Arquivo de 12 de Dezembro de 2007

Entrevista com Arnaldo Carrilho

“Eu sou diplomata que exerce uma função sob diplomacia ocupada também”

Arnaldo Carrilho, diplomata brasileiro, foi designado como Embaixador Extraordinário junto à Cúpula América do Sul-Países Árabes, que acontece em 2008. Antes disso, exerceu um dos mais desafiadores serviços a que pode ser designado um diplomata: foi o Representante da diplomacia brasileira junto à Autoridade Palestina. Leia a entrevista que concedeu ao Icarabe, na qual fala, entre outras coisas, da eleição do Hamas, de contatos “ilegais” entre as populações palestinas e israelenses, a questão do Irã e a cobertura da imprensa sobre o conflito na região.

Arturo Hartmann

Icarabe: Os palestinos já passaram por diversas etapas do conflito com os israelenses. A nakba, em 48, depois 67, com a ocupação de seus territórios, depois a década de 90, com Oslo, e todos esses marcos significam etapas importantes do conflito. O que a eleição do Hamas significou dentro dessa trajetória?
Arnaldo Carrilho: O Hamas não é uma criação original palestina, é uma criação da Irmandade Muçulmana, com sede no Cairo (Egito) e financiamento do Catar. Os palestinos muçulmanos estavam esperando muito uma oportunidade histórica que os fizesse chegar ao poder. E chegaram em função da desmoralização máxima dos sucessores de Arafat. Uma coisa que geralmente não se fala da questão palestina é a divisão clânica da sociedade palestina, como ocorre com as sociedades libanesa, síria, jordaniana, que é muito mais grave, e egípcia. O que houve foi o seguinte: Israel, querendo criar o inimigo do inimigo, mas que seria inimigo futuro, protegeu o Hamas. Hamas quer dizer zelo, mas a palavra zelo no islã quer dizer a obediência à jihad. Por sua vez, jihad não quer dizer guerra santa, como a imprensa ocidental em geral classifica, mas quer dizer a disposição para defender a religião. Quem votou no Hamas em janeiro de 2006 não foram apenas muçulmanos, mas cristãos também, por causa do desespero causado pela humilhação de uma ocupação crescentemente injusta e humilhante. O Hamas, antes protegido por Israel, foi ao mesmo tempo um vento que deu ao povo palestino chance de manifestar sua posição a um estado de coisas que era realmente catastrófico. Não é possível que o primeiro-ministro (Ahmed Qurei, do Fatah, no posto de 2003 a 2005) da Palestina importasse clandestinamente, com proteção israelense, cimento do Egito para construir o muro. Então, o que houve com o Hamas é que ele foi um sopro de liberdade. Acontece que os Estados Unidos da América, o senhor George Bush diz: “Não aceitamos a eleição do Hamas porque o Hamas é terrorista”. E eu quero dizer o seguinte a você: o Hamas não é terrorista, é resistente. A prova é que Condolezza Rice, visitando Ramallah, chegou ao presidente Mahmoud Abbas e perguntou: “Você pode me dizer qual a diferença entre terrorismo e resistência?”. É muito difícil nessas circunstâncias. Se eu me explodo com uma bomba num mercado israelense e sou chamado de terrorista, o que dizer então de uma incursão, que é como eles chamam, de helicópteros com mísseis onde palestinos traidores, alcagüetes, com um spray incolor indicam ao helicóptero onde mandar o míssel. Onde é que está o terrorismo? Ela pediu para definir o que é resistência, mas não pediu para definir o que é terrorismo porque ela parte do princípio de que terrorismo todo mundo entende o que seja.

Icarabe: O que é o terrorismo no contexto do conflito?
Carrilho: Com a palavra terrorismo, é preciso ter muita atenção. Um dos grandes especialistas do mundo sobre terrorismo é um homem que, inclusive, não é de esquerda. É um judeu alemão chamado Walter Laqueur. Ele diz que é uma palavra derivada da fase do Terror da Revolução Francesa, mas só foi usada pela primeira vez pelos nazistas. Até a ascensão de Hitler e do partido nazista na Alemanha, não se usava “terrorismo”. Quando o arquiduque austríaco foi assassinado em público, em Sarajevo, em 1914, gerando a Primeira guerra mundial, ninguém disse “o terrorista matou o arquiduque”. Não se usava a palavra. Hoje em dia a palavra terrorismo se tornou uma palavra bloqueante da aplicação da lei. “Ah, é terrorista, logo não precisa de decisão judicial, a gente mata, a gente prende em Guantánamo”. A palavra terrorismo se tornou uma palavra mágica, não passível de julgamento judicial. No momento, há cinco ministros palestinos presos porque acusados de terrorismo. Foram arrancados de suas casas, aos berros, durante a noite, de pijama, com suas mulheres ao lado, com seus filhos em casa chorando porque eram terroristas. Então, aquelas datas que você menciona muito bem - 47, 48, 49, 56, 67, vamos para as Intifadas, em 87, 2000, 2001, 2002, e agora 2006, que marca a eleição do Hamas, são datas que marcam a impossibilidade de a Palestina ter o mínimo de autonomia. A nakba, a catástrofe, existe até hoje, ela é perene, ela está viva o tempo todo. E essa questão toda da Palestina, com o desastre, a catástrofe, a nakba, representa, e faço questão de frisar, a questão nacional número 1 do mundo e da equação internacional. Então, essas datas são sim importantes nesse sentido que estou dizendo. Se você pegar um automóvel, protegido por guardas fortemente armados, e ir à Gaza, você entenderá porquê. Entenderá que estamos diante do maior campo de concentração ao ar livre da história da humanidade. Há 1,4 milhão de pessoas em Gaza, no momento em que estamos conversando agora, que não tem liberdade de ir e vir, de dormir, pois os aviões F-16 israelenses, de propósito, passam a cada 40 minutos, meia hora, a cada hora, em rasantes nas cidades de Gaza, rompendo a barreira do som, apavorando as velhas, os velhos, as crianças, ensurdecendo bebês. A eleição do Hamas, que foi, em toda a história do mundo árabe, de uma limpeza e transparência, como reconheceu um próprio deputado brasileiro, representa um protesto diante do mundo. E o mundo respondeu como. “Não, são terroristas, logo não merecem atenção, logo tem que ter sanção, bloqueio, boicote”.

Icarabe: Uma das preocupações dos palestinos é de como as próximas gerações vão encarar a resistência, uma preocupação que existe entre a comunidade no Brasil, por exemplo…
Carrilho: Notei essa preocupação.

Icarabe: Eles temem que os netos dos que foram expulsos não saibam mais o árabe e o que é ser palestino. Qual o risco de Israel vencer, de que os primeiros sejam expulsos e as outras gerações, aos poucos, de fato esqueçam?
Carrilho: Não haverá esquecimento, a prova é que nesses 60 anos você tem hoje em dia 4 milhões de palestinos vivendo nos territórios ocupados e que não querem sair dali, não querem se refugiar na Jordânia, na Síria, no Líbano, não querem ir para Europa ou Estados Unidos. Eles estão ali resistindo, e resistem de todas as formas possíveis. Resistem até com formas ilegais de procedimento. Tenho uma amiga que é antropóloga, de uma especialidade muito curiosa chamada Espaços Arquiteturais. O trabalho que ela faz no momento é exatamente sobre o contrabando de palestinos com soldados israelenses nos checkpoints.

Icarabe: Como isso acontece?
Carrilho: Isso existe de maneira viva, diária. Eu assisti com meus olhos. E esses contrabandos vão desde peixe, portanto produtos alimentícios vindos de Gaza, até bombom, ouro e jóias. E isso, portanto, entre setores deliquenciais do exército israelense e setores marginais da sociedade palestina. Você pode dizer: “mas como, você está me contando um fato anormal, de delinqüência, ilegal”, mas mostra que a sociedade palestina está viva. É como o narcotráfico no Brasil, ‘ah, o narcotráfico!’. Acho muito curioso os intelectuais de Ipanema no Rio de Janeiro: “Ah, precisamos reforçar o policiamento”. Para protegê-los? Os intelectuais de Ipanema? Acho ridículo, absolutamente ridículo. Eles querem ser protegidos, então vamos reforçar. Eles querem ser protegidos de quê? Nos seus bares de Ipanema, nos seus bares de luxo. A mesma coisa se passa na Palestina. É uma sociedade dividida, tem uma classe dominante, uma classe dominadora, como a nossa classe, e eles têm que resolver um problema interno da Palestina, mas isso é problema da sociedade palestina. Por exemplo, os clãs. Existem os clãs deliquenciais, criminosos em Gaza. Esses clãs criminosos em Gaza é que mantiveram, por exemplo, por cento e poucos dias seqüestrado o jornalista Alan Jonhston, da BBC. Mantêm até hoje o cabo Gilad Shalit, do exército israelense. E é muito difícil para o próprio Hamas e para elementos do Hamas negociar com essa gente pela soltura do cabo, pela soltura do fulano ou do beltrano.

Icarabe: Por que ela é a questão central das relações internacionais hoje em dia?
Carrilho: Porque o grande problema do mundo árabe, que é um mundo secularmente humilhado e ofendido, é que não obteve sua autonomia e se tornou preposto de interesses estratégicos muito diretos. O Magreb, da França, há algum tempo é disputado pelos Estados Unidos. Há presença, que no início foi soviética, americana na Argélia, no Marrocos e na Tunísia. A Líbia, no momento, com o Kadafi, está entre uma força e outra tentando fazer negócios com a França e, com algum sucesso, com a Grã-Bretanha. Por que o senhor Tony Blair nos seus últimos dias foi dar dois beijos na face de Kadafi? Fez isso porque ele necessita da Líbia, do gás e do petróleo líbio, necessita ter um pé no norte da África, o que sempre foi um desafio estratégico do Reino Unido. O Kadafi necessita desenvolver o país, pois tem um problema de permanência e descobriu lucidamente que a única coisa que poderá fazer o regime dele manter-se no poder é fazer bons negócios com a Europa. No momento, a Líbia tem água subterrânea que está sendo canalizada. É um projeto de 10 bilhões de dólares. É isso, é muito direto. É um mundo complicado, mas o objetivo é muito fácil de entender. Complicado é o modo de fazer. A questão da palestina é complicada, pois o objetivo é um só, a desocupação. As fronteiras de 4 de junho de 1967, ou seja, a linha verde. Enquanto Israel não chegar à linha verde não há solução do problema palestino.

Icarabe: Qual o papel da sociedade israelense no problema?
Carrilho: A sociedade israelense é muito ativa, mas ela perdeu poder por incompetência porque foi acreditar no Partido Trabalhista, um grande traidor, digamos assim, das idéias da esquerda israelense. Gerou inclusive líderes mentirosos, que mentiram em primeiro lugar para o próprio povo israelense. Ela não está tendo chances por um curso de circunstâncias de natureza internacional. Os únicos exemplos de um certo movimento nesse sentido estão na América do Sul, na América Central (…) Então, o problema da Palestina não é um problema ideológico, no momento. O problema não é partidário, mas um problema de poder interno da sociedade palestina e de Israel, que representa a estratégia dos Estados Unidos no Oriente Médio. Quantas ogivas nucleares Israel tem?

Icarabe: Algumas centenas não admitidas…
Carrilho: Cento e setenta bastam para destruir todo o Oriente Médio. O que eles estão temendo no Irã é que ele desenvolva de fato artefatos nucleares com um pequeno detalhe que não se comenta, com tecnologia própria, e eles não sabem qual é essa tecnologia própria do Irã. Esse é que é o problema! A tecnologia da Índia é ex-soviética, a do Paquistão uma mistura de ex-soviética com americana. A do Irã ninguém sabe que tecnologia é.

Icarabe: Isso seria central dentro da questão do Irã?
Carrilho: Aí que está o problema. De modo que você leva em consideração o seguinte: o Hamas veio para existir, forçado ou não pelas circunstâncias históricas, pela intervenção de Israel, mas o Hamas é uma parte da sociedade palestina e uma parte da sociedade muçulmana. Nós vamos ter eleição agora no Marrocos – claro que as leis marroquinas e o regime marroquino se protege – mas você pode estar certo que a maioria que o Ocidente, não gosto da palavra, chama de fundamentalista, está pronta a votar nos partidos muçulmanos marroquinos. Claro que eles não vão atingir o poder, já está assegurado, tem toda uma estratégia jurídica-institucional que não vai permitir, tal como na Jordânia nos últimos dez anos, mas eles são altamente populares, são os únicos que falam da humilhação. É um assunto muito complicado. Eu gosto muito de conversar com meus amigos homens de negócios, ricos, na Palestina. Muitos deles fazem negócios com americanos, canadenses, europeus, mas todos eles têm uma coisa que não vejo em nossos empresários, eles têm um patriotismo absoluto. Isso é admirável. Eu nunca vi um homem de negócios falar “está certo que Israel faça assim, ou que os Estados Unidos comportem-se assim, a Grã-Bretanha, a Europa”, nunca vi algum deles dizer isso. Todos se dizem humilhados, apesar de realizar negócios com esses países. Eles não estão pensando em casa em Miami ou apartamento em Paris. Eles vão a Chicago, Nova York, mas não pensam nisso. Eu tenho amigo que é importador de equipamento hospitalar, Bashar Al-Barghouti. O adido comercial do consulado-geral dos Estados Unidos em Jerusalém disse a ele, no momento máximo do boicote e do embargo americano à Palestina, para não tentar vender os aparelhos ultra-sofisticados de diálise que ele comprava nos Estados Unidos para os hospitais de Gaza, pois estava sob governo terrorista. A partir desse momento, eu me lembro ele chegando ao local que eu freqüentava e dizer: “não é possível, eles não querem que eu mande os aparelhos de diálise para Gaza. Quer dizer que vão morrer crianças, velhos, velhas, porque estou proibido de colocar meus aparelhos importados lá”. Isso é um ato de desumanidade máxima, um ato de desumanidade via negócios, via relações comerciais. São coisas que não se divulgam.

Icarabe: Qual o principal problema do retrato que a imprensa faz da questão palestina e em que medida isso atrapalha um encaminhamento da solução?
Carrilho: Você desculpe responder com um negócio que está fora da realidade. No momento em que se está falando de televisão pública, e o ministro Franklin Martins preconiza a criação de uma TV pública com correspondentes na África porque um terço da população brasileira é de origem africana, acho que a gente devia ter correspondentes dessa hipotética TV pública em outras regiões do mundo. Acho, por exemplo, que temos que ter jornalistas em Jerusalém e Ramallah, tal como eu vivia lá. Se nós brasileiros tivermos jornalistas que fazem isso, como ingleses, franceses, americanos, nós teríamos a outra visão. O que faz a nossa imprensa é repetir o que está no noticiário internacional.

Icarabe: Mas a cobertura deles (de quem tem correspondentes na região) é melhor por causa disso?
Carrilho: É melhor dependendo das tendências de cada órgão. O “Financial Times” e o “The Independent” têm uma boa cobertura. Conheço, por exemplo, o representante da CNN em Jerusalém e Ramallah, que é um intelectual, um sujeito maravilhoso, jovem, mas que se sente tolhido por diretrizes da própria CNN. Depende evidentemente para que órgão você vai trabalhar. Eu, se fosse jornalista no Brasil de hoje, correspondente e fosse mandado para lá, gostaria de ser correspondente do “Estadão” (O Estado de S. Paulo). Ao menos eu ia ser publicado aqui. Para não fazer como um certo jornalista, cujo nome não vou dizer, que foi para lá e ficou hospedado na casa de um agente da ShinBet (agência de espionagem de Israel), e que quando eu falava na palavra ocupação, “o senhor vive falando em ocupação!”. Claro, eu sou diplomata que exerce uma função sob diplomacia ocupada também. A nossa diplomacia em relação à Palestina é uma diplomacia de ocupação.

Icarabe: A opinião geral entre os embaixadores por lá é essa?
Carrilho: Salvo alguns raros que são favoráveis à potência ocupante.

Icarabe: O Brasil vai se envolver mais com a Palestina?
Carrilho: Vamos ter a reativação da nossa política. Nós temos um paradigma muito conhecido, que é a criação do Estado palestino, que tem que conviver com a realidade da existência do Estado de Israel, legalizado e institucionalizado no mundo inteiro pela comunidade internacional. Temos que conviver com esse país coeso, viável economicamente, ao lado de Israel. Em palestra, vi que alguns árabes protestaram quando eu disse que a Palestina precisa de Israel, e vai precisar sempre. É uma contingência geográfica, geoeconômica. Eles estão ali, encrustados em Israel, então tem que viver ali. O problema que eu vejo são os principais vizinhos. A Jordânia, do lado esquerdo, e o Egito ao sul. Esses países vão ter que aceitar essa convivência da Palestina com Israel. Eu estou preocupado com a convivência da Jordânia e do Egito com a Palestina. Aí é que está o grande desafio.

Instituto da Cultura Árabe
http://icarabe.org/

Comentários

Armistício

Frei Betto
10-Dez-2007

A rixa entre as famílias Teixeira e Brandão exigiu a presença de meu avô, oficial da Polícia Militar de Minas, para selar a paz no município dominado por elas. Ali os anos se sucediam atracados a uma coleção de cadáveres. As genealogias derramavam-se em necrofilias.

Na memória local apagara-se a origem do conflito. Uma questão de terras, diziam uns; segundo outros, a disputa por uma nascente que brotava do umbigo da Mantiqueira.

Há três gerações, Teixeira e Brandão vingavam sucessivamente seus respectivos mortos. Se um Brandão era abatido, a morte de um Teixeira fazia-se questão de tempo. Podia ocorrer na semana seguinte, quando nem ainda esfriara o defunto adversário; um ou dois meses depois; ou completado um ano.

Ambas as famílias precaviam-se à iminência de uma emboscada. Os Teixeira circulavam pela cidade apertados num cinto de capangas e infiltravam espias nas hostes dos Brandão para denunciar o menor sinal de retaliação à vista. Os Brandão guardavam-se ciosos em seus sítios e fazendas, e até as crianças traziam uma arma sob a roupa.

Uma semana antes de meu avô aquartelar-se no prédio do antigo grupo escolar, acompanhado de uma dezena de soldados, um Teixeira havia sido abatido no leito da amante. Para a família da vítima, a mulher se cumpliciara com os Brandão em troca de um baú forrado com barras de ouro. Contados cinco meses, um Brandão teve o ventre trespassado por pontiagudo punhal enquanto assistia à missa de sétimo dia da sogra. Assim, ano a ano desfolhavam-se as árvores genealógicas das duas famílias.

Meu avô convocou os chefes dos clãs para uma entrevista. Ralhou com um, ameaçou outro, e asseverou: “Deixarei insepultas as próximas vítimas dessa maldita rixa”.

Ao cabo de treze dias, um corpo da família Teixeira tombou atrás do mercado. Trazia a assinatura dos Brandão: tiro atrás da orelha direita. O moleque que o descobriu lançou-se aos gritos em correria desabalada pela rua principal: “Mataram mais um! Mataram mais um!”

Meu avô e três ordenanças cercaram a vítima com quatro estacas e uma corda. E afixaram uma placa: “Proibido tocar.” Um soldado ficou de guarda para evitar que os Teixeira viessem dar sepultura ao finado.

Mal a rigidez cadavérica emitiu os primeiros eflúvios de carne apodrecida, um Brandão apareceu morto no galinheiro do sítio em que morava. A arma branca enfiada pelas costas dissipava dúvidas: vingança dos Teixeira. Meu avô mandou recolher as penosas no invernadouro e, na tela que servia de porta, pregou o aviso: “Proibido entrar”.

A deterioração dos cadáveres atraiu urubus e afastou viventes. Suspenderam-se as aulas da escola nova, vizinha ao mercado. Este teve o seu comércio prejudicado devido ao cheiro pútrido que o infestava. Nas aforas da cidade, abriu-se desvio na estrada para que as narinas de tropeiros e viajantes não inalassem o odor nauseabundo do corpo estirado no galinheiro.

Bastou os vira-latas, dias depois, aparecerem lingüiçando tripas pelas ruas, para os Teixeira e Brandão baterem à porta do meu avô. Vinham dispostos a selar a paz e dar sepultura santa a seus mortos. Precavido, o oficial lavrou um termo de compromisso e mandou que assinassem. Após mútuos cumprimentos, os enterros foram autorizados.

Dois anos mais tarde, Analice, sobrinha da vítima do mercado, subiu enoivada o altar da igreja matriz para prometer amor eterno a Laurindo, filho do defunto do galinheiro.

Brandão e Teixeira não chegaram a um acordo quanto ao local da recepção. Uns e outros insistiam promovê-la em suas respectivas fazendas. Frente ao impasse, meu avô cedeu o pátio do improvisado quartel para a festa de casamento.

Frei Betto é escritor, autor de “Treze contos diabólicos e um angélico” (Planeta), entre outros livros.

Correio da Cidadania
http://www.correiocidadania.com.br/

Comentários

Biólogos debatem transferência de espécies ameaçadas

Na medida em que o aquecimento global muda os habitats em torno do mundo, os cientistas estão se perguntando se os humanos podem ajudar a salvar as espécies da extinção, transferindo-as para climas mais frios. Antes de começar a transportar animais, seria hora de procurar alternativas mais fáceis?

Philip Bethge

As mudanças do clima estão levando milhares de espécies de animais e plantas para novos ambientes. Agora, os biólogos estão debatendo se não faria sentido ajudá-las a fazer a mudança.

Pescadores indianos e bengaleses apelam para Bonobibi, deusa da floresta, antes de saírem para os mangues; eles também enviam suas preces aos céus para acalmar Daksin Ray, o rei tigre. Nenhuma prece, entretanto, pôde deter o tigre de Bengala. Pessoas são mortas pelos tigres quase semanalmente nas Sundarbans, maior floresta de mangue do mundo, localizada no delta dos rios Ganges e Brahmaputra. A região é um dos últimos refúgios para os tigres de Bengala. Apesar de ainda serem os mestres da floresta, um gás pode se tornar seu pior inimigo. O gás é chamado de dióxido de carbono e está aquecendo a terra.

As Sundarbans são um dos primeiros ecossistemas na Terra que poderão ser destruídos pelos efeitos da mudança climática. De acordo com um relatório da Organização Cultural, Científica e Educacional das Nações Unidas (Unesco), três quartos da região, considerada Patrimônio Mundial, podem estar submersos até o final do século. Um aumento de apenas 45 cm do nível do mar levaria o tigre de Bengala, também chamado localmente de “comedor de homens”, a se tornar uma das primeiras vítimas da mudança climática. E se as previsões dos cientistas estiverem corretas, não será a última.

De acordo com um relatório emitido em abril pelo Conselho Intergovernamental de Mudança Climática (IPCC), entre 20 a 30% de todas as espécies enfrentariam um risco “elevado” de extinção se a temperatura média global aumentar mais de 1,5 a 2,5 graus Celsius. Um estudo publicado na “Nature” concluiu que, até 2050, dois terços de todos os animais e plantas poderão ser forçados a encontrarem novos habitats para sobreviverem.

Com essas previsões terríveis, uma questão altamente debatida entre biólogos é se o homem deve dar uma mão, transferindo as espécies quando seus habitat se tornam quentes demais. Ou os animais e plantas conseguirão salvar-se sozinhos?

“Mudanças no clima são normais para animais e plantas; sempre tiveram que se ajustar a elas”, argumenta o biólogo do Zoológico Estadual de Munique, Josef Reichholf.

Outros, porém, discordam. “A mudança climática é uma das maiores ameaças à diversidade de espécies na Terra”, diz o professor de engenharia florestal da Universidade de Toronto, Jay Malcom. Mark Schwartz da Universidade da Califórnia em Davis concorda: “A magnitude das extinções provocadas pelo clima requer ação imediata”.

Schwartz e uma série de colegas publicaram um estudo que faz uma pergunta radical: se certos animais e plantas são incapazes de fugir das temperaturas crescentes, devemos ajudá-los? “Uma solução óbvia”, diz Schwartz, “é ajudar as espécies em risco a mudarem-se para novos ambientes onde possam prosperar.” A verdade é que os animais e plantas já estão reagindo ao aquecimento global, na maior parte migrando para o Norte. Borboletas e morcegos estão se movendo na direção dos pólos. A libélula vermelha e o louva-a-deus estão se tornando prevalentes no Sul da Alemanha. Águias marinhas e andorinhas dos beirais começaram a passar o inverno no Mediterrâneo, ao invés da África.

Essas mudanças não são necessariamente ruins. “Muitas espécies se beneficiam da mudança climática”, diz Reichholf. Por exemplo, grous e falcões carecas, ambos considerados espécies ameaçadas, encontrariam melhores condições de vida em uma Europa mais quente. Pragas como o besouro estão se sentindo cada vez mais confortáveis em latitudes ao Norte. Alces e porcos do mato estão expandindo seu alcance na medida em que seus alimentos favoritos se tornam mais abundantes.

Os biólogos que pedem ação rápida e decisiva, entretanto, estão preocupados com espécies impedidas de se mudar para novos habitats.

Se o clima mudar tão rapidamente quanto muitos cientistas prevêem, essas espécies dificilmente terão tempo suficiente para fazer o longo caminho para climas mais favoráveis. Em alguns casos, serão forçadas a negociar trilhas pedregosas e difíceis. A Terra não tem a mesma paisagem que apresentava no final da última era do gelo. Cidades, campos cultivados e estradas dominam o território hoje.

Ultrapassar esses obstáculos é impossível para muitas espécies. “A fragmentação de nossas paisagens impede muitos animais e plantas de se moverem livremente. Uma única auto-estrada pode ser suficiente para deter algumas borboletas”, diz Volker Hammen do Centro Helmholtz de Pesquisa Ambiental na cidade de Halle, do leste alemão.

Hammen faz parte de um projeto internacional chamado “Avaliando Riscos de Grande Escala para a Biodiversidade Usando Métodos Testados”. Ele e outros pesquisadores envolvidos no projeto advertem que a mudança climática pode ameaçar mais da metade de todas as espécies vegetais européias. Por exemplo, eles prevêem um desaparecimento drástico de espécies nativas dos Alpes e dos Pireneus. Fugindo das temperaturas crescentes, plantas como a Saxifraga oppositifolia já estão lutando para atingir maiores altitudes. Em algum momento, porém, alcançarão o pico e não poderão migrar mais. Entre as vítimas potenciais estão a Ranunculus glacialis e a Soldanella alpina.

As pererecas douradas da América Latina são outro exemplo. Dois terços dos anfíbios coloridos já foram extintos nos últimos 20 a 30 anos, vítimas de um fungo. A mudança climática acelera a contaminação pois dá melhores condições de vida para o fungo mortífero nas florestas úmidas das montanhas da Costa Rica e Panamá, onde as temperaturas médias à noite estão aumentado.

“Espécies raras que moram em habitats frágeis ou extremos já estão sendo afetadas”, diz Camille Parmesan, ecologista da Universidade de Texas, em Austin. Parmesan, que avaliou centenas de estudos, não acredita que as espécies pode escapar de habitats quentes simplesmente por adaptação. “Leva um milhão de anos para uma espécie desenvolver algo novo que permita que viva em um ambiente completamente diferente”, diz Parmesan. O problema, entretanto, é que elas têm apenas umas “centenas de anos” para completar o processo.

O que pode ser feito? As recomendações dos biólogos variam desde não fazer nada até tomar medidas decisivas. O exemplo dos ursos polares ilustra o dilema. Os peludos habitantes do Ártico tornaram-se ícones de mudança climática. As imagens amplamente publicadas na mídia das criaturas gigantes empoleiradas em minúsculas pedras de gelo sugere que a situação é urgente. Mas a realidade é uma história inteiramente diferente. Sete das 12 populações de ursos polares estudadas até hoje estão estáveis ou até crescendo.

Isso deixou os biólogos intrigados. Será que os ursos polares realmente precisam de gelo para sobreviver? Ou podem imitar os ursos pardos e caçar em terra?

Felizmente, ninguém até agora sugeriu uma operação de transferência aérea em massa dos ursos polares do Ártico para a Antártica, onde ainda há gelo em abundância. Os predadores presumivelmente cometeriam um banho de sangue entre as populações de pingüins que procriam no continente do Sul.

O reassentamento, ainda assim, está sendo discutido como opção viável para outras espécies. A conífera Torreya taxifolia da Flórida, por exemplo, mal sobrevive ao longo das margens do rio Apalachichola. Apesar de ainda haver cerca de 1.000 exemplares, as árvores enfraquecidas não estão mais produzindo sementes. “A torreya está presa no vale do rio”, diz Mark Schwartz.

A árvore, porém, tem seus defensores. Um grupo chamado Guardiões da Torreya quer ver as sementes de jardins botânicos plantadas em áreas onde a espécie atualmente não existe. “Por que esperar?”, pergunta Paul Martin, professor de geociências da Universidade do Arizona.

No final, o reassentamento pode ser a única opção para proteger a espécie de extinção no ambiente selvagem. Além disso, o programa de transferência da torreya pode servir como teste das vantagens e desvantagens de um método que pode trazer “uma nova era de conservação radical”, diz Martin.

A idéia de reassentar deliberadamente animais e plantas em novos habitats vai contra as regras de proteção de espécies. Os biólogos normalmente estremecem ao pensar nas espécies sendo acidentalmente ou irresponsavelmente introduzidas em habitat estranhos. Os sapos-gigantes, por exemplo, foram originalmente importados do Havaí para plantações de cana-de-açúcar australianas para dizimar os insetos. Em vez disso, os sapos vorazes embarcaram em uma marcha destrutiva pela vida selvagem australiana.

São exemplos como este que levam muitos cientistas a recomendarem que, em vez de reassentar refugiados da mudança climática, devemos abrir caminho para que possam migrar sozinhos. O agrônomo Hammen sugere desenvolver corredores para animais selvagens. O Nature Conservancy, grupo de conservação americano, está tentando estabelecer uma área alta protegida na Província de Yunnan, na China. As florestas alpinas raramente crescem em altitudes mais baixas; se as temperaturas mais quentes levarem-nas para regiões mais altas, as áreas protegidas podem servir para seu restabelecimento.

Até Schwartz admite: “A migração assistida é apenas um último recurso”. Ele também adverte contra “ambientalistas caubóis”, que já estão “movendo espécies simplesmente porque acham que é boa idéia.”

“Será um desastre se esperarmos as espécies começarem a se extinguir, entrarmos em pânico e começarmos a transferí-las. Precisamos de conservação agora, porque provavelmente levará uma década para chegar a algum consenso”, diz Jason McLachlan, da Universidade de Notre Dame, em Indiana.

De fato, os cientistas ainda não conseguem concordar em questões fundamentais. “O debate sobre a mudança climática distorce completamente nossa perspectiva”, diz Josef Reichholf. De acordo com ele, o aquecimento global não é um fator chave na extinção de espécies. “O maior eliminador de espécies é a agricultura em escala industrial”, diz. Por esta razão, Reichholf questiona se “a mudança climática pode levar algo a ser extinto”. Ele pode estar certo, ao menos no caso do tigre de Bengala, nas Sundarbans. Cerca de metade da cobertura florestal da região, lar de mais de 4 milhões de pessoas hoje, foi eliminada nos últimos 20 anos.

Mesmo sem o aquecimento global, o tigre está perdendo cobertura

Der Spiegel
http://www.spiegel.de/

Comentários (2)

Articulação Popular Pela Revitalização do Rio São Francisco

Blog Controvérsia na luta contra a trasnposição do Rio São Francisco. Favor enviar a carta abaixo para os e-mail que se seguem ao seu final.

————————

Exmo. Senhor Presidente da República - Luiz Inácio Lula da Silva

Exmo. Senhor Ministro da Integração Nacional - Geddel Vieira Filho

Saudações cordiais,

Acompanhamos com interesse os planos do Governo Brasileiro para o Rio São Francisco, tanto no que concerne ao Projeto de Transposição quanto ao Programa de Revitalização.

Respeitosamente, dirigimo-nos a V. Ex.a para compartilhar preocupações sobre os previsíveis impactos sociais e ambientais do Projeto de Transposição.

Sabemos a importância histórica, cultural, social, econômica e ambiental do “rio da integração nacional”. Temos também conhecimento dos problemas deste Rio, tais como o desmatamento, o assoreamento, a poluição por esgotos e agrotóxicos, as barragens e o avanço indiscriminado do agronegócio sobre o Cerrado e Caatinga. O estado atual de baixa vazão da barragem Sobradinho de 14% da sua capacidade é prova desta degradação.

O estado de degradação do São Francisco torna temerário qualquer acréscimo de novo uso aos atuais, múltiplos e, em muitos aspectos, já conflitantes.

Desde 27 de novembro de 2007, Dom Luiz Cappio, bispo da Diocese de Barra (Bahia), retomou seu jejum e suas orações em protesto contra a forma autoritária com que o governo federal impõe a obra de transposição do rio São Francisco sem um debate democrático sobre a viabilidade desta obra.

Em carta enviada ao presidente, Dom Luiz lembra que Lula não cumpriu o acordo assumido em outubro de 2005. Na ocasião, Dom Luiz suspendeu um jejum de onze dias, após o presidente ter se comprometido a suspender o processo da transposição e iniciar um amplo diálogo sobre o projeto com a sociedade.

A obra da transposição do Rio São Francisco não tem capacidade de levar água para 12 milhões de nordestinos, como a propaganda quer iludir. Ao contrário, ela é desenhada para beneficiar a produção de frutas nobres, etanol, aço e criação de camarão destinados principalmente para o mercado internacional, enriquecendo ainda mais poucas grandes empresas.

A região semi-árida tem grande diversidade de situações e potencialidades hídricas para o consumo humano e o desenvolvimento sustentável. Para atender à população do semi-árido, há alternativas melhores e mais baratas, por exemplo: as 530 obras sugeridas pela Agência Nacional de Águas (ANA) e que abasteceriam os 1,3 mil municípios da região a um custo de R$ 3,6 bilhões (quase metade dos R$ 6,6 bilhões da transposição). Para o meio rural tem as alternativas de Convivência com o clima desenvolvidas no âmbito da Articulação do Semi-Árido (ASA).

Diante deste quadro, o Projeto de Transposição exige questionamentos e cuidados. Ainda mais, porque se trata de um projeto com varias ilegalidades que estão sendo questionadas judicialmente e que ainda esperam posição do Supremo Tribunal Federal (STF).

Por isso, as pessoas, entidades e organizações abaixo-assinadas pedem que sejam suspensas as obras da transposição, que vem sendo realizadas pelo Exército Brasileiro.

Exigimos que seja ouvido o grito dos povos do São Francisco presente no jejum de Dom Luiz Cappio.

Atenciosamente.

(Seu Nome)

Seguem abaixo seguem os endereços e números de fax dos destinatários da carta:

PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA
e-mail: presidencia@planalto.gov.br
e-mail: protocolo@planalto.gov.br
e-mail: gabinete@planalto.gov.br
Fax: (0055) 61 3411 1865

MINISTRO DE INTEGRAÇÃO GEDDEL VIEIRA LIMA
e-mail: pedro.sanguinetti@integracao.gov.br
Fax: (0055) 61 3321 3122

MINISTRA DO MEIO AMBIENTE MARINA SILVA
e-mail: marina.silva@mma.gov.br
Fax: (0055) 61 3317-1755

Supremo Tribunal Federal:

GABINETE MINISTRA ELLEN GRACIE (Presidente)
e-mail: ellengracie@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174249

GABINETE MINISTRO GILMAR MENDES (Vice-Presidente)
e-mail: mgilmar@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174189

GABINETE MINISTRO CELSO DE MELLO
e-mail: mcelso@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174099

GABINETE MINISTRO MARCO AURÉLIO
e-mail: marcoaurelio@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174309

GABINETE MINISTRO CEZAR PELUSO
e-mail: mluciam@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174219

GABINETE MINISTRO CARLOS BRITTO
e-mail: gcarlosbritto@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174339

GABINETE MINISTRO JOAQUIM BARBOSA
e-mail: gabminjoaquim@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174159

GABINETE MINISTRO EROS GRAU
e-mail: gaberosgrau@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174399

GABINETE MINISTRO RICARDO LEWANDOWSKI
e-mail: gabinete-lewandowski@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174279

GABINETE MINISTRA CÁRMEN LÚCIA
e-mail: anavt@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174355 / 32174369

GABINETE MINISTRO MENEZES DIREITO
e-mail: alexandrew@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174129

Apoio ao Movimento:
apoio.dom.cappio@gmail.com

——————–

Para copiar e colar..

presidencia@planalto.gov.br
protocolo@planalto.gov.br
gabinete@planalto.gov.br
pedro.sanguinetti@integracao.gov.br
marina.silva@mma.gov.br
ellengracie@stf.gov.br
mgilmar@stf.gov.br
mcelso@stf.gov.br
marcoaurelio@stf.gov.br
mluciam@stf.gov.br
gcarlosbritto@stf.gov.br
gabminjoaquim@stf.gov.br
gaberosgrau@stf.gov.br
gabinete-lewandowski@stf.gov.br
anavt@stf.gov.br
alexandrew@stf.gov.br
apoio.dom.cappio@gmail.com
ricardo@controversia.com.br

Grato.

Ricardo Alvarez

Comentários

Palmares entre sangue e fogo

Flavio José Gomes Cabral

Pouco se sabe sobre o cotidiano e os primeiros anos no quilombo de Palmares. As fontes relativas a esse quilombo começam a surgir com mais intensidade a partir de 1670, quando da mobilização de tropas organizadas pelas autoridades coloniais para destrui-lo. Entretanto, há notícias de expedições a partir de 1602 comandadas pelo oficial português Bartolomeu Bezerra que resultaram na destruição de mocambos e na apreensão de alguns fugitivos.

Na realidade, os manuscritos são de natureza pública, tratando-se de pareceres, alvarás e relatos de comandantes sobre estratégias de guerra, e pouco revelam detalhes do cotidiano palmarino. Nos documentos, essas pessoas são chamadas de “negros alevantados”, que começaram a crescer depois de 1630 durante a ocupação do Nordeste pelos holandeses. Aproveitando a desordem provocada pela invasão flamenga, os negros fugiam das senzalas, indo se refugiar nos mocambos da região da Serra da Barriga, no atual território de Alagoas. A área era povoada por palmeiras, advindo daí a denominação do quilombo, que ao longo dos tempos cresceu, estendendo-se pelas ribeiras do Rio São Francisco, adentrando o Agreste Meridional e a Mata Sul pernambucana além dos limites do Cabo de Santo Agostinho.

Nesse período, conforme escreveu José Antônio Gonsalves de Mello, bandos de negros promoviam ataques nos caminhos; eram os chamados “boschnegers”, ou negros da mata. Contra eles se bateram capitães-do-mato brasileiros, já que os holandeses eram tidos como inábeis para tal função. O negro da mata parecia não ser um negro qualquer porque, no tempo do Conde de Nassau (1637-1644), quem conseguia capturá-lo recebia um prêmio maior que o pago por um escravo comum.

Há divergências quanto ao número da população de Palmares nessa época. Estima-se que existiam entre 6 mil e 20 mil habitantes. A falta de mulheres foi um grande problema. Por isso se raptavam escravas e índias, sendo essa uma das causas dos constantes conflitos entre os palmarinos e os grupos indígenas das redondezas. Barleus, autor de uma História dos feitos recentes praticados durante oito anos no Brasil, falava da existência de dois quilombos na Serra da Barriga: Palmares Grandes e Palmares Pequenos. Este deveria contar com uma população em torno de 6.000 pessoas e aquele, de 5.000, segundo revelou o trabalho de espionagem realizado em 1637 pelo mulato ou mestiço Bartolomeu Dias, que tinha vivido entre os palmarinos.

No diário do capitão Blaer escrito em 1645, há informes da existência de dois mocambos em Palmares. Um dos quais, designado por ele de “Velho Palmares”, teria sido abandonado pelos moradores porque estava situado em um terreno insalubre, dando margem para a fundação do Palmares Grandes. Esse povoado deveria contar com umas 200 casas e foi atacado pelas tropas do citado capitão, que contava com um efetivo de centenas de homens e com o apoio dos índios tapuias. Durante o ataque, cem palmaristas tombaram no campo de batalha e outros tantos foram capturados. Uma parte daquele povo conseguiu se embrenhar nas matas e como resposta passou a atacar as propriedades da vizinhança.

Na realidade, o estudo sobre o Quilombo de Palmares é um campo em aberto, merecendo investigações. Dentro desse universo, podemos nos perguntar se todos os escravos que fugiam dos engenhos na época da guerra dos holandeses realmente se refugiavam em Palmares ou viviam em pequenas comunidades escondidas em seu entorno ou distante dele. A resposta a essa dúvida carece de base em novos estudos, principalmente na documentação produzida pelos holandeses. Dentro desse universo, diversos quilombos existiam, sendo o mais importante o mocambo chamado Macaco, espécie de capital de Palmares Grandes, populosa e fortificada.

Muitos estudiosos disseram que os quilombos foram a única via de resistência à escravidão. Entretanto, os quilombos não foram a única forma de protesto, como sugere o historiador Flávio Gomes. Segundo esse autor, olhar a história dos quilombos apenas por esse ângulo é não perceber o legado e a história deles, bem como a possibilidade de entender o “funcionamento das sociedades nas quais se estabeleceram”, as formas de domínio, transações, negociações, astúcias políticas, violências e experiências de vida. Palmares, a exemplo de outras comunidades quilombolas surgidas no país, não vivia isolado. Sua capacidade de interação com outros segmentos sociais impressionou as autoridades e os proprietários de terra. Os mocambos desenvolveram atividades econômicas que interagiam com as economias locais. Pouco se sabe sobre as lideranças da localidade. Os relatos sobre aquelas figuras são os produzidos pelos comandantes das expedições que estiveram na área do quilombo com a finalidade de destruí-lo.

Os quilombolas conseguiram vencer as matas e paulatinamente foram tomando conhecimento da topografia da região. A princípio viviam da caça, da coleta e da pesca, mas, com o crescimento da população, passaram a praticar a agricultura (milho, feijão e cana-de-açúcar), comercializando esses produtos e trocando-os por armas e munições.

A comunidade palmarina era hierarquizada, havendo indícios de se tratar de uma “monarquia eletiva”, cujo rei ou “chefe de macacos” comandava os chefes dos outros mocambos. Em uma carta escrita pelo governador D. Pedro de Almeida em 4 de fevereiro de 1678 ao regente D. Pedro, consta que, por ocasião dos ataques contra Palmares que resultaram na morte de Ganga-Zumba, suas mulheres, filhos e cativos, abriu-se a possibilidade de se pensar na inexistência de um “igualitarismo” em Palmares, dada a vigência da escravidão nos quilombos.

Com a capitulação dos holandeses em 1654, os negros palmarinos continuaram a desafiar o poder colonial. Nos anos de 1670, duas expedições contra Palmares não cantaram vitória: a de 1675, chefiada pelo capitão Manoel Lopes Galvão, e a de 1677, comandada pelo capitão Fernão Carrilho, que pensou ter derrotado os negros, quando na verdade apenas pôs as mãos em alguns palmarinos, entre eles os parentes do chefe Ganga-Zumba. Com essa façanha, o governador pernambucano Aires de Sousa conseguiu pressionar o dito chefe, firmando em 1678 o “acordo do Recife”, que concedia alforria aos nascidos em Palmares e a desocupação da área num prazo de três meses para viverem nas terras concedidas pela coroa em Cucaú, na ribeira dos rios Sirinhaém e Formoso. Nessas terras, ficava assegurado aos ocupantes o direito de participar do comércio com os vizinhos e dos foros de vassalos do rei de Portugal. Algumas lideranças de Palmares não aceitaram esse acordo, gerando cisões e inaugurando uma nova fase na história daquelas comunidades com o surgimento de uma nova liderança – Zumbi.

No tempo de D. Pedro de Almeida (1674-1678), governador de Pernambuco, foi posto em atividade todo o empenho para destruir Palmares. Em 1674, organizaram-se algumas forças contra os mocambos. Para isso, munições bélicas e víveres foram estocados em Sirinhaém, Porto Calvo, Una e São Francisco, pontos eqüidistantes do Centro de Palmares. As lutas foram acirradas, havendo baixas em ambos os lados. Em um desses combates, o líder Zumbi foi ferido, mas conseguiu fugir. O cansaço e o estrago causados às tropas fizeram-nas recuar, trazendo consigo alguns prisioneiros.

Nos fins de 1694, entendia-se que a aniquilação de Palmares era um assunto que merecia atenção. Nesse ano, atacaram os mocambos de Una, Catingas, Pedro Capacaça e Quiloange, ocasião em que cerca de duzentos negros foram presos. As tropas chegaram a localizar o esconderijo de Zumbi, mas ele conseguiu fugir a tempo, reorganizando nas matas a resistência. O aniquilamento de Palmares figurava entre os diversos planos do governo de Caetano de Melo de Castro (1696-1699), que contratou os serviços do experiente bandeirante paulista Domingos Jorge Velho, que residia no Piauí, para aniquilar os mocambos da Serra da Barriga. As tropas militares partiram de vários pontos e conseguiram, depois de obter informações, localizar a Serra de Dois Irmãos, onde se encontrava Zumbi.

Apesar de protegido, Zumbi foi morto em combate no dia 20 de novembro de 1695. Sua cabeça foi cortada e enviada ao Recife. A carta do governador Melo de Castro ao monarca datada de 24 de junho de 1696 dava ciência dessa façanha, relatando a guerra e a morte de Zumbi, cuja cabeça foi exposta como troféu de guerra em um mastro “no lugar mais público” do Recife, na tentativa de satisfazer os patrocinadores da guerra, como também para “atemorizar os negros que supersticiosamente” se recusavam a acreditar na morte do líder negro. Julgavam-no “imortal”. Zumbi morto? Impossível. Muitos criam que um deus da guerra não pode morrer. Após a destruição de Palmares, os soldados foram recebidos com honras pelo governador e as terras do quilombo foram posteriormente aquinhoadas em lotes no regime de sesmaria e distribuídas entre os que participaram do cerco ao dito quilombo.

A tomada de Palmares e o assassinato de seu principal líder, Zumbi, não puseram fim às atividades quilombolas na região. Uma parte da população migrou para as capitanias vizinhas e a outra passou a viver no entorno do antigo quilombo. Cartas do governador pernambucano Fernão Martins Mascarenhas de Lancastre (1699-1703) ao rei português D. Pedro II relatam a existência de um reduto negro na antiga região de Palmares comandado por Camoanga, que se recusava a cumprir uma promessa feita ao bispo Francisco de Lima (1695-1704) de se “reduzir”. Diante dessa rebeldia, o rei ordenava, em 12 de janeiro de 1700, que se fizesse guerra contra ele, a fim de “acabar com as relíquias” daqueles “negros, que ainda depois da” vitória sobre Palmares “permaneciam em vários lugares”.

Camoanga foi morto em 1703 durante um ataque. Pelo menos até meados do século XVIII forças paulistas estiveram acampadas na região na tentativa de impedir o nascimento de novos mocambos, como também para proteger a ocupação daquelas terras, que haviam sido doadas no regime de sesmaria, cujos proprietários procuravam manter sua empresa sem a preocupação de que elas poderiam vir a ser atacadas por negros quilombolas.

Revista de História
http://www.revistadehistoria.com.br/v2/home/

Comentários (1)

Há 200 anos a corte portuguesa fugia para o Brasil

Mário Maestri
10-Dez-2007

Em 1793, a Coroa lusitana participara da primeira coalizão contra a República Francesa revolucionária, vista pelos liberais portugueses com grande esperança. Em 1796, após a burguesia francesa conservadora apoderar-se do poder e reprimir as massas populares, Portugal abandonara a coalizão, mantendo difícil neutralidade quanto ao confronto anglo‑francês.

Ingleses e franceses exigiam que Portugal tomasse partido. Uma decisão difícil. Optar pela França significava perder o Brasil, pois a Inglaterra apoiaria a independência da colônia. Apoiar os ingleses era selar a invasão de Portugal pelos franceses, senhores do continente. Portugal seguiu saltando nos dois pés.

Em 1807, Napoleão Bonaparte ordenou a ocupação e desmembramento do reino português. Lisboa tratou secretamente com os ingleses o apoio naval à transferência da Família Real e de parte da nobreza ao Rio de Janeiro, medida apoiada pelos britânicos pois significava a liberdade plena para seu comércio com o Brasil.

A mudança para o Brasil era idéia antiga. Os Diálogos das grandezas do Brasil já registravam a profecia de astrólogo do rei dom Manuel, o Venturoso, de que a colônia serviria, um dia, “de refúgio e abrigo da gente portuguesa”. A aristocracia lusitana tinha consciência de que vivia sobretudo das rendas brasileiras e que o sistema colonial entrava em crise.

Em A utopia do poderoso império, Maria de Lourdes Viana Lyra lembra que os reformistas portugueses propunham antecipar-se à independência da colônia criando novo relacionamento político que permitisse a “emancipação” do Brasil, com Portugal como centro europeu e mercantil, no seio de um império português reconstruído. A transmigração para o Rio de Janeiro foi também desesperada resposta a eventual movimento emancipacionista da colônia.

Em 26 de novembro de 1807, ao escafeder-se para o Brasil, dom João lançou patético manifesto: “Tendo procurado por todos os meios possíveis conservar a neutralidade […] vejo que pelo interior do meu Reino marcham tropas do imperador dos franceses […] querendo eu evitar as funestas conseqüências […] contra minha real pessoa e [crendo] que meus leais vassalos serão menos inquietados, ausentando-me eu deste Reino.”

Na manhã de 29 de novembro, sob a escolta inglesa, partiam do rio Tejo oito naus, quatro fragatas, três brigues, uma escuna e outras embarcações. Dez mil pessoas carregando o que podiam levar – móveis, objetos de arte, louçaria, livros, arquivos… À cabeça da debandada: o príncipe regente dom João; dona Maria Carlota, sua espanhola e em todos os sentidos não muito fiel esposa; dona Maria I, a rainha enlouquecida.

Portugal foi abandonado as frágeis e mal-aparelhadas tropas invasoras. Uma resoluta resistência dos exércitos lusitanos, apoiados pela população, impediria certamente a invasão. Mas a mobilização popular assustava mais a aristocracia do que os franceses. Quando da partida, dom João ordenara aos governadores que ficavam que muito bem recebessem, aquartelassem e assistissem os franceses.

Para muitos liberais, os soldados de Napoleão entraram em Portugal como libertadores. A coroa e a aristocracia lusitana temiam que os liberais portugueses fizessem o mesmo que o Terceiro Estado fizera na França. A família real escapava também das tropas francesas e da revolução burguesa que estremecia a Europa desde 1789.

A transferência da Família Real não constituiu apenas fuga diante das tropas invasoras e do liberalismo europeu. Migrando para o Rio de Janeiro, a aristocracia lusitana fazia virtude da necessidade, transferindo a sede da administração real para a “melhor parte” do império lusitano. Em uma das mais olímpicas demonstrações de falta de raízes e sentimentos nacionais, a grande aristocracia abandonava a terra pátria para melhor defender privilégios sociais e econômicos.

Após parada em Salvador da Bahia, o comboio real chegou, meio desgarrado, ao Rio de Janeiro, a 7 de março de 1808, onde o príncipe dom João teria dito ao representante do governo inglês que considerava “muito pouco provável” seu retorno a Lisboa. Voltaria, treze anos mais tarde, acuado pela revolução liberal portuguesa de 1820.

Mário Maestri, 59, é historiador e professor do PPGH da UPF.

Correio da Cidadania
http://www.correiocidadania.com.br/

Comentários

A grande marcha do século 21

Pela primeira vez na história da humanidade, a população das cidades supera a do campo

Suketu Mehta*

Há uma grande marcha em curso no planeta - o movimento, sem precedentes na história, do campo para a cidade. Só na Índia e na China, 620 milhões de pessoas vão se mudar do meio rural para o urbano nas próximas duas décadas. E já neste ano, pela primeira vez, mais pessoas vivem nas cidades que no campo. Nós nos tornamos, enfim, uma espécie urbana.
Existe uma enorme distância entre o padrão de vida dos moradores das cidades e os do campo no mundo em desenvolvimento. E, diferentemente de séculos anteriores, quando os ricos se banqueteavam em seus palácios, bem distantes da zona rural - e eram assim míticos e inatingíveis para os aldeões -, hoje a televisão e a internet colocaram uma parede de vidro diante dos estilos de vida das classes médias em acelerada expansão, com suas roupas de grife e seus carros tinindo de novos, para a admiração de cada aldeia ou vilarejo dos países em desenvolvimento. Com o nariz colado no vidro, os aldeões vêem por conta própria que podem viver melhor - bastando, para isso, migrar.
O aquecimento global ampliará esse fenômeno, podendo transformar a fuga dos campos assolados por secas e enchentes em verdadeiro estouro de boiada. A migração também colocará desafios tremendos para a estrutura política em sua tentativa de acomodar e controlar essa população em deslocamento. Os aldeões precisam de autorizações cuidadosamente racionadas para viver em cidades chinesas. Por isso há muita gente morando ilegalmente em Xangai, Pequim e Shenzhen, assustada, à sombra dos novos edifícios que reluzem. Existe um risco enorme de explosões sociais caso as autoridades decidam deportar essas pessoas.
Um arquiteto de Bombaim explicou-me certa vez que planejar qualquer coisa em sua cidade é um exercício, digamos, fútil. Quanto mais bonita você a deixa - quanto melhores as ruas e ferrovias que você constrói, quanto mais se melhora a habitação -, maior o número de pessoas que será atraído para Bombaim vindo das aldeias carentes, inundando as ruas, os trens, as casas. A única solução que resta é mantê-los na zona rural. Se você resolver os problemas no campo, resolve, como um feliz efeito colateral, os problemas das cidades.
Os problemas, porém, não serão solucionados a menos que a agricultura se torne novamente viável no mundo em desenvolvimento. E isso não acontecerá a menos que o sistema internacional de comércio e de tarifas agrícolas seja mais eqüitativo. Quando o algodão indiano ou africano é mais caro no mercado mundial que o algodão americano - por causa dos generosos subsídios que o governo dos Estados Unidos concede a seus plantadores -, então o agricultor indiano ou africano dirá a seus filhos para tomarem o primeiro trem para a cidade e procurar trabalho nas condições que houver, e enviar dinheiro para o restante da família. Todo ano, milhares de agricultores indianos se matam porque não conseguem saldar seus empréstimos agrícolas - empréstimos que se tornaram cada vez mais essenciais na medida em que o preço das sementes transgênicas e do maquinário agrícola está fora do alcance dos agricultores de subsistência que constituem a maioria dos agricultores indianos.
É do interesse de todos nós - onde quer que moremos - ajudar as pessoas que vivem nas megacidades. A situação desesperada dos moradores de favelas em cidades como Bombaim afeta diretamente a sorte econômica de moradores de Nova York e Los Angeles. É importante para Londres compreender Bombaim e, para Bombaim, compreender Londres - pela simples razão de que a próxima geração de londrinos está nascendo em Bombaim. E, dado o crescimento fenomenal da economia indiana, que se aproximará de 10% este ano, é igualmente possível que a próxima geração de moradores de Bombaim esteja nascendo em Londres.
Por que as pessoas ainda vivem nas megacidades do mundo em desenvolvimento? Todo dia elas promovem ataques aos sentidos individuais - no momento em que a pessoa se levanta, no transporte que a leva ao trabalho, nos escritórios onde trabalha, nas formas de entretenimento de que ela dispõe. As emissões de gases são tão pesadas que o ar ferve como sopa. Há gente demais se acotovelando nos trens, nos elevadores, quando se vai para casa dormir. A pessoa pode viver numa cidade litorânea, mas o único momento em que a maioria consegue chegar perto do mar é por cerca de uma hora, numa tarde de domingo - e numa praia imunda. Isso não pára quando a pessoa dorme, pois as noites trazem os mosquitos vindos dos pântanos, os marginais que arrombam a porta, os alto-falantes barulhentos das festas dos ricos e dos pobres. Por que então a pessoa quer deixar sua casa de tijolos na aldeia, com suas duas mangueiras e a vista de pequenos morros, para viver nas cidades?
Para que algum dia seu filho mais velho possa comprar um apartamento de quarto e sala na periferia da cidade. E que o filho mais novo possa ir além disso, para os Estados Unidos ou a Europa. Seu desconforto é um investimento. Como colônias de formigas, as pessoas nas favelas facilmente sacrificarão seus prazeres temporários para um maior progresso da família. Um irmão vai trabalhar e sustentar todos os outros, e ganhará profunda satisfação do fato de que seu sobrinho esteja se interessando por computadores e provavelmente irá para a América. As cidades funcionam a partir de redes de assistência invisíveis. Numa colônia favelada não há indivíduos, há apenas o organismo. Há círculos de fidelidade e obrigações dentro do organismo, mas o círculo menor é a família. Não há nenhum círculo em torno do indivíduo.
Quando as pessoas migram do campo para a cidade elas estabelecem aldeias na cidade. Olhando de perto a estrutura de uma favela urbana, ela com freqüência reproduz a estrutura física da aldeia de onde se origina a comunidade predominante na favela. Em Bombaim, vi canais de esgoto batizados com o nome de rios das aldeias distantes; pequenos santuários que abrigam as mesmas divindades dos templos da terra natal; e o plantio de mangueiras e árvores originárias da província que foi deixada para trás. As ruas sinuosas da favela reproduzem a topografia em ziguezague da aldeia. A favela lúgubre é assim superposta pela aldeia da memória. Para o recém-chegado, isso aplaca a nostalgia e promove a familiaridade.
Um fator na migração que os economistas encontram dificuldade de mensurar, mas não deve ser subestimado, é a atração inerente à vida metropolitana para o jovem do campo. Ela não é apenas um lugar onde se consegue renda; para alguém que passou a vida toda numa aldeia, onde o entretenimento noturno em geral consiste em teatro popular ou cultos da igreja local, a agitação de uma cidade grande - com suas celebridades glamourosas e luzes brilhantes - exerce a mesma atração que Nova York ainda exerce nos incansáveis adolescentes de Peoria, no interior dos Estados Unidos. Um motorista de táxi de Bombaim certa vez me disse por que continua vivendo na cidade: “Lata Mangeshkar uma vez andou no meu táxi. Bem aí, onde você está sentado!” Lata Mangeshkar é a voz que emana de 1 milhão de rádios transistores por todo o subcontinente, o rouxinol de Bollywood, uma figura mítica para pessoas como o taxista. Ele vem de uma aldeia do norte onde a coisa mais próxima que os moradores chegam de ídolos como Mangeshkar é vê-los na televisão. Quando o taxista contou para as pessoas de sua aldeia que a famosa cantora havia honrado seu pequeno táxi Fiat, elas não acreditaram. Acharam que estava inventando. Esses momentos intangíveis de exultação sustentam muitos migrantes no estresse da vida da cidade grande.
Embora a urbanização do planeta possa ser um desastre para o meio ambiente, ela traz alguns benefícios. Quando as pessoas se mudam para as cidades, o PIB do país também cresce em conseqüência disso. Os migrantes são pessoas zelosas, para sobreviver e para vencer; eles são mais motivados porque têm mais a ganhar ou a perder que o nativo. E há muitas evidências para mostrar que a migração internacional é o melhor modo de lidar com a pobreza do mundo.
Os 150 milhões de migrantes trabalhando em países ricos remetem US$ 300 bilhões por ano para nações em desenvolvimento - uma cifra maior que toda a ajuda e investimento estrangeiro direto que os países ricos fazem no mundo em desenvolvimento. Então, a migração é a maneira mais eficaz de levar dinheiro para os pobres, desde que os migrantes cuidem de que esse dinheiro, geralmente enviado em pequenas parcelas de US$ 100 ou 200, seja gasto de maneira eficiente por suas famílias, sem nenhum custo burocrático além da transferência bancária. Mais de um terço dessas remessas vai para áreas rurais nos países de onde os migrantes vieram. É o exemplo mais flagrante dos pobres se ajudando uns aos outros. O dinheiro que não é gasto imediatamente pelas famílias poderia ser uma fonte significativa de financiamento do desenvolvimento, via esquemas de microcrédito e afins.
Existe, pois, uma razão pela qual as pessoas continuam se mudando para cidades como Bombaim, apesar de todos os seus problemas. “Bombaim é um pássaro de ouro”, disse-me um morador de favela cujo irmão foi baleado e morto pela polícia num tumulto étnico, que vive num casebre sem água encanada nem banheiro. Tente entender, se puder: “O pássaro de ouro é rápido e arisco, e você precisa dar duro para apanhá-lo. Mas, quando o tem nas mãos, uma fortuna fabulosa se abre para você”. Essa é uma razão pela qual as pessoas ainda querem vir para cá, deixando as árvores e os espaços abertos agradáveis do campo, enfrentando o crime, o ar e a água ruins. A cidade grande é um lugar onde sua casta não tem importância, onde uma mulher pode comer sozinha num restaurante sem ser molestada e onde alguém pode casar com a pessoa de sua escolha. Para os jovens de uma aldeia indiana, africana ou chinesa, o chamado da cidade não tem a ver só com dinheiro. Tem a ver também com liberdade.
*Suketu Mehta, premiado escritor indiano radicado em Nova York, foi finalista do Prêmio Pulitzer 2005 com Maximum City, em que relata sua vida em Bombaim, onde cresceu

Estado de S. Paulo

Comentários

Unidades de três e quatro dormitórios são maioria

Tendência é a de condomínios em grandes lotes e com muito lazer

DA REDAÇÃO

Nos últimos dois anos, o perfil de novos empreendimentos mudou no ABC. Em 2005, predominavam os de dois quartos, que foram ultrapassados pelos de três em 2006 e em 2007 perdem até para os lançamentos de quatro dormitórios.
“Há lançamentos em todas as faixas [de preço], menos no altíssimo luxo”, qualifica Marcelo Dadian, 42, diretor regional da incorporadora Rossi.
Guilherme França, 52, diretor da Schahin Desenvolvimento Imobiliário, destaca que grandes incorporadores começaram a exportar para o Grande ABC um modelo de empreendimento “bem aceito” na capital, o com “área de lazer e segurança generosas”.
A Rossi, por exemplo, adquiriu um terreno de 43,8 mil m2 para fazer o Pátio Catalunha, em São Caetano, com 700 unidades em oito torres. Serão apartamentos de 90 m2 a 180 m2, com preços de R$ 240 mil a R$ 500 mil.
“Temos pesquisado o ABC como um todo”, diz Dadian. Para ele, a região reflete um aumento geral do mercado imobiliário. “As empresas estão mais capitalizadas e há mais crédito disponível”, pontua.
Mas não considera que a maior parte dos compradores dos novos apartamentos seja proveniente de São Paulo. “A maioria é do próprio ABC”, observa. São Caetano, em sua opinião, é a cidade mais atraente para quem procura um imóvel.
“A cidade está colada no Ipiranga e tem boa qualidade de vida, a aspiração de quem vive no ABC é morar lá”, afirma.
Mas, se há demanda, a oferta é limitada. “O município é pequeno”, diz Luiz Pompéia, da Embraesp. “As maiores áreas para incorporação estão em Santo André e São Bernardo.”
“São Bernardo é a região menos virgem, um mercado já testado, e Santo André tem recebido vários empreendimentos”, concorda João Azevedo, 33, diretor de incorporações da Even. “São Caetano ainda tem um perfil industrial.”
Para Pompéia, ainda é cedo para falar que a procura por imóveis no ABC provocará alta nos valores da região.
“Por enquanto não deve haver inflação nos preços, mas há tendência de valorização devido à demanda garantida.”
(EDSON VALENTE)

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

Comentários

Os nomes da água

Em latim, aqua não era a única palavra para esta substância. Havia também a palavra unda. Unda ameaçada, aqua privada de suas virtudes, o drama da água é universal: a guerra da água – milênios depois da guerra do fogo – se passa sobre o cenário da guerra contra a vida

Alan Rey

Entre aqua e unda, duas grandes diferenças: a primeira palavra fazia da água um princípio, um ser ativo, um deus; a segunda via ali uma coisa, um meio percebido, provado, sensível
Por um fenômeno de condensação digno de um sonho freudiano, mas coletivo e secular, a palavra água reúne os principais aspectos desta substância vital e assume outros valores “líquidos”. Água, a coisa é conhecida, embora estranha, pronunciada em francês como uma vogal única – ô – é o resultado da palavra latina aqua, gasta pelas preguiçosas pronúncias galo-romanas, enquanto outras línguas romanas conservavam a consoante, até abrandando-a (o espanhol agua, o português água, ao lado do modelo antigo que o italiano guarda: aqua – sic). Os estágios intermediários para a palavra francesa, que deviam pronunciar-se awa, éwè, no norte da França, eram quase homônimos da palavra germânica de mesma origem ahwa (“rio”, na língua dos godos). Apenas as três letras vocálicas da palavra francesa lembram esta origem: e para o a inicial, a para o “we”, que não passa de um abrandamento do qw original e finalmente u para vogal final. Em um bonito e zombeteiro livro sobre a ortografia francesa, Jacques Laurent sugeria “depenar o pássaro” para a expressão francesa “plumer l’oiseau”, esta palavra em que nenhuma das letras e, a e u é pronunciada, já que é dita “uazô”; é a mesma coisa para esta eau reduzida a uma vogal sem suas três letras.

Água e unda
Se a poluição da água é um tema sentido tão violentamente, na sensibilidade da natureza, é porque a água (unda) deve ser também purificadora e lustral. Nenhum rito a dispensa
Em latim, aqua não era a única palavra para esta substância, um dos quatro elementos formadores do mundo: aqua, ignis, o fogo, aer e terra. Rica em derivados e compostos, aqua sofria a concorrência de unda que designava o elemento móvel, que o francês parou de chamar “onde1” e que correspondia, no plural aquae, a “flots” 2. Entre aqua e unda, duas grandes diferenças : a primeira palavra fazia da água um princípio, um ser ativo, um deus; a segunda via ali uma coisa, um meio percebido, provado, sensível, em suas diversas manifestações, do oceano ao regato, do lago ao conteúdo da jarra, da água que sustenta os navios àquela que faz crescer as plantas e mata a sede. Estas realidades vitais tinham nomes aparentados em todo o domínio indo-europeu; ao contrário, aqua, o princípio, pertencia, nas poucas línguas em questão ao “gênero animado” e tinha apenas “uma pequena extensão dialetal” (Ernest e Meillet, Dictionnaire étymologique de la langue latine). Tratando-se de uma realidade geográfica e humana mundial como a água, não é indiferente que as palavras que a exprimem estejam espalhadas por uma zona linguística e cultural mais ou menos extensa. Neste terreno, unda, a água material, é uma das metamorfoses de um radical indo-europeu (w-t, w-d) que se encontra particularmente em hitita, em sânscrito (udn’ah), em grego (hudor, hudatos, donde nosso hidro-), em germânico (resultando em water e wasser), em eslavo (russo voda), este w-d era nasalisado nas línguas bálticas (vandi, vandeas) assim como em latim (unda).

As mitologias marinhas, lacustres, fluviais, pluviais, que surgem das religiões e poéticas têm sua “fonte” em uma luta multissecular pela sobrevivência
A sensibilidade cultural ao elemento é evidentemente função das representações pela linguagem – o vocabulário da água é de uma extrema riqueza –, sendo essas representações função da situação concreta das sociedades: as do deserto, do oásis, da nascente reagem de modo diferente daquelas dos climas temperados ou ainda das zonas da monção, das zonas das chuvas equatoriais, etc. Sartre, a respeito de Veneza, tira da água de laguna em contato com a cidade admirável a idéia de uma “eternidade irrequieta e que atrai para ela própria todos os contornos para negá-los”. Esta água é óptica e filosófica: é mais a aqua latina, princípio e divindade, que a unda que se esperaria.

Sobrevivência em jogo
Mas o que está em jogo em relação à água é antes de mais nada o mesmo que para a sobrevivência: a sobrevivência da própria Terra, em várias cosmogonias, sobrevivência da matéria, em certas teologias, como a do alemão Johann Albert Fabricius (Théologie de l’eau, 1741 em francês). Mas se a água pode alimentar o sonho (Bachelard, L’eau et les rêves), deve ter alimentado a vida, contribuindo também para lavar a sujeira. Se a poluição da água é um tema sentido tão violentamente, na sensibilidade da natureza, é porque a água (unda) deve ser também purificadora e lustral. Nenhum rito religioso a dispensa.

E eis que nos séculos XX e XXI este combate tende, destruindo as virtudes da água, apoderando-se de seus dons comprometidos, a arruinar a própria humanidade
A revolução científica dos séculos XVIII e XIX exprime-se amplamente através desta “substância-elemento”, sem que a descoberta de sua natureza material (H2O) destrua seu simbolismo. A geografia e a geologia devem recorrer a uma hidrologia geral, e em seguida, a política internacional, a geopolítica. As mitologias marinhas, lacustres, fluviais, pluviais, que surgem das religiões e poéticas têm sua “fonte” em uma luta multissecular pela sobrevivência. Repartir a água, combater a seca desértica e o fluxo destruidor (dilúvios, tufões), manter os povos entre a torrente – palavra paradoxal, que evoca o fogo devastador – e o deserto, foi a tarefa secular da humanidade em sua luta contra a “natureza madrasta”. E eis que nos terríveis séculos XX e XXI este combate tende, destruindo as virtudes da água, apoderando-se de seus dons comprometidos, poluindo os oceanos, as nuvens, as chuvas e veios de água (ciclo mortal, ciclo vital), a arruinar a própria humanidade, a aumentar as injustiças naturais, a assedentar e a envenenar ao mesmo tempo, carregando, de passagem, os símbolos e as imagens necessárias à esperança. Unda ameaçada, aqua privada de suas virtudes, o drama da água é universal: a guerra da água – milênios depois da guerra do fogo – se passa sobre o cenário da guerra contra a água, contra a vida.

—————————————

1 - O português ainda chama “onda” (N.T.).
2 - Em português torrentes, vagas (N.T.).

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

Comentários

Saúde em estado terminal

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Pilar da vida humana e indicador incontestável do estado de desenvolvimento de um país, a saúde pública no Brasil agoniza em estado terminal. Todos que tiveram a má sorte de passar por algum problema e necessitaram para tal ser atendidos em qualquer emergência de hospital público constataram – se é que sobreviveram – a vergonhosa situação em que se encontra este serviço fundamental para a vida humana em nosso país.

Há algum tempo escrevi aqui horrorizada com o caso da moça paraibana cardíaca que poderia ter sido salva por uma cirurgia. Aguardou durante três meses. A cirurgia não aconteceu porque os médicos se encontravam em greve e não pensavam em dela sair para atender e resgatar uma vida em risco.

A situação piora em vez de melhorar. Apesar de o ministro Temporão ter liberado verbas aqui e ali, o rombo é tão grande no barco da saúde brasileira que não se consegue que este pare de fazer água. E afunda então cada vez mais. E os mais atingidos são evidentemente os mais pobres, que não podem dar-se ao luxo de recorrer à medicina privada nem possuem recursos para pagar planos de saúde cada vez mais caros.

Em importante hospital público no Rio de Janeiro as mulheres só têm direito ao tratamento de câncer de mama uma vez. Se por acaso tiverem a má sorte de ter uma recidiva e ou o aparecimento de outro tumor no outro seio não poderão ser operadas. O hospital não dispõe de recursos materiais ou humanos para tal. E a paciente fica condenada à morte sem remissão.

No Rio de Janeiro, dois importantes hospitais estaduais – o Rocha Faria, em Campo Grande e o Getúlio Vargas, na Penha – não terão mais o departamento de neurocirurgia. Os especialistas diminuem a cada dia. Em busca de salários melhores procuram outros espaços de trabalho. E a população das zonas oeste e norte do Rio fica desatendida em uma importantíssima área da saúde, expondo muitas vidas à invalidez ou à morte.

Dados recentes do IBGE demonstram que grande parte dos atendimentos em saúde é de origem ambulatorial e, devido à falta de recursos, grande parcela da população não procura por serviço médico. Acrescente-se a estes dados a existência de 118 faculdades de medicina em condições estruturais, recursos técnicos e humanos muito diversos. Muitas destas escolas não têm condições de ministrar o currículo mínimo exigido pelo MEC e a formação que oferecem aos futuros médicos é precária para não dizer deficiente.

O entendimento do conceito mesmo de saúde tem evoluído nos últimos anos para entendê-la em sentido mais amplo. Não apenas como ausência de doenças, mas como componente da qualidade de vida. Saúde, portanto, não é bem de troca, mas parte do acervo do chamado bem comum. Trata-se, portanto, de direito social, ao exercício e prática do qual todos, sem exceção, têm direito.

A partir desse princípio norteador, então, é que entra a obrigatoriedade por parte do Estado da aplicação e utilização de todos os recursos, conhecimento e tecnologia disponíveis, para promover e proteger a saúde em termos de prevenção, diagnóstico, tratamento e reabilitação. Com hospitais desaparelhados e instalações em ruínas; médicos mal pagos e desmotivados; pacientes gemendo, sofrendo e morrendo pelos corredores das instituições por falta de condições mínimas de atendimento, não há como esperar que o Brasil consiga exercer minimamente o direito de cidadania que emana de um nível de saúde aceitável para sua população.

Quando a saúde e a educação entram em obsolescência, é toda a vida de um povo que está em risco. E são as prioridades mais fundamentais que se encontram desrespeitadas e distorcidas. Esta é, infelizmente, a situação de nosso país no momento que ora atravessamos.

Correio da Cidadania
http://www.correiocidadania.com.br/

Comentários (1)

Entre a abstinência e o espetáculo

É significativo que não faça parte do debate sobre o celibato a essência da questão: a função do sagrado na castidade

José de Souza Martins

A quebra eventual do celibato sacerdotal católico é um desses temas secundários da modernidade que entrou no rol de diversões freqüentes desta sociedade do espetáculo. A problemática exposição da sexualidade dos padres, em episódios sempre dolorosos para os envolvidos, aí incluída a própria Igreja, acaba se dando na pauta do falso pressuposto de que os padres deveriam ser assexuados para exercer o sacerdócio.

Sociedade tendente à religiosidade nominal e difusa, diverte-se, intolerante, com as diferenças e a diversidade que a constituem e lhe são até contraponto crítico, como é o caso do sacerdócio. É significativo que a essência da questão do celibato não entre no debate, que é a questão do sagrado, de que é ele instrumento, e da função social e simbólica que no sagrado tem a castidade. Ou, ao menos, seu resíduo ritual que é a abstinência sexual nos períodos mais críticos do sagrado, não só na cultura católica, mas na cultura cristã em geral e nas culturas religiosas de várias sociedades. Todos os que exercem funções sacerdotais nas diferentes religiões, e não só os padres, são objeto de cumprimento da mesma expectativa de observância da castidade, da abstinência ou, ao menos, da temperança na sexualidade.

Na compreensão do tema, além da relevância do sagrado no celibato, existem as exceções. Aqui mesmo, na Arquidiocese de São Paulo, já tivemos, no último meio século, bispo católico, apostólico e romano casado, com descendência de filhos e netos, bispo reconhecido como tal por três papas. Foi o caso de dom Salomão Ferraz. De tradicional família protestante, que ofereceu a sua igreja notáveis pastores, foi pastor presbiteriano e como tal casou e teve filhos. Com o cisma de dom Carlos Duarte Costa, bispo de Maura, antigo bispo da Diocese de Botucatu, que fundou a Igreja Católica Apostólica Brasileira, em 1945, converteu-se ao catolicismo e foi ordenado bispo da igreja cismática no mesmo ano.

Quando o Vaticano procurou atrair de volta os católicos do cisma, dom Salomão Ferraz fez parte do grupo que retornou ao seio da Igreja de Roma, ainda no tempo de Pio XII, e foi admitido em 1958. Teve sua ordenação episcopal reconhecida, pois resultara da imposição de mãos por bispo consagrado. Nessa condição, quando já era avô, participou do Concílio Vaticano 2º, sob João XXIII, e foi designado para uma comissão do concílio por Paulo VI. Matrimônio e paternidade não representaram obstáculo para sua assimilação no sacerdócio católico e nos ritos da Igreja.

Não foi diferente da situação, mais recente, do acolhimento dos sacerdotes casados da Igreja Anglicana, pela Igreja Católica, quando decidiram deixar sua igreja por discordarem da então iniciada ordenação sacerdotal de mulheres. Na Diocese de Lungro, na Calábria, há sacerdotes casados. Diocese católica, constituída de fiéis historicamente originários da Igreja do Oriente, Roma aceitou e preservou seus costumes e ritos.

Tivemos, também, padre casado perante o Estado e a Igreja, o dr. Vicente Melillo, viúvo, que foi ordenado, aos 83 anos de idade, pelo próprio filho, dom Aníger Francisco de Maria Melillo, bispo de Piracicaba, a pedido do cardeal dom Agnelo Rossi.

A Igreja Católica Apostólica Romana se divide, como se sabe, entre a Igreja de rito latino e a Igreja dos 15 ritos orientais. Na Igreja Latina, desde 1967 casados podem ser ordenados diáconos e o têm sido, em número crescente. Eles podem batizar e celebrar casamentos. Na Igreja Oriental, casados podem ser ordenados presbíteros. Nas duas, casados não podem ser ordenados bispos.

Esquecemo-nos, portanto, de que, além da intrínseca relação do celibato com o sagrado, o celibato tem atenuantes formais no catolicismo, relativas às gradações no trato sacerdotal do sagrado. O catolicismo romano não é a única religião a preconizar alguma forma de celibato, mesmo temporário, a seus celebrantes, justamente por conta das particularidades do mundo do sagrado, como mundo antípoda do mundo carnal. É nessa tensão que em diferentes sociedades se constitui o propriamente social e humano. A sociedade se funda nela e não só as igrejas e as religiões.

É nesse contexto que se põe o crucial problema dos padres casados. Ordenados, são sacerdotes para todos os efeitos. Casados depois da ordenação, estão interditados para o exercício do ministério religioso. A maioria deles optou pelo casamento entre os 45 e 60 anos de idade, depois, portanto, de terem oferecido à obra da Igreja o melhor de sua juventude, quando maior era a possibilidade do clamor do propriamente carnal. Casaram, portanto, maduros e, do que se sabe e como era de esperar, constituíram famílias exemplares que são expressão de paternidade responsável, conforme a doutrina e os mandamentos. É no celibato fingido que surgem os problemas de degradação e crise da instituição e do próprio sagrado.

O retorno cíclico da discussão sobre o celibato expõe, no que omite, aspectos problemáticos da modernidade e da secularização da sociedade e não da religião. A coerência da secularização, um dos pilares constitutivos da modernidade, depende de que se difunda como expressão da liberdade de consciência, preservando, em nome dessa mesma liberdade, o espaço de afirmação de particularidades de opção individual e cidadã e diversidade de mentalidades e tradições, como é o caso do celibato sacerdotal. A modernidade deixará de ser híbrida e vacilante, como tem sido, e será propriamente moderna quando encarar as funções sacerdotais como nicho de sacralidade e não como arcaísmo. A prática das diferentes igrejas e religiões, quanto ao celibato, e das próprias igrejas sob autoridade do papa, mesmo a do rito latino, é indicativa de que a questão crucial da relação entre a sexualidade do sacerdote e o sagrado não exige o celibato obrigatório. O problema, portanto, não é esse. O problema é saber o que a sociedade moderna fará com o sagrado persistente e constitutivo do social, que é também refúgio dos aflitos.

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

Comentários

BRINQUEDOS para meninos quietos

João Correia Filho

Brincar de geografia, brincar de pensar, brincar de criar, brincar de olhar, brincar de colecionar, brincar de sensações e brincar de segredo eram as sete artes do brincar segundo João Guimarães Rosa. Inspirada na vida e na obra do escritor, a arte-educadora Selma Maria resgata brinquedos e brincadeiras do sertão mineiro e encontra na infância e nos personagens de Guimarães Rosa um outro olhar sobre a infância.

Desde criança, Selma Maria gostava de inventar brinquedos. Quando cresceu, virou professora e não largou mais a brincadeira: trabalha como arte-educadora e, desde 1996, há mais de uma década, coleciona tudo que diz respeito a essa atividade que marca o homem para sempre, o brincar.

Foi também por conta desse trabalho que Selma conheceu a obra de um dos maiores escritores brasileiros: João Guimarães Rosa. Em 1956, dez anos antes de Selma nascer, ele lançava a novela Campo Geral, na qual o tema central era a infância de um menino chamado Miguelim. Paixão à primeira vista.

Em 2000, ela seguiu para o sertão rosiano e começou a recolher brinquedos e brincadeiras de vilarejos da região de Cordisburgo, pequena cidade a 120 quilômetros de Belo Horizonte (MG), terra natal de Rosa e onde ele viveu parte de sua infância. Recolheu mais de 200 brinquedos e centenas de brincadeiras, ora presentes no jeito espontâneo das crianças, ora guardados na sabedoria e na memória dos idosos.

Reuniu sabugos que viram bonecas, latas que se transformam em telefone, sementes que passam a ser bois, cabaças que se convertem em piões, caixas que se transmutam em carros, madeiras que se metamorfoseiam em ônibus, cascas de árvore que viram máscaras e mais uma infinidade de cantos e poemas repetidos onde quer que haja crianças brincando.

“Fui encontrando muitas pessoas que poderiam facilmente figurar na obra de Rosa, como o menino Paulinho, de Morro da Garça, que tem 10 anos e é um grande criador de brinquedos, muito talentoso. É um menino quieto, que gosta de conversar com adultos, como Rosa”, explica Selma.

No município de Três Marias, em um centenário armazém da zona rural, Selma encontrou um brinquedo cuja genialidade a impressionou: “Sobre o balcão, um trator de madeira feito com restos de pneu e pedaços de material de construção me chamou a atenção.”

Resolveu ir atrás de seu criador e encontrou Gecismar, garoto de 10 anos que mora numa casa às margens do Rio De-Janeiro, afluente do São Francisco. “Quando vi, estava bem no local citado em Grande Sertão: Veredas, onde ocorre o primeiro encontro entre os personagens Riobaldo e Diadorim, quando crianças. Coincidência?”, indaga Selma.

Os meninos quietos
Enquanto ia mais a fundo em sua pesquisa, foi descobrindo o quanto a infância de João Guimarães Rosa tinha moldado o artista libertário presente em suas obras. Desde criança, adorava armar alçapões apenas para ter o prazer de soltar os pássaros logo em seguida. Outra diversão era colocar formiguinhas em ilhas feitas de pedras, empilhadas em poças de água, só para fazer pontes com gravetos e vê-las atravessar.

Como ele mesmo confidenciou em uma de suas entrevistas, também gostava de “imaginar histórias, poemas, romances, botando todo mundo conhecido como personagem, misturando as melhores coisas vistas e ouvidas”. Deu no que deu: o menino Joãozito, como era conhecido na infância, virou João Guimarães Rosa, um dos maiores escritores da literatura brasileira.

Avançando em sua pesquisa, Selma descobriu uma entrevista dada pelo escritor em 1946, na ocasião do lançamento de seu primeiro livro, Sagarana: “Um dia, hei de escrever um pequeno tratado de brinquedos para meninos quietos”, disse ao jornalista paraibano Ascendino Leite. Seria, quem sabe, uma forma de entender o universo de crianças que, como ele, preferiam as brincadeiras com mais concentração, silêncio e paciência.

Conta-se que Rosa nunca foi de fazer estripulias, de subir em árvore, de falar muito, mas que se refugiava nos livros, nas histórias dos mais velhos, no brincar quieto nos cantinhos do quintal. Embora a infância seja um tema recorrente em sua obra, o “pequeno tratado” nunca chegou a ser escrito.

No entanto, a frase dita pelo escritor serviu de inspiração para que Selma desenvolvesse um projeto com o tema. A partir de algumas pistas deixadas por Rosa em declarações e em sua própria obra, ela reuniu brinquedos e brincadeiras que diziam respeito a tais “meninos quietos”.

Sua idéia e sua coleção de brinquedos tornaram-se então a exposição Meninos Quietos, realizada em 2006, no Sesc Pinheiros, em São Paulo, e também estão se transformando num livro, no qual Selma conta suas experiências ao adentrar o universo infantil do escritor. O lançamento deve ocorrer ainda este ano.

Com base em sua pesquisa, Selma divide o universo rosiano em sete brincares: brincar de geografia, brincar de pensar, brincar de criar, brincar de olhar, brincar de colecionar, brincar de sensações e brincar de segredo.

O brincar de geografia, que tanto encantava o escritor brasileiro, foi levado para a vida toda - cruzaria o sertão como médico rural no interior de Minas Gerais e depois se tornaria diplomata, vivendo em diferentes países.

O brincar de pensar está explícito nas páginas do livro Campo Geral, quando Miguelim sobe nas árvores com seu irmão Dito para observar a vida lá de cima. Em Grande Sertão: Veredas, a narrativa de Riobaldo Tatarana transfigura-se num grande repensar de toda a sua trajetória como jagunço e herói do sertão, em mais de 500 páginas de um monólogo intenso, repleto de grandes reflexões.

No terceiro, brincar de criar, tal como um menino que inventa brinquedos juntando pedaços de coisas sem valor, temos Rosa como um grande criador de palavras, que fez do neologismo uma arma poderosa na renovação da própria língua e no nascimento de um idioma próprio. Já o quarto brincar traz o olhar atento do menino de Cordisburgo, que se tornaria um escritor capaz de descrever cada lugar, cada pessoa com minúcias que impressionam até os mais vorazes leitores

O quinto brincar resgata o Joãozito que gostava de colecionar insetos em caixas de papelão, pregando-os delicadamente com alfinetes de costura e decorando seus nomes. “Há quem diga que, já nessa época, sabia de cor o nome científico de cada bichinho guardado”, completa Selma. O brincar de sensações aflora em cada descoberta de Miguelim, de seu irmão Dito, de sua irmã Drelina e de tantos outros personagens que cruzam as veredas do sertão rosiano.

Por fim, estão os segredos, tão presentes nas narrativas de Guimarães Rosa e que tiveram o seu ápice em Grande Sertão: Veredas, no qual reside o grande mistério de Diadorim, o segredo maior de sua vida, que se revela apenas nas últimas páginas do livro. Aliás, um segredo que não se deve contar, para que você também entre nessa grande brincadeira.

Histórias do velho Rosa
João Guimarães Rosa nasceu em 27 de junho de 1908, em Cordisburgo, Minas Gerais. Foi ali que também nasceu seu prazer por ouvir e contar histórias. O menino Joãozito vivia na venda de seu pai, Florduardo Pinto Rosa, sempre a ouvir histórias dos tropeiros que por ali passavam. O fato é que Joãozito se tornou um grande contador de histórias e um exímio artesão da palavra.

Em 1946, aos 38 anos, lança o seu primeiro livro - Sagarana que, por muitos, é aclamado como uma das mais importantes obras surgidas na segunda metade do século 20. Em 1956, publica duas grandes obras: em janeiro, Corpo de Baile (que mais tarde seria dividido em três volumes: Manuelzão e Miguelim, No Urubuquaquá, no Pinhém, e Noites do Sertão), e Grande Sertão: Veredas, em maio.

Em 1962, lança Primeiras Estórias, uma união de contos que fascina críticos e público. Narrativas como “A Terceira Margem do Rio” e “Soroco sua Mãe sua Filha” ganham projeção mundial e traduções em vários idiomas. Em 1967, publica Tutaméia, seu último livro ainda em vida.

Nessa ocasião, a sua paixão por idiomas chega a extremos - contase que ele tinha fluência em português, espanhol, francês, inglês, alemão e italiano, além de bons conhecimentos de latim, grego, sueco, dinamarquês, servo-croata, russo, húngaro, persa, chinês, japonês, hindu, árabe e malaio.

Místico e muito religioso, Rosa acumulou uma série de histórias acerca de sua personalidade. Uma delas diz que a paixão por idiomas o teria levado a seguir alguns ciganos para aprender o idioma deles. Nessa oportunidade, uma cigana teria lhe dito que morreria assim que alcançasse algo que desejava muito. Verdade ou mera invencionice, o fato é que no dia 16 de novembro toma posse da Academia Brasileira de Letras. No dia 19 do mesmo mês, falece vítima de um enfarto no escritório de sua casa, enquanto escrevia.

Após a sua morte, ainda são lançados Estas Estórias e Ave, Palavra, que reúne contos e outros textos publicados pelo escritor na imprensa, ainda

Revista Planeta
http://www.terra.com.br/revistaplaneta/

Comentários