Arquivo de 1 de Dezembro de 2007

Para a História do Marxismo no Brasil

ANTONIO OZAÍ DA SILVA

Organizado por Marcelo Ridenti e Daniel Aarão Reis, História do Marxismo no Brasil – Partidos e movimentos após os anos 1960, Volume 6, representa a conclusão de uma trajetória iniciada nos dias 9 e 10 de junho de 1988. Nesta data, em Teresópolis, e com o apoio do CNPq, realizou-se um seminário especial do grupo de trabalho Partidos e Movimentos de Esquerda, na época vinculado à Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS); tempos depois, o grupo migrou para a Associação Nacional de História (ANPUH). Os participantes discutiram a idéia, apresentada pelo professor Osvaldo Coggiola, de uma história das esquerdas no Brasil. A idéia ganhou corpo e se transformou no projeto sobre a História do Marxismo no Brasil. Em 1991, foi publicado o primeiro volume sobre “O impacto das revoluções”, organizado por Daniel Aarão Reis e João Quartim de Moraes.

História do Marxismo no Brasil (volume 6) está organizado em duas partes. A primeira, trata dos partidos e organizações; a segunda, sobre os movimentos sociais. Cada parte apresenta cinco textos sob a responsabilidade dos diversos autores.

O primeiro capítulo, intitulado “A valorização da política na trajetória pecebista dos anos 1950 a 1991”, de autoria de José Antonio Segatto e Raimundo Santos, objetiva “apresentar o Partido Comunista Brasileiro (PCB) como exemplo, para as esquerdas brasileiras, de um agrupamento que, embora não tenha concluído todo o percurso, transitou da condição de partido revolucionário a partido com vocação para a política” (p.13). Os autores revisitam a trajetória política do PCB, da mentalidade esquerdista à lucidez orientada pelo “praticismo ilustrado”, ou seja, “um modo realista de apreender as coisas” (p.15). Na prática, o partido abandonou as veleidades revolucionárias e, coerente com a estratégia etapista da “revolução democrática burguesa”, concentrou a ação política na perspectiva da democratização da sociedade brasileira. A política pecebista resultou em mero reformismo cada vez mais distanciado da retórica revolucionária. Os autores resgatam a discussão sobre o tema da democracia e tem o mérito de mostrar como a formação da “cultura democrática” impactou o PCB. Eles também observam como a experiência pecebista se atualiza nos dramas vivenciados pelo Partido dos Trabalhadores a partir da eleição de Lula à presidência da república. Sugerem que o exemplo do PCB oferece pistas para repensar os desafios da política petista na atualidade. Claro, na perspectiva dos autores.

O capítulo 2, “Partido Comunista do Brasil: definições ideológicas e trajetória política”, de Jean Rodrigues Sales, retoma a história desta organização política fundada em 1962. O autor se propõe a analisar as características ideológicas e a atuação política do partido, das origens à atualidade. Nesta perspectiva, ele resgata a discussão sobre a fundação ou reorganização do PCdoB, já que seus militantes reivindicam a tradição e continuidade do Partido Comunista criado em 1922. É um debate que parece bizarro, mas que revela a importância da apropriação do espólio simbólico, isto é, dos valores e da ideologia que plasmou a concepção de partido marxista-leninista. A disputa pela autoridade da tradição não é gratuita. O autor analisa as diversas interpretações sobre a formação do PCdoB, o que permite ao leitor um maior conhecimento sobre o tema. Ele também expõe outros elementos que foram fundamentais na trajetória do partido: o alinhamento internacional, sua atuação durante a ditadura militar, a experiência da guerrilha do Araguaia e a ação da organização diante da abertura política e nos anos 1980. O texto trata, ainda que brevemente, do impacto da crise do socialismo real. Não obstante, é um trabalho que acrescenta e contribui para a compreensão do Partido Comunista do Brasil.

No terceiro capítulo, “Esquerdas Armadas Urbanas (1964-1974)”, Marcelo Ridenti retoma a análise sobre as diversas organizações que protagonizaram ações armadas numa perspectiva revolucionária. Originada dos partidos e movimentos de esquerda atuantes no pré-64, a “esquerda armada” foi a resposta ao fracasso da esquerda diante do golpe militar de 1964. A adesão à luta armada expressou a crítica, na perspectiva dos dissidentes, ao reformismo, direitismo e pacifismo dos partidos e organizações troncos. São analisados os grupos guerrilheiros originados do PCB, POLOP e PCdoB. A despeito das diferenças teóricas e divergências sobre o caráter da revolução brasileira, formas de lutas e o tipo de organização, as dissidências que aderiram ao caminho armado tinham em comum a crítica ao “suposto imobilismo de partidos como o PCB”, “viam-se como a vanguarda da revolução, fosse ela nacional ou socialista, e combatiam o capitalismo e o imperialismo norte-americano” (p. 129). Estas organizações e grupos armados “eram fruto de um mesmo processo histórico, de uma conjuntura específica, marcada pelo advento da ditadura militar, após um golpe de Estado que não encontrou resistência imediata” (p. 130). Há ainda que considerar o cenário internacional e o surgimento de uma “nova esquerda” contestatória. Esses aspectos, bem como o perfil da composição destes grupos e a leitura que faziam da realidade econômica e política brasileira, são fundamentais para a compreensão da sua atuação. O autor finaliza analisando a ascensão e queda da esquerda armada no meio urbano. Trata-se de uma experiência significativa para os rumos da esquerda brasileira. “A derrota da experiência armada marcou os desdobramentos posteriores da história do marxismo no Brasil. Talvez ela tenha sido a última expressão significativa do ciclo que se abriu com a fundação do Partido Comunista em 1922, fortemente marcado por concepções ditas de vanguarda da classe operária” (134), conclui o autor.

O quarto capítulo, “Os Trotskismos no Brasil (1966-2000)”, escrito por Dainis Karepovs e Murilo Leal, analisa a atuação dos agrupamentos comunistas vinculados à tradição da IV Internacional fundada por Leon Trotsky. Os autores oferecem informações importantes para a compreensão da história do trotskismo brasileiro no período. Eles concentram-se nas correntes trotskistas que consideram mais influentes: a Convergência Socialista (CS), a Organização Socialista Internacionalista (OSI) e a Democracia Socialista (DS). A exposição das origens destas organizações é acompanhada da apresentação das suas respectivas trajetórias, interpretações sobre a realidade brasileira e vinculações internacionais. Um dos aspectos que se destaca nesta trajetória é a posição de cada uma em relação ao Partido dos Trabalhadores e as conseqüentes metamorfoses que passam. A CS, por exemplo, terminou por romper com o PT e estimular a criação do PSTU. O caso da OSI é emblemático: da resistência inicial à proposta de formação do PT, aderiu com tal empenho que parte da organização se diluiu na Articulação dos 113, a corrente majoritária no interior do partido. Os autores também analisam a atuação dos trotskistas no movimento estudantil e na conjuntura dos anos 1983-2003. Salienta-se a importância do trotskismo na luta pelas liberdades democráticas. A atuação dos trotskistas representa uma contribuição importante na história do marxismo brasileiro e das experiências de organização dos trabalhadores na conjuntura do período analisado.

Paulo Henrique Martinez fecha a primeira parte da obra. Seu artigo, “O Partido dos Trabalhadores e a Conquista do Estado (1980-2005)”, é uma contribuição importante para compreender os caminhos e descaminhos desta agremiação política. A análise da trajetória do PT tem como principal referência os documentos dos encontros e congressos petistas. É amparado nestas fontes que o autor analisa a formação e a transição de uma postura contra a ordem à inserção nesta. Ele finaliza com uma questão: “O PT, partido da ordem?” Embora importante, o recorte documental compromete a compreensão da trajetória do PT, cujos rumos são determinados principalmente por sua prática política institucional. A retórica dos encontros e congressos não necessariamente corresponde à prática real do partido. Talvez isto explique a condescendência do autor diante do desenlace do petismo; talvez explique o fato do autor colocar uma interrogação que já contém a resposta. Mas, é claro, trata-se de interpretações, as quais são legítimas.

Chegamos à segunda parte do livro. Esta é composta pelos seguintes autores e respectivos capítulos: Denise Rollemberg, “Debate no exílio em busca da renovação”; Maria Lygia Quartim de Moraes, “O encontro do marxismo-feminismo no Brasil”; Marco Aurélio Santana e Ricardo Antunes, “O PCB, os trabalhadores e o sindicalismo na história recente do Brasil”; Michael Löwy, “Cristianismo da libertação e marxismo – de 1960 a nossos dias”; e, por fim, Daniel Aarão Reis, “Marxismo, sociedade e partidos políticos hoje”.

O último capítulo representa um balanço do referencial marxista nos partidos políticos que se consideram representantes dos interesses dos trabalhadores brasileiros. Daniel Aarão Reis, após fazer um breve retrospecto do marxismo desde o século XIX, analisa em que medida os marxismos estão presentes e resistem no PT, PSB, PCdoB, PSTU e PSOL.

Os demais textos, considerados em conjunto, expressam as contribuições, desafios e dilemas gerados pela relação nem sempre tranqüila entre os diversos movimentos sociais e os marxismos. Denise Rollemberg mostra como o contexto do exílio influenciou no sentido do debate crítico e autocrítico, propiciando as condições para a renovação da cultura e práxis marxista. A esquerda exilada passa a incorporar “temáticas que até então desconsiderava ou relegava a segundo plano” (p. 291). É o caso do feminismo, a politização do cotidiano e a discussão sobre a democracia. A autora focaliza a análise na revista Debate, criada por João Quartim de Moraes, cujo primeiro número foi publicado em Paris, em fevereiro de 1970, e durou até julho de 1982. “A Debate acabou funcionando como um centro de estudos e, até mesmo, como um movimento cultural, com presença entre os exilados e elevado nível de discussão teórica”, afirma (p. 293). O capítulo contribui para que o leitor compreenda os debates que envolveram os exilados brasileiros, os quais seriam importantes para a reorganização da esquerda, e também para a compreensão da vida desses militantes nas condições do exílio.

A leitura do artigo de Marco Aurélio Santana e Ricardo Antunes permite compreender os porquês que propiciaram a hegemonia do petismo e, conseqüentemente, decretaram a impossibilidade do Partido Comunista voltar a ocupar o papel proeminente que teve no sindicalismo brasileiro até o golpe militar. Os autores se propõem a “analisar com maior profundidade, uma parte importante da história recente da esquerda brasileira a partir das orientações e práticas do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e suas relações com a classe trabalhadora, o sindicalismo e o PT” (p. 375). Sugiro ao leitor que confronte a análise apresentada pelos autores com aquelas sobre o PCB e o PT, nos capítulos 1 e 5 respectivamente.

Michael Löwy faz um excelente retrospecto sobre as origens do cristianismo da Teologia da Libertação, trajetória e relações com o marxismo. Ao historiador e pesquisador dos movimentos sociais, bem como os militantes interessados em conhecer o período recente da história da esquerda brasileira, é imprescindível se debruçar sobre este tema. É impossível, por exemplo, compreender o Partido dos Trabalhadores, a Central Única dos Trabalhadores e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, sem a compreensão do que foi o “cristianismo da libertação” e a relação deste com o marxismo. Como conclui o autor, “graças ao cristianismo da libertação, idéias, temas e valores do marxismo – claro, de forma seletiva e reformulados em termos político-religiosos – foram assimilados por amplos setores populares no Brasil – que se encontram não só nas CEBs, mas também no PT, na CUT e no MST –, em proporções sem precedentes na história da esquerda brasileira” (p. 435).

O projeto História do Marxismo no Brasil chega a bom término com este volume. Mas, como nota os organizadores, não se esgotou, pois “o campo continua em aberto, nada impedindo a publicação de novos volumes que venham a enriquecer ainda mais a coleção” (p. 10). Oxalá, tenhamos novos volumes, como novos autores e novas interpretações e aprofundamentos. Aliás, uma das maiores contribuições deste projeto é precisamente a superação da concepção monolítica sobre um único e verdadeiro marxismo. Como já evidenciado na coletânea organizada por Eric Hobsbawm, há muito que se tornou impraticável se referir ao marxismo no singular. Essa é também uma contribuição contra a intolerância ainda presente na esquerda. Contudo, e felizmente, graças a projetos como este: “As críticas, inevitáveis, já não poderão ser formuladas a partir de qualquer ortodoxia reconhecida – elas não existem mais”. Embora tenha dúvidas quanto à assertiva de que as ortodoxias “não existem mais”, é tranqüilizante saber que, a despeito da obstinação dos que ainda se consideram os únicos e verdadeiros marxistas no universo, as críticas, como escreve Daniel Aarão Reis: “Nem resultarão na minha desgraça, ou no meu fuzilamento. Pelo menos a isso posso almejar, felizmente” (p. 442). Felizmente!

História do Marxismo no Brasil é uma contribuição fundamental à compreensão do marxismo em solo nacional, em especial, nos anos recentes. Numa época em que a esquerda reavalia suas perspectivas e parte dela ficou perplexa, vale a pena se debruçar sobre a história, a qual, afinal, definiu muito do que acreditamos e da nossa atuação política. A leitura de História do Marxismo no Brasil é um bom começo para a compreensão da esquerda na atualidade, até porque parece que a história se repete como tragédia. É especialmente indicada aos novos militantes e acadêmicos que imaginam conhecer o mundo a partir do espaço universitário. Conhecer a história, em qualquer caso, é imprescindível!

Revista Espaço Acadêmico
http://www.espacoacademico.com.br/

Comentários (1)

Livro reescreve a história dos EUA para fazer propaganda do neoconservadorismo

Segundo a história da política externa dos Estados Unidos do século 19, escrita por Robert Kagan, as ações norte-americanas são motivadas pela moral, e não pelo auto-interesse. Como trabalho histórico o livro não vale nada, mas pode interessar aos estudiosos da propaganda neoconservadora

Michael Lind

Robert Kagan é um dos membros de um pequeno grupo de autores neoconservadores que são lidos devido à influência que exercem sobre o governo Bush. No seu livro de 2003, “Of Paradise and Power” (”Do Paraíso e do Poder”), ele apresentou a explicação famosa segundo a qual os norte-americanos são de Marte, enquanto os europeus são de Vênus. Ele argumentou que os europeus pusilânimes, livres da tarefa de se defender devido à confiança no poder dos Estados Unidos, gostam de denunciar como militarismo estabanado aquilo que na verdade seria uma avaliação racional norte-americana das realidades do poder mundial.

“Of Paradise and Power” foi uma peça de polêmica neoconservadora disfarçada de política comparada. “Dangerous Nation” (”Nação Perigosa”), o livro mais recente de Kagan, é uma peça de polêmica neoconservadora disfarçada de história das relações internacionais dos Estados Unidos do período colonial à Guerra Americana-Espanhola de 1898 (há a promessa de um segundo volume, focado no século 20).

Os alvos implícitos de “Of Paradise and Power” são os europeus e os norte-americanos que criticaram a Guerra do Iraque e a política neoconservadora de hegemonia unilateral dos Estados Unidos. Os alvos implícitos de “Nação Perigosa” são aqueles indivíduos que argumentam que a Guerra do Iraque - e a estratégia neoconservadora em geral - representa uma ruptura com as tradições de política externa dos Estados Unidos, em vez de se constituir na implementação inevitável e desejável dessas tradições.

Os críticos da grande estratégia neoconservadora e da Guerra do Iraque freqüentemente comparam estes elementos com a Guerra Americana-Espanhola e com o imperialismo naval dos Estados Unidos de um século atrás, denunciando ambos os fenômenos como violações das tradições políticas dos Estados Unidos. “Está muito bem”, anda dizendo Kagan. “Eu aceito a comparação - mas inverto a avaliação”. Assim, o precedente alegado para o Iraque, a Guerra Americana-Espanhola, torna-se uma “boa guerra” - uma cruzada democrática.

No parágrafo final do seu livro, Kagan conclui: “Muito pouca gente enxergou, ou, quem sabe, tenha desejado enxergar, a guerra como sendo o produto de atitudes norte-americanas profundamente enraizadas no que diz respeito ao lugar do país no mundo. Ela foi o produto de uma ideologia universalista conforme esta se encontra articulada na declaração de independência”.

A declaração de independência! Então a fidelidade aos princípios dos Fundadores da Nação teria não só compelido os Estados Unidos a esmagarem e reconstruírem o sul escravista durante e após a Guerra Civil, mas teria também feito com que o país disseminasse a “ideologia universal” de Jefferson e Lincoln ao procurar estabelecer depósitos de abastecimento de carvão no Pacífico, ao roubar a Baía de Guantánamo da Espanha em 1898 - e, presumivelmente, ao invadir o Iraque em 2003.

“Dangerous Nation” é um tratado anti-realista, a primeira história diplomática aceita dos Estados Unidos escrita segundo uma ótica neoconservadora de “Idealpolitik”. Ironicamente - ou, talvez, apropriadamente, ao se levar em conta que as origens do neoconservadorismo estão na esquerda anti-soviética - Kagan tem uma grande dívida intelectual para com as histórias de política externa dos Estados Unidos escritas por progressistas e esquerdistas radicais, que dominaram esse campo durante grande parte do século 20.

Aqui, faz-se necessária uma explicação. Os historiadores progressistas tendiam a colocar a culpa pelas guerras norte-americanas nos interesses especiais, culpando os donos de escravos pela Guerra Mexicana-Americana e os fabricantes de munições e financistas pela entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. Os historiadores radicais, por outro lado, eram propensos a ver a política externa de forma mais sistêmica, como o resultado de um impulso inexorável rumo à expansão capitalista.

Tanto os progressistas-moralistas quanto os anticapitalistas radicais tendiam a concordar quanto a uma coisa: os Estados Unidos não se depararam com nenhuma ameaça externa genuína após o fim da Guerra Anglo-Americana de 1812. Portanto, os argumentos baseados em ameaças externas feitos pelos elaboradores de políticas norte-americanas não passaram de propaganda, camuflando os verdadeiros motivos (geralmente econômicos) por trás da expansão dos Estados Unidos.

Uma minoria dos historiadores, composta basicamente por historiadores militares, adota um ponto de vista diferente. Esses historiadores levam a sério a crença dos estadistas e dos soldados norte-americanos nas ameaças externas. As ameaças representadas em diversas ocasiões pela França, o Reino Unido, a Alemanha, o Japão e a União Soviética podem ter sido exageradas ou irreais, mas os elaboradores de políticas norte-americanas acreditavam nelas. A crença desses indivíduos se constitui em uma explicação suficiente para a maior parte das políticas militares dos Estados Unidos, que, ainda quando acabaram beneficiando os empresários norte-americanos, não foram implementadas por causa destes.

Chamem as duas escolas de história de política internacional norte-americana de escola da compulsão interna e escola da ameaça-e-resposta. Uma vê a política externa dos Estados Unidos como a manifestação da dinâmica social interna; a outra, como uma resposta, nem sempre racional, à percepção de ameaças à segurança.

A crítica realista das tradições de política externa norte-americana é uma versão modificada da escola da compulsão interna. Os realistas explicam a história da política externa dos Estados Unidos em termos de um idealismo ingênuo e militante, e não como as maquinações de interesses especiais (os historiadores progressistas) ou a dinâmica do imperialismo (os radicais). Quaisquer que sejam as suas diferenças políticas, os realistas, os progressistas e os radicais tendem a concordar que, como os Estados Unidos não enfrentaram nenhuma ameaça representada por uma grande potência desde os momentos iniciais da história do país, a explicação para a sua política externa precisa ser procurada em alguma compulsão interna - seja ela ideológica ou econômica.

Mas o fato é que pouco ou nada do que os Estados Unidos fizeram no final do século 19 e início do século 20 pode ser entendido a não ser como uma resposta - uma resposta exagerada, em alguns casos, mas ainda assim uma resposta - às ameaças representadas por grandes potências, e especialmente pela ameaça da Alemanha imperial.

Tendo rejeitado a política externa moderada de Bismarck e adotado uma estratégia agressiva de Weltpolitik, o kaiser e os seus assessores na década de 1890 passaram a procurar bases e aliados no México, no Caribe e na América do Sul, bem como em ilhas do Pacífico e em protetorados na China. O rápido crescimento naval da Alemanha inspirou os Estados Unidos. A Alemanha e os Estados Unidos competiram por bases insulares no Oceano Pacífico em Samoa e nas Filipinas, onde, durante a Guerra Americana-Espanhola, a frota alemã ameaçava a norte-americana.

A fim de combinar o poder das frotas do Atlântico e do Pacífico no caso de uma guerra com a Alemanha ou o Japão, os Estados Unidos montaram farsescamente a independência panamenha e construíram às pressas o Canal do Panamá. E foi para negar à Alemanha qualquer desculpa para a ocupação de países caribenhos ou centro-americanos que os Estados Unidos declararam a prerrogativa exclusiva das suas próprias forças armadas de impor a lei internacional em nome dos credores estrangeiros na América Latina. Já em 1903, a marinha dos Estados Unidos fazia planos para prevenir desembarques alemães no hemisfério ocidental por meio da ocupação de ilhas caribenhas estratégicas, um plano implementado por Washington nos anos iniciais da Primeira Guerra Mundial.

É possível prever que no seu segundo volume Kagan venha a alegar que o idealismo puro e o ódio ao militarismo prussiano, ao fascismo e ao comunismo, e não uma tentativa mundana de garantir a segurança nacional e a prosperidade dos Estados Unidos em um ambiente global pacífico, expliquem as intervenções norte-americanas nas guerras mundiais e na guerra fria, seguidas pelas guerras desinteressadas para substituir a ditadura pela democracia no Panamá, na Sérvia e no Iraque. Dotados de um traço do espírito dos jacobinos radicais e dos comunistas soviéticos, neoconservadores como Kagan vêem os Estados Unidos como o centro de uma ideologia militante e universal que precisa ser disseminada pela força das armas. Já os norte-americanos comuns, de forma contrastante, têm sido guerreiros relutantes.

A coruja de Minerva voa ao anoitecer. A tentativa engenhosa, mas inconvincente, de Kagan de reescrever a história dos Estados Unidos a fim de apresentar os norte-americanos como neoconservadores e a Guerra do Iraque como a conseqüência lógica da declaração da independência está destinada ao fracasso, assim como já fracassou aquela política para a qual ele procura fornecer um passado aproveitável. “Dangerous Nation” não tem valor algum para os estudantes da história da política externa dos Estados Unidos. No entanto, será objeto de algum interesse para os estudiosos da história da propaganda neoconservadora.

Revista Prospect
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/prospect/

Comentários

Telefónica supera o Santander em lucros

A operadora ganha 51% a mais até setembro por receitas atípicas. A concorrência abre expediente sancionador pelo acordo com a Sogecable

Mar Díaz-Varela

A Telefónica se transformou na maior empresa em lucros e capitalização na Bolsa depois de aumentar em 51% seus ganhos nos nove primeiros meses do ano, chegando a 7,848 bilhões de euros. Trata-se de um novo recorde que ocorre devido aos 2,534 bilhões em receitas atípicas obtidos pela venda da Airwave e dos lucros da venda da Endemol.

Dessa maneira, supera o Santander em lucros -o banco ganhou 6,572 bilhões até setembro- e em valor na Bolsa, que chegou a 108 bilhões de euros, 15% a mais que o banco. A Bolsa reagiu com uma alta da ação de 0,89%, atingindo 22,50 euros.

A operadora de telecomunicações já tem 218 milhões de clientes, dos quais 45 milhões estão na Espanha e o restante distribuído em vários países. Deve-se destacar que a maior parte de seus clientes, 160 milhões, são de celular e nesse âmbito a América Latina contribui de forma especial, com 95 milhões de clientes.

Os elementos mais destacados são em primeiro lugar as receitas obtidas até setembro, de 42,014 bilhões de euros, 8% a mais que um ano antes. A Espanha contribui com 36% destes (15,462 bilhões), a América Latina com 35% (14,676 bilhões) e a filial de celulares britânica O com 25% (10,776 bilhões).

Em segundo lugar destaca-se o resultado operacional, que ficou em 18,248 bilhões, o que representa um aumento de 24,5% sobre o ano passado. Isso lhe permitiu gerar um fluxo livre de caixa de 5,959 bilhões, dos quais 1,797 bilhão foram dedicados à compra de suas próprias ações e 1,425 bilhão à distribuição de dividendos.

O lucro por ação até setembro aumentou 50,4%, chegando a 1,60 euro. Nesta quarta-feira (14) seria efetivado o primeiro pagamento de dividendos por conta dos resultados de 2007, de 0,35 euro, ao qual se somará outro de 0,40 euro no primeiro trimestre de 2008.

As vendas da Airwave e da Endemol por 4,875 bilhões de euros e a redução da dívida em 1,117 bilhão por causa da taxa de câmbio permitiram reduzi-la para 44,004 bilhões de euros.

A Telefónica insistiu que o mercado espanhol de telefonia fixa é o único que continua crescendo (2,1%) na Europa. E isso se deve ao desenvolvimento da banda larga, na qual conquistou 4,3 milhões de clientes, o que representa 56% do mercado. Ao todo tem 9,6 milhões de clientes, 32% a mais que um ano atrás.

Essas boas notícias foram obscurecidas pelo anúncio da Comissão Nacional de Concorrência (CNC) de um expediente sancionador. Este se relaciona aos acordos com a Sogecable pela compra de conteúdos e pela criação da Imagenio Plus. A CNC considera que os acordos assinados em julho passado reforçam a posição de domínio de mercado das duas operadoras. Na televisão paga a Telefónica tem 12% e a Sogecable 52% dos clientes e 80% das receitas.

Jornal La Vanguardia
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/lavanguardia/

Comentários

Companhias espanholas investiram 1,7 bilhão de euros durante o governo Chávez

Íñigo de Barrón
Em Madri

Os problemas com os governos de esquerda da América Latina (exceto o Brasil) têm sido freqüentes nos últimos anos. Venezuela, Nicarágua, Argentina, Bolivia e Equador são os principais cenários de conflitos com empresas espanholas pelos benefícios que obtêm e pelos impostos que pagam.

Telefónica, Repsol-YPF, BBVA, Santander, Mapfre, Endesa, Indra, Prisa, Dragados y Gas Natural são as que tem maior presença na região. A Espanha é a principal investidora estrangeira nestes países.

As companhias não quiseram comentar sobre os incidentes na Cúpula Ibero-Americana e se limitaram às declarações de Gerardo Díez, presidente da CEOE. Este empresário qualificou de “disparatadas” as acusações de Chávez sobre a participação de empresas espanholas no golpe de Estado de 2002. Em conversas privadas, eles se mostraram cansados da situação e alguns reconheceram que “assim não pode continuar”. “É certo que ganhamos dinheiro, mas se tornar nossa vida impossível, fará com que questionemos o futuro”.

Alguns empresários já haviam tentado deixar o país, mas não encontraram comprador. Para alguns, o único consolo é que a Venezuela não é “um dos grandes países latino-americano. Na região, investimos mais no México, Brasil, Chile e Argentina”, dizem.

O enfrentamento com Chávez remonta ao fracassado golpe, quando o ex-presidente espanhol (José María) Aznar mandou o embaixador dialogar com o golpista Pedro Carmona acompanhado de um diplomata dos EUA. Desde então, Chávez tem grande receio em relação às empresas espanholas, as quais acusou, sem provas, de colaborar com o golpe. As empresas espanholas investiram na Venezuela cerca de 1,7041 bilhão de euros desde que Chávez assumiu o poder em 1999, segundo o Conselho de Câmaras de Comércio.

Na Venezuela, os bancos presentes são o BBVA e o Santander, que controlam 25% do mercado. O Santander investiu cerca de 500 milhões de euros e o BBVA, cerca de 410 milhões, segundo as entidades.

Até setembro passado, ambos ganharam 231 milhões de euros. Os bancos sofreram ameaças de nacionalização (há apenas alguns meses), assim como ameaças de prisão de seus presidentes.

A Repsol conta com diferentes jazidas e obtém 1% de seu beneficiamento e 2% de sua produção. Prisa e Mapfre também estão presentes, ainda que a maior investidora seja a Telefónica. Ela vendeu 6,9% do capital da operadora venezuelana CANTV e agora conta com um investimento de 850 milhões de euros em uma empresa de telefonia móvel. Tem 8 milhões de clientes e um privilégio operacional de 756 milhões até setembro. Este ano a Venezuela vai especialmente bem, por isso se tornou o segundo país mais importante da América Latina depois do Brasil.

Na Nicarágua estão a Unión Fenosa, que em agosto fechou acordo para continuar operando no país após disputa ferrenha, e a Telefónica Móviles.

Na Argentina, as empresas espanholas investiram 31,5 bilhões nos últimos vinte anos. Estão no país a Repsol-YPF, Telefónica, Endesa, BBVA, Santander, Aerolíneas Argentinas, Indra, Dragados, Mapfre e Abertis.

Na Bolívia está a Repsol, que em agosto conseguiu um acordo para seguir operando. A empresa também está no Equador e espera um novo contrato pelo qual pagará mais ao governo, assim como a Telefónica.

Jornal El País
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/elpais/

Comentários

Saciar a sede de água e de cidadania

Frei Betto

Como impedir que a população do semi-árido brasileiro prossiga vítima da seca? A melhor iniciativa é o Programa 1 Milhão de Cisternas, também conhecido por Programa de Mobilização e Formação para Convivência com o Semi-árido. Neste mês, comemora-se o marco de 1 milhão de pessoas favorecidas pela construção de cisternas.
Quem o monitora, há quatro anos, é a ASA (Articulação no Semi-árido Brasileiro), ONG que conta com apoio do governo federal, da Febraban, da sociedade civil e de vários parceiros nacionais e internacionais.

O programa parte da concepção de que o povo do semi-árido é capaz de dirigir seu próprio destino e encontrar meios de resolver seus problemas, desde que a ele sejam garantidos meios e políticas de convivência com a seca, e não de combate a este fenômeno natural. Assim como em outros países não se combate a neve, mas se aprende a conviver com ela, o mesmo se aplica à seca.

Até agora, o programa mobilizou cerca de 228.538 famílias e construiu 221.362 cisternas de placas para captação de água de chuva - via calha do telhado da casa -, para consumo humano. Nada mais potável que a água da chuva - que, nas cidades, irresponsavelmente desperdiçada, entope bueiros, causa erosão de encostas, alagamentos e enchentes.

Hoje, mais de 1 milhão de pessoas têm garantindo o acesso à água de qualidade para beber e cozinhar, o que significa, em termos de segurança alimentar e nutricional, efetiva revolução em suas vidas. Quando se sobrevoa o semi-árido notam-se pontinhos brancos esparsos na zona rural. São as cisternas alocadas nas casas dos agricultores, muitas em lugar de difícil acesso.

Um dos efeitos mais tangíveis é favorecer mulheres e crianças que, todo dia, deixam de caminhar quilômetros para buscar água, muitas vezes poluída. Agora, podem dedicar o tempo à educação, à família, à produção, ao lazer. Como muitas mulheres afirmam, sentem-se mais mães, mais esposas, mais companheiras, mais gente.

As crianças, agora mais saudáveis, já não são acometidas por doenças transmissíveis por recursos hídricos, entre as quais a diarréia; idosos e portadores de deficiências são atendidos; famílias inteiras, que anteriormente nunca tinham acesso a noções e cursos de tratamento da água e convivência com o semi-árido, agora utilizam essas informações para melhorar sua qualidade de vida.

As cisternas são construídas com, e não para as pessoas; estas se envolvem profundamente na obra, o que garante o seu cuidado. Como todo o processo é feito em comunidades, vê-se ali a erradicação da exclusão social e a afirmação da cidadania. São mais de 1 mil municípios do semi-árido que, mobilizados, compõem um novo cenário.

As cisternas, perfuradas ao lado da casa e revestidas de placas de cimento, são equipamentos simples, de tecnologia barata e fácil manejo. Têm longa vida útil quando cercadas de cuidados mínimos, de acordo com o que se aprende nos cursos. Ao visitar a região, notei em algumas girinos vivos, sinal de que a água é própria para consumo humano. Inaugura-se, assim, uma política pública não-clientelista, efetivamente voltada aos mais pobres.

Falta, agora, o governo federal dar mais apoio à ASA, para que se possa atingir a meta de construir 1 milhão de cisternas e favorecer 5 milhões de pessoas com acesso à água potável.

E fica a pergunta que não quer calar: por que nas edificações urbanas raramente se encontram equipamentos de captação da água da chuva, gratuita e potável? O exemplo não deveria começar pelas obras do poder público?

Revista Adital
http://www.adital.com.br/site/index.asp?lang=PT

Comentários

Violência de Louisiana promove debate sobre o racismo no sul dos EUA

Os recentes protestos diante das acusações contra seis adolescentes negros em Louisiana, os “Seis de Jena”, ressaltaram como a questão de raça ainda é explosiva no sul dos EUA. É improvável, entretanto, que o caso complexo inspire um novo movimento de direitos civis

Gregor Peter Schmitz

A árvore se foi -por completo. O enorme carvalho antes era imponente no meio do pátio da escola de ensino médio de Jena. Agora, só restaram marcas no gramado. Até o toco foi arrancado do chão em um final de semana em julho, diz Billy Fowler do conselho supervisor da escola -e ele parece muito contente com isso. “Queríamos traçar uma linha clara.”

Se fosse tão fácil assim arrancar tudo pela raiz, inclusive as memórias. Por décadas, alunos brancos sentaram-se à sombra dessa árvore, chamada “árvore branca”. Os alunos negros sentavam-se nas arquibancadas em volta, debaixo do sol forte de Louisiana.

E então, um aluno negro, Kenneth Purvis, cansou-se.

Purvis é um homem grande, com um grande peitoral -não é uma pessoa facilmente intimidada. “Pedi ao diretor se poderia também sentar-me sob a árvore”, lembra-se. O diretor disse que era livre para fazer o que quisesse. Então Purvis sentou-se sob a árvore com seus amigos, em um dia quente de agosto do ano passado.

A princípio, ninguém disse nada. No dia seguinte, porém, havia laços de forcas pendurados nos galhos -um símbolo da lei aterrorizante de enforcamento sem julgamento que reinou no Sul na era da escravidão.

A partir daí, um redemoinho de frustração e raiva, vingança e retaliação desenvolveu-se -até que um adolescente branco foi deixado inconsciente no chão, e seis adolescentes negros foram presos, acusados de tentativa de assassinato.

A árvore e a pequena cidade de Jena conquistaram fama questionável no mundo todo -no mínimo desde quinta-feira (20/9), quando milhares de pessoas marcharam pelos direitos dos alunos presos.

O caso de Jena, no entanto, representa exatamente o que? O racismo do Sul? O início de um movimento de direitos civis? Ou será somente um cenário para violência adolescente grosseira?

Um bom lugar
Jena localiza-se a uma curta distância da estrada Interestadual 20, que, a cada quilômetro conecta uma pequena cidade à próxima. Cada cidade é organizada de acordo com o mesmo princípio: uma Wal-Mart, um posto de gasolina, lojas de redes de lanchonetes, igrejas, uma escola de ensino médio, um estádio de futebol e casas.

Jena recebe seus visitantes com uma bandeira com um coração e um aviso que diz: “Jena. Um bom lugar para se chamar de lar.” Das 2.971 pessoas que fazem isso, muitas trabalham nos campos de petróleo e gás -trabalho duro, que paga mal, cerca de US$ 14.000 (R$ 28.000) por ano, em média. Ainda assim, é o suficiente para dividir a cidade. De um lado da linha divisória, estão as ruas relativamente afluentes com suas casas grandes em torno da Bellevue Drive, por exemplo. A igreja é uma construção de tijolos marcante, com grandes colunas na entrada.

Do outro lado da linha divisória, está Ward 10, onde moram quase todos os quase 400 negros de Jena. Esta parte da cidade fica virtualmente escondida nas florestas e consiste de casas simples e cabanas de ferro corrugado, entre as quais uma eventual carcaça de carro pode ser vista. Aqui, a igreja é uma construção de madeira frágil, onde nuvens de mosquito pairam sobre o carpete rasgado dos degraus da entrada.

“Esta cidade está coberta de racismo”
Bellevue Drive fica apenas três minutos de distância de Ward 10, mas é uma longa viagem de um lado ao outro. Não há um único advogado ou médico negro em Jena. O único funcionário negro em qualquer um dos seis bancos trabalha no departamento de contabilidade, bem longe dos clientes.

Eddie Thompson, ministro branco barrigudo, é uma das poucas pessoas que cruzam os dois bairros. “Esta cidade está coberta de racismo”, diz ele. “Suas opções em Jena dependem de qual parte você cresce.” Em outras palavras: dependem da cor de sua pele.

Jena High School é um lugar onde brancos e negros são obrigados a ficar juntos. Eles jogam no mesmo time de futebol, principal atração da cidade. “No refeitório, porém, os brancos sentam-se em um canto, e os negros no outro”, disse Dustin, que é branco, enquanto visitava sua antiga escola. Dustin formou-se da escola no ano passado. Agora trabalha na Wal-Mart.

Um cartaz com as palavras “Misturem-se” está pendurado na parede do refeitório. No dia 16 de novembro, todo mundo terá que se sentar ao lado de todo mundo por um dia. “Estou curioso para ver o que acontece”, disse Dustin laconicamente. E ele tem razão para ficar curioso: foi um ano difícil para esta escola.

Quando as forcas apareceram na árvore, o diretor quis expulsar da escola os três estudantes responsáveis. Mas seus pais protestaram, e os alunos foram apenas suspensos por algumas semanas. As primeiras brigas entre brancos e negros ocorreram. Então, o advogado branco Reed Walters disse aos estudantes negros no auditório da escola que poderia acabar com a vida deles com uma única assinatura, de acordo com algumas testemunhas.

Depois, parte da escola foi incendiada; até hoje não foi reconstruída totalmente. Brancos e negros suspeitaram uns dos outros. Em seguida, um aluno negro foi surrado em uma festa. O atacante branco recebeu apenas uma advertência.

No dia seguinte, houve uma briga no posto de gasolina, durante a qual um estudante branco sacou uma pistola. Os negros ameaçados por ele arrancaram-na de suas mãos. Foram acusados de roubo, enquanto o aluno branco saiu ileso.

Finalmente, em dezembro, houve o ataque no pátio da escola, onde seis estudantes negros teriam atacado um branco, Justin Barker. Barker teve que ser levado ao hospital, mas à noite já pôde ir à festa da escola -diferentemente dos seis atacantes, que foram presos -acusados de tentativa de assassinato.

Padrões duplos
Os réus podem pegar até 22 anos de prisão, apesar das acusações terem sido reduzidas para dano corporal grave. O caso rapidamente recebeu a atenção de organizações negras em torno dos EUA que estão lutando contra o que chamam de “padrões duplos” da justiça. As estatísticas apóiam o argumento: jovens negros são apenas 16% da população dos EUA, mas quase 40% dos presos em sua faixa etária.

Quatro jovens sentadas nos degraus na frente da escola acham que as acusações contra seus colegas são simplesmente absurdas. Seus professores instaram-nas a não falar com os jornalistas, mas queriam falar. “Esse Justin Barker foi a uma festa na mesma noite. Ele está exagerando”, disse uma das alunas do primeiro ano do ensino médio. Os estudantes negros simplesmente se cansaram de sempre serem punidos, toda vez que havia confusão, acreditam as jovens. “Foi só uma briga de escola”, disseram. Aí está novamente, a revolta com os padrões duplos.

Um dos Seis de Jena, Mychal Bell, já foi até condenado. Um estudante que pendurou as forcas na árvore teve permissão de testemunhar contra Bell no tribunal. A sentença deveria ser executada no dia 20 de setembro. Entretanto, o veredicto foi derrubado porque Bell tinha 16 anos quando o crime foi cometido e portanto deveria ter sido julgado em uma corte juvenil.

Seis contra um
Bell era o astro de futebol da escola. Ele era bom aluno -mas também “uma pessoa que sempre se metia em encrenca”, disse Anthony McCoy, ex-aluno negro da escola, que se tornou amigo de Bell durante seus tempos de futebol. Bell já tinha três condenações anteriores em apenas dois anos. Por isso foi o único a não ter sido liberado para acompanhar o julgamento em liberdade.

Houve mais negociações sobre a possível libertação de Bell na sexta-feira última. Centenas de jornalistas e manifestantes reuniram-se na frente da minúscula corte novamente. Quando a audiência terminou, os pais de Bell saíram; lágrimas corriam pelo rosto da mãe. Seu filho não recebera permissão para ir para casa com ela por causa de suas condenações anteriores. Seus defensores cantaram: “Sem justiça, sem paz.”

E o que justiça quer dizer neste caso? Apesar de todas as manchetes, continua sendo uma história de réus e vítimas. McCoy viu Justin Barker, o aluno branco, imediatamente após o ataque. “Tinha sangue saindo pelas orelhas”, disse McCoy.

Algumas testemunhas disseram que os atacantes continuaram a chutar Barker quando já estava deitado inconsciente no chão. “Seis contra um: poderiam ter matado ele”, diz McCoy.

Fazendo de Jena um símbolo
Agora, o ambiente em Jena é tal que os que pedem atenção para a vítima são rapidamente chamados de racistas -parcialmente porque a feiúra antiga está voltando. Um neonazista americano divulgou os endereços e números de telefone dos Seis de Jena em seu site da Web -e está abertamente chamando uma multidão para linchá-los. Os réus agora estão sob proteção policial, e o FBI está investigando o caso, assim como o dos proprietários de dois carros que penduraram forcas vermelhas em suas caminhonetes durante a manifestação na quinta-feira. Depois de sua prisão, proclamaram orgulhosamente ser membros da Ku Klux Klan.

Era exatamente isso que Jéssica -que não quer que seu sobrenome seja revelado- temia. Ela estacionou sua caminhonete Ford no meio da rua principal de Jena, com seu marido Rick; queriam comprar galinha frita para o jogo de futebol que assistirão.

“Tenho medo que isso cresça”, diz Jéssica. “E que todos nós sejamos rotulados de racistas malucos. Quando vimos a CNN ontem, minha filha me perguntou: ‘Mãe, nós agora odiamos os negros?’”

Jéssica conhecia dois dos estudantes brancos que penduraram as forcas na árvore -e ela acha que suas sentenças foram leves demais, assim como acha duras demais as sentenças que os Seis de Jena podem receber. “Mas saiu de controle”, diz Rick. “Não somos todos racistas.”

Ativistas de direitos civis negros, como Jesse Jackson e Al Sharpton, estão firmemente decididos a transformar Jena em um símbolo -de um novo movimento de diretos civis americano, 50 anos depois do original. Neste momento, muitas das conquistas daquela era parecem estar em risco, devido a novas decisões de uma Suprema Corte mais conservadora e ao desencanto de muitos cidadãos americanos brancos com noções de integração racial.

Sharpton e Jackson esperam levantar o entusiasmo de uma nova geração que só sabe das marchas dos anos 60 a partir dos livros de história. Parece estar funcionando: dos milhares de manifestantes em Jena, a maior parte era jovens afro-americanos. Sharpton fez um discurso apaixonado, pedindo a Washington que agisse contra decisões arbitrárias da justiça no sul. Queria fazer soar como um discurso que poderia ter sido feito há 50 anos -mas ainda assim ficou estranho.

Até os democratas estão discretos
Na época, as questões ainda eram sobre nove estudantes negros em Little Rock que queriam estudar com os brancos. Ou sobre Rosa Parks, que se recusava a dar seu assento no ônibus para um homem branco. Agora, um novo movimento de direitos civis deve ser iniciado por jovens acusados de quase matar uma pessoa inconsciente com chutes.

Até a reação dos candidatos presidenciais do Partido Democrata foi restrita. Barack Obama teve que se defender dos ataques de Jesse Jackson, que o acusou de não ser “negro” o suficiente.

A acusação é absurda, até porque ignora que Obama é um novo tipo de político negro. Ele não evita criticar o que vê como falhas na comunidade negra, como a hostilidade contra a educação, a irresponsabilidade de jovens pais negros e a cultura machista de hip hop, com sua glorificação de materialismo e violência.

Tudo isso está operando neste caso: uma fotografia circulou no site MySpace que mostrava um dos Seis de Jena colocando notas de US$ 100 na boca, com uma legenda que dizia que não tinha de US$ 50. Artistas de hip hop como 50 Cent falam da mesma forma -e são justamente essas pessoas que alguém como Obama não quer parecer representar, como as pessoas que lutam seis contra um.

Certo, tudo começou com uma briga sobre a “árvore branca”. Anthony McCoy lembra-se de se sentar debaixo dela, em seus tempos. Todd Lewan também colecionou declarações para Associate Press nas quais professores e alunos dizem que a árvore não era reservada para brancos, mas servia de ponto de encontro para pessoas das duas cores.

No entanto, isso provavelmente não importa mais.

Jornal Der Spiegel
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/derspiegel/

Comentários

CARTA DE PORTO VELHO

Reproduzimos a íntegra do documento final – a Carta de Porto Velho – do III Fórum Permanente dos Povos Indígenas da Amazônia.

DESENVOLVIMENTO SIM, MAS A QUALQUER CUSTO NÃO!

Nós lideranças, representando os diversos povos e organizações indígenas dos 9 estados da Amazônia Legal, acompanhados por lideranças de outras regiões do país e de países amazônicos, por representantes de entidades indigenistas e socioambientais, do Ministério Público Federal e de outras instituições solidárias com as nossas lutas, convocados por a nossa instância máxima de articulação, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), para participar do III Fórum Permanente dos Povos Indígenas da Amazônia, realizado em Porto Velho, Rondônia, de 28 a 30 de novembro de 2007, preocupados com o quadro de desrespeito aos nossos direitos sob o olhar omisso, a conivência e o descaso do Governo Lula, vimos de público manifestar.

O Governo Brasileiro, contrário às promessas manifestadas pelo Presidente Lula, por ocasião da instalação da Comissão Nacional de Política Indigenísta (CNPI), em abril de 2007, no sentido de corrigir as falhas de seu primeiro mandato, visando atender as demandas dos povos indígenas, tem se voltado claramente a atender os interesses de setores econômicos e políticos poderosos que compõem a sua base de sustentação.

Dentre os feitos que caracterizam essa opção citamos:

1. A determinação do Governo Lula de implantar empreendimentos previstos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), como hidrelétricas (nos Rios Xingu, Madeira, Machado, entre outros), rodovias e hidrovias, sem se importar com os impactos que poderão ter sobre o meio ambiente, a diversidade sócio-cultural e a biodiversidade, preservada até hoje pelos povos indígenas, comunidades tradicionais, ribeirinhos e quilombolas. O favorecimento do grande capital, do latifúndio, da agroindústria, das empreiteiras e de outros setores econômicos e financeiros, configura-se como uma re-colonização dos nossos territórios, ameaçando gravemente a nossa integridade física e cultural, a continuidade dos nossos povos. Territórios Indígenas serão alagados, e povos voluntariamente isolados nas regiões do Rio Xingu e do Rio Madeira serão impactados pelos complexos hidrelétricos previstos pelo Governo, configurando um projeto claramente ecocida, etnocida e genocida irreversível. Os nossos territórios e as florestas conservadas em pé por nossos povos constituem hoje barreiras contra o desmatamento e a degradação ambiental, além de contribuírem significamente para conter o aquecimento global, as mudanças climáticas, que hoje ameaçam a vida da humanidade e do planeta. Dessa forma constituem um componente imprescindível de qualquer estratégia global de conservação e uso sustentável da Amazônia, mas o governo cegado por uma visão economicista ignora essa nossa vital contribuição. Em função disso repudiamos a exclusão dos nosso povos da discussão do modelo de desenvolvimento que ser quer para a Amazônia e rechazamos a intenção de nos caracterizar como empecilhos ao desenvolvimento. Os povos indígenas não são contra o desenvolvimento mas interessa saber qual tipo de desenvolvimento, isto é, se favorecerá às massas empobrecidas e excluídas, com suas diferenças e especificidades socioculturais. Por isso enfatizamos: desenvolvimento sim, mas a qualquer custo não!

2. Contrariando acordo consensuado com os representantes do Governo na Comissão Nacional de Política Indigenista (CNPI), segundo o qual o tema da mineração em terras indígenas seria discutido como parte do Estatuto dos Povos Indígenas, a sua base de sustentação no Congresso Nacional instalou uma Comissão Especial, na Câmara dos Deputados, para discutir o projeto de lei (PL) 1610/96, do senador Romero Jucá, que trata da matéria. No mesmo sentido o senador Augusto Botelo apresentou no Senado PL para discutir a mineração nas terras indígenas.

O Encaminhamento em ambas as cassas não só desrespeita a decisão de uma instância instituída por decreto presidencial, após intensa pressão do movimento indígena, mas sobretudo burla uma reivindicação pleiteada há mais de 14 anos pelos povos indígenas do país, e ratificada pelo Acampamento Terra Livre, no Abril Indígena de 2007, mobilização indígena nacional, representativa dos povos indígenas de todas as regiões do país. Frustra mais uma vez a expectativa depositada no Governo Lula, que tentou reafirmar, em 19 de abril de 2007, os compromissos de campanha não cumpridos no seu primeiro mandato e que seriam viabilizados no atual.

3. Da mesma forma, o Governo Lula publicou a Portaria 2656, de 17 de outubro, que regulamenta o atendimento à saúde indígena, envolvendo o repasse de recursos às prefeituras municipais, sem antes ter havido uma ampla consulta aos povos e organizações indígenas, nem mesmo aos membros da Comissão Nacional de Política Indigenísta. Em quanto isso, o drama da saúde indígena continúa, com o alastramento de doenças como a malária, hepatite, parasitoses, desnutrição e mortalidade infantil.

4. O Governo mobiliza com muita agilidade o judiciário e a polícia federal quando por descontentamento os nossos povos e organizações decidem ocupar prédios governamentais, mas isso não acontece quando se trata de desintrusar os nossos territórios, como a Raposa Serra do Sol, em Roraima, e Maraiwatsedé, em Mato Grosso, livrando-nos assim da usurpação, das ameaças e violências praticadas pelos invasores: madeireiros, fazendeiros, garimpeiros, traficantes, pescadores ilegais e biopiratas, entre outros.

5. Por defender o seu território, lideranças nossas são presas arbitrariamente e algumas assassinadas. Só no ano de 2007, até o mês de novembro, foram assassinados 61 parentes nossos, 38 somente no estado de Mato Grosso do Sul. No entanto, o poder público, a justiça brasileira não mostra interesse algum em apurar, julgar e condenar os responsáveis.

6. O Governo brasileiro é o primeiro a descumprir as leis que garantem aos nossos povos indígenas o tratamento diferenciado, tanto a Constituição Federal como a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Convenção sobre a Eliminação e Combate a Discriminação Racial, instrumentos já incorporados à legislação nacional.

Diante destes fatos exigimos do Governo Lula coerência e vontade política para se voltar aos distintos segmentos que o elegeram, não perdendo a oportunidade de passar para história como o presidente dos pobres, dos índios, negros, sem terra e demais setores excluídos pelas elites deste país.

Reafirmamos a nossa determinação de continuar lutando, para que sejam respeitados efetivamente os nossos direitos, mediante a execução do plano de lutas definido por este III Fórum Permanente dos Povos Indígenas da Amazônia, que inclui entre outras, a reivindicação de que o Governo não tome quaisquer medidas administrativas, jurídicas e políticas que nos afete sem antes garantir o nosso direito ao consentimento livre, prévio e informado, conforme estabelece a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Declaração da Nações Unidas sobre os direitos dos povos indígenas.

Porto Velho-Rondônia, 30 de novembro de 2007.

Comentários

Movimentos precisam resgatar sentido dos partidos

Valéria Nader

Na entrevista que concedeu ao Correio e cuja primeira parte foi publicada no dia 19 de setembro Roberto Romano fez uma longa e profunda análise sobre o atual quadro político brasileiro.

Fugindo ao senso comum, que nega a existência de uma crise institucional - já que estão formalmente em funcionamento as instituições -, ou, por outro lado, enfatiza a paranóia dos pessimistas - já que inexiste a possibilidade de golpes armados ou que estamos diante de um governo fortalecido pela figura presidencial -, Romano vai além. O voto secreto no Senado foi, sim, um indutor de mais um dos “sutis golpes de Estado” que vêm vitimando a população desde que se depuseram as armas.

Nessa segunda parte de sua entrevista, que o Correio veicula abaixo, o professor da Unicamp explora, a partir do arcabouço de seu pensamento, e também de seu otimismo elucidador, as saídas que existem para o Brasil.

Confira abaixo.

CC: O que seria efetivo, tanto conjunturalmente quanto a longo prazo, para que tivéssemos um Estado de Direito e uma República de fato?

RR: Eu acho que, em primeiro lugar, os partidos políticos deveriam existir. Quando apoiei Heloísa Helena - e tenho muitas divergências em relação a ela e ao PSOL -, muita gente ficou escandalizada. A meu ver, o PSOL é um partido que tem um programa, que tem uma estratégia, que tem os seus problemas internos mas que está levando adiante a sua missão de partido, assumindo a sua dimensão própria na arena política.

Os outros partidos precisam ter uma posição e não serem esses partidos puramente eleitoreiros. É conhecida a análise de Max Weber de que os partidos europeus são ideológicos e que os partidos norte-americanos são possistas, estando ligados a vencer eleições e fazer negócios. Hoje em dia, tantos anos após tal análise, não é verdade isso para a Europa. A social-democracia, que era um partido ideológico, virou um partido possista.

Nos EUA, há muitas idéias surgindo, inclusive revivificando os programas dos partidos. O Brasil precisa decidir um pouco essa questão, pois, se não tivermos partidos políticos, não há luta democrática. É preciso também lutar para que esses partidos se modifiquem.

Sempre digo que a pior praga de que padece o Brasil é esse apoliticismo - que é inclusive instigado pela mídia - e essa caracterização da política como algo indesejável para as pessoas honestas. É preciso deixar muito claro que a política pode se exercitar nesse sentido tradicional brasileiro, mas que ela pode ter outras dimensões.

CC: Para resgatar esse papel dos partidos, seria necessário uma reforma política?

RR: Primeiro, no meu entender, seria preciso que os movimentos democráticos, ao invés de decidirem em separado da política, fizessem uma campanha nacional de filiação em qualquer partido. Por exemplo, se você ainda tem posições de esquerda, procure um partido que mais satisfaça os seus anseios e lá dentro brigue para derrubar as oligarquias partidárias existentes.

CC: Ou seja, é necessário mais efervescência e conscientização?

RR: Exato, e mais militância. Inclusive, essa questão tem extensa explicação do ponto de vista da comunicação social, onde o mundo de hoje não suporia mais militância, já que as pessoas estão diante da televisão, da internet etc. Isso eu acho balela. Nos EUA, há mais usuários de internet e as pessoas passam mais tempo em frente à TV, e, no entanto, as pessoas estão lutando e brigando. É claro que perderam, não só os filiados ao Partido Democrata, mas também os outros liberais de esquerda no país; perderam, pois quem está mandando no país é um governo corrupto, um governo imperial, aquilo que há de pior nos Estados Unidos. No entanto, há resistência.

Agora, nós aqui vamos ficar entregues a essa oligarquia partidária? Acho que o caminho é lutar para modificar as estruturas externas nos partidos.

CC: Devemos ter expectativas positivas quanto a esse processo? Não estaria a sociedade brasileira, hoje, muito apática?

RR: Declarar essa apatia, muitas vezes, é uma forma muito equivocada de ouvir a população. Nós, sobretudo aqueles de classe média, os intelectuais, temos alguns parâmetros lógicos que são definidos pela suposta modernidade. Aí, quando vamos conversar com gente do povo, há uma rede que impede que a gente entenda o que estão falando. Muitas vezes perdemos eleições, pois não temos a capacidade de entender antropologicamente com quem estamos falando.

Os semiólogos diriam que há ruídos em nossa comunicação com as camadas populares. É preciso pensar nisso.

Um exemplo dessa situação: quando o pessoal do PT diz que errou profundamente ao se colocar contra o Plano Real. Isso ocorreu porque, naquele momento, não perceberam, inclusive em termos de psicologia de massa, o que estava ocorrendo no país. Quem analisou qualquer processo inflacionário em termos históricos sabe que é um problema delicadíssimo mexer com a população quando se trata do poder de compra do salário.

O Plano Real teve milhões de defeitos, mil problemas, foi inclusive autoritário, feito de cima para baixo. Mas tiveram a inteligência de diminuir a inflação. Foi uma sensação falsa, pois o que ocorreu foi uma maior capacidade de compra do mínimo vital - enquanto isso, as dondocas do Cansei continuaram comprando na Louis Vuitton. Mas, por outro lado, essas massas não desejam voltar àquela situação do governo Sarney onde, para comprar uma geladeira, você pagava dois milhões. Essa é uma análise que Elias Canetti faz em Massa e Poder que é bem interessante. Eu já insistia nessa análise na época de Sarney: quando você tem o dinheiro, trata-se de uma relação antropológica com o corpo humano.

Além disso, como Marx mostra bem, é uma relação imaginária, na verdade o dinheiro é uma relação totalmente arbitrária, não tem uma existência real. Porém, define uma relação com o corpo. Canetti diz que, quando você tem duas moedas de ouro, que recebeu como fruto de seu trabalho, isso pesa em sua mão, te dá uma garantia. Quando você passa para o papel moeda, essa garantia diminui, é algo mais leve. Quando há inflação, você tem a incerteza máxima. Quando você vai comprar um pão e leva um carrinho de dinheiro, você não apenas se sente desvalorizado antropologicamente, como você passa a se ressentir, você começa a ter aquele sentimento de pavor, de insegurança. Elias Canetti arremata que, se na República de Weimar a inflação fosse alguns dígitos menores, milhões de pessoas teriam escapado dos campos de concentração.

CC: Ou seja, essa crítica deveria ter sido feita de outra forma.

RR: Sim, de uma outra forma, com outras estratégias de não bater tão de frente nesse ponto. Se quisessem fazer oposição ao governo, que procurassem outras fontes de crítica.

Não sei se vocês se lembram daquela sessão na Câmara dos Deputados onde Pedro Malan foi prestar contas de um processo de mudança de ordem monetária. Aquilo mostra bem a caricatura em que se transformou a percepção da realidade. Bateram tanto desse modo que, quando ganharam a eleição, tomaram um susto; não podiam decretar o fim do Plano Real e começar tudo de novo. O PT não deveria estar mais preparado?

Além disso, há a questão da obediência à democracia das bases nos partidos. No Brasil, o PT era um dos últimos partidos que tinham uma certa atenção para com as bases. No Brasil, as direções são donas do partido, não ouvem as militâncias, não ouvem os setores de base. E não dão oportunidade para gente jovem. Em todos os partidos, o jovem tem que servir um bom tempo de menino de recados até conseguir, pela bajulação, pelo serviço, ascender um pouco na máquina partidária. Enquanto isso, não tem essa chance.

Há ainda nesse cenário os cientistas políticos que falam em profissionalizar a atividade política. Aí seria o fim do mundo. Viraria tudo mais um setor da burocracia.

CC: O PSOL estaria começando a reproduzir os conflitos internos de outros partidos?

RR: Um partido, como instituição social, tem tendências, tem perversões, tem programa e desobediência a esse programa. Trata-se de elementos impossíveis de se retirarem. Justamente por isso, é extremamente necessário que esteja presente, na estrutura do partido – daí serem ridículas essas propostas de reforma política que não tocam na estrutura interna dos partidos -, uma ampla consulta obrigatória aos militantes com o intuito de definir a linha daquele partido.

Voltando ao caso do PT, que é mais gritante, trata-se de um partido que se dizia socialista e, com a prática governamental que está tendo, é preciso que ouça os militantes para definir mudanças no programa - até, inclusive, em suas diretrizes ideológicas. Hipoteticamente, se todos os militantes do PT decidem que o PT não será mais um partido socialista, isso precisa constar em seu programa, para que seja cobrado pela militância. O caso do PSOL é o mesmo; à medida que os partidos crescem, aumenta o seu raio de abrangência, a massa que atingem, os seus aderentes internos e não internos. Com isso, aumenta também a complexidade da instituição.

Uma coisa é um partido trotskista puro; outra coisa é um partido trotskista que já está vinculado a uma série de outras tendências ideológicas.

Quando há esse tipo de complexidade, aumentam inclusive as tarefas dos dirigentes e dos militantes mais responsáveis.

Um aluno de mestrado que tive fez uma tese sobre os líderes das comunidades eclesiais de base de Vitória (ES). A cada seis meses, enviávamos um questionário àqueles que estavam nas CEBs há mais de dez anos sobre a vida deles, sobre a organização de suas vidas de fora para dentro. O resultado que atestamos foi que aumentavam as tarefas e as pessoas não tinham mais tempo para si; havia militantes que eram sociólogos, filósofos e teólogos que não tinham mais tempo para estudar, só liam coisas relacionadas às comunidades eclesiais de base e não liam mais os textos fundamentais. Não tinham mais tempo para teatro, não tinham mais tempo para a família, não tinham mais tempo para o cinema e, no caso da Igreja, a missa era vista como um local de divulgação política. Assistiam televisão para ver o noticiário político.

Os últimos relatórios mostraram que alguns dos militantes se sentiam como laranjas chupadas. O que acontece é que, a partir desse açambarcamento das tarefas pelas lideranças, elas se esgotam; e o movimento não se renova se não entra gente nova em seu lugar.

Quando fui em um seminário intitulado “O PT e o Marxismo”, organizado pelo próprio partido, disse exatamente isso. Após minha fala, fui cercado por diversos dirigentes, que me disseram que também estavam se sentindo como laranjas chupadas - e, note, justamente naquele momento em que o partido deixou de ser um partido de militância de rua.

Esse ponto é crucial para você verificar o sentido do encaminhamento de um partido. Um partido que cresce sem tomar tempo para esse aspecto do esgotamento das lideranças, que não abre espaço para novas lideranças e para grupos cada vez mais complexos, tende a se desfigurar - ou a se descaracterizar, quando a quantidade de aderentes é tão grande. Hoje, há gente que era da Arena e está no PT. Não digo isso em relação ao PT nacional; mas, se você viaja pelo Brasil, em determinados locais, lideranças que outrora eram extremamente conservadoras hoje estão no PT, e por um motivo muito simples: é o partido que está no poder.

CC: Uma reforma política precisa, então, considerar muito mais seriamente a estrutura interna dos partidos?

RR: Sim, se não houver uma democratização dos partidos, não há possibilidade. Agora, não enxergo possibilidade de democratização dos partidos se continuarem essa praga e esse dogma de que política é coisa de corruptos apenas. Herdamos essa noção do positivismo, que considerava que a atividade democrática, com eleições etc., era coisa do passado, superada pela idade da técnica, e que era possível governar apenas com base no saber teórico dos intelectuais. Os positivistas espalharam muito a idéia de que a política é suja, ultrapassada.

CC: Essa posição não é também muito ecoada pela mídia?

RR: É muito fácil você, sendo colunista ou intelectual, brincar de desencanto, dizer que o Brasil é sempre assim, que nunca vai mudar. Isso agrada muito o próprio ego, mas é um tremendo desserviço para a mudança social. Existem colunistas importantes que se entregam a essa produção de pessimismo.

Correio da Cidadania
http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_frontpage&Itemid=1

Comentários

Odair Bermelho ameaça demitir diretora do Colégio da FSA

Júlio Gardesani (julio@abcdmaior.com.br)

A diretora Ana Paula Cruz foi impedida de realizar prova que concederia
bolsas a alunos

A diretora do Colégio do Centro Universitário Fundação Santo André, Ana
Paula Mazza Cruz, foi impedida de realizar a prova que concederia bolsas
de estudo aos novos alunos do 1º ano do Ensino Médio, que deveria ser
realizada nesta sexta-feira (30/11). Odair Bermelho, reitor e diretor da
instituição, ameaçou demitir Ana Paula, caso insistisse em aplicar o
exame.

“Odair Bermelho foi muito direto e impôs a condição. Ele me disse por
telefone que eu seria mandada embora da universidade se eu continuasse com
a idéia de realizar a aprova. O autoritarismo de Bermelho ficou explicíto
nesta ação”, garantiu Ana Paula.

Uma reunião foi realizada logo após a suspensão da prova. Entre os
participantes estavam o pró-reitor de graduação, Diolino José dos Santos
Filho, professores da Fafil (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras),
coordenadores da Fundação, alunos do colégio e pela própria Ana Paula. O
ponto da pauta era o de entender as ações da coordenação do Colégio e o
que levou ao desentendimento entre a reitoria.

O edital que convocava o concurso de bolsas de estudo confundiu os
participantes da reunião, que não chegaram a um consenso sobre o assunto.
De acordo com o Departamento Jurídico da Fundação, o edital deixa claro
que para a realização da prova seriam necessários 44 alunos inscritos, mas
apenas 33 efeturam o pagamento e estavam efetivamente inscritos.

A prova foi adiada para o dia 10 de dezembro, mas a decisão se haverá ou
não o exame caso não se chegue aos 44 jovens inscritos ainda será
discutido. “Levarei para a reunião do Conselho que foi instalado na
universidade para discutir os problemas que passamos nos últimos dias, a
minha posição de que o adiamento era extremamente necessário, pois devemos
esperar que mais alunos se inscrevam’, afirmou Diolino.

ABCD Maior

Comentários

Reitor ameaçou demitir diretora caso aplicasse prova

Bruno Ribeiro
Do Diário do Grande ABC

“Ou adia ou cancela. Se você aplicar a prova, está demitida.” É o que a
diretora Ana Paula Mazza afirma ter ouvido do reitor da Fundação, Odair
Bermelho, instantes antes do horário da prova de bolsas para o Colégio da
Fundação.

A assessoria de imprensa da Fundação informou que o reitor não daria
entrevistas para explicar a ordem. A Comissão de Ingresso da Fundação
afirmou que cancelar a prova seria o melhor a fazer para salvar o colégio,
uma vez que a prova não teve o número mínimo de inscritos.

O Colégio da Fundação Santo André existe desde 1990. Já chegou a ter mais
de mil alunos. Até 2000, era preciso fazer vestibulilho para entrar na
escola e, mesmo com a abertura anual de oito salas de 1º ano, muitos
alunos não conseguiam se matricular.

Desde 2002, por falta de divulgação, tem atraído menos inscritos. Neste
ano, o colégio tem 200 alunos e não possui turmas de 1º ano. A classe não
foi aberta por falta de alunos.

A maioria dos professores do colégio apóia o grupo que faz oposição à
reitoria. O grupo acusa a Fundação de deixar de investir em áreas como o
colégio e a Fafil (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras).

Diário do Grande ABC
http://home.dgabc.com.br/

Comentários

Manobra jurídica impede a prova

Bruno Ribeiro
Do Diário do Grande ABC

A Fundação Santo André teve um entendimento jurídico diferente da direção
do colégio sobre o programa de bolsa de estudos, por isso ordenou o
cancelamento da prova.

Um único item no edital de convocação para a o exame tornou obrigatório a
realização do teste para quem quisesse se matricular na escola. Deu à
prova de bolsa caráter de vestibulinho.

Por isso, para que houvesse uma turma nova no colégio, seria preciso que
houvesse 44 alunos inscritos para a prova da bolsa. A direção da Fundação
sabia disso. Mas a diretoria do colégio não.

A diretora do colégio, Ana Paula Mazza, não se atentou ao item 23.1 do
edital, que permitia a matrícula no colégio apenas para alunos
classificados na prova de bolsa. Como ela acreditava que poderia fazer
matrículas normalmente, pretendia continuar recebendo alunos até completar
uma turma para a 1ª série do ano que vem, mesmo que isso levasse mais
tempo – como ocorre na maioria das escolas de ensino médio que oferecem
bolsas. Mas foi impedida pela direção da Fundação. Ana Paula afirmou que
não tinha entendido que fazer a prova da bolsa era uma condição para
matrícula – e não concorda com isso.

Já a Comissão de Ingresso da Fundação, órgão ligado à pró-reitoria do
Centro Universitário, sabia que o exame de bolsa tratava-se na verdade, de
um vestibulinho. Mas deixou para explicar isso à diretora em uma reunião
ocorrida após ela receber a ordem para cancelar o exame.

A reunião, acompanhada pelo Diário a convite do pró-reitor de Graduação da
Fundação, Diolino José dos Santos Filho, teve a presença do corpo jurídico
da faculdade e de alunos do colégio.

O colégio terá apenas dez dias para fazer novo processo de seleção para o
ano que vem.

Diário do Grande ABC
http://home.dgabc.com.br/

Comentários

Prova para bolsas do colégio da Fundação é suspensa

Bruno Ribeiro
Do Diário do Grande ABC

O reitor da Fundação Santo André, Odair Bermelho, cancelou sexta-feira a
prova de bolsa de estudos do Colégio da Fundação. A decisão se deu
instantes antes da realização da prova, às 14h30, quando os inscritos já
estavam nas salas de aula preparados para o exame.

A justificativa para o cancelamento foi o baixo número de inscritos, 33. A
Fundação fornece o valor de 6,5 mensalidades a alunos (as bolsas variam de
20% a 70% de desconto).

Para abrir uma turma em 2008, são necessários pelo menos 44 alunos
matriculados. Como o número de concorrentes a bolsas estava relacionado ao
ao de matriculados, o exame foi suspenso.

A diretora do colégio, Ana Paula Mazza, queria aplicar a prova mesmo
assim, na esperança de conseguir matricular mais alunos até o fim do ano.

A prova só poderá ser realizada se o número de candidatos chegar a 44 até
o dia 10.

O cancelamento deixou os candidatos e mães revoltados. “É uma palhaçada.
Recebi um panfleto do colégio e inscrevi meu filho. Já haviam cancelado a
prova uma vez. Deviam ter avisado sobre o cancelamento antes”, disse Rosa
Mizue Miyamae, 49 anos.

Mais revoltados ficaram os alunos do colégio. Em campanha para salvar a
instituição, eles haviam preparado um coquetel de boas vindas para os
candidatos, com doces, salgados e refrigerantes. Seriam fiscais
voluntários na prova da bolsa. Ao saberem da ordem de cancelamento, não
contiveram o choro.

Diário do Grande ABC
http://home.dgabc.com.br/

Comentários

A redescoberta do poder do grito

Vera Souza Dantas

Há muito tempo não se via nada parecido: estudantes invadindo uma reitoria de universidade, acampando lá dentro, pondo a boca no trombone para denunciar decretos do governo que, segundo eles, ferem a autonomia da instituição. Vera Souza Dantas examina a recente invasão da reitoria da USP para saber se se trata de um fato isolado ou se, realmente, nossos estudantes começam a sair do torpor de uma prolongada alienação política para manifestar seu inconformismo e redescobrir o poder renovador do protesto.

Um pequeno grupo de universitários deu à reitoria da Universidade de São Paulo (USP) uma outra cara e função. Com alunos acampados em suas dependências entre os dias 3 de maio e 22 de junho, brigando contra os decretos do governo do Estado que eles diziam ferir a autonomia da universidade, o local tornou-se o símbolo de uma resistência. Este artigo não pretende discutir o mérito da iniciativa, mas sim o movimento, com todos os ingredientes que dão corpo às manifestações estudantis, como faixas, cartazes, pichações, passeatas, palavras de ordem, intermináveis assembléias e a turma do deixa- disso pronta para agir.

Inegavelmente, esse movimento abre espaço para uma pergunta insistente: teria essa moçada redescoberto o fio perdido das lutas estudantis que marcaram a geração dos anos 70 e 80? Estariam esses rapazes e moças despertando para um vigor que os jovens de então, hoje pais e até avós, parecem ter deixado morrer, abatidos e impotentes diante de um cenário político que nos faz questionar se foi para isso que se lutou tanto em um passado recente?

Quando esses jovens nasceram, há mais ou menos 20 anos, a geração anterior ainda estava embriagada de liberdade, depois de um jejum que durou duas décadas. Em 1987, os filhos da ditadura militar preparavam-se para dar ao País uma nova Constituição, aprovada em 1988. Aqueles brasileiros que se reuniram em torno de uma causa - ter nas mãos a liberdade de ir e vir, de falar e contestar, e até de pensar - brigaram muito por essa conquista, pegaram em armas, mataram e morreram em nome de um ideal. Havia um ideal e o dos meninos de hoje, segundo as vozes que se levantam, é basicamente por uma universidade livre.

Ninguém pretende discutir aqui qual ideal vale a pena negar ou apoiar - se é este que aí está ou o que estava lá. O que se propõe é refletir sobre os moços que parecem ter encontrado uma razão para despertar de uma apatia que toma conta da sociedade, esta cada vez mais individualista e atuando sem estar nem aí para o coletivo.

Se ela se importasse, só para levantar um ponto dessa discussão, não estaríamos desesperados discutindo como não sucumbir aos males do efeito estufa, que vai varrer o planeta com hora já marcada na agenda dos técnicos. Pois até mesmo esse movimento, o de nos salvarmos, não é uma bandeira comum a todos os povos. Individualismo é uma porta aberta para a solidão, mal que acomete a sociedade moderna e não deixa de fora nem mesmo os jovens, em quem os estudiosos do comportamento identificam esse sentimento em escala profunda.

Quem é jovem, hoje, não vê os seus pares como apáticos ou alienados. Como o universitário Antônio Carlos Freitas Jr., 21 anos, aluno do último ano de direito da Faculdade São Francisco da USP, para quem a juventude tem um engajamento e mostra uma vocação de protagonista. Só que essa manifestação não se faz, atualmente, pelo partido político, “porque ele não se apresenta mais como instrumento de mudança da realidade social como a juventude quer”, afirma ele.

Morador no Grande ABC paulista e estudando e trabalhando na capital pulista, o universitário conta que essa reflexão ficou muito clara no dia em que viajou no trem que o conduz diariamente da Estação da Luz à cidade de Rio Grande da Serra, e encontrou jovens que cantavam hinos evangélicos e voltavam de um evento organizado pela igreja que freqüentam. Para o estudante, esse é um tipo de militância, assim como aquela que agrupa jovens em organizações não-governamentais, em setores do empresariado e em manifestações culturais, e não mais em torno da politização partidária.

Freitas Jr. diz que esse novo perfil de militância não é um problema do jovem, “mas do modelo democrático que ele tem, que é hipócrita, de muito discurso e de pouco resultado.

“A minha geração está buscando novos mecanismos de mudança social”, prossegue. “Cabe aos dirigentes partidários da juventude buscar meios de fazer com que o jovem encontre no sistema político um instrumento para transformar a realidade social. Como não está vendo isso, ele o faz por outras vias. A juventude não é apática e não pode ser rotulada de não engajada. Ela só não aceita esses instrumentos que foram usados pela geração anterior, que buscou a democracia muito mais do que agora, mas que chegou a um resultado que não vai mudar a sociedade para melhor, que é a verdadeira luta do jovem”, afirma ele.

Para Freitas Jr., a ocupação da reitoria da USP também é um símbolo dessa militância e um meio que os jovens encontraram para reafirmar seus princípios e para atender `a necessidade que eles têm de acreditar que podem mudar o mundo, experiência arquetípica que lhes dá identidade. O universitário entende a validade desse movimento, mas não tem dúvidas de que a sua geração ainda tem de descobrir como mudar o mundo. “A maneira que eles encontraram se apresenta muito mais como um conforto psicológico do que uma ferramenta consistente para promover mudanças.”

Forma de fazer política é arcaica
Há quem atribua o despreparo da sociedade para viver a democracia à dificuldade de construir a democracia, um fenômeno recente na história do Brasil e que pode explicar o distanciamento que a sociedade tem da política. Fernando Guimarães, 32, especialista em ciência política e gestão pública, diz que a sociedade avançou em muitos aspectos, “mas a forma de fazer política continua arcaica, superada, e isso, somado ao atual descrédito da política, desmobiliza a sociedade”.

Na sua opinião, porém, o jovem faz o contraponto de engajamento, atuando vivamente nas questões de ecologia e de cultura, por exemplo, nas quais a consciência política pode ser percebida. “É preciso separar um pouco o que é atuação partidária, o que é atuação política e o que é a atuação do jovem na sociedade, que hoje não concentra mais o seu engajamento no movimento estudantil, mas sim em outras áreas de atuação.”

Guimarães defende que não se deve culpar a geração anterior por essa crise nas relações, atribuindo ao seu legado um peso morto. “Pelo contrário, no imaginário da juventude de hoje, a geração dos anos 70/80 ficou registrada como a que enfrentou tempos difíceis e conseguiu vencer aquela etapa”, observa o cientista político.”Daí eu relacionar esta crise ao modelo educacional que temos aqui no Brasil, que é um modelo autoritário, que não propicia a discussão e a formação critica. É muito mais um preparar o aluno para passar no vestibular do que para desenvolver uma capacidade crítica.”

A repercussão disso, a seu ver, é uma juventude individualista e consumista. O jovem que está atuando socialmente faz parte de uma minoria que, apesar de todas essas questões, consegue se engajar. “Os estudantes que ocuparam a reitoria também estavam lutando por alguma coisa, mas é uma discussão que deveria acontecer dentro dos fóruns do movimento estudantil, que atualmente perdeu representatividade e não é reconhecido pelos próprios estudantes.”

O que parece preocupante para Guimarães, diante do cenário que se arrasta e já se estende a outras universidades do País, é que “esses estudantes, talvez na vontade de fazer uma coisa em que acreditem, estão na verdade deixando de lado uma ordem democrática. E, ao não entenderem o processo, ficam a reboque de outros interesses. Daí o risco de uma manifestação autoritária estar sempre presente”.

Personagem de uma juventude que acredita cada vez mais no poder da auto-organização popular, segundo suas próprias palavras, Henrique Assis Aragão é aluno do último ano de jornalismo da Universidade Mackenzie. Tem 22 anos, é estagiário em uma assessoria de imprensa e membro da Comissão Gestora da Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social. Ele vê a ocupação da reitoria da USP como uma ação política e legítima, da mesma maneira que as manifestações pela diminuição das tarifas dos ônibus. “Esta é uma juventude que atribui um crescente descrédito a instituições como os diretórios e centrais de estudantes, os partidos políticos e o próprio Estado”, explica.

Com um olhar crítico ao ranço da velha esquerda, que “sindicalizou as universidades e engessou os centros e diretórios acadêmicos”; à mídia, que “parece mais a velha surda de A Praça É Nossa”; e à política educacional, que “prefere formar profissionais a formar cidadãos, que faz opção pelo tecnicismo em detrimento da pesquisa”, Assis Aragão acredita que esta é uma geração que “certamente deixará sua marca, porque encara política de outra forma, se organiza para reivindicar e consegue se articular em todo o território nacional”.

Desinteresse é comum a toda a sociedade
Mais jovem deputado estadual na Assembléia Legislativa de São Paulo, eleito no ano passado com 26 anos de idade, Bruno Covas traz não apenas uma herança genética no seu DNA, neto que é de Mário Covas (ex-governador de São Paulo, que faleceu em março de 2001), mas também a certeza de que “as coisas só vão melhorar quando as pessoas voltarem a se interessar em fazer política”. Ele identifica que o desinteresse hoje não é apenas dos jovens, mas de toda a sociedade, que deixou de acreditar e de se engajar.

Para ele, esse desinteresse da juventude é perigoso, porque propicia a criação de um cenário favorável contra as instituições democráticas. “São pessoas que estão chegando agora a uma fase em que deveriam iniciar sua participação política e que parecem não estar interessadas em quantos morreram, foram torturados, cassados ou exilados para que hoje pudéssemos ter liberdade de expressão”, pondera, enfatizando que “se há um legado que a geração anterior deixou para os jovens é o poder de se manifestar, de entrar para um partido político, reclamar do governo, escrever uma carta para o jornal e dar sua opinião”.

Os estudantes da Universidade de São Paulo, onde Bruno Covas cursou a faculdade de direito, estão, segundo ele, fazendo política e mostrando que o inconformismo é grande, mas é preciso canalizá-lo e expressá-lo dentro dos princípios democráticos. “Por mais difícil que seja a construção da democracia, ainda não existe um regime melhor do que ela”, argumenta. “E é a certeza de que é possível mudar que me fez chegar até aqui”, finaliza o jovem político.

Revista Planeta
http://www.terra.com.br/revistaplaneta/

Comentários