Arquivo de 15 de Novembro de 2007

Neonazistas defendem a Rússia como uma nação branca

Milhares de neonazistas russos marcharam por Moscou no Dia da União Nacional neste final de semana, junto com aposentados, estudantes e familiares. Especialistas acreditam que a extrema direita da Rússia dá ao presidente Vladimir Putin uma justificativa bem-vinda para seu estilo político autoritário

Simone Schlindwein

Skinheads, hooligans, nacionalistas, fascistas e racistas russos reuniram-se em Moscou para marcar o Dia da União Nacional no domingo (04/11). Eles acenavam com bandeiras enquanto marchavam em fila única, ao longo das margens do rio Moskva e para o Hotel Ukraina, do outro lado da Casa Branca, sede do governo russo.

“A Rússia para os russos!” gritavam em uníssono os manifestantes, além de lemas como “Por uma nação eslava russa!” ou “Eslava, russa, poderosa!” Os manifestantes esticavam seus braços na saudação de Hitler entre as declamações. Seus gritos de “Rússia eslava!” eram seguidos pelo soar de tambores.

“Fazemos oposição à imigração de caucasianos e asiáticos para a Rússia. Nosso povo deve permanecer puro. A Rússia pertence a nós”, explica Andrey Bukov, 32. O especialista em mídia “serve” ao Movimento contra a Imigração Ilegal (Dpni) há quatro anos. Ele agita sua bandeira branca, amarela e preta, com um símbolo que parece uma suástica.

Sergei, de 19 anos, carrega nos ombros a bandeira vermelha de seu grupo -”União Eslava”. “Nós russos somos parte da raça branca”, diz ele. “Os negros -caucasianos, tchetchenos, daguestões- devem ficar longe”, diz o moscovita, estudante da Academia de Finanças.

Skinheads e aposentados
Os quase 2.000 manifestantes ultranacionalistas que participavam da Marcha Russa pelo terceiro ano seguido são uma turma misturada -grupos e indivíduos descontentes de todas as classes. Mulheres idosas entregando panfletos mal copiados, estudantes jovens com maquiagem e botas de salto e pais com filhos pequenos de casacos coloridos são vistos junto a skinheads usando casacos de couro preto, botas de combate, uniformes da SS ou jaquetas com suásticas. Até crianças faziam a saudação nazista.

A aposentada Monika Nikolayeva distribuía ansiosamente os panfletos com oligarcas como Boris Berezovsky, Vladimir Gusinsky e Mikhail Khodrokovsky como inimigos do povo. “Esses bilionários enviam seus filhos para estudar fora”, disse raivosamente Nikolayeva, que tem uma neta de 15 anos. “Quanto aos nossos filhos, não há dinheiro suficiente para mandá-los para a universidade na Rússia.” Por isso acredita que é bom os jovens tomarem as ruas e protestarem. “As meninas em particular só recebem educação limitada!”

As jovens às quais se refere são estudantes de universidades técnicas como Olga e Darya, que estão marchando com bandeiras. “Somos contra tudo. Somos patriotas”, reclama Olga de 18 anos. Ela e sua amiga de 19 anos viajaram até Moscou de Rostov-on-Don, no Sul da Rússia, para participar da manifestação. Quando perguntamos contra o que estavam protestando, ela não soube responder, por um momento. Depois disse hesitante: “Contra a política anti-russa no mundo -não posso dizer mais claramente.”

Os nazistas são fantasmas bem-vindos
Andréas Umland, acadêmico em estudos comparativos do fascismo que se especializa na Rússia, acredita que esses “neonazistas organizados” são relativamente inofensivos politicamente. “É puramente uma provocação subcultural”, diz ele. O fascismo militar foi importado para a Rússia do Terceiro Reich, diz ele, e simplesmente adornado com alguns símbolos russos e ortodoxos. “Dentro da sociedade russa mais ampla, esses fascistas são estigmatizados”, explica. “Essa Marcha Russa é mais um movimento de protesto.”

Ainda assim, o Kremlin permite que os manifestantes de extrema direita tomem as ruas no Dia de União Nacional, feriado público, e despacha milhares de policiais para manter a multidão agressiva sob controle. “Os nazistas são um fantasma bem-vindo, uma ocasião para demonstrar o poder de um Estado autoritário”, diz Umland, explicando que o presidente Vladimir Putin usa esses neonazistas para legitimar seu estilo político autoritário, sugerindo que, sem ele, a extrema direita poderia assumir o poder. Por outro lado, a Comissão de Eleição Central da Rússia, proibiu o Partido “Pátria” de participar nas eleições do parlamento russo, a Duma.

Mais tarde na noite de domingo, quatro horas após as demonstrações neonazistas, uma segunda Marcha Russa aconteceu em Moscou. Novamente, milhares de pessoas passaram por Kutusovsky para o Ukraina Hotel. Desta vez, os manifestantes eram membros de grupos e partidos como o “União do Povo” -seguidores de um fascismo revolucionário cuja ideologia não é tão racista quanto imperialista.

Anti-americanismo
Umland diz que esse grupo tem pouco a ver com os nacionalistas racistas e seu nazismo aberto. Geralmente, diz o especialista -que vem pesquisando os movimentos de direita russos há 15 anos- grupos como o “União do Povo” dependem da propaganda anti-americana e anti-européia para atrair seguidores.

Eles incluem o vice-presidente da Duma, Sergey Baburin, e outros membros do Parlamento. “Mais ou menos todos os partidos políticos poderosos que participam das eleições da Duma usam esses lemas anti-Ocidente -desde o Partido Comunista Russo até o Rússia Unida de Putin”, diz Umland. No entanto, ele acrescenta que há uma ausência completa de um partido ou movimento de esquerda na campanha para as eleições.

O principal grupo de direitos humanos da Rússia, o Centro de Informação e Análise Sova, ainda vê a marcha neonazista como razão para soar o alarme. Em seu último relatório, o Centro Sova diz ter registrado 270 ataques violentos motivados por racismo contra um total de 472 pessoas, 53 das quais morreram. Galina Kozhevnikova do Sova acredita que haverá um aumento da xenofobia nos próximas semanas, antes das eleições parlamentares em dezembro. “Infelizmente, não ficamos surpresos”, diz ela. O número aumenta entre 20 e 25% a cada ano, explica Kozhevnikova. “Neste ano, porém, estamos vendo uma tendência de novos grupos inimigos como alvo, como os homossexuais”, acrescenta.

A maior parte dos incidentes descritos no relatório envolve jovens bêbados à caça após jogos de futebol ou hóquei. Eles surram pessoas do Azerbaijão, Uzbequistão, Tadjiquistão ou atacam-nas com armas. Em geral, são os mesmos jovens vistos fazendo saudações nazistas na Marcha Russa.

Der Spiegel
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/derspiegel/

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Forçado a correr em linha reta, um rio agora precisa de curvas

Norimitsu Onishi

Há um quarto de século, engenheiros endireitaram trechos do Rio Kushiro, que serpenteava por cerca de 160 quilômetros sob o grande céu de Hokkaido, aqui no norte do Japão, fluindo por colinas verdejantes e cidades rurais, percorrendo a maior zona alagadiça do país e o centro desta cidade portuária antes de desaguar no Oceano Pacífico.

Em breve, o trabalho será retomado. Mas desta vez, os tratores deslocarão terra para devolver as curvas em um trecho do rio que foi endireitado, restaurando sua forma sinuosa original.

Por décadas, o Japão buscou o desenvolvimento econômico a todo custo, mas agora está enfatizando a importância de proteger o meio ambiente. Então, sob uma lei de 2003 que visa reverter décadas de destruição, o Rio Kushiro será o primeiro de talvez muitos rios endireitados que recuperarão suas curvas originais.

Ainda assim, em um país famoso por pavimentar de modo imprudente as áreas rurais com concreto para criar empregos e escorar o meio século de governo do Partido Liberal Democrático, alguns ambientalistas e moradores locais estão céticos diante dos novos projetos. Já que não restam mais rios para endireitar, eles dizem, as autoridades atualmente estão simplesmente optando por começar a devolver-lhes as curvas. Será que é possível confiar em políticos e burocratas para repararem a natureza?

“Ora”, disse Kazukaki Saito, 47 anos, um agricultor cujas terras estão encostadas no trecho que será curvado, disse que o projeto “é egotismo humano e visa apenas gastar dinheiro”.

Toshihiko Yoshimura, um planejador oficial de rios do Ministério da Terra, Infra-Estrutura e Transportes daqui, disse que o projeto foi endossado por um comitê de autoridades, especialistas e cidadãos, como exigido pela lei de 2003, para evitar projetos desnecessários.

“Naturalmente, nós recebemos opiniões de que isto está sendo feito para criar empregos”, disse Yoshimura. “Se nos tivessem dito que não era necessário, nós não o faríamos à força.”

A restauração de rios e zonas alagadiças se tornou um grande negócio nos Estados Unidos e na Europa. No Japão, onde os rios possuem uma das maiores proporções de represas do mundo e virtualmente todos foram canalizados de uma forma ou outra, há uma grande necessidade de restauração.

Mas ambientalistas, advogados e alguns políticos alertaram que o esforço de restauração pode se tornar um pretexto para financiar o mesmo tipo de trabalho inútil que foi responsável pelo amplo endireitamento dos rios.

“Palavras como ‘natureza’ e ‘restauração’ têm impacto emocional”, disse Kohei Sekikawa, 70 anos, um líder da Associação Senkon do Ambiente Natural, um grupo privado que se opõe ao trabalho no Rio Shibetsu, ao norte daqui. “Na verdade, dependendo do local, o trabalho de restauração pode ser bom em alguns casos, como também pode levar a maior destruição ambiental em outros casos.”

Mais do que outras regiões rurais no Japão, a ilha de Hokkaido -esparsamente habitada e em grande parte agrícola- há muito depende de obras públicas que freqüentemente entram em choque com sua beleza natural.

Ao norte daqui, em Shiretoko, uma pequena península montanhosa que foi nomeada Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 2005, há 123 represas em 44 rios. Na cidade de Utoro, na península, quase tudo no Rio Pereke, onde salmão nada corrente acima para procriar, parece ter sido feito artificialmente, incluindo o fundo do rio, paredes e rampas de acesso de concreto para os peixes.

Aqui em Kushiro, o rio foi canalizado quando a prioridade era desenvolver economicamente a área. Rio acima, trechos foram endireitados para impedir enchentes em terras produtivas potenciais. Poucas pessoas deram atenção para a zona alagadiça do Kushiro -atualmente 200 hectares que abrigam 2 mil espécies de vida selvagem, incluindo a águia marinha de Steller, o grou japonês e o salmão japonês, o maior peixe de água doce do país- nos arredores desta cidade. Na verdade, os planos eram de transformar a zona alagadiça em uma área industrial, apesar disto nunca ter acontecido.

O endireitamento do rio fez o Kushiro fluir mais rapidamente e carregar mais sedimentos corrente abaixo. A zona alagadiça, que encolheu 30% em seis décadas, começou a secar, como costuma acontecer quando rios são canalizados. Para tentar reverter isto, e para impedir que os sedimentos cheguem à zona alagadiça, um trecho de 1,6 quilômetro rio acima será devolvido ao seu curso sinuoso original 2,7 quilômetros ao custo de quase US$ 8 milhões.

Não se sabe ao certo que efeito o projeto terá sobre a recuperação da zona alagadiça, disse Yoshimura, o planejador oficial do rio. “Por ora nós estamos fazendo o que podemos.”

Mas o Fundo Sarun Kushiro, um grupo ambiental privado que participou do comitê que endossou o projeto mas votou contra ele, disse que a mudança do curso do rio terá pouco efeito positivo e que a obra em si prejudicará o meio ambiente. Ele argumenta que conter o fluxo de sedimentos das terras agrícolas e das florestas rio acima é mais importante.

E em caso da mão esquerda não saber o que a direita está fazendo, o Ministério da Agricultura tinha um projeto mais acima no rio que estava despejando lama e areia rio abaixo, onde o ministério de Yoshimura fará a curva no rio, disse Takuo Sugisawa, 61 anos, o secretário-geral do fundo. Para recuperar as terras agrícolas que aos poucos se tornaram zonas alagadiças, o ministério estava drenando a terra existente e movimentando terra ali.

“Os sedimentos que estão sendo despejados lá rapidamente se acumularão onde haverá a curva no rio”, disse Sugisawa, acrescentando que eles no final enterrarão a zona alagadiça do Kushiro. Para impedir isto, os operários terão que remover os sedimentos que se acumularão no trecho curvado, ele disse.

“Então, em nome da gestão do rio, eles conseguirão novamente criar obras públicas na forma de remoção de terra”, ele disse, caminhando ao longo de uma via asfaltada e atravessando uma ponte construída para permitir que caminhões e tratores transportem a terra do projeto de restauração do traçado do rio. “As obras públicas apenas prosseguirão sem fim.”

The New York Times
http://www.nytimes.com/

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O drama de Brian Wilson

Ascensão, queda e retorno do líder dos Beach Boys mostram a importância das funções executivas do cérebro para a criatividade.

Brian Levine

que diferencia o mero talento do gênio criativo? Ninguém sabe ao certo.
Sabemos, no entanto, que muitas obras-primas da arte e grandes descobertas científicas partiram de homens e mulheres na faixa dos 20 anos - idade suficiente para a aquisição de habilidades técnicas, mas não de vícios típicos das gerações mais velhas. Estudos indicam que pessoas muito criativas estão mais sujeitas a certas doenças mentais graves. Em alguns casos, os distúrbios contribuem para a realização de feitos notáveis, ainda que, posteriormente, possam arruinar a vida dos autores.

Talvez nenhuma outra história exemplifique melhor como uma doença mental pode estimular a criatividade, e depois acabar com ela, que a de Brian Wilson, o líder da banda Beach Boys.

Aos 22 anos, ele já havia renovado a música folk e alcançado enorme sucesso junto com os Beach Boys. Dezesseis canções da banda estiveram nas paradas americanas entre 1962 e 1965, como Surfin\\’ USA, Little deuce coupe e I get around. Arranjador, produtor e principal compositor do grupo, Brian Wilson marcou sua geração com o lançamento de Pet Sounds, em 1966. Considerado um divisor de águas da música pop moderna, esse álbum introduziu novas técnicas de estúdio, temas introspectivos e estruturas harmônicas e rítmicas complexas baseadas no jazz e na música clássica. Para o célebre maestro e compositor Leonard Bernstein, Wilson é um dos maiores compositores do século XX. Segundo Paul McCartney, Pet Sounds foi a principal influência de Sgt. Pepper\\’s Lonely Hearts Club Band, o histórico álbum dos Beatles, de 1967.

Infelizmente, não tardou muito para que a importância do trabalho de Wilson fosse ofuscada por seus problemas mentais. Aos 20 e poucos anos - idade em que muitos distúrbios psiquiátricos se manifestam -, ele começou a ter dificuldades no relacionamento social, depressão, paranóia, que logo evoluíram para alucinações. O quadro progrediu durante a década seguinte e por muitos anos ele foi incapaz de se comportar como membro comum da sociedade, muito menos como bem-sucedido produtor musical.

O papel dos lobos frontais
Doenças mentais progressivas como a de Brian Wilson levam à deterioração da função executiva do cérebro - a capacidade dos lobos frontais de planejar, coordenar e executar ações complexas, de forma semelhante ao trabalho do diretor de uma empresa. A definição precisa da função executiva cerebral e sua influência sobre o comportamento ainda são motivos de debate entre os neurocientistas. Mas o caso de Wilson fornece ótimas pistas. Trinta anos depois, ele ressurge saudável, de volta aos palcos. Sua história dramática mostra a importância da função executiva não apenas para a criatividade, mas também para a capacidade de lidar com o cotidiano. Com ele aprendemos que tratamento e apoio adequados, tanto psiquiátrico quanto familiar, podem criar mecanismos importantes de compensação.

Os lobos frontais organizam uma série de funções cognitivas superiores que controlam processos de níveis mais baixos, o que permite transformar um amontoado confuso de peças de quebra-cabeça em um todo coerente. Pense no planejamento de uma longa viagem. O “diretor” do cérebro, que trabalha nos lobos frontais, coloca em seqüência e prioriza diversas etapas de execução e cria um plano para atingir o objetivo que inclui opções para serem usadas apenas em caso de mudança ou problemas.

Como os lobos frontais interagem com diversos sistemas e estruturas cerebrais, as funções executivas são muito sensíveis a doenças do cérebro, distúrbios psiquiátricos e abuso de drogas. Apesar disso, seu papel primordial e suas vulnerabilidades ainda não são tão bem compreendidas ou reconhecidas como outras capacidades mentais, como memória e percepção, mais facilmente avaliadas em laboratório. Além do mais, por serem mais requisitadas em situações novas e não estruturadas, pacientes com disfunções executivas geralmente parecem normais quando submetidos a testes neurológicos e psicológicos de rotina. Por isso esses distúrbios costumam não ser diagnosticados mesmo em pessoas muito comprometidas.

As inovações musicais de Pet Sounds coincidiram com o início da psicose de Wilson, caracterizada pelo “afrouxamento” das conexões entre as idéias. (Não conversei com ele nem vi sua ficha médica, mas muitas fontes convergem para uma descrição que especialistas reconheceriam como psicose. Algumas delas são os livros autorizados The Beach Boys, de David Leaf, e The nearest faraway place: Brian Wilson, the Beach Boys, and the Southern California experience, de Timothy White; documentários como A&E biography; entrevistas com o próprio Wilson, como a de Larry King Live, em 2004.)

A doença mental não torna a pessoa criativa. Mas alguns indivíduos dotados de habilidades artísticas eventualmente podem transformar a debilidade de suas conexões em associações muito inspiradas. Apesar disso, a pessoa pode ter dificuldade para aproveitar esses insigths, justamente porque suas percepções estão desordenadas pela psicose. A doença de Wilson é muito solitária, e talvez ele tenha retratato isso na canção Till I die, de 1971: I\\’m a cork on the ocean / Floating over the raging sea…. I\\’m a leaf on a windy day / Pretty soon I\\’ll be blown away…. (Sou uma rolha no oceano / Flutuando sobre o mar em fúria. Sou uma folha em dia de ventania / Muito em breve serei levado para longe.).

O ponto crítico ocorreu no fim de 1964 - Wilson sofreu um esgotamento nervoso durante um vôo para Houston. Para evitar o stress da estrada, interrompeu a turnê com os Beach Boys e se concentrou no trabalho de estúdio e de composição. Os resultados apareceram em dois álbuns lançados em 1965, The Beach Boys Today! e Summer Days (and Summer Nights!!), que já anunciavam tendências musicais que o consagrariam mais tarde.

Em Pet Sounds, Wilson queria se distanciar dos temas anteriores, ligados a surfe, carros e garotas, e para isso chamou Tony Asher para ajudá-lo nas letras das canções. Seu método de composição começava pelo piano, no dedilhar de sensações, fragmentos melódicos ligados a um determinado estado de espírito. Quando entrava no estúdio de gravação, já tinha em mente o arranjo completo, que em seguida era desconstruído para ensinar a cada músico a parte relativa a seu instrumento (de cordas, trompas e acordeões até jarras d´agua, buzinas de bicicleta e uma engenhoca eletrônica que produzia sons fantasmagóricos e depois ficou famosa em canções como Good vibrations). Wilson costumava mostrar os arranjos pessoalmente, pois era capaz de tocar quase todos os instrumentos. A caixa Pet Sounds Sessions, de 1996, contém cenas de estúdio em que Wilson aparece como líder visionário de 23 anos, dirigindo músicos experientes para concretização de sua obra-prima.

Os vocais dos Beach Boys foram os últimos elementos gravados no disco. Apenas Wilson sabia como as partes iriam se encaixar, mas depois de reuni-las no estágio final de produção, o resultado foi sobrenatural. Nas notas que acompanham Pet Sound Sessions, o então editor-chefe da revista Billboard escreveu: “O que brilha mais forte por trás, dentro e acima desse material extraordinário é a presença de uma coisa inominada: a crença inabalável no poder perene daquilo que o ser humano tem de melhor”.

Gravar faixas com diversos instrumentos e organizá-las de forma coerente e convincente são atividades que exigem o gerenciamento de conjuntos de informação mantidos na memória de curto prazo - uma função essencialmente executiva. Enquanto outros produtores da época gravavam canções relativamente simples com o grupo todo de uma só vez, Wilson era capaz de memorizar complexas harmonias e arranjos sinfônicos, gravar cada parte separadamente e depois reunir eletronicamente as peças do quebra-cabeça. A canção Good vibrations, que o próprio Wilson chamou de “sinfonia de bolso”, foi gravada em 17 sessões em diversos estúdios. Fez tanto sucesso que até hoje é considerada uma das melhores canções pop da história. Good vibrations representou o casamento definitivo da criatividade com funções executivas e foi responsável por uma renovação da música popular americana.

Como alguém pôde ser capaz de tamanha façanha, que envolve concentração e percepção, enquanto sofria de uma doença mental grave? Os sintomas psicóticos não são estáticos - eles vão e voltam. É provável que sua produtividade fosse maior na fase de remissão dos sintomas, quando novas associações criativas podiam ser manipuladas e integradas de forma coerente por seus poderes musicais e executivos.

Ocaso criativo
A exuberância criativa de Wilson logo deu lugar à gravidade de sua doença mental progressiva. O equilíbrio entre inspiração e capacidade cognitiva foi finalmente rompido em 1967, quando ele e o letrista Van Dyke Parks montavam o álbum Smile.

Seus lapsos cognitivos diziam respeito ao monitoramento de resultados - função executiva que permite ao indivíduo comparar suas ações com suas intenções, monitorar e corrigir erros e idéias ruins. Em Pet Sounds, ele havia aproveitado com maestria idéias musicais incomuns, como buzinas de bicicleta, para invocar temas da infância perdida. Já em Smile, os resultados foram bizarros: durante a gravação de Mrs. O\\’Leary\\’s cow, seu piano foi colocado num tanque de areia e os músicos tiveram de usar capacete de bombeiro. Mas por ser tido como gênio, as pessoas geralmente perdoavam suas excentricidades, em vez de considerá-las sintomas graves. A gravação original de Pet Sounds revela mais uma falha de monitoramento: a mixagem final não eliminou ruídos de conversas no estúdio - algo inaceitável para seu grau de perfeccionismo.

Entre depressão e psicose
Depois de finalizar os elementos de Smile, Wilson simplesmente não sabia o que fazer para reuni-los, e Parks deixou o projeto. Pressionado pela Capitol Records, emocionalmente frágil e sem apoio dos parceiros, ele abandonou Smile em meados de 1967. Naquele verão, Jimi Hendrix literalmente tocou os sinos que anunciavam a morte da surf music no Festival Pop de Monterey.

Intercalada por surtos de depressão suicida e psicose, a saúde mental de Wilson deteriorou-se progressivamente. Seu consumo habitual de drogas, que já poderia ser uma tentativa de autotratamento dos sintomas (algo comum em pacientes psicóticos), intensificou-se. Houve alguns surtos de criatividade, que nunca se equipararam, em amplitude e complexidade, ao seu trabalho anterior. Dificuldades para assumir o papel de pai e problemas com a esposa finalmente resultaram na separação em 1978. Nos início dos anos 80, ele chegou a pesar 136 quilos e passou 2 anos e meio deitado numa cama. Entre períodos de hospitalização e desintoxicação, o tratamento psiquiátrico sofreu muitas interrupções.

Devido a sua imensa notoriedade, os problemas mentais logo se tornaram públicos. A mídia o tratou como maluco. E como é comum acontecer com portadores de distúrbios executivos, sua condição o deixou vulnerável à exploração. Seu próprio psicólogo, Eugene Landy, assumiu a coordenação da sua vida e da sua carreira em meados dos anos 70 e depois novamente entre 1983 a 1991. Embora Landy tenha conseguido afastá-lo das drogas e ajudá-lo a emagrecer, ele criou uma relação perniciosa de dependência com o paciente: prescrevia drogas psicotrópicas, agia como conselheiro de negócios e tentava colaborar com o artista até mesmo na composição e na interpretação das canções. O psicólogo acabou sendo processado pela familía de Wilson em 1990. Antes disso, porém, havia perdido a licença para exercer a profissão no estado da Califórnia, depois de admitir ter administrado drogas a Wilson de forma ilegal.

Ao longo da década de 90, ele passou por tratamentos mais convencionais, com medicamentos e psicoterapia. Nesse período, estabeleceu um relação estável com Melinda, sua segunda mulher. Em entrevista a Larry King, o casal revelou o diagnóstico: transtorno esquizoafetivo - uma combinação de sintomas da fase ativa da esquizofrenia (delírios, alucinações, discurso desorganizado) alternados por períodos de depressão.

Com o apoio da mulher e dos colegas, Wilson voltou a aparecer publicamente, gravar discos e tocar sozinho ou acompanhado por outros músicos, como o antigo guitarrista dos Beach Boys Jeff Foskett.

Os avanços no tratamento do transtorno esquizoafetivo contribuíram muito para o retorno de Wilson. Depois de mais de 30 anos, ele decidiu finalizar Smile, que havia sido considerado um dos melhores álbuns não-lançados da música contemporânea. Felizmente, a disfunção executiva não compromete diretamente a memória ou as habilidades musicais adquiridas. Afeta apenas a capacidade de empregá-las de modo flexível, particularmente em situações não-estruturadas, nas quais não há respostas claras do que é certo ou errado, exatamente como na criação de disco.

Lançado em 2004, Smile foi aclamado pela crítica e pelo fãs do mundo todo. O sucesso é atribuído à qualidade do material original e à direção e ao apoio dos que o ajudaram a juntar as peças - pessoas que forneceram uma “prótese” para seus lobos frontais comprometidos. Segundo Timothy White, da revista Billboard, Wilson reconheceu essa necessidade já em 1976, quando disse numa sessão de gravação: “Alguma coisa aconteceu com a minha concentração. Não sei exatamente o que, mas por alguma razão ela está mais fraca. Perdi a capacidade de me concentrar o suficiente para seguir até o fim”.

Wilson voltou a se apresentar ao vivo, sentado ao teclado, embora não toque tanto quanto antes. Sua voz é irregular, mas ainda aceitável. Nada disso realmente importa para os fãs que reconhecem a lenda viva que ele é. Seu apogeu criativo foi atingido quando era muito jovem, a despeito (ou talvez em parte por causa) da doença mental que lhe roubou habilidades cognitivas e quase o destruiu. Seu retorno aos palcos demonstra que, com tratamento apropriado e apoio, pessoas afetadas por disfunções executivas podem atuar em áreas muito especializadas, apesar da persistência dos sintomas.

Durante esse longo e triste período, alguns membros da família Beach Boys partiram. Dennis, irmão de Wilson e o coração da banda, afogou-se em 1983. Outro irmão, o guitarrista Carl, morreu de câncer em 1998. Embora Pet Sounds tenha sido um jóia da época, o ambiente político, cultural e musical que deu origem a Smile, em 1966, logo se transformou em território de violência, guerra e inocência perdida.

Parafraseando o psicólogo canadense Endel Tulving, a flecha do tempo corre em linha reta, mas a memória nos permite dar voltas para revisar o passado e reaver, mesmo que em fantasia, o que foi perdido. Se a ressurreição pública de Brian Wilson reforça essa esperança, então Smile é uma curva de 37 anos. Talvez esse álbum responda a um propósito que ultrapasse a excelência de sua música - a necessidade de acreditar que é possível recuperar o que foi perdido.

O \\’diretor\\’ do cérebro
Estabelecer objetivos, planejar e executar as tarefas necessárias para alcançá-los, avaliar os resultados e realizar correções para garantir que o planejado seja alcançado. As funções executivas do cérebro são muito semelhantes ao trabalho do diretor de uma empresa. Não há consenso entre neurocientistas e psicólogos, mas a maioria reconhece que tais funções, descritas abaixo, são mediadas pelos lobos frontais.

Pensamento abstrato. Discernir relações entre estímulos - como entender que muitas árvores formam uma floresta - depende da capacidade de pensar de forma abstrata. Imagine que alguém lhe peça que separe em dois grupos os seguintes objetos: duas tesouras, um copo d\\’agua, um machado e uma churrasqueira. Uma possibilidade é agrupar as tesouras com o copo d\\’agua, porque eles geralmente ficam dentro de casa, enquanto a churrasqueira e o machado são usados em ambientes externos.

Mudança de foco de atenção. É possível agrupar os objetos de outra forma? As tesouras e o machado cortam, copos e churrasqueira armazenam coisas. As pessoas com disfunção executiva têm dificuldade para mudar o foco de atenção e tendem a manter inflexíveis suas percepções e comportamentos originais, mesmo quando deixam de ser úteis ou convenientes.

Manipulação de informação. Quase todas as operações cognitivas superiores exigem que a manipulação de informação ocorra em tempo real e seja mantida na memória de curto prazo. Para preparar um jantar, por exemplo, o anfitrião precisa organizar a ordem com que os diversos pratos serão servidos, bem como considerar as preferências dos convidados.
Planejamento e previsão. O planejamento de uma viagem requer previsão e análise das condições e necessidades do viajante no destino, que geralmente são muito diferentes das existentes em casa. O paciente com distúrbios na função executiva é incapaz de escapar do presente e formular o modelo mental de um futuro diferente.

Monitoramento e correção de erros. Esses processos são acionados quando os resultados não correspondem às intenções. O efeito pode ser visto, por exemplo, no caso de alguém que sai para comprar uma torta porque está oferecendo um jantar naquela noite. Ao perceber que a loja de doces está fechada, dirige-se a outra que fica muito distante, sem se dar conta de que não estará de volta a tempo de receber seus convidados.

Tomada de decisão. Pense em uma pessoa que passa por problemas financeiros. Reduzir despesas ou aumentar a renda - cada um desses caminhos exige que ela pese as opções, tome uma decisão e a execute. Quem sofre de disfunção executiva não consegue se fixar numa opção, especialmente em situações nas quais não há uma resposta óbvia ou ensinada previamente. Por seguir às cegas as sugestões de terceiros, essas pessoas ficam mais expostas à exploração.

Inibição. Respostas automáticas nem sempre são úteis, pelo contrário, podem até ser perigosas. Imagine que você tenha vencido um concurso importante e conquistado o grande prêmio. Em vez de contar a notícia para todo mundo, é mais prudente esperar que os outros finalistas sejam informados da perda de forma apropriada, e isso exige inibição.

Comportamento social. Não conseguir processar ou produzir pistas sociais pode ter conseqüências devastadoras. Um exemplo é o caso de um paciente com lesões no lobo frontal que, ao ver sua mulher sangrando muito após um acidente na cozinha, tinha como única preocupação limpar o ambiente o mais rápido possível.

Para conhecer mais
Adult clinical Neuropsychology: lessons from studies of the frontal lobes. D. T. Stuss e B. Levine, em Annual Review of Psychology, vol. 53, págs. 401-433, 2002.

Forty lives in the bebop business: mental health in a group of eminent jazz musicians. G. I. Wills, em British Journal of Psychiatry, vol. 183, no 3, págs. 255-259, 2003.

Wouldn\\’t it be nice: Brian Wilson and the making of the Beach Boys\\’ Pet Sounds. C. L. Granata. Chicago Review Press, 2003.

Revista Mente e Cérebro
http://www2.uol.com.br/vivermente/

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Produtiva, mas ordinária

O Brasil é um dos países líderes em produção científica, mas continua com atraso tecnológico imenso, incapaz de atrair jovens para a atividade -e sem um Prêmio Nobel; pesquisadores explicam o porquê

GIOVANA GIRARDI

O governo federal prometeu anunciar nas próximas semanas o Plano de Ação de Ciência, Tecnologia e Inovação, o “PAC da Ciência”, que prevê investimento de cerca de R$ 41 bilhões na área até 2010. O lançamento é aguardado pela comunidade científica nacional com entusiasmo, mas também com uma boa dose de ceticismo. Dinheiro é sempre bem-vindo, claro, mas só ele não vai resolver os problemas que a pesquisa brasileira enfrenta, disseram os cientistas ouvidos pela Folha diante da pergunta: O que falta para o Brasil se tornar uma potência científica?
A reportagem conversou com especialistas de diversas áreas, que apresentaram o diagnóstico na ponta da língua. Sozinho, o PAC não vai fazer milagre. Para dar um salto qualitativo, dizem, o país precisa derrubar entraves dos quais a comunidade científica já está cansada de reclamar, como a burocracia que cerca a importação de material científico e leis que dificultam os estudos da biodiversidade nacional.
As respostas também foram unânimes sobre a necessidade de aumentar a quantidade institutos de pesquisa no país e espalhá-los por regiões do Brasil que sofrem de um vazio científico, como a Amazônia.
Essas são medidas que, juntamente com um maior investimento, auxiliariam os cientistas que já estão na ativa e talvez tornassem a área mais atraente para novos profissionais. Mas, para fazer o país alcançar um novo patamar de excelência, as mudanças teriam de ser mais profundas. A solução passa por resolver problemas estruturais, a começar pela deficiência no ensino e a falta de uma postura política que enxergue o incentivo à pesquisa como a melhor forma de promover o desenvolvimento nacional.
“Falta para a ciência brasileira o que temos no esporte - o efeito futebol de rua. Acho que um dos motivos pelos quais o Brasil se tornou campeão no futebol é porque existem milhões de crianças jogando bola na rua. É uma massa enorme, treinada desde a infância. É um ambiente que forja campeões”, afirma Luiz Davidovich, físico da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e membro das academias brasileira e americana de ciências.
“Mas com a ciência não é assim. A criança e o jovem não têm esse estímulo por conta das falhas na educação básica -professores que ganham mal, aulas de ciência sem sentido. Esse é um obstáculo poderoso para o Brasil se tornar uma potência científica. Se tivéssemos milhões de crianças interessadas em ciência, também seríamos campeões nesse setor.”
Por trás dessas questões estruturais, os cientistas acreditam que esteja um desinteresse quase crônico do país em investir no setor. “O modelo de desenvolvimento brasileiro só recentemente começou a se preocupar com a formação do conhecimento. O país tradicionalmente preferiu comprar tecnologia e conhecimento do exterior a desenvolver aqui”, afirma o físico Ennio Candotti, ex-presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência). “Nunca tivemos, por exemplo, políticas de longo prazo que promovessem a continuidade de programas em prol da ciência.”
A falta de investimentos no setor é o que melhor reflete isso. Praticamente todos os Estados do Brasil têm leis que estabelecem um repasse de uma determinada porcentagem da arrecadação para suas FAPs (fundações de amparo à pesquisa). Mas o único a cumprir a regra é São Paulo, que destina 1% de sua receita diretamente à Fapesp -sem que o dinheiro se perca na vala comum dos cofres da Fazenda, por exemplo, e acabe desviado para outras atividades. “Não é à toa que o Estado produz 55% da ciência nacional e abriga 30% dos doutores do país”, lembra Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor-científico da Fapesp.

Pouco impacto
Hoje o Brasil é responsável por cerca de 2% da ciência mundial, ocupando o 15º lugar no ranking de países por produtividade, segundo levantamento da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). Em termos qualitativos, no entanto, a posição do Brasil é mais discreta -20º lugar no ranking que mede o impacto dos estudos publicados, ou seja, o quanto eles são citados por outros trabalhos. Em primeiro lugar vem a Suíça (que fica atrás do Brasil em produção de artigos), seguida dos EUA e da Dinamarca.
Para o presidente da Capes, Jorge Guimarães, esses números merecem ser vistos com otimismo. “Estamos crescendo cada vez mais na na produção total e mesmo a 20ª posição no ranking de impacto não é ruim. A nota do Brasil foi 2,95; a dos Estados Unidos, 6,6. Não é tão distante. E temos áreas de destaque, como os estudos de doenças tropicais. Todavia não temos vacina. As empresas farmacêuticas ainda não fazem pesquisa no Brasil, precisamos estimular isso.”
O ranking da Capes considerou todos os trabalhos brasileiros publicados em revistas científicas indexadas na base de dados do ISI (Instituto para Informação Científica). Mas o contraste entre publicação e citação fica ainda mais evidente quando se olha mais de perto, como fez Rogério Meneghini, da Unicamp, que há anos estuda esses indicadores.
Em seu mais recente levantamento, ele considerou as 27 instituições nacionais que publicaram mais de cem artigos em 2005 e quanto esses artigos foram citados até setembro deste ano. As mais produtivas, como USP e Unicamp, foram superadas em citação pelo Instituto Butantan, que publicou pouco mais de uma centena de artigos. Mas mesmo ele ficou muito atrás no quesito impacto se for comparada com a Universidade Harvard, campeã em publicação e em citação.
“A verdade é que não basta só publicar. O “publish or perish” [publicar ou perecer, ditado básico da pesquisa] é só o primeiro passo. Tem de ser citado e tem de ser algo que incremente, que traga uma nova idéia, uma nova perspectiva para a ciência mundial, além de ter impacto diante das questões que importam para a sociedade brasileira”, comenta o neurocientista paulistano Miguel Nicolelis, que só alcançou destaque como pesquisador quando foi para os Estados Unidos.
Ele defende uma mudança na forma de financiar a pesquisa. “Talvez seja caso de distribuir verba com novos critérios, de modo que ela vá para áreas que sejam estratégicas para o país e para grupos de qualidade comprovada. Para pesquisa que tenha mérito”, comenta.

Os Sem-Nobel
Líder de um laboratório na Universidade Duke, Nicolelis é um dos idealizadores do Instituto de Neurociência de Natal, pensado como uma forma de atrair os cérebros brasileiros que, como ele, tiveram de sair do Brasil para fazer ciência.
“Acho que aqui ainda existe muita coisa errada, um corporativismo exagerado dentro da própria academia. É preciso mudar o paradigma de que ciência tem de ser feita só na universidade. Ela pode ser feita na indústria. O governo tem de começar a incentivar que as multinacionais façam centros de pesquisa aqui”, comenta.
O incentivo à pesquisa nas indústrias foi defendido também por outros pesquisadores como uma forma de fortalecer a inovação, hoje um dos grandes gargalos do país. “A produção científica é uma beleza, mas cadê as patentes?” -pergunta Guimarães. “Em quase todos os segmentos ainda não vemos a transformação do conhecimento em tecnologia.”
O físico Rogério Cezar de Cerqueira Leite, professor-emérito da Unicamp e membro do conselho editorial da Folha, concorda com essa necessidade, mas faz um alerta. “Esse excesso de preocupação com os resultados imediatos é preocupante. A pesquisa, tem sim, de ganhar espaço na indústria. Mas não se pode esquecer que boa parcela da ciência se faz somente para aumentar o conhecimento sobre uma determinada área. E o cientista precisa ter absoluta liberdade para chegar a isso. Inovação não nasce no cabresto”, afirma.
Guimarães aposta no entanto que será esse investimento que poderá fazer a ciência do país deslanchar. “De um modo geral, a posição no ranking de produtividade acompanha o PIB. O Brasil tem o o 12º PIB do mundo. Acho que é questão de tempo alcançarmos essa posição com a pesquisa.”
Apesar disso, o presidente da Capes disse não acreditar que o país terá um dia seu Prêmio Nobel em ciência. “Não acho que vai ganhar tão cedo, se é que vai ganhar um dia. Já tivemos nossa chance com Oswaldo Cruz, Carlos Chagas, César Lattes. Perdemos.”
Com ou sem promessa de um Nobel, para essa ciência industrial funcionar vai ser preciso primeiro resolver as burocracias que prejudicam a importação de material científico. “Muitas empresas estrangeiras têm receio de trazer seus centros de pesquisa para cá porque temem não conseguir mantê-los competitivos, não conseguir importar equipamentos, enzimas etc”, lembra Nicolelis.
O pesquisador nato que o diga. Um levantamento divulgado pela Fesbe (Federação de Sociedades de Biologia Experimental) em seu congresso em agosto deste ano mostrou que o cientista brasileiro gasta em média três vezes mais do que o valor do produto por causa de impostos e custos de estocagem em portos e aeroportos.
“Certamente o nosso maior entrave é essa burocracia. Os preços que a gente paga pelas coisas e os prazos que a gente tem de enfrentar são uma das maiores causas do nosso atraso científico”, afirma Luiz Eugênio de Mello, pró-reitor de Graduação da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e presidente da Fesbe.
“O pesquisador tem de lidar com um conjunto de regras que às vezes brigam entre si, e o aplicador dessas regras normalmente não está suficientemente instruído para resolver os problemas”, complementa.
O pior é que, enquanto espera, o pesquisador brasileiro vai perdendo em competitividade. “Um americano ou um europeu que precisem de um produto o recebem no dia seguinte. Aqui leva em média três meses para chegar. E se, por um acaso, quando receber o material o cientista descobrir que não era daquilo que ele precisava, o europeu e o americano resolverão o problema no dia seguinte. Aqui serão mais três meses. Fica difícil competir assim.”
Ele defende que o PAC seria mais efetivo se de algum modo contemplasse esses problemas. “Deveria criar uma secretária da desburocratização, que simplificasse as coisas”, brinca. “Mas aqui no Brasil se considera por definição que todo mundo é desonesto. As leis têm tantas dobras para evitar isso que no final eu acho que elas acabam fomentando a desonestidade e a corrupção. No desespero, o que vemos é o pesquisador tentando driblar o sistema mesmo, trazendo na mala, contrabandeando.”

Efeito Roosmalen
Mello lembra que nesse mesmo nível de dificuldade se vêem os pesquisadores que estudam biodiversidade no Brasil. As leis que tentam coibir a biopirataria acabam por impedir, na verdade, a pesquisa. Não é à toa que muita gente tem considerado o primatólogo holandês naturalizado brasileiro Marc van Roosmalen, preso sob acusação de biopirataria, como quase um herói. “Talvez ele não queira respeitar lei nenhuma, mas, por outro lado, pode ser simplesmente o cientista fazendo as coisas dentro do que julga ético, moral, aceitável.”
Um outro estrangeiro trabalhando na Amazônia resumiu a situação. “A verdade é que todos nós biólogos que fazemos o mesmo tipo de trabalho que ele estamos sujeitos ao mesmo risco de ser acusados erroneamente de sermos criminosos”, disse Mario Cohn-Haft, especialista em aves do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia).

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

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Controvérsia cresce

Olá, tudo bem?

A popularidade do Blog CONTROVÉRSIA vem superando as expectativas e o número de acessos mensais comprova isto. Fechamos o último mês com mais de 1.600 visitas/dia.

O ALEXA, site (em inglês) que mede a posição que a página da internet ou blog ocupa no mundo, confirma esta popularidade do Blog. Quando do seu lançamento (em julho de 2006) ocupávamos a posição 3.500.000 aproximadamente, porém, com o aumento das visitações nossa situação melhorou muito.

Em 02 de novembro ocupávamos o lugar 1.141.483 (as alterações de posição não são diárias).

Clique aqui e confira.

Mais uma vez obrigado pela audiência.

Grande abraço.

Ricardo Alvarez

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Conheça o ABC dos cereais

Redação

Estudos demonstram que um café da manhã equilibrado contribui para manter o peso adequado, pois reduz o desejo por alimentos gordurosos no restante do dia. Por isso, essa refeição é considerada a mais importante e para ser equilibrada é essencial a presença de grãos integrais.

Os cereais integrais são alimentos que fornecem quantidades moderadas de energia (calorias) e quantidades significativas dos nutrientes essenciais para a saúde.

A diferença entre o cereal moído ou refinado e o cereal integral é que no primeiro, a maior parte do valor nutricional é perdida, pois o farelo e o gérmen são retirados durante o processo de refinação. Já o cereal integral inclui todas as partes do grão, inclusive o farelo e o gérmen.

Cada componente do cereal tem seu próprio valor nutricional, mas é a combinação de todos que potencializam os benefícios à saúde. A dica é observar nas embalagens dos produtos que contêm cereais, se são utilizados na forma integral.

Conheça os grãos integrais e os benefícios que eles podem trazer à saúde.

Amaranto
Contém alto teor de proteína.

Cevada
Contribui na redução do colesterol.

Trigo-mouro
Contém alto nível de rutina, um antioxidante que ajuda a prevenir o depósito de colesterol nos vasos sanguíneos.

Bulgur
Possui alto percentual de fibras.

Milho
Tem o nível mais alto de antioxidantes entre todos os grãos, quase o dobro das maçãs. O termo antioxidante é utilizado para denominar a função de proteção celular contra os efeitos danosos dos radicais livres.

Kamut
Tem níveis de proteína e vitamina E mais altos do que o trigo comum.

Painço
É freqüentemente servido tostado para acentuar seu sabor discreto.

Aveias
Como a cevada, as aveias contêm betaglucano nutriente eficaz na redução do colesterol. Recentes pesquisas relatam que aveias também contêm antioxidantes, que protegem os vasos sanguíneos.

Quinoa
Contém a gama completa de aminoácidos essenciais à nutrição humana.

Arroz
Contém vitaminas do complexo B, que ajudam a manter a saúde dos nervos, pele, olhos, cabelos, fígado e boca, assim como a tonicidade muscular do aparelho gastrintestinal. É um cereal muito facilmente digerido.

Centeio
Promove uma sensação rápida e duradoura de saciedade devido ao alto nível de fibras, sendo assim uma boa escolha para quem deseja perder peso.

Spelt
É mais rico em proteínas que o trigo comum.

Teff
É rico em ferro e cálcio.

Triticale
A biodisponibilidade de proteínas do triticale é mais alta que a do trigo e ligeiramente mais alta que a da soja.

Trigo
Principal cereal devido ao seu alto conteúdo de glúten. O trigo colabora na eliminação de toxinas.

Arroz selvagem ou zizane
Tem o dobro de proteínas e fibras que o arroz integral, mas é menos completo, pois possui menos ferro e cálcio.

Via Estelar

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Pensamento do dia

Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que determina sua consciência

Karl Marx

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As tarefas da inteligência

Florestan Fernandes

Interpretar as coisas, pensá-las, é uma espécie de doença dos intelectuais. Doença ou vício - como quis alguém - que se transforma em hábito, minando-lhes o modo de ser e roendo-lhes a capacidade primária de considerar as coisas com seus aspectos mais simples, elementares. O sr. Astrojildo Pereira, que reuniu em livro recente alguns de seus ensaios, mantém um equilíbrio saudável entre êsses dois extremos: revela a capacidade por excelência do intelectual - aquela faculdade de pensar as coisas, de filtrar o mundo exterior por processos racionais - e ao mesmo tempo fica-se no terra-à-terra, gozando a impressão que todos sentimos ao pisar o “chão batido e liso”.

Essa não é uma constatação gratuita. Quase todos os ensaios revelam êsse lado atraente do sr. Astrojildo Pereira, dando-lhes uma unidade de forma e de intenção que às vezes o denominador comum das idéias contraria parcialmente. Está claro que a diversidade do assunto facilita bastante um resvale dêsses - de o livro não ter unidade absoluta de pensamento; ou melhor, é possível encontrar-se pequenas variações de tons, de um ensaio para outro, consequência também de uma diferença de tempo. Há trabalhos como “Sociologia ou Apologética”, critica ao sr. Oliveira Viana, escrito em 1929, o qual mostra explicitamente um ponto de vista muito simpático que só muito ligeiramente e até nem implicitamente aparece em outros bons ensaios posteriores, como “Machado de Assiz, Romancista do segundo reinado” de 1939: “Romancistas da Cidade: Manuel Antonio, Macedo e Lima Barreto”, de 1941: “Rui Barbosa e a Escravidão”, “Posição e Tarefas da Inteligência”, de 1944 etc. Tôdas as “interpretações” têm, todavia, um ar de parentesco muito mais importante para o leitor: são uma fonte de sugestões, ativando o debate de alguns problemas sérios.

Nos limites de um artigo não se poderia tentar a emprêsa que o autor só resolveu em 301 páginas; por isso, limitar-me-ei a uma espécie de consideração a propósito do último ensaio, a que me referi acima: “Posição e Tarefas da Inteligência”. Nêle o problema da participação do intelectual, na vida social do povo brasileiro é colocado concretamente. Em têrmos gerais, o sr. Astrojildo Pereira discrimina os “abstensionistas” e os “participacionistas” - concluindo pela participação de todos, pois a própria abstenção pode significar “participação passiva ou por omissão”. Ambas as atitudes funcionariam como dois lados de uma moeda - cara e coroa - mas a moeda seria sempre a mesma: tal como a participação. O isolacionismo da inteligência, a “arte pela arte”, porém, é condenada pelo sr. Astrojildo Pereira, que considera o desempenho pelos intelectuais de sua parte específica, no campo propriamente intelectual da democratização da cultura, como o meio através do qual poderão os escritores brasileiros chegar aos problemas de natureza política, social e econômica. A atitude do sr. Astrojildo Pereira é ampla e plástica e não se pode exigir de nenhum intelectual uma compreensão mais profunda e ativa de suas funções. Os problemas de cultura apresentam-se como pontos de partida e como meios para se atingir certos fins concretos - maior participação das massas na cultura, etc. - e enriquecimento das esferas de preocupação dos escritores. O sr. Astrojildo Pereira é sobretudo hábil na colocação dêsses problemas. Sempre mostra que a participação do intelectual deve ser específica - sem eliminar outras formas de participação - mas ser específica, ficar no campo de suas atribuições culturais como escritor. Assim, a campanha pela democratização da cultura deve começar pela liquidação do analfabetismo, e a ela os escritores precisam se dedicar de preferência: essa campanha pela liquidação do analfabetismo não é a única, porém é a principal, etc. Um leitor mal intencionado diria que o sr. Astrojildo Pereira gosta de tirar castanhas do fogo sem queimar as mãos, substituindo o abstencionismo da “arte pura” pela semi-participação do intelectual que teria sua atenção desviada para um campo de ação muito limitado. Contudo, a leitura do livro mostra no autor uma honestidade - não só intelectual - que o situa fora dêsse plano de cogitações e num lugar à parte entre os nossos escritores. Provàvelmente, o sr. Astrojildo Pereira, que não desconhece os outros aspectos da questão, dá maior importância êsse papel ativo e restrito dos intelectuais. Por motivos de preferências pessoais, por causa das condições históricas e culturais do Brasil e do mundo e ainda devido à situação mesmo da “inteligência” brasileira.

Em todo caso, parece-me que não devemos afastar os intelectuais assim, por qualquer causa, por mais “nítida” que ela seja. A campanha contra o analfabetismo é um dos elos de uma grande corrente; um dos aspectos de uma imensa tarefa. A contribuição dos intelectuais não pode e não deve ser de forma alguma específica - caso contrário estaremos numa modalidade nova de traição da inteligência: a de participação intencionalmente restrita, mínima. Os intelectuais compreendendo a impossibilidade do abstencionismo, procurando limitar o quanto possível suas atividades e sua participação. É uma forma de fugir à luta, aceitando-a; é também um meio de a “inteligência” conservar-se a serviço das classes dominantes, calcando suas mãos na balança dos dominadores e oprimidos. Jôgo duplo, amoral e perigoso, que poderia culminar no esmagamento da “inteligência” novamente.

Não. Parece-me que os intelectuais brasileiros não se devem iludir muito com as especificidades de suas funções. Sem trair a causa da “cultura” e sem deixar de fazer sua grande e histórica campanha contra o analfabetismo, em favor do povo - se é que de fato se preocupam com o povo brasileiro - é preciso que caiam de rijo? sôbre o corpo da questão. Quem pensa os fatos não pode fazer uma separação assim brutal nas atividades da “inteligência”, uma limitação tão violenta nas tarefas dos intelectuais e acreditar na eficiência de uma ruptura dêsse gênero exatamente no momento em que é necessário colocar as fôrças do pensamento e de ação no campo aberto da luta contra as fôrças da reação, do aproveitamento e da opressão. É inconcebível, mesmo, que os intelectuais cheguem a fazer isso; e seria uma enormidade se o fizerem, justificando-se com a causa da cultura e a causa do povo. A causa da cultura e a causa do povo sob certos aspectos são uma só. Não é possível dissociar uma da outra. Ou, mais precisamente, a causa do povo implica a causa da cultura. Os intelectuais têm que considerar isto, se quiserem evitar a definição errada de posições. E se querem de fato defender a causa do povo, é lógico que não poderão dar uma importância desequilibradora à causa da cultura; situá-la, isto sim, no conjunto das outras causas e reivindicações do povo. Só assim conseguirão algo sólido para o povo e para a causa da cultura.

De nenhuma forma é conveniente, pois, a atribuição de uma tarefa exclusiva ou preponderante à inteligência brasileira, em nosso momento histórico. Ninguém desconhece a gravidade da situação educacional do povo brasileiro e ninguém ignora as consequências que um melhoramento sólido traria a todos nós. Ninguém pode desdenhar o alcance econômico, social e político do elemento do nível educacional de nossas populações do campo e da cidade e o significado de sua participação maior na “cultura”. Entretanto, êsse admirável objetivo será alcançado com uma condição: que se atue sôbre os vários fatôres e condições do atual estado de fato. Aí as tarefas da “inteligência” são múltiplas. Ela deve começar por assumir várias posições de luta e de ação - pois que a definição da “posição” dos intelectuais só vale à medida que ela indica o preenchimento efetivo das diversas posições e a realização das tarefas correspondentes - e teríamos, para a “inteligência” brasileira, uma posição econômica, uma política, outra social etc., tôdas intimamente relacionadas e interdependentes.

O intelectual não deve deixar as massas abandonadas às manobras que aqui e no estrangeiro estão se fazendo, visando desviar a atenção do povo do aproveitamento da guerra e do próprio massacre de seus interêsses e reivindicações, facilitado às vêzes por certos escritores. Os intelectuais não podem deixar de discutir concretamente as condições de vida do povo brasileiro, se quiserem conseguir qualquer coisa prática. A situação de nossas populações das zonas rurais e urbanas do trabalhador do campo e da cidade, seu nível de vida e seus recursos econômicos, comparando-o os nossos escritores com o nível de vida e recursos econômicos dos que aqui passam por privilegiados: verificarão que o “cultural lag”, a decalagem cultural, tem causas sociais econômicas, demográficas, políticas etc., precisas. É necessário atuar sôbre as causas quando se pretende eliminar ou agir sôbre os efeitos. A mesma coisa pode-se falar de outros problemas característicos de nosso povo. Isso tudo quer dizer como também reconhece o sr. Astrojildo Pereira, que a questão tem três lados: a democratização da cultura, que é o coroamento, o fim e o resultado; a “democratização política” e a “democracia econômica”. O escritor nunca chegará à “democracia cultural” diretamente saltando seus princípios políticos e suas bases econômicas. O salto seria além de perigoso, inócuo. É indispensável que a “inteligência” brasileira compreendendo isso, não se negue a realizar suas tarefas em todos os três setores, integralmente, como o mundo moderno necessita. E não ficar imobilizada pelo fantasma do mêdo e do comodismo comprometida por uma pseudo-campanha, unilateral e por isso condenada de início.

Revista Espaço Acadêmico
http://www.espacoacademico.com.br/

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A ORIGEM DOS NOMES GEOGRÁFICOS

Aparentemente exóticas, às vezes ininteligíveis, as toponímias podem ajudar a compreender a história e a formação territorial de muitos lugares do planeta.

Burkina Faso, Sri Lanka, Chechênia, Bósnia-Herzegovina. Você nunca se perguntou de onde surgiram esses nomes tão estranhos para o nosso vocabulário geográfico? Muitos países, regiões, Estados, províncias e acidentes geográficos acabaram conhecidos mundialmente por nomes que resultaram de processos históricos ou até de mera casualidade.

No rastro da colonização, por exemplo, alguns lugares rendem homenagens a seus exploradores: como a Colômbia, em tributo a
Cristóvão Colombo; a Tasmânia, num preito ao viajante holandês Abel Tasman; ou a própria América, nome provavelmente atribuído ao navegador florentino Américo Vespúcio. Outros países, ainda, homenageiam seus libertadores, como no caso da Bolívia no tocante ao general venezuelano Simón Bolívar.

Dentre as nações cujos nomes foram vinculados aos seus recursos naturais se destaca a Argentina, derivado de argentum, termo latino que significa “prata”, mineral abundante na região e largamente explorado pelos espanhóis no período colonial. Outras nações foram batizadas em razão da abundância de alguma espécie animal. Apesar de alguns autores afirmarem que Chile, em Aimará, signifique “limite do mundo”, outra teoria assegura que esse termo se origina de um pássaro conhecido pelos indígenas por chi ou trile. O mesmo se aplica a Camarões, toponímia dada por um marinheiro português por causa da grande quantidade desses crustáceos em um rio da costa oeste africana. Peru, ao contrário do que muitos pensam, não está relacionadoà ave, mas, provavelmente, a um rio conhecido pelos habitantes nativos como “Pelu”.

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Em Israel, a extrema direita celebra o assassino de Yitzhak Rabin

Michel Bôle-Richard

Enquanto uma boa parte de Israel e também a grande maioria da classe política, celebraram, na quarta-feira, 24 de outubro, a memória de Yitzhak Rabin, o primeiro-ministro trabalhista assassinado em 4 de novembro de 1995, a extrema direita deu início a uma violenta campanha em favor da libertação do seu assassino, Yigal Amir. Embora esta “contra-cerimônia”, que foi organizada na noite de quarta-feira em Tel Aviv - o dia do 12º aniversário do atentado, segundo o calendário hebraico -, não tivesse reunido muitos simpatizantes, a mobilização dos ultras em favor do assassino, hoje com 37 anos, que cumpre prisão perpétua, despertou uma grande emoção.

Por iniciativa de um “comitê em prol da democracia”, um vídeo de cerca de quinze minutos foi realizado e exibido para 150.000 pessoas com o objetivo de vangloriar os méritos do assassino, denunciar os acordos de Oslo com os palestinos, documento este do qual Yitzhak Rabin havia sido um dos signatários em 1993, e pedir a libertação daquele que “se sacrificou pelo seu povo”.

“Eu não me arrependo de nada”
O comitê lembra que Yigal significa “salvador” em hebraico e considera inadmissível o fato de deixar mofar na prisão aquele que, segundo Avigdor Eskin, um dos autores do vídeo, “salvou o Golan, evitou a evacuação de uma parte da Judéia e da Samária (Cisjordânia) e ajudou a poupar dezenas de milhares de vidas de cidadãos judeus”.

Yitzhak Rabin havia sido morto com três balas disparadas nas suas costas por ocasião de uma reunião pacifista em Tel Aviv. Yigal Amir jamais manifestou o menor remorso pelo seu ato. A sua família considera hoje que ele se “sacrificou”. Numa gravação que foi efetuada logo depois do assassinato e que foi divulgada no início desta semana pela polícia, Yigal Amir conta: “Eu vi Rabin descer (do palanque). Eu decidi então abatê-lo, para neutralizá-lo politicamente. Eu não me arrependo de nada. Deus me livre disso!”.

Yigal Amir explica ainda que ele também poderia ter matado Shimon Peres, que estava logo atrás do seu alvo, mas que este constituía para ele “um objetivo secundário”. Este assassinato havia provocado uma enorme emoção no país, tanto mais que ele havia ocorrido depois de uma violenta campanha de difamação de Rabin, orquestrada por religiosos e ultranacionalistas israelenses.

A filha do primeiro-ministro assassinado, Dalia Rabin, explicou em 23 de outubro, numa entrevista na televisão, que “se Israel quiser se suicidar, basta que deixem esta campanha se desenvolver”. Indignada pela maneira com que a memória do seu pai vem sendo tratada por esta facção de extremistas, ela afirmou: “Eu penso que o certo teria sido matá-lo (Yigal Amir), não porque se trata do meu pai, e sim porque este assassino atirou nas costas da democracia”.

Um religioso ortodoxo, Yigal Amir casou-se em 2004 com Larissa Trimbobler, 42 anos, divorciada e mãe de quatro filhos. Em função de uma decisão da Corte Suprema, tomada em outubro de 2006, ela foi autorizada a se encontrar com o seu marido uma vez por mês. Hoje grávida, ela deve dar à luz em breve. Ela manifestou até mesmo o desejo de dar a luz na data do aniversário da morte de Yitzhak Rabin.

O advogado de Yigal Amir ainda não apresentou nenhum pedido de redução de pena ou de libertação antecipada. “Ele permanecerá na prisão até a sua morte, como uma múmia”, assegurou Avi Dichter, o ministro da segurança do interior.

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

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Crise de Suez

1956. A região do Canal de Suez está à beira de uma guerra. França e Grã-Bretanha, com a cumplicidade de Israel, querem assumir o controle do Canal, que está sob a guarda do Egito. Moscou e Washington, desta vez em pleno acordo, estão furiosas.

Sem o Rio Nilo, o Egito está perdido. Com seus quarenta e cinco milhões de habitantes, o Egito é o país mais populoso do mundo árabe.

A represa de Assuan, que inaugurou o processo de modernização do Egito, é obra do governo do general Gamal Abdel Nasser, fundador da República do Egito. A história da construção desta represa é um bom exemplo do fosso que separa os países ricos dos países pobres.

1956. Nasser é presidente. Antes de mais nada, porém, é um nacionalista que quer fazer do Egito um país independente, industrializado, e modelo para todo o mundo árabe.

Mas, o Canal de Suez é controlado por uma corporação privada, francesa e inglesa. Além disso, o Egito não tem infra-estrutura industrial e são poucos os trabalhadores e técnicos especializados. Para completar, o Egito vive em estado de permanente hostilidade contra Israel.

No período entre 1954-55, a França vende tantas armas a Israel que Nasser vê-se obrigado a se igualar ao adversário. Tenta, de início, comprar armas dos americanos. Como não consegue, volta suas atenções para o bloco soviético. Em represália, Washington suspende a ajuda técnica para a construção da represa de Assuan. Mas, Nasser não se intimida e nacionaliza a região do Canal de Suez.

Com a riqueza gerada pela exploração do Canal, consegue financiar a contrução da represa. Com a colaboração técnica dos soviéticos, consegue ampliar sua área de influência até o Oriente Médio.

Em 26 de julho de 1956, da janela do prédio da Bolsa de Valores do Cairo, Nasser pronuncia um discurso histórico. Ao mesmo tempo, seu exército se prepara para tomar as instalações do Canal. A operação é iniciada com uma expressão “senha”: quando Nasser menciona o nome de Ferdinand de Lesseps - engenheiro francês que construiu o canal em 1869 - as forças egípcias assumem o controle do Canal de Suez.

Na França, como na Grã-Bretanha, a notícia da nacionalização explode como uma bomba. Ao mesmo tempo, a União Soviética enfrenta o Levante da Hungria.

Franceses e Ingleses se unem num plano para derrubar Nasser do poder e reassumir o controle do Canal, com a ajuda de Israel. O plano é simples: Israel ataca o Egito e, assim, dá motivo para que franceses e britânicos intervenham na região.

Como os historiadores diriam mais tarde, é a última grande investida colonialista do século.

A União Soviética ameaça Londres e Paris com um ataque nuclear.

O presidente americano Dwight Eisenhower quer dar um fim ao conflito. Negocia uma venda maciça de libras inglesas, provocando a queda do valor de mercado da moeda. Londres, em pânico, suspende os combates no mesmo dia. Os americanos, assim, conseguem controlar a crise do Canal de Suez. Abdel Nasser torna-se o herói do mundo árabe e, por extensão, herói de todo o Terceiro Mundo.aproveitar, a primeira oportunidade de diálogo com o Terceiro Mundo.

Alô Escola TV Cultura
http://www.tvcultura.com.br/aloescola/index.asp

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