Arquivo de 13 de Novembro de 2007

A outra voz

A poesia é a outra voz. Sua voz é outra porque é a voz das paixões e das visões; é de outro mundo e é deste mundo, é antiga e é de hoje mesmo, antigüidade sem datas. Poesia inocente e perversa, límpida e viscosa, aérea e subterrânea, poesia de capela e do bar da esquina, poesia ao alcance da mão e sempre de um mais além que está aqui mesmo. Todos os poetas nesses momentos longos ou curtos, repetidos ou isolados, em que são realmente poetas, ouvem a voz outra. Nada distingue o poeta dos outros homens e mulheres, salvo esses momentos – raros embora freqüentes – em que, sendo ele mesmo, é outro.

Octavio Paz

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O espectáculo é a ideologia por excelência

O espectáculo (da sociedade de consumo) é a ideologia por excelência, porque expõe e manifesta na sua plenitude a essência de qualquer sistema ideológico: o empobrecimento, a submissão e a negação da vida real. O espectáculo é, materialmente, «a expressão da separação e do afastamento entre o homem e o homem». O «novo poderio do embuste» que se concentrou aí tem a sua base na produção onde surge «com a massa crescente de objectos… um novo domínio de seres estranhos aos quais o homem se submete». É grau supremo duma expansão que necessariamente se coloca contra a vida.

A necessidade de dinheiro é portanto a verdadeira necessidade produzida pela economia política, e a única necessidade que ela produz» (Manuscritos económico-filosóficos). O espectáculo estende por toda a vida social o princípio que Hegel, na Realphilosophie de Iena, concebe quanto ao dinheiro; é «a vida do que está morto movendo-se em si própria.


Guy Debord

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Dono da ilha de Caras na cadeia

José de Souza Castro, do Tamos com Raiva

Em 2003, a revista IstoÉ Dinheiro publicou reportagem apontando Cleber Marques de Paiva como um dos novos ricos do interior do país e o fotografou ao lado de seu jatinho Citation II avaliado em 4 milhões de dólares. Neste domingo, o Jornal do Brasil informou que Cleber, “Rei do café e dono da Ilha de Caras” havia sido indiciado na última sexta-feira, pela Polícia Federal, em Brasília, por formação de quadrilha, corrupção ativa e sonegação fiscal. Dois dias antes, ele havia sido preso na Operação Roterdam, com outras nove pessoas, entre elas os diretores de sua empresa, Marconi Maurício Miranda e Renato de Andrade Bueno. Neste domingo, quando terminava o período de prisão preventiva, os jornais mineiros, a exemplo dos dias anteriores, ignoraram completamente o assunto.

A Globo Minas, filial da TV Globo, informou sobre as prisões na quarta-feira, mas depois parece ter tirado o assunto de sua pauta. Porém, o velho JB, embora desdentado por mais de vinte anos de crise, voltou ao assunto neste domingo, para revelar que a prisão de Cleber Marques de Paiva foi um choque para Varginha, que ficou famosa na década passada por conta de histórias de discos voadores e ETs. “Dono de uma infinidade de negócios, entre os quais se destacam fazendas na região com mais de dois milhões de pés de café, de uma Ilha em Angra dos Reis, no Rio – onde a revista Caras levava seus convidados – Paiva é uma celebridade na cidade. Seu mais importante negócio era, até a semana passada, o Armazéns Gerais Agrícolas Ltda, que detém a permissão para explorar o Porto Seco Sul, o maior do gênero em Minas Gerais e por onde passam 45% dos produtos de exportação do Estado - o café é o principal”, relata o JB.

Os leitores do jornal carioca souberam também que os investimentos da família Paiva na região são estimados em cerca de US$ 500 milhões, divididos em várias atividades, entre elas um condomínio alfandegário com mais de 1 milhão de metros quadrados nas proximidades do Aeroporto de Varginha. E que “as investigações da Polícia Federal apontam que Paiva é suspeito de aliviar a situação de empresários em conversações com os auditores da Receita Federal presos por falsificar laudos de desembaraço de mercadoria para sonegar impostos de importação e exportação”. E acrescenta o jornal:

“– A prisão foi abusiva. Não há nada que comprometa meu cliente. A Polícia Federal grampeou telefones, traduziu diálogos presumindo fatos (delituosos) e a Justiça aceitou – disse o advogado Luiz Fernando Valadão, que entrou com pedido de habeas corpus no Superior Tribunal de Justiça (STJ), em Brasília, para tentar libertar o empresário.”

Leitor de jornais há várias décadas, não me impressionei com essa declaração do advogado, que o jornal acatou, sobretudo, porque não podia ser acusado de não ter ouvido o outro lado. Como diz John Le Carré em “Single & Single”, de 1999, “to a lawyer facts were there to be challenged. All facts. The more self-evident a fact might appear to the layman, the more vigorously must the conscientious lawyer contest it” (”para um advogado, fatos existem para serem desafiados. Todos os fatos. Quanto mais prontamente compreensível um fato possa parecer a um leigo, mais vigorosamente um advogado consciencioso deve contestá-lo”.)

Pois não é assim que funciona a justiça?

Bem, mas o JB diz ainda que o problema em Varginha despertou o governo para a fragilidade do sistema de fiscalização nas 62 extensões alfandegárias, os chamados portos secos, que funcionam em várias regiões do país. O de Varginha é o maior deles. Criados a partir de 1995, no governo Fernando Henrique Cardoso, os portos secos deveriam facilitar o trânsito de mercadorias entre as regiões produtoras e consumidoras. Funcionam como uma extensão da Receita Federal na execução de conferência e despachos aduaneiros e, além de abrir caminhos para interiorizar as atividades ligadas à importação e exportação, têm também a finalidade de evitar o deslocamento de contribuintes e produtores até os portos e aeroportos.

O Porto Seco Sul, localizado a uma distância média de 350 quilômetros do Rio de Janeiro, São Paulo e Campinas, é estratégico. Seu principal produto é o café, cujo mercado é dominado justamente por uma das empresas da família Paiva, a Exprinsul, que detém há anos o título de maior exportador do produto, com algo em torno de 12% do volume enviado ao exterior, especialmente para Estados Unidos e Alemanha. Nos primeiros nove meses deste ano, a empresa de Cleber Paiva movimentou R$ 651 milhões em importação e outros R$ 116 milhões em exportação, traduzidos em 12.666 despachos aduaneiros de desembaraço ou algo em torno de 110 mil toneladas. Informa ainda o JB:

“Estimativas da Polícia Federal apontam que no Porto Seco Sul de Minas, cujas atividades estão suspensas, o volume sonegado nos últimos 10 anos pode passar de R$ 1 bilhão em decorrência de uma série de fraudes supostamente praticadas com a conivência de auditores fiscais e despachantes aduaneiros e a cumplicidade da empresa permissionária da exploração, a Armazéns Gerais Agrícolas Ltda, que pertence ao empresário Cleber Marques de Paiva, preso pela Polícia Federal”.

A Receita Federal decidiu, depois que se soube que as fraudes vinham ocorrendo desde a instalação da alfândega em Varginha, há anos, reavaliar a permissão dada à Armazéns Gerais Agrícolas, que tem validade garantida através de licitação, até dezembro do ano que vem. Também será reforçado o esquema de fiscalização nos demais portos secos do país que funcionam em regime de concessão ou por permissão da Receita Federal. Destes, a maioria, 27, localizam-se em São Paulo; cinco em Minas (incluindo o de Varginha); oito no Rio Grande do Sul; seis no Paraná; três no Rio de Janeiro; três no Espírito Santo; dois na Bahia e os demais em Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Amazonas, Pará e Pernambuco.

Segundo a Polícia Federal, o que aparentava tratar-se de um armazém alfandegário normal, escondia um dos mais bem azeitados esquemas de fraude e sonegação fiscal já montados no país. Os primeiros indícios foram levantados pelo Ministério Público Federal e foram mantidos em sigilo até o mês passado. A Justiça Federal de Varginha aceitou denúncias, ações penais contra 16 pessoas e autorizou a Polícia Federal a prender 10 pessoas e fechar provisoriamente a alfândega para interromper a farra de fraudes. Havia de tudo: falsificação de documentos de desembaraço, favorecimento ilícito a empresários e despachantes, tráfico de influência, corrupção ativa e passiva, contrabando, descaminho e formação de quadrilha para sonegar impostos e dividir a propina entre os envolvidos.

Tradicional família mineira

Em 2003, quando a “Isto É Dinheiro” se ocupou de Cleber, ele estava vivendo numa espécie de paraíso, depois de tirar a empresa da família de uma situação difícil. Segundo a revista, nos sete anos de crise da cafeicultura e da empresa, ele havia engordado e chegara a pesar 103 quilos, mas agora, depois de muita malhação e regime alimentar, podia posar, sem fazer feio, ao lado de seu Citation II de 4 milhões de dólares. Estava com 74 quilos, havia quitado a dívida de R$ 60 milhões e dizia ter no cofre da empresa holding da família, a Unecom (União de Empresas de Comércio Mundial), R$ 32 milhões em excesso de liquidez para investir em condomínios industriais e numa escola de pilotagem de avião.

Em junho daquele ano, Cleber havia convencido 18 cafeicultores a formarem o Consórcio Agrícola de Fazendas Especializadas (CAFE) que deveria produzir no primeiro ano pelo menos 120 mil sacas de “café ecologicamente correto”, para faturar mais e acabar com a imagem, no exterior, de que a produção de café no Brasil era conduzida sem cuidados sociais ou com o meio ambiente. “É este o paradigma que o CAFE quer derrubar”, dizia nosso virtuoso barão.

Foi portanto com grada satisfação que a Câmara Municipal de Varginha aprovou por unanimidade, em dezembro de 2005, a Moção de Aplauso ao Centro de Comércio de Café de Minas Gerais, presidido por Cleber. Esse centro havia sido fundado em dezembro de 1980, durante assembléia geral no Varginha Tênis Clube, e seu primeiro presidente fora Adalto Marques de Paiva. Cleber era o quinto presidente da entidade. Segundo a Câmara de Vereadores, dentre as várias ações da CCCMG, destaca-se “a criação do 1º Porto Seco do País, em Varginha, com a finalidade de promover o desembaraço aduaneiro para a exportação de café”. Por acaso, a concessão desse porto seco foi dada, no governo FHC, à empresa do presidente da CCCMG. Na antiga sede da entidade, Cleber instalou o Comcafé.

Sobre ele, escreveu em 31 de agosto deste ano Ensei Neto, no site The Coffee Traveler:

“Numa das principais praças da cidade, fica o Comcafé, que é um misto de cafeteria e restaurante na casa onde funcionou anteriormente o Centro de Comércio de Café de Varginha. (…) O Comcafé é um local muito agradável, decorado com muito bom gosto e um toque pessoal do Cleber Marques de Paiva, atual presidente do CCC de Varginha”.

A praça em que se instala o Comcafé, noblesse oblige, chama-se Praça José de Rezende Paiva. Foi ali que se realizou, há dois meses, o lançamento do café industrializado dos produtores vencedores do 14º Concurso Qualidade Minasul do Café, com discurso de Cleber, o autor da idéia. A família Paiva é uma das mais tradicionais de Varginha. Um dos antepassados ilustres é o Alferes José Maximiano Baptista, que presidiu a Câmara Municipal entre 1884 e 1886 e se casou em segundas núpcias com Maria Cândida de Paiva, com 12 anos de idade. José de Rezende Paiva é neto do casal, e foi prefeito de 1961 a 1963.

Não me foi possível descobrir o parentesco de Cleber com esse Paiva. Nem com o major Evaristo Gomes de Paiva, que presidiu a Câmara Municipal por várias vezes, a partir de 1887. Ou com José Augusto de Paiva, que presidiu entre 1923 e 1926 e entre 1931 e 1935, tendo sido também prefeito, como o major Evaristo – que não era militar, mas advogado.

NovaE

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Modernidade na província

Magnólia Costa

Efemeridade e obsolescência são conceitos indissociáveis da moda. Quando se trata de moda na modernidade, a partir do século XIX, esses conceitos fundamentam a lógica da novidade, manifesta em práticas de consumo que decorrem do aumento da produção de bens e da difusão de sua disponibilidade mercantil.

A lógica da novidade dissemina-se com a consolidação do capitalismo: a sazonalidade das coleções, uma invenção da alta-costura, gera hábitos de consumo impostos inicialmente às camadas burguesas européias e norte-americanas, em seguida a extratos sociais de menor poder aquisitivo em várias partes do mundo.

Do ponto de vista social, tais hábitos de consumo reiteram a polarização dos gêneros, funcionalizando-os: o homem produz e acumula riqueza, a mulher a faz circular. Não à toa o consumidor de moda é predominantemente feminino.

Sendo a modernidade um fenômeno das sociedades industriais, ela custa a instalar-se no Brasil. Por conseqüência, a lógica da novidade demora a inserir-se culturalmente. E aqui, como nas sociedades industriais, o agente disseminador dessa lógica é a moda, que chega à cidade de São Paulo no início do século XX, desencadeando um lento, porém vigoroso processo que articula a oferta de vestuário de luxo e o estímulo publicitário ao seu consumo.

Ao analisar esse processo no recém-lançado “Moda e Sociabilidade – Mulheres e Consumo na São Paulo dos Anos 1920”, Maria Claudia Bonadio discute a modernização no Brasil, relacionando-a à formação de hábitos de consumo que, instituídos pela mulher, têm fortes implicações na definição do seu papel social e das suas formas de sociabilidade. Bonadio dirige a análise por duas vias complementares: na primeira parte do livro, discorre sobre a inauguração e a clientela da filial brasileira das Mappin Stores, em 1913; na segunda, estuda a “Revista Feminina”, periódico conservador destinado à mulher burguesa -ou, pelo menos, defensora de valores burgueses-, onde o Mappin anuncia suas novidades e uma misteriosa Marinette mantém uma conveniente coluna fixa de moda.

Mesmo seguindo os padrões das lojas de departamentos européias, uma invenção do final do século XIX, o Mappin apresenta-se inicialmente como “casa de modas” destinada às senhoras da alta sociedade paulistana, formada predominantemente pela elite cafeeira. Para especificar as atividades comerciais e o público consumidor do Mappin, a autora apóia-se em ampla pesquisa de anúncios publicitários, desde a fundação da loja até o início dos anos 1930, quando se dá a popularização da clientela.

Bonadio realizou essa pesquisa nos arquivos da loja e dos jornais em circulação na época, confrontando os dados coletados com depoimentos pessoais colhidos direta e indiretamente. O mérito da pesquisadora não reside, evidentemente, na abordagem quantitativa das imagens e dos textos constantes nesse vasto material, e sim na perspicácia com que os analisa: sem recorrer a nenhum método historiográfico específico, a autora logra êxito em historiar criticamente, explicitando os próprios mecanismos que a levam a propor hipóteses e tecer conclusões.

Uma conclusão: a mulher faz uso da moda, e o hábito de consumi-la tira a mulher de casa, levando-a a diversas situações de exposição social em que ela se vale da moda para expressar sua identidade de classe e sua “personalidade”. Esta é curiosamente definida na frágil economia que se estabelece quando a mulher burguesa paulistana dos anos 1920 tenta conciliar modernidade (modelagens amplas, tecidos leves, decotes profundos, cabelos curtos) e papel social (esposa, mãe, dona-de-casa).

Uma hipótese: depois de considerar informações de várias fontes, Bonadio propõe que Marinette, colunista de moda da “Revista Feminina” por mais de 20 anos, tenha sido um homem, o que é bastante significativo.

Mesmo se tratando de um periódico zeloso de valores católicos e burgueses (expressos em seções fixas como “O menu do meu marido”), a “Revista Feminina” publicava anúncios pagos do Mappin dirigidos à mulher “moderna”, trajada “à la garçonne” com as últimas novidades de Paris -coincidentemente, a leitora-alvo de Marinette, cujo texto contrastava de maneira chocante com a ideologia da revista.

Leia-se na hipótese de Bonadio a reedição brasileira da hoje clássica polaridade funcional dos gêneros: o homem gera riqueza, produzindo bens e/ou facilitando o acesso ao consumo deles, a mulher faz a riqueza circular, adquirindo as novidades disponíveis no mercado.

Embora o estudo da moda seja indispensável à compreensão de vários fenômenos sociais, há pouca reflexão desenvolvida na área, principalmente no Brasil. Os livros disponíveis sobre o assunto situam-se, em sua maioria, na generalidade informativa dos manuais, literatura caracterizada pela superficialidade e pouca organicidade.

A leitura de “Moda e Sociabilidade” é recomendável não apenas pela carência de publicações sérias e rigorosas na área de moda, mas pela solidez das suas reflexões, que interessam ao historiador, ao sociólogo, ao economista e ao estudioso da cultura brasileira. Nesse livro, a moda e o consumo de moda articulam uma narrativa que revela aspectos quase desconhecidos dos primórdios da modernidade brasileira.

O livro:
Moda e Sociabilidade - Mulheres e Consumo na São Paulo dos Anos 1920, de Maria Claudia Bonadio. Editora Senac. 205 págs., R$ 47.

Publicado em 5/11/2007

Magnólia Costa é doutora em filosofia pela USP, professora de história e crítica de arte na Faap, na Faculdade Senac de Moda e no MAM.

Revista Trópico.

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O cineasta das obras-primas

Luiz Zanin Oricchio

Quando Stanley Kubrick morreu, em 1999, um jornalista escreveu que agora não mais poderia viver à espera do próximo filme do cineasta, e que com isso sua vida se empobrecera - e muito. De fato, Kubrick, nascido em 26 de julho de 1928, em Nova York, é um dos poucos cineastas (eu diria mais, um dos poucos artistas) contemporâneos capazes de causar esse tipo de impressão, de que seu desaparecimento implica uma limitação às nossas expectativas estéticas e mesmo em nossa compreensão do mundo. E que outra coisa dizer de um diretor que legou peças de antologia como 2001: Uma odisséia no espaço, Lolita, Laranja mecânica, Doutor Fantástico, O iluminado, entre outros filmes?

Podemos fazer jus a Kubrick analisando sua carreira filme a filme, ou tomando-a em seu conjunto. Vendo-se cada peça de maneira isolada se constata uma grande concentração de obras-primas em uma única filmografia. A análise geral manda dizer que o nível de qualidade raramente cai, porque, provavelmente, o cineasta tinha, como poucos em seu métier, amplo domínio sobre as diferentes etapas do fazer cinematográfico. E não por acaso. Em um dos seus primeiros filmes, o curta-metragem Fear and desire (1953), história de quatro soldados perdidos entre as linhas inimigas, Kubrick foi produtor, diretor, roteirista, fotógrafo e montador. Foi um fracasso comercial, mas muito instrutivo do ponto de vista técnico.

Já seu magnífico noir O grande golpe (1956), história de um assalto em um hipódromo, tornou-se grande sucesso de público, e também de crítica. Bastante influenciado por Robert Aldrich e Max Ophuls, Kubrick trabalha visualmente com longos planos-seqüência nesse caso de um assalto fracasso estrelado por Sterling Hayden (que curiosamente está em O segredo das jóias, de John Huston, sobre tema semelhante). Esse filme tem sido exibido na TV a cabo ultimamente e revê-lo sempre serve para comprovar como Kubrick foi eclético. Dominando a forma, pôde se exercitar com igual competência em gêneros diferentes. E, por isso mesmo, suas obras-primas estão divididas em uma série de gêneros distintos - noir, ficção científica, filme de época, guerra, romance, thriller etc. Conclusão: quando se trata de um grande artista, no fundo não é o gênero que conta. O gênero apenas se presta para o exercício de um ponto de vista, uma visão de mundo e um estilo pessoal.

Será assim no antimilitarista Glória feita de sangue (1957) e também no filme-histórico em que retorna à Roma Antiga, Spartacus (1960). No primeiro, aborda um episódio vergonhoso da Primeira Guerra Mundial, que fez o filme ficar proibido na França durante muito tempo. Usa uma fotografia notável, que torna o conjunto das imagens parecido a uma obra de fato rodada na época em que os fatos acontecem. E que fatos! Uma missão inútil, que termina em massacre e ainda custa o fuzilamento dos que se recusam à carnificina. É uma denúncia do absurdo da guerra que tem de ser citada ao lado de clássicos como A grande ilusão, de Jean Renoir. A cena final, com a moça alemã cantando num cabaré de franceses, é de cortar o coração.

Spartacus, cujo roteiro se deve a dois “vermelhos” da época do macarthismo, Howard Fast e Dalton Trumbo, fala da revolta dos escravos contra os senhores de Roma, numa clara alusão política. Além disso, o filme tem um tratamento cru, nada convencional, e destoante da maneira como a Roma antiga era retratada então, em melodramas cristãos moralizantes.

Um marco na carreira de Kubrick será Lolita (1962), adaptado da obra polêmica de Vladimir Nabokov. Como se sabe, o cineasta teve de enfrentar resistências da indústria para adaptar essa obra que mexe em tema tabu - a pedofilia. No romance, Lolita é uma menina mesmo. No filme, aparece mais próxima da idade adulta, na figura da adolescente vivida por Sue Lyon. Mesmo assim, a Lolita de Kubrick não deixou de provocar reações. E, mais uma vez, essas se devem tanto ao tema como à maneira como Kubrick coloca a câmera e arma o plano. Por exemplo, a primeira vez que o personagem de Humbert -Humbert (James Mason) vê a sua Lolita é de uma sensualidade inesquecível, qualquer que seja a idade da garota em questão.

Em Doutor Fantástico (1964), Kubrick voltará ao tema da guerra, já abordado em Glória feita de sangue e ao qual retornará mais adiante em Nascido para matar (1987). Mas, no contexto da guerra fria, usará de uma fina ironia para melhor discutir o absurdo da situação em que a política parece refém de militares alucinados. Com Peter Sellers fazendo diversos papéis (inclusive o dr. Strangelove, do título original), Kubrick irá examinar como o militarismo e a luta entre as então duas superpotências, estava à beira de mandar o mundo à breca, o que de fato quase aconteceu durante a chamada “crise dos mísseis” em Cuba, tendo como antagonistas o presidente John Kennedy e o premiê soviético Nikita Krushev.

Já 2001: Uma odisséia no espaço (1968) não se preocupa tanto com a corrida espacial, outra face da guerra fria entre as superpotências, mas explora outros pontos inerentes ao desenvolvimento tecnológico acelerado: a relação entre homem e máquina (o caso do computador Hal), ainda incipiente, e a eterna busca humana pelas origens. O que faz dessa adaptação da obra de Arthur C. Clarke uma ficção científica em tom metafísico e um dos filmes de visual mais impactante da história do cinema.

Em seu filme seguinte, Laranja mecânica (1971), Kubrick trata de outra das distopias possíveis, associada ao futuro, desta vez não se referindo a máquinas que saem do controle, mas aos próprios seres humanos, incapazes de dominar seus instintos. Agora é a violência sem controle, tal como conhecemos hoje nas grandes cidades e, por paradoxo, as formas de combatê-la, por um tipo de “tratamento psicológico” radical, conhecido nos laboratórios como condicionamento aversivo. Mas é também a plasticidade e a força das imagens que impressionam aqui, com sua aceleração e desaceleração de cenas de tortura e de estupro. O filme foi proibido no Brasil durante a ditadura militar.

Barry Lindon (1975) talvez seja o Kubrick menos amado - e há razões para isso. Seu retrato de um escocês que usava a hipocrisia britânica como arma social foi chamado pela crítica Pauline Kael de “bloco de gelo”. Uma narrativa em off antecipatória e a longa descrição em imagens dos ambientes tornam monótona essa adaptação de W. M. Thacheray para a maior parte dos espectadores. Nesse sentido, parece ser um filme que se limita à descrição do grand monde europeu, sem entrar no campo analítico.

Com O iluminado (1980), adaptado da obra de Stephen King, Kubrick faz um clássico do suspense. Antológica é a interpretação de Jack Nicholson como o escritor perturbado pela solidão do Hotel Overlook, isolado no inverno pela neve, e que passa a ameaçar a própria família. Nesse filme, o steadycam, dispositivo que permite produzir o efeito de câmera na mão, mas sem oscilações, é usado de maneira intensiva. Permite algumas filmagens de arrepiar através dos imensos corredores do hotel, quando algumas figuras do passado parecem sempre prestes a surgir de cada canto oculto.

Em Nascido para matar (1987), Kubrick, depois de Coppola, Cimino e Oliver Stone, volta-se para o Vietnã, essa ferida narcísica norte-americana. Essa adaptação do romance enxuto de Gustav Hasford, The short-timers, contém cenas que talvez tenham servido de inspiração para José Padilha em Tropa de elite, com o treinamento sadomasoquista dos militares. É, ainda uma vez, o retorno de Kubrick ao absurdo da guerra, mas enfraquecido em sua segunda parte, que se utiliza de imagens clássicas e pouco surpreendentes, fato inusitado em cineasta do nível de Kubrick. A originalidade está em mostrar o exército não como fábrica de máquinas de matar, mas “máquinas de deixar-se matar”, colocando a ênfase no lado sacrificial da atividade militar.

De olhos bem fechados (1999) é o título da adaptação de Pequeno romance de sonho, de Arthur Schnitzler. É a despedida de Kubrick, que morreu depois de ter feito a primeira versão da montagem. Interpretado pelo então casal na vida real Tom Cruise e Nicole Kidman, mostra como a simples confissão de um devaneio, uma insinuação fantasiosa de adultério, pode levar o marido a uma espécie de descentramento mental. Kubrick capta bem o espírito do romance deste contemporâneo de Freud e lhe dá a estrutura de um sonho - aspecto que não foi bem compreendido por parte da crítica, muito comprometida com a estética naturalista dominante. O ponto de vista é o da fantasia do personagem de Cruise e esta não necessariamente tem a ver com a realidade objetiva. Talvez seja, dos filmes de Kubrick, o menos compreendido, o que é uma pena.

Sua obra, relativamente sintética, marcou profundamente a cultura cinematográfica moderna, dos anos 50 em diante. Sem trabalhar, como outros autores, na ruptura mais radical da linguagem cinematográfica, Kubrick foi um cultor da forma, sempre longamente pensada em função do tema a tratar. Talvez por esse motivo, haja sempre nele um impulso em limitar a extensão da emoção, como se temesse o melodrama dominante em Hollywood. Por isso, não raro, seus filmes apresentam recorte um tanto cerebral, o que não chega a ser um defeito. Pelo menos para quem não considera o cérebro um órgão inferior ao coração.

Luiz Zanin Oricchio é jornalista, crítico de cinema de O Estado de S. Paulo

Revista Cult

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Sarkozy diz que continuará com reformas apesar das greves na França

Estrasburgo (França), 13 nov (EFE).- O presidente francês, Nicolas Sarkozy, afirmou hoje que levará “até o fim”, e “com determinação”, as reformas econômicas no país, apesar da nova onda de greves.

“Levarei as reformas até o fim. Nada me desviará do meu objetivo.

É o melhor serviço que posso prestar à Europa”, ressaltou Sarkozy, em um discurso no plenário do Parlamento Europeu.

O êxito das reformas “interessa a toda a Europa”, já que elas permitirão à França sanear seus gastos públicos e cumprir seus compromissos com a UE, acrescentou.

Também afirmou que o programa de reformas é o mais ambicioso iniciado na França desde 1958 e que os cidadãos franceses “as aprovaram” ao elegê-lo para o Palácio do Eliseu, já que votaram nele como presidente em uma campanha baseada exatamente nessas medidas.

Em breves declarações posteriores, Sarkozy considerou que as greves “não são um teste” para o modelo social europeu.

“Há reformas que foram aplicadas em toda a Europa. Fui eleito para colocá-las em andamento”, disse o presidente francês, que acrescentou que o fará “com determinação e sangue frio”.

As paralisações contra a reforma dos regimes especiais de previdência incluem a empresa nacional de ferrovias (SNCF) e a empresa de transporte urbano de Paris (RATP), além da companhia de energia elétrica EDF e a de gás GDF, e mobilizam ainda os estudantes contra a reforma universitária.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

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Sérgio Cabral e a criminalização dos pobres

Mário Augusto Jakobskind

Sérgio Cabral, governador do Estado do Rio de Janeiro, é uma das figuras políticas da atualidade das mais nefastas. A todo o momento ele justifica a (visível) violência policial em áreas pobres desta cidade. A última desse senhor, que é um dos responsáveis pelo agravamento do quadro de violência na cidade do Rio de Janeiro, é dizer que os moradores de favelas, quando reclamam da ação policial, são pagos pelo tráfico. Ou seja, de antemão, a política de Estado que gera a truculência policial é justificada. Diariamente, os jornais eletrônicos mostram imagens de policiais subindo morros com suas metralhadoras em busca de traficantes. De antemão, qualquer cidadão que venha a morrer em um suposto confronto é traficante. Se for trabalhador, como volta e meia tem acontecido, não importa, as autoridades da área de segurança vão justificar a violência sob qualquer preço e condenar quem, das áreas pobres, denunciar a violência policial.

E quando isso acontecer, ou alguma entidade ilibada, como a Ordem dos Advogados do Brasil, seção RJ, criticar a ação policial, Cabral convoca o gaúcho José Mariano Beltrame, um cidadão do gênero acima de qualquer suspeita, para responder, sempre de forma arrogante e autoritária, como se o ideal de um Secretário de Segurança fosse impor respeito pelo medo e ameaças.

A área de segurança do Estado do Rio - que recebeu o apoio do ministro da Defesa, Nelson Jobim (*), o relator-falsificador de dispositivos da Constituinte, segundo o próprio admitiu, não usando o termo falsificador - está adotando uma política de confronto com os narcotraficantes por entender que essa é a melhor forma de combater a delinqüência. É o esquema Bope, Tropa de Elite (ou será da elite?) em ação, agora contemplado no cinema, que dá voto na classe média senso comum, a mesma que depois de ler Veja, O Globo e ver o Jornal Nacional, defende a matança indiscriminada. Na prática, embora não tenha coragem para afirmar, o que defendem é a filosofia do “pobre (bandido) bom é o pobre (bandido) morto”, seguindo a lei do deus mercado, cujo único conceito de cidadania é o do consumidor.

Os vôos rasantes que Brizola proibia

Matança indiscriminada, é isso mesmo, ou será que alguém tem dúvidas a respeito? Quem viu as imagens nos telejornais da Globo na favela da Coréia de um helicóptero atirando em dois supostos narcotraficantes, mesmo admitindo-se que fossem narcotraficantes, completamente fora de combate, pode imaginar o que os agentes da lei andam aprontando nas áreas pobres da cidade de difícil acesso? Como nos velhos tempos da ditadura quando os homens da lei afirmavam, depois de matar opositores, que eles morreram em confronto. Até porque, vale sempre repetir, que a maioria dos que vivem em áreas pobres, não são traficantes, mas sim trabalhadores ou gente a procura de trabalho.

E quem não tem memória fraca lembra que o então governador Leonel Brizola, satanizado pela mídia conservadora e pelos mesmos setores senso comum que hoje aplaudem o Bope, proibia os vôos rasantes de helicópteros da polícia nos espaços das favelas. Agora, com Cabral e mesmo com outros governadores, essa prática passou a ser de rotina.

O Governo do Estado do Rio de Janeiro, depois das andanças de Sérgio Cabral pelo mundo, principalmente na Colômbia, radicalizou no confronto imaginando que a violência estatal vai acabar com a violência dos narcotraficantes. E, nessa guerra absurda, quem mais sofre é a população dos bairros pobres, que vive sobressaltada, tanto pela violência policial como a dos narcotraficantes pé-de-chinelos, pois os grandões, os da Vieira Souto, continuam fazendo das suas nos paraísos fiscais, lavando, traficando ou aprontando impunemente o que melhor lhes convém para aumentar os lucros.

Corrida desenfreada pela audiência

É isso aí. E no meio desse panorama lamentável, a mídia conservadora cumpre o seu papel, como uma espécie de guardiã do senso comum. Nesse turbilhão sangrento, a diretoria do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro queima a imagem da própria categoria ao incentivar e aplaudir a realização de um curso de segurança para “cobertura jornalística em área de risco”, ministrado por um instrutor militar com experiência no Afeganistão e Iraque. O conservador O Globo também aplaudiu a iniciativa conjunta do sindicato dos jornalistas e dos sindicatos patronais de jornais, rádios e TVs. Coisa boa não pode ser, até porque, trabalhador e patrão é igual a água e azeite, não combinam.

Ou seja, a diretoria do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro em vez de se posicionar contra a política de criminalização dos pobres embarca numa canoa furada para supostamente proteger os jornalistas que fazem reportagens nas chamadas áreas de risco. Cursos dessa natureza, ainda por cima ministrados por instrutor militar que não se identifica, segundo O Globo, por “questão de segurança”, dá, no mínimo, para desconfiar. Afinal, depois de circular no Afeganistão e no Iraque junto às tropas de ocupação, o tal instrutor, de nacionalidade inglesa, no mínimo teria contas a ajustar em um tribunal penal internacional, que o ocupante-mór daqueles dois países, os Estados Unidos, se recusa a reconhecer.

E, como se não bastasse, a prática dessa iniciativa não é só inócua, como também está associada à corrida desenfreada pelo ibope. E por que o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro silencia diante da prática de repórteres em área de risco, estimulados por mega-empresários midiáticos atrás do lucro fácil, que usam como escudo a própria polícia e às vezes tiram fotos ou filmam no interior do Caveirão? Repórteres que na prática se espelham nos jornalistas estadunidenses que acompanhavam as tropas invasoras em cima dos tanques.

Por essas e muitas outras, inclusive na área de meio ambiente, que vale um outro comentário (não é mesmo secretário Carlos “eucalipto” Minc?), dá para afirmar em alto e bom som que o governo do Estado do Rio de Janeiro é um desastre sob todos os pontos de vista. Tem mais, a continuar a política de confronto como vem sendo colocada em prática pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro, as perspectivas para a cidade do Rio são assustadoras. Quem conseguir viver, e não for vítima de bala perdida, verá.

Ah, sim: quem ainda se lembra das declarações de um oficial da PM, de charuto na boca dizendo que o maior sonho dele era combater no Iraque, claro, ao lado das tropas de ocupação que invadiram aquele país do Oriente Médio em busca de petróleo? O referido deve continuar a cumprir as missões de sempre, ou seja, atacar alvos nas áreas pobres do Rio de Janeiro. E, se bobear, daqui a pouco Beltrame, Sérgio Cabral e outros da cúpula estadual fluminense de segurança farão visitas relâmpagos ao Iraque aprender a lição de combate. Não será surpresa.

* Quando foi deputado federal e na Constituinte, Jobim introduziu na Constituição da República artigos que escreveu e não submeteu à votação do Parlamento. Um dos dispositivos é o que estabelece o princípio da independência entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Confessou a fraude e permanece impune. Segundo os professores Adriano Benayon e Pedro Dourado de Rezende, Jobim adicionou três incisos ao artigo 172 da Carta Magna, para proibir que os recursos destinados ao “serviço da dívida (isto é, ao pagamento de juros aos bancos) pudessem ser remanejados no Orçamento”. O estudo dos dois professores revelou que, com a falsificação, essa não confessada por Jobim, o serviço da dívida foi multiplicado, para gáudio do capital financeiro internacional. Dá para entender porque ele é tão badalado pela mídia conservadora.

Mário Augusto Jakobskind é jornalista.

Correio da Cidadania
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O Imperialismo e a Guerra contra o Irã

Osvaldo Coggiola

O provável ataque militar, não só norte-americano, mas “ocidental” (Europa incluída), contra o Irã, sob pretexto de impedir o desenvolvimento de armas nucleares por este país, está posto na agenda política mundial. E não tem nada de improvisado. Quase metade dos 277 navios da frota de guerra dos Estados Unidos está fundeada próxima ao Irã. Em aeródromos espalhados pelo mundo, milhares de aviões também esperam. Os EUA lançaram também o maior conjunto de medidas punitivas impostas ao Irã desde 1979. [1]

Desde março de 2006, o Irã é apresentado como “o maior perigo mundial” pelos EUA. Em janeiro desse ano, Bush classificou o país de “grave ameaça à segurança do mundo”. Mas, nesse momento, uma ação unilateral contra o Irã teria transformado os EUA, aos olhos da opinião pública, no maior inimigo da comunidade muçulmana. Uma escalada progressiva foi sendo desenhada: em fevereiro de 2006, Bush conseguiu a aprovação do Congresso para a liberação de uma verba de US$ 75 milhões a ser usada em um programa do Departamento de Estado destinado a “promover a abertura e a liberdade” no Irã. Mas também determinou meios secretos de atacar o regime militarmente, sem a necessidade de um decreto presidencial formal, fazendo com que o Paquistão e Israel armassem e financiassem grupos guerrilheiros já existentes nas áreas balúchis e curdas, por meio de relações bem enraizadas entre os EUA, o serviço secreto paquistanês (ISI) e o serviço secreto israelense (Mossad).

Na verdade, já em 2004 evidenciou-se a preparação de uma guerra contra o Irã, com uma eventual utilização de ogivas nucleares, preparada conjuntamente entre os EUA, Israel, Turquia, e o quartel general da OTAN em Bruxelas. Forças da coligação EUA-Israel-Turquia, num estado de preparação avançada, realizaram desde o começo de 2005 diversos exercícios militares, enquanto as forças armadas do Irã, na previsão de um ataque, realizavam manobras no Golfo Pérsico. Era como se a chamada “comunidade internacional” aceitasse a eventualidade de um holocausto nuclear “localizado”. O exército israelense começaria os ataques. Fontes militares norte-americanas confirmaram que o ataque ao Irã seria muito mais importante que o ataque israelense, de 1981, ao centro nuclear de Osirak, no Iraque. Utilizando todos os recursos militares dos EUA na região, poderiam destruir-se as vinte instalações nucleares “suspeitas” do Irã.

A revelação de que o exército dos EUA estaria discutindo o uso de armas nucleares “táticas” contra alguns alvos no Irã foi revelada por Seymour Hersh, o jornalista que revelou ao mundo a infame prisão de Abu Ghraib: “Aviões de combate norte-americanos com capacidade de carga fizeram simulações de vôos com bombas nucleares, dentro do alcance dos radares costeiros iranianos”. Diante da afirmação do premiê iraniano de que “já temos mais de três mil centrífugas em atividade, e outras estão sendo instaladas”, um conhecido think tank de atiçadores de fogo, o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos de Londres, afirmou que, caso os iranianos conseguissem pôr em funcionamento três mil centrífugas, eles poderiam construir uma bomba atômica em menos de um ano.

Em janeiro, cinco iranianos foram detidos por americanos no Iraque, acusados de apoiar “insurgentes iraquianos”. Suspensa por causa da crise diplomática entre Grã-Bretanha e Irã, devido à prisão pelo Irã de 15 militares britânicos entre 23 de março e 4 de abril, a questão nuclear iraniana reapareceu, depois da libertação dos boys, e desta vez com afirmação, pelos Estados Unidos, de considerarem o emprego de armas nucleares táticas, ou seja, bombas atômicas de menor poder de devastação. Nesse caso, romper-se-ia a chamada “barreira da dissuasão nuclear”, vigente desde a ofensiva ao Japão em 1945, com o lançamento das bombas em Hiroxima e Nagasaki. [2]

Nessa opção, não haveria o envio de tropas americanas em solo iraniano, tropas neste momento insuficientes para “atender” Iraque e Afeganistão ao mesmo tempo, mas o uso da força aérea, com ataques específicos a instalações nucleares e destruição maciça de complexos militares e político-administrativos.

Em agosto, os Estados Unidos passaram a classificar a Guarda Revolucionária do Irã como um grupo terrorista. Pela primeira vez na história, uma força militar oficial de um país soberano foi considerada terrorista pelos EUA. A Guarda Revolucionária iraniana é composta por mais de 120 mil homens, está ligada ao Ministério da Defesa desde 1989, mas o corpo obedece diretamente ao líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, e existe como força separada do Exército. A classificação da Guarda Revolucionária como terrorista permite o congelamento de bens e fundos controlados por membros da instituição em bancos dos EUA (e não são poucos). A Guarda Revolucionária, principal objetivo das sanções americanas, controla um terço da economia iraniana, sendo responsável por contratos de construção civis e pelas operações do novo aeroporto internacional da capital, Teerã.

Alguns oficiais seniors da Guarda já são considerados terroristas pelos EUA e sofrem sanções individuais. O Tesouro americano também impede que bancos do país negociem com bancos e empresas iranianas, como parte das sanções impostas pelo Conselho de Segurança da ONU contra o programa iraniano de enriquecimento de urânio. Porém, dos 40 bancos europeus e asiáticos que fazem negócios com o Irã, somente sete cortaram relações com o país, em resposta às sanções dos EUA. O Irã vem, cada vez mais, conduzindo seus negócios internacionais por meio de 400 instituições financeiras baseadas em Dubai, em sua maioria árabes. Considerando que as transações entre o Irã e os Emirados Árabes Unidos, incluindo Dubai, chegaram a quase US$ 11 bilhões neste ano, o subsecretário do Tesouro dos EUA, Stuart Levey, falou em vão quando ameaçou, com represálias, às empresas que faziam negócios com o Irã.

Em 21 de agosto passado, o governo iraniano firmou um acordo com a AIEA, Agência Internacional da Energia Atômica, da ONU, comprometendo-se a permitir inspeções em suas instalações nucleares e a revelar informações completas sobre suas atividades desde 2005. O egípcio Mohamed El Baradei, diretor-geral da agência, considerou o contencioso com o Irã resolvido. As acusações contra o Irã são quase kafkianas: o Irã deveria demonstrar que não desenvolve tecnologia que “poderia” ser usada, no futuro, para produzir armas atômicas. A mesma AIEA, contudo, adotou atitude inteiramente diversa em relação ao Egito e Coréia do Sul – dois grandes aliados dos EUA. Suas experiências nucleares secretas, muito semelhantes às desenvolvidas pelo Irã, foram descobertas pela agência, que, no entanto, contentou-se com uma “repreensão”.

Mas, em outubro, o presidente Bush alertou que “os líderes mundiais devem impedir que o Irã tenha armas nucleares se quiserem evitar a Terceira Guerra Mundial”, nada menos. O comentário surgiu de uma pergunta sobre o apoio dado ao Irã pelo presidente russo, Putin. Bush contradisse o discurso oficial de que os EUA buscam uma aproximação diplomática com o Irã, e confiam na mediação da Rússia pára interromper o programa nuclear iraniano. Putin deixou claro sua oposição à opção militar contra o Irã: “Não devemos nem pensar em fazer uso da força nesta região”. Mas “os congressistas (norte-americanos) estão preocupados de que a Casa Branca atue sem prévio aviso”, e “Condoleezza Rice advertiu que fazer o que o Irã faz, particularmente no sul do Iraque, tem seu custo”. Seymour Hersh informou que “só falta a decisão final”.

O vice-presidente dos EUA, Richard Cheney, encabeça um lobby que pressiona para bombardear instalações do exército iraniano.[3] Esse grupo está também apoiado pelo lobby sionista do partido democrata, incluída Hillary Clinton. A senadora-candidata disse que, se eleita presidente, deveria começar a retirar tropas do Iraque sessenta dias após a sua posse, mas deixou uma mensagem: “todas as opções estão na mesa”, para lidar com o Irã. A frase, que abre as portas para a ação militar, é a mesma usada pelo governo de Bush, apesar de toda a retórica crítica à atuação republicana, e em defesa do multilateralismo e a diplomacia, dos democratas. No papel, seus planos vão na direção oposta da “doutrina Bush” (unilateralismo e ataques preventivos); na prática, estabelece uma divisão de tarefas com os republicanos. Propõe, por exemplo, aumentar as tropas no Afeganistão, “a fronteira esquecida na guerra contra o terror”. Segundo o ex-funcionário da CIA e especialista em Irã do Instituto Brookings, Bruce Riedel, apesar do tom diplomático, Hillary Clinton não esconde que ela “é a mais beligerante entre os pré-candidatos democratas”.

Os EUA não podem tolerar um “Irã forte”, desafiando sua hegemonia no Oriente Médio. As palavras de Nicholas Burns, Subsecretário de Estado, comentando o fornecimento de armas aos amigos da região, não deixaram dúvidas: “Este pacote de armas diz aos iranianos que os Estados Unidos são o poder maior no Oriente Médio, continuarão a ser e não irão embora”. Saindo do Iraque, os americanos perderiam fatalmente o controle do país, que se aliaria ao Irã. As jazidas de petróleo, que os americanos pretendem conseguir através de contratos com o “Estado” iraquiano, poderiam sair de suas mãos. O suprimento de petróleo do Oriente Médio, vital para os EUA, não estaria garantido pela provável hegemonia do Irã na região. O Irã, quarto país mundial em jazidas de petróleo e segundo em gás, controla o estreito de Ormuz, por onde passa o tráfego de petrolíferos da Arábia Saudita e outros países árabes. Os EUA dependem cada vez mais das importações de petróleo. O seu consumo cresceu de 19,7 milhões de barris por dia, em 2002, para 26,7 milhões previstos para 2020. As reservas são insuficientes – em quatro anos deverão se esgotar. Dominando o Irã, diretamente ou através de um governo títere, os EUA teriam, por outro lado, condições para submeter a China e a Índia.

Israel bombardeou instalações militares na Síria para preparar o caminho da agressão contra o Irã. Aviões israelenses penetraram, via Mediterrâneo, no norte da Síria, até serem alvejados pelas baterias antiaéreas locais. Foi uma operação em grande escala, com uso dos mais modernos aviões israelenses, especialmente acondicionados para percorrer grandes distâncias, um avião de espionagem eletrônica, e unidades de elite que operaram no solo para indicar os alvos; os EUA lhe deram apoio. Tudo indica que se tratou de demonstrar que Israel tem a capacidade de golpear a longas distâncias, um treino para ir ao Irã, já que Israel no necessitou de aviões com tanques suplementares para atingir alvos em Síria

Embora diversas autoridades israelenses e dos EUA tenham dito que o objetivo foi bombardear equipamentos nucleares trazidos aos sírios por um misterioso navio norte coreano, a verdade é que, como afirmou John Bolton, ex-embaixador dos EUA na ONU: “O ataque foi uma mensagem clara ao Irã, que os seus esforços para adquirir armas nucleares não ficarão sem resposta”.

Há comandos norte-americanos operando em território iraniano, e Bush iniciou a construção de uma base militar gigantesca na fronteira entre o Iraque e o Irã. A Casa Branca passou a financiar grupos terroristas sunitas em solo iraniano: o Jundulá, cujo líder, Abdel Malik Regi, é descrito como “em parte traficante, em parte talibã, em parte ativista sunita”. Estabelecido além da fronteira com o Paquistão, o Jundulá promove atentados na região norte do Irã, o Baluquistão, matando soldados iranianos e também civis. Formado por membros da etnia baluchi, o Jundulá recebe fundos da CIA. Financiando o separatismo baluchi, o governo Bush visa desestabilizar o governo de uma região suscetível ao separatismo, para criar condições favoráveis à invasão do Irã.[4] Há também o apóio à milícia de exilados conhecida como Mujahidin-e-Khalq (MEK), baseada no Iraque. A MEK apoiou Saddam Hussein na guerra entre o Iraque e o Irã, de 1980 a 1988, e seus 3.600 combatentes permaneceram em território iraquiano.

Em termos econômicos, a mais importante ameaça contra o Irã é a província sudoeste do Khuzestão, responsável por 80% da produção petrolífera do país. Os xiitas árabes do Khuzestão têm a mesma identidade étnica e religiosa dos xiitas árabes da bacia de Shatt-al-Arab no Iraque, e sua capital, Ahwaz, se situa a 120 quilômetros a leste de Basora, onde as forças britânicas no Iraque estavam aquarteladas.[5] O Mossad oferece “equipamento e treinamento” ao grupo curdo do Irã, Pejak, ligado ao PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), da Turquia, rotulado por Washington e Ancara como “organização terrorista”.

Internacionalmente, o mais importante é o alinhamento da França com os EUA, inclusive para uma guerra contra o Irã. Isto foi defendido pelo “socialista, pacifista e progressista” Bernard Kouchner (fundador de uma ONG que presta assistência a populações vitimadas pela guerra!), integrado ao governo do direitista Nicolas Sarkozy. Atualmente ministro francês das Relações Exteriores, Kouchner avisou o mundo que deveria preparar-se para uma guerra em torno do programa nuclear iraniano: “Precisamos nos preparar para o pior, e o pior é a guerra”. Chamando a suspender o enriquecimento do urânio pelo Irã, Sarkozy ameaçou: “A bomba iraniana ou bombardear o Irã”. E garantiu ser “inaceitável para a paz mundial” que mais um país viesse a ter a bomba atômica.

Por trás da retórica radical, Ahmadinejad voltou a jogar a carta da saída diplomática, ao pedir que os Estados Unidos evitem fazer “declarações ilógicas e sem fundamento”, e solicitar à União Européia (UE) que “atue com independência” em relação ao programa nuclear iraniano.

Mas os EUA e a União Européia, conjuntamente, não deram seu aval ao acordo entre o Irã e a AIEA, o que é um motivo de fricções com o diretor da agência, El Baradei. Logo que este reportou o acordo a que chegara com o Irã, Bush apresentou ao Conselho de Segurança propostas de novas e muito mais duras sanções contra Teerã. Vetadas pela China e a Rússia, Sarkozy levou essas medidas à consideração da Comunidade Européia. Sarkozy disse da tribuna da ONU que “não haverá paz no mundo se a comunidade internacional der provas de fraqueza diante da proliferação de armas nucleares”. A alemã Angela Merkel qualificou de “desastre” a possibilidade de uma bomba nuclear iraniana, “um risco para a existência de Israel, inaceitável”. O imperialismo francês, em especial, defende a necessidade de fortalecer a capacidade de Europa para quebrar a resistência da Rússia a uma colonização aberta pelo capital internacional. Propõe fechar as brechas de Europa com os EUA, e reintegrar a França ao comando operacional da OTAN.

Acontece, porém, que o Irã é a peça chave para resolver a crise da ocupação militar do Iraque, sendo, ao mesmo tempo, um campo de provas da resistência russa. No Iraque, no setor petroleiro, as disputas são brutais. Ao norte, os curdos declararam sua “independência petroleira” e começaram a firmar contratos por separado com firmas ocidentais. O ministro de petróleo do Iraque os declarou “ilegais”; os curdos lhe responderam que “não se metesse em assuntos que não lhe interessam” (sic!).

A questão curda se transformou no estopim do início do completo desequilíbrio regional. A Turquia alocou 100 mil tropas apoiadas por tanques, artilharia, aviões e helicópteros, próximas à fronteira com o Iraque, para uma possível ação militar em larga escala para combater os curdos. Os Estados Unidos e o Iraque vêm tentando demover Ancara do intuito de lançar uma campanha militar em larga escala, com o argumento de que isso poderia desestabilizar a região. O ministro das Relações Exteriores do Iraque, Hoshiyar Zebari, alertou para as “desastrosas conseqüências” de uma ação militar. O caos é tal que o ministro das Relações Exteriores do Irã, Manouchehr Mottaki, disse que os Estados Unidos e Israel apóiam os separatistas curdos do PKK, estabelecidos no norte do Iraque, ou seja, acusou-os de “terrorismo”… O Irã também tem população curda, e seu Exército entra em conflito freqüentemente no noroeste do país com milicianos curdos do já mencionado Pejak (Partido para Vida Livre do Curdistão), aliado do PKK. Na questão curda, o governo iraniano busca as bases de um acordo regional geral, e com os próprios EUA: Ahmadinejad declarou que defende uma solução pacífica para a crise, e destacou a “necessidade de confrontar as atividades terroristas do PKK. O Irã também tem uma minoria curda e sofre ataques rebeldes contra seu território”.

No sul do Iraque, a riqueza petroleira em torno à cidade de Basora é objeto de uma dura disputa entre as diversas milícias xiitas que lutam por tomar conta da empresa estatal de petróleo. A retirada dos ingleses de Basora, derrotados pelos milicianos, “ameaça desatar uma guerra total pelo controle da indústria petroleira”, segundo The Christian Science Monitor. O governo do primeiro ministro Maliki está no limiar do colapso. A crise agravou-se depois que os ministros pertencentes ao movimento do dirigente xiita Al Sadr abandonaram o governo. Al Sadr rejeitou o acordo da coalizão xiita governante com os curdos e os norte-americanos, para que os integrantes do partido Baath (o velho partido de Saddam Hussein) pudessem voltar ao governo. O governo de Maliki está em minoria e, segundo analistas, “só o apoio do Irã, e o cada vez mais reticente apoio norte-americano o mantêm em pé”. A invasão que devia, segundo “Dick” Cheney, “redesenhar o mapa do Oriente Médio”, transformou toda a região em um gigantesco barril de pólvora.

Putin aceitaria não se envolver na defesa do Irã, se os EUA e Europa se retirassem da Ásia Central e do Cáucaso, condição impossível para o imperialismo ocidental, por ser aquela uma zona chave para a colonização econômica e geográfica do capital mundial.[6] Em meados de setembro, o chanceler russo, Serguei Lavrov, advertiu publicamente que “nos preocupa especialmente a multiplicação de informações segundo as quais se analisa seriamente uma ação militar contra o Irã”.

Esse é o quadro principal das disputas internacionais e regionais, incluído o conflito contra o Irã. O Kuait, baluarte dos EUA (foi em nome da sua pretensa “independência” que os EUA promoveram a primeira Guerra do Golfo, em 1990), através de seu representante Jaber Al Sabah, afirmou que seu país, onde há bases militares ianques, não permitiria que fossem usadas para atacar o Irã. A belicosidade americana está preparando um tiro pela culatra na região mais sensível (e rica) do Oriente Médio.

As ameaças norte-americanas, porém, visam também, e sobretudo, conseguir uma mudança da situação interna do Irã, quebrando a resistência antiimperialista. O principal “partido reformista” (ou “modernista”) iraniano, a Frente de Participação (Mosharekat), advertiu, durante seu X Congresso, contra o crescente isolamento internacional do Irã. “Desde o início pensamos que a política nuclear do governo de Ahmadinejad era um erro”, disse seu secretario geral, Mohsen Mirdamadí. Mas também entre os chamados “conservadores” a vontade de capitular se faz visível. Um ex vice - ministro, próximo do ex presidente Ali Rafsanjani, queixou-se de que “a forma em que se leva adiante a política externa” seria um “completo desastre”.

E, sobretudo, até agora a maioria do establishment político e diplomático norte-americano se opõe a lançar uma guerra. As ameaças ao Irã são uma via de saída para o “inferno iraquiano” dos EUA. Essa é sua principal função política para o imperialismo hegemônico. As pressões imperialistas sobre o Irã se agravam na mesma medida em que se agrava a crise da ocupação norte-americana do Iraque.

Por isso, o Foreign Affairs afirma que “chegou a hora da distensão com o Irã”: “A diferença do que aconteceu na escalada que levou à invasão do Iraque, o Pentágono se declarou contrário a uma ação militar contra o Irã”. A verdade é que o Irã está longe de obter a bomba nuclear, o seu processo de produção da mesma depende de tecnologia estrangeira. Ainda que tivesse a bomba, sua utilidade seria bem relativa: não poderia usá-la por se encontrar (o Irã) rodeado de potências nucleares (como Israel); e, caso o fizesse, as naves norte-americanas no Golfo Pérsico destruiriam o Irã de modo imediato.

Um ataque ao Irã poderia ser, contudo, um recurso em última instância para o imperialismo ianque. Mas, inclusive como último recurso seria extremamente custoso. O Irã tem acordos de colaboração militar e nuclear com a Rússia. E Rússia tem a possibilidade de converter um ataque norte-americano ao Irã no pesadelo de Washington, provendo Irã de sistemas de defesa, radares, mísseis e sistemas de comando. Segundo a revista de análise estratégica - militar Stratfor, “a primeira fase do ataque norte-americano – a supressão da defesa aérea – seria muito custosa; a segunda - a batalha contra a infraestrutura – seria uma guerra de desgaste. Estados Unidos não poderia forçar uma mudança de regime, e deveria pagar um alto preço por isso”. O enorme custo de uma operação militar - uma campanha catastrófica ou, alternativamente, a entrega à Rússia da Ásia Central e das repúblicas que integravam a ex URSS - explica a rejeição, por enquanto, de uma aventura militar anti - iraniana pelo establishment político, diplomático e militar dos EUA, que não desaprova, porém, a montagem do dispositivo militar bélico.

O regime teocrático do Irã, devido ao seu caráter reacionário-clerical, é incapaz de mobilizar revolucionariamente os países do Oriente Médio ou da Ásia Central contra a perspectiva da agressão imperialista, e menos ainda às massas de seu próprio país, submetidas a uma exploração sem limites. 50% da população sobrevive sob a linha de pobreza, o desemprego atinge 15%, o salário médio não supera 100 dólares mensais - a cesta básica situa-se em 600 dólares - e abunda o trabalho “negro”, precário ou “terceirizado”. Os direitos sindicais praticamente inexistem. É uma situação de miséria material e social refletida também em outros indicadores: 20% da população consome algum tipo de droga. A base social do regime é menos a burguesia comercial (disposta a joga-lo fora a qualquer momento) do que a proto-burguesia estatal dos “Guardas”, e uma pequeno burguesia, cinicamente “laica”, beneficiária indireta do maná petroleiro, através de cargos estatais e diversas formas de subsídio.

A 8 de março passado, Dia Internacional da Mulher Trabalhadora, milhares de mulheres saíram à rua em diversas cidades iranianas, sem o véu que obrigatoriamente deveriam usar, em um desafio aberto aos aiatolás. Desde esse mês (começo oficial do ano civil iraniano) aconteceram importantes greves docentes: 80% dos grevistas são mulheres. O governo ordenou à polícia, a 22 de abril, castigar na rua toda mulher que não usasse as roupas ordenadas pela lei islâmica.[7] Uma luta conseqüente contra o imperialismo, que unifique as massas iranianas, iraquianas, afegãs e de toda a região, exige se livrar dos regimes teocráticos que dividem os explorados em linhas sectário-religiosas.

Dobrar o Irã através da pressão política e da ameaça militar, ou encorajar a guerra: tais são as alternativas dos EUA. Mas há ainda o problema de como reagiriam as massas dos países imperialistas a uma nova guerra. A crise financeira internacional está fazendo um estrago social nos EUA e parte da Europa; uma eventual guerra consumiria a riqueza social em condições de queda do poder aquisitivo dos salários, em conseqüência da inflação, num quadro de endividamento crescente, e até terminal, das famílias do famigerado “Primeiro Mundo”.

Em caso de guerra, deveria se mobilizar unificadamente, no mundo todo, todos os setores dispostos a se opor à nova aventura militar, qualquer que seja argumento ou ideologia com que o façam. A guerra teria conseqüências internacionais imediatas: na América Latina, uma guerra contra o Irã levaria os EUA a apertar o cerco contra a Venezuela, buscando o apoio dos governos da “esquerda moderada” de nossas bandas, elogiados pela Casa Branca. Mas, depois das grandes mobilizações de 2001 e 2002, o movimento mundial contra a guerra parece anestesiado, e foram comparativamente muito inferiores, especialmente na Europa, às mobilizações contra a invasão anglo – ianque do Iraque em 2003.[8]

As bases do movimento anti – guerra devem ser clarificadas, o pacifismo deve ceder seu lugar ao antiimperialismo e à luta pela unidade dos explorados de todo o mundo contra o parasitismo bélico do capital. Chegar à conclusão de que não se trata de convencer às “pombas” imperialistas a fazer a paz, mas de destruir o imperialismo capitalista.

Oswaldo Coggiola
é professor do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP), doutor pela École des Hautes Etudes em Sciences Sociales (França). É autor, entre outros livros, de Revolução Russa (Lázuli, 2004).

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Alemanha ainda está dividida, 18 anos após a queda do muro

Der Spiegel

Para marcar o aniversário da queda do Muro de Berlim, o Spiegel fez uma pesquisa de opinião com 1.000 alemães que cresceram nos dois lados da cortina de ferro. A conclusão perturbadora é que, 18 anos após a queda do muro, a Alemanha continua tão dividida quanto jamais foi.

A sexta-feira (09/11) marca a queda do Muro de Berlim. Também neste dia, as crianças nascidas no dia 9 de novembro de 1989 se tornaram legalmente adultas -a primeira geração que cresceu no país após o colapso da Alemanha Oriental comunista e sua reunificação com a Alemanha Ocidental.

Junto com a TNS Forschung, o Spiegel recentemente conduziu uma pesquisa com duas gerações de alemães orientais e ocidentais, para obter um retrato do progresso sobre a extensão da unificação na psique nacional. O muro proverbial ainda permanece nas mentes alemãs, quase duas décadas após a reunificação?

Quinhentas pessoas entrevistadas eram da faixa etária de 14 a 24 anos. Quando o muro caiu, os mais velhos deste grupo tinham apenas seis anos de idade -jovens demais para terem uma noção séria do que era a vida em um país dividido pela Guerra Fria.

Além disso, o Spiegel entrevistou 500 representantes dos pais da juventude pós-reunificação. Isso permitiu ao Spiegel determinar as diferenças entre as gerações mais jovens e mais velhas na sua forma de pensar a reunificação. Os resultados mostram que, mesmo após 18 anos da queda do muro, ainda não há uma Alemanha verdadeiramente unificada.

Os alemães orientais estão menos satisfeitos e menos otimistas com sua situação do que os que vivem nos Estados que compunham a antiga Alemanha Ocidental. Eles estão muito menos convencidos das virtudes da democracia do que seus colegas ocidentais, e muitos acreditam que o socialismo é uma boa idéia que simplesmente não foi bem implementada no passado.

De fato, as maiores diferenças na pesquisa aparecem quando os entrevistados orientais e ocidentais compartilham suas opiniões sobre a vida na antiga Alemanha Oriental. O Estado comunista recebe notas muito mais altas dos que moram no Leste do que dos que moram no Oeste. Dos alemães orientais de 35 a 50 anos, 92% acreditam que um dos maiores atributos da antiga Alemanha Oriental foi sua rede de segurança social; 47% dos jovens no Leste também pensam assim. Por outro lado, apenas 26% dos jovens ocidentais e 48% dos seus pais expressaram a opinião que a Alemanha Oriental tinha um sistema mais forte de bem estar social comparado com hoje.

Apesar da aparente nostalgia por certos aspectos da Alemanha Oriental, a maior parte dos alemães orientais diz que preferiria morar no oeste, se um novo Muro de Berlim fosse construído hoje.

Há um toque de otimismo nos resultados: apesar de importantes divergências nas opiniões entre os alemães orientais e ocidentais mais velhos, essas diferenças parecem estar encolhendo com a geração mais jovem. Lentamente, o país parece estar se unindo.

Quanto tempo, entretanto, levará para essa união se completar? Isso, é claro, depende de quem responde. Não levará mais do que cinco outros anos, responderam 25% dos jovens alemães ocidentais e 5% dos orientais. Quando o mesmo foi perguntado aos pais, somente 12% e 4%, respectivamente, concordaram.

Parte do problema é a identidade. O estudo revelou que 67% dos alemães orientais e ocidentais sentiam que tinham identidades diferentes um do outro. Quando a geração de seus pais foi perguntada a mesma pergunta, 82% disseram que os alemães orientais eram diferentes dos ocidentais. As diferenças entre os jovens alemães, porém, não são mais tão dramáticas quanto eram na geração dos pais.

Muitos alemães orientais mais jovens vêem o país reunido como um lugar onde seus pais têm dificuldades para encontrar um caminho. E apesar de eles praticamente não terem vivenciado a vida sob o socialismo, sua forma de pensar parece ter sido moldada em parte pelas situações dos pais e as histórias que compartilharam com eles sobre a vida na Alemanha Oriental.

De fato, os jovens alemães orientais vêem a antiga Alemanha Oriental sob uma luz mais amena do que seus compatriotas no Oeste. Em algumas áreas, eles têm mais alta opinião sobre o país desaparecido que seus pais -como no que diz respeito ao padrão de vida na Alemanha Oriental. É uma opinião de lentes cor de rosa, que vê uma Alemanha Oriental com emprego para todos, creches para todas as crianças e um sistema de bem estar social que acompanhava o cidadão do berço ao túmulo. É claro, essa geração não foi exposta aos aspectos negativos da vida sob o domínio comunista -como filas de comida e repressão da polícia.

Ainda assim, os sentimentos positivos para certos aspectos da antiga Alemanha Oriental continuam altos. Dos jovens alemães orientais entrevistados, 60% disseram que achavam que era ruim que nada tivesse restado das coisas que se podia orgulhar na Alemanha Oriental.

Tradução: Deborah Weinberg

Der Spiegel
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