Arquivo de 6 de Dezembro de 2007

Pensamento do dia

O otimismo é um cheque em branco a ser preechido pelo pessimista

Carlos Drummond de Andrade(1902-1987), poeta brasileiro

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Feiúra urbana é sintoma de corrupção

Marcos Sá Corrêa

Céu azul, mar verde e, na curva da Rio-Santos, aparece, sob o ar lavado pela chuva da semana passada, a cidade histórica de Angra dos Reis. Ela transborda as encostas do litoral recortado por oito baías, duas mil praias e 365 ilhas, “uma para cada dia do ano”. A visão dura pouco, mesmo na viagem emperrada por buracos no asfalto, quebra-molas e lombadas eletrônicas. Mas o que se vê de relance dá de sobra para todos a bordo concluírem, numa só exclamação impublicável de espanto, que Angra cresceu muito.

Ela virou um favelão. Isso não impede que continue dizendo ao viajante: “Desacelere, você chegou ao paraíso.” Angra não poupa elogios a si mesma e à sua “natureza soberana, num dos lugares mais bonitos do Brasil”. Apresenta-se como uma “expressão de requinte” na costa brasileira.

Sabe tudo o que tem de bom. Mas se corrompeu da noite para o dia, numa década em que a população crescia em média 0,5%. Favelizou-se, inclusive, numa fase em que três prefeitos petistas fizeram um elogiado ensaio municipal do novo jeito de governar, com prioridades sociais, reuniões comunitárias e orçamentos participativos.

As favelas subiram

os morros e roeram pelas beiradas a Serra do Mar, sem dar a mínima para o plano diretor, onde o município faz de conta que todas as edificações estão proibidas acima dos 60 metros. O centro histórico desfigurou-se irremediavelmente. “Hoje está bastante modificado”, pois “os casarões antigos e as ruas de paralelepípedo vão dando lugar a construções mais modernas e ruas asfaltadas”, segundo o que a prefeitura publica na internet.

Angra ficou irreconhecível. Mas, nela se reconhece a cidade que anda nos jornais há uma semana por causa da Operação Carta Marcada. Há 29 mandados de prisão contra secretários municipais, empreiteiros, funcionários da Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente e políticos. Eles vendiam licenças ambientais no governo do PMDB há pelo menos dois anos - ou, segundo a polícia, pelo menos R$ 80 milhões.

Depois do flagrante, o prefeito Fernando Jordão alegou que não sabia de nada. Foi traído, aparentemente, pelas pessoas que nomeou para cargos de confiança na prefeitura. A corrupção era um segredo bem guardado atrás de lanchas, casas de praia e os carros alegóricos do enriquecimento ilícito, como picape Ranger importada. Para furar a barreira de discrição, a polícia mobilizou 13 delegacias e grampeou 60 telefones. Não precisaria de tanto esforço se os brasileiros tivessem aprendido a reconhecer, na feiúra de suas cidades, um sintoma da falência múltipla dos órgãos públicos, em que a propina não passa de infecção oportunista.

site O Eco
www.oeco.com.br

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Os desafios da democracia na América Latina

Dejalma Cremonese

Vive-se um momento peculiar no cenário político nacional. A eleição geral de 2006 foi a quinta eleição direta consecutiva para presidente da República. Isso representa um avanço na história política do Brasil, essencialmente marcada por governos oligárquicos, populistas e autoritários. Ao concluir o segundo mandato do governo Lula, completam-se 24 anos de democracia ininterrupta. Algo inédito até então. No entanto, é preciso aprimorar o regime democrático, resolvendo os problemas de ordem estrutural (econômico e social).

Pode-se dizer que se conquistou, no Brasil, até o momento, uma democracia formal poliárquica (eleições livres e freqüentes; liberdade de expressão; fontes de informações diversificadas; autonomia para associações e cidadania inclusiva), segundo a prerrogativa de Robert Dahl. Entretanto, como questiona Saramago, “até que ponto se permite que esse sistema seja substancial?”, isto é, alcançamos uma democracia eleitoral e suas liberdades básicas; trata-se, agora, de avançar para a consolidação de uma democracia cidadã e inclusiva (é preciso passar da condição de meros espectadores para cidadãos participantes). A democracia é muito mais que um regime governamental, é mais do que um método para eleger e ser eleito. O sujeito, mais do que eleitor, é cidadão. De que adiante democracia se os problemas sociais e econômicos da maioria da população ainda persistem?

Talvez por isso, segundo a pesquisa do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) feita na América Latina, 54,7% dos cidadãos estariam dispostos a aceitar um regime autoritário se este resolvesse a situação econômica de seus países e respondesse às suas demandas sociais; 56,3% avaliam que o desenvolvimento é mais importante que a democracia e 58,1% concordam, também, que o presidente possa ignorar as leis para governar. A democracia ideal pressupõe que a participação pública e o espírito cívico dos cidadãos (associativismo, confiança e cooperativismo) sejam aprimorados em busca de justiça social e da emancipação humana. E mais, como diz Hélgio Trindade: “a construção da democracia participativa supõe uma combinação entre cidadania democrática e representação política plena”.

A democracia latino-americana não pode ser uma democracia que facilita os procedimentos, porém fracassa para proporcionar liberdades cívicas e garantir os direitos humanos - a que Larry Diamond denomina democracia iliberais (illiberal democracies), ou, ainda, a que Marcello Baquero chama de democracia inercial: com inexistência de instituições sólidas, comportamento político emocional e subjetivo, falta de fiscalização e predomínio de traços clientelísticos, personalistas e patrimonialistas entre os representantes eleitos. É necessário que se estruture na América Latina, nas palavras de Pablo González Casanova, uma democracia dos de baixo, onde os pobres vejam garantida a segurança social e econômica.

Além do autoritarismo democrático que vive na cultura política latino-americana, pode-se afirmar que impera uma típica democracia delegativa (Guillermo O’Donnell). Isso significa afirmar a existência de frágeis instituições políticas, em que se sucedem crises de ordem sócio-econômica (sucessivos planos econômicos), deterioração da autoridade presidencial, corrupção do aparelho do Estado e violência generalizada. Isto é, a responsabilidade pelo sucesso ou fracasso de suas políticas é exclusiva do presidente da República. O presidente e sua equipe pessoal são o alfa e o ômega da política (o presidente isola-se da maioria das instituições políticas) e os problemas da nação são tratados por técnicos e burocratas, especialmente no que se refere à política econômica. A oposição e a resistência das ruas, da sociedade, do Congresso ou de associações de representação de interesse são silenciadas ou ignoradas. Prevalece a centralização política e a personificação do poder do presidente - é o que Hélgio Trindade chama de hiperpresidencialismo: “o presidente se considera legitimado por um poder delegado pelo voto para implementar, por mecanismos autoritários, suas decisões políticas”.

Por fim, além da participação dos setores organizados da sociedade civil e do olhar crítico e imparcial da mídia, é preciso outras formas de controle e “responsabilização” dos atos administrativos das pessoas que ocupam cargos públicos. Trata-se aqui de inserir o conceito de accountability (autoridades politicamente responsáveis, que podem ser responsabilizadas pelos seus atos, que devem prestar contas dos seus atos). Para André Marenco dos Santos, o accountability (controle democrático) pode ser vertical (relação governantes e governados) e horizontal: poderes externos podem punir o governo – separação de poderes (autoridades estatais que controlam o próprio poder: que pode empreender ações que vão desde o controle rotineiro até sanções legais ou inclusive impeachment, conforme o caso). A democracia pressupõe, igualmente, alternância de poder. A proposta de eleição ininterrupta de Chávez na Venezuela e a cogitação de um plebiscito para o terceiro mandato de Lula no Brasil diminuem as chances da consolidação e do fortalecimento da democracia no Continente.

Correio da Cidadania
http://www.correiocidadania.com.br/

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Hiato de uma vida

Historiadores fazem restrições à biografia do sociólogo Gilberto Freyre escrita por Enrique Larreta e Guillermo Giucci

MARIA LÚCIA PALLARES-BURKE
PETER BURKE

ESPECIAL PARA A FOLHA

D ada a importância de Gilberto Freyre na história intelectual do Brasil, ele certamente merece uma biografia extensa que acompanhe o desenvolvimento de seu pensamento, colocando seus muitos livros e artigos em seus contextos culturais.
O livro de Enrique Larreta e Guillermo Giucci [”Gilberto Freyre - Uma Biografia Cultural”, tradução de Josely Vianna Baptista, ed. Civilização Brasileira, 714 págs., R$ 80] propõe-se a fazer exatamente isso, mas se restringindo ao período 1900-1936. Os autores reivindicam a novidade de seu ambicioso empreendimento referindo-se ao “exame preciso da documentação histórica” a fim de corrigir uma falha nos estudos freyrianos, marcados, como dizem, por “um hiato entre o conhecimento de fontes primárias sobre Gilberto Freyre e a acumulação de comentários baseados em leituras secundárias”.
Infelizmente o livro não é tão inovador quanto os autores pretendem. Diferentemente de vários estudos recentes como, por exemplo, os de Ricardo Benzaquem, Ronaldo Vainfas, Marcos Chor Maio, Antonio Dimas, Simone Meucci e Jeffrey Needell, ele não oferece ao leitor nem novas interpretações do trabalho de Freyre nem a apresentação e discussão de novos documentos importantes. É, ao contrário, essencialmente um trabalho de síntese.
Ora, trabalhos de síntese são obviamente indispensáveis, e tão mais bem-vindos quanto escritos de modo acessível e fluente como este.
No entanto, mesmo como um trabalho de síntese, a nova biografia está aberta a sérias críticas, duas em especial: utiliza acriticamente muitas de suas fontes e reconhece insuficientemente o trabalho de outros estudiosos de Freyre. Os dois autores contam a história do jovem Freyre (em detalhes nem sempre significativos) baseando-se amplamente nas palavras do próprio biografado, um autor que falava muito de si mesmo e que, como tantas figuras ilustres, esteve muito envolvido na sua auto-apresentação.
Textos de Freyre -desde o conhecido “diário” “Tempo Morto” [Global], que é uma autobiografia em forma de diário, até os menos conhecidos, como um longo manuscrito autobiográfico, a ser publicado proximamente também pela Global- são citados e amplamente parafraseados, fazendo com que grande parte dos capítulos iniciais da biografia seja um pastiche do rico material autobiográfico que Freyre deixou.

“Ficções da memória”
Apesar de Larreta e Giucci estarem aparentemente conscientes da propensão de Freyre para o que eles chamam de “automistificação” ou “auto-estilização” e de se referirem em nota ao caráter problemático de “Tempo Morto” como fonte histórica, eles desconsideram suas próprias advertências, lendo literalmente como narrativa de vida o que não passa, muitas vezes, de “ficções da memória”, ou seja, palavras de um homem maduro, de prosa brilhante e convincente, revivendo sua juventude.
Como resultado, vemos opiniões de Freyre sendo apresentadas como fatos consagrados, enganos serem perpetuados e recordações idealizadas pela nostalgia sendo tomadas como documentação de realidades vividas. Para só mencionar dois exemplos, seu amigo Bilden não “afogou-se no álcool” e Oscar Wilde não era “considerado vulgar” na Oxford que Freyre conheceu, como é afirmado.
Com um sistema de notas nada convencional, para não dizer totalmente falho, que confunde o leitor, ao invés de esclarecê-lo, o livro lhe dá a entender que esses são “fatos” pesquisados pelos autores, quando são, na verdade, opiniões de Freyre. É ele que escreve em “Tempo Morto” que em Oxford “quase não se fala de Oscar Wilde. É considerado vulgar”.
Já o modo como os autores tratam de seus muitos predecessores no estudo de Gilberto Freyre levanta outras sérias questões sobre procedimento intelectual. Muitas vezes eles resumem interpretações de outros estudiosos sem dar as devidas referências no texto ou em notas, de tal modo que leitores incautos ou desinformados provavelmente lhes darão crédito por descobertas e interpretações que não são originalmente suas. Mas, muito mais importante do que isso, tal procedimento representa uma grande descortesia para com o leitor e um empobrecimento lamentável do diálogo intelectual.

Biografia interrompida
Para citar um único exemplo, em três ocasiões eles discutem o diálogo de Freyre com autores espanhóis, como Angel Ganivet, sem fazer nenhuma referência ao livro de Elide Rugai Bastos, “Gilberto Freyre e o Pensamento Hispânico” [Edusc], que trata magistralmente do mesmo assunto. A parte mais valiosa e original do livro não é tanto a biografia, mas os comentários de textos de Freyre e de seus contemporâneos, incluindo a discussão dos primeiros críticos de “Casa-Grande e Senzala” [ed. Global], apesar de que aqui novamente os autores devem mais do que admitem ao seu predecessor Edson Nery da Fonseca.
A biografia é interrompida em 1936 e é afirmado que a partir dessa época a obra de Freyre seria “sobretudo a ampliação e o desenvolvimento das idéias e intuições anteriores”. Para quem acredita, no entanto, que uma biografia tem de dar espaço para as transformações, o fluxo e as contingências da vida -e resistir ao impulso de estruturar a vida de alguém muito cedo e redutoramente num padrão de explicação- resta muito a ser feito.
No nosso entender, um grande desafio é agora reconstruir, analisar e interpretar as atividades e o pensamento de Freyre entre 1936 e 1987, quando ele se tornou um ídolo, ou uma “instituição nacional”, como dizem os autores, e, tal como um monumento coberto de grafite, passou a ser venerado por uns e execrado por outros.

MARIA LÚCIA PALLARES-BURKE é professora aposentada da USP e pesquisadora associada do Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Cambridge. É autora de “Gilberto Freyre - Um Vitoriano dos Trópicos” (Unesp).
PETER BURKE é professor de história cultural da Universidade de Cambridge e autor de “Uma História Social do Conhecimento” (Zahar). Escreve na seção “Autores”, do Mais!.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

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Articulação Popular Pela Revitalização do Rio São Francisco

Blog Controvérsia na luta contra a trasnposição do Rio São Francisco. Favor enviar a carta abaixo para os e-mail que se seguem ao seu final.

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Exmo. Senhor Presidente da República - Luiz Inácio Lula da Silva

Exmo. Senhor Ministro da Integração Nacional - Geddel Vieira Filho

Saudações cordiais,

Acompanhamos com interesse os planos do Governo Brasileiro para o Rio São Francisco, tanto no que concerne ao Projeto de Transposição quanto ao Programa de Revitalização.

Respeitosamente, dirigimo-nos a V. Ex.a para compartilhar preocupações sobre os previsíveis impactos sociais e ambientais do Projeto de Transposição.

Sabemos a importância histórica, cultural, social, econômica e ambiental do “rio da integração nacional”. Temos também conhecimento dos problemas deste Rio, tais como o desmatamento, o assoreamento, a poluição por esgotos e agrotóxicos, as barragens e o avanço indiscriminado do agronegócio sobre o Cerrado e Caatinga. O estado atual de baixa vazão da barragem Sobradinho de 14% da sua capacidade é prova desta degradação.

O estado de degradação do São Francisco torna temerário qualquer acréscimo de novo uso aos atuais, múltiplos e, em muitos aspectos, já conflitantes.

Desde 27 de novembro de 2007, Dom Luiz Cappio, bispo da Diocese de Barra (Bahia), retomou seu jejum e suas orações em protesto contra a forma autoritária com que o governo federal impõe a obra de transposição do rio São Francisco sem um debate democrático sobre a viabilidade desta obra.

Em carta enviada ao presidente, Dom Luiz lembra que Lula não cumpriu o acordo assumido em outubro de 2005. Na ocasião, Dom Luiz suspendeu um jejum de onze dias, após o presidente ter se comprometido a suspender o processo da transposição e iniciar um amplo diálogo sobre o projeto com a sociedade.

A obra da transposição do Rio São Francisco não tem capacidade de levar água para 12 milhões de nordestinos, como a propaganda quer iludir. Ao contrário, ela é desenhada para beneficiar a produção de frutas nobres, etanol, aço e criação de camarão destinados principalmente para o mercado internacional, enriquecendo ainda mais poucas grandes empresas.

A região semi-árida tem grande diversidade de situações e potencialidades hídricas para o consumo humano e o desenvolvimento sustentável. Para atender à população do semi-árido, há alternativas melhores e mais baratas, por exemplo: as 530 obras sugeridas pela Agência Nacional de Águas (ANA) e que abasteceriam os 1,3 mil municípios da região a um custo de R$ 3,6 bilhões (quase metade dos R$ 6,6 bilhões da transposição). Para o meio rural tem as alternativas de Convivência com o clima desenvolvidas no âmbito da Articulação do Semi-Árido (ASA).

Diante deste quadro, o Projeto de Transposição exige questionamentos e cuidados. Ainda mais, porque se trata de um projeto com varias ilegalidades que estão sendo questionadas judicialmente e que ainda esperam posição do Supremo Tribunal Federal (STF).

Por isso, as pessoas, entidades e organizações abaixo-assinadas pedem que sejam suspensas as obras da transposição, que vem sendo realizadas pelo Exército Brasileiro.

Exigimos que seja ouvido o grito dos povos do São Francisco presente no jejum de Dom Luiz Cappio.

Atenciosamente.

(Seu Nome)

Seguem abaixo seguem os endereços e números de fax dos destinatários da carta:

PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA
e-mail: presidencia@planalto.gov.br
e-mail: protocolo@planalto.gov.br
e-mail: gabinete@planalto.gov.br
Fax: (0055) 61 3411 1865

MINISTRO DE INTEGRAÇÃO GEDDEL VIEIRA LIMA
e-mail: pedro.sanguinetti@integracao.gov.br
Fax: (0055) 61 3321 3122

MINISTRA DO MEIO AMBIENTE MARINA SILVA
e-mail: marina.silva@mma.gov.br
Fax: (0055) 61 3317-1755

Supremo Tribunal Federal:

GABINETE MINISTRA ELLEN GRACIE (Presidente)
e-mail: ellengracie@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174249

GABINETE MINISTRO GILMAR MENDES (Vice-Presidente)
e-mail: mgilmar@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174189

GABINETE MINISTRO CELSO DE MELLO
e-mail: mcelso@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174099

GABINETE MINISTRO MARCO AURÉLIO
e-mail: marcoaurelio@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174309

GABINETE MINISTRO CEZAR PELUSO
e-mail: mluciam@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174219

GABINETE MINISTRO CARLOS BRITTO
e-mail: gcarlosbritto@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174339

GABINETE MINISTRO JOAQUIM BARBOSA
e-mail: gabminjoaquim@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174159

GABINETE MINISTRO EROS GRAU
e-mail: gaberosgrau@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174399

GABINETE MINISTRO RICARDO LEWANDOWSKI
e-mail: gabinete-lewandowski@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174279

GABINETE MINISTRA CÁRMEN LÚCIA
e-mail: anavt@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174355 / 32174369

GABINETE MINISTRO MENEZES DIREITO
e-mail: alexandrew@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174129

Apoio ao Movimento:
apoio.dom.cappio@gmail.com

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Para copiar e colar..

presidencia@planalto.gov.br
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pedro.sanguinetti@integracao.gov.br
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gaberosgrau@stf.gov.br
gabinete-lewandowski@stf.gov.br
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alexandrew@stf.gov.br
apoio.dom.cappio@gmail.com
ricardo@controversia.com.br

Grato.

Ricardo Alvarez

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Uma perigosa questão de tempo

A clonagem como forma de reprodução humana ameaça a dignidade do homem. Mas como detê-la?

Lygia da Veiga Pereira

Esta semana, a Organização das Nações Unidas (ONU) declarou a urgência de se banir internacionalmente a clonagem humana - se isto não for feito, é só uma questão de tempo para surgirem os primeiros seres humanos gerados por esta técnica, que em vez de utilizar a receita natural de reprodução de mamíferos com óvulos e espermatozóides, pretende criar uma cópia de uma pessoa a partir de uma célula qualquer sua. Como se não bastasse, a advertência premonitória da ONU foi reforçada pelo anúncio da clonagem de macacos, nossos primos irmãos! Pelo visto a clonagem humana parece ser inevitável.

Mas por que não clonar seres humanos, e assim reproduzir grandes gênios/atletas, ou “ressuscitar” um ente querido? Mesmo sem considerar os aspectos éticos, legais e psicológicos do ser humano sob medida, a idéia da utilização da clonagem como forma de reprodução humana é rejeitada por toda a comunidade científica internacional. Ao invés de miraculosa, essa forma de reprodução é desastrosa em todas as espécies animais na qual foi aplicada. Para cada clone aparentemente normal, são geradas dezenas de clones malformados, abortados nos mais diversos estágios da gestação, mortos ao nascimento ou alguns dias depois por problemas respiratórios ou cardíacos. Esses subprodutos da clonagem são um preço inaceitável a se pagar por um ser humano. Mesmo assim, ainda existem aqueles que insistem em tais experimentos, numa atitude de total onipotência: hão de encontrar uma República das Bananas onde poderão criar o primeiro clone humano. Como detê-los?

Uma forma é transformar a clonagem humana em crime contra a humanidade. E é isso que a ONU vem tentando fazer desde 2001, quando decidiu criar uma Convenção Internacional proibindo a clonagem reprodutiva de seres humanos. O objetivo principal da convenção era deixar claro que a clonagem como forma de reprodução humana é internacionalmente repudiada e uma ameaça à dignidade do ser humano da mesma forma que a tortura, a discriminação racial, o terrorismo, etc. Essa convenção deveria discutir métodos de prevenção e de monitoramento da clonagem humana, assim como sanções para países que a violassem.

Participei da primeira reunião do comitê organizador da Convenção Internacional contra a Clonagem Reprodutiva de Seres Humanos, em fevereiro de 2002. Nessa reunião ficou clara a existência de um único consenso entre os mais de 80 países representados: a clonagem não deve ser utilizada como forma de reprodução assistida em seres humanos. Porém, mais forte que aquele consenso foi a polêmica em torno das outras aplicações da ciência da clonagem, que depois de três anos de discussão inviabilizou a convenção, transformando-a, em 2005, numa mera declaração contra a clonagem humana sem força de lei…

A polêmica gira em torno da destruição de embriões humanos para a geração de células-tronco (CTs) embrionárias. Estas são o tipo mais versátil de CTs conhecidas, capazes de gerar tecidos para o tratamento de diferentes doenças, desde diabetes e doenças cardíacas até paralisia por trauma de medula espinhal - elas vêm fazendo isso com muita competência em modelos animais há mais de dez anos. Porém, para que sejam utilizadas em seres humanos, precisamos resolver algumas questões técnicas. Uma delas é a compatibilidade entre as CTs embrionárias e o paciente. É aí que entra a clonagem: a chamada clonagem terapêutica, que visa a produzir embriões clonados a partir de uma célula qualquer do paciente e deles retirar as CTs embrionárias - agora geneticamente idênticas àquele indivíduo, e assim sem risco de serem rejeitadas num transplante. No entanto, como essas pesquisas envolvem a destruição de um embrião humano de 5 dias - um conglomerado de aproximadamente cem células -, são inaceitáveis para aqueles que consideram esse embrião uma pessoa.

Enquanto os EUA, em sua administração ultraconservadora, defendiam os direitos do embrião a qualquer custo, países como Israel, China e Inglaterra já permitiam seu uso para fins terapêuticos. Naquela época, o Brasil ainda não havia legislado sobre os direitos do embrião humano (o aborto já era proibido, mas, repito, aqui estamos falando daquele embrião de 5 dias, gerado por fertilização in vitro, esquecido num congelador). Mesmo assim, tivemos a lucidez de nos unir ao grupo que defendia que pontos polêmicos deveriam ser legislados individualmente por cada país e não podiam nos desviar do objetivo principal e urgente: banir internacionalmente a clonagem de seres humanos para fins reprodutivos.

Desde então, tivemos vários avanços nas pesquisas com CTs embrionárias que reforçam a importância de se explorar suas alternativas terapêuticas. A clonagem de macacos anunciada esta semana, por exemplo, foi aquela com fins terapêuticos. E, apesar da eficiência ainda muito baixa da técnica (de 304 embriões clonados, somente dois geraram as CTs embrionárias), o estudo foi um passo fundamental no longo caminho até a clonagem terapêutica em seres humanos.

No Brasil, a Lei de Biossegurança de 2005 proíbe “a clonagem humana” - e, ao não diferenciar os dois tipos de clonagem, essa proibição se estende à clonagem terapêutica…, mas permite o uso para pesquisa de um número finito de embriões, aqueles congelados até março de 2005 e que estejam congelados há pelo menos três anos. Se por um lado temos uma limitação importante do número de embriões disponíveis, esta é uma solução temporariamente aceitável, que permite o início das pesquisas com CTs embrionárias no País. À medida que as promessas terapêuticas dessas células se tornam realidade, devemos rever a legislação.

Vários países desenvolvidos, incluindo Inglaterra, Austrália e os próprios Estados Unidos (sem uso de verba do governo federal), permitem e investem na clonagem terapêutica, e por isso não faz sentindo misturá-la com a reprodutiva. Seria como banir a pesquisa com o átomo por causa da possibilidade da bomba atômica. Em sintonia com a ciência, se o anúncio da ONU alerta para o perigo da clonagem reprodutiva, ao mesmo tempo reconhece a inevitabilidade da clonagem para fins terapêuticos.

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

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O cavalo retoma as suas atividades

Jean-Louis Andreani

Nesta manhã, Pola reagiu da mesma forma que as crianças do jardim de infância que ela está levando para a escola: ela precisou de um pouco de tempo para despertar. O condutor da carruagem de transporte escolar de Saint-Pierre-sur-Dives (Calvados, Baixa Normandia) precisa se mostrar persuasivo para que ela mantenha o seu trote regular e sonoro. Todas as manhãs, ela atravessa esta cidade de 4.000 habitantes, entre Caen e Livarot, para transportar em duas viagens 24 menininhos e menininhas de um bairro periférico. Desde a volta às aulas de 2006, esta égua percherão cinza de 4 anos dá conta da tarefa de apanhar uma parte dos 127 alunos em lugares distantes. Foi logo após a reunião de duas escolas maternais que Hervé Lucas, o adjunto do prefeito encarregado do turismo, pensou na égua municipal, que já apanhava as cestas de lixo públicas para a coleta do papel, e ajudava até mesmo na tarefa de regar os jardins…

Um ano depois, a aposta está ganha. “O cavalo é a grande estrela da história!”, sublinha Régine Riguidel, a diretora da escola maternal. “Aqueles que não têm a sorte de ir para a escola com Pola, vão visitá-la na estribaria”. Quanto aos seus “fregueses”, eles são oriundos de famílias desfavorecidas, as quais não teriam condição alguma para levar os seus rebentos para um clube eqüestre, de modo que eles pudessem descobrir o universo de doçura que pode sugerir o olhar de um cavalo. Aliás, uma das pequenas confirma isso: “Eu gosto muito da Pola, porque ela é gentil…”

Hervé Lucas é um reincidente. Saint-Pierre-sur-Dives foi, em 1993, a primeira comuna da França a ter uma égua dedicada a puxar carruagens. Um dia, ao ver um antigo furgão a diesel cujo motor morria a cada vinte metros, e que toda vez retomava vida no tranco, soltando nuvens de fumaça preta, tudo isso para esvaziar as cestas de lixo municipais, Hervé Lucas deu-se conta de que aquilo era absurdo. No coração desta Baixa Normandia, berço da criação do cavalo percherão, Lucas comprou Uranie. O que causou uma grande polêmica.

Nas eleições municipais de 1995, a equipe em final de mandato foi derrotada; a égua deve ter tido a sua parcela de responsabilidade nisso. O novo prefeito prometeu enviá-la “para o açougue”. Graças à mobilização de uma parte dos habitantes, ela escapou do facão.

Em 2001, os ventos eleitorais voltaram a mudar de rumo. A égua Uranie retomou então as suas atividades; e, mais tarde, já envelhecida, ela cedeu seu lugar à Pola de Nesque, seu nome verdadeiro. “Quando eu vejo as pessoas pararem na rua para verem Pola passar, percebo que a minha felicidade está justamente nisso”, sublinha Hervé Lucas. A Câmara regional e o conselho municipal financiaram 50% do investimento. Para compensar os três novos empregos que a égua gerou, algumas saídas de funcionários se aposentando não serão substituídas.

A cerca de quarenta quilômetros dali, na área costeira, Lasso, um poderoso cob normando alazão, é outro que faz ressoar o seu passo calmo nos paralelepípedos de Trouville, uma estância turística que conta 5.500 habitantes no inverno. Ele pára na frente de cada bar. Isso não quer dizer que Lasso seja um beberrão. É que o cavalo faz parte de uma equipe de cinco empregados municipais, dos quais três são bípedes, encarregados da coleta do vidro. Todos eles foram contratados por Olivier Linot, o homem do “cavalo territorial”. Além de ser o diretor geral dos serviços da cidade, ele é o presidente da Comissão Nacional de Desenvolvimento que organiza em Trouville, quase a cada ano desde 2002, um congresso em torno deste tema.

Olivier Linot, sobretudo, não quer passar por um ecologista sonhador. O seu raciocínio é econômico, social e societário, antes de ser ecológico. No início dos anos 2000, Trouville manifestou preocupação diante da enorme quantidade cotidiana de lixo doméstico que precisa ser transportado. De fato, todo aquele peso provém do vidro usado que os cerca de 80 restaurantes da região jogam fora.

A prefeitura planejou então uma coleta separada, se possível por meio de um veículo não poluidor. Mas o entusiasmo de Olivier Linot esfriou diante dos custos da operação. Por que não recorrer a um cavalo, então, como em Saint-Pierre? Festival de Maio, o primeiro percherão a ser convocado para a coleta seletiva, apareceu então na cidade, chamando a atenção de todos. E isso, por menos de 10.000 euros (cerca de R$ 25.500), preço este que inclui também a carriola. A prefeitura contratou três pessoas, o mesmo número do que para um caminhão, segundo afirma Linot. E isso, mesmo se o cavalo exige uma maior disponibilidade, inclusive durante os fins de semana. “É uma questão, sobretudo, de organização”, sublinha. Mais tarde, Festival de Maio contará com a companhia de Lasso.

Com isso, o novo cavalo urbano pode ser tanto lixeiro quanto policial, auxiliar pedagógico ou terapeuta… Nos cinturões ou nos pulmões “verdes” das cidades, ele é um “ecoguarda”, ou ainda um agente florestal a serviço da ONF (Organização Nacional das Florestas). Em todos os lugares, ele leva uma grande vantagem - a única, dizem os seus detratores: ele valoriza a imagem do homem. Do prefeito ao policial militar, passando pelo modesto empregado municipal a quem ele proporciona uma motivação preciosa.

Em sua maioria, os cavalos urbanos são utilizados para a vigilância. Segundo os Haras Nacionais, no final de 2006, mais de mil cavalos eram dedicados a esta tarefa. Desde então, ao menos 25 cidades adotam cavalos na sua polícia municipal. Dentre elas estão Caen, Versalhes, Bordeaux, Montpellier…

A Guarda Republicana foi a primeira que organizou patrulhas a cavalo, inicialmente em floresta, depois em Paris e atualmente em certas praias a beira do rio Sena, no verão. A guarda montada também voltou a atuar em tarefas como aquela que consiste em escoltar os torcedores de futebol ou de rúgbi no caso da recente Copa do Mundo. Quanto à polícia nacional, a sua primeira unidade eqüestre foi criada em 1994, com a missão de garantir a segurança do parque departamental de La Courneuve (na periferia parisiense). Nesta área, os seus policiais montados cotejam os guardas a cavalo do conselho municipal, nas proximidades dos conjuntos habitacionais sensíveis da Seine-Saint-Denis. Para as saídas dos jogos no Stade de France, 7 policiais a cavalo substituem 35 homens a pé. No conjunto desta região, 80 cavaleiros empregam 47 cavalos.

O cavalo é tão apreciado que uma discreta guerra das polícias montadas vem opondo policiais e policiais militares da Guarda Republicana. Para todos eles, o cavalo é considerado como um “mediador” precioso. “Quando há cavalos num bairro, os moleques vão conversar com o “tira”, porque ele é um amestrador de cavalos!”, comenta Olivier Linot, ele mesmo oriundo de um bairro desfavorecido. A 2,50 m de altura, o olhar do cavaleiro tem um ângulo de visão considerável, na distância e para todos os lados. O cavalo não polui, tem acesso a lugares que são vetados às máquinas motorizadas; ele é mais rápido e imponente do que um pedestre. Com efeito, a sua imagem é ambivalente. Apaziguador, ele pode dissuadir e participar das tarefas repressivas.

Cerca de 70 comunas participaram do congresso de Trouville em 2007, contra 15 em 2002. Os recalcitrantes apontam os excrementos do cavalo (um problema que é facilmente resolvido com sacolas para os cavalos atrelados), e também os perigos acarretados pelo cavalo; eles duvidam da sua eficiência, criticam o seu custo… “Nós estamos num mundo do mineral, e a ele acrescentamos vida”, rebate Olivier Linot. “Isso não tem preço!”.

Jornal Le Monde
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América Latina traz renovação para a esquerda, crê Ramonet

Diretor do “Monde Diplomatique” diz que a reforma constitucional de Chávez dá poder à sociedade e defende observatórios para monitorar imprensa

CLAUDIA ANTUNES

Diretor do “Monde Diplomatique”, publicação mensal francesa lançada em 1954 que se consagrou pela orientação de esquerda, o espanhol Ignacio Ramonet, 64, acaba de fazer mais um périplo pela América Latina. Esteve em Buenos Aires, Santiago, Salvador e São Paulo, onde falou na última quinta no Salão Nacional do Jornalista Escritor, promovido pela Associação Brasileira de Imprensa, que termina hoje no Memorial da América Latina.
Ramonet vem defendendo o projeto de criação de observatórios destinados a monitorar a mídia, segundo ele “o único poder que não tem um contrapoder”. Em entrevista à Folha, ele defendeu com veemência o governo do venezuelano Hugo Chávez. Disse também que considera um alento o fato de esquerdas “muito diferentes” estarem surgindo na região, frente ao esgotamento dessa força ideológica no resto do mundo. Leia trechos da entrevista, feita por telefone, na última segunda-feira.

FOLHA - Seu interesse pela América Latina cresceu nos últimos tempos, não?
IGNACIO RAMONET - Para minha geração, nascida logo após a Segunda Guerra, o grande debate político foi a descolonização, a africana em particular, mas simultaneamente prestamos muita atenção ao que acontecia na América Latina com a Revolução Cubana, as guerrilhas, a repressão. Hoje o interesse é maior porque, quando todas as esquerdas internacionais parecem esgotadas, aqui surgem esquerdas muito diferentes entre si, mas com apoio popular forte em quase todos os países em que há eleições.

FOLHA - Muitos apontam que a melhora econômica na região se deve à situação internacional e não a políticas de esquerda.
RAMONET - É óbvio que uma parte do crescimento latino-americano se deve à conjuntura econômica internacional. Mas há agora uma situação especial na região, em razão da sua pacificação geral, com exceção da Colômbia; da democracia, com regimes legítimos e legais; e do fato de governos de esquerda estarem adotando uma política mais ou menos intensa de redistribuição.

FOLHA - O senhor falou num ambiente de pacificação, mas esse não é o quadro que se vê na Venezuela ou na Bolívia, por exemplo…
RAMONET - Falei de pacificação no sentido de que os governos são legítimos e não há insurgências. Mas isso não quer dizer que não haja violência social. O Brasil e o Chile estão entre os países mais desiguais do mundo. E há toda a tensão política em torno da Venezuela, em razão da rapidez e da força da transformação lá, que desestabiliza os poderes tradicionais.

FOLHA - O senhor tem estado muito próximo de Chávez, não?
RAMONET - Tenho a sorte de ter acompanhado a experiência venezuelana desde o início e de ter podido conversar regularmente com o presidente Chávez. Me parece que até agora ele manteve sua linha de respeito absoluto ao funcionamento democrático e à economia de mercado, por outro lado levando adiante a política de redistribuir os lucros do petróleo.

FOLHA - Há dois aspectos preocupantes na situação interna venezuelana: a reforma constitucional, que concentra os poderes nas mãos do presidente, e a pouca tolerância com o debate. Chávez não radicalizou demais depois da reeleição?
RAMONET - Antes de introduzir a proposta de reforma constitucional, Chávez já era objeto de ataques muito violentos. O argumento da Constituição não é mais do que a continuação dessa política de desqualificação permanente. O fato é que o presidente nunca disse que ia impor a reforma da Carta, mas propor e submetê-la à decisão popular. Ninguém se escandaliza no mundo porque em 2000 o presidente [francês Jacques] Chirac fez um referendo para mudar a Constituição e permitir que o presidente pudesse ser reeleito indefinidamente, sem a limitação a dois mandatos.

FOLHA - Mas mesmo alguns dos que apoiaram Chávez estão preocupados com a centralização do poder na figura dele e na supressão do debate até dentro do governismo.
RAMONET - Chávez sabe desde 2002 que a personalização do processo boliviariano o expõe de maneira excessiva. Contrariamente a tudo o que se diz, desde então ele está ampliando o processo, tirando poder da oligarquia e do sistema tradicional e transferindo-o maciçamente à sociedade. Dessa maneira, se o matam amanhã, o que desgraçadamente é possível, a sociedade tem poder para defender o processo.

FOLHA - Que balanço o senhor faz da revolução das comunicações produzida pela internet?
RAMONET - A internet suscitou uma grande ilusão, a de uma comunicação democrática, relativamente barata, fácil de conseguir e planetária. Hoje vivemos uma certa decepção. Em geral os sites de internet mais freqüentados, os dez primeiros em cada país, já pertencem aos meios dominantes desse país. Resta a alternativa individual de criar um site, um blog.

FOLHA - E o que o senhor propõe?
RAMONET - Acho que é preciso estimular todos os meios públicos, criar um equilíbrio entre meios privados e públicos, que não existe na maioria dos países latino-americanos. Eu propus a criação de observatórios. Hoje os meios de comunicação são o único poder que não têm um contrapoder, como têm os poderes político, econômico. O poder midiático não aceita um contrapoder, por essa característica de se considerar o guardião da liberdade de expressão e da democracia.

FOLHA - Qual é o limite entre a fiscalização e a censura?
RAMONET - Os observatórios não têm o objetivo de censurar ou corrigir, mas de submeter os meios aos critérios de funcionamento jornalístico que eles próprios definem. Publicariam um informe sobre os desrespeitos aos objetivos expressos pelo próprio meio e seriam formados por jornalistas, professores de comunicação e leitores.

FOLHA - E como vai seu jornal?
RAMONET - Também passamos dificuldades na difusão em papel. Nossa página na internet tem crescimento regular, mas a edição francesa teve queda de 5% neste ano. Temos 70 edições internacionais, que somam 2 milhões de exemplares.

Jornal Folha de S. Paulo
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Criollos, mazombeiros e reis, por que não se calam?

Ninguém nega que o presidente Hugo Chávez é uma liderança impulsiva, sujeita, por vezes, a exageros e atropelos verbais. Mas o que aconteceu no encerramento da 17ª Cúpula Ibero-Americana, no Chile, é por demais significativo para ficarmos no campo das aparências.

Gilson Caroni Filho

Ao mandar, aos gritos, o presidente venezuelano se calar, quando ele chamou José Maria Aznar de fascista por ter apoiado a empreitada golpista de 2002, o rei Juan Carlos deslocou o debate do campo político e promoveu o retorno de algo que o passado histórico insiste em recalcar: a perversão colonialista.

O “por que não se cala?” é uma clara realização de desejos adormecidos em tempos de império. Não é apenas a irritação de um chefe de Estado com o presidente que lhe diz verdades incômodas; é muito mais que isso. É a raiva de um Bourbon contra mestiços e camponeses que ousam promover levantes contra o jugo espanhol. É um recado póstumo a José Antônio Galan e sua Revolta dos Comuneros, em 1871. É a reiteração da impossibilidade de êxito na luta pelo fim da servidão do trabalho indígena.

O anjo da história de Juan Carlos também está voltado para o passado. Mas ao contrário do Angelus Novus, da tela de Paul Klee, interpretada brilhantemente por Walter Benjamin, ele não vê escombros. Não gostaria de se deter e despertar os mortos. Pelo contrário, ele quer a certeza que o corpo de Tupac Amaru II permanece inerte em Cuzco. O sinal permite que sua representação simbólica fique clara: Por que não se calam Chávez, Morales, Ortega, Michelle Bachelet e Rafael Correa? Acaso não sabem que o comércio entre colônias está proibido? Ignoram que habitam o Vice-Reino da Prata e a lógica absolutista não lhes reconhece direitos? Então, por que não se calam de uma vez por todas?

O regozijo com a determinação da realeza se fez presente no imaginário de distintas elites da América Latina. Não foram apenas os “criollos” hispano-americanos que explicitam seu encantamento. Os nossos conhecidos ” mazombeiros” também não pouparam munição.

Para o cientista político Cândido Mendes “as palavras impacientes do rei Juan Carlos falaram por um sentimento internacional generalizado quanto à escalada do ego de Chávez, confundido com a busca da alternativa ao modelo neocapitalista vindo no bojo da hegemonia americana”(…) Quem sabe podem dar um basta ao desmando da revolução bolivariana levada ao grotesco por sobre o ímpeto de sua primeira esperança”. Eis um texto que prima tanto pelo estilo prolixo quanto pela desencanto suspeito. Algo comum na literatura política nacional que busca, em formulações áridas, o disfarce para o seu habitual arrivismo.

A direita parlamentar de Pindorama também se manifestou. O senador Demóstenes Torres (Demo-GO) escreveu para um conhecido blog jornalístico: “O presidente plenipotenciário da Venezuela, Hugo Chávez, finalmente tomou merecida carraspana. Chávez chegou saliente à 17ª Cúpula Ibero-Americana e saiu do Chile com cara de cachorro de rua. Coube ao rei da Espanha, Juan Carlos, como um pai impaciente com desajustado e incorrigível filho, mandar que ele se calasse” Sem querer, tocou em questão sensível para o monarca espanhol.

O rei de Espanha é produto do fascismo de Franco. Foi criado por ele, à sua medida e semelhança. Jurou as Leis Fudamentais do Regime, embora não tenha jurado a Constituição de 1978 que institucionalizou a monarquia em um sistema parlamentarista. Para chegar ao trono, foi cúmplice do ditador que exigiu a renúncia de seu pai.

Os momentos e movimentos da história espanhola registram insólitos arranjos de filiação que, sem dúvida, não prescindem do olhar psicanalítico.Se o retorno do recalcado é a volta do que ficou reprimido em nome do pacto com a figura paterna, a reação de Juan Carlos ao ouvir Chávez dizer que Aznar é fascista, não deixa dúvidas quanto ao pai escolhido.

Como destacou Mauro Santayanna em artigo recente, antes de se pronunciar pela “legalidade democrática”, o rei silenciou durante a tentativa de golpe de Estado na Espanha, em 1981. Para FHC, no entanto, sua posição no episódio “foi absolutamente fundamental para a democracia”. A história, inegavelmente, comporta várias leituras, mas para “criollos” e “mazombeiros” uma versão eurocêntrica cai bem melhor.

Sobre estes últimos, escreveu Anísio Teixeira: “na definição de Viana Moog consiste (o mazombismo) na ausência de determinação e satisfação de ser brasileiro, na ausência de gosto por qualquer tipo de atividade orgânica, na carência de iniciativa e inventividade, na falta de crença na possibilidade do aperfeiçoamento moral do homem, em descaso por tudo quanto não fosse fortuna rápida, e, sobretudo, na falta de um ideal coletivo, na quase total ausência de sentimento de pertencer o indivíduo”. (*)

Há 45 anos, portanto, em publicação conceituada, estava definido o estado de espírito que norteia a oposição brasileira. Aquela para quem o rei de Espanha ensina democracia. Antevisão ou premonição? Mais uma vez, toda solidariedade a Chávez.

Carta Maior
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Um demolidor elegante e otimista

O geógrafo Milton Santos, cuja obra é relançada, percebia o mundo como um viveiro de possibilidades

Francisco Quinteiro Pires

Milton Santos define a clarividência como sendo a dosagem entre intuição e estudo no espírito de um homem. Quando deu essa definição no documentário Encontro com Milton Santos ou O Mundo Global Visto do Lado de Cá, de Silvio Tendler, o geógrafo baiano referia-se a Josué de Castro, de quem recebeu sólida influência intelectual. ‘Mas ele falava de si mesmo também’, diz o cineasta. ‘Milton Santos era um bruxo’, concorda a professora aposentada da USP Maria Adélia Aparecida de Souza.

Como são poucos os homens clarividentes de fato, só por esse motivo poderia ser válida uma consideração especial a respeito de Milton Santos (1926-2001). Ele entra para a história intelectual do País não só por antever as perversidades da globalização e os fenômenos mundiais da urbanização, mas por ter revolucionado a geografia, ao entendê-la como uma ciência humana e não natural. Nessa perspectiva, ele se torna um intelectual que mira o mundo como um viveiro de possibilidades e não como um amontoado de realidades.

Suas idéias resgatam o que há de humano dentro do espaço geográfico, o qual se transforma em instância social - categoria de análise e interpretação tão fundamental quanto a cultura, a economia e a política para entender as características estruturais dos países. Ele fazia a nação falar por meio desse conceito da geografia. ‘Os cientistas sociais tiveram dificuldade de entender a proposta de que o espaço é sinônimo de sociedade, é uma paisagem reveladora do território, cujo uso material é feito por sujeitos sociais’, diz Maria Adélia.

‘O espaço materializa as relações sociais’, explica o geógrafo Wagner Costa Ribeiro, colega de Milton desde 1988. O estudo da urbanização dos países do Terceiro Mundo mostra como os pobres vão se concentrando nas cidades, onde, se não conseguem emprego, têm mais chances de achar trabalho, mesmo que precário e provisório. Produtora de uma estrutura de sociodiversidade, essa concentração possibilita transformações políticas e sociais. ‘Segundo Milton, as mudanças viriam dos pobres’, diz Ribeiro.

Para entender por que o geógrafo baiano tinha essa convicção otimista é preciso primeiro saber que ele não era um combatente da globalização em si, mas do processo globalizante tal como realizado atualmente no planeta. ‘Milton via a globalização como um sonho coletivo da humanidade, que foi expropriado por um punhado de empresas monopolistas’, diz Silvio Tendler, que fez uma longa entrevista com ele em janeiro de 2001, cinco meses antes da morte do intelectual brasileiro, e a transformou em documentário. O primeiro contato do documentarista com o professor foi em Paris, em 1995, por conta de um filme que Tendler realizava sobre o médico pernambucano Josué de Castro (1908-1973).

‘O ambiente globalizado onde se realizam as trocas mercantis é apropriado por poucas empresas, que produzem o convencimento de que os seus negócios são bons para todas as nações’, explica a geógrafa argentina Maria Laura Silveira, que escreveu com o intelectual baiano Brasil: Território e Sociedade no Século 21 (Record, 490 págs., R$ 58), no qual são apresentadas pesquisas de mais de 20 anos feitas por Milton - o crescimento econômico e populacional mais acelerado nas cidades médias do que nas metrópoles, no fim do século 20, é uma das principais conclusões desse trabalho. ‘A microeconomia da firma se confunde com a macroeconomia dos países’, resume Maria Laura, que se radicou no Brasil em 1991 para trabalhar com Milton, conquistador de discípulos pelos países onde lecionou. A inteligência fulgurante e a personalidade solidária, de trato afável e traço elegante, são suas principais marcas, segundo a descrição dos entrevistados que conviveram com o acadêmico dadas ao Estado.

No entendimento de Milton Santos, a globalização em um ‘mundo confuso e confusamente percebido’ deve ser considerada a partir de três enfoques: o mistificado, o real e o possível. ‘O primeiro seria o mundo tal como nos fazem vê-lo: a globalização como fábula; o segundo seria o mundo tal como ele é: a globalização como perversidade; e o terceiro, o mundo como ele pode ser: uma outra globalização’, ele escreve no estilo sintético e cortante que lhe é característico em Por Uma Outra Globalização - Do Pensamento Único à Consciência Universal (Record, 176 págs., R$ 32).

Diante desse fenômeno mundial excludente, Milton alertava para o uso da trinca chamada de ‘técnico-científico-informacional’ - trazida no bojo da globalização - pelos menos favorecidos, que com ela tomam contato ao viver em grandes aglomerações urbanas. Trocando em miúdos, os pobres se apropriam à sua maneira das técnicas e tecnologias tornadas disponíveis no espaço geográfico pela sociedade global. ‘A difusão da informação em tempo real, antes somente manipulada para servir à acumulação financeira de bancos multinacionais, que têm interesses privados, se materializa em celulares e computadores, que podem ser usados por manifestantes na periferia de Paris ou dentro do sistema prisional brasileiro’, exemplifica a professora Maria Adélia, que, ao analisar a manipulação dos meios técnicos pela massa, prefere não atravessar essa análise por um julgamento moral. Os refugados pela globalização se apropriam da tecnologia e das informações e, sem mediação do poder, traçam lentamente estratégias políticas de ação, na explicação da geógrafa, que se tornou amiga de Milton em 1966, depois de um fato inusitado: uma trombada com ele, quando corria apressada para se encontrar com o economista Celso Furtado, seu orientador. Antes do encontrão no meio da rua, ela tinha saído de uma livraria, ao lado da Sorbonne, onde comprara duas publicações do professor baiano, cujas idéias despertavam já admiração.

A organização do espaço geográfico é feita para atender à volúpia consumista, um ópio mais poderoso do que a religião. Essa é uma das teses centrais de Milton Santos em O Espaço do Cidadão (176 págs., R$ 35), relançamento mais recente da Edusp, que desde 2002 reedita as obras esgotadas do geógrafo. Publicado originalmente em 1987, esse livro lança luzes sobre o projeto de país criado pela Nova República, sucessora do regime militar, que obrigou Milton a perambular como exilado, a partir de 1964, por países como França, Estados Unidos, Venezuela e Tanzânia. Ele voltou em definitivo ao País em 1978, mas encontrou hostilidade no meio universitário para ser reaceito como docente, o que ocorreria alguns anos depois. A passagem pela academia francesa durante o exílio é essencial na formação intelectual do professor. A vivência na Europa mostra-lhe também o atraso brasileiro no que se refere às conquistas sociais, que se intensificaram no Velho Continente sobretudo depois da 2ª Guerra Mundial com o surgimento do Estado de Bem-Estar Social.

Neste relançamento, ele manifesta com exuberância a sua característica de ‘filósofo da geografia’ - na definição do colega Aziz Ab’Sáber -, profundamente influenciado pelo existencialismo de Jean-Paul Sartre e pela filosofia da técnica de José Ortega y Gasset.

E Milton é categórico: no Brasil, não existem cidadãos. ‘Em lugar do cidadão formou-se um consumidor, que aceita ser chamado de usuário.’ É o ‘cidadão mutilado’ transformado no ‘consumidor mais-que-perfeito’. A glorificação da sociedade de consumo impõe a cultura de massas no lugar da cultura popular. E constrói o individualismo feroz, que detona a noção de individualidade, a qual tem tudo a ver com tomada de consciência, fundamental para o homem se entender como cidadão e reivindicar direitos e mudanças.

Mas esse estado desolador é transitório. ‘A história do homem se faz, em todos os tempos, da sucessão de momentos (…) de obscuridade e cegueira e de momentos de luminosidade, em que a recuperação da consciência restaura o ser humano na dignidade de viver, que também é busca e escolha de caminhos (…), e não apenas prisão do cotidiano’, escreve em O Espaço do Cidadão. ‘Para ele, a âncora dos seres humanos está no futuro e não no passado’, diz Maria Adélia, que semanas antes da morte do ganhador do Vautrin Lud (1994), um prêmio Nobel da geografia, escutou o seguinte: ‘Não quero o poder nem a glória, mas terei a imortalidade.’ Neto de escravos, Milton Almeida dos Santos sabia ser a posteridade o seu espaço.

Jornal Estado de S. Paulo
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Gorilas de montanha à beira da extinção

Virunga, na República Democrática do Congo, é o primeiro parque nacional da África. Na lista Unesco do Patrimônio Natural da Humanidade desde 1979, ele abriga a maior parte dos gorilas de montanha existentes no mundo

Maíra Lie Chao

Os dados são alarmantes: só no último “ataque”, em setembro, quatro gorilas, três fêmeas e um macho de costas prateadas, foram mortos. Uma família inteira. Eles pertenciam a um grupo que habitava a Montanha dos Gorilas, no Parque Nacional de Virunga, na República Democrática do Congo (RDC). Desde o início deste ano, nove animais foram abatidos. Entre eles, o macho Karema, que foi morto e devorado por rebeldes que utilizam a área do parque como refúgio.

Restos do animal foram encontrados espalhados pela propriedade, muitos deles entre excrementos humanos. Karema pertencia a uma família de gorilas acostumada com as visitas de turistas. Quando os gorilas se familiarizam com a presença humana, tornamse alvos fáceis para os rebeldes.

Gorilas não costumam ter comportamento violento. Ao se sentirem ameaçados, urram e batem no peito para afugentar o agressor. Só quando a técnica não funciona, partem para um confronto corporal. Nesse meio tempo, os caçadores se aproveitam da situação para atirar e abater os animais.

No total existem apenas cerca de 700 gorilas de montanha no mundo. Pelo menos 370 habitam - ou habitavam - o Parque Nacional de Virunga. Recentemente foram encontrados dois cadáveres de fêmeas que carregavam os seus filhotes. Os pequenos foram entregues aos cuidados de entidades que lutam pela preservação da vida selvagem no parque, mas eles correm o risco de não sobreviver, porque ainda estão na fase de amamentação.

A reprodução dos gorilas se assemelha muito à do homem. Eles não têm relações sexuais com membros de sua própria família, como filhos, mãe, irmãos. Portanto, um gorila precisa arranjar um parceiro ou parceira que pertença a um outro grupo.

O número limitado de gorilas na região pode representar dificuldade para a formação de casais e, conseqüentemente, para a reprodução da espécie. Vegetarianos, tranqüilos, vivendo em pequenas comunidades no alto das montanhas, os gorilas não representam qualquer ameaça às populações que vivem na região.

Existem apenas 700 GORILAS de montanha no MUNDO e mais da metade deles habita o Parque Nacional de Virunga

OS GORILAS são a maior atração turística do Parque Nacional de Virunga. Eles representam o ingresso de aproximadamente US$ 5 milhões ao ano para os três países que dividem o território do parque e os seus arredores - a República Democrática do Congo, Uganda e Ruanda.

Vários fatores ameaçam seriamente a existência dos gorilas de Virunga: além da caça ilegal e dos conflitos militares, ocorre uma destruição do seu habitat pelo desmatamento. Ocasionalmente, alguns gorilas são consumidos como fonte de proteína na dieta da população e partes de seus corpos são vendidas como troféus no mercado negro. Atualmente, eles têm sido vítimas de conflitos humanos.

“Interpretamos os dois últimos incidentes - de junho e julho -, como um ato de sabotagem ao parque pelos grupos poderosos que controlam o comércio de carvão”, comenta Samantha Newport, diretora de comunicação da Wildlife Direct, ONG que auxilia na preservação ambiental da área. No caso dos conflitos militares, os gorilas são abatidos por estarem entre dois fogos, o dos grupos de rebeldes e o das tropas armadas do Congo.

“A Montanha dos Gorilas enfrenta um enorme perigo, bem como os guardas florestais que tentam protegê-la. Eles precisam de ajuda e suporte. Nós não acreditamos que os rebeldes estejam mirando os gorilas. Eles apenas habitam umas das áreas consideradas importantes para os grupos armados”, afirma Emmanuel de Merode, diretor do Wildlife Direct.

O INSTITUTO Congolês para a Conservação da Natureza (ICCN) administra o parque. Contudo, devido aos conflitos, o ICCN não consegue arrecadar fundos o suficiente e recebe suporte de ONGs, como a Wildlife Direct. Por sua vez, ela repassa fundos para a proteção e conservação da fauna e da flora de Virunga.

Entre 11 e 22 de agosto, especialistas da Unesco e da União Mundial para a Conservação, acompanhados por membros do United Nations Environment Programme se reuniram para estudar soluções com o objetivo de salvar os primatas que vivem no parque. O ICCN também pediu ajuda para o monitoramento de Virunga.

O Parque Nacional de Virunga, onde se situa a Montanha dos Gorilas, se localiza a sudeste da República Democrática do Congo e faz fronteira com Uganda e Ruanda. A parte da montanha pertencente ao Congo é a mais vulnerável. “Em Ruanda e Uganda não existem os mesmos conflitos humanos. Mesmo sendo Ruanda um país densamente povoado - fato que pressiona o habitat dos gorilas -, os animais ali são mais protegidos por conta da situação política”, reflete Samantha Newport.

Conflitos étnicos e pobreza são cenas comuns na África. Mas as milícias que combatem nas montanhas constituem a maior causa dos massacres de gorilas. “Se esses ataques continuarem, os animais que vivem na área congolesa da Montanha dos Gorilas serão extintos rapidamente”, completa Merode.

Serviço
http://whc.unesco.org
http://www.wildlifedirect.org/gorillaprotection
http://www.awf.org

Mortes e desaparecimentos desde o início de 2007
Janeiro: dois machos de costas prateadas foram mortos e uma fêmea desapareceu.
Junho: um ataque à família Kabirizi resultou na morte de uma fêmea com filhote, e uma outra fêmea que desapareceu.
Julho: um ataque à família Rugendo causou a morte de quatro fêmeas, deixando um órfão e um outro filhote que desapareceu (dado como morto). De 12 animais só restaram cinco (considerando-se o bebê desaparecido como morto). A única fêmea sobrevivente ainda não está em idade de reprodução.
Agosto: um macho de costas prateadas desapareceu.
Total de mortos no período: 9
Total de desaparecidos: 2

Revista Planeta
http://www.terra.com.br/revistaplaneta/

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