Arquivo de 16 de Novembro de 2007

Deve-se participar nos parlamentos burgueses?

V. I. LENIN

Os comunistas “de esquerda” alemães, com o maior desprezo – e a maior leviandade – respondem negativamente a esta pergunta. Os seus argumentos? Na citação mais atrás reproduzida vimos:

“…rejeitar da forma mais decidida qualquer regresso às formas de luta, histórica e politicamente caducas, do parlamentarismo…”

Isto é dito num tom ridiculamente pretensioso e é evidentemente falso. “Regresso” ao parlamentarismo! Existe porventura já na Alemanha uma república soviética? Parece que não! Então como se pode falar de “regresso”? Não será esta uma frase vazia?

O parlamentarismo está “historicamente caduco”. Isto é verdadeiro no sentido da propaganda. Mas todos sabem que daí até à superação prática há uma enorme distância. Há já muitas décadas que se podia declarar com inteira razão que o capitalismo estava “historicamente caduco”, mas isto não elimina de modo nenhum a necessidade de uma luta muito prolongada e muito tenaz no terreno do capitalismo. O parlamentarismo está “historicamente caduco” no sentido histórico universal, isto é, a época do parlamentarismo burguês terminou, a época do da ditadura do proletariado começou. Isto é indiscutível. Mas a escala histórica universal conta-se por décadas. Do ponto de vista da escala histórica universal, 10-20 anos antes ou depois é indiferente, isto é, do ponto de vista da história universal, é uma ninharia, que não se pode ter em conta mesmo aproximadamente. Mas é precisamente por isso que remeter-se à escala histórica universal numa questão de política prática constitui a mais flagrante falsidade teórica.

O parlamentarismo está “politicamente caduco”? Esta é outra questão. Se isto fosse verdade, a posição dos “esquerdas” seria sólida. Mas isto precisa de ser provado com uma análise muito séria, e os “esquerdas” nem sequer sabem abordá-la. Nas “teses sobre o parlamentarismo”, publicadas no nº 1 do Boletim do Bureau Provisório de Amsterdã da Internacional Comunista (Bulletin of the Provisional Bureau in Amsterdam of the Communist International, February 1920) e que exprimem claramente a tendência esquerdista dos holandeses ou holandesa dos esquerdistas, a análise é também, como veremos, a pior possível.

Primeiro. Os “esquerdas” alemães, como é sabido, consideravam já em Janeiro de 1919 que o parlamentarismo estava “politicamente caduco”, a despeito da opinião de dirigentes políticos destacados como Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht. É sabido que os “esquerdas” se enganaram. Este fato destrói desde logo e radicalmente a tese de que o parlamentarismo está “politicamente caduco”. Os “esquerdas” têm a obrigação de demonstrar porque é que o seu erro indiscutível de então deixou agora de ser um erro. Eles não apresentam, nem podem apresentar, a menor sombra de prova. A atitude de um partido político perante os seus erros é um dos critérios mais importantes e mais seguros da seriedade do partido e do cumprimento de fato por ele das suas obrigações para com a sua classe e para com as massas trabalhadoras. Reconhecer abertamente o erro, por a descoberto as suas causas, analisar a situação que o engendrou e discutir atentamente os meios de corrigir o erro – isto é o indício de um partido sério, isto é o cumprimento por ele das suas obrigações, isto é educar e instruir a classe, e depois também as massas. Não cumprindo esta obrigação, não estudando com a maior atenção, cuidado e prudência o seu erro manifesto, os “esquerdas” da Alemanha (e da Holanda) mostram com isto precisamente que não são o partido da classe, mas um círculo, que não são o partido das massas, mas um grupo de intelectuais e de um reduzido número de operários que imitam os piores traços da intelectualidade.

Segundo. Na mesma brochura do grupo dos “esquerdas” de Frankfurt, de que atrás demos citações pormenorizadas, lemos:

“…os milhões de operários que seguem ainda a política do centro” (do partido católico do “centro”) “são contra-revolucionários. Os proletários do campo constituem as legiões das tropas contra-revolucionárias” (p. 3 da brochura citada).

Tudo indica que isto é dito com uma desenvoltura e um exagero excessivos. Mas o fato fundamental aqui exposto é indiscutível e o seu reconhecimento pelos “esquerdas” testemunha o seu erro com particular evidência. Com efeito, como se pode dizer que o “parlamentarismo está politicamente caduco” se “milhões” e “legiões” de proletários são ainda não só partidários do parlamentarismo em geral, mas até diretamente “contra-revolucionários”? É evidente que os “esquerdas” da Alemanha tomaram o seu desejo, a sal atitude político-ideológica, pela realidade objetiva. Este é um erro perigosíssimo para os revolucionários. Na Rússia, onde o jugo extremamente feroz e selvagem do tsarismo engendrou, durante um período particularmente prolongado e em formas particularmente variadas, revolucionários de diferentes matizes, revolucionários de uma abnegação, entusiasmo, heroísmo e força de vontade assombrosos, na Rússia observamos de particularmente perto, estudarmos com particular atenção, conhecermos particularmente este erro des revolucionários, e pro isso o vemos com especial clareza também nos outros. Para os comunistas da Alemanha o parlamentarismo, é claro, está “politicamente caduco”, mas trata-se precisamente de não tomar aquilo que está caduco para nós pelo que es’tá caduco para a classe, como o partido das massas. Tendes a obrigação de não descer ao nível das massas, ao nível das camadas das camadas atrasadas da classe. Isso é indiscutível. Tendes a obrigação de lhes dizer a amarga verdade. Tendes a obrigação de chamar preconceitos aos seus preconceitos democrático-burgueses e parlamentares. Mas, ao mesmo tempo, tendes a obrigação de acompanhar com sensatez o estado real de consciência e de preparação precisamente de toda classe (e não só da sua vanguarda comunista), precisamente de toda a massa trabalhadora e não só dos seus elementos avançados).

Ainda que não fossem “milhões” e “legiões”, mas uma simples minoria bastante considerável de operários industriais que seguisse os padres católicos, e de operários agrícolas que seguisse os latifundiários e kulaques (Grossbauern), decorreria disso indubitavelmente que o parlamentarismo na Alemanha ainda não está politicamente caduco, que a participação nas eleições parlamentares e na luta na tribuna parlamentar é obrigatória para o partido do proletariado revolucionário precisamente para educar as camadas atrasadas da sua própria classe, precisamente para despertar e instruir a massa rural não desenvolvida, embrutecida e ignorante. Enquanto não tiverdes força para dissolver o parlamento burguês e quaisquer instituições reacionárias de outro tipo, tendes a obrigação de trabalhar dentro delas precisamente porque ainda há nelas operários enganados pelo clero e pela vida em aldeias perdidas do campo, de outro modo correis o risco de vos converterdes em simples charlatães.

Terceiro. Os comunistas “de esquerda” dizem muito bem de nós, bolcheviques. Por vezes dá vontade de dizer: louvai-nos menos, penetrai mais na tática dos bolcheviques, familiarizai-vos ainda com ela! Participamos nas eleições para o parlamento burguês da Rússia, para a Assembléia Constituinte, em Setembro-Novembro de 1917. a nossa tática era acertada ou não? Se não, há que dize-lo, com clareza e demonstra-lo: isto é necessário para que o comunismo internacional elabore a tática justa. Se sim, devem-se retirar daí certas conclusões. É evidente que nem sequer pode falar de equipar as condições da Rússia às da Europa Ocidental. Mas sobre a questão especial do conceito ö parlamentarismo está politicamente caduco”, é obrigatório ter em conta com exatidão a nossa experiência, pois sem ter em conta a experiência concreta, semelhantes conceitos convertem-se com excessiva facilidade em rases ocas. Não teríamos nós, bolcheviques russos, em Setembro-Novembro de 1917, mais direito que quaisquer comunista do Ocidente a considerar que o parlamentarismo estava politicamente caduco na Rússia? Tínhamo-lo, naturalmente, pois a questão não consiste em saber se os parlamentos burgueses existem há muito ou pouco tempo, mas em que medidas as amplas massas dos trabalhadores estão preparadas (ideológica, política e praticamente) para aceitar o regime soviético e dissolver (ou permitir a dissolução) o parlamento democrático-burguês. Que na Rússia em Setembro-Novembro de 1917 a classe operaria das cidades, os soldados e os camponeses estavam, em conseqüência de uma serie de condições especiais, excepcionalmente preparados para aceitar o regime soviético e dissolver o parlamento burguês mais democrático, é um fato histórico absolutamente indiscutível e plenamente estabelecido. E, não o bastante, os bolcheviques não boicotaram a Assembléia Constituinte, mas participaram nas eleições, tantos antes como depois da conquista do poder político pelo proletariado. Que estas eleições deram resultados políticos extraordinariamente valiosos (e de extrema utilidade para o proletariado), isso, ouso esperar, demonstrei-o no artigo mais atrás referido, que analisa pormenorizadamente os dados das eleições para a Assembléia Constituinte da Rússia.

A conclusão que daí deriva é absolutamente indiscutível: está provado que, mesmo algumas semanas antes da vitória da República Soviética, mesmo depois dessa vitória, a participação num parlamento democrático-burguês não só não prejudica o proletariado revolucionário, como lhe facilita a possibilidade de demonstrar às massas atrasadas porque é que tais parlamentos merecem ser dissolvidos, facilita o êxito de sua dissolução, facilita a “caducidade política” do parlamentarismo burguês. Não ter em conta esta experiência e pretender ao mesmo tempo pertencer à Internacional Comunista, que deve elaborar internacionalmente a sua tática (não como uma tática estreita ou de exclusivo caráter nacional, mas precisamente como tática internacional), significa incorrer num profundíssimo erro e precisamente afastar-se de fato do internacionalismo, embora reconhecendo-o em palavras.

Consideremos agora os argumentos “esquerdistas holandeses” a favor da não participação nos parlamentos. Eis a tradução (do inglês) da mais importante das teses holandesas acima mencionadas, a tese 4ª:

“Quando o sistema capitalista de produção está quebrado e a sociedade se encontra em condições de revolução, a ação parlamentar perde gradualmente importância em comparação com a ação das próprias massas. Quando, nestas condições, o parlamento se converte no centro e no órgão da contra-revolução, e, por outro lado, a classe operaria cria os instrumentos do seu poder sob a forma de Sovietes, pode tornar-se mesmo necessário renunciar a toda e qualquer participação na ação parlamentar.”

Esta primeira frase é evidentemente falsa, pois a ação das massas – por exemplo, uma grande greve – é sempre mais importante do que a ação parlamentar, e não apenas durante a revolução ou numa situação revolucionaria. Este argumento, evidentemente inconsistente e histórica e politicamente falso, não faz mais que mostrar com particular evidencia que os autores não têm conta em absoluto nem a experiência européia geral (francesa antes das revoluções de 1898 e 1870, alemã de 1878-1890, etc.), nem a russa (ver acima) sobre a importância da combinação da luta legal e ilegal. Esta questão tem imensa importância, tanto em geral como em particular, porque em todos os países civilizados e avançados se aproxima rapidamente a época em que tal combinação se tornará- e em parte já se tornou – cada vez mais obrigatória para o partido do proletariado revolucionário, em conseqüência do crescimento e da aproximação da guerra civil do proletariado contra a burguesia, em conseqüência dos governos republicanos e, em geral, burgueses, que recorrem a todas as violações da legalidade (basta como exemplo a América), etc. Essa questão importantíssima é absolutamente incompreendida pelos holandeses e pelos esquerdas em geral.

A segunda frase é, em primeiro lugar, historicamente falsa. Nós, bolcheviques, participamos nos parlamentos mais contra-revolucionários e a experiência mostrou que tal participação foi não só útil mas também necessária para o partido do proletariado revolucionário precisamente depois da primeira revolução burguesa na Rússia (1905), para preparar a segunda revolução burguesa (II.1917) e depois a revolução socialista (X.1917). Em segundo lugar, essa frase é um surpreendente silogismo. Do fato de que o parlamento se transforme no órgão e “centro” (de fato nunca foi nem pôde ser o “centro”, mas isto é secundário) da contra-revolução e que os operários criem os instrumentos do seu poder sob a forma de Sovietes, disto decorre que os operários devem preparar-se – preparar-se ideológica, política e tecnicamente – para a luta dos Sovietes contra o parlamento, para a dissolução do parlamento pelos Sovietes. Mas disso não decorre de modo nenhum que tal dissolução seja dificultada ou não seja facilitada pela presença de uma oposição soviética dentro do parlamento contra-revolucionário. Nunca notamos durante a nossa luta vitoriosa contra Deníkine e Koltchak que a existência de uma oposição proletária, soviética, na zona ocupada por eles fosse indiferente para as nossas vitórias. Sabemos muito bem que a dissolução da Constituinte por nós em 5.1.1918 não foi dificultada ma facilitada pelo fato de que dentro da Constituinte contra-revolucionária que ia ser dissolvida havia uma oposição soviética tanto conseqüente, bolchevique, como inconseqüente, socialista-revolucionária de esquerda. Os autores das teses confundiram-se por completo e esqueceram a experiência de uma série de revoluções, se não de todas, que testemunham a particular utilidade em tempos de revolução de combinar a ação de massas fora do parlamento reacionário com uma oposição simpatizante da revolução (ou melhor ainda, que apóia francamente a revolução) dentro desse parlamento. Os holandeses de “esquerda” em geral raciocinam aqui como doutrinários da revolução que nunca participaram de uma verdadeira revolução ou não refletiram sobre as histórias das revoluções, ou tomam ingenuamente a “negação” subjetiva de determinada instituição reacionária pela sua destruição pelas forças conjuntas de uma série de fatores objetivos. O meio mais seguro de desacreditar uma nova idéia política (e não apenas política) e de a prejudicar consiste em, em nome da sua defesa, levá-la até ao absurdo. Pois toda a verdade, se a tornamos “excessiva” (como diria Dietzgen, pai), se a exageramos e a estendermos para além dos limites em que ela é realmente aplicável, pode ser levada ao absurdo e, nas condições assinaladas, converte-se inevitavelmente num absurdo. Tal é precisamente o fraco serviço prestado pelos esquerdas holandeses e alemães à nova verdade da superioridade do Poder Soviético sobre os parlamentos democrático-burgueses. Como é natural, estaria errado que se pusesse a dizer como antes e em geral que a recusa a participar nos parlamentos burgueses é inadmissível em quaisquer circunstâncias. Não posso tentar formular aqui as condições em que é útil o boicote, pois o objeto deste artigo é muito mais modesto: estudar a experiência russa em ligação com algumas questões atuais da tática comunista internacional. A experiência russa deu-nos uma aplicação feliz e acertada (1905) e outra errada (1906) do boicote pelos bolcheviques. Analisando o primeiro caso, vemos: conseguiu-se não permitir a convocação do parlamento reacionário pelo poder reacionário numa situação em que a ação revolucionária extraparlamentar (grevista em particular) das massas crescia com excepcional rapidez, em que nenhuma camada do proletariado e do campesinato podia dar nenhum apoio ao poder reacionário, em que o proletariado revolucionário assegurava a sua influência sobre as amplas massas atrasadas por meio da luta grevista e do movimento agrário. É perfeitamente evidente que esta experiência é inaplicável às condições européias atuais. E é também perfeitamente evidente – em virtude dos argumentos expostos mais acima – que a defesa, mesmo condicional, da recusa a participar nos parlamentos pelos holandeses e pelos “esquerdas” é radicalmente falsa e nociva para a causa do proletariado revolucionário.

Na Europa Ocidental e na América o parlamento tornou-se especialmente odioso para os elementos revolucionários de vanguarda da classe operária. Isto é indiscutível. E é plenamente compreensível, pois é difícil imaginar algo mais vil, infame, traiçoeiro, que a conduta da gigantesca maioria dos deputados socialistas e sociais-democratas durante a guerra e depois dela. Mas seria não co insensato, como francamente criminoso, ceder a este estado de espírito ao decidir a questão de como se deve lutar contra o mal universalmente reconhecido. Pode dizer-se que em muitos países da Europa Ocidental o estado de espírito revolucionário é atualmente uma “novidade” ou uma “raridade” esperada demasiado longa, vã e impacientemente, e é talvez por isso que facilmente se cede a esse estado de espírito. Como é natural, sem um estado de espírito revolucionário nas massas, sem condições que favoreçam o crescimento de tal estado de espírito, a tática revolucionária não se transformará em ação, mas na Rússia, uma experiência demasiado longa, dura e sangrenta convenceu-no da verdade de que é impossível construir a tática revolucionária exclusivamente na base do estado de espírito revolucionário. A tática deve ser construída tendo em conta serenamente, mas como estrita objetividade, todas as forças de classe do Estado de que se trate (e dos Estados que o rodeiam e de todos os Estados à escala mundial), e também tendo em conta a experiência dos movimentos revolucionários. Manifestar o seu “revolucionarismo” apenas com injúrias ao oportunismo parlamentar, apenas negando a participação nos parlamentos, é muito fácil, mas precisamente porque é demasiado fácil não é a solução de um problema difícil, dificílimo. Nos parlamentos europeus é muito mais difícil do que na Rússia criar uma fração parlamentar verdadeiramente revolucionária. Sem dúvida. Mas isto não é mais do que uma expressão parcial da verdade geral de que, na situação concreta e extraordinariamente original do ponto de vista histórico de 1917, foi fácil à Rússia começar a revolução socialista, mas continuá-la e levá-la a cabo será mais difícil à Rússia do que aos países europeus. Já em princípios de 1918 tive ocasião de indicar esta circunstância , e a experiência dos dois anos decorridos desde então confirmou inteiramente a justeza desta consideração. Condições específicas como: 1) a possibilidade de conjugar a revolução soviética como o fim, graças a ela, da guerra imperialista, que tinha extenuado incrivelmente os operários e os camponeses; 2) a possibilidade de utilizar durante um certo tempo a luta de morte em que estavam envolvidos os dois grupos de abutres imperialistas mais poderosos do mundo, grupos que não podiam unir-se contra o inimigo soviético; 3) a possibilidade de suportar uma guerra civil relativamente longa, em parte graças à extensão gigantesca do país e aos maus meios de comunicação; 4) a existência no campesinato de um movimento revolucionário democrático-burguês tão profundo que o partido do proletariado tomou as reivindicações revolucionárias do partido dos camponeses (do partido socialista-revolucionário, profundamente hostil, na sua maioria, ao bolchevismo) e as realizou imediatamente graças à conquista do poder político pelo proletariado – tais condições específicas não existem presentemente na Europa Ocidental, e a repetição destas condições ou doutras semelhantes não é nada fácil. Eis porque, diga-se de passagem – entre uma série de outras razões – é mais difícil para a Europa Ocidental do que para nós começar a revolução socialista. Tentar “eludir” esta dificuldade “saltando” por cima do difícil problema de utilizar os parlamentos reacionários para fins revolucionários é puro infantilismo. Quereis criar uma sociedade nova? e receais as dificuldades da criação de uma boa fração parlamentar de comunistas convictos, abnegados e heróicos num parlamento reacionário! Não é isto infantilismo? Se Karl Liebknecht na Alemanha e Z. Höglund na Suécia souberam, mesmo sem o apoio das massas a partir de baixo, dar um exemplo de utilização realmente revolucionária dos parlamentos reacionários para fins revolucionários, como é possível que um partido revolucionário de massas que cresce rapidamente não possa, numa situação de desilusão e de cólera das massas depois da guerra, forjar uma fração comunista nos piores parlamentarismo?! Precisamente porque as massas atrasadas de operários e – mais ainda – de pequenos comerciantes estão mais imbuídas na Europa Ocidental do que na Rússia de preconceitos democráticos-burgueses e parlamentares, precisamente por isso, só de dentro de instituições como os parlamentos burgueses podem (e devem) os comunistas travar uma luta prolongada e tenaz, sem retroceder perante nenhumas dificuldades, para por a nu, desvanecer e superar estes preconceitos.

Os “esquerdas” alemães queixam-se dos maus “chefes” do seu partido e caem no desespero, chegando ao ridículo de “negar” os “chefes”. Mas em circunstâncias que com freqüência obrigam a esconder os “chefes” na clandestinidade, a formação de “chefes” bons, seguros, experimentados e prestigiados é particularmente difícil e é impossível superar com êxito estas dificuldades sem a combinação do trabalho legal e ilegal sem que os chefes passem, entre outras provas, também pela arena parlamentar. A crítica – e a crítica mais áspera, implacável e intransigente – deve dirigir-se não contra o parlamentarismo ou a ação parlamentar, mas contra os chefes que não sabem – e mais ainda contra os que não querem – utilizar as eleições parlamentares e a tribuna parlamentar de uma maneira revolucionária, de uma maneira comunista. Só esta crítica – combinada naturalmente com a expulsão dos chefes incapazes e sua substituição por outros capazes – será um trabalho revolucionário proveitoso e fecundo, que educará simultaneamente tantos os “chefes”, para que estes sejam dignos da classe operária e das massas trabalhadoras, como as massas, para que aprendam a orientar-se corretamente na situação política e a compreender as tarefas, freqüentemente muito complexas e enredadas, que decorrem desta situação.**

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* Este texto corresponde ao Cap. VII do livro A Doença Infantil do “Esquerdismo” no Comunismo, de abril-maio de 1920. In: V. I. LENINE, Obras Escolhidas, vol. 3. Lisboa, Edições “Avante!”; Moscovo, Edições Progresso, 1979, pp. 304-311.
** Tive demasiado poucas possibilidades de conhecer o comunismo “de esquerda” na Itália. É indubitável que o camarada Bordiga e a sua fração de “comunistas boicotistas” (Communista astensionista) não tem razão ao defender a não participação no parlamento. Mas há um ponto em que, parece-me, ele tem razão, tanto quanto posso julgar por dois números do seu jornal Soviete ( Il Soviet, números 3 e 4, 18.I. e 1.II.1920), por quatro fascículos da excelente revista do camarada Serrati Comunismo (Communismo, números 1-4, 1.X-30.XI.1919) e por dois números soltos de jornais burgueses italianos que pude ver. Precisamente o camarada Bordiga e sua fração têm razão quando atacam Turati e os seus correligionários, que permanecem num partido que reconhece o Poder Soviético e a ditadura do proletariado, permanecem membros do parlamento e prosseguem a sua velha e perniciosíssima política oportunista. Naturalemnet, tolerando isto, Serrati e todo o Partido Socialista Italiano incorrem num erro que ameaça com tão profundo prejuízo e perigo como na Hungria, onde os senhores Turati húngaros sabotaram de dentro do tanto o partido como o Poder Soviético. Esta atitude errada, inconseqüente ou falha de caráter relativamente aos parlamentares oportunistas, por um Aldo, engendra o comunismo “de esquerda” e, por outro, justifica até certo ponto a sua existência. É evidente que o camarada Serrati não tem razão ao acusar de “inconseqüência” o deputado Turati (Communismo, nº 3), pois o inconseqüente é, precisamente, o Partido Socialista Italiano, que tolera oportunistas parlamentares como Turati e C ª. [Nota de Lenin]

Revista Espaço Acadêmico
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Balzac e os jornalistas

CARLOS HEITOR CONY

“O jornal é o jornal e o político é o seu profeta”, diz o autor de “A Comédia Humana”

DOIS TEXTOS de Balzac que poderiam ser considerados marginais, “Monografia da Imprensa Parisiense” e “Os Salões Literários”, seriam obras circunstanciais e menores de qualquer outro autor, não fosse esse autor o responsável pelo maior monumento literário da humanidade.
Produzidos nos meados do século 19, no tumulto da maior realização romanesca da literatura universal, os dois trabalhos bem que poderiam figurar como apêndice de “A Comédia Humana”. Diferem da colossal galeria de tipos e situações que criaram o primeiro e articulado estudo da sociedade humana. Mas revelam o mesmo sopro avassalador que fez de Balzac o autor único de um único gênero: o painel que pretendia ser apenas literário, mas foi considerado por Marx como obra além da literatura, criadora do embrião que geraria a moderna sociologia.
Temos aqui o Balzac puro, autêntico, anedótico quase. Não o artista de tantas obras-primas que marcaram a ficção do seu século, mas o homem sangüíneo e rude, esbanjando inteligência e cólera, personificando o panfletário que ele mesmo define; “O verdadeiro panfleto é obra do mais alto talento, se todavia não for o grito do gênio”.
O tema escolhido é a imprensa -da qual ele pinçou personagens e situações que persistem na mídia do início do século 21. Tal como em “A Comédia Humana”, que permanece como o estudo mais completo da sociedade de seu tempo, seu mergulho na imprensa parisiense do século 19 pode parecer obra de um genial mistificador contemporâneo que retrata a imprensa de hoje com o disfarce -permitido na literatura- de outro cenário a ser atribuído a outro autor.
“Nos jornais da situação, alguns redatores têm um futuro: tornam-se cônsules-gerais nas paragens mais distantes, são nomeados secretários de ministros, ou cumprem outras missões oficiais; enquanto que aqueles da oposição só têm como asilo as academias de ciências morais e políticas.”
“As coisas mais interessantes, os grandes e pequenos artigos, tudo se torna uma questão de paginação entre meia-noite e uma hora da manhã, a hora fatal dos jornais, hora na qual as notícias aparecidas no início da noite exigem destaque.”
“Com os anúncios tomando um quarto da edição, com as amenidades ocupando um quarto do que resta, os jornais não têm espaço.” “Se há um concorrente para o mesmo posto e alguém quer ser nomeado para ele, pode impedir a nomeação do rival fazendo badalar a sua por todos os jornais.”
“O jornal é o jornal e o político é o seu profeta. Ora, os profetas são profetas muito mais por aquilo que eles dizem do que por aquilo que eles disseram. Não há nada mais infalível do que um profeta mudo.”
“Todo crítico é um autor impotente. (…) A crítica se tornou uma espécie de alfândega para as idéias.” “O redator de amenidades vive nas folhas como um verme na seda. Se queixa como os sultões de ter prazer demais.” “Para o jornalista, tudo o que é provável é verdadeiro.”
Seria o caso de perguntar se algum ressentimento pessoal guiou a mão famosa que emergia daquele burel que ainda se pode ver no museu Balzac, em Paris.
É possível que, tal como Marcel Proust no início do século seguinte, Balzac tivesse suas queixas. Contudo, o próprio Proust, cuja genialidade deve ser comparada à sua, enquadra-se em alguns dos tipos esboçados meio século antes.
Se houve ressentimento, independentemente de seu grau e oportunidade, não vem ao caso. Para quem traçou com pinceladas igualmente vigorosas o imenso mural da sociedade, captando a unidade na variedade da condição humana, não importam as motivações que o levaram a ser tão cáustico.
Ele via o homem de um posto de observação privilegiado. Distribuía carapuças como o dono do galinheiro distribui milho às galinhas: enchendo a mão de grãos e jogando aqui e ali, que cada qual bicasse de acordo com a sua fome.
Sua meta não era moral. Transcendia ao interesse ético, religioso, político ou social. Era observador da comédia da qual também era personagem, testemunha e cúmplice. Daí um de seus axiomas: “Se a imprensa não existisse, seria preciso não inventá-la”.

Jornal Folha de S. Paulo- Folha Ilustrada
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Comuna de Paris

Bertold Brecht

“Resolução

Considerando nossa fraqueza os senhores forjaram

Suas leis, para nos escravizarem.

As leis não mais serão respeitadas

Considerando que não queremos mais ser escravos.

Considerando que os senhores nos ameaçam

Com fuzis e com canhões

Nós decidimos: de agora em diante

Temeremos mais a miséria do que a morte.

Considerando que ficaremos famintos

Se suportarmos que continuem nos roubando

Queremos deixar bem claro que são apenas vidraças

Que nos separam deste bom pão que nos falta.

Considerando que os senhores nos ameaçam

Com fuzis e canhões

Nós decidimos: de agora em diante

Temeremos mais a miséria que a morte.

Considerando que existem grandes mansões

Enquanto os senhores nos deixam sem teto

Nós decidimos: agora nelas nos instalaremos

Porque em nossos buracos não temos mais condições de ficar.

Considerando que os senhores nos ameaçam

Com fuzis e canhões

Nós decidimos: de agora em diante

Temeremos mais a miséria do que a morte.

Considerando que está sobrando carvão

Enquanto nós gelamos de frio por falta de carvão

Nós decidimos que vamos tomá-lo

Considerando que ele nos aquecerá

Considerando que os senhores nos ameaçam

Com fuzis e canhões

Nós decidimos: de agora em diante

Temeremos mais a miséria do que a morte.

Considerando que para os senhores não é possível

Nos pagarem um salário justo

Tomaremos nós mesmos as fábricas

Considerando que sem os senhores, tudo será melhor para nós.

Considerando que os senhores nos ameaçam

Com fuzis e canhões

Nós decidimos: de agora em diante

Temeremos mais a miséria que a morte.

Considerando que o que o governo nos promete sempre

Está muito longe de nos inspirar confiança

Nós decidimos tomar o poder

Para podermos levar uma vida melhor.

Considerando: vocês escutam os canhões

Outra linguagem não conseguem compreender -

Deveremos então, sim, isso valerá a pena

Apontar os canhões contra os senhores!

Revista Espaço Acadêmico
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Yuri Gagarin

Em 1961, um homem ficaria conhecido na história como o primeiro ser humano a viajar pelo espaço. Por ironia, depois de passar por esse teste ele iria morrer tragicamente em um acidente de avião. Seu nome é Yuri Gagarin.

Em 12 de abril de 1961, Yuri Gagarin seria o primeiro homem a viajar pelo espaço. Iria viver um sonho inspirado sessenta anos antes pelo cientista russo Constantin Tsiolkowsky, que no início do século XX já tinha arquitetado a base da astronáutica moderna. Durante a Segunda Guerra Mundial, a tecnologia se juntaria à teoria. Já em 1945, os conquistadores do espaço entravam nos céus perigosos.

É uma corrida entre as duas superpotências, os Estados Unidos e a União Soviética. Desde o início os soviéticos ficam na dianteira. Em 1957 lançam o primeiro satélite artificial, o famoso Sputnik.

Quatro anos depois lançam um novo foguete, o Vostok I, dessa vez com um homem a bordo.

Primeiro foram insetos, depois ratos, depois um cachorro. Dessa vez é um homem. Yuri Gagarin viu o planeta Terra do espaço.

Sua viagem espacial dura apenas uma hora e meia, o suficiente para fazer uma volta em torno do globo. O suficiente para Gagarin ser recebido em triunfo. Em Moscou, a multidão fica tão entusiasmada como ficou no final da Segunda Guerra Mundial. De certa forma, Gagarin seria tão importante como Cristovão Colombo.

Seu vôo abre portas para uma nova fronteira e dá ao seu país um inegável avanço em relação aos Estados Unidos. Nesse período da Guerra Fria, a conquista do espaço simboliza uma importante vitória.

Aos 27 anos, Gagarin é um herói. Mas ele não sobrevive para explorar a porta que abriu. Em 1968, um ano antes do americano Neil Armstrong chegar à Lua, ele morre num acidente de avião.

Depois da vitória de Gagarin, os Estados Unidos fazem explorações com as missões Apolo, em cinco viagens à Lua entre 1969 e 1972.

As duas superpotências alternam-se na liderança do mundo sem gravidade, a um custo de centenas de milhões de dólares.

Gagarin esperava que seu país mantivesse a liderança na conquista espacial, mas mesmo assim entusiasmou-se com o sucesso dos americanos. A seu ver, havia bastante lugar no espaço para todos.

Alô Escola TV Cultura
http://www.tvcultura.com.br/aloescola/index.asp

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A confusão das famílias que iriam acolher os “órfãos”

Yves Eudes

Um pavilhão de pedra de rebolo cercado por um pequeno jardim, numa rua tranqüila de Pontault-Combault, a 25 quilômetros de Paris: é ali que poderia ter morado Abdel, 6 anos e meio, 1,12 m, um “órfão de Darfur” - se fossem verdadeiras as informações enviadas no último momento pela Arca de Zoé para a família Rieutord, candidata para acolher uma das crianças que haviam sido reunidas no Chade.

Jean, um consultor em formação profissional, a sua mulher Claire, uma professora de curso primário, e os seus três filhos, Pauline, 17 anos, Juliette, 13 anos, e Louis, 9 anos, haviam cuidado de todos os preparativos. Louis e o menino que estava por chegar iriam compartilhar o grande quarto no primeiro andar, enquanto os pais se contentariam com um cômodo de menor tamanho: “Nós pensávamos que seria difícil”, recorda-se Claire, “que esta criança enfrentaria problemas, mas nós nos sentíamos capazes de torná-lo feliz”. Para Jean, “aquela era uma ocasião única para escapar do comportamento banal do ocidental médio que se contenta em remeter um pouco de dinheiro a uma ONG. Nós poderíamos agir para valer”.

O casal havia imaginado todos os cenários possíveis: “Nós havíamos combinado que se um dia a paz fosse restaurada no Sudão e caso membros da sua família pedissem por ele, ele retornaria para lá. O nosso coração sangraria, mas nós acabaríamos nos conformando”. Mas, se a guerra se prolongasse, eles poderiam tomar as providências administrativas para que ele possa obter a nacionalidade francesa, e, por que não, para adotá-lo: “No pior dos casos, se os serviços sociais não nos julgassem aptos para ficar com ele, ainda assim ele estaria em melhor situação na França, numa outra família, do que num país em guerra”.

Para a família Rieutord, a aventura começa em maio. Após terem ouvido falar da Arca de Zoé no rádio, as crianças acessam o site na Internet da associação para obter maiores informações. Elas descobrem um projeto generoso e excitante: encontrar órfãos abandonados em Darfur, prometidos a uma morta certa, e transportá-los para a França, onde eles estariam em segurança. A família toma a sua decisão em dois dias. Claire telefona para Eric Breteau, o diretor da Arca de Zoé, que a convida para uma reunião.

No decorrer dos contatos, a família Rieutord é seduzida por Eric Breteau: “É um homem grande e atarracado”, explica Pauline, a filha primogênita; “ele tem desenvoltura, fala bem. Ele também sabe ouvir os outros. Ele não é nem um pouco um iluminado”. Jean mostra-se sensível à força que emana do casal formado por Eric Breteau e sua amiga Emilie Lelouch: “Eric e Emilie, lado a lado, ele tão forte, ela tão bonita, e ambos tão audaciosos, aquilo revestia uma dimensão romanesca, muito atraente”. Então a Arca de Zoé entrega para a família uma “carta” de intenções: nela, a associação se compromete a não violar nenhuma lei e a nunca colocar as crianças em situação de perigo. Jean começa a estudar o “Guia prático do pedido de asilo”.

Em setembro, Eric Breteau retorna de uma viagem ao Darfur. Ele organiza uma reunião em Valence (Drôme) e anuncia às famílias que a operação está entrando na sua fase concreta. A família Rieutord está encantada: “Havia cerca de 600 pessoas na sala. Nós estávamos sentados ao lado de universitários, de um funcionário que trabalha no Senado, só gente séria. Havia uma dinâmica de grupo, tudo parecia possível”.

Eric Breteau avisa as famílias de que esta operação “atípica” será provavelmente criticada pelas outras ONGs e por uma parte da opinião, e que, de agora em diante, é preciso discrição. Mas ele dá também declarações ambíguas que deixam entrever uma possível face oculta da operação: “Num tom de brincadeira, ele disse que uma pessoa que gozava de fácil acesso no Elysée (sede da presidência da República) se encontrava na sala”.

Alguns pais de família começam a construir uma teoria tranqüilizadora: o governo francês daria o seu apoio ao projeto por baixo dos panos, mas não poderia confirmar isso em declarações oficiais, por razões diplomáticas. Em retrospecto, Jean se diz espantado com a sua própria ingenuidade: “Nós imaginávamos que (o presidente) Sarkozy queria, de um lado, conduzir uma política dura em matéria de imigração, mas que, por outro lado, ele estava com vontade de mostrar o seu coração generoso por ocasião de uma operação excepcional”. Esta crença é reforçada pela passividade do poder público. Na sua qualidade de boa funcionária pública, Claire está convencida de que, se o Estado se opusesse à operação, ele contataria as famílias para avisá-las do perigo da empreitada: “Ora, não aconteceu nada. Eu escrevi para o meu inspetor de academia, para pedir-lhe uma licença excepcional, explicando-lhe claramente a operação. Eu recebi uma resposta favorável”.

Jean insiste nesta direção: “Se eu tivesse recebido a visita de algum oficial, ou recebido alguma carta de advertência, eu teria acabado com tudo imediatamente”. Ele sublinha também as ambigüidades dos homens políticos: “Quando Kouchner (Bernard Kouchner, o ministro das relações exteriores) proclamou que era preciso implantar corredores humanitários em Darfur, tomei as suas declarações como um incentivo”.

A Arca de Zoé incentiva as famílias a fundarem a sua própria associação, que será encarregada de reunir o dinheiro necessário. A família Rieutord paga inicialmente 1.400 euros (cerca de R$ 3.560), e recebe então um pedido adicional de 800 euros (cerca deR$ 2.035). Jean, então, paga essas quantias sem questionar nem reclamar: “Os nossos parentes nos ajudaram. Todos os nossos amigos nos aprovavam. Bem… Quase todos”.

Surge, contudo, uma voz discordante. Etienne Pouchelet, 30 anos, um amigo de Pauline, desconfia desta aventura: “A priori, eu deveria ter me mostrado favorável, por ser, eu mesmo, uma criança adotada. Eu nasci no Líbano e fui acolhido ainda muito pequeno por uma família francesa. E, ainda assim, eu estava com um pé atrás, e continuava achando este caso rocambolesco, incompreensível. Aquele Breteau me parecia esquisito; o estilo comando militar da equipe me incomodava. O seu site na Internet era excessivo, e me parecia ser muito agressivo contra as outras ONGs, que eram acusadas de ser nulas ou cúmplices. Aquilo era pouco saudável”.

Jean reconhece agora que, de vez em quando, ele era tomado por dúvidas. Um dia, ele perguntou a Eric Breteau como este pretendia fazer decolar um avião lotado de crianças, caso ele não tivesse obtido as autorizações necessárias: “Ele me respondeu que si uma tal empreitada ainda nunca havia sido realizada, é porque ninguém ainda tivera a vontade de fazer algo assim. É isso”.

Preocupado, Etienne decide conduzir o seu próprio inquérito: “No site do ministério das relações exteriores, a Arca de Zoé não estava nem oficialmente aprovada, nem mesmo citada”. Ele tenta então dissuadir a família Rieutord: “Eu tive uma briga com Pauline por causa disso. Um dia, ela chorou por causa de tudo isso. Ela acreditava plenamente neste projeto, ela estava melindrada com as minhas críticas. Depois disso, achamos por bem evitar o assunto, por temer que a discussão pudesse degenerar”.

Em 24 de outubro, quando os Rieutord recebem uma ligação anunciando-lhes que eles foram selecionados para ser uma das famílias que iriam acolher uma criança de Darfur e que o avião iria chegar no dia seguinte, a felicidade por salvar a vida de uma criança expulsa para longe todas as dúvidas. Jean liga para a sua empresa e avisa que ele vai ficar de licença durante uma semana. Para Claire, o evento vem a calhar, pois as férias escolares já começaram. Até mesmo Etienne se mostra solidário. Ele acompanha a família Rieutord até o aeroporto e, junto com eles, passa a noite no local, aguardando. Em vão.

Nos dias que se seguem, diante da avalanche de revelações catastróficas sobre a realidade da operação, os Rieutord se mostram a princípio incrédulos. Hoje, eles se dizem arrasados e não conseguem mais elaborar uma opinião: “Nós fomos enganados”, lamenta Jean, mas Claire o corrige: “Não, nós enganamos a nós mesmos”.

Apesar de tudo, no domingo (4/11), o casal Rieutord compareceu na Praça da Bastilha, em Paris, para participar da marcha de solidariedade organizada pelas famílias dos franceses da Arca de Zoé detidos no Chade.

Jornal Le Monde
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O PMDB e o fisiologismo político

Dejalma Cremonese

A máxima política que diz “se hay gobierno soy contra” pode ser facilmente invertida na ótica peemedebista para “se hay gobierno soy a favor”, tal a vocação governista (fisiológica) e adesista do partido.

Provindo do antigo MDB (Movimento Democrático Brasileiro), partido de oposição durante a ditadura militar (1964-1985), o PMDB é, nos nossos dias, o maior partido brasileiro. Possui 93 deputados federais – a maior bancada no Congresso Nacional, administra o maior número de estados, no total de 7 governadores (SC, PR, MS, RJ, ES, TO, AM) e 5 vice-governadores. É a primeira força no Senado Federal com 20 senadores. Possui 170 deputados estaduais, administra 4 prefeituras de capitais, além de 1.071 prefeituras por todo o Brasil (em torno de 20%), mais de 900 vice-prefeituras, 8.308 vereadores eleitos e conta com um milhão e oitocentos mil filiados, aproximadamente.

No espectro político, o PMDB se situa no campo ideológico de centro, ou seja, procura manter o status quo (situação vigente), fazendo “reformas” para deixar as coisas como estão. Muitas são as facetas do partido: quando falamos do PMDB do Simon ou do Rigotto (Sul), do Quércia, Garotinho e Cabral (Sudeste), ou do Sarney, Temer e Calheiros (Norte e Nordeste), estamos falando de diferentes peemedebês. No entanto, as decisões tendem a ser unânimes quando estão em jogo os interesses do partido. Um exemplo de fisiologismo explícito foi o caso do voto dos senadores peemedebistas contra a MP que criava a Secretaria de Longo Prazo (SALOPRAZ). O que se pleiteava, no caso, era um maior espaço no governo Lula.

O fisiologismo não é uma particularidade apenas do PMDB; no entanto, é o partido em que mais transparece essa característica por buscar, de qualquer forma, a manutenção do poder, independente de quem esteja no poder. Assim, segundo o Dicionário Houaiss, entende-se o termo “fisiologismo” como a conduta ou prática de certos representantes e servidores públicos que visa à satisfação de interesses ou vantagens pessoais ou partidários, em detrimento do bem comum. Ou seja, o fisiologismo está muito próximo do clientelismo político que é um tipo de relação de poder em que as ações políticas e decisões são tomadas em troca de favores, favorecimentos e outros benefícios a interesses individuais.

Fisiologista ou não, o certo é que nenhum partido que chegue ao poder hoje, no Brasil, pode prescindir da participação do PMDB. Aliás, o partido está ali para isso mesmo. A vocação governista do PMDB vem de longa data. Desde a abertura democrática em 1985, com Sarney, bem como na expressiva vitória do partido em 1987, elegendo 21 governadores em todo o Brasil. O PMDB esteve no poder com Itamar Franco (que começou sua carreira política no antigo MDB, embora tivesse passado pelo PL e ingressado, mais tarde, no PRN, para ser vice de Collor de Mello em 1989), assumiu a presidência após o impeachment de Collor. Em seguida, o PMDB apoiou incondicionalmente o governo de FHC (nos dois mandatos) e, agora, ocupa um espaço privilegiado no governo Lula, tendo a administração de 4 ministérios: Nelson Jobim (RS), no Ministério da Defesa, Reinhold Stephanes (PR), no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Hélio Costa (MG), no Ministério das Comunicações, José Gomes Temporão (RJ), no Ministério da Saúde e, até bem pouco tempo atrás, o ministério de Minas e Energia era ocupado por Silas Rondeau Cavalcanti (que pediu demissão por ter seu nome envolvido na “Operação Navalha”). O PMDB luta por ter novamente este ministério.

Seguindo nesta mesma lógica, é bem provável que, em 2010, o PMDB nem venha a lançar candidato à presidência da República, ficará na cômoda posição de apoiar o novo presidente eleito. Claro, para isso, pleiteará os cargos que achar necessários para continuar onde sempre esteve, no poder.

Correio da Cidadania
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Desafios da tecnologia

Laptops, internet e telefones celulares oferecem possibilidades há poucos anos inexistentes, tornam o trabalho mais rápido e, em muitos casos, mais fácil. Mas também apresentam desafios para o psiquismo.

Annette Schäfer

Quem tem menos de 30 anos mal consegue imaginar um tempo sem computador, internet ou celular. E não é raro que se questione como há poucas décadas inúmeras atividades eram desempenhadas sem o auxílio da tecnologia disponível atualmente. Pesquisas escolares, por exemplo, eram muito mais demoradas e trabalhosas, já que não havia a enorme quantidade de informações disponíveis hoje na rede. No tempo do papel e da máquina de escrever qualquer equívoco, que já pode ser apagado com o simples toque numa tecla, significava rasuras e exigia o uso dos corretores líquidos - o que, invariavelmente, comprometia a apresentação do trabalho.

Mais que facilitar a elaboração de textos, atualmente é possível controlar estoques, movimentação comercial e, em poucos segundos, rastrear bancos de dados on-line, sites e armazenar uma infinidade de dados em sistemas que, se estivessem no papel, certamente ocupariam inúmeras salas. Se antes um jornalista levava vários dias para encontrar os mais conceituados especialistas em determinada área para uma entrevista, hoje uma breve pesquisa virtual oferece dicas bastante úteis de como fazer contato.

Na Alemanha, uma pesquisa rea-lizada com 34 mil trabalhadores pelo Instituto de Pesquisas Profissionais e de Mercado, em 1999, mostrou que 62% dos assalariados daquele país - o que equivale a mais de 20 milhões de pessoas - faziam uso pelo menos eventual de máquinas ou equipamentos informatizados em sua atividade profissional. Dentre eles, mais de 11 milhões, inseridos nas mais diversas funções, eram categóricos: acreditavam não ter nenhuma condição de trabalhar sem computadores.

É indiscutível que de diversas maneiras a “colega” tecnologia tornou o trabalho bem mais rápido - e, em alguns casos, bastante flexível. Mas tanto para a psique humana quanto para as organizações essa nova realidade representa um enorme desafio. Afinal, as aquisições de qualquer ordem têm um preço. Nesse caso, podemos citar os inconvenientes da torrente de informações que chega até nós quase em tempo integral, o isolamento social e a confusão entre vida privada e trabalho. “Os desafios impostos à competência técnica de profissionais tiveram um aumento estratosférico nos últimos anos; tecnologias disponíveis tornam-se cada vez mais variadas, complexas e interligadas. E espera-se que profissionais aprendam rapidamente a lidar com essa nova realidade”, comenta o professor de sociologia da tecnologia e da indústria Günter Voss, da Universidade de Chemnitz.

DO DESERTO À SELVA
Segundo Voss, há alguns anos, havia um grande problema comum às mais variadas áreas: reunir dados sobre qualquer assunto. Atualmente, a escassez foi substituída por um asfixiante excesso de ofertas - uma verdadeira selva de informações. Em muitas caixas de e-mail acumulam-se dezenas ou mesmo centenas de mensagens. Ante esse excesso, são postas à prova diariamente as capacidades de seleção e avaliação de qualquer pessoa que trabalhe conectada à rede internacional. O questionamento é inevitável: a que comunicado dou atenção e qual mensagem ignoro? Como posso deixar de receber informações e notícias que não me interessam? O que convém passar adiante? Ao fim de algum tempo, uma conclusão parece inevitável: é impossível absorver todas as que chegam até nós. E, para algumas pessoas, deparar com essa limitação deflagra a sensação (ainda que equivocada) de incapacidade ou ineficiência. É como se sempre estivéssemos em débito com a tecnologia.

QUEDA NA PRODUTIVIDADE
Fazer um PC voltar de alguma pane ou decifrar um programa de texto coalhado de erros criptográficos são desafios do trabalho cotidiano que nossos avós nem imaginavam que alguém pudesse enfrentar. Dados empíricos indicam que funcionários de empresas são obrigados a destinar cerca de um décimo da jornada diária para lidar com esse tipo de adversidade. Além dos custos desse conflito entre homem e máquina para os empresários, há outro inconveniente: o intenso stress vivido pelos profissionais.

O coordenador de psicologia organizacional e do trabalho Dieter Zapf, da Universidade Johann Wolfgang Goethe, em Frankfurt, pesquisou minuciosamente a relação entre panes de computador e stress. Seus estudos mostram que a ocorrência freqüente desse tipo de problema afeta a qualidade de vida do trabalhador e, indiretamente, contribui para a apatia, a falta de iniciativa, o desinteresse pela atividade profissional e a queda na produtividade.

Como a correção das falhas costuma levar algum tempo, durante esse período a atenção do profissional se volta para o equipamento, e o trabalho propriamente dito fica em segundo plano. Tentando solucionar o problema, os mais ousados correm o risco de acionar algum dispositivo errado sem saber como voltar à posição anterior e, num piscar de olhos, se ver encalhados nos bancos de areia do mundo digital. “Os erros acontecem em cascata. Uma vez que o usuário sai do ambiente do programa com o qual está habituado, acumulam-se erros sobre erros, porque a pessoa é superexigida pela situação”, diz Zapf.

Em geral, só quando o usuário não consegue continuar sozinho é que pede ajuda a um colega ou algum técnico do departamento de informática. Além do tempo que todo esse processo consome, dependendo das características da pessoa e do grau de auto-exigência, há outro agravante: o fato de o funcionário ter de buscar ajuda externa por não conseguir lidar com um problema por si só tende a aumentar seu nível de stress.

Os “mistérios” da máquina também podem acarretar desconfortos psicológicos causados por fantasias irracionais. A alta complexidade e impenetrabilidade dos microcomputadores suscitam em muitos usuários representações mágicas sobre o seu funcionamento, o que pode despertar medos e inseguranças. O tema motivou um estudo do Instituto de Psicologia e Pesquisa Social da Universidade de Bremen. Um grupo coordenado pelo professor Thomas Leithäuser acompanhou durante alguns anos a informatização da administração municipal de Bremen. Ele observou que sobretudo as pessoas inexperientes aventavam com freqüência a possibilidade de apertar uma tecla errada e fazer cair o sistema ou causar a perda de todos os dados. E, mesmo após anos de uso, muitos mantêm associações que revelam insegurança - por exemplo, a imagem do interior de um PC como um labirinto de fios entrelaçados, no qual a pessoa poderia facilmente se perder.

MAIS ANSIEDADE?
Mesmo a auto-estima muitas vezes sucumbe no trabalho com a “colega” tecnologia. Segundo Leithäuser, as dúvidas a respeito do que de fato acontece dentro de um computador podem causar reações de alienação. E, não raro, a impressão de completa incapacidade para lidar com tecnologia acomete até os mais capazes. Embora com menos freqüência, o computador também proporciona momentos de poder e triunfo - quando a instalação de um novo software funciona de primeira ou o trabalho em rede segue sem nenhum percalço, por exemplo.

Segundo a Sociedade Brasileira de Teletrabalho e Teleatividades (Sobratt), cerca de 4,5 milhões de brasileiros trabalham em casa. E, por ano, esse número aumenta em torno de 20%. Entre essas pessoas estão prestadores de serviço, empreendedores e até funcionários contratados. Para reduzir custos, cada vez mais empresas preferem que, dependendo da atividade que exercem, os funcionários trabalhem parte do tempo em casa. Entusiasmados com a tranqüilidade que isso pode trazer ou na intenção de conciliar melhor a vida familiar e a profissional, muitos aplaudem a idéia.

Trabalhar amparado na tecnologia - mas não atrelado a um espaço físico específico - significa para muitos a possibilidade de rotina mais flexível. Para pesquisadores como o sociólogo Frank Kleemann, da Universidade Técnica de Chemnitz Kleemann, porém, esse modelo não significa, necessariamente, melhor qualidade de vida. Pelo contrário: em alguns casos pode implicar uma série de problemas como isolamento, dificuldade de se organizar e sobrecarga de atividades. Afinal, quando o escritório fica a poucos passos da sala de jantar ou do quarto pode ser difícil para alguns encerrar o expediente e evitar fazer “horas extras” em horários em que, em outras circunstâncias, estariam longe da empresa.

Não raro, a nítida separação entre vida profissional e privada desaparece. Além disso, com o trabalho muitas vezes um elemento estranho adentra o refúgio familiar. Crianças pequenas podem ter dificuldade em compreender que o pai ou a mãe estão em casa, mas não disponíveis. “O trabalho a distância traz consigo uma crescente \\’empresarização\\’ no modo de conduzir a vida. A lógica da vida profissional, do procedimento e do planejamento auferidos pelo alcance de objetivos é transferida para a esfera privada”, segundo Kleemann.

Para ele, o trabalho a distância é um dos grandes responsáveis pela pouca interação entre colegas, o que dificulta a troca de conhecimentos - até porque as pessoas esperam ter um motivo concreto para fazer uma ligação telefônica ou escrever um e-mail. Com isso, fica limitado o intercâmbio de informações muitas vezes necessárias e o comportamento competitivo aumenta.

Um estudo desenvolvido pela psicóloga social e organizacional Renate Schmook, professora da Universidade de Halle, indica que pessoas que não têm um ambiente profissional específico tendem a se sentir mais inseguras: falta-lhes o feedback imediato, não podem se orientar pelos colegas e a execução de suas tarefas parece apartada do conjunto, o que a longo prazo desperta sensação de não pertencimento ao grupo - enfatizando sentimentos de rejeição e ansiedade.

Estudos desenvolvidos pelo psicólogo organizacional Jürgen Wegge, da Universidade de Dortmund, apóiam o que outras pesquisas, realizadas em várias partes do mundo, têm indicado: a cooperação intensiva entre colegas tende a aumentar o grau de satisfação das pessoas com o próprio trabalho. Isso, porém, não vale para atividades em que o computador desempenha papel central. Segundo Wegge, o funcionário que se encarrega do abastecimento de dados de outros ou precisa de relatórios eletrônicos sobre suas atividades vivencia com freqüência irritações, raiva e angústias, o que costuma provocar dores de cabeça e na nuca, além de mal-estar generalizado. O quadro se torna mais agudo quando a função é desempenhada de maneira solitária.

O correio eletrônico também contribuiu para mudar muito a vida profissional nos últimos tempos. As vantagens da correspondência eletrônica estão ao alcance da mão: escrever um e-mail é simples, ele chega rápido ao destinatário e pode ser feito de qualquer PC que estiver conectado. A pessoa que escreve pode formular de maneira precisa o que pretende dizer, sem ter de se prender a formalismos, como no tempo das cartas. Diferentemente dos telefonemas, quem recebe a mensagem não é importunado e pode responder a seu tempo, do modo que lhe convier.

Mas também causam problemas inesperados. Os comunicados eletrônicos têm um efeito desinibidor, são escritos em tom descontraído, o discurso é articulado de maneira menos formal e as emoções, externalizadas. Os erros de escrita acabam aparecendo mais. Outros estudos mostram que informações negativas (como anúncios de medidas impopulares numa empresa, motivadas por maus resultados) são comunicadas de maneira mais direta e menos cuidadosa que em conversas pessoais.

SEM ENTONAÇÃO
O volume de informações que chega aos computadores pessoais é muito maior do que nossa capacidade de absorvê-las. Além disso, os e-mails profissionais podem ser lidos a qualquer momento quando os espaços pessoal e de trabalho estão pouco delimitados - e aí o risco de invasões de privacidade e conflitos aumenta.

Outra característica do correio digital é que, por suas próprias características, faltam a esse tipo de mídia as pequenas indicações não-verbais que facilitam o entendimento. Nas conversas face a face, a mímica e a linguagem corporal, bem como o modo de vestir, a escolha do local de encontro ou o estado de organização de um escritório são informações preciosas sobre a pessoa com quem se trata. Mesmo em um telefonema, sinais como entonação e intensidade da voz, ênfases e pausas no discurso sinalizam procedimentos. Nos e-mails estão simplesmente as palavras nuas e cruas na tela, à disposição. E facilmente suscitam mal-entendidos. “Por que um colega de repente usa o neutro \\’olá\\’, se até há pouco iniciava os e-mails com a palavra \\’caro\\’?” “As palavras digitadas pelo chefe significam que ele está bravo comigo?” “Por que o parceiro de negócios já há dois dias não me responde?” Essas perguntas podem abrir a porta para interpretações errôneas e irritações.

“Incertezas e dubiedades relacionadas a e-mails induzem a pessoa que escreve a projetar no receptor suas expectativas, desejos e receios”, diz o psicólogo americano John Suler, que pesquisa os aspectos psicológicos do relacionamento virtual na Universidade Rider, Nova Jersey. Segundo ele, quem espera que um chefe desaprove seu projeto toma os e-mails que recebe dele como mais críticos do que de fato são. Nesses casos, o funcionário não ouve a mensagem do outro - mas as vozes em sua própria cabeça. E, assim, corre-se o risco de que a tecnologia, que deveria tornar a vida mais confortável, se transforme em mais um problema a ser resolvido.

De papo com a máquina
De modo geral, o ser humano tem grande capacidade de se adaptar às novas tecnologias. O intercâmbio eletrônico de pensamentos por e-mail, por exemplo, desenvolveu um tipo de comunicação exigente e expressiva, assumindo uma forma de escrita própria, entre a linguagem oral e a escrita. Especialistas em estilo chegaram até a cunhar uma nova classificação: o text talk - a fala pelo texto.

Essa capacidade de adaptação se revela também no embate com um aparelho eletrônico em pane, principalmente computadores. Pesquisadores liderados por Holger Luczak, do Instituto de Ciência do Trabalho da Escola Superior Técnica de Aachen, realizaram em 2003 um levantamento detalhado com 100 pessoas e constataram que quando há algum problema a grande maioria dos usuários começa a “conversar” com suas máquinas.

Como se o problema estivesse relacionado a um ser vivo e inteligente, o micro é questionado, xingado ou estimulado. Alguns chegam a pedir que ele “por favor” funcione. “Essa personificação de um aparato tecnológico serve como estratégia psicológica eficaz para diminuir o stress”, ressalta Luczak. E nessas ocasiões nem costuma haver preocupação com o discreto olhar de reprovação e outras reações negativas das pessoas à sua volta: segundo o estudo dos pesquisadores de Aachen, as conversas com a máquina são vistas como um comportamento perfeitamente aceitável.

Revista Mente e Cérebro
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O oportunismo aborteiro de Sérgio Cabral

O governador que fez vasectomia sugere aborto para desativar a “fábrica” de marginais da favela

ELIO GASPARI

QUANDO O GOVERNADOR Sérgio Cabral usou o trabalho do economista Steven Levitt (”Freakonomics”) para defender o aborto como política de segurança pública, dizendo que a favela da Rocinha “é uma fábrica de produzir marginal”, juntou, num só “bonde”, oportunismo, impostura e ignorância.
Cabral é oportunista porque, em setembro de 1996, quando era candidato a prefeito do Rio, descascou seu adversário, Luiz Paulo Conde, por defender o aborto. Nas suas palavras: “Conde foi leviano. O que o Rio precisa é melhorar o atendimento na saúde”. Continua oportunista ao tentar reescrever o que disse ao repórter Aluizio Freire, do portal G1, onde sua entrevista está conservada na íntegra.
Cabral praticou uma impostura quando embaralhou uma questão de direito -a decisão da Corte Suprema que, em 1973, legalizou o aborto nos Estados Unidos-, com as estatísticas do crime nos anos 90. A Corte decidiu uma dúvida constitucional: o direito da mulher de interromper a gravidez. Esse é o verdadeiro e único debate do aborto. Nada a ver com o propósito de fechar (ou abrir) “fábrica de produzir marginal”. Levitt, por sua vez, indicou que o aborto foi responsável por até 50% da queda na criminalidade americana. Em momento algum apresentou-o como alternativa de controle da natalidade.
Pelo contrário, qualificou-o como “um tipo de seguro rudimentar e drástico”. Cabral submeteu-se a uma vasectomia e não terá mais filhos (teve cinco).
Tanto Levitt como a Corte Suprema não atravessaram a linha que o doutor transpôs, vendo no aborto uma modalidade de política pública capaz de produzir segurança. Uma coisa é dizer que houve uma relação de causa e efeito entre a liberação do aborto e a queda da criminalidade. Bem outra é associar o aborto às políticas de segurança pública.
A teoria de Cabral sustentou-se na ignorância. Ele disse que a Rocinha tem taxas de fertilidade africanas. Besteira, elas equivalem à metade.
Em 2000, o número médio de filhos nas favelas cariocas (2,6) era superior ao dos outros bairros do Rio (1,7), mas ficava próximo da estatística nacional (2,1). Quem acha que o problema da segurança está na barriga das faveladas, deve pensar em mudar de planeta. A taxa dos morros do Rio é a mesma do mundo.
Nos anos 70, muitos sábios sustentavam que o Brasil precisava baixar sua taxa de fertilidade (5,8) para distribuir melhor a riqueza. Passou-se uma geração, a fertilidade caiu a um terço (1,9) e o índice de Gini, que mede as desigualdades de renda, passou de 0,56 para 0,57, chegando ao padrão paraguaio. Nasceram menos brasileiros, mas não se reduziu o fosso social.
A tropa de elite pode acreditar que se aprimora a segurança pública com o capitão Nascimento cuidando dos morros e o governador Cabral dos ventres. As contas de Levitt são honestas, suas conclusões são rigorosas e “Freakonomics” é um ótimo livro. Aplicando-se a outros números de Pindorama o mesmo tipo de tortura cerebrina a que Cabral submeteu as conclusões do economista americano, seria possível dizer que a queda de 67% na taxa de fertilidade nacional provocou um aumento de 300% nos homicídios no Rio de Janeiro.

Jornal Folha de S. Paulo
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