Arquivo de Dezembro de 2007

Quem foi Jesus?

Ele não nasceu em Belém, teve vários irmãos e sua morte passou quase despercebida no Império Romano. A história e a arqueologia desencavam o Jesus histórico ¿ um homem bem diferente daquele descrito nos evangelhos

Rodrigo Cavalcante

Foi um dia de trabalho como outro qualquer. Depois da festa da Páscoa do ano 3790 do calendário hebraico, a maioria dos camponeses seguia sua rotina normalmente, assim como os coletores de impostos, os pescadores, os soldados romanos, os carpinteiros, os sacerdotes e as prostitutas. Em Jerusalém, contudo, algumas pessoas deviam estar comentando o tumulto do dia anterior, que resultou na morte de um judeu. Nada que não estivessem acostumados a ouvir. Naquele tempo, a cidade já era palco de conflitos político-religiosos sangrentos e quase sempre algum agitador morria por incitar a rebelião contra os romanos, que governavam a região com o apoio da elite judaica do templo de Jerusalém. Dessa vez, o fuzuê foi causado por um judeu camponês chamado Yeshua, que foi aprisionado e condenado à morte por ter desafiado o poder romano e o templo de Jerusalém em plena Páscoa. “Se você quisesse chamar a atenção de multidões para as suas idéias, essa era a data ideal”, afirma Richard Horsley, professor de Ciências da Religião na Universidade de Massachusetts e autor do livro Bandidos, Profetas e Messias - Movimentos Populares no Tempo de Jesus. “A festa tinha um forte conteúdo político, já que comemorava a libertação dos hebreus do Egito, que agora estavam sob o domínio dos romanos.” No meio da multidão (imagine a cidade paulista de Aparecida do Norte em dia de peregrinação), pouca gente deve ter se comovido com a prisão e morte de mais um judeu agitador - a não ser um punhado de parentes e amigos pobres. Mas nem eles poderiam imaginar que a cruz em que Jesus pagou sua sentença (sim, Yeshua é Jesus em hebraico) seria, no futuro, o símbolo mais venerado do mundo. Da suntuosa Basílica de São Pedro, no Vaticano, à pequena igrejinha da Assembléia de Deus, encravada no interior da Floresta Amazônica, a cruz se tornou o símbolo de fé para mais de 2 bilhões de pessoas. Sua morte dividiu, literalmente, a história em antes e depois dele. Mas, afinal, quem foi Jesus?

Pode parecer estranho, mas para os estudiosos há pelo menos dois Jesus. O primeiro, que dispensa apresentações, é o Cristo (o ungido, em grego), cuja história contada pelos quatro evangelistas deixa claro que ele é o enviado de Deus para salvar os homens com a sua morte. Os judeus costumavam sacrificar animais como cordeiros no templo para se purificarem. Ao morrer na cruz, Cristo torna-se o símbolo do cordeiro enviado por Deus para tirar o pecado do mundo.

O outro Jesus, já citado no início da matéria, é Yeshua, o homem que morreu sem chamar muita atenção dos cidadãos do Império Romano. Além dos evangelhos - que não podem ser considerados fontes imparciais de sua vida, já que foram escritos por seus seguidores - há apenas uma menção direta a ele citada pelo historiador judeu Flávio Josefo, que escreve sobre sua morte no livro Antiguidades Judaicas, feito provavelmente no fim do século 1. Para os pesquisadores, essa falta de citações seria um indício da pouca repercussão que Jesus teria tido para os cronistas da época. “Se existisse um grande jornal em Israel no tempo de Jesus, sua morte provavelmente seria noticiada no caderno de polícia, e não na primeira página”, diz John Dominic Crossan, professor de Estudos Religiosos da Universidade De Paulo, em Chicago, Estados Unidos. Autor dos livros O Jesus Histórico - A Vida de um Camponês Judeu no Mediterrâneo e Excavating Jesus - Beneath The Stones, Behind The Texts (”Escavando Jesus - Por Baixo das Pedras, Por Trás dos Textos”, inédito no Brasil), ele diz que a escassez de fontes diretas sobre Jesus não significa que seja impossível recompor a vida do homem de carne e osso que morreu em Jerusalém. “A interpretação correta dos textos históricos e a arqueologia estão trazendo surpreendentes revelações sobre o Jesus histórico.”

Uma dessas revelações pode estar contida numa pequena caixa de pedra cor de areia encontrada em Jerusalém com uma inscrição feita em língua e caligrafia de 2 mil anos atrás. Ao lê-la em aramaico, da direita para esquerda, como a maioria das línguas semitas, está escrito inicialmente “Yaákov, bar Yosef”, ou seja: Tiago, filho de José. E continua, mais desgastada, “akhui di…” irmão de “Yeshua”, Jesus. Isso mesmo. Segundo André Lemaire, especialista em inscrições do período bíblico da Universidade de Sorbonne, em Paris, há uma alta probabilidade de que a caixa tenha sido usada como ossário de Tiago (São Tiago, para os católicos), o mesmo do Novo Testamento, já que a possibilidade que a associação entre esses três nomes seja uma referência a outras pessoas é estatisticamente baixa.

Apesar de não ter sido encontrada num sítio arqueológico (como foi comprada por um colecionador num antiquário, as chances de fraude seriam maiores), ela poderá se tornar a primeira evidência material associada a Jesus. “Caso fique provado que a inscrição é verdadeira, a descoberta levantará uma série de novas questões”, diz Crossan. “Vamos ter que nos perguntar, por exemplo, se termos como irmão e pai significam exatamente o mesmo que hoje: pai e irmão de sangue.

Apesar de o Evangelho de São Mateus, no capítulo 13, versículos 55-56, citar: “Porventura não é este o filho do carpinteiro? Não se chamava sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago, e José, e Simão, e Judas: e suas irmãs não vivem elas todas entre nós?”, a Igreja sempre pregou aos fiéis que irmão e irmã, nesse caso, significavam apenas primos ou um forte vínculo de amizade e companheirismo entre os que faziam parte de um grupo.

“Como esse é um campo cheio de fé e paixões, a busca do Jesus histórico sempre foi um desafio”, diz André Chevitarese, professor de História Antiga da Universidade Federal do Rio de Janeiro e um dos maiores especialistas sobre o tema no país. “Enquanto um religioso conservador ressalta a dimensão espiritual de Jesus, um teólogo da libertação vai buscar nele sua atuação como revolucionário político.”

Mesmo que a diversidade de visões de Jesus seja proporcional ao número de igrejas, correntes e seitas que existem em seu nome, historiadores e arqueólogos estão conseguindo reconstituir como era o mundo em que ele vivia: um retrato fascinante da política, da religião, da economia, da arquitetura e dos hábitos cotidianos que devem ter moldado a vida de um homem bem diferente daquele retratado pelas imagens renascentistas que povoam a imaginação da maioria dos cristãos. A começar pela aparência. Baseados no estudo de crânios de judeus que viviam na região na época, os pesquisadores dizem que a fisionomia de Jesus deveria ser mais próxima da de um árabe moderno, como na imagem que abre essa reportagem. “Em tempos turbulentos como o de hoje, ele provavelmente teria dificuldades de passar pela alfândega de um aeroporto europeu ou americano”, diz Chevitarese.

Um presépio diferente
Imagine que nesse Natal você pudesse entrar numa máquina do tempo para visitar Jesus recém-nascido (quem conhece o argumento da série Operação Cavalo de Tróia, do escritor J. J. Benítez, sabe que a idéia não é original). Se isso fosse possível, os arqueólogos garantem que você teria algumas surpresas. A primeira delas teria relação com a data da viagem. Ao programar a engenhoca para o ano zero, provavelmente você iria se deparar com um menino de quatro anos. É que Jesus deve ter nascido no ano 4 a.C. - o calendário romano-cristão teria um erro de cerca de quatro anos. Tampouco adiantaria chegar em Belém no dia 25 de dezembro. Em primeiro lugar, porque ninguém sabe o dia e a data em que Jesus nasceu. O mês de dezembro foi fixado pela Igreja no ano 525 porque era a mesma época das festas pagãs de Roma. E o segundo problema, ainda mais grave, é que provavelmente Jesus não nasceu em Belém. “Há quase um consenso entre os historiadores de que Jesus nasceu em Nazaré”, diz o padre Jaldemir Vitório, do Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus, em Belo Horizonte. Então por que o evangelho de Mateus diz que o nascimento foi em Belém? Vitório explica que o texto segue o gênero literário conhecido por midrash. Basicamente, o midrash é um forma de contar a história da vida de alguém usando como pano de fundo a biografia de outras personalidades históricas. No caso de Jesus, ele explica, a referência a Belém é feita para associá-lo ao rei Davi do Antigo Testamento - que, segundo a tradição, teria nascido lá. Mas as associações não parariam por aí. Assim como o nascimento em Belém, a terrível execução de recém-nascidos ordenada por Herodes e a fuga de Maria e José para o Egito também teriam sido uma “licença poética do texto”, dessa vez para simbolizar que Jesus é o novo Moisés - já que essa narrativa é bem semelhante ao que se contava da vida do patriarca bíblico. “Isso não foi uma criação maquiavélica para glorificar Jesus, era apenas o estilo literário da época”, diz Vitório. Até os simpáticos três reis magos estariam ali para representar que Jesus foi reconhecido como messias por povos do Oriente - e quase nenhum historiador defende que, de fato, eles tenham existido. (Apesar dos muitos fiéis que visitam todos os anos a Catedral de Colônia, na Alemanha, que acreditam que os restos mortais dos três estão lá.)

Mas se essas passagens são representações e não fatos históricos, o que um viajante no tempo encontraria de semelhante às imagens estampadas nos cartões de Natal? “Jesus deve ter nascido numa casa de camponeses extremamente pobres, cercada de animais”, diz Gabriele Cornelli, professor de Teologia e Filosofia da Universidade Metodista de São Paulo. “Cresceu numa das regiões mais pobres e turbulentas daquela época.”

Um judeu pobre da Galiléia
Um vilarejo de trabalhadores rurais numa encosta de serra com, no máximo, 400 habitantes. Segundo os arqueólogos, essa é a cidade de Nazaré no tempo em que Jesus nasceu. De tão pequena, a vila praticamente não é citada nos documentos da época. “As escavações arqueológicas na cidade não encontraram nenhuma sinagoga, fortificação, basílica, banho público, ruas pavimentadas, enfim, nenhuma construção importante que datasse do tempo de Jesus”, diz o historiador John Dominic Crossan. “Em compensação, foram encontradas pequenas prensas de azeitonas para a fabricação de azeite, prensas de uvas para vinho, cisternas de água, porões para armazenar grãos e outros indícios de uma vida agrária de subsistência.”

A casa em que Jesus cresceu devia ser como a de todo camponês pobre da época: chão de terra batida, teto de estrados de madeiras cobertos com palha e muros de pedras empilhadas com barro, lama ou até uma mistura de esterco e palha para fazer o isolamento. Ao entrar na casa, talvez alguém lhe oferecesse água tirada de uma cisterna servida num dos muitos vasilhames de pedra e barro achados pelos arqueólogos na região - a água era preciosa, já que a chuva era escassa. Para comer, a cesta básica era formada por pão, azeitona, azeite e vinho e um pouco de lentilhas refogadas com alguns outros vegetais sazonais, servido às vezes no pão (que você deve conhecer como pão árabe). Com sorte, nozes, frutas, queijo e iogurte eram complementos bem-vindos, além de um peixe salgado vez ou outra. Segundo os arqueólogos, a carne era rara, reservada apenas para celebrações especiais. A maioria dos esqueletos encontrados na região mostra deficiência de ferro e proteínas e sinais de artrite grave. “A mortalidade infantil era alta e a expectativa de vida girava em torno dos 30 anos”, diz Crossan. “Só raros privilegiados alcançavam 50 ou 60 anos de idade.”

Para garantir o sustento, as famílias precisavam ter um número razoável de filhos que ajudassem no duro trabalho no campo. “É pouco provável que Jesus tenha sido filho único”, diz o historiador Gabriele Cornelli. “Assim como um menino de roça que vive em comunidades pobres no interior, ele deve ter crescido cercado de irmãos.” Mesmo pesquisadores católicos como o padre John P. Meier, autor dos quatro volumes da série Um Judeu Marginal, sobre o Jesus histórico, dizem que é praticamente insustentável o argumento de que, no Novo Testamento, “irmão” poderia significar “primo”. “A palavra grega adelphos, usada para designar irmão, deve ter sido usada no sentido literal”, diz Meier. Sua conclusão reforça ainda mais as chances de que o ossário atribuído a São Tiago, irmão de Jesus, possa ser verdadeiro.

E quanto à profissão de Jesus? O historiador Gabriele Cornelli diz que, baseado nas parábolas atribuídas a ele, é muito provável que Jesus tenha sido um camponês. “Sua pregação está repleta de imagens detalhadas da vida agrícola”, diz Cornelli. “É quase impossível que esse grau de detalhamento possa ter surgido de alguém que não lidava dia a dia no campo.” Mas José não era carpinteiro e seu filho não o teria seguido na profissão?

O professor de Ciências da Religião Pedro Lima Vasconcellos, da PUC de São Paulo, diz que a palavra carpinteiro (tekton) usada no Novo Testamento pode significar também “biscateiro”, no sentido de uma classe inferior que faz serviços manuais. “É o que chamamos atualmente do trabalhador pau-pra-toda-obra.” Uma das hipóteses levantadas pelos arqueólogos é de que Jesus pode ter trabalhado no campo e, eventualmente, atuado em algumas obras de construção civil. Os arqueólogos descobriram que, a apenas 6 quilômetros de Nazaré, uma série de novos edifícios em estilo greco-romano estava sendo construída na cidade de Séforis. “É possível que Jesus tenha trabalhado lá”, diz Vasconcellos. A construção era apenas uma das várias obras que estavam sendo erguidas por Herodes Antipas, governante da Galiléia no tempo de Jesus. Além das intervenções em Séforis, os edifícios construídos nas cidades de Tiberíades e Cesaréia Marítima (nome dado em homenagem ao imperador Júlio César) tornavam a região cada vez mais parecida com as cidades romanas. “O problema é que todas essas obras representavam um fardo a mais aos camponeses pobres, que já pagavam muitos impostos”, diz o historiador Richard Horsley. “Não é à toa que surgiram nesse período vários movimentos populares de contestação ao poder romano, do qual Jesus era mais um representante.”

Messias de um novo reino
Se o rei Herodes Antipas precisasse se candidatar para se manter no poder na Galiléia no tempo de Jesus, seus assessores de marketing o venderiam como o “realizador de grandes obras” e seu slogan provavelmente seria “Herodes faz”. No seu governo (4 a.C. a 39 d.C.), enormes palácios foram construídos na Galiléia, muitos deles para abrigar a elite judaica que dominava a imensa massa de judeus pobres na região. O esquema de poder na Galiléia, assim como em outras regiões de Israel, funcionava num sistema de clientela: para reinar, Herodes contava com o apoio dos romanos. Estes, por sua vez, exigiam em troca que ele recolhesse impostos para Roma e se responsabilizasse pela repressão de qualquer movimento de contestação ao poder imperial. Sob essas condições, Roma permitia que os judeus cultuassem o seu Deus único, Javé, em vez de celebrarem as várias divindades do panteão romano. Estando bom para ambas as partes, o equilíbrio de poder era mantido. “O problema é que apenas os romanos e uma elite sacerdotal judaica eram beneficiados”, diz o professor André Chevitarese. “A maioria dos judeus tinha que trabalhar cada vez mais para sustentar essas duas classes.”

Ninguém sabe ao certo até que ponto Jesus começou a sua pregação motivado por esse sentimento de injustiça social. Até mesmo porque a tentativa de retratá-lo como um revolucionário político (e não um líder espiritual) parece fazer pouco sentido considerando-se a época em que ele viveu. “Essa distinção de uma consciência política separada da espiritualidade é uma invenção dos pensadores ocidentais modernos, como Maquiavel”, diz Chevitarese. “Para os movimentos apocalípticos de então, o modelo de sociedade perfeita é o Reino de Deus, algo que para essas pessoas estava prestes a se concretizar.”

Os estudiosos dizem que há uma dificuldade natural de quem vive nas sociedades modernas de entender a verdadeira dimensão da palavra apocalipse na época de Jesus. “Algumas pessoas hoje entendem o apocalipse como um futuro distante, o fim dos tempos que chegará somente quando todos estiverem mortos”, diz Paulo Nogueira, professor de Literatura do Cristianismo Primitivo da Universidade Metodista de São Paulo. “Na época de Jesus, os movimentos apocalípticos viam esse futuro como algo para daqui a alguns dias, quando o Reino dos Céus fosse se sobrepor ao Reino da Terra.” Enfim, era preciso se preparar logo.

Para os judeus pobres, estava claro que o tal reino terrestre prestes a ruir era aquele formado por Roma, pelos governantes locais e pela elite judaica representada pelo suntuoso Templo de Jerusalém. E o que as pessoas deveriam fazer para se preparar para o advento do novo reino? Um bom começo era ouvir as profecias de um dos mais conhecidos pregadores da época: João Batista. “Naquele tempo, a figura de João Batista era mais importante do que a de Jesus, que somente se tornou uma ameaça a Roma depois da crucificação”, diz o historiador John Dominic Crossan. Depois de ouvir suas profecias, as pessoas podiam se preparar para a chegada da nova era submetendo-se a um ritual de imersão na água: o famoso batismo de João Batista. “Ao entrar e sair da água, as pessoas sentiam-se como se estivessem deixando para trás os pecados e renascendo purificadas para o novo reino de Deus”, diz Nogueira. (Não é à toa que algumas igrejas até hoje só batizam o fiel quando ele já é adulto - e tem consciência da força do ato como marca da conversão.)

A maioria dos historiadores acredita que João Batista, de fato, deve ter batizado Jesus adulto. “Afinal, não deve ter sido fácil para os evangelistas explicar por que o messias foi batizado, já que, como enviado de Deus, ele é que devia batizar os outros”, diz o historiador André Chevitarese. Mas ele explica que o evangelho logo “resolve” a polêmica ao narrar que, na hora do batismo, a pomba do Espírito Santo aparece sobre Jesus e João Batista diz que ele é que deveria ser batizado.

“As fontes que estão nos ajudando a compreender esses movimentos apocalípticos são os manuscritos do mar Morto”, diz Paulo Nogueira. Descobertos em 1947, os manuscritos foram encontrados no convento de Qumran, uma espécie de condomínio de cavernas habitado pelos essênios, grupos de judeus que viviam como monges seguindo uma rígida disciplina de orações e uma dieta rigorosa. “Apesar de os manuscritos não revelarem nada diretamente sobre Jesus, eles mostram como os cultos apocalípticos já estavam disseminados nessa época”, diz Nogueira. Há até quem defenda a hipótese de que Jesus tenha tido uma ligação direta com os essênios.

Do que os crentes e céticos parecem não ter dúvida é que o batismo de João Batista foi um divisor de águas na vida de Jesus. A partir dali, ele teria se retirado para o deserto para depois dar início à trajetória de sermões e milagres que o levaria à condenação na cruz.

Milagres subversivos
Se os historiadores e arqueólogos estão conseguindo reconstituir o ambiente físico em que Jesus viveu e até têm bons palpites sobre a veracidade de certas passagens da sua vida, tudo muda da água para o vinho quando o assunto são os milagres. Afinal, como um pesquisador pode estudar objetivamente feitos considerados sobrenaturais?

Uma moda no passado (que até hoje tem muitos adeptos nos Estados Unidos) foi a tentativa de explicar a origem de alguns desses fenômenos como tendo causas naturais. Você provavelmente conhece algumas dessas teses: a estrela de Davi no nascimento de Jesus era na verdade o cometa Halley, Lázaro foi ressuscitado por Cristo porque estava em coma, não havia morrido biologicamente…

“Explicações desse tipo conseguem às vezes ser mais absurdas do que o próprio milagre”, diz André Chevitarese. Para ele, em vez de querer esclarecer racionalmente esses fenômenos, o historiador deve manter a mente aberta para entender como as comunidades da época encaravam esses feitos, estudando, por exemplo, qual a noção que se tinha então da doença e da cura.

Os pesquisadores sabem que no tempo de Jesus a doença estava associada à impureza. “A grande preocupação da lei judaica, já prevista em textos como o Levítico, era demarcar o que é puro e o que não é puro”, diz o professor Manuel Fernando Queiroz dos Santos Júnior, da Faculdade de Saúde Pública da USP. “E as doenças de pele, as mais visíveis, logo eram associadas à impureza espiritual.” Especialista em hanseníase, o professor diz que o que a Bíblia chama de lepra servia para nomear, na verdade, todas as doenças de pele na época, de eczemas a micoses. “Traduzir a palavra sara’at na Bíblia para o termo lepra ou hanseníase é errado”, diz o professor. “Quem lê a Bíblia sem atentar para esse detalhe tem a impressão errônea de que existia uma verdadeira epidemia da doença na época de Jesus.” O pior é que, graças a esse erro, os leprosos foram segregados por centenas de anos como portadores de uma doença impura.

Segundo os historiadores, essa associação perversa entre doença e impureza (ou pecado) terminava favorecendo a elite judaica do Templo de Jerusalém. “Afinal, para se curar, o doente tinha que pagar mais taxas e oferecer mais sacrifícios no templo”, diz Crossan. “Isso gerava para o doente um ciclo interminável de sofrimento e dívidas.” O templo era comandado por uma casta sacerdotal que detinha o monopólio de conduzir os fiéis aos rituais de purificação - que, na época, incluíam o sacrifício de animais como cordeiros (quem não tinha posses para tanto, podia sacrificar uma pomba branca comprada no mercado do templo).

Imagine agora o mal-estar que os sacerdotes deviam sentir ao ouvir relatos de que, com um simples toque, um judeu pobre da Galiléia andava curando doentes, declarando, com esse gesto, que a pessoa estava livre dos pecados. “Hoje é difícil de entender como um ato desses era radicalmente subversivo”, diz Richard Horsley. Ele diz que Jesus não estava só. “Uma série de outros curandeiros também usavam esse ritual para desafiar o poder do templo naquela época”, diz o historiador.

Como Jesus conseguia curar as pessoas? Poucos pesquisadores se arriscam a dar palpites. O certo é que, ao se misturar com doentes, mendigos, gentis, prostitutas, enfim, toda classe de pessoas consideradas impuras, Jesus conseguiu incomodar a maioria dos grupos judaicos da época. Entre esses incomodados, se incluíam os fariseus, membros de uma escola religiosa que insistia na completa separação entre os judeus e os gentios (fariseu quer dizer “o que está separado”). Eram provavelmente hostis a Jesus e não deviam entender por que ele comia na mesma mesa dos “impuros” - se você leu os evangelhos, deve ter notado como os primeiros cristãos retratam os fariseus de forma pouco lisonjeira. Jesus provavelmente também não agradou saduceus, pequeno grupo judeu que não acreditava na imortalidade da alma nem nos anjos, muito menos nos milagres de Jesus. “Seu estilo de ensinar e de viver desagradou muitos judeus, que o colocaram à margem do judaísmo palestino”, diz o padre e historiador John P. Meier, no seu livro Um Judeu Marginal. “Mesmo sendo um galileu rústico que nunca freqüentou uma escola de escribas, ele ousou desafiar as doutrinas da época”, diz Meier.

A escolaridade é outro ponto polêmico sobre a vida de Jesus - já que, para muitos historiadores, ele provavelmente era analfabeto. “Somente uma ínfima parcela da população que trabalhava para os governantes sabia ler e escrever”, diz Richard Horsley. “Não acredito que ele fizesse parte dessa parcela.” Então, como explicar o trecho do evangelho que o retrata lendo numa sinagoga? “A palavra ler no evangelho pode significar recitar”, diz Horsley. “O fato de Jesus não saber ler nem escrever não significa que ele não conhecesse os textos e as tradições judaicas.” Juan Arias, correspondente do jornal El País no Brasil e autor do livro Jesus, Esse Grande Desconhecido, discorda. “Apesar de ter vindo de uma família muito pobre, é difícil imaginar que as discussões polêmicas que ele teve com seus contemporâneos relatadas nos evangelhos possam ter sido feitas por um homem que não sabia ler”, diz Arias.

Mesmo que não tenha sido analfabeto, o judeu pobre da Galiléia não deve ter chamado a atenção da elite intelectual da época. A não ser, talvez, pelos tumultos que deve ter causado quando resolveu pregar diretamente em Jerusalém, chegando a derrubar barracas dos mercadores que comerciavam no templo. O resto da história você conhece: para os romanos, apenas mais um agitador crucificado, nada anormal em meio a centenas de outras crucificações. Para um punhado de seguidores, o símbolo de uma nova fé que mudaria o rumo da humanidade.
De Jesus a Cristo
Imagine Nova York como o centro espiritual do mundo muçulmano. Ou mesmo a Basílica de São Pedro, no Vaticano, transformada numa mesquita dedicada ao profeta Maomé. Improvável, não? “Foi algo dessas proporções que aconteceu com a expansão do cristianismo”, diz André Chevitarese. “Em cerca de três séculos, a crença de uns poucos seguidores se tornou a religião oficial do Império Romano, o mesmo império que havia ordenado a sua morte.”

Como isso ocorreu?

Para os cristãos, a resposta é simples: Jesus ressuscitou. Essa seria a evidência de que o homem crucificado não era, afinal, apenas um homem e sim Cristo, o messias esperado pelo povo judeu. Mas como entender o evento da ressurreição? “Nenhum outro tipo de milagre se choca mais com a mentalidade cética da moderna cultura ocidental”, diz o padre John P. Meier. Para ele, ficar especulando sobre o que aconteceu com o corpo de Jesus é, do ponto de vista da história, uma tarefa inútil. “A essência da crença na ressurreição é que, ao morrer, Jesus ascendeu em sua humanidade à presença de Deus”, diz Meier. “Descobrir qual a ligação dessa humanidade com o seu corpo físico não é matéria dos historiadores.”

Mas se a ressurreição é uma questão de fé e não de história, os estudiosos estão pelo menos conseguindo esclarecer detalhes sobre o terrível momento que a teria antecedido: a crucificação. Tudo começou em 1968, quando foi descoberto na região de Giv’at há-Mivtar, no nordeste de Jerusalém, o único esqueleto de um crucificado conhecido pela ciência. Depois que os ossos foram analisados pelos pesquisadores do Departamento de Antiguidades de Israel e da Escola de Medicina Hadassah, da Universidade Hebraica de Jerusalém, conclui-se que os braços não foram pregados, mas amarrados na travessa da cruz. Já as pernas do condenado foram colocadas em ambos os lados da base vertical de madeira, com pregos segurando o calcanhar em cada lado. Não havia evidências de que suas pernas haviam sido quebradas depois da crucificação para apressar a sua morte. “O curioso é que uma revelação surpreendente sobre a morte na cruz não surgiu da descoberta de esqueletos, mas da falta deles”, diz Pedro Lima Vasconcellos, da PUC de São Paulo. “Afinal, se centenas e até milhares de pessoas foram crucificadas na época, por que apenas um esqueleto foi encontrado?”

O historiador John Dominic Crossan diz que há uma razão terrível para isso: “As três penas romanas supremas eram morrer na cruz, no fogo e entregue às feras”, diz Crossan. “O que as tornava supremas não era a sua crueldade desumana ou sua desonra pública, mas o fato de que não podia restar nada para ser enterrado no final.” Apesar de ser fácil de entender por que não sobraria nada de um cadáver consumido pelo fogo ou devorado por leões, ele diz que a maioria das pessoas esquece que, no caso da crucificação, o corpo era exposto aos abutres e aos cães comedores de carniça. Como um ato de terrorismo de Estado, a extinção do cadáver também tinha como vantagem para as autoridades evitar que o túmulo do condenado se tornasse local de culto e resistência.

Mesmo que ninguém saiba o que ocorreu após a morte de Jesus (alguns historiadores acham razoável que a família e os amigos pudessem ter reivindicado o seu corpo), o fato é que seus seguidores passaram a relatar suas aparições. “Não se deve subestimar o poder dessas experiências em nome do racionalismo”, diz Paulo Nogueira, professor da Universidade Metodista de São Paulo. “Afinal, as pessoas tinham visões, entravam em transe. É uma simplificação, por exemplo, ficar tentando encontrar razões sociológicas para explicar a experiência mística responsável pela conversão de Paulo.”

Nascido na cidade de Tarso, na atual Turquia, Paulo (São Paulo, para os católicos) talvez seja o homem que, sozinho, fez mais pela expansão do cristianismo que qualquer outro dos seguidores de Jesus. O curioso é que, antes de se converter, ele era uma espécie de agente policial encarregado de perseguir os cristãos. “Sua conversão foi tão surpreendente na época como seria hoje ver um embaixador israelense se converter à causa palestina”, diz Monica Selvatici, doutoranda em História da Unicamp e especialista em Paulo. “Suas idéias terminaram afastando o cristianismo do judaísmo da época.”

Ela explica que, depois da morte de Jesus, não havia uma distinção clara entre judeus e cristãos. “Os seguidores de Jesus eram apenas judeus que defendiam a tese de que ele era o messias, ao contrário daqueles que não o reconheciam como tal”, diz Mônica. “Eram uma ala do judaísmo, assim como o PT tem alas que não representam as idéias predominantes do partido.” Como falava grego muito bem e foi um dos cristãos que mais viajaram, ele discordava dos judeus-cristãos que defendiam a tese de que os gentios convertidos precisavam seguir rigorosamente a lei judaica, incluindo aí a necessidade da circuncisão - não vista com bons olhos pelos estrangeiros. Em suas cartas (epístolas), são famosas as polêmicas travadas com Tiago (São Tiago, para os católicos), suposto irmão de Jesus, que teria sido um defensor de um cristianismo mais fiel ao judaísmo.

Mas a idéia central de Paulo, resumida na frase de que “o verdadeiro cristão se justifica pela fé e não pelos trabalhos da lei”, prevaleceu. Os gentios podiam agora se converter sem tantos empecilhos e o cristianismo ganhou novas fronteiras. “Paulo ajudou a tirar de Jesus a imagem de um messias para o povo hebreu, transformando-o num salvador de todos os povos”, diz Mônica. “Jesus deixou de ser um fenômeno regional para ganhar um caráter universal.”

A influência de Paulo é tão grande, que há historiadores que chegam a dizer que o cristianismo como o conhecemos é, na verdade, um “paulismo”. “Isso é um exagero”, diz Paula Fredriksen, professora de estudos religiosos da Universidade de Boston e autora do livro From Jesus To Christ (”De Jesus a Cristo”, inédito no Brasil). “Com ou sem Paulo, já havia um movimento forte entre os judeus cristãos de que os gentios não precisavam seguir estritamente as leis para serem salvos”, diz Paula.

Mas o que levaria um cidadão romano a trocar os seus deuses para cultuar um judeu da Galiléia? (Lembrando que, na época da morte de Jesus, um cidadão romano sabia tão pouco sobre as várias correntes do judaísmo como um ocidental hoje sabe sobre as linhas do Islã.) “O cristianismo trouxe uma idéia de salvação da alma que não existia na religião romana”, diz Pedro Paulo Funari, professor de história e arqueologia da Unicamp. “A religião romana tinha um aspecto formal, público, pouco ligado às inquietações da vida depois da morte”. Mas Funari explica que, apesar do formalismo das crenças romanas, a idéia de salvação da alma já estava difundida na população pela influência de algumas religiões orientais, como o culto a Íris e Osíris, do Egito. “Isso deve ter facilitado ainda mais a expansão do cristianismo em Roma”, diz Funari.

O ápice dessa expansão se deu quando o imperador romano Constantino converteu-se ao cristianismo, no século 4. Ninguém sabe ao certo se ele foi motivado mais por dilemas espirituais do que razões políticas (afinal, ao se converter, ele pôde contar com o apoio dos cristãos e com a estrutura de um Igreja já bem organizada.)

O certo é que alguns séculos depois, a cruz, imagem brutal da sua crucificação, foi usada para invocar a guerra e a paz entre os povos. E Yeshua, o judeu pobre que morreu praticamente despercebido durante a Páscoa em Jerusalém, já era conhecido por boa parte do mundo como o Cristo. O mesmo Cristo cujo nascimento passou a ser celebrado todos os anos, no mês de dezembro, no dia de Natal.

Revista Superinteressante
http://super.abril.com.br/super2/home/

Comentários

Os bancos são mais iguais

Emir Sader

O lema fundamental da dominação capitalista e imperialista continua sendo “Civilização ou barbárie”. Civilização para os dominantes e barbárie para todos os outros. Civilização para os brancos, ocidentais, protestantes ou católicos, europeus ocidentais ou estadunidenses. Mas é a cor da pele a bandeira da sua superioridade.
Não por acaso, Hollywood, a maior fábrica de racismo do mundo, promove a criminalização das outras “raças”, sejam índios dos EUA, os africanos, árabes, japoneses, chineses, coreanos, mexicanos ou qualquer outra variante dos não-brancos. O único filme produzido nos EUA contra a potência que promoveu a maior “limpeza étnica” da história da humanidade, a Alemanha, foi realizado por um não-estadunidense, Charles Chaplin, com “O grande ditador”. O clima contra ele ficou tão insuportável que precisou sair às pressas dos EUA, antes mesmo do lançamento do filme.
Hollywood narrou a história do massacre das populações indígenas nos EUA como uma saga da “civilização” resgatando palmo a palmo o território dominado por “peles vermelhas” “traiçoeiros”. Indômitos cowboys, chamados de “mocinhos”, enfrentando os “bandidos” das populações originárias.
Recorrentemente, renascem as teorias e as afirmações racistas sobre a suposta inferioridade intelectual dos negros. Bem antes das declarações do prêmio Nobel sobre o tema, surgiu a “teoria dos sinos”, que repetia a mesma ladainha de sempre. Os negros teriam características que os tornam excelentes para as atividades atléticas. Chega-se ao requinte de elaborar mapas da origem dos africanos, pois certas regiões estariam mais adaptadas para a produção de atletas para corridas de longas distâncias, pela resistência, enquanto, outras, produzem os de curta distância, pela rapidez. Este reconhecimento do desempenho atlético é uma espécie de “compensação” à inferioridade intelectual que se lhes quer impor. Um autor que vive recomendando as melhores leituras para todo o mundo, não hesitou em perguntar onde estaria o Shakespeare africano. Um modo de dizer que só está disposto a rever sua tese sobre a inferioridade intelectual e cultural dos africanos quando estes forem capazes de apresentar conquistas intelectuais similares às européias.
A colonização e a escravidão, que parecem fenômenos passageiros, que não deixaram marcas na trajetória nem dos que se enriqueceram, nem dos que se empobreceram com elas, nunca aparecem nos seus preciosos “cálculos” . Colonização e escravidão foram formas de recrutar uma raça inferior para trabalhar para a raça superior, em nome do “progresso” e do “desenvolvimento”. Colonização e escravidão transformam-se em categorias atemporais, que beneficiaram a “humanidade”, a “civilização”, apropriada pelos brancos ocidentais cristãos.
Esses raciocínios pseudo-científicos procuram desqualificar as outras etnias e combater algumas conquistas políticas, como é o caso especialmente das cotas. Afinal, de que adianta promover os negros, já que sua inferioridade é genética!
Quando esta concepção ganhou a Califórnia, o resultado foi arrasador para os negros, pois os brancos e os de origem asiática se repartiram entre si as vagas das universidades e os negros foram praticamente excluídos. É uma manobra intelectual para justificar a imposição da hegemonia das idéias dominantes na sociedade mercantilizada dos EUA: os pobres – entre eles os negros - não são produzidos pela estrutura econômica e social capitalista, eles são os “perdedores” de um jogo onde tiveram as mesmas oportunidades que os outros, mas foram vencidos no concurso meritocrático da excelência, da produtividade, do custo-benefício.
Todos são iguais, mas os brancos são os mais iguais, os mais “civilizados”, os mais inteligentes – e mais ricos, mais poderosos, mais beligerantes, os mais agressivos, os mais discriminadores, os mais exploradores.

Carta Maior

Comentários

Retrospectiva da economia brasileira em 2007

Guilherme Delgado

21-Dez-2007

As editorias, refletindo a natural curiosidade do leitor, estão ávidas neste final de ano por um balanço retrospectivo da economia brasileira, de preferência descomplicado e sem muito “economês”. As perguntas implícitas seriam mais ou menos estas: como estamos (quem?) indo na economia e como se explica a situação presente. A perspectiva para um futuro próximo (2008) ficaria para um outro artigo, embora algo já se possa deduzir da análise da conjuntura atual.

Com relação à primeira pergunta pode-se dizer que caminhamos melhor no rumo do crescimento da produção e do emprego em 2007, agora que metas de Produto Interno Bruto (PIB) são perseguidas pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) - enquanto que no primeiro governo Lula somente havia a meta de estabilização monetária do Banco Central (meta de inflação), como uma espécie de “samba de uma nota só” da política macroeconômica. Mas aqui é preciso fazer um pequeno esclarecimento: o emprego formal vem crescendo fortemente desde 2001, com taxas de incremento substancialmente mais altas que as do PIB.

Há um processo de formalização da força de trabalho (que já dura sete anos), em geral de baixos salários e precárias condições de trabalho (até 3 salários mínimos), que este ano incrementará mais de 2 milhões de novos segurados ao INSS. Mas este é um resultado até certo ponto inesperado do PAC, que também não contempla metas de emprego, seja formal, seja informal. Este assunto (metas de emprego) também não entrou na agenda do Fórum Nacional da Previdência, encerrado em outubro de 2007. Provavelmente o crescimento econômico continuado sustentará este movimento, como o fez em 2007 (o PIB deverá crescer a 5% ao ano e o emprego formal a taxa ligeiramente superior).

Tudo indica que há outras causalidades, que não cabem aqui tratar, que de certa forma explicam este ciclo virtuoso de recuperação do emprego formal. O lado não tão virtuoso desse ciclo são as condições de trabalho dos novos segurados, que ao que tudo indica padecem de processos de super-exploração, medidas pelas condições de morbidade que se observam nas perícias do INSS.

Um outro lado importante da análise retrospectiva é o chamado setor externo da economia, cuja síntese se expressa pela chamada “conta corrente” com o exterior. Aqui, os resultados de 2007 significam clara sinalização de luz amarela. Deve cair o superávit comercial em 3 bilhões de dólares a menos daquilo que foi no ano passado (em números redondos, US$ 38 bilhões em 2007 contra US$ 41 bilhões em 2006), enquanto que as remessas para o exterior de juros, lucros, dividendos, assistência técnica, “outros serviços”, etc, devem se elevar. Isto pode significar que em muito pouco tempo a nossa conta corrente com o exterior passaria à situação deficitária. Esta situação foi revertida em 2003, depois do país acumular pesadíssimos passivos externos durante os governos FHC, principalmente no primeiro governo, quando o regime cambial favorecia o déficit externo.

O Brasil reverteu a situação externa, mas o fez sustentado basicamente pela expansão das exportações de bens primários. Deixou de depender de dívida externa para fechar seu balanço de pagamentos e hoje se jacta de financiar a dívida externa norte-americana, aplicando suas caras reservas (financiadas por títulos a juros da dívida interna) em títulos baratos do Tesouro norte-americano, que apresentaram juros reais negativos em 2007 se considerarmos que a desvalorização do dólar face as demais moedas-fortes superou em muito a taxa básica de juros norte americana (ao redor de 4% ao ano).

Outro campo em que os “equilíbrios precários” se alteraram é na economia fiscal e desta para sua relação com a dívida interna. A Emenda Constitucional do Fundo Social de Emergência, que data de 1994 (quando o presidente era Itamar Franco e o seu ministro da Economia era FHC), sendo sucessivamente prorrogada com outros nomes (primeiro Fundos de Estabilização Fiscal e por último Desvinculação de Receitas da União - DRU) promovia e ainda promove a retirada de 20% de todos os tributos vinculados a alguma aplicação pré-estabelecida, devolvendo-os ao caixa geral do Tesouro para “livre” aplicação (leia-se recursos para  gerar superávit-primário, que pagam juros da dívida interna).

Posteriormente, por pressão das circunstâncias e ação concertada pelo então ministro da Saúde Adib Jatene, cria-se o IPMF (Imposto Provisório Sobre a Movimentação Financeira), posteriormente convertido em Contribuição – a CPMF - e prorrogada sucessivamente até 31 de dezembro de 2007, sendo destinada originalmente à área da Seguridade Social.

Este rememorar dos arranjos tributários recentes é para lembrar o leitor de que neles havia um certo equilíbrio precário. Para usar uma expressão antiga, completamente apropriada, era um acordo provisório de economia política. De um lado a DRU, extraindo recursos da área social para o superávit primário. De outro, a CPMF, devolvendo parte desses recursos (pois ela própria também é taxada pela DRU) para o Orçamento da Seguridade Social.

O mentor desse equilíbrio precário - o ex-presidente Fernando Henrique - resolveu liderar um processo do tipo “puxar a escada”: derrotou a CPMF no Senado. Agora, o governo procura no escuro os recursos da Seguridade Social para 2008 e, de tesoura em punho, prenuncia cortes de recursos em todas as áreas, exceto uma. Os recursos do superávit primário dependem da aprovação da Emenda da DRU, que também vence no último dia de 2007. Parecem ser os únicos sagrados, para os a quais não há divergência governo-oposição e praticamente nenhuma análise isenta da grande mídia.

Finalmente, os recursos para investimento em energia, que em quase nada dependem do orçamento fiscal e da Seguridade, devem continuar bancados pela Petrobras, BNDES, empresas do setor elétrico e parcerias público-privadas recém vitoriosas no leilão das hidroelétrica do Rio Madeira.

Em síntese, o ano de 2007 mostra um crescimento do PIB e do emprego formal (no entorno dos 5% ao ano), mas revela sinais preocupantes de precarização das condições de trabalho. Mostra ainda um setor externo com sinal amarelo, que poderá ir a vermelho se houver recessão nos Estados Unidos. No setor doméstico, a manobra da extinção da CPMF e a manutenção da DRU sinalizam um péssimo estilo da nossa elite para resolver os seus dilemas: privatizam-se benefícios e socializam-se perdas.

Guilherme Costa Delgado é doutor em economia pela UNICAMP e consultor da Comissão Brasileira de Justiça e Paz. Tecnico do IPEA.

 

Correio da Cidadania

Comentários

O amor perdido pelos trabalhistas

Como o novo primeiro-ministro britânico perdeu o rumo

George Parker

Erros e infortúnios deixaram Gordon Brown parecendo uma figura muito menor, mas comparações com o governo fracassado de John Major podem ser prematuras.

Gordon Brown era um caso de raiva impotente, com olhar vazio à frente, punhos cerrados, rosto lívido de fúria. Atrás dele nos bancos verdes de couro da Câmara dos Comuns, fileiras de parlamentares trabalhistas desanimados olhavam para baixo. Isto raramente aconteceu antes: o novo primeiro-ministro britânico tinha se tornado objeto de ridículo.

Após cinco meses no cargo, uma série extraordinária de erros e eventos o deixaram diminuído, em vez da figura dominante de meados do ano, que estava confiante o suficiente para contemplar uma fácil eleição.

Brown costuma provocar de forma alternada medo e admiração, ódio e respeito. Mas nesta semana, na cruel arena de Westminster, era quase possível sentir compaixão por um primeiro-ministro acuado.

“As pessoas não estão perguntando com razão se ele está à altura do cargo?” rosnou David Cameron, o líder conservador da oposição, diante do primeiro-ministro. Então veio o habitualmente gentil Vince Cable, o líder em exercício dos democratas liberais, ponderando de forma devastadora a transformação de Brown “de Stalin a Mr. Bean”.

“Inacreditáveis” foi a primeira palavra usada por muitos parlamentares trabalhistas para descrever os eventos que calaram Brown. O número de trabalhadores migrantes no Reino Unido foi contado de forma errada, a crise do Northern Rock viu a primeira corrida a um banco britânico desde os tempos vitorianos; um funcionário público perdeu os dados pessoais de 25 milhões de requerentes do subsídio infantil.

E agora há a revelação de que os trabalhistas aceitaram doações ilegais de um empresário controverso que declarou diferentes nomes, idades e estado civil. David Abrahams deu dinheiro por meio de terceiros, em uma violação das leis introduzidas pelos próprios trabalhistas para tornar o financiamento dos partidos mais transparente.

Raramente a posição de um líder político se deteriorou tão rapidamente. No início de outubro, o ex-chanceler de ferro do erário planejava uma eleição tranqüila. No final de novembro, uma pesquisa apontou os trabalhistas com 13 pontos atrás dos conservadores, a maior desvantagem desde o auge de Margaret Thatcher, em 1988. Como Brown chegou a esta situação e -mais importante- como ele pode sair dela?
Os problemas de Brown podem ser rastreados até o momento na manhã de 5 de outubro em que Stan Greenberg, o consultor americano de pesquisas para os trabalhistas, abriu seu laptop e deu ao primeiro-ministro seu veredicto sobre o provável resultado das eleições antecipadas no final do ano. “Ele disse que o primeiro-ministro venceria, mas que sua maioria ficaria entre 40 e 20″, disse um dos assessores de Brown.

Dado que Brown já contava com uma maioria de 66 e não precisava realizar uma eleição até 2010, o assunto estava resolvido. No dia seguinte o primeiro-ministro confirmou que a eleição prevista para 1º de novembro estava descartada; Brown precisava de mais tempo para estabelecer sua “visão de mudança” no Reino Unido.

Tal decisão transformou a política britânica. Um partido trabalhista colocado em ritmo eleitoral febril pelos jovens assessores de Brown ficou esvaziado. A lua-de-mel de Brown, que vinha desde que sucedeu Tony Blair em junho, tinha acabado.

Os conservadores de David Cameron, por outro lado, foram rejuvenescidos. Uma semana antes, a equipe de Brown alegava que Cameron estava liquidado e que os conservadores seriam “esmagados” na eleição iminente.

O brilhantismo político do verão dourado do primeiro-ministro desapareceu rapidamente. À medida que o outono se transformou em inverno, a reputação arduamente estabelecida por Brown de líder honesto, competente e sem distorção dos fatos de um “governo de todos os talentos” foi sendo minada semana a semana.

As pessoas começaram a se perguntar quando ouviriam as mudanças prometidas por Brown. Mas, como o primeiro-ministro explicou nesta semana, elas já ouviram. É um programa pragmático que inclui mais casas, ensino pós-16 anos, reformas na saúde e grandes projetos de infra-estrutura como ampliações de aeroportos e prováveis usinas nucleares.

Os críticos de Brown alegam que a lista de políticas foi uma imitação pálida da agenda de Tony Blair, despojada de parte do entusiasmo do ex-primeiro-ministro no uso do setor privado para promover reforma no setor público. “É isto o que estávamos esperando?”, perguntou Cable.

Os parlamentares trabalhistas estão perguntando se Brown conta com a habilidade e a equipe para ressuscitar o partido para uma quarta vitória eleitoral sucessiva. “Até esta semana eu considerava a situação recuperável, mas agora não tenho certeza”, reconheceu um importante parlamentar trabalhista. Perguntas são feitas sobre a dependência de Brown de um círculo interno de conselheiros de confiança -conhecidos como “os três mosqueteiros”- para planejar sua escapada.

Ed Balls, Ed Miliband e Douglas Alexander ascenderam de consultores não oficiais a ministros do Gabinete sob Brown. Todos em seus 30 ou 40 anos, eles participam das teleconferências matinais para discussão de táticas e estratégia com o primeiro-ministro. A influência deles os torna alvos de suspeita e inveja.

“Adolescentes”, murmurou outro parlamentar trabalhista veterano. O fato de todos os três estarem envolvidos no incitar da febre eleitoral de outono -e na previsão da morte política iminente de David Cameron- fez com que alguns questionassem se Brown precisa de novos assessores. Um alto funcionário a chamou de “governo por panelinha”.

Colegas pediram que Brown ampliasse seu círculo. Um ministro do Gabinete disse: “Se a intenção é ter um governo de todos os talentos, é preciso usar todos os talentos e perícia ao seu dispor”.

Mas vários ministros apontam que mesmo existindo um círculo interno, Brown faz mais consultas do que Blair costumava. Reuniões políticas para discussão da estratégia geral também são mais comuns. “As discussões também são mais inclusivas e abertas”, disseram os ministros.

Então ele conta com a equipe ministerial para ajudá-lo a sair do problema? Ao buscar rotular-se como uma mudança em relação a Tony Blair, o novo primeiro-ministro montou um novo Gabinete, com algumas figuras relativamente não testadas em cargos importantes.

Alistair Darling, o chanceler do erário (ministro das finanças), é experiente mas foi arranhado pelo caso do Northern Rock, pela perda dos registros do subsídio infantil e sua decisão altamente questionada de aumentar o imposto sobre os ganhos de capital para os empreendedores.

Jacqui Smith, a ministra do Interior, é virtualmente invisível. David Miliband, o ministro das Relações Exteriores, não é uma celebridade e entrou em choque com Brown depois que o gabinete do primeiro-ministro diluiu parte de um discurso que Miliband faria sobre a Europa. Nenhum deles proporciona a Brown muita proteção no flanco político.

Cada vez mais ele recorre aos “barbas grisalhas”, um grupo sem barba de sobreviventes experientes da era Blair. Jack Straw, o ministro da Justiça (e ex-ministro das Relações Exteriores), se transformou em um vice-primeiro-ministro virtual. Geoff Hoon, o articulador dos trabalhistas, é cada vez mais usado por Brown como bombeiro na mídia.

Kenneth Clarke, o ex-chanceler do erário conservador, alega que a relativa ausência de figuras de peso em cargos importantes não é casual. “Gordon Brown é maníaco por controle -ele não deseja colegas poderosos.” Clarke, um estudante de Brown por muitos anos, acrescentou: “Ele parece cansado, desconcertado e não está tomando as decisões necessárias para lidar com estes problemas”.

As críticas à abordagem do primeiro-ministro às grandes decisões o persegue a anos. Sua decisão de entregar a política de taxa de juros ao Banco da Inglaterra em 1997 mostra que ele é capaz de ação ousada, mas como chanceler ele agonizava por dias ou semanas em torno das escolhas políticas. “Gordon tem um problema com decisões”, reconheceu um assessor de Downing Street.

Seu governo gerou um acúmulo de análises, cobrindo de tudo, de supercassinos, combate ao crime e enchentes. No final decisões terão que ser tomadas.

A hesitação doméstica é refletida na menor visibilidade do Reino Unido no cenário mundial -um descanso, talvez, para aqueles eleitores cansados das aventuras de Tony Blair no exterior. Mas a discrição de Brown coincide a ascensão de Angela Merkel, a chanceler alemã, e particularmente Nicolas Sarkozy, o presidente francês.

A frieza estudada de Brown com o presidente Bush em uma visita a Washington foi notada, contrastando com o abraçar entusiástico de Sarkozy ao presidente. Funcionários do governo Bush disseram que o trabalho com o Reino Unido em segurança e outras questões práticas continua, mas um acrescentou: “Na esfera política, mal existe”.

O mesmo é observado pelos diplomatas de países liberais da União Européia em Bruxelas, que estão pedindo para que Brown se envolva na Europa para agir como um contrapeso para os impulsos protecionistas de Sarkozy. “Nós ainda não atingimos um momento crítico, mas ele chegará”, alertou um.

Mas com seu governo afundado em problemas em casa, o foco de Brown permanecerá voltado aos assuntos domésticos. Ele conquistou sua reputação ao presidir uma década de sucesso econômico no Tesouro e acredita que sua habilidade de mapear “um trajeto de estabilidade em momentos turbulentos” continua sendo seu maior trunfo.

Recentes pesquisas mostram que a vantagem de Brown na área econômica está evaporando depois do Northern Rock e da perda dos dados pessoais mas -como ele aponta- ninguém perdeu dinheiro (ainda) em conseqüência de ambos os casos. Ele espera uma piora da economia, mas diz que o público sabe em quem pode confiar quando os tempos se tornam difíceis.

O primeiro-ministro zomba quando comparações são feitas entre seu governo e o de John Major, o infeliz líder conservador dos anos 90, cujos problemas começaram com a humilhação econômica do descarte da libra esterlina do mecanismo de taxa de câmbio da Europa.

As comparações não são exatas: Major enfrentou a dupla formidável Blair-Brown na oposição -claramente um governo a espera- enquanto David Cameron ainda não foi testado e as políticas de seu partido ainda estão em desenvolvimento.

Enquanto o Novo Trabalhismo na oposição apresentava uma vantagem sustentada nas pesquisas de opinião, as atuais são mais voláteis: Cameron estava 10 pontos atrás nas pesquisas em setembro. Isto não sugere que a população já leva a sério os conservadores.

Mas comparações com Major são inevitáveis. Será Gordon Brown apenas uma nota de rodapé para a década de governo de Tony Blair, assim como Major foi uma coda para a era Thatcher? Ou como colocou o líder conservador Michael Gove (em uma analogia a James Bond), será que Brown é o Roger Moore para o Sean Connery de Blair?

A política britânica raramente foi mais febril. A maioria dos parlamentares trabalhistas está olhando a longo prazo, com a expectativa aumentando de que Brown aguardará até o último momento possível em 2010 antes de fazer campanha. “Nós perdemos a oportunidade de mostrar que somos ‘a mudança’”, disse um estrategista trabalhista. “Agora temos que provar que somos competentes.”

Diferente de Major, Brown preside um partido unido, fora um grupo de blairitas radicais que alegam que ele está recuando na reforma do funcionalismo público. Por ora, a maioria dos parlamentares trabalhistas está preparada para dizer que uma fase extraordinária de má sorte -mais do que erros básicos- foi a principal responsável pela sua situação ruim.

“Um senso trágico de infortúnio em grande escala”, é como colocou Bob Marshall-Andrews, o parlamentar trabalhista independente. Mas como apontou um estrategista trabalhista, os primeiros-ministros só têm direito a uma dose limitada de má sorte antes da credibilidade deles ser arruinada. “Napoleão disse que precisava de generais com sorte”, ele disse. “Nós precisamos de um primeiro-ministro sortudo.”

Financial Times
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/fintimes/

Comentários

Ortodoxos versus desenvolvimentistas

Jurandyr O. Negrão

Indicado às pressas, em março de 2006, para o lugar até então ocupado por Antonio Palocci, Guido Mantega foi confirmado no comando do Ministério da Fazenda ao iniciar-se o segundo mandato de Lula. O ministro manteve de início perfil mais discreto, coerente com o fato de ter assumido a pasta em pleno período eleitoral. Já em 2007 adotou tom um pouco mais incisivo em defesa de posições “desenvolvimentistas”, marcando um contraste com seu antecessor (que, ao assumir o papel de líder e porta-voz da “domesticação” do discurso econômico do PT e ao evitar críticas à atuação do Banco Central, caíra nas graças do sistema financeiro). Já no Banco Central Henrique Meirelles foi confirmado como presidente, e a diretoria passou por mudanças que pouco modificaram seu perfil extremamente ortodoxo.

O reforço da retórica “desenvolvimentista” não se limitou ao ministro da Fazenda. Outros integrantes do governo, como os novos presidentes do BNDES e do IPEA (este último indicado mais recentemente), engrossaram esse coro que defende que o Estado implemente algumas políticas de caráter mais intervencionista.

Conforme se apontou em colunas anteriores, essa disputa em torno da política econômica reflete, mais do que divergências ideológicas entre integrantes do governo (bem mais discretas do que num passado não tão remoto), disputas substantivas em torno dos fundos públicos, num contexto em que a penúria das contas públicas diminuiu.

Os “desenvolvimentistas” defendem usar os recursos para finalidades como o gasto social, a recuperação salarial do funcionalismo e a política industrial. Já os setores de inclinação mais liberal enfatizam a aceleração do corte de impostos como o caminho a seguir – mas vários grupos de interesse empresarial não deixaram de defender o reforço de gastos que atendam a seus interesses imediatos, como no caso de investimentos públicos em infra-estrutura de transporte. Daí a recepção “mista” ao anúncio, no início do ano, do programa de investimentos públicos embutido no chamado PAC: alguns analistas criticaram o “estatismo” redivivo, outros saudaram a tentativa de remover gargalos de infra-estrutura.

A execução do PAC em seu primeiro ano foi frustrante – reflexo, entre outros fatores, do fato de que décadas de prioridade ao corte de gastos e paralisia operacional corroeram a eficácia do setor público para investir.

Foi a percepção de que a menor penúria fiscal aumenta o espaço para o governo federal fazer gastos que podem favorecer seu cacife eleitoral o que animou a oposição a derrubar a CPMF. Embora a resposta do governo à perda dos R$ 40 bilhões da CPMF ainda não seja conhecida, não resta dúvida que o saldo final será uma redução da sua margem de manobra para anunciar “bondades” (sejam investimentos e aumentos salariais, sejam reduções de impostos).

Outro foco do embate entre “desenvolvimentistas” e liberais foi a taxa de câmbio. O primeiro grupo vem manifestando há tempos preocupação com o efeito deletério da apreciação progressiva do real sobre o setor industrial (que perde espaço seja no mercado externo, seja no interno, ante a enxurrada de importações). Já os liberais minimizam esse risco, apontam a apreciação como “natural” (como se a taxa de juros praticada no Brasil, ainda altíssima para os padrões internacionais, nada tivesse com isso) e enfatizam as vantagens do real forte: maior facilidade para as empresas modernizarem suas plantas por meio da importação de máquinas, bem como para derrubar a inflação mais rapidamente.

Esse último ponto remete à definição da meta de inflação para 2009, raro aspecto em que o Ministério da Fazenda pareceu vencer uma disputa com o BC. Este defendia diminuir a meta de 4,5% (taxa determinada para 2007 e 2008) para 4%, mas a decisão, anunciada em junho, foi a manutenção da meta (reflexo da preocupação de não dificultar ainda mais uma redução mais rápida da taxa de juros e, portanto, um alívio mais rápido da pressão de valorização do real).

Com relação ao câmbio, sua evolução ao longo de 2007 frustrou a corrente “desenvolvimentista”: em comparação com 2006, a cotação média do dólar caiu 13% – ou seja, o real se valorizou nessa proporção. Levando em conta, além do dólar, as moedas de outros países que são importantes no comércio exterior do Brasil (assim como a diferença entre a nossa inflação e a desses parceiros), o real terminou o ano valendo cerca de 20% a mais do que valia no começo do ano, e quase 40% a mais do que no final de 2004.

Em suma, a despeito das queixas dos “desenvolvimentistas”, o populismo cambial teve continuidade em 2007.

Jurandyr O. Negrão é economista

Comentários (1)

Luandino quebra seu silêncio

Convidado da Balada Literária, angolano diz que recusou Prêmio Camões pois se achava “escritor morto’

Autor angolano prepara uma trilogia, reconhece a influência de Guimarães Rosa em sua obra e cita ainda ecos de Jorge Amado

DA REPORTAGEM LOCAL

Pode-se considerar singular a participação do angolano José Luandino Vieira, no dia 18, na Balada Literária. O autor do recém-lançado “A Cidade e a Infância” (Companhia das Letras; R$ 36, 136 págs.), livro de contos dos anos 1950, é um tanto recluso. Segundo sua assessoria, o escritor vive num mosteiro, de onde redigiu à mão as respostas à entrevista da Folha abaixo. Essas foram depois transcritas e enviadas por e-mail à reportagem.
Foi o mesmo Luandino que, em 2006, recusou 100 mil euros (cerca de R$ 254 mil) do Prêmio Camões, alegando “motivos íntimos e pessoais”.
À Folha, Luandino disse que declinou a honraria por se considerar, à época, um “escritor morto”. “Por que haveria de ser premiado um escritor em silêncio, que não entregava a seus leitores um simples escrito havia 35 anos? Não me parece que pudesse receber o prêmio sabendo o elevado número e a qualidade de obras de tantos autores de língua portuguesa.” Leia trechos da entrevista. (EDUARDO SIMÕES)

FOLHA - Logo após a recusa do prêmio o senhor anunciou uma trilogia, “De Rios Velhos e Guerrilheiros”…
LUANDINO VIEIRA- A decisão de uma trilogia foi tomada talvez para quebrar um pouco mais cedo aquele silêncio. Originalmente estava pensado como um único romance, uma longa travessia da vida, em fatos e memórias de um guerrilheiro na luta e libertação de Angola. O que seria o meu modo de homenagear natureza e povo que a levaram a cabo com sucesso. O segundo volume está quase pronto. O terceiro, em fase de escrita. Porém sempre regressa, manhosamente, a tentação de os unificar como estava guardado em minha cabeça.
FOLHA - Em “A Cidade e a Infância”, a vida nos musseques (favelas) de Luanda está em destaque. Após 50 anos, o retrato permanece atual?
VIEIRA- O que é atual, e infelizmente multiplicado, é essa presença na cidade: seus musseques. Quaisquer que sejam os novos nomes que se lhe atribuam, subúrbios, favela etc. A presença da pobreza, da miséria, da vida em condições precárias de habitação, saúde, higiene. Enfim, os padrões mínimos que o desenvolvimento do mundo já permitiria. E não são ainda usufruto de quem tem de viver naquelas condições e tanto contribuiu, com sua vida e seu trabalho, para esse desenvolvimento. Não é justo.

FOLHA - Qual o papel da tradição oral em sua obra?
LUANDINO VIEIRA- É fulcral. Comecei a escrever também por ouvir contar muitas histórias nos serões, à porta das casas, na infância e na adolescência. Depois, na escola, em nossas brincadeiras era o intercâmbio de histórias. Tudo isso marcou o meu trabalho de escritor, em opções estilísticas, em formas de comunicar, obrigando-me a incorporar, consciente e inconscientemente, na linguagem literária, traços da oralidade. Creio que essa presença ficará sempre no que escrever. Narro mais do que escrevo.

FOLHA- A identidade angolana ainda é central em sua obra?
VIEIRA- Num país jovem como Angola, um Estado que não tem meio século, como deixar de ser? É para seus cidadãos. Em permanente construção, diálogo e confronto com outras identidades, tudo ampliado pela inclusão em espaços regionais, globais. Felizmente é assunto de presença permanente, mesmo que em conflitos e contradições que, à primeira vista, podem parecer perda de tempo e energia, mas que a necessidade histórica justifica.

FOLHA - Seus livros foram em parte escritos na prisão, quando lutou pela independência de Angola. O que representava escrevê-los?
VIEIRA- Representavam um modo de resistência à desagregação psicológica e espiritual. E um modo de sobrevivência espiritual, trabalhando e retrabalhando o material acumulado na memória. Porque nos impunham um viver em ambiente de desertificação intelectual. Para mim, também de esclarecimento pessoal, avaliação e revisão permanentes dos motivos de minha presença naquelas prisões e participação no movimento de libertação no meu país. Nunca esqueci que era branco, instruído, classe média.

FOLHA - O senhor identifica interseções entre sua obra e a de Guimarães Rosa, em especial o caráter lúdico e reinvenção de linguagem de “Luuanda” e “Primeiras Estórias”.
VIEIRA- Com Guimarães Rosa aprendi muito. O caráter lúdico, menos. Mas e sobretudo a liberdade para criar uma linguagem literária a partir de materiais de outras linguagens. Aprendi que essa liberdade tem sempre em si o conhecimento, e não a ignorância, da língua em que escreve. E que implica ainda uma grande responsabilidade que só pode ser exclusivamente assumida por quem escreve. Não adiantam defesas acadêmicas ou outras. Seu resultado é sempre um risco, uma aposta. Mas foi isso que o bom professor Guimarães Rosa ensinou a um mau aluno.
Com Jorge Amado aprendi também, aprendi a ver o mundo dos oprimidos, dos explorados. Ele me ajudou em minha formação pessoal e literária com a teimosa procura ou presença da beleza, da poesia, mesmo lá onde ela não pode morar, em meio a condições subumanas de existência. E outros como Lins do Rego, Erico e Clarice. Tantos outros que li da literatura mundial e de todos sou tributário. Não só de língua portuguesa. Sou escritor porque primeiro, fui leitor, lia tudo o que me vinha às mãos.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

Comentários

A invenção de “bairros problemáticos”

A espacialização dos problemas socias marginaliza a questão central da pobreza estrutural urbana. A periferia transcende o espaço físico e esbarra na mentalidade segregacionista e na manutenção de uma sociedade “moderna” de castas

Sylvie Tissot

“Cités -guetos”, [1] “bairros problemáticos” ou outros “bairros de exílio” são, há vinte anos, objeto de reportagens dramáticas e às vezes sensacionalistas [2].Mas essa é a única coisa que deve nos instigar ou inquietar? Porque essas categorias territoriais, surgidas na França de 1985-1995, não são um simples “reflexo”, mesmo que deformado, da realidade social; não são apenas exageros ou mentiras. O que está em questão é também, e principalmente, uma nova maneira de olhar e de refletir sobre a pobreza urbana, que, paradoxalmente, mesmo insistindo sobre a gravidade do “problema”, tem como característica principal deixar de lado a origem da dominação social, econômica ou racista.

Como chegamos a essa situação? Para compreender, é preciso desviar o olhar – pelo menos por um instante – desses eternos objetos de investigação, os “bairros problemáticos” e seus moradores, e se interessar pela maneira como o “problema das periferias” foi definido nos anos 1985-1995. Foi nessa época que uma nova política pública foi implementada nos 500 bairros de habitação social. Esse foco teve um duplo efeito. Os dispositivos da chamada política do município permitiram a renovação de inúmeras cités, oferecendo também um acompanhamento realizado localmente por profissionais do desenvolvimento social. Ao mesmo tempo, os financiamentos suplementares obtidos e gastos jamais tomaram a forma de uma redistribuição social e espacial das riquezas que poderia refrear o fosso das desigualdades econômicas. Apesar dos inúmeros apelos aos “Planos Marshal para as periferias”, eles foram limitados. Por outro lado, na mesma época, cortes significativos estavam sendo infligidos às políticas de direito comum, em matéria de educação ou de saúde, nesses mesmos bairros populares.

Além do que, o foco nos “bairros problemáticos” atinge apenas alguns problemas. O diagnóstico sobre o qual a política municipal se apoiou não se limitou às estruturas; a reabilitação das cités degradadas foi conduzida com base em uma nova palavra de ordem: a participação dos moradores. Foram desenvolvidos então, e pela iniciativa dos agentes locais, reuniões de deliberação conjunta sobre a reabilitação das cités, piqueniques coletivos e conselhos de bairros, em que estes podem expressar suas reivindicações para que elas realmente sejam levadas em consideração.

Tais medidas são necessárias. Mas, enquanto elas eram priorizadas, eram relegadas a um segundo plano as realidades econômicas, como o desemprego que os moradores desses bairros, em sua maior parte operários e/ou imigrantes, sofrem diretamente. Os “bairros” chamaram a atenção dos poderes públicos, mas à custa de uma outra maneira de ver os “problemas”. As categorias territoriais, amplamente utilizadas para se pensar a pobreza, representaram um papel paradoxal, funcionando como eufemismos para designar os moradores descritos, não mais em referência ao estatuto social, mas em função de suas “origens” nacionais, culturais ou “étnicas”. Essa “etnização” da questão social (cujas raízes estão bem além da política do município) teve como efeito apresentar as raízes étnicas como sendo a única origem dos problemas – e mesmo das ameaças – para o resto da sociedade e não como um problema também para as pessoas que sofrem o racismo.

“Cidadania”, “participação dos moradores”, “projetos”, valorização da “vizinhança” e do “lugar”, “transversalidade” e “concertação” entre “parceiros”: é difícil questionar essas palavras de ordem de tão familiares que se tornaram. A questão torna-se ainda mais difícil quando esse vocabulário passa a nos parecer humanista e progressista, em um contexto político em que a retórica da insegurança, da “escória” e das “zonas do não-direito” prevalece. No entanto, desde que a participação dos moradores se tornou o remédio miraculoso para cuidar dos “males das periferias”, ela foi definida de maneira singularmente restritiva: ocultação das condições de vida material em benefício do “diálogo” e da “comunicação” entre os moradores; psicologização e, portanto, despolitização dos problemas sociais, alimentadas por uma representação do bairro como um espaço neutro e pacificador; valorização da boa vontade individual e das soluções modestas e pontuais, desvalorização concomitante do conflito e das reivindicações consideradas “políticas” demais.

Uma série de livros e outros manuais destinados aos novos profissionais do desenvolvimento social explica, por exemplo, como “transformar as reivindicações em proposições”, “os pedidos de assistência em projeto de desenvolvimento” e, sobretudo, segundo o consagrado provérbio, ensinar os moradores a “pescar o peixe” em vez de recebê-lo. Vemos assim como a política do município participou da redefinição das políticas sociais enquanto intervenções individualizantes e “responsabilizantes”, convidando os moradores à “tomar nas mãos” as transformações necessárias.

Além disso, a virada repressiva que aconteceu a partir de 1997 não está desvinculada da maneira como o problema dos bairros foi definido de 1985 a 1995. Ela se baseia nas mesmas categorias territoriais, e parecerá bem mais legítima já que há dez anos a pobreza vem sendo apresentada mais como uma questão psicológica e local, e os indivíduos por ela afetados são convidados a transformar a si mesmos em vez de apontar os mecanismos estruturais que os condicionam.

A história dessa despolitização apresenta, porém, aspectos surpreendentes. Ela tem de fato suas raízes em um movimento contestatório particularmente poderoso. Durante a década de 1960, urbanistas, assistentes sociais, militantes e pesquisadores denunciaram a atitude autoritária e tecnocrática do Estado planejador para promover, em nome do “meio ambiente”, uma ação global de reabilitação das cités, implicando as coletividades locais e funcionando com base em uma concertação maior com os moradores. Um movimento particularmente importante se desenvolveu na França, bem como em outros países europeus e americanos, contra o urbanismo de altos edifícios, de conjuntos habitacionais e auto-estradas, e contra as brutais operações de renovação dos centros das cidades.

Os princípios fundadores das políticas de habitação desde o pós-guerra (o planejamento urbano e a afirmação do Estado, representante e promotor do interesse geral) têm na década de 1970 um impulso suplementar, mesmo que a inspiração ideológica seja bem diferente, com a ascensão dos dogmas neoliberais. A profunda crise que se seguiu abriu caminho para outras formas de fazer e de pensar os problemas urbanos.

A Política do Município é o resultado desses novos movimentos reformadores, mas suas manifestações concretas só podem ser compreendidas em relação ao contexto em que ela se institucionalizou. Na década de 1980, a esquerda no poder assume posições políticas e econômicas ditas da austeridade.

Oriundos, em sua grande maioria, do meio associativo e para-público, mas também de todo o movimento crítico e contestador do pós-maio de 1968, os promotores do desenvolvimento social dos bairros ocupavam posições marginais na administração. A Política do Município, por meio da qual eles vão procurar consolidar as experiências conduzidas nos bairros de habitação social lhes oferece uma reclassificação profissional e um lugar de reconversão militante. [3] Mas isso só é possível à custa de uma adesão a um reenquadramento orçamentário e a uma redefinição das políticas sociais, concebidas não mais como políticas de redistribuição, mas como a implantação local e mínima de uma rede de assistência aos mais desfavorecidos.

O termo “bairro”, primeiramente de “habitação social” depois “de risco” e finalmente “problemático”, se impregna de conotações negativas: esses territórios são descritos como necessitando menos do desenvolvimento de uma ação autônoma do que da intervenção de terapeutas. De forma que a dimensão contestadora, muito presente no apelo à mobilização dos moradores, se dilui para dar lugar a uma ação pública racionalizada e profissionalizada, com produção estatística e desenvolvimento de uma nova função: o desenvolvimento social urbano.

Não somente os agentes da Política Municipal se submetem a esse novo quadro político, mas alguns, desejosos de reformar o Estado e não somente os bairros carentes, vão retomar por sua conta a temática da “modernização dos serviços públicos” que, nas versões liberais dominantes, se reduzem com freqüência a um simples recuo. [4] Vemos assim antigos militantes (como, por exemplo, os originários do movimento maoísta) desenvolverem uma crescente desconfiança em relação aos moradores, acusados de se comprazer com o assistencialismo e sobretudo em relação ao Estado como tal, suspeito de encorajar esse assistencialismo e de só gerar disfunções e rigidez.

Além das trajetórias dos promotores de uma ação nos “bairros” e das escolhas da esquerda governamental, os intelectuais representaram igualmente um papel chave. Nas universidades como nos ministérios, a questão das periferias suscitou uma importante literatura, que não se limita a uma análise dos problemas sociais e econômicos. Vários intelectuais desenvolveram a idéia de que esses territórios marcavam ou encarnavam o advento de uma nova questão social. Ora, essa categoria de análise, retomada pela mídia e igualmente utilizada pelos agentes da política municipal, postula que os problemas sociais colocariam em questão os “excluídos” e os “incluídos”, e estariam ligados exclusivamente à cidade. Estreitamente associados ao conceito de exclusão, alguns trabalhos vieram assim legitimar o abandono das questões ligadas ao trabalho. Esses últimos pertenceriam a um período pretensamente terminado, e seria necessário então olhar para as periferias, territórios percebidos como “separados” ou “relegados”, e ajudar as populações descritas como “esquecidas”, e não mais “exploradas” ou “dominadas”. [5]

Último elemento-chave: a atitude das municipalidades, em primeiro lugar aquelas que são administradas pela esquerda, onde se encontra a maior parte dos bairros de habitação social. Desde o final da década de 1980, essas municipalidades adotaram a temática da “exclusão” nos “bairros” e validaram sua dimensão despolitizante. A política da municipalidade trouxe confiança e, sobretudo, apareceu no início da década de 1990 como portadora de novas soluções para enquadrar a juventude popular (e assim evitar as “revoltas”). Principalmente, a “democracia local” suscitou a esperança de preencher o fosso que se criou entre a classe política e os cidadãos, e mais particularmente as classes populares. [6]

A “espacialização dos problemas sociais” [7] tem como efeito tornar invisível tudo o que a situação dos bairros mais pobres deve ao que se passa em outros universos, como nos “bairros nobres” menos mediatizados, mas também segregados, ou ainda no mundo do trabalho onde a “condição trabalhadora” se desfaz e se recompõe. [8] Mas é preciso insistir sobre as batalhas simbólicas de efeitos verdadeiramente decisivos que são travadas nos ministérios, nos escritórios de especialistas, na mídia… e mesmo entre os intelectuais, e cuja saída há várias décadas conduz ao esquecimento do impacto das políticas macroeconômicas, do questionamento da função redistributiva e protetora do Estado social ou ainda da amplitude e da impunidade das discriminações.

A espacialização dos problemas socias marginaliza a questão central da pobreza estrutural urbana. A periferia transcende o espaço físico e esbarra na mentalidade segregacionista e na manutenção de uma sociedade de castas «moderna»

————————————————–

[1] Cité: A partir da década de 1980 a palavra cité também é usada como sinônimo de periferia (N.T.)

[2] Loïc Wacquant. Parias urbains, Ghetto. Banlieues. Etat. Paris : La Découverte, 2006.

[3] Sylvie Tissot, Christophe Gaubert e Marie-Hélène Lechien. Reconversions militantes. Limoges : PULIM, 2006.

[4] Yasmine Siblot. Faire valoir ses droits au quotidien: Les services publics dans les quartiers populaires. Paris : Presses de la Fondation nationale des sciences politiques, 2006.

[5] François Dubet et Didier Lapeyronnie, Paris. Les quartiers d’exil. Seuil, 1992.

[6] Michel Koebel, Le Pouvoir local ou la Démocratie improbable. Broissieux : Editions du Croquant, 2006.

[7] Sylvie Tissot e Franck Poupeau, “La spatialisation des problèmes sociaux”, Actes de la recherche en sciences sociales. Paris, set. 2005, n° 159, pp. 5-9.

[8] Michel Pinçon e Monique Pinçon-Charlot, Grandes fortunes: dynasties familiales et formes de richesse en France. Paris : Payot, 2006; Stéphane Beaud e Michel Pialoux. Retour sur la condition ouvrière: enquête aux usines Peugeot de Sochaux. Paris : Fayard, 2005.

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

Comentários

Ar, ar!

Verissimo

O velho entrou na catedral pelos fundos, como fazia todos os domingos. Dirigiu-se para o seu nicho. Ficou sentado na laje fria, encostado na parede, encaracolando e desencaracolando uma mecha de barba branca enquanto esperava pelo sacristão. Pensando na sua vida. Pensando em nada.

O sacristão trouxe o pão e o vinho, como fazia todos os domingos. Contou que a igreja estava cheia. Ele não queria olhar? O velho deu de ombros. Cheia ou vazia, era a mesma igreja de todos os domingos. Só queria comer, fazer seu trabalho e ir embora.

- Sabe quem vai tocar aqui hoje? - perguntou o sacristão.

- Quem?

- Bach.

- Quem?!

- Bach, o grande Bach. Por isso a igreja está cheia. Você não sabe quem é Bach?

O velho deu de ombros. Nem queria saber. Só estava ali para fazer seu trabalho. O sacristão disse que tinha pena do velho. O grande Bach ia tocar no órgão da catedral de Freiberg, no grande órgão que o grande Gottfried Silbermann levara quatro anos construindo para a grande catedral de Freiberg, e o velho nem se importava? Você merece a vida insignificante que leva, disse o sacristão, recolhendo o copo tosco em que trouxera o vinho e deixando o velho no seu nicho, encaracolando e desencaracolando a barba.

Dali a pouco o velho ouviu um “Pst”. Depois uma voz que dizia:

- Você está aí?

Não respondeu. Não se moveu do seu nicho. Outro “Pst”. O velho nada. Só quando a voz cochichou mais alto, com uma ponta de apreensão, “Ei, você está aí?” é que respondeu.

- Estou.

- Pode começar! - disse a voz.

O velho dirigiu-se para os foles. Mas não começou a acioná-los. Esperou. Se alguém olhasse a sua cara naquele instante, não saberia identificar o que via. Alguma coisa estranha tomara conta das suas feições. Alguma coisa que nunca aparecera naquele rosto antes. O próprio velho não se reconheceria se visse seu rosto no espelho. Se conhecesse espelho.

- Ei! - disse a voz. - Comece!

- Você é Bach? - perguntou o velho.

- Sou.

- O grande Bach?

- Sou. Quem é você?

- Você não me conhece.

- Olhe, seja lá quem você for…

- Ninguém me conhece.

- Está bem. Mas comece a…

- Ninguém nunca me conheceu.

- Certo, certo. Mas por favor…

- Ninguém nunca vai me conhecer.

- Escute. Eu não quero ser grosseiro. Mas se você não começar a acionar esses foles agora, eu…

- Sou o anônimo mais anônimo do mundo. Meu anonimato atravessará os séculos. Nasci desconhecido e vou morrer mais desconhecido ainda.

- Depois a gente conversa sobre isso, meu caro. O importante agora é acionar esses foles!

- Eu não sou seu caro. Você nunca me viu. Você nunca me verá. O grande Bach nem sabe que eu existo.

- Neste momento você é a pessoa mais importante da minha vida! Se não acionar esses foles, eu não posso tocar!

- É isso mesmo. Sem mim, o grande Bach apertará as teclas e o grande órgão não produzirá um som. Os grandes tubos do grande órgão da grande catedral de Freiberg não emitirão um suspiro, um pum. O grande Bach dará um concerto de silêncio. Um recital de pausas!

- O que é que você quer? Mais dinheiro? Isso não é comigo. Fale com o bispo. Só o que eu preciso é de ar. Ar! Por favor, me dê ar. Eu imploro.

Ar! Ar!

O velho ouviu o murmúrio que percorria a igreja lotada. Por que o grande Bach não começava a tocar? Com quem ele estava falando? Por que parecia tão agitado?

- O que você quer em troca do ar? Reconhecimento? Eu anuncio o seu nome no fim do recital. Você pode vir até aqui, eu apresento você ao público. Eu acabo com o seu anonimato. Eu digo que sem você eu não seria nada, o órgão não seria nada. Eu beijo os seus pés. Eu…

Mas Bach não precisou continuar. O velho começara a acionar os foles, o ar subia pelos tubos. Bach pressionou as teclas, sua música encheu a grande catedral de Freiberg e o público respirou, aliviado, encantado.

Gênio, gênio.

Parece que no fim do recital Bach espiou atrás do órgão e não viu ninguém. Ou esqueceu e nem espiou. Não sei.

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

Comentários

2008 será diferente: depende de você apenas

2007 foi um ano igual aos outros:

As revistas exibiram as belas faces de garotas maquiadas, brancas, loiras com seus dentes reluzentes e suas roupas caras. Entrevistaram-nas e elas, aos sorrisos, expuseram seus planos de vida e os trabalhos vindouros.

Os jornais publicaram que as leis de mercado são maravilhosas, cai dólar e sobe Bolsa, num balanço próprio da natureza, manipulado pelos céus e inquestionável em seus fundamentos. A mensagem subliminar martela insistentemente: é assim que funciona e nada podemos fazer.

Os pappers rapidamente noticiaram que o CEO de uma grande multinacional agora mudara de camisa e comandaria outra grande emprersa. Seu contentamento expresso na foto evidenciava que se tratava de um grande negócio onde todos ganham.

As TVs, por sua vez, deram a maior contribuição ao ano de 2007 e não deixaram parecer que 2006 havia acabado. Muita gente deu o ar da graça e despejou seus adjetivos aos borbotões.

Na política caiu político, mas o sistema não muda e as regras permanecem as mesmas. Enfim, troca-se o título mas a nobreza é a mesma.

O destaque ficou diante das denúncias sobre o aquecimento global. Páginas e mais páginas foram publicadas mostrando fotos de gelo derretendo, pinguins com calor e ursos se depilando.

Mas 2008 não será igual:

Pobres e miseráveis continuam lutando brava e cotidianamente por sua sobrevivência, catando papelões e latas nas ruas, batalhando por emprego e salário, a despeito das platinadas e globais que merecem destaque.

A economia não é uma ciência exata e nem tampouco o mercado capitalista insubstituível. Uma sociedade que tenha o ser humano, suas necessidades e dignidade como foco, e não resultados de negócios, é possível e necessária.

Uma nova educação que se apegue nos saberes acumulados, que desenvolva as capacidades de nossos jovens e projete um futuro apoiado no conhecimento tornaria a escola um centro de atração e prazer. Nada de disputa em vestibulares por vaga, nada de shoppings universitários, nada de carreiras de moda.

A essência do fazer político vai, aos poucos, sendo alterada, à despeito da grande imprensa que fustiga a população permanentemente com a mensagem da desilusão e da descrença. Dinheiro e projetos políticos futuros não combinam, eleições devem priorizar propostas e debates de conjuntura, soluções para os problemas e a participação popular. Queres acabar (ou ao menos minimizar) com a corrupção? Participe da política mais intensamente e não se afaste dela.

E quanto ao meio ambiente não se preocupe: o alarmismo está a serviço do capital e dos lucros das grandes empresas. Devemos nos preocupar sim com a natureza, mas não devemos nos culpar pelo estrago que dela se promove. Os países ricos e o consumo exacerbado destroem impiedosamente o meio natural, e não você quando lava suas mãos e escova seus dentes. A natureza, para o capitalismo, é uma mercadoria que se compra e vende sem dores de consciência e muito menos preocupações ambientais. Afinal, por que tanto alarde? Se diariamente pessoas são compradas e vendidas a preço vil, por que não sê-lo um pedaço de madeira ou um bocado de minério?

Enfim ao prevalecer a crença de que os badulaques que o capitalismo nos oferece são o verdadeiro sentido da felicidade humana, 2008 será absurdamente igual a 2007, 2006, 2005, 2004…… Se você não se conforma com uma organização social que moe impiedosamente pessoas, destroe a natureza em nome do consumo e se mobiliza por uma outra sociedade e uma outra ordem econômica, 2008 promete ser diferente.

Boas festas aos lutadores incansáveis à todos aqueles que enxergam o verdadeiro foco dos problemas. Boas festas também aos que querem incoporar esta luta que se desenvolve no seu local de trabalho, na escola em que estudas, no ônibus que viaja, na roça de seu terreninho, no seu culto por dias melhores ou no quintal de sua casa.

Grande abraço.

Ricardo Alvarez
blog.controversia.com.br

Comentários (24)

Os sotaques dos sinais

Mesmo sem som, a Libras (Língua de Sinais Brasileira) também tem variações regionais, a ponto de ser possível identificar um surdo do nordeste ou do sul só com base no seu gestual

Rachel Bonino

Paola Ingles Gomes cursa a 8ª série em São Paulo numa tradicional escola municipal para deficientes auditivos no bairro da Aclimação, a Helen Keller. Como outros colegas adolescentes, costuma ir à festa junina promovida pelo Instituto Santa Teresinha, um evento que virou referência entre estudantes surdos de todo o país. Paola conversava com um amigo de outro estado numa dessas comemorações anuais quando, entre risos, sinalizou que ele era um “palhaço”, um tolo. O sinal usado indicava uma bola no nariz, assim como usam os palhaços. O rapaz não entendeu a “gíria” e coube a Paola indicar o contexto da palavra, por meio de outros sinais. Casos assim se repetem a cada interação entre deficientes auditivos de regiões diferentes, mas que adotam a mesma gramática gestual adotada pela Libras, sigla para Língua de Sinais Brasileira. Nesse universo sem sons, há gírias, regionalismos e até mesmo o que podemos chamar de sotaques.

De fato, determinados termos possuem variações maiores ou menores quando “pronunciados” por gestos. Só a palavra “abacaxi”, no sortido espectro de variantes em forma de gesto, tem ao menos cinco sinais diferentes em todo o país, com pequenas mudanças de movimentos entre os compartilhados por Bahia e Pará e os usados no Mato Grosso ou em Santa Catarina.

A Libras é reconhecida desde 2002 por lei federal. Tem como base cinco parâmetros: a direcionalidade (para onde as mãos e o rosto se dirigem), o ponto de articulação (de onde parte o movimento), a configuração de mão, o movimento propriamente dito e as expressões faciais e corporais. A variedade lingüística dos sinais ocorre, em alguns estados, quando se modifica ao menos um desses parâmetros.

- É como se houvesse uma “pronúncia” diferente. É um tipo de sotaque, só que sem som - afirma a lingüista Tanya Amara Felipe, professora da Universidade de Pernambuco (UPE) e coordenadora do Programa Nacional Interiorizando a Libras.

Dizer sem falar

Quase não existem pesquisas sobre variações regionais em Libras, mas já há base empírica para os estudiosos arriscarem configurações. A psicóloga Walkiria Duarte Raphael, uma das autoras do Dicionário Enciclopédico Ilustrado Trilíngüe da Língua de Sinais Brasileira (Edusp, 2001), diz conseguir identificar um r arrastado nos sinais dos surdos cariocas.

- Eu, lidando com os diferentes sinais, percebo que no Rio eles soletram mais arrastado, embora não exista estudo com base científica sobre o assunto. Os surdos que oralizam bem [que reproduzem com os lábios as palavras sinalizadas] acabam falando junto com o sinal. E aí também se consegue perceber o sotaque. É possível sentir claramente isso, no sinal - diz.

Embora não haja equivalência entre o verbo e os gestos de cada lugar, os sotaques dos sinais parecem acompanhar as sutilezas das falas de cada região. Para Walkiria, é possível perceber a diferença regional pela observação da mão de apoio - é comum que os surdos destros façam o movimento com a mão direita e a esquerda sirva de suporte. No Rio de Janeiro, segundo a estudiosa, a maioria dos sinais é feita com a mão de apoio fechada. Em São Paulo, a mão de apoio é aberta.

- Essa é uma diferença que notei quando estava juntando os sinais para o dicionário. Isso pode ser considerado um sotaque? Pode - diz Walkiria.

Sueli Fernandes, lingüista , assessora técnico-pedagógica do Departamento de Educação Especial da Secretaria de Estado da Educação do Paraná, concorda:

- Sejam faladas ou sinalizadas, é próprio das línguas a pluralidade de manifestações. A unidade lingüística é um mito mesmo na linguagem por sinais - analisa a profissional, que também é colaboradora do Libras é Legal, projeto de difusão da língua coordenado pela seccional do Rio Grande do Sul da Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feneis-RS).

Ambiente virtual

Coordenadora do curso a distância de Letras-Libras na Universidade Federal de Santa Catarina, único nos moldes no país, a lingüista Ronice Müller de Quadros mantém contato com 500 alunos de nove estados no ambiente virtual. Desse total, 447 são surdos. A quantidade de sinais variantes é tão grande que eles criaram um glossário para padronizar aqueles usados e criados no curso.

- Dá para identificar quem não é de Santa Catarina pela variação dos sinais, e pelas diferentes expressões faciais e corporais - conta.

Ela lembra que os falantes do Rio de Janeiro costumam usar muito o alfabeto manual na comunicação. Ou seja, no lugar do sinal, em muitas situações, o termo é soletrado. Característica que não é típica dos usuários de São Paulo, segundo Ronice.

- Os surdos do Norte do país se apóiam bastante nas expressões facial e corporal. O tamanho do sinal é maior, ocupa mais espaço. Mas essa diferença não tem implicação no significado do sinal. Manaus, por exemplo, é um dos pólos em que os estudantes apresentam mais variações. Talvez pelo fato de estarem muito distantes - analisa.

Mas nem sempre os surdos encararam com bons olhos o contato com sinais de outras regiões. No início da produção da primeira edição do dicionário, a psicóloga Walkiria Raphael - que atualmente trabalha na segunda edição do livro - percebeu que diante de um termo diferente os surdos tendiam a dizer que aquele sinal estava “errado”. Hoje, as variações são mais aceitas.

- A própria comunidade surda tinha uma rixa. Daí a resistência dos surdos que estavam nos ajudando, na elaboração do dicionário, de incluir sinais que não são usados em São Paulo. Tínhamos de convencê-los de que aquele sinal era representativo para determinada região. Havia bairrismo - diz.

Se no caso do sotaque os sinais envolvidos têm diferenças sutis de estado para estado, no caso dos regionalismos, ao contrário, as mudanças são totais. A linha de pensamento é a mesma da palavra “mandioca” com suas variações “macaxeira” e “aipim”. A mesma palavra, “abacaxi”, tem sinais muito diferentes, como os de São Paulo e os do Rio de Janeiro. Dá pra dizer então que os sinais regionais são aqueles que representam a mesma coisa só que com ponto de articulação, movimentos, direcionalidade e expressões faciais, todos diferentes.

- Quando comparamos sinais usados por jovens surdos e surdos idosos, nas associações, por exemplo, percebemos mudanças na forma e no conteúdo dos sinais, por vezes até condenados pelos mais velhos que se orgulham de utilizar “sinais puros”, sem a interferência do português, tal como o fazem as gerações atuais.

Nova geração

O atual cenário educacional é responsável por uma revolução na cultura surda. No passado, o isolamento era grande. Os sinais eram passados de geração a geração e se restringiam à representação do cotidiano, nada muito específico. Hoje, a presença no ambiente escolar tem estimulado a criação de muitos novos sinais, já que há disciplinas e termos técnicos, além de permitir o contato do estudante com os sinais de outras regiões. A estrutura que, nesse processo, mais tem sido renovada são os substantivos.

- Sinais vêm sendo criados, simultaneamente, em diferentes regiões, para atender às necessidades de conceituação e comunicação, repercutindo na ampliação do léxico. A especificidade das disciplinas e seus objetos de estudo requer um vocabulário técnico sinalizado que, enquanto não padronizado, contribui para a fomentação dos regionalismos - analisa Sueli Fernandes.

Algumas instituições de ensino que têm salas mistas - com alunos surdos e ouvintes - já estruturaram equipe para apoiar o contato entre professor e estudante durante as aulas. Sidney Feltrin é tradutor e intérprete de Libras há 12 anos. Há dois, ele trabalha com mais seis profissionais na Universidade Cidade de São Paulo (Unicid), que tem sete alunos surdos.

- Todos os sinais criados em sala de aula são encaminhados à Feneis para que sejam disseminados e adotados nas demais universidades do país, criando assim um padrão - conta.

Sinais de guetos

Além da linguagem mais técnica e específica, a escola ou faculdade coloca o deficiente auditivo em contato com outros grupos que não a própria família e os colegas. Só esse fator é responsável pela criação de mais uma penca de novos sinais usada no bate-papo dos corredores. Na escola municipal Helen Keller, em São Paulo, os jovens do ensino fundamental e do médio têm suas próprias gírias, muitas vezes variando de sala para sala, de panelinha a panelinha.

É inegável que a língua portuguesa acaba por determinar a constituição de vários elementos semânticos, estruturais e discursivos da língua de sinais. Isso não deixa de acontecer também no universo das gírias. É o caso do xingamento “palhaço”, usado pelos alunos da escola com o mesmo sentido da língua portuguesa. Na Helen Keller, os estudantes também criaram seus próprios sinais para Orkut e MSN (programa de conversa on-line).

Assim como no português, a língua de sinais também registra os idioletos, ou seja, as maneiras únicas no modo de falar ou sinalizar de um indivíduo. Diferenças de idade, escolaridade, maior ou menor contato com a comunidade surda, tudo isso aumenta a diversidade de sinais.

- Todos os usuários da Libras conseguem comunicar-se uns com os outros e entendem-se bem, apesar de não haver sequer dois que façam sinais da mesma maneira - explica a lingüista Lodenir Becker Karnopp, também professora do curso Letras-Libras na UFSC.

Nesse mar de sinais e variações, quem não é surdo pode pensar que o entendimento entre os deficientes auditivos de estados diferentes fica quase impossível. Basta lembrar a quantidade de palavras usadas na língua portuguesa e suas variações, tão criativas quanto as dos sinais.

- Há, sim, uma tentativa de padronização das associações de apoio ao surdo. Há muitos sinais que já são padronizados e usados em congressos, por exemplo. Mas é preciso respeitar a diversidade - comenta Walkiria Duarte.

A mesma diversidade, aliás, que torna a Libras e a língua portuguesa admiradas pelos seus usuários.

História da Libras

A primeira instituição brasileira criada para apoiar a alfabetização dos surdos foi o Instituto Nacional de Surdos-Mudos, atual Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines), criado por D. Pedro II, em 1857. Dezoito anos depois, em 1875, foi publicado o primeiro livro com os sinais usados por aqui, o Iconographia dos Signaes dos Surdos-Mudos, de Flausino da Gama. O autor utilizou os mesmos sinais franceses, colocando a tradução em português. Daí a influência da língua francesa de sinais na brasileira.

- Esse sinais do livro deveriam ser usados concomitantemente com outros já usados no Brasil naquele período [1875].

Provavelmente havia dois sinais e um “vingou”. Pude observar em viagem aos Estados Unidos que há sinais do livro de Flausino que são usados pela ASL [American Sign Language], o que comprova o parentesco lingüístico entre as três línguas - analisa a lingüista Tanya Amara Felipe.

Quase um século depois, em 1969, estudiosos descobriram que no Brasil há outra língua de sinais usada pelos índios urubus-caapores, do Maranhão, que têm elevada taxa de surdez (1 surdo para cada 75 ouvintes).

Naquela década também foram publicadas, por iniciativa estrangeira, mais duas obras sobre os sinais brasileiros e que por muitos anos foram usadas no ensino de sinais: Linguagem das Mãos, de E. Dates; e Linguagem de Sinais do Brasil, de H. Hoeman. Ambas muitos influenciadas pela ASL.

Só na década de 80 é que estudos mais aprofundados em lingüística foram feitos. Nessa época, constituíram-se as principais instituições de apoio ao surdo. São Paulo e Rio de Janeiro influenciaram os sinais dos outros estados por terem sido os pioneiros no estudo do tema.

Foi em 2002 que o governo federal reconheceu a Libras como língua. Com a lei, a educação inclusiva dos surdos passou a ser obrigatória nas escolas públicas de todos os níveis. Dados do Censo 2000, reunidos pelo IBGE, indicam que dos 5,7 milhões de brasileiros com algum grau de deficiência auditiva, pouco menos de 170 mil se declararam surdos.

Dicionário de libras vai incluir sinais regionais
Publicação com quase 12 mil verbetes terá dois mil sinais só para palavras e expressões que variam de estado para estado

Antes da publicação do Dicionário Enciclopédico Ilustrado Trilíngüe da Língua de Sinais Brasileira (Libras), em 2001, pela Edusp e apoiada pela Feneis, não havia registro oficial da linguagem gestual ensinada a surdos no Brasil. Os materiais existentes estavam espalhados pelo país em apostilas produzidas por associações de apoio ao deficiente auditivo. Uma realidade bem diferente da de outros países, como os Estados Unidos, onde há algum tempo já existem dicionários do gênero.

Seis anos depois, e com a menção honrosa na categoria Educação e Psicologia do Prêmio Jabuti conquistada em 2002, os autores do trabalho, os psicólogos Fernando Capovilla e Walkiria Duarte Raphael, preparam a segunda edição do dicionário. A previsão de lançamento é para o começo de 2008. Mais dois mil verbetes de sete estados serão incorporados ao catatau que já havia reunido 9,5 mil sinais, divididos em dois volumes. Será inserida a soletração do verbete, além da indicação dos lugares onde aquele sinal é usado.

No início da pesquisa, os autores se reuniram com um grupo de 14 surdos da Feneis-SP, que passaram cada sinal e seu significado. A meta nessa segunda etapa é “aumentar o vocabulário em português e o léxico em sinais”, como explica Walkiria Raphael. Confira trecho de entrevista com a estudiosa:

Língua Portuguesa - Quais as dificuldades para montar o dicionário?

Walkiria Raphael - O surdo não se baseia nos verbetes escritos, mas no conceito, o contexto. É muito comum quando um ouvinte pede a um surdo soletrar uma palavra, como “essencial”, e ele perguntar o que é. Depois de entender o contexto, aí, sim, ele faz o sinal referente. Outros surdos podem empregar um sinal diferente para “essencial”, mas que contenha o mesmo sentido. Além do regionalismo nos estados, em São Paulo há grupos de jovens que criam seus próprios sinais, como no resto do país, aliás. Não dá para abarcar todos os sina