Arquivo de 17 de Novembro de 2007

O Operário em Construção

Vinicius de Moraes

“E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo: — Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu. E Jesus, respondendo, disse-lhe: — Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.”

(Lucas, Cap. V, versículos 5-8)

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia…
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
— Garrafa, prato, facão —
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão.
Pois além do que sabia
— Exercer a profissão —
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.
E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação.
— “Convençam-no” do contrário — Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!
Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
— Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.
Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro de seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

— Loucura! — Gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
— Mentira! — disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Como o medo em solidão
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

Revista Espaço Acadêmico
http://www.espacoacademico.com.br/

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Blog Controvérsia: 60 mil visitas num mês

Completamos neste dia 17 de novembro o 16° mês de vida do Blog Controvérsia.

Há muito o que comemorar nesta data, senão vejamos:

a) Dentre as matérias publicadas neste período pelo Blog ao escolhermos um título aleatoriamente (faça um teste) e dermos uma busca no Google ela aparecerá entre as cinco primeiras posições e, em boa parte das vezes, até mesmo em primeiro lugar. Mesmo sites populares na internet, de onde extraímos a matéria, ocorre do Blog Controvérsia estar na frente, como foi o caso da Folha On Line, revista Superinteressante, revista Scientific American Brasil, Le Monde Diplomatique, dentre outros.

b) Ao colocarmos o Blog no ar (17 de julho de 2006) o site ALEXA, que mede a posição de uma página no mundo de acordo com as visitas que recebe, apontava o Blog em 3.5 milhões. Nossa posição, hoje, é a de número 1.008.142. Faça você mesmo a consulta: Clique aqui.

c) De julho deste ano até novembro, duplicamos a frequência das visitas: de 30 mil diárias para 60 mil.

d) Por fim nosso contador registrou a marca de 60 mil visitas num único mês. Isto representa cerca de 2 mil por dia, em média. Nosso recorde anterior foi de 50 mil visitas no mês passado.

Vamos em frente procurando melhorar a qualidade do Blog cada vez mais. Para tanto contamos, a partir de 17 de outubro, com a valorosa contribuíção da Maira que, além de minha afilhada, é uma adolescente apaixonada pelo Egito, estudiosa e muito inteligente, e está colaborando na postagem dos materiais, permitindo com que eu me dedique mais à seleção dos textos.

Obrigado Maira.

Obrigado aos controversos pelos cliques, sugestões, contribuições e críticas.

Acompanhe a movimentação mês a mês (desde 17 de julho de 2006, quando o Blog foi lançado).

01° mês (17/07 a 17/08): 3 mil visitas (0 a 3.000)
02° mês (17/08 a 17/09): 3 mil e 500 visitas (3.000 a 6.500)
03° mês (17/09 a 17/10): 5 mil visitas (6.500 a 11.500)
04° mês (17/10 a 17/11): 5 mil e 800 visitas (11.500 a 17.300)
05° mês (17/11 a 17/12): 7 mil e 900 visitas (17.300 a 25.200)
06° mês (17/12 a 17/01): 10 mil visitas (25.200 a 35.200)
07º mês (17/01 a 17/02): 13 mil e 800 visitas (35.200 a 49.000)
08° mês (17/02 a 17/03): 13 mil e 100 visitas (49.000 a 62.100)
09° mês (17/03 a 17/04): 19 mil e 700 visitas (62.100 a 81.800)
10° mês (17/04 a 17/05): 26 mil e 200 visitas (81.800 a 108.000)
11° mês (17/05 a 17/06): 31 mil visitas (108.000 a 139.000)
12º mês (17/06 a 17/07): 41 mil visitas (139.000 a 180.000)
13º mês (17/07 a 17/08): 31 mil visitas (180.000 a 211.000)
14º mês (17/08 a 17/09): 39 mil visitas (211.000 a 250.000)
15° mês (17/09 a 17/10): 50 mil visitas (250.000 a 300.000)
16º mês (17/10 a 17/11): 60 mil visitas (300.000 a 360.000)

Obrigado. Ricardo Alvarez

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Criminalização da pobreza

Léo Lince

Em matéria de Sérgio Cabral, eu prefiro o original. O pai do governador, que na juventude foi boxeador no subúrbio de Quintino, sabe que a favela não é fábrica de marginais. Pelo contrário, doutor em samba e freqüentador de rodas de bamba, ele deve partilhar a opinião de Zé Kéti: “o morro não tem vez e o que ele fez já foi demais, mas quando derem vez ao morro toda cidade vai cantar”.

O governador, tudo indica, não saiu ao pai. E, como diz o avesso do ditado popular, quem não sai aos seus, degenera. É o que se deduz das palavras terríveis saídas de sua boca, preconceituosas e reveladoras de uma escolha política assustadora. Se o rapaz não fosse governador, o problema seria apenas dele. No entanto, como ele é o titular da principal alavanca do poder político em nossa infeliz província, tal disposição de ânimo é um risco para todos nós.

O governador Cabral Filho, por certo, não é um idiota. Ele sabe o que está fazendo. Cita números errados, lê as estatísticas que lhe convêm, usa de maneira intempestiva o trabalho polêmico dos dois pesquisadores americanos, mas é tudo calculado. Mesmo quando recua de declarações infamantes (pegou mal em muitos setores da sociedade), não se afasta da linha escolhida. Trabalha com pesquisas de opinião que lhe revelam a onda de desespero que a violência cotidiana espalha em nossa população. É um surfista da violência.

O bombardeio ao Complexo do Alemão, a matança na Comunidade da Coréia, em Senador Câmara, além da truculência diária que alimenta o clima de medo na cidade, são passos de uma escalada. Ao apoiar o aborto como política de segurança e dizer que a mãe de favela é fábrica de marginais, o governador coloca os pobres na linha de tiro de sua política. Humilhados e ofendidos, eles agora são apontados como responsáveis pela violência de que são vítimas.

Os barões do crime organizado, os grandes traficantes de drogas e armas, fora da linha de tiro, estão absolutamente tranqüilos. Eles, e os que lhes prestam serviços no aparato contaminado da política, aguardam o rescaldo da batalha para recompor o varejo do negócio. Qualquer governo sério e polícia inteligente começariam por tal ponto o combate efetivo ao narcotráfico e ao crime organizado.

No entanto, é mais fácil combater os tiranetes na ponta do varejo. São múltiplas as vantagens. Rende popularidade e não compromete a malha de cumplicidades que espalha seus tentáculos nos mais variados aparatos do poder. Ademais, cumpre uma função política geral. O modelo econômico de exclusão social, causa poderosa da violência nos grandes centros urbanos, tem na repressão truculenta a sua contrapartida natural e necessária.

Ao ostentar a truculência como se fora firmeza, o governador recebe aplausos daquela parcela cada vez mais atemorizada com a espiral de violência e, por outro lado, o apoio dos pontos fortes que se beneficiam com o modelo econômico injusto. Daí a sua condição de pregador e praticante ativo da política aterrorizante de criminalização da pobreza.

Correio da Cidadania
http://www.correiocidadania.com.br/

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Capital, Luanda está entre as cidades mais caras do mundo

Ídolo do Flamengo e da seleção brasileira nos anos 80, o jogador Mozer, 47, já morou em alguns dos lugares mais caros do mundo, na Europa e no Japão. Nada, segundo ele, se compara a Angola, onde chegou em 2006 para treinar o Interclube, um dos principais do país.
“Os costumes, a comida, o tempo -aqui é tudo muito parecido com o Brasil. A dificuldade é que a vida é caríssima. Deve ser o lugar mais caro do mundo”, disse à Folha um dia após levar sua equipe, no último dia 21 de outubro, ao título inédito de campeão do Girabola, o torneio de futebol local.
Desde o início do boom do petróleo, a capital angolana começou a aparecer nas listas dos lugares mais caros do mundo. Num ranking publicado em 2006 pela consultoria de multinacionais ECA International, Luanda ficou com a medalha de prata, atrás apenas de Harare, capital do Zimbábue, que vive uma hiperinflação.
Em Luanda, uma refeição num restaurante simples sai pelo equivalente a R$ 40; um hotel de uma estrela custa quase R$ 200 a diária, uma corrida de 15 minutos de táxi sai por R$ 60 e o DVD pirata de “Tropa de Elite” custa R$ 25 nos camelôs.
Moradia é o principal problema. Mozer tem a sorte de ter a casa paga pelo seu clube. Mas a chinesa Li Lin Zhi, por exemplo, paga US$ 10 mil (R$ 17,5 mil) de aluguel mensal por um apartamento de 80 m2, com dois quartos, que divide com duas amigas. “Não há como pagar se não dividir”, diz.
É um custo de vida que cristaliza a divisão social entre os angolanos. A grande maioria, que não pode pagar, fica relegada à vida em cortiços e musseques (favelas), ao comércio de camelôs e ao transporte nos candongueiros (lotações).
A explicação está na elementar lei da oferta e da procura. O dinheiro do petróleo trouxe uma explosão de demanda, enquanto a oferta é microscópica em um país recém-saído da guerra. “Estamos numa fase de reconstruir o que foi perdido no conflito. Vai levar muito tempo”, diz Custódio Armando, da Agência Nacional para o Investimento Privado.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

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Petróleo leva crescimento recorde a Angola

Com fim de guerra civil, PIB do país tem aumentado em mais de 20% anuais

Novos empreendimentos erguem-se em meio a cenário de desigualdade social; dependência do produto preocupa governo

FÁBIO ZANINI

Cinco anos após o fim de uma das piores guerras civis da história africana, Angola, movida por um boom do petróleo, tornou-se o país que mais cresce no mundo.
A previsão para 2008 é de um salto de 27,2% no PIB da ex-colônia portuguesa, segundo o Fundo Monetário Internacional -o maior entre 180 países. Perto disso, os 23,4% esperados para 2007 parecem modestos. Logicamente, o crescimento é sobre uma base reprimida por décadas de crise.
O superaquecimento da economia vem dando origem a uma nova geração de empreendedores, mas preserva e pode até estar agravando a diferença entre ricos e pobres.
Novos capitalistas proliferam. Um caso típico é o de Daniel Nunes, 31. Dez anos atrás ele combatia ao lado de tropas marxistas na selva. Hoje, de óculos escuros e relógio vistoso, viaja três vezes por ano para Dubai a fim de comprar carros de luxo e revendê-los em Angola, lucrando até o equivalente a R$ 15 mil por unidade.
No centro de Luanda, a capital, as contradições são visíveis. Erguendo arranha-céus para o governo ou petroleiras, guindastes disputam espaço com prédios dilapidados. A moderníssima sede da estatal do petróleo Sonangol, 19 andares em vidro fumê, é vizinha de cortiços com fachadas tomadas por roupas em varais. Concessionárias despejam carros 4X4, preferência nacional, nas ruas esburacadas. Os engarrafamentos são intermináveis.
Em Angola, nada é mais comum do que deixar o ar-condicionado de um vistoso edifício e pular uma poça de água esverdeada e malcheirosa na calçada. Ao lado, provavelmente haverá uma pilha de lixo. Blecautes são uma certeza cotidiana num país que extrai 2 milhões de barris diários de petróleo, a segunda maior produção africana. Em 2006, o país era o 17º mais pobre do mundo, segundo as Nações Unidas.

Petróleo
Angola enche os cofres com o petróleo (e, em menor escala, com diamantes), mas cresce tanto por partir de uma base dilacerada por 27 anos de um conflito que envolveu marxistas leninistas, cubanos, aa CIA e guerrilheiros financiados pelo apartheid sul-africano.
O saldo foi de 1 milhão de mortos e 4 milhões de refugiados. Uma herança são 1.400 km quadrados de minas, área equivalente à cidade de São Paulo, as quais têm sido removidas lentamente.
A paz, após a vitória dos marxistas do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), coincidiu com a descoberta de gigantescos campos de petróleo. Com a explosão dos preços do produto, o mineral hoje representa cerca de 60% do PIB do país. O apetite de EUA e europeus, ansiosos por reduzir a dependência em relação ao Oriente Médio, abriu-se. Mas quem saiu na frente foi a China, de quem Angola em 2006 passou a ser o segundo fornecedor, depois da Arábia Saudita.
O fluxo de petróleo deve cair a partir de 2012, o que já preocupa o governo. “Estamos trabalhando para desenvolver outros setores e deixar de ter a economia vinculada ao petróleo”, disse a ministra do Planejamento, Ana Dias.
O fluxo repentino de recursos tornou a corrupção endêmica. A cultura de pagar “gasosa” (literalmente, refrigerante) para policiais e funcionários públicos está enraizada. Angola, no ano passado, foi considerada pela ONG Transparência Internacional o 34º país mais corrupto do mundo, entre 180.
Há ainda sinais de que o petróleo pode estar contribuindo para empurrar uma parcela da população para um estado mais agudo de pobreza. A explosão da demanda gerada por petrodólares não foi acompanhada por similar aumento de oferta. O custo de vida disparou, e hoje Luanda é uma das cidades mais caras do mundo.
Os ricos e a classe média emergente refugiam-se em novos condomínios fechados e aproveitam o primeiro shopping e as primeiras salas cinemax do país. Na Ilha de Luanda, o bairro boêmio, lotam restaurantes dispostos a pagar o equivalente a R$ 80 por uma lagosta ou R$ 55 por um prato (individual) de picanha com farofa.
Na periferia, onde o desemprego é de 60%, jovens recorrem a biscates ou à venda de badulaques em semáforos. Roubo de carros e assaltos tornaram-se problemas sérios.
“Crescimento não é necessariamente desenvolvimento. O crescimento ainda não se reflete na melhoria das condições de vida das pessoas”, admite Custódio Armando, da Agência Nacional para o Investimento da Presidência.
Sintomaticamente, num país que sempre foi fanático pelo kuduro, o samba funk angolano, é o rap de protesto de artistas como MC Kappa, 25, que hoje mais cresce.
“Já estou no asfalto, os cidadãos reclamam, os preços estão mais altos. Lixo na rua é o semblante matinal, subida do combustível é a manchete do jornal”, canta ele, no hit “Atrás do Prejuízo”.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

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Mulher Elástico

Assim como a personagem do desenho animado, a mulher contemporânea tem de ser elástica para dar conta das demandas do cotidiano.

Maria Helena Fernandes

Em uma tarde de domingo caía uma fina garoa paulistana. Fui despertada de meus pensamentos longínquos por uma solicitação dos meus filhos. Eles me pediam que os levasse para assistir ao filme Os incríveis, da Disney.
Arrastada pelo entusiasmo deles, entrei numa longa fila, na companhia barulhenta de pais, avós e crianças que se acotovelavam na porta da sala do cinema, na tentativa de conseguir um bom lugar. Pipoca, Coca-Cola e chocolate! Enfim, bem instalados nas poltronas, esperamos o filme começar.

Na tela, desenhou-se a imagem do cotidiano de uma vida familiar cheia de encantos e desencantos, como todas as outras. Tarefas, alegrias e tristezas, limites e frustrações, lamentos e questionamentos são experimentados pelos personagens: um casal de ex-super-heróis e seus filhos que, impedidos de exercer seus poderes, são obrigados a levar uma vida “normal”.

O poder do Sr. Incrível está na força. A Sra. Incrível transforma-se na mulher-elástico. A filha mais velha, uma garota de uns 12 anos, magrinha e tímida, pode se tornar invisível. Falante e ágil, o filho do meio, tem a habilidade de correr a uma velocidade enorme. E o caçula, um bebê engraçadinho e comilão, de início parece ser o único membro da família sem capacidades extraordinárias.

À medida que me vejo interessada pela figura da mulher-elástico, me dou conta da sutileza do filme na escolha dos poderes dos personagens. Percebo, pela reação dos meus filhos, que eles também se interessavam pelas características dos diversos personagens, identificando semelhanças e diferenças entre os protagonistas e eles próprios. Não demorou muito para trocarmos olhares de cumplicidade e risadinhas diante de algumas cenas que lembram situações conhecidas por todos nós.

Saímos do cinema comentando animadamente o filme e continuamos a discuti-lo durante toda a semana. A partir daí, a imagem da mulher-elástico, excelente representação para a mulher na contemporaneidade, não me abandonou mais. Lembrei-me de que Freud localiza o mal-estar do seu tempo na repressão da vida sexual devido à moral civilizada daquela época. Inicialmente, ele compreende que a neurose atinge mais as mulheres que os homens - embora certamente esteja presente também neles justamente porque são elas o alvo privilegiado dessa moral repressora. Ao restringir a sexualidade ao casamento, a sociedade no início do século XX organizava-se para manter a mulher no espaço privado, longe da “tentação” do âmbito público, fonte de saber e de autonomia.

Desde a década de 50, as transformações no modo de vida das mulheres vêm se processando de maneira mais acelerada. A entrada no mercado de trabalho, o acesso à formação universitária e às novas formas de erotismo organizaram a luta feminina em defesa dos seus direitos. A pílula anticoncepcional e as mudanças nos contratos matrimoniais também foram, aos poucos, organizando a saída da mulher do universo doméstico e do exclusivo cuidado dos filhos, conduzindo-a para o espaço público, antes reservado quase exclusivamente aos homens.

Ideais ampliados
A progressiva conquista de novos lugares e papéis femininos trouxe uma infinidade de ganhos que, como não poderia deixar de ser, teve seu preço.

Isso solicita uma mudança na posição subjetiva da mulher, o que certamente exige a passagem pelo luto da perda de garantia das antigas posições. Caminho tortuoso e difícil, pois a estrada em direção à autonomia, única via de acesso a novas realizações, pede que a mulher assuma o preço da responsabilidade de uma posição de sujeito, propriamente desejante.

A mudança dos tempos traz sempre consigo a transformação dos ideais, resultado de novas conquistas do ser humano no saber sobre si mesmo. Ocorrem aí o abandono de interesses antigos e a descoberta de novos interesses e necessidades. No entanto, para as mulheres essa mudança trouxe também uma ampliação dos ideais. No que diz respeito à sua inserção na cultura, elas confrontam-se hoje não apenas com as modificações dos ideais, mas com um verdadeiro acúmulo deles.

Presas à necessidade de corresponder ainda aos ideais do âmbito doméstico, reinado de suas mães e avós, as mulheres se vêem hoje requisitadas pelas demandas próprias do espaço público - profissional e social. Às voltas com o difícil caminho que qualquer mudança de posição subjetiva exige, as mulheres parecem ter diante de si um espectro amplo de ideais a alcançar.

Esticadas entre uma identificação passiva e materna e outra ativa e fálica, tentam lidar com o excesso que caracteriza as demandas do seu cotidiano. Resulta daí um verdadeiro acúmulo que requer uma elasticidade nunca antes sequer imaginada. Se a necessidade de perseguir ideais constrói a trajetória cultural do ser humano ao longo do tempo, o percurso das mulheres, em particular, nos permite constatar que, ao modelo de santidade e beleza, veio juntar-se também o de sucesso - tão caro à cultura contemporânea.

Assim, uma boa representação do ideal de feminino dos dias atuais é a figura da mulher-elástico. Para tentar dar conta de tantos ideais, a mulher atual - tão bem representada pela Sra. Incrível - precisa ter um funcionamento verdadeiramente elástico. Deve desempenhar, com sucesso, uma gama tão variada de funções que só mesmo uma elasticidade originária poderia lhe garantir, ao menos, algum êxito numa empreitada tão fantástica, própria dos super-heróis!

Se a particularidade da relação da menina com a castração, tal como destacou Freud, assinala a dificuldade de acesso à sublimação e à construção do superego, é essa mesma particularidade que parece lhe garantir a elasticidade de sua organização libidinal e, conseqüentemente, sua diversidade de possibilidades identitárias.

Se, por um lado, a mulher pode desfrutar de inúmeras possibilidades de gozo sexual, por outro, essa diversidade lhe garante uma elasticidade considerável de interesses - e não apenas sexuais. Fala-se com freqüência na capacidade feminina de fazer muitas coisas e investir, simultaneamente, em campos diversos. No entanto, para além dessa elasticidade originária, não existiria também uma dimensão essencialmente conflitiva nessa amplitude de exigências?

Para corresponder às inúmeras demandas próprias de sua época, a mulher-elástico precisa não só ser ideal, mas também ter o corpo ideal. Além de mãe dedicada, compreensiva e bem humorada, deve conservar-se sempre jovem. Amante ardente e bem disposta, precisa ter uma diversidade de investimentos. Com igual obstinação, realiza os exercícios físicos indispensáveis à manutenção do corpo perfeito e mantém vivos seus interesses culturais nos destinos da humanidade.

Mantendo um pé na academia de ginástica e o outro na mostra de cinema do momento, a mulher-elástico é medianamente culta. Bem informada, é capaz de falar sobre qualquer assunto, mesmo que deixe transparecer certa mediocridade em muitos deles. Além de magra, realizada e bem-sucedida profissionalmente, é bonita, bem-cuidada e economicamente independente. Assiste a filmes de Godard com o mesmo entusiasmo com que entra em uma churrascaria, embora se prive de boa parte do menu disponível. Serena e controlada, a mulher-elástico come carne desde que acompanhada de salada!

Magreza em destaque
A hipervalorização da magreza tem acentuado a relação entre a auto-estima e a imagem do corpo esguio, particularmente para o sexo feminino. Há 20 anos, as modelos pesavam 8% a menos que a média das mulheres; atualmente a diferença chega a 20%. Embora a aparência física seja um elemento fundamental para a imagem feminina em diversas épocas e culturas, a magreza nem sempre foi o ideal almejado. Muito pelo contrário.
Uma breve passagem pela história da arte revela que a Renascença valorizava corpos fartos, quadris grandes e abdomens avantajados. Embora se saiba que a exigência de magreza nas mulheres tenha começado por volta dos anos 20, em sintonia com o início do movimento de liberação feminina, nas décadas de 40 e 50 as estrelas de Hollywood, como Rita Hayworth, por exemplo, exibiam seios abundantes e formas curvilíneas, valorizadas pela sensualidade. A exigência de magreza intensificou-se nos anos 60 e acentuou-se consideravelmente na década de 70. As formas do corpo idealizado tornaram-se menos arredondadas.

Embora padrões estéticos tenham se modificado, a luta para atingir o modelo de beleza vigente marca a relação da mulher com seu corpo em todas as épocas e culturas. Em 1580, o escritor Michel de Montaigne (1533-1592) já chamava a atenção em seus ensaios para o fato de que as mulheres desprezam a dor em função da vaidade. É assim que, ao longo dos tempos, elas escravizam o corpo em nome de parâmetros ao qual aspiram em cada época.

Houve o tempo em que esfolavam a pele para adquirir a tez mais fresca, ou buscavam propositalmente desenvolver problemas estomacais para conseguir a palidez valorizada na ocasião ou, ainda, apertavam o ventre em duros espartilhos para exibir a cintura delgada. Qualquer semelhança com a submissão aos atuais tratamentos estéticos e cirúrgicos, muitas vezes bastante dolorosos, e a especial dedicação às dietas alimentares para emagrecer, algumas radicais e perigosas para a saúde, não é uma mera coincidência.

O ideal de magreza domina a cena contemporânea, não somente como ícone de sucesso. Constitui-se até como modelo de perfeição moral; o corpo magro é a senha para se conseguir aprovação, poder e dinheiro. A idealização de formas bem esculpidas exige da mulher-elástico disciplina e firmeza - só desse modo poderá permanecer no ringue da luta pela beleza fetichizada pela cultura.

Engajada na busca pelo valorizado corpo fino e rígido, ela se lança na corrida insana para não perder o bonde do seu tempo. Escrava da amplitude e da diversidade dos ideais, dos quais precisa ao menos conseguir se aproximar, a mulher-elástico, vitimada pelo excesso e pelo cansaço diante de suas incríveis atribuições, vive culpada diante da constatação da impossibilidade de ser tudo o que se exige dela.

Conflito e questão
Endividada consigo mesma e com os que a cercam, ela é, ao mesmo tempo, culpada e impotente. Experimentando freqüentemente uma dolorosa sensação de que algo lhe escapou, de que alguma coisa transborda sempre do seu cotidiano assoberbado, a mulher-elástico constata, desamparada, que seu corpo dói!

E para que tudo isso? Às vezes, é no ponto extremo da dor que se pode encontrar, ou reencontrar, o próprio limite a essa espécie de tirania velada que nos leva, freqüentemente, a nos posicionar como objeto no desejo do outro. Poder reinventar, a cada dia, os caminhos do próprio desejo e seguir construindo um discurso próprio supõe uma mudança de pergunta: para quem tudo isso? A mudança da questão supõe a existência de um sujeito a quem se destinam os esforços realizados e, certamente, também os prazeres das vitórias conquistadas. Isso exige que a mulher se pergunte se é ela mesma o destinatário desses esforços, o sujeito dessa pergunta.

Todas nós, mulheres, experimentamos na carne as diversas formas de manifestação da angústia que a exigência de elasticidade acaba por despertar no cotidiano. Se abandonar o terreno das certezas não é nem mesmo uma possibilidade para a mulher contemporânea, visto que há muito as certezas já se foram, resta reconhecer a dimensão essencialmente de conflito colocada em cena pelas próprias conquistas em direção à autonomia.

Obviamente, não se trata de nos culpar pelas conquistas e pelos avanços obtidos, muito menos de defender o retrocesso a posições anteriores. Sem ilusões ou hipocrisias, devemos admitir que o que tínhamos antes certamente não era melhor do que o que temos hoje. Devemos, ao contrário, usufruir prazerosamente de tudo que foi conquistado. Trata-se, então, de nos colocarmos no interior do conflito para problematizá-lo, para circunscrevê-lo com a circulação de perguntas e não com a enunciação de ingênuas certezas.

Assim, em nosso caro mundo contemporâneo, seguiremos, todas nós, mulheres-elástico, cansadas, doloridas, culpadas e cheias de incertezas, porém sem jamais perder um certo brilho que insiste em sobreviver e clarear perguntas - uma espécie de testemunho de rebeldia, que nos habita e constitui. Herdeiras da Fênix, somos consumidas pelo fogo com mais freqüência do que seria desejável. No entanto… renascemos das cinzas! Talvez somente por teimosia ou, simplesmente, por insistir em sustentar a esperança de viver meramente, como diz Caetano Veloso, sabendo “a dor e a delícia de ser o que é”.

Para saber mais
Deslocamentos do feminino. M.R. Kehl. Imago, 1998.

Essais. Livre 1 (1580). M. Montaigne. Garnier-Flammarion, 1969.

Figuras clínicas do feminino no mal-estar contemporâneo. S. L. Alonso, A. C. Gurfinkel e D.M. Breyton (orgs.). Escuta, 2002.

O eclipse do seio na teoria freudiana: a recusa do feminino. R. M. Volich. Percurso, 1995.

Corpo. Maria Helena Fernandes. Estudos de Psicanálise, 2000

Revista Mente e Cérebro
http://www2.uol.com.br/vivermente/

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O Mito Revelado

Florestan Fernandes

Os mitos existem para esconder a realidade. Por isso mesmo, eles revelam a realidade íntima de uma sociedade ou de uma civilização. Como se poderia no Brasil colonial ou imperial acreditar que a escravidão seria, aqui, por causa de nossa “índole cristã”, mais humana, suave e doce que em outros lugares? Ou, então, propagar-se, no século 19, no próprio país no qual o partido republicano preparava-se para trair simultaneamente a ideologia e a utopia republicanas, optando pelos interesses dos fazendeiros contra os escravos, que a ordem social nascente seria democrática? Por fim, como ficar indiferente ao drama humano intrínseco à Abolição, que largou a massa dos ex-escravos, dos libertos e dos ingênuos à própria sorte, como se eles fossem um simples bagaço do antigo sistema de produção? Entretanto, a idéia da democracia racial não só arraizou. Ela se tornou um mores, como dizem alguns sociológos, algo intocável, a pedra de toque da “contribuição brasileira” ao processo civilizatório da Humanidade.

Ora, a revolução social que se vincula à desagregação da produção escravista e da ordem social correspondente não se fazia para toda a sociedade brasileira. Os seus limites históricos eram fechados, embora os seus dinamismos históricos fossem abertos e duráveis. Naqueles limites, não cabiam nem o escravo e o liberto, nem o “negro” ou o “branco pobre” como categorias sociais. Tratava-se de uma revolução das elites, pelas elites e para as elites; no plano racial, de uma revolução do Branco para o Branco, ainda que se tenha de entender essa noção em sentido etnológico e sociológico. Colocando-se a idéia de democracia racial dentro desse vasto pano de fundo, ela quer dizer algo muito claro: um meio de evasão dos estratos dominantes de uma classe social diante de obrigações e responsabilidades intransferíveis e inarredáveis. Daí a necessidade do mito. A falsa consciência oculta a realidade e simplifica as coisas. Todo um complexo de privilégios, padrões de comportamento e “valores” de uma ordem social arcaica podia manter-se intacto, em proveito dos estratos dominantes da “raça branca”, embora em prejuízo fatal da Nação. As elites e as classes privilegiadas não precisavam levar a revolução social à esfera das relações raciais, na qual a democracia germinaria espontaneamente… Cinismo? Não! A consciência social turva, obstinada e mesquinha dos egoismos enraizados, que não se viam postos à prova (antes, se protegiam) contra as exigências cruéis de uma estratificação racial extremamente desigual.

Portanto, nem o branco “rebelde” nem a República enfrentaram a descolonização, com a carga que ela se impunha, em termos das estruturas raciais da sociedade. Como os privilégios construídos no período escravista, estas ficam intocáveis e intocadas. Mesmo os abolicionistas, de Nabuco a Patrocínio, procuram separar o duro golpe do abolicionismo do agravamento dos “ódios” ou dos “conflitos” raciais (1). Somente Antonio Bento perfilha uma diretriz redentorista, condenando amargamente o engolfamento do passado no presente, através do tratamento discriminativo e preconceituoso do negro e do mulato (2). Em consequência, o mito floresceu sem contestação, até que os próprios negros ganharam condições materiais e intelectuais para erguer o seu protesto. Um protesto que ficou ignorado pelo meio social ambiente, mas que teve enorme significação histórica, humana e política. De fato, até hoje, constitui a única manifestação autêntica de populismo, de afirmação do povo humilde como gente de sua autoliberação. O protesto negro se corporificou e floresceu na década de trinta, irradiando-se pouco além pela década subsequente (3). Foi sufocado pela indiferença dos brancos, em geral; pela precariedade da condição humana da gente negra; e pela intolerância do Estado Novo diante do que fosse estruturalmente democrático.

Na lei, a ordem é uma; nos fatos, é outra

O principal feito do protesto negro configura-se na elaboração de uma contra-ideologia racial. Por um jogo dialético, o farisaismo do branco rico e dominante era tomado ao pé da letra: e o liberalismo vazio, acima de tudo, via-se saturado em todos os níveis. O negro assume o papel do burguês conquistador (ou do “notável” iluminista) e comporta-se como o paladino da causa da democracia e da ordem republicana. Não era propriamente um teatro popular, que se montava com o Tribunal dos justos. Porém, tudo se desenrola através de dois planos, por meio dos quais o jogo cênico e a realidade se interpenetram. O que resulta é uma cabal e indignada desmistificação: na lei, a ordem é uma; nos fatos, é outra; na consciência, as variações não são registradas. O negro desmascara e, ao mesmo tempo em que ergue a sua denúncia e mostra a sua ira, exige uma Segunda Abolição. Em suma, clama por participar da revolução social que não o atingiu, levantando o véu de uma descolonização que ficara interrompida desde a Proclamação da Independência e indicando sem subterfúgios os requisitos sine qua non da democracia racial. O protesto se confinara à ordem estabelecida. Mas era autêntico e revolucionário, pois exigia a plena democratização da ordem republicana - através das raças contra os preconceitos e privilégios raciais.

A eclosão liberal de após Segunda Guerra Mundial não liberou as forças sociais que alimentaram o protesto negro. Ao contrário, este refluiu e apagou-se, enquanto as energias da gente negra forçavam a democratização e a igualitarização progressiva pelos subterrâneos da porosidade de uma sociedade capitalista em crescimento desigual. O talento negro condena-se à seleção ao acaso, à venda no mercado e às duas regras da acefalização das raças dominadas, perdidas nas classes subalternas. O novo negro, que se afirma como categoria social, e assusta o branco conformista, tradicionalista ou autoritário, não constitui um rebento do protesto negro, mas da luta pela vida e do êxito na competição inter-racial numa sociedade de classes multi-racial. Por aí, a modernização generaliza-se às elites em formação do meio negro e cria um “novo começo” (4) que procurei descrever sob alguns de seus aspectos mais importantes ou fascinantes.

Essa evolução faz com que, em pleno fim do século, a descolonização não tenha penetrado profundamente na esfera das relações e das estruturas raciais da sociedade brasileira. No último censo em que o levantamento racial foi contemplado, o de 1950, os números demarcavam que o desenvolvimento desigual era ainda mais desigual no que diz respeito à estratificação racial. De Norte a Sul, dos Estados tidos como “tradicionalmente mais democráticos” aos que foram contemplados como representativos de um “racismo importado”, prevalece a mesma tendência estrutural à extrema desigualdade racial - à centralização e à concentração raciais da riqueza, do prestígio social e do poder (5). Tanto a estrutura ocupacional quanto a pirâmide educacional deixam uma participação ínfima para o negro e o mulato, assinalando uma quase-exclusão e uma marginalização sistemática e desvendando, inclusive, que, na luta pelas oportunidades tão desiguais e sonegadas, há uma desigualdade adicional entre o negro e o mulato (pois este vara relativamente melhor várias das barreiras raciais camufladas).

Os fatos - e não as hipóteses - confirmam que o mito da democracia racial continua a preencher as funções de um retardador das mudanças estruturais. As elites que se apegaram a ele numa fase confusa, incerta e complexa de transição do escravismo para o trabalho livre continuam a usá-lo como expediente para “tapar o sol com a peneira” e de autocomplacência valorativa. Pois consideremos: o mito - não os fatos - permite ignorar a enormidade da preservação de desigualdades tão extremas e desumanas como são as desigualdades raciais no Brasil; dissimula que as vantagens relativas “sobem” - nunca “descem” - na pirâmide racial; e confunde as percepções e as explicações - mesmo as que se têm como “críticas”, mas não vão ao fundo das coisas - das realidades cotidianas.

Onde não existe sequer democracia para o dissidente branco de elite haveria democracia racial, democracia para baixo, para os que descendem dos escravos e libertos negros ou mulatos?! Poderia existir democracia racial sem certas equivalências (não digamos igualdades) entre todas as raças?

Um mito para dissimular as coisas

A tenacidade do mito e a importância de suas funções para a “estabilidade da ordem” exigem uma reflexão política séria. De um lado, fica patente que o negro ainda é o fulcro pelo qual se poderá medir a revolução social que se desencadeou com a Abolição e com a proclamação da República (e que ainda não se concluiu). De outro, é igualmente claro que, no Brasil, as elites não concedem espaço para as camadas populares e para as classes subalternas de motu próprio. Estas têm de conquistá-lo de tal forma que o avanço apareça como “fato inevitável e consumado”. O que quer dizer que, em sua tentativa de desmascaramento e de auto-afirmação, o protesto negro antecipou a substância da realidade histórica do presente que estamos enfrentando com tantas angústias e sobressaltos. Cabe às classes subalternas e às camadas populares revitalizar a República democrática, primeiro, para ajudarem a completar, em seguida, o ciclo da revolução social interrompida, e, por fim, colocarem o Brasil no fluxo das revoluções socialistas do século 20. O que sugere a complexidade do formoso destino que cabe ao negro na cena histórica e no vir a ser político. A revolução da qual ele foi o motivo não se concluiu porque ele não se converteu em seu agente - e, por isso, não podia levá-la até o fim e até ao fundo. Hoje, a oportunidade ressurge e o enigma que nos fascina consiste em verificar se o negro poderá abraçar esse destino histórico, redimindo a sociedade que o escravizou e contribuindo para libertar a Nação que voltou as costas à sua desgraça coletiva e ao seu opróbrio.

Essa interpretação global contém uma mensagem clara aos companheiros que tentam refundir e reativar o protesto negro. É preciso evitar o equívoco do “branco de elite”, no qual caiu a primeira manifestação histórica do protesto negro. Nada de isolar raça e classe. Na sociedade brasileira, as categorias raciais não contêm, em si e por si mesmas, uma potencialidade revolucionária. De onde vinha o temor dos brancos, nos vários períodos escravistas? Do entroncamento entre escravidão e os estoques raciais dos quais eram retirados os contingentes que alimentavam o trabalho escravo. Essa superposição ou paralelismo (como a descreveu Caio Prado Junior) ou essa estrutura simultaneamente racial e social conferia ao escravo a condição do “vulcão que ameaçava a sociedade”. A realidade histórica de hoje não é a mesma. Não obstante, desvinculada da estrutura de classes da sociedade brasileira atual, da marginalização secular que tem vitimado o negro nas várias etapas da revolução burguesa e da exploração capitalista direta ou da espoliação inerente à exclusão, os estoques raciais perdem o seu terrível potencial revolucionário e dilui-se o significado político que o negro representa como limite histórico da descolonização (negativamente) e da revolução democrática (positivamente). Portanto, para ser ativada pelo negro e pelo mulato, a negação do mito da democracia racial no plano prático exige uma estratégia de luta política corajosa, pela qual a fusão de “raça” e “classe” regule a eclosão do Povo na história.

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(1) Para documentar, ver F. Fernandes. “A Integração do Negro na Sociedade de Classes”, São Paulo, Editora Ática, 3a ed., vol. 1, pp. 258-259.

(2) Idem, pp. 82-83.

(3) Sobre o assunto, ver op. cit., vol. 2, todo o capítulo 1.

(4) Sobre o assunto, ver idem, todo o capítulo 2.

(5) Ver a respeito F. Fernandes, “O Negro no Mundo dos Brancos”, São Paulo, Difusão Européia do Livro, esp. cap. 3 Sobre o assunto, de outra perspectiva, veja-se C.A. Hasenbalg, “Discriminação e Desigualdades Raciais no Brasil”, Rio de Janeiro, Graal, 1979, cap. 7.

Revista Espaço Acadêmico
http://www.espacoacademico.com.br/

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Da Antártida às estrelas

A região em torno do Pólo Sul também é alvo de disputa entre potências. Lá, não se trata de explorar o subsolo ou rotas marítimas — mas de simular as condições em que poderá se dar a colonização do espaço

Dominique Kopp

Ao contrário do Pólo Norte, o Pólo Sul não flutua sobre o mar. Ele se situa no coração da Antártida, exatamente sob a base norte-americana “Pólo Sul”. Em 1959, os Estados Unidos escolheram fincar aí sua bandeira, sobre o eixo de rotação da terra. Os russos instalaram sua base Vostock no Pólo da Inacessibilidade [1], a mais de 3 mil metros de altitude. Restou para a França o Pólo Magnético Sul, na proximidade da costa, onde construiu sua primeira base permanente, Dumont d’Urville, em 1955.

Precioso para os glaciologistas e climatologistas, o estudo das calotas polares também interessa às agências espaciais. Além dos testes de material que realizou na Antártica, a NASA acabou de enviar a Marte, em 4 de agosto, o robô Phoenix Mars Lander, que deve “aterrissar” no planeta vermelho em maio de 2008. Sondará, sob as calotas polares marcianas, a existência de condições favoráveis à vida, no passado ou no presente. Conhecimentos acumulados na exploração da Antártida serão certamente muito úteis nessa missão.

As regiões polares, e mais particularmente a Antártida, oferecem condições únicas para o estudo dos mecanismos fisiológicos e comportamentais de adaptação a ambientes extremos. As condições de isolamento das pessoas nas estações são, em terra, as que mais se comparam às do espaço: isolamento completo prolongado, noite, frio intenso e confinamento. A base franco-italiana instalada sobre o Domo C, em pleno coração do continente, aparece como a melhor localização do mundo para tais estudos. Sua concepção e organização são próximas daquelas das estações concebidas para a Lua ou Marte. A Antártida aparece, assim, como antecâmara do espaço.

Não surpreende que as nações mais presentes na Antártica sejam também aquelas que dispõem de capacidades espaciais mais importantes: Estados Unidos, Rússia, Europa e, em breve, a China, que prevê a construção de uma base sobre o local mais elevado e mais inacessível do continente, o Domo A, a 4.093 metros de altitude. A presença nos pólos abre o caminho para as estrelas.

Depois de explorar a Terra, partir para o espaço?
Ao infinito das geleiras, o infinito do espaço responde como um eco amplificado. Nesse campo, a busca não é motivada unicamente por questões de pesquisa fundamentais, ou por veleidades de contatos imediatos de terceiro grau. Nas gavetas das agências espaciais, estão projetos que envolvem os recursos minerais de outros corpos celestes. Entre outros, o hélio 3 (que poderia tornar-se um supercombustível), o urânio de Marte, a água da Lua e o ouro dos asteróides esperam pacientemente sua hora. Se a exploração dos recursos do Ártico é de atualidade ardente, assim será a do espaço, amanhã.

A Plataforma Espacial Internacional (ISS), que reúne as competências norte-americanas, russas e européias, deverá estar terminada até 2010. A NASA anunciou seu grande retorno à Lua para 2020 e o estabelecimento de uma base lunar permanente em 2024. Seja a partir da base lunar ou da plataforma espacial, a exploração e mesmo a colonização do espaço poderão, então, ter início. O treinamento será nas regiões polares.

A ONU regula as atividades espaciais por meio de seu Tratado do Espaço, ratificado em 1967. Como no caso dos oceanos, o espaço extra-atmosférico é declarado “patrimônio comum da humanidade”; as armas de destruição em massa estão proibidas, assim como as reivindicações territoriais não comprovadas. A ONU prega ativamente a cooperação internacional. Resta saber se os primeiros a chegar terão interesse em partilhar.

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[1] Definido como o ponto mais distante da costa, a 1.700 km do litoral, a 82° sul e 54° leste.

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

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Raio Laser

Quem apresentou ao mundo o raio laser foi a ficção científica. Atualmente, é um componente essencial da moderna tecnologia, usado sob múltiplas formas, desde aparelhos audiovisuais até instrumentos médicos e equipamentos de defesa militar.

O raio laser é essencial às modernas comunicações. Este poderoso raio de luz foi descoberto no final da década de 50 por dois cientistas: Arthur Schawlow e Charles Townes. Durante a Segunda Guerra Mundial, Townes especializou-se em radar e microondas. Descobriu que as moléculas e as microondas podiam interagir. Depois da guerra, concentrou suas atenções em algo que conhecemos hoje como “espectroscopia”, ou seja, o estudo da interação entre moléculas e microondas. E inventou o MASER, uma solução técnica pela qual a amplificação das microondas estimula a emissão de radiações.

Ao mesmo tempo, Townes e Schawlow maravilharam-se com os espectros eletromagnéticos em casos em que o comprimento de onda é inferior e a freqüência é maior do que nas microondas. É o que acontece nas áreas mais visíveis do espectro.

Acabaram por construir um aparelho muito engenhoso: um tubo translúcido, com espelhos nas duas extremidades. As ondas são refletidas pelos dois espelhos. Algumas ondas, porém, ultrapassam os espelhos e formam um feixe independente de raios, a luz do laser, que, ao contrário da luz comum, possui freqüência regular.

Rapidamente as pesquisas de Schawlow e Townes divulgaram-se pelo mundo, despertando o interesse de muitos cientistas. O primeiro feixe de raios laser usado para fins tecnológicos foi construído em 1960.

E, em 1961, usando uma mistura de hélio e neon, os pesquisadores construíram um aparelho com um feixe de luz contínua, estimulado por um gerador de freqüências. E a pesquisa continua.

Um dos primeiros usos que se encontrou para o laser foi na Medicina. Começou pelas cirurgias de olho, mas logo alcançou outras especialidades.

O laser também encontrou aplicações na indústria, onde é empregado para cortar qualquer tipo de material. Também usa-se o laser para impressão e em inúmeros outros casos em que a precisão seja necessária.

Em nossa vida diária, usamos o laser para “ler” o preço codificado nas etiquetas de supermercado. Nossos compact-discs usam o laser. Com feixes de laser produzem-se fantásticas formas gráficas, chamadas “hologramas” .

Atualmente, as fibras óticas que transmitem raios laser tornam mais acessíveis as comunicações por microondas. As comunicações por raio laser vão se tornando rotina em todo o mundo.

A pesquisa prossegue sem descanso. Por suas descobertas, Schawlow e Townes receberam, cada um, um Prêmio Nobel.

Alô Escola TV Cultura
http://www.tvcultura.com.br/aloescola/index.asp

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