Arquivo de 12 de Novembro de 2007

O Esmagamento do Eu

O espectáculo (da sociedade de consumo) que é a extinção dos limites do eu e do mundo pelo esmagamento do eu que a presença-ausência do mundo assedia, é igualmente a supressão dos limites do verdadeiro e do falso pelo recalcamento de toda a verdade vivida sob a presença real da falsidade que a organização da aparência assegura. Aquele que sofre passivamente a sua sorte quotidianamente estranha é, pois, levado a uma loucura que reage ilusoriamente a essa sorte, ao recorrer a técnicas mágicas. O reconhecimento e o consumo das mercadorias estão no centro desta pseudo-resposta a uma comunicação sem resposta. A necessidade de imitação que o consumidor sente é precisamente uma necessidade infantil, condicionada por todos os aspectos da sua despossessão fundamental.

Guy Debord

Comentários

Jornal do dia

Frei Betto

Nemo me confidenciou que, fora certos prazeres íntimos e gastronômicos, nada lhe imprime maior deleite do que, pela manhã, abrir a porta do apartamento e encontrar, sobre o tapete que lhe guarda a soleira, o jornal do dia. É como se, a cada manhã, virada uma página de nossa existência, encontrasse ali o novo momento da cidade, do país, do mundo.

Enquanto lhe preparam o café, aboleta-se confortavelmente numa poltrona e percorre os olhos nas manchetes do dia. Lê as chamadas políticas, que lhe soam repetitivas e, por vezes, vergonhosas, como se os nossos representantes no poder público vivessem numa esfera protegida da ética e, sobretudo, da voz dos que os elegeram. Toma ciência dos acidentes de trânsito, das novas descobertas científicas, da oferta de sofisticados equipamentos eletrônicos, das previsões meteorológicas.

Sente-se constrangido ao visitar a página policial com os assassinatos em série, cujas vítimas são, em geral, pobres e negros, num menoscabo completo do valor da vida humana. Alegra-se quando se depara com a boa nova de que a Polícia Federal desmantelou mais uma quadrilha de criminosos de colarinho branco. Detém-se com atenção nas páginas dos esportes, à procura de detalhes sobre seus times preferidos, e lê atento os colunistas que, informados dos bastidores, comentam a crise dos clubes e o mercadejar de jogadores a preços exorbitantes.

Não lhe agradam os editoriais, raramente neles se detém, como se soubesse de antemão a opinião do jornal sobre os assuntos enfocados. Para Nemo, editorial deveria vir em pequenas doses na mesma página em que figuram as notícias, como elucidação ou contraponto ao fato. Contudo, lê com avidez e interesse seus colunistas preferidos, como a confirmar, num texto bem escrito, uma opinião que também é sua, ele que carece de meio e forma adequados de expressão.

Passa ao segundo caderno, onde figuram as colunas sociais, as novidades do mundo artístico, o lançamento de livros, CDs, peças de teatro e filmes. Ainda que pouco saia de casa para assistir aos espetáculos em cartaz, agrada-lhe saber das novidades. Observa as fotos das colunas sociais, onde o estranho mundo da elite aparece sempre sorridente e perfumado (jura que chega a sentir-lhe o cheiro), como se jamais as celebridades sofressem de dor de barriga, de desespero diante de um filho drogado, de mágoa por terem sido preteridas na lista de convidados de uma recepção vistosa.

Nemo se distrai com as histórias em quadrinhos, gosta em especial do Hagar, o Horrível e, por vezes, ocupa-se com as palavras cruzadas e, de uns tempos para cá, com o sudoku.

Se uma notícia lhe parece importante, rasga a página e guarda-a numa gaveta de recortes amarelados que a faxineira insiste em dar cabo, mas ele, por razões que não sabe explicar, acha que um dia poderão ser úteis. De fato, outro dia um amigo insistiu que a Segunda Guerra Mundial derrotou Hitler e o nazismo graças ao desembarque das tropas aliadas, lideradas por EUA e Inglaterra, na Normandia. Nemo revirou pilhas de jornais velhos, respirou poeira, e não encontrou o artigo de um analista europeu, anticomunista, onde admite que Hitler perdeu a guerra graças à resistência dos soviéticos. Combateram com a mesma garra com que, no século XIX, expulsaram da Rússia as tropas de Napoleão, e em janeiro de 1945, entraram em Berlim antes dos ocidentais.

Nemo fica desapontado quando o jornal atrasa e o tapete da porta amanhece descoroado. Ansioso por novidades, reclama pelo telefone e, antes que o atendam, já envia a cozinheira à banca mais próxima.

Nemo tem consciência da dificuldade de o jornal competir com a agilidade, em tempo real, da TV e da internet. Ainda assim, apraz-lhe agarrar aquele maço de folhas nas mãos, sentir o cheiro morno do papel, ouvir o farfalhar da página dobrada, ler os fatos nas entrelinhas, sabendo que as notícias haverão de respeitar-lhe o ritmo. Pode saborear o café sem que elas lhe fujam da vista.

Correio da Cidadania
http://www.correiocidadania.com.br/

Comentários

Por que os homens são tão infantis?

Paulo Roberto Reimão Machado

Queria saber como lidar com a infantilidade do homem. Sabemos que o homem demora mais para amadurecer. Enquanto eu estou com a cabeça no futuro, parece que ele está num parque de diversões. Isso é comum entre casais dessa idade?
Andréia

Antes de pensarmos sobre a imaturidade do homem, vamos nos debruçar um pouco sobre o que é maturidade. Trata-se, sem dúvida, de um conceito difícil de definir. Gostaria de aproveitar para a discussão para elucidar dois pontos: a responsabilidade e o caráter duplo (desenvolvimento e momento).

O conceito de maturidade está intimamente ligado à idéia de responsabilidade. Ser maduro é assumir a responsabilidade pelo que nos acontece. O que é diferente de assumir a culpa. Por exemplo: se você tem um compromisso importante e por algum motivo tem que faltar, pode não ser sua culpa, mas você é responsável pela sua ausência. Maturidade, no caso, estaria ligada a posicionar-se frente à ausência.

Outro aspecto da maturidade é o fato de se apresentar em dois níveis ao mesmo tempo: como desenvolvimento e como momento.

Como desenvolvimento, entendo a maturidade que é alcançada e não mais perdida. Por exemplo: com 30 anos uma pessoa pode ter mais facilidade para compreender o divórcio dos pais do que com 12 anos, ou seja, um estágio maior de maturidade foi alcançado.
Já como momento, considero as diversas situações em que todos nós agimos de forma adolescente ou infantil. Ao mesmo tempo em que, em um nível, temos uma maturidade adquirida, em outro nível flutuamos entre estados de espírito infantis, adolescentes e adultos de acordo com o que nos acontece.

Mesmo um adulto maduro e responsável pode agir de forma infantil e adolescente. Por exemplo: uma mulher casada de 50 anos que se apaixona por um homem de 30 anos e vai pra Indonésia com ele no meio do ano letivo, pode estar envolvida em uma paixão que a torna momentaneamente adolescente. Ela pode agir de forma irresponsável, sem considerar as conseqüências de seus atos.

Quanto ao amadurecimento dos homens com relação às mulheres, penso que cada caso seja um diferente e que o processo de amadurecimento dos homens e das mulheres é bastante diferente. Em ambos os gêneros, temos questões difíceis de serem elaboradas e amadurecidas. Portanto, não acredito que os homens amadureçam mais tarde que as mulheres.

Portanto, cara leitora, se ele está em um parque diversões, é importante saber se é por escolha ou por imaturidade. Se ele é responsável por quem ele é e está preparado para assumir as conseqüências das suas escolhas, não é imaturidade e sim uma opção diferente da sua. Caso contrário trata-se de imaturidade. Resta saber se é uma fase imatura (momento) ou se é uma questão de desenvolvimento.

Cabe também pensar: você não se apaixonou por ele também por causa do clima de parque de diversões? Quem não gosta de se divertir? Será que as pessoas maduras são mais felizes?

Será que maturidade demais não é tão ruim quanto imaturidade demais?

Questões como essas são comuns entre todas as faixas etárias e pensar no futuro não necessariamente quer dizer maturidade. Talvez vocês estejam apenas vivendo momentos diferentes. Observe se é apenas uma fase ou se vocês sempre foram assim e veja se podem abrir mão dos dois lados e buscar um meio termo.


Revista Gloss

http://gloss.abril.uol.com.br/

Comentários

“Os mais velhos sempre dormem pior que os mais novos” e outros mitos do envelhecimento

Gina Kolata

Como qualquer pesquisador do sono sabe, perguntar aos mais velhos é a maneira mais eficaz de se ouvir queixas sobre a hora de dormir.
“As pessoas mais velhas são, sem dúvida, as que reclamam mais sobre o sono”, diz Michael Vitiello, pesquisador dos distúrbios do sono que também é professor de psiquiatria e de ciências do comportamento na Universidade de Washington.

E por muitos anos, os cientistas que estudam o sono acreditavam que era simples assim - o sono começa a se deteriorar ao final da meia idade e a partir daí vai ficando cada vez mais conturbado. Parecia ser fato tão óbvio que poucos se atreveram a questionar esse saber predominante.
Mas agora uma nova pesquisa está levando muitos especialistas a uma revisão de seus pensamentos. Para grande surpresa dos pesquisadores, agora parece que o sono não muda tanto assim depois dos sessenta anos. E constata-se que noites de sono ruim não acontecem por causa do envelhecimento, mas principalmente por causa de doenças ou dos remédios usados nos tratamentos.

“Quanto mais distúrbios os adultos tiverem, pior será o sono deles”, segundo Sonia Ancoli-Israel, professora de psiquiatria e pesquisadora dos distúrbios do sono na Universidade da California, em San Diego. “Quando examinamos adultos mais velhos que têm muito boa saúde, verificamos que eles raramente têm problemas com o sono.”

E novos estudos indicam que o mau sono pode resultar numa saúde ruim. Pelo menos no que diz respeito a dor, causa freqüente do sono interrompido, uma noite intranqüila pode piorar a sensação no dia seguinte. E como a dor aumenta, o sono pode ficar ainda mais difícil - um ciclo vicioso comum em pessoas com problemas que tendem a afligir os mais velhos, como dores nas costas e artrite..

Essa nova visão do sono surgiu a partir de duas linhas paralelas de pesquisa. Na primeira, perguntava-se sobre os hábitos do sono quando pessoas saudáveis envelheciam. E na segunda linha de pesquisa buscava-se descobrir a relação entre o sono e a dor.

Para descobrir o que acontece no envelhecimento, alguns pesquisadores, incluindo Vitiello, observaram pessoas mais velhas que não apresentavam problemas de sono. Na verdade era um grupo bem amplo - quase metade das pessoas com mais de 65 anos. Será que essas pessoas de alguma forma percebiam mudanças no sono relacionadas ao avançar da idade?

Não percebiam nada de significativo. Mas o sono delas parecia ser diferente do que ocorria no descanso entre os jovens - era um sono mais leve, mais freqüentemente interrompido por rápidos despertares, e mais curto, num tempo entre meia hora e uma hora. Vitiello considerou que as mudanças no padrão do sono relativas ao avançar da idade poderiam não ser propriamente um problema em si. Algum outro fator fazia as pessoas reclamarem de seu próprio sono.

Vitiello e seus colegas cientistas também fizeram perguntas sobre o que havia ocorrido no sono dessas pessoas ao longo do seu ciclo de vida. Há muito tempo se sabia que o sono vai mudando com o tempo, mas até então ninguém havia estudado de maneira sistemática quando exatamente essas mudanças ocorriam e como ocorriam entre pessoas saudáveis.

Analisando 65 estudos sobre o sono, incluindo o que ocorria com 3.577 indivíduos saudáveis com idade entre 5 a 102 anos, os pesquisadores tiveram mais uma surpresa. A maior parte das mudanças nos padrões de sono ocorreram quando as pessoas tinham entre 20 a 60 anos. Quando comparados a adolescentes e jovens adultos, indivíduos saudáveis de meia idade e pessoas mais velhas dormiam de meia hora a uma hora a menos por noite, acordavam durante a noite com uma freqüência um pouco maior e o sono delas era mais leve. Mas após os 60 anos, registrava-se pouca mudança no padrão de sono, pelo menos entre as pessoas que eram consideradas saudáveis.

E mesmo com a mudança do sono durante a vida adulta, muitas das mudanças foram sutis.

Pessoas de meia idade e os mais velhos, por exemplo, não apresentavam uma dificuldade maior em pegar no sono. A única mudança no que diz respeito à chamada latência do sono surgiu quando foi comparada em dois extremos, aos 20 e aos 80 anos. As pessoas da faixa dos 80 anos levavam em média 10 minutos a mais para pegar no sono.

Ao contrário do que esperavam, os pesquisadores não encontraram aumento na sonolência diurna entre pessoas saudáveis de idade mais avançada. E o envelhecimento também não afetou o tempo que as pessoas levam para começar a sonhar depois que adormecem. Em vez disso, a maior mudança foi no número de vezes que as pessoas acordavam depois de terem adormecido.

Jovens adultos saudáveis dormem durante 95% da noite, segundo Donald Bliwise, pesquisador do sono na Emory University: “Eles adormecem e só acordam quando o alarme dispara.”

Quando chegam aos 60 anos, pessoas saudáveis dormem durante 85% da noite. O sono deles é interrompido apenas por rápidos momentos de vigília, que tipicamente duram de três a 10 segundos. “Há um certo aspecto do sono que não será tão bom como o dos tempos em que a pessoa tinha 20 anos”, segundo Bliwis, que acrescenta: “Quando isso ultrapassa a barreira do conforto e se transforma numa queixa significativa é que é difícil de dizer.”

Segundo Bliwis e outros especialistas, os verdadeiros problemas de sono ocorrem mesmo quando as pessoas apresentam uma das condições que as levam a acordar durante a noite, como a apnéia do sono, dores crônicas, síndrome de pernas inquietas ou problemas urinários. Isso, é claro, se encaixa na descrição de muitas pessoas de idade.

“A questão de se obter um sono consistente na velhice é bem ampla”, segundo Bliwise. “Acaba-se perguntando - Afinal de contas, o que é normal? O que eu devo esperar?”

A nova fronteira no campo das expectativas, e sobre o que fazer com elas, envolve estudos sobre a relação do sono com a dor. Não é novidade que a dor pode interromper o sono. Mas o fato novo é que a falta de sono pode aparentemente aumentar a sensação da dor.

Michael T. Smith, diretor de treinamento e pesquisa do programa de medicina comportamental do sono na Johns Hopkins School of Medicine, chegou a essa conclusão analisando o sono de jovens saudáveis. Um grupo dormia normalmente durante oito horas no hospital. Outro grupo era acordado a cada hora por uma enfermeira, mantido em alerta durante 20 minutos. O padrão de sono deles foi estabelecido para reproduzir as condições fragmentadas do sono de pessoas mais velhas. A um terceiro grupo era permitido apenas quatro horas de sono ininterrupto.

Comparando o segundo e o terceiro grupos, foi possível a Smith discernir as causas dos problemas que surgem a partir da fragmentação do sono - mas ocorriam por causa do pequeno total de horas dormidas ou por conta da natureza interrompida do sono?

O cientista descobriu que o sono fragmentado levava a sérios agravamentos da dor no dia seguinte. Os indivíduos sentiam dor com mais facilidade, se tornavam menos capazes de disfarçá-la e até mesmo passaram espontaneamente a ter leves dores de cabeça e nas costas.

Timothy Roehrs, diretor do centro de pesquisas sobre os distúrbios do sono no Hospital Henry Ford em Detroit, também descobriu que jovens saudáveis tornaram-se intensamente sensíveis a dor após uma noite de sono fragmentado.

Passar a dormir mais, conforme Roehrs descobriu, apresentava o efeito oposto. Suas cobaias eram jovens saudáveis que diziam ter sonolência crônica durante o dia, por não conseguir ter horas de sono suficiente à noite. Roehrs fez com que eles ficassem na cama 10 horas por noite. O sono extra, constatou o cientista, reduziu a sensibilidade deles a dor da mesma forma que ocorreria se houvesse ingestão de um comprimido de codeína.

Agora, segundo Michael T. Smith, ele e outros cientistas mudaram significativamente de idéia a respeito da relação entre distúrbios do sono e envelhecimento.

É claro, o cientista reconhece, que o sono é diferente entre pessoas de 20 anos e pessoas de 70 anos. Mas, constata que “não é exatamente normal passar a ter distúrbio clinico de sono quando se envelhece.”

The New York Times
http://www.nytimes.com/

Comentários

IV MARCHA DA CONSCIÊNCIA NEGRA

A população negra da cidade de São Paulo comemora o quarto feriado em homenagem ao grande herói nacional Zumbi dos Palmares. A transformação de 20 de novembro em Dia Nacional da Consciência Negra é um marco da luta pela igualdade racial na sociedade brasileira.

Visualizando a possibilidade de respostas as demandas da população negra e consagrando sua tradição de ação política e sua presença organizada nas ruas lutando por um Brasil mais justo, sem preconceito, discriminação e racismo, as entidade do movimento negro de São Paulo, realizaram, no dia 20 de Novembro, a primeira Marcha da Consciência Negra. Com o resultado vitorioso desta primeira marcha, no ano seguinte (2004) foi realizada sua segunda edição. Em 2005, dez anos após a Marcha Zumbi dos Palmares – contra o Racismo, pela Igualdade e a Vida, foram realizadas duas marchas para Brasília, nos dias 16 e 22 de Novembro, para celebrarmos o Zumbi + 10. Neste ano, foi decidido que São Paulo Não realizaria uma marcha estadual, mas se somaria a Marcha Zumbi + 10.

No ano de 2006 foi realizada a III MARCHA DA CONSCIENCIA NEGRA a partir da coalizão de diversas forças do movimento negro do Estado de São Paulo, somado a sindicatos, igrejas, movimentos populares, organizações estudantis, de mulheres e de juventude com o objetivo de celebrar aquele importante momento. Nesta marcha, cerca de 20 mil pessoas fortaleceram a marca da luta negra e contribuíram para o alcance dos objetivos almejados.

Neste ano, cumprimentamos todos os participantes da IV Marcha, acreditando que cada um carrega consigo os ideais que moveram a luta do nosso grande herói Zumbi dos Palmares!

ZUMBI DOS PALMARES

Zumbi foi o principal líder do Quilombo de Palmares e símbolo da resistência contra a escravidão. Foi assassinado em 20 de novembro de 1695, após resistir bravamente contra diversos ataques organizados contra Palmares.

O Quilombo dos Palmares foi fundado no ano de 1597, na região da Serra da Barriga, atual estado de Alagoas. Em pouco tempo, o seu ideal de liberdade e competente organização fez com que o quilombo se tornasse uma verdadeira republica.

Em 1695, após diversas incursões contra Palmares, a expedição de Domingos Jorge Velho, composta por milhares de homens, atacou e destruiu o Quilombo dos Palmares, empreendendo um verdadeiro massacre e assassinando Zumbi. Desta forma, foi destruído um território livre, símbolo da resistência ao regime escravista e da consciência negra de homens e mulheres em busca da liberdade e da construção de uma nação.

Em 1995, depois de 300 anos após, foi realizada, no dia 20 de Novembro, a Marcha Zumbi dos Palmares – contra o Racismo pela Igualdade e pela Vida - reunindo em Brasília cerca de 30.000 pessoas. Neste mesmo ano, Zumbi dos Palmares foi oficialmente reconhecido pelo governo brasileiro como herói nacional.

Recuperar o ideário de Zumbi não é apenas rememorar Palmares, mas resgatar um importante exemplo de luta e organização pela emancipação do povo brasileiro.

————-

IV MARCHA DA CONSCIÊNCIA NEGRA
Em homenagem a Zumbi dos Palmares

20 de Novembro de 2007

Combate ao racismo, a discriminação, ao preconceito, a homofobia, ao machismo e a intolerância religiosa!

CONCENTRAÇÃO ÀS 10 HORAS NA AVENIDA PAULISTA - VÃO LIVRE DO MASP

PROXIMO A ESTAÇÃO TRIANON MASP DO METRÔ.

Comentários

Esgotamento Total

Com esforço e perseverança tudo se alcança, reza a lenda. Mas cuidado: o excesso de trabalho e o stress prolongado podem causar a síndrome de burnout, provocando dores, irritação e depressão .

Ulrich Kraft

Quando pôs a mão no diploma de administração, há nove anos, Lauro N. era um exemplo de jovem com “alto potencial.” Tinha 28 anos, nenhum vínculo, mostrava-se ávido para aprender e, graças à excepcional qualificação, predestinado a ter uma carreira esplêndida.

Lauro de fato fez valer todo seu potencial. Começou como consultor organizacional e logo chegou a uma posição de comando. Carro da empresa, bom salário, responsabilidade. Porém, em troca do sucesso profissional, teve de se sujeitar a certas rotinas. Freqüentes viagens, muitas noites em hotéis, 60 a 80 horas de jornada semanal e compromissos nos fins de semana - durante anos. “De vez em quando, eu sentia quanto era puxado, mas, por muito tempo, toda aquela exigência, o trabalho sob pressão e os níveis de excelência que eu mesmo me impunha me davam enorme prazer, um verdadeiro barato”, conta.

Um “barato” que terminou no hospital. Um dia, Lauro despencou. Sentiu fortes dores de cabeça, tontura e taquicardia. No diagnóstico, a surpresa: síndrome do esgotamento profissional. O consultor tinha adoecido em virtude dos anos de sobrecarga no trabalho.

Variados Sintomas
Também chamada síndrome de burnout, a enfermidade deve o nome ao verbo inglês “to burn out” - queimar por completo, consumir-se - e ao psicanalista nova-iorquino Herbert J. Freudenberger, que a nomeou no início dos anos 70. Ele constatou em si mesmo que sua atividade profissional, que tanto prazer lhe dera no passado, só o deixava cansado e frustrado. Também notou em muitos de seus colegas, antes apaixonados por seu ofício, a estranha mutação que os transformava em cínicos depressivos, capazes de tratar os próprios pacientes com crescente insensibilidade e desinteresse.

Ao voltar sua atenção para outras profissões, deparava sempre com os mesmos problemas: oscilações de humor, distúrbios do sono, dificuldade de concentração, muitas vezes combinados com sintomas físicos, como dor de cabeça ou problemas digestivos. Além de dar nome à sua descoberta, Freudenberger definiu o burnout como “um estado de esgotamento físico e mental cuja causa está intimamente ligada à vida profissional”.

O fenômeno não é novo. O escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832) certo dia sentiu-se incapaz de suportar as pressões do ofício ministerial que desempenhava na corte de Weimar e, explicando temer o fim da inspiração poética, retirou-se para a Itália, aos 37 anos. Por sorte, tinha um chefe tolerante, o duque Carlos Augusto. Ele chegou a intimar o subordinado a recuperar-se por completo e a só retornar quando sentisse a “energia poética” restabelecida em sua plenitude. A “licença-prêmio” de Goethe estendeu-se por quase dois anos.

Jürgen Staedt, diretor da clínica de psiquiatria e psicoterapia do complexo hospitalar Vivantes, em Berlim, recebe com freqüência cada vez maior pacientes que não conseguiram pisar no freio a tempo. Mais de 15% dos que hoje o procuram com distúrbios de caráter depressivo são diagnosticados com a síndrome do esgotamento profissional. Não há, porém, estatísticas que comprovem o aumento. Na opinião do professor de psicologia do comportamento Manfred Schedlowski, do Instituto Superior de Tecnologia de Zurique (ETH), isso se explica pela dificuldade de diferenciar a síndrome de outros males. Até porque a maneira pela qual ela se manifesta varia muito. “Uma pessoa apresenta dores estomacais crônicas; outra reage com sinais depressivos; a terceira desenvolve um transtorno de ansiedade de forma explícita”, explica Schedlowski. Já foram descritos mais de 130 sintomas do esgotamento profissional.

É preciso relaxar
Mesmo sem números concretos, de uma coisa os especialistas têm certeza: a pressão nos variados ambientes profissionais tem sido cada vez maior. “Nos últimos dez ou 15 anos, principalmente nas grandes cidades, a vida tornou-se mais rápida e mais agitada. Hoje, sentir-se estressado praticamente integra o cotidiano profissional”, constata Schedlowski. Em si, a reação do stress é uma invenção sensata da Natureza, porque auxilia o ser humano (e todos os vertebrados) a enfrentar situações de perigo.

Sem que tenhamos consciência, o cérebro percebe riscos potenciais e - por meio de um mecanismo ancestral, do ponto de vista filogenético - põe o corpo em estado de alerta numa fração de segundo. O problema é que, mesmo sem estarmos diante de um urso enorme, mas apenas do chefe - que quer aquela apresentação pronta em meia hora -, nosso “programa de emergência” põe-se a funcionar do mesmo jeito: a glândula supra-renal secreta os hormônios, o coração acelera, a pressão sobe. Até aí, tudo bem, contanto que adrenalina e outros estimulantes orgânicos não permaneçam na corrente sangüínea. Porém, se o stress perdurar por semanas, meses ou mesmo anos, conseqüências duradouras para o organismo estão pré-programadas também. Há tempos a ciência sabe que o stress crônico - denunciado pelo alto nível do hormônio cortisol - debilita o sistema imunológico e o corpo fica mais suscetível às infecções.

Fundamentalmente, não há órgão do corpo humano no qual agentes do stress não deixem sua marca. É por isso que um sistema hormonal em permanente atividade é capaz de deflagrar inúmeros males da síndrome do esgotamento. “Em alguns, o stress prolongado repercute apenas na psique. Outros sofrem com sintomas físicos”. Por que é assim os pesquisadores não sabem dizer. “Bem, cada um tem seu ponto fraco”, afirma o psicólogo.

Aos cientistas, interessa mais outra questão: por qual motivo uma pessoa é capaz de, sem maiores problemas, suportar anos de atividade extenuante, agenda cheia e enorme pressão por resultados, ao passo que outra, sob carga de trabalho objetiva e até menor, ameaça sucumbir? Embora a quantidade de trabalho seja um fator relevante, decerto não é o decisivo. “Se alguém enfrenta uma jornada de 12 horas diárias, mas, ao mesmo tempo, encontra um meio de relaxar, é muito provável que ela não tenha problema algum”, esclarece Staedt. “Por outro lado, é possível que um emprego de meio período seja percebido como extremamente estressante, conduzindo ao desenvolvimento da síndrome.”

Memória Afetada
Especialistas concordam que, por si só, uma jornada de 60 horas semanais não causa doença, contanto que se encontre o equilíbrio entre tensão e relaxamento. Pacientes afetados pela síndrome, entretanto, ultrapassaram muito a “fronteira da adaptabilidade às demandas”. Os sistemas internos de processamento do stress dessas pessoas sofrem de sobrecarga crônica.

Começa aí um calvário comum a muitos pacientes da síndrome do esgotamento profissional. Lauro N. se lembra muito bem. “A partir de certo ponto, o trabalho me consumia tanto que minhas outras necessidades já não contavam. A dedicação exacerbada deu lugar, então, a uma exaustão e a um desânimo que pioravam cada dia mais.”

Ao mesmo tempo, desapareceu seu interesse por outras pessoas. Ele foi se retraindo progressivamente, restringindo seus contatos sociais ao mínimo necessário. Tratando-se da síndrome de burnout, essa tendência ao recolhimento é a regra, mas só faz piorar a situação. Cedo ou tarde, a capacidade de desempenho dos portadores da síndrome se reduz. Eles não conseguem se concentrar, deixam de ter idéias criativas e até mesmo a memória é prejudicada. Muitos acabam por se tornar “esquecidos”. Foi o que aconteceu com Lauro N. Erros começaram a imiscuir-se de forma quase inevitável no trabalho. “Notar que já não se está trabalhando direito redunda em pressão ainda maior, de ordem interna, e tem início aí o círculo vicioso”, observa Staedt.

Esse ainda não é o fundo do poço. O stress e a insatisfação consigo mesmo causam graves danos ao psiquismo. Os exauridos arrastam-se pelo dia de trabalho - resignados, desencorajados, atormentados por sentimentos de inferioridade e pelo medo do fracasso. Tentativas de suicídio não são raras. “Quem não consegue interromper o círculo vicioso, alimentado pela soma de demandas profissionais e demais exigências do cotidiano, pode colocar a própria vida em risco”, adverte Schedlowski.

Quanto antes se procura ajuda especializada, maiores as chances de escapar. Pessoas que vão para o trabalho que antes as empolgava e ficam cada vez mais desmotivadas e estressadas devem examinar sua rotina e, a partir daí, procurar um profissional.

Infelizmente, os afetados são muitas vezes os últimos a perceber a situação crítica em que se encontram e relutam em buscar auxílio. Ninguém se esgota da noite para o dia. Ao contrário: as baterias falham tão devagar que muitos nem sequer registram as sutis alterações. Horas extras, turnos de fim de semana - tudo bem, trabalho não mata! Em algum momento, porém, a partida de futebol é cancelada. O jantar com o namorado fica para outro dia. A viagem com os amigos planejada há tempos é adiada. No trabalho tudo parece mais difícil: a dor de cabeça impede o profissional de se livrar da montanha cada vez maior de papel sobre a mesa. Além disso, o colega ali bem que poderia ter dado conta da papelada toda…

Entre as pessoas em cargos de direção ou pequenos empresários que têm uma enorme carga de tarefas sob sua responsabilidade, predomina a crença equivocada na própria invulnerabilidade. Quem ocupa um cargo de comando está acostumado a superar desafios, vencer dificuldades, exibir alto desempenho até em momentos críticos - chegando a limites extremos. Muitos simplesmente se esquecem de que seres humanos precisam também de equilíbrio e repouso.

Staedt sugere uma comparação: “Quando a gente tem um carro, faz revisões periódicas e verifica com freqüência o nível do óleo. Pessoas que sofrem de esgotamento profissional não levam seu \\’carro\\’ para fazer a revisão, rodam 100 mil km a toda velocidade e, depois, espantam-se quando o motor entra em pane. Em relação a si próprias, renunciam à manutenção e aos cuidados”.

Onde há fogo, há de ter havido fumaça. Ainda que julgue um tanto inusitada a inversão do tão citado provérbio, ela se aplica, sobretudo, àqueles que se entusiasmam com seu trabalho, assumem responsabilidades, identificam-se com a própria atividade - pessoas para as quais a profissão é uma auto-realização. São médicos, professores, executivos, empresários e profissionais liberais. Por isso, especialistas definem a síndrome como a doença do desempenho-mor.

É uma doença que reflete um desenvolvimento crítico da sociedade. “Em nosso mundo, as pessoas se definem cada vez mais por sua capacidade de desempenho no trabalho, pelo sucesso profissional - e cada vez menos com base nas relações interpessoais ou nas atividades sociais”, comenta Staedt. É perigoso depreender toda a nossa auto-estima daquilo que somos capazes de realizar no trabalho. Muitos pacientes têm o que alguns psicólogos chamam de “estilo autoconfiante de personalidade”. “São como hamsters fazendo girar a roda, só ficam satisfeitos depois que conseguem atingir um número respeitável de giros. É assim que estabilizam seu psiquismo.”

Sem elogios
O desejo e a necessidade de ser sempre o melhor levam essas pessoas a uma altura cada vez maior na espiral do desempenho - até o ponto em que não é possível subir mais. Então, o sistema entra em colapso. O sentimento de que o mais elevado empenho profissional não é reconhecido a contento resulta numa crise de insatisfação e age como um fator adicional de stress. A medicina ocupacional critica o fato de o elogio ter praticamente caído em desuso em muitas empresas. Em geral, se ninguém diz nada, é porque está tudo bem. No entanto, mesmo um retorno crítico seria melhor do que nenhum.

No caso do paciente vitimado pela síndrome do esgotamento, não funciona o bem intencionado conselho para que afrouxe as rédeas e desligue o computador. Quem deseja vencer a crise de modo duradouro precisa aprender que outras coisas, além do sucesso profissional, podem dar satisfação. É justamente daí que partem os terapeutas. Os “esgotados” devem se abrir para outras fontes capazes de nutrir sua auto-estima. Eis aí o objetivo - novos passatempos, encontros com amigos, períodos em contato com a Natureza, ouvir música, dançar, o que quer que lhes dê prazer e os faça relaxar. O importante é reerguer a vida sobre diversos pontos de apoio. O sucesso do método, porém, depende principalmente da disposição do paciente de admitir que os princípios que orientaram sua vida até o momento o fizeram adoecer e de se propor mudá-los.

Aí está a questão, na opinião de Schedlowski. “É preciso se livrar daqueles traços da personalidade que até funcionaram até então como garantia de sucesso profissional.” Trata-se de uma espécie de plano mestre, cuja origem muitas vezes remonta à infância dos esgotados executivos.

“Quem, por exemplo, aprendeu logo cedo a ser sempre pontual e a fazer tudo com perfeição se beneficiará disso mais tarde”, explica o psicólogo. Graças às virtudes adquiridas e exercitadas, certas pessoas vão bem no colégio e na universidade e, depois, na escalada rumo ao topo da carreira.

Propulsores internos
Isso pode prosseguir sem problema até a aposentadoria. Ou, em dado momento, provocar uma reviravolta. Esse momento chega quando os pacientes já não conseguem corresponder com tranqüilidade e facilidade às demandas do trabalho e, sobretudo, às exigências que impõem a seu próprio desempenho. Poucos, porém, conseguem se livrar de sua receita de sucesso. Os propulsores internos seguem em plena atividade e, em fases de grande pressão externa, produzem ainda mais stress. Está aí a crueldade do esgotamento profissional: os princípios e as qualidades pessoais que levaram as pessoas adiante durante tantos anos de repente se voltam contra elas não lhes permite sair da roda-vida do stress.

Por isso, a equipe de Zurique trata seus pacientes em vários planos. Em primeiro lugar, eles aprendem métodos para lidar melhor com situações estressantes, como exercícios voltados para a comunicação e técnicas de relaxamento. No treinamento individual, Schedlowski procura corrigir posturas que levaram os esgotados ao desastre. Essa “correção do plano mestre” é a parte mais difícil da terapia, que se deve ao modo de funcionamento do cérebro: aquilo que se aprendeu desde cedo e se praticou durante anos fixa-se com firmeza. “Modificar princípios e comportamentos internalizados de maneira tão intensa demanda um treinamento que, de fato, leva algum tempo”, esclarece o psicólogo.

Jogadores profissionais de golfe ou tênis conhecem o problema. Seu cérebro armazenou tão bem determinados movimentos que eles os realizam de forma quase automática. Se um tenista deseja modificar seu saque, necessita de um treinador para observá-lo e corrigi-lo. E precisa treinar, treinar mais, treinar muito para que o novo movimento possa ser aplicado com segurança no jogo. Mesmo que seja sob a pressão de uma final em Wimbledon.

Para os pacientes com síndrome do esgotamento profissional, a prova de fogo acontece em pleno jogo decisivo - o do trabalho. Não são poucos os que fracassam por subestimar a gravidade da situação. Na opinião de Schedlowski, são necessários quatro meses para uma terapia comportamental externa. Ao longo desse tempo, os pacientes precisam treinar sem cessar os novos padrões de comportamento e testá-los no dia-a-dia, da mesma forma como faz o tenista. O cérebro requer esse empenho.

O tempo influi no prognóstico para o paciente. Quem, exaurido, arrasta-se por meses ou anos no trabalho, por vezes até o colapso total, prejudica as próprias chances de cura. É por essa razão que especialistas aconselham a levar a sério sinais de alarme como falta de vontade, cansaço e exaustão, sobretudo quando persistentes.

O melhor ainda seria, claro, não cair no círculo vicioso da autocobrança demasiada e da pressão interior. Os terapeutas suíços apostam na prevenção pela informação. “Na vida profissional de hoje, o stress é quase normal”, afirma Schedlowski. “Quando sabemos como nos proteger das conseqüências, o risco do esgotamento é muito menor.”

A regra número um é administrar com cautela nossos recursos físicos. As medidas anti-stress são simples e eficazes: alimentação saudável, exercício físico e uma boa noite de sono. Número dois: mesmo sobrecarregado, é preciso observar o equilíbrio entre tensão e relaxamento - é preciso haver equilíbrio entre trabalho e vida particular.

Cada um tem de encontrar seu próprio mecanismo de compensação do stress. Há pessoas que relaxam preparando-se para uma maratona; outras repousam curtindo música ou cuidando do jardim. O passatempo pouco importa - o que interessa é ter um. O mesmo vale para os contatos sociais. Seja entre amigos ou na família, é fato que as relações interpessoais protegem contra o esgotamento. De resto, quem se isola por causa do trabalho extenuante não terá mais ninguém a quem chamar numa emergência, quando vier a precisar de ajuda e companhia.

Schedlowski aconselha as vítimas do stress profissional a aprender uma técnica para relaxar - como ioga, meditação, treinamento autógeno ou relaxamento muscular. E a fazê-lo antes que precise dela com urgência, porque os primeiros sinais do esgotamento já se anunciam. O passo decisivo, no entanto, é dado na cabeça, constata o psicólogo: “Na vida profissional, é preciso adotar o mais cedo possível uma postura que dê à saúde e ao bem-estar psíquico no mínimo a mesma importância atribuída à ascensão na carreira”.

Lauro N., com seu alto potencial, ignorou esse fato por muito tempo. Foi somente ao ver-se numa unidade de terapia intensiva, “sozinho e na pior”, que uma luzinha acendeu em sua cabeça. Lauro mudou de vida. Abandonou o emprego, lutou para recuperar os amigos e realizou o sonho da juventude de fazer uma grande viagem pelo mundo. Depois disso, voltou a atuar como consultor e tem hoje um cargo até melhor que antes.

Agora tudo é muito diferente. “Pratico esporte, tenho mais tempo livre, reservo pelo menos duas horas por semana para fazer coisa nenhuma e, acima de tudo, curto a vida. Meu trabalho continua sendo importante, mas outros aspectos também têm tem prioridade.” Seu balanço da nova vida: “Nunca me senti melhor!”.

Revista Mente e Cérebro
http://www2.uol.com.br/vivermente/

Comentários

Esclarecimento segundo Kant:

Alexander Martins Vianna

Em 1784, Immanuel Kant(1724-1804) publicou o seu artigo “O que é Esclarecimento?”. Observando a forma que desenvolve seu argumento, podemos notar que Kant entende o Esclarecimento como uma condição moral e não uma coisa, e seu sentido não pode ser restringido a saber ou conhecimento, pois é a combinação do conhecimento profundo sobre um assunto específico com a autonomia crítica do sujeito do conhecimento. Esquematicamente,

Scholar
(Profundo conhecedor de um assunto) + Autonomia
(Falar em seu próprio nome)

Segundo Kant, todos (homem ou mulher) podem alcançar esclarecimento sobre qualquer assunto, embora a grande maioria não queira praticar ou desenvolver tal condição moral, seja por comodismo, oportunismo, medo ou preguiça. Logicamente, em seu processo social de formação (Bildung), todo indivíduo vive uma situação de menoridade em algum momento ou fase de sua vida. Neste caso, a menoridade é natural, pois confunde-se com imaturidade, tal como a imaturidade da semente em relação à árvore que ela pode vir a ser, já que nenhuma pessoa nasce pronta. No entanto, Kant questiona aquelas autoridades (principalmente religiosas) que, através do medo ou do constrangimento, mantenham seus sujeitos em menoridade quando já teriam condições intelectuais de não sê-lo; e ironiza aqueles sujeitos que, por comodismo, oportunismo ou preguiça, vivam uma situação de menoridade auto-imposta. Portanto, ser esclarecido não é apenas ter um profundo conhecimento sobre um assunto (condição de Scholar), mas combinar isso com a conquista da autonomia – passo moral fundamental apenas dado por uma minoria. Nesse sentido, todos potencialmente podem esclarecer-se, já que possuem capacidade de pensar, mas nem todos conseguem superar o medo, a preguiça ou o interesse particular para alcançar a condição de esclarecimento.

Além disso, deve-se considerar mais um detalhe: o sujeito do conhecimento apenas pode tornar-se Scholar sobre algumas matérias ou conjunto de matérias específicas, pois não é possível ter um conhecimento profundo sobre todas as coisas da vida social, natural ou sobrenatural. Isso significa que só se pode ser esclarecido sobre um assunto ou conjunto de assuntos, sobre os quais se lança críticas que ajudem no seu aperfeiçoamento; porém, em relação a outros assuntos sobre os quais não se possa ser Scholar, vive-se uma condição de menoridade necessária – o que é o mesmo que dizer, por exemplo, que somente um general pode criticar outro general, mas um general não poderia ser criticado por seu tenente, capitão ou coronel, pois isso, segundo a ótica de Kant, abalaria a ordem social e política e poderia levar a sociedade para a barbárie de lideranças religiosas ou políticas oportunistas. Portanto, apenas pode livremente criticar quem seja Scholar em relação a um assunto. No entanto, para criticar, o Scholar deve falar em seu próprio nome, em outras palavras, se ocupa um cargo, não pode criticá-lo enquanto o exerce, pois, além de ser perigoso para a ordem social e política, demonstraria hipocrisia ou falta de moral. Vejamos o exemplo que Kant dá a respeito do pastor:

“…O pastor dirá: ‘Nossa igreja ensina isso ou aquilo; estas são as provas que ela usa’. Nesse sentido, ele beneficia a sua congregação tanto quanto possível por apresentar doutrinas nas quais não acredita completamente, mas se compromete em ensiná-las pois não é completamente impossível que elas não possam conter alguma verdade oculta. Em todo caso, ele não encontrou nada nas doutrinas que contradiga o coração da religião. No entanto, se ele acredita que tais contradições existem, ele não estaria mais habilitado para administrar seu ofício com clareza de consciência. Ele teria que renunciar ao seu cargo…”

O mesmo argumento valeria para outros cargos ou atividades. Como Scholar, se um sujeito encontra contradições irremediáveis nos princípios que sustentam um cargo, ofício ou sistema filosófico, terá que sair da condição de menoridade e falar em seu próprio nome, o que significa abandonar a posição anterior. Ora, isso é um teste moral e um modo de evitar que a sociedade se tornasse refém de oportunistas e manipuladores, pois quem lança crítica deve ter o sentimento autêntico de aperfeiçoamento das coisas a ponto de abandonar seus interesses e comodismos particulares e voltar-se para o benefício do próximo, em vez de transformar sua crítica em meio de realização de seus interesses particulares. Este é o sentido do uso público da razão, em contraponto ao seu uso particular e privado. Nesse sentido, o Scholar usa privadamente a sua razão quando – como ator na competência particular de um cargo, posição funcional ou sistema filosófico – fala em nome da instituição em relação à qual tal competência está referida.

Portanto, ser esclarecido é, antes de tudo, um compromisso moral com o aperfeiçoamento e bem-estar da sociedade, respeitando as hierarquias sociais existentes. No entanto, por medo, comodismo, oportunismo ou preguiça, poucos Scholars tornam-se efetivamente esclarecidos, embora tenham condições intelectuais para tanto quando estão em uso privado da razão. Neste caso, a menoridade auto-imposta reverbera para um problema moral, que é o oposto do pragmatismo político de Maquiavel(1469-1527). A indagação moral kantiana por excelência é: “Tenho eu um sentimento não meramente centrado em meu interesse mas também um sentimento desinteressado concernente aos outros? Sim”. Ora, isso é um desdobramento para o mundo do princípio luterano de que toda obra deve derivar do amor – a exemplo de Cristo*. Deste modo, as pessoas deixariam de ser meios para se chegar a alguma coisa (fundação do Estado, vantagens materiais, cargos, prazer sensual ou salvação da alma) e tornar-se-iam fins em si mesmas.

A partir da segunda metade do século XVIII, novos espaços de sociabilidade e as transformações na vida econômica constituíram novos processos de construção de identidade que libertaram muitos indivíduos letrados dos referenciais político-jurídicos estamentais, definindo-se o valor da pessoa a partir de seu talento manifesto ou presumido (bom nascimento). Porém, em larga medida, “bom nascimento” teve seu sentido antigo atenuado, não significando necessariamente ser nobre de nascimento, mas enobrecido pelo mérito manifesto nas convivências em sociedade. No entanto, a nova liberdade (autoconstituição reflexiva de si mesmo) foi descoberta para ser logo constrangida, pois agora havia um leque preestabelecido de escolhas sociais baseado na progressiva especialização técnica e funcional da sociedade.

Em seu livro “Modernidade e Identidade”, Anthony Giddens enfoca os vários processos reflexivos de construção de identidade na sociedade moderna (que compreende para ele os sécs. XIX-XX), onde afirma que, até a década de 1950, era possível observar um indivíduo ainda pressionado entre as formas pré-modernas (mais fixistas) de identidade e os novos valores, típicos da modernidade, ligados à velocidade e à liberdade de ação, escolha e autoconstituição. No entanto, Giddens lembra que a liberdade de autoconstituição reflexiva chocava-se com um leque preestabelecido de opções. Ele entende tal fenômeno como associado à especialização tecnológica do trabalho e à multiplicidade de papéis sociais, percebendo que a autonomia na modernidade é em larga medida constrangida pelo próprio processo de modernização da vida social, que torna todos impessoalmente reféns de sistemas-perito, que são os efetivos criadores/programadores das agendas de escolha ou leques de opções das multidões. Nesse sentido, aplicando as inferências de Giddens às idéias de Kant sobre o “uso privado da razão”, observamos um limite funcional à liberdade, pois, em face das especialidades existentes numa sociedade, haverá sempre “cidadãos passivos” em relação a algum assunto. Logo, se uma sociedade em processo de esclarecimento pressupõe um tipo de liberdade ancorada na autonomia moral, tal liberdade é relativizada pelas relações funcionais de interdependência dos indivíduos. Enfim, segundo Kant, Você tem liberdade de criticar as coisas em relação às quais seja Scholar(perito, segundo vocabulário de Giddens), mas somente pode criticar se vive uma condição de autonomia funcional, condição para o uso público moralmente aceitável da razão.

O Que é Esclarecimento?[1]

(1784)

Immanuel Kant

Esclarecimento é a saída do homem de sua menoridade[2] auto-imposta. Menoridade é a inabilidade de usar seu próprio entendimento sem qualquer guia. Esta menoridade é auto-imposta se sua causa assenta-se não na falta de entendimento, mas na indecisão e falta de coragem de usar seu próprio pensamento sem qualquer guia. Sapere aude! (Ouse conhecer!). “Ter a coragem de usar o seu próprio entendimento” é, portanto, o motto do Esclarecimento. Preguiça e covardia são as razões de a maior parte da humanidade, de bom grado, viver como menor durante toda a sua vida, mesmo depois de a natureza a muito tempo ter livrado-a de guias externos. Preguiça e covardia demonstram porque é tão fácil para alguns se manterem como tutores.

É muito confortável ser um menor. Se eu tenho um livro que pensa por mim, um pastor que age como se fosse minha consciência, um físico que prescreve a minha dieta e assim sucessivamente, não tenho então necessidade de empenhar-me por conta própria. Se eu posso pagar, não tenho necessidade de pensar. Muitos poderão discordar comigo nessa matéria: os próprios guardiães que se encarregam de cuidar para que a esmagadora maioria da humanidade – e, dentro dela, todo o sexo feminino – não alcance a maturidade, não apenas por ser desagradável, mas extremamente perigosa. Tais guardiães tornam estúpido seu gado doméstico e cuidadosamente se previnem para que suas dóceis criaturas não tomem caminho próprio sem seus arreios. Assim, eles mostram para seu gado o perigo que pode ameaçá-los caso pretendam andar por sua própria conta.

Na verdade, o perigo não é realmente tão grande quanto parece. Afinal, depois de tropeçar um pouco, todos aprendem a andar. Entretanto, exemplos de tropeços intimidam e geralmente desencorajam todas as novas tentativas. Portanto, é muito difícil para o indivíduo agir por sua própria conta e superar a menoridade, que se torna para ele quase uma segunda natureza. Assim, mesmo que esteja já amadurecido, o indivíduo é desde o início incapaz de usar seu entendimento por conta própria porque nunca se permitiu tentar fazer isso. Dogmas e fórmulas – estas ferramentas mecânicas para usos razoáveis (ou, pelo contrário, abusivos) das dádivas naturais dos indivíduos – são os grilhões de uma duradoura menoridade. O homem que se livra deles dá um salto incerto acima do abismo, mas este tipo de movimento livre não é comum. Eis a razão para o fato de que apenas poucos homens caminham decididamente e saem da menoridade, cultivando seus próprios pensamentos. No entanto, é praticamente certo que o público possa esclarecer-se. De fato, basta que a liberdade seja dada para que o esclarecimento torne-se praticamente inevitável.

Sempre haverá pensadores independentes, mesmo entre os auto-intitulados guardiães da multidão. Uma vez que tais homens livrem-se do jugo da menoridade, derramarão sobre si o espírito de uma apreciação razoável do valor humano e de seu dever de pensar por conta própria. É interessante observar que o público que se manteve anteriormente sob o jugo destes guardiães, quando é incitado à revolta por alguns deles – que são incapazes de qualquer esclarecimento –, força-os posteriormente a permanecerem submissos. Isso demonstra o quanto é perigoso implantar preconceitos: estes eventualmente voltam-se contra seus próprios autores ou contra os descendentes dos autores. Portanto, apenas lentamente o público deve alcançar esclarecimento. Uma revolução pode levar ao fim de um despotismo pessoal ou de uma avarenta e tirânica opressão, mas nunca leva a uma verdadeira reforma dos modos de pensar. Novos preconceitos tomarão o lugar dos antigos como guias de uma multidão irracional.

O esclarecimento requer nada além do que liberdade – e o mais puro de tudo isso é a liberdade de fazer uso público da razão em qualquer assunto. Por outro lado, o uso privado da razão freqüentemente pode ser restrito, mas isso não necessariamente retarda o processo de esclarecimento. Atualmente, ouço clamores de todos os lados: “Não questione!”. Os oficiais militares dizem: “Não questione, mexa-se!”. O coletor de impostos: “Não questione, pague!”. O pastor: “Não questione, creia!”. Somente um único soberano[3] em todo mundo pode dizer: “Questiona tanto quanto quiseres, e sobre o que quiseres, mas obedeça!”. Nós encontramos restrições à liberdade em todo lugar. Mas qual restrição é nociva ao esclarecimento? Qual restrição é livre de erros e qual antecede o esclarecimento? Eu respondo: o uso público da razão deve ser livre todo o tempo e somente isso pode levar esclarecimento à humanidade.

Por “uso público da razão” entendo o uso que um homem, como scholar[4], faz da razão diante de um público letrado. Eu chamo de “uso privado da razão” aquele uso que um homem faz da razão em um posto civil que lhe foi confiado. Em alguns negócios que afetam o interesse da comunidade, um certo mecanismo [governamental] é necessário, em relação ao qual alguns membros da comunidade permanecem passivos. Isto cria uma unanimidade artificial que servirá para o cumprimento dos objetivos públicos, ou ao menos para proteger tais objetivos da destruição. Aqui, questionar não é permitido: deve-se obedecer. Uma vez que um participante deste mecanismo se considera ao mesmo tempo parte de uma comunidade universal (uma sociedade mundial de cidadãos) – lembrando que ele pensa por sua própria conta como um scholar que racionalmente se dirige ao seu público através de seus escritos –, ele pode efetivamente questionar – mas nada sofrerão os assuntos com os quais ele está associado parcialmente como membro passivo[5]. Portanto, seria um completo infortúnio se um oficial militar (no cumprimento de seu dever ou sob ordens de seus superiores) quisesse questionar a adequação ou utilidade de suas ordens. Ele deve obedecer. No entanto, como um scholar, ele certamente não poderia evitar de reconhecer os erros no serviço militar e deve expor suas visões ao julgamento de seu público. Um cidadão não pode deixar de pagar os impostos que lhe são cobrados – e impertinentes críticas a esses impostos podem ser punidas (como um escândalo que pode provocar uma desobediência geral). Não obstante, tal homem não viola os deveres de um cidadão se, como um scholar, publicamente expressa suas objeções a respeito da inadequação ou possível injustiça de tais impostos.

Um pastor também é limitado a pregar para sua congregação de acordo com as doutrinas da igreja à qual serve, pois ele foi ordenado para isso. Mas como um scholar ele tem completa liberdade, na verdade, a obrigação, de comunicar a seu público todos os seus pensamentos cuidadosamente examinados e construídos a respeito dos erros nessa doutrina e expor suas proposições a respeito do progresso do dogma religioso e das instituições eclesiásticas – o que não é nada que possa sobrecarregar a sua consciência. No entanto, quando ensina seguindo seu ofício de representante da igreja, o pastor representa alguma coisa da qual ele não é livre para ensinar tanto quanto observar. Ele fala como alguém que é empregado para falar em nome e sob as ordens de alguém. O pastor dirá: “Nossa igreja ensina isso ou aquilo; estas são as provas que ela usa”. Nesse sentido, ele beneficia a sua congregação tanto quanto possível por apresentar doutrinas nas quais não acredita completamente, mas se compromete em ensiná-las pois não é completamente impossível que elas não possam conter alguma verdade oculta. Em todo caso, ele não encontrou nada nas doutrinas que contradiga o coração da religião. No entanto, se ele acredita que tais contradições existem, ele não estaria mais habilitado para administrar seu ofício com clareza de consciência. Ele teria que renunciar ao seu cargo.

Portanto, o uso que um scholar faz de sua razão diante da congregação que o emprega é somente um uso privado (para uma audiência doméstica), não importa o quão importante seja. Em vista disso, o pastor, como um pregador, não é livre e nem deve ser livre se ele está encarregado das ordens de alguém. Por outro lado, como um scholar que fala para seu público (o mundo) através de seus escritos, o ministro – no uso público de sua razão – goza de liberdade ilimitada para usar sua própria razão e para falar por si. Que os guardiães espirituais do povo devam tratar a si mesmos como menores é um absurdo que resultaria em perpétuos absurdos.

No entanto, deve uma sociedade de ministros, digo um Conselho Eclesiástico, ter o direito de se comprometer, por juramento, com uma doutrina inalterável de modo a assegurar-se como guia perpétuo acima de todos os seus membros e, através destes, acima do povo? Eu digo que isso é praticamente impossível. Tal contrato – concluído para privar a humanidade de qualquer novo esclarecimento – é simplesmente nulo ou vazio, mesmo que tenha sido confirmado por um poder soberano, parlamentos e pelos tratados mais solenes. Uma época não pode fazer um pacto que comprometa as idades futuras, não pode evitar que elas aumentem suas significantes inspirações, purifiquem-se de erros e gradativamente progridam no esclarecimento. Isso seria um crime contra a natureza humana, cujo destino assenta-se justamente em tal progresso. Portanto, as idades futuras têm pleno direito de repudiar tais decisões como desautorizadas e ultrajantes. A pedra de toque de todas essas decisões – que devem tornar-se leis para um povo – baseia-se nesta questão: Poderia um povo impor tal lei a si mesmo?

Pode ser possível introduzir no momento presente uma ordem provisória enquanto se espera uma ordem melhor. Entretanto, enquanto tal ordem provisória continuar, cada cidadão – e, acima de tudo, cada pastor atuando como scholar – deve ser livre para publicar suas críticas das falhas das instituições existentes. Isso deve continuar até que a compreensão pública dessas questões vá tão longe que – unindo a voz de muitos scholars, mas não necessariamente todos – as propostas de reforma possam ser trazidas diante do soberano para proteger aquelas congregações que tenham decidido, de acordo com suas melhores luzes, alterar a ordem religiosa, sem prejuízo, entretanto, para aquelas congregações que queiram sinceramente permanecer nas instituições antigas. Mas concordar com uma constituição religiosa perpétua não passível a ser publicamente questionada por ninguém seria, como foi, aniquilar um período para o progresso do aperfeiçoamento humano. Isso deve ser absolutamente proibido.

Um homem pode postergar seu próprio esclarecimento, mas somente por um período limitado. No entanto, suspender o esclarecimento de uma só vez, para si mesmo ou para seus descendentes, é violar e pisar nos sagrados direitos do homem. O que um povo não pode decidir por si mesmo, menos ainda pode ser decidido por um monarca, pois sua reputação como administrador consiste precisamente na maneira que une a vontade de todo o povo com a sua própria. Se o monarca percebe que toda verdade ou suposto progresso [religioso] permanece regulado ao nível da ordem civil, ele pode para o restante das coisas da fé deixar seus súditos livres para fazerem o que acharem necessário para a salvação de suas almas. Salvação não é assunto para monarca; é seu atributo impedir que todo homem seja compelido por outrem em matéria de fé, para que possa promover a sua própria salvação da melhor forma possível. De fato, seria prejudicial para a sua majestade que o monarca se imiscuísse nestes assuntos e vigiasse os escritos nos quais seus súditos expõem suas visões [religiosas], mesmo quando baseado na mais alta inspiração, pois assim expor-se-ia à reprovação: Caesar non est supra grammaticos [César não está acima dos gramáticos]. É ainda pior quando o monarca degrada seu poder soberano de modo a apoiar o despotismo espiritual de uns poucos tiranos no Estado em prejuízo do restante dos súditos.

Quando nós perguntamos “Vivemos agora numa época esclarecida?”. A resposta é “Não”, mas vivemos numa época de esclarecimento[6]. Tal como as coisas se apresentam agora, estamos longe de ver homens verdadeiramente capazes de usar sua própria razão em assuntos religiosos de forma confiante e correta sem guias externos. No entanto, temos óbvias indicações de que o campo de trabalho em direção à meta [da verdade religiosa] está sendo aberto agora. Mais ainda: os impeditivos contra o esclarecimento geral ou contra a saída de uma menoridade auto-imposta estão diminuindo gradativamente. Nesse sentido, esta é a idade do esclarecimento e o século de Frederico, o Grande.

Um príncipe não deve pensar que desqualifica a dignidade de seu estamento pelo fato de não considerar ser seu dever guiar seus súditos em assuntos religiosos; pelo contrário, ele deve deixá-los em completa liberdade. Se ele repudia a arrogante palavra tolerante, ele é em si mesmo esclarecido; ele merece ser louvado por um mundo gracioso e próspero, como um homem que primeiro soube libertar a humanidade da dependência (ao menos de guia) e deixar todos usarem sua própria razão em assuntos de consciência. Em seu reinado, pastores honrosos – atuantes como scholar, malgrado os deveres de ofício – podem publicar livre e abertamente suas idéias para o mundo avaliá-las, mesmo que desviem aqui ou ali da doutrina aceita. Isso é tanto mais verdadeiro para as pessoas que não estão sujeitas a juramento de ofício. Este espírito de liberdade está espalhando-se para além das fronteiras [da Prússia], mesmo onde tem tido que lutar contra os impeditivos externos estabelecidos por um governo que falha em compreender seu verdadeiro interesse. [Frederico II da Prússia] é um claro exemplo de que a necessidade de liberdade não provoca o menor estorvo à ordem pública ou à unidade da comunidade.

Quando deliberadamente não se mantém os homens no barbarismo, eles gradativamente superam tal condição por si mesmos. Eu tenho enfatizado o ponto principal do esclarecimento – o homem sair de sua auto-imposta menoridade – primeiramente em assuntos religiosos porque nossos administradores não têm interesse em se manter no papel de guardiães de seus súditos nas artes e nas ciências. Acima de tudo, menoridade em religião não é apenas nociva, mas desonrosa. Mas a disposição de um governo soberano em favorecer a liberdade nas artes e ciências vai mais além: o governante sabe que não há perigo em permitir que seus súditos façam uso público de sua razão e publiquem suas idéias a respeito da melhor constituição, assim como as suas cândidas críticas às leis básicas existentes. Nós já temos um flagrante exemplo [de tal liberdade], e nenhum monarca pode igualar-se àquele que nós veneramos.

Somente o homem esclarecido, que não teme as sombras e comanda um exército ao mesmo tempo bem disciplinado e numeroso como mantenedor da paz pública, pode dizer aquilo que [o soberano de] um estado livre não pode ousar dizer: “Questiona tanto quanto quiseres, e sobre o que quiseres, mas obedeça!”. Assim, nós observamos aqui, como em qualquer outro assunto humano (em que quase tudo é paradoxal), uma surpreendente e inesperada cadeia de acontecimentos: se um amplo grau de liberdade civil parece ser vantajoso para a liberdade intelectual das pessoas, isso ao mesmo tempo estabelece insuperáveis barreiras; entretanto, um grau menor de liberdade civil dá a oportunidade para o espírito expandir-se até o limite de sua capacidade. Por isso, a natureza tem cultivado cuidadosamente a semente dentro de uma casca dura – nomeadamente, o desejo de e a vocação para o livre pensamento. E quanto mais este livre pensamento gradativamente resiste aos modos de pensamento do povo, mais os homens tornam-se cada vez mais capazes de agir em liberdade. Enfim, o livre pensamento age até mesmo nos fundamentos de governo, e o Estado acha isso agradável para tratar o homem – que é agora mais do que uma máquina – de acordo com sua dignidade.

Revista Espaço Acadêmico
http://www.espacoacademico.com.br/

Comentários

O golpe montado pela CIA

Não se pode compreender o Irã atual sem recuar até o golpe de Estado de 1953. Fomentado pelas multinacionais do petróleo, ele abortou as reformas em curso, fortaleceu a ditadura do xá e abriu caminho para a revolução islâmica de 1978-1979

Mark Gasiorowski

No começo do ano 2000, o New York Times recebeu o relatório oficial do golpe de Estado executado em 1953 pela Central Intelligence Agency (CIA) contra o primeiro-ministro iraniano Mohammed Mossadegh. Em 18 de junho de 2000, o jornal publicou tal relato em seu site [1]. Os nomes de várias personalidades iranianas envolvidas estavam apagados, mas a maior parte delas foi apontada nominalmente em outro site [2] O fascinante documento contém importantes revelações sobre a maneira como a operação foi conduzida, e qualquer pessoa interessada em política interna do Irã ou em política externa norte-americana deveria lê-lo.

O golpe ocorreu em um período de grande efervescência da história iraniana e no auge da guerra fria. Mossadegh era então chefe da Frente Nacional, organização política, fundada em 1949, que militava pela nacionalização da indústria petrolífera, na época sob dominação britânica, bem como pela democratização do sistema político [3]. Essas duas questões empolgavam a população, e a Frente Nacional tornou-se rapidamente o principal ator da cena política iraniana. Em 1951, o xá Mohammed Reza Pahlevi foi forçado a nacionalizar a indústria petrolífera e a nomear Mossadegh primeiro-ministro, provocando um confronto aberto com o governo britânico. O Reino Unido reagiu organizando um embargo geral ao petróleo iraniano e iniciou manobras de longo prazo visando derrubar Mossadegh.

Inicialmente, os Estados Unidos decidiram ficar neutros e encorajaram os britânicos a aceitar a nacionalização, ao mesmo tempo em que tentavam negociar um acordo amigável, chegando até a persuadir Londres, em setembro de 1951, a não invadir o Irã. Essa neutralidade continuou até o fim do governo Harry S. Truman, em janeiro de 1953, embora muitas autoridades norte-americanas já achassem que a obstinação de Mossadegh criava uma instabilidade política, que deixa o Irã com um “perigo real de passar para trás da cortina de ferro”. Em novembro de 1952, logo após a eleição do general Dwight D. Eisenhower para a presidência dos Estados Unidos, altas autoridades britânicas propuseram, a seus pares norte-americanos, o planejamento conjunto de um golpe de Estado contra Mossadegh. Os EUA responderam que o governo, naquele momento em fim de mandato, jamais empreenderia uma tal operação, mas o de Eisenhower, que começaria em janeiro, determinado a intensificar a Guerra Fria, estaria provavelmente propenso a fazê-lo.

O relato da CIA descreve bem a maneira como a intervenção foi preparada. Após a autorização do presidente Eisenhower, em março de 1953, funcionários da CIA estudaram um modo de executar o golpe e se voltaram para o problema da substituição do primeiro-ministro. A escolha recaiu rapidamente sobre Fazlollah Zahedi, um general reformado que já havia conspirado com os britânicos. Em maio, um agente da CIA e um especialista do Irã a serviço do Secret Intelligence Service (SIS) britânico passaram duas semanas em Nicósia (Chipre), onde elaboraram uma primeira versão do plano. Autoridades da CIA e do SIS revisaram-na, e uma versão definitiva foi escrita em Londres em meados de junho.

Esse plano era dividido em seis etapas principais.

A filial iraniana da CIA e a mais importante rede de informações britânica no Irã, então dirigida pelos irmãos Rashidian, devia desestabilizar o governo Mossadegh, por meio da propaganda e outras atividades políticas clandestinas. Zahedi organizaria uma rede constituída de oficiais capazes de concretizar o golpe de Estado . Já a CIA deveria organizar a colaboração de um número suficiente de parlamentares iranianos a fim de assegurar a oposição a Mossadegh no legislativo. Sérios esforços deveriam ser empregados para persuadir o xá a apoiar o golpe de Estado, embora ficasse estabelecido que a operação aconteceria com ou sem a adesão do monarca. A CIA deveria tentar, e de maneira “legal”, derrubar Mossadegh, provocando uma crise política durante a qual o Parlamento o destituiria; a crise seria desencadeada por manifestações de protesto organizadas por líderes religiosos, que convenceriam o xá a deixar o país, ou criariam uma situação forçando Mossadegh a renunciar. Por fim, se a tentativa fracassasse, a rede militar montada por Zahedi tomaria o poder com a ajuda da CIA.

As três primeiras etapas, de fato, já haviam sido iniciadas durante a elaboração do plano de Londres. Em 4 de abril, a seção da CIA, em Teerã, recebeu um milhão de dólares destinados derrubar Mossade[gh] quaisquer meios. Em maio, ela deflagrou, com os irmãos Rashidian, uma campanha de propaganda contra Mossadegh e, supõe-se, realizou outras ações clandestinas contra ele. Esses esforços redobraram, de maneira brutal, ao longo das semanas que precederam o golpe.

A CIA entrou em contato com Zahedi em abril, pagando-lhe 60 mil dólares (e talvez muito mais) para encontrar novos aliados e influenciar “pessoas-chave”. O relatório oficial nega que funcionários iranianos tenham sido comprados. Contudo, á difícil imaginar em que mais Zahedi teria gasto o dinheiro. No entanto, a CIA compreendeu rapidamente as debilidades desse aliado, afirmando que ele não era capaz de montar uma rede militar apta a conduzir um golpe de Estado. Essa tarefa foi então confiada a um coronel iraniano que trabalhava para a CIA.

No fim de maio de 1953, a seção da CIA foi autorizada a usar cerca de 11 mil dólares por semana para comprar a cooperação de parlamentares, aumentando em muito a oposição política a Mossadegh. Esse reagiu, conclamando os políticos que lhe eram fiéis a renunciar para impedir a formação de quórum, o que traria a dissolução do Parlamento. Para neutralizá-lo, a CIA tentou convencer alguns deles a não renunciar. No começo de agosto, Mossadegh organizou um referendo no qual os iranianos se pronunciaram maciçamente a favor da dissolução e da realização de novas eleições. Isso impediu a CIA de exercer suas atividades “legais”, mesmo tendo continuado a utilizar a propaganda para imputar a Mossadegh fraude no referendo.

Em 25 de julho, a CIA começou uma longa ação para persuadir o xá a apoiar o golpe e aceitar a nomeação de Zahedi para o posto de primeiro-ministro. Durante as três semanas seguintes, quatro emissários procuraram o xá, quase todos os dias, com o objetivo de convencê-lo a cooperar. No dia 12 ou 13 de agosto, apesar de reticências pessoais, ele acabou aceitando e assinou os decretos reais ( firmans ), demitindo Mossadegh e nomeando Zahedi em seu lugar. A rainha Soraya o teria persuadido a agir assim.

Em 13 de agosto, a CIA encarregou o coronel Nematollah Nassiri de entregar os firmans a Zahedi e a Mossadegh. Mas a lentidão das negociações com o xá fragilizou o sigilo e um dos oficiais envolvidos revelou a existência do complô. Mossadegh então mandou prender Nassiri na noite de 15 para 16 de agosto, no momento em que esse se preparava para entregar o primeiro decreto. Logo após, vários outros conspiradores foram interpelados. Pronta para essa eventualidade, a CIA havia preparado unidades militares pró-Zahedi para se apoderar dos pontos nevrálgicos de Teerã. Mas os oficiais desapareceram quando Nassiri foi preso, fazendo fracassar a primeira tentativa.

Zahedi, assim como outros implicados, se refugiou em esconderijos da CIA. O xá fugiu para o exílio, primeiro em Bagdá, depois em Roma, e Kermit Roosevelt, diretor da seção local da CIA, avisou Washington de que o golpe havia fracassado. Pouco depois, recebeu ordem de abandonar a operação e voltar aos Estados Unidos.

Mas Kermit Roosevelt e sua equipe decidiram improvisar outra tentativa. Começaram distribuindo cópias dos decretos do xá para os meios de comunicação, de modo a mobilizar a opinião pública contra Mossadegh. Ao longo dos dias seguintes, os dois principais agentes iranianos executaram uma série de operações clandestinas com o mesmo objetivo. Para insurgir os iranianos religiosos contra Mossadegh, fizeram ameaças por telefone aos chefes religiosos e “simularam um atentado” contra a casa de um eclesiástico, passando-se por membros do poderoso partido comunista Tudeh [4]. No dia 18, organizaram manifestações cujos participantes fingiram pertencer ao Tudeh. Instigados por esses dois agentes, os manifestantes saquearam os escritórios de um partido político, derrubaram estátuas do xá e de seu pai e espalharam o caos em Teerã. Percebendo o que estava acontecendo, o Tudeh recomendou a seus membros que ficassem em suas casas, o que os impediu de se opor aos manifestantes anti-Mossadegh que tomaram as ruas no dia seguinte.

Na manhã do dia 19 de agosto, os manifestantes começaram a se reunir nas proximidades do bazar de Teerã. O relatório da CIA descreve esses ajuntamentos como “espontâneos”, mas acrescenta que “circunstâncias favoráveis criadas pela ação política [5]. Muitos avaliam que o vazamento foi deliberadamente organizado pelo governo ou por alguém decidido a apoiar a iniciativa de Madeleine Albright. Se for o caso, é difícil crer que o relatório tenha sido revelado integralmente, mas não se pode excluir essa possibilidade.

_________________________________________________________

[1] O documento é datado de 1954 e assinado por Donald N. Wilber.

[2] A técnica utilizada pelo New York Times foi inoperante: bastava utilizar um computador lento para ler os nomes antes que a tarja preta aparecesse.

[3] A Frente Nacional (Jebhe-ye Melli) era uma coalizão de grupos políticos seculares e religiosos, unidos sob a bandeira do nacionalismo.

[4] Partido Tudeh significa Partido das Massas. Ver

[5] O documento é datado de 1954 e assinado por Donald N. Wilber.CIA] também contribuíram para desencadeá-los” (p. XII). De fato, a divulgação dos decretos do xá, as “falsas” manifestações do Tudeh e as outras operações realizadas nos dias precedentes levaram muitos iranianos a se juntar às manifestações.

Vários membros iranianos da CIA conduziram então os revoltosos ao centro de Teerã e persuadiram unidades do exército a apóiá-los, incitando a multidão a atacar o quartel-general do partido comunista Tudeh, favorável a Mossadegh, e a incendiar um cinema e várias redações de jornais (p. 65, 67 e 70). Unidades militares anti-Mossadegh começaram imediatamente a tomar posse de Teerã, apoderando-se de estações de rádio e outros pontos sensíveis. Travaram-se intensos combates, mas as forças favoráveis ao primeiro-ministro finalmente foram vencidas. Mossadegh se escondeu, para se entregar no dia seguinte.

O relatório da CIA deixa em suspenso duas questões essenciais. Primeiro, não esclarece a origem da traição que fez fracassar a primeira tentativa de golpe, contentando-se em atribuí-la à “ação dos oficiais do exército iraniano envolvido” (p. 39). Depois, o texto não explica como a ação política da CIA favoreceu a organização das manifestações de 19 de agosto, nem qual foi a importância dessa ação na eclosão das manifestações. Outros relatórios, elaborados a partir de entrevistas com participantes de primeiro plano, sugerem que a equipe da CIA teria dado dinheiro a líderes religiosos, que provavelmente não conheciam a origem desses recursos. O relatório da CIA não confirma a versão. A quase totalidade das pessoas envolvidas está morta e, como a CIA afirma ter destruído a maior parte dos arquivos relacionados à operação, talvez essas questões fiquem sem resposta.

Também é difícil saber quem estava na origem do vazamento que permitiu a divulgação do relatório oficial e qual era a verdadeira finalidade dele. No artigo publicado em 18 de junho de 2000, o New York Times explica apenas que o documento foi fornecido por um “funcionário que conservou um exemplar”. Por coincidência, um mês antes, a então secretária de Estado Madeleine Albright reconheceu, durante um importante discurso destinado a promover uma aproximação entre os Estados Unidos e o Irã, que o governo norte-americano estivera envolvido no golpe e pediu desculpas por isso.

Comentários

EUA redescobrem tolerância

NEWTON CARLOS

Depois da síndrome do Vietnã a síndrome do Iraque? Há previsões, inclusive em Washington, de que o descarrilamento iraquiano fará da capital americana centro de um superpoder convertido à humildade, mais disposto a conversar, a buscar soluções diplomáticas, como no caso do Irã, pelo menos por enquanto. Nada de pretensões a donos do mundo que levaram ao Vietnã e ao Iraque.
A secretária de Estado, Condoleezza Rice, reafirmou-o em recado ao próprio vice-presidente dos EUA, Dick Cheney, falcão de ponta, depois que o diretor da Agência Internacional de Energia Atômica falou de “malucos que andam querendo bombardear o Irã”. Na América Latina, a referência maior dessa mudança seria a política em relação a Cuba. Washington já estaria aceitando, segundo o “Miami Herald”, uma reforma do regime cubano em vez do chamado “regime change”. Talvez um acordo de transição entre tecnocratas militares e uma nova geração à frente do PC.
No auge da guerra de palavras entre o governo Bush e Hugo Chávez, da Venezuela, foi lançada em Washington a “estratégia da inoculação” -a idéia era “vacinar” o continente contra o vírus do chavismo. Os EUA entrariam em campo com a tarefa de construir uma frente anti-Chávez, o que acabou não acontecendo. A maioria dos países latino-americanos ficou em silêncio. Rice voltou a tratar do assunto Chávez na assembléia da OEA, em termos bem mais modestos. Além de um bate-boca com o delegado venezuelano, vexame nunca experimentado antes por um enviado de Washington, Rice limitou-se a pedir que o secretário-geral da OEA fosse à Venezuela.
Miguel Insulza investigaria o caso da TV tomada por Chávez. O pedido de Rice nem sequer foi posto em votação. O próprio Insulza, chileno, foi eleito secretário-geral da OEA contra a vontade do governo Bush. Já um sintoma de perda de peso.
Um ex-embaixador americano de origem hispânica, Manuel Rocha, citado pelo “Miami Herald”, diz que o Iraque leva a política dos EUA para um centro “tolerante”, com abrangência que alcança a América Latina.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

Comentários