Arquivo de 23 de Novembro de 2007

O biscoito fino das quebradas

Semana de Arte Moderna da Periferia começa dia 4, em São Paulo. Programa desmente estereótipos que reduzem favela a violência, e revela produção cultural refinada, não-panfletária, capaz questionar a injustiça com a arma aguda da criação


Eleilson Leite

Chegou a hora. A hora e a vez da cultura de periferia. Começa, neste domingo, 4 de novembro, a Semana de Arte Moderna da Periferia, evento realizado pela Cooperifa – Cooperativa dos Artistas da Periferia, junto com mais de 40 grupos culturais. Às 11 horas, tem início uma caminhada que parte da Ponte do Socorro com destino à Casa de Cultura do M’Boi Mirim. Os cerca de três quilômetros serão percorridos por intrépidas trupes, malabares, poetas engajados e outros apaixonados. Atrizes e atores celebrarão a retomada das ruas e praças como palco. Músicos tocarão tambores, violões, atabaques, numa exaltação à Periferia. Será um levante do povo trabalhador em nome do amor, da cor e da paz.

Na segunda-feira, dia 5, as atenções estarão voltadas para as artes plásticas. Oficinas acontecerão no Sacolão das Artes durante o dia. À noite, rola um vernissage de exposição coletiva com diversos artistas. Destaque para o trabalho de grafite em tela. A rapaziada que maneja os sprays está se aperfeiçoando cada vez mais na transposição de suas obras do muro para as telas. Mas também tem instalações, esculturas e pinturas em diferentes suportes.

Terça-feira (6/11) é o dia da dança. Certamente foi difícil para os organizadores fechar essa programação, tamanho o número de artistas que se dedicam à arte do corpo. Nesse dia, teremos uma bem concebida interação de linguagens artísticas. Poetas da Cooperifa farão intervenções e cineastas exibirão vídeos sobre o tema do dia. E, claro, vai ter muita dança. Destaco o Grupo Espírito de Zumbi, que faz dança afro de altíssima qualidade. Vale a pena. Todas as atividades deste dia acontecerão no CEU Campo Limpo.

Quarta-feira (7/11) é dia de Sarau da Cooperifa. É também o dia da literatura. Essa vai ser a noite da glória. “Nesta noite, os anjos e os espíritos têm licença do Senhor para descer com seus decretos”, já dizia o poeta Gaspar do Z’África Brasil. E o grande destaque do dia será mesmo o Sarau. Para lá vão convergir todos os artistas de todas as quebradas. O Bar do Zé Batidão ficará pequeno. Então chegue cedo. Aliás, chegue às 17h na Casa de Cultura do M’Boi Mirim, onde o poeta Sergio Vaz coordenará um debate sobre produção literária da Periferia. Na mesa, a presença de Alessandro Buzo, Sacolinha, Elizandra Souza e deste que escreve essas mal traçadas linhas.

Derrubar o mito piedoso da pobreza em sofrimento permanente
O Cinema na Semana de Arte Moderna terá lugar na quinta-feira (8/11). E a programação é de perder o fôlego. São cerca de 15 produções, todas de cineastas periféricos. Começa as 16h com o belíssimo “Dança das Cabaças: Exu no Brasil”, de Kiko Dinucci (média metragem), e termina com outro documentário, absolutamente fundamental para se entender a cultura suburbana: ”Panorama: Arte da Periferia”, de David Vidad, Anabela Gonçalves e Daniela Embóm. Mas não deixe de ver o filme ”Vaguei nos Livros e me Sujei com a M… Toda”, de Akins Kinte, Mateus Subverso e Allan da Rosa. Esse documentário fala de literatura e negritude, com depoimentos de escritores e escritoras que encontraram nas letras a afirmação de sua identidade de raça, de classe e de gênero. O CEU Casablanca será o endereço do cinema periférico.

Na sexta-feira, o teatro entra em cena. O dia começa com um café da manhã. As 8h30, diversos coletivos teatrais da periferia farão um colóquio regado a pingado e pão com manteiga. Às 11h, começa a jornada cênica que vai até às 20h30. Serão oito apresentações. Destaque para o grupo UMOJA que vai demonstrar o processo do espetáculo “Quem me pariu”. Tudo no Centro Cultural Monte Azul.

Sabadão chegou e a música vai tomar conta no encerramento da Semana de Arte Moderna da Periferia. O palco da Casa de Cultura do M’Boi Mirim vai ferver ao som do Trio Porão, Chapinha, do Samba da Vela que vai tocar com a rapaziada do Pagode da 27. Wesley Nóog apresentará seu samba-rock super swingado. Os mamelucos, B Valente e Banda A entram na seqüência. Às 20h40, quando a chapa já estiver em alta temperatura, sobe ao palco o Periafricania. Depois o grupo Preto Soul apresentará uma black music de primeira. A noite termina com o grupo Versão Popular. Ninguém vai ficar parado.

A Semana de Arte da Periferia mostrará que na favela a vida é bela, apesar da mazela. Os arrabaldes das metrópoles também têm seus encantos. Talvez seja desnecessário eu fazer essa ressalva. O leitor sabe disso. Mas o estereótipo é implacável. Quem não tem contato com o subúrbio acaba incorporando involuntariamente o imaginário segundo o qual os habitantes dos fundões das cidades são gente condenada à desgraça do mundo. Famélicos que não vivem, apenas agüentam, como disse o cantor popular. E é a graça de viver na periferia que será celebrada neste evento histórico. Mas não será algo ingênuo, despolitizado. Ao contrário. Ele expressará a crítica com a contundência que muitas vezes o discurso militante não consegue ter. O poeta toca a alma de quem o escuta. Então, vá lá ver, sentir e escutar. Será um evento único. Não tem outra edição programada. Talvez numa outra efeméride (90 anos, 100 anos… ) se faça um novo levante cultural antropofágico.

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

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Sem perdão

Don Aucoin

A qualquer momento Grace Akallo dará a luz ao seu primeiro filho. Os médicos informaram que será um menino.

Essa possibilidade faz com que surja um sorriso radiante na face de Akallo. “É uma bênção”, diz ela. Após uma breve pausa, acrescenta: “E ele vai estar comigo onde quer que eu vá”.

Os instintos protetores de uma futura mãe? Talvez. Ou talvez isso seja uma resposta ao fato de que parte da infância de Akallo foi roubada. Quando ela tinha 15 anos de idade, Akallo foi seqüestrada de uma escola católica para meninas no norte de Uganda e obrigada a lutar em um exército rebelde. Antes de escapar, após sete meses, ela foi brutalizada, enterrada viva e obrigada a marchar centenas de quilômetros descalça, dispondo de tão pouca comida que por vezes teve que comer lagartixas e ratos para sobreviver.

Ela viu coisas terríveis serem feitas com outras crianças presas. Ela foi obrigada a ser a “mulher” de um comandante rebelde que tinha três vezes a sua idade. Houve momentos em que a morte parecia preferível à vida: em duas ocasiões ela tentou matar-se com a sua própria arma, como presenciou diversas outras crianças fazerem.

Mas, de alguma forma, Akallo, 27, sobreviveu com o seu espírito e a sua humanidade intactos, e acabou conseguindo chegar aos Estados Unidos. Ela recentemente formou-se pela Universidade Gordon, em Wenham. Akallo conheceu e casou-se com Jonathan Baiden, nascido em Gana e funcionário de uma casa de repouso em Worcester. Ela está se preparando para inscrever-se para um curso de direito. E em breve o bebê nascerá.

No fim das contas, ela conseguiu recuperar a sua vida e garantir um futuro, algo que parecia um sonho impossível durante o longo tormento que passou como presa. Não obstante, mais de uma década após Akallo ter escapado dos seus algozes, ela continua assombrada, não só pelo sofrimento a que foi submetida, mas também por dois fatos que está determinada a mudar.

Primeiro, milhares de “soldados infantis” ugandenses, incluindo duas amigas de Akallo que foram capturadas com ela em 1996, ainda estão em cativeiro. E, segundo, o mundo parece não se importar com isso.

“As minhas amigas ainda estão lá”, diz Akallo, com a voz ficando ainda mais suave. “Elas nunca viram os pais; nunca viram as suas casas. Eles não libertaram as crianças”. Akallo é co-autora de um livro sobre as suas experiências, “Girl Soldier” (”Menina Soldado”), que ela espera que provoque a ação internacional no sentido de libertar os soldados infantis. Durante anos após a sua fuga, ela repetiu a mesma oração: “Deus, por que não me dá asas para que eu possa voar e ajudar as minhas amigas”.

“Deus não me deu asas”, diz ela. “Mas, talvez, o livro…”. Ela não termina a sentença, como se tivesse medo de ter muita esperança.

“Deus, estou pronta para morrer”
Apenas algumas horas antes da chegada dos rebeldes, as meninas da escola estavam dançando.

Era o dia 9 de outubro de 1996 - Dia da Independência de Uganda -, de forma que Akallo e suas colegas da Escola Saint Mary sintonizaram uma estação de rádio e dançaram para comemorar. No início do ano, Akallo foi matriculada na Saint Mary, uma escola católica para garotas de 13 a 16 anos em uma cidade chamada Aboke.

Ela foi criada em uma vila no nordeste de Uganda, onde a partir dos sete anos de idade Akallo ajudou a tomar conta dos quatro irmãos mais novos, além de trabalhar na agricultura com a mãe. O pai abandonou a mãe para casar-se com outra mulher e deixou de mandar dinheiro para a sua primeira família. Mesmo assim, Akallo diz: “Eu era feliz”.

“Eu vivia em paz quando morava com a minha família”, lembra-se ela. “As crianças não tinham medo. Nós caminhávamos até a escola, que ficava a 16 quilômetros, sem a companhia de nenhum adulto”.

Mas quanto Akallo chegou na Saint Mary, no início de 1996, com 15 anos de idade, as crianças eram baixas freqüentes na guerra entre o governo ugandense e os rebeldes liderados por Joseph Kony, cujo objetivo declarado era criar um Estado administrado segundo os Dez Mandamentos. Kony e o seu chamado Exército da Resistência de Deus seqüestraram grupos inteiros de crianças, submetendo-as a uma brutalidade incansável e transformando-as em assassinos frios.

Naquela noite de outubro, enquanto Akallo dormia, uma janela foi quebrada próxima a ela, deixando-a coberta de cacos de vidro. Coronhas de rifles golpearam as portas. As garotas aterrorizadas começaram a rezar e a gritar, chamando pelas mães. Lá fora, centenas de figuras armadas, muitas delas crianças, brandiam armas, desde facões a fuzis de assalto. Eles avisaram às meninas que caso não abrissem as portas imediatamente, jogariam uma granada no dormitório.

“Todas estavam tão apavoradas”, recorda Akallo. “Eles nos arrancaram da escola. Começamos a andar com eles em uma caminhada que durou a noite inteira. Todas choravam com vozes diferentes, pedindo a Deus que as ajudasse a escapar”.

Ao todo, 139 meninas foram raptadas na Saint Mary. “Algumas das garotas tinham dez ou 11 anos”, conta Akallo. Ao recordar-se disso, ela parece que vai chorar. “E eles eram tão brutos”, acrescenta com uma voz que é quase um sussurro.

Os rebeldes acabaram libertando 109 das garotas, mas mantiveram 30 cativas. Akallo foi uma destas.

O objetivo dos rebeldes era aumentar o tamanho do seu exército com crianças e adolescentes capazes de ser doutrinados mais facilmente do que adultos para combater o governo ugandense e os seus aliados. “A fim de nos intimidar, de forma que não tentássemos escapar, eles nos espancavam violentamente. Éramos espancados o tempo inteiro. E éramos ameaçados de morte a todo momento: ‘Vamos lhe matar’”.

Uma semana após o seqüestro de Akallo, uma menina de 12 anos tentou escapar. Os rebeldes ordenaram que as outras crianças a espancassem até a morte, se não quisessem elas próprias morrer. Akallo não conseguiu fazer tal coisa. Enquanto as outras começaram a bater com porretes na criança, ela pegou a menor vara que conseguiu encontrar e golpeou a garota, mas apenas nas pernas. Um rebelde percebeu o que Akallo estava fazendo e a golpeou na cabeça, fazendo com que ela desmaiasse. “Quando acordei, a garota estava morta”.

A brigada rebelde, que incluía adultos, matava qualquer pessoa que entrasse no seu caminho quando vagava de uma vila a outra, seqüestrando mais centenas de crianças. As crianças prisioneiras acabaram sendo divididas em dois grupos. O grupo de Akallo foi forçado a marchar até o sul do Sudão, onde os rebeldes contavam com bases protegidas. Durante o caminho, eles eram constantemente enviados em longas jornadas em busca de comida e água, coisas que eram escassas ou inexistentes. “Você via pessoas apoiadas em uma árvore, e achava que estavam descansando. Mas elas tinham partido. Estavam mortas”, diz Akallo.

Assim que chegaram ao Sudão, os rebeldes distribuíram armas aos cativos, em preparação para a batalha. Mas algumas das crianças desesperadas encontraram um outro uso para as armas. “As pessoas começaram a se matar”, narra Akallo. “Uma garota estourou a cabeça na nossa frente. Ela estava cansada, sedenta e faminta”.

Akallo participou de mais de dez batalhas. Viu centenas de pessoas morrerem à sua volta, tanto crianças como adultos. Ela disparou a sua arma diversas vezes, e, como resultado, também foi alvo de tiros. Ela não sabe se atingiu alguém. Uma noite, após uma batalha particularmente sangrenta, Akallo desmaiou de exaustão. Os seus colegas, todos soldados infantis, achando que Akallo estava morta, removeram as suas roupas e a enterraram em uma cova rasa. Akallo acordou horas mais tarde, no meio da noite, debaixo da terra fofa. Tomada pelo pânico, ela conseguiu escapar da sepultura. “Fazia frio. Tudo estava quieto. Eu me encontrava sozinha”, conta Akallo. Ela começou a caminhar até que finalmente alcançou os outros soldados infantis.

No final da primavera de 1997, ela foi novamente enviada em uma jornada em busca de comida e água. Aos 16 anos de idade, Akallo estava emagrecida, e era um verdadeiro esqueleto ambulante. Durante os sete meses em que estivera prisioneira, cinco das suas colegas do Saint Mary haviam sido mortas. Naquele dia, Akallo também teve a impressão que chegara ao fim da linha. “Foi naquele momento que eu disse: ‘Deus, estou pronta para morrer’”, conta ela. “Estava cansada de correr, cansada de ser obrigada a lutar”. Ela sentou-se perto de uma árvore, determinada a não se mexer. “Então”, conta, “ouvi uma voz me dizendo que levantasse e andasse… Creio que foi Deus me mandando fugir”.

Ela decidiu tentar escapar. Viveu no mato durante três dias sem comida, sobrevivendo com o orvalho que encontrava sobre as folhas. Alguns outros soldados infantis juntaram-se a ela na tentativa de fuga. Eles caminharam quatro dias, e finalmente chegaram a uma vila. Jogaram fora as armas e entraram caminhando na aldeia, no sul do Sudão, com Akallo na frente, gritando: “Não somos pessoas ruins. Fomos raptados da escola em Uganda! Precisamos de ajuda!”.

Divulgando uma mensagem
Akallo não usa sapatos ao sentar-se no sofá no seu apartamento. Seus pés têm manchas e cicatrizes, como conseqüências das inumeráveis caminhadas forçadas pela floresta.

Após escapar, ela teve que tomar mais de 30 injeções para o tratamento de diversas doenças de pele que voltavam com freqüência. Quanto à sua recuperação psicológica, Akallo diz, “Rezei muito”. As freiras forneceram um apoio emocional crucial quando ela retornou ao Colégio Saint Mary. “As irmãs me encorajaram bastante, e me disseram: ‘Este não é o fim do seu futuro’”, conta Akallo.

Após se formar no Saint Mary em 2001, ela freqüentou a Universidade Cristã de Uganda, onde conheceu estudantes de intercâmbio da Universidade Gordon, uma instituição cristã. Curiosa quanto ao que eles disseram a respeito da universidade, ela solicitou transferência para lá em 2005, tendo obtido uma bolsa de estudos integral. Akallo formou-se em comunicação, porque isso a ajudaria a aprender “maneiras de falar e escrever a respeito do que passei”.

Quando precisa de um intervalo para os estudos, ela encontra uma válvula de escape meio incomum assistindo a episódios antigos da série “Walker, Texas Ranger”. A sua ex-colega de quarto, Megan Thompson, 21, recorda: “Akallo costumava ficar acordada até as duas da manhã para assistir àquele programa. Ela dizia: ‘Esse é o programa no qual o cara bom sempre vence’”.

Akallo sabe que a vida real não é tão simples, mas se agarra à sua crença no poder da fé, e no poder de uma voz humana denunciadora. Akallo acabou tornando-se uma porta-voz da World Vision, uma organização cristã de ajuda e desenvolvimento que é ativa em Uganda. Tom Slicklen, diretor da World Vision na Nova Inglaterra, afirma que as congregações das igrejas da área de Boston ficam invariavelmente “emocionadas e dispostas a agir” ao ouvirem Akallo.

Em 2004, esperando atrair atenção para os problemas do seu país, Akallo contou a sua história no “The Oprah Winfrey Show”. Naquele ano ela discursou na reunião anual da Anistia Internacional. No ano passado depôs perante um subcomitê parlamentar, pedindo “intervenção em alto nível” do governo dos Estados Unidos para ajudar a acabar com o conflito.

A última de várias interrupções do combate foi declarada recentemente em Uganda, e as negociações de paz estão em andamento entre o governo e os rebeldes. Mas o trauma nacional está longe de ter acabado. Akallo é apenas uma das cerca de 30 mil crianças seqüestradas durante uma guerra de duas décadas que provocou milhares de mortes. O Tribunal Criminal Internacional, com sede em Haia, emitiu ordens para a prisão de Kony e de quatro dos seus comandantes, acusando-os de crimes de guerra. Em junho o procurador-geral do tribunal disse que uma investigação provou que “os principais comandantes do Exército da Resistência de Deus foram pessoalmente responsáveis pelo recrutamento e pela escravização de crianças, pelo massacre de famílias, tendo forçado o deslocamento de milhões de pessoas dos seus lares”.

Akallo pensa constantemente na sua terra natal. Ela espera um dia visitar Uganda e fazer tudo o que estiver ao seu alcance para ajudar a nação a se recuperar. Até tal dia, Akallo continuará divulgando uma mensagem que ela espera que o livro “Girl Soldier” amplifique. De fato, parte da sua mensagem parece estar expressa no subtítulo do livro: “A Story of Hope for Northern Uganda’s Children” (”Uma História de Esperança para as Crianças do Norte de Uganda”).

“Quero que as pessoas saibam o que está acontecendo em Uganda e que façam algo para ajudar”, afirma Akallo. “As pessoas devem trabalhar arduamente para acabar com essas atrocidades, porque as crianças não merecem isso. Se ficarmos calados, estaremos permitindo que tais coisas continuem ocorrendo”.

Jornal Boston Globe
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/boston/

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China amplia presença na economia da América Latina

A necessidade de recursos naturais e de matérias-primas do colosso asiático multiplica as exportações. O Chile lidera a venda de matérias-primas para a Ásia, com 36% de suas exportações, 15% com destino à China

J. Ramón González Cabezas

A China amplia sua presença nas economias em desenvolvimento da África e da América Latina. O gigante asiático é, depois dos EUA e da França, o terceiro parceiro comercial da África, de onde importa um terço de suas necessidades de petróleo. Sudão, Argélia, Angola e Nigéria são seus grandes fornecedores do ouro negro, do qual a China deixou de ser auto-suficiente em 1993. A África é sem dúvida um grande viveiro da trepidante economia chinesa, que em 2006 gerou no continente um fluxo comercial de US$ 50 bilhões, cinco vezes mais que em 2000.

No entanto, a África não é suficiente para suprir as enormes necessidades de matérias-primas da terceira potência econômica mundial, que cresce a um ritmo de 11,5% ao ano. A América Latina também se consolida como um continente aberto ao boom exterior da China, transformada definitivamente em um parceiro comercial de primeira ordem. A prova disso é que o valor de suas operações comerciais e investimentos na região também alcança os US$ 50 bilhões.

“A América Latina olha cada vez mais para a Ásia”, afirma Javier Santiso, diretor-adjunto e economista chefe do Centro de Desenvolvimento da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). “Com um crescimento galopante do PIB e escassez de terras cultiváveis, o apetite da China por recursos naturais e produtos agrícolas parece ser uma boa notícia para a América Latina”, afirma Santiso, que apresenta a China como um anjo comercial por sua capacidade de dar vazão ao crescente caudal de recursos do subcontinente e conectar os países latinos com a economia mais explosiva do globo. “No início temia-se que a China fosse um concorrente, um demônio comercial de efeitos nocivos na região, mas demonstrou ser um grande importador com efeitos bilaterais muito positivos”, acrescenta.

Mais de 30% das exportações do subcontinente latino-americano são matérias-primas, porcentagem que supera os 50% se forem incluídos os produtos primários e semimanufaturados. “Nem tudo é importar soja para alimentar a população e minerais para alimentar a indústria”, diz Santiso, que cita os contratos conseguidos na China pela indústria aeronáutica Embraer, a fabricante de ônibus Marcopolo e o colosso do ferro CVRD (Companhia Vale do Rio Doce) como expoentes da incipiente vocação investidora das potências emergentes da América Latina no gigantesco mercado asiático.

Em todo caso, os dados sobre as exportações das economias latino-americanas com destino à Ásia corroboram que a China é um comprador insaciável de matérias-primas. Só em 2003 o gigante asiático duplicou as importações de níquel, as compras de cobre cresceram 15%, as de petróleo 30% e as de soja até 70%. A China é o maior consumidor de cobre, zinco, platina, ferro e aço do planeta, fato que fez disparar as exportações dos países latino-americanos.

Só nos três primeiros anos do século, as exportações do Brasil cresceram 500%, as da Argentina 360% e as do Chile 240%. Este último lidera as vendas de matérias-primas para a Ásia em geral, com 36% de suas exportações, das quais 15% se concentram na China. O próprio México, concorrente no mercado de produtos manufaturados, multiplicou suas exportações para a China em 1.000% nesse período. “Pela primeira vez na história a América Latina pode se beneficiar não só de uma, mas das três maiores economias do planeta”, salienta Santiso, que indica que se até os anos 1980 os EUA foram o único parceiro comercial e nos 90 houve o boom dos investimentos europeus, “hoje a China está se transformando rapidamente em um novo pretendente, seguida não de longe pela Índia e outros países asiáticos”.

Os especialistas salientam que a China também é um fator de peso no fluxo de capitais. De fato, o colosso asiático pediu seu ingresso no Banco Americano de Desenvolvimento, onde já estão presentes Japão e Coréia. Depois de salientar a explosão de liquidez da China, que acumula as maiores reservas de divisas do mundo, Santiso destaca seus efeitos positivos sobre as economias latino-americanas. “A injeção de liquidez chinesa no sistema financeiro global favoreceu a redução das taxas de juros e dos prêmios de risco, com o conseqüente barateamento do custo do capital”, ele diz. A explosão de investimento direto estrangeiro (IDE) das economias emergentes confirma esse fato.

Jornal La Vanguardia
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Morte ronda trabalhadores rurais

Lavradores maranhenses estão ameaçados de morte devido a conflitos no campo que, segundo a CPT, estão aumentando

Itevaldo Júnior

Arame. Alfredo Pereira, 38 anos, lavrador. Assassinado com seis tiros numa emboscada. Francisco das Chagas Neves Aguiar, 33 anos, também lavrador. Teve 60% do corpo queimado, após incendiarem a sua casa enquanto dormia. Eram homens marcados para morrer. Um morreu. O outro sobreviveu e vive escondido. A luta dos dois era por palmos de chão em terras maranhenses. Mas ambos permanecerão nas estatísticas da Comissão Pastoral da Terra (CPT) – entidade ligada a Igreja Católica – que apontam outras 27 pessoas ameaçadas de morte no Maranhão devido a conflitos no campo.

Os números da CPT estão no relatório anual Conflitos no Campo no Brasil 2006. Em 2005, o Maranhão tinha 12 pessoas ameaçadas de morte. Em 2006, houve um acréscimo de aproximadamente 150%. Os números chegaram a 29 ameaçados. Há três semanas, uma das ameaças foi consumada. Na publicação do ano que vem, o codoense Al-fredo Pereira figurará na lista dos assassinados e não mais na dos ameaçados.

Para Inaldo Serejo, um dos coordenadores regionais da CPT, os alicerces da violência e dos conflitos no campo seguem intocados. “Com certeza, o número de ameaçados no Maranhão é muito maior do que essas 29 pessoas. A ameaça nunca deixou de existir. Esse número de ameaçados reflete o momento da conjuntura, da capacidade da CPT de fazer o registro. O estado inteiro tem conflito e é quase impossível registrar todos”, declarou Serejo.

O lavrador Alfredo Pereira residia em Codó. Já Francisco Aguiar morava em Arame. Segundo o documento da CPT, há ainda trabalhadores assinalados para morrer nos municípios de Açailândia, Balsas, Barra do Corda, Grajaú, São Bento e São João do Sóter. “Nós do movimento estamos sempre na mira”, sentenciou Mariana Monteiro de Araújo, presidente do Sindicato de Trabalhadores Rurais (STR) de Arame.

Segundo lugar

O relatório da CPT põe o Maranhão em segundo lugar no número de ameaçados de morte em conflitos no campo no país. Fica atrás apenas do vizinho estado do Pará, com 118 casos registrados. Em terceiro aparece o Tocantins, com 11 ameaçados.

Em todos os casos levantados por O Estado, as áreas onde se dão os conflitos já foram desapropriadas ou estão em processo de desapropriação ou sendo inventariadas ou com famílias de trabalhadores rurais já assentadas. A única certeza nesses casos é a omissão do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e do Instituto de Terras do Maranhão (Iterma).

Antônio..

Jornal o estado do maranhão

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Padre Júlio Lancellotti: o apedrejamento jornalístico

Gabriel Perissé

Agora é tarde. As pedras já foram lançadas contra Júlio Lancellotti. Aqueles que por algum motivo discordam de sua maneira de ver e atuar estão secretamente felizes. Ou não tão secretamente. Aqueles que praticam o jornalismo do escancaramento, com ou sem evidências, já cumpriram sua missão.

Hermano Freitas, por exemplo, utilizando locuções verbais para exprimir fatos acontecidos, (ou não?), em época passada, escreveu: “ex-interno da Febem, Batista teria conhecido e iniciado um relacionamento amoroso com o padre na instituição, onde foi internado aos 16 anos por roubo” (Folha Online, 27/10/2007). A expressão “relacionamento amoroso” é o que interessa, sobretudo num momento em que casos registrados de pedofilia dentro da Igreja católica criaram e difundiram a sensação de que o mais provável é que se repitam sempre e em todo lugar.

O recurso das aspas funciona como pretexto para reproduzir a fala irresponsável de quem quer que seja sobre o que for. Na mesma matéria de Hermano Freitas, lemos, com as aspas indicando (heróica objetividade…) as palavras de um outro: “‘Eles chegaram a ter relações sexuais dentro da igreja’, disse o advogado de Batista. […] O advogado afirma que o valor dos bens recebidos por seu cliente foi de ‘quase 700 mil reais’ e que o relacionamento entre o padre e ex-detento acabou após Batista ter se casado, em outubro de 2006. Ainda de acordo com ele, o sacerdote mantinha relações sexuais com outros meninos”.

Diogo Mainardi, na Revista Veja (ed. 2031), adota outro expediente. O da pseudo-insinuação. Chamar o padre de “Michael Jackson da Mooca” é colocá-lo no banco dos réus por antecipação, e reduzir a figura do sacerdote à imagem de um astro pop tupiniquim.

Na Record, o programa “Fala que eu te escuto” emitiu seu veredicto. O problema de Júlio Lancellotti é o celibato. Se não houvesse celibato obrigatório para os padres, estes casos deixariam de existir. Não é bem uma pergunta, ou uma enquete… É condenação mesmo.

No dia 3 de novembro, divulgou-se na mídia o “desabafo público” de Pe. Lancellotti, depois das pedradas: “aquelas coisas todas, que foram ditas e colocadas nas manchetes dos jornais e dos noticiários, não aconteceram”.

A mídia não sente culpa. Ninguém admitirá que atirou a primeira, a segunda, todas as pedras. E sempre alimenta perversa esperança. De, antes do Natal, aplicar o golpe de misericórdia…

Correio da Cidadania
http://www.correiocidadania.com.br/

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Detentos idosos estão cada vez mais presentes nas prisões japonesas

Norimitsu Onishi

Segurando um tecido rosa quadriculado, o prisioneiro número 303 começa a fazer, sem pressa, um par de chinelos tricotados. A algumas cadeiras de distância, o número 335 insere cuidadosamente barbantes brancos em envelopes. E, em outra fileira, o número 229 cola pedaços de papelão, e a pilha ao seu lado cresce de forma lenta e contínua.

Não é o trabalho prisional duro que se poderia esperar, mas com uma média de idade de 74 anos - um deles tem 88 anos - esses não são exatamente exemplos típicos de detentos. Aqui enfatiza-se o trabalho leve, e se algum dos prisioneiros sentir-se mal, pode deitar-se em um tatami instalado no aposento. Estão disponíveis medicamentos, andadores com rodas e uma maca, bem como uma caixa de fraldas geriátricas “discretas e semelhantes a cuecas”.

“Na nossa oficina de trabalho para os idosos, nós sem dúvida recebemos um tratamento preferencial”, afirma um homem de 76 anos, que trabalha seis horas por dia, duas horas menos do que os presos mais jovens que fazem móveis e realizam trabalhos mais árduos. “Sabe como é. Em geral as condições são muito mais duras”.

Com uma das sociedades que envelhece mais rapidamente, o Japão está se deparando com um crescimento acentuado do número de criminosos e prisioneiros mais velhos. Os japoneses de mais de 65 anos de idade compõem atualmente o grupo de criminosos que mais cresce.

A população carcerária também está envelhecendo nos Estados Unidos, mais isso é mais um resultado das longas sentenças e das práticas que limitam a liberdade condicional. No Japão, por outro lado, o aumento é motivado por crimes, a maioria deles não violentos.

De 2000 a 2006, o número de presos mais velhos saltou 160%, passando de 17.942 para 46.637, de acordo com a Agência de Polícia Nacional do Japão. Os furtos em estabelecimentos comerciais responderam por 54% do total de crimes cometidos por idosos em 2006, e os pequenos roubos por 23%.

Como resultado, as penitenciárias estão se empenhando para adequar ambientes prisionais criados para jovens a uma população de criminosos que é fisicamente - e, com freqüência, mentalmente - frágil.

Se os programas de trabalho, banheiros, menus dos restaurantes e serviços de saúde estão mudando, os detalhes no ambiente prisional também passam por modificações. Os detentos idosos são dispensados da marcha em fila em algumas prisões. No Ano Novo, os bolos de arroz são cortados em pedaços pequenos, de forma que não fiquem entalados em gargantas envelhecidas.

Aqui no oeste do Japão, a Prisão Onomichi, uma pequena penitenciária que conta com uma ala especial para os detentos idosos, que se constituem em 22% da população carcerária, ocupa a vanguarda quando se trata em lidar com este novo problema. Mas visitas recentes a duas grandes penitenciárias, uma de segurança máxima e a outra de segurança mínima, revelaram os problemas mais profundos associados com o aumento do número de prisioneiros mais velhos.

Um relatório recente do Ministério da Justiça revela que as pessoas mais velhas estão cada vez mais cometendo crimes, motivadas pela pobreza e pelo isolamento, o que sugere uma ruptura dos tradicionais laços familiares e comunitários. Sem ter para onde ir, um número cada vez maior de detentos idosos cumpre as sentenças completas, em vez de usufruir da liberdade condicional, como os prisioneiros mais jovens. Além do mais, a reincidência é maior entre os detentos idosos.

“Existem alguns idosos que temem retornar à sociedade”, explica Takashi Hayashi, vice-diretor da Prisão Onomichi. “Se eles permanecerem na prisão, o sistema cuida de tudo. Há exemplos de velhos que saíram da prisão, gastaram todo o dinheiro de que dispunham, e depois foram presos furtando em uma loja de conveniência. Eles simplesmente decidiram retornar à prisão”.

Embora o principal motivo para o crescimento drástico do número de presidiários grisalhos seja o rápido envelhecimento da população japonesa, os índices superaram em muito o aumento da população idosa na população em geral.

De 2000 a 2006, enquanto o número de japoneses com mais de 59 anos aumentou 17%, a população carcerária da mesma faixa etária cresceu 87%. Nas 74 penitenciárias do país, a proporção de presos idosos subiu de 9,3% em 2000 para 12,3% em 2006, enquanto a parcela de presos da faixa etária entre 20 e 30 anos diminuiu, e a de grupos de outras faixas etárias manteve-se constante.

Estes índices no Japão são bastante superiores aos do Ocidente. Nas prisões norte-americanas - onde aqueles com mais de 54 anos são categorizados como idosos - os detentos também estão envelhecendo. Mas tais prisioneiros representavam apenas 4,6% da população carcerária total dos Estados Unidos em 2005, segundo o Departamento Federal de Estatísticas do Sistema Judiciário.

Não se sabe ao certo até que ponto o envelhecimento dessa população provocou o aumento dos custos de administração das prisões japonesas. Mas as autoridades afirmam que as despesas com saúde são especialmente altas.

Na Penitenciária Fuchu, em um subúrbio de Tóquio, uma prisão de segurança máxima e uma das maiores e mais antigas penitenciárias do país, quatro enfermeiras cuidam dos prisioneiros velhos, que sofrem de doenças como hipertensão arterial e diabetes, além de problemas psicológicos. Um número cada vez maior de detentos que padecem de doenças mais graves é hospitalizado fora da prisão, exigindo a presença de guardas, afirma Kenji Sawada, funcionário da Penitenciária Fuchu, na qual 17% dos detentos têm mais de 59 anos de idade.

Aqui em Onomichi, a ala para prisioneiros idosos foi construída em meados da década de 1980, muito antes do crescimento drástico da população carcerária mais velha. Desde então, as autoridades vêm tentando lidar com o grande fluxo de prisioneiros grisalhos com um método de “tentativas e erros”, diz Hayashi, o vice-diretor.

Na oficina de trabalho, cadeiras ajustáveis foram trazidas dois anos atrás. Nos armários trancados nos vestiários, foram acrescentados nomes dos detentos abaixo dos números de identificação, já que os velhos tendem a esquecer os números. Em uma recente visita, restrições dietéticas foram escritas em um mural: cinco detentos precisam de refeições cortadas em pedaços minúsculos, 12 estão submetidos a dietas com baixo teor de sódio, o que significa que eles estão proibidos de comer almôndegas, e só podem usar molho de soja se este tiver pouco sal.

No meio do corredor da ala residencial há um corrimão. Dos dois lados há celas privadas, cada uma com um assoalho de tatami, um futon, um televisor, um vaso sanitário, uma pia e uma mala grande para armazenar os bens pessoais. “Problemas auditivos”, diz um cartaz em uma das portas. Em uma outra, na cela de um detento que padece de demência, um cartaz instrui os carcereiros a dar um medicamento ao prisioneiro antes de cada refeição, “mesmo que ele não peça”.

“Os idosos tendem a ser teimosos e a não se dar bem com os outros”, explica Hayashi. “Assim, para evitarmos problemas, damos prioridades a eles na hora de reservar celas particulares”.

Um detento de 71 anos, réu primário que está cumprindo pena de prisão de quatro anos por ter espancado e assaltado uma idosa a fim de obter dinheiro para sustentar o seu antigo vício de jogo, afirma ter descoberto que a vida na prisão é “bem melhor do que esperava”. Ele conta que no período de um ano em que está aqui, presenciou apenas dois desentendimentos, ambos devido à comida.

“Parece estranho, mas aqui somos todos velhos”, diz ele. “Eu também sou velho, e somos todos bem tranqüilos”.

O preso de 76 anos, que disse que os prisioneiros mais velhos recebem “tratamento preferencial” no trabalho, está cumprindo pena de seis anos por roubo, sendo esta a quarta vez em que está na prisão. Ele diz que nos cinco anos em que está aqui, já viu detentos retornarem duas ou três vezes.

“‘Você de volta?’, eu perguntei, e eles responderam, ‘Só quero descansar aqui um pouco’”, conta ele. “Creio que a maioria deles estava encontrando dificuldades para obter a próxima refeição, de forma a serem pegos furtando em lojas ou saírem correndo sem pagar pelo almoço”.

Hayashi descreve um “círculo vicioso” que com freqüência remete os idosos de volta à prisão: assim que saem, não são capazes de arranjar emprego; sem emprego ou um fiador, não podem alugar um apartamento.

“Esta não é uma sociedade que possibilite que eles se sustentem”, critica Hayashi.

E um fator que contribui para aumentar as dificuldades dessas pessoas é a tradição japonesa de não perdoar os ex-presidiários, afirma Hideo Nemoto, um funcionário da Penitenciária Shizuoka, a oeste de Tóquio. Os parentes geralmente cortam os contatos, de forma que os detentos nunca recebem visitas. Além disso, benefícios como seguro-desemprego são difíceis de se obter; as instituições para idosos são raras e não são uma opção viável para os ex-presidiários.

Tendo essa situação como pano de fundo, a vida na prisão - que, no Japão, significa um ambiente imaculado, praticamente destituído da violência que prevalece nas penitenciárias norte-americanas - pode ser o menor dos males. “Há quem tema que as prisões acabem transformando-se em espécies de instituições de abrigo para os idosos”, afirma Nemoto.

Porém, os prisioneiros entrevistados disseram que o fato de envelhecer na prisão é acompanhado de estresse.

Em Shizuoka, um homem de 72 anos, que está na prisão pela primeira vez, cumpre pena de quatro anos por ter matado a sua mulher que estava em estágio terminal de uma doença incurável. Ao contrário dos presos idosos da Prisão Onomichi, aqueles de Shizuoka são colocados em celas com detentos de diversas idades. Ele é forte o suficiente para trabalhar oito horas por dia passando óleo em peças de automóveis. Mas ele afirma que os mais velhos estão passando por maus pedaços.

Em Fuchu, um homem grisalho e praticamente surdo, de 77 anos, que foi batedor de carteiras a vida inteira, está cumprindo uma pena de quatro anos, na sua 17ª passagem pela prisão desde 1945. Embora tenha passado mais da metade da sua vida adulta atrás das grades, ele diz que desta vez está achando o período na prisão especialmente difícil.

Os problemas são os detalhes. O canal de televisão controlado pela administração carcerária mostra quase que apenas programas de músicas voltados para jovens. Ele e os seus companheiros de cela sentem saudades dos dramas sobre os samurais e dos jogos de beisebol.

Os ocupantes da sua cela para 14 pessoas são todos velhos e frágeis. Incapazes de descer as escadas até a oficina no andar de baixo, eles sentam-se no assoalho de tatami em frente às mesas baixas e fazem cabides de plástico. À noite, retiram as mesas e colocam colchões futon no assoalho.

“Estamos todos em mau estado”, diz ele, acrescentando que apenas três dos 14 detentos receberam visitas.

Dentro da cela, os homens evitam falar sobre o futuro. Em vez disso, conversam sobre o maior temor, que é morrer na prisão, da forma como um presidiário morreu dois anos antes, e da maneira como morrem quase 20 homens todos os dias atrás das grades. Talvez a morte lá fora fosse capaz de redimir a vida passada na prisão.

“Eu já vi vários morrerem aqui dentro”, diz o batedor de carteiras de 77 anos. “Todo mundo diz que não quer morrer aqui. De maneira nenhuma. Não quero morrer na prisão”.

The New York Times
http://www.nytimes.com/

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Plano refaz rota de Abraão no Oriente Médio

Na Turquia, projeto criado em Harvard lança roteiro de peregrinação baseado nos passos do patriarca do monoteísmo

Tensões políticas entre árabes e israelenses e guerra no Iraque, porém, ameaçam caminho, que vai de Harran a Hebron, na Cisjordânia

ANDREA MURTA

Na cidade turca de Harran, a cerca de 320 km da fronteira com o Iraque, foi inaugurada neste fim de semana uma iniciativa muito diferente das atuais operações militares de Ancara contra guerrilheiros curdos que encontram refúgio entre os dois países.
Longe do barulho das batalhas, 250 organizadores de 20 países lançaram a pedra fundamental do projeto Caminho de Abraão, rota turística que busca refazer no Oriente Médio as peregrinações do patriarca religioso nascido por volta do século 19 a.C.
A primeira fase da rota, que o projeto pretende colocar em funcionamento até 2016, vai de Harran até Hebron, na Cisjordânia, passando por Síria e Jordânia (veja mapa). O trecho lançado entre sexta-feira e hoje tem 60 km e vai dessa cidade turca até a fronteira síria.
O lançamento da pedra fundamental não abriu a rota ao público, mas significa que o trecho foi oficialmente percorrido e aprovado pelo governo turco. “Ainda estamos demarcando o caminho com placas de orientação”, explicou à Folha José Fernando Latorre, representante do projeto no Brasil. “A âncora turística do caminho, um trecho de 120 km na Jordânia, estará pronta para receber o público em maio de 2008″, adianta o brasileiro.
O caminho é patrocinado pelo Projeto de Negociação Global (GIP, na sigla em inglês) da Universidade Harvard, nos EUA. Além de estimular o turismo -e com isso o desenvolvimento econômico local-, a rota visa promover a união e o entendimento entre cristãos, muçulmanos e judeus. Abraão, considerado o pai do monoteísmo, é figura central para as três religiões. Além de ser tido como criador do judaísmo, seus descendentes teriam dado origem a cristãos e muçulmanos -para o islã, ele é ancestral de Maomé.
“Apoiamos o projeto pelo potencial de fomentar uma cultura de paz”, afirmou à Folha o xeque Jihad Hammadeh, da comunidade islâmica de São Paulo. “Retornar à “fonte” de Abraão, uma convergência para as religiões monoteístas, pode ajudar nesse diálogo.”
Assim como islâmicos, judeus e cristãos brasileiros manifestaram apoio ao projeto. “A coexistência pacífica entre as três comunidades no Brasil é um exemplo que tentamos exportar”, afirma Latorre.

Focos de Tensão
Enquanto as negociações avançam com os governos da Turquia e Jordânia, ainda não foi firmado acordo com Síria, Líbano, Israel e Autoridade Nacional Palestina -com os quais há só conversas preliminares.
As relações conflituosas entre Israel e árabes são um desafio para o projeto. “Procuramos mostrar que não tomamos partido na política nem na religião”, diz Latorre. “Buscamos o desenvolvimento.” Ele admite, porém, que houve resistência no início das negociações internacionais, pelo fato de ser uma universidade dos EUA a patrocinadora da iniciativa.
Mas são os atritos atuais entre Israel e Síria os principais responsáveis pela dose de ceticismo que cerca a rota. Israelenses, que mantêm controle sobre o território sírio das Colinas de Golã desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967, atacaram no último mês uma base no país vizinho que suspeitavam operar um projeto nuclear, indicando que a tensão continua.
Para o analista britânico David Newman, do departamento de política da Universidade Ben-Gurion de Negev (Israel), “o projeto parece ótimo, mas algo que vem da Síria não pode entrar em Israel”. “Não vejo como poderá ser implementado”, disse. A opinião é compartilhada por Yaacov Bar-Siman-Tov, da Universidade Hebraica de Jerusalém. “Infelizmente não vejo esperança para essa iniciativa enquanto o conflito entre Israel e Síria não se resolver”, afirmou à Folha. “Desenvolvimento econômico é importante para construir a paz, mas a experiência no Oriente Médio indica que projetos acabam barrados pela política.”

Iraque
Outra crise que eleva a tensão na região, o confronto entre turcos e separatistas curdos, não afetou até agora a continuidade do caminho. “A rota passa longe da região mais problemática na Turquia. Não houve incidentes”, disse Latorre.
O país vem efetuando ataques contra guerrilheiros do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) e ameaça invadir o Iraque, onde há bases do grupo, em retaliação às ações contra seu Exército.
Para o padre João Coning, da Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte, é fundamental -do ponto de vista religioso- que a rota percorra o Iraque. E é justamente ali que o maior conflito da região impede o planejamento da segunda etapa da rota, que pretende chegar a Ur -cidade natal de Abraão na antiga Babilônia. “Na Idade Média, Bagdá foi um grande centro para as três religiões no Oriente, de importância comparável a Toledo e Córdoba para o Ocidente.” Por enquanto, porém, os fiéis terão de esperar. “Não há condições políticas para tentar negociar”, diz Latorre.

Jornal Folha de S. Paulo
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Greve de fome contra a solidão

Em meio século, nada mudou na Turquia, onde os presos políticos continuam fazendo greve de fome, não pela liberdade, como Nazim Hikmet, mas para recuperar a dignidade. Para defender o direito de viverem juntos, uma “presença comum”

Nedim Gürsel

Condenado a uma pena pesada, Nazim Hikmet estava preso em Bursa há doze anos quando começou uma greve de fome para recuperar a liberdade
Uma velha senhora caminha em meio à multidão na ponte Galata, em Istambul. Carrega um cartaz em que se lê: “Meu filho Nazim Hikmet está fazendo greve de fome. Eu também quero morrer.” A foto foi feita em um dia de primavera, as árvores da Pointe-du-Sérail estão floridas. Seu filho, o grande poeta turco Nazim Hikmet (1902-1963), cujo centenário se comemora este ano parece cansado em outra foto do mesmo jornal, de 9 de maio de 1950. “Nazim Hikmet está fazendo greve de fome há seis dias”, diz o título em letras garrafais. E, cinqüenta anos depois, no limiar do século XXI, o sub-título parece algo insólito: “O médico da prisão diz que, em caso de perigo de morte, vai intervir1 .”

Mas o que vai fazer exatamente esse médico? Forçar o preso a comer. Condenado a uma pena pesada, em um longo processo construído nos mínimos detalhes, o poeta estava preso em Bursa, há doze anos, quando começou uma greve de fome para recuperar a liberdade. E ainda teve forças suficientes para escrever o poema “O quinto dia de uma greve de fome”, dedicado a seus amigos franceses, entre eles os poetas Tristan Tzara e Aragon, que lutavam por sua libertação: “Meus irmãos / Se não conseguir dizer da melhor forma / O que tenho para lhes dizer / Queiram me perdoar / Estou tonto, uma ligeira tontura / Não de raki2 / De fome, um pouquinho.”

A morte lenta, ao vivo
Atualmente, os jornalistas estão mais presentes nos lugares do drama e podemos assistir à morte lenta, ao vivo, por meio das telas da televisão
Em meio século, portanto, nada mudou na Turquia, onde os presos políticos continuam fazendo greve de fome, não pela liberdade, como Nazim Hikmet, mas para recuperar a dignidade. Para defender o direito de viverem juntos, essa “presença comum” de que fala René Char. E isso não é recente. Em Le Dernier tramway, coletânea de contos do exílio, escrevi essas linhas há mais de vinte anos: “Mas meu corpo não pode sofrer com os corpos esqueléticos das crianças africanas, como não pode sofrer com os destes jovens, da minha geração, mortos nas prisões turcas devido às greves de fome. A televisão não pôde mostrar estes últimos, pois não havia jornalistas autorizados a entrar nos locais, mas a morte deles se espalha em mim como uma mancha quente, coagulada pelo sol do meu país.”

Atualmente, os jornalistas estão mais presentes nos lugares do drama e podemos assistir à morte lenta, ao vivo, por meio das telas da televisão. Ou rápida, conforme as circunstâncias. Há cerca de um ano, no dia 19 de dezembro, por paradoxal que possa parecer, a “Operação pela volta à vida”, conduzida pelas forças da ordem contra os presos em greve de fome, terminou com dezenas de mortes, algumas entre os policiais. Estranho título para uma ação durante a qual a vida humana nunca foi levada em consideração. Senão, como explicar esse resultado desastroso, a utilização de armamento pesado, helicópteros e buldôzeres para demolir os muros?

“Jejum para a morte”
Jamais esquecerei o rosto de uma jovem, como uma máscara da morte, gritando “Nos queimaram vivos”, antes de ser levada para o hospital
Jamais esquecerei o rosto de uma jovem, como uma máscara de morte, gritando, antes de ser levada para o hospital: “Nos queimaram vivos”. Ou então o de Fidan, uma outra jovem – cujo nome significa “broto” em turco – que morreu queimada na primavera da vida. É claro que poderão dizer-me que eram presos pertencentes a uma organização de extrema-esquerda, que se imolaram pelo fogo por ordem de seu chefe. É bastante provável. Mas é o Estado que deve ser responsável pela segurança dos presos, e não as organizações terroristas. Além do mais, a declaração cínica do primeiro-ministro Bülent Ecevit ainda ressoa em meus ouvidos: “O Estado faz esta operação a fim de libertar os terroristas de seu próprio terrorismo.” Que seja. Mas qual é a situação atual?

Apesar da transferência dos sobreviventes para outras prisões, onde pagam suas penas em celas, a agitação continua. Os jovens prisioneiros morrem em meio à indiferença, enquanto as greves de fome se alastram. No bairro de Küçükarmatlu, em Istambul, sobre as colinas que rodeiam o Bósforo, parentes dos presos também começam a fazer greves de fome. O termo usado em turco para essa ação me parece, aliás, muito significativo. Eles dizem “ölûm orucu”, referindo-se ao jejum do Ramadã, termo de conotação religiosa que significa “jejum para a morte”. Decidem morrer de fome para não morrer de solidão.

A raiva criativa do poeta
No fundo, trata-se de uma oposição à reforma penitenciária que prevê a passagem do sistema E para o sistema F. Em outras palavras, deixar os dormitórios e passar para celas isoladas, onde os presos políticos correm o risco de ficar expostos à tirania dos carcereiros. A Turquia, candidata à União Européia, precisa adaptar-se, logicamente, às normas européias que exigem, claramente, uma reforma do sistema penitenciário. Mas as autoridades não podem aproveitar-se dessa reforma para aniquilar a personalidade dos presos e destruir sua integridade física.

Os jovens prisioneiros morrem em meio à indiferença, enquanto as greves se alastram. Parentes de presos políticos também começam a fazer greves de fome
Atualmente assistimos à agonia de jovens presos e, ao mesmo tempo, à agonia de um sistema que tinha defeitos, é verdade, mas também algumas qualidades. Foi graças ao antigo sistema, chamado E – que significa a detenção nos dormitórios – que Nazim Hikmet, ex-preso político, escreveu sua obra-prima Paisagens humanas do meu país. Eis como seu companheiro de dormitório, Orhan Kemal, futuro romancista que aprendeu muito com Nazim, descreve essa espécie de raiva criativa que tomava o poeta e que só se podia realizar no antigo sistema, que permitia uma vida comunitária na prisão: “Nazim trabalha nas Paisagens: lá embaixo, perto do muro principal, ele vai e vem, fazendo gestos com as mãos, com os braços, dá viradas bruscas, murmura, rosna.”

A morte e a esperança
Outro observador desse período foi o pequeno camponês Balaban, a quem Nazim ensinou a pintar – sempre graças ao antigo sistema, defendido pelos presos de hoje com risco de vida – e que se tornou o melhor pintor turco da realidade camponesa: “O poeta entrava em cada dormitório da prisão; ouvia cada prisioneiro, que lhe contava o que quisesse. Pedia rapidamente, ao primeiro que aparecesse, papel e algo para escrever e, depois, rabiscava coisas.”

Não sou especialista em sistema penitenciário, mas tenho um coração. E uma caneta também. Não posso ficar em silêncio diante de tal desastre, cuja responsabilidade cabe ao Estado, que não soube resolver o conflito, e aos chefes de uma organização política prontos a sacrificar seus companheiros em nome de uma causa que já passou há muito tempo.

Acabo de saber que os presos que fazem greve de fome e seus parentes, que estão prestes a morrer em Küçükarmutlu, onde é tão bom viver (sei disso porque a casa da minha família fica justamente no rio em frente, à beira das Águas Doces da Ásia!), propõem uma solução: “Abertura de três portas”. Trata-se de permitir aos presos comunicarem-se entre si, em sua célula, em grupos de três pessoas. Mas o ministro da Justiça, Hikmet Sami Turk, recusa. Vem ao meu espírito o título em francês das cartas da prisão de Nazim Hikmet: “Esperança para fazê-los chorar de raiva”. O desejo de morte será vencido pela esperança? Infelizmente, não podemos responder afirmativamente a essa pergunta enquanto durar o conflito. E ele ainda pode durar muito, se o Estado não fizer concessões.

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1 - N.R.: Desde outubro de 2000, várias centenas de presos políticos turcos pertencentes a organizações de extrema-esquerda fazem greve de fome contra sua transferência para pequenas celas onde ficariam isolados. Em dezembro de 2000, a polícia invadiu essas prisões para quebrar o movimento e transferir os presos, numa ação que resultou em trinta mortos entre os presos e dois entre os policiais. Mas a greve continuou. Oitenta presos já morreram de fome desde o início do movimento.
2 - N.T.: O raki é um tipo de bebida alcoólica turca, similar ao absinto.

Jornal Le Monde
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