Arquivo de 20 de Novembro de 2007

Volkswagen comemora 5 milhões de Gol produzidos no Brasil

19/11/2007 - Redação

A Volkswagen do Brasil comemora nesta semana em suas cinco fábricas no país – São Bernardo do Campo, Taubaté, São Carlos, Resende e São José dos Pinhais – o marco histórico de 5 milhões de Gol produzidos. Este volume reafirma a condição do modelo de maior sucesso de todos os tempos da indústria automotiva nacional. Líder absoluto de vendas no mercado interno há 20 anos ininterruptos, o Gol também é o carro mais exportado da história, com 735 mil unidades embarcadas para mais de 50 países.

O grande volume de unidades fabricadas coloca o Gol entre os 10 carros, lançados nos anos 80, de maior sucesso em todo o mundo, mesmo quando comparado com automóveis originários dos mercados europeu, americano e japonês. O modelo faz parte do seleto clube mundial de 40 veículos que ultrapassaram a barreira das 5 milhões de unidades produzidas.

A quantidade de Gol em circulação supera a frota de carros da cidade de São Paulo. De cada oito carros atualmente em uso no Brasil, um é Gol. Se todos os modelos Gol produzidos fossem colocados em fila indiana, formariam um comboio de quase 20.000 km. Seria possível fazer cinco filas contínuas de Gol cobrindo a distância em linha reta entre o Oiapoque, no Amapá, e o Chuí, no Rio Grande do Sul.

Pioneirismo no Brasil
Já em sua 4ª geração, o modelo da Volkswagen foi pioneiro na introdução de algumas das maiores inovações da indústria automotiva brasileira. O Gol GTI, de 1989, por exemplo, foi o primeiro carro nacional a oferecer injeção eletrônica de combustível. Já o Gol 1.6 Total Flex, lançado em março de 2003, foi o pioneiro na disponibilização da revolucionária tecnologia bicombustível, que hoje desperta o interesse do mundo inteiro.

A comemoração do marco de 5 milhões de Gol no Brasil inclui o envio de uma carta de agradecimento aos 20 mil empregados da montadora assinada pelo presidente da Volkswagen do Brasil, Thomas Schmall, e a divulgação de um selo especial em alusão à conquista histórica. O selo estará estampado nas peças de comunicação da companhia.

Substituto do Fusca
A decisão de fazer o Gol foi tomada pela diretoria da Volkswagen em dezembro de 1970, em meio ao chamado “Milagre Econômico”, quando a venda de automóveis no Brasil crescia 25% ao ano. A Volkswagen do Brasil havia traçado como meta desenvolver e lançar um novo carro no país, com a difícil missão de substituir no coração e na garagem dos brasileiros o Fusca, que liderava o mercado havia mais de 25 anos.

Naquela época, já havia sido construído o “conceito” Gol, mas não o design e o projeto de engenharia do carro, que foram desenvolvidos em paralelo à construção da fábrica de Taubaté, no interior paulista. A unidade foi implantada, desde o princípio, com o propósito de produzir o modelo.

Por meio de pesquisas, a Volkswagen identificou que o consumidor desejava um carro de moderna concepção técnica e estilística, incorporando as necessárias características de robustez, adequabilidade às condições brasileiras, capacidade para 5 pessoas, mínimo consumo de combustível, baixo custo, manutenção e reparos fáceis e baratos. Tudo isso, deveria ter ainda um toque de esportividade.

Matriz aprova projeto
Em maio de 1976, um grupo de engenheiros, estilistas e modeladores da Volkswagen do Brasil viajou para a Alemanha levando a maquete 1:4 do carro. A partir deste momento, foi iniciado o processo de criação do Gol, chamado então de “Projeto BX”. Desde o início de sua concepção e projeto, o Gol foi o carro-símbolo da maturidade e da competência do design e da engenharia automotiva brasileira, que havia ganhado prestígio na Matriz depois de projetos bem-sucedidos como o TL e a Brasília.

Depois da maquete, a etapa seguinte foi a criação de um modelo em arame nas dimensões reais, para testar a ergonomia dentro do carro. Como fato curioso, foram usados nos testes pessoas de diferentes estaturas, inclusive um homem de 2 metros de altura e outro de 1,50 metro. Em seguida, foi construída uma maquete em dimensão real do Gol na fábrica da Audi em Ingolstadt, na Alemanha. No final de 1977, foi fabricado no Brasil o primeiro protótipo do carro para avaliação de peso e testes de consumo, desempenho, refrigeração e comportamento dinâmico, entre vários outros.

Os últimos ajustes de design e estilo do Gol foram feitos em 1978. A partir de então, o modelo foi submetido a uma bateria de testes de durabilidade. Ele rodou em pisos de lama, de cascalho e até de neve, em temperaturas entre 15 graus negativos e 45 graus e a altitudes de até 3.000 metros. O Gol foi submetido a 200 mil km de rodagem em condições adversas, em um roteiro que incluiu a cordilheira dos Andes e os desertos da Patagônia argentina. Ao todo, o projeto inicial de desenvolvimento do Gol consumiu investimentos de US$ 350 milhões.

Projeto inovador
Quando o Gol foi exibido pela primeira vez, em 15 maio de 1980, o consumidor foi surpreendido por um modelo de alta qualidade técnica que se destacava pela beleza, estilo em forma de cunha e perfil aerodinâmico. O motor 1.3 refrigerado a ar, com tração dianteira, tinha 42 cv de potência e desenvolvia 15,8 km/l a 80 km/h. Além de supereconômico, o Gol era o carro com maior autonomia do mercado brasileiro (870 quilômetros), pois tinha reservatório com capacidade para 55 litros.

A inovadora tecnologia Volkswagen estava presente também no sistema de suspensão. A dianteira era do tipo McPherson, enquanto que na traseira se destacava um eixo integrado auto-estabilizante. Com isso, o Gol se apresentava como um modelo bem ao gosto do brasileiro: seguro e confortável, que absorvia bem as vibrações e a irregularidade das pistas.

Curiosamente, apesar de aparentar dimensões externas bem maiores, o carro era 24,1 cm menor que o Fusca e 23,2 cm menor que a Brasília – modelos Volkswagen mais populares na época. O design interior, com ênfase no espaço e no conforto, reforçava a percepção de que o Gol era um carro maior do que aparentava.

No gosto do povo
O modelo somou 36.731 unidades vendidas já no ano de seu lançamento, em 1980, e não parou mais de crescer. Em 1982, o Gol superou pela primeira vez a marca das 50 mil emplacamentos anuais (51.870); em 1988, passou das 100 mil unidades (103.583) e, em 1993, ficou acima das 150 mil vendas anuais (184.510), patamar abaixo do qual nunca mais ele caiu, nem durante as crises mais agudas da economia nacional.

Depois de três anos na vice-liderança do mercado, em 1987, o modelo assumiu o lugar mais alto do pódio e não deixou mais esse posto. Ainda não havia internet, telefone celular e DVD, nem tampouco eleição direta para Presidente da República no Brasil, e dentro desse contexto o Gol já era líder de vendas no país.

Na condição de carro mais vendido da década de 80, o Gol iniciou os anos 90 em ritmo acelerado. Já em 1991, ganhou nova frente com novos faróis, lanternas, grades, capô, pára-lamas e pára-brisa laminado. No mesmo ano, o Gol foi apontado “o carro mais lembrado pelo consumidor brasileiro” na primeira pesquisa Top of Mind do Instituto Datafolha. Todas as outras 16 edições subseqüentes reafirmaram o mesmo resultado: o Gol não sai da cabeça e da vida dos brasileiros.

Em 2001, o Gol superou o Fusca em volume de vendas, com 3,3 milhões de unidades comercializadas. Dois anos depois, o modelo chegou a incríveis 4 milhões de unidades produzidas e, em dezembro de 2004, alcançou 500 mil unidades exportadas, consolidando a posição de carro mais exportado do Brasil. Em 2005, o Gol chegou a 4 milhões de vendas no mercado interno.

Geração II
O carro passou pela primeira grande transformação em 1994, quando a Volkswagen lançou o modelo Geração II, com design arredondado e inovador, que logo recebeu o apelido carinhoso de “Gol Bolinha”. O modelo começou a ser desenvolvido em 1989 a partir de uma pesquisa que apontou o que deveria ser aperfeiçoado na visão do cliente, sem alterar a parte motriz, extremamente confiável e apreciada.

Foi assim que o carro ganhou mais espaço interno, mais aderência ao solo, mais estabilidade em altas velocidades, porta-malas mais amplo, mais segurança e menor nível de ruído. O consumidor aprovou o produto de imediato, que foi percebido como um carro moderno, elegante, em sintonia com as tendências internacionais e com ganho expressivo em tecnologia.

Geração III
Lançada em maio de 1999, a Geração III renovou ainda mais as linhas do Gol, resultando num carro moderno e esportivo. Além disso, consolidou os atributos racionais de robustez, praticidade e qualidade do modelo. A terceira geração do Gol introduziu ainda um novo padrão de qualidade no acabamento para a categoria, com ganhos substantivos de sofisticação e requinte, perceptíveis desde as junções de chapas até os tecidos de revestimento.

Todos os detalhes ligados ao toque, ao visual e à sensibilidade do carro foram aperfeiçoados. Os bancos dianteiros ganharam controle de altura e profundidade, oferecendo mais segurança e conforto. O painel foi totalmente renovado, em desenho, textura e tonalidade, combinando perfeitamente com os novos revestimentos. O carro ganhou ainda faróis translúcidos e brilhantes, em policarbonato, resistentes a pequenos impactos.

Com 70% das chapas zincadas e um significativo reforço estrutural da carroceria, o Gol Geração III foi o primeiro modelo da categoria a oferecer garantia de cinco anos contra corrosão. O carro também foi pioneiro em módulos opcionais de personalização, um novo sistema lançado pela Volkswagen que permitia ao comprador máxima flexibilidade na aquisição de componentes adicionais.

Geração IV
”Best-in-class” em sua categoria, o Gol Geração 4 chegou ao mercado brasileiro em agosto de 2005 com visual completamente renovado, novo interior, novos elementos de praticidade e conforto e novos módulos de oferta, mas preservando atributos como confiabilidade, durabilidade e versatilidade. Ao todo, o modelo teve 1.088 itens completamente ou parcialmente modificados em relação à geração anterior. O Gol é ofertado atualmente nas versões City (1.0 e 1.6), Plus (1.0), Power (1.6 e 1.8) e Rallye (1.6).

Na 4ª geração, o Gol passou a ser equipado somente com motores Total Flex, que funcionam com álcool, gasolina ou qualquer mistura dos dois combustíveis. São eles: o EA 111 RHS 1 litro e 8 válvulas, que desenvolve 65 cv (100% gasolina) e 68 cv (100% álcool); o EA 827 1.6 litro e 8 válvulas, que desenvolve 97 cv (gasolina) e 99 cv (álcool); e o EA 827 1.8 litro e 8 válvulas, que desenvolve 103 cv (gasolina) e 106 cv (álcool).

Séries especiais
A diversidade e o sucesso das séries especiais é uma característica marcante do Gol, que denota a extrema versatilidade do modelo. Tudo começou com a série Copa, lançada em 1982, no embalo de Zico, Sócrates, Junior e Falcão, para festejar a participação da Seleção Brasileira na Copa da Espanha. O time não teve muita sorte, mas o Gol Copa foi um grande sucesso e estimulou a Volkswagen a repetir muitas vezes a experiência.

Em 1995, os fãs da banda inglesa Rolling Stones puderam comemorar a primeira temporada brasileira do grupo a bordo do Gol Rolling Stones, que também foi um grande sucesso, com 12 mil unidades comercializadas. No ano seguinte, a Volkswagen lançou o Gol Atlanta para celebrar os Jogos Olímpicos disputados nos Estados Unidos e, mais uma vez, as vendas superaram as expectativas.

Outra série bem sucedida foi a Fun, lançada em maio de 2001, que conquistou o público de espírito jovem tendo como destaque exclusivo a moldura dos faróis duplos pintada na cor do veículo. Depois vieram as séries Gol Highway, I e II, lançadas em 2001 e 2003, equipadas com motor 16 válvulas, para aqueles que gostam de pegar uma estrada no fim-de-semana, e a Série Gol Rallye, lançada em 2004 e reeditada em 2007, para os amantes da vida ao ar livre, com suspensão elevada e forte estilo offroad.

Vale destacar ainda uma outra série especial que atendeu de tal forma aos desejos do consumidor que acabou se tornando versão permanente: o Gol Power. Lançado em 2001, o modelo nunca mais saiu de linha, enfatizando com clareza os atributos do Gol, tais como força, resistência, durabilidade e confiabilidade.

Icarros

Comentários

Leite materno turbina o QI do bebê

Segundo um novo estudo, a criança amamentada possui uma variante gênica que ajuda a processar os ácidos graxos


Nikhil Swaminathan

A inteligência é inata ou influenciada pelo ambiente? Essa discussão está em pauta há mais de um século. Uma das questões mais recentes na batalha entre natureza x criação está o efeito do leite materno sobre o QI.

Pesquisas demonstraram que os ácidos graxos no leite humano podem influenciar o desenvolvimento cerebral. Utilizando esses dados como ponto de partida, um grupo de cientistas liderado por uma equipe do Instituto de Psiquiatria do King´s College London resolveu investigar como a constituição das crianças interage com o leite materno a ponto de afetar sua inteligência.

Os resultados, publicados no Proceedings of the National Academy of Science USA, revelam que o aleitamento materno pode turbinar o quociente de inteligência de um bebê se o recém-nascido possui uma versão específica de um gene, o FADS2 (sigla em inglês para desaturase 2 de ácido graxo), que afeta o processamento dos ácidos graxos.

“Estávamos em busca de um exemplo empírico para mostrar aos cientistas que é possível usar o ambiente como ferramenta para descobrir novos genes com efeitos importantes, incluindo doenças”, explica o co-autor do estudo Terrie Moffitt, professor de psiquiatria do King\\’s College. “Nossa seqüência lógica do ambiente ao marcador genético nos permitiu descobrir pela primeira vez a ligação entre o gene FADS2 e o QI, importante para a saúde da criança.”

O marcador genético a que Moffitt se refere está localizado no gene FADS2, que por sua vez apresenta duas variantes primárias. O novo estudo, que contou com 1.000 crianças neozelandesas na década de 70 (parte delas recebeu leite materno) e mais de duas mil crianças amamentadas que moravam no Reino Unido na metade da década de 90, revelou que 90% das participantes tinham pelo menos uma cópia da versão mais comum do FADS2, enquanto que 50% delas possuíam duas cópias.

Os pesquisadores descobriram que as crianças que receberam leite materno e possuíam pelo menos uma variante genética ou mais, tinham uma média de seis a sete pontos a mais no QI que aquelas que não foram amamentadas, mas tinham constituição genética similar. No entanto, o aleitamento materno não pareceu afetar as crianças (10% da população) que tinham apenas a variante menos comum. Os cientistas descartaram outros fatores, incluindo peso ao nascer e a classe social e Q.I. da mãe, pois descobriram estes que não influenciavam os resultados.

“As crianças amamentadas obtiveram uma pontuação em média 3 pontos mais alta que a população no teste de Q.I., enquanto que aquelas que não receberam leite materno ficaram com 3 pontos a menos”, explica Moffitt. Em outras palavras, o aleitamento materno levou ao ganho de alguns pontos no Q.I..

Quanto às implicações do estudo no debate natureza x criação, Linda Gottfredson, professora de educação na University of Delaware, afirma que “não se trata de natureza ou criação, mas dos genes podem tornar as pessoas mais ou menos suscetíveis a certas condições do ambiente”. Portanto, a ausência de leite materno na alimentação de bebês com uma certa predisposição genética pode ter efeitos negativos para a inteligência.

O mecanismo exato pelo qual a enzima codificada pelo FADS2 pode influenciar o Q.I. é desconhecido, mas Moffitt sugere duas alternativas. A primeira é a de que as variantes gênicas podem afetam a conversão de precursores alimentares para ácidos graxo poliinsaturados de cadeia longa, que se agregam no cérebro nos primeiros meses de vida da criança. A segunda implica que os ácidos graxo poliinsaturados de cadeia longa podem agir ou não sobre o gene propriamente dito, fazendo com que ele se ligue ou desligue, e assim afetando o percurso metabólico usado pelos ácidos.

Os autores ressaltam que, desde a época em que os participantes do estudo foram amamentados, vários fabricantes de leite para recém-nascidos começaram a adicionar suplementos de ácidos graxos aos produtos, potencialmente na tentativa de elevar o QI dos bebês.

“O problema desse estudo é que não sabemos exatamente quais são os mecanismos que o leite materno usa para aumentar o QI”, afirma Joseph Hibbeln, pesquisador clínico da Unidade de Nutrição em Psiquiatria do National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism. “O estudo ajuda a apontar apenas um dos mecanismos, ou seja: se seu organismo não consegue produzir ácidos graxos de maneira eficiente, é melhor beber leite materno para dar uma força para seu QI.”

Scientific American Brasil
http://www2.uol.com.br/sciam/

Comentários

Crise alimentar, energia e clima: nova geopolítica da fome?

No momento em que o preço do barril de petróleo ultrapassa os U$ 90,00, uma outra onda, contínua e silenciosa, se espraia pelo mundo. Trata-se da alta dos preços agrícola, em especial dos gêneros alimentícos. A análise é de Francisco Carlos Teixeira.

Francisco Carlos Teixeira

“A explosão dos preços dos cereais nos últimos meses e a ameaça que a situação vai prolongar-se no futuro imediato levou ontem a UE a tomar medidas drásticas para aumentar seu cultivo e favorecer sua importação”.

O avanço silencioso da fome
No momento – novembro de 2007 - em que o preço do barril de petróleo ultrapassa os U$ 90,00, uma outra vaga, contínua e silenciosa, se espraia pelo mundo. Trata-se dos preços agrícolas, em especial dos gêneros alimentícios. Desde 2005 os preços do milho duplicaram e o “bushel” – medida standard de 24.5 quilos - de trigo aumentou mais de 60% ( no mercado americano atingiu, em outubro de 2007, o preço recorde de U$ 9.16 em face da média histórica de U$ 6,00 ). As razões para tais aumentos poderiam ser atribuídas a duas ordens de fatores: de um lado, existiriam causas conjunturais e, portanto, aperiódicas e de difícil previsão e controle. Entre estas razões estão as variações climáticas globais. Secas extraordinárias ocorreram em vários paises produtores, tais como Argentina, Austrália, Ucrânia e Cazaquistão. Ao mesmo tempo, chuvas intensas e pesadas abateram-se sobre a América do Norte e Europa, grandes centros produtores, acentuando a perda de colheitas de grãos.

A colheita de 2006 nos 27 países da União Européia ficou abaixo da previsão ( cerca de 226 milhões de toneladas ). A conseqüência imediata foi a passagem, espetacular, da União Européia da condição de exportador para importador bruto de cereais e grãos. Por outro lado, razões estruturais, portanto constantes, surgiram com forte intensidade, mesmo antes de 2006.

Entre as razoes estruturais que alteraram em profundidade o mercado mundial de alimentos está a entrada maciça no mercado da China Popular e da Índia como grandes compradores. Também o Oriente Médio, na vaga do aumento dos preços do petróleo, tornaram-se grandes compradores de alimentos. Com a incorporação de ambas as nações aos circuitos globais de comércio puderam acumular imensas reservas e utilizá-las para a compra de alimentos para a população, melhorando e intensificando o padrão-alimentar interno.

Uma crise global
De qualquer forma, em ambos os países deram-se, também, fortes alterações nas práticas agrícolas, com o surgimento de vastos campos de cultivos voltados para a produção de biomassa para combustíveis – cana-de-açúcar na Índia e milho na China Popular – incidiu diretamente na área agrícola voltada para a produção de grãos e cereais. Assim, em vastos conjuntos geográficos – centros tradicionais de agricultura de alimentos, como a América do Norte, Europa, China Popular e Índia – deu-se um notável decréscimo da produção de milho, trigo, sorgo. Com a diminuição dos grãos, e seu conseqüente aumento, também a produção mundial de leite entrou em declínio (milho e farelos são utilizados comumente para a alimentação do gado leiteiro). Assim, desde 2005 o preço do leite – vendido em pó no comércio mundial – duplicou. Em alguns estados da Federação Americana, como o Wisconsin, o preço do leite já é superior ao preço da gasolina.

Nos Estados Unidos a transformação de amplos campos de cultivo em produção de milho e o uso de tais colheitas na produção de etanol – como a imensa produção de Iowa no Middle West – impactou fortemente o mercado de alimentos. Com uma demanda crescente – incluindo aí a indústria de alimentos, a suinocultura, a avicultura e a produção leiteira mais poderosa do mundo – os Estados Unidos passaram a comprar. Assim, desde 2005, os Estados Unidos passaram a realizar compras maciças no mercado mundial e valendo-se dos mecanismos de livre-comércio no interior do NAFTA , passou a adquirir uma grande quantidade de milho mexicano. O resultado imediato sobre o mercado mexicano foi o brutal aumento dos preços no México. O preço da “tortilla” mexicana refletiu de imediato as conseqüências, no âmbito do NAFTA, das opções americanas. O livre mercado de combustíveis nos Estados Unidos – com as alterações de preços chegando diretamente ao consumidor – incide, assim, de forma imediata na segurança alimentar do país-sócio.

Crise estrutural?
Ora, ao contrário dos fatores aperiódicos, na maioria das vezes de caráter climático, os chamados “fatores estruturais” são persistentes, permanentes, e, tendencialmente, crescentes. É de crer que as compras chinesas e indianas, além da presença norte-americana nos mercados, não só aumentem, mas, aumentem em ritmo acelerado. Da mesma forma, a conversão de campos de cultivos para fins alimentares em cultivos de fins energéticos nos Estados Unidos deverá se manter e, mesmo, se acentuar.
A dependência dos Estados Unidos do combustível abundante e barato – um traço civilizacional norte-americano – em meio a uma conjuntura amplamente conflitiva no Oriente Médio/Golfo Pérsico e com adversidades na Venezuela, implicará, continuamente, na busca de combustíveis alternativos. Assim, a nova aliança entre Washington e Brasília teria seu centro de gravidade na busca de formas alternativas, de preferência limpas, como substituição parcial ao combustível fóssil.

Da mesma forma, a aliança Caracas/La Paz, valorizada por um longo artigo de Fidel castro no Gramna – contra os biocombustíveis – atende aos mesmos objetivos. Como detentores das maiores reservas de combustível fóssil no continente – ao lado do equador – um projeto alternativo de bionergia limpa patrocinado por dois megaconsumidores (Estados Unidos+Brasil) só poderia gerar temor em Caracas e La Paz.

Particularmente os investimentos maciços do Brasil em energia elétrica – as usinas do Rio Madeira – e a opção emergencial pelo gás liquefeito, apontariam para uma forte perda de poder de pressão/negociação por parte de La Paz.

Comestíveis ou combustíveis: um dilema?
Da mesma forma, as críticas no âmbito da União Européia possuem a mesma lógica – de um lado, a presença do mercado e, de outra, a construção da geopolítica alternativa de combustíveis. Como os maiores produtores de biomassa para uso energético – a Alemanha à frente com a colza – a chegada de novos concorrentes, em especial o Brasil com seus abundantes fatores de produção, baratos, e ampla tecnologia autônoma – seria um desastre.

Neste sentido, a crítica “europeísta” – ecoada pelo eixo Havana+Caracas+La Paz – apontaria para uma forte oposição entre segurança energética e segurança alimentar.

As criticas apontariam para dois elementos centrais desestruturantes do mercado de alimentos a partir da produção de biomassa para uso energético:

i. “Queimar comestíveis para produzir combustíveis” é a máxima dos críticos europeus, apontando à alta – real – dos preços dos alimentos como uma conseqüência da opção energética;

ii. A ampliação de cultivos tais como milho, cana-de-açúcar ou soja, para a produção de energia geraria uma nova forma de poluição ( águas, terras, agrotóxicos, etc.. ) anulando qualquer ganho do ponto de vista de energia limpa.

Contudo, a própria conjuntura de crise do mercado de grãos desmente os argumentos “europeístas”. A diminuição real das áreas de cultivos de alimentos foi, durante bom tempo, um política tipicamente européia, visando viabilizar os altíssimos subsídios pagos à agricultura europeía ( em especial na para o açúcar de beterraba, carnes e laticínios ). Por outro lado, a troca de campos de alimentos por cultivos exclusivamente voltados para a produção de biocombustiveis é tipicamente americana , onde a produção de biomassa estava centrada na produção de etanol de milho. No caso de outros cultivos – cana-de-açúcar, mamona, com seus biomas específicos e já claramente diferenciados dos cultivos alimentares – não haveria qualquer “concorrência predatória” entre comestíveis e combustíveis.

Da mesma forma, a expansão de tais cultivos – cana, mamona – se daria sobre áreas de pousio – “bush fellow” – não atingindo as grandes áreas florestais – o “forest fellow”. Somar-se-ia a isso a incorporação de vastos setores do proletariado rural e sub-proletariado, bem como as franjas demográficas da expansão da pequena produção camponesa ( no sentido que Chayanov dá ao termo )aos mecanismos de mercado.

Assim, a expansão da “energia verde” seria capaz de gerar emprego e renda no meio rural em países como Brasil, da América Central, da África e da Ásia das Monções.

A crise atual na produção de alimentos, contudo, acentuou, no atual momento, as disfunções do mercado mundial. Assim, em outubro de 2007 a Ucrânia – o maior celeiro da Europa - anunciou a sua retirada do mercado fornecedor de alimentos, no mesmo momento em que as safras na Austrália e na Argentina ainda não podiam ser avaliadas para 2008.

União Européia e os subsídios:
Tais acontecimentos fizeram soar o sinal de alerta na União Européia. A Itália e a Espanha, com suas grandes populações e seu clima seco, foram os primeiros países da UE a sentir a crise. Assim, os preços da farinha de trigo – e portanto da “pasta” – sofreram aumentos substantivos, gerando mal-estar em grandes cidades italianas.

A crise provocou, ainda, um imediato “racha” na principal política da União Européia: a política agrícola comunitária ou PAC. Espanha e Itália, com apoio dos demais paises mediterrâneos, exigiram respostas imediatas para a crise, que foram definidas pela Comissão Européia em dois sentidos:

i. o abandono imediato da política de pousio forçado – “bush fellow” – com a colocação em cultivo de amplos campos deixados regularmente sem cultivos – cerca de 3,8 milhões de hectares -, atingindo cerca de 10% da área agrícola da U.E e que poderiam resultar em um aumento de 10 milhões de toneladas adicionais;

ii. autorização de cultivo em amplas reservas ambientais, com vasto impacto sobre a política de preservação ambiental no âmbito da U.E.;

iii. cessação dos subsídios à produção de açúcar de beterraba, retirando do mercado cerca de 2,2 milhões de toneladas de açúcar ( das cinco milhões de toneladas produzidas ). Da mesma forma, a União decidiu pagar um subsídio de 237,5 euros por tonelada que for convertida em produção de cereais ou grãos.

Tal conjunto de medidas, contudo, não alteraram substancialmente, a crise. Tal constatação forçou a tomada de decisões quase revolucionários no âmbito da PAC. Fez-se, então, a suspensão de dois impostos de importação sobre grãos e cereais, atingindo inicialmente o milho, trigo e sorgo.

Os países centrais na formulação da PAC – França, Holanda, Dinamarca – alertaram, com azedume, para o precedente aberto em 2007 com a suspensão dos impostos de importação. Tais impostos, ao lado da política de subsídios e das barreiras fito-sanitárias, seriam, exatamente, o conteúdo central da PAC. A quebra de um de seus pilares – os impostos – abriria uma imensa brecha sistêmica na PAC ( no exato momento em que esta está sob fogo cerrado como uma das causas centrais do fracasso da Rodada de Doha da OMC ). O governo francês advertiu, então, sobre a imensa dificuldade em restabelecer o sistema protetor ao final do período crítico. Uma virtual baixa dos preços para além de 2008 – uma abordagem hipoteticamente otimista – levaria a uma situação de enorme crise de toda a agricultura européia.

Ora, a possibilidade de uma baixa geral dos preços agrícolas em 2008 é apenas hipotética. Tal cenário teria que contar com duas contra-tendências, a saber:

i. a presença da China Popular de da índia enquanto compradores no mercado mundial deveria diminuir;

ii. a presença dos Estados Unidos no mercado de biocombustíveis seria moderada.

Há uma saída?
O aumento dos preços e da superfície plantada aponta para a possibilidade de uma colheita recorde em 2008: seriam cerca de 640 milhões de toneladas em 225 milhões de hectares e um rendimento de cerca de 2.8 toneladas por hectar – caso o fator clima não aja de forma negativa mais uma vez. Na verdade, não há razões suficientes para acreditar que tais indicadores serão reais e capazes de mudar tendencialmente o comportamento atual do mercado mundial de alimentos, principalmente em razão das compras chinesas e indianas. O curso dos acontecimentos, na realidade, aponta para a manutenção das tendências atuais e, mesmo, sua acentuação.

Mesmo a análise de que os fatores desencadeantes da crise alimentar em 2006/7 são conjunturais merece melhor atenção. Considerados aperiódicos – climáticos – os fatores desencadeantes poderiam não incidir sobre as colheitas futuras. Contudo, podemos pensar que a forte aperiodicidade climática seria bem mais um fenômeno estrutural do que um fator aleatorio. Na verdade o fator climático assumiria um forte caráter estrutural recorrente e agravante enquanto parte direta do fenômeno do aquecimento global. Este, mostrar-se-ia muito mais intenso nas regiões temperadas boreal e austral – grandes celeriros cerealíferos – anunciando uma nova geografia agrária mundial.

A observação cuidadosa do mercado agrícola mundial nos próximos anos – mesmo num horizonte curto de cinco anos – deverá apontar , com mais exatidão, as tendências futuras.

De qualquer forma, a segurança alimentar deverá ser um tema central nas relações internacionais doravante. Particularmente a vitória do Partido Democrata americano nas eleições de 2008 ( com ou sem Al Gore ) deverá levar a preocupação ambiental ao nível de política de segurança do Estado, em possível substituição à “Guerra contra o Terrorismo” dos Republicanos de George Bush.

O Brasil, como grande centro produtor e consumidor ( trigo ), membro-líder do G-20 e no Grupo de Cairns deverá desempenhar um papel central no debate em torno da estruturação de um mercado (livre) de alimentos em âmbito mundial. Isso ao lado do estabelecimento de um mercado regulado de comodities bioenergéticas. Para tal estruturação as opções européias sobre o futuro da PAC, bem como o apoio de uma nova administração americana e a superação do imobilismo do Japão ( as grandes potências subsidiadors do setor agrícola mundial ) deverão ceder no âmbito de uma desejada retomada da Rodada de Doha.

Carta Maior
http://www.agenciacartamaior.com.br/

Comentários

Racismo disfarçado

Claudionor Mendonça dos Santos
19-Nov-2007

Define-se o racismo como qualquer doutrina que considera que as características culturais humanas são determinadas hereditariamente, pressupondo a existência de algum tipo de correlação entre as características ditas “raciais” dos indivíduos, grupos sociais ou populações.

Contudo, quanto ao racismo, determina a Constituição Federal, no artigo 5º, XLII, que sua prática constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão nos termos da lei.

Antes mera contravenção (Lei 1390/50, Lei Afonso Arinos), sua prática se constitui, atualmente, crime e insuscetível de alguns benefícios processuais, conforme determina o texto da Carta Magna.

Necessário salientar que o Brasil manteve a escravidão por mais de trezentos anos, sendo um dos últimos países a exterminá-la. A hedionda escravidão vislumbrava o negro como irracional, da mesma forma que via no índio o selvagem bom, ingênuo, mas desprovido de raciocínio.

Assim, durante quase quatro séculos, o negro foi “res”, sendo objeto de compra e venda e não podia ser proprietário, adquirir, nem suceder. Podia pertencer a mais de um proprietário, como objeto de condomínio, podendo ser alugado. O país foi o penúltimo a abolir a escravidão, depois do Marrocos.

No campo penal, a desigualdade com relação ao branco livre era aviltante, sendo considerado um ser inferior e que deveria ser punido mais severamente.

No Código do Criminal do Império: pena capital, quanto aos chamados livres, somente se houvesse votação unânime; para escravo bastavam 2/3 e, da sentença proferida contra o negro, não cabia recurso.

No cotidiano, a situação é mais cruel. Posturas adotadas por grande parte da sociedade revelam a existência, sempre negada, de puro racismo.

Expressões tais como: preto de alma branca, amanhã é dia de branco, cabelo ruim, a coisa tá preta demonstram de forma insofismável o racismo recôndito, disfarçado, mascarado e, em razão disso, bem mais aviltante.

Até mesmo no cancioneiro popular, facilmente, encontram-se frases demonstradoras do que pensam setores da sociedade: nega do cabelo duro, qual é o pente que te penteia?; ou, o teu cabelo não nega mulata; ou, minha cor não pega, demonstram de forma cruel como se vê o negro, contingente considerável da população brasileira.

Mudanças legislativas, obviamente, não alterarão o panorama, enquanto não houver tomada de posição radical, nas escolas e nos fóruns criminais, com a aplicação severa da legislação existente. Severidade que não necessita atingir a crueldade daquelas aplicadas aos escravos em época não muito remota.

Claudionor Mendonça dos Santos é Promotor de Justiça e integrante do Movimento do Ministério Público Democrático.

Correio da Cidadania
http://www.correiocidadania.com.br/

Comentários

A reestatização da justiça americana

Patti Waldmeir

Nos últimos 20 anos, os EUA criaram um sistema superior de justiça de segunda mão: arbitragem, mediação e outras formas cada vez mais criativas de justiça privatizada substituíram o evasivo julgamento americano. No melhor de todos os mundos possíveis, as disputas seriam resolvidas por juizes sábios e júris conscienciosos. Mas, em um mundo no qual apenas 2% das ações vão a julgamento, a justiça de segunda mão de um arbitrador é melhor do que nada. Os processos hoje em dia são resolvidos cada vez mais na base do “faça você mesmo”; os tribunais quase nem olham.

Agora, entretanto, os dois lados do espectro do capitalismo -de algumas das maiores empresas até os menores consumidores- estão reclamando que a privatização foi longe demais. O Congresso e a Suprema Corte estão debatendo a questão: será hora de trazer os juizes de volta?

No Congresso controlado pelos democratas, a reclamação é que os americanos não estão tendo seu direito de justiça quando assinam contratos que os forçam a arbitrar disputas com as mesmas empresas que lhes fornecem de tudo, desde seus telefones celulares até seus empregos. De fato, pede-se ao Congresso uma reestatização de milhões das brigas mais básicas, sob a alegação que as arbitragens privadas são parciais em favor do mundo corporativo. Isso talvez não aconteça no atual Congresso, mas, se os democratas dominarem as eleições gerais do ano que vem, pode facilmente acontecer no próximo.

Na Suprema Corte, a questão é inteiramente mais cerebral: qual papel o governo deve ter na supervisão da resolução privada das disputas? Os rivais que concordam em arbitrar uma briga de forma privada também têm direito de chamar um juiz, no último minuto, para pronunciar se o acordo é justo? Ou isso anularia todo o propósito de se privatizar a justiça?

Os juizes estão claramente perplexos com a questão. Na semana passada, dois dos principais advogados da Suprema Corte expuseram aos juizes seus argumentos em favor de posições opostas. Um insistiu que a autonomia é a essência da arbitragem: que, quando as partes concordam em arbitrar uma disputa, devem também ter permissão de escolher livremente se um juiz pode derrubar a decisão do arbitrador. O outro disse que isso deixaria a privatização da justiça sem sentido: que as arbitragens deixariam de ser rápidas, baratas e finais. Seriam como o litígio público: lento, custoso e interminável.

O caso diante deles, Hall Street contra Mattel, envolveu uma briga entre uma empresa de propriedades e uma firma de brinquedos sobre a contaminação da água de poço no Oregon. As duas empresas concordaram não só em arbitrar sua disputa, mas também em submeter o resultado a um juiz para que fosse revisto. O juiz derrubou a decisão do arbitrador, e eles voltaram à estaca zero -com apenas a Suprema Corte para recorrer e decidir se tinham o direito de pedir a opinião do juiz em primeiro lugar.

O caso se baseia na interpretação do Ato Federal de Arbitragem, lei de 1925 que decretou que a justiça devia ser privatizada em primeiro lugar. O ato parece permitir que os tribunais intervenham na arbitragem somente quando o arbitrador interpretou a lei de forma totalmente equivocada. Mas o espírito do ato decididamente favorece a autonomia das partes em disputa -e isso pode significar que têm a liberdade de decidir se um juiz pode entrar e derrubar o resultado.

Não está claro como os juizes decidirão o caso (o que deve ser feito até julho), mas está claro que, independentemente de como julgarem, a reestatização da justiça nos EUA deve continuar sendo um problema por algum tempo.

O caso meramente reflete um problema maior, diz Tom Stipanowich, diretor do Instituto Straus de Resolução de Disputas da Universidade Pepperdine. “Com a queda na incidência das ações na justiça, alguns advogados mudaram-se para a arbitragem”, diz ele. Eles trouxeram “cada vez mais os instrumentos que usavam na corte para o processo de arbitragem”. Isso ajudou a tornar algumas arbitrações mais longas, mais complexas e caras, levando a uma situação onde “a arbitragem é o novo litígio”, diz ele.

A Suprema Corte deve resistir à reestatização da justiça americana. No melhor de todos os mundos, há processos legais; no mundo real, há arbitragem. Há muitas alternativas piores.

Financial Times
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/fintimes/

Comentários

Alemanha ainda está dividida, 18 anos após a queda do muro

Da redação do Spiegel

Para marcar o aniversário da queda do Muro de Berlim, o Spiegel fez uma pesquisa de opinião com 1.000 alemães que cresceram nos dois lados da cortina de ferro. A conclusão perturbadora é que, 18 anos após a queda do muro, a Alemanha continua tão dividida quanto jamais foi.

A sexta-feira (09/11) marca a queda do Muro de Berlim. Também neste dia, as crianças nascidas no dia 9 de novembro de 1989 se tornaram legalmente adultas -a primeira geração que cresceu no país após o colapso da Alemanha Oriental comunista e sua reunificação com a Alemanha Ocidental.

Junto com a TNS Forschung, o Spiegel recentemente conduziu uma pesquisa com duas gerações de alemães orientais e ocidentais, para obter um retrato do progresso sobre a extensão da unificação na psique nacional. O muro proverbial ainda permanece nas mentes alemãs, quase duas décadas após a reunificação?

Quinhentas pessoas entrevistadas eram da faixa etária de 14 a 24 anos. Quando o muro caiu, os mais velhos deste grupo tinham apenas seis anos de idade -jovens demais para terem uma noção séria do que era a vida em um país dividido pela Guerra Fria.

Além disso, o Spiegel entrevistou 500 representantes dos pais da juventude pós-reunificação. Isso permitiu ao Spiegel determinar as diferenças entre as gerações mais jovens e mais velhas na sua forma de pensar a reunificação. Os resultados mostram que, mesmo após 18 anos da queda do muro, ainda não há uma Alemanha verdadeiramente unificada.

Os alemães orientais estão menos satisfeitos e menos otimistas com sua situação do que os que vivem nos Estados que compunham a antiga Alemanha Ocidental. Eles estão muito menos convencidos das virtudes da democracia do que seus colegas ocidentais, e muitos acreditam que o socialismo é uma boa idéia que simplesmente não foi bem implementada no passado.

De fato, as maiores diferenças na pesquisa aparecem quando os entrevistados orientais e ocidentais compartilham suas opiniões sobre a vida na antiga Alemanha Oriental. O Estado comunista recebe notas muito mais altas dos que moram no Leste do que dos que moram no Oeste. Dos alemães orientais de 35 a 50 anos, 92% acreditam que um dos maiores atributos da antiga Alemanha Oriental foi sua rede de segurança social; 47% dos jovens no Leste também pensam assim. Por outro lado, apenas 26% dos jovens ocidentais e 48% dos seus pais expressaram a opinião que a Alemanha Oriental tinha um sistema mais forte de bem estar social comparado com hoje.

Apesar da aparente nostalgia por certos aspectos da Alemanha Oriental, a maior parte dos alemães orientais diz que preferiria morar no oeste, se um novo Muro de Berlim fosse construído hoje.

Há um toque de otimismo nos resultados: apesar de importantes divergências nas opiniões entre os alemães orientais e ocidentais mais velhos, essas diferenças parecem estar encolhendo com a geração mais jovem. Lentamente, o país parece estar se unindo.

Quanto tempo, entretanto, levará para essa união se completar? Isso, é claro, depende de quem responde. Não levará mais do que cinco outros anos, responderam 25% dos jovens alemães ocidentais e 5% dos orientais. Quando o mesmo foi perguntado aos pais, somente 12% e 4%, respectivamente, concordaram.

Parte do problema é a identidade. O estudo revelou que 67% dos alemães orientais e ocidentais sentiam que tinham identidades diferentes um do outro. Quando a geração de seus pais foi perguntada a mesma pergunta, 82% disseram que os alemães orientais eram diferentes dos ocidentais. As diferenças entre os jovens alemães, porém, não são mais tão dramáticas quanto eram na geração dos pais.

Muitos alemães orientais mais jovens vêem o país reunido como um lugar onde seus pais têm dificuldades para encontrar um caminho. E apesar de eles praticamente não terem vivenciado a vida sob o socialismo, sua forma de pensar parece ter sido moldada em parte pelas situações dos pais e as histórias que compartilharam com eles sobre a vida na Alemanha Oriental.

De fato, os jovens alemães orientais vêem a antiga Alemanha Oriental sob uma luz mais amena do que seus compatriotas no Oeste. Em algumas áreas, eles têm mais alta opinião sobre o país desaparecido que seus pais -como no que diz respeito ao padrão de vida na Alemanha Oriental. É uma opinião de lentes cor de rosa, que vê uma Alemanha Oriental com emprego para todos, creches para todas as crianças e um sistema de bem estar social que acompanhava o cidadão do berço ao túmulo. É claro, essa geração não foi exposta aos aspectos negativos da vida sob o domínio comunista -como filas de comida e repressão da polícia.

Ainda assim, os sentimentos positivos para certos aspectos da antiga Alemanha Oriental continuam altos. Dos jovens alemães orientais entrevistados, 60% disseram que achavam que era ruim que nada tivesse restado das coisas que se podia orgulhar na Alemanha Oriental.

Jornal Der Spiegel
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/derspiegel/

Comentários (1)

O tormento de Otelo

Descrito na obra de William Shakespeare como o “monstro de olhos verdes”, o ciúme congrega sentimentos contraditórios. Influenciado por valores culturais, inspira pintores, compositores e escritores - mas também pode se transformar em doença.

Eduardo Ferreira-Santos

Em Fragmentos de um discurso amoroso, Roland Barthes escreve: “Como ciumento sofro quatro vezes: porque me reprovo por sê-lo, porque temo que meu ciúme machuque o outro, porque me deixo dominar por uma banalidade; sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum”. As palavras do escritor e filósofo francês revelam contradições e multiplicidades desse sentimento polimorfo - ou melhor, de um conjunto deles tão presente no psiquismo humano.

É possível entender o ciúme como uma manifestação do ser humano, tão normal quanto a raiva, o medo ou a inveja. Há, entretanto, fatores a considerar: a origem do sentimento, sua intensidade e duração, a maneira como a pessoa que o sente reage, a importância que assume no cotidiano e interferências que provoca não apenas na vida do ciumento, mas na daqueles que o cercam.

Se para uns surge de forma esporádica, como reação a determinado fato, em outros pode ser considerado traço de personalidade - são esses os ciumentos que, em geral, reconhecem a característica em si em vários momentos da vida, embora nem sempre lidem bem com ela. Em algumas pessoas o sentimento se configura como sintoma. Situações de crise, circunscritas a um determinado período, não se caracterizam necessariamente como processo patológico. Nesses casos, o sujeito costuma apresentar labilidade e descontrole emocional: antigos fantasmas o assombram, levando-o a confundir situações atuais com traumas vividos ou imaginados.

Nos bastidores da Psicanálise
O conhecimento psicanalítico provocou profundas transformações na forma de compreender o homem contemporâneo; e é nesse conhecimento que estão ancoradas a psicologia e as diferentes linhas psicoterápicas atualmente praticadas. Nem todos se dão conta, porém, de que na origem delas há importante contribuição do ciúme, ainda que indireta.

No fim do século XIX, o jovem Sigmund Freud, recém-saído da faculdade de medicina, foi estimulado pelo clínico vienense Joseph Breuer a levar adiante suas pesquisas. Vários pacientes do médico experiente sofriam de afecções nervosas e, entre eles, estava a bela e culta Bertha Pappenheim, que passou para a história com o codinome Anna O. Diagnosticada como histérica, ela apaixonou-se por Breuer e passou a enviar-lhe quase diariamente flores e outros presentes. Em momentos de confusão mental, insistia que o médico a tinha engravidado. A situação, bem como o tempo que Breuer dedicava à moça, despertaram a irritação de sua mulher. Enciumada, ela exigiu que o marido parasse de atendê-la.

Para contornar o impasse, ele encaminhou a paciente para Freud, com quem o encantamento se repetiu. Mais tarde, em sucessivas ocasiões, a jovem voltou a se interessar pelos médicos que a atendiam. A repetição foi percebida, estudada e descrita na teoria freudiana como transferência, um conceito que abriu campo para o direcionamento do atendimento psicanalítico.

Em 1922, mais de duas décadas depois, Freud escreveu: “Embora possamos chamá-lo \\’normal\\’, o ciúme não é, em absoluto, completamente racional, isto é, derivado da situação real, proporcional às circunstâncias reais e sob controle do ego consciente; pode achar-se profundamente enraizado no inconsciente, ser uma continuação das manifestações da vida emocional da criança e originar-se no complexo de Édipo ou nas relações entre irmãos do primeiro período sexual. Além do mais, é digno de nota que, em certas pessoas, ele é experimentado bissexualmente - o homem não apenas sofrerá pela mulher que ama e odiará seu rival, mas sentirá pesar pelo homem a que ama inconscientemente e pela mulher, sua rival”.

Novos Otelos
Um dos temas mais discutidos durante a conferência do Colégio Real de Psiquiatras, na Inglaterra, em julho de 1992, foi a “síndrome de Otelo”. O protagonista da obra de William Shakespeare inspirou compositores como Antonin L. Dvorak (que criou uma abertura para a montagem), Giuseppe Verdi e Gioacchino Rossini, o pintor romântico Eugène Delacroix e, mais recentemente, o cineasta Franco Zefirelli, além de tantos outros. No drama inglês, o mouro de Veneza estrangula sua mulher, Desdêmona, desesperado pela desconfiança de ter sido traído. Depois do assassinato, crava o punhal no próprio peito. A mulher, porém, não cometera adultério. Cego de ciúme e influenciado pelo invejoso Iago, Otelo se deixa levar pelo que considera ser prova da infidelidade da mulher.

O psiquiatra Dinesh Bhugra, professor do Instituto de Psiquiatria de Londres, coordenou durante o evento um treinamento específico para o atendimento de “Otelos”. Segundo ele, nas últimas quatro décadas a literatura vem registrando inúmeros pacientes que podem ser enquadrados nessa categoria. É possível que o maior número de casos nos consultórios tenha a ver com o estranhamento que determinados sentimentos desconfortáveis provocam, bem como o desejo de aplacá-los, em nome de uma vida psíquica mais saudável. É provável que sociedades capitalistas, marcadas por competição, tensão e desemprego inerentes ao modelo econômico vigente tornem as relações afetivas mais tênues, por um lado, e mais sujeitas ao rebote do efeito social frustrador, por outro. Como se fosse um mecanismo de deslocamento, o indivíduo que se vê em constantes embates internos e externos, em busca da realização de anseios de consumo e posse, transfere essa tensão para o relacionamento, concretizando, na esfera particular, sua raiva e agressividade.

Quando o ciúme deixa de ser uma manifestação tolerável? O sofrimento psíquico talvez seja uma medida adequada - embora subjetiva -, já que anuncia quando a situação passa a causar mal-estar intenso, repetindo-se de forma obsessiva (invadindo pensamentos) e compulsiva (na qual o indivíduo passa ao ato, sem controle de suas ações), até comprometer aspectos da vida da pessoa.

Sem Fim
Em seu polimorfismo, o sentimento adquire contornos de cada época e cultura. Os critérios para caracterizá-lo como doença são sutis, principalmente em situações limítrofes, nas quais vários quadros patológicos podem se sobrepor. Muitos não conseguem imaginar o ciúme dissociado de sentimentos amorosos. Em alguns meios, é considerado uma contingência do afeto: aquele que não o desperta duvida da veracidade do sentimento do outro, como se fosse uma “prova de amor”. Há pessoas que se empenham em chamar a atenção do parceiro e despertar seu interesse tentando deixá-lo enciumado. No Brasil, um dos reflexos dessa “normalização” do ciúme se reflete nos raros estudos acadêmicos sobre o tema. A herança judaico-cristã contribui para perpetuar essa postura. Em outras sociedades a visão é bem diversa. Para o americano moderno, por exemplo, identificado com a postura liberal, defensor ferrenho dos direitos individuais e da política de não-intervenção nos assuntos íntimos (pelo menos em tese), a pessoa a quem se dirige o ciúme se sente invadida, como se tivesse seus direitos desrespeitados.

Os americanos Gordon Clanton, sociólogo, e Lynn Smith, psicóloga, pesquisam o assunto levando em conta transformações culturais e sociais. Eles afirmam que entre americanos adultos (de 25 a 40 anos) de classe média houve uma significativa mudança de atitude em relação ao tema, em especial a partir do início da década de 70. O ciúme “normal”, encarado como inevitável acompanhante do amor e, portanto, suporte do casamento, passou a ser visto por muitos como uma expressão de fragilidade do relacionamento e de insegurança do cônjuge que o demonstrava portanto, uma ameaça ao sucesso da parceria íntima.

Estudo coordenado pelos psicólogos Elliott Aronson, da Universidade da Califórnia, e Ayala Pines, da Universidade de Berkeley, mostrou que pessoas inseguras são mais propensas a arroubos de ciúme. Minuciosos questionários aplicados a 100 voluntários com idade entre 20 e 50 anos permitiram traçar o perfil do ciumento como uma pessoa que, embora muitas vezes não duvide da própria capacidade de atrair interessados e de iniciar relacionamentos, tem dificuldade de acreditar que possa manter uma relação estável. A baixa auto-estima a leva não só a acreditar que o amado possa traí-lo como o faz esperar constantemente por isso.

Pleno de contradições, num dos extremos o ciúme personifica a aspiração de um modelo de relação humana e o protesto pela perda do compromisso idealizado de fidelidade. Ao mesmo tempo, a convivência é contaminada pela tentativa de imposição de desejos e prioridades de uma pessoa sobre a outra. Por isso mesmo o ciúme tem uma faceta marcante: a tentativa de negação da alteridade, da subjetividade do outro. De maneira aparentemente contraditória, a possibilidade ilusória de realização e completude muitas vezes é projetada na pessoa que se deseja, isto é, no objeto amoroso. Ocorre, ainda que provisoriamente, um movimento de “esvaziamento” do ego. Daí a identificação do ciumento com as sensações de exclusão, desprezo e inferioridade. Outro componente importante nesse quadro é o tormento da imaginação obsessiva. Não raro, a pessoa constrói fantasias paranóides, sentindo-se ameaçada pela perda e pela humilhação. Em muitos casos, a comprovação da traição chega a atenuar o sofrimento.

Um exemplo dessa construção mental paranóica, marcada pela desconfiança, é apresentada no filme Ciúme (1994), de Claude Chabrol, cujo título original, em francês, é L\\’enfer (O inferno). O protagonista, Paul, é subitamente tomado pela absoluta certeza de que a esposa, Nelly, mulher bonita e extrovertida, mantém relacionamentos extraconjugais. Mesmo quando ela se esforça para evitar eventuais encontros com outras pessoas, o marido interpreta o comportamento como evidência de sua culpa. Transtornado, ele a segue e a agride verbal e fisicamente. Levado ao médico, Paul está certo de que também o profissional tem um caso com Nelly. Seu sofrimento é flagrante. Numa alusão à tortura que se perpetua, Chabrol encerra com a legenda: “sem fim”.

Desde a infância
O ciúme que atormenta os adultos tem raízes na vida infantil. A criança o revela de forma explícita: o nascimento do irmão faz explodir o sentimento de ter sido traído pelos pais. Surgem indignação, dor, raiva. E mais: ressentimento, culpa, angústia de abandono e ferimento narcísico. Por que todas essas sensações que parecem um furacão desde os primórdios da vida e permanecem pulsando, ressoando e revisitando todos que amam, insistentemente, até o fim da vida?

Desde o nascimento o ser humano está submetido a forças e tensões que surgem do corpo e do ambiente e, no início, não se distinguem de vivências somáticas: fome, sede, frio necessidades fisiológicas que precisam ser descarregadas e recarregadas. Depois surge a necessidade de ser reconhecido, receber atenção, sentir-se incluído e querido. Essas demandas e pulsões precisam se transformar em figuras e fantasias e, mais tarde, em palavras e memórias, para que possam circular, virando experiência vivida e comunicável ao outro que escuta. Das pulsões aos nomes, às figuras e às memórias, estamos descrevendo o início da vida psíquica: desde os primórdios ou mais tarde, no divã do analista, é somente pela escuta e pela ressonância que podem nascer as palavras com que vamos nomear o que não tem sossego nem nunca terá. A vida psíquica se assenta sobre este tecido primordial e inconsciente, base da memória mais arcaica, da camada pré-verbal da experiência formada por sentimentos e sensações ilimitados, infinitos, que disparam à nossa revelia.
O ciúme expressa o desejo de controlar e possuir unicamente para si a pessoa que se quer bem. Nasce de uma demanda de exclusividade, do desejo de ser tudo para alguém, da situação de não suportar dividir a atenção da pessoa amada com mais ninguém. O ciúme traz consigo uma grande angústia de ser excluído, sentir-se fora dos jogos amorosos de nosso bem-amado e correr o risco de perder sua atenção e seu amor. Uma das tarefas mais difíceis do crescimento é superar a forma infantil de amar, que permanece pulsando na penumbra. A criança atemporal que vive escondida em nós é exclusivista, possessiva, onipotente e não quer saber de autonomia e independência do outro. A personalidade adulta não pode ficar dominada pelo modo infantil de ser, mas precisa conter, transfigurada, a intensidade infantil, povoada de indestrutíveis desejos de perfeição, posse, exclusividade e controle. Há em nós uma criança cheia de onipotência, raiva, desespero, desamparo, medo de abandono: ela luta com seus fantasmas bons e maus, com suas fantásticas figuras imaginárias - as imagos que foi criando e não a deixam em paz.

A experiência mostra que a mãe e as pessoas que cuidam do bebê representam tudo o que ele deseja: uma fonte inesgotável de alimento e amor que a criança reserva para sua própria satisfação e não se digna a dividir com mais ninguém. Tendo perdido a “unidade pré-natal” com a mãe, a amamentação, o colo, os abraços e carinhos parecem sempre insuficientes. Nenhum cuidado materno, por melhor que seja, poderá proporcionar a plenitude e a segurança da situação intra-uterina. Desse diferencial de prazer surge a inevitável margem de insatisfação que acompanha tudo que vivemos depois do nascimento. Assim como a inveja, o ciúme nasce da saudade de um estado ideal, pleno da satisfação que se teve e foi perdida, misturado a um enorme ressentimento. Esse ódio, que parece justificado, alimenta na pessoa uma condição de vítima privilegiada que lhe dá o direito de vingança sobre aqueles que perturbaram a ilusão de perfeição infantil.

Diante de emoções tão intensas, o filósofo Spinoza já aconselhava: não se deixe indignar, não chore, mas com-preenda. A psicanálise propõe a transformação da forma infantil de amar pela via da escuta das onipotentes e desmedidas paixões - amor, ciúme, controle, posse, ambição, inveja, raiva - com seu caráter indomável, ilimitado e insaciável, “que não tem governo nem nunca terá”. Tal demanda de amor absoluto e pleno precisa ser atravessada, conhecida, mas não sufocada, pois aí reside toda a criatividade. Talvez essa seja a tarefa mais exigente e difícil da análise: aprender a elaborar o sentimento de exclusão e transfigurar o ciúme, a possessividade e a onipotência, transmutando-as em dom criativo e singular. Tarefa de fôlego que leva uma vida inteira e pode parecer impossível. A sede tem de virar fonte. A criança viva que nos habita é ao mesmo tempo o tormento e a fonte inesgotável.

Para conhecer mais
Ciúme - O medo da perda. Eduardo Ferreira-Santos. Editora Claridade, 2003.

Revista Mente e Cérebro
http://www2.uol.com.br/vivermente/

Comentários

Controvérsia cresce

Olá, tudo bem?

A popularidade do Blog CONTROVÉRSIA vem superando as expectativas e o número de acessos mensais comprova isto. Fechamos o último mês com mais de 1.600 visitas/dia.

O ALEXA, site (em inglês) que mede a posição que a página da internet ou blog ocupa no mundo, confirma esta popularidade do Blog. Quando do seu lançamento (em julho de 2006) ocupávamos a posição 3.500.000 aproximadamente, porém, com o aumento das visitações nossa situação melhorou muito.

Em 02 de novembro ocupávamos o lugar 1.141.483 (as alterações de posição não são diárias).

Clique aqui e confira.

Mais uma vez obrigado pela audiência.

Grande abraço.

Ricardo Alvarez

Comentários

DESOCUPAÇÃO MANU MILITARI REIVINDICADA PELO REITOR DA UFBa: UMA AMEAÇA A TODAS AS UNIVERSIDADES PÚBLICAS

Roberto Leher (FEUFRJ)

Em um contexto muito distinto, pois as proporções da ocupação estudantil eram incomensuravelmente maiores, Albert Einstein ligou para seu amigo, Max Born, igualmente um grande físico, Nobel de 1954, para expressar sua preocupação com o fato de que um grupo de estudantes revolucionários tinha ocupado a Universidade de Berlim, por ocasião do final da I Guerra Mundial, e prendido o reitor e alguns professores. Mesmo estando os estudantes armados - o confronto militar ainda não havia cessado inteiramente - Einstein não hesitou em se dirigir à universidade para dialogar com os jovens. Por sua respeitabilidade como professor e cientista, ele pôde entrar na universidade ocupada, defender o valor da liberdade acadêmica e, a seguir, intermediar as negociações com o presidente recém eleito, Friedrich Ebert, solucionando o conflito sem repressão e arrogância.

Quase 90 anos após este episódio, por ordem do reitor da UFBa, na data comemorativa da proclamação da “República”, ao raiar do dia, a Polícia Federal invadiu a Reitoria ocupada por estudantes há 46 dias, usando da força, levando estudantes de camburão para a Polícia Federal e despejando seus utensílios como se fossem lixo. Considerando o contraste com a postura de Einstein, não surpreenderá se o reitor abrir um processo interno para jubiliar os jovens que estavam ocupando um espaço público para reivindicar o debate democrático sobre um projeto de reestruturação da universidade. Por imposição do MEC e aquiescência do reitor com o ato heterônomo do governo, o referido projeto foi votado a toque de caixa, sem real discussão com a comunidade acadêmica, via-de-regra em sessões que violaram os valores acadêmicos mais estruturantes da instituição universitária, como o esclarecimento, o diálogo entre os pontos de vista divergentes e a publicidade dos atos nos colegiados universitários.

Tive o privilégio de ter sido convidado para uma conversa informal com os estudantes na ocupação, quatro dias antes da repressão Federal, por ocasião do III Encontro de Educação e Marxismo, realizado na UFBa, no qual faria uma fala no dia seguinte. Em pleno domingo, e ao mesmo tempo em que a duas quadras estava sendo realizado um show conjunto Titãs - Paralamas do Sucesso, cerca de 70 jovens optaram por discutir questões mais profundas da universidade: a sua função social, a autonomia universitária, as consequências da mercantilização e da conversão das universidades federais brasileiras em organizações de ensino terciárias, nos termos bancomundialistas e do projeto Universidade Nova/REUNI.

A abertura da conversa foi a partir de um criativo ato teatral inspirado no teatro do oprimido. A prosa teve como eixo a relevância das lutas estudantis de Córdoba - realizadas no mesmo ano em que Einstein corajosamente defendeu o ethos acadêmico sobre a força policial-militar (1918) - para a reforma das universidades latino-americanas, contra o dogmatismo das oligarquias, das igrejas, dos catedráticos avessos à pesquisa e à docência e em defesa da liberdade de cátedra, da indissociabilidade entre o ensino e a pesquisa, do governo compartilhado, do livre acesso dos jovens à universidade e do compromisso das universidades com os grandes problemas dos povos.

A despeito da existência de pontos de vista distintos, o ambiente na ocupação era radicalmente democrático, respeitoso com a divergência, construtivo no pensar e fazer alternativas à “velha universidade” subordinada à razão instrumental de um capitalismo dependente. Ao lado dos painéis de azulejo, um precioso patrimônio, o alerta de que nada deveria ser colado em cima dos mesmos, pois as instalações da universidade são públicas. Há muito tempo não pude estar em um ambiente em que os valores universitários fossem tão vivos e genuinos. Saí da conversa otimista quanto ao futuro da universidade pública, pois minha convicção de que somente teremos uma reforma radical das universidades públicas com o forte protagonismo estudantil foi reforçada pelas extraordinárias contribuições daqueles estudantes.

Em nome do futuro da universidade podemos celebrar a figura de Einstein. O reitor da UFBA, por outro lado, juntar-se-á a uma seleta galeria de “reitores” que tentou impor os seus pontos de vista por meio da repressão, como foi o caso do ex-”reitor” da UFRJ José Henrique Vilhena, e de todos os que silenciaram coniventes diante do AI-5 e do Decreto 477.

A continuidade das retaliações contra os estudantes tem de ser vista como uma séria ameaça à concepção de universidade como um espaço de liberdade ilimitada em que é possível errar, sonhar e criar. Todos os que defendemos a liberdade acadêmica estaremos acompanhando com atenção os atos da administração para resguardar o direito a livre manifestação dos estudantes que, afinal, na áspera história da América Latina foi decisiva para forjar a universidade latino-americana!

Comentários

Consciência negra

16/11/2007
Tânia Maria Silveira *

Último país a abolir o trabalho escravo, o Brasil definiu recentemente dedicar o dia 20 de novembro à reflexão sobre a inserção do negro na sociedade. A data foi escolhida em homenagem a Zumbi, grande guerreiro do Quilombo dos Palmares, o mais emblemático dos quilombos que marcaram a história deste país. Localizado na Serra da Barriga, hoje estado de Alagoas, este núcleo de resistência à escravidão durou mais de um século e chegou a ter cerca de 20 mil pessoas.
A prosperidade de Palmares chamou a atenção do Governo Colonial, o qual, para destruí-lo, realizou dezoito expedições armadas. O insucesso das forças repressoras locais motivou o Governador Português de Pernambuco, Caetano de Melo e Castro, a contratar o serviço do famigerado bandeirante Domingos Jorge Velho e o Capitão-Mór Bernardo Vieira de Melo. Em janeiro de 1694, com uma bandeira de seis mil homens armados, inclusive, com artilharia, eles iniciaram a empreitada e mataram Zumbi, numa emboscada, no dia 20 de novembro de 1695. Palmares e Zumbi transformaram-se em símbolo da resistência dos afrodescendentes à escravatura, confirmando a crença dos negros daquela época sobre a imortalidade do seu líder. A carta do Governador de Pernambuco ao Rei de Portugal, escrita em 14 de março de 1696, expressa bem as razões deste simbolismo e justifica a homenagem prestada a Zumbi: “Determinei que pusessem sua cabeça em um poste no lugar mais público desta praça, para satisfazer os ofendidos e justamente queixosos e atemorizar os negros que supersticiosamente julgavam Zumbi um imortal, para que entendessem que esta empresa acabava de todo com os Palmares.”[1]
Passado mais de um século da abolição, na década de 70, o mês de novembro tornou-se referência para as pessoas e as organizações do Movimento Negro, substituindo os festejos do dia 13 de Maio, data comemorativa da abolição da escravatura no Brasil, quando foi assinada a Lei Áurea, pela Princesa Isabel, em 1888. Os eventos que marcam o dia 20 de novembro são educativos ou reivindicativos, visando à igualdade racial. As atividades tratam de um conjunto de questões relativas aos problemas enfrentados pela população afrobrasileira: inserção do negro no mercado de trabalho, cotas universitárias, discriminação e violência por parte da polícia, moda e beleza negra, identificação de etnias, valorização dos quilombolas e apoio à regularização de seus territórios, etc.
Consciência Negra: uma frase composta de duas palavras plenas de Significados
Considerando a importância do debate que ocorre no mês de novembro, o presente texto pretende contribuir com a discussão. Num propósito didático, vamos tratar as palavras em separado, buscando compreender o significado desta insígnia: consciência negra.
Ser ou não ser: eis a questão?
Consciência é um assunto muito pesquisado na psicologia, na neurologia, filosofia da mente, e ciência cognitiva. É um tema controverso. Enquanto alguns autores definem consciência como sendo uma qualidade psíquica, um atributo do espírito, da mente , ou do pensamento humano, outros, tais como Marx e Engels[2], afirmam que a consciência é “ um produto social e continuará a sê-lo enquanto houver homens ”. Ou seja, os dois autores[3] concordam que não existe consciência pura e afirmam: “Minha consciência é minha relação com o que me rodeia ”.
A divergência entre consciência individual e social expressa-se até mesmo na interpretação do texto de Willian Shakespeare. A frase “ser ou não ser: eis a questão”, conforme é usualmente empregada, expressa uma pergunta abstrata, voltada para o espírito, uma questão da consciência individual. No entanto, o dilema do Príncipe Hamlet está profundamente contextualizado na peça de Shakespeare, uma dramática disputa na família real pelo trono da Dinamarca. Hamlet, o Príncipe herdeiro, fica sabendo que seu tio, o Rei Cláudio, é o assassino do Rei da Dinamarca, Hamlet, seu pai. Então, o Príncipe Hamlet, dialogando com os fantasmas da sua consciência, interroga-se: “ Ser ou não ser, eis a questão: Será mais nobre em nosso espírito sofrer pedras e setas com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja, ou insurgir-nos contra um mar de provações e em luta pôr-lhes fim ?”[4]. O autor, por meio do personagem, nos coloca face a face com o dilema da consciência em relação ao mundo que nos rodeia.
Para a sociologia, seja em Durkheim, Weber ou Marx, a noção de consciência é inseparável de uma certa compreensão da relação entre indivíduo e sociedade. Reafirmando esta idéia, Marx insiste: “Importa, acima de tudo, evitar que a “sociedade” se considere novamente como uma abstração em confronto com o indivíduo. O indivíduo é o ser social . A manifestação de sua vida, mesmo quando não surge diretamente na forma de uma manifestação comunitária, realizada conjuntamente com outros homens – constitui, pois uma expressão e uma confirmação da vida social.” [5]
Nesta visão, os indivíduos (dotados de subjetividade) reproduzem, através de suas relações com outros, o legado de gerações passadas, dando continuidade ao movimento de reprodução social, o que é fundamental para a formação da consciência coletiva.
Finalizando a reflexão sobre a consciência, vale recordar, nas palavras de Nelson Rodrigues[6], o legado de gerações passadas a respeito das relações sociais que nós, brasileiros reproduzimos coletivamente: “Não caçamos pretos, no meio da rua, a pauladas, como nos Estados Unidos. Mas fazemos o que talvez seja pior. A vida do preto brasileiro é toda tecida de humilhações. Nós o tratamos com uma cordialidade que é o disfarse pusilânime de um desprezo que fermenta em nós dia e noite.” Este dilema assemelha-se ao hamletiano.
Negro: Raça, Etnia, Povo, Nação?
A palavra negro foi adotada pelos portugueses para designar todos os escravos. Inicialmente, os índios escravizados estavam incluídos nesta denominação genérica. Ou seja, o termo negro foi usado para classificar grupos humanos como equivalente a raça. Certos sociólogos brasileiros, como Clóvis Moura, consideram o termo negro o mais adequado para classificar a etnia à qual a pessoa pertence. Por outro lado, existe uma grande resistência da sociedade brasileira à utilização deste termo.
A complexidade histórica e identitária de milhões de brasileiros, especialmente os oitenta milhões de afrodescendentes, oferece muitos e importantes temas para reflexão, estudo e debate. Um indicador desta complexidade é a variadíssima nomeclatura de auto-definição brasileira referente à raça/cor: branco, preto, amarelo, pardo, negro, chocolate, moreno, mulato, mestiço, etc.
A dificuldade das pessoas em autoidentificar-se remete para o debate sobre a definição adequada dos afrodescendente. Preconiza a definição de critérios para triagem dos beneficiários das cotas universitárias, por exemplo, fomentando a retomada das idéias e métodos eugênicos de identificação racial.
O conceito raças humanas foi adotado pela primeira vez em 1684, por François Bernier , num trabalho em que ele realizou a primeira classificação dos homens em raças : “Nova divisão da terra pelas diferentes espécies ou raças que a habitam.” [7] No século XX, os estudos publicados por vários naturalistas popularizaram o termo. Segundo esses estudos, as raças humanas distinguiam-se pelo padrão biológico: cor da pele , formação do crânio e do rosto, tipo de cabelo, autoidentificação, crenças, ancestralidade, etc.
No início do século XX , Franz Boas pôs em causa a noção de raça e foi seguido por outros antropólogos e um certo número de cientistas, como J. Philippe Rushton , Arthur Jensen , Vincent Sarich e Frank Miele , autores de “Race: The Reality of Human Differences”[8], que afirmou a origem política da tese racista e negou suas bases científicas. Desde então este conceito foi muito criticado. O desenvolvimento da genética ofereceu bases científicas que se contrapuseram às teses raciais e, assim, o termo raça humana caiu em desuso.
Algumas vezes utiliza-se, ainda hoje, o termo raça para identificar um grupo cultural ou étnico-lingüístico, sem quaisquer relações com um padrão biológico. Nesse caso pode-se preferir o uso de termos como população , etnia , ou mesmo cultura .
Comumente ouvimos a expressão “o povo negro” sendo usada para designar os afro-descendentes de maneira coletiva. O termo povo é amplamente utilizado. Ele identifica tanto uma nacionalidade – por exemplo, o povo brasileiro –, quanto uma etnia – o povo guarani –, ou ainda um grupo social – por exemplo, o povo nordestino. A definição deste termo tem mudado ao longo do tempo. Na antigüidade ele era empregado para definir a base originária da nação. Com o advento da modernidade, a criação do conceito de Estado-nação redefiniu o seu significado. Por exemplo, o povo brasiliero é formado por centenas de etnias indígenas e vários grupos nacionais reconhecidos, tal como o dos pomeranos. Atualmente, as Nações Unidas assumem a definição de povo, cujas características compreendem a identidade, a homogeneidade interna, a unidade política, ou seja, o significado adotado pressupõe a eliminação das diferenças.
Outro termo adotado é etnia . O antropólogo Fredrik Barth define-o de maneira bem precisa : “ son los grupos humanos que se consideran herederos de una comunidad histórica y de una especificidad cultural, a menudo formulada en términos de ascendencia común y que comparten la voluntad de mantenerla”.[9]
O termo nação também tem várias definições conceituais. Com o advento da modernidade foi aceita a idéia de que se trata de uma unidade criada por vontade política, isto é , “una forma particular de unidad política, definida por la soberanía; que tiene como efecto, en el interior, integrar a las poblaciones que incluye, y en el exterior, afirmarse en cuanto sujeto histórico en un orden mundial basado en la existencia y las relaciones entre naciones-unidades políticas. Pero su especificidad consiste en que integra a las poblaciones en una comunidad de ciudadanos cuya existencia legitima la acción interior y exterior del Estado.” [10]
Considerando que a cultura é uma construção social, tanto as etnias quanto as nações estão submetidas às dinâmicas históricas, ou seja, são produtos de situações políticas, no sentido amplo do termo. Exemplo disso foram as idéias de superioridade racial que justificaram a escravagem em muitos lugares do mundo, ou ainda, as propostas de branqueamento da população brasileira defendidas por cientistas e intelectuais no início do século XX. “ Em 1911, no I Congresso Internacional das Raças, João Batista Lacerda apresentou uma tese que previa a extinção dos mestiços e pessoas de raça negra, na entrada do novo século (Schwarcz, 1998). Nessa mesma direção, o antropólogo Roquete Pinto, em 1927, no Congresso Brasileiro de Eugenia, fazia sua previsão de que em 2.012, a população brasileira seria constituída por 80% de brancos e 20% de mestiços, nenhum negro, nenhum índio.” [11]

Considerações finais
Diferentemente das prospectivas do início do século passado propaladas pelos intelectuais do branqueamento, o Brasil concentra hoje o segundo maior contingente populacional negro do mundo. Os quatrocentos anos de escravidão e a maneira como foi feita a abolição no Brasil, sem qualquer política reparatória aos escravos libertos, resultaram numa massa de despossuídos. Conforme o primeiro recenseamento registrou, em 1872, a população com ascendência africana, negros e mulatos, era de 5,8 milhões[12]. Hoje, um século depois da abolição, a população com ascendência africana é quase metade da população brasileira, 46%, ou seja, cerca de 80 milhões[13].
Os despossuídos do passado continuam excluídos do desenvolvimento econômico deste país. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada - IPEA, “de cada dez pobres, seis são negros. Enquanto cerca de 22% dos brancos são considerados pobres, este percentual na população negra é mais do que o dobro (47%).” [14]
Além dos problemas econômicos, outros fatores agravam a condição sócio-cultural dos afro-descendentes: a diáspora vivida pelos povos africanos durante mais de 300 anos somada às imposições da escravidão, tais como, a desconstrução sócio-cultural, a desagregação familiar, a apropriação de outra língua, de outros hábitos, a miscigenação, etc.
Ao longo dos 500 anos de construção nacional, esta experiência desumanizadora produziu uma sociedade diversificada, plural, contraditória e um povo-nação – os brasileiros – marcado por crueldades e discriminações, desigualdades e dores. É neste contexto que se coloca a questão identitária dos afro-descendentes e dos brasileiros enquanto povo forjado nos encontros e conflitos de tantos povos, etnias e nações: ser ou não ser! Os debates inter-étnicos têm sido calorosos, os embates duros e, muitas vezes, sangrentos.
Refletir sobre consciência negra significa analisar a consciência da relação que estabelecemos com o que nos rodeia. Neste caso, vale considerar ainda o padrão imagético da sociedade atual, na qual o SER e o PARECER se confundem deliberadamente.
Finalmente penso que, para tratar a inserção do/a negro/a na sociedade brasileira, devemos nos indagar sobre o sentido desta busca. Queremos ampliar nossa consciência negra para reconhecer os traços afro-descendentes que marcam nossa sociedade? Queremos ser ou parecer afro-descendentes? Qual é a base desta busca: o retorno ao passado, à saudosa mãe África, para nós, exótica, porque foi islamizada, cristianizada, explorada, empobrecida, etc., ou queremos dialogar com nossa história brasileira, com o vivido aqui, em conflitos escravistas e antiescravocratas? Qual o projeto de sociedade que nos unifica neste território?

REFERÊNCIAS:
1- http://pt.wikipedia.org/wiki/Zumbi_dos_Palmares , acessado em 14/10/2007.
2- MARX, K. e ENGELS. A ideologia Alemã, vols. I e II. São Paulo/Lisboa, Martins Fontes, s/d.
3- Idem.
4- SHAKESPEARE, W. Hamlet. São Paulo . Abril Cultural, 1976.
5- MARX, K. Manuscritos Econômicos e Filosóficos. Lisboa, edições 70, 1993.
6- RODRIGUES,N. in FERREIRA,RF. O brasileiro, o racismo siliencioso e a emancipação do afri-descendente . http://www.scielo.br/pdf/psoc/v14n1/v14n1a05.pdf , acessado em 15/10/2007.
7- http://pt.wikipedia.org/wiki/negro , acessado em 14/10/2007.
8- Idem.
9- BARTH, F. Los grupos étnicos y sus fronteiras: la organización social de las diferencias culturales, Fondo de Cultura Econômica , México, 1969. in . REINA, L. La Construcción del Índio y la Nación en el México del Siglo XX. http://www.lasak.or.kr/CELAOfiles/papers/Session5/Leticia%20Reina%5BSession5-3%5D.pdf , acessado em 15/10/2007.
10- SCHNNAPER, D. La comunidad de los ciudadanos. Acerca de la idea moderna de nación, Alianza Editorial, 2001, pp. 28 y 29; GUERRA, F.X, “Introducción”, en Antonio Annino y Francisco-Xavier Guerra (coords. ), Inventando la nación Iberoamericana. Siglo XIX, Fondo de Cultura Económica, 2003, México, pp. 7-11; König, 2000. Casi todos los autores coinciden en concebir a la nación como una unidad política. Aunque Schnnaper distingue entre: nación cívica, nación política, nación democrática o nación-comunidad de ciudadanos. Otros autores agregan que existe una nación comunal histórica y cultural. In REINA, L. La Construcción del Índio y la Nación en el México del Siglo XX. http://www.lasak.or.kr/CELAOfiles/papers/Session5/Leticia%20Reina%5BSession5-3%5D.pdf , acessado em 15/10/2007.
11- FERREIRA, RF. O brasileiro, o racismo silencioso e a emancipação do afro-descendente. http://www.scielo.br/pdf/psoc/v14n1/v14n1a05.pdf
12- BACCI, M.L. , 500 anos de demografia brasileira: uma resenha , http://www.abep.nepo.unicamp.br/docs/rev_inf/vol19_n1_2002/vol19_n1_2002_8pontodevista_141_159.pdf , acessado em 25/10/2007.
13- http://www.planalto.gov.br/seppir/ , acessado em 25/10/2007
14- Idem

*Tânia Maria Silveira, militante dos Direitos Humanos.

Comentários (10)

“É impossível ser neutro”

Autor, em 1979, de uma polêmica história da Guerra do Paraguai, Júlio Chiavenato comenta a recente discussão sobre a ideologização dos livros didáticos

DA REDAÇÃO

Um debate em torno da ideologização do ensino da história tem provocado polêmica, com denúncias de livros didáticos que fariam propaganda do governo federal e do regime comunista.
Se, por um lado, esses livros, encomendados pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), continham exemplos extremos de parcialidade, como chamar o chinês Mao Tse-tung de “grande estadista”, por outro a disputa entre versões da história é uma constante.
Para comentar o caso, o Mais! foi ouvir alguém acostumado a essas disputas: Júlio José Chiavenato.
Chiavenato enfrentou um dos exemplos mais pungentes da tese de que a história é escrita pelos vencedores, a história da Guerra do Paraguai como descrita pelos militares, durante a ditadura militar.
Em 1979, lançou “Genocídio Americano - A Guerra do Paraguai” (ed. Brasiliense), questionando a história oficial do conflito. E, com o passar do tempo, o contestador se tornou contestado.
Em vez de enaltecer o “heroísmo” das potências regionais que venceram o regime de Solano López, Chiavenato enfatizou a obediência de Brasil e Argentina à política externa britânica -para a qual o Paraguai pecaria justamente por tentar escapar à sua influência.
Depois de gozar do prestígio de revisar a história contada pelos militares, Chiavenato viu, na década de 90, Francisco Doratioto, hoje professor de relações internacionais da Universidade Católica de Brasília, apresentar uma nova versão, com outras explicações para o conflito: “Maldita Guerra” (Companhia das Letras, 2002).
Na entrevista abaixo, o jornalista autodidata -diz que não quis fazer curso superior- afirma que as duas versões têm abordagens diferentes, mas não aceita a minimização da influência britânica. Também diz que “é impossível ser neutro”. Para Chiavenato, 68, o problema dos livros didáticos atuais não é a ideologia -ela sempre está presente-, mas sua própria existência: “O ideal seria não haver livro didático, mas, sim, o professor ser qualificado”. (ERNANE GUIMARÃES NETO)

FOLHA - Como vê a atual revisão da Guerra do Paraguai?
JÚLIO JOSÉ CHIAVENATO - A cada vez que se escreve um livro de história, os fatos são analisados com os olhos do presente. Quando escrevi meu livro, o país era pressionado pela ditadura militar, o que influenciou sua escrita e a leitura das outras pessoas. O assunto era um tabu na história do país.
FOLHA - Seu texto operou uma “desmistificação”?
CHIAVENATO - Foi de encontro a tudo isso, por vários motivos. Primeiro, desmascarava a versão de que fomos os heróis -como se na guerra pudesse haver heróis. Depois, pela reação exacerbada dos militares.

FOLHA - Em que mudou seu discurso nesses anos?
CHIAVENATO - Nada, o que mudou foi o entendimento das pessoas.

FOLHA - Que diz de pesquisadores que amenizam a influência da Inglaterra, como Doratioto?
CHIAVENATO - Não se pode ignorar que, quando começou a guerra, o Brasil começou a tomar empréstimos cada vez maiores da Inglaterra. A dívida externa do Brasil cresceu e os empréstimos foram quase exclusivamente para a guerra. É evidente que na relação com a Inglaterra havia várias contradições -como há na relação com os EUA hoje.

FOLHA - O que o aluno aprende sobre a Guerra do Paraguai hoje está mais próximo da “realidade”?
CHIAVENATO - Depende do professor. De 1920 a 1979, não houve nenhum livro “novo” sobre a Guerra do Paraguai. Desde então surgiram dois livros de certa importância: o de Doratioto e o meu. É o maior conflito da América do Sul, no entanto só há esses livros -há teses. Esses dois livros estão próximos da realidade, dão condições de o professor ensinar. Mas, infelizmente, hoje está tudo ideologizado.

FOLHA - Há uma falsa aparência de neutralidade?
CHIAVENATO - É impossível ser neutro. Já imaginou escrever um livro sobre o Holocausto e ser neutro? Foram 6 milhões de mortos, é preciso ser contra.

FOLHA - E a ideologia em “Projeto Araribá”, livro didático que usou textos de divulgação do programa Fome Zero, ou em “Nova História Crítica”, considerado extremamente parcial contra o capitalismo e pró-comunismo?
CHIAVENATO - Não tem nada de mais ser a favor ou contra o socialismo ou o comunismo. Mas há formas de dizer com responsabilidade e sabendo a quem dizer. Tem gente que quer convencer; já o professor deve ajudar o aluno a tirar suas próprias conclusões.

FOLHA - Pelo que viu desses livros, parecia exagerada a apresentação dos conceitos?
CHIAVENATO - Os autores se defenderam dizendo que as citações apareciam fora de contexto. Para mim era a coisa certa dita de forma errada.

FOLHA - Qual sua opinião sobre os livros didáticos de história no Brasil?
CHIAVENATO - Em primeiro lugar, acho que não deveria existir livro didático. Acaba sendo ideológico, pois o maior consumidor de livros didáticos no Brasil é o governo. Ele já é feito pensando-se no currículo escolar, já há ideologia.

FOLHA - Está no PNLD?
CHIAVENATO - De jeito nenhum.

FOLHA - O sr. tem nível superior?
CHIAVENATO - Não, sou autodidata. Não quis perder tempo com faculdade, vi a porcaria que era.

FOLHA - Como autor de livros de história, que acha da norma do PNLD que estabelece como requisito para participação a comprovação de nível superior do autor?
CHIAVENATO - Do ponto de vista deles, estão corretíssimos: pegam, teoricamente, as pessoas mais qualificadas. Mas o resultado é esse que você está vendo.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

Comentários (1)

Região bate recordes de discriminação

Heloísa Cestari
Do Diário do Grande ABC

Embora seis dos sete municípios do Grande ABC tenham instituído feriado no Dia da Consciência Negra (hoje) – ou antecipado para a sexta-feira, como no caso São Caetano –, as estatísticas mostram que a região ainda está longe de vencer as barreiras da discriminação racial.

Além de ser o berço de grupos que pregam o ódio a afrodescendentes, as cidades escondem indicadores que impressionam pela desigualdade que revelam entre brancos e negros.

Os números mais gritantes estão em São Bernardo – justamente, o único município da região que não aderiu à folga. De acordo com Dojival Vieira dos Santos, fundador e presidente da ONG ABC Sem Racismo, dos 194.358 negros que moram na cidade (o que equivale a 27,9% do total da população, de 696 mil), 25% são indigentes e outros 50% vivem abaixo da linha de pobreza.

No ranking daqueles que chegam a estar abaixo da linha de indigência, quatro municípios da região aparecem entre os dez primeiros do Estado: São Bernardo, Mauá, Santo André e Diadema.

De acordo com o coordenador do Creppir (Centro de Referência da Políticas de Promoção da Igualdade Racial), Marcos da Silva, a empregabilidade é um dos indicadores da discriminação.

“No Grande ABC, 66% da população negra está no trabalho informal, enquanto que entre os brancos este percentual cai para 33%. Não se vê afro-descendentes no mercado. Para combater isso, os sindicatos precisam mostrar aos empresários a importância de empregar negros, a fim de promover a igualdade racial”, comenta Silva, lembrando que 42% dos 380 mil habitantes de Diadema são afrodescendentes.
AMEAÇAS

Apesar do caráter pacífico das manifestações, alguns grupos temem represálias de grupos neonazistas no Dia da Consciência Negra. Em novembro do ano passado, um salão de beleza no Centro de Santo André, usado para encontros de ativistas do movimento negro, foi pichado com suásticas, frases como “fora macacos” e endereços de sites que pregam o racismo na internet.

“O Negra Sim (Movimento de Mulheres Negras de Santo André) também já foi atacado por um grupo neonazista”, recorda Silva.
ZUMBI

O dia 20 de novembro marca a morte de Zumbi, o grande líder do Quilombo dos Palmares, considerado a maior comunidade de escravos foragidos das Américas, com população estimada em mais de 30 mil pessoas no Brasil Colonial dos fins do século 17.
Símbolo da resistência à escravidão, Zumbi foi assassinado e degolado em 1695, pelas forças do capitão André Furtado de Mendonça, durante uma emboscada na Serra Dois Irmãos, em Pernambuco.

Diário do Grande ABC
http://home.dgabc.com.br/

Comentários

‘O Brasil ainda é racista e machista’, diz ministra

Leandro Laranjeira
Do Diário do Grande ABC

O dia da Consciência Negra, comemorado nesta terça-feira em boa parte dos municípios brasileiros, ainda não integra o calendário nacional. Mas o fato de a data não ser considerada feriado em algumas localidades no País não é, nem de perto, a principal preocupação da classe negra brasileira. Há outras prioridades.

Um bom exemplo é a secretária – com status de ministra – Especial de Política da Promoção da Igualdade Racial, Matilde Ribeiro. Ela afirma que os negros brasileiros ainda sofrem com os erros ocorridos historicamente.

“Em 2008 completaremos 120 anos da abolição da escravidão. Porém, essa abolição não foi completa. Trata-se de uma lei constitucional que não veio acompanhada de um projeto de inclusão dos ex-escravos como cidadãos livres”, analisa.

A ministra acredita que o Brasil ainda é racista, apesar, segundo ela, do trabalho que vem sendo realizado pelo governo federal no sentido de tornar o País mais igual na questão da igualdade racial. “A população negra é a mais pobre entre os pobres. Os acessos ao mercado de trabalho ou à vida política não são iguais para negros, brancos ou mesmo mulheres. O Brasil foi desenvolvido a partir de uma visão distorcida de negar os efeitos da escravidão que em nosso País durou praticamente quatro séculos”, explica.

Uma das poucas negras na política brasileira, Matilde considera a vida pública um espaço exclusivamente de homens brancos. “Quando falamos em representação política, é muito mais fácil pensar em um homem branco, de terno e gravata, do que em um trabalhador de base. É uma visão tradicional que pode ser mudada.”

Apesar de reconhecer os problemas ainda existentes no País no que diz respeito ao preconceito, a ministra – que coordenou de 1997 a 2000 a Assessoria dos Direitos da Mulher na Prefeitura de Santo André –, admite que o Brasil registra alguns avanços nesta área.

E, para defender tal tese, baseia-se na frase preferida do presidente Lula. “Esse trabalho de promoção e inclusão racial não começou com o nosso governo. O diferencial na nossa gestão é que, nunca na história desse país, havia sido criado um órgão específico para tratar deste assunto.”

DIÁRIO – O Brasil pode ser considerado um País racista?
MATILDE RIBEIRO – Sim, embora o termo racista seja bastante polêmico e, dependendo do interlocutor que faz a pergunta, há diferentes respostas. Mas não tenho dúvidas de que o racismo e o preconceito existem. Uma visão mais ampla da vida nacional e das oportunidades oferecidas para a sociedade nos possibilita fazer essa afirmação. As populações negra e indígena são as mais pobres entre os pobres. Os acessos ao mercado de trabalho ou à vida política não são iguais para negros, brancos ou mesmo mulheres. O Brasil foi desenvolvido a partir de uma visão distorcida de negar os efeitos da escravidão que em nosso país durou praticamente quatro séculos. No próximo ano completaremos 120 anos da abolição da escravidão, mas essa abolição não foi completa. Essa lei constitucional não veio acompanhada de um projeto de inclusão dos ex-escravos como cidadãos livres.

DIÁRIO – Seria mais ou menos como acontece com os presos que saem da prisão e encontram dificuldades em arrumar emprego e se inserir na sociedade novamente?
MATILDE – É possível dizer, em termos de ação política, que isso acontece. Mas não vou fazer essa comparação, até porque não tenho dados referentes à vida carcerária. Após a abolição da escravidão, todos os trabalhadores, antes propriedades de senhores de engenho, ficaram entregues à própria sorte. Sem uma política de moradia, de educação, de trabalho, de inclusão, engrossaram o contingente de desempregados. Depois vieram a industrialização e a imigração. Há uma novela que terminou recentemente, a Sinhá Moça, cujo último capítulo demonstrou o que ocorrera à época. Os imigrantes chegavam nas fazendas e os negros saiam com as trouxas nas costas. Essa é a imagem da abolição no Brasil. A realidade hoje é que a maior parte dos desempregados é formada por negros ou indígenas. Eles foram abafados na história, praticamente dizimados. Nossa história coloca os negros como descendentes de escravo, ou seja, uma vez escravo sempre escravo. A África não é pobre por ser desprovido de riquezas. É pobre porque foi colonizado, e essa colonização é mantida até hoje. Assim como acontece aqui.

DIÁRIO – Como representante do governo brasileiro, a sra. já foi vítima de preconceito em outros países?
MATILDE – É interessante. Não apenas eu, mas o próprio Gilberto Gil (ministro da Cultura), que é uma sumidade pública, causamos surpresa. Isso ocorre porque ao longo da história não tivemos representação nas esferas de poder. O Brasil é visto lá fora como o País do samba e do futebol, mas cujos representantes são brancos. Então, muitas vezes causa curiosidade participarmos de uma mesa de negociação com governantes de outros países, principalmente quando há africanos presentes. De um lado ficam os negros africanos e do outro, pelo Brasil, estou eu o Gil e os outros brancos. Internacionalmente, isso é visto como algo positivo. No Brasil, de maneira geral, tenho encontrado apoio para o desenvolvimento da política de promoção da igualdade racial, apesar de nem todos os políticos ainda estarem convencidos de que esta política seja primordial.

DIÁRIO – O Brasil, então, não avançou nem um pouco na questão da igualdade racial?
MATILDE – Temos vivenciado a oportunidade de construir política no âmbito nacional, de maneira diferenciada de momentos anteriores. O movimento negro brasileiro sempre trabalhou no sentido de o governo federal assumir de maneira mais frontal as políticas de inclusão racial combinada com as políticas públicas como um todo. Esse trabalho da promoção da igualdade racial não começou com o governo Lula. O diferencial na nossa gestão até aqui é que, como diz o nosso presidente, nunca na história do nosso país (risos) havia sido criado um órgão coordenador das políticas da igualdade racial. É a primeira vez que isso acontece, embora tenha sido demandado em vários momentos da nossa história. Ainda há muito a se fazer no Brasil considerando os 500 anos que se passaram. Mas não tenho dúvida de que a simples existência da Secretaria, aliada à criação de programas, já representa um passo importante nesta luta.

DIÁRIO – Há poucos negros na política brasileira, em cargos eletivos. O negro, de fato, não vota no negro?
MATILDE – Não faz parte na vida pública brasileira apostar na adversidade. No Congresso, por exemplo, menos de 5% das vagas são ocupadas por negros, e cerca de 9% são ocupadas por mulheres. A vida pública brasileira, então aí é possível afirmar que o Brasil é machista e racista, é identificada como sendo espaço dos homens brancos. E assim sempre foi, mas acredito ser possível reverter esse quadro. Assim como os partidos e as diversas instituições investem para que os homens brancos se tornem figuras públicas, é possível investir também nos negros, não apenas como exceções. Hoje temos alguns expoentes na vida política brasileira, que podem ser transformados em muitos. Acredito nessa possibilidade sim. Os negros já demonstraram ser talentosos. Só que estão na base. Estes talentos têm de subir ao topo da pirâmide.

DIÁRIO – Mas não falta apoio dos próprios negros?

MATILDE – Acredito que não. Acabamos construindo em nossa vida política uma mesmice. Então, quando falamos em representação política, é muito mais fácil pensar em um homem branco, de terno e gravata, do que em um trabalhador de base. A lógica da política é uma norma temática. É estagnada em uma visão tradicional que pode ser mudada.

Diário do Grande ABC
http://home.dgabc.com.br/

Comentários (1)

Dificuldade de governar

Bertold Brecht

Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo e