Tardiamente, cena literária asiática amadurece
Donald Greenlees
Quando o primeiro romance de Xu Xi foi publicado, em 1994, ela achou que finalmente tinha rompido as barreiras das editoras. Ela sentiu que tinha entrado no círculo fechado onde, mesmo que escrever ainda fosse difícil, as recompensas de ser publicada e lida fluiriam com um pouco mais de facilidade.
Logo descobriu que ser publicada em inglês por uma pequena editora em sua cidade natal de Hong Kong não assegurava o interesse de meia dúzia de companhias americanas ou inglesas que dominam as edições em inglês.
Depois de seu primeiro romance, “Chinese Walls” (muros chineses), que se passa nos anos 60 em Hong Kong pobre e cheia de bares barulhentos cheios de soldados de folga do Vietnã, ela escreveu outros cinco. Ela até se mudou para Nova York, na esperança de que a proximidade com as editoras internacionais, de alguma forma, ajudasse a abrir portas.
“Os editores em Nova York e Londres foram animadores”, disse ela. “Mas, basicamente, eles não sabiam o que fazer com uma autora de Hong Kong.”
Em outubro, isso começou a mudar. O mais recente romance de Xu, “Habit of a Foreign Sky” (hábito de um céu estrangeiro), chegou à lista de finalistas do primeiro prêmio literário asiático com verdadeiro respeito internacional.
Seus contos duros sobre as vidas dos moradores de Hong Kong, livre dos estereótipos dos relatos ocidentais sobre a antiga colônia britânica, há muito são elogiados por acadêmicos, dissecados em aulas de literatura e populares entre leitores de Hong Kong ou chineses americanos.
No entanto, quando ela e quatro outros autores entraram para a lista de finalistas do Prêmio Literário Homem Asiático, as editoras internacionais subitamente prestaram atenção. O prêmio, que reconhece os romances asiáticos não publicados em inglês, será dado pela primeira vez no sábado.
“Desde que cheguei à lista dos nomeados, três editoras ligaram para meu agente -uma de Nova York, uma de Londres e uma da Austrália”, disse ela. Mas sua reação foi: “Isso é bom, mas já não estava na hora?”
Muitos autores de ficção asiáticos, que lutaram por anos para serem aceitos fora do pequeno público de seus próprios países, endossam o sentimento.
No entanto, há sinais que a indústria literária asiática está começando a amadurecer, aumentando as oportunidades para mais autores asiáticos ganharem reconhecimento internacional.
Editores e agentes internacionais dizem que estão procurando muito mais obras na Ásia para trazer para os públicos que falam inglês. Eles também estão procurando novas vozes e gêneros que vão além do que as editoras chamam de literatura de “cicatriz” ou “sofrimento” -sobre a vida de pobreza sob os regimes repressores- e capturar a rápida transformação social e econômica da nova Ásia.
Ao mesmo tempo, eles dizem que a Ásia está construindo a infra-estrutura para uma indústria literária desenvolvida. Isso pode ser visto no aumento no número de editores internacionais abrindo escritórios regionais para procurar talentos e vender livros nos mercados que crescem rapidamente, nas línguas locais e em inglês; na emergência e maior importância dos festivais literários asiáticos e no número de obras asiáticas sendo traduzidas para línguas ocidentais.
“Até recentemente, era difícil identificar o que chamamos de uma indústria literária na Ásia. No entanto, há indicações que a indústria se desenvolveu e agora existe. Chega um momento em que os pontos distintos se unem no que se pode chamar de uma indústria”, diz Peter Gordon, editor da “Asian Review of Books” em Hong Kong.
As conseqüências são um volume crescente de obras de ficção vindas da Ásia em meio a um mercado expandindo dentro da Ásia para ficção em inglês e nas línguas locais.
Como o resto da história da Ásia, a China e a Índia dominam o cálculo.
A editora britânica Penguin, que abriu um escritório na China no final de 2005, teve um crescimento de vendas de 200% por ano, de acordo com Jo Lusby, gerente geral da Penguin China.
“É um mercado mal servido”, diz Lusby. “É um mercado muito excitante para nós.”
A Penguin tem vendido títulos em inglês na China e traduções de histórias infantis populares. A maior parte dos clientes de livros em inglês não são mais expatriados, disse ela. Agora são chineses de classe média.
No final deste ano, a Penguin também lançará suas primeiras traduções da literatura clássica inglesa para o chinês sob o logotipo da Penguin, em um acordo com um editor estatal. Ela planeja trazer 30 novos títulos nesta série por ano.
Gordon, que dirige a pequena editora Chameleon e vende livros on-line em Hong Kong, disse que o consumo de ficção está acompanhando o “crescimento exponencial” das economias asiáticas.
“Quando as pessoas têm renda crescente, começam a comprar CDs e livros”, disse ele. “Maior demanda significa que as pessoas escrevem mais livros e você tem um círculo virtuoso.”
Uma das principais motivações para as editoras internacionais montarem escritórios na região é encontrar novos autores. No final do ano passado, a HarperCollins assinou um acordo de colaboração com a People’s Literature Publishing House e anunciou seu primeiro projeto: três romances chineses serão traduzidos para o inglês.
Em abril, a PanMacmillan lançou a Picador Asia com a meta de adquirir entre três e quatro títulos por ano relacionados a Ásia Oriental.
A decisão da Penguin de começar a recrutar na China pode ser belamente recompensada, com os direitos de tradução para um livro de um acadêmico chinês de 61 anos, aposentado, que usa o pseudônimo de Jian Rong. Seu “Wolf Totem” ficou em primeiro lugar entre os mais vendidos na China em 2004, vendendo dois milhões de cópias em uma edição legitima e quatro milhões em cópias piratas.
Jiang, que baseou o livro em experiências próprias na Mongólia nos anos 60, também chegou à lista de nomeados para o Prêmio Literário Homem Asiático. O livro, que Lusby descreveu como distante das memórias amargas do início do governo comunista que saíram na China nos últimos anos, será lançado em inglês em março.
Marysia Juszczakiewicz, agente literária da Creative Work em Hong Kong, disse que a presença crescente de editoras internacionais na Ásia está resultando na descoberta e na tradução de autores que talvez nunca fossem notados fora de seus países.
Até recentemente, Jiang “provavelmente não teria sido descoberto, porque há tão poucas pessoas procurando”, disse ela. “Antes, as editoras não olhavam ativamente para a lista dos mais vendidos na China nem pensavam que funcionariam fora.”
Juszczakiewicz, que representa Xu Xi, disse que um dos efeitos é que os públicos estrangeiros serão expostos a uma gama de autores muito mais ampla e estilos de ficção que viram no passado da Ásia. Ela citou um de seus próprios autores, Feng Tang.
“Ele é o Nick Hornby da China”, disse ela. “Ele é muito engraçado”.
Entretanto, a China está na moda agora e, mesmo assim, apenas alguns autores se beneficiarão.
Como os autores em outras partes, a maior parte dos romancistas asiáticos pode antever a combinação desmoralizadora de anonimato e dificuldades financeiras, disse Jose Dalisay, autor filipino.
Dalisay está concorrendo para o Prêmio Literário Homem Asiático e não recebeu ligações de editoras internacionais depois que seu livro sombriamente cômico “Soledad’s Sister” chegou à lista dos finalistas. Mas ele não espera ser capaz de viver só de livros tão cedo.
“Sempre estou buscando trabalho”, disse ele. Ele batalha dando aulas de inglês em uma universidade e fazendo artigos para jornais e outros trabalhos escritos.
“A aclamação existe”, disse ele. “Os filipinos são uma sociedade que, estranhamente, valoriza seus autores e artistas, mas não paga quase nada.”
Herald Tribune
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