Arquivo de 7 de Dezembro de 2007

Natureza em construção

PROFESSOR EMÉRITO DA UNIVERSIDADE DE CHICAGO, MARSHALL SAHLINS FALA DE SUA EXPERIÊNCIA COM NATIVOS DA OCEANIA E COMPARA A GUERRA DO IRAQUE AOS CONFRONTOS ENTRE ESPARTA E ATENAS

FRANÇOIS ARMANET

Marshall Sahlins, 76, é professor emérito da Universidade de Chicago. Colaborador de Claude Lévi-Strauss nos anos 1960, Sahlins é considerado o maior antropólogo americano vivo. Ele é autor de livros como “História e Cultura” (ed. Jorge Zahar) e “Esperando Foucault, ainda” (Cosacnaify).
Especialista nas culturas do Pacífico, conservou seu espírito de contestador, forjado com a Guerra do Vietnã, como se verifica na entrevista abaixo. Sahlins também fala da Guerra do Iraque e a compara aos confrontos entre Atenas e Esparta, na Antigüidade.

PERGUNTA - De origem russa, o sr. nasceu em Chicago, berço de uma grande escola da antropologia norte-americana. De onde lhe veio o gosto por essa disciplina?
MARSHALL SAHLINS - A Universidade de Chicago de fato foi berço de uma grande escola de antropologia, mas quando cheguei a ela, em 1973, esse movimento já tinha envelhecido. Foi a escolha de Radcliffe-Brown para uma cadeira de professor, nos anos 1930, que fez de Chicago o posto avançado, nos EUA, da antropologia social britânica, ao preço de várias conciliações com a cultura local, como é o caso nesse gênero de situação colonial.
A universidade ficava no South Side, um bairro que, além da equipe de beisebol rival, abrigava judeus alemães bastante esnobes, mais cultos e ricos que os judeus originários da Europa Oriental que viviam no West Side. A gente não se misturava.
Sempre faço questão de acrescentar que tive uma criação inteiramente laica numa família não-praticante. Quanto à política, minha família não era filiada a nenhum partido, mas minha mãe admirava Emma Goldman [1869-1940, militante anarquista] e, durante o levante russo de 1905, quando ainda era criança, chegou a transportar folhetos revolucionários escondidos em sua mala escolar!
Havia, portanto, afinidades entre esse meio de imigrantes esquerdistas do Meio-Oeste americano e as teorias antropológicas de Leslie White [1900-75], que foi meu mentor na Universidade de Michigan. White era um dos grandes “intelectuais orgânicos” contestatários que a América rural e das pequenas cidades produziu na primeira metade do século 20, entre os quais figuram também Thorstein Veblen, Clarence Ayres, Charles Beard e C. Wright Mills.
Eles eram, por assim dizer, os ateus da aldeia: universitários marginais em revolta contra os exploradores, as classes dominantes, os dogmas ideológicos da sociedade americana.

PERGUNTA - Em 1965, em plena Guerra do Vietnã, o sr. lançou o primeiro “teach-in” [manifestação em forma de aula] dos EUA. Poderia nos relatar essa experiência e o papel que esse evento exerceu em seu pensamento?
SAHLINS - Lancei a idéia de um “teach-in”, em oposição ao projeto inicial de “teach-out” lançado por cerca de 20 professores, que teria consistido em suspender as aulas para organizar debates sobre a Guerra do Vietnã, fora do campus.
Diante das críticas virulentas de nossos colegas, propus, então, que ocupássemos as salas de aula após as aulas, fizéssemos “teach-ins” e criticássemos a guerra até tarde da noite.
É verdade que eu talvez tivesse uma predisposição para as oposições binárias, pois nos anos 1960 os americanos estavam se apaixonando por [Claude] Lévi-Strauss.
Mas existiam, também, condições estruturais mais gerais, especialmente o abismo de gerações, que se aprofundava nessa época: os estudantes, que até então vinham sendo aprendizes de adultos burgueses, começavam a imitar a classe operária -Levi Strauss, os jeans, não os livros!
No pós-guerra havia apenas um tipo de música popular que estava na moda nos EUA, e era apreciada igualmente por adultos e adolescentes. Então surgiram Elvis e os Beatles, comprovando que Confúcio e Platão tinham razão ao se preocuparem com a relação entre a música e a harmonia política.
De fato, já existiam na juventude americana movimentos contraculturais e contestatários dignos desse nome antes mesmo da intensificação do conflito no Vietnã, em fevereiro de 1965.
Ao reavaliar o papel que desempenhei nessa conjuntura, cheguei à conclusão de que o papel histórico dos indivíduos autoriza a si próprio uma estrutura -ou seja, uma posição no interior de um sistema, mesmo se essa posição não basta para determinar o que eles farão.
O poder coletivo pode encarnar-se em um indivíduo: seja por uma iniciativa feliz e oportuna -como no caso dos “teach-ins”, que tiveram grande sucesso-, seja pela autoridade constituída do indivíduo agindo na condição de dirigente designado de uma coletividade estruturalmente organizada para refletir e fazer ouvir tudo o que um George W. Bush pode fazer ou suportar.
Em todos os casos, porém, se esse indivíduo determina o destino da coletividade, esta, por sua vez, não determina sua própria individualidade. Como diz Sartre, o grupo é obrigado a se realizar, da mesma maneira como se deixa personificar.
De maneira geral, na esteira da Guerra Fria, a Guerra do Vietnã exerceu impacto considerável sobre praticamente todas as disciplinas universitárias nos EUA. Considerações políticas e estratégicas afetaram ou até mesmo ditaram a escolha das pesquisas científicas a serem empreendidas, das línguas a serem ensinados, das regiões do mundo a serem estudadas.
Se consideramos até que ponto a Guerra Fria impregnou todos os campos de reflexão, a época se prestava idealmente ao pensamento de Foucault, que, também ele, enxergava o poder por toda parte.
Globalmente, as ciências humanas e as letras optaram por combater os poderes instituídos, desenvolvendo uma crítica anti-hegemônica do nacionalismo, do imperialismo, do Estado, do racismo, do sexismo e de outros demônios planetários. Elas correram o risco de se debaterem numa contradição inevitável, já que, privilegiando os contradiscursos libertadores da anti-estrutura ou da desconstrução, implicitamente ratificaram certos discursos de dominação como sendo relatos fundadores, mais especialmente a versão foucaultiana.
Mas se, para muitas pessoas, a lição dos anos 1960 foi a de se opor a todas as formas de poder, a lição do Vietnã me ensinou sobretudo a celebrar todas as formas de cultura. O êxito dos vietnamitas diante do poderio americano não reforçou minha confiança no determinismo tecnológico que eu aprendera na universidade.

Um missionário deplorou o fato de os havaianos disporem de 20 palavras diferentes para designar o adultério

Iniciei uma série de estudos sobre o que chamei de a “indigenização da modernidade”, fazendo referência aos diferentes métodos culturais empregados pelos esquimós, os povos da Nova Guiné, os polinésios etc.
para inscreverem um “sistema mundial” invasor dentro de um contexto ainda mais englobador: seu próprio sistema do mundo.

PERGUNTA - Em 1968 e 1969 o sr. trabalhou com Lévi-Strauss em Paris. O que tirou desse confronto?
SAHLINS - É impossível para mim sintetizar tudo o que aprendi nessa época no laboratório de Lévi-Strauss no Collège de France. Permita que eu resuma essa experiência. Em 1969 apresentei uma pesquisa sobre determinados sistemas de troca tradicionais da Austrália e da Melanésia, precisando bem, no preâmbulo, que eu não era estruturalista, pois não falava de uma troca de mulheres ou de palavras, mas de uma infra-estrutura material bastante real e concreta -cuja análise Lévi-Strauss já concedera a Marx.
Durante a discussão que se seguiu, ele afirmou que eu era estruturalista, sim: afinal, aquilo que eu demonstrara com relação às trocas materiais correspondia a certas estruturas de troca matrimonial que ele descrevera em “As Estruturas Elementares do Parentesco” [ed. Vozes]. Protestei, citando o trecho em “O Pensamento Selvagem” [Papirus] em que ele declara que o estruturalismo é especificamente uma ciência de superestruturas.
“É verdade”, ele retrucou, “mas o sr. deve compreender que aprendi antropologia com Franz Boas [1858-1942] e Robert Lowie [1883-1957], que discutiam com índios de reservas os costumes de gerações passadas” -ele chamava isso de “arqueologia do vivo”. “Ninguém prestava atenção à existência de índios contemporâneos”, ele acrescentou. “Mas hoje é preciso estender o estruturalismo às infra-estruturas.”
Retruquei que eu acreditava que sua restrição do estruturalismo às superestruturas era uma questão de princípio científico, e não pude me impedir de lhe perguntar: “O que é o estruturalismo, afinal?”. Ele me respondeu: “É a boa antropologia, em suma”. E, de fato, segundo esse critério, admito que eu era estruturalista.

PERGUNTA - Desde quando vem seu interesse pela Polinésia e por Fiji? Pode nos explicar sua opção por uma etnografia histórica, fundamentada nos arquivos mais que no trabalho de campo? O que o sr. aprendeu sobre essas sociedades?
SAHLINS - Como muitos homens de minha geração, minha iniciação na antropologia seguiu, em sua própria escala modesta, a trajetória do primeiro grande mestre americano, Lewis Henry Morgan [1818-81]. Ele decidiu fazer um estudo de campo sobre as tribos iroquesas locais e, com isso, inaugurou a tradição etnográfica americana.
Da mesma maneira, minha infância -passada brincando de caubói e índio e lendo os romances de Fenimore Cooper [1789-1851, de “O Último dos Moicanos”] escritos em falsa linguagem indígena- me levou a fazer um estudo de campo sobre um tipo de clã incomum, por ser hierarquizado, que qualificamos como “clã cônico”.
Eu acabava de concluir um estudo das hierarquias políticas polinésias, e era em Fiji que se podia realizar um estudo etnográfico desse tipo de hierarquia de clã.

PERGUNTA - Por que o sr. escreve que a tradição nessas sociedades do Pacífico pode ser também uma modalidade de mudança?
SAHLINS - Desde o século 19, os povos do Pacífico, à medida que a sobrevivência de sua comunidade o permitiu, continuaram a ser atores e motores de suas próprias histórias.
Emprego o plural desse termo propositalmente, pois é sobretudo em suas culturas respectivas que eles foram buscar os recursos para continuar a serem atores de suas histórias. Logo, a tradição se tornou o mediador e a medida das transformações por que passaram. Basta estudar dois exemplos muito distintos de cristianização, ambos seguindo um modelo protestante e até mesmo puritano: de um lado os urapmins da Nova Guiné, que não demoraram a se perceber atingidos pelo pecado original e, portanto, se converteram em massa -por contato com outros povos da Nova Guiné- antes mesmo de terem visto qualquer missionário europeu. E, de outro lado, os havaianos, sobretudo aqueles das camadas populares, que se mantiveram “devassos” e resistiram à conversão durante décadas, porque, como freqüentemente observaram os missionários americanos, “lhes faltava a aversão por eles mesmos”.
Eu me contentarei em mencionar alguns elementos culturais para demonstrar essa diferença. Para começar, o caráter fortemente centralizado da sociedade havaiana, segundo o qual a existência e a felicidade das camadas populares dependia das ações de seus chefes. Independentemente de suas próprias convicções, como repetiam aos missionários desesperados, as pessoas comuns se converteriam ao cristianismo quando seu chefe lhes desse o exemplo.
Mas, em vista do valor político e material das relações eróticas no sistema -o famoso “espírito aloha”, que governava a sorte tanto dos chefes quanto dos não-nobres-, era difícil convencê-los a praticar a abstinência e a mortificação nas quais os protestantes enxergavam o sinal da graça divina. Um missionário deplorou o fato de os havaianos disporem de 20 palavras diferentes para designar o adultério: se ele escolhesse uma delas para traduzir o sétimo mandamento, eles pensariam que as outras formas de adultério continuariam a ser lícitas.
Inversamente, os urapmins formam um pequeno grupo, relativamente igualitário, de 360 pessoas que se casam entre si e se vêem envolvidas em relações recíprocas e complexas de parentesco, intensas e freqüentemente incompatíveis. Seria possível dizer que, em seu sistema tradicional, qualquer boa ação era também uma má ação na medida em que a escolha de viver com alguém implicava deixar de lado outra pessoa, não menos próxima; ao dar um presente a alguns, incentivava-se a crítica por ter desprezado suas obrigações em relação aos outros.
Assim, não surpreende que, para traduzir o conceito cristão de pecado, os urapmins empreguem o termo “dívida”. Mas eles se enganavam ao crer que o cristianismo seria sua redenção. Como não podiam renunciar pura e simplesmente a sua cultura tradicional, eles apenas agravaram seu caso, pois sua cultura era incompatível com os ideais de harmonia cristã.

PERGUNTA - Qual o papel da cultura em sua pesquisa antropológica?
SAHLINS - Para mim a cultura é tudo. Em suas formas e em suas transformações, seu papel na história das sociedades e na organização dos indivíduos, a cultura é o objeto por excelência de todo saber antropológico.
A melhor maneira de ilustrar essa convicção talvez seja contestar o folclore do determinismo genético que ficou tão em voga nos EUA: esse movimento pretende remeter toda forma cultural a uma “natureza humana” universal fundamentada no interesse pessoal e no espírito de competição.
Associadas às teorias econômicas da “escolha racional”, disciplinas vulgarizadas, como são a sociobiologia e a psicologia evolutiva, estão criando uma ciência humana de múltiplos usos, a ciência do “gene egoísta”. Naturalmente, é fácil reconhecer nessa suposta natureza humana o velho sujeito burguês.

Na espécie humana, a biologia é um determinante culturalmente determinado:

Uma parcela grande demais dos americanos ainda está convencida de que “a espécie sou eu”. Entretanto, como prova a antropologia mais elementar, viver sua vida em conformidade com sua cultura permite que se tenha a possibilidade e que se reconheça a necessidade de satisfazer nossas inclinações naturais no modo simbólico, segundo definições significantes de nós mesmos, de nosso ambiente, de nossas relações e de nossas produções.
De fato, a cultura humana é bem mais antiga que nossa natureza enquanto espécie, pois ela remonta a pelo menos 2 milhões de anos, sendo que o Homo sapiens surgiu há apenas 200 mil anos, engendrado dentro de e por um contexto cultural que tomava a reprodução humana a seu cargo. Se evoluímos biologicamente, isso se deu sob a pressão da seleção cultural, ou seja, a necessidade de culturalizar nossa animalidade.
Isso não faz de nós ou de nossos ancestrais “páginas em branco” despidas de qualquer imperativo biológico; quer dizer simplesmente que o que foi selecionado de maneira específica pelo gênero Homo foi a capacidade de realizar esses imperativos de mil maneiras diferentes e pouco conhecidas, mas demonstradas pela história e pela antropologia.
O fato mais pertinente para compreender as relações entre cultura e natureza humana não é (por exemplo) o fato de que todas as culturas conhecem a sexualidade, mas que toda sexualidade conhece a cultura. As pulsões sexuais são diversamente expressas e reprimidas segundo as definições, específicas de cada cultura, de o que são os parceiros, as circunstâncias, os lugares, os momentos e as funções corporais apropriados.
Alguns chegam a praticar sexo por telefone. Outro exemplo de manipulação (o jogo de palavras é proposital) conceitual é a célebre réplica do ex-presidente Bill Clinton: “Não fiz sexo com essa mulher”.
Inversamente, sublimamos nossa sexualidade genérica de mil maneiras, incluindo a de transcendê-la e dar preferência à castidade, valorizada pelo pensamento cristão.
O mesmo se aplica à agressividade: podemos brincar de guerra, desancar impiedosamente o livro mais recente de um acadêmico inimigo ou, mesmo, à moda nova-iorquina, responder a um “tenha um bom dia” com “não preciso receber ordens de você!”.
Sejam quais forem nossas necessidades, pulsões, inclinações inatas, quer sejam de ordem agressiva, egoísta, alimentar, social ou altruísta, elas são frutos de uma definição simbólica, portanto de ordem cultural. Na espécie humana, a biologia é um determinante culturalmente determinado.

PERGUNTA - O verdadeiro pensamento selvagem é o do capitalismo contemporâneo?
SAHLINS - Não no sentido estrito do termo. Mais exatamente, o capitalismo contemporâneo implica uma mesma lógica cultural do concreto sob a forma de valores de uso, que, uma vez fetichizados como preços e colocados em ação para fins lucrativos, fazem inegavelmente o efeito de um pensamento selvagem incontrolado. Por mais que nossa racionalidade pecuniária o tenha ocultado, se ergue sobre todo um sistema de valores culturais motivados que associam sujeitos e objetos, logo, preferências e produtos, em razão de suas características distintivas.
É claro que essa realidade passa despercebida aos olhos dos sujeitos burgueses -que geralmente vivem seus valores culturais como um hábito, sem prestar atenção a ele- e dos economistas, que, tendo definido seu domínio como uma racionalidade prudente, enquadram as formas culturais nos limbos dos fatores “exógenos” ou mesmo “irracionais”.
Não nos damos conta de que nossas escolhas racionais -por exemplo, não serviremos hambúrgueres a convidados que respeitamos- são baseadas num código de valores que não guarda relação nenhuma com o caráter nutritivo e que tem tudo a ver com a significação respectiva dos órgãos e dos músculos, da carne e dos cortes, do cortado e do moído, dos pratos e dos sanduíches etc.
Da mesma maneira, não são as qualidades concretas das roupas que explicam a diferença de estilo de vestimenta que manifesta a distinção social em vigor entre homens e mulheres em situações de trabalho e de lazer, entre empresários e policiais, bailes de debutantes e boates: basta pensar em todos os significados veiculados por uma peça de vestuário, como [Roland] Barthes nos ensinou.
Vivemos hoje em um mundo que se encanta com objetos semioticamente construídos e culturalmente relativos, como o ouro, a seda, as cepas de pinot noir, o petróleo, o filé mignon, os tomates “primeira colheita” e a água pura de Fiji.
Assistimos a uma construção da natureza por meio de esquemas culturais historicamente determinados, mas cujas qualidades simbólicas são transformadas em qualidades pecuniárias, cujas fontes sociais são atribuídas a desejos individuais e cuja satisfação arbitrária é travestida em escolha universalmente racional.
Mas, como é impelido à competição pelo interesse financeiro, esse encantamento produz uma infinidade de objetos, enquanto ainda for possível metamorfosear as distinções sociais dos sujeitos e dos objetos em mercadorias rentáveis.

PERGUNTA - O sr. não hesita em traçar comparações entre civilizações geográfica e historicamente distantes, como, por exemplo, entre as guerras do Peloponeso narradas por Tucídides e as de Fiji. O que lhe traz esse olhar cruzado?
SAHLINS - O conflito entre os reinos fijianos de Bau e de Rewa (e seus respectivos aliados), que durou de 1843 a 1855, foi a maior guerra travada nos mares do Sul antes da Segunda Guerra Mundial.
Como Bau (como Atenas) era uma potência naval imperialista, e Rewa (como Esparta) era uma velha potência terrestre, a guerra da Polinésia já tinha levado os visitantes europeus do século 19 a traçar comparações entre ela e as guerras do Peloponeso. A diferença de estrutura política entre Bau e Rewa procedia de uma interdependência, comparável à relação entre o parentesco de sangue (consangüinidade) e o parentesco por casamento (afinidade), o que autoriza a pensar que os próprios fijianos teriam consciência de que essas estruturas eram o espelho invertido (a antítese) uma da outra.
Da mesma maneira, Atenas e Esparta constituem antitipos estruturais e históricos: essas duas cidades eram, respectivamente, cosmopolita e xenófoba, marítima e terrestre, comerciante e autárquica, luxuosa e frugal, democrática e oligárquica, urbana e campônia, autóctone e imigrante…
Poderíamos continuar ao infinito com essas dicotomias. O que lembra a injunção tão influente de Lévi-Strauss em “Race et Histoire” [Raça e História]: “É preciso evitar estudar a diversidade das culturas humanas caso a caso, pois essa diversidade nasce menos do isolamento dos diversos grupos que das relações entre eles”.
Como esse princípio é confirmado várias vezes em “Mythologiques” [Mitológicas], somos tentados a concluir que, apesar de seu apego à sincronia, o estruturalismo é igualmente fortemente historicista.

PERGUNTA - O que as guerras do Peloponeso podem nos ensinar sobre a guerra do Iraque, hoje?
SAHLINS - Substituindo os mitos de Heródoto pelo lógos, Tucídides usurpou o título de “pai da história”, tornando-se o queridinho dos pragmáticos das relações internacionais e outros adeptos ocidentais da “realpolitik”.
Mas o paralelo mais esclarecedor com o Iraque nos é oferecido pela guerra civil anárquica (”estase”) que devastou Corcira, onde espartanos e atenienses se envolveram no conflito interno que opunha os oligarcas locais aos democratas, disputando o controle da cidade. Em Corcira, assim como no Iraque, quando as instituições de Estado perderam toda legitimidade e a violência se tornou o recurso privilegiado de todas as causas partidárias, os valores sagrados da justiça, da moral e da religião foram afogados no sangue e reduzidos a nada.
Platão observou um dia que cada “pólis” é na verdade composta de várias “pólei”, pois ela se divide em cidade dos ricos e cidade dos pobres, em guerra de um contra o outro, e cada uma é dividida, ela própria, entre facções opostas. E, quando as causas e as forças internacionais -como a dominação ateniense sobre Corcira ou a oposição entre democracia e fundamentalismo islâmico no Iraque- se somam às dissensões locais, tem-se a impressão de assistir a um colapso da ordem cultural e à irrupção da natureza humana sob sua forma mais brutal.
Em Corcira, escreve Tucídides, “até as palavras foram obrigadas a renunciar a seu sentido habitual e aceitar aquele que se lhes era dado”. Desse modo, a premeditação virou “legítima defesa”; a moderação, “falta de virilidade”, a prudência, “covardia”.
Ecoando alguns argumentos dos sofistas, opondo o caráter superficial da cultura (”nómos”) ao caráter irresistível da natureza (”physis”), o historiador antigo afirmava que essa manifestação desenfreada de hipocrisia e injustiça se produziria cada vez que o desejo natural de poder e de lucro se chocasse com as frágeis convenções da ordem social.
E ainda encontramos os ecos dessa ideologia no comentário feito por Donald Rumsfeld [então secretário da Defesa] sobre o caos que se seguiu à ocupação americana de Bagdá: “Isso teria que acontecer, cedo ou tarde”, uma versão asseptizada de “Cedo ou tarde a coisa teria que explodir”. É um defeito que os ocidentais sempre atribuem aos outros povos, mas eles próprios tendem rapidamente a confundir natureza e cultura.
Quer seja em Corcira ou no Iraque, foi preciso uma combinação gigantesca de causas morais e políticas conflitantes para produzir esse suposto estado de natureza. Em Corcira, assim como no Iraque, a intervenção de fatores externos poderosos conferiu um valor novo e absoluto aos cismas internos da cidade, tornando-os tão insolúveis quanto abstratos e ideológicos.
Daquele momento em diante, as pessoas passaram a lutar por ou contra generalidades: a “liberdade”, a “escravidão”, a “democracia”, o “islã”, a “ditadura”, o “terrorismo”, o “imperialismo”. Fato que prova simplesmente que é necessária muita cultura para criar um estado de natureza.

Jornal Folha de S. Paulo
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GPS oferece paz de espírito quando adolescentes pedem o carro emprestado

Elizabeth Olson

Não há um momento em que infância e a idade adulta incipiente colidem que seja mais universal do que quando um adolescente assume a direção de um carro. Para o adolescente, é simples -é o primeiro verdadeiro sabor da liberdade. Mas para os pais, é quando a preocupação começa.

Mas alguns pais estão adotando nova tecnologia para monitorar os novos motoristas.

David Phipps, um consultor de segurança em Baltimore, é um deles. Depois que sua filha, Katie, obteve a carteira de motorista, Phipps disse que se preocupava com a segurança dela nas ruas. Então, neste ano ele comprou um dispositivo de posicionamento global do tamanho da palma da mão que usa tecnologia por satélite para ficar de olho no Toyota Scion dela.

“Eu posso clicar no botão ‘rastrear agora’”, disse Phipps, de Bel Air, Maryland, “então entrar on-line e, em 35 segundos, posso ver onde ela está”.

“Minha esposa e eu quisemos pela segurança dela e para nossa paz de espírito”, ele disse.

Phipps comprou seu dispositivo de uma loja online, a Global Tracking Group. O dispositivo pode enviar notificação por e-mail ou mensagem de texto.

Tais aparelhos podem ser instalados sob o painel ou, em alguns casos, podem ser plugados no acendedor de cigarro ou outro plugue elétrico do veículo para checar o comportamento do motorista, se está dirigindo de forma imprudente ou correndo demais, onde vão e, em alguns dispositivos, mesmo se estão usando o cinto de segurança.

Além do custo do dispositivo, os pais pagam uma taxa mensal pelo monitoramento GPS, que usa satélite para rastrear o carro e então transmite a informação via torre de celular.

Os defensores dizem que os dispositivos ajudam os adolescentes a se tornarem mais conscientes e portanto motoristas mais responsáveis. Mas a maioria dos adolescentes compreensivelmente não está empolgada com mais controle pelos pais. “Faz parte do pacote de nossa família para poder dirigir o carro”, disse Douglas Joyce, 17 anos, um colegial de Punta Gorda, Flórida, sobre o acordo com seus pais para ter um sistema de posicionamento global em seu carro. Seu pai, também Douglas Joyce, um médico, instalou um no carro da filha em novembro de 2004, depois que ela viajou para Tallahassee sem lhe avisar.

Joyce pai disse que depois que ela se formou no colégio, o dispositivo GPS foi colocado no carro do filho quando ele começou a dirigir. Ele disse que o dispositivo, de outra empresa online, a Alltrack USA, fez uma “tremenda diferença” para sua paz de espírito.

Acidentes de trânsito são a principal causa de morte no país para jovens entre 13 e 19 anos, segundo estatísticas do governo. O Insurance Institute for Highway Safety disse que 5.288 adolescentes morreram em colisões de veículos em 2005, os dados mais recentes disponíveis.

Estados como Maryland, que tiveram um aumento de mortes de adolescentes ao volante nos últimos anos, reforçaram suas restrições para menores de 18 anos dirigirem, incluindo mais tempo no carro com os pais para aprender os fundamentos da condução de veículos. Apesar de nenhuma estatística mostrar que o monitoramento impede ferimento e morte de motoristas jovens, alguns pais estão convencidos de que saber o que seus adolescentes estão fazendo é bem melhor do que não saber.

As seguradoras estão começando a concordar, com algumas oferecendo descontos para as famílias com tecnologia de rastreamento em seus carros. Desde 4 de outubro, a Safeco Corp. começou a oferecer até 15% de desconto nas apólices para clientes de 39 Estados que optem pelo “Teensurance”, que inclui assistência mecânica e a instalação gratuita de um dispositivo GPS.

O dispositivo permite que os pais estabeleçam a velocidade máxima do veículo, a distância que pode percorrer e um toque de recolher -a hora em que o carro não pode mais ser dirigido. Se o toque de recolher é violado, por exemplo, os pais recebem uma chamada por celular ou notificação por e-mail- por uma taxa mensal.

Outra seguradora, a AIG, oferece um produto semelhante, o MobileTEENGPS, mas não oferece desconto, e outras empresas oferecem descontos para dispositivos contra roubo, que incluem o GPS, por sua capacidade de localizar um carro -independente do adolescente estar dirigindo ou não.

Uma alternativa ao rastreamento por GPS é um dispositivo como o CarChip, que grava e relata como o carro está sendo dirigido. A caixa preta pode ser removida do carro e os dados podem ser baixados para um computador para determinar, por exemplo, onde o veículo esteve e se foi dirigido perigosamente.

Pat e Mike Manley, de Staten Island, Nova York, usaram o CarChip vários anos atrás para monitorar como o filho deles dirigia depois de ter recebido uma multa por excesso de velocidade. Eles instalaram o CarChip por seis meses e o checavam rotineiramente para detectar qualquer problema na direção, disse Manley.

“Quando você percebe que está sendo monitorado, você fica constantemente atento”, ela disse.

Os Manleys disseram ao seu filho que o estavam monitorando, que é o que as empresas aconselham. Mas alguns pais não dizem aos seus filhos, argumentando que dispositivos escondidos são a única forma verdadeira de saber como seus adolescentes estão dirigindo o carro.

Frank Velasquez, um gerente de vendas da fabricante do CarChip, a Davis Instruments, em Hayward, Califórnia, disse que baixou os dados do carro de seu filho de 18 anos e descobriu que ele dirigiu em uma estrada próxima a mais de 140 km/h e que a viagem de volta foi ainda mais rápida -150 km/h.

“Serviu para abrir os olhos”, disse Velasquez. “Ele era um aluno exemplar, honrado, um atleta na escola e tinha um emprego de meio expediente. Mas isto nos fez perceber que ele era um adolescente, e por causa disto me sentei com ele e conversamos sobre o custo das multas por excesso de velocidade, como elas poderiam lhe custar sua carteira de motorista e como o preço do seguro poderia subir. Foi melhor falar com ele sobre estas coisas antes de um acidente.”

Modelos mais novos como o CarChip Pro contam com ainda mais funções, como um alarme sonoro que é disparado quando o carro ultrapassa a velocidade, freia mais fortemente ou acelera abruptamente.

A Alltrack, com sede na Geórgia, permite aos pais desativar à distância a partida do carro, buzinar como alerta ou permitir que a porta seja destravada para o motorista que tranca o carro com a chave dentro. Os pais também podem ser alertados, por e-mail ou mensagem de texto, se o motorista ultrapassa um limite de velocidade pré-estabelecido. Há uma cobrança mensal por estes serviços.

Vários dispositivos oferecem uma “cerca virtual”, que estabelece um limite eletrônico até onde o carro pode ser dirigido e notifica o pai quando o carro deixa a área determinada.

Mesmo assim, muitos pais relutam em adotar o que seus filhos -ou amigos- podem considerar espionagem, disse Wright Gore, presidente da SmartDriver, uma empresa de Houston que vende uma caixa preta para registrar velocidade, uso do acelerador e distância percorrida, entre outros indicadores da condução do veículo.

“Muitos acham que o problema é apenas o garoto com o Trans Am no fim da rua”, disse Gore, acrescentando que os pais representam apenas cerca de 20% de seus negócios.

“Nossos clientes freqüentemente são pais que sentem que têm um problema”, disse Gore, “e querem ter certeza antes que seja tarde demais”.

The New York Times
http://www.nytimes.com/

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Articulação Popular Pela Revitalização do Rio São Francisco

Blog Controvérsia na luta contra a trasnposição do Rio São Francisco. Favor enviar a carta abaixo para os e-mail que se seguem ao seu final.

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Exmo. Senhor Presidente da República - Luiz Inácio Lula da Silva

Exmo. Senhor Ministro da Integração Nacional - Geddel Vieira Filho

Saudações cordiais,

Acompanhamos com interesse os planos do Governo Brasileiro para o Rio São Francisco, tanto no que concerne ao Projeto de Transposição quanto ao Programa de Revitalização.

Respeitosamente, dirigimo-nos a V. Ex.a para compartilhar preocupações sobre os previsíveis impactos sociais e ambientais do Projeto de Transposição.

Sabemos a importância histórica, cultural, social, econômica e ambiental do “rio da integração nacional”. Temos também conhecimento dos problemas deste Rio, tais como o desmatamento, o assoreamento, a poluição por esgotos e agrotóxicos, as barragens e o avanço indiscriminado do agronegócio sobre o Cerrado e Caatinga. O estado atual de baixa vazão da barragem Sobradinho de 14% da sua capacidade é prova desta degradação.

O estado de degradação do São Francisco torna temerário qualquer acréscimo de novo uso aos atuais, múltiplos e, em muitos aspectos, já conflitantes.

Desde 27 de novembro de 2007, Dom Luiz Cappio, bispo da Diocese de Barra (Bahia), retomou seu jejum e suas orações em protesto contra a forma autoritária com que o governo federal impõe a obra de transposição do rio São Francisco sem um debate democrático sobre a viabilidade desta obra.

Em carta enviada ao presidente, Dom Luiz lembra que Lula não cumpriu o acordo assumido em outubro de 2005. Na ocasião, Dom Luiz suspendeu um jejum de onze dias, após o presidente ter se comprometido a suspender o processo da transposição e iniciar um amplo diálogo sobre o projeto com a sociedade.

A obra da transposição do Rio São Francisco não tem capacidade de levar água para 12 milhões de nordestinos, como a propaganda quer iludir. Ao contrário, ela é desenhada para beneficiar a produção de frutas nobres, etanol, aço e criação de camarão destinados principalmente para o mercado internacional, enriquecendo ainda mais poucas grandes empresas.

A região semi-árida tem grande diversidade de situações e potencialidades hídricas para o consumo humano e o desenvolvimento sustentável. Para atender à população do semi-árido, há alternativas melhores e mais baratas, por exemplo: as 530 obras sugeridas pela Agência Nacional de Águas (ANA) e que abasteceriam os 1,3 mil municípios da região a um custo de R$ 3,6 bilhões (quase metade dos R$ 6,6 bilhões da transposição). Para o meio rural tem as alternativas de Convivência com o clima desenvolvidas no âmbito da Articulação do Semi-Árido (ASA).

Diante deste quadro, o Projeto de Transposição exige questionamentos e cuidados. Ainda mais, porque se trata de um projeto com varias ilegalidades que estão sendo questionadas judicialmente e que ainda esperam posição do Supremo Tribunal Federal (STF).

Por isso, as pessoas, entidades e organizações abaixo-assinadas pedem que sejam suspensas as obras da transposição, que vem sendo realizadas pelo Exército Brasileiro.

Exigimos que seja ouvido o grito dos povos do São Francisco presente no jejum de Dom Luiz Cappio.

Atenciosamente.

(Seu Nome)

Seguem abaixo seguem os endereços e números de fax dos destinatários da carta:

PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA
e-mail: presidencia@planalto.gov.br
e-mail: protocolo@planalto.gov.br
e-mail: gabinete@planalto.gov.br
Fax: (0055) 61 3411 1865

MINISTRO DE INTEGRAÇÃO GEDDEL VIEIRA LIMA
e-mail: pedro.sanguinetti@integracao.gov.br
Fax: (0055) 61 3321 3122

MINISTRA DO MEIO AMBIENTE MARINA SILVA
e-mail: marina.silva@mma.gov.br
Fax: (0055) 61 3317-1755

Supremo Tribunal Federal:

GABINETE MINISTRA ELLEN GRACIE (Presidente)
e-mail: ellengracie@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174249

GABINETE MINISTRO GILMAR MENDES (Vice-Presidente)
e-mail: mgilmar@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174189

GABINETE MINISTRO CELSO DE MELLO
e-mail: mcelso@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174099

GABINETE MINISTRO MARCO AURÉLIO
e-mail: marcoaurelio@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174309

GABINETE MINISTRO CEZAR PELUSO
e-mail: mluciam@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174219

GABINETE MINISTRO CARLOS BRITTO
e-mail: gcarlosbritto@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174339

GABINETE MINISTRO JOAQUIM BARBOSA
e-mail: gabminjoaquim@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174159

GABINETE MINISTRO EROS GRAU
e-mail: gaberosgrau@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174399

GABINETE MINISTRO RICARDO LEWANDOWSKI
e-mail: gabinete-lewandowski@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174279

GABINETE MINISTRA CÁRMEN LÚCIA
e-mail: anavt@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174355 / 32174369

GABINETE MINISTRO MENEZES DIREITO
e-mail: alexandrew@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174129

Apoio ao Movimento:
apoio.dom.cappio@gmail.com

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presidencia@planalto.gov.br
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pedro.sanguinetti@integracao.gov.br
marina.silva@mma.gov.br
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mgilmar@stf.gov.br
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alexandrew@stf.gov.br
apoio.dom.cappio@gmail.com
ricardo@controversia.com.br

Grato.

Ricardo Alvarez

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A Educação, vista pelos olhos do professor

NOVA ESCOLA e Ibope entrevistaram professores de redes públicas de todo o país e concluíram: eles amam a profissão, mas só 21% estão satisfeitos com ela. E, apesar de classificarem a formação inicial como excelente, reconhecem não estar preparados para a realidade da sala de aula

Paola Gentile

Você conhece bem esta realidade: o professor adora a profissão,mas não está satisfeito com ela. Sabe que é parte de sua função preparar os alunos para um futuro melhor e gosta de ver as crianças aprendendo, porém se ressente por ter de providenciar a Educação global (valores, hábitos de higiene etc.) que a família não dá. NOVA ESCOLA e Ibope conversaram com 500 professores de redes públicas em todas as capitais brasileiras e os números são muito reveladores da situação em que se encontram nossos educadores.

63% relatam viver em nível significativo de estresse.

48% sentem falta de mais segurança contra a violência.

54% estão descontentes com os benefícios,47% com o salário e 47% com a sobreposição de papéis (em relação à família dos alunos).

21% estão satisfeitos com a profissão (um número assustador: em pesquisas similares o índice oscila entre 40 e 60%,c hegando a 80% em algumas áreas que podem ser chamadas de privilegiadas).

Ao mesmo tempo, muitos se queixam do trabalho duro e (o pior) não reconhecido pela sociedade.

53% têm no amor à profissão sua principal motivação.

63% trabalham no que gostam.

83% têm consciência da importância da profissão de professor.

80% já participaram de cursos de capacitação depois de formados.

A pesquisa foi feita com o objetivo principal de investigar como os professores brasileiros se relacionam com o trabalho, os alunos e a escola e de que forma eles enxergam o futuro da profissão. Nesta reportagem, você vai encontrar diversos números – e também uma análise muito especial para ref letir sobre alguns desses dados.Para debater os resultados obtidos, NOVA ESCOLA convidou um grupo de educadores de diferentes áreas, todos com contato direto com a sala de aula e com a formação inicial e continuada dos nossos docentes. São eles: Celso Favaretto, filósofo da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), Lino de Macedo, pedagogo do Instituto de Psicologia da USP, Luis Carlos de Menezes, do Instituto de Física da USP, Maria Cristina Mantovanini, psicopedagoga do Instituto Vera Cruz, em São Paulo, Sônia Kruppa, socióloga da USP e da Fundação Santo André, Telma Weisz, especialista em Psicologia da Aprendizagem e assessora pedagógica da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, e Vera Trevisan, psicóloga da Pontifícia Universidade Católica de Campinas.

Base frágil

As três maiores surpresas da pesquisa apareceram justamente nas questões sobre a relação do professor com seu público-similaalvo e com o ambiente de trabalho.

Os alunos são vistos como desinteressados e indisciplinados e são percebidos, junto com a família, como os principais problemas da sala de aula. “Quando o profissional não se sente capaz de cumprir sua tarefa – no caso, planejar, ensinar e fazer com que a maioria adquira conhecimento –, tende a responsabilizar fatores externos, apontando justamente para os lados mais frágeis do sistema”, afirma Maria Cristina Mantovanini.

A formação inicial é apontada pela maioria como “excelente”. Mas, ao mesmo tempo, reconhecem não estarem preparados para o dia-a-dia dentro da sala de aula.“Como a relação entre a motivação e a prática de ensino quase não aparece, muitos provavelmente não se dão conta de como a graduação foi ineficiente”, observa Telma Weisz.

As secretarias (municipais e estaduais) de Educação e o Ministério da Educação praticamente não aparecem como atores importantes da realidade do Magistério. É igualmente preocupante porque essas instituições deveriam ser as provedoras não só das políticas públicas mas também de toda a infra-estrutura e das condições gerais para que a aprendizagem ocorra. “O professor não se enxerga como parte do sistema e, por isso, se sente tão sozinho na difícil tarefa de ensinar”, enfatiza Sônia Kruppa.

A pesquisa

AMOSTRA 500 professores das redes públicas municipais,est adual e federal

IDADE De 25 a 55 anos

TÉCNICA DE PESQUISA Entrevistas individuais,c om questionário estruturado,realizadas de 20 de junho a 19 de julho de 2007

DISTRIBUIÇÃO REGIONAL 50% Sudeste 21% Nordeste 11% Norte 10% Centro-Oeste 8% Sul

DE QUEM É A RESPONSABILIDADE PELA EDUCAÇÃO RUIM?

Uma das perguntas do questionário tinha 23 itens. Entre eles, a falta de didática e de metas de aprendizagem. Mas, na hora de listar os principais problemas do dia-a-dia dentro da sala de aula, os 500 professores entrevistados colocaram os seguintes três: a não-participação dos pais no dia-a-dia da escola, a desmotivação dos alunos e a indisciplina dentro da classe (e o primeiro está fora da sala).

Por que a família é vista tão mal? Ao comparar a escola pública com a particular, os professores dão algumas pistas: 72% dizem que quem leciona na rede pública faz também o papel de assistente social, enquanto apenas 3% apontam que quem está na privada tem essa mesma função (será mesmo?). O termo mais usado é sobreposição. Para 25% da amostra,“a escola está no lugar da família”. E outros 38% reforçam que, na escola pública,“o professor não ensina, mas ajuda o aluno a sobreviver”. Em outra resposta, 64% afirmam que o nível socioeconômico das crianças intervém no aprendizado (negativamente, no caso da pública, e positivamente, no caso da particular).

As causas do problema

“Durante décadas, o professor montou uma representação-padrão de estudante, projetando o desejo de que ele venha de casa educado, com os parentes providenciando todos os requisitos básicos para que eles convivam em sociedade e aprendam. Esse quadro não existe”, diz Lino de Macedo. Da mesma forma, é fictícia a concepção de família ideal.Pai e mãe trabalham fora e nem sempre moram na mesma casa – e os dois fatores levam à diminuição do tempo dedicado às crianças e, com isso, dos momentos de “formação doméstica”.

A tendência é fazer, inconscientemente, o que Luis Carlos de Menezes chama de enquadramento social: “A ampliação da escolarização no Brasil fez com que crianças e jovens de comunidades antes excluídas entrassem no sistema. Equivocadamente, o professor acha que a origem cultural do garoto e da mocinha os impede de aprender.

Além disso, como não quer assumir a função de formá-los, ele desiste de ensinar”. Houve consenso entre os debatedores: não é a família que tem de ser responsabilizada pelo insucesso da garotada, mas a escola, que precisa rever sua missão e seu projeto pedagógico para atender a todos, com ou sem problemas socioeconômicos. Além das transformações sociais, existem as culturais, políticas, econômicas e tecnológicas – que, de maneira geral, a escola não acompanha. Ao longo dos anos, a defasagem do currículo e dos conteúdos, a falta de relação com a realidade e uma série de outros fatores tiveram reflexos na não-aprendizagem. O professor acredita que sua responsabilidade sobre a Educação é muito grande, mas as notas ruins nos testes de avaliação levam a sociedade a repetir que o ensino vai mal.“Sentindo-se impotente, ele procura causas externas, criando uma situação que o prende: já que não pode mudar a família do aluno, ele acha que não é possível ensinar”, analisa a psicopedagoga Maria Cristina Mantovanini.

Para refletir

Sim, a participação da família é fundamental para que a criança se desenvolva como estudante.Por isso, ela deve ser motivo de preocupação. “Não dá para correr atrás de resultados de ensino sem pensar em reeducar os pais, que não conhecem a proposta pedagógica da escola, o que ela oferece aos filhos e como eles aprendem”, diz Maria Cristina.Reuniões de pais e atividades conjuntas nos fins de semana podem ser planejadas especialmente para promover essa integração. Uma saída é conscientizar-se de que o novo papel do professor inclui atender o aluno que não vem pronto de casa para adquirir conhecimento. Lino de Macedo acredita que, ao perceber que a sociedade mudou e que agora é preciso fazer isso, sem esquecer de ensinar conteúdos, você se preocupa também em dar o exemplo. Assim, a angústia diminui: “Com menos ressentimento, fica mais fácil aproximar-se, melhorar a relação com o estudante e, em conseqüência, as condições de aprendizagem”.

Em conjunto, redes de ensino, direção e corpo docente deveriam estar preocupados com a definição do currículo.“Ninguém vai se sentir motivado a conhecer algo que não tem relação nenhuma com a vida”, ressalta Menezes. “É necessário levar para a escola a cultura da comunidade e voltar a prática para a formação total do aluno. O que não dá é ficar esperando que ele saia correndo atrás dos conteúdos para dominá-los.”Outro caminho para diminuir a tal desmotivação é deixar de lado o vício pedagógico de buscar sempre a passividade do educando: “As crianças são curiosas por natureza e gostam de fazer perguntas, mas elas só aprendem se tiverem espaço para a participação. E isso existe quando há conversa, fala,movimentação e argumentação e não um ambiente de apatia”, ressalta Menezes.

Nunca é demais lembrar que só consegue motivar quem conhece (e utiliza) boas práticas de ensino.Chegamos assim à segunda contradição apontada pela pesquisa: o professor acha que foi bem formado, mas acaba admitindo não estar preparado para o dia-a-dia em classe nem saber como enfrentar os problemas da sala de aula, como o famoso desinteresse e a não menos decantada indisciplina

“As crianças são curiosas por natureza, mas só aprendem se tiverem espaço para a participação. E isso só existe quando há conversa, fala e argumentação e não um ambiente de apatia.”
Luis Carlos de Menezes Colunista de NOVA ESCOLA

“A sociedade mudou e, hoje, o papel de quem está à frente de uma sala de aula também é educar e dar carinho. Se todos perceberem que isso existe – e não é um bicho-de-sete cabeças –, a angústia diminui.”
Lino de Macedo Professor da Psicologia da USP

POR QUE A FORMAÇÃO NÃO PREPARA PARA O DIA-A-DIA?

A maioria dos entrevistados não tem dúvida: para 64%, a formação inicial foi excelente. Porém 49% reconhecem que não estão preparados para a realidade da sala de aula. E isso porque 90% se declaram satisfeitos com a própria didática. Contraditório, não? O simples fato de freqüentar uma universidade e ter a chance de ler, estudar e debater as teses de grandes nomes da Pedagogia mundial é, sem dúvida, uma experiência interessante. No entanto, é possível que muitos professores não questionem a qualidade desses cursos. Estudar as teorias de Jean Piaget, Lev Vygotsky e Henri Wallon, entre muitos outros, é fundamental, mas não basta. A capacitação inicial tem variadas (e complexas) dimensões e a faculdade é o primeiro lugar para um profissional se apropriar das ferramentas para ensinar – e, com isso, poder enfrentar as dificuldades do dia-a-dia na escola (como a desmotivação, a indisciplina e as diferentes realidades sociais e culturais dos alunos). O que não dá é para não aceitar essa realidade.

As causas do problema

Só recentemente as faculdades de Educação e Pedagogia começaram a se preocupar com as especificidades da formação docente. Por muitos anos, tanto os futuros professores como os futuros diretores, orientadores e supervisores recebiam os mesmos conteúdos. Os especialistas reunidos por NOVA ESCOLA concordam: as didáticas específicas de cada área deveriam ser a principal matéria-prima dos cursos de formação inicial. O currículo deveria ter por obrigação contemplar a didática da alfabetização, a da Matemática, a da leitura e da escrita, a das Ciências e assim por diante. Dentro de cada uma delas estariam os conteúdos, os processos de aprendizagem (que envolvem o conhecimento sobre como as crianças transformam informação em saber e o que elas pensam quando estão em contato com os problemas escolares) e, claro, as intervenções pedagógicas mais adequadas para garantir que todos aprendam.

“Sem explorar e ensinar corretamente as didáticas específicas, é como se as faculdades colocassem um lenço nos olhos e vendassem o futuro professor e o soltassem no mundo. É óbvio que, nessa situação, não dá para saber o que fazer”, afirma Telma Weisz.Na opinião de Regina Scarpa, só a certeza de dominar os conteúdos e as melhores maneiras de ensinálos fará com que o educador enfrente com tranqüilidade a dura realidade da sala de aula: “Toda criança gosta de aprender de maneira desafiadora”.

O problema persiste quando os cursos de capacitação continuada, em vez de oferecerem atualização nas áreas específicas, tentam suprir as deficiências da faculdade. Segundo a pesquisa, 48% dos entrevistados acreditam que esses programas interferem positivamente no ensino e o surpreendente índice de 80% disse já ter participado de algum curso desse tipo. Mas nem por isso se sentem mais preparados para a rotina escolar.“A maioria dos cursos de formação continuada não leva em conta as necessidades cotidianas do professor. É por isso que fica a sensação de que nada se resolve depois de freqüentálos”, analisa Vera Trevisan.

Para refletir

A mudança de foco dos cursos de formação inicial é um processo longo, mas nem por isso pode ser esquecida pela categoria.Num prazo menor, dizem os analistas, o ideal é apoiar-se mais fortemente na coordenação pedagógica. Os próprios entrevistados começam a perceber isso: 21% acreditam que a coordenação colabora muito, e 42%, o suficiente para melhorar o ensino.Porém 34% ainda se sentem desamparados, dizendo ter pouco ou nenhum apoio.“Já passou da hora de os coordenadores pedagógicos assumirem sua responsabilidade pela qualidade do ensino na escola. Eles precisam se colocar no papel de formadores do corpo docente”, exige Regina Scarpa.

Organizar momentos de formação em serviço (nos horários de trabalho pedagógico coletivo), com troca de experiências e reflexão sobre a prática, é muito eficiente para resolver problemas cotidianos. A formação de grupos de trabalho preocupados em melhorar as ações em sala de aula é viável e necessária. Já para aperfeiçoar os cursos de formação continuada, uma saída é chamar os alunos em potencial para ajudar na elaboração do programa, pois só eles conseguem expor suas necessidades. Vera Trevisan alerta ainda para a importância de haver uma pessoa que coordene essa formação, principalmente quando um pequeno grupo é convidado a participar – para depois socializar o aprendizado com os colegas.

Infelizmente, quem está à frente da sala de aula não tem poder sobre as políticas públicas e a definição de rumos da Educação – nos sistemas municipais, estaduais e federal. O problema, como veremos a seguir, é que essas entidades estão cada vez mais distantes do discurso do professorado brasileiro.

“Sentindo-se impotente, o professor procura as causas em fatores externos e cria uma situação que o prende: já que não pode mudar a família do aluno, ele acha que não é possível ensinar.”
Maria Cristina Mantovanini Psicopedagoga do Instituto Vera Cruz

“Já passou da hora de os coordenadores pedagógicos assumirem sua responsabilidade pela qualidade do ensino na escola. Eles precisam se colocar no papel de formadores do corpo docente.”
Regina Scarpa Consultora pedagógica da FVC

CADÊ O ESTADO? NINGUÉM SABE, NINGUÉM VIU…

As pesquisas revelam muitas informações pelo que é dito, mas também pelo não dito.Um dos tópicos que mais chamaram a atenção dos analistas foi a ausência do Estado (Ministério e secretarias estaduais e municipais) quando o assunto é qualidade do ensino e quem é responsável por isso. Ele só aparece enquanto empregador (aquele que paga salário e benefícios e proporciona estabilidade no emprego e liberdade de ação em sala de aula – o que significa não cobrar resultados). O curioso é que os entrevistados não vêem no poder público o papel de elaborar as políticas e de providenciar a estrutura necessária para o processo de ensino e aprendedizagem. No ranking sobre as influências negativas no ensino – o mesmo em que alunos e famílias surgem nas primeiras posições –, os itens associados ao orçamento e às diretrizes da Educação são citados nas últimas colocações.

“Ao responsabilizar os alunos e as famílias pelo fracasso escolar, o educador deixa de analisar o papel da escola e as possibilidades que ele tem de agir como o agente público que de fato é, como membro de uma instituição igualmente pública – a escola – que precisa se relacionar com o sistema para funcionar com eficiência”, analisa Sônia Kruppa.

As causas do problema

“O docente simplesmente não enxerga o Estado porque ele é omisso em vários aspectos da vida dele”, ressalta Luis Carlos de Menezes.O sistema não é cobrado pelas deficiências e também não aparece quando uma experiência dá certo: “Se a escola vai bem, o mérito é de uns poucos mestres dedicados ou da direção eficiente”. Nem é preciso lembrar que sucessos isolados não levam à melhoria da Educação como um todo.

O filósofo Celso Favaretto acredita que a escola perdeu a confiança nela mesma e, com isso, deixou de se posicionar como instituição: “Ao perder a exclusividade de divulgadora do conhecimento – papel que hoje compartilha com os meios de comunicação –, ela não consegue mais enxergar sua missão original, que é debater e realizar o bem comum e as políticas sociais, culturais e educacionais”.

O professor também entra nesse compasso e cada vez mais se sente à parte, isolado. Sônia Kruppa acredita que essa ruptura tem origem no que ela chama de falta de vínculo: todos os anos há mudanças no quadro docente e fica difícil organizar e implantar um projeto em conjunto. Ao ser removido, o professor não se sente pertencente nem à escola e à comunidade nem à instituição e ao sistema.

Para refletir

A Educação é um processo coletivo, que se dá em determinado espaço, uma instituição chamada escola. Essa, por sua vez, é regida por políticas públicas, que deveriam ter como objetivo a realização do bem comum para responder às demandas imediatas e as de longo prazo da sociedade.“A relação educacional não se resume ao dueto professor/aluno”, lembra Vera Trevisan. Existem ainda os agentes de ensino das secretarias, o diretor, o coordenador pedagógico e todos os colegas.“ Como o professor pode se sentir sozinho e tomar para si toda a responsabilidade?”, questiona ela.

Para Sônia Kruppa, só o grupo pode assumir a formação do educando e, para que esse coletivo se forme, é preciso haver permanência na escola e continuidade nas políticas públicas.Com isso, ela acredita ser possível a comunidade construir um projeto pedagógico democrático para atender à população tal qual ela é.

“Sem explorar e ensinar corretamente as didáticas específicas, é como se as faculdades vendassem o futuro professor e o soltassem no mundo. É óbvio que, nessa situação, não dá para saber o que fazer.”
Telma Weisz Especialista em Aprendizagem

“A maioria dos cursos de formação continuada não leva em conta as necessidades cotidianas do professor. É por isso que fica a sensação de que nada se resolve depois de freqüentá-los.”
Vera Trevisan Professora da Psicologia da PUC

PROTAGONISTAS DO PROCESSO

Um sistema educativo deve ser entendido como a articulação de três subsistemas: o escolar (a escola e todas as instâncias envolvidas com ela), o sociocultural (espaços como bibliotecas, ludotecas, cinemas, teatros etc.) e o familiar (que tem o dever de valorizar os outros dois e propiciar o acesso a eles). Essa tríplice aliança é a chave do sucesso da reaprende de ensino da Finlândia, primeira colocada nas principais avaliações internacionais. “Mesmo com todas as deficiências apontadas, o subsistema escolar brasileiro tem as condições necessárias para proporcionar as experiências educacionais e culturais de que as crianças necessitam. Por isso, é muito bom observar que, na pesquisa, 83% dos professores se vêem como protagonistas desse processo”, afirma Regina Scarpa.

A “desistência”da escola, enquanto instituição, e o desânimo do professor poderiam significar um desastre a longo prazo. Com a divulgação (e análise) desses números,NOVA ESCOLA acredita estar contribuindo para uma ref lexão coletiva que aponte caminhos para melhorar ainda mais a Educação, em especial na rede pública de nosso país.

POR QUE A FORMAÇÃO NÃO PREPARA PARA O DIA-A-DIA?

A maioria dos entrevistados não tem dúvida: para 64%, a formação inicial foi excelente. Porém 49% reconhecem que não estão preparados para a realidade da sala de aula. E isso porque 90% se declaram satisfeitos com a própria didática. Contraditório, não? O simples fato de freqüentar uma universidade e ter a chance de ler, estudar e debater as teses de grandes nomes da Pedagogia mundial é, sem dúvida, uma experiência interessante. No entanto, é possível que muitos professores não questionem a qualidade desses cursos. Estudar as teorias de Jean Piaget, Lev Vygotsky e Henri Wallon, entre muitos outros, é fundamental, mas não basta. A capacitação inicial tem variadas (e complexas) dimensões e a faculdade é o primeiro lugar para um profissional se apropriar das ferramentas para ensinar – e, com isso, poder enfrentar as dificuldades do dia-a-dia na escola (como a desmotivação, a indisciplina e as diferentes realidades sociais e culturais dos alunos). O que não dá é para não aceitar essa realidade.

As causas do problema

Só recentemente as faculdades de Educação e Pedagogia começaram a se preocupar com as especificidades da formação docente. Por muitos anos, tanto os futuros professores como os futuros diretores, orientadores e supervisores recebiam os mesmos conteúdos. Os especialistas reunidos por NOVA ESCOLA concordam: as didáticas específicas de cada área deveriam ser a principal matéria-prima dos cursos de formação inicial. O currículo deveria ter por obrigação contemplar a didática da alfabetização, a da Matemática, a da leitura e da escrita, a das Ciências e assim por diante. Dentro de cada uma delas estariam os conteúdos, os processos de aprendizagem (que envolvem o conhecimento sobre como as crianças transformam informação em saber e o que elas pensam quando estão em contato com os problemas escolares) e, claro, as intervenções pedagógicas mais adequadas para garantir que todos aprendam.

“Sem explorar e ensinar corretamente as didáticas específicas, é como se as faculdades colocassem um lenço nos olhos e vendassem o futuro professor e o soltassem no mundo. É óbvio que, nessa situação, não dá para saber o que fazer”, afirma Telma Weisz.Na opinião de Regina Scarpa, só a certeza de dominar os conteúdos e as melhores maneiras de ensinálos fará com que o educador enfrente com tranqüilidade a dura realidade da sala de aula: “Toda criança gosta de aprender de maneira desafiadora”.

O problema persiste quando os cursos de capacitação continuada, em vez de oferecerem atualização nas áreas específicas, tentam suprir as deficiências da faculdade. Segundo a pesquisa, 48% dos entrevistados acreditam que esses programas interferem positivamente no ensino e o surpreendente índice de 80% disse já ter participado de algum curso desse tipo. Mas nem por isso se sentem mais preparados para a rotina escolar.“A maioria dos cursos de formação continuada não leva em conta as necessidades cotidianas do professor. É por isso que fica a sensação de que nada se resolve depois de freqüentálos”, analisa Vera Trevisan.

Para refletir

A mudança de foco dos cursos de formação inicial é um processo longo, mas nem por isso pode ser esquecida pela categoria.Num prazo menor, dizem os analistas, o ideal é apoiar-se mais fortemente na coordenação pedagógica. Os próprios entrevistados começam a perceber isso: 21% acreditam que a coordenação colabora muito, e 42%, o suficiente para melhorar o ensino.Porém 34% ainda se sentem desamparados, dizendo ter pouco ou nenhum apoio.“Já passou da hora de os coordenadores pedagógicos assumirem sua responsabilidade pela qualidade do ensino na escola. Eles precisam se colocar no papel de formadores do corpo docente”, exige Regina Scarpa.

Organizar momentos de formação em serviço (nos horários de trabalho pedagógico coletivo), com troca de experiências e reflexão sobre a prática, é muito eficiente para resolver problemas cotidianos. A formação de grupos de trabalho preocupados em melhorar as ações em sala de aula é viável e necessária. Já para aperfeiçoar os cursos de formação continuada, uma saída é chamar os alunos em potencial para ajudar na elaboração do programa, pois só eles conseguem expor suas necessidades. Vera Trevisan alerta ainda para a importância de haver uma pessoa que coordene essa formação, principalmente quando um pequeno grupo é convidado a participar – para depois socializar o aprendizado com os colegas.

Infelizmente, quem está à frente da sala de aula não tem poder sobre as políticas públicas e a definição de rumos da Educação – nos sistemas municipais, estaduais e federal. O problema, como veremos a seguir, é que essas entidades estão cada vez mais distantes do discurso do professorado brasileiro.

CADÊ O ESTADO? NINGUÉM SABE, NINGUÉM VIU…

As pesquisas revelam muitas informações pelo que é dito, mas também pelo não dito.Um dos tópicos que mais chamaram a atenção dos analistas foi a ausência do Estado (Ministério e secretarias estaduais e municipais) quando o assunto é qualidade do ensino e quem é responsável por isso. Ele só aparece enquanto empregador (aquele que paga salário e benefícios e proporciona estabilidade no emprego e liberdade de ação em sala de aula – o que significa não cobrar resultados). O curioso é que os entrevistados não vêem no poder público o papel de elaborar as políticas e de providenciar a estrutura necessária para o processo de ensino e aprendedizagem. No ranking sobre as influências negativas no ensino – o mesmo em que alunos e famílias surgem nas primeiras posições –, os itens associados ao orçamento e às diretrizes da Educação são citados nas últimas colocações.

“Ao responsabilizar os alunos e as famílias pelo fracasso escolar, o educador deixa de analisar o papel da escola e as possibilidades que ele tem de agir como o agente público que de fato é, como membro de uma instituição igualmente pública – a escola – que precisa se relacionar com o sistema para funcionar com eficiência”, analisa Sônia Kruppa.

As causas do problema

“O docente simplesmente não enxerga o Estado porque ele é omisso em vários aspectos da vida dele”, ressalta Luis Carlos de Menezes.O sistema não é cobrado pelas deficiências e também não aparece quando uma experiência dá certo: “Se a escola vai bem, o mérito é de uns poucos mestres dedicados ou da direção eficiente”. Nem é preciso lembrar que sucessos isolados não levam à melhoria da Educação como um todo.

O filósofo Celso Favaretto acredita que a escola perdeu a confiança nela mesma e, com isso, deixou de se posicionar como instituição: “Ao perder a exclusividade de divulgadora do conhecimento – papel que hoje compartilha com os meios de comunicação –, ela não consegue mais enxergar sua missão original, que é debater e realizar o bem comum e as políticas sociais, culturais e educacionais”.

O professor também entra nesse compasso e cada vez mais se sente à parte, isolado. Sônia Kruppa acredita que essa ruptura tem origem no que ela chama de falta de vínculo: todos os anos há mudanças no quadro docente e fica difícil organizar e implantar um projeto em conjunto. Ao ser removido, o professor não se sente pertencente nem à escola e à comunidade nem à instituição e ao sistema.

Para refletir

A Educação é um processo coletivo, que se dá em determinado espaço, uma instituição chamada escola. Essa, por sua vez, é regida por políticas públicas, que deveriam ter como objetivo a realização do bem comum para responder às demandas imediatas e as de longo prazo da sociedade.“A relação educacional não se resume ao dueto professor/aluno”, lembra Vera Trevisan. Existem ainda os agentes de ensino das secretarias, o diretor, o coordenador pedagógico e todos os colegas.“ Como o professor pode se sentir sozinho e tomar para si toda a responsabilidade?”, questiona ela.

Para Sônia Kruppa, só o grupo pode assumir a formação do educando e, para que esse coletivo se forme, é preciso haver permanência na escola e continuidade nas políticas públicas.Com isso, ela acredita ser possível a comunidade construir um projeto pedagógico democrático para atender à população tal qual ela é.

PROTAGONISTAS DO PROCESSO

Um sistema educativo deve ser entendido como a articulação de três subsistemas: o escolar (a escola e todas as instâncias envolvidas com ela), o sociocultural (espaços como bibliotecas, ludotecas, cinemas, teatros etc.) e o familiar (que tem o dever de valorizar os outros dois e propiciar o acesso a eles). Essa tríplice aliança é a chave do sucesso da reaprende de ensino da Finlândia, primeira colocada nas principais avaliações internacionais. “Mesmo com todas as deficiências apontadas, o subsistema escolar brasileiro tem as condições necessárias para proporcionar as experiências educacionais e culturais de que as crianças necessitam. Por isso, é muito bom observar que, na pesquisa, 83% dos professores se vêem como protagonistas desse processo”, afirma Regina Scarpa.

A “desistência”da escola, enquanto instituição, e o desânimo do professor poderiam significar um desastre a longo prazo. Com a divulgação (e análise) desses números,NOVA ESCOLA acredita estar contribuindo para uma ref lexão coletiva que aponte caminhos para melhorar ainda mais a Educação, em especial na rede pública de nosso país.

“As crianças são curiosas por natureza, mas só aprendem se tiverem espaço para a participação. E isso só existe quando há conversa, fala e argumentação e não um ambiente de apatia.”
Luis Carlos de Menezes Colunista de NOVA ESCOLA

“A sociedade mudou e, hoje, o papel de quem está à frente de uma sala de aula também é educar e dar carinho. Se todos perceberem que isso existe – e não é um bicho-de-sete cabeças –, a angústia diminui.”
Lino de Macedo Professor da Psicologia da USP

“Sentindo-se impotente, o professor procura as causas em fatores externos e cria uma situação que o prende: já que não pode mudar a família do aluno, ele acha que não é possível ensinar.”
Maria Cristina Mantovanini Psicopedagoga do Instituto Vera Cruz

“Já passou da hora de os coordenadores pedagógicos assumirem sua responsabilidade pela qualidade do ensino na escola. Eles precisam se colocar no papel de formadores do corpo docente.”
Regina Scarpa Consultora pedagógica da FVC

“Sem explorar e ensinar corretamente as didáticas específicas, é como se as faculdades vendassem o futuro professor e o soltassem no mundo. É óbvio que, nessa situação, não dá para saber o que fazer.”
Telma Weisz Especialista em Aprendizagem

“A maioria dos cursos de formação continuada não leva em conta as necessidades cotidianas do professor. É por isso que fica a sensação de que nada se resolve depois de freqüentá-los.”
Vera Trevisan Professora da Psicologia da PUC

“Ao responsabilizar os alunos e as famílias pelo fracasso escolar, o educador deixa de analisar o papel da escola e as possibilidades que ele tem de atuar como o agente público que de fato é.”
Sônia Kruppa Professora da Sociologia da USP

“Os professores assumiram o discurso infundado de que a escola não tem mais valor e agora têm dificuldade em ver a instituição como responsável pela seleção e formalização do conhecimento.”
Celso Favaretto Professor da Educação da USP

Revista Nova Escola
http://revistaescola.abril.uol.com.br/home/

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Cisternas para o semi-árido

Demétrio Valentini

Está em andamento uma profunda transformação no semi-árido brasileiro. Trata-se do vasto programa de construção de um milhão de cisternas para captação de água da chuva.

Está em andamento uma profunda transformação no semi-árido brasileiro. Trata-se do vasto programa de construção de um milhão de cisternas para captação de água da chuva. Isto significa que um milhão de famílias terão garantida água de qualidade para beber e para cozinhar, mesmo nos períodos de longa estiagem.

O alcance deste programa não se mede só por este objetivo, que já seria mais do que suficiente para justificá-lo. Basta ter presente a dolorosa cena de mulheres com o balde sobre a cabeça, buscando água suja a quilômetros de distância, disputando-a com os animais, em luta desumana pela sobrevivência.

Coordenado pela ASA - “Articulação do Semi-Árido” - e desenhado objetivamente em forma de P1MC – “Programa Um Milhão de Cisternas” -, a iniciativa tem profundo impacto humano nas milhares de pessoas que são envolvidas por ele, com sua metodologia participativa e com seu caráter solidário, levando a um notável crescimento da cidadania, e alterando significativamente as perspectivas de vida.

Desencadeia um verdadeiro processo de transformação social. Muda a própria maneira de pensar a região. Fomos habituados ao imaginário fatalista da “seca no nordeste”. O programa, com realismo, encara a região de maneira bem mais adequada, como “semi-árido” que oferece esplêndidas possibilidades de convivência, desde que sejam valorizados seus recursos.

Vale a comparação com outras regiões do mundo. As precipitações pluviométricas normais desta região são bem maiores que aquelas que ocorrem, por exemplo, em Israel. Se lá é possível um esplêndido desenvolvimento, por que não aqui? Em nosso semi-árido chove, mesmo que não seja em todas as épocas do ano. Então, trata-se de captar a água da chuva, e colocá-la a serviço da vida digna das pessoas.

Esta a intuição do programa. O semi-árido oferece condições de vida. As pessoas que lá moram sentem inclusive os encantos da região, com sua riqueza humana exuberante, que pode ser acionada para o enfrentamento racional dos desafios, o maior deles certamente a escassez de água, que encontra na construção de cisternas o primeiro passo para a sua superação, e para a abertura de novas possibilidades de desenvolvimento.

Agora o programa está em fase de conclusão de sua primeira etapa, com a avaliação dos seus resultados, e com a adequada prestação de contas ao MDS. Um importante momento para a sua consolidação política, que testa a competência dos seus executores, e interpela a lucidez das instâncias governamentais.

Para avaliar o programa, e perceber a importância de sua continuidade, é preciso ter presente não só os números, que por si mesmos são altamente expressivos, mas o significado que simbolizam. A começar pelas centenas de entidades, agrupadas pela ASA, todas apostando na viabilidade do programa, em sintonia com sua dinâmica transformadora. A Cáritas Brasileira, desde o início, fez questão de se integrar neste amplo mutirão de cidadania ativa e eficaz.

O programa atinge 1.032 municípios, em nove estados. Em cada município foi formada uma “comissão executiva”, que por sua vez aciona as “comissões comunitárias”, que somam dez mil ao todo. Já foram construídas até agora 161.713 cisternas, com capacidade, cada uma, de 16.000 litros de água. São 167.636 famílias mobilizadas, sendo que 159.946 pessoas participaram de encontros para aprenderem “a gestão de recursos hídricos, cidadania e convivência com o semi-árido”. Foram formados 3.903 pedreiros, que coordenam a construção das cisternas, realizadas em mutirão com o acompanhamento das “comissões comunitárias”.

Desta maneira, as cisternas não recolhem só água. Elas suscitam cidadania, elas acionam a participação, elas despertam capacidades, elas transformam as pessoas, elas motivam para a solidariedade, elas apostam no desenvolvimento do semi-árido brasileiro.

Estas dimensões do P1MC precisam estar presentes na sua avaliação, e no momento de o governo definir o seu aporte financeiro, para que o programa possa continuar, dado o alto significado social e político de que se reveste. É o que todos esperamos.

Correio da Cidadania
http://www.correiocidadania.com.br/

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E o petróleo estava lá

MÁRCIO MELLO
Presidente da Associação Brasileira de Geólogos do Petróleo e consultor da HRT Petroleum
A independência está garantida, diz geólogo. Mas a descoberta não faz do País uma nova Venezuela

Pedro Doria

A descoberta do Campo de Tupi, essa gigantesca reserva de petróleo anunciada na quinta-feira pela Petrobrás, é a maior da história petrolífera do Brasil. Mas, apesar de ela ter valido ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva o apelido de “magnata petroleiro”, cunhado pelo presidente venezuelano Hugo Chávez, não quer dizer que o País tenha virado superpotência do ramo. Pelo menos não segundo a avaliação de Márcio Mello, presidente da Associação Brasileira de Geólogos do Petróleo e sócio da empresa de consultoria HRT Petroleum.

“O tamanho das reservas de países como os do Oriente Médio ou da própria Venezuela são imbatíveis”, diz ele. Mas o Brasil é rico, sim. Nas contas de Mello, o total de reservas chegará fácil a 50 bilhões de barris e os técnicos já sabem exatamente onde eles se encontram: é no Atlântico, entre o sul de Santos e o norte do Espírito Santo, além de uma camada impermeável de sal, debaixo de uma gigantesca rocha batizada de Lagoa Feia, a 6 quilômetros de profundidade. Como, até a semana passada, o tamanho oficial das reservas brasileiras era de apenas 14 bilhões de barris, trata-se de um incremento e tanto.

Mas o País cresce. E nos próximos anos deverá ter um consumo diário de 3 milhões de barris - ou seja, consumirá quase tudo que produz. Se é assim, por que a Petrobrás demorou tanto a ir onde estava a maior parte do petróleo brasileiro - em águas profundas - já que os indícios eram quase evidências? “Porque por longo tempo predominou na empresa a idéia de que esse tipo de prospecção era jogar dinheiro fora. Foram anos para quebrar um paradigma”, diz Mello. Agora, garante o geólogo, a missão está clara: “É preciso perfurar, perfurar, perfurar”.

O anúncio de uma reserva gigantesca de petróleo na Bacia de Santos é uma surpresa?

Já era possível prever há pelo menos seis anos esse potencial fantástico que temos em águas profundas e ultraprofundas do Brasil, abaixo da camada de sal. Era uma previsão tranqüila de fazer. Mas não quer dizer que a descoberta seja pequena: essa é a maior novidade que surge no mundo petrolífero nos últimos 20 anos e é a maior descoberta da história do petróleo no Brasil.

Essas reservas se limitam a Santos?

De forma alguma. Nós já sabemos que há petróleo embaixo da camada de sal nas áreas de Roncador e Marlim, que ficam na Bacia de Campos. A Petrobrás já descobriu uma reserva de 600 milhões de barris abaixo do sal no Espírito Santo, descobriu abaixo de Marlim um campo pequeno com 300 milhões de barris, e vai descobrindo outros. Ainda vai se achar muito, mas muito petróleo mesmo no subsal entre Santos e o Espírito Santo.

Essa camada de sal existe em toda a costa brasileira?

Ela existe até Sergipe e Alagoas. Mas não é a camada de sal que determina a presença ou a quantidade de petróleo. O importante é o tipo de rocha que está debaixo do sal. Chamo essa região que vai desde o sul de Santos até o norte do Espírito Santo de a Grande Bacia de Campos. Sob toda essa área há uma camada batizada de Formação Lagoa Feia, que é uma rocha geradora de petróleo maravilhosa. Ela é que produziu todo esse petróleo que temos aí. Também há petróleo em Sergipe e na Bahia, mas a quantidade é muito menor porque a rocha que a produziu é outra, não tão prolífica.

Então já sabemos onde tem petróleo e quanto petróleo há na costa do Brasil?

Lógico. O problema é achar o local exato, e a Petrobrás achou, daí seu mérito. E vai achar muito mais. O Brasil tem, podemos dizer tranqüilamente, 50 bilhões de barris. Não resta a menor dúvida.

Com as novas reservas, o Brasil vai para a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, Opep?

Não. Nós consumimos hoje 1,8 milhão de barris por dia. Do jeito que o País está crescendo, vamos para algo entre 2,5 e 3 milhões nos próximos três ou quatro anos. A Petrobrás vai ter que se esforçar muito para conseguir manter essa produção. Daqui a oito anos, quando essa reserva que acabou de ser descoberta estiver em plena produção, o Campo de Marlim já estará decrescendo.

Não vamos virar exportadores?

Vamos. Mas teremos pouco para vender, o consumo interno é grande. Nunca seremos exportadores como a Venezuela, Arábia Saudita, Irã e Iraque.

Já é comum buscar petróleo a 6 quilômetros de profundidade?

Já, sim. Os EUA têm vários poços ultraprofundos. O problema não é a profundidade, mas sim calcular se faz sentido econômico. Com o petróleo a um preço alto no mercado internacional é bom negócio. Evidentemente, o solo brasileiro tem características diferentes do americano, então a tecnologia aplicada não é exatamente a mesma. Como nunca havíamos perfurado a essa profundidade, como não conhecíamos direito a composição da rocha que iríamos encontrar, o primeiro poço que cavamos custou US$ 170 milhões de dólares. O segundo já saiu por uns US$ 70 milhões. Quando chegarmos ao terceiro, vamos gastar U$ 40 milhões, no máximo US$ 50 milhões. É uma tecnologia dominada.

Por que o petróleo está tão caro?

A principal questão é uma enorme expectativa de crescimento econômico da Índia e da China. Ninguém cresce sem consumir petróleo e, assim, a demanda aumenta, mas a oferta permanece baixa. Em média, todo dia são descobertos 20 milhões de barris em algum ponto do mundo. Ora, num único dia, o mesmo planeta consome 83 milhões de barris. Se consome 83 milhões e as novas reservas só aumentam num ritmo de 20 milhões, a conta não fecha. Para piorar, em um ano e meio o consumo deve saltar para 120 milhões de barris ao dia. É por isso que fica a sensação de que haverá escassez no futuro, forçando o preço de US$ 40 para U$ 100 o barril, em 2007. Além disso, quem é do ramo já sabia que o petróleo chegaria a US$ 100, não por conta dessa paranóia, mas porque ele estava barato demais. O litro do petróleo chegou a sair por menos que o litro de água mineral. O que acontece é um ajuste para o preço real e não um aumento desproporcionado como muitos estão descrevendo.

Mesmo consumindo mais do que se descobre, há muitas reservas por surgir. O fim do petróleo ainda está longe?

Não resta a menor dúvida. O petróleo é uma fonte finita, só que ainda vai demorar muito para usarmos todo ele. O fim não virá em 30 ou 40 anos. Temos mais de um século de estoque pela frente. A questão-chave, aí, não é o tamanho das reservas mas sim o tempo que demora entre a descoberta de um novo campo e o início da produção. Mesmo que reservas inesperadas sejam encontradas no planeta, não será possível pôr no mercado a mesma quantidade de petróleo que é consumida. Veja, por exemplo, essa descoberta gigantesca que fizemos no Brasil: para que consigamos entrar em produção plena demora algo entre oito e dez anos.

Mas nesse meio tempo já não teremos formas alternativas de energia?

Impossível. Substituir petróleo e gás é impossível. Falam muito de hidrogênio, hoje. De onde tiram hidrogênio para mover carros? Do metano, derivado de petróleo.

E o etanol?

Você pode plantar o mundo todo com cana-de-açúcar e produzirá 8% do petróleo consumido no planeta. Biodiesel e etanol são modismos que não substituem o petróleo. Se plantarmos o Brasil inteiro produziremos 6% apenas do nosso consumo. E o petróleo não é só usado para mover carro. O mundo hoje gira em torno do petróleo. Oitenta por cento do que você tem no escritório é feito com petróleo.

Os proponentes da energia nuclear dizem que as usinas são muito mais seguras e eficientes, hoje.

É muito difícil o controle ambiental, de resíduos, principalmente quando é preciso gerar uma quantidade muito grande de energia.

Se o petróleo é finito, qual a saída?

Nos próximos 30 ou 40 anos não haverá alternativa que possa substituir o petróleo. Não dá para inundar mais grandes áreas para construir hidrelétricas, energia nuclear tem muitos problemas e o urânio está subindo de preço assustadoramente, os problemas ambientais causados pelo carvão são terríveis. Qual a energia que sobra? Petróleo e gás. Infelizmente é o que temos.

A região geológica das Bacias de Santos e Campos é a mesma da costa da África. Há petróleo por lá também?

Claro. Vai-se descobrir muito petróleo na costa de Angola. O Congo é uma região na qual muitas descobertas acontecerão, podemos esperar outras tantas na Namíbia. Mas, do tamanho desta brasileira, é muito difícil. Reservas petrolíferas desse tamanho, que chamamos de supergigantes, são muito raras. Desse porte, aqui no Brasil, podemos descobrir mais uma ou duas, no máximo.

Somando esse potencial de descobertas que estão para vir, é possível que a geografia do petróleo esteja mudando?

Não. As características geológicas do Oriente Médio são muito específicas. As da Venezuela, também. Nosso vizinho, aliás, tem mais petróleo do que a Arábia Saudita e continuará com posição de liderança. Seu único problema é que muito de seu petróleo é pesado, difícil de ser utilizado. Ganha em quantidade, mas não em qualidade. Existem quatro províncias gigantes no mundo que ainda não foram exploradas: o sul do Golfo do México, todo o litoral da Venezuela, que ainda não perfurou em águas profundas, e lugares inóspitos como Afeganistão e Sibéria. Por isso digo que o petróleo não vai acabar agora.

A exploração da área onde foi descoberta a nova reserva iria a leilão público este mês. Após o anúncio de que havia uma gigantesca reserva, no entanto, a ministra Dilma Roussef retirou-a da lista a ser leiloada. O governo argumenta que precisa reavaliar o valor, já que sabe que há petróleo lá.

Isso aí não é novidade para ninguém. Esse anúncio é simplesmente político. A BG, British Gas, anunciou essas reservas em Londres faz seis meses. Todo o mundo sabia disso. A Petrobrás, nós, todos sabemos que o subsal tem bilhões e bilhões de barris. Mas, veja bem, posso estar criticando sem saber as reais razões do governo. Penso como cientista, não como político. O governo pode dizer que deseja guardar essas reservas para explorar no futuro. Todos os países do mundo estão fazendo isso. Manter as reservas de petróleo é estratégico. Durante os próximos 40 anos, só crescerá quem tiver petróleo. Só argumento que, em cima da hora, não é bom suspender um leilão por conta da falta de transparência. Se sabemos que há bilhões de barris embaixo desta camada de sal, ficamos sem saber se a exploração será permitida ou não. O governo não está agindo de forma clara. Isso vai causar um estresse grande na comunidade internacional e no investimento das petroleiras no Brasil.

QUINTA, 8 DE NOVEMBRO
Megajazida é descoberta

A Petrobrás anuncia a descoberta da maior jazida de petróleo do Brasil, com volume entre 5 e 8 bilhões de barris, na bacia de Santos. O bloco, chamado de Tupi, tem potencial para aumentar as reservas do País em 50%. Exploração só começa em 6 ou 7 anos.

NOVO PATAMAR

“O Brasil tem, podemos falar com tranqüilidade, 50 bilhões de barris de petróleo”

MISSÃO

“Agora, o que a Petrobrás tem que fazer é perfurar, perfurar e perfurar!”

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

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Brasileiros passam a desistir do ’sonho americano’

Reportagem do The New York Times diz que país deixou de ser a terra das oportunidades. Há cerca de 1,1 milhão de brasileiros morando nos EUA.

G1

Assim como centenas de milhares de brasileiros da classe média que se mudaram para os Estados Unidos nos últimos 20 anos, José Osvandir Borges e a mulher, Elisabeth, vieram para o país com vistos de turistas e permaneceram como imigrantes ilegais, criando raízes de uma forma que jamais imaginariam.

Depois de encaixotar a TV de plasma, troféus escolares e outros frutos gerados em 12 prósperos anos vivendo no bairro de Ironbound, em Newark, no estado de New Jersey, o casal e a filha, nascida nos Estados Unidos, Marianna, de 10 anos, estavam com viagem de volta definitiva para o Brasil. Eles esperam que o filho, Thiago, de 21 anos, faça o mesmo daqui a um ou dois anos, apesar de sua relutância em deixar a única terra que de fato considera como lar.

“Não dá para passar a vida inteira esperando para legalizar a situação”, disse Borges, de 42 anos, refletindo sobre uma decisão difícil tomada a partir de esperanças perdidas, novos temores e mudanças na economia de ambos os países desde sua chegada aos EUA em 1996. Pela lei, o casal fica proibido de retornar aos Estados Unidos durante 10 anos, mesmo como turistas.

A decisão de desistir da vida nos Estados Unidos está sendo tomada por um número cada vez maior de brasileiros em todo o país, segundo agentes consulares, agências de viagem sobrecarregadas por reservas de passagens só de ida e líderes comunitários dos bairros transformados pelos imigrantes brasileiros, de Boston a Pompano Beach, Flórida.

Não se sabe ao certo quantos estão partindo. No entanto, no último semestre, a imigração reversa ocorreu indubitavelmente entre os brasileiros que vivem nos Estados Unidos, população estimada em 1,1 milhão pelo governo brasileiro, quatro a cinco vezes mais do que os números do censo oficial.

Para explicar a decisão normalmente triste de partir, os brasileiros que rumam ao país natal citam o medo crescente de serem deportados e a recessão na economia norte-americana. Muitos mencionam ainda o vencimento das carteiras de motorista que já não podem mais ser renovadas devido a regras mais rígidas, sem contar a queda acentuada do valor do dólar em relação à moeda do Brasil, onde a economia se aqueceu.

“Considerando tudo, por que você ficaria em uma ambiente como esse se existe um lugar como o Brasil, onde há esperança, uma luz no fim do túnel que não é a de um trem que vem para te atropelar?”, afirmou Pedro Coelho, executivo de Mount Vernon, Nova York, conhecido como o prefeito dos brasileiros em Westchester County. “Eles estão indo embora? Sim, centenas deles.”

Em Massachusetts, como conta Fausto da Rocha, fundador do Centro de Imigração Brasileira na região de Boston, seus compatriotas, muitos deles vivendo aqui ilegalmente, estão partindo aos milhares, alguns depois de perderem a casa devido à crise de financiamento do subprime. Em Nova York e New Jersey, os agentes de viagem e outros profissionais que vendem passagens aéreas afirmam que as reservas só de ida para o Brasil mais do que duplicaram desde o ano passado, para cerca de 150, partindo diariamente do aeroporto internacional JFK. Os vôos estão lotados até fevereiro.

Miami
No consulado brasileiro em Miami, que atende brasileiros que moram em cinco estados do sudeste dos EUA, oficiais declararam que uma pesquisa recente com empresas de mudança e agências de viagem confirmou aquilo que já haviam constatado em relação ao trânsito de pessoas: mais brasileiros estão deixando a região do que chegando, ou seja, o inverso de uma curva ascendente que parecia incontrolável ainda em 2005, quando brasileiros incapazes de cumprir exigências mais rigorosas de visto fugiam aos montes pela fronteira entre EUA e México.

Ainda é precoce demais afirmar que a imigração reversa dos brasileiros os coloca na liderança de uma tendência mais ampla entre os imigrantes ou se ressalta uma peculiaridade.

Como Borges, que contou que era mal remunerado como professor universitário de estudos religiosos em Curitiba, sua cidade natal, eles geralmente vêm de regiões urbanas e têm formação, muito mais do que outros dos principais grupos de imigrantes ilegais latino-americanos, como revelam alguns estudos. Muitos dos que voltam agora estão investindo os proventos americanos em propriedades brasileiras.

No entanto, sua própria explicação sobre o forte movimento de retorno ao Brasil contradiz o senso comum em ambos os lados da discussão sobre imigração.

Durante anos, aqueles que defendiam que era preciso dar a pessoas como os Borges uma chance de legalizar a situação argumentaram que os imigrantes ilegais só seriam colocados em uma situação mais marginalizada através de medidas de execução da lei como batidas policiais ou recusa de carteiras de motorista. Os defensores de punições e restrições mais rígidas argumentaram que a imigração ilegal cresce independentemente dos altos e baixos da economia americana. Os brasileiros em retorno ao seu país desafiam ambas as argumentações.

Diante de recompensas cada vez menores e aumento das despesas nos Estados Unidos, vivendo há tanto tempo longe dos parentes envelhecendo no Brasil, “as pessoas dizem: ’será que vale a pena viver ilegalmente, viver com medo?”‘, disse Maxine L. Margolis, professora de antropologia da Universidade da Flórida, em Gainesville, com extensa obra dedicada ao tema dos brasileiros nos Estados Unidos.

Existem variações regionais, mas o padrão é consistente. Em South Florida, o vencimento da carteira de motorista é muitas vezes o ponto de virada para as famílias que já foram pegas de surpresa pela desaceleração no setor de construção civil, declarou a irmã Judi Clemens, assistente da pastoral Missão Nossa Senhora da Aparecida, que atende cinco comunidades diferentes de brasileiros na Arquidiocese Católico-Romana de Miami. Ela ressaltou que até sete anos atrás, brasileiros com vistos de turista conseguiam carteiras na Flórida válidas por oito anos, mas agora todas estão vencendo e não podem ser renovadas.

“Não existe transporte público aqui na Flórida, então as pessoas dirigem para o trabalho com medo, preocupadas com a possibilidade de uma batida policial no trânsito resultar em meses de detenção pela imigração”, disse ela. “Muitas pessoas simplesmente disseram, ‘Para mim chega.”‘

Em Massachusetts, onde há mais transportes públicos, um número enorme de batidas policiais do departamento de imigração, somadas às ações hipotecárias, exerceram um papel fundamental no êxodo, segundos líderes comunitários como da Rocha, residente legal que chegou aos EUA em 1989. “Acredito que tenhamos perdido 5 mil brasileiros somente neste ano”, disse ele. “Os proprietários de imóveis enfrentarão uma crise em breve.”

Embora o Brasil não ofereça oportunidades de trabalho como a Irlanda, que atraiu uma enorme quantidade de imigrantes de volta ao país, também não se trata de um país desolado ou assolado por guerras. Assim como os imigrantes italianos no início do século XX, que normalmente planejavam retornar à Itália (metade de fato o fez), muitos brasileiros chegaram aos EUA com a intenção de voltar assim que conseguissem alcançar suas metas financeiras.

Mas, assim como a família Borges, em pouco tempo, mudaram a programação.

“Viemos para cá para economizar dinheiro suficiente para comprar uma casa” no Brasil, contou Borges, recordando-se das primeiras semanas quando a família se hospedou no porão da casa de um amigo e ele trabalhou na construção civil pela primeira vez. Eles esperavam retornar ao Brasil em dois anos.

Mas em vez disso, ele descobriu sua veia empreendedora. Iniciou um negócio de construção e encanamento que em pouco tempo já estava empregando sete compatriotas, pagou os impostos e ajudou a construir hotéis famosos em três estados.

Contudo, em 2005, à medida que o boom do setor de construção começou a decair, as grandes empresas, seguindo as demandas dos sindicatos, começaram a exigir documentação trabalhista, disse ele. E como sua equipe não conseguia obtê-la, não houve alternativa a não ser dispensá-la.

Com a decadência no mercado imobiliário, a renda semanal encolheu de elevados US$ 6.000 (pouco mais de R$ 10 mil) para menos de US$ 2.000 (cerca de R$ 3,5 mil), como ele relata. Houve aumento nas despesas como gás e aluguel, tornando mais difícil para ele e a esposa, que trabalhava como empregada doméstica em Nova York, quitar os empréstimos para a fazenda que estavam comprando no Brasil.

O dólar, que um dia chegou a valer quatro reais, caiu para uma baixa histórica de 1,7 real em maio. Em seguida, em junho, a gota d’água: o colapso do projeto de lei bipartidário do congresso que ofereceria a essa família, e a milhões de outros residentes ilegais, um caminho para a legalização.

“Depois da reprovação da lei, parecia que toda a esperança havia sido minada de uma só vez”, disse Borges, que chegou a viajar com outros membros da igreja católica St. James, de Newark, para fazer manifestações em apoio ao projeto de lei em Trenton e Washington.
Nos últimos anos, como conta, ele gastou US$ 26 mil (pouco mais de R$ 46 mil) em tentativas vãs e malogradas de conseguir um green card. Agora, ele espera sobreviver do processamento da cana-de-açúcar voltada ao etanol em sua fazenda brasileira.

“Se tivéssemos documentos, ficaríamos para sempre”, declarou Elisabeth Borges, de 41 anos, participante ativa das atividades da escola pública dos filhos. “Adoramos esta comunidade.”

Com orgulho, exibiram o troféu que Marianna ganhou na terceira série em um concurso de cartazes para campanha contra lixo nas ruas, pela criação de um pôster que agora é usado nas vitrines de estabelecimentos em todo o bairro de Ironbound.

É em bairros como esse, para onde os brasileiros trouxeram um ar de renovação a antigas lojas ou fábricas abandonadas, que a debandada está sendo sentida com mais intensidade.
“Estou com medo”, declarou Francine Melo, dona da agência de viagens de Newark onde os Borges compraram três passagens só de ida por US$ 1.708 (cerca de R$ 3 mil). “Minha sobrevivência depende dessas pessoas.”

Mais uma de suas clientes que está para partir, Norma dos Santos, ex-faxineira, disse que não tem opção. Depois de sete anos vivendo ilegalmente, conforme relata, ela não dirige para o trabalho e nem busca as crianças na escola com medo de ser parada pela polícia e presa pela imigração.

“Está ficando cada vez mais difícil ficar aqui sem documentos”, disse ela.

Mesmo assim, ela não tem certeza se está fazendo o melhor para os filhos nascidos nos EUA, um recém-nascido e outro de 2 anos.

“Eu me preocupo que um dia eles me questionem, ‘Por que você foi sair dos Estados Unidos?”‘, disse ela.

G1

Matéria de sugestão do leitor: João Francisco Resende. Obrigado.

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Ossétia do Sul: um quebra-cabeça cujas peças continuam espalhadas

Piotr Smolar

É agradável estar no jardim deste homem. Apesar dos seus 80 anos, Roman Tskhabrebov poda com destreza as videiras que trepam por cima do seu pátio. O sol é inesperado, generoso. O cheiro das uvas espalha-se pelo ar; de vez em quando, nos dias ruins, quando mais vale ficar escondido no fundo da toca, ele é substituído por aquele da pólvora.

A residência de Roman Tskhabrebov se parece com aquelas dos seus vizinhos: também está decorada pelos impactos de balas. Situa-se na artéria que simboliza todos os males da Ossétia do Sul, a província separatista da Geórgia onde a Rússia vem interferindo com todo o seu peso, assim como na Abkhazia. A estrada faz a ligação entre a aldeia de Gori, a nova sede da administração georgiana, e Tskhinvali, a capital da Ossétia do Sul, dirigida pelo “presidente” Edouard Kokoity. “As pessoas enlouqueceram!”, declara o idoso. “Até pouco tempo atrás, vivíamos todos juntos, compartilhávamos as alegrias e as tristezas. Agora, eles não se gostam mais, não se falam mais, e ainda atiram uns nos outros!”.

Ao sair desta casa, é preciso escolher: a 100 metros à esquerda, encontra-se o posto de controle da força de paz russa; a 100 metros à direita, fica aquele da força de paz georgiana. É um cenário de fronteira, só que não existe fronteira alguma. Implantada em junho de 1992, após um ano de guerra entre georgianos e ossetianos, a força “comum” de manutenção da paz deveria supostamente zelar pela desmilitarização da área de conflito. Mas não é o caso. A tensão continua tão viva quanto antes. Os incidentes vão se multiplicando na província que se tornou um objetivo acirradamente disputado entre a Geórgia, que defende a sua integridade territorial, e a Rússia, que vê com bons olhos a possibilidade de desestabilizar o seu antigo vassalo emancipado.

Cerca de 90% dos ossetianos são detentores de um passaporte russo. A quase totalidade do pequeno orçamento das autoridades separatistas provém de Moscou. A Gazprom - o gigante petroleiro russo - está construindo um gasoduto que corta para dentro da montanha, de modo que Tskhinvali não dependa mais da Geórgia. A Ossétia do Sul é um minúsculo território muito montanhoso (com 3.900 km2 e cerca de 70.000 habitantes), onde se sucedem as aldeias sob controle georgiano ou ossetiano, o que, em certos casos, obriga os viajantes a darem voltas inacreditáveis. Tbilisi garante controlar 50% do território da província e 40% da sua população.

Para compreender este imbróglio, basta se debruçar sobre o capô do carro de Mamuka Karachvili, o comandante da força de paz georgiana. O seu dedo indicador desenha na camada de poeira os grandes eixos de circulação da província. Não há uma linha reta sequer; por conta disso, é preferível não estar com pressa, principalmente no inverno e nos dias em que ocorrem enfrentamentos. “Nós temos que lidar com duas ou três provocações em média por mês, por parte de grupos armados”, explica.

Na véspera ainda, trocas de tiros haviam sido registradas num subúrbio de Tskhinvali. As autoridades georgianas foram em busca de informações sobre a origem dos incidentes. Em vão.

Em Gori, o chefe da administração georgiana, Dmitri Sanakoiev, um antigo ministro de Kokoity que se bandeou para o lado de Tbilisi depois de 2004, lamenta que a desmilitarização conduzida pela força de paz tivesse sido interrompida, depois da ascensão ao poder de Mikhail Saakachvili. “A sua vitória não agradou aos russos”, diz. “Por conta disso, em Tskhinvali e nas zonas que eles controlam, 5.000 homens foram armados. Em muitos casos, eles são bem pagos, entre US$ 200 (cerca de R$ 350) e US$ 400 (R$ 700) por mês (ou seja, dez vezes mais que a renda média da população). As autoridades de Tskhinvali se referem a eles como funcionários dos seus supostos ministérios do interior e da defesa. Para nós, eles não passam de bandos armados ilegais”.

Conscientes de que a força não é suficiente para fazer frente às aspirações de parte da população à independência e à fusão com a Ossétia do Norte, que é membro da Federação da Rússia, as autoridades de Tbilisi esforçam-se em conquistar o maior número possível de pessoas e atrair para si os seus favores, construindo, investindo e modernizando. Nos arredores de Gori, na aldeia de Tamaracheni, aonde se chega depois de passar por um desvio de vários quilômetros numa estrada lamacenta de montanha, o visitante descobre uma grande sala de cinema, inesperada e ultramoderna, na qual se apresentou, no final de outubro, o lendário grupo Boney M.

Mais adiante, o visitante depara-se com uma recém-pintada loja de eletrodomésticos, um pequeno terreno de futebol com grama sintética, o canteiro de obras de um primeiro hotel, um centro administrativo onde reinam policiais, sentados a mesas sobre as quais se destacam computadores novinhos em folha; mais adiante, chega-se até mesmo a um parque de diversões.

“Estamos no processo de reconstruir tudo o que é necessário, desde a água encanada até os hospitais, começando pelas estradas”, explica Dmitri Sanakoiev. Dois edifícios que comportam 120 alojamentos cada um, erguem-se na entrada da aldeia. Eles acabam de ser construídos para acolherem refugiados de Tskhinvali. Por enquanto, apenas trinta famílias neles se instalaram. “Os ossetianos vivenciam muito mal este conflito”, assegura Chala Tramakidze, um chefe adjunto da polícia georgiana na província. “Mas eles não podem dizer isso abertamente, sob pena de serem acusados de traição. Em Tskhinvali, contudo, nada está funcionando. O que foi que Edouard Kokoity chegou a fazer de fato em benefício da população?”

Em 12 de novembro de 2006, vários pleitos foram organizados paralelamente na província: de um lado, um referendo sobre a independência e uma eleição presidencial, por iniciativa dos separatistas de Tskhinvali; de outro, uma votação relativa à autonomia da Ossétia do Sul, organizada por Tbilisi. Nenhuma dessas eleições foi reconhecida no exterior.

Jornal Le Monde
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Rica, Cingapura não pode crescer

Território restrito torna ilha-Estado do Sudeste da Ásia vítima de seu próprio sucesso econômico

Vizinhos vetam importação de areia para impedir que país amplie área de 700 km2; tigre asiático também sofre com queda nos nascimentos

SÉRGIO DÁVILA

Cingapura vive um paradoxo: tem dinheiro de sobra e país de menos. A ilha-Estado tem um PIB de US$ 134 bilhões, uma renda per capita de US$ 31 mil e um superávit comercial tão desproporcionalmente grande que é tratado como segredo de Estado. Em 2006, sua economia cresceu 7,8%, atrás apenas da China e da Índia. Nos últimos 12 meses, o índice de crescimento explodiu para 9,8%.
Tudo é superlativo no presente e no futuro próximo. O primeiro circuito de rua noturno de Fórmula 1 será aberto aqui em 2008, e por isso o centro histórico passa por uma reforma em que apenas o prédio central da corrida levará US$ 33 milhões. “O retorno será de US$ 68 milhões só no primeiro ano”, disse à Folha Leong Yue Kheong, diretor do projeto.
A roda-gigante mais alta do mundo, com 165 metros, deve ser inaugurada até o fim deste ano na região turística de Marina Bay. É nesse lugar também que, em 2009, o Sands de Las Vegas abrirá seu maior cassino, num complexo de lazer de US$ 3,2 bilhões que levou o país a mudar suas leis para permitir o jogo. O primeiro exemplar do Airbus A380, o maior e mais caro avião do mundo, foi vendido à Singapore Airlines por US$ 300 milhões e fez seu vôo inaugural no fim de outubro.
Ao mesmo tempo, Cingapura pode não existir em 40 anos.

Campinas
Com uma área de 700 km2, ou o tamanho da cidade paulista de Campinas, o país não tem mais para onde crescer. Literalmente. Há a política pública de “reclamação de terras”, que faz a ilha avançar atualmente 40 cm por ano no mar, segundo jornalistas locais (o número é contestado pelo governo, que cita a média anual de 2 cm).
Isso levou Indonésia e Malásia, os países mais afetados, a proibir temporariamente a importação de areia para Cingapura. A reação causa arrepios no governo, domin