterradores: ao menos 160 quilômetros quadrados de superfície urbana completamente submersa, entre 80 mil e 100 mil mortos. Em 2001, à luz destes estudos, a FEMA tinha anunciado que a inundação de Nova Orleans, depois de um ciclone, seria uma das três mega-catástrofes mais prováveis em um futuro próximo em território dos Estados Unidos (os dois outros seriam um sismo na Califórnia e um ataque terrorista em Manhattan). Em 2004, após os meteorologistas terem anunciado uma forte retomada da atividade de ciclone, as autoridades federais organizaram um exercício de simulação sofisticado, a operação “Furacão Pam”, que confirmou, mais uma vez, que as vítimas poderiam ser contabilizadas em dezenas de milhares.

Em resposta, a administração Bush rejeitou as exigências urgentes do estado da Luisiana em matéria de prevenção de inundações. Ela pôs em prática um importante plano de revitalização das zonas pantanosas da costa, o projeto Coast 2050 – fruto de um decênio de pesquisa e de negociação –, e cortou por diversas vezes o orçamento de manutenção e de construção de diques, deixando inacabadas as infra-estruturas de contenção ao redor do lago Pontchartrain.

A Engenharia militar do exército foi, ela também, vítima de cortes orçamentários que refletem em boa medida as novas prioridades de Washington: forte baixa dos impostos para os ricos, financiamento da guerra no Iraque e – ironicamente – aumento das despesas de “segurança interior”. Sem contar as motivações políticas: Nova Orleans é uma cidade majoritariamente negra, cujos eleitores fazem, muitas vezes, pender a balança em favor dos democratas quando das eleições na Louisiana. Por que uma administração tão descaradamente partidária deveria ser presenteada por seus adversários outorgando os 2,5 milhões de dólares necessários para construir um sistema de proteção de categoria cinco em redor de Nova Orleans 6?

Em benefício das empresas
Não contente com as proezas orçamentárias, a Casa Branca empenhou-se, de maneira irresponsável, em esvaziar a FEMA
Na verdade, quando o chefe da Engenharia, um ex-congressista republicano, protestou em 2002 contra a asfixia orçamentária dos programas contra inundações, Bush obrigou-o a se demitir. Mas não sejamos injustos: Washington gastou imensas quantias na Louisiana… Mas essencialmente para os trabalhos de infra-estrutura beneficiando os interesses das empresas portuárias e marítimas e os distritos eleitorais sob hegemonia republicana7.

Não contente com estas proezas orçamentárias, a Casa Branca empenhou-se também, de maneira irresponsável, em esvaziar a FEMA. Quando seu diretor (que tinha então o estatuto de ministro) era James Lee Witt, este organismo era uma das jóias da administração Clinton. Quando da enchente no Mississipi em 1993 e do tremor de terra de Los Angeles em 1994, sua eficácia na organização do socorro tinha sido saudada por unanimidade.

Entretanto, quando os Republicanos tomaram a direção da FEMA, em 2001, comportaram-se como se tivessem conquistado um país. Seu novo chefe, Joe M. Allbaugh, ex-diretor da campanha de Bush, tomou o cuidado de cancelar boa parte dos principais programas de prevenção de inundações e tempestades. Depois de ter deixado seu cargo em 2003, ele se converteu em consultor regiamente pago para assessorar empresas na busca de contratos no Iraque (dando seqüência às suas idéias, ele acaba de reaparecer na Louisiana, onde manifesta seus talentos de iniciado em benefício das empresas desejosas de conseguir sua parte nos apetitosos lucros da reconstrução). Desde que ela foi integrada ao departamento da segurança interior, em 2003 (e que perdeu o estatuto de Ministério), obras inteiras da FEMA foram desmanteladas e paralisadas. Em 2004, funcionários deste organismo escreveram ao Congresso denunciando “a troca de gestores competentes em matéria de prevenção de catástrofes por comerciantes jogando em favor de interesses políticos e de noviços sem experiência nem conhecimentos sérios8”.

Negligência e despreparo
Quando as águas começaram a submergir Nova Orleans, foi praticamente impossível contatar qualquer responsável pelo telefone
O sucessor de Allbaugh, Michael Brown, é a perfeita encarnação disso tudo. Uma semana após ter recebido os elogios do presidente, este advogado republicano totalmente profano em matéria de prevenção de catástrofes, que tinha falsificado seu curriculum vitae, foi despedido. Sob sua direção, a FEMA tinha continuado a ser despojada de suas competências polivalentes e de seus orçamentos, para se dobrar aos objetivos monomaníacos da luta contra o terrorismo e à construção de uma linha Marginot contra a ameaça da Al Qaida.

No dia 28 de agosto, domingo, em uma vídeo-conferência, o diretor do Observatório nacional de furacões de Miami, Max Mayfield, preveniu o presidente Bush (em férias no Texas) e os funcionários do departamento de segurança interior que o Katrina estava a ponto de devastar Nova Orleans. Brown estava pronto: “Estamos completamente preparados para enfrentar este desafio. Há anos que nos antecipamos a este tipo de desastre natural”. Há muitos meses o diretor da FEMA e o Ministro da segurança interior exibia os méritos do novo plano nacional de urgência, pronto para garantir uma coordenação sem precedente entre os diversos organismos governamentais, em caso de uma catástrofe maior.

Entretanto, quando as águas começaram a submergir Nova Orleans e seus subúrbios, foi praticamente impossível conseguir contatar qualquer responsável pelo telefone. As equipes de socorro e os funcionários municipais se encontraram desprovidos de qualquer meio de comunicação funcional, sem contar a penúria de provisão vital – rações alimentares, água potável, sacos de areia, óleo, sanitários móveis, ônibus, barcos e helicópteros – que a FEMA deveria ter providenciado de maneira preventiva. Chertoff nem esperou 24 horas após a inundação para classificar o desastre como “calamidade de importância nacional” – estatuto jurídico indispensável para decretar a mobilização geral dos recursos federais.

Lentidão fatal
Como nem ônibus ou trem estavam previstos pelas autoridades, os pobres eram obrigados a deixar a cidade a pé
A infinita lentidão com a qual o cérebro de dinossauro da segurança interior registrou o tamanho do desastre foi fatal para centenas de habitantes de Nova Orleans, agonizando sobre os tetos ou num leito de hospital. No dia 2 de setembro, Chertoff ainda explicava a um repórter escandalizado da rádio pública nacional que as cenas de caos e de desespero no interior do Superdome, difundidas pelas televisões do mundo inteiro, não passavam de “boatos anedóticos”… Quanto ao senhor Brown, ele se apegava essencialmente ao fato de que as vítimas, segundo ele, se tornaram responsáveis por “não levar em conta as palavras de ordem de evacuação”, como se tudo isso não tivesse nada a ver com a ausência de veículo ou à dificuldade de se dirigir ao Baton Rouge em cadeira de rodas. Simulações tinham demonstrado que ao menos um quinto da população estava incapacitada de deixar a cidade por seus próprios meios. 9

Segundo o ministro da defesa, Donald Rumsfeld, a tragédia do Katrina não tinha nada a ver com o Iraque. Porém, desde o início da catástrofe, a ausência de mais de um terço dos membros da Guarda nacional da Louisiana e de uma boa parte de seu equipamento pesado limitou de forma grave as operações de salvamento. Socorros teriam também sido úteis nos arredores do Paço Municipal: o posto de comando de urgência ficou fora de serviço desde o início por falta de combustível para alimentar o gerador de socorro. Como nenhum telefone funcionava, o prefeito e seus colaboradores estavam desligados do mundo exterior durante dois dias. Esta paralisia do aparelho de gestão municipal é chocante porque, desde 2002, a prefeitura tinha utilizado 18 milhões de dólares de subvenção federal para treinar seu pessoal para enfrentar este tipo de situação.

Em setembro de 2004, o senhor Nagin já tinha sido severamente criticado por sua passividade diante do furacão de categoria três Ivan (cuja trajetória desviou da cidade no último momento): nesta oportunidade, nada tinha sido previsto para evacuar os pobres. Diante destas críticas, a municipalidade produziu, destinados aos bairros pobres, 30 mil vídeos (nunca distribuídos) cuja mensagem era a seguinte: “Não espere a intervenção da municipalidade, não espere a intervenção do Estado, não espere a intervenção da Cruz Vermelha, (…) parta”. Como nem ônibus ou trem estavam previstos para estes casos pelas autoridades, os pobres eram, portanto, obrigados a deixar a cidade a pé; quando as condições de higiene e de segurança no interior do Superdome se tornaram insustentáveis, foram centenas que tentaram deixar a cidade a pé atravessando a ponte que ligava o subúrbio branco de Gretna, mas eles foram enxotados por policiais municipais apavorados que disparam suas armas sobre suas cabeças.

Mais branca e mais segura
O objetivo é transformar Nova Orleans em um grande parque de atrações e retirar os pobres da vista dos turistas
Uma parte dos habitantes abandonados à mercê das águas saberá interpretar a incrível incúria de seu prefeito à luz da profunda fratura social e racial que caracteriza Nova Orleans. Ninguém ignora que as elites econômicas locais e seus aliados do Centro da cidade sonham em expulsar os habitantes mais pobres, aos quais eles atribuem a elevada taxa de delinqüência. Aqui, residências populares que compõem há muito tempo sua paisagem foram arrasadas para dar lugar a imóveis de luxo e a um supermercado. Fora daí, os habitantes das cidades podem ser expulsos se seus filhos violam o estado de emergência. O objetivo parece ser transformar Nova Orleans em um grande parque de atrações e de retirar os pobres da vista dos turistas, forçando-os a morarem na periferia, nas margens dos braços do rio Mississipi, nos parques de caravanas e penitenciárias.

Desde então, para alguns partidários de uma Nova Orleans mais branca e mais segura, o Katrina é uma divina surpresa. É isso que um líder republicano de Louisiana confiava a comerciantes de Washington: “Finalmente, as cidades de Nova Orleans foram limpas. O que nós não conseguimos, Deus se encarregou de fazer10.” Da mesma forma, para o prefeito Nagin, as ruas desertas e os bairros em ruína são uma dádiva: “Pela primeira vez, nossa cidade está livre da droga e da violência e nós queremos muito conservá-la neste estado.”

Na verdade, sem um esforço maciço das autoridades locais e federais, para fornecer habitações de baixo custo para as dezenas de milhares de locatários pobres, hoje refugiados nos abrigos sem nenhuma escolha, nos quatro cantos do país, Nova Orleans corre o risco de conhecer uma espécie de limpeza étnica. Já se fala em transformar alguns bairros mais desfavorecidos, situados acima do nível do mar, como o Lower Ninth Ward, em bacias de retenção destinadas a proteger os bairros mais ricos. “O que impediria alguns habitantes mais pobres da cidade de voltar a se instalarem em seus bairros”, ressalta, acerca desse assunto, o Wall Street Journal11.

Hegemonia republicana ameaçada
O impacto imediato do Katrina foi a queda brutal da popularidade do presidente – e da presença americana no Iraque
O prefeito Nagin já tomou o cuidado de velar pelos interesses da “alta sociedade” anunciando a designação de uma comissão especial de reconstrução de dezesseis membros: oito brancos e oito negros, enquanto que 75% da população é afro-americana. Por outro lado, os bairros brancos – base de inquietante sucesso eleitoral do neonazista David Duke, nos inícios dos anos 1990 – também têm a intenção de defender a sua causa. E o status quo republicano do Mississipi vizinho não quer deixar a estrela aos democratas da metrópole da Louisiana. Em meio a todos estes conflitos de interesse, pode-se duvidar se os bairros negros tradicionais de Nova Orleans – verdadeiro berço da sensibilidade festiva da cidade e de seu patrimônio jazzístico – consigam se safar dessa jogada.

Quanto à administração Bush, ela espera sair-se com uma espécie de mistura de cripto-keynesianismo orçamentário e de engenharia social ultraconservadora. Sabe-se que o impacto imediato do Katrina foi uma queda brutal da popularidade do presidente – e da presença americana no Iraque. A hegemonia republicana pareceu, momentaneamente, ameaçada. Pela primeira vez, desde os distúrbios raciais em Los Angeles, em 1992, os velhos temas democráticos como a pobreza, a desigualdade racial e a intervenção do Estado dominaram o debate público, a ponto de o Wall Street Journal ter exortado os Republicanos a “retomar a ofensiva no plano intelectual e político” antes que os progressistas como o senador Edward Kennedy ressuscitassem as manias do New Deal – que inclui o projeto de uma agência federal de prevenção das inundações e de revitalização ecológica do litoral do Golfo do México12.

Em busca de uma estratégia para tirar Bush do burburinho de Louisiana, a ultraconservadora Heritage Foundation multiplicou os seminários acolhendo ideólogos reacionários, congressistas republicanos e alguns reconciliados como Edwin Meese, ex-ministro da justiça de Ronald Reagan.

Tudo para a livre iniciativa
Os republicanos prometem fazer surgir dos escombros da catástrofe uma verdadeira utopia capitalista
No dia 15 de setembro, o presidente escolheu cenário deserto mas iluminado de Jackson Square, uma praça tradicional de Nova Orleans, para pronunciar seu discurso sobre a reconstrução. Radiante, prometeu aos dois milhões de vítimas do Katrina que a Casa Branca, apesar do déficit orçamentário, pagaria o essencial da fatura do desastre, ou seja, 200 bilhões de dólares (o que não o impede, de forma nenhuma, propor novas baixas de impostos maciços para as grandes fortunas)!

Depois disso, anunciou toda uma série de reformas cobiçadas por sua base ultraconservadora: um sistema de controle para a educação e o alojamento, o reforço do papel das igrejas, generosos descontos de impostos para o setor privado, a criação de uma “zona regional de oportunidade econômica” e a suspensão de toda uma série de regulamentações federais abordando, principalmente, controles de meio ambiente para as perfurações petroleiras.

Para aqueles acostumados com a linguagem presidencial, o discurso na Jackson Square tem um encantador gostinho de “já vimos este filme”: já não tínhamos ouvido promessas semelhantes nas margens do rio Eufrates? Segundo o cruel comentário do colunista Paul Krugman, depois de ter frustrado a tentativa de transformar o Iraque “em um laboratório do neoliberalismo”, a Casa Branca vai, a partir de então, utilizar como cobaia os habitantes traumatizados de Biloxi e do Ninth Ward13. Segundo o congressista Mike Pence, um dos animadores do poderoso Republican Study Group que contribuiu para a elaboração do programa de reconstrução do presidente Bush, os republicanos vão fazer surgir dos escombros da catástrofe uma verdadeira utopia capitalista: “Vamos fazer do litoral do Golfo um pólo de atração magnético para a livre iniciativa. Não se trata, absolutamente, de reconstruir uma Nova Orleans dominada pelo setor público14.”

É muito sintomático que o corpo da Engenharia de Nova Orleans seja, a partir de então, comandado pelo mesmo oficial que era encarregado da supervisão dos trabalhos públicos no Iraque15. Não importa que o Lower Ninth Ward tenha desaparecido sob as ondas; os proprietários de tabernas do Vieux Carré já esfreguem as mãos, ansiosos: não está longe o dia em que os trabalhadores de Halliburton, os mercenários de Blackwater e os engenheiros de Bechtel virão despejar seus dólares federais na Bourbon Street. Como dizem as populações francófonos na Louisiana e certamente, também, na Casa Branca: “Deixe o bom tempo passar!”

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1 - Quirin Schiermeier, “The power of Katrina”, Nature, n. 437, Londres, 8 de setembro de 2005.
2 - NT: Legislação do tempo do New Deal que obriga as obras públicas a respeitarem o salário mínimo local. Ela é há muito tempo alvo dos republicanos conservadores.
3 - Se a Louisiana votou majoritariamente em Bush em 2004 (56,7%), entretanto Nova Orleans é tradicionalmente democrata.
4 - Estudo realizado por Joseph Suhayda e descrito no Richard Campanella, Time and Place em Nova Orleans: Past Geographies in the Present Day, Gretna, Los Angeles, 2002, p.58.
5 - Travis, op. cit., p. 1657.
6 - Alfred C. Naomi, do corpo de engenheiros do exército, citado por Andrew Revkin e Christopher Drew, “Intricate Flood Protection Long a Foocus of Dispute”, The New York Times, 1º de setembro de 2005.
7 - Editorial, “Katrina’s Message on the Corps”, The New York Times, 13 de setembro de 2005.
8 - Ken Silverstein, “Top FEMA jobs: No Experience Required”, Los Angeles Times, 9 de setembro de 2005.
9 - Tony Reichhardt, Erika Check e Emma Morris, “After the flood”, Nature, n. 437, 8 de setembro de 2005.
10 - Conceito do congressista Richard Baker (Baton Rouge), citado pelo Wall Street Journal, Nova York, 9 de setembro de 2005.
11 - Jackie Calmes, Ann Carrns e Jeff Opdyke, “As Gulf Prepares to Rebuild, Tensions Mount Over Control”, Wall Street Journal, 15 de setembro de 2005.
12 - Editorial, “Hurricane Bush”, Wall Street Journal, 15 de setembro de 2005.
13 - “Not the New Deal”, The New York Times, 16 de setembro de 2005.
14 - John Wilke e Brody Mullins, “After Katrina, Republicans Back a Sea of Conservatrice Ideas”, Wall Street Journal, 15 de setembro de 2005.
15 - Editorial, “M. Bush in New Orleans”, The New York Times, 16 de setembro de 2005.

Jornal Le Monde
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O arsenal de Israel e seus vizinhos

NEWTON CARLOS

Considerado o pai do arsenal atômico de Israel, Shimon Peres assumiu a Presidência do país, na semana passada, com sua obra ainda inconfessada. Mas o próprio secretário de Defesa dos Estados Unidos admitiu que Israel tem a bomba e, o que é mais grave, não hesitou em relacioná-la com as ambições nucleares do Irã.
Questionado sobre as razões que levariam o Irã a perseguir a bomba, Robert Gates respondeu textualmente: “Ele está cercado de potências com engenhos atômicos, o Paquistão a leste, a Rússia no norte, nós no golfo Pérsico e Israel a oeste.” Gates de certo modo, além de tirar a bomba de Israel da clandestinidade, legitimou as ambições do Irã, a partir das regras do “equilíbrio pelo terror” herdadas da Guerra Fria.
Se o outro tem, eu também posso ter, argumento que colocou Índia e Paquistão em paridade nuclear e atestou a impotência do Tratado de Não-Proliferação em conter o que a ONU considera a maior ameaça à humanidade.

Ambigüidade
Não se trata somente do advento de novos membros a um clube antes seleto. O acordo manda que as potências reduzam seus arsenais e isso não acontece. A Inglaterra atualizará seus submarinos Tridents e os americanos testam novas armas.
Israel se tornou caso à parte. Os Estados Unidos adotaram uma política de “não perguntar e não falar a respeito” das armas de destruição maciça de seu aliado estratégico. O “Bulletin of the Atomic Scientists”, cujo relógio do Apocalipse tem ponteiros que se aproximam ou se afastam da meia-noite, à medida que o mundo se torne mais ou menos perigoso, disse que Nixou soube que Israel desenvolvia armas nucleares. Optou, segundo documentos oficiais, por não pressioná-lo a aceitar regulamentos internacionais. Já Israel ficou fora do Tratado de Não-Proliferação com uma “estratégia de ambigüidade”.
Com as declarações de Gates, os Estados Unidos rompem o silêncio a respeito da bomba de Israel e em circunstâncias cada dia mais complicadas. Quando a Líbia aceitou desmontar seus laboratórios, o diretor da Agência Internacional de Energia Atômica, Mohammed Baradei, pediu a Israel que fizesse o mesmo. Em entrevista ao jornal israelense “Haaretz”, El Baradei afirmou que a paz e a segurança do Oriente Médio dependem em boa parte da aceitação de Israel em enquadrar-se na não-proliferação. Com isso os cultores da “bomba islâmica”, o que incluiria o Irã, deixariam de ter argumentos.
Também se reduziriam os riscos de acidentes. Matéria publicada na “New Yorker” garante que Israel esteve em alerta nuclear pelo menos uma vez. Em 1991, na primeira guerra do Golfo, quando o Iraque disparou foguetes Scud contra ele. Documento do Carnegie Endowment for International Peace, dos Estados Unidos, intitulado “Arsenais Mortíferos”, diz que “Israel tem capacidade nuclear avançada, com materiais e infra-estrutura suficientes para produzir de 98 a 172 bombas”.

Jornal Folha de S. Paulo
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