Opinião: Com a aproximação dos Jogos Olímpicos, os chineses são instados a ser “civilizados”

Howard W. French

Não demora muito, haverá tantas reportagens nos noticiários relacionadas aos Jogos Olímpicos da China que todos, com exceção do mais dedicado fã dos esportes, estarão ansiiosos pelo fim dos Jogos de Pequim.

Cada vez que aterrisso no aeroporto de Pequim e sou bombardeado com as promoções dos jogos na longa fila de táxi, dedico um pensamento simpático aos moradores da capital, que talvez já se sintam assim.

Se for o caso, devem fazê-lo clandestinamente, já que a mensagem pouco sutil que vem do alto sobre os jogos é: “Aprecie-os, tenha orgulho de seu país, não envergonhe seu país e, especialmente, não ouse causar um incidente.” Sob as circunstâncias, não há muito espaço, publicamente, nem mesmo para um sorriso um pouco amarelo diante da grande diversão.

É a festa de debutante da China e, como inúmeros outros observarão no tempo devido, o equivalente às Olimpíadas de Tóquio de 1964, quando o Japão anunciou sua volta ao vigor depois da devastação da guerra, junto com sua chegada como poder econômico de primeira linha.

A China, como o Japão, que criou seus trens-bala para a ocasião, deseja criar novas associações para sua “marca” nacional. Os temas talvez não sejam anunciados explicitamente, mas podem ser facilmente intuídos: moderna, tecnologicamente avançada, voltada para o futuro.

Apesar disso, deve-se dizer que há algo bem tradicional em todo esse negócio. Estou falando do esforço de inculcar nas massas como devem se comportar e como devem se sentir e o afunilamento de uma nação por trás de um único objetivo, voltado para o prestígio.

Ao mesmo tempo, a China está colocando astronautas em órbita, enviando foguetes à Lua e falando em construir sua própria estação espacial. Não estou querendo levantar objeções, mesmo que questões ambientais, científicas ou sociais mereçam ser levantadas, como prioridades orçamentárias em uma terra onde, apesar do crescimento econômico extraordinário, as necessidades de moradia, saúde e educação em grande parte ainda não foram satisfeitas.

Tais questões não serão levantadas, é claro, porque o questionamento público das prioridades nacionais, em geral, ainda não existe na China. Os objetivos do povo ainda são determinados para ele.

Observo a qualidade de déjà-vu dos jogos e do programa espacial para ressaltar como é convencional o pensamento do governo sobre o que significa ser moderno e sobre o que mais faria bem à imagem deste país.

Dá para detectar esse pensamento convencional na arquitetura gigantesca que está transformando as cidades chinesas. Com arranha-céus sem cara a imponentes subindo em toda parte e prédios brilhantes eletrônicos, ou seja, os projetos de prestígio que estão proliferando, há pouco espaço para bairros de verdade, para a vida em uma escala íntima humana e, mais irônico de tudo em um país de 5.000 anos de história orgulhosa, até para a celebração do passado.

Ainda assim, mais desse pensamento convencional é evidente nas várias campanhas de comportamento que antecedem os jogos e a Shanghai’s World Expo, o segundo ato da festa de debutante global da China, que acontecerá em 2010.

O povo chinês está sendo exortado a ser “civilizado”, uma palavra tirada diretamente de muitos dos cartazes e lemas. O Estado babá chinês implora que pare de cuspir, forme filas, respeite os sinais de trânsito ao atravessar a rua e assim por diante.

Boas idéias, mas há algo tocante sobre a corrida súbita de martelar essas mensagens em tempo da chegada de multidões de estrangeiros: deixa uma sensação que a aparência e a imagem importam mais do que a substância nessas coisas. Afinal, o comportamento totalmente negligente era aceitável até agora.

Entretanto, se dar a impressão certa é prioridade, gostaria de contribuir com outra sugestão que pode ir longe. Há quatro anos morando em Xangai, a cidade mais cosmopolita da China, fico chocado em como as pessoas parecem acreditar que existe um enorme vão entre chineses e estrangeiros.

Descobri isso primeiro por meio do meu hobby, fotografia, que me levou a caminhar pelos bairros operários da cidade, onde em cada esquina ouvia gritos de “lao wai”.

As palavras constituem uma gíria grosseira para estrangeiro. Literalmente, significam “velho estranho”.

Freqüentemente, esses murmúrios são acompanhados de gozações, ou de pessoas dizendo “olá”, como se estivessem cantando. O tom é inconfundível, é não é amigável. Isso não quer dizer que é hostil, tampouco, mas é dito de uma forma que sugere que os estrangeiros não são meramente uma novidade aqui, o que certamente não deveria mais ser o caso nesta altura, mas também objeto de ligeira zombaria.

Não faço essas observações para reclamar e não é que eu esteja magoado.

Sinto genuína gratidão por muitas pessoas que deixaram este estranho entrar em suas casas e não fizeram objeções que eu as fotografasse de perto.

De fato, se os gritos de “lao wai” tivessem sido limitados aos bairros operários, talvez eu tivesse suprimido esta observação.

Infelizmente, não é assim. Nos hotéis e restaurantes e nas ruas do centro, aqui e em toda a China, ouvi os chineses falando alto sobre os velhos estranhos em seu meio e me perguntei como se sentiriam se todo lugar que fossem no exterior as pessoas apontassem para eles e gritassem: “Chineses!”

Nunca ouvi falar em erradicar as conversas de “lao wai” como um dos objetivos de campanha de comportamento e acho que conheço a razão. O Estado chinês há muito promove uma forma de pensar de “nós contra eles”, para aumentar a coesão e o controle. Agora, essas noções têm raízes tão profundas que se tornaram norma.

Os Jogos Olímpicos, entretanto, são, acima de tudo, uma celebração de nossa humanidade comum, e a China faria maravilhas para a impressão que deixa nos visitantes se suavizasse as distinções que faz entre nós e eles.

Herald Tribune
http://www.iht.com/pages/index.php

Enviar por e-mail. Hits para esta publicação: 478.

Deixe um Comentário