Arquivo de 14 de Novembro de 2007

A cidade em progresso

Vinicius de Moraes

A cidade mudou. Partiu para o futuro
Entre semoventes abstratos
Transpondo na manhã o imarcescível muro
Da manhã na asa dos DC-4s

Comeu colinas, comeu templos, comeu mar
Fez-se empreiteira de pombais
De onde se vêem partir e para onde se vêem voltar
Pombas paraestatais.

Alargou os quadris na gravidez urbana
Teve desejos de cúmulos
Viu se povoarem seus latifúndios em Copacabana
De casa, e logo além, de túmulos.

E sorriu, apesar da arquitetura teuta
Do bélico Ministério
Como quem diz: Eu só sou a hermeneuta
Dos códices do mistério…

E com uma indignação quem sabe prematura
Fez erigir do chão
Os ritmos da superestrutura
De Lúcio, Niemeyer e Leão.

E estendeu ao sol as longas panturrilhas
De entontecente cor
Vendo o vento eriçar a epiderme das ilhas
Filhas do Governador.

Não cresceu? Cresceu muito! Em grandeza e miséria
Em graça e disenteria
Deu franquia especial à doença venérea
E à alta quinquilharia.

Tornou-se grande, sórdida, ó cidade
Do meu amor maior!
Deixa-me amar-te assim, na claridade
Vibrante de calor!

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Super-capitalismo, super-imperialismo e imperialismo monetário

Uma ligação estrutural

Henry C. K. Liu

Robert B. Reich, antigo secretário do Trabalho do EUA e neoliberal permanente na administração Clinton desde 1993 a 1997, escreveu na edição de 14/Setembro/2007 do Wall Street Journal um artigo de opinião: “Os administradores executivos merecem o que ganham”, como parte de uma campanha orquestrada para promover o seu novo livro: “Super-capitalismo: A transformação dos negócios, da democracia e da vida diária” (Supercapitalism: The Transformation of Business, Democracy, and Everyday Life).

Reich é um antigo professor de Harvard e ex-professor de Política económica e social na Heller School for Social Policy and Management da Universidade Brandeis. Actualmente é professor de Política pública na Goldman School da Universidade da Califórnia (Berkeley) e um importuno liberal que frequenta os descarados shows na TV de Larry Kudlow que celebram os méritos da economia da oferta (supply-side) e do capitalismo.

O Supercapitalism (2007) de Reich traz-nos à mente o Super imperialismo: A estratégia económica do império americano (1972, 2003) de Michael Hudson. Enquanto Hudson é crítico do “super imperialismo” e pensa que ele deveria ser resistido pelos parceiros comerciais mais fracos dos EUA, Reich dá a impressão de ser ambivalente acerca da inevitabilidade se não da benignidade do “super capitalismo”.

A ligação estrutural entre capitalismo e imperialismo foi observada pela primeira vez por John Atkinson Hobson (1858-1940), economista inglês que em 1902 escreveu uma análise profunda da teoria económica neoclássica, rejeitando definições exclusivamente materialistas do valor. Com Albert Frederick Mummery (1855-1895), o grande montanhista britânico que morreu tragicamente em 1895 numa avalanche quando reconhecia a face Rakhiot do Nanga Parbat, um pico no Himalaia a 8000 metros), Hobson escreveu The Physiology of Industry (1889), o qual argumentava que uma economia industrial exige intervenção do governo para manter a estabilidade, e desenvolveu a teoria da super-poupança a que John Maynard Keynes deu uma transbordante homenagem três décadas depois.

A necessidade da intervenção governamental para estabilizar uma economia nacional industrial em expansão era a lógica do imperialismo político. Do outro lado da moeda, o proteccionismo foi uma contra-intervenção governamental por parte de parceiros comerciais fracos para resistir à expansão imperialista da potência dominante. Historicamente, os processos de globalização sempre foram o resultado de políticas de estado activas e das acções dos mesmos, em oposição à merca rendição passiva da soberania do Estado às forças do mercado. As forças do mercado não podem operar num vácuo. Elas são governadas por regras feitas pelo homem. Os mercados globalizados exigem a aceitação pelas autoridades locais das regras estabelecidas da economia dominante. O monopólio da divisa é naturalmente a restrição comercial mais fundamental da parte de um governo dominante único.

Adam Smith publicou A riqueza das nações em 1776, o ano da independência dos EUA. No momento em que a constituição foi estruturada, 11 anos mais tarde, os pais fundadores dos EUA estavam profundamente influenciados pelas ideias de Smith, as quais constituíam uma execração argumentada do monopólio do comércio e de políticas governamentais de restrição ao comércio. O que Smith detestava mais era uma política conhecida como mercantilismo, a qual era praticada por todas as grandes potências da época. É necessário ter em mente que a noção de Smith da limitação da acção do governo relacionava-se exclusivamente com questões mercantilistas de constrangimentos comerciais. Smith nunca advogou a tolerância do governo às restrições comerciais, quer dos grandes monopólios de negócios ou de outros governos, em nome de mercados abertos.

Um objectivo central do mercantilismo era assegurar que as exportações de um país permanecessem num valor mais elevado do que as suas importações, sendo o excedente naquela era pago apenas em dinheiro em espécie (suportado por ouro, em contraposição ao dinheiro fiduciário). Este excedente comercial em ouro permitiu que o excedente de um país, tal como a Inglaterra, investisse em mais fábricas no seu território para fabricar mais para exportação, trazendo então mais ouro para casa. As regiões importadoras, tais como as colónias americanas, não só descobriam que as reservas de ouro que suportavam a sua moeda se esgotavam, provocando desvalorização em queda livre (não muito diferente do que é enfrentado hoje por muitas divisas de economias emergentes), como também desvanecia-se seu excedente de capital para construir fábricas a fim de produzir para o consumo interno e a exportação. Assim, apesar do muito minério de ferro na América, só o ferro gusa era exportado para a Inglaterra em troca dos produtos de ferro ingleses. A situação é semelhante à dos países produtores de petróleo de hoje onde, apesar de terem muito petróleo bruto, produtos petroquímicos e refinados como a gasolina e óleo de aquecimento têm de ser importados.

Em 1795, quando os recém-independentes americanos começaram finalmente a despertar do seu relacionamento comercial desvantajoso e começaram a levantar capitais europeus (principalmente francês e holandês) para começar uma indústria manufactureira, a Inglaterra decreto a Lei do Ferro (Iron Act), proibindo a manufactura de bens ferrosos nas suas colónias americanas, a qual provocou grande insatisfação entre os colonos que prosperavam. Smith era favorável a uma política governamental oposta destinada a promover a produção económica interna e à liberdade de comércio externo para os comerciantes mais fracos, uma política que veio a ser conhecida como “laissez faire” (porque os ingleses, nada tendo a ver com ideias tão heréticas, recusaram-se a dar-lhe um nome inglês). Laissez faire, não obstante o seu significado literal de “deixar em paz”, não pretendia ser nada disto. Significava uma política governamental activista para contrapor-se ao mercantilismo. Os economistas neoliberais do mercado livre são apenas maus historiadores, dentre as suas muitas características defeituosas, quando propagandeiam o “laissez faire” como não interferência governamental em assuntos comerciais.

Friedrich List, no seu National System of Political Economy (1841), assevera que a política económica tal como adoptada na Inglaterra, estava longe de ser uma ciência válida universalmente — era meramente uma opinião nacional britânica, adequada apenas às condições históricas inglesas. A escola económica institucional de List assevera que a doutrina do livre comércio foi concebida para manter a Inglaterra rica e poderosa a expensas dos seus parceiros comerciais e que deve ser combatida pelos países mais fracos com tarifas proteccionistas e outras medidas de nacionalismo económico. O “American system” de Henry Clay foi um sistema nacional de economia política. O neo-imperialismo americano após a II Guerra Mundial promove de forma dissimulada o livre-comércio neoliberal contra o proteccionismo governamental a fim de manter os EUA ricos e poderosos a expensas dos seus parceiros comerciais. Antes da Revolução de Outubro de 1917, muito movimentos de libertação nacional em colónias e semi-colónias europeias por todo o mundo foram influenciados pelo nacionalismo económico de List. A Revolução Nacionalista de 1911 liderada pelo Dr. Sun Yat-sen foi muitíssimo influenciada pelas ideias políticas do governo Lincoln do governo do povo, pelo povo e para o povo e pelo nacionalismo económico de List até depois da Revolução de Outubro, quando o Dr. Sun percebeu que o modelo soviético era o caminho correcto para o renascimento nacional.

A obra magna de Hobson, Imperialism (1902), argumenta que a expansão imperialista é guiada não pelo orgulho arrogante do Estado, conhecido na história americana como Destino Manifesto, mas por uma procura inata por novos mercados e oportunidades de investimento além mar para o excesso de capital formado pelo excesso de poupança interna em benefício do Estado nacional. O excesso de poupança durante a era industrial veio da teoria de Ricardo da lei de ferro dos salários segundo a qual os salários eram mantidos perpetuamente a níveis de subsistência em resultado do desigual poder de mercado entre capital e trabalho. Hoje, a externalização do trabalho (job outsourcing) que retorna como importações a baixo preço contribui para a lei de ferros dos salários na economia interna dos EUA. Ver meu artigo no Asian Times online : Organização dos Países Exportadores de Trabalho (OPET) .

A análise de Hobson da fenologia (estudo dos ciclos de vida) do capitalismo foi aproveitada por Lenin para formular uma teoria do imperialismo como uma etapa avançada do capitalismo: “O imperialismo é o capitalismo naquela etapa de desenvolvimento na qual o domínio dos monopólios e do capitalismo financeiro está estabelecido, na qual a exportação de capital adquiriu importância destacada; na qual a divisão do mundo entre os trusts internacionais começou, na qual a divisão de todos os territórios do globo entre as maiores potências capitalista já foi completada” (Vladimir Ilyich Lenin, 1870-1924, Imperialism, the Highest Stage of Capitalism, Chapter 7 - 1916).

Lenin também foi influenciado por Rosa Luxemburgo, a qual três anos antes havia escrito a sua obra principal: The Accumulation of Capital: A Contribution to an Economic Explanation of Imperialism (Die Akkumulation des Kapitals: Ein Beitrag zur ökonomischen Erklärung des Imperialismus, 1913). Luxemburgo, juntamente com Karl Liebknecht, líderes fundados da Liga Espartacista (Spartakusbund), um radical movimento revolucionário marxista que posteriormente rebaptizou-se como Partido Comunista da Alemanha (Kommunistische Partei Deutschlands, ou KPD), foram assassinados em 15 de Janeiro de 1919 pelos membros do Freikorps, militaristas de extrema direita que foram os antecessores da Sturmabteilung (SA) nazi dirigida por Ernst Röhm.

A associação congénita entre capitalismo e imperialismo exige de praticamente todos os verdadeiros movimentos anti-imperialistas do mundo que sejam também anti-capitalistas. Por estes dias, a maior parte dos capitalistas nacionalistas em economias emergentes são neo-compradores inconscientes do super imperialismo. O neoliberalismo, nas suas tentativas de romper todas as fronteiras nacionais para facilitar o comércio global denominado em dólares fiduciários (fiat dollars), é a ideologia do super imperialismo.

Hudson, economista heterodoxo americano, historiador de economias antigas e especialista em balanças de pagamento pós II Guerra Mundial, no seu livro de 1972 avançou a noção do super imperialismo do século XX. Hudson actualizou a ideia de Hobson da política industrial de Estado do imperialismo do século XIX à procura de novos mercados para investir o excesso de capital formado em casa. Para Hudson, o super imperialismo é uma estratégia financeira de Estado destinada a exportar dívida denominada na divisa fiduciária do Estado como capital às novas colónias financeiras a fim de financiar a expansão global de uma super potência imperial. Nenhuma necessidade, nem mesmo intenção, era abrigada pela super potência de alguma vez ter de pagar estes papéis de dívida depois de o dólar americano ter sido desligado do ouro em 1971.

Imperialismo monetário e hegemonia do dólar

O super imperialismo transformou-se em imperialismo monetário depois da crise petrolífera de 1972 no Médio Oriente com a criação do petro-dólar e duas décadas depois, em 1993, emergiu como hegemonia do dólar através da globalização financeira. Tal como descrevi no meu artigo de 2002 no Asian Times, Dollar Hegemony has to go , após a crise petrolífera de 1973 emergiu um fenómeno geopolítico pelo qual o dólar americano, uma moeda fiduciária desde 1971, continua a servir como divisa reserva primária para o comércio internacional porque o petróleo continua a ser denominado em dólares fiduciários em resultado da geopolítica da super potência, conduzindo à hegemonia do dólar em 1993 com a globalização de mercados financeiros desregulados.

Três desenvolvimentos causais permitiram à hegemonia do dólar emergir ao longo de um espaço de tempo de duas décadas, desde 1973 até que por fim acabou em 1993. Os défices fiscais americanos dos gastos além mar desde a década de 1950 provocaram uma drenagem maciça nos haveres em ouro americanos até forçar os EUA, em 1971, a abandonarem o regime de 1945 de Bretton Woods das taxas de câmbio fixas com base num dólar suportado por ouro. Sob aquela arquitectura financeira internacional, os fluxos de fundos através de fronteiras não eram considerados necessários ou desejáveis para a promoção do comércio internacional ou do desenvolvimento interno. O colapso do regime de Bretton Woods em 1971 foi o desenvolvimento inicial rumo à hegemonia do dólar.

O segundo desenvolvimento foi a denominação do petróleo em dólares após a crise petrolífera de 1973 do Médio Oriente. A emergência dos petrodólares foi o preço que os EUA, em 1973 ainda uma das duas super potências contendoras, extraíram dos indefesos países produtores de petróleo a fim de permitir-lhes nacionalizar a indústria petrolífera possuída pelo Ocidente no seu território. Enquanto as transacções de petróleo forem denominadas em dólares fiduciários, os EUA no essencial controlam todo o petróleo do mundo financeiramente sem que tenha importância a sua propriedade específica, reduzindo os países produtores de petróleo ao status de agentes mercantis da hegemonia do dólar.

O terceiro desenvolvimento foi a desregulação global dos mercados financeiros após a Guerra Fria, tornando rotina o cruzamento de fronteiras dos fluxos de fundos e uma atenuação geral do controle de capitais e câmbios de divisas pela maior parte dos governos envolvidos no comércio internacional. Este regime de comércio neoliberal trouxe à existência um mercado de câmbios estrangeiros no qual a livre flutuação das taxas de câmbio fazia dos ataques especulativos computorizados às divisas mais fracas uma ocorrência regular. Estes três desenvolvimentos permitiram a emergência da hegemonia do dólar após 1994 e ajudaram os EUA a vencer a Guerra Fria com o poder financeiro derivado da moeda fiduciária.

A hegemonia do dólar avançou o super imperialismo para uma nova etapa, da frente financeira para a monetária. O imperialismo industrial procurava alcançar um excedente comercial exportando bens manufacturados para as colónias em troca de ouro a fim de financiar o investimento de mais unidades produtivas internamente. O super imperialismo procurava extrair riqueza real das colónias pagando-lhes com dólares fiduciários para sustentar uma balança de pagamentos em desequilíbrio no intercâmbio de mercadorias. O imperialismo monetário sob a hegemonia do dólar exporta dívida denominada em dólares fiduciários através de um défice comercial permissivo com as novas colónias, apenas para reimportar a dívida de volta aos EUA como excedente da conta de capital para financiar a bolha da dívida americana.

A reciclagem circular da dívida denominada em dólar foi tornada operacional pelo dólar, uma divisa fiduciária que apenas os EUA podem imprimir à sua vontade, continuando como a divisa de reserva principal do comércio e finanças internacionais, apoiada pelo super poder geopolítico dos EUA. Os dólares são aceites universalmente porque o petróleo é denominado em dólares e todos precisam de petróleo e portanto precisam de dólares para comprar petróleo. Qualquer país que procure denominar mercadorias chave, tais como petróleo, em outras divisas diferentes do dólares logo descobrir-se-ão invadidas pela super potência única. Portanto a guerra ao Iraque não é acerca de petróleo, como sugeriu recentemente o antigo presidente da Reserva Fedral, Alan Greenspan. Ela é acerca de manter o petróleo denominado em dólares para proteger a hegemonia do dólar. A diferença é subtil mas de importância essencial.

Desde 1993, os bancos centrais de todos os países do mundo, com excepção do Federal Reserve americano, têm sido forçados a manter mais dólares em reserva do que precisariam para impedir possíveis ataques especulativos súbitos às suas divisas em mercados financeiros globais não regulados. Portanto, a “hegemonia do dólar” impede os países exportadores, tais como os Tigres Asiáticos, de gastaram internamente os dólares que ganham com o défice comercial americano e força-os a financiar o excedente da conta de capital americana, despachando riqueza real para os EUA em troca do privilégio de financiar o crescimento ulterior da dívida económica americana.

Não só estes países exportadores têm de competir por manter baixos os seus salários internos e por prostituir o seu ambiente como os dólares que ganham não podem ser gastos internamente sem provocar uma crise monetária nas suas próprias divisas porque os dólares que ganham têm de ser cambiados nas divisas locais antes de poderem ser gastos internamente, provocando uma ascensão excessiva da sua oferta monetária interna que por sua vez provoca bolhas internas pressionadas pela inflação. O sector interno com rendimentos em divisas locais continua a ser de pouco interesse para o capital global denominado em dólares. Em consequência, o desenvolvimento interno estagna por falta de capital.

A hegemonia do dólar permite aos EUA transformarem-se de competidor nos mercados do mundo para ganhar dinheiro valioso, num monopólio fabricador de dinheiro fiduciário com dólares fiduciários que apenas eles podem imprimir à vontade. Todos os outros países que comerciam têm de intercambiar bens de baixos salários por dólares que unicamente os EUA podem imprimir livremente e que podem ser gastos apenas na economia do dólar sem penalidades.

O castigo do Japão e da China

O Japão é o caso clássico de uma vítima do imperialismo monetário. Em 1990, em resultado das proezas exportadoras japonesas, o Banco Industrial do Japão era o maior banco do mundo, com uma capitalização de mercado de US$57 mil milhões. Entre os 10 maiores bancos do mundo, os nove do topo eram japoneses, seguido pelo Canadian Alliance em 10º lugar. Nenhum banco americano estava na lista dos dez do topo. Em 2001, os efeitos da hegemonia do dólar empurraram o Citigroup para o primeiro lugar com uma capitalização de mercado de US$260 mil milhões. Sete das dez principais maiores instituições financeiras do mundo em 2001 tinham sede nos EUA, com a seguinte classificação descendente em capitalização de mercado: Citigroup ($260 mil milhões), AIG ($209 mil milhões), HSBC (britânico-$110 mil milhões), Berkshire Hathaway ($100 mil milhões), Bank of America ($99 mil milhões), Fanny Mae ($80 mil milhões), Wells Fargo ($74 mil milhões), JP Morgan Chase ($72 mil milhões), RBS (britânico-$70 mil milhões) e UBS (suíço-$67 mil milhões). Nenhum banco japonês sobreviveu nesta lista.

A China é um caso neoclássico de vitimização pela hegemonia do dólar, apesar de os seus mercados financeiros internos ainda não estarem abertos e de o RMB yuan ainda não ser livremente convertível. Com mais de US$1,4 milhão de milhões de reservas em divisas externas ganhas a uma taxa de câmbio antes fixada mais baixo em 8,2 por dólar, estabelecida em 1985, agora a crescer à taxa de US$1 mil milhões por dia numa amplitude estreita de flutuação da taxa de câmbio, em torno dos 7,5 desde Julho de 2005, a China não pode gastar grande parte dos seus haveres em dólares no desenvolvimento interno sem inflação interna causada pela expansão excessiva da sua oferta monetária em yuan. A economia chinesa está super-aquecendo porque o grosso do seu excedente de rendimentos é em dólares de exportações que não podem ser gastos dentro da China sem penalidade monetária. Os salários chineses são demasiado baixos para absorver a expansão súbita da oferta de yuan a fim de desenvolver a economia interna. Em com mais de US$1,4 milhão de milhões de reservas em divisas estrangeiras, igual ao seu PIB anual, a China não pode desfazer-se do dólar sem ter o efeito de mercado de um dólar em queda a mover-se contra os seus haveres remanescentes.

Em 20 de Julho de 2005 o Banco do Povo da China anunciou que a taxa de câmbio efectiva do yuan subiria 2,1%, para 8,11 yuan por dólar, e que a China desprender-se-ia da ligação ao dólar (dollar peg) na sua divisa. Em substituição, a China mover-se-ia para uma “flutuação administrada” do yua, atando o valor de troca desta divisa a um cabaz não revelado de divisas ligadas ao seu comércio internacional. Num esforço para limitar a subida da volatilidade, a China não permitiria que a divisa flutuasse mais de 0,3% num único dia comercial. Ligar o yuan a um cabaz de divisas significa que a divisa da China está relativamente livre das forças de mercado que actuam sobre o dólar, comutando para forças de mercado que actuam sobre um cabaz de divisas de parceiros comerciais chave da China. O cabaz é composto pelo euro, o yen e outras divisas asiáticas, bem como pelo dólar. Embora a composição precisa do cabaz não tenha sido revelada, ela no entanto pode ser deduzida do volume comercial da China com parceiros comerciais chave e pelo cálculo matemático do ajustamento diário da taxa de câmbio.

Dessa forma, a China está presa dentro de um regime comercial que opera numa arquitectura monetária internacional na qual deve continuar a exportar riqueza real na forma de trabalho sub-pago e ambiente poluído em troca de dólares que ela deve reinvestir nos EUA. Ironicamente, o recente aumento do sentimento anti-comércio nas políticas internas dos EUA proporciona à China um escape conveniente e oportuno da hegemonia do dólar a fim de reduzir a sua dependência da exportação e concentrar-se no desenvolvimento interno. Os grupos de interesses chineses no sector das exportações opor-se-iam a qualquer política destina a reduzir o crescimento das exportações se não houvesse a ascensão do protecionismo americano, o qual provoca sofrimento a curto prazo para a China mas benefícios a longo prazo para a necessária reestruturação da sua economia rumo ao desenvolvimento interno. Mais excedente comercial denominado em dólares não é vantajoso para a China.

Mercados emergentes são novas colónias do imperialismo monetário

Mesmo quando a economia interna americana declina, desde o arranque da globalização no princípio da década de 1990, o domínio americano nas finanças globais tem continuado até hoje com a hegemonia do dólar. Não deveria ser surpreendente que o país que pode imprimir à vontade a divisa de reserva do comércio internacional deveria aparecer no topo em mercados financeiros globais desregulados. Os assim chamados mercados emergentes por todo o mundo são as novas colónias do imperialismo monetário num regime comercial neoliberal global que opera sob a hegemonia do dólar geopoliticamente dominado pelos EUA como a única super potência remanescente no mundo.

Recusa da responsabilidade social corporativa

Em Supercapitalism, Reich identifica a responsabilidade social corporativa como uma diversão da eficiência económica e uma ilusão não capitalista. Naturalmente, o finado Milton Friedman asseverara que a única responsabilidade social que as corporações têm é de maximizar o lucro, ao invés de gerar bem estar económico e crescimento equilibrado através de lucros justos. Há ampla evidência a sugerir que a única finalidade da busca pela maximização global do lucro corporativo pode levar ao declínio económico mesmo na única super potência que resta no mundo. O público americano é encorajado a atribuir tal declínio ao mau comportamento dos parceiros comerciais dos EUA ao invés da política comercial americana que permite às corporações transnacionais americanas explorarem trabalhadores em todos os países com comércio, incluindo aqueles nos EUA. É uma política que desvaloriza o trabalho pela super-recompensa à manipulação financeira.

Apesar disso, para Reich, o imposto sobre o rendimento das corporações nos EUA é regressivo e iníquo e deveria ser abolido de modo a que o lucro corporativo possa ser ainda mais potenciado. Esta posição pró-lucro entra em conflito até mesmo com sentimentos que se levantam entre os republicanos contra corporações transnacionais e suas estratégias de comércio global. Reich também pensa que o conceito de passividade criminal corporativa está baseado numa “falácia antropomórfica” que acaba por ferir pessoas inocentes. Reich considera como inevitável um caminho evolutivo em direcção a um novo mundo alegadamente perfeito de um capitalismo super dinâmico respondendo ao ditado das preferências de consumidores todo-poderosos através da democracia de mercado.

Reich argumenta que não se pode esperar das corporações que sejam mais “socialmente responsáveis” do que os seus accionistas ou mesmo os seus consumidores, e ele lembra que a preferência e o comportamento do consumidor são as adequadas e efectivas forças de polícia que suplantam a necessidade da regulação de mercado. Ele encara as corporações, quando vistas pela lei como “pessoas legais”, simplesmente como instituições neutrais que respondem às preferências do consumidor em mercados globais. Reich afirma que as políticas, estratégias e comportamentos corporativos no capitalismo de mercado são efectivamente governados pela preferências do consumidor e não necessitam regulação por parte do governo. Isto é essencialmente a ideologia do neoliberalismo.

Ainda assim, as corporações transnacionais americanas derivam lucro de operações globais que servem consumidores globais para maximizar o retorno sobre o capital global. Estas corporações transnacionais procurarão comutar a produção para onde o trabalho é mais barato e os padrões ambientais são os mais baixos e mercadejar os seus produtos onde os preços são os mais altos e o poder de compra do consumir o mais forte. Muitas vezes estas corporações descobrem que é mais lucrativo vender produtos que elas próprias não fabricam, controlando apenas o desenho e o marketing, deixando o trabalho sujo da manufactura para outros com poder de compra subdesenvolvido. Isto significa que se os EUA quiserem um excedente comercial sob as condições actuais do comércio devem rebaixar os seus salários. A disjunção dos consumidores dos produtores enfraquece os efeitos convencionais da pressão do mercado sobre a responsabilidade corporativa. As corporações transnacionais não têm lealdade à comunidade de origem. Os consumidores geralmente não se importam quanto às condições de exploração ferozes além mar ao passo que os trabalhadores além mar não se importam quanto à segurança do produto nos bens que produzem mas não podem comprar. Os produtos podem ser fabricados na China, mas eles não são fabricados pela China mas sim por corporações transnacionais americanas as quais são as responsáveis pela qualidade e segurança dos seus produtos.

Além disso, é bem reconhecido que as corporações habitual e efectivamente manipulam a preferência do consumidor e a aceitação do mercado muitas vezes através de publicidade, se não falsa pelo menos enganosa, não para o benefício dos consumidores para maximizar o retorno do capital sem rosto levantado junto a mercados capitalistas globais. A ênfase subliminar por parte da cultura corporativa sobre a aquisição viciosa de coisas materiais, a parte de uma privação estrutural do rendimento adequado para satisfazer os desejos manipulados, tornou os consumidores menos satisfeitos do que em tempos anteriores de menos abundância material. Às corporações tem sido permitido encaixar mensagens a pressionar pelo consumo em todos os aspectos da vida moderna. O resultado é uma cultura descartável com desperdício empacotado, uma crise de obesidade em todas as faixas etárias, o disparo da dívida do consumidor, a privatização de serviços públicos que exigem a mesma taxa para serviços básicos dos ricos e dos pobres, provocando disparidade aguda nas possibilidades financeiras. É o fenómeno descrito por Karl Marx como “fetichismo das mercadorias”.

O conceito de Marx de fetichismo das mercadorias

Em Das Kapital, Volume One, Part I: Commodities and Money, Chapter One: Commodities, Section I, Marx escreveu o seguinte: “A relação dos produtores com a soma total do seu próprio trabalho é-lhes apresentada como uma relação social, existente não entre eles, mas entre os produtos do seu trabalho. Esta é a razão porque os produtos do trabalho tornam-se mercadorias, coisas sociais cujas qualidades são ao mesmo tempo perceptíveis e imperceptíveis pelos sentidos. … … A existência das coisas mercadorias, e a relação de valor entre os produtos do trabalho as quais marcam-nos como mercadorias, não absolutamente qualquer conexão com as suas propriedades físicas e com as relações materiais que dela decorrem. É uma relação social definida entre homens que assumem, aos seus olhos, a forma fantástica de uma relação entre coisas. Portanto, a fim de encontrar uma analogia, devemos recorrer às regiões envoltas em neblina do mundo religioso. Naquele mundo, as produções do cérebro humano surge como seres independentes dotados de vida, e entram em relação tanto uns com os outros como com a raça humana. Assim é no mundo das mercadorias [feitas] com os produtos das mãos dos homens. A isto chamo fetichismo o qual liga-se aos produtos do trabalho, assim que são produzidos como mercadorias, e o qual é portanto inseparável da produção de mercadorias. Este Fetichismo das Mercadorias tem a sua origem … no peculiar carácter social do trabalho que os produz”.

Marx assevera que “o carácter místico das mercadorias não tem origem no seu valor de uso”. O valor de mercado é derivado de relações sociais, não do valor de uso que é um fenómeno material. Dessa forma Marx critica a Teoria da Utillidade Marginal ao destacar que o valor de mercado é afectado pelo relacionamento social. Exemplo: a utilidade marginal de fechaduras de portas é uma função da taxa de roubos numa vizinhança a qual por sua vez é uma função da taxa de desemprego. Mercados livres não regulados são um regime não coibido de sobre preços extorsivos (price gouging) por parte dos monopólios e cartéis.

Portanto a natureza do dinheiro não pode ser explicada adequadamente mesmo em termos das propriedades materiais e técnicas do ouro, mas apenas em termos dos factores por trás do desejo do homem e da necessidade de ouro. Analogamente, não é possível entender plenamente o preço do capital a partir da natureza técnica dos meios de produção, mas só da instituição social da propriedade privada e dos termos de troca impostos pelo desigual poder de mercado. O capitalismo de mercado é uma instituição social baseada sobre o fetichismo das mercadorias.

A democracia ameaçada pelo Estado corporativo

Se bem que Reich tenha o objectivo de advertir acerca do perigo para a democracia colocado pelo estado corporativo, e afirme que só pessoas podem ser cidadãos, e só cidadãos deveriam participar em tomadas de decisão democráticas, ele não entendeu que as corporações transnacionais transcenderam as fronteiras nacionais. Em cada comunidade que estas corporações transnacionais operam elas têm o incentivo inato, os meios financeiros e o mandato legal para manipular o fetichismo das mercadorias mesmo em terras distantes.

Além disso, a democracia representativa tal como praticada nos EUA é cada vez mais manipulada pelos lobbies corporativos financiados pelos recursos financeiros de corporações com altos lucros que derivam de fontes estrangeiras controladas pela administração. A governação corporativa é notoriamente abusiva dos direitos dos accionistas minoritários por parte da administração. Não obstante a racionalização de Reich da compensação excessiva dos administradores executivos, estes como classe são os mais veementes proponentes da cobertura estatal. As corporações modernas estão seguramente isoladas de quaisquer ameaças sérias de revolta dos consumidores. A competição inter-corporativa apresenta apenas escolhas superficiais e triviais aos consumidores. Aos motoristas nunca foi oferecida qualquer escolha real sobre gasolina pelas companhias petrolíferas ou alternativas aos motores de combustão interno beberrões por parte dos fabricantes de carros.

Os altos pagamentos dos administradores-executivos

No seu artigo de opinião no WSJ Reich assevera que os modernos administradores-executivos no capitalismo financeiro dos dias de hoje merecem os seus altos pagamentos porque eles têm de ser super-estrelas, ao contrário dos seus antecessores semelhantes a burocratas durante o capitalismo industrial. Apesar de alguém poder esperar de um antigo secretário do Trabalho que argumentasse que os trabalhadores merecem pagamento mais alto, o desafio para a liderança corporativa no capitalismo de mercado sempre foi e sempre será a implacável busca do poder de liderança no mercado, um eufemismo para monopólio, através do contorno à regra da lei e dos regulamentos, da estruturação de regimes legislativos através do lobbying político, da redução de salários e benefícios do trabalhador, do aumento da produtividade através do downsizing num mercado em expansão e da manipulação da atitude do consumidor através da publicidade. Em última análise, o ponto principal para o lucro corporativo é uma questão de reduzir níveis de salário e benefícios.

Reich parece tem esquecido que os capitães da indústria do capitalismo em roda livre do século XIX era todos super-estrelas que evocavam a admiração ao manipular o público intimidado a aceitar o mito do êxito de Horatio Alger através do trabalho árduo, da honestidade e da correcção. A expressão depreciativa “barões ladrões” (”robber barons”) surgiu primeiro em panfletos de protestos que circularam entre os vitimizados agricultores do Kansas, contra os brutais magnatas dos caminhos de ferro durante da Grande Depressão. A manipulação da vontade pública pelos interesses endinheirados é a vulnerabilidade mais problemática da democracia económica e política americana. Numa era em que a luta de classes assumiu novo refinamento, a acusação de recorrer a argumentos de luta de classes é utilizada extensivamente para silenciar protestos sócio-económicos legítimos. Os media dos EUA são possuídos essencialmente pelos interesses do dinheiro. O declínio do sindicalismo nos EUA tem sido em grande media o resultado das campanhas de propaganda anti-trabalho financiada por corporações e de políticas de governo influenciadas por lobbyistas corporativos. A infiltração do crime organizado foi explorada para promover sentimentos públicos anti-sindicais ao passo que os generalizados crimes corporativos de colarinho branco foram reduzidos a meras anomalias. Ver meu artigo no Asian Times: As maçãs estragadas do capitalismo: É o barril que está podre .

O capitalismo do super-homem

Ao promover o seu novo livro num artigo de opinião no permissivo WSJ, o Professor Reich poderia atribuir-lhe um título mais adequado: O capitalismo do super-homem, em louvor das qualidades super-heróicas dos administradores-executivos de corporações que merecem pagamentos de super-estrêlas. Esta visão vai para além até mesmo da ideologia fascista do super-homem. A compensação aos administradores-executivos na Alemanha nazi nunca atingiu níveis tão obscenos como aquelas nas corporações americanas de hoje.

Reich argumenta que os administradores-executivos merecem a sua compensação super-elevada, a qual aumentou 600% em duas décadas, porque os lucros corporativos também ascenderam 600% no mesmo período. O antigo secretário do Trabalho não destacou que os salários aumentaram apenas 30% no mesmo período. A disparidade lucro/salário é um cancro em crescimento na economia global dominada pelos EUA, provocando a super-produção em resultado da estagnação da procura devida a salários inadequados. Um verdadeiro porta-voz do trabalho destacaria que a moderna administração esclarecida reconhece que o desempenho de uma corporação é a soma total da equipe de trabalho efectivo entre administração e trabalho.

A análise de sistema mostrou há muito que é indispensável o esforço colectivo da parte de toda uma força de trabalho para ter êxito em qualquer organismo complexo. Além disso, um mercado consumidor saudável depende de um equilíbrio entre rendimentos corporativos e rendimentos do trabalhador. O ponto de Reich seria válido se os salários americanos tivessem ascendido no mesmo múltiplo que o pagamento aos administradores-executivos e os lucros corporativos, mas aparentemente ele pensa que seria mal educado levantar questões embaraçosas como um colaborador convidado num jornal anti-trabalho por natureza da Wall Street. Mesmo assim, a menos que o crescimento real também cresça 600%, a ascensão no rendimento corporativo pode ser apenas uma bolha de inflação.

Uma introdução ao populismo económico

Para ser justo, Reich tratou da questão do fosso do rendimento oito meses antes em outro artigo: An Introduction to Economic Populism no número de Jan-Fev de 2007 de The American Prospect, uma revista que se anuncia como dedicada às “ideias liberais”. Naquele artigo, Reich relata uma discussão “filosófica” que teve com o seu companheiro neoliberal membro do gabinete, Robert Rubin, então secretário do Tesouro sob a administração Clinton, sobre duas “simples questões”.

A primeira questão era: Suponho que uma política proposta irá aumentar os rendimentos de algumas pessoas com diminuição dos rendimentos de quaisquer outras. Naturalmente Reich deve saber que se trata de uma questão de teoria económica do bem estar respondida há muito pelo Óptimo de Pareto, o qual assevera que os recursos estão distribuídos de forma óptima quando um indivíduo não pode mover-se para uma posição melhor sem colocar algum outro numa posição pior. Numa sociedade injusta, o Óptimo de Pareto perpetuará a injustiça em nome da atribuição óptima de recursos. “Deveria ela ser aplicada? Bob e eu concordámos em que deveria”, escreve Reich. Não exactamente uma posição liberal desafiadora. Ao contrário, é uma postura neoliberal clássica.

E a segunda questão: Mas suponha que as pessoas cujos rendimentos aumentarão já sejam mais ricas do que todos os outros. Embora ninguém perca terreno, a desigualdade aumentará. Deveria esta política ser aplicada? “Eu não vou vos contar ao que chegámos sobre aquela segunda questão”, escreve Reich sem explicar porque. Ele diz apenas que “nós concordámos em que as pessoas que não partilham de tais ganhos sentem-se relativamente mais pobres. O aprofundamento da desigualdade também inclina mais o equilíbrio do poder político em favor da riqueza”.

Naturalmente, o pensamento claro teria deixado muda a segunda questão porque teria invalidado a primeira uma vez que o rendimento real daqueles cujo rendimento nominal não caiu na verdade caiu em relação àqueles cujo rendimento nominal ascendeu. Num sentido macro monetário, não é possível ascender o rendimento nominal de alguns sem baixar o rendimento real de outros. Todos os rendimentos devem ascender em conjunto proporcionalmente ou a desigualdade do rendimento real pós-inflação aumentará.

A desigualdade é apenas um novo aborrecimento?

Mas para melhor argumentação vamos em frente com a parábola de Reich sobre a economia do bem estar e a igualdade financeira. Aquela conversação entre o secretário do Trabalho e o secretário do Tesouro ocorreu há uma década. Reich diz no seu artigo de opinião no WSJ de Janeiro de 2008 que “a desigualdade é muito mais preocupante agora”, como se as políticas que ele e os seus colegas na administração Clinton, como evidenciado pela sua resposta à sua primeira questão, não tivessem provocado a “agora preocupante” desigualdade. “Os rendimentos dos 90% dos americanos da base aumentaram cerca de 2% em termos reais desde então, enquanto os dos 1% do topo aumentaram mais de 50%”, escreveu Reich num tom de matéria de facto como se fosse um espectador inocente.

É de surpreender que um antigo secretário do trabalho erre mesmo sobre o registo do rendimento do trabalhador. O Internal Revenue Service relata que enquanto os rendimentos têm estado a ascender desde 2003, o rendimento médio em 2005 foi de US$55.238, aproximadamente 1% menos do que em 2000 depois de ajustado à inflação. Os custos do salário horário (incluindo contribuições obrigatórias para a Segurança e benefícios) cresceram mais vagarosamente do que a produtividade horário de 1993 ao fim de 1997, os anos da gestão de Reich como secretário do Trabalho. Os lucros corporativos ascenderam até 1997 antes de declinarem, mostrando que o que deveria ter ido para os trabalhadores das melhorias da produtividade foram ao invés para lucros corporativos. E o lucro corporativo declinou depois de 1997 por causa da crise financeira asiática, a qual reduziu o rendimento do exterior para todas as companhias transnacionais enquanto o poder de compra interno permaneceu fraco por causa do crescimento abaixo da média do rendimento do trabalhador.

A quebra de tendência em salários verificou-se quando a taxa de desemprego afundou para 5%, abaixo do patamar de 6& do NAIRU (non-accelerating inflation rate of unemployment) quando a criação de emprego era robusta desde 1993 para a frente. O “exército de trabalho de reserva” na guerra contra a inflação desapareceu após a crise financeira asiática de 1997 quando o Federal Reserve injectou liquidez dentro do sistema bancário americano para lançar a bolha da dívida. Segundo o NAIRU, quando mais de 94% da força de trabalho está empregada, a guerra sobre a inflação pressionada pelo salário estará na defensiva. Mas enquanto a inflação americana era mantida baixa pelos baixos preços das importações de economias de baixos salários, os salários internos americanos ficaram atrás do crescimento da produtividade desde 1993 em diante. Os salários americanos poderia ter-se elevado sem efeitos inflacionários mas não o fizeram devido à ameaça de novas deslocalizações de empregos americanos para além mar. Isto levou o lucro corporativo a aumentar a expensas do rendimento do trabalho durante os anos da bolha da dívida com baixa inflação.

A desigualdade de rendimento nos EUA de hoje atingiu extremas nunca vistos desde a década de 1920, mas a tendência começou três décadas antes. Mais de US$1 milhão de milhões em rendimento relativo está agora a ser transferida anualmente de aproximadamente 90.000.000 de famílias da classe média e trabalhadora para as famílias e corporações mais ricas através dos lucros corporativos ganhos com os baixos salários dos trabalhadores além mar. Esta é a razão porque aproximadamente 60% do Republicanos manifestaram apoio a mais impostos sobre os ricos.

Carter, o grande paizinho da desregulamentação

As políticas e práticas responsáveis pela ampliação do fosso do rendimento de hoje remontam ao período de 1977-1981 da administração Carter, a qual é justamente conhecida como a administração da desregulamentação. A desregulamentação de Carter foi feita em nome do populismo mas os resultados foram muito anti-populares. Começando com Carter, as políticas e práticas tanto das corporações como do governo experimentaram uma mudança fundamental a fim de reestrutura a economia americana com uma revisão geral dos mercados de trabalho. Isto foi alcançado através da des-sindicalização generalizada, ruptura de negociações colectiva à escala da indústria que permitiram à administração explorar uma nova divisão internacional do trabalho a expensas dos trabalhadores internos.

O assalto frontal ao poder de negociação colectivo dos trabalhadores foi acompanhado por um realinhamento estrutura fiscal federal a fim de cortar impostos sobre os ricos, uma brutal ofensiva global neoliberal de livre-comércio pelas corporações transnacionais e políticas governamentais anti-trbalho. A transferência do custo com cuidados de saúde e planos de pensão das corporações para os trabalhadores foi abençoada pela política do governo. Uma onda de compressão de salários e de pagamentos de horas extra estreitou a diferença salarial entre os trabalhadores com salários mais baixos e mais altos (o qual ocorrerá quando trabalhadores com pagamentos mais baixo receberem um aumento salarial relativamente maior do que os trabalhadores mais bem pagos, com todos os trabalhadores a receberem aumentos de pagamentos mais baixos do que os administradores). Havia um desvio recorrente de fundos da segurança social induzidos pela inflação para o orçamento fiscal americano a fim de compensar os repetidos défices federais ajustados à inflação. Isto foi acompanhado pela desregulamentação anti-trust total e pela privatização de sector públicos; e – o mais chocante de tudo – a desregulamentação do mercado financeiro.

Carter desregulamentou a indústria petrolífera americana quatro anos após a crise de 1973 em nome da segurança nacional. O seu contestante democrático, o senador Ted Kennedy, advogou abertamente a nacionalização. A administração Carter também desregulamentou as companhias de aviação, favorecendo lucrativos centros de tráfego (hub traffic) a expensas do tráfego para cidades mais pequenas. O preço dos bilhetes aéreos caiu mas o serviço caiu mais. Os atrasos tornaram-se rotina, frequentemente triplicando o tempo de viagem porta a porta. O que os consumidores poupam nos bilhete aéreos pagam caro em tempo perdido e em desconforto durante o voo. A administração Carter também desregulamentou o transporte por camião o que levou o Sindicato Teamsters a apoiar Reagan em troca de uma promessa de adiar a desregulamentação da camionagem.

As ferrovias também foram desregulamentads pelo Railroad Revitalization and Regulatory Reform Act de 1976, o qual facilitou regulações sobre taxas, abandono de linha e fusões para permitir à industria competir com o camião e transporte em barcaças que provocaram uma deterioração financeira e física das redes nacionais de ferrovias. Quatro anos depois, o Congresso avançou com o Staggers Rail Act de 1980 o qual deu às ferrovias maior liberdade de estabelecer preços, tabelas de horários mais flexíveis, acelerou o processo de abandono de linha e permitiu contratos confidenciais com expedidores. Embora as ferrovias, tal como outros modos de transporte, deva compra e manter o seu próprio material rolante e locomotivas, elas também devem, ao contrário dos modos competidores, construir e manter a sua própria via permanente, caminhos, terminais e instalações relacionadas. A construção e manutenção de auto-estradas é paga pelos impostos sobre a gasolina. No ambiente regulamentado, a recuperação destes custos fixos prejudicava a lucratividade da indústria ferroviária.

Após a desregulamentação, as ferrovias procuraram fortalecer a sua situação financeira e melhorar a sua eficiência operacional com um conjunto de estratégias de redução de custo para maximizar o lucro ao invés de proporcionar o serviço necessário aos passageiros de todo o país. Estas estratégias incluíram racionalização da rede pela eliminação de capacidade não lucrativa, elevação de eficiências de equipamento e operacionais por novas regras de trabalho que reduzem margens de segurança e pode sindical, utilização de apreçamento diferencial em favor de grandes expedidores, e busca de consolidação, reduzindo o número de companhias ferroviárias de 65 para as 5 de hoje. A consequência foi um aumento significativo do poder de mercado para as companhias ferroviárias resultantes da fusão, diminuindo as opções de transporte para os consumidores e aumentando as taxas para áreas remotas e menos densas.

No sector agrícola, a racionalização da rede ferroviárias forçou os expedidores a despachar por camião o grosso dos seus produtos, a maiores distâncias, resultando em maior pressão e danificando os sistemas de estradas rurais. Para despachos inter-modais, a racionalização da rede baseada no lucro significou acesso reduzido – fisicamente e economicamente – às instalações e serviços Container on Flat Car (COFC) e Trailer on Flat Car (TOFC). A desregulamentação dos caminhos de ferro, como é verdadeiro para a maior parte da desregulamentação dos transportes e comunicações, produz a sub-optimização do sector com dúbios benefícios para a economia nacional pela distorção do equilíbrio distributivo, causando congestão e utilização ineficiente da terra, da rede e das linhas.

A abordagem do Federal Communications Commission (FCC) de Carter à regulamentação da rádio e televisão começou em meados da década de 1970 como uma investigação de “regulamentos secundários” relativamente menores que poderiam ser eliminados para uma administração mais eficiente e efectiva em custos das importantes regras que permaneceriam. O Congresso foi em frente com esta tendência, e iniciou uns poucos movimentos desregulamentadores por si próprio para tornar a regulação mais efectiva e ágil às condições contemporâneas.

A fixação anti-governo de Reagan

A administração Reagan, com Mark Fowler na presidência da FCC, em 1981 transformou a desregulamentação numa reavaliação fundamental e ideologicamente conduzida das regulações, para longo dos há muito mantidos princípios centrais da política de difusão nacional apropriada a uma sociedade democrática. O resultado foi a remoção de muitas regras há muito estabelecidas a fim de permitir uma redução total da vigilância da FCC quando à concentração de propriedade de estações e operações em rede. Entretanto, o Congresso tornou-se cada vez mais desconfiado quanto ao ritmo da desregulamentação e começou a atrasar o seu ritmo da da FCC no fim da década de 1980.

Os movimentos específicos de desregulamentação incluíam (1) estender licenças de televisão para cinco anos, quando eram três em 1981; (b) expandir o número de estações de televisão que qualquer entidade pudesse possuir de sete em 1981 para 12 em 1985 com novas mudanças em 1995; (c) abolir linhas orientadoras para quantidades mínimas de programação de não entretenimento em 1985; (d) eliminação da Doutrina da Correcção (Fairness Doctrine) em 1987; (e) abandono, em 1985, da licença do FCC sobre quanta publicidade poderia ser transmitida; (f) abandono progressivo de padrões técnicos nas mãos dos licenciados, ao invés dos mandatos do FFC; e (g) desregulamentação da competição de televisão, especialmente cabo, através de várias mudanças regulamentares na década posterior a 1983.

A Lei das Telecomunicações (Telecommunications Act) de 1996 eliminou o limite de propriedade das 40 estações para a rádio. Desde então, a indústria da rádio experimentou consolidação sem precedentes. Em Junho de 2003 a FCC votou pela revisão geral dos limites sobre a propriedade dos media. Apesar de ter efectuado apenas uma audiência sobre a complexa questão da consolidação dos media ao longo de período de revisão de 20 meses, a FCC, numa eleição por telefone, votou 3-2 pela revisão geral dos limites sobre a concentração dos media. A regra seria (1) aumentar a propriedade agregada na televisão para permitir a uma companhia possuir estações que alcançassem 45% dos lares do país (eram 35%); (2) levantar a proibição sobre propriedade cruzada de jornais-televisão; e (3) permitir a uma única companhia possuir três estações de televisão em grandes mercados de media e dois em mercados médios. Nos mercados maiores, a regra permitiria a uma única companhia possuir três estações de televisão, oito estações de rádio, o sistema de televisão por cabo, estações de televisão por cabo e um jornal diário. Um vasto conjunto de grupos de interesse público apresentaram um apelo junto ao Tribunal do Terceiro Circuito, o qual confirmou a data efectiva das novas regras.

Segundo o relatório BIA Financial Network divulgado em Julho de 2006, um total de 88 estações de televisão foram vendidas nos primeiros seis meses de 2006, gerando um valor de transacção de US$15,7 mil milhões. Em 2005, o mesmo período assistiu à venda de apenas 21 estações num valor de US$244 milhões, com o total de transacções do ano de US$2,86 mil milhões.

O Congresso aprovou uma lei em 2004 que proíbe a qualquer rede possuir um grupo de estações que atinja mais de 39% da audiência nacional de televisão. Isto é inferior ao limite de 45% estabelecido em 2003, mas mais do que o tecto original de 35% estabelecido sob a administração Clinton – levando grupos de interesse público a argumentar que os limites propostos conduziam a uma asfixia de vozes locais.

A propriedade cruzada de jornais e televisões permanece uma questão contenciosa. Actualmente proibida, ela refere-se à “propriedade comum de uma estação de difusão de serviço pleno e de um jornal diário quando a área de cobertura da estação de difusão (ou ‘contorno’ como é conhecida na indústria) circunda a cidade de publicação do jornal”. A sobreposição da propriedade de rádios e televisão locais permanece uma questão contenciosa. Enquanto a regra original a proibia, actualmente uma companhia pode possuir pelo menos uma televisão e uma estação de rádio local num mercado. Em mercados maiores, “uma única entidade pode possuir estações de rádio adicionais conforme o número de outras possuídas independentemente no mercado”.

A maior parte dos difusores e editores de jornais estão a fazer lobby para facilitar ou terminar as restrições à propriedade cruzada; eles dizem que tem de ser o futuro do negócio das notícias. Isto permite que os custos de recolher notícias seja espalhado através de plataformas, e proporciona múltiplos fluxos de rendimento em contrapartida. O seu argumento também está ligado a um mercado de consumo dos media em mutação rápida, e à diversidade de opiniões disponíveis para o consumidor com a ascensão da Internet e de outras plataformas digitais.

Os argumentos contra o afrouxamento dos regulamentos quanto à propriedade dos media são avançados por uniões de consumidores e outros grupos de interesse no terreno no sentido de que a consolidação em qualquer forma inevitavelmente conduz a uma falta de diversidade de opiniões. A propriedade cruzada limita as escolhas para os consumidores, inibe o localismo e dá um poder de media excessivo a uma entidade.

Associações de profissionais e trabalhadores da indústria da comunicação (a Screen Actors Guild e a American Federation of TV and Radio Artists dentre outras) gostariam que a FCC mantivesse em mente a independência de voz, e querem que um quarto de toda a programação em horário nobre venha de produtores independentes. A Children’s Media Policy Coalition sugeriu que a FCC limitasse os difusores locais a uma única licença por mercado, de modo a que haja bastante programação original para crianças. Outros grupos de interesse como a National Association of Black Owned Broadcasters estão preocupados com o impacto que as regras podem ter sobre a propriedade de estações por parte de minorias.

Os proponentes da desregulamentação encaram os licenciados da estação não como “procuradores do povo” (”public trustees”) das ondas de rádio e televisão que exigem o fornecimento de uma vasta variedade de serviços para muitos grupos diferentes de ouvintes. A indústria da difusão, ao contrário, tem sido cada vez mais vista como apenas um outro negócio a operar num mercado comercial o qual não precisa que as suas decisões de administração seja questionadas por supervisores do governo, muito embora seja-lhes concedida permissão para utilizar canais públicos. Os oponentes argumentam que a desregulamentação viola o mandato chave de The Communications Act de 1934 o qual exige dos licenciados que operem no interesse público. A desregulamentação permite à indústria da difusão que busquem lucros com pouca programação de serviço público.

Clinton e a desregulamentação das telecomunicações

A Lei das Telecomunicações de 1996 foi a primeira grande revisão geral da lei de telecomunicações americana em cerca de 62 anos, emendando a Lei das Comunicações de 1934 e conduzindo à consolidação dos media. Ela foi aprovada pelo 104º Congresso em 3 de Janeiro de 1996 e promulgada em 8 de Fevereiro de 1996 pelo presidente Clinton, um democrata que alguns historiadores etiquetaram como o melhor presidente que os republicanos alguma vez tiveram. A lei afirmava promover a competição, mas ao invés disso continuava a consolidação histórica da indústria começada por Reagan, cujas acções reduziram o número de grandes companhias de media de cerca de 50 em 1983 par 10 em 1996, reduzindo os 10 de 1996 para 6 em 2005.

Regulamento Q

A administração Carter aumentou o poder do Federal Reserve através do Depository Institutions and Monetary Control Act (DIDMCA) de 1980, o que era um primeiro passo necessário para acabar com as restrições que o New Deal colocara às instituições financeiras, tais como o Regulamento Q posto em vigor pelo Glass-Steagall Act de 1933 e outras restrições sobre bancos e instituições financeiras. O populista Regulamento Q impôs limites e tectos às taxas de juros de bancos e caixas económicas ao proporcionar fundos para hipotecas de casas com baixo risco. Mas com a desregulamentação do mercado financeiro, o Regulamento Q criava incentivos para bancos americanos fazerem negócios para além do alcance da lei americana, lançando a globalização financeira. Londres acabou por dominar este negócio do dólar offshore.

O populista Regulamento Q, que durante várias décadas regulamentou limites e tectos sobre juros de bancos e caixas económicas para servir o sector hipotecário, foi completamente anulado em Março de 1986. Foi permitido aos bancos pagarem juros sobre contas com cheques – as NOVAS contas, a atrair depositantes recuperados dos mercados de dinheiro. A vantagem tradicional em taxas de juro das caixas económicas foi removida, para proporcionar um “campo de jogo nivelado”, forçando-as a assumirem os mesmos riscos dos bancos comerciais a fim de sobreviverem. O Congresso também levantou restrições à concessão de empréstimos por parte das caixas económicas, ao invés da tradicional hipoteca habitacional, o que imediatamente pôs toda a indústria em tal perturbação que logo seria precisa uma sem precedentes salvação de emergência (bailout) dos depositantes por parte do governo, com dinheiro dos contribuintes. Mas aos inventores que fizeram milhares de milhões a partir do crédito fácil foi permitido manter os seus lucros. As leis de usura do Estado foram suspensas unilateralmente por um acto do Congresso numa flagrante intrusão dos direitos do Estado. Carter, o populista bem intencionado, deixou um legado de políticas anti-populistas. Nos dias de hoje, Greenspan continua a argumentar sem sinceridade que as hipotecas sub-prime ajudaram os pobres a serem proprietários de casas, ao invés de gerarem um lucro obsceno para a indústria de titularização da dívida.

Interesses corporativos tomam o comando do partido de Lincoln

Durante a administração Reagan, o lobbying corporativo e as estratégias eleitorais permitiram à elite corporativa arrebatar o controle do Partido Republicano, o partido de Lincoln, dos populistas conservadores. No fim da década de 1980, a teoria económica da oferta monetária era promovida para permitir aos interesses corporativos dominarem a política americana a expensas do trabalho com a argumentação de que o único modo pelo qual o trabalho pode prosperar é permitir ao capital que alcance altos retornos, não obstante a contradição de que altos retornos sobre o capital dever vir de baixos salários. A nova legislação, ordens executivas, feitura de regras do governo federal, decisões de agências federais e propaganda dos think-tank, etc subsequentemente seguiu a nova paisagem política, assistindo à implementação de novas políticas corporativas e práticas que emergiam das sedes das corporações e não do piso dos estabelecimentos. Economistas e analistas que desafiavam esta teoria vodú foram em grande medida expelidos dos media. Trabalhadores aos milhões foram persuadidos a abandonar o seu defensor institucional colectivo para defenderem-se por si próprios individualmente em nome da liberdade. Era a liberdade de ver a sua segurança no emprego erodida e salários e benefícios caírem sem apelo.

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Carrossel dos sentidos

Para que possamos perceber o mundo como um todo, os cinco sentidos precisam cooperar entre si de forma inteligente e, muitas vezes, praticamente fundir-se uns nos outros

Christoph Kayser

Da esquerda soa, no último volume, uma música antiga e famosa. “Vamos entrando!”, grita alguém do outro lado. Atrás, um grupo de jovens dá risada e, em algum lugar, uma criança berra. Simultaneamente, brilham e reluzem por toda parte luzes coloridas, enquanto nossos olhos tentam acompanhar os loopings da montanha-russa. O tumulto de um parque de diversões inunda nossos sentidos. E talvez o programa não fosse tão bom sem essa multiplicidade de estímulos, sem a concentração de pessoas, o empurra-empurra e o acotovelamento, sem o sorvete na mão ou o cheiro de algodão-doce e pipoca.

O exemplo mostra quantos sinais vindos do mundo exterior nos atingem ao mesmo tempo. Somente pela combinação deles surge a complexa impressão geral, típica de situações como essa. Nessas circunstâncias, o cérebro é exigido ao máximo – o que evidentemente atrai a curiosidade de neurocientistas.

A inundação de estímulos no parque, no entanto, não se ajusta ao exame mais detalhado da maravilhosa mistura de variadas impressões de sentidos – a integração sensorial. Os pesquisadores preferem condições claras e controláveis. Têm interesse especial por situações em que nosso cérebro se ludibria quase sozinho e produz falsas imagens do ambiente. Um exemplo conhecido desses enganos é o efeito de ventríloquo. Embora a voz que se ouve não seja originada pela boca em movimento do boneco, a impressão que temos é exatamente essa. Também no cinema nos entregamos à ilusão de que os heróis na tela falam, embora na realidade suas vozes ecoem dos alto-falantes espalhados pela sala de espetáculos. Nosso cérebro parte imperturbavelmente da premissa de que a fonte do que é dito se encontra onde os lábios se movem no ritmo adequado – ele combina, portanto, de forma significativa e entre si, a impressão de audição e de visão.

É fácil nos enganarmos não apenas com a origem de um estímulo sensorial, mas também com sua qualidade. Em meados dos anos 70, os psicólogos Harry McGurk e John MacDonald, da Universidade de Surrey, na Grã-Bretanha, descobriram um fenômeno interessante: apresentavam a voluntários uma seqüência de filme, na qual um ator articulava a sílaba “ga”, e sincronizavam a cena com o som “ba”; as pessoas informavam posteriormente que não percebiam nem uma nem outra, mas a sílaba “da”! Ambas as informações sensoriais se dissolviam, portanto, em um terceiro som, totalmente novo.

Várias peças

Os sentidos de audição e tato também se prestam, por vezes, a alianças enganosas: normalmente, quando esfregamos as palmas de nossas mãos uma na outra, conseguimos avaliar bem a umidade da pele. Mas se, ao fazer isso, ouvimos um forte rumor, a pele parece repentinamente seca; se o ruído perde sua intensidade ou a sonoridade sobe a uma escala mais alta, então as palmas das mãos nos parecem outra vez úmidas.

Tais ilusões mostram que nosso cérebro combina constantemente as informações dos diversos órgãos do sentido, a fim de delinear uma imagem mais ou menos correta do ambiente. Para os pesquisadores da percepção colocam-se duas questões: como os sentidos se fundem no cérebro e onde ocorre esse processo?

Em princípio, várias possibilidades são presumíveis. Número 1: cada sistema neurossensorial analisa seus estímulos, inicialmente sozinho, e produz uma “imagem” pronta do ambiente. O sistema responsável pela visão, por exemplo, fornece o aspecto de um cão pastor alemão que late atrás de uma cerca branca, ao passo que o aparato auditivo informa simultaneamente o latido e o som de um carro que passa na rua. Somente depois disso as várias impressões sensoriais são integradas e formam uma imagem completa: um cão latindo no jardim em frente à casa.

Número 2: o sistema visual descobre, de início, uma superfície manchada, de tamanho médio, em meio a muito verde. Simultaneamente, o sistema auditivo percebe um ruído alto que se repete ritmicamente, proveniente daquela área. Em seguida, o sistema visual registra que a superfície se modifica sempre que o sistema auditivo informa o ruído. Dessa maneira os diversos sentidos se complementam em frações de segundo, até que seja formada a impressão total do pastor alemão latindo. Nesse caso, a integração sensorial já ocorre em uma fase bastante precoce do processo.

O primeiro modelo concebe os diversos sistemas sensoriais como departamentos isolados, unidos apenas ao final do processo. Já o segundo considera que cada sentido consegue co-interpretar precocemente os objetos percebidos com base em outras informações sensoriais. Entre tais variantes extremas podem-se considerar, naturalmente, tantas etapas intermediárias quantas se queira. O caminho pelo qual o cérebro envereda encontra-se provavelmente em meio a essas duas abordagens. A questão é: onde?

Mais oxigênio

Pesquisadores buscam a resposta com o auxílio de procedimentos que mostram imagens, como, por exemplo, a tomografia de ressonância magnética ou a tomografia de spin nuclear. Neste caso, os cientistas se valem do fato de que, carregada de oxigênio, a molécula de hemoglobina tem um comportamento diferente em um forte campo magnético. Trabalhando de maneira bastante intensa, uma região cerebral gasta mais oxigênio do que regiões vizinhas e, por essa razão, tem um suprimento sangüíneo mais forte. A tomografia de ressonância magnética capta esse suprimento diverso, podendo fornecer uma imagem momentânea do cérebro em atividade.

Se as informações sensoriais fossem, de fato, analisadas até o mínimo detalhe, separadamente, por variados sistemas e fossem combinadas somente ao final, deveria haver diversas áreas cerebrais sensoriais que se ocupariam exclusivamente com um único sentido. No outro caso, no qual a combinação ocorre bem cedo, poucas dessas regiões especializadas deveriam bastar. Ambos seriam passíveis de reconhecimento no tomógrafo de spin nuclear.

De fato, nos últimos anos, uma série de estudos com imagens revelou complexa rede de áreas cerebrais que se tornam extremamente ativas especialmente quando dados sensoriais diferentes convergem. Já se sabia que as assim denominadas áreas de associação nos lobos parietal e frontal do córtex cerebral trabalham informações de canais sensoriais diferentes; mas também áreas até então tidas como responsáveis por um único sentido mostraram, nesse ínterim, seus talentos variados: como descrito por Jon Driver, do University College London em 2005, a atividade do córtex visual de pessoas em teste aumenta ao enxergarem um flash bem próximo de sua mão quando os dedos percebem estímulos tácteis adicionais. Esta atividade cerebral elevada só se manifesta, todavia, quando o estímulo visual e o tátil ocorrem simultaneamente e do mesmo lado do corpo.

Da mesma forma, percebemos cada vez menos um ponto de luz a piscar quando a intensidade diminui paulatinamente. Se, porém, ouvirmos um som breve durante o piscar, ainda reconheceremos mesmo o mais fraco luzir. Isso tudo só funciona, entretanto, quando luz e som ocorrem no mesmo momento.

Um caso especialmente interessante ocorre com a percepção da fala: o som das palavras não é transmitido apenas acusticamente, também os movimentos dos lábios guardam informações valiosas. Em 2001, a pesquisadora Gemma Calvert, da Universidade de Oxford, observou que, na percepção dos fonemas, tanto a atividade do sistema auditivo quanto do visual é reforçada quando estímulos acústicos e imagens chegam juntos ao cérebro. A visão dos lábios em movimento influencia precocemente o processamento dos sinais sonoros e também as palavras ouvidas agem sobre a análise visual do movimento da boca. O efeito sinérgico de ouvir e ver surge em regiões cerebrais que até então eram consideradas áreas sensoriais isoladas.

Trabalho de equipe

Já a observação da imagem muda de uma pessoa enquanto fala é suficiente para ativar de forma mensurável o córtex auditivo – mesmo quando ela apenas articula palavras sem sentido. Caretas, contudo, não têm efeito sobre essa região cerebral. Isso deixa claro que o córtex auditivo reage de modo bem específico: a integração sensorial de estímulos acústicos e visuais colabora para o processamento da fala.

O segundo modelo, que parte de uma fusão sensorial bastante precoce, parece ser o válido. Medidas de ressonância magnética de alta resolução, que executamos em 2005 no Instituto Max Planck de Cibernética Biológica, em diversas áreas do córtex auditivo de macacos resos, também apontam para esta direção. Esse córtex subdivide-se em diversas unidades: os impulsos elétricos que produzem ondas sonoras que entram no ouvido interno alcançam o córtex auditivo primário por meio de uma estação intermediária no tálamo. Somente a partir dessa área os estímulos chegam às regiões superiores, que se cingem o córtex auditivo primário como um cinto de poucos milímetros.

Durante nossas experiências, quando fazíamos os animais escutarem ruídos com um fone de ouvido e, simulta-neamente, estimulávamos superfícies de suas patas usando uma escova, podíamos mensurar a atividade cerebral crescente – a parte posterior do córtex auditivo secundário apresentava movimento. Aqui parece encontrar-se, portanto, o local da integração sensorial.

Exatamente por que razão essas regiões fundem as informações dos sentidos não sabemos ainda. Mas já se afigura a possibilidade de a parte posterior do córtex auditivo ser especializada em captar informações espaciais – quer dizer, reconhecer de onde um ruído vem. Assim, essa fusão sensorial poderia colaborar com a ordenação de diferentes impressões de sentido para a mesma origem espacial.

Uma conclusão parece admissível: a integração sensorial se dá em áreas auditivas superiores. Dessa forma, ocorre de modo bastante precoce, mas não tanto quanto teoricamente seria possível. O primeiro modelo, que partia de um processamento separado das impressões sensoriais, simplesmente mostra-se falso. O segundo, com sua suposição de uma fusão de sentidos, pode sugerir certo exagero, mas parece corresponder melhor à realidade.

Ao que tudo indica, pelo menos uma grande parte de nosso cérebro está ocupada em combinar entre si informações de diversos sentidos. Comparativamente, uma área cerebral quase ínfima se ocupa exclusivamente de um único sentido.

Revista Mente e Cérebro
http://www2.uol.com.br/vivermente/

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“Os Estados Unidos são um país orientado para a esquerda”

Luciano Monteagudo

Optimista por natureza, o director de Farenheit 9/11 pensa que com Sicko pode contribuir para melhorar o sistema de saúde do seu país e que nas próximas eleições americanas finalmente vai acabar o reinado do Partido Republicano.

“Eu nem sequer acreditaria nas boas coisas que se dizem de mim, tanta é a manipulação que há nos média americanos. Fui à missa no domingo passado, quem acreditaria nisso? Esse sou eu, sou assim, em criança fui seminarista porque queria ser sacerdote católico; fui escuteiro e no início do século XX o meu avô foi líder do Partido Republicano, quando a palavra ‘conservador’ não era uma má palavra, o que significa que não se gastava o dinheiro que não se tinha, que se ‘conservava’ a água e o meio ambiente… ‘Conservar’ era uma boa palavra…”

Assim se apresenta Michael Moore - ténis, bermudas, o boné vermelho de beisebol que não pode faltar - na conferência de imprensa com um punhado de jornalistas canadianos, à qual teve acesso o Página 12. O marco é o Festival Internacional de Filmes de Toronto, onde Moore veio apresentar o seu novo documentário, Captain Mike Across America, nas suas próprias palavras um “concert film” que dá conta da sua maratona de viagens que o próprio realizou a fazer campanha contra George Bush, durante as eleições de 2004, um esforço que Moore não considera um fracasso, mas sim o começo de um despertar político da juventude americana com vistas às eleições do próximo ano. Mas foi Sicko que lhe devolveu o primeiro plano do debate político e a atenção dos talk shows mais vistos do seu país.

Depois de Sicko, Oprah Winfrey já o levou duas vezes ao seu programa. Porquê?

Oprah decidiu que este é um tema para ela, que neste ano de campanha as pessoas estão interessadas no que acontece com a saúde pública, que é uma coisa que interessa a todo o país, à margem das suas tendências políticas. Depois da minha primeira aparição no programa, uma enorme quantidade de gente telefonou para a produção para contar histórias de graves problemas de desatenção médica, os momentos terríveis que tiveram que passar, e muitas destas histórias são mais eloquentes ainda do que as que eu exibo em Sicko. Oprah encontrou aí um tema e vai acompanhá-lo, porque é o que interessa ao público.

Como foram estes últimos meses, considerando que depois de mais de dois anos de silêncio apresenta não um mas dois filmes consecutivos e que Sicko está agora no centro das atenções?

Tenho sentimentos desencontrados a respeito disso. Por um lado, estou feliz com os meus dois filmes, com a possibilidade de dizer o que penso publicamente, em diferentes tribunas, que o tema da saúde volte a ser notícia… Mas em termos mais pessoais, estou um pouco cansado - devo confessar - de ter de alimentar esta energia todos os dias. Sinto que é preciso muito tempo e esforço para despertar as pessoas e provocar mudanças reais. Mas ainda assim foi um Verão excelente e estou muito agradecido de que tanta gente tenha ido ver Sicko. Mais, Harvey Weinstein (o produtor) pensa relançá-lo agora novamente, com o início do novo semestre universitário, para que haja mais oportunidades de vê-lo antes da edição em DVD.

Pensa que Sicko pode ajudar a provocar uma mudança na política de saúde dos Estados Unidos?

Uma das empresas mais sérias do meu país, a Kaiser Polls, fez uma sondagem sobre Sicko. O filme já recolheu uns 24 ou 25 milhões de dólares, o que implica que foi visto por uns quatro milhões de espectadores. Mas a sondagem assinala que 46% dos norte-americanos recebeu o impacto da estreia do filme de uma ou de outra forma. Que acontece? Cada um desses quatro milhões de espectadores fala ou comenta o filme junto de outras dez pessoas, o que faz com que já estejamos a pensar em 40 milhões de pessoas. E depois cada um desses 40 milhões fala com outras cinco pessoas e já estamos em 200 milhões. É um efeito cascata. Agora até os pré-candidatos presidenciais têm de ir ver o filme, porque se fala de saúde pública nos média. O seja: Sicko tem um alcance que vai muito mais além do que acontece nas salas.

Sente o peso dessa responsabilidade?

O que sinto é que - como muitas das pessoas a quem me dirijo - venho da classe trabalhadora, só cheguei ao nível secundário na educação, mas tenho o privilégio de ser ouvido, de ter voz, e posso falar pelos que não têm, que não podem fazer um filme, publicar um livro ou aparecer na televisão. E essa é a minha primeira responsabilidade: falar por aqueles que trabalham por cinco dólares e quinze centavos à hora, que não têm seguro de saúde, que perderam o trabalho, que são vítimas da proliferação de armas de fogo, cujos filhos estão no Iraque numa guerra ilegal. Por isso, aceito essa responsabilidade, com os prós e os contras que vêm dela, e levanto o mais alto que posso a minha voz para mudar as coisas que acho que é preciso mudar.

Acha que Bush tem muitos opositores?

Tenho dito isto há muitos anos: os Estados Unidos são um país liberal, não um país conservador. A maioria dos americanos são liberals. Odeiam esta palavra, não a usam nunca, mas se lhes perguntamos se a mulher deve ter as mesmas oportunidades laborais e o mesmo salário que o homem, se o salário mínimo deve ser aumentado, se devem ter melhor cobertura de saúde, enfim, a lista toda, a maioria responde de acordo a posturas liberais em cada aspecto em particular.

Salvo na pena de morte…

Salvo na pena de morte, é verdade, mas mesmo isso está a mudar. Até há pouco, 75% do país estava a favor, e agora esse número baixou para 55%. Ou seja, vamos bem. Repito: os Estados Unidos são um país cuja população é liberal, com um pensamento que se orienta basicamente para a esquerda, e, pelo contrário, o que reflectem os meios é um país conservador governado por conservadores.

Mas os conservadores ganham…

É verdade. Mas a minha resposta a isso é que aqueles que votam (que não são a maioria) votam por alguém que sabem exactamente o que vai fazer. Quando alguém vota em Reagan, sabe o que espera dele e o que vai fazer. O mesmo acontece com Bush pai e com Bush filho. Mas quando alguém vota nestes democratas que se apresentaram, não tem ideia do que vão fazer com o voto dele. Estão sempre a flutuar à mercê do vento, mudam de ideias e de discurso de um dia para o outro. Se há alguma coisa que temos de admirar nos republicanos é que eles realmente acreditam nalguma coisa e esfregam-nos na cara. Dizem que não pensam aumentar o salário mínimo apesar de 70% da população, segundo as sondagens, dizer que quer aumento. Dizem que não pensam em retirar as tropas do Iraque mesmo quando 70% da população está contra a guerra. É preciso admirar a coragem que têm. Do nosso lado não há ninguém que tenha essa coragem. E as pessoas não querem dar-se ao trabalho de ir votar num indeciso para presidente.

Refere-se a John Kerry?

Nunca poderíamos ter ganho a eleição no lugar de Kerry, ele é que deveria tê-lo feito. A contribuição de Bruce Springsteen, das Dixie Chicks, de Jackson Browne e de eu próprio, entre muitos outros, foram contribuições espontâneas. Cada um fez a sua digressão como uma acção cidadã. Mas claramente o problema era o candidato. Por exemplo, na minha digressão procurei não coincidir com Kerry, mas em Albuquerque, no Novo México, estivemos na cidade nas mesmas 24 horas. E enquanto nós enchemos um estádio de 12 mil pessoas, ele apenas juntou 800 nas proximidades do aeroporto. Não sei o que dizer. Muita gente pensa que não era candidato suficiente e que não se lhe pode pedir que seja o que não é. E agora vai depender de quem for o candidato democrata nas próximas eleições para decidir se vou trabalhar forte com ele ou se simplesmente vou votar nele. Porque não posso trabalhar com alguém com quem não compartilho os pontos de vista. Digo-o muito francamente: se votaste a favor desta guerra, não sei como ajudar a aproximar das urnas aqueles que como eu - e somos milhões - estão contra a guerra. Mas tenho claro que não podemos ter outros quatro anos de governo republicano. Temos que por fim a isso. Não podem continuar.

Como imagina que vão ser as próximas eleições e quem acha que vai ser o candidato democrata?

Bom, os democratas são profissionais de estragar tudo. As perspectivas são as melhores, as sondagens indicam que as pessoas já estão cansadas de votar nos republicanos, mas não se deve dar nada por seguro. Já aconteceu na eleição anterior: Kerry tinha intenções de voto muito superiores e acabou Bush por ganhar. Quanto aos candidatos, penso que Hillary (Clinton) vai passar muito mal as primárias porque a base mais liberal dos democratas vota nas primárias. Essa base liberal está contra a guerra e ela no Congresso votou a favor da guerra. Penso que Obama é um bom candidato, mas John Edwards também é: não quero apoiar nenhum em particular. Gostaria que Al Gore entrasse também na corrida, não porque o apoie, mas sim porque há pessoas que ainda não assimilaram o roubo de que foi vítima sete anos atrás. E Gore está contra a guerra, contra o aquecimento global, a favor de um sistema público de saúde. E cada vez que menciono o seu nome, os meus compatriotas dizem: “Teria sido um bom presidente”. Por isso seria bom que corresse o risco novamente e não vejo uma razão pela qual não o faça.

E no campo republicano?

Nas primárias dos republicanos, os mais conservadores são os que mais votam, por isso (Rudolph) Giuliani tem mais hipóteses. E ele trabalha sobre o medo e os norte-americanos reagem muito bem ao medo. Por isso vai levantar uma vez mais a bandeira do 11 de Setembro e vai armar todo um circo com isso, porque sabe que lhe pode dar frutos. Mas espero que os bombeiros de Nova York venham dar a sua versão e revelem a verdadeira história do mayor Giuliani e as suas desastrosas decisões, antes do 11/9 e também depois.

Qual a sua opinião sobre a política de imigração da administração republicana?

Somos uma nação de imigrantes e isso é muito bom. Todos nós somos produto da imigração. Todos, com a excepção dos descendentes dos escravos e dos descendentes dos nativos, que são os grandes pecados que estão na origem do nosso país: a escravatura e o genocídio. Mas creio que devemos continuar a dar as boas vindas às pessoas de outros países, temos muito espaço e, se não acreditam em mim, atravessem o Kansas um dia. Parece uma terra que nunca acaba e não há muito que ver. Nesse sentido, creio que tenho uma posição diferente da de muitos compatriotas, que uma vez que entraram não querem que mais ninguém o faça.

Site Esquerda
http://www.esquerda.net/

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Universidade reage ao seu papel em filme

Estudantes e professores vêem como estereótipo a associação entre universitários, tráfico e violência em “Tropa de Elite”

Para Paulo Menezes, professor de sociologia do cinema, é absurda a idéia de que todo estudante com consciência social defende o tráfico


MICHELE OLIVEIRA

Estereótipo, absurdo, distorção. É com palavras desse tipo que estudantes e professores de ciências sociais reagiram ao modo como os universitários foram retratados no filme sensação do momento, “Tropa de Elite”. Embora reconheçam o consumo de drogas nas faculdades pelo país, rejeitam o rótulo de responsáveis pelo tráfico e pela violência que, dizem, foi dado aos universitários e/ou usuários de drogas no filme.
As impressões acima foram ouvidas pela Folha de estudantes e professores que participaram da 31ª Anpocs, congresso que reuniu, na semana que passou, em Caxambu (MG), pesquisadores de antropologia, ciência política e sociologia.
No filme do diretor José Padilha, alunos do primeiro ano de direito de uma faculdade na zona sul -e nobre- do Rio debatem, em uma aula de sociologia, a ação da polícia contra as drogas. Embora não seja citada nominalmente, a universidade em que foram feitas as filmagens é a PUC (Pontifícia Universitária Católica), na Gávea.
A discussão, na presença de um policial novato, acaba por condenar a ação da polícia contra o tráfico -e inocentes ao redor- e os usuários de drogas, pela truculência com que ela é, dizem, realizada. Nas cenas seguintes, sabe-se que naquele grupo de estudantes há usuários de maconha e cocaína e também envolvidos em um trabalho social realizado em um morro, por meio de uma organização não-governamental. “Houve uma estereotipização imensa dos estudantes.
Uma classe estereotipada, na qual foi mostrada uma homogeneidade espantosa demais. É de se supor que haja um pouco mais de resistência, alunos mais heterogêneos, e de se esperar que houvesse mais defensores da ação da polícia”, critica Paulo Menezes, professor de sociologia do cinema no curso de ciências sociais da USP. “O filme passa a mostrar que todos os estudantes com consciência social defendem o tráfico de drogas, o que é completamente absurdo.”
“É um estereótipo achar que todos [os estudantes] financiam as drogas e que todos fazem passeata e ao mesmo tempo fumam maconha. Aquilo existe, mas a minha experiência de academia não bate com aquele retrato”, diz Vinicius Rivello, 26, que faz ciências sociais na Universidade Federal do Paraná. “Achei distorcida a visão da academia.”
Em vez de representar toda a classe universitária, Sergio Miceli, professor de sociologia da USP, vê a cena dos estudantes como uma “infração de classe”. “É uma infração de classe, dos estudantes do mundo da lua, bebendo, totalmente apaziguados e que interagem totalmente protegidos por suas rendas familiares, suas festinhas.”
“Acho que é uma realidade geral”, rebate um estudante da PUC do Rio que preferiu não se identificar. Ele conta ter assistido ao filme na universidade, próximo de uma rodinha de alunos que fumava maconha durante a exibição. “Não teve constrangimento nenhum, como se a realidade tivesse sido banalizada. Não teve uma autocrítica. Mas teve um mal-estar do estereótipo que foi colocado no filme”, afirmou.

Visão do Bope
Também classificando a participação dos estudantes na trama de “Tropa de Elite” como um estereótipo, Lucas Castro, 24, formado em direito e aluno de ciências sociais da Federal do Paraná diz, no entanto, que o filme mostra a visão da polícia sobre a universidade e as ONGs. “É a visão do policial, totalmente estereotipada, de que o usuário de entorpecentes financia o tráfico”, diz. A antropóloga Alba Zaluar, professora da Uerj, concorda.
“O filme apresenta preconceitos que os policiais têm e veiculam constantemente acerca das ONGs, dos estudantes e, por extensão, dos intelectuais”, afirma. “É óbvio que não são os estudantes usuários de drogas que são responsáveis pela violência. Ela é extremamente complexa, tem várias fontes, inclusive a facilidade com que as armas chegam aos traficantes, que é uma coisa que tem que ser esclarecida.”
Ecoando o que parece ser uma opinião da minoria, José Alexandre Silva Jr., 26, mestrando em ciência política na Federal de Pernambuco, avalia o retrato da universidade no filme como “realista e sensato”. “Boa parte dos estudantes age daquela forma.”

Jornal Folha de S. Paulo
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Um Artista da Fome

Franz Kafka

Nas últimas décadas o interesse pelos artistas da fome; diminuiu bastante. Se antes compensava promover, por conta própria, grandes apresentações desse gênero, hoje isso é completamente impossível. Os tempos eram outros. Antigamente toda a cidade se ocupava com os artistas da fome: a participação aumentava a cada dia de jejum; todo mundo queria ver o jejuador no mínimo uma vez por dia; nos últimos, havia espectadores que ficavam sentados dias inteiros diante da pequena jaula; também à noite se faziam visitas cujo efeito era intensificado pela luz de tochas; nos dias de bom tempo a jaula era levada ao ar livre e o artista mostrado especialmente às crianças. Embora para os adultos ele não passasse de um divertimento, no qual tomavam parte por causa da moda, as crianças olhavam com assombro, de boca aberta, uma segurando a mão da outra por insegurança, aquele homem pálido, de malha escura, as costelas extremamente salientes, que desdenhava até uma cadeira para ficar sentado sobre a palha espalhada no chão: ora ele acenava polidamente com a cabeça, ora respondia com um sorriso forçado às perguntas, esticando o braço pelas grades para que apalpassem sua magreza e mergulhando outra vez dentro de si mesmo, sem se importar com ninguém, nem mesmo com a batida do relógio - tão importante para ele a única peça que decorava a jaula - mas fitando o vazio com os olhos semicerrados e bebericando de vez em quando água de um copo minúsculo para umedecer os lábios.

Além dos espectadores que se revesavam, havia ali também vigilantes escolhidos pelo público - em geral, curiosamente, açougueiros, sempre três ao mesmo tempo, e que assumiam a tarefa de observar dia e noite o artista da fome para que ele não se alimentasse por algum método oculto. Mas isso era apenas uma formalidade introduzida para tranquilizar as massas, pois os iniciados sabiam muito bem que o jejuador, durante o período de fome, nunca, em circunstância alguma, mesmo sob coação, comeria alguma coisa, por mínima que fosse: a honra da sua arte o proibia. Sem dúvida nem todo vigilante podia entender isso; havia muitas vezes grupos de vigia que à noite exerciam com muita displicência o seu papel, reunindo-se de propósito num canto distante, onde mergulhavam no jogo de cartas com a intenção manifesta de conceder ao artista da fome um descanso durante o qual, no seu modo de ver, ele podia lançar mão de provisões secretas. Nada atormentava tanto o jejuador quanto esses vigilantes: eles turvavam seu estado de ânimo e tornavam o jejum terrivelmente difícil; às vezes, superando a fraqueza, ele cantava, enquanto tinha forças, no período de vigia, para mostrar às pessoas que era injusto suspeitarem dele. Mas isso pouco ajudava, porque então eles se admiravam da sua destreza para comer até cantando. Para ele eram muito preferíveis os vigilantes que se sentavam bem junto às grades, não se contentavam com a fosca iluminação noturna da sala e faziam incidir no jejuador os raios de lanternas elétricas de bolso que o empresário punha à sua disposição. À luz crua não o incomodava de modo algum; embora não pudesse dormir, sempre cochilava um pouco com qualquer luminosidade e a qualquer hora, mesmo na sala superlotada e barulhenta. Com qualquer desses vigilantes estava sempre pronto a passar a noite toda em claro, a trocar gracejos com eles, contar-lhes histórias da sua vida errante e depois escutar as deles - tudo para mantê-los despertos, para poder provar-lhes que não tinha nada comestível na jaula e que jejuava como nenhum deles seria capaz. Mas era de manhã que ficava mais feliz do que nunca, pois então, por sua conta, era servido aos vigilantes um café da manhã suculento, ao qual eles se atiravam com o apetite de homens sadios depois de uma noite de trabalhosa vigia. Na realidade não faltavam pessoas que queriam ver nessa refeição uma influência indevida sobre os vigilantes; mas isso era ir longe demais e quando perguntavam a elas se porventura queriam assumir a vigilância noturna em nome da causa e sem o café da manhã, elas torciam a cara e conservavam suas suspeitas.

Isso no entanto já fazia parte das suspeitas inerentes à profissão do artista da fome. Ninguém estava em condições de passar todos os dias e noites ininterruptamente a seu lado como vigilante, portanto ninguém era capaz de saber, por observação pessoal, se o jejum fora realmente mantido sem falha e interrupção; só o artista podia saber isso e ser o espectador totalmente satisfeito do próprio jejum. Entretanto ele nunca estava satisfeito por outro motivo: talvez não fosse em virtude do jejum que estivesse tão magro - a tal ponto que muitos, lamentando-se por causa disso, tinham que se afastar das apresentações porque não conseguiam suportar aquela visão - mas sim em virtude da insatisfação consigo mesmo. É que só ele sabia - só ele e nenhum outro iniciado - como era fácil jejuar. Era a coisa mais fácil do mundo. Ele não o ocultava, mas não acreditavam nele; no melhor dos casos consideravam-no modesto, no geral porém um faroleiro ou simples farsante, para quem o jejum era fácil porque ele conhecia a maneira de torná-lo fácil e ainda por cima tinha o topete de o admitir só pela metade. Ele era obrigado admitir tudo isso, mas no correr dos anos se acostumou; no entanto a insatisfação o roía por dentro e nem uma única vez, depois de qualquer período de fome - tinham de conceder-lhe esse crédito - deixara espontaneamente a jaula. O empresário havia fixado em quarenta dias o prazo máximo de jejum, acima disso ele nunca deixava jejuar nem nas grandes cidades do mundo - e isso por um bom motivo. A experiência mostrava que durante quarenta dias era possível espicaçar o interesse ativado gradativamente, mas depois disso o público falhava e se podia verificar uma redução substancial da assistência; naturalmente existiam neste ponto pequenas diferenças segundo as cidades e os países, mas como regra quarenta dias eram o período máximo. Sendo assim, no quadragésimo dia eram abertas as portas da jaula coroada de flores, uma platéia entusiasmada enchia o anfiteatro, uma banda militar tocava, dois médicos entravam na jaula para proceder às medições necessárias no artista da fome, os resultados eram anunciados à sala por um megafone e finalmente duas moças, felizes por terem sido as sorteadas, ajudavam o jejuador a sair da jaula, descendo com ele alguns degraus de escada até uma mesinha onde estava servida uma refeição de doente cuidadosamente selecionada. E neste momento o artista da fome sempre resistia. Na verdade colocava voluntariamente os braços ossudos nas mãos das jovens que se curvavam sobre ele, mas não queria se levantar. Por que parar justamente agora, depois de quarenta dias? Ele poderia aguentar ainda muito tempo, um tempo ilimitado; por que suspender agora, quando estava no melhor, isto é, ainda não estava no melhor do jejum? Por que queriam privá-lo da glória de continuar sem comer, de se tornar não só o maior jejuador de todos os tempos - coisa que provavelmente já era - e também se superar a si mesmo até o inconcebível, uma vez que não sentia limites para a sua capacidade de passar fome? Por que essa multidão, que fingia admirá-lo tanto, tinha tão pouca paciência com ele? Se ele aguentava continuar jejuando, porque ela não suportava isso? Além do mais ele estava cansado, bem assentado sobre a palha e devia endireitar o corpo todo e caminhar até a comida: só de pensar nela sentia náuseas, cuja exteriorização porém ele reprimia a custo só em consideração às damas. E erguia a vista para os olhos das moças na aparência tão amáveis, mas na verdade tão cruéis e balançava a cabeça excessivamente pesada sobre o pescoço fraco. Mas então acontecia o mesmo de sempre. O empresário chegava e sem dizer uma palavra - a música tornava qualquer discurso impossível - levantava os braços sobre o artista da fome, como se convidasse o céu à contemplar sua obra sobre a palha, este mártir digno de compaixão - que o artista da fome de fato era, mas num sentido muito diferente; agarrava-o pela cintura delgada, com um cuidado exagerado, como se quisesse fazer acreditar que tinha de lidar aqui com uma coisa muito quebradiça e - não sem sacudi-lo um pouco às escondidas, de tal forma que o artista da fome balançava descontrolado de um lado para o outro com as pernas e o tronco - entregava-o às jovens que nesse ínterim tinham ficado mortalmente pálidas. Aí então o jejuador tolerava tudo: a cabeça caía sobre o peito, como se tivesse rolado para lá e ficasse ali sem explicação; o corpo estava esvaziado; as pernas, para se sustentarem, apertavam-se uma contra a outra na altura dos joelhos, raspando o chão como se ele não fosse o verdadeiro - estes elas ainda procuravam; e o peso inteiro do corpo, embora bem pequeno, recaía sobre uma das damas que, buscando ajuda, com o fôlego entrecortado - não tinha imaginado desse jeito a missão honorífica - esticava o mais que podia o pescoço para livrar pelo menos o rosto do contato com o artista da fome. Mas depois, como não o conseguisse e a companheira mais feliz que ela, não ia em seu socorro - contentando-se em transportar, trêmula, a mão do jejuador, esse pequeno feixe de ossos, sob o riso delicado da sala - rompia no choro e precisa ser substituída por um criado há muito tempo preparado para isso. Em seguida vinha a refeição, na qual o empresário fazia o artista da fome engolir alguma coisa durante um semi-sonho de desmaio em meio a uma conversa divertida que devia desviar a atenção do estado do artista; depois era erguido um brinde ao público, supostamente soprado pelo jejuador ao empresário; a orquestra reforçava tudo com uma grande fanfarra, as pessoas se dispersavam e ninguém tinha o direito de ficar insatisfeito com o acontecimento - ninguém a não ser o artista da fome, só ele, sempre.

Assim viveu muitos anos, com pequenas pausas regulares de descanso, num esplendor aparente, respeitado pelo mundo mas, apesar disso, a maior parte do tempo num estado de humor melancólico, que se tornava cada vez mais sombrio porque ninguém conseguia levá-lo a sério. Aliás, com o que poderia ser consolado? O que lhe restava desejar? E se alguma vez uma pessoa bem-intencionista se compadecia dele e queria lhe explicar que sua tristeza provavelmente vinha da fome, podia acontecer - em especial no estágio avançado do jejum - que respondesse com um acesso de fúria e começasse a sacudir as grades como um animal, para susto de todos. Mas para esses estados o empresário dispunha de um castigo que gostava de aplicar. Desculpava o artista perante o público reunido, admitia que só a irritabilidade provocada pelo jejum - facilmente compreensível por pessoas bem alimentadas - tornava perdoável o comportamento do jejuador; nesse contexto acabava se referindo também à afirmação do artista da fome - igualmente merecedora de um esclarecimento - de que poderia jejuar muito mais ainda do que jejuava; elogiava a elevada ambição, a boa vontade, a grande negação de si mesmo que sem dúvida estavam contidas nessa afirmação, mas depois procurava refutá-la, pura e simplesmente, mostrando fotografias - que eram vendidas naquela hora - pois na imagem se via o artista da fome, no quadragésimo dia de jejum, quase extinto de inanição. Essa distorção da verdade, de resto bem conhecida, mas sempre enervante, era demais para o jejuador. O que era consequência do encerramento prematuro do jejum se apresentava aqui como sua causa! Era impossível lutar contra essa incompreensão, contra esse mundo de insensatez. Embora sempre tivesse ouvido de boa fé o empresário, quando as fotografias apareciam ele largava das grades da janela, às quais estivera ansiosamente grudado, e afundava outra vez na palha, soluçando; e então o público, acalmado, podia aproximar-se e examiná-lo.

Quando as testemunhas se recordavam dessas cenas, alguns anos mais tarde, muitas vezes não compreendiam a si mesmas. Pois nesse meio tempo interveio a virada já referida; isso aconteceu quase de repente; devia haver motivos mais profundos, mas quem iria se preocupar em descobri-los? Seja como for, o mimado artista da fome se viu um dia abandonado pela multidão ávida de diversão que preferia afluir a outros espetáculos. O empresário percorreu novamente com ele meia Europa para ver se aqui e ali não se reencontrava o antigo interesse; tudo inútil; como se fosse por um acordo secreto, em toda parte havia se estabelecido uma repulsa contra o espetáculo da fome. É evidente que na realidade isso não poderia ter sucedido de repente e recordava-se agora, com atraso, de muitos presságios que na época da embriaguez do triunfo não tinham sido suficientemente respeitados, nem suficientemente reprimidos; mas agora já era tarde demais para fazer alguma coisa. Certamente os bons tempos do jejum um dia também voltariam, mas para os que viviam naquela época isso não era um consolo. O que o artista da fome podia então fazer? Quem tinha sido aclamado por milhares de pessoas não podia exibir-se em barracas nas pequenas feiras, e para adotar outra profissão o artista estava não só muito velho, mas sobretudo entregue com demasiado fanatismo ao jejum. Sendo assim, demitiu o empresário, companheiro de uma carreira incomparável, e se empregou num grande circo; para poupar a própria suscetibilidade, nem olhou as condições do contrato.

Um grande circo, com seus inúmero homens, animais e aparelhos que sem cessar se recompõem e se completam, pode utilizar qualquer um a qualquer hora, mesmo um artista da fome - naturalmente se as pretensões dele forem modestas; além disso, neste caso particular não era apenas o próprio jejuador a ser engajado, mas também o seu nome antigo e famoso; de fato não se podia dizer, dada a peculiaridade da sua arte - que com o avanço da sua idade não diminuía - que o veterano artista, passado o auge da sua capacidade, queria se refugiar num posto tranquilo do circo; pelo contrário, o artista da fome garantia que jejuava tão bem quanto antes, o que era perfeitamente digno de fé; afirmavam até que, se o deixassem fazer sua vontade - e isso lhe prometeram logo - desta vez ia encher o mundo de justificado espanto; uma declaração, contudo, que só provocou um sorriso nos especialistas, cientes do espírito da época que, no seu zelo, o artista da fome facilmente esquecia.

Mas no fundo o jejuador também não deixou de perceber as condições reais e considerou natural que ele não fosse colocado com sua jaula como número de destaque, no centro do picadeiro, mas sim fora, num lugar aliás bastante acessível, situado perto dos estábulos. Cartazes grandes e coloridos emolduravam a jaula e anunciavam o que podia ser visto nela. Quando o público, nos intervalos do espetáculo, se comprimia junto às estrebarias para visitar os animais, era quase inevitável que passassem diante do artista da fome e parassem um pouco; talvez permanecessem ali por mais tempo se a multidão que vinha atrás, sem entender aquela parada no meio do caminho aos estábulos, não tornasse impossível uma observação mais prolongada e tranquila. Esse também era o motivo pelo qual o jejuador tremia ao pensar naquelas horas de visita, que ele naturalmente desejava como meta na sua vida. Nos primeiros tempos mal podia esperar os intervalos entre as apresentações; encantado, dirigia o olhar para a multidão que se aproximava, até que logo, - nem mesmo o auto-engano mais pertinaz e quase consciente resistia às experiências - se convenceu de que o objetivo daquelas pessoas era sempre, sem exceção, visitar os estábulos. O mais belo continuava sendo essa visão à distância. Pois assim que os visitantes se aproximavam dele, ensurdeciam-no os gritos e xingamentos dos dois partidos que sem cessar se formavam - o daqueles que queriam vê-lo confortavelmente (tornou-se em breve o mais penoso para o artista da fome), não por compreensão, mas por capricho e teimosia; e o daqueles que queriam ir diretamente às estrebarias. Passada a grande turba, chegavam os retardatários, mas mesmo estes, a quem nada mais impedia de ficar ali quanto tempo quisessem, apertavam o passo e iam direto, quase sem olhar para o lado, a fim de chegar em tempo de ver os animais. E não era um acaso muito frequente que um pai de família viesse com seus filhos, apontasse o dedo para o jejuador, explicasse em detalhe do que se tratava, contasse coisas dos anos passados, quando presenciara apresentações semelhantes, mas incomparavelmente mais grandiosas e as crianças, em vista do seu preparo insuficiente na escola e na vida, continuavam sem entender - o que significava para elas passar fome? - mas traíam no brilho dos seus olhos perscrutadores algo dos novos tempos vindouros e mais clementes. Talvez - dizia às vezes o jejuador a si mesmo - tudo melhorasse um pouco, se o local da sua exibição não estivesse tão perto dos estábulos. Então a escolha seria mais fácil para as pessoas, sem falar que as exalações das estrebarias, a inquietação dos animais à noite, o transporte dos pedaços de carne crua para as feras, os rugidos durante a alimentação, o feriam e deprimiam constantemente. Mas ele não ousava comunicar aquilo à direção; pois ainda assim agradecia aos animais a multidão de visitantes, entre os quais se podia encontrar aqui e ali algum destinado a ele. Como saber em que lugar se esconderiam se ele quisesse lembrar aos outros sua existência e com isso - pensando bem - que era apenas um obstáculo no caminho aos estábulos?

De qualquer forma um pequeno obstáculo, um estorvo que se tornava cada vez menor. As pessoas acostumavam-se à estranheza de se querer chamar a atenção para um artista da fome nos tempos atuais e esse hábito lavrava a sentença contra ele. O jejuador podia jejuar tão bem quanto quisesse - e ele o fazia - mas nada mais podia salvá-lo: passavam reto por ele. Tente explicar a alguém a arte do jejum! Não se pode explicá-la para quem não a sente. Os belos cartazes ficaram sujos e ilegíveis, foram arrancados, não ocorreu a ninguém substituí-los; a pequena tabela com os números dos dias de jejum, que nos primeiros tempos era cuidadosamente renovada, continuava a mesma há muito tempo, pois após as primeiras semanas os próprios funcionários não quiseram mais se dar nem a este pequeno trabalho; assim o artista da fome continuou jejuando como um dia sonhara, e isso não apresentava nenhum grande esforço para ele, tal como havia previsto. Mas ninguém contava os dias, ninguém, nem mesmo o jejuador conhecia a extensão do seu desempenho, e seu coração ficou pesado. E quando certa vez, nesse tempo, um ocioso se deteve diante da jaula, escarneceu da velha cifra na tabela e falou de embuste, essa foi, à sua maneira, a mais estúpida mentira que a indiferença e a maldade inata puderam inventar, já que não era o artista da fome quem cometia a fraude - ele trabalhava honestamente - mas sim o mundo que o fraudava dos seus méritos.

Passaram-se ainda muitos dias e até isso chegou ao fim. Certa vez um inspetor notou a jaula e perguntou aos serventes por que deixavam sem aquela peça perfeitamente aproveitável com palha apodrecida dentro; ninguém sabia, até que um deles, com a ajuda da tabuleta, se lembrou do artista da fome. Levantaram a palha com ancinhos e encontraram nela o jejuador.

- Você continua jejuando? - perguntou o inspetor - Afinal quando vai parar?

- Peço desculpas a todos - sussurrou o artista da fome; só o inspetor, que estava com o ouvido colado às grades, o entendia.

- Sem dúvida - disse o inspetor, colocando o dedo na testa, para indicar aos funcionários, com isso, o estado mental do jejuador - Nós o perdoamos.

- Eu sempre quis que vocês admirassem meu jejum - disse o artista da fome.

- Nós admiramos - retrucou o inspetor. - Por que é que não deveríamos admirar?

- Por que eu preciso jejuar, não posso evitá-lo - disse o artista da fome.

- Bem se vê - disse o inspetor. - E por que não pode evitá-lo?

- Porque eu - disse o jejuador, levantando um pouco a cabecinha e falando dentro da orelha do inspetor com lábios em ponta, como se fosse um beijo, para que nada se perdesse. - Porque eu não pude encontrar o alimento que me agrada. Se eu tivesse encontrado, pode acreditar, não teria feito nenhum alarde e me empanturrado como você e todo mundo.

Estas foram suas últimas palavras, mas nos seu olhos embaciados persistia a convicção firme, embora não mais orgulhosa, de que continuava jejuando.

- Limpem isso aqui! - disse o inspetor, e enterraram o artista da fome junto com a palha.

Mas na jaula puseram uma jovem pantera. Era um alívio sensível até para o sentido mais embotado ver aquela fera dando voltas na jaula tanto tempo vazia. Nada lhe faltava. O alimento de que gostava, os vigilantes traziam sem pensar muito; nem da liberdade ela parecia sentir falta: aquele corpo nobre, provido até estourar de tudo o que era necessário, dava a impressão de carregar consigo a própria liberdade; ela parecia estar escondida em algum lugar das suas mandíbulas. E a alegria de viver brotava da sua garganta com tamanha intensidade que para os espectadores não era fácil suportá-la. Mas eles se dominavam, apinhavam-se em torno da jaula e não queriam de modo algum sair dali.

Revista Espaço Acadêmico
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Na Colômbia, 22 candidatos são assassinados durante a campanha eleitoral

Marie Delcas

Faltando quatro dias para as eleições locais, agendadas para domingo, 28 de outubro, na Colômbia, mais dois candidatos foram assassinados, na quarta-feira, no sul do país, por supostos guerrilheiros. Gratiano Murcia e Carmen Liliana Polania foram mortos a tiros no momento em que eles estavam saindo de um comício na província de Caqueta, onde os guerrilheiros são muito ativos.

No total, 22 candidatos foram assassinados desde o início da campanha, dos quais nove só na semana passada. As autoridades atribuem a autoria da maioria desses crimes aos guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Um relatório que foi div