Arquivo de 19 de Novembro de 2007

Fundação é única reponsável por contratos

Bruno Ribeiro
Do Diário do Grande ABC

A Prefeitura de Santo André responsabilizou ontem a Fundação Santo André
por quaisquer irregularidades cometidas na contratação de empresas para a
prestação de serviços à administração municipal pela Fundação.

O secretário de Desenvolvimento e Ação Regional, Luís Paulo Bresciani,
disse que a Prefeitura acredita que todos os trâmites legais para a
contratação das empresas foram seguidos, e disse que a administração
municipal usou a “presunção da legalidade” na contratação das empresas.

O Diário publicou reportagem no domingo com a comprovação de contratos
fechados sem licitação pela Fundação. Os programas eram todos da
Prefeitura de Santo André.

Segundo o secretário Bresciani, a Prefeitura acreditou no controle
jurídico da Fundação. Ele não soube responder se todas as licitações
públicas necessárias para as contrações foram realizadas, mas afirmou que
a Prefeitura foi consultada antes do fechamento de todos os contratos da
Fundação.

CONVÊNIOS
Segundo o secretário, os convênios com a Fundação Santo André são uma
forma de aproximar a relação da faculdade com a comunidade.

Os convênios previam a contratação de empresas externas sempre que
necessário. Bresciani não soube dizer por que a Fundação, com cursos de
Administração e Economia, precisava contratar empresas de fora para dar
cursos sobre empreendedorismo empresarial.

“Já fizemos convênios com outras instituições e até com outras faculdades.
É comum a contratação de empresas externas”, disse Bresciani, que responde
pela pasta responsável pelos convênios suspeitos fechados com a Fundação.

AUDITORIA
O secretário-adjunto de Assuntos Jurídicos da Prefeitura, Carlos Eduardo
de Melo Ribeiro, disse que a auditoria dos contratos suspeitos deve
terminar até o fim do ano. Ribeiro afirmou que, caso a Prefeitura encontre
irregularidades no contratos, pode solicitará ajustes ou até a devolução
da verba à Fundação.

Diário do Grande ABC
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Fundação reafirma desconhecimento sobre irregularidades

Bruno Ribeiro
Do Diário do Grande ABC

A assessoria de imprensa da Fundação reafirmou ontem a nota enviada para
comentar as denúncias de irregularidades na contratação de empresas com
recursos públicos. A nota informa que a universidade não tem conhecimento
de qualquer ilícito nesses contratos.

A faculdade está em recesso desde quinta-feira. Por isso, o assessor de
imprensa da entidade, Fausto Piedade, disse que seria impossível algum
dirigente da instituição desse entrevistas para explicar detalhes sobre a
contratação dessas empresas antes de amanhã.

Diário do Grande ABC
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Procurador diz que vai ouvir prefeito nos próximos dias

Bruno Ribeiro
Do Diário do Grande ABC

Prefeitura e Fundação Santo André serão convocadas a fornecer toda a
documentação referente aos quatro contratos suspeitos de irregularidades
ao Ministério Público até a semana que vem.

O procurador Luiz Roque Lombardo, chefe do Setor de Crimes de Prefeitos do
MP, afirmou ontem que vai instaurar até o fim desta semana um procedimento
preparatório de inquérito para avaliar os casos. O procurador pretende
ouvir os dirigentes da Fundação e o prefeito de Santo André, João
Avamileno (PT).

“Cabe a nós investigar denúncias como esta. Em princípio, faremos uma
apuração da documentação e ouviremos os envolvidos. Então avaliaremos a
instauração de um inquérito sobre o caso”, disse o procurador de Justiça.

FUNDAÇÃO
O vice-reitor da Fundação Santo André, Oduvaldo Cacalano, mostrou-se ontem
satisfeito com a investigação pública sobre as irregularidades no Centro
Univesitário. “Finalmente estão nos ouvindo”, disse. Cacalano disse que as
investigações são como uma faxina na faculdade e, quando acabarem, a
Fundação poderá voltar a missão dela, que é formar profissionais e ajudar
no desenvolvimento da região.

Diário do Grande ABC
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Prefeitura de Sto.André não cancelou projetos na Fafil

Liora Mindrisz (liora@abcdmaior.com.br)

Secretário Luiz Paulo Bresciani explica que os convênios eram internos da
instituição

A Prefeitura de Santo André garante que nada tem a ver com os programas
cancelados pela reitoria da Fundação Santo André, que tinham ligação com
professores da Fafil (Faculdade de Filosofia) participantes dos 55 dias de
paralisação. De acordo com Luiz Paulo Bresciani, secretário de
Desenvolvimento Econômico e Ação Regional, os três projetos cancelados
eram convênios internos da Fundação e a Prefeitura não teve participação
nos acordos.

Os três projetos cancelados foram o projeto SAL (Saber Local em
Desenvolvimento), como já havia sido divulgado pelo ABCD MAIOR, que
oferecia aulas de alfabetização em escolas públicas do entorno da
Fundação, do qual a professora Sônia Kruppa era coordenadora; o projeto
Uniama (Universidade Aberta do Meio Ambiente) que oferecia aulas abertas
sobre preservação ambiental em Paranapiacaba; e o Projeto Canadá, que
recebia recursos da University of Victoria do Canadá.

“Éramos parceiros, fazíamos parte de grupos como os de monitoramento do
Projeto Canadá, mas nossa participação nunca foi formalizada”, explica
Brescini.

ABCD Maior

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A “caixinha” dos Kirchner

O lucro da exportação de soja dá ao presidente argentino dinheiro para dispor à vontade

Fernando Gualdoni

O sucesso econômico que a Argentina vive atualmente se deve à soja. O produto, cujo preço disparou nos últimos anos, permitiu que o país esquecesse a brutal crise do final de 2001, a do “corralito” financeiro e dos “panelaços”, que acabou em revolta popular com um saldo de 33 mortos e a queda do presidente Fernando de la Rúa.

A soja, que representa mais de 50% dos cereais que o país produz e mais de 25% das exportações, traz para as mãos do governo de Néstor Kirchner mais de US$ 250 milhões mensais. É a “caixinha” do presidente, que pode utilizar esse dinheiro como quiser: subsídios públicos, programas sociais, ajudas a setores e políticos aliados. Ao todo, graças à porcentagem do valor das exportações de soja e outros produtos agrícolas que o Executivo arrecada, Kirchner e sua mulher, Cristina Fernández, que aspira a se transformar na primeira presidente mulher eleita pelas urnas neste domingo, contam com cerca de US$ 600 milhões por mês para investir em popularidade.

“A soja é para os Kirchner o que o petróleo é para Chávez. Embora seja evidente que o dinheiro de que o presidente venezuelano dispõe pelas vendas de petróleo é muito maior, a finalidade é a mesma: financiar um modelo populista”, diz Oscar Crocensi, vice-presidente da Associação de Cooperativas Argentinas. Sentado no Café das Letras, em Pergamino, cidade produtora de soja por excelência situada a 220 km a noroeste de Buenos Aires, ele lamenta: “Estamos perdendo mais uma oportunidade única de desenvolver o país, a infra-estrutura e a educação. Em vez disso, continuamos com as dádivas”.

Em Pergamino, a “oportunidade” que a soja dá é evidente: a cidade de pouco mais de 100 mil habitantes tem uma das rendas per capita mais altas do país, um dos menores índices de desemprego, carros novos e eletrodomésticos são vendidos sem parar e os edifícios de apartamentos crescem como cogumelos. “É o melhor momento em 30 anos”, afirma Fredy Aloe, dono de uma imobiliária.

“Há 11 torres em construção na cidade. Não está mal para Pergamino”, exclama Héctor Cachi Gutiérrez, prefeito da cidade desde 2000. Entre a campanha para conseguir outro mandato e a gestão local, Cachi encontrou tempo para acompanhar as deliberações do 17º Congresso do Partido Comunista Chinês, que acabou esta semana. O interesse do prefeito tem sua lógica: Pergamino produz 80% da soja do país e 70% das exportações do produto vão para o mercado chinês. “Estive na China há pouco tempo buscando investimentos. Queríamos colocar Pergamino na lista de lugares que o regime deveria levar em conta na hora de investir no exterior o enorme excedente de capital chinês. A Argentina não tem petróleo, mas tem soja”, diz o prefeito.

A economia argentina retrocedeu cem anos. O país volta a viver das exportações graças ao forte aumento do preço das matérias-primas devido à crescente demanda, especialmente do mercado chinês. “O problema é que não há plano B, o sucesso da economia é graças ao campo e o populismo de Kirchner somos nós que pagamos”, diz um produtor de soja em um restaurante de Pergamino, junto de outros nove empresários do setor. “Vamos de vento em popa, mas se um dia parar de soprar caímos em pique”, diz outro participante. O setor agrícola é o maior opositor do governo. Kirchner os acusa de oligarcas e estes atacam o presidente que só os espreme para “comprar” sua popularidade.

Cachi fala pouco no almoço. Ele é um radical, um ex-membro da União Cívica Radical (UCR) -o histórico partido adversário do peronismo- que passou para as fileiras inimigas, neste caso a corrente peronista do kirchnerismo. Horas antes, na prefeitura, havia explicado que depois da crise de 2001, quando além da economia também desmoronou o sistema de partidos tradicionais, especialmente a UCR, ele viu no presidente um homem de idéias progressistas. Hoje Cachi acredita que para o próximo governo, que será encabeçado por Cristina se as pesquisas não errarem, a política de subsídios que se mantém graças à soja será insustentável. “Não há outro remédio senão fazer um plano econômico sério e de longo prazo. O setor produtivo argentino está no auge, é preciso atrair investidores para igualar a oferta e a demanda e atacar a crescente inflação”, reflete o prefeito.

O risco de que a Argentina fique presa a um modelo apoiado nas exportações agrícolas é alto. O país tem uma moeda frágil que deprecia as vendas externas, e os argentinos vêem que o preço da soja não pára de subir no mercado de matérias-primas de Chicago. Fernando Carballo não tem dúvida: “O preço dos alimentos não vai parar de subir, ainda mais agora que, além de comê-los, se fazem biocombustíveis com eles”, diz o empresário para justificar um investimento de US$ 20 milhões na construção de um prédio de 30 andares de apartamentos de luxo no centro de Pergamino. “Será visto de todo o pampa”, exclama, satisfeito. A soja, o ouro verde argentino, paga tudo.

El País
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Curdos e o aliado improvável

Mateus Alves

O norte do Iraque, região de população majoritariamente curda e parte do virtual Curdistão, esteve sob relativa paz durante grande parte da guerra iniciada com a ocupação do país pela coalizão liderada pelo exército norte-americano em 2003.

Em dias recentes, porém, a região, fronteiriça com a Turquia, transformou-se em mais um hot spot iraquiano, assimilando a turbulência - e um pouco da violência - que toma conta do resto do país. Tropas turcas, aliado tradicional dos EUA, aglomeram-se na divisa entre os dois países para frear a ameaça do PKK - o partido nacionalista curdo, considerado ilegal e “terrorista” tanto pela nação otomana quanto pelos norte-americanos -, que ameaça transbordar a seus solos.

Os embates entre turcos e separatistas curdos datam de 1984, ano em que o PKK iniciou as suas atividades. Entre 14 e 19 milhões de curdos vivem na Turquia atualmente - muitos descontentes com as políticas de Ancara em relação à etnia, freqüentemente relegada à margem da sociedade no país. As regiões curdas estão entre as mais pobres de um país também majoritariamente pobre - e, além do alto desemprego, a população ainda sofre com a crueldade das intempéries no desértico leste turco, onde tanto invernos como verões são rigorosos.

Do outro lado da fronteira, o Curdistão iraquiano conta com um governo autônomo, responsável pela manutenção da segurança na região. O que incomoda Ancara, no entanto, é a conivência das autoridades locais com a presença de 3 mil militantes armados do PKK no norte do Iraque - e a possibilidade de avançarem as atividades guerrilheiras no lado turco.

Ancara já concentrou entre 100 e 140 mil homens de seu exército na região, e oficiais dizem que uma ação mais profunda no norte iraquiano pode ser realizada “a qualquer momento”. Embora apenas a possibilidade de uma agressão já não agrade aos norte-americanos, por tratar-se de um golpe fatal à custosa estabilidade do Curdistão iraquiano, o fator mais preocupante é a possibilidade de os turcos contarem com um improvável aliado no combate ao PKK: o Irã.

Os aiatolás vêem com bons olhos o combate ao PKK, uma vez que a nação persa também possui uma grande população de etnia curda - cerca de 4 milhões. Em tempos recentes, denúncias de que os Estados Unidos têm fomentado movimentos separatistas como maneira de desestabilizar o governo iraniano estão se provando verídicas, e a Teerã pouco interessa o fortalecimento de um nacionalismo curdo interno.

Embora a situação dos curdos no Irã seja de relativa estabilidade após o reconhecimento de um “Curdistão iraniano” pelo ex-presidente Mohammed Khatami em 1997 - apesar de certo abalo em 1999, quando manifestantes pró-PKK sofreram imensa repressão ao exigirem liberdade para o líder curdo Abdullah Ocelan, pertencente ao partido nacionalista -, a invasão do Iraque pelas tropas da coalizão trouxe novos ânimos e anseios de autonomia que reverberaram não só no país, mas também nas comunidades curdas de seus países vizinhos.

Uma breve experiência de autonomia foi conquistada pelos curdos iranianos no início do século quando, com o apoio da União Soviética, nacionalistas criaram um Estado independente no noroeste iraniano, sob a liderança de Qazi Mohammad. A República de Mahabad durou, no entanto, pouco tempo, sendo reprimida pelo governo do Irã - que, na época, contava com o apoio de norte-americanos preocupados com o avanço das regiões sob a influência no Oriente Médio.

A independência na região de Mahabad não atingiu um ano de existência, sofrendo também com o declínio do suporte soviético. Para Teerã, no entanto, o ocorrido assemelha-se ao que poderá acontecer na Turquia caso ações mais drásticas não sejam tomadas, sendo a causa da necessariedade de um apoio às decisões turcas sobre o Curdistão - quaisquer sejam elas. Para os aiatolás, evitar o renascimento de um nacionalismo curdo no Irã é essencial e vital à integridade da Revolução Islâmica.

A união de forças entre os dois países, algo previamente inusitado, parece estar próxima. Caso se concretize, será um choque para os Estados Unidos e um reforço aos equívocos das políticas da Casa Branca para o Oriente Médio, responsáveis primárias pelo caos que aumenta a cada instante na região e que iria muito além dos piores pesadelos de Condoleezza Rice e George W. Bush caso o Irã se firme como força essencial à definição do futuro do Iraque.

Correio da Cidadania
http://www.correiocidadania.com.br/

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Opinião: Com a aproximação dos Jogos Olímpicos, os chineses são instados a ser “civilizados”

Howard W. French

Não demora muito, haverá tantas reportagens nos noticiários relacionadas aos Jogos Olímpicos da China que todos, com exceção do mais dedicado fã dos esportes, estarão ansiiosos pelo fim dos Jogos de Pequim.

Cada vez que aterrisso no aeroporto de Pequim e sou bombardeado com as promoções dos jogos na longa fila de táxi, dedico um pensamento simpático aos moradores da capital, que talvez já se sintam assim.

Se for o caso, devem fazê-lo clandestinamente, já que a mensagem pouco sutil que vem do alto sobre os jogos é: “Aprecie-os, tenha orgulho de seu país, não envergonhe seu país e, especialmente, não ouse causar um incidente.” Sob as circunstâncias, não há muito espaço, publicamente, nem mesmo para um sorriso um pouco amarelo diante da grande diversão.

É a festa de debutante da China e, como inúmeros outros observarão no tempo devido, o equivalente às Olimpíadas de Tóquio de 1964, quando o Japão anunciou sua volta ao vigor depois da devastação da guerra, junto com sua chegada como poder econômico de primeira linha.

A China, como o Japão, que criou seus trens-bala para a ocasião, deseja criar novas associações para sua “marca” nacional. Os temas talvez não sejam anunciados explicitamente, mas podem ser facilmente intuídos: moderna, tecnologicamente avançada, voltada para o futuro.

Apesar disso, deve-se dizer que há algo bem tradicional em todo esse negócio. Estou falando do esforço de inculcar nas massas como devem se comportar e como devem se sentir e o afunilamento de uma nação por trás de um único objetivo, voltado para o prestígio.

Ao mesmo tempo, a China está colocando astronautas em órbita, enviando foguetes à Lua e falando em construir sua própria estação espacial. Não estou querendo levantar objeções, mesmo que questões ambientais, científicas ou sociais mereçam ser levantadas, como prioridades orçamentárias em uma terra onde, apesar do crescimento econômico extraordinário, as necessidades de moradia, saúde e educação em grande parte ainda não foram satisfeitas.

Tais questões não serão levantadas, é claro, porque o questionamento público das prioridades nacionais, em geral, ainda não existe na China. Os objetivos do povo ainda são determinados para ele.

Observo a qualidade de déjà-vu dos jogos e do programa espacial para ressaltar como é convencional o pensamento do governo sobre o que significa ser moderno e sobre o que mais faria bem à imagem deste país.

Dá para detectar esse pensamento convencional na arquitetura gigantesca que está transformando as cidades chinesas. Com arranha-céus sem cara a imponentes subindo em toda parte e prédios brilhantes eletrônicos, ou seja, os projetos de prestígio que estão proliferando, há pouco espaço para bairros de verdade, para a vida em uma escala íntima humana e, mais irônico de tudo em um país de 5.000 anos de história orgulhosa, até para a celebração do passado.

Ainda assim, mais desse pensamento convencional é evidente nas várias campanhas de comportamento que antecedem os jogos e a Shanghai’s World Expo, o segundo ato da festa de debutante global da China, que acontecerá em 2010.

O povo chinês está sendo exortado a ser “civilizado”, uma palavra tirada diretamente de muitos dos cartazes e lemas. O Estado babá chinês implora que pare de cuspir, forme filas, respeite os sinais de trânsito ao atravessar a rua e assim por diante.

Boas idéias, mas há algo tocante sobre a corrida súbita de martelar essas mensagens em tempo da chegada de multidões de estrangeiros: deixa uma sensação que a aparência e a imagem importam mais do que a substância nessas coisas. Afinal, o comportamento totalmente negligente era aceitável até agora.

Entretanto, se dar a impressão certa é prioridade, gostaria de contribuir com outra sugestão que pode ir longe. Há quatro anos morando em Xangai, a cidade mais cosmopolita da China, fico chocado em como as pessoas parecem acreditar que existe um enorme vão entre chineses e estrangeiros.

Descobri isso primeiro por meio do meu hobby, fotografia, que me levou a caminhar pelos bairros operários da cidade, onde em cada esquina ouvia gritos de “lao wai”.

As palavras constituem uma gíria grosseira para estrangeiro. Literalmente, significam “velho estranho”.

Freqüentemente, esses murmúrios são acompanhados de gozações, ou de pessoas dizendo “olá”, como se estivessem cantando. O tom é inconfundível, é não é amigável. Isso não quer dizer que é hostil, tampouco, mas é dito de uma forma que sugere que os estrangeiros não são meramente uma novidade aqui, o que certamente não deveria mais ser o caso nesta altura, mas também objeto de ligeira zombaria.

Não faço essas observações para reclamar e não é que eu esteja magoado.

Sinto genuína gratidão por muitas pessoas que deixaram este estranho entrar em suas casas e não fizeram objeções que eu as fotografasse de perto.

De fato, se os gritos de “lao wai” tivessem sido limitados aos bairros operários, talvez eu tivesse suprimido esta observação.

Infelizmente, não é assim. Nos hotéis e restaurantes e nas ruas do centro, aqui e em toda a China, ouvi os chineses falando alto sobre os velhos estranhos em seu meio e me perguntei como se sentiriam se todo lugar que fossem no exterior as pessoas apontassem para eles e gritassem: “Chineses!”

Nunca ouvi falar em erradicar as conversas de “lao wai” como um dos objetivos de campanha de comportamento e acho que conheço a razão. O Estado chinês há muito promove uma forma de pensar de “nós contra eles”, para aumentar a coesão e o controle. Agora, essas noções têm raízes tão profundas que se tornaram norma.

Os Jogos Olímpicos, entretanto, são, acima de tudo, uma celebração de nossa humanidade comum, e a China faria maravilhas para a impressão que deixa nos visitantes se suavizasse as distinções que faz entre nós e eles.

Herald Tribune
http://www.iht.com/pages/index.php

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Che, o imaginário do sacrifício.

Artigo de José de Souza Martins

“Guevara morto inaugurou o novo testamento de uma nova práxis política: o marxismo latino, moreno e místico”, escreve José de Souza Martins, professor titular de sociologia da Faculdade de Filosofia da USP em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, 7-10-2007. Segundo ele, “a rajada de fuzil no corpo do Che rasgou o véu do templo de nossas certezas, do alto até embaixo, libertando os medos e as contradições do nosso imaginário político místico. Um novo testamento se abriu na memória e na história dos povos latino-americanos, no marco de um realismo mágico difuso e persistente. Era o incompreendido novíssimo testamento de uma nova práxis política, de uma comunhão de sangue entre a fé e a política, o misticismo de uma reprimida esperança, messiânica e milenarista”.

Eis o artigo.

“Os meses e anos seguintes àquele meio de tarde de 9 de outubro de 1967, quando Ernesto Che Guevara foi executado sumariamente por um tenente do exército boliviano, revelariam alguns dos vários mistérios que estavam contidos muito mais naquela morte do que naquela vida.

Naquele momento, ali na mata, na encosta dos Andes, no emblemático limite que separa a planície da montanha, a América branca da América indígena, e que separa também a América guarani da América quéchua, começaram várias agonias. A começar por seus algozes diretos, a maioria dos quais morreria de forma estranha e inesperada nos anos seguintes, como que executados pela espada de fogo de um vingador invisível.

A rajada de fuzil no corpo do Che rasgou o véu do templo de nossas certezas, do alto até embaixo, libertando os medos e as contradições do nosso imaginário político místico. Um novo testamento se abriu na memória e na história dos povos latino-americanos, no marco de um realismo mágico difuso e persistente. Era o incompreendido novíssimo testamento de uma nova práxis política, de uma comunhão de sangue entre a fé e a política, o misticismo de uma reprimida esperança, messiânica e milenarista.

A morte de Che desdisse muita coisa que ele não queria pessoal e conscientemente desdizer e disse muita coisa que ele não sabia estar dizendo. Che disse aos seus captores que valia mais vivo do que morto. Para o misticismo político latino-americano ele valia mais morto do que vivo. Porque só os mortos do sacrifício humano podem ressuscitar e entrar na eternidade das esperanças milenaristas tão próprias desta América sem rumo. “Saio da vida para entrar na história”, escreveu Getúlio Vargas, quando se encontrava no pórtico da morte. São poucos os que tem a coragem moral e cívica de abandonar as conveniências mesquinhas do agora e enfrentar essa passagem tenebrosa, quando ela se impõe, para servir ao povo na imortalidade generosa do sempre: Getúlio, Che, Allende. Eles sabiam que iam morrer porque o que personificavam neste mundo estava morrendo. Pouco importa se deles discordamos ou com eles concordamos. No reino do sempre e da esperança não há fraturas, não é ele um mundo racional e lógico.

O milenarismo latino-americano se expressa no rústico de libertações assim, que abrem a partir do mundo dos mortos a porta imaginária das inversões e as conversões, da busca da esperança nos contrários do que a morte rompeu.

Quando o cadáver de Che Guevara chegou a La Higuera, para a autópsia e a injeção de formol que o preservaria, da pequena multidão fazia parte uma freira, de hábito branco, que aparece nas fotos, que ria o tempo todo, misturada com militares, jornalistas e agentes da CIA, testemunhou o jornalista inglês Richard Gott, enviado pelo Guardian. O riso da freira expressava a satisfação anti-comunista de quem fora educada na religiosidade anacrônica de um mundo dividido entre o bem do capitalismo e o mal do comunismo. Mas aproximou-se do grupo, também, uma camponesa que gritava “Assassino!”, eco da propaganda militar na área. Ao ver o rosto do Che, silenciou e disse: “Meu Deus! Como ele era bonito!” Uma das fotos do corpo de Che, feitas na ocasião, foi difundida e interpretada como o retrato de um Jesus Cristo latino-americano. Os católicos progressistas se tornariam os principais apóstolos dessa ressurreição simbólica.

A morte de Che também consumou a ruptura interior da esquerda, isolou simbolicamente os partidos comunistas, esvaziou o seu apelo proletário para dotar o inconformismo social dos pobres de uma mística sacrificial que tem em Che o cordeiro da história. Inverteu o nosso imaginário de esquerda, fazendo da tradição popular e conservadora, comunitária, religiosa e anti-capitalista, o cerne de um novo socialismo, crioulo e popular, tendente ao étnico invertido. Nele, mestiços, índios e negros invertem imaginariamente a pirâmide social iníqua e branca, num projeto social e político de meios tons políticos, meios tons sociais, meios tons religiosos, meios tons econômicos, meios tons raciais.

Na captura e morte de Che começou a sucumbir o marxismo mecanicista de Louis Althusser, viabilizado pela aventura intelectual de classe média de Régis Debray, um dos primeiros prisioneiros dos militares bolivianos. Místicos ambos, criaram e viabilizaram um marxismo tomista e departamentalizado, anti-marxiano, ideologicamente útil às aventuras de classe média que se quer libertadora. A teoria do foco, de Debray, da guerrilha dos desgarrados da elite, que desencadeia a revolução dos pobres, também morreu na quebrada do Yuro.

A guerrilha de Che Guevara não se propunha a realização de uma revolução camponesa, a revolução dos pobres na Bolívia, como se supõe ainda hoje. Era apenas uma extensão geopolítica da Revolução Cubana, na perspectiva por ele proclamada de criar vários Vietnãs e por em xeque o poderio americano. No fim, Che lamentava não ter se aproximado dos camponeses da área da luta. Era tarde. Eles temiam os guerrilheiros. Por medo ou prudência, os delatavam ao exército. Ou fugiam, abandonando as plantações e as casas. Mas a guerrilha não tinha neles a menor confiança, não os via como sujeitos da suposta revolução latino-americana.

Na tarde da véspera de sua prisão e antevéspera de sua morte, uma das últimas linhas do diário de Che é relativa a uma velha camponesa, que tinha uma filha prostrada e outra meio anã, a quem os guerrilheiros deram 50 pesos para que não os denunciasse ao exército, que já os cercara. Escreveu o Che que eram “poucas as esperanças de que cumpra (a palavra) apesar de suas promessas”. Na edição eletrônica do diário, o Centro de Estudos Che Guevara, de Cuba, esclarece que “a velha das cabras nunca foi delatora, nunca falou com os militares, não denunciou o Che. Chamava-se Epifania Cabrera e já faleceu. Foi-se para a montanha com as filhas, com medo das represálias do exército.” A revolução sem povo sucumbiu ao silêncio da quebrada do Yuro. Epifania partira.”

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

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Cerrado pode desaparecer por completo em apenas 30 anos

Esta é a opinião do professor do Depto. de Zoologia do Instituto de Ciências
Biológicas da Universidade de Brasília, Jader Marinho Filho

André Augusto Castro escreve para a “UnB Agência”:

Com extensão de dois milhões de km² e ocupando um quarto do território
nacional, o Cerrado é o segundo maior bioma brasileiro. Sua área total
alcança 11 estados do país (Paraná, SP, MG, Bahia, Piauí, Ceará, Tocantins,
Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e DF) e ainda tem presença em outros
cinco (Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Amapá).

Mas ele é, acima de tudo, um bioma em grande perigo. Segundo o professor do
Departamento de Zoologia do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade
de Brasília (UnB) Jader Marinho Filho, se não forem tomadas providências
imediatas, o Cerrado pode desaparecer por completo em apenas 30 anos.

Isso acontece porque, nos últimos 50 anos, 80% da cobertura original do
Cerrado foram desmatadas. Os 20% restantes estão sob ameaça diante da
expansão do agronegócio ligado à soja.

“Nosso presidente está feliz, acreditando que o Brasil será o grande
exportador de biodiesel para o mundo. Vamos detonar o resto do Cerrado para
plantar soja e mamona”, lamenta o pesquisador. Ele alerta que, no entanto, o
bioma deveria ser protegido e aberto para a pesquisa científica.

“O Cerrado tem mais de 11 mil espécies de plantas e é um dos conjuntos de
flora do mundo para o qual mais se conhecem aplicações médicas. Temos de
vender serviços e não commodities”, afirma ele.

Unidades de conservação - A atuação da UnB na pesquisa sobre o Cerrado
remonta à década de 1960, quando a então pesquisadora, e hoje Professora
Emérita da UnB, Maria Lea Salgado-Labouriau publicou o primeiro catálogo de
pólens das espécies do bioma.

A contribuição da universidade é tão importante que foi de um encontro
nacional realizado na instituição, em 1998, que saíram as diretrizes sobre
ações prioritárias para conservação da biodiversidade do Cerrado e do
Pantanal, válidas até hoje e formalmente utilizadas pelo Ministério do Meio
Ambiente (MMA).

Além disso, a universidade guarda algumas das principais coleções
científicas específicas sobre o Cerrado. A de Marinho, sobre mamíferos, tem
cerca de 3,5 mil exemplares. O herbário da UnB tem mais de 200 mil amostras
de plantas e a coleção de répteis chega a 30 mil unidades.

Na análise de Marinho, o caminho da mudança para o Cerrado está na
incorporação do meio ambiente em todas as esferas de planejamento e execução
das políticas públicas e ações do Estado e, especialmente, na ampliação da
malha de unidades de conservação para preservar as áreas que ainda guardam
extensões contínuas do bioma.

Confira essa e outras opiniões do pesquisador na entrevista concedida à “UnB
Agência”:

Qual a importância do Cerrado para o país?

Jader Marinho - É um bioma que tem mais de 11 mil espécies de plantas, um
absurdo de riqueza biológica que só existe no Brasil. Temos um potencial mal
conhecido imenso e que estamos, literalmente, cortando pela raiz antes de
usá-lo. Estamos substituindo essa variedade toda por cinco espécies: soja,
milho, milheto, algodão e arroz. Todas culturas exóticas. Nosso presidente
está feliz, acreditando que o Brasil será o grande exportador de biodiesel
para o mundo. Vamos detonar o resto do Cerrado para plantar soja e mamona. O
agronegócio está aí e representa um dos principais mecanismos para o Brasil
conseguir o superávit primário em suas contas. Não é nada desprezível. Mas
precisamos encontrar uma maneira de conciliar isso e o desenvolvimento com a
conservação da natureza. Ao invés de vender commodities, vendamos serviços,
que são muito mais caros, têm maior valor agregado e trazem mais riquezas.

Qual seria a melhor estratégia?

Marinho - Se explorarmos esses recursos, em médio e longo prazo, poderemos
ter muito mais vantagens financeiras do que o agronegócio traz hoje. Se
apostarmos 10 ou 20 anos em pesquisas sobre a biodiversidade do Cerrado, não
exploraremos poucas espécies. O Brasil já deu exemplo disso. Ainda no
governo militar, o país criou a Embrapa, destinou recursos para formar
pesquisadores e sustentar estudos de ponta. Isso nos colocou na linha de
frente do agronegócio mundial e foi mantido em todos os governos que vieram
depois, inclusive no atual. A flora do Cerrado é um dos conjuntos vegetais
do mundo para o qual se conhece o maior número de aplicações médicas. As
populações locais a usam para dezenas de coisas. O chá de quebra-pedra serve
mesmo para problema renal. Imagine pesquisa científica sobre isso. Cerca de
50% das espécies de plantas do Cerrado só existem aqui.

Qual é o nível de risco a que o Cerrado está exposto hoje?

Marinho - O Cerrado é o bioma mais ameaçado do Brasil. Muito mais do que a
Amazônia, que hoje não é mundialmente reconhecida como em alto risco. Ela é
sexy, chama atenção por ser a maior floresta tropical e conter a maior
biodiversidade mundial. Não há dúvida quanto a isso. Mas ela caminha para
ter 20% de sua cobertura total em unidades de conservação. No Cerrado, esse
índice é de 3%. Além disso, a taxa de desmatamento é muito maior. A
conversão em larga escala do Cerrado em áreas agrícolas ou associadas à
atividade humana tem menos de 50 anos. Nesse período, já reduzimos e
transformamos definitivamente 80% de sua cobertura original. Só sobraram
20%. Nenhum outro bioma passou por isso nessa rapidez. A Mata Atlântica está
em situação gravíssima, tem apenas 5% de sua cobertura original. Mas isso
aconteceu em 500 anos. Em apenas 50, derrubamos 80% do Cerrado.

O Cerrado corre risco de extinção? Em quanto tempo?

Marinho - Sim, e caminha a passos largos para isso. As estimativas apontam
que, em 30 anos, ele pode estar completamente exterminado. Por isso, é
considerado um hot spot para conservação no mundo, está entre as 20 áreas
mais importantes. Apesar de ser uma formação do tipo savana e de guardar
semelhanças com a africana e a australiana, nenhuma delas é tão rica e
diversa quanto o que temos aqui no Brasil central. Mas nem nós estamos
preocupados com o Cerrado. Se olharmos o capítulo de meio ambiente da
constituição brasileira, veremos claramente que a Amazônia, a Mata
Atlântica, o Pantanal, a Serra do Mar e a Zona Costeira são patrimônios
nacionais. O Cerrado não está lá porque é para derrubar. O lobby ruralista
não deixou colocá-lo também nessa condição.

Apresentado há 11 anos, o Projeto de Emenda Constitucional (PEC) 115 - que
eleva o Cerrado e a Caatinga à condição de Patrimônio Nacional - foi
aprovado no dia 2 de agosto por uma comissão da Câmara dos Deputados. Agora
a proposta segue para apreciação, em dois turnos, no plenário da casa Isso
é um bom sinal?

Marinho - Pode ser um primeiro passo, mas também pode ser apenas alguma
coisa no papel como tantas outras leis e aspectos legais do país. Temos
muitas leis boas para um monte de coisas, mas aplicá-las é outra história.
Claramente, isso representa um avanço. Mas o fato de estar no Congresso
Nacional há 11 anos já mostra que não é um tema tão prioritário assim. Se
levarmos em conta os dados que temos e se a aprovação final tomar outros 11
anos, restará muito pouco para nos orgulharmos. E se levar 20 anos, talvez
nem Cerrado haja mais.

O governo conhece essas informações sobre os riscos que o Cerrado corre?

Marinho - Em alguma medida, sim. O Ministério do Meio Ambiente (MMA) tem
esses dados ou parte deles. Há técnicos qualificados para lidar com isso.
Falta um projeto nacional em relação à questão ambiental como um todo. Temos
problemas gravíssimos e o meio ambiente ainda é considerado um entrave ao
progresso. Governos brasileiros ainda não se deram conta de que a questão
ambiental é hoje um tema chave no mundo e que não se faz desenvolvimento sem
sérias preocupações e ações conseqüentes em relação ao ambiente. Isso não é
problema só do Brasil, mas temos a maior biodiversidade do planeta. Se
alguém tem tudo a perder nesse campo, somos nós. Uma em cada seis espécies
do mundo ocorre no Brasil. Temos um sexto da biodiversidade mundial. Nós
somos o Bill Gates da biodiversidade mundial. Somos nós que temos de cuidar
do nosso patrimônio.

A soja é a maior inimiga do Cerrado?

Marinho - No momento, sim, por representar a agricultura mecanizada, de
larga escala e alta produtividade. Mas essa mesma agricultura que degrada
pode ser aquela que, junto com o esforço conservacionista, preservará.
Inclusive para obter ganho de produtividade. Porque mantendo a diversidade
biológica do bioma, mantemos os predadores das pragas (e gastamos menos em
defensivos), mantemos os processos da natureza em ordem (e perdemos menos
com erosão, catástrofes climáticas). Falamos de soja como se fosse algo que
pudesse se perpetuar por 300 anos. Mantidos os cenários atuais, talvez em 20
ou 30 anos não se consiga plantar mais nada no Brasil central. Temos de
planejar agora para usufruir disso no futuro. Se tirarmos o Cerrado e sua
cobertura vegetal talvez nem água tenhamos para irrigar essas lavouras.
Talvez alteremos definitivamente os ciclos de chuva.

Quais são os maiores inimigos do Cerrado?

Marinho - A ignorância! Precisamos conhecer melhor o bioma. Isso não é culpa
nossa (dos cientistas) e sim da falta de políticas nacionais relacionadas à
questão ambiental como um todo. O que falo para o Cerrado vale para a Mata
Atlântica, a Amazônia, a ‘pobrezinha’ da Caatinga ou o Pantanal. Estamos
destruindo nosso ambiente em ritmo muito acelerado. O não uso do
conhecimento já existente para tomada de decisão também é um erro grave. A
informação existe e é deliberadamente ignorada. Os políticos tomam decisões
sem consultar dados científicos. Temos uma comunidade de pesquisadores
pujante e ativa. O país investiu muito nisso. Mas e aí? Não usamos a
informação que vem disso. Geramos dados que são solenemente ignorados porque
o compromisso dos políticos é mesquinho, pequeno, preocupado com o votinho
de cada eleição. A ignorância é um problema sério!

O que se pode fazer para mudar a situação?

Marinho - Incorporar a dimensão ambiental a todo e qualquer processo de
planejamento, desde o início. Não se faz uma hidrelétrica e depois se
concerta o problema. Temos de evitá-lo desde o projeto. Isso custa caro?
Sim! Mas o que sai mais caro: não errar ou corrigir o erro depois?
Precisamos ter visão de futuro e ter estratégias, não apenas tapar buraco ou
apagar incêndios aqui e ali. Programas de três ou cinco anos são bobagens.
Temos de pensar o que o Brasil quer ser daqui a 20 anos e em como
construiremos essa base hoje. E não podemos deixar o meio ambiente de fora.
Esse é nosso maior patrimônio e precisa ser incluído em todas as esferas de
planejamento e execução.

E imediatamente?

Marinho - Ampliar a malha de unidades de conservação. Localizar as maiores
extensões contínuas de Cerrado e estabelecer grandes áreas de proteção que
nos permitam manter todos os processos ecológicos da natureza. Não se
consegue isso numa extensão de terra do tamanho do Parque Nacional de
Brasília. Consegue-se, sim, em grandes extensões de território. Precisamos
de um grande esforço de conservação onde ainda há Cerrado. Não podemos mais
derrubá-lo para plantar soja. Podemos trabalhar e aproveitar as áreas já
devastadas e abandonadas. Temos de declarar a moratória de derrubada do
Cerrado: não se desmata mais! Com 20% da cobertura sobrando, temos de
conservar, e bem, tudo. Detonamos quatro quintos do que tínhamos e usamos
isso mal.

UnB Agência

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Por que a Billings agoniza?

Do Diário do Grande ABC

São lançadas 800 toneladas de esgoto/dia in natura na represa e lençóis freáticos por 1,5 milhão moradores de mananciais da Billings e Guarapiranga.

São bombeadas 654,5 toneladas/dia em média de esgoto, diluído ou não, pelas águas da chuva que desembocam na represa pelo canal do rio Pinheiros.

Nos últimos três anos, estima-se o desmatamento de 1 milhão de m2. Apesar das perdas, 70% da bacia da Billings ainda tem preservação aceitável.

Até bem pouco tempo, as pocilgas (locais de criação de porcos) eram uma das principais fontes de renda no entorno da represa. Os espaços chegaram a abrigar cerca de 10 mil suínos. Esses locais foram extintos.

Calcula-se que haja cerca de mil pontos clandestinos de depósito de lixo doméstico e industrial em terrenos e estradas no entorno da represa.

Por anos a Billings foi contaminada por chorume proveniente dos lixões de Santo Amaro, em São Paulo, e Alvarenga, no Grande ABC.

Flotação do rio Pinheiros: o projeto do governo do Estado tem capacidade para retirar 65% do material em suspensão nas águas e aumentar a geração de energia da Usina Henry Borden, em Cubatão. Para obter esse ganho será preciso lançar as águas do Pinheiros na Billings, que passaria a receber 450 milhões de m2 de água, teoricamente tratada antes de ser bombeada para a represa.

Asa Sul do Rodoanel Mário Covas: parte dos 53,7 quilômetros dessa fase do anel viário cortam a Billings. O governo do Estado, executor da obra, admite que o empreendimento destruirá 297 hectares de formações florestais e 123 nascentes. Também há o risco de que a contaminação por mercúrio do sedimento da represa se dilua na água durante as obras.

Diário do Grande ABC
http://home.dgabc.com.br/

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Em 81 anos, Billings encolhe 20%

Rodrigo Cipriano
Do Diário do Grande ABC

Relatório de impactos ambientais da Billings feito pelo Proam (Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental) aponta que a represa perdeu 20% de sua capacidade de armazenamento nos seus 81 anos de existência, completados nesta segunda. Na década de 1920, eram 1,3 bilhão de m³ de água. Hoje, são 1,04 bilhão de m³ de água. O espelho d’água da Billings também encolheu no período: passou de 123 km² para cerca de 100 km².

Como causas desse problema, o estudo aponta o desmatamento da vegetação no entorno da represa, deixando desprotegido o solo e acelerando o processo natural de escorregamento da terra para dentro do reservatório, causando o assoreamento da represa. Outro reflexo do desmatamento seria o recuo da mancha de neblina, que cobria todo reservatório, até o bairro do Ipiranga, em São Paulo. A falta de áreas verdes alterou o clima e, segundo o Proam, hoje há um recuo de oito quilômetros dessa mancha.

Além disso, a Billings sofre com a formação de bairros irregulares e lixões clandestinos nas suas margens e com o despejo de esgoto in natura. Nos sobrevôos de helicóptero para o levantamento fotográfico da represa, os ambientalistas encontraram absurdos, como um toboágua com cerca de dez metros de altura e uma trilha de jipeiros cujo circuito passa sobre dutos de nafta – material altamente explosivo – no braço Rio Pequeno da Billings.

“O Estado não tem aparato de fiscalização para reprimir essas situações na represa”, afirmou o ambientalista Carlos Bocuhy, presidente da Proam. O Dusm (Departamento de Uso do Solo Metropolitano), responsável pela tarefa, tem uma equipe formada por apenas cinco ficais para atuar em uma área seis vezes maior que a cidade de São Caetano. “Com esse número de pessoas é impossível cobrir toda represa”, admitiu Maria do Carmo Maruca Nartis, supervisora da equipe do Dusm que fiscaliza a Billings.

Segundo a supervisora, dentro desse contexto, a fiscalização recai sobre os municípios. Das sete cidades do Grande ABC, cinco são banhadas pela represa – exceção apenas a São Caetano e Mauá. Parte das administrações disponibiliza equipes para o trabalho.

Procuradas pela reportagem, apenas a Prefeitura de São Bernardo se pronunciou. Na cidade, o trabalho é feito por 20 pessoas. Ainda assim a taxa de ocupação em mananciais do município quase dobrou desde 1997, saltando de 120 mil para 210 mil.

Nenhuma das outras Prefeituras informou até o fechamento desta edição como é feito o trabalho de fiscalização. Nem informaram quantas pessoas moram hoje no entorno da Billings ou qual é o crescimento dessa ocupação. Procurada pela reportagem, a Emae (Empresa Metropolitana de Águas e Energia) – autarquia do governo do Estado responsável pela represa – também não se pronunciou sobre as conclusões do relatório do Proam.

Instituto – O relatório de impactos ambientais na represa Billings é elaborado desde 1993 todos os anos pela Proam e tem como base a atualização de dados coletados para elaboração do Dossiê Billings, alicerce da campanha Billings Te Quero Viva! A ONG tem como finalidade criar ferramentas para tornar o ambiente saudável dentro de grandes áreas urbanas.

Instituto quer preservação das cabeceiras

O Proam (Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental) protocolou na manhã desta segunda na Secretaria de Estado do Meio Ambiente um pedido para transformar em APAs (Áreas de Proteção Ambiental) os campos naturais da Serra do Mar, localizados nas cabeceiras da represa Billings. São áreas estratégicas, que asseguram manutenção do nível do reservatório, absorvendo a água das chuvas que vêm do oceano.

A lista de campos naturais apresentada pelo Proam inclui os braços do Rio Grande e do Rio Pequeno da Billings, além do reservatório do Rio das Pedras, que abastece o Sistema Cantareira. Desses locais vêm quase toda água que é consumida no Grande ABC.

Mas essa não é a primeira vez que se cria um movimento para tentar preservá-los. Em 1995, antes da aprovação da lei que estabelecia as APAs – o que só ocorreu em 2000, com a lei federal 9.885 –, o instituto ambiental encaminhou o pedido de tombamento das áreas ao Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo), mas o processo não teve andamento.

Caso seja aprovada a transformação em APA dos campos naturais da Serra do Mar, será criado um conselho gestor que terá a missão de estabelecer políticas públicas para a preservação dessas áreas. “Esse é um acordo social que permite várias alternativas, que vão da restrição de atividades degradantes nos campos ao estímulo na implantação de empreendimentos que assegurem a preservação das áreas”, afirmou Carlos Bocuhy, presidente do Proam.

Para a transformação dos campos em APAs, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente precisa elaborar um estudo que determina a extensão da área beneficiada e os motivos que justificam sua preservação. Aí, basta assinar um ato administrativo. “Até o próximo aniversário da Billings, o processo tem que estar finalizado. Já estamos muito atrasados nessa área, mesmo porque a necessidade de conservar essas áreas é um consenso entre todos”, disse o ambientalista.

Diário do Grande ABC
http://home.dgabc.com.br/

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Poucas palavras

Sete em cem crianças têm algum grau de dificuldade para aprender corretamente a língua materna - embora sejam saudáveis e tenham desenvolvimento normal.

Christina Kauschke

No início tudo parecia correr bem com o desenvolvimento de Daniel. Aos 12 meses, ele falou as primeiras palavras. E ficou nisso. Aos 2 anos e 8 meses, balbuciava apenas “au-au”, “mama”, “aqui”, “não” e “oi”. Nessa fase, outras crianças já dominam algumas dezenas de expressões, substantivos e verbos. Enquanto os amiguinhos de classe de Daniel combinavam muito bem palavras e até frases, ele se expressava com um único vocábulo. Dizia simplesmente “au-au” quando seus coleginhas já formulavam: “Vamos brincar com o cachorro?”.

Ao contrário de Daniel, a maioria das crianças aprende a língua materna sem muito esforço. As origens dessa dificuldade ainda são mistério, já que ele sempre se mostrou uma criança esperta, sociável, de inteligência normal, saudável, sem problemas locomotores nem de audição. Os pais se perguntavam, apreensivos, se o garotinho teria um desenvolvimento normal.

Sete por cento das crianças da mesma idade têm problemas parecidos: sofrem de dificuldade específica no desenvolvimento da linguagem.

Pesquisadores como o psicólogo Laurence B. Leonard, da Universidade Purdue, Indiana, Estados Unidos, usam essa denominação quando o déficit se apresenta como problema central e único - diferentemente, por exemplo, do que ocorre com crianças autistas, cujas dificuldades lingüísticas estão entre as várias conseqüências da deficiência.

Os pediatras diagnosticam o distúrbio quando, usando critérios de exclusão, eliminam todas as outras causas potenciais, tais como danos provocados por traumatismos cranianos ou epilepsias; retardo mental; comprometimento ou má-formação do aparelho da fala (como lábio leporino); dificuldades de audição (desencadeadas, por exemplo, por inflamações no ouvido médio) e perturbações emocionais ou sociais importantes (como autismo). Dificuldades de linguagem freqüentemente estão ligadas a todas essas ocorrências.

Muitos pesquisadores, porém, consideraram esses critérios de exclusão insuficientes para o diagnóstico e se esforçaram para definir positivamente o distúrbio, descrevendo suas características. Usaram como critério os eventuais atrasos no início ou no processo de desenvolvimento da linguagem e o conhecimento limitado da língua (no que se refere à pronúncia, ao vocabulário ou à gramática) - o que influi na compreensão e na pronúncia.

O desenvolvimento de Daniel foi marcado pelo adiamento do início da fala. Assim como outras crianças com o mesmo problema, aos 2 anos ele tinha um vocabulário com menos de 50 palavras e era incapaz de fazer combinações entre elas. De 30% a 50% dessas crianças se recuperam até o terceiro ano de vida e se desenvolvem normalmente - elas apenas são mais lentas no processo de aquisição da linguagem. Outras, porém, não conseguem fazer essa conexão após os 3 anos, e se sua capacidade de falar não for estimulada a tempo por uma terapia eficaz, os problemas poderão se consolidar ao longo da fase pré-escolar.

“Vidros para ver”
Os pais de Catarina, 5 anos, observaram na filha dificuldades que revelavam problemas com a gramática. A garotinha expressava-se com frases como: “Não quer ele descer”, “Ele sai gramado fora” ou “Então portão tranca”. Era especialmente difícil para ela colocar o verbo no lugar correto; conjugava-os de forma equivocada ou não os flexionava; não usava artigos; atrapalhava-se com o plural; suprimia preposições como “na” (”já estou escola”); suas frases soavam estranhas, e nem sempre ficava claro o que queria dizer.

Os problemas de Estevão, 6 anos e meio, eram de outro tipo. Ele tinha dificuldade para encontrar as palavras que desejava usar. Já nos primeiros meses da pré-escola as professoras constataram que ele não conhecia muitos vocábulos e conceitos - e não podia fazer com segurança uso do saber adquirido. Disfarçava isso com uma pronúncia pouco clara ou simplesmente interrompia as frases. Quando tinha de descrever imagens, trocava os substantivos que não encontrava por palavras semelhantes, de forma bastante criativa, buscando “desvios” para formar as próprias palavras ou expressões. Usava, por exemplo, “boneco de ar” para designar uma pipa. Ou parafraseava a seu modo: em vez de lua, dizia “sol à noite”; banco, para ele, era “cadeira de parque”. Óculos, “vidros para ver”.

Quando, por exemplo, via a imagem de uma zebra, dizia: “cavalo, pato, vaca e bra”. Esse artifício lhe trazia problemas. Tinha consciência de sua dificuldade e freqüentemente reagia com agressividade ou tentava escapar de conversas, evitando o convívio com outras pessoas. Em muitas ocasiões Estevão não empregava verbos ou então recorria a alguns de sentido mais geral, como “fazer” - colher era substituído por “fazer maçãs sair”. Também trocava palavras que indicam ação: quem bocejava, para ele, simplesmente “abria a boca”.

Em um estudo na Universidade de Potsdam, Alemanha, em 2005, constatamos que esses sintomas são típicos de crianças com dificuldade específica no desenvolvimento da linguagem. Dez delas usavam substantivos e verbos com mais esforço que as integrantes de um grupo de controle de meninos e meninas da mesma idade sem déficit lingüístico.

O que intriga os pesquisadores é o fato de tantas crianças, como Estevão, desenvolverem problemas de linguagem tão nítidos enquanto o desenvolvimento em outras áreas transcorre normalmente. Há vários indícios de influências genéticas, pois perturbações da fala surgem mais em meninos que em meninas e são mais freqüentes em algumas famílias. Crianças com o distúrbio muitas vezes têm pelo menos um parente com problemas na fala. Estudos com gêmeos também mostram que esse tipo de perturbação é significativamente mais freqüente em univitelinos que em bivitelinos. Mas, mesmo sem antecedentes, o transtorno pode aparecer por diversas outras razões, por exemplo nos déficits auditivos, especialmente quando os estímulos acústicos são rapidamente encadeados. Em certos casos, o aparelho auditivo infantil demora a amadurecer. Estudos recentes indicam que algumas pessoas acometidas pelo distúrbio têm alterações em certas áreas do hemisfério direito. A neuropsicóloga Dorothy Bishop, da Universidade de Oxford, chama essa descoberta de “irregularidade neuroanatômica” e a avalia como fator de risco para o distúrbio.

Diversas pesquisas desarmam o argumento comum segundo o qual os problemas da fala seriam desencadeados pelo fato de os pais falarem pouco com os filhos ou usarem linguagem empobrecida. Mesmo quando os pais atribuem alto valor à língua materna, preocupam-se com o uso correto do idioma e passam muito tempo com seus filhos, o risco de desenvolvimento do distúrbio não está afastado.

Como o pesquisador Laurence Leonard já relatou em 1998, pais de crianças com perturbações no desenvolvimento da linguagem se comunicam da mesma forma que pais de filhos normais - eles conversam com os pequenos, incentivam a interação social e usam estruturas verbais complexas. No entanto, algumas diferenças são extremamente sutis. Os especialistas acreditam que, com a intenção de não sobrecarregá-los, os pais se adaptam às possibilidades limitadas dos filhos. Perturbações no desenvolvimento da fala não surgem porque a criança está exposta a uma linguagem empobrecida, mas porque ela pode aproveitar menos aquilo que ouve.

É claro que também há crianças que, por causa de suas condições de vida, estão muito distantes da língua que devem aprender. Como às vezes ocorre com pessoas que crescem entre dois idiomas: por exemplo, um menino espanhol que vive com a família no Brasil e mantém pouco contato com brasileiros. Ele poderá falar português de uma forma que, observada superficialmente, dá impressão de que há uma perturbação no desenvolvimento da fala. A diferença decisiva, no entanto, é que tais crianças dispõem das aptidões necessárias para assimilar e processar a oferta lingüística. É preciso justamente aumentar seu contato com a língua, ou seja, que mais pessoas falem português ao seu redor - seja na pré-escola, seja em cursos de idiomas.

Monika Rothweiler estuda a aquisição de linguagem na Universidade de Hamburgo. Ela observou que em filhos de imigrantes o multilingüismo, por si só, não desencadeia perturbação do desenvolvimento da linguagem nem agrava manifestações existentes. “Algumas crianças usufruem pouco da maior oferta de informações verbais porque seus mecanismos de aprendizado não funcionam efetivamente; elas constroem um saber lingüístico próprio, mas com muita dificuldade”, diz Dorothy Bishop. Para ela, os principais motivos desse quadro são elaborações neurais insuficientes para representação da língua. Por isso, o cérebro aprende com mais esforço e lentidão, e o conteúdo adquirido permanece suscetível à perturbação.

Fica clara a importância de apoiar as crianças de forma persistente. Se elas não podem usufruir adequadamente daquilo que lhes é oferecido no cotidiano, precisam de um estímulo mais intensivo: ambiente de aprendizado mais favorável e informações bem direcionadas. Terapia pode oferecer tais condições à medida que, por um lado, coloca à disposição estímulos lingüísticos ricos, de forma que a criança possa assimilá-los melhor e, por outro, estimula os mecanismos de elaboração infantil.

O que isso significa na prática? Quando completa 2 anos já é possível saber se a criança apresenta atrasos no desenvolvimento da fala. Nesse caso, os pais não devem simplesmente esperar que a situação mude, mas acompanhar de perto o desenvolvimento lingüístico e geral do filho e buscar a avaliação de um profissional - fonoaudiólogo, foniatra ou pediatra — que possa indicar o acompanhamento mais adequado. Os pais serão, provavelmente, submetidos a uma anamnese (entrevista detalhada para fornecer dados ao especialista e ajudá-lo a se inteirar do processo de desenvolvimento infantil). Um teste de vocabulário poderá mostrar quanto a criança de fato assimila conhecimentos.

Pais e terapeutas devem dedicar muita atenção para a faixa etária entre 24 e 30 meses. Se nesse período não são constatados indícios de recuperação do atraso, o apoio psicoterapêutico é recomendável, entre outras razões para oferecer à criança o suporte emocional para lidar com essa dificuldade específica. Mesmo no caso das que parecem se recuperar por volta dos 3 anos, é preciso avaliar cuidadosamente se o que a mudança de comportamento realmente revela é uma reabilitação. O lingüista suíço Zvi Penner, cujos programas para facilitar a aquisição da língua começaram a ser usados por pré-escolas alemãs, fala da “falsa recuperação”, da “melhora simulada”. Segundo ele, é possível que os pacientes apenas criem estratégias de compensação, usando o idioma de maneira discreta e superficial.

O que é um erro?
Outra razão de equívoco na avaliação decorre da atenuação dos problemas ao fim da idade pré-escolar. Entretanto, quando a criança aprende a ler e escrever as dificuldades se tornam mais visíveis. É importante checar se as manifestações estão de acordo com a idade. A criança de 2 anos faz pequenas combinações de palavras como “brincar também”, típicas dessa faixa etária. Mas se no ano seguinte não puder construir frases de forma mais completa, há um indício de problemas. Aos 3 anos, as substituições de letras ainda são comuns. Por volta dos 5 anos isso já não é mais adequado.

Há controvérsias sobre qual é a melhor terapia para reverter esse distúrbio. Recomendamos que os terapeutas trabalhem objetivamente com a criança, de maneira individualizada, em áreas lingüísticas específicas. É fundamental prestar atenção à manifestação particular da perturbação, à idade e à personalidade do paciente. Devem-se oferecer métodos variados, combiná-los e ajustá-los de acordo com cada situação. Daniel, Catarina e Estevão foram submetidos a essas técnicas terapêuticas no Instituto de Lingüística de Potsdam, Alemanha.

Em geral, nesses casos são usados exercícios nos quais a criança desenha imagens que se ajustam a frases. É comum que o terapeuta leia pequenas histórias em voz alta ou nelas insira enredos nos quais aparecem exatamente as estruturas que estimulam a aquisição da língua, por exemplo alternando propositalmente orações principais e orações subordinadas.

É preciso explicar aos pacientes quais são as diferenças entre palavras foneticamente similares, como “mola” e “bola”; e apresentar questões de gramática: “Leu sob/sobre o efeito do remédio”. Essa comparação entre vocábulos ou expressões é chamada contraste. Já a modelagem (sugerida pelo terapeuta e pedagogo alemão Friedrich M. Dannenbauer) tem o objetivo de retomar manifestações verbais da criança e repeti-las de forma corrigida ou ampliada. Exemplo: Catarina diz: “E sai ele gramado fora”, e o terapeuta retruca: “Ah, ele sai e vai para o gramado?”.

Por meio de outra técnica, a metalinguagem, o terapeuta explica relações entre os termos: aponta palavras que soam de maneira idêntica mas têm diferentes significados dependendo da construção (é o caso de “pára”, conjugação do verbo parar, e da preposição “para”). Outra preocupação é chamar a atenção do paciente para o papel e para a posição do verbo na frase.

Após alguns meses de terapia, Daniel aprendeu a combinar as palavras e ampliou seu vocabulário. Por fim, apropriou-se dos verbos, que compõem o fundamento para a construção de frases: depois de interiorizar significados de ações como “comprar”, “lavar” ou “costurar”, esses verbos foram relacionados às suas respectivas peças de vestuário: “comprar calça”, “lavar calça”, “costurar calça”. Foram então incorporados outros termos e, aos poucos, ele aprendeu a construir suas próprias frases. Depois foi a vez de nos dedicarmos ao aperfeiçoamento da pronúncia. Ao fim da terapia, ele já não apresentava problemas de comunicação e seu desempenho escolar melhorou significativamente.

Catarina também fez nítidos progressos na terapia. Aprendeu a reconhecer e a empregar regras de sintaxe. Desviamos sua atenção para o posicionamento correto do verbo, mostrando-lhe a diferença entre oração principal e oração subordinada. Com o passar do tempo, suas manifestações verbais tornaram-se cada vez mais adequadas à estrutura correta da língua.

Escamas e penas
Estevão precisou aprender, em primeiro lugar, a lidar com a frustração e a raiva que sentia quando deparava com a dificuldade de encontrar as palavras certas, ou seja, de simplesmente procurar conceitos - sem se irritar quando elas não apareciam imediatamente. Ao mesmo tempo esclarecemos a ele as características dos termos com perguntas como: “Que bichos têm pêlos, que bichos têm penas, que bichos têm escamas?” ou “Quais nadam, quais voam e quais andam?”. Assim, ele pôde preencher lacunas no vocabulário e armazenar conceitos afins de forma ordenada. Depois, treinamos com ele o emprego objetivo de palavras.

Ao fim do acompanhamento, o garoto mostrou-se mais seguro. Se ele não se lembrava de uma palavra - ou a desconhecia - já não reagia mais com agressão ou negação, mas partilhava seu problema, falava sobre a dificuldade de forma tranqüila. A freqüência com que usava frases interrompidas diminuiu e a pronúncia se tornou mais clara. Com isso, constatamos que ele de fato tinha dificuldade com a gramática e isso pôde ser trabalhado em outra fase da terapia.

Nossa conclusão é que os distúrbios específicos da fala prejudicam o desenvolvimento infantil e podem surtir efeitos negativos sobre o percurso escolar e o comportamento social. Tendo em vista a relação entre o diagnóstico fonoaudiológico precoce e as melhorias alcançadas no tratamento, os pais não devem se contentar com a recomendação de “esperar” quando percebem que seu filho pode ter um atraso no desenvolvimento da fala. As crianças se sentem mais seguras quando as palavras fluem facilmente.

Sinais de alerta
Se uma criança fala pouco aos 24 meses, o fonoaudiólogo deve considerar:

Se há problemas semelhantes na família;
Como transcorreram a gravidez e o nascimento;
Se houve ocorrências de internações hospitalares;
Como foi o desenvolvimento geral da criança;
Se a criança emitiu sons (como “gugu-dadá”) no primeiro ano de vida (é com tais exercícios que ela treina seu aparelho da fala);
Quando disse as primeiras palavras;
Como se comunica com seus pais e com outras crianças;
Se há indícios de que a criança está consciente de suas dificuldades;
Que palavras e frases utiliza;
Quais e quantas palavras compreende.

Retrato do problema
Dezoito por cento dos bebês nascidos em um mesmo ano têm problemas no aprendizado da língua materna sem motivo aparente. Aos 2 anos, as crianças com dificuldade falam menos de 50 palavras e não formam frases.

Algumas recuperam o atraso, mas 7% lutam contra uma perturbação específica no desenvolvimento da língua. Embora sejam crianças saudáveis, precisam de tratamento específico.

Esperar não é uma boa solução. No mais tardar, aos 3 anos elas devem passar por terapia fonoaudiológica planejada individualmente, para prevenir perturbações que muitas vezes aparecem na fase de alfabetização.

Para conhecer mais
A origem da linguagem. Eugen Rosenstock-Huessy. Record, 2002.

Causatividade: um estudo longitudinal de suas principais manifestações no processo de aquisição do português por um criança. R. A. Figueira. Tese de doutorado inédita, IEL-Unicamp, 1985.

Children with specific language impairment. L. B. Leonard. The MIT Press, 1998.

Centro de psicolingüística e patolingüística de Potsdam: www.patholinguistik.de.

Revista Mente e Cérebro
http://www2.uol.com.br/vivermente/

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O Katrina dos subúrbios

O urbanista Mike Davis, morador de San Diego e crítico das implicações ambientais do capitalismo, fala sobre os incêndios na Califórnia

ERNANE GUIMARÃES NETO

Em sua casa em San Diego, uma das cidades mais atingidas pelo incêndio que causou mais de US$ 1 bilhão em prejuízos na Califórnia, Mike Davis diz que prefere ver as notícias pela TV de língua espanhola. “Só eles falam do que acontece fora dos EUA.”
Para Davis, a incapacidade norte-americana de enxergar o mundo exterior explica inclusive o incêndio iniciado no domingo passado, que desalojou mais de 500 mil pessoas no Estado. Segundo ele, em vez de aprender com casos anteriores e com os prognósticos dos cientistas, os habitantes da região limitaram-se a eleger bodes expiatórios: os imigrantes. Na entrevista abaixo, feita por telefone na quarta-feira, no auge do incêndio, Davis explica a situação na Califórnia -e a crise ambiental mundial- por meio da interação entre política e pobreza.
“O clima tira pessoas do campo, as cidades não estão preparadas para prover residência, trabalho e água. Essas coisas têm de ser vistas em conjunto.”

FOLHA - O sr. não teve de deixar sua casa?
MIKE DAVIS - Vivo num bairro antigo perto do centro, predominantemente “latino”. Estamos seguros, mas cobertos de fumaça. A área onde mais pessoas abandonaram suas residências e mais casas foram destruídas fica no norte. A metade norte de San Diego e seus subúrbios formam um padrão contínuo de comunidades cercadas, com a maior concentração geográfica de votos republicanos dos EUA. Por isso temos aqui o oposto de Nova Orleans [onde o furacão Katrina matou cerca de 1.800 pessoas e deixou centenas de milhares de desabrigados em 2005].
FOLHA - É o “Katrina dos Ricos”?
DAVIS - É o Katrina Republicano ou o Katrina dos Subúrbios. É claro que muitas pessoas comuns vão sofrer mais, mas no momentos são invisíveis. A mídia enfatiza comunidades ricas. E, enquanto Tijuana [México], nossa cidade-irmã, enviou caminhões de bombeiro para ajudar, as pessoas daqui falam que saqueadores mexicanos vão levar nossas coisas.
Estamos no meio da pior seca da história no sul da Califórnia; alguns dos maiores especialistas em clima nos EUA dizem que não é só uma seca, mas uma prévia de nosso novo clima.

FOLHA - Os incêndios deste ano na Europa têm a ver com o novo clima?
DAVIS - Os modelos elaborados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas prevêem seca e mais incêndios em regiões como a fronteira sudoeste dos EUA e o Mediterrâneo. Seja por causa de aquecimento global ou não, é exatamente o que foi previsto e o que será daqui para a frente.
Os maiores incêndios ainda devem vir, e a região que sofre a seca mais inusitada da história é o sudeste dos EUA: Geórgia, Alabama e Carolina do Sul enfrentam a possibilidade de ficar sem água potável. As florestas de lá queimariam em tal escala que este incêndio ficaria parecendo uma fogueira.

FOLHA - Os EUA não estão preparados para isso?
DAVIS - No sul, já houve pequenas secas, alguns incêndios, mas as condições criadas para incêndios agora são inéditas.
Imagine o clima do Rio de Janeiro ficando como o do Nordeste brasileiro: ninguém estava preparado, eles viviam com abundância de água.
Aqui em San Diego, 80% da água vem de fora. Os pobres que dependem da agricultura vão enfrentar a seca. Somando tudo, aumentará a desigualdade e a histeria em relação aos imigrantes. As pessoas não percebem que estão à beira de uma seca sem precedentes. O que veremos serão “guerras por água”: México contra EUA, Califórnia contra Arizona.

FOLHA - E assim a crise ambiental se tornará política?
DAVIS - É política desde o início. Afinal, dividimos mais recursos do que realmente existiam: a água do rio Colorado é dividida por todo o sudoeste americano, tomando-se por base o período de 20 anos de maior precipitação dos últimos 500 anos. E tudo isso antes da mudança climática.

FOLHA - Que acha dos incêndios para abrir pastagens no Brasil?
DAVIS - É conveniente para os ecologistas do hemisfério Norte culpar a queima da Amazônia por tudo e não olhar para o que fazemos em nossos quintais. Não vou entrar nesse simplismo: os EUA têm mais responsabilidade que qualquer outro país. Nós é que dirigimos carros maiores que tanques.

FOLHA - É preciso parar de dirigir carrões?
DAVIS - Claro. Usávamos, 25 anos atrás, carros japoneses pequenos e mais eficientes. Agora são carros de inspiração militar, os jipes gigantes. Como o governo de George W. Bush e a CIA [agência de inteligência] não encontram Osama bin Laden, passam a caçar os “ecoterroristas”: garotos que incendeiam lojas de jipes.

FOLHA - Esses são maus exemplos de consciência ambiental. Quais são os bons exemplos?
DAVIS - São os grupos ambientalistas. O problema desses movimentos é a concentração em preocupações de classe média, sem saber como fazer do clima e do lixo temas populares. No mundo todo se criam soluções, enquanto nós estamos isolados. O americano comum não tem conhecimento sobre as inovações em ecologia urbana: compartilhar carros, fazer rodízio… Mesmo nos EUA há idéias boas, mas são raramente comentadas na mídia ou ensinadas na escola.
Dá para avaliar os EUA por nossa reação a Nova Orleans, o abandono que sofreu uma das mais cidades do país mais importantes culturalmente.

FOLHA - Acha que o Katrina ensinou uma lição aos EUA?
DAVIS - Ensinou lições erradas: que afro-americanos pobres não têm peso político, que dá para esconder a inação quase criminosa. Eu havia escrito antes do Katrina sobre a ineficiência no resgate das pessoas. É como San Diego: já sabíamos que ia pegar fogo.

FOLHA - E o que os EUA aprenderão com este incêndio?
DAVIS - Essa é a questão. Esta é uma réplica ampliada do incêndio de 2003. Naquele ano não aprendemos nada. Foram destruídas 2.000 casas, as soluções surgiram nas cédulas de votação: criação de um novo distrito de bombeiros no condado, restrição do crescimento urbano em direção ao campo. Mas as propostas foram rejeitadas.

FOLHA - O que é preciso fazer para evitar a crise que se afigura?
DAVIS - O que precisamos entender é a relação entre mudança climática, agricultura de subsistência e organização da pobreza. Essas coisas interagem cada vez mais: o clima tira pessoas do campo, as cidades não estão preparadas para prover residência, trabalho e água. Essas coisas têm de ser vistas em conjunto para lidarmos com o problema.
E fronteiras são atos de violência. A fronteira com o México é pior que o Muro de Berlim. Mas não se resolve esse problema sem atacar as questões de desenvolvimento no México.
Deveríamos discutir uma idéia que assusta os conservadores deste país: algo como a União Européia, incluindo direitos aos cidadãos, seria a solução.
É necessária uma verdadeira declaração de direitos humanos, que o Acordo de Livre Comércio da América do Norte não tem. Senão, o que fica é o direito à exploração.

FOLHA - E isso teria conseqüências boas para o ambiente?
DAVIS - Claro. Nossas soluções têm sido exportar os problemas para o México: as indústrias estão mudando para o outro lado da fronteira. E a questão não é a fronteira, são direitos verdadeiros para as pessoas.

Jornal Folha de S. Paulo
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Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel

Karl Marx

Na Alemanha, a crítica da religião chegou, no essencial, ao fim. A crítica da religião é a premissa de toda crítica.

A existência profana do erro ficou comprometida, uma vez refutada sua celestial oratio pro aris et focis [oração pelo lar e pelo ócio].

O homem que só encontrou o reflexo de si mesmo na realidade fantástica do céu, onde buscava um super-homem, já não se sentirá inclinado a encontrar somente a aparência de si próprio, o não-homem, já que aquilo que busca e deve necessariamente buscar é a sua verdadeira realidade.

A religião não faz o homem, mas, ao contrário, o homem faz a religião: este é o fundamento da crítica irreligiosa. A religião é a autoconsciência e o autosentimento do homem que ainda não se encontrou ou que já se perdeu. Mas o homem não é um ser abstrato, isolado do mundo. O homem é o mundo dos homens, o Estado, a sociedade. Este Estado, esta sociedade, engendram a religião, criam uma consciência invertida do mundo, porque eles são um mundo invertido. A religião é a teoria geral deste mundo, seu compêndio enciclopédico, sua lógica popular, sua dignidade espiritualista, seu entusiasmo, sua sanção moral, seu complemento solene, sua razão geral de consolo e de justificação. É a realização fantástica da essência humana por que a essência humana carece de realidade concreta. Por conseguinte, a luta contra a religião é, indiretamente, a luta contra aquele mundo que tem na religião seu aroma espiritual.

A miséria religiosa é, de um lado, a expressão da miséria real e, de outro, o protesto contra ela. A religião é o soluço da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, o espírito de uma situação carente de espirito. É o ópio do povo.

A verdadeira felicidade do povo implica que a religião seja suprimida, enquanto felicidade ilusória do povo. A exigência de abandonar as ilusões sobre sua condição é a exigência de abandonar uma condição que necessita de ilusões. Por conseguinte, a crítica da religião é o germe da critica do vale de lágrimas que a religião envolve numa auréola de santidade.

A crítica arrancou as flores imaginárias que enfeitavam as cadeias, não para que o homem use as cadeias sem qualquer fantasia ou consolação, mas para que se liberte das cadeias e apanhe a flor viva. A crítica da religião desengana o homem para que este pense, aja e organize sua realidade como um homem desenganado que recobrou a razão a fim de girar em torno de si mesmo e, portanto, de seu verdadeiro sol. A religião é apenas um sol fictício que se desloca em torno do homem enquanto este não se move em torno de si mesmo.

Assim, superada a crença no que está além da verdade, a missão da história consiste em averiguar a verdade daquilo que nos circunda. E, como primeiro objetivo, uma vez que se desmascarou a forma de santidade da autoalienação humana, a missão da filosofia, que está à serviço da história, consiste no desmascaramento da autoalienação em suas formas não santificadas. Com isto, a crítica do céu se converte na crítica da terra, a critica da religião na critica do direito, a crítica da teologia na crítica da Política.

A exposição seguinte - uma abordagem a este trabalho - não se prende diretamente ao original, senão a uma cópia deste, à filosofia alemã do direito e do Estado, pelo simples fato de se ater à Alemanha.

Se nos quiséssemos ater ao status quo alemão, ainda que da única maneira adequada, isto é, de modo negativo, o resultado continuaria a ser anacrônico. A mesma negação de nosso presente político já se acha coberta de pó no sótão de trastes velhos dos povos modernos. Ainda que nos recusemos a recolher estes materiais empoeirados, continuaremos conservando os materiais sem poeira. Ainda que neguemos as situações existentes na Alemanha de 1843, apenas nos situaremos, segundo a cronologia francesa, em 1789, e ainda menos no ponto focal dos dias atuais.

E o caso da história alemã gabar-se de um movimento ao qual nenhum povo do firmamento histórico se adiantou a ela nem a seguirá. Com efeito, os alemães compartem as restaurações dos povos modernos, sem haver participado de suas revoluções. Passamos por uma restauração, em primeiro lugar, porque outros povos se atreveram a fazer uma revolução e, em segundo lugar, porque outros povos sofreram uma contra-revolução; a primeira vez porque nossos senhores tiveram medo e a segunda porque não o tiveram. Tendo à frente nossos pastores, só uma vez nos encontramos em companhia da liberdade: no dia de seu enterro.

Uma escola que legitima a infâmia de hoje com a infâmia de ontem; uma escola que declara ato de rebeldia todo grito do servo contra o knut, da mesma maneira que este é um knut pesado de anos, tradicional, histórico; uma escola a que a história só mostre seu a posteriori, como o Deus de Israel a seu servo Moisés, numa palavra, a Escola histórica do Direito teria sido inventada pela história alemã se já não fosse por si uma invenção desta. É Shylock, mas o criado Shylock, que por cada libra de carne cortada do coração do povo, jura e perjura por sua escritura, por seus títulos históricos, por seus títulos cristão-germânicos.

Em troca, certos entusiastas bondosos, germanistas pelo sangue e liberais pela reflexão, vão buscar além da história, nas selvas teutônicas virgens, a história da nossa liberdade. Mas, se só se encontra na selva, em que se distingue a história da nossa liberdade da história da liberdade do javali? Além disso, é fato sabido que quanto mais alguém se interna no bosque, tanto mais ressoa sua voz fora deste. Por conseguinte, deixemos em paz a selva virgem teutônica.

Guerra aos estados de coisas alemães! É certo que se encontram abaixo do nível da história, abaixo de toda critica, mas continuam a ser, apesar disto, objeto de crítica, assim como o criminoso, por não se achar abaixo do nível da humanidade, não deixa de ser objeto do verdugo. Na luta contra eles, a crítica não é uma paixão do cérebro, mas o cérebro da paixão. Não é o bisturi anatômico, mas uma arma. Seu objeto é o adversário, que não procura refutar, mas destruir. O espírito daquelas situações já foi refutado. Não são dignas de ser lembradas; devem ser desprezadas como existências proscritas. Não há necessidade da crítica esclarecer este objeto frente a si mesma, pois dele já não se ocupa. Esta crítica não se conduz como um fim em si, mas, simplesmente, como um meio. Seu sentimento essencial é a indignação; sua tarefa essencial, a denúncia.

Trata-se de descrever a surda pressão mútua de todas as esferas sociais, umas sobre as outras, a alteração geral e imprudente, a limitação que tanto se reconhece quanto se desconhece, enquadrada dentro do modelo de um sistema de governo, que, vivendo da conservação de tudo aquilo que é lamentável, não é outra coisa senão o que há de lamentável no governo. Espetáculo lamentável! A divisão da sociedade até o infinito nas raças mais diversas, que se enfrentam umas às outras com pequenas antipatias, más intenções e brutal mediocridade e que, precisamente em razão de sua mútua posição cautelosa são tratadas por seus senhores, Sem exceção e com algumas diferenças, como existências sujeitas a suas concessões. Até isto, até o fato de se verem dominadas, governadas e possuídas tem que ser reconhecido e confessado por elas como uma concessão do céu! E, por outro lado, aqueles senhores, cuja grandeza se encontra em relação inversa ao numero delas!

A crítica que se ocupa deste conteúdo é a crítica da competição. Durante a competição não interessa saber se o adversário é nobre, da mesma categoria, se é um adversário interessante; trata-se de vencê-lo. Trata-se de não conceder aos alemães nem um só instante de ilusão e de resignação. Há que tornar a opressão real ainda mais opressiva, acrescentando àquela a consciência da opressão; há que tornar a infâmia ainda mais infamante, ao proclamá-la. Há que pintar a todas e a cada uma das esferas da sociedade alemã como a partie honteuse [partes pudendas] da sociedade alemã; há que obrigar estas relações escravizadas a dançar, cantando-lhes sua própria melodia. Há que ensinar o povo a ter pavor de si mesmo, para infundir-lhe ânimo. Com isto, se satisfaz uma indisfarçável necessidade do povo alemão; as necessidades dos povos são, em sua própria pessoa, os últimos fundamentos de sua satisfação.

Esta luta contra o status quo alemão tampouco carece de interesse para os povos modernos, pois o status quo alemão é a consagração franca e sincera do antigo regime, e o antigo regime, a debilidade oculta do Estado moderno. A luta contra o presente político alemão é a luta contra o passado dos povos modernos; as reminiscências deste passado continuam a pesar ainda sobre eles e a oprimi-los. É instrutivo para estes povos ver como o antigo regime, que neles conheceu sua tragédia, representa agora sua comédia; é instrutivo para estes povos vê-lo como o espectro alemão. Sua história foi trágica enquanto encarnou o poder preexistente do mundo e a liberdade como uma ocorrência pessoal; numa palavra, enquanto acreditou e devia acreditar na sua legitimidade. Enquanto o antigo regime e a ordem existente no mundo lutavam contra um mundo em estado de gestação, traziam de sua parte um erro histórico-universal e não de caráter pessoal. Portanto, sua catástrofe foi trágica.

Pelo contrário, o atual regime alemão, que é um anacronismo, uma contradição flagrante com todos os axiomas geralmente reconhecidos, a nulidade do antigo regime posta em evidência frente ao mundo inteiro, só imagina crer em si próprio e exige do inundo a mesma fé ilusória. Se acreditasse em seu próprio ser, acaso iria escondê-lo sob a aparência de um ser estranho e procurar sua salvação na hipocrisia e no sofisma? Não, o moderno regime antigo já não é mais do que o comediante de uma ordem social cujos heróis reais já morreram. A história é conscienciosa e passa por muitas fases antes de enterrar as velhas formas. A comédia é a última fase de uma forma histórico-universal. Os deuses da Grécia, já tragicamente feridos no Prometeu acorrentado de Ésquilo, morreram ainda outra vez, comicamente, nos colóquios de Luciano. Por que esta trajetória histórica? Para que a humanidade possa separar-se alegremente de seu passado. Este alegre destino histórico é que nós reivindicamos para as potências políticas da Alemanha.

Não obstante, tão logo a moderna realidade político-social se veja submetida à crítica, isto é, tão logo a critica ascende ao plano dos problemas verdadeiramente humanos é que se encontra fora do status quo alemão, pois de outro modo abordaria seu objeto por baixo de si mesma. Um exemplo: a relação entre a indústria, o inundo da riqueza em geral e o mundo político é um problema fundamental da época moderna. De que forma este problema começa preocupar os alemães? Sob a forma de normas protetoras, de sistema proibitivo, da economia nacional. O germanismo passou dos homens a matéria e, um belo dia, nossos donos do algodão e nossos heróis do ferro viram-se convertidos em patriotas. Assim, pois, na Alemanha começa-se pelo reconhecimento da soberania do monopólio rumo ao interior, conferindo-lhe a soberania rumo ao exterior. Isto significa que na Alemanha se começa por onde terminam a França e a Inglaterra. A velha situação insustentável contra a qual se levantam teoricamente estes países e que só são suportáveis como são suportados os grilhões, é saudada na Alemanha como a primeira luz do amanhecer de um belo futuro, que apenas se atreve a passar de uma ladina teoria à mais implacável prática. Enquanto na França e na Inglaterra o problema é colocado em termos de economia política ou império da sociedade sobre a riqueza, na Alemanha os termos são outros: economia nacional ou império da propriedade privada sobre a nacionalidade. Portanto, na França e na Inglaterra trata-se de abolir o monopólio, que chegou a suas últimas conseqüências; na Alemanha, trata-se de levar o monopólio a suas últimas conseqüências, No primeiro caso, trata-se da solução; no segundo, simplesmente da contradição. Exemplo suficiente da forma alemã que ali adotam os problemas modernos, de como nossa história, tal qual o recruta imbecil, não teve até agora outra missão senão a de praticar a repetir exercícios já feitos.

Por conseguinte, se todo o desenvolvimento da Alemanha não saísse dos marcos do desenvolvimento político alemão, um alemão apenas poderia, muito bem, participar dos problemas do presente, do mesmo modo como um russo deles pode participar. Mas, se um indivíduo livre não se acha vinculado às cadeias da nação, ainda menos livre se vê a nação inteira diante da libertação de um indivíduo. Os citas não investiram um só passo contra a cultura grega porque a Grécia contasse um deles entre seus filósofos.

Por sorte, nós, alemães, não somos citas.

Assim como os povos antigos viveram sua pré-história na imaginação, na mitologia, nós, alemães, vivemos nossa pós-história no pensamento, na filosofia. Somos contemporâneos filosóficos do presente, sem ser seus contemporâneos históricos. A filosofia alemã é o prolongamento ideal da história da Alemanha. Portanto, se ao invés das oeuvres incompletes [Obras incompletas] de nossa história real, criticamos as oeuvres posthumes [Obras póstumas] de nossa história ideal, a filosofia, nossa crítica figura no centro dos problemas dos quais diz o presente: That is the question [Eis a questão].

O que para os povos progressistas é a ruptura prático com as situações do Estado moderno, na Alemanha, onde estas situações nem sequer existem, isto significa, antes de mais nada, a ruptura critica com o reflexo filosófico destas situações.

A filosofia alemã do Direito e do Estado é a única história alemã que se acha a par com o presente oficial moderno. Por isto, o povo alemão não tem outro remédio senão incluir também esta sua história feita de sonhos entre suas situações existentes e submeter à crítica não só estas mesmas situações mas, também e ao mesmo tempo, seu prolongamento abstrato. O futuro deste povo não pode limitar-se nem à negação de suas condições estatais e jurídicas reais, nem à execução indireta das condições ideais de seu Estado e de seu direito, já que a negação direta de suas condições reais já está envolvida em suas condições ideais e a execução indireta de suas condições ideais quase a fez sobreviver ao contemplá-las nos povos vizinhos. Assim, ao reclamar a negação da filosofia, o partido político prático da Alemanha tem toda razão. Seu erro não reside na exigência, mas em deter-se na simples exigência, que não coloca nem pode colocar seriamente em prática. Acredita colocar em prática aquela negação pelo fato de voltar as costas à filosofia e de resmungar, olhando para o lado oposto, umas tantas frases banais e mal-humoradas. A limitação de seu horizonte visual não inclui também a filosofia da realidade alemã no Estreito de Bering, nem chega a imaginá-la quimericamente, inclusive, entre a prática alemã e as teorias que a servem. Exige-se uma conexão com os germes reais da vida, mas esquece-se que o germe real da vida do povo alemão só brotou, até agora, de sua caixa craniana. Numa palavra, não podereis superar a filosofia sem realizá-la.

A mesma injustiça, só que com fatores inversos, cometeu o partido político teórico, que partia da filosofia.

Este partido só via na luta atual a luta critica da filosofia com o mundo alemão, sem imaginar sequer que a filosofia anterior pertencia ela mesma a este mundo e era um complemento, ainda que apenas seu complemento ideal. Assumia uma atitude crítica frente à parte contrária, mas não adotava um comportamento crítico para consigo mesmo, já que partia das premissas da filosofia e, ou se detinha em seus resultados adquiridos ou apresentava como postulados e resultados diretos da filosofia, os postulados e resultados de outra origem, embora estes supondo que sejam legítimos - só podem manter-se de pé, pelo contrário, mediante a negação da filosofia anterior, da filosofia como tal. Propomo-nos a tratar mais a fundo deste partido. Seu erro fundamental pode resumir-se assim: acreditava poder realizar a filosofia sem superá-la.

A crítica da filosofia alemã do direito e do Estado, que encontra em Hegel sua expressão máxima, a mais conseqüente e a mais rica, é simultaneamente as duas coisas, tanto a análise crítica do Estado moderno e da realidade a ele relacionada como a negação decisiva de todo o modo anterior de consciência política e jurídica alemã, cuja expressão mais nobre, mais universal, elevada à ciência, é precisamente a mesma filosofia especulativa do direito. Assim como a filosofia especulativa do direito - este pensamento abstrato e superabundante do Estado moderno cuja realidade continua a ser o além, apesar deste além se encontrar do outro lado do Reno - só poderia processar-se na Alemanha, assim também, por sua vez e inversamente, a imagem alemã, conceitual, do Estado moderno - abstraída do homem real - só se tornou uma possibilidade porque e enquanto o mesmo Estado moderno se abstrai do homem real ou satisfaz o homem total de modo puramente imaginário. Em política, os alemães pensam o que os outros povos fazem. A Alemanha era sua consciência teórica. A abstração e a arrogância de seu pensamento corria sempre em parelha com a limitação e a mesquinhez de sua realidade. Por conseguinte, se o status quo do Estado alemão exprime a perfeição do antigo regime, o acabamento da lança cravada no Estado moderno, o status quo da consciência do Estado alemão expressa a imperfeição do Estado moderno, a falta de consistência de seu próprio corpo

Enquanto adversário decidido do modo anterior de consciência política alemã, o Estado orienta a crítica da filosofia especulativa do direito não para si mesma, mas para tarefas cuja solução exige apenas um meio: a prática.

Indagamo-nos: pode a Alemanha chegar a uma prática à la hauter des principes [à altura dos princípios], isto é, a uma revolução que a eleve não só ao nível oficial dos povos modernos mas, também, ao nível humano que será o futuro imediato destes povos!

As armas da crítica não podem, de fato, substituir a crítica das armas; a força material tem de ser deposta por força material, mas a teoria também se converte em força material uma vez que se apossa dos homens. A teoria é capaz de prender os homens desde que demonstre sua verdade face ao homem, desde que se torne radical. Ser radical é atacar o problema em suas raízes. Para o homem, porém, a raiz é o próprio homem. A prova evidente do radicalismo da teoria alemã e, portanto, de sua energia prática, consiste em saber partir decididamente da superação positiva da religião. A crítica da religião derruba a idéia do homem cama essência suprema para si próprio. Por conseguinte, com o imperativo categórico mudam todas as relações em que o homem é um ser humilhado, subjugado, abandonado e desprezível, relações que nada poderia ilustrar melhor do que aquela exclamação de um francês ao tomar conhecimento da existência de um projeto de criação do imposto sobre cães: Pobres cães! Querem tratá-los como se fossem pessoas!

Até historicamente a emancipação teórica tem um interesse especificamente prático para a Alemanha. O passado revolucionário da Alemanha é, de fato, um passado histórico: é a Reforma. Como então no cérebro do frade, a revolução começa agora no cérebro do filósofo.

Lutero venceu efetivamente a servidão pela devoção porque a substituiu pela servidão da convicção. Acabou com a fé na autoridade porque restaurou a autoridade da fé. Converteu sacerdotes em leigos porque tinha convertido leigos em sacerdotes. Libertou o homem da religiosidade externa porque erigiu a religiosidade no interior do homem. Emancipou o corpo das cadeias porque sujeitou de cadeias o coração.

Mas, se o protestantismo não foi a verdadeira solução, representou a verdadeira colocação do problema. Já não se tratava da luta do leigo com o sacerdote que existe fora dele, mas da luta com o sacerdote que existe dentro de si próprio, com sua natureza sacerdotal. E, se a transformação protestante do leigo alemão em sacerdote emancipou os papas leigos, os príncipes, com toda sua clerezia, se emancipou privilegiados e filisteus, a transformação filosófica dos alemães com espírito sacerdotal em homens emancipará o povo. Mas, do mesmo modo que a emancipação não se deteve nos príncipes, tampouco a secularização dos bens se deterá no despojo da igreja, realizada sobretudo pela hipócrita Prússia. A guerra dos camponeses, fato mais radical da história alemã, lançou-se contra a teologia. Hoje, com o fracasso da própria teologia, o fato mais servil da história alemã, nosso status quo, se lançará contra a filosofia. As vésperas da Reforma, a Alemanha oficial era o servo mais submisso de Roma. As vésperas de sua revolução, é o servo submisso de algo menos que Roma, Prússia e Áustria, de fidalguetos rurais e filisteus,

Não obstante, uma dificuldade fundamental parece opor-se a uma revolução alemã radical.

Com efeito, as revoluções necessitam de um elemento passivo, de uma base material. A teoria só se realiza numa nação na medida que é a realização de suas necessidades. Ora, ao imenso divórcio existente entre os postulados do pensamento alemão e as respostas da realidade alemã corresponderá o mesmo divórcio existente entre a sociedade alemã e o Estado e consigo mesma! Não basta que o pensamento estimule sua realização; é necessário que esta mesma realidade estimule o pensamento -

Todavia, a Alemanha não escalou simultaneamente com os povos modernos as fases intermediárias da emancipação política. Praticamente,. não chegou sequer às fases que superou teoricamente. Como poderia, de um salto mortal, remontar-se não só sobre seus próprios limites, como também e ao mesmo tempo, sobre os limites dos povos modernos, sobre limites que na realidade devia sentir e aos quais devia aspirar como a emancipação de seus limites reais! Uma revolução radical só pode ser a revolução de necessidades radicais, cujas premissas e lugares de origem parecem faltar completamente.

Não obstante, se a Alemanha só abstratamente acompanhou o desenvolvimento dos povos modernos, sem chegar a participar ativamente das lutas reais deste, não é menos verdade que, de outro lado, partilhou os sofrimentos deste mesmo desenvolvimento, sem usufruir seus benefícios e satisfações parciais. A atividade abstrata de um lado, corresponde o sofrimento abstrato do outro. Assim, numa bela manhã, a Alemanha se encontrará em nível idêntico à decadência européia antes mesmo de haver atingido o nível da emancipação européia. Poderíamos compará-la a um idólatra que agonizasse, vítima do cristianismo.

Fixemo-nos, antes de mais nada, nos governos alemães, e os veremos de tal modo impulsionados pelas condições da época, pela situação da Alemanha, pelo ponto de vista da cultura alemã e, finalmente, por seu próprio instinto certeiro, a combinar os defeitos civilizados do mundo dos Estados modernos, cujas vantagens não possuímos, com os defeitos bárbaros do antigo regime, de que nos podemos jactar até a saciedade, que a Alemanha, senão por prudência, pelo menos à falta desta tem que