Arquivo de 22 de Novembro de 2007

Tardiamente, cena literária asiática amadurece

Donald Greenlees

Quando o primeiro romance de Xu Xi foi publicado, em 1994, ela achou que finalmente tinha rompido as barreiras das editoras. Ela sentiu que tinha entrado no círculo fechado onde, mesmo que escrever ainda fosse difícil, as recompensas de ser publicada e lida fluiriam com um pouco mais de facilidade.

Logo descobriu que ser publicada em inglês por uma pequena editora em sua cidade natal de Hong Kong não assegurava o interesse de meia dúzia de companhias americanas ou inglesas que dominam as edições em inglês.

Depois de seu primeiro romance, “Chinese Walls” (muros chineses), que se passa nos anos 60 em Hong Kong pobre e cheia de bares barulhentos cheios de soldados de folga do Vietnã, ela escreveu outros cinco. Ela até se mudou para Nova York, na esperança de que a proximidade com as editoras internacionais, de alguma forma, ajudasse a abrir portas.

“Os editores em Nova York e Londres foram animadores”, disse ela. “Mas, basicamente, eles não sabiam o que fazer com uma autora de Hong Kong.”

Em outubro, isso começou a mudar. O mais recente romance de Xu, “Habit of a Foreign Sky” (hábito de um céu estrangeiro), chegou à lista de finalistas do primeiro prêmio literário asiático com verdadeiro respeito internacional.

Seus contos duros sobre as vidas dos moradores de Hong Kong, livre dos estereótipos dos relatos ocidentais sobre a antiga colônia britânica, há muito são elogiados por acadêmicos, dissecados em aulas de literatura e populares entre leitores de Hong Kong ou chineses americanos.

No entanto, quando ela e quatro outros autores entraram para a lista de finalistas do Prêmio Literário Homem Asiático, as editoras internacionais subitamente prestaram atenção. O prêmio, que reconhece os romances asiáticos não publicados em inglês, será dado pela primeira vez no sábado.

“Desde que cheguei à lista dos nomeados, três editoras ligaram para meu agente -uma de Nova York, uma de Londres e uma da Austrália”, disse ela. Mas sua reação foi: “Isso é bom, mas já não estava na hora?”

Muitos autores de ficção asiáticos, que lutaram por anos para serem aceitos fora do pequeno público de seus próprios países, endossam o sentimento.

No entanto, há sinais que a indústria literária asiática está começando a amadurecer, aumentando as oportunidades para mais autores asiáticos ganharem reconhecimento internacional.

Editores e agentes internacionais dizem que estão procurando muito mais obras na Ásia para trazer para os públicos que falam inglês. Eles também estão procurando novas vozes e gêneros que vão além do que as editoras chamam de literatura de “cicatriz” ou “sofrimento” -sobre a vida de pobreza sob os regimes repressores- e capturar a rápida transformação social e econômica da nova Ásia.

Ao mesmo tempo, eles dizem que a Ásia está construindo a infra-estrutura para uma indústria literária desenvolvida. Isso pode ser visto no aumento no número de editores internacionais abrindo escritórios regionais para procurar talentos e vender livros nos mercados que crescem rapidamente, nas línguas locais e em inglês; na emergência e maior importância dos festivais literários asiáticos e no número de obras asiáticas sendo traduzidas para línguas ocidentais.

“Até recentemente, era difícil identificar o que chamamos de uma indústria literária na Ásia. No entanto, há indicações que a indústria se desenvolveu e agora existe. Chega um momento em que os pontos distintos se unem no que se pode chamar de uma indústria”, diz Peter Gordon, editor da “Asian Review of Books” em Hong Kong.
As conseqüências são um volume crescente de obras de ficção vindas da Ásia em meio a um mercado expandindo dentro da Ásia para ficção em inglês e nas línguas locais.

Como o resto da história da Ásia, a China e a Índia dominam o cálculo.

A editora britânica Penguin, que abriu um escritório na China no final de 2005, teve um crescimento de vendas de 200% por ano, de acordo com Jo Lusby, gerente geral da Penguin China.

“É um mercado mal servido”, diz Lusby. “É um mercado muito excitante para nós.”

A Penguin tem vendido títulos em inglês na China e traduções de histórias infantis populares. A maior parte dos clientes de livros em inglês não são mais expatriados, disse ela. Agora são chineses de classe média.

No final deste ano, a Penguin também lançará suas primeiras traduções da literatura clássica inglesa para o chinês sob o logotipo da Penguin, em um acordo com um editor estatal. Ela planeja trazer 30 novos títulos nesta série por ano.

Gordon, que dirige a pequena editora Chameleon e vende livros on-line em Hong Kong, disse que o consumo de ficção está acompanhando o “crescimento exponencial” das economias asiáticas.

“Quando as pessoas têm renda crescente, começam a comprar CDs e livros”, disse ele. “Maior demanda significa que as pessoas escrevem mais livros e você tem um círculo virtuoso.”

Uma das principais motivações para as editoras internacionais montarem escritórios na região é encontrar novos autores. No final do ano passado, a HarperCollins assinou um acordo de colaboração com a People’s Literature Publishing House e anunciou seu primeiro projeto: três romances chineses serão traduzidos para o inglês.

Em abril, a PanMacmillan lançou a Picador Asia com a meta de adquirir entre três e quatro títulos por ano relacionados a Ásia Oriental.

A decisão da Penguin de começar a recrutar na China pode ser belamente recompensada, com os direitos de tradução para um livro de um acadêmico chinês de 61 anos, aposentado, que usa o pseudônimo de Jian Rong. Seu “Wolf Totem” ficou em primeiro lugar entre os mais vendidos na China em 2004, vendendo dois milhões de cópias em uma edição legitima e quatro milhões em cópias piratas.

Jiang, que baseou o livro em experiências próprias na Mongólia nos anos 60, também chegou à lista de nomeados para o Prêmio Literário Homem Asiático. O livro, que Lusby descreveu como distante das memórias amargas do início do governo comunista que saíram na China nos últimos anos, será lançado em inglês em março.

Marysia Juszczakiewicz, agente literária da Creative Work em Hong Kong, disse que a presença crescente de editoras internacionais na Ásia está resultando na descoberta e na tradução de autores que talvez nunca fossem notados fora de seus países.

Até recentemente, Jiang “provavelmente não teria sido descoberto, porque há tão poucas pessoas procurando”, disse ela. “Antes, as editoras não olhavam ativamente para a lista dos mais vendidos na China nem pensavam que funcionariam fora.”

Juszczakiewicz, que representa Xu Xi, disse que um dos efeitos é que os públicos estrangeiros serão expostos a uma gama de autores muito mais ampla e estilos de ficção que viram no passado da Ásia. Ela citou um de seus próprios autores, Feng Tang.

“Ele é o Nick Hornby da China”, disse ela. “Ele é muito engraçado”.

Entretanto, a China está na moda agora e, mesmo assim, apenas alguns autores se beneficiarão.

Como os autores em outras partes, a maior parte dos romancistas asiáticos pode antever a combinação desmoralizadora de anonimato e dificuldades financeiras, disse Jose Dalisay, autor filipino.

Dalisay está concorrendo para o Prêmio Literário Homem Asiático e não recebeu ligações de editoras internacionais depois que seu livro sombriamente cômico “Soledad’s Sister” chegou à lista dos finalistas. Mas ele não espera ser capaz de viver só de livros tão cedo.

“Sempre estou buscando trabalho”, disse ele. Ele batalha dando aulas de inglês em uma universidade e fazendo artigos para jornais e outros trabalhos escritos.

“A aclamação existe”, disse ele. “Os filipinos são uma sociedade que, estranhamente, valoriza seus autores e artistas, mas não paga quase nada.”

Herald Tribune
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Preços em ascensão aumentam desigualdade entre ricos e pobres

Durante anos os bancos centrais inundaram o mundo com dinheiro barato, ajudando os ricos a ficar mais ricos. Agora a inflação surgiu no horizonte, ameaçando tornar os pobres ainda mais pobres

Wolfgang Reuter

Os mercados de ações são arautos das dificuldades econômicas. Cada estagnação, desaceleração econômica e recessão é acompanhada pela queda dos preços das ações, e muitas vezes até por um colapso do mercado. Os maiores crashes têm nomes: a Sexta-Feira Negra, em 1929, ou a Segunda-Feira Negra, em 1987.

Mas às vezes uma alta acentuada dos preços indica que o pior ainda está por vir. Axel Weber - presidente do banco central da Alemanha, o Bundesbank, e membro do conselho diretor do Banco Central Europeu (ECB) - está bem consciente dessa possibilidade. Há alguns meses ele vem acompanhando os ganhos acentuados nos índices de títulos internacionais, especialmente nas operações de commodity futuras (comércio a prazo de mercadorias), com preocupação crescente.

Por exemplo, o preço do trigo de primavera, que é comercializado na Bolsa de Grãos de Mineapolis, saltou de US$ 5,50 o bushel (cerca de 35 litros) em maio para os atuais US$ 9. Um ano atrás o trigo de primavera era vendido a apenas US$ 4,60 o bushel, o que é pouco mais do que a metade do preço atual.

No ano passado, os preços do milho e da soja aumentaram até 70% nos principais mercados comerciais. Os preços de vários metais, madeira, borracha, lã e outras matérias-primas usadas na manufatura de bens de consumo também têm subido continuamente há meses. Outros dados e alterações de preços também sugerem que haverá tempos difíceis pela frente. Além disso, o preço do petróleo continua atingindo novos recordes.

Sinais de alarme
Weber finalmente soou o alarme no último domingo. “Como um banco central, certamente estamos preocupados”, disse ele. “O que nos preocupa é o aumento dos preços em todas as categorias, ou seja, não apenas nos setores de energia e de alimentos. A inflação poderá aumentar para 3% até o final do ano”. Esse seria o maior salto de preços em 14 anos.

Jürgen Stark, economista do ECB, também fez advertências sombrias, afirmando que o risco de inflação na zona do euro aumentou nas últimas semanas - apesar da crise financeira internacional e de uma economia desacelerada pelo euro forte. Essas foram declarações de uma transparência inusual em se tratando de autoridades de bancos centrais, que normalmente escolhem as palavras com grande cautela.

A mistura de preços ascendentes e de uma economia em processo de enfraquecimento é um pesadelo para todos os presidentes de bancos centrais e formuladores de políticas econômicas. Tal quadro gera inevitavelmente maior desemprego, um declínio da arrecadação governamental e o aumento da pobreza.

O que Weber e Stark preferem não mencionar é que a culpa por essa calamidade é deles e dos seus congêneres nos principais bancos centrais do mundo. Durante anos, eles inundaram o globo com mais dinheiro do que nunca na história. O principal objetivo deles era ativar as suas respectivas economias e mantê-las dinâmicas.

No início, todo esse dinheiro barato teve o efeito inevitável e pretendido, agindo como um lubrificante para economias de todo o globo e, aparentemente, como uma bênção para o mundo.

A maldição do dinheiro barato
Mas agora essa política de baixas taxas de juros está transformando-se em uma maldição. Nos últimos anos, isso já contribuiu significativamente para o aumento da desigualdade de renda. Os ricos ficaram mais ricos, tanto na Alemanha quanto, em escala ainda maior, nos Estados Unidos. Mas agora a inundação de liquidez promovida pelos dirigentes de bancos centrais tornou-se quase incontrolável. Como aprendizes de feiticeiro, eles cometeram erros quando determinaram a potência da bala mágica e, ao fazê-lo, colocaram-se em uma situação em que praticamente não há esperança de correção.

Se aumentarem as taxas de juros a fim de conter ou pelo menos reduzir a inflação ascendente, a crise financeira poderá provocar um colapso econômico maciço. Mas se mantiverem as taxas atuais, em níveis relativamente baixos, os preços continuarão subindo, fazendo inevitavelmente com que os pobres fiquem ainda mais pobres.

Era uma quarta-feira quando as coisas começaram a descontrolar-se no mundo. Mas à época ninguém tinha idéia de que isso estava de fato ocorrendo. Em 3 de janeiro de 2001, Alan Greenspan, então presidente do poderoso Federal Reserve Bank (Fed, o banco central dos Estados Unidos), reduziu a prime rate (taxa preferencial de juros) de 6,5% para 6%. O fato em si mesmo foi relativamente desimportante, mas ele significou o primeiro de 13 passos por meio dos quais os fiscais monetários reduziram as taxas de juros para o patamar patético de 1%.

Sob o ponto de vista do Fed, isso faz total sentido. Ao contrário do ECB, cuja única meta é a estabilidade monetária, parte da função do Fed é estimular a economia, e não há melhor forma de alcançar esse objetivo do que com baixas taxas de juros. Poupar dinheiro tornou-se algo cada vez menos atraente à medida que os juros caíam. Em vez disso, faz mais sentido gastar dinheiro, ou até mesmo pegar dinheiro emprestado e usá-lo para investir em companhias. Em tal situação, a economia só pode ir para cima.

Os dois outros bancos centrais importantes do mundo, o ECB e o Bank of Japan, também reduziram as suas taxas de juros, para 2% e 0,1%, respectivamente.

Surto de inflação
Mas o dinheiro barato tem um preço. Ele se chama inflação.

Quando mais dinheiro há em circulação, mais rapidamente sobem os preços, pelo menos na teoria.

De fato, o que ocorreu inicialmente era o que se esperava que acontecesse: o volume de dinheiro aumentou substancialmente em todo o mundo. Esse fator sozinho é um indicador confiável do aumento inflacionário. No entanto, os preços aos consumidores mantiveram-se surpreendentemente estáveis.

A razão para isso foi um mundo cada vez mais interconectado no qual a competição aumentava constantemente e as barreiras comerciais iam sendo eliminadas. As companhias nas principais nações industrializadas careciam do poder para obter preços maiores, porque os produtos dos concorrentes, especialmente os das economias emergentes, estavam melhorando em qualidade e eram mais baratas. Isso também começou a se aplicar aos bens de capital - máquinas e equipamentos - com os quais as empresas nas nações industrializadas poderiam incrementar a sua própria produção.

O excesso de dólares, euros e ienes que não era gasto com bens de capitais foi direcionado para investimentos mais lucrativos. Os mercados de ações na China, na Índia e em outras economias asiáticas em ascensão, bem como na Turquia e na América do Sul, estavam prosperando. Os preços dos imóveis também começaram a aumentar nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha e na Espanha.

Aqueles que investiam o seu dinheiro nesses mercados podiam obter lucros rápidos e substanciais, e os que tinham um histórico de crédito decente podiam também tomar dinheiro emprestado a juros com valores historicamente baixos e despejar esse dinheiro em investimentos lucrativos. Segundo os especialistas em finanças, no final essa política de juros baixos ajudou até um setor relativamente novo da indústria financeira a se consolidar. A área de fundos de investimentos, também conhecidos como private equities, teria permanecido relativamente insignificante se não fosse pela enorme inundação de dinheiro barato.

A partir de 2003, a gigantesca festa especulativa descambou para a euforia completa. Os mercados em todo o globo começaram a superaquecer-se. Na Alemanha, a DAX (Deutsche Aktien Xchange, uma relação das 30 companhias abertas de melhor performance financeira da Alemanha com base no sistema Xetra) ganhou mais de 200% entre a primavera de 2003 e os dias de hoje, enquanto a Tec-DAX, o índice de companhias de alta tecnologia, também triplicou de valor.

Dinheiro fácil
Houve pequenas correções, mas nada que se aproximasse de um crash geral. Havia simplesmente dinheiro demais em circulação no mundo inteiro para que tal coisa acontecesse. Aqueles que foram convidados para a festa praticamente não poderiam fazer nada de errado.

E esses eram os ricos do mundo, as pessoas que tinham um excesso suficiente de dinheiro para investí-lo de forma lucrativa. O abismo entre ricos e pobres só aumentou.

A parcela de lucros e rendimentos com bens como percentagem do orçamento de renda geral aumentou 10% nos últimos sete anos, mas esse crescimento não foi igualmente distribuído. As pessoas de baixa renda raramente compram ações, títulos ou prédios de apartamentos. A renda líquida desses indivíduos caiu 5% nos últimos anos, enquanto os 10% mais ricos da população na verdade tiveram um aumento de renda de 10%.

A partir de meados de 2004, os bancos centrais tentaram conter a inundação que tinham provocado, elevando gradualmente as taxas de juros. Mas o volume de dinheiro disponível era simplesmente muito grande e os passos tímidos dos bancos centrais para modificar a curva das taxas de juros foram muito pequenos. A situação adquirira havia muito tempo uma dinâmica interna própria. O volume de dinheiro continuou a aumentar.

A bolha do mercado imobiliário dos Estados Unidos mal tinha começado a enviar ondas de choque pelo mundo neste verão quando o Fed deu um passo para trás e reduziu freneticamente a prime rate em meio ponto percentual.

Mas isso coloca o ECB em uma situação difícil. Ele tem uma escolha a fazer, mas apenas entre dois males.

Se aumentar as taxas, o euro irá se tornar ainda mais forte, fazendo com que os produtos europeus fiquem mais caros fora da União Européia. Isso seria mais do que inadequado para a Alemanha, um dos maiores exportadores mundiais. Mas se o ECB mantiver as taxas de juros no mesmo nível, ou mesmo se seguir o exemplo do Fed, reduzindo-as, poderíamos enfrentar uma “prolongada fase de inflação”, afirma Thorsten Polleit, economista da Barclays Capital Deutschland, “e provavelmente a uma taxa significativamente superior a 3%”.

Preços em ascensão no mundo inteiro
Existem muitas indicações de que Polleit está correto. Os preços estão aumentando drasticamente, tanto na Alemanha como em outros países. Em um mundo globalizado, preços em ascensão não são mais um fenômeno puramente nacional como eram apenas dez anos atrás. Os mercados emergentes, em particular, estão agora exigindo um retorno pelos vários anos que passaram produzindo e exportando têxteis, brinquedos, geladeiras e diversos outros produtos a preços baratos. Esses países estão agora presenciando agora tanto um aumento de renda quando preços mais elevados.

Na China, por exemplo, a alta de mais de 15% no preço dos alimentos é quase que inteiramente responsável pela inflação geral, conforme concluíram especialistas do Fundo Monetário Internacional (FMI) na sua conferência de outono em Washington. A taxa de inflação na China está se aproximando dos 7%. A inflação já chegou a um valor entre 17% a 25% na Argentina, apesar de o governo ter manipulado os números para baixo, para menos da metade de tais índices. A inflação também está em notável ascensão na África do Sul, na Rússia e na Índia.

Se os produtos e serviços tornarem-se consistentemente mais caros na Alemanha, isso somente aumentará o fosso entre ricos e pobres. A inflação sempre causa o impacto mais drástico sobre as pessoas de menor renda, que, comparadas aos ricos, gastam uma percentagem maior do seu rendimento disponível com bens de consumo básicos.

Embora preços mais altos também signifiquem maiores salários, as autoridades fiscais são as primeiras a se beneficiar do aumento de renda - mas não com base nos impostos pagos pelas pessoas de alta renda. Pouco muda para aqueles que já alcançaram o patamar mais elevado da contribuição fiscal, enquanto todos os demais são afetados por aquilo que é conhecido como progressão fria: o índice marginal de impostos muda com cada euro adicional de renda, o que resulta em uma distribuição ainda mais desequilibrada do fardo fiscal.

Aqueles que dispõem de dinheiro podem também tentar driblar a inflação com estratégias evasivas. Os empréstimos existentes, como os referentes às hipotecas, tornam-se mais baratos em relação à renda. Além disso, os indivíduos de alta renda podem transferir os seus ativos para investimentos à prova de inflação, como o ouro e outros metais preciosos.

A população continua a ver com bons olhos as baixas taxas de juros. Eles não contribuíram para a economia em expansão? E não colaboraram também para que os mercados de valores batessem novos recordes de alta? E embora a crise financeira possa ser preocupante para os anônimos executivos dos grandes bancos nos seus escritórios no alto dos arranha-céus, ela não afetou a economia real. Certo?

Para Polleit, isso é uma ilusão. “Os guardiães financeiros correm o risco de sucumbir à pressão pública, perdendo dessa forma contato com a sua função concreta, que é manter estável o valor do dinheiro”, diz ele.

Der Spiegel
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Modernidade

Danilo Pretti Di Giorgi

Qual seria o significado de “moderno”? Como seria um “país moderno”? Depois de ler a edição especial de 40 anos da revista Exame de outubro, cuja capa gritava “1967-2007, a construção de um país moderno” - mas que para mim apresenta idéias ultrapassadas - , resolvi recorrer ao dicionário. Na minha busca, o sentido que mais se aproxima do que imagino o editor da revista tenha tentado transmitir é o que traz a idéia de contemporaneidade, de atualidade.

A capa é ilustrada com uma montagem de fotografias daqueles prédios de vidro escurecido, de arquitetura futurista, edifícios normalmente pouco eficientes energeticamente, com pouco aproveitamento da luz solar e lacrados de forma a tornar essencial o uso constante de aparelhos de ar condicionado e luzes artificiais. Modernos?

Com as informações das quais dispomos hoje sobre a crise ambiental, em especial do clima, “moderno”, no meu entender, é pensar um novo mundo, onde o ser humano consiga reconstruir suas idéias e sua forma de vida para alcançar uma nova relação, mais benigna, com o planeta. Reduzir a demanda por energia e o consumo são essenciais para atingir essa meta.

Mas o pessoal que fez a revista não parece pensar assim. A palavra “moderno” é repetida incontáveis vezes nas reportagens, sempre associada à proliferação de automóveis e shopping-centers, à explosão do consumo e ao inchaço das cidades. Monstruosidades como a Grande São Paulo, um aglomerado insustentável de 18 milhões de seres humanos, são colocadas como prova de que o Brasil está indo no caminho certo. De que o país saiu de uma economia “agrária, atrasada e fechada (…) para transformar-se numa economia moderna e relevante para o mundo”.

No final da matéria principal (e só ali), em um breve parágrafo, são espremidas as dívidas sociais do país. Detalhes como a fome, a violência, a vexaminosa concentração de renda e uma taxa de analfabetismo superior à média da América Latina não podem atrapalhar uma festa tão bonita e luxuosa do Brasil “moderno”. Por falar nisso, a Daslu, claro, é citada como prova do sucesso do nosso modelo de país.

Toda a lógica das reportagens especiais pode ser resumida na idéia de que a felicidade humana mora no consumo, no crescimento do poder de compra e em quanto um povo é capaz de comprar bens supérfluos (aliás, a palavra “supérfluo”, que fazia muito sucesso antigamente, parece agora ter saído de moda. Sinal dos tempos). Os Estados Unidos, “a sociedade de consumo por definição”, são colocados como objetivo a ser alcançado por nós brasileiros.

A esta altura você pode estar se perguntando com eu poderia esperar algo diferente de uma revista de direita. Tem razão, e eu não espero. O que quero, voltando à questão colocada no início do texto, é questionar o conceito de “moderno”, usado pela revista para defender o aumento da produção e do consumo e a transferência das pessoas do campo, para que se acumulem nas cidades e sejam substituídas por máquinas.

Como podem os responsáveis pelos textos daquela revista ignorar a realidade que nos cerca a todos, eles incluídos? Como podem propor como ideal para o futuro que todos os povos atinjam o padrão de consumo dos norte-americanos, quando se sabe que isto é impossível? É de conhecimento de todos que não dispomos de recursos naturais para tanto.

A Exame, assim como a revista Veja, transformou-se, já há alguns anos, numa revista editorialista. Não existem mais reportagens, apenas textos editoriais reafirmando a forma de pensar do Grupo Abril. Uma reportagem recente da Veja também comemora, ignorando a questão ambiental, o recorde em 2007 na venda de carros (2,5 milhões) e de celulares (50 milhões).

O que seria do mundo se todo habitante adulto dirigisse seu próprio carro? Que seria do Brasil e de outros países marginalizados se chegássemos às taxas americanas, de quase um carro por habitante? Do ar? Do trânsito?

Fico em dúvida se este pessoal realmente ainda não entendeu a gravidade da situação ecológica “moderna” ou se estamos lidando com hipocrisia pura. Chego à conclusão, ao ler, na mesma edição, uma reportagem orientando os empresários sobre as formas de aplicação mais eficientes de seus programas sócio-ambientais, que a ficha não caiu. A responsabilidade ambiental é vista apenas na sua casca, apenas como forma de melhorar a imagem da empresa, sem reflexão sobre seu real sentido e sem aprofundamento no tema.

Existe um abismo, em textos de um mesmo veículo de comunicação, entre a defesa do ambientalismo como ideal, de um lado, e a defesa de atitudes que vão contra os princípios que mostram ser realmente efetivos na batalha contra o descontrole climático, de outro. Isso é comum não apenas nas páginas de revistas reacionárias, mas dentro de nós mesmos.

Também não é fácil lidar com a situação para aqueles entre nós para os quais a ficha já caiu, para quem já entendeu a gravidade da situação e sabe que não há outro caminho a seguir que não o de uma mudança radical nos hábitos, costumes e formas de nos relacionarmos com tudo o que nos rodeia no planeta. Como resolver este enigma vivendo dentro de um sistema ainda baseado nas formas ultrapassadas – para alguns, modernas – de lidar com a realidade que nos cerca é um enigma cuja resposta deve ser encontrada por cada um, numa busca dentro de si mesmo.

Correio da Cidadania
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Cristina Kirchner toma o controle absoluto da política argentina

Fernando Gualdoni e Jorge Marirrodriga

A vitória de Cristina Fernández de Kirchner nas eleições de domingo na Argentina dá à presidente peronista o controle absoluto da política deste país. Cristina terá maioria no Congresso e no Senado, o respaldo da maioria das 24 províncias, especialmente a poderosa Buenos Aires, e o apoio de quase todos os prefeitos dos subúrbios da capital com maior número de votos e poder de mobilização. A situação de força de Cristina Kirchner, que ganhou com quase 45% dos votos e com uma vantagem de mais de 20 pontos contra sua adversária imediata, a centro-esquerdista Elisa Carrió, é a mais clara desde os tempos do ex-presidente Carlos Menem, no início dos anos 1990.

A eleição de Cristina, além de se consagrar como a primeira mulher que chega à Presidência da Argentina por meio das urnas, dá novos ares aos peronistas, que chegaram a estas últimas eleições divididos e confrontados. Com o mandato de Cristina, que deverá durar até 2011, o peronismo terá se mantido no poder na Argentina desde 1989 com uma pequena interrupção de dois anos, entre 2000 e 2002, em que Fernando de la Rúa governou como líder da Frepaso (Frente País Solidário), uma coalizão de centro-esquerda que acabou expulsa do comando pela crise do “corralito” no final de 2001, uma das piores da história do país.

Em seu primeiro discurso como presidente eleita na madrugada de ontem, em um hotel no centro de Buenos Aires, Cristina estendeu a mão a todos os seus rivais para acompanhá-la em sua gestão. “Sem rancores, o ódio não constrói, ao contrário, destrói tudo”, disse diante de seus seguidores, que não paravam de cantar uma marcha da Juventude Peronista (JP), à qual ela e seu marido, o atual presidente, Néstor Kirchner, pertenceram nos anos 1970. “A cantam porque sabem que me toca”, ela confessou, visivelmente emocionada. O reconhecimento da JP é muito simbólico porque separa o casal Kirchner da velha guarda do peronismo representada pelos ex-presidentes Menem e Eduardo Duhalde, hoje inimigos do casal.

Néstor Kirchner nunca se interessou por representar um partido peronista único, foi muito pragmático e construiu uma rede de aliados, peronistas ou não, para reforçar seu poder. Cristina seguirá a trilha de seu marido, em uma gestão “sem cor política”, como ela disse depois de conhecer o resultado. Na verdade, o vice-presidente eleito, Julio Cobos, é um radical, ex-membro da rival histórica do peronismo, a União Cívica Radical (UCR). Faltando o resultado definitivo em algumas das oito províncias onde houve eleições no domingo, o kirchnerismo acabará mantendo seu domínio em dois terços das províncias. Os Kirchner conseguiram que seu candidato ganhasse na província de Santa Cruz, na Patagônia, fato importante para a imagem do casal, e sobretudo obtiveram uma grande vitória na província de Buenos Aires, pelas mãos de Daniel Scioli, atual vice-presidente da República, cujo desafio será conter a escalada do crime na região.

A tarefa primordial de Cristina em curto prazo é conter a inflação, tentar reduzir a política de subsídios que esvazia os cofres do Estado e construir uma economia atraente para os investidores. Prevê-se que para isso contará com homens chaves ou com boa imagem da equipe de seu marido, como o chefe de Gabinete Alberto Fernández e os ministros das Relações Exteriores, Jorge Taiana, e da Economia, Miguel Peirano. Sua cunhada, Alícia Kirchner, provavelmente continuará à frente do Ministério do Desenvolvimento Social, uma pasta chave para manter os planos de ajuda pública a pessoas, setores produtivos e sindicatos que tanta popularidade deram aos Kirchner.

Segundo fontes do Ministério da Economia, é muito provável que Cristina tenha usado uma linguagem da conciliação em seu primeiro discurso porque quer “estender pontes” às empresas -seu marido manteve um constante confronto com os empresários- para conseguir o investimento que dá novo impulso ao crescimento econômico, hoje dependente quase exclusivamente das exportações de matérias-primas, em especial de cereais e oleaginosas. Esse investimento também é necessário para conter a inflação, porque a demanda cresceu muito e a oferta insuficiente pressiona os preços. O novo plano econômico, além do investimento, inclui a “reconciliação” com os organismos internacionais de crédito, como o FMI e o Clube de Paris.

El País
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Grupo vê “berçário” de raios cósmicos

Observatório Pierre Auger identifica de onde partem os raros petardos ultra-energéticos que chegam até a Terra

Consórcio de 17 países, que inclui o Brasil, resolve um mistério que atormenta a física há 25 anos; descoberta é uma das maiores do século

EDUARDO GERAQUE

A fotografia de Albert Einstein (sem a manjada língua de fora) na sala do físico Carlos Escobar, da Unicamp, serve como aviso: o trabalho feito ali não tem nada de trivial, nem envolve escalas triviais de grandeza.
Escobar passou mais de uma década estudando os raros raios cósmicos ultra-energéticos, misteriosos disparos naturais de partículas que fustigam a Terra de tempos em tempos. Agora, ele acaba de ajudar um consórcio internacional formado por cientistas de 17 países a decifrar de onde eles vêm.
A descoberta, que pode ser considerada uma das mais importantes da cosmologia neste início de século, está publicada na revista “Science” de hoje. “Agora sabemos que os raios cósmicos de alta energia são originários de galáxias próximas à nossa”, explica Escobar.
Para se enquadrarem na categoria “alta energia”, as partículas precisam ter pelo menos 16 joules, o que pode parecer pouco, mas não é. Se partículas com essa energia pesassem 1 miligrama, cada uma delas causaria um impacto sobre a Terra semelhante ao de um monte Everest viajando a 200 km/h. Para nossa sorte, elas têm menos de um bilionésimo da massa de um grão de areia.
O que os cientistas fizeram, a partir do Observatório Pierre Auger, na Argentina, foi seguir o trajeto contrário dos raios de alta energia, compostos de prótons e outros núcleos atômicos que viajam pelo Universo a uma velocidade próxima à da luz.
Os petardos minúsculos perdem energia quando se chocam com a radiação cósmica de fundo, um resquício do Big Bang que banha todo o Universo, e aterrissam como uma chuveirada. “A direção desses raios a partir da fonte não é muito distorcida, o que permite segui-los”, diz Escobar.
Todos os 27 disparos estudados e captados pelos tanques (que medem a energia) e telescópios (que seguem a luz dos raios) do Pierre Auger começaram, lá fora da galáxia, a uma distância menor que centenas de milhões de anos-luz (algo próximo dos 9,5 trilhões de quilômetros) da Terra.

Batalha naval
A forma de saber de onde partiu um raio cósmico é semelhante ao trivial jogo de batalha naval. Os cientistas usam uma espécie de mapa do céu, um catálogo sofisticado que contém galáxias já estudadas.
Quando não dá “água!” é possível saber de onde vêm os raios. “A galáxia Centauro A é uma fonte, por exemplo”, explica Escobar. “Todas elas estão em núcleos ativos de galáxias”. Essas regiões são alimentadas por buracos negros supermaciços, os glutões energéticos.
A origem da energia extrema, lembra Escobar, sempre foi alvo de polêmica, além de ser considerada um grande mistério científico. Alguns grupos achavam que só seria possível explicar o fenômeno, se uma nova teoria física fosse feita.
Porém, para alegria do próprio Escobar, as fontes, como se vê agora, não são obra de extraterrestres. “A origem pode ser perfeitamente explicada. Ela não viola, por exemplo, a relatividade de Einstein.”

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

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Mortes pelo fumo chegarão a 10 milhões ao ano em 2030

Afirmação é da Fundação Mundial do Pulmão, órgão que trabalha em conjunto com a OMS

WENDELL ROELF

CIDADE DO CABO - As mortes relacionadas ao cigarro devem dobrar até 2030, chegando a 10 milhões por ano, afirmou nesta sexta-feira, 9, a coordenadora do programa de controle de tabaco da Fundação Mundial do Pulmão (WLF), Judith Longstaff Mackay.

De acordo com ela, se nas economias avançadas o mercado para o cigarro está diminuindo, o contrário está acontecendo nos países em desenvolvimento.

“Acho que é importante não ficar comparando, mas há cerca de 3 milhões de mortes por tuberculose ao ano e 5 milhões de mortes anuais pelo cigarro, e elas estão aumentando”, disse ela à Reuters numa entrevista.

“Até 2030, esses 5 milhões vão estar mais perto de 10 milhões, vão ter dobrado … e o maior fardo está nos países em desenvolvimento”, afirmou ela, que participa de uma conferência internacional sobre saúde do pulmão.

A fundação trabalha junto com grupos como a Organização Mundial da Saúde (OMS) para promover a saúde pulmonar. Mackay é conselheira da OMS e critica fortemente as indústrias de cigarro.

O fumo é uma importante causa de câncer de pulmão, garganta, bexiga e de outros problemas graves de saúde.

Apesar das provas científicas sobre os riscos do fumo à saúde, mais gente está fumando no mundo todo, disse ela. Estima-se que hoje haja 1,3 bilhão de fumantes no mundo, e esse número deve subir para 1,64 bilhão até 2030.

O mercado global de tabaco movimenta bilhões de dólares por ano, e a China e os Estados Unidos são os dois maiores fabricantes de cigarro do mundo, segundo a Sociedade Americana de Câncer. A entidade chama a China de uma “bomba relógio”, com aproximadamente 320 milhões de fumantes.

Segundo o Atlas do Cigarro de 2006, publicado pela sociedade, os quatro países com maior número de fumantes homens — que respondem pela maioria dos fumantes do mundo — são o Iêmen, o Djibuti, o Camboja e a China.

“Na Ásia, especialmente, há mais poder de compra, mais sucesso financeiro, e as pessoas podem comprar mais cigarros”, disse Mackay. De acordo com ela, os países em desenvolvimento estão registrando avanços como a proibição do fumo em lugares públicos e da propaganda de cigarro.

Jornal Estado de S. Paulo
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A revolução do rock and roll

Peça de Tom Stoppard recria a polêmica banda de rock Plastic People of the Universe que, mesmo sem querer, atuou como um catalisador da democracia na Tchecoeslováquia

Jon Pareles

Incontáveis bandas de rock cantaram a respeito da rebelião. Uma das poucas que podem alegar que incitaram uma revolução é a Plastic People of the Universe, que -tendo começado sem nenhuma agenda política- atuou como um catalisador da democracia na Tchecoeslováquia.

A história dos Plastics (como os fãs chamam a banda) é parte central da peça de Tom Stoppard, “Rock ‘n’ Roll”, embora seja contada de forma periférica por personagens fictícios. É uma história não de ativismo, mas esquisitice tratada como sedição, teimosia em choque com a brutalidade e um regime que sem saber consolidava a oposição contra si. A repressão amplificou o impacto da banda, embora os músicos tenham arcado com um alto custo pessoal.

No decorrer de “Rock ‘n’ Roll” a música jamais é um mero entretenimento. E tampouco é propaganda; não há músicas políticas nem de protesto (os Plastics só gravaram uma música diretamente política durante a sua carreira). Em vez disso a música da peça é, de diversas maneiras, um refúgio, um grito vindo do coração, um estandarte de desafio e um símbolo de esperança.

“Talvez a peça pudesse se chamar “Isto Não é Apenas Rock and Roll”", diz Stoppard. “Porque de fato não é”.

O Plastic People of the Universe foi criado na Tchecoeslováquia em 1968, o ano em que os tanques soviéticos entraram em Praga e esmagaram um movimento de liberalização conhecido como Primavera de Praga. A banda era um agregado de hippies artísticos que se consideravam apolíticos. Mas, em meados da década de 1970, os desentendimentos entre os Plastics e o cada vez mais repressor governo comunista estimularam o movimento tcheco de direitos humanos cujo nome foi uma alusão à sua petição e manifesto, a Carta 77, que foi uma resposta direta aos julgamentos e prisões de músicos. A partir de uma década de resistência fundamentada na Carta 77 surgiu a Revolução de Veludo - sem derramamento de sangue - que acabou com o regime comunista na Tchecoeslováquia.

A música sombria e de baixa fidelidade é bem mais conhecida pelos grupos de direitos humanos do que pelos fãs do rock. Ela atraiu músicos do centro de Nova York com a sua angularidade e intransigência, e o crítico Ritchi Unterberger dedicou à banda um capítulo do se livro de 1998, “Unknown Legends of Rock and Roll: Psychedelic Unknowns, Mad Geniuses, Punk Pioneers, Lo-Fi Mavericks & More” (algo como “Lendas Desconhecidas do Rock and Roll: Desconhecidos Psicodélicos, Gênios Loucos, Pioneiros Punks, Não Conformistas de Baixa Fidelidade e Mais”). Uma gravadora tcheca, a Globus, relançou o catálogo completo da Plastic People em CD, e a maioria dos álbuns da banda está disponível no www.tamizdat.org.

“Eles são aquele tipo de banda conhecida pelas pessoas que acompanham a história da música underground, mas que não foi de fato ouvida por quase ninguém”, afirma Jimmy Johnson, diretor executivo da companhia de vendas de encomendas musicais pelo correio Forced Exposure, que conta com diversas produções de bandas pouco conhecidas e que costuma ter discos do Plastics. “Poderíamos vender centenas de cópias do primeiro álbum deles, se as conseguíssemos obter”.

Stoppard, 70, é tcheco, mas a sua família emigrou em 1939 e não retornou mais. Em uma entrevista no Teatro Bernard J. Jacobs, em Nova York, onde a peça estreou em 4 de novembro, ele disse conhecer o Plastics como um fenômeno dos direitos humanos desde a década de 70, mas que só descobriu a música deles quando começou a escrever “Rock and Roll”. Ele também descobriu textos articulados e controversos do gerente e estrategista do Plastics, Ivan Jirous, e do dramaturgo Vaclav Havel, um dos fundadores da Carta 77, que tornou-se presidente da Tchecoeslováquia em 1989 (o álbum “Leading Horses” do Plastics foi gravado em 1981 na fazenda de Havel, depois que a casa rural na qual a música foi executada pela primeira vez foi incendiada pela polícia secreta tcheca.)

Os personagens de “Rock and Roll” narram acontecimentos reais e expõem antigos argumentos -às vezes nas palavras de pessoas que os expuseram na época-, enquanto lutam com questões relativas a ideologia e pragmatismo, política e contracultura, materialismo e espírito, linguagem e mentiras, arte e economia. À medida que a peça se desenrola em direção ao presente, um personagem proclama: “‘Faça amor, não faça guerra’ foi mais importante do que ‘Trabalhadores do mundo, uni-vos!’”.

E embora a peça mostre o triunfo contracultural da música, Stoppard diz que a mudança política não é tão simples. “Faça amor, não faça guerra: essa é mais uma idéia utópica”, diz ele. “E dá para imaginar isso funcionando muito bem em uma utopia, seja em uma ilha deserta ou em um pedaço de terra nas regiões remotas dos Apalaches, na qual 300 pessoas estão fazendo amor, e não guerra. É algo que poderia funcionar dessa forma. Mas não parece ser um fator de operação sério na forma como o mundo funciona”.

Assim como as outras peças de Stoppard, “Rock and Roll” é repleta de parelhas e equilíbrios: personagens paralelos, eventos contrastantes e dialética. A história se passa na Inglaterra capitalista e na Tchecoeslováquia comunista, e gira em torno de Max, um professor ferrenhamente marxista que goza da liberdade acadêmica na Universidade de Cambridge, e de Jan, um estudante tcheco do qual ele é mentor por um breve período. A mais forte paixão de Jan é pelos LPs psicodélicos que traz de Praga, o seu fervor pelos Plastics desorganiza a sua vida.

Uma outra linha narrativa de “Rock and Roll” envolve Syd Barret, que liderou o Pink Floyd até que os danos causados pelas drogas e pela doença mental fizeram com ele ficasse recluso em Cambridge; na peça ele é um dos vizinhos de Max. Música de rock soam entre as cenas, enquanto a informação discográfica do grupo é projetada em uma tela de vídeo, e o final da peça ocorre no primeiro concerto dos Rolling Stones em Praga.

Os próprios Plastics começam e terminam a atual produção tcheca do “Rock and Roll” no Teatro Nacional de Praga, apresentando-se ao vivo. Ivan Bierhanzl, que trabalhou com os Plastics intermitentemente desde 1979, e que agora é diretor e baixista da banda, diz que os Plastics foram a primeira banda de rock a tocar no Teatro Nacional, um lugar onde é muito mais provável que seja apresentada uma ópera ou uma peça de Shakespeare.

No passado, o governo não permitia que o Plastics se apresentasse de forma alguma em público, e muito menos no mais importante local de apresentações culturais da capital.

Os Plastics começaram como fãs, ou imitadores, de bandas iconoclastas norte-americanas, incluindo a Velvet Underground, o Mothers of Investion de Frank Zappa e o Fugs. Assim como outros roqueiros do final dos anos sessenta em todo o mundo, eles transformavam os seus shows em eventos especiais, colaborando com artistas visuais; os Plastics apresentavam-se usando maquiagem pesada e túnicas feitas de lençóis.

“Éramos apenas uma banda de excêntricos, tocando rock and roll”, disse Bierhanzl de Praga por telefone antes de uma das apresentações do Plastics no Teatro Nacional. “A banda era um problema para o governo comunista e par ao partido que não gostavam de nós. Eles não apreciavam a nossa estética porque ela tinha traços ocidentais -cabelos compridos, capitalismo”.

Por volta da mesma época em que os Plastics estavam deixando confuso o governo autoritário, um outro movimento psicodélico -o tropicalismo no Brasil- fazia algo similar, com músicas pós-modernas alegres, ensolaradas e de letras confusas, que provocaram suspeitas por parte da ditadura militar brasileira. Dois dos líderes do tropicalismo, Caetano Veloso e Gilberto Gil, foram primeiro presos, e depois expulsos do país - tendo ido para a Inglaterra, onde acabaram aprendendo formas adicionais de internacionalizar a sua música (Gil é atualmente o ministro brasileiro da Cultura). Mas durante anos o governo da Tchecoeslováquia manteve a maior parte do rock underground dentro do país

O governo anulou as licenças de músicos profissionais dos integrantes do Plastics em 1970, impedindo que eles tivessem acesso a equipamentos e a empregos públicos. Conforme fariam durante quase duas décadas, os Plastics persistiram, em um clima que faz com que, comparativamente, o punk-rock pareça ser um cruzeiro de luxo. “Éramos trabalhadores”, diz Bierhanzl. “Para nós era importante tocar e ouvir a nossa música, e de forma alguma queríamos ser heróis”.

Liderados pelo compositor Milan Hlavsa, que morreu em 2001, os Plastics deixaram de imitar as músicas norte-americanas e passaram a criar as suas próprias obras. Eles construíram amplificadores caseiros a partir de peças avulsas de rádios transistorizados, e ensaiaram, sem alarde, em salas de estar, aperfeiçoando o material que poderiam ter oportunidade de apresentar em concertos semi-privados uma ou duas vezes por ano.

Parafraseando algumas idéias de Jirous, Stoppard disse que o Plastic People “contava, de certa forma, com uma vantagem em relação aos conjuntos do Ocidente, porque nunca teve que enfrentar a tentação”.

“Nunca houve a possibilidade de que um desejo de reconhecimento fosse recompensado”, explica ele. “Assim, isso nunca esteve presente como algo que poderia modificar a forma que tocavam ou as músicas que escolhiam”.

As músicas do Plastics nunca soaram como músicas de festas. Juntamente com o ritmo do Velvet Underground, eles escolheram as dissonâncias da música européia oriental, acrescida de contrapontos com instrumentos como contrabaixo, clarinete e viola, bem como de solos de saxofone. Os vocais eram em tcheco, compostos de poesia moderna baseada em humor negro. As autoridades decretaram que a música do conjunto era mórbida, e elas não estavam necessariamente erradas quanto a isso. O Plastics desafiava os pronunciamentos oficiais sempre otimistas simplesmente por meio do seu tom amargo e descontente.

O álbum mais famoso do Plastics, “Egon Bondy’s Happy Hearts Club Banned”, trazia letras do poeta e provocador Egon Bondy, como aquelas da música “No One”: “Ninguém/Em lugar algum/Nunca/Jamais/Chegou a lugar algum/Quem, eu?/Que tolo/Eu não”. As músicas foram gravadas em 1974; fitas foram contrabandeadas da Tchecoeslováquia e lançada quatro anos depois em um LP na França, e as cópias entraram clandestinamente na Tchecoeslováquia.

Atualmente, enquanto a música percorre o mundo rapidamente via Internet, “Rock and Roll” -com cenas de Jan e da sua frágil e insubstituível coleção de LPs ocidentais- faz lembrar como eram preciosos os discos de vinil.

Os concertos do Plastics eram raros, eventos clandestinos organizados com um humor astuto. Depois que as licenças da banda foram canceladas, ela conseguiu tocar primeiro com a ajuda do seu diretor, Jirous, um historiador da arte. Ele alugava salas para uma demonstração e palestra sobre Andy Warhol e a arte pop; e, a seguir, após uma breve apresentação, os Plastics “demonstravam” um concerto integral com uma série de músicas do Velvet Underground. Segundo a lei tcheca, os casais podiam escolher o seu próprio entretenimento para a cerimônia de casamento, de forma que alguns amigos e fãs do Plastics casaram-se e organizaram concertos da “segunda cultura”: uma cultura separada da arte oficialmente sancionada e da oposição explícita.

Os Plastics optaram por não desafiar o regime, mas por ignorá-lo. “Todos os outros simplesmente colaboravam um pouco com o regime por causa do trabalho, do dinheiro, dos estudos, dos empregos e assim por diante”, conta Bierhanzl. Assim, todos estavam um pouco em contato com o governo, com exceção da nossa banda maluca. Éramos diferentes”.

Mas, eles não foram reciprocamente ignorados pelo governo. As operações repressivas tornaram-se cada vez mais truculentas. “A atitude do governo era do tipo, ‘Se você não está conosco, está contra nós’”, diz Stoppard.

Em 1974 os Plastics organizaram um dos seus concertos underground na vila de Ceske Budejovice, mas o governo descobriu. Antes do início, os fãs foram desviados para um túnel e emboscados por policiais que portavam cassetetes. Todos foram fotografados para os arquivos policiais, e alguns estudantes foram expulsos da universidade, o que acabou com as suas carreiras acadêmicas.

No início o governo levou os Plastics mais a sério do que a oposição. Conforme é narrado em “Rock and Roll”, havia pouco respeito, de ambos os lados, entre políticos e malucos. “A banda de rock and roll não pensava muito nos dissidentes intelectuais, e os intelectuais não davam muita atenção a esses músicos excêntricos”, diz Stoppard. “A idéia era que desistir do campo político não era uma resposta adequada: optar por não fazer parte das estruturas, ‘Deixem-nos sós’. Todos tinham o direito de fazer tal coisa, mas isso não era oposição”.

O governo tomou providências quanto a isso. Em 1976, depois que os Plastics e amigos se apresentaram em um outro festival da segunda cultura, 27 pessoas foram presas.

Vratislav Brabenec, o saxofonista e às vezes compositor do Plastics, e Jirous foram condenados por “organizar distúrbios contra a paz” e presos. “Eles cometeram um grande erro com aquele julgamento”, afirma Bierhanzl. “Sem ele, talvez ninguém se interessasse na banda, mas o julgamento foi um grande lance de relações públicas para nós”. No julgamento, dissidentes e hippies encontraram pontos em comum e criaram uma aliança.

Mas demoraria mais de uma década até que eles prevalecessem. Enquanto isso, o clima piorou ainda mais. Membros da banda eram repetidamente interrogados pela polícia e às vezes espancados. Os Plastics deixaram de fazer apresentações em 1981, passando a fazer música apenas em ambientes privados.

Brabenec emigrou para Toronto em 1982. Jirous passou anos na cadeia. Hlavasa manteve a banda unida até 1988, e a seguir criou a sua própria banda com alguns ex-integrantes do Plastic People com um outro nome: Pulnoc (Meia-Noite), que obteve permissão para se apresentar na Tchecoeslováquia e no Ocidente. Na véspera da Revolução de Veludo o Plastic People tinha acabado. Era difícil dizer se o governo havia finalmente destruído o conjunto ou se -apesar da suas intenções conscientes- eles de alguma forma cumpriram o seu objetivo histórico.

As músicas de protesto podem rapidamente transformarem-se em artefatos; as pessoas envolvidas haviam saído do cenário, as causas foram perdidas ou ganhas, o slogan tornou-se cada vez mais irrelevante.

Na década de 1990 o reggae e o hip-hop superaram o rock como músicas de protesto global, embora roqueiros como Bruce Springsteen ainda liderem protestos musicais de grande dimensão. Assim como ocorre com muitas outras músicas compostas sob regimes autoritários, as músicas do Plastic People continham sentidos duplos e referências metafóricas que faziam sentido para o ouvinte atento da época. Mas a música do conjunto é mais um estado de espírito do que um manifesto; a sua inquietude amarga e sardônica permanece.

Bierhanzl diz que atualmente o Plastics está “vivendo em uma era contemporânea”. A banda voltou a se unir em 1997 para a comemoração do 20° aniversário da Carta 77, e permaneceu junta, com alguns novos membros, desde a morte de Hlavsa. Ela está fazendo um álbum composto de novos materiais para o seu próprio 40° aniversário e lançando um DVD histórico.

Mas a banda está também exorcizando memórias ao se apresentar no Teatro Nacional. Em 1977, enquanto o movimento Carta 1977 ganhava atenção internacional, o governo comunista convocava os artistas a comparecer ao teatro e obrigava-os a assinar uma denúncia do movimento dos direitos humanos. Muitos deles simpatizavam com os objetivos da Carta 77 e eram amigos dos seus membros, mas tinham famílias para sustentar e empregos a proteger; eles assinaram.

“Para nós, é com uma certa satisfação que agora podemos tocar no mesmo salão. Mas isso é a História…”, diz Bierhanzl.

The New York Times
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Vitória exige mais tropas, diz historiador

O britânico Paul Kennedy avalia, entretanto, que aumento é pouco realista, porque presença militar já está no limite

CAROLINA VILA-NOVA

Uma vitória dos EUA no Iraque será impensável sem que haja um aumento da presença militar americana. E mesmo esse aumento -algo improvável no contexto de uma derrota eleitoral e de uma força militar que já atua no limite- traria apenas vitórias “pequenas e temporárias”.
Essa cética avaliação é do célebre historiador britânico Paul Kennedy, que esteve em Porto Alegre para uma conferência na noite de anteontem. Questionado pela Folha, Kennedy qualificou de “precárias” as três opções estratégicas em discussão no Pentágono para o Iraque -o “Go Big” (aumentar as forças por um período curto), o “Go Long” (manter as forças atuais por um período maior) ou o “Go Home” (deixar o Iraque a partir de 2007).
“O desafio de que só agora o governo Bush se deu conta é que o número de soldados americanos no Iraque, de cerca de 145 mil, não é suficiente para alcançar a vitória que o Pentágono prometeu há pouco mais de três anos”, disse o autor de “Ascensão e Queda das Grandes Potências” em entrevista coletiva. “Podemos até ter pequenas vitórias temporárias se enviarmos muito mais soldados, mas tampouco acredito que tenhamos mais tropas para enviar.”
Por outro lado, classificou de “pouco útil” a opção de concentrar as tropas em quatro cidades-chave (Bagdá, Mossul, Falluja e Tikrit), levantada pela revista “Newsweek” na semana passada. “Significaria entregar o país às mãos do inimigo.”
E rejeitou também a transferência da responsabilidade às forças de segurança iraquianas para que os EUA possam iniciar uma retirada escalonada. “Isso parece ideal. Mas todas as indicações sugerem que o Exército iraquiano não é suficientemente equipado e experiente e está preso no conflito entre sunitas e xiitas.”
O historiador afirmou ainda que o debate interno sobre essas estratégicas deve assumir tons mais e mais ideológicos e acentuar a “negligência” que Washington tem dedicado a regiões como a América do Sul.
“Devemos nos preparar para uma política interna muito bagunçada. Haverá divisões bastante ideológicas dentro do Partido Republicano. E isso não é uma boa notícia para quem gostaria de ver os EUA prestando mais atenção em suas relações no hemisfério ocidental. Eles estarão muito angustiados e perturbados.”
A ONU -tema de seu último livro, “O Parlamento do Homem: O Passado, Presente e Futuro das Nações Unidas”- serviu de gancho para o historiador criticar o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que em discurso à Assembléia Geral, em setembro, disse sentir no ar o cheiro de “enxofre” deixado por Bush.
“[O discurso] foi tão exagerado que acabou ficando ridículo e tornou altamente improvável que a candidatura da Venezuela para o Conselho de Segurança pelos próximos dois anos tivesse êxito”, afirmou Kennedy, em referência à vaga rotativa no principal órgão da ONU disputada entre Venezuela e Guatemala no mês passado.
“Suas ações exageradas contradizem a idéia de que pudesse ser um líder global natural.” Após duas semanas de impasse, os dois países acabaram desistindo da disputa, e o Panamá foi eleito. A derrota foi particularmente cara a Chávez, para quem a vaga era prioridade de política externa, e foi atribuída em parte ao discurso.
“Como se diz nos filmes de caubói, Chávez deu um tiro no pé.” Ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Kennedy deu alguns conselhos: um, manter o bom humor; outro, investir em educação.
“A ênfase na tentativa de fortalecer e assistir os estratos mais baixos da sociedade é um chamado moral e político”, afirmou, enumerando um terceiro conselho. “E isso pode ser feito de maneira inteligente, com políticas que não causem divisões de classe, que não espantem o capital internacional e que sejam mais atrativas e sensatas do que as levadas adiante por um certo presidente sul-americano, de um país que começa com “v” e termina com “a’”, disse Kennedy em mais uma alfinetada em Chávez. “Há maneiras de incentivar mudanças sociais que são inteligentes e criativas sem serem destrutivas.”

Ciclo
A conferência de Paul Kennedy foi a abertura do ciclo “Fronteiras do Pensamento”, realizado pela Copesul Cultural em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul e outras instituições.
Entre 20 de março e 4 de dezembro de 2007, o ciclo receberá em Porto Alegre personalidades como o sociólogo americano Immanuel Wallerstein, o filósofo tunisiano Pierre Lévy, o ex-chanceler mexicano Jorge Castañeda e o cientista político americano Marshall Berman. O site do evento é www.fronteirasdopensamento.com.br.

Jornal Folha de S. Paulo
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A batalha das palavras

O que está em jogo é a arquitetura da “rede” como base de uma nova ordem mundial. Mas que controla a rede? Na disputa, o sentido das palavras desempenha papel decisivo. Pois quem domina as palavras domina as construções mentais que induzem as políticas

Armand Mattelart

O empobrecimento dos conceitos que servem para designar o estado atual e o futuro do mundo se acentuou na medida que o mercado das palavras se reduziu às palavras do mercado. A noção mecânica de informação como quantidade de dados (data), vinda da engenharia de telecomunicações, desempenhou o papel de Cavalo de Tróia. Apartando-se da cultura como produção dos sentidos e da memória, essa definição da nova matéria-prima “imaterial” reverberou sobre os outros dois termos da trilogia: a cultura e a comunicação. Em razão disso a Organização Mundial do Comércio (OMC) pôde reivindicar o direito de ocupar-se da “cultura”, classificada como “serviço”, comandando uma cúpula mundial sobre a “sociedade da informação”, que se desenvolveu em duas etapas: Genebra, em 2003; e Tunis, em 2005.

A friabilidade do solo das palavras criou o terreno para a nebulosa dos neologismos amnésicos, que produzem “efeitos realísticos” por meio dos modelos de ação que patrocinam e promovem como os únicos possíveis [1]. O movimento multissecular de unificação do mundo encontra-se despojado de sua história e de sua geopolítica conflitante e reduzido a um fenômeno que data de no máximo duas décadas.

A “sociedade da informação”: uma história em três etapas
No coração dessa novilíngua, imperam as noções de “sociedade da informação” e de “sociedade global da informação”, erigidas em paradigmas dominantes da mudança social e em cauções de um mundo mais transparente. Sua história de longo prazo inicia-se nos séculos 17 e 18 com o pensamento do quantificável e do mensurável como o protótipo de todo discurso verdadeiro. Sua história mais recente inicia-se no final da Segunda Guerra Mundial e se prolonga pelas duas décadas seguintes. Sua história de curto prazo, finalmente, o espaço-tempo que os historiadores chamam de “presentismo”, opera sob o domínio da corrida atual.

Ninguém falou melhor da história de longo prazo do que o escritor argentino Jorge Luis Borges, quando se refere ao mito da construção de uma língua artificial partilhada por todos como fundamento de uma comunidade universal, de uma comunicação perfeita. É o “Congresso” imaginado por don Alejandro Glencoe em Libro de Arena. É a quimera da construção arbitrária de uma língua analítica por John Wilkins em Otras Inquisiciones. Se o inventor da cibernética, Norbert Wiener, designou, em 1948, precisamente Leibniz como santo padroeiro da nova ciência, foi não apenas porque esse inventou o sistema de numeração binário e o cálculo diferencial, mas porque, por meio de seu projeto de automatização do raciocínio, também procurou criar uma lingua characteristica, uma língua “artificial” isenta dos defeitos das línguas naturais, fonte de desentendimentos e discórdia, uma língua que fosse capaz de contribuir para a criação de uma comunidade universal.

Década de 1950: desenham-se, nos Estados Unidos, as premissas teóricas da “sociedade pós-industrial”, que, a partir dos anos 1970, seria metamorfoseada em “sociedade da informação”

A história de médio prazo deve ser lida no contexto da Guerra Fria. Desde os anos 1950, se desenham, nos Estados Unidos, as premissas teóricas da “sociedade pós-industrial”, que, a partir dos anos 1970, seria metamorfoseada em “sociedade da informação”. Coloca-se agora em campo um discurso de combate relativo à “sociedade”, orientado pelo primado da ciência e da inteligência artificial, e baseado no anúncio dos “fins”: fim da ideologia, da política, da luta de classes, da intelectualidade contestadora e, portanto, do engajamento, em prol da legitimação da figura do intelectual positivo, orientado para a tomada de decisões.

Nos anos 1960, a tese principal era que a convergência do telefone, da televisão e do computador estava em vias de transformar o mundo em uma “aldeia global”. Mas a única potência que atingiu esse estágio foi os Estados Unidos. Suas indústrias culturais e redes de informação e comunicação veiculam os valores de um novo universalismo. A sociedade global será então a extrapolação do arquétipo nascido nos Estados Unidos. O tempo das relações de força imperiais passou. A “diplomacia das canhoneiras” dará lugar a uma “diplomacia das redes”, e a atração natural exercida por um modo de vida já provado passará à frente das estratégias coercitivas [2].

Ao longo da década seguinte, nos anos 1970, o discurso sobre a sociedade de informação tornou-se performático. Legitimou a formalização de políticas públicas. O problema revelado pela primeira crise do petróleo (1973) pôs as novas tecnologias da informação a serviço das estratégias imaginadas pelos grandes países industriais para se livrarem da crise. Nos anos 1980, a desregulamentação e as privatizações desestabilizaram a idéia de política pública. Os anos 1984-1985 marcaram uma reviravolta. A onda de choque da desregulamentação das empresas de telecomunicação se propagou dos Estados Unidos para o resto do mundo, reforçada pelo regime neoliberal de Margaret Thatcher.

Década de 1990: o fim da guerra fria e a internet alimentam a ideologia da “sociedade global de informação” como promotora de uma “nova ordem mundial” e da “unificação da grande família humana”

O fim da Guerra Fria, em 1989, e a irrupção da Internet, a partir de 1994, impulsionaram a informação e suas redes para o seio das doutrinas sobre a construção da hegemonia mundial. O domínio da informação converteu-se, na linguagem geoestratégica, no princípio das “três revoluções”: nos assuntos militares, diplomáticos e comerciais. O controle das redes (“globalinformation dominance” — domínio da informação global), impôs novas maneiras de guerrear (a “guerra limpa”) e novas estratégias para a integração do conjunto das nações em torno do mercado mundial (o “soft power” — uso da persuasão para impor seus objetivos a outros países).

Em 1995, os sete países mais industrializados (G-7) ratificaram, na Cúpula de Bruxelas, a noção de “sociedade global da informação”. As “auto-estradas da informação” foram promovidas a vetores de uma “nova ordem mundial da informação”, título de um discurso de caráter messiânico pronunciado pelo então vice-presidente dos Estados Unidos, Albert Gore, sobre a unificação da “grande família humana”.

Seria preciso esperar até 2001 para que a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) inaugurasse a noção de “fratura numérica” e propusesse uma medida estatística com o propósito explícito de propiciar uma “visão mais social” das tecnologias da informação e da comunicação. Antes de sua definição administrativa, ela seria inaugurada em 2000, no G8 de Okinawa, acompanhada de um “regulamento da sociedade global da informação”.

A noção e o projeto da “sociedade da informação” tornaram-se assim uma evidência histórica, sem que os cidadãos tivessem tido oportunidade de exercer seu direito a um verdadeiro debate.

Década de 2000: a guerra global ao terrorismo desacredita a ideologia do “fim do Estado”. A obsessão pela segurança põe em evidência a face oculta das tecnologias da informação: a vigilância

O jogo começou a mudar no começo do milênio. Três acontecimentos foram reveladores. Primeiro, a constatação da emergência do “cognitariado”, termo forjado pelos artesãos da cibercultura anglo-saxã para designar o novo proletariado do “’capitalismo do conhecimento”, fonte de novas precariedades [3]. A “global war” (guerra global) contra o terrorismo desmentiu, por sua vez, a crença nas virtudes do “todo tecnológico”, a começar pelos campos de batalha. A representação de uma globalização regulada unicamente pelo recurso imaterial deu “chabu” diante da redescoberta dos fatores geopolíticos em jogo no longo prazo, ligados ao controle do abastecimento energético. O leitmotiv do fim do Estado e de seus poderes reais perdeu credibilidade. A obsessão pela segurança tirou a máscara da face oculta das tecnologias da informação e da comunicação aplicadas à gestão das sociedades: a vigilância.

Os postulados das doutrinas sobre a construção da hegemonia mundial — base de um novo universalismo — sofreu fissuras. A violência se exibiu como agente essencial na realização do projeto econômico de integração global, ou melhor, da “moldagem do mundo” (shaping the world), na língua dos estrategistas. O soft power, declinação da “diplomacia das redes”, apagou-se diante da volta das versões hard do poder e da imposição.

A “rede” é de fato administrada pela Internet Corporation for Assigned Names and Numbers (ICANN), que controla o acesso a qualquer domínio virtual, genérico (.com, .org, .gov, .edu etc) ou nacional

Sob o pretexto da perseguição ao terrorismo, os Estados Unidos erigiram-se em polícia dos fluxos globais (financeiros, marítimos, aéreos e informacionais). Assim, durante a cúpula mundial da sociedade da informação de 2005, assistiu-se a uma recusa em levar em consideração a questão da reforma do “governo da Internet”. A “rede” é de fato administrada pela Internet Corporation for Assigned Names and Numbers (ICANN). Dotado de um estatuto singular (sociedade de direito californiana com fins não-lucrativos), esse organismo controla o acesso a qualquer domínio virtual, genérico (.com, .org, .gov, .edu etc) ou nacional. Na verdade, ele está ligado, em última instância, ao Departamento de Comércio dos Estados Unidos. A ampla aliança entre governos do Hemisfério Sul e da União Européia, movidos, cada qual, por seus próprios interesses, não abalou o fato do controle da “rede” pelos Estados Unidos, agarrados à sua doutrina da ‘‘global information dominance’’.

Tornaram-se evidentes as diferenças que separam o projeto plural de construção das “sociedades do saber”, por todos e para todos, do projeto unívoco de uma “sociedade global da informação”, que esquece as relações de força entre as culturas e as economias

Enfim, a nova configuração de agentes sociais e profissionais começou a subtrair a questão das novas jazidas da riqueza imaterial do domínio das doutrinas e estratégias hegemônicas. Tornaram-se evidentes as diferenças de fundo que dividem o projeto plural de construção das “sociedades do saber”, por todos e para todos, tanto na esfera da produção quanto da circulação, e o projeto unívoco e abstrato de uma “sociedade global da informação”, que esquece as relações de força entre as culturas e as economias. É o que confirmam as contribuições desses novos atores do espaço público nos debates da União Internacional das Telecomunicações (sobre a “sociedade da informação”) e da Unesco (sobre a proteção e promoção da diversidade cultural).

Dois princípios articulam o projeto crítico às lógicas de mercado promotoras da patrimonialização. Por um lado, a filosofia (balbuciante) dos bens públicos comuns. Esses dizem respeito não somente à educação, à informação, ao saber e à cultura mas também ao espectro das freqüências de radiodifusão, à saúde, à água, ao meio ambiente — todos esses domínios que deveriam constituir “exceções” à lei do livre comércio, “coisas” às quais as pessoas e os povos têm direito, produzidas e repartidas em condições de liberdade e eqüidade, que são a própria definição do serviço público, sejam quais forem os estatutos das empresas que garantam essa missão. Para o serviço público, os direitos humanos e ecológicos universais são a regra; as instituições internacionais legítimas, o aval; a democracia, a exigência permanente; e o movimento social, a fonte [4].

Do outro lado, está o “direito à comunicação”. Ironia da história, trata-se, aqui, da volta de um conceito lançado em 1969, por Jean d’Arcy, então diretor da divisão de rádio e serviços visuais do Serviço de Informação da ONU, no momento em que o debate sobre as liberdades no campo da informaçãotomava forma na Unesco. Em artigo publicado na revista da União Européia de Radiodifusão (UER), D’Arcy afirmava: “A Declaração Universal dos Direitos do Homem, que, há 21 anos, estabeleceu pela primeira vez, em seu artigo 19, o direito à informação, terá de reconhecer, um dia, um direito mais amplo: o direito do homem à comunicação. Pois, hoje em dia, os povos sabem, e, se são mais difíceis de governar, é talvez porque o instrumento de comunicação, informação e participação que lhes oferecemos não corresponde mais ao mundo atual e ao avanço de sua técnica” [5].

Ao longo da década seguinte, iria se desenvolver, na Unesco, a idéia da caducidade do modelo vertical de comunicação — fluxo de sentido único para a informação— e da recusa de uma comunicação da elite para as massas, do centro para a periferia, dos ricos (em matéria de comunicação) para os pobres. A partir dos anos 1980, as desregulamentações descartaram o conceito ainda embrionário. Mas, desde 2001, os quatro princípios-chave que fundamentam esse “direito à comunicação” — liberdade, diversidade, acesso e participação — estão no centro dos canteiros abertos pelo movimento social sobre a diversidade das expressões culturais e midiáticas. É a grande batalha atual.

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[1] Mattelart, Armand: Histoire de la société de l’information (Paris, La Découverte, 2006) e Diversité culturelle et mondialisation (Paris, La Découverte, 2007).

[2] Brzezinski, Zbigniew: Between two ages: america’s role in the technetronic era, Nova York, Viking Press, 1969.

[3] Geert Lovink: Dark Fiber, Cambridge, MIT University Press, 2002.

[4] Conforme o site

[5] D’Arcy, Jean (1969), “Direct broacast satellites and the right to communicate”, em L. S. Harms, L.S. (ed): The right to communicate: collected papers, Honolulu, University of Hawaii Press, 1977.

Jornal Le Monde
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