Usando um crucifixo, monge escapa de Mianmar

Líder de protestos lança luz ao levante de setembro

Thomas Fuller

Um dos principais organizadores das marchas de protesto em setembro em Mianmar, Ashin Kovida, monge budista de 24 anos, fugiu para a Tailândia na semana passada com uma carteira de identidade falsa, um crucifixo e o cabelo pintado de louro.

Na quinta-feira (25/10), Ashin Kovida deu detalhes de sua fuga angustiada e explicações sobre o que ainda era uma pergunta central em relação aos protestos de setembro: quem organizou as fileiras de monges de túnicas de cor açafrão que marcharam por Yangun -e como.

Ashin Kovida cruzou a fronteira para a Tailândia ilegalmente e disse na quinta-feira que estava planejando pedir status de refugiado. Ele é procurado pelo governo militar da Mianmar, que o acusa de armazenar explosivos em seu mosteiro em Yangun, a maior cidade de Mianmar

O monge chamou essa acusação de absurda.

Em uma entrevista de seis horas em Mae Sot, essa cidade de fronteira, ele descreveu uma organização básica, um grupo de 15 monges com 20 e poucos anos que organizaram as manifestações de setembro. Ele disse que tinha sido eleito líder do grupo e tinha sido inspirado pelos vídeos de levantes populares na Iugoslávia contra o governo de Slodoban Milosevic.

Oito dos 15 monges do comitê organizador estão desaparecidos, disse ele. Os outros seis, disse, estão escondidos em Yangun.

Sabe-se que Thin Thin Khyaing, 42, que ele descreveu como sua mãe adotiva, foi presa. Ele disse que ela foi levada de sua casa na madrugada do dia 12 de outubro. Seu motorista, Phoe Wa, também foi detido, e o carro apreendido.

Thin Thin Khaing não adotou Ashin Kovida formalmente, mas foi sua patrocinadora na vida monástica. Ashin Kovida disse que acreditava que as autoridades tinham detido Khaing para pressioná-lo a se entregar.

Hlaing Moe Than, 37, importante organizador dos estudantes nas manifestações de setembro, que também fugiu para a Tailândia, mostrou um retrato de Ashin Kovida na quinta-feira e confirmou a identidade do mais recente refugiado.

“Ele é um dos famosos líderes dos monges budistas durante os protestos”, disse Hlaing Moe Than.

Ashin Kovida liderou protestos diários em Yangun de 18 a 27 de setembro, dia seguinte às autoridades começarem a darem batidas nos mosteiros.

Uma de suas principais preocupações, disse ele, era poder alimentar os milhares de monges que vieram a Yangun de outras regiões. Ele também temia o que chamou de “monges falsos”, que ele suspeita terem sido plantados pelo governo militar.

O estopim das manifestações foram tiros de advertência da polícia contra monges no dia 5 de setembro, na cidade central de Pakokku.

“Quando ouvi a notícia pela primeira vez, fiquei mudo”, disse Ashin Kovida. “Era uma coisa inacreditável.”

Seus colegas monges ficaram revoltados e procuraram formas de reagir. Eles decidiram se afastar completamente do governo, recusando todas as doações, apoio e contatos.

Monges mais velhos e abades instaram os monges a fazerem seus protestos dentro dos mosteiros, mas Ashin Kovida disse que os mais jovens tinham desafiado essas diretrizes pensando que protestar dentro do mundo enclausurado não adiantaria nada.

Ashin Kovida procurou estudantes que conhecera durante a coleta de doações e começou a planejar as marchas de protesto por Yangun.

“Compreendemos que não havia liderança”, disse ele. “Um trem precisa de uma locomotiva.”

Ele disse que supervisionou a impressão de panfletos que seriam distribuídos aos mosteiros, intitulado “os monges sairão às ruas.”

“Havia estudantes e jovens do nosso lado”, disse Ashin Kovida. Os estudantes digitaram os panfletos em seus computadores e depois fizeram cópias.

“Tínhamos centenas deles”, disse. “Entregamos a todos os mosteiros de Yangun. Tentamos distribuir o máximo possível para outras regiões.”

No dia 18 de setembro, Kovida liderou a primeira fila de monges pelas ruas de Yangun.

No dia 19 de setembro, uma multidão de cerca de 2.000 manifestantes, inclusive 500 monges, estava sentada no chão ladrilhado dentro da Pagoda Sule, quando Ashin Kovida levantou-se e dirigiu-lhes a palavra.

“Para continuar as manifestações de uma forma pacífica, precisamos de liderança”, lembra-se. “Peço a 10 monges para se unirem a mim à frente.” Quinze monges se levantaram, disse ele, com a multidão aplaudindo.

Eles formaram o que chamaram de Sangga Kosahlal Apahwe, Grupo Representativo de Monges. Ashin Kovida foi eleito diretor e voltou a abordar a multidão, com um curto discurso.

“Neste país estamos enfrentando dificuldades atualmente”, lembra-se de ter dito Ashin Kovida. “As pessoas estão passando fome, os preços subindo. Sob este governo militar, há tantos abusos de direitos humanos. Chamo as pessoas a se unirem a nós. Vamos continuar esses protestos pacíficos todos os dias até vencermos. Quando não há direitos humanos, não há valor humano.”

Ashin Kovida disse ter liderado uma semana de protestos diários, reunindo-se com seu grupo de organizadores pela manhã e iniciando as marchas à tarde. Ele ouviu dizer no serviço birmanês da BBC que outros monges também tinham se organizado, mas nunca encontrou esses grupos.

As manifestações foram pacíficas e desimpedidas até o dia 26 de setembro, quando a polícia bloqueou o caminho dos monges, atacou-os e dispersou-os.

“A polícia arrancou as vestes dos monges e bateu neles”, lembra-se Ashin Kovida. “Tiraram os sarongues das freiras.”

Dezenas de monges foram presos; Ashin Kovida escapou escalando um muro.

No dia seguinte, 27 de setembro, com a intensificação da repressão, Ashin Kovida mudou de roupa, colocou um sarongue e camisa de manga curta. Ele viajou para uma pequena aldeia a 65 km de Yangun e, com a ajuda de amigos e parentes, escondeu-se em uma cabana de madeira abandonada.

Ele tinha tanto medo de chamar a atenção dos vizinhos que suprimiu sua tosse e nunca saiu da casa, que não tinha água corrente. Por duas semanas, viveu na cabana escura, sem banho. Ele se aliviava usando um balde plástico. Amigos deixavam comida ocasionalmente.

No dia 12 de outubro, quando sua mãe adotiva foi presa, a notícia logo chegou a ele, que fugiu à noite, descalço.

“Corri por uma estrada grande”, disse o jovem monge. “Toda vez que vinha um carro, me escondia entre os arbustos”.

Ele alcançou a casa de um amigo antes da madrugada, pegou algumas roupas emprestadas e voltou a Yangun, usando um boné de beisebol azul claro, óculos e sarongue.

Amigos em Yangun ajudaram-no a pintar seu cabelo de louro. Ele comprou um crucifixo em um mercado local e, dias depois, entrou em um ônibus para a fronteira tailandesa.

Kovida passou por cerca de oito postos policiais -não se lembra quantos exatamente - no caminho da fronteira. Ele usou uma identidade falsa e chegou à cidade fronteiriça de Myawadi no dia 17 de outubro. Na manhã seguinte, cruzou o rio Moei para a Tailândia de barco.

O monge enfrentará prisão quase certa se voltar a Mianmar. Na edição do dia 18 de outubro do jornal estatal “The New Light of Myanmar”, ele foi acusado de esconder “48 cartuchos de TNT amarelados altamente explosivos”, em seu mosteiro.

“Eles simplesmente querem associar os monges com a violência e o terrorismo”, disse Ashin Kovida. “Estou na vida monástica desde tão jovem”, disse ele. “Toda minha vida só estudei budismo e coisas pacíficas.”

O pai de Ashin Kovida é carpinteiro e a mãe tem uma pequena barraca de cebola e pimenta no mercado. Ambos moram no Estado de Rakhine, no nordeste de Mianmar, perto de Bangladesh.

Muitos birmaneses não conseguirão perdoar o governo pela repressão aos monges, disse Kovida. “É uma mácula na história do país. Em Mianmar hoje, muitos estudantes e pessoas estão organizando o próximo passo contra a SPDC”, das iniciais do governo militar.

“Acho que será ao mesmo tempo das Olimpíadas na China”, disse ele, referindo-se aos jogos de 2008 em Pequim. “Essa é a minha opinião”.

Herald Tribune
http://www.iht.com/pages/index.php

Enviar por e-mail. Hits para esta publicação: 111.

Deixe um Comentário