Preços em ascensão aumentam desigualdade entre ricos e pobres
Durante anos os bancos centrais inundaram o mundo com dinheiro barato, ajudando os ricos a ficar mais ricos. Agora a inflação surgiu no horizonte, ameaçando tornar os pobres ainda mais pobres
Wolfgang Reuter
Os mercados de ações são arautos das dificuldades econômicas. Cada estagnação, desaceleração econômica e recessão é acompanhada pela queda dos preços das ações, e muitas vezes até por um colapso do mercado. Os maiores crashes têm nomes: a Sexta-Feira Negra, em 1929, ou a Segunda-Feira Negra, em 1987.
Mas às vezes uma alta acentuada dos preços indica que o pior ainda está por vir. Axel Weber - presidente do banco central da Alemanha, o Bundesbank, e membro do conselho diretor do Banco Central Europeu (ECB) - está bem consciente dessa possibilidade. Há alguns meses ele vem acompanhando os ganhos acentuados nos índices de títulos internacionais, especialmente nas operações de commodity futuras (comércio a prazo de mercadorias), com preocupação crescente.
Por exemplo, o preço do trigo de primavera, que é comercializado na Bolsa de Grãos de Mineapolis, saltou de US$ 5,50 o bushel (cerca de 35 litros) em maio para os atuais US$ 9. Um ano atrás o trigo de primavera era vendido a apenas US$ 4,60 o bushel, o que é pouco mais do que a metade do preço atual.
No ano passado, os preços do milho e da soja aumentaram até 70% nos principais mercados comerciais. Os preços de vários metais, madeira, borracha, lã e outras matérias-primas usadas na manufatura de bens de consumo também têm subido continuamente há meses. Outros dados e alterações de preços também sugerem que haverá tempos difíceis pela frente. Além disso, o preço do petróleo continua atingindo novos recordes.
Sinais de alarme
Weber finalmente soou o alarme no último domingo. “Como um banco central, certamente estamos preocupados”, disse ele. “O que nos preocupa é o aumento dos preços em todas as categorias, ou seja, não apenas nos setores de energia e de alimentos. A inflação poderá aumentar para 3% até o final do ano”. Esse seria o maior salto de preços em 14 anos.
Jürgen Stark, economista do ECB, também fez advertências sombrias, afirmando que o risco de inflação na zona do euro aumentou nas últimas semanas - apesar da crise financeira internacional e de uma economia desacelerada pelo euro forte. Essas foram declarações de uma transparência inusual em se tratando de autoridades de bancos centrais, que normalmente escolhem as palavras com grande cautela.
A mistura de preços ascendentes e de uma economia em processo de enfraquecimento é um pesadelo para todos os presidentes de bancos centrais e formuladores de políticas econômicas. Tal quadro gera inevitavelmente maior desemprego, um declínio da arrecadação governamental e o aumento da pobreza.
O que Weber e Stark preferem não mencionar é que a culpa por essa calamidade é deles e dos seus congêneres nos principais bancos centrais do mundo. Durante anos, eles inundaram o globo com mais dinheiro do que nunca na história. O principal objetivo deles era ativar as suas respectivas economias e mantê-las dinâmicas.
No início, todo esse dinheiro barato teve o efeito inevitável e pretendido, agindo como um lubrificante para economias de todo o globo e, aparentemente, como uma bênção para o mundo.
A maldição do dinheiro barato
Mas agora essa política de baixas taxas de juros está transformando-se em uma maldição. Nos últimos anos, isso já contribuiu significativamente para o aumento da desigualdade de renda. Os ricos ficaram mais ricos, tanto na Alemanha quanto, em escala ainda maior, nos Estados Unidos. Mas agora a inundação de liquidez promovida pelos dirigentes de bancos centrais tornou-se quase incontrolável. Como aprendizes de feiticeiro, eles cometeram erros quando determinaram a potência da bala mágica e, ao fazê-lo, colocaram-se em uma situação em que praticamente não há esperança de correção.
Se aumentarem as taxas de juros a fim de conter ou pelo menos reduzir a inflação ascendente, a crise financeira poderá provocar um colapso econômico maciço. Mas se mantiverem as taxas atuais, em níveis relativamente baixos, os preços continuarão subindo, fazendo inevitavelmente com que os pobres fiquem ainda mais pobres.
Era uma quarta-feira quando as coisas começaram a descontrolar-se no mundo. Mas à época ninguém tinha idéia de que isso estava de fato ocorrendo. Em 3 de janeiro de 2001, Alan Greenspan, então presidente do poderoso Federal Reserve Bank (Fed, o banco central dos Estados Unidos), reduziu a prime rate (taxa preferencial de juros) de 6,5% para 6%. O fato em si mesmo foi relativamente desimportante, mas ele significou o primeiro de 13 passos por meio dos quais os fiscais monetários reduziram as taxas de juros para o patamar patético de 1%.
Sob o ponto de vista do Fed, isso faz total sentido. Ao contrário do ECB, cuja única meta é a estabilidade monetária, parte da função do Fed é estimular a economia, e não há melhor forma de alcançar esse objetivo do que com baixas taxas de juros. Poupar dinheiro tornou-se algo cada vez menos atraente à medida que os juros caíam. Em vez disso, faz mais sentido gastar dinheiro, ou até mesmo pegar dinheiro emprestado e usá-lo para investir em companhias. Em tal situação, a economia só pode ir para cima.
Os dois outros bancos centrais importantes do mundo, o ECB e o Bank of Japan, também reduziram as suas taxas de juros, para 2% e 0,1%, respectivamente.
Surto de inflação
Mas o dinheiro barato tem um preço. Ele se chama inflação.
Quando mais dinheiro há em circulação, mais rapidamente sobem os preços, pelo menos na teoria.
De fato, o que ocorreu inicialmente era o que se esperava que acontecesse: o volume de dinheiro aumentou substancialmente em todo o mundo. Esse fator sozinho é um indicador confiável do aumento inflacionário. No entanto, os preços aos consumidores mantiveram-se surpreendentemente estáveis.
A razão para isso foi um mundo cada vez mais interconectado no qual a competição aumentava constantemente e as barreiras comerciais iam sendo eliminadas. As companhias nas principais nações industrializadas careciam do poder para obter preços maiores, porque os produtos dos concorrentes, especialmente os das economias emergentes, estavam melhorando em qualidade e eram mais baratas. Isso também começou a se aplicar aos bens de capital - máquinas e equipamentos - com os quais as empresas nas nações industrializadas poderiam incrementar a sua própria produção.
O excesso de dólares, euros e ienes que não era gasto com bens de capitais foi direcionado para investimentos mais lucrativos. Os mercados de ações na China, na Índia e em outras economias asiáticas em ascensão, bem como na Turquia e na América do Sul, estavam prosperando. Os preços dos imóveis também começaram a aumentar nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha e na Espanha.
Aqueles que investiam o seu dinheiro nesses mercados podiam obter lucros rápidos e substanciais, e os que tinham um histórico de crédito decente podiam também tomar dinheiro emprestado a juros com valores historicamente baixos e despejar esse dinheiro em investimentos lucrativos. Segundo os especialistas em finanças, no final essa política de juros baixos ajudou até um setor relativamente novo da indústria financeira a se consolidar. A área de fundos de investimentos, também conhecidos como private equities, teria permanecido relativamente insignificante se não fosse pela enorme inundação de dinheiro barato.
A partir de 2003, a gigantesca festa especulativa descambou para a euforia completa. Os mercados em todo o globo começaram a superaquecer-se. Na Alemanha, a DAX (Deutsche Aktien Xchange, uma relação das 30 companhias abertas de melhor performance financeira da Alemanha com base no sistema Xetra) ganhou mais de 200% entre a primavera de 2003 e os dias de hoje, enquanto a Tec-DAX, o índice de companhias de alta tecnologia, também triplicou de valor.
Dinheiro fácil
Houve pequenas correções, mas nada que se aproximasse de um crash geral. Havia simplesmente dinheiro demais em circulação no mundo inteiro para que tal coisa acontecesse. Aqueles que foram convidados para a festa praticamente não poderiam fazer nada de errado.
E esses eram os ricos do mundo, as pessoas que tinham um excesso suficiente de dinheiro para investí-lo de forma lucrativa. O abismo entre ricos e pobres só aumentou.
A parcela de lucros e rendimentos com bens como percentagem do orçamento de renda geral aumentou 10% nos últimos sete anos, mas esse crescimento não foi igualmente distribuído. As pessoas de baixa renda raramente compram ações, títulos ou prédios de apartamentos. A renda líquida desses indivíduos caiu 5% nos últimos anos, enquanto os 10% mais ricos da população na verdade tiveram um aumento de renda de 10%.
A partir de meados de 2004, os bancos centrais tentaram conter a inundação que tinham provocado, elevando gradualmente as taxas de juros. Mas o volume de dinheiro disponível era simplesmente muito grande e os passos tímidos dos bancos centrais para modificar a curva das taxas de juros foram muito pequenos. A situação adquirira havia muito tempo uma dinâmica interna própria. O volume de dinheiro continuou a aumentar.
A bolha do mercado imobiliário dos Estados Unidos mal tinha começado a enviar ondas de choque pelo mundo neste verão quando o Fed deu um passo para trás e reduziu freneticamente a prime rate em meio ponto percentual.
Mas isso coloca o ECB em uma situação difícil. Ele tem uma escolha a fazer, mas apenas entre dois males.
Se aumentar as taxas, o euro irá se tornar ainda mais forte, fazendo com que os produtos europeus fiquem mais caros fora da União Européia. Isso seria mais do que inadequado para a Alemanha, um dos maiores exportadores mundiais. Mas se o ECB mantiver as taxas de juros no mesmo nível, ou mesmo se seguir o exemplo do Fed, reduzindo-as, poderíamos enfrentar uma “prolongada fase de inflação”, afirma Thorsten Polleit, economista da Barclays Capital Deutschland, “e provavelmente a uma taxa significativamente superior a 3%”.
Preços em ascensão no mundo inteiro
Existem muitas indicações de que Polleit está correto. Os preços estão aumentando drasticamente, tanto na Alemanha como em outros países. Em um mundo globalizado, preços em ascensão não são mais um fenômeno puramente nacional como eram apenas dez anos atrás. Os mercados emergentes, em particular, estão agora exigindo um retorno pelos vários anos que passaram produzindo e exportando têxteis, brinquedos, geladeiras e diversos outros produtos a preços baratos. Esses países estão agora presenciando agora tanto um aumento de renda quando preços mais elevados.
Na China, por exemplo, a alta de mais de 15% no preço dos alimentos é quase que inteiramente responsável pela inflação geral, conforme concluíram especialistas do Fundo Monetário Internacional (FMI) na sua conferência de outono em Washington. A taxa de inflação na China está se aproximando dos 7%. A inflação já chegou a um valor entre 17% a 25% na Argentina, apesar de o governo ter manipulado os números para baixo, para menos da metade de tais índices. A inflação também está em notável ascensão na África do Sul, na Rússia e na Índia.
Se os produtos e serviços tornarem-se consistentemente mais caros na Alemanha, isso somente aumentará o fosso entre ricos e pobres. A inflação sempre causa o impacto mais drástico sobre as pessoas de menor renda, que, comparadas aos ricos, gastam uma percentagem maior do seu rendimento disponível com bens de consumo básicos.
Embora preços mais altos também signifiquem maiores salários, as autoridades fiscais são as primeiras a se beneficiar do aumento de renda - mas não com base nos impostos pagos pelas pessoas de alta renda. Pouco muda para aqueles que já alcançaram o patamar mais elevado da contribuição fiscal, enquanto todos os demais são afetados por aquilo que é conhecido como progressão fria: o índice marginal de impostos muda com cada euro adicional de renda, o que resulta em uma distribuição ainda mais desequilibrada do fardo fiscal.
Aqueles que dispõem de dinheiro podem também tentar driblar a inflação com estratégias evasivas. Os empréstimos existentes, como os referentes às hipotecas, tornam-se mais baratos em relação à renda. Além disso, os indivíduos de alta renda podem transferir os seus ativos para investimentos à prova de inflação, como o ouro e outros metais preciosos.
A população continua a ver com bons olhos as baixas taxas de juros. Eles não contribuíram para a economia em expansão? E não colaboraram também para que os mercados de valores batessem novos recordes de alta? E embora a crise financeira possa ser preocupante para os anônimos executivos dos grandes bancos nos seus escritórios no alto dos arranha-céus, ela não afetou a economia real. Certo?
Para Polleit, isso é uma ilusão. “Os guardiães financeiros correm o risco de sucumbir à pressão pública, perdendo dessa forma contato com a sua função concreta, que é manter estável o valor do dinheiro”, diz ele.
Der Spiegel
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