Arquivo de 14 de Dezembro de 2007

O êxito do Código da Vinci

Umberto Eco

Todos os dias vem parar em minhas mãos um novo comentário sobre O Código da Vinci, de Dan Brown. Se quiserem uma informação atualizada sobre todos os artigos a respeito do tema, basta visitar o site da Opus Dei. Podem confiar, mesmo se forem ateus. Quando muito - como veremos - a questão talvez seja por que o mundo católico se azafama tanto para arrasar o livro de Dan Brown; mas quando a parte católica explica que todas as informações que o livro contém são falsas, podem acreditar.

Que fique claro. O Código da Vinci é um romance, e como tal, teria direito de inventar o que quisesse. Além disso é escrito com habilidade e o lemos de um só fôlego. Nem é grave que o autor de início diga que o que nos conta é verdade histórica. Só faltava essa! O leitor profissional está acostumado a esses apelos narrativos à verdade, fazem parte do jogo ficcional. A encrenca começa quando percebemos que um grande número de leitores ocasionais acredita realmente nessa afirmação, da mesma forma que no teatro de marionetes siciliano os espectadores insultavam Gano de Maganza, o traidor.

Para desmontar a suposta veracidade histórica do livro, bastaria um artigo razoavelmente breve (e já andaram escrevendo uns ótimos) que diga duas coisas: a primeira é que todo o episódio de Jesus que se casa com Maria Madalena, de sua viagem à França, da fundação da dinastia merovíngia e do Priorado de Sion é tudo quinquilharia que já circulava há décadas numa pletora de livros e livrinhos para os devotos das ciências ocultas, desde aqueles de Gérard de Sède sobre Rennes- le-Chateau ao O Santo Graal e a linhagem sagrada de Baigent, Leigh e Lincoln.

Ora, que tudo isso contivesse uma longa série de lorotas já foi dito e demonstrado há um bom tempo. Além disso, parece que Baigent, Lincoln e Leigh ameaçaram (ou realmente iniciaram) uma ação judicial contra Brown, por plágio. Como assim? Se eu escrever uma biografia de Napoleão (narrando eventos reais), depois não posso processar por plágio alguém que tenha escrito outra biografia de Napoleão, ainda que romanceada, narrando os mesmos eventos históricos? Se eu fizer isso, então me queixo do roubo de uma originalíssima invenção minha (ou seja fantasia, ou lorota, como preferirem). Brown dissemina seu livro de inúmeros erros históricos, como aquele de ir buscar informações sobre Jesus (que a igreja teria censurado) nos pergaminhos do Mar Morto - os quais não falam nunca de Jesus, mas de assuntos hebraicos como os Essenes. É que Brown confunde os manuscritos do Mar Morto com aqueles de Nag Hammadi. Ora, acontece que a maioria dos livros que aparecem sobre o caso Brown, mesmo e especialmente aqueles bem feitos, para poder alcançar o número de páginas suficiente para fazer um livro, contam tudo o que Brown saqueou, tintim por tintim.

Esses livros, em alguma medida perversa, embora sejam escritos para denunciar falsidades, contribuem para fazer circular e recircular todo aquele material oculto. Assim (assumindo a interessante hipótese que O Código seja um complô satânico), toda refutação que se lhe faz reproduz as insinuações, e com isso acabam se tornando seu megafone.

Por que, mesmo quando é contestado, O Código se autoreproduz? Porque as pessoas têm sede de mistérios (e de complôs) e basta que se lhes ofereça a possibilidade de pensar sobre mais um mistério (e até no momento em que você lhe diz que era a invenção de alguns espertinhos) e pronto, todos começam a acreditar naquilo.

Acho que seja isso o que preocupa a igreja. A crença no Código (e em outro Jesus) é um sintoma de descristianização. Quando as pessoas não acreditam mais em Deus, dizia Chesterton, não é que não acreditem em mais nada, mas acreditam em tudo. Até nos meios de comunicação de massa.

Fiquei impressionado com a figura de um jovem imbecil que, na praça São Pedro, enquanto uma multidão imensa aguardava a notícia da morte do Papa, ele, de celular no ouvido, dava tchauzinho para a câmara de TV. Por que é que estava ali (e por que estavam ali tantos outros como ele, enquanto talvez milhões de verdadeiros crentes estavam em suas casas, e orando)? Em sua espera de um sobrenatural midiático, não estaria ele pronto a acreditar que Jesus tenha se casado com Madalena e estivesse mística e dinasticamente ligado pelo Priorado de Sion a Jean Cocteau?

Entre Livros

http://www2.uol.com.br/entrelivros/

Comentários

Nas entrelinhas do passado

Roger Chartier

Uma conversa com o historiador Roger Chartier é como um encontro com a própria erudição. Nascido em Lyon, na França, ele conta com simplicidade como o gosto pelos textos literários, pelas leituras dos clássicos franceses e espanhóis, ainda na juventude despertou seu interesse pela História. Sua trajetória intelectual, então, tratou de unir as duas paixões: a história do livro e das práticas de leitura na época moderna.

Diretor de estudos e investigações históricas da École des Hautes Études en Sciences Sociales, Chartier leciona desde 2006 no tradicional Collège de France, onde neste mês de outubro inaugura uma cadeira intitulada “Escrita e cultura na Europa Moderna”. A criação desse espaço de reflexão é resultado da atenção que os historiadores têm dedicado ao tema nos últimos anos. E isso inclui os estudos feitos no Brasil.

Entre sorrisos e gestos simpáticos, Chartier fala sobre seu contato com as instituições e os intelectuais brasileiros e sobre a ausência de imprensa no Brasil colonial. Mas, especialmente, sobre a reconstrução fascinante das formas de se produzir os livros, do impacto provocado pela presença do impresso dentro da sociedade. A emoção de uma história da leitura que abrange aquele espaço de privacidade que se cria entre os olhos do leitor e as letras impressas nas páginas de um livro, de papel ou virtual. Participou desta entrevista Andréa Daher, professora do Departamento de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

REVISTA DE HISTÓRIA - Como se deu a sua opção pela História e a sua preferência pelos estudos de história cultural?

ROGER CHARTIER - Há um perigo em responder a esta pergunta, que é o de cair na idéia de uma trajetória absolutamente necessária, enquanto a vida intelectual está cheia de passagens, encontros, oportunidades. Não sei exatamente por que a História sempre me interessou, desde a escola primária. Mais tarde, quando entrei no liceu, meu interesse se voltou ao mesmo tempo para os textos literários. Lia muitos livros clássicos franceses, e quando comecei a aprender castelhano, também os clássicos espanhóis. Quando comecei a fazer trabalhos acadêmicos, no final dos anos 1960, na França, a História utilizava as técnicas estatísticas para a quantificação dos fenômenos culturais e, no fim das contas, a literatura não desempenhava um papel particularmente importante nessa perspectiva. A história da cultura mobilizava as mesmas técnicas, as mesmas fontes que a história demográfica, social e econômica, baseada em dados objetivos. Ela não permitia, necessariamente, responder a perguntas importantes.

RH - Que perguntas seriam importantes para relacionar a História e a literatura?

RC - Por exemplo, era possível, embora difícil para os historiadores dos anos 1960 e 70, reconstruir a produção tipográfica de uma cidade durante um certo período, reconstruir o conteúdo das bibliotecas privadas, a partir das fontes cartoriais, a partir dos catálogos impressos. Mas o que essas análises diziam sobre a leitura? O que diziam sobre a relação entre o leitor e os textos que foram lidos? Evidentemente, muitos liam textos que não possuíam e, como nós, possuíam livros que nunca leram. E, dentro dessa perspectiva, tratava-se de construir um projeto compartilhado de uma história da leitura e dos leitores, entendendo leitura como apropriação do texto, ou seja, o texto incorporado, transformado pelos indivíduos em algo que dava sentido à sua relação com o mundo.

RH Por que o interesse pelas práticas de leitura na época moderna?

RC A palavra “moderna”, pelo menos em francês, tem um sentido ambivalente, porque para muitos significa o tempo contemporâneo. Há os que pensam que saímos da modernidade, que há uma pós-modernidade. Mas para os historiadores, como se sabe, a época moderna vai do século XVI ao XVIII, o que se classificou também de Antigo Regime em francês, a partir do momento em que se pensava a Revolução como um novo regime. Na tradição francesa, os historiadores que líamos, e que têm uma força de escrita ou de invenção intelectual ou conceitual, trabalhavam, em sua grande maioria, sobre a época moderna. Lucien Febvre, fundador dos Annales com Marc Bloch, era um historiador do século XVI. Braudel era um historiador modernista.

RH E como ocorreu sua aproximação com o Brasil?

RC É verdade que se pode ter uma relação com um país, com uma cultura, sem nunca ter estado efetivamente presente nele. Na França, fazíamos muitas leituras sobre o Brasil. Por exemplo, Michel de Certeau ficou fascinado com o texto de Jean de Léry. Isto é mais um Brasil, sem dúvida, textual, imaginado, conhecido por intermédio de obras e de historiadores. Depois, em 1993, tive o primeiro convite para vir ao Rio de Janeiro, no aniversário do CPDOC, na Fundação Getulio Vargas. Começaram, então, relações regulares com diversas instituições, colegas, comunidades intelectuais e científicas. E isso foi possível, me parece, porque no Brasil havia também interesses paralelos, principalmente em torno da história das práticas de leitura.

RH No Brasil, qual a razão deste interesse?

RC No Brasil, a convergência das ciências sociais, como a sociologia e a antropologia, a dimensão histórica e a importância central do tema para a educação criaram este interesse pela história das práticas de leitura. O deslocamento que foi feito da história do livro para a história das práticas de leitura, questionando suas possibilidades, os tipos de fontes, o método de investigação, tem encontrado interesse por parte deste mundo intelectual que se dedica à mesma perspectiva. A cada dia, produzem-se novos textos importantes e interessantes no Brasil sobre esses temas.

RH Como o historiador deve proceder para pensar as práticas de leitura passadas?

RC Nosso grande risco é o de projetar no passado nossas maneiras de ler, pensar, sentir. E sempre devemos pensar na diferença: reconstruir um mundo, que é um mundo diferente, por meio da postura antropológica que deve ter o historiador. Hoje em dia, de modo geral se lê com os olhos, silenciosamente. É como se tivéssemos estabelecido um espaço de privacidade entre o leitor e o que ele lê. Aliás, ler no ônibus ou na biblioteca pode ser definido como um espaço abstrato, imaginário, espaço em que o texto encontra os olhos. A prática de leitura em voz alta tem se mantido apenas em circunstâncias institucionais: lê-se em voz alta na igreja, nas aulas da universidade para ditar conferências, no tribunal para pronunciar sentenças, na escola em situação de aprendizagem, entre outras. No entanto, na época moderna, a leitura em voz alta era muito mais presente dentro da sociedade.

RH Como se lia na época moderna?

RC Muitas formas regulares de sociabilidade, como o salão e as sociedades literárias, estavam fundadas sobre uma leitura compartilhada que podia, depois, alimentar a conversação e o intercâmbio. Desta maneira, há uma leitura em voz alta para os outros, dentro dos meios particularmente alfabetizados, em que cada um podia ler por sua própria conta, mas que é uma forma de compartilhar o texto e, a partir daí, iniciar uma conversação, uma reflexão coletiva. E isto podia acontecer também em lugares menos regulares, por exemplo, como a leitura em voz alta durante uma viagem. Pensava-se, assim, que o texto tinha uma força maior quando era lido por uma voz que o retirava da inércia. Esta é uma primeira diferença entre a era moderna e a nossa: a onipresença da leitura em voz alta como forma da sociabilidade. Há uma segunda diferença que vemos somente hoje em dia, quando se fala de um analfabetismo funcional, quer dizer, de pessoas que podem ler, mas apenas certos tipos de textos, e que para entender o texto devem ouvi-lo, em certo sentido, pronunciando-o ao mesmo tempo. E este tipo de capacidade, que é uma capacidade particular de leitura, certamente era muito mais difundida e caracterizava uma população maior nas sociedades modernas do que hoje, quando se transformou em um dos critérios do analfabetismo.

RH E como pensar em lugares marcados pela ausência da imprensa, como o Brasil colonial?

RC Não havia imprensa, mas circulavam panfletos, libelos, sermões e pasquins em forma manuscrita. Esses materiais desempenharam um papel importante em diversos momentos históricos do Brasil antes da imprensa. Não se deve confundir nunca a circulação da produção escrita com a presença de imprensa numa determinada situação histórica e geográfica. Evidentemente, ao contrário, quando há oficinas de imprensa, a circulação ou a produção dos livros pode se transformar, assim como a produção de textos impressos que não são livros, como os panfletos e os libelos. Todo um mundo de impressos que se relacionam com a atividade comercial, com a atividade administrativa ou religiosa implicava também um uso mais freqüente da escrita manuscrita. Afinal, muitos desses textos impressos tinham espaços em branco que esperavam uma assinatura, um nome de pessoa, uma menção manuscrita. O paradoxo é este: talvez a invenção de Gutenberg tenha transformado a circulação dos livros, mas transformou ainda mais a cultura manuscrita.

RH Qual seria o foco de interesse de uma história da cultura escrita no Brasil colonial?

RC Se faltava a imprensa, talvez se devesse medir, no Brasil, como era esse papel do escrito dentro dessas relações comerciais, administrativas e religiosas. Não se deve focar somente na cultura livresca. Talvez se devesse pensar que muitos textos impressos não são livros, e que muitos textos impressos que não são livros implicam o uso da escrita manuscrita. Significa pensar que a originalidade de uma situação histórica em que não existia a imprensa estivesse mais vinculada à ausência de documentos impressos no cotidiano do que à ausência dos livros. Afinal, como sabemos, havia muitos livros no Brasil, inclusive os que a Inquisição queria proibir e destruir. Esta seria uma maneira de esboçar o tema dentro da perspectiva de uma história da cultura escrita, e não somente na dimensão da cultura dos livros impressos.

RH Que outros campos de investigação no Brasil se relacionam com as suas pesquisas?

RC Creio que a História da Vida Privada no Brasil. O projeto francês foi dirigido por Georges Duby e Philippe Ariès, e depois da morte de Ariès, pediram-me para dirigir um volume intitulado Do Renascimento às Luzes. Tratava-se, é claro, da vida privada no mundo ocidental europeu. Eu não li todos os volumes da história da vida privada no Brasil, mas no primeiro tomo, o que me chamou atenção foi, em termos de comparação, que nos países europeus, o modelo político supõe a existência de uma autoridade estatal que se impõe em um território mais ou menos estável e mais ou menos controlado. Há um vínculo entre o exercício de poder, configurações sociais e estruturas psicológicas. Evidentemente, quando se lê o primeiro volume da história da vida privada no Brasil, fica-se diante um mundo totalmente diferente, pois uma reflexão sobre a dimensão territorial e a dimensão política brasileiras pode encontrar figuras totalmente diferentes, em que há imbricações transculturais que criam formas de relação do indivíduo com as diversas definições de privado: a solidão, a família ou os grupos de sociabilidade. Ainda que utilizando os mesmos conceitos, haverá sentidos totalmente diferentes em relação à Europa no que diz respeito às estruturas familiares, às formas de experiência da privacidade, à relação entre a existência cotidiana e as crenças mais profundas, como, por exemplo, as religiosas.

RH A sua entrada no Collège de France, em 2007, acontece justamente com a criação da cátedra “Escrita e Cultura na Europa Moderna”. O que significa a criação de uma cátedra como esta?

RC É necessário definir o que é o Collège de France, porque é uma instituição tão rara que não tem equivalentes fora da França. Foi fundada em 1530 por Francisco I para ditar matérias que não eram ensinadas na universidade. E as primeiras cátedras foram as de Hebraico, de Grego e de Matemática, enquanto que a Universidade de Paris ditava a formação do Latim e, como se sabe, a Teologia, a Medicina e o Direito. E a tradição se manteve, mais ou menos, através da época moderna. Um segundo momento de importância do Collège de France foi o século XIX, quando o exercício das cátedras era utilizado como uma forma de oposição ao Segundo Império (1852-1870). Ao longo do século XX, foi uma instituição que reconheceu para as ciências exatas uma forma de excelência. No caso das Humanidades ou das Ciências Sociais, se podem encontrar nos corredores do Collège de France fantasmas impressionantes, como Braudel, Foucault e Bourdieu, entre outros. A cátedra que ocuparei a partir deste ano se refere, especificamente, ao tema das múltiplas formas do escrito, da cultura escrita – não somente a impressa – nas sociedades, do século XVI ao século XVIII, e sua importância para as diversas formas culturais. Este espaço só foi possível, me parece, porque nas últimas décadas foram construídos os saberes necessários para fundamentar uma cátedra como essa.

RH Como se pode pensar hoje as relações entre a história científica e o grande público?

RC Isto me parece estar relacionado com uma questão essencial, que é a capacidade, hoje em dia, de representação do passado. A história como disciplina, com seus próprios métodos, critérios de validação e exigências críticas, tal como se entende pelo menos a partir do século XIX, como uma disciplina que produz conhecimento o mais adequado possível ao seu objeto, está capacitada para representar o passado, tendo ao seu lado a literatura. Isto não é uma novidade. Há, ainda, diversas formas de memória, seja a memória de um grupo, de indivíduos, comunidades, ou a memória mais institucionalizada do Estado, das comemorações e dos lugares de memória, dos museus, dos monumentos, que consistem também numa capacidade de representar o passado. E a história como disciplina não é necessariamente a mais poderosa nesse domínio, pois a força de atração do romance histórico, se for bem escrito ou se for escrito segundo os padrões que permitam encontrar um público amplo, é maior.

RH Que força tem hoje a literatura, especialmente o romance histórico?

RC De modo geral, as obras de Shakespeare têm mais força que os relatos dos cronistas. Assim acontece com as formas de representação ficcionais da história, que são os filmes ou as telenovelas. O romance histórico tem como princípio tornar a história presente – algumas vezes, até o ponto de uma imitação das técnicas e da prova histórica, como é o caso das biografias imaginárias ou dos romances que são escritos como se fossem relatos históricos, até mesmo documentados. Há escritores que jogaram com isso, como é o caso de Borges, que se apropriou das técnicas mais evidentes da prova histórica para produzir uma ficção.

RH Qual seria o papel da imprensa na difusão do saber histórico?

RC Parece-me que pode desempenhar um papel essencial. As revistas de divulgação historiográfica correspondem claramente a uma expectativa do público, oriunda da sua relação com a ficção ou com a memória, de comparar, de comprovar uma experiência do passado através do discurso dos historiadores. Não servem para pensar que vamos restituir a história como a única forma de representação do passado. Podem permitir aos indivíduos compreender que cada um pode ter um extraordinário prazer lendo romances históricos – inclusive os historiadores mais sérios –, mas que não se trata do mesmo registro de relação com o passado que o de uma análise que se fundamenta num trabalho de definição de um objeto, de construção de suas fontes, de eleição de um modelo de explicação e de submissão aos critérios de validação da comunidade científica de seu momento. Neste ponto, me parece que há uma tarefa importante destas revistas de grande circulação, mas, evidentemente, com uma tensão permanente: como tornar acessível o saber histórico para pessoas que não são profissionais, e sim leitores de História, sem que a História deixe de ser, ao mesmo tempo, um saber científico? Trata-se de manter a relação com o saber tal como se constrói dentro do mundo universitário, acadêmico, científico, sem que se caia na tentação da história das narrativas de destinos de rainhas, de eventos extraordinários ou de acontecimentos políticos, a história mais fácil e imediatamente comunicável.

VERBETES

Jorge Luís Borges (1899-1986)
Poeta e ensaísta argentino, é um dos mais importantes autores da literatura mundial. De seus escritos destacam-se os contos “A Biblioteca de Babel”, publicado em Ficções (1944), e “O Zahir”, em O Aleph (1949), ambos marcados pelo realismo fantástico.

Escola dos Annales
Movimento historiográfico surgido na França em 1929, conhecido por propor novas fontes, novos temas e o uso de diferentes disciplinas no estudo da História. Foi fundada pelos historiadores franceses Lucien Febvre (1878-1956) e Marc Bloch (1886-1944). Um dos mais importantes expoentes dos Annales foi Fernand Braudel (1902-1985).

Georges Duby (1919-1996)
Historiador francês especialista em Idade Média, professor do Collège de France entre os anos de 1970 e 1992. É autor de clássicos como O tempo das catedrais (1979) e O ano mil (1986).

Philippe Ariès (1914-1984)
Dedicou-se ao estudo da história da família, da infância e da morte. Seus livros mais conhecidos no Brasil são História Social da Criança e da Família (1960) e Um Historiador Diletante (1980).

Segundo Império
Regime monárquico instituído na França por Napoleão III, de 1852 a 1870. Neste período, Paris foi o centro de grandes exposições que refletiam o desenvolvimento econômico francês e o progresso cultural e industrial europeu.

William Shakespeare (1564-1616)
Dramaturgo inglês, considerado um dos mais importantes teatrólogos da Humanidade. Autor, entre outras peças, de “Hamlet”, “Romeu e Julieta” e “Ricardo III”.

Revista de História
http://www.revistadehistoria.com.br/v2/home/

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Dom Luís Cappio e o biopoder

No sertão nordestino há uma capela de nome São Francisco. É para esse lugar que converge o epicentro da conjuntura política nacional. Um bispo revestido com uma humilde túnica franciscana interpela o poder de Brasília – distante a milhares de quilômetros.

O instrumento de interpelação utilizado por dom Luís é o seu corpo. Quando os argumentos já não convencem e sensibilizam, resta o corpo. Este se torna o meio e o conteúdo do ‘discurso político’. Dom Luís exerce o biopoder de que nos fala Antonio Negri.

O bispo franciscano não tem partido, não tem movimento… Ele é pobre… E o pobre, escreve Antonio Negri, no final do seu livro Império, é aquele que usa o que lhe restou: o corpo, a imaginação, poderíamos dizer, a mística… Não por nada que Antonio Negri aponta São Francisco como uma luz para o militantismo pós-moderno. “Na pós-modernidade, nós nos encontramos na situação de São Francisco, opondo à miséria do poder a alegria de viver”, escreve. Temos aqui a manifestação do biopoder. Enfim, “trata-se de uma revolução - escreve Negri -, que nenhum poder controlará”.

O gesto de dom Luís é desconcertante para o poder. Não é possível controlá-lo. Dom Luís é livre em seu gesto. Não está preso e, tampouco se vale das instituições - da Igreja, dos partidos, dos movimentos. Estes possuem um centro irradiador de poder, um centro decisório. A ação de dom Luís escapa às categorias de poder, está no terreno da simbologia, do imaginário, do biopoder. Não há um ‘comitê central’ com quem negociar. Por isso chegam a ser constrangedores os esforços do governo em suas incursões junto à CNBB e ao Vaticano para demover o bispo da greve de fome.

É um gesto desconcertante também para determinada esquerda. Não é sem razão que muitos militantes têm dificuldade de compreensão e aceitação da ação de dom Luís. A esquerda é tributária de um jeito de pensar e agir preso às categorias da sociedade industrial, como destaca Touraine em sua obra Um novo paradigma.

Não surpreende que o PT e a CUT, passados 14 dias do início da greve de fome de dom Luís – e fechamento dessa análise –, não tenham até o momento se manifestado em nota oficial. O PT e a CUT, para ficar na esquerda hegemônica no país, têm uma enorme dificuldade para compreender o gesto de dom Luís. Certamente a vêem com um ato irracional.

É irônico. A interpretação da greve de fome de dom Luís aproxima a direita e certa esquerda. Ambas interpretam o gesto do frei franciscano como fundamentalista. Ambas são conservadoras. O ministro da Integração Nacional Geddel Vieira Lima decretou que dom Luís é o inimigo número 1 da democracia. Administrador de empresas, pecuarista e cacauicultor, o ministro atacou o bispo: “Fundamentalismos - venham de onde vierem, praticados seja como for - são o inimigo público número 1 da democracia”. Os que um dia militaram no movimento social brasileiro e hoje estão no poder não foram tão explícitos como o ministro, mas certamente não discordam da formulação.

Dom Luís afirma que dessa vez não haverá barganha. Definindo o seu gesto como “um gesto desesperado”, se disse pronto para entregar a sua vida “por amor ao rio, amor ao povo beradeiro do São Francisco e ao povo nordestino”. Ele se diz preparado para uma longa batalha e reconhece que o desfecho é imprevisível. “‘Eu já fui enganado uma vez. E não quero ser enganado outra”, diz ele.

Tensão

Antecipamos na análise da semana passada e, em análises anteriores, que a greve de fome de dom Luís pode significar o maior embate do movimento social organizado com o governo Lula nesses dois mandatos. João Paulo Rodrigues, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em visita a dom Luís afirmou que “entre Lula e o bispo, ficamos com o bispo. Não queira Lula fazer o teste. A partir de agora vamos iniciar a luta contra as empresas transnacionais e em defesa do rio São Francisco. A briga vai ser boa”.

No ato em apoio a dom Luís ocorrido nesse domingo em Sobradinho, dom Cappio, afirmou estar esperando uma manifestação do governo. “O protesto não tem relação apenas com a minha vida, mas com a dos milhares de nordestinos que têm o rio como meio de vida”, afirma o religioso. “Estou esperando uma manifestação do governo”.

Cerca de 6 mil pessoas, entre religiosos, fiéis, representantes de movimentos sociais, de tribos indígenas e quilombolas, participaram do ato. A única resposta do governo foi o bloqueio pelo exército da pista de acesso à barragem de Sobradinho. A barreira, montada com cavaletes de ferro e guardada por militares armados, foi erguida a 200 metros do acesso à hidrelétrica, em área de segurança nacional. É triste perceber que um governo eleito com o apoio entusiasta dos movimentos sociais utilize o velho recurso da intimidação policial.

Na segunda-feira dom Luís voltou a afirmar que “o Brasil tem muita gente inteligente, não vão deixar para negociar sobre o cadáver de um bispo”.

Segundo as informações disponíveis, o Palácio do Planalto trabalha até o momento – fechamento dessa análise - com duas estratégias. A primeira delas é convencer a CNBB e o Vaticano para que convençam o bispo para que encerre a sua greve de fome. Nesta estratégia, o governo conta com o apoio incondicional de dom Algo Pagotto, bispo esse que já mais de uma vez destilou toda a sua ira contra os movimentos sociais e, inclusive, as Comunidades Eclesiais de Base - Cebs.

Segundo Roberto Malvezzi da Comissão Pastoral da Terra (CPT), essa estratégia tem os seus limites. “Será que a Igreja vai aceitar que o Estado determine o que ela deve fazer? Muitos bispos já demonstraram solidariedade a D. Luís, embora não compreendam exatamente seu gesto. Afinal, não queremos que ele morra”, destaca o assessor da CPT.

A segunda estratégia e, mais arriscada, é também comentada por Roberto Malvezzi. Segundo ele, “o governo já teria montado sua estratégia para não deixá-lo morrer. Na hora ‘H’, quando perder a consciência, o Estado, em nome da defesa da vida, o seqüestra e o leva para um hospital. Por isso, até agora, a única resposta do governo foi uma ambulância”. Essa estratégia é corrente na imprensa. A jornalista Lo Prete confirma: “O esquema montado para atender d. Luís Cappio, em greve de fome contra a transposição do São Francisco, inclui enfermeira e ambulância 24 horas, estrutura para emergências num hospital de Sobradinho e avião com UTI móvel caso seja necessária remoção para Salvador. Às turras com o bispo, o ministério da Integração Nacional e o governo da Bahia não querem correr riscos”.

O governo corre contra o tempo. Determinado em não abrir nenhum canal de negociação, assiste com preocupação à crescente adesão ao gesto de dom Luís. Os atos se multiplicam em todo o Brasil. Desde o jejum solidário, às mobilizações de rua. O sítio do IHU que vem realizando uma ampla cobertura sobre a greve de fome de dom Luís, registrou, entre outras, as manifestações de apoio ao franciscano da Via Campesina; da Associação Nacional de Presbíteros do Brasil – ANPB; da Articulação no Sem-Árido Brasileiro; da Comissão Brasileira Justiça e Paz.

Diariamente, são inúmeras organizações que divulgam cartas, moções, documentos e manifestos apoiando o bispo. O governo assiste ainda com preocupação a manifestação de setores considerados formadores de opinião. Comentaristas como o economista Luis Nassif e Paulo Nogueira Batista Jr. manifestaram apoio à causa de dom Luís.

Em seu artigo, o Nogueira Batista Jr. sensibiliza-se com a decisão de dom Cappio. Pergunta ele: “O leitor pode imaginar o que é uma greve de fome?” E responde valendo-se das palavras do próprio dom Luís: “É uma agressão tremenda, já que faz parte do instinto humano a preservação da vida. Só tendo uma convicção espiritual muito forte podemos vencer o instinto. Os quatro primeiros dias são insuportáveis e muito dolorosos porque se tem a expectativa do organismo pelo alimento que deve receber, que vem de fora. Depois disso o organismo está psicologicamente preparado, pois sabe que não vai receber nada e passa a se autoconsumir. Você não sente tanto a necessidade do alimento, mas o enfraquecimento é visível e cada vez mais você percebe a debilidade em seu corpo. Começa a faltar a memória e aparecem as dificuldades de se locomover”, testemunha dom Luís acerca da experiência da primeira greve de fome. “A morte dom Luís seria uma imensa perda. O governo precisa escutar o seu apelo”, escreve Paulo Nogueira Batista Jr., diretor-executivo no FMI, representando um grupo de nove países.

Preocupa ainda mais o governo o apoio que o bispo recebeu de um grupo de artistas. Dom Luís recebeu a visita da atriz Letícia Sabatella que participa do Movimento Humanos Direitos (MHuD), uma organização de artistas e intelectuais que luta contra o trabalho escravo e violações de direitos humanos no Brasil. Sem maquiagem, usando chinelos de couro, a atriz se sentou no chão, ao lado do bispo, que descansava em uma cadeira de plástico à sombra de uma árvore. Durante a conversa, ela chorou três vezes. “O presidente Lula deve retomar o governo popular, ouvir o que o povo quer”, disse a atriz. “Nós o elegemos com a esperança da mudança”, declarou.

O apoio mais vigoroso à greve de fome de dom Luís vem dos movimentos de base da Igreja, das pastorais sociais. A cada dia crescem as manifestações de apoio em todo o Brasil. Subsídios foram preparados para as paróquias. Em um deles se lê: “Senhor ilumine Lula, os ministros e governadores para que tomem decisões sábias, pensando no futuro do nosso planeta, em prol dos recursos da natureza, como testemunhas fiéis das precárias condições do nosso Rio São Francisco”.

O embate maior

A greve de fome do bispo é um espinho atravessado na garganta do governo. Explicita as contradições políticas e econômicas. Aqui reside a questão de fundo. Por detrás da greve de fome de dom Luís se manifesta um embate maior - o do modelo de desenvolvimento que se deseja para o país.

“No fundo, o seu gesto [do bispo] sinaliza que a loucura está no modelo de desenvolvimento que destrói os rios, as florestas, explora as pessoas e mais: que a sociedade brasileira, neste momento, está confusa diante do governo atual e não consegue perceber esse modelo de desenvolvimento. Mas, num futuro muito breve, a atitude de Frei Luís trará luz ao que significou esse momento na história do Brasil em termos de mistificação e de um projeto predador, que desrespeita tanto a natureza quanto as pessoas”, destaca Roberto Malvezzi, o Gogó da CPT.

A greve de fome de dom Luís Cappio sinaliza que estão em jogo, claramente, duas lógicas, dois projetos, duas maneiras de ver o mundo. Uma, a do governo Lula, que se expressa em grandes projetos: na construção de hidrelétricas no rio Madeira, na aceleração do programa nuclear, na retomada da indústria bélica no país, na aposta no etanol, na ausência de restrição a ampliação do monocultivo do eucalipto e do pinus. Apenas para ficar em poucos exemplos.

Tudo isso nos faz lembrar o sonho do Brasil Grande de uma época bastante recente. Mais. Lembra-nos da ‘modernização conservadora’ que se medrou desde os anos 1930 no país. O Brasil se desenvolveu e se tornou uma economia pujante, vigorosa, mas não foi capaz de superar a profunda desigualdade social presente em nossa sociedade. Essa percepção fica evidente na recente divulgação do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) que coloca o Brasil na 70ª posição.

O Brasil aparece - mesmo em último lugar -, entre as nações mais desenvolvidas do mundo. Porém, o crescimento do PIB não significa necessariamente melhoria na qualidade de vida e mitigação da desigualdade. Hoje na própria ciências econômicas já se reconhece que o PIB é um indicador anacrônico para aferir a qualidade de vida de uma sociedade.

Não há até o momento argumentos satisfatórios que convençam que essas grandes obras de fato venham a beneficiar o conjunto da população brasileira. Pelo contrário, as evidências são de que beneficiarão o grande capital exportador de commodities.

Tome-se como exemplo a construção das usinas hidrelétricas no rio Madeira. Marco Antonio Trierveiler da coordenação do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) em entrevista ao IHU alerta que “os grandes grupos econômicos estão interessados em aumentar sua exploração na Amazônia e em toda América Latina (recursos naturais, energia, minérios, madeira, terra, biodiversidade - principalmente para indústria financeira). Para que essas indústrias possam se instalar no País, elas precisam criar uma rede de infra-estrutura básica (energia, portos, hidrovias, redes de transmissão de energia, estradas, ferrovias), o que possibilitará a elas transportar mercadorias para fora do país”.

Essa tese é corroborada por Heitor Scalambrini Costa, da Universidade Federal do Pernambuco (UFPE), para quem, em entrevista ao IHU, “as hidrelétricas previstas no rio Madeira e Xingu são desnecessárias para atender as necessidades elétricas do País. Foram projetadas para beneficiar as indústrias do setor eletro-intensivo, como as empresas produtoras de ferro, celulose e alumínio primário, que são grandes consumidoras (e desperdiçadoras) de energia, além de obviamente as grandes empreiteiras”.

Philip Fearnside, pesquisador do Inpa - Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, é outro que em recente entrevista ao IHU, afirma que a energia do rio Madeira vai beneficiar sobretudo, “indústrias eletro-intensivas, especialmente as de alumínio”, como o grupo Alcoa. Outros grupos beneficiados serão a Companhia Vale do Rio Doce, o grupo Votorantim e o grupo Gerdau.

Esses grupos econômicos privados orientam-se pela lógica do lucro e em sua maioria exportam commodities que não agregam nenhuma riqueza para o país. Acrescente-se a essa lógica, as conseqüências perversas do desastre ambiental. O movimento social de Rondônia, Estado que receberá as usinas, lançou um manifesto em que alerta que “o rio Madeira e suas margens deixarão de atender ribeirinhos, indígenas e a população de Porto Velho com água, peixes, sedimentos e vida para se tornar um rio-mercadoria. Um rio morto, estéril, com águas podres, contaminado por mercúrio, multiplicador da malária. Um rio a serviço das indústrias eletrointensivas e do agronegócio, imprestável para o povo, para a pesca artesanal, para o lazer e para as culturas de várzea”.

Até hoje, o país ressente-se dos desastres ambientais e sociais provocados pelas hidreléticas de Balbina e Tucuruí. Balbina, construída entre 1985 e 1989, já depois da ditadura militar, no município de Presidente Figueiredo (AM), alagou uma área equivalente a uma vez e meia a cidade de São Paulo. Pesquisa recente mostrou que a hidrelétrica é altamente poluente. Em 2005, Balbina gerou uma quantidade de carbono equivalente à metade do gás carbônico emitido em 1999 na cidade de São Paulo com a queima de combustíveis fósseis, em função de que a vegetação nativa não foi removida.

A usina de Tucuruí por sua vez até hoje não indenizou todas as famílias desalojadas pelo lago. As usinas no rio Madeira são o maior negócio do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Não é gratuito que despertou a cobiça nas maiores empreiteiras nacionais para o leilão que aconteceu nessa segunda-feira. O grupo vencedor foi o consórcio Madeira liderado pela Odebrecht - composto composto pela Odebrecht Investimentos (17,6%), Construtora Norberto Odebrecht (1%), Andrade Gutierrez Participações (12,4%), Cemig (10%), Furnas (39%) e Amazônia Energia (FIP), formado pelos bancos Banif e Santander (20%).

Surpreendente é a notícia de que os fundos de pensão Funcef e Petros desejam investir pesado na construção das usinas. Segundo o presidente da Funcef, Guilherme Lacerda se trata de um ótimo negócio: “O setor de energia é um bom investimento para fundos de pensão, que buscam o longo prazo”. Fundos de pensão captam recursos de trabalhadores que são vorazmente aplicados em negócios rentáveis. A dimensão ética para a aplicação desses recursos passa ao largo. Não há questionamentos sobre os custos sociais e ambientais.

A novidade agora, diferentemente à época da construção da hidrelétrica Itaipu binacional é o surgimento de um forte movimento social articulado nacionalmente. Enquanto acontecia o leilão de concessão da hidrelétrica de Santo Antonio, que faz parte do complexo de hidrelétricas do Rio Madeira, as dependências da ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica foi ocupada por militantes, sobretudo do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). Segundo Maria Melo, “a empresa que ganhar o leilão vai receber de lucro 550 mil reais por hora. E para o povo, nada. Além disso, 20 mil famílias vão ficar desalojadas com a construção de mais hidrelétricas no Rio Madeira”.

O gesto de dom Luís questiona o modelo de desenvolvimento

A transposição do rio S.Francisco, a construção das usinas hidrelétricas no rio Madeira, a retomada do programa nuclear - que prevê a construção de até 8 usinas nucleares no país, o investimento na commoditie do etanol e a ampliação na exploração do petróleo atendem a duas lógicas. A primeira, o suprimento por energia. O novo “milagre” econômico precisa de energia. Muita energia. Diante da retomada do crescimento econômico e da possibilidade de ir direto ao encontro de um novo “apagão”, o que seria um desastre para o setor produtivo, o governo não quer saber necessariamente de matriz energética mais limpa. Quer apenas garantir que não falte energia .

A segunda lógica, com o ufanismo do crescimento, incorpora paradoxalmente uma das teses centrais do período militar. Os militares não alteraram o modelo nacional desenvolvimentista associado ao capital transnacional e ao mesmo tempo defendiam a concepção de que não é possível haver desenvolvimento econômico nacional sem um alto grau de segurança nacional. Por isso, desenvolveram iniciativas que dessem conta da infra-estrutura da integração territorial e desenvolveram aparatos e mecanismos de defesa e repressão vinculados ao conceito de ‘segurança nacional’. ‘Desenvolvimento e Segurança’ foram duas palavras chaves no período militar. Agora Lula retoma esse conceito.

A retomada da indústria bélica brasileira se insere nessa lógica. “Não existe país nenhum no mundo que seja respeitado se não tiver as Forças Armadas competentemente preparadas e equipadas para a defesa da democracia e soberania nacional”, afirmou Lula por ocasião da elaboração do Plano Estratégico de Defesa Nacional. Notícias da imprensa durante a semana dão conta que os investimentos devem elevar em 5 vezes produção de indústrias bélicas nacionais.

A greve de fome do dom Luís precisa ser compreendida nesse contexto. A de um país que promove um modelo de desenvolvimento incompatível com a urgência civilizatória de um novo padrão de relacionamento com o meio ambiente e, tampouco, capaz de reduzir a desigualdade social. O gesto de dom Luís questiona o modelo de desenvolvimento. “Precisamos repensar o que estamos fazendo dos bens da terra, repensar os rumos do Brasil e do mundo. Ou estaremos condenados à destruição de nossa casa e à nossa própria extinção, contra o Projeto de Deus”, diz o bispo em sua carta ao povo do nordeste, mas que bem poderia ser endereçada para o Brasil todo e para o mundo.

A indignação de dom Luís se dirige também a pessoa de Lula, que em sua opinião mudou de lado: “Quando eu conversei com ele, com o presidente Lula, lá no Palácio do Planalto, eu disse a ele: ‘olha presidente, eu a vida inteira lutei para vê-lo sentado aí, nessa cadeira em que o senhor está. Toda a vida eu vesti a sua camisa e lutei pelo senhor. Mas, infelizmente, depois que o senhor assumiu o poder, o senhor se tornou refém dos grandes grupos econômicos do Brasil e do estrangeiro. Hoje, o senhor é refém do capital’”.

Instituto Humanitas Unisinos
http://www.unisinos.br/ihu/index.php

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O longo caminho de equívocos rumo à crise do gás

Valeria Nader

Apesar de parecer mais equilibrado o noticiário nesse momento, buscando algumas das raízes estruturais da crise, bodes expiatórios continuam a surgir. Entre eles, por exemplo, uma culpabilização, implícita que seja, da Petrobras.

A crise no abastecimento de gás que explodiu na semana que passou - com a queda no nível dos reservatórios, as termelétricas foram postas em ação pelo ONS, o Operador Nacional de Sistema - trouxe novamente à mente dos brasileiros o espectro de um possível racionamento de energia, reavivando em sua memória o já remoto ano de 2001. A lembrança das agruras do momento pode, no entanto, se fazer efetiva somente na medida em que também apelar para uma retomada dos antecedentes e determinantes dessa crise.

Quem não se lembra dos renitentes lamentos que então se alastravam país afora, dos quais foram arautos até mesmo autoridades, deplorando São Pedro pela ausência de chuvas? Nada mais mentiroso e superficial, como logo ficaria claro. Há tempos que especialistas do setor alertavam para as condições insuficientes de geração e, consequentemente, para o baixo nível dos reservatórios, que fariam “água” a qualquer sinal de repique do crescimento.

Que lições podemos, então, tirar dessa situação anterior, agora novamente vívida? De outro modo, fugindo ao clássico comportamento de passar ao largo da essência dos problemas em nosso país, para daí buscar as soluções que no máximo os contornam, mas não os resolvem, o que está em jogo realmente?

O sistema nos alerta

Entrevista que o consultor em Energia e ex-assessor de Luiz Pinguelli na Eletrobras, Roberto D’Araújo, concedeu a este Correio poucos dias antes da explosão dessa crise pode até ser tomada, nesse sentido, como “premonitória”. Dentre vários alertas, D’Araújo salientou que as reservas estavam altas - em função do favorecimento da natureza e da carga de consumo que não se recuperou, conforme o previsto, desde 2002 -, mas elas não nos davam uma garantia absoluta. “Podemos retardar o racionamento por mais 3 ou 4 anos, uma vez que já está se mostrando que, em 2009 ou 2010, o risco fica alto. E o cenário que está se vislumbrando agora não decorre somente da ausência de chuvas. O Operador Nacional de Sistema já está lançando seu olhar mais à frente, prognosticando que, daqui a 3 ou 4 anos, pode não haver usinas em quantidade suficiente para atender à demanda. Com isso, tem assumido uma atitude mais conservadora com a água, economizando-a em maior proporção”.

Em função desse prognóstico, D’Araújo foi enfático em afirmar que “o racionamento brasileiro nunca vem como surpresa. Em qualquer país do mundo com base térmica, por exemplo, a Inglaterra, a Califórnia, ele pode vir como surpresa. Mas, no Brasil, não. No racionamento de 2001, o Custo Marginal de Operação Médio, que é o ‘termômetro’ do sistema, começou a subir muito antes”.

Explicações reais X bode expiatórios

Apesar de parecer mais equilibrado o noticiário nesse momento, buscando algumas das raízes estruturais da crise, bodes expiatórios continuam a surgir. Entre eles, por exemplo, uma culpabilização, implícita que seja, da Petrobras, por não ter cumprido promessas de entrega de gás às termelétricas, bem como por não ter levado a cabo um plano de investimentos mais ousado no setor.

O noticiário mais responsável tem demarcado, por outro lado, um problema que vai além da oferta e da demanda do gás tomadas isoladamente, originando-se em essência no modelo elétrico do país e, mais especificamente, em seu planejamento.

Avalia-se que os baixos preços que predominaram no setor até há pouco tempo, em função de um contexto de sobra de energia, levaram a que se fechassem contratos de energia a preços muito baixos e a curto prazo, incluídos nesses os contratos com as Termelétricas a Gás. Os contratos a curto prazo acabaram por desestimular os investimentos a prazos mais longos - pois nenhum investidor, privado ou estatal, constrói uma usina hidrelétrica para vender energia por seis meses, mas sim por vinte, trinta anos.

O que, no entanto, não ressalta de forma evidenciada nessas análises é a verdadeira farra de distribuidoras e de grandes consumidores advinda de uma situação de sobra de energia e de preços baixos. E mais: nessa farra, quem gerava, na verdade, não eram as térmicas, mas as hidrelétricas – já que, se não estava faltando energia, as térmicas não eram postas em funcionamento pelo ONS.

Decorria, portanto, a bizarra situação na qual as térmicas, a partir de seus “certificados de energia”, passaram a operar de forma lucrativa ao liquidarem seus contratos de fornecimento de energia:compravam energia barata que sobrava das estatais e eram remuneradas como se estivessem incorrendo nos custos mais altos de geração termelétrica. Consumiram-se, aí sim, reservas hídricas que poderiam ser úteis em um momento futuro.

D’Araújo caracteriza bem esse contexto: “considerando que o sistema brasileiro exige a separação entre a parte comercial e a parte operativa, o Operador Nacional de Sistema não considera se, por exemplo, Furnas ou a Chesf não têm contrato. Ele simplesmente determina que as usinas hidráulicas gerem a energia necessária. E o que aconteceu com essa parcela que vinha sendo gerada, mas não tinha contrapartida em contrato (já que se prosseguiu, até 2006, com a possibilidade de descontratação da energia das estatais, determinada no governo FHC)? Ela não estava sendo paga por nenhuma distribuidora, mas sim liquidada no Mercado Atacadista de Energia – o MAE”.

Originou-se aí “o caldo de cultura” para que os grandes consumidores se aproveitassem. Em 2003, por exemplo, o preço que Furnas recebia por gerar era de R$4/MWh, pois esse era “o valor da água”, que, naquele momento, sobrava. Mas, recebendo apenas R$4, Furnas gerava a energia que substituía uma usina térmica – pois esta, pela lógica operativa, não devia gerar, pois havia muita água. Do outro lado, essa Térmica, por ter um “certificado” de energia, pode ter sido contratada no lugar de Furnas, recebendo, por exemplo, 100 reais. Agora, a térmica de 100 estava gerando? Não, quem estava gerando era Furnas!

Resultaram, daí, dois gravíssimos defeitos, segundo avaliação de D’Araújo: “1) utilizaram-se as usinas hidráulicas, remuneradas por uma ninharia, para produzir uma energia garantida, remunerada como energia secundária (barata), mas faturada por outro agente; 2) e, além disso, em função da enorme sobra, criou-se uma situação na qual quem podia comprar grandes quantidades de energia, o grande consumidor, passou a ter enorme poder de mercado. Os consumidores livres, usando essa situação esdrúxula das térmicas - que, pela lógica operativa, sabiam que não iam ser despachadas -, passaram a fazer contratos de curto prazo com base nos certificados dessas térmicas. Conseguiram preços extremamente baixos”.

E apelemos, por que não, para um caso gritante que bem ilustrou essa conjuntura: a CELPE, distribuidora de Pernambuco, chegou a contratar, pra substituir a CHESF, que tinha um preço em torno de 40 reais por MWh, uma térmica dela mesma por quase 150 reais por MWh.

As tarifas explodiram, obviamente. No final de tudo isso, quem pagou a conta fomos nós, os consumidores.

Drama atual

Na atual situação em que se insinua a queda no nível dos reservatórios, o gás existente passou a não ser realmente suficiente para o consumo das térmicas - que, agora sim, tiveram que ser postas em operação - e para os demais consumidores, entre os quais se incluem a indústria, veículos automotores e também os fogões a gás. “E imagine que FHC queria 49 térmicas no PPT, o seu Programa Prioritário de Termelétricas”, diz D’Araújo.

Tendo em mente, ademais, uma perspectiva de longo prazo, é bom ressaltar que, para se precisar das térmicas, a falta de água não é o único motivo. “O sistema pode estar com reserva de 60%, razoáveis afluências e ‘perceber’ uma situação de desequilíbrio no futuro, que faz com que guardar água seja mais importante do que queimar gás nas térmicas. Acho que é exatamente esse o caso. O ONS está ‘vendo’ coisas que o fazem mais conservador. Tecnicamente, a água está valendo mais nesse ano do que em 2006”.

Falta de planejamento do governo

Em face dessa nova situação crítica no setor energético, a despeito do exemplo do apagão ocorrido no governo FHC, o presidente da AEPET, a Associação de Engenheiros da Petrobras, Heitor Pereira, fez severas críticas ao atual governo, ao permitir que crises anunciadas no setor energético voltem a ocorrer.

Segundo divulgado pelo boletim semanal da AEPET, Heitor demonstrou preocupação com o abastecimento de gás e com as declarações da Agência Nacional de Energia Elétrica, a Aneel, que já estaria falando em reajustes, onerando novamente o bolso do consumidor. O presidente da AEPET aludiu até mesmo à política do petróleo, que tem incentivado “a exportação do produto estratégico e o leilão de nossas bacias sedimentares, política que se refletirá no futuro para todos os brasileiros, principalmente para o setor produtivo. Não podemos continuar com esta visão dependente, porque acabaremos por ser importadores numa época em que o barril poderá custar por volta de US$ 300”.

No decorrer dos últimos meses, ficou claro, através de várias notícias divulgadas pela imprensa, que os riscos de colapso no abastecimento de gás natural eram de conhecimento do governo. Encontros e comunicados entre o presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli, o ex-diretor de Gás e Energia da estatal, Ildo Sauer, e representantes do governo – os quais não passaram despercebidos dos meios de comunicação - já eram reveladores dessas preocupações.

Nesse sentido, e considerando um problema recente, a Aneel, com apoio do governo, acabou por aplicar multas à Petrobras nesse ano pelo não cumprimento de promessas de entrega de gás às usinas que não pertencem à estatal, hoje no total de quatro. O ex-diretor de Gás e Energia da estatal Ildo Sauer justificava esse ato pelo fato de se constituir um pesado desvio empresarial, e também legal, a obrigação de a Petrobras fornecer gás natural, sem contrato e a preços pré-fixados pelo PPT (Programa Prioritário de Termelétricas), para usinas de terceiros. O governo não deveria contar com a energia dessas usinas que, mesmo comercialmente ativas, não possuíam garantia de suprimento firme, segundo a Petrobras.

Sauer já estava advertindo, na verdade, para o desequilíbrio entre oferta e demanda no mercado livre, onde os consumidores compram energia direta do fornecedor. Havia apreensão com o fato de se colocar energia térmica a gás par abastecer o mercado livre, o que traria prejuízo à Petrobrás.

Na medida em que o ex-diretor de Gás e Energia da Petrobrás se recusava a cumprir a promessa de entrega de gás às térmicas sem contrato, o que muito certamente estava em jogo era justamente a percepção de poder dos grandes consumidores. “O que o Ildo dizia era o seguinte: quando uma usina entra no sistema, ela ganha um certificado de energia, que é um certificado que incrementa a energia assegurada total; entretanto, em uma situação de sobra, na qual as térmicas não geram, não possuem contrato, e com o preço da energia no Mercado Atacadista lá embaixo, quem se aproveita dessa situação são os consumidores livres. Ao final, configurar-se-ia a seguinte anomalia: eu construo uma térmica, não consigo contrato, e quem consome essa energia adicional (que não me paga nada, pois quem gera é uma hidráulica) são os consumidores livres que estão se aproveitando da situação”, explica D’Araújo.

As raízes do problema e um possível racionamento

A enorme proporção que alcançou a irresponsabilidade com a energia no Brasil acelerou-se, sem dúvida, a partir do governo FHC, com a liquidação não somente da energia, mas das próprias estatais, vendidas a preço de banana.

E nunca é demais lembrar a promiscuidade entre os setores público e privado em todo esse processo. Para ficarmos em um exemplo que permanece atual, nas contas de energia que pagamos mensalmente às distribuidoras, nada menos do que 48% do total são compostos por taxas que devem cobrir, entre outros, pesquisas com fontes alternativas de energia e a ampliação da infra-estrutura energética. Desnecessário dizer que, estivessem sendo rigorosamente aplicados esses recursos, não estaríamos novamente incorrendo em uma situação pré-emergencial.

O espectro de um novo racionamento não está, de modo algum, afastado. Mais efetivo, entretanto, para encarar o problema de energia no Brasil nesse momento é partir para um novo enfoque. “Pode-se, por exemplo, avaliar que vai haver racionamento e, daí, chove bastante, e ele não acontece; de maneira inversa, pode-se dizer que não vai haver racionamento, mas, daí, não vem a chuva, e ele acaba ocorrendo. A questão principal não são essas conjecturas circunstanciais, mas sim a avaliação de se estamos ou não com um sistema estrutural que garante o que vende. Quando o custo marginal de operação médio, que não depende da hidrologia, sobe, é sinal de perigo”, alerta D’Araújo.

Ocorre que a situação se complica na medida em que esses são dados desconhecidos da mídia, que, nesses momentos, nunca explicita a verdadeira correlação entre as variáveis. Quando se diz, por exemplo, que o preço do mercado spot de energia elétrica está subindo, ninguém imagina que o Operador Nacional de Energia está preocupado e que a garantia pode estar se deteriorando.

Correio da Cidadania
http://www.correiocidadania.com.br/

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O ABC dos lançamentos

Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano têm pico de novos empreendimentos em 2006 e 2007

EDSON VALENTE

Nos números do mercado imobiliário, a região do ABC tem feito jus ao nome de grande: a quantidade de lançamentos em dez meses de 2007 já superou a de 2006 e é 55,9% maior que a de 2005, segundo a Embraesp (Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio).
Nos últimos 24 meses, o campeão de lançamentos é São Bernardo do Campo (59). Em seguida aparecem São Caetano do Sul (39) e Santo André (38).
Em São Caetano está hoje o metro quadrado médio de área útil mais caro entre as três cidades (R$ 2.550), embora os valores sejam próximos -em Santo André, ele vale R$ 2.310 e, em São Bernardo, R$ 2.240.
“O padrão do mercado nesses municípios se compara ao de bairros paulistanos como Vila Mariana [zona sul], Butantã [zona oeste] e Mooca [zona leste]”, avalia Luiz Paulo Pompéia, 54, diretor da Embraesp.
Consultores e incorporadores apontam que dois são os diferenciais do Grande ABC em relação à capital: qualidade de vida maior e preços menores.
“A região capta população da capital que não consegue pagar os preços de São Paulo”, diz Pompéia. “O principal motivo [de o ABC ser mais barato] são os menores valores de terreno.”
A gerente comercial Márcia Blanco, 38, conta que foi atraída justamente por um gasto mais convidativo quando trocou a zona leste paulistana por um quatro-dormitórios de 168 m2 em Santo André.
“Sempre morei no Tatuapé, mas os preços no bairro estavam muito altos”, explica. E chama a atenção para outra vantagem da nova vizinhança: “Tem um ar de interior. Em São Paulo, é mais poluído”.
Já a analista de cobrança Cintia Camargo, 30, calcula que tenha pagado “de 30% a 40% menos” por um três-dormitórios de 65 m2 em São Caetano, em comparação a imóveis semelhantes nas proximidades do metrô paulistano.
“A saúde pública é melhor que a de São Paulo, o ensino municipal é muito bom”, afirma. Para ir ou voltar do trabalho no Ipiranga (zona sul), leva cerca de 35 minutos. O único porém, diz, é o trem: “É muito cheio e passa em intervalos maiores que os do metrô”.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

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Lago Agrio: um abrigo para guerrilheiros e refugiados colombianos na floresta amazônica equatoriana

Marie Delcas

Imprensada entre os poços de petróleo equatorianos e a guerrilha colombiana, a aldeia de Lago Agrio cresceu em pleno coração da floresta amazônica. “Quando eu cheguei aqui, há 34 anos, era preciso atravessar as ruas lamacentas da aldeia sobre troncos de árvores”, recorda-se o padre espanhol Pablo Gallego.

Lago Agrio, que conta atualmente 40.000 habitantes, possui uma base militar e uma representação das Nações Unidas destinada a acolher os refugiados colombianos. Alvo de perseguições por parte das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc, extrema-esquerda) e das milícias paramilitares de extrema-direita, Anita, 46 anos, atravessou o rio para encontrar refúgio no Equador, três anos atrás. “Os paramilitares mataram o meu marido em 2001″, conta esta camponesa colombiana. “Eu trabalhei duro, junto com os meus dois filhos. Um dia, os guerrilheiros apareceram e eles nos roubaram uma vaca. Pouco depois, os ‘paras’ nos acusaram de tê-la vendido para eles. Eles mataram o meu filho primogênito, e, então, tomei a decisão de vir para cá junto com o meu outro filho”.

A antiga Nueva Loja foi rebatizada de Lago Agrio (”Lago Acre”) pelos primeiros trabalhadores da companhia petroleira americana Texaco, vindos da cidade homônima de Sour Lake, no Texas. A empresa retirou-se da região em 1992, após ter provocado uma “maré negra terrestre”. Alvo de processos na justiça, a Texaco vem tentando eximir-se de toda culpa, com o objetivo de não ser condenada a arcar com as reparações deste desastre ecológico. “Os custos das obras de recuperação da região são avaliados em US$ 6 bilhões (pouco mais de R$ 10,56 bilhões)”, informa Elmer Chávez, da Frente para a Defesa da Amazônia.

Para quem precisa de colchões e medicamentos, de material agrícola, de quartos de hotel - mesmo que estes sejam verdadeiras espeluncas -, de clínicas privadas e de telefones celulares de todo tipo, dá para encontrar de tudo um pouco nas lojas da rua principal de Lago Agrio, cujas fachadas são enegrecidas pela umidade. “Desde sempre, os guerrilheiros atravessam a fronteira e vêm para cá para descansar e fazer as suas compras. Dizem que os seus feridos se fazem operar aqui”, explica o patrão de um hotel. “Como vocês querem que nós os reconheçamos?”, pergunta o comandante da polícia, Victor Cartagena. Sejam eles migrantes ou trabalhadores de temporada, ou ainda refugiados, centenas de colombianos atravessam todos os meses a fronteira que separa os dois países. O prefeito da cidade, Maximo Abad, se mostra categórico ao afirmar: “Nem as Farc, nem os paramilitares colombianos transitam armados pelo território equatoriano”.

No entanto, Ilario Andi, um camponês quíchua, afirma ver “com freqüência” homens trajando macacões de combate que atravessam a fronteira. Serão eles militares, paramilitares ou guerrilheiros? Ele não sabe dizer. Por sua vez, Gribaldo Cueva, o presidente do Comitê dos Povos da Fronteira, uma pequena organização local de defesa dos direitos humanos, afirma que as queixas que dizem respeito a incursões do exército colombiano na ribanceira equatoriana são freqüentes.

Culturas destruídas
“Nós vivenciamos o conflito interno colombiano de mais perto que os habitantes de Bogotá”, lamenta Máximo Abad. O “Plano Colômbia”, que é financiado pelos Estados Unidos, vem rechaçando os guerrilheiros, o tráfico ilícito e outros males rumo à fronteira do sul do país. Nesta região, as culturas de coca foram sistematicamente destruídas por pulverização aérea de glifosato, um poderoso herbicida. “O vento não respeita as fronteiras e carrega o herbicida até nós”, assegura Mario Zhingre, o presidente de uma organização camponesa. “Com isso, centenas de hectares de culturas alimentícias foram destruídas. O glifosato provoca crises de vômitos e lesões na superfície da pele”. O assunto anda envenenando as relações entre Quito e Bogotá. O presidente equatoriano, Rafael Correa, ameaça levar o caso perante a Corte Internacional de Justiça (CIJ), em Haia (Holanda). A Colômbia comprometeu-se a não mais proceder a essas aplicações de veneno a menos de 10 km da fronteira.

Desde que ele foi implantado, em 2001, o escritório local do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (HCR) recebeu 11.000 pedidos de asilo. Depois dos anos negros de 2002 e 2003, o ritmo do fluxo de refugiados diminuiu consideravelmente. “Aqui, não há nenhum campo de refugiados, e os recém-chegados, que desembarcam no “conta-gotas”, se misturam em meio à população”, explica a delegada do HCR, Marta Juarez. “O problema é menos visível do que em outros lugares, mas o peso é enorme, muito difícil de carregar para o Equador, que se tornou o país do continente americano que acolhe o maior número de refugiados”.

Com 12 milhões de habitantes, o Equador dispõe de recursos mais limitados do que o seu vizinho. Em comparação, com 42 milhões de habitantes, a Colômbia mais se parece com um colosso. Para o sociólogo Freddy Rivera, “a Colômbia obriga os seus vizinhos a carregarem o peso do seu conflito, uma prática que ela tenta por todos os meios minimizar na cena internacional”.

“Os refugiados recebem a ajuda de que precisam, e isso é muito bom. Mas nós, equatorianos, não temos nada. Você acha isso normal?”, indaga Maria Narvaez, uma camponesa quíchua. Os colombianos, que eram admirados no passado, passaram a ser considerados já faz alguns anos como os responsáveis pelo crescimento da criminalidade, tanto em Lago Agrio como no restante do Equador. “As disputas e os acertos de contas entre colombianos são freqüentes por aqui. Além disso, em muitos casos, são eles que dirigem os bandos de delinqüentes”, sublinha o comandante da polícia.

Mas não se pode dizer que a animosidade seja generalizada. A região vive também de uma multiplicidade de comércios que alimentam o conflito colombiano. Estes incluem desde o tráfico de armas até aquele das drogas, passando pela venda de cimento e de outros produtos químicos necessários para a fabricação da cocaína. “Em 2000, a dolarização da economia equatoriana resultou numa queda do movimento do comércio local de 30%. Desde então, a integração fronteiriça passou a se desenvolver em torno da economia ilegal”, explica o analista Jorge Leon.

Muito fácil de atravessar, a fronteira permanece uma realidade. O conflito colombiano, que vem se arrastando há trinta anos, não se alastrou por meio de nenhuma metástase deste lado do rio. Para se proteger do seu eventual contágio, o governo Correa implantou um “Plano Equador”, que vem a ser um ambicioso programa de investimentos sociais. Apesar dos seus recursos limitados, o Equador tenta ainda assim criar contrapesos em relação ao “Plano Colômbia”.

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

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NATAL DE DOM CAPPIO

Frei Betto

Lá está o bispo, dom Luiz Flávio Cappio, no sertão da Bahia, decidido em sua greve de fome contra a transposição do Rio São Francisco.

O rio, que corta o coração do Brasil, leva o nome do santo padroeiro da ecologia, devido ao seu amor à natureza, com a qual mantinha relação de alteridade e empatia: Irmão Sol, Irmã Lua.

O que poucos notam é que o mentor de dom Cappio era, no século XIII, um crítico radical dos primórdios do capitalismo. O feudalismo ruía por sua inércia e os burgos, as futuras cidades, despontavam sob as luzes da redescoberta de Aristóteles e os novos empreendimentos mercantis.

Bernardone, pai de Francisco, rico proprietário de manufatura de tecidos, importava da França as tinturas para colorir seu produto. Sua admiração pela metrópole levou-o a batizar o filho em homenagem à França – Francesco.

A miséria, até então, campeava na Europa em decorrência de guerras e da peste. O mercantilismo gerou, pela primeira vez, relações de trabalho promotoras de exclusão social. Francisco solidarizou-se com as vítimas da nascente manufatura. Ao despir-se na praça de Assis, todos entenderam o gesto para além de simples ato de despojamento. As roupas produzidas pelo pai estavam conspurcadas pela tecnologia que condenava artesãos à perda de seu ofício e, portanto, à miséria.

Hoje, o franciscano dom Cappio se posiciona ao lado das vítimas da transposição das águas do São Francisco. O PT, historicamente, era contrário ao projeto. E também contra a CPMF. Uma vez governo, mudou, como aliás mudou em tantas outras coisas. Mudou para não efetivar as mudanças prometidas, como a agrária. Mudou para se desfigurar como partido dos pobres e da ética. Mudou para ficar mais parecido com seus adversários políticos.

Em Sobradinho (BA), na capela consagrada ao santo que dá nome ao rio, o bispo faz seu gesto solitário, embora alvo, no Brasil e no exterior, de muitos apoios solidários. Sua primeira greve de fome, por 11 dias, foi em 2005. Dom Cappio recusou alimentos até que o governo prometesse rediscutir o projeto e promover a revitalização do rio. Segundo o bispo, o Planalto não honrou o compromisso.

A obra de transposição está orçada em R$ 5 bilhões. Cornucópia na qual estão de olho as grandes empreiteiras e o agronegócio. Dom Cappio desconfia de que a transposição beneficiará, não os pobres da região, que vivem da pesca e do cultivo familiar, e sim o grande capital.

Quem já viu governo fazer obra de vulto para beneficiar pobre? Nem sequer o governo Lula investiu suficientemente no programa de construção de 1 milhão de cisternas de captação de água da chuva, que poria fim às agruras da seca no semi-árido. Apenas 25% das cisternas foram construídas, assim mesmo graças ao apoio da iniciativa privada. Cidades sem suficiente saneamento são beneficiadas por viadutos para o conforto de quem transita em carros…

Quem terá acesso à água transposta? A seca ou a cerca? Não faz sentido esse projeto numa região em que ainda predomina o latifúndio e cuja população, cerca de 12 milhões pessoas, não tem acesso à propriedade da terra. No projeto não são incluídas as 34 comunidades indígenas e os 153 quilombolas encontrados em sua área de alcance.

O próprio organismo que responde pelas bacias hidrográficas, o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, está contra o projeto, que ignora as estruturas sociais arcaicas da região – o que significa, na prática, fortalecê-las.

O que dom Cappio reivindica é simples e democrático: que o governo debata o projeto com a sociedade, sobretudo com os ribeirinhos do São Francisco. A obra terá profundo impacto em toda a extensão territorial do país e, sobretudo, reflexos ambientais e sociais.

Dom Cappio tem fome de justiça, uma bem-aventurança, segundo Jesus no Sermão da Montanha. Seu Natal é o da manjedoura, lá onde a família de Maria e José, sem-teto e sem-terra, faz nascer a esperança de que a população da bacia do São Francisco não venha, em futuro próximo, ser conhecida também como sem-rio.

Frei Betto é escritor, autor de “A arte de semear estrelas” (Rocco), entre outros livros.

Correio da Cidadania
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Bolívia: quem são os golpistas?

O presidente Lula estava coberto de razão quando exclamou em Buenos Aires, em uma das cerimônias da posse de Cristina Fernandes de Kirchner, que Evo Morales “foi a coisa mais extraordinária que aconteceu recentemente na América do Sul”. Poderíamos acrescentar que para a Bolívia foi a coisa mais extraordinária que aconteceu em seus cinco séculos de existência.

A Bolívia tinha muita prata nas minas das montanhas de Potosi. Na época colonial, a prata de Potosí foi, durante mais de dois séculos, a principal alavanca do desenvolvimento capitalista da Europa. “Vale um Potosí”, se dizia, para elogiar o que não tinha preço. Em meados do século dezesseis, a cidade mais povoada, mais cara e que mais esbanjava no mundo brotou e cresceu ao pé da montanha que manava prata. Essa montanha, o chamado Cerro Rico, devorava índios. As comunidades se esvaziavam de homens, que de todas as partes marchavam prisioneiros, rumo à boca que conduzia aos buracos escavados. Do lado de fora, temperaturas de gelo. Do lado de dentro, o inferno. De cada dez que entravam, somente três saíam vivos. Mas os condenados à mina, que pouco duravam, geravam a fortuna dos banqueiros flamengos, genoveses e alemães, credores da coroa espanhola, e eram esses índios que faziam possível a acumulação de capitais que converteu a Europa no que a Europa é. O que ficou na Bolívia, de tudo isso? Uma montanha oca, cheia de buracos, uma incontável quantidade de índios assassinados por extenuação e uns quantos palácios habitados por fantasmas.
No século dezenove, quando a Bolívia foi derrotada na chamada Guerra do Pacífico, não só perdeu sua saída ao mar e ficou encurralada no coração da América do Sul. Também perdeu seu salitre. A história oficial, que é história militar, conta que o Chile ganhou essa guerra; mas a história real comprova que o vencedor foi o empresário britânico John Thomas North, Sem disparar um tiro nem gastar um centavo, North conquistou territórios que haviam sido da Bolívia e do Peru e se converteu em um dos homens mais ricos do mundo, no “rey del salitre”, que era então o fertilizante imprescindível para alimentar as cansadas terras da Europa. Saiu todo o salitre da província de Antofogasta, então pertencente à Bolívia, ficaram os buracos, e os salitreiros na miséria.

No século vinte, a Bolívia foi o principal abastecedor de estanho no mercado internacional.
Na profundidade dos buracos escavados nas montanhas de Huanuni, Oruro, o implacável pó de salitre matava por asfixia. Os pulmões dos trabalhadores apodreciam para que o mundo pudesse consumir estanho barato. Durante a Segunda Guerra Mundial, a Bolívia contribuiu à causa aliada vendendo seu mineral a um preço dez vezes mais baixo que o preço de sempre. Os salários dos trabalhadores se reduziram a nada, houve greve, as metralhadoras dispararam fogo. Simón Patiño, dono do negócio e amo do país, não teve que pagar indenizações, porque a matança por metralha não é acidente de trabalho. Don Simón pagava cinqüenta dólares anuais de imposto de renda, mas pagava muito mais ao presidente da nação e a todo o seu gabinete. Vivia entre Paris e Londres onde se refinava o estanho. Suas netas e netos ingressaram na nobreza européia. Casaram-se com condes, marqueses e parentes de reis. Quando a revolução de 1952 destronou Patiño e nacionalizou o estanho, era pouco o mineral que restava. Ficaram os buracos, e os mineiros imersos na secular miséria. 1

A Bolívia está cheia de gás e petróleo. Seu povo, cansado de séculos de exploração, miséria e racismo, contudo escaldado dos buracos deixados pela predatória exploração de suas riquezas naturais, resolveu eleger o índio aimara, Evo Morales. E o fez com a expressiva votação de 53,74%, porque Evo prometeu e cumpriu anterior plebiscito, nacionalizando o gás e o petróleo. Hoje, passado ano e meio, só com esta medida a receita fiscal passou de 300 milhões para 2 bilhões de dólares anuais. E mais, porque Evo prometeu que uma nova constituição iria refundar a Bolívia, pacífica e democraticamente, garantindo os direitos das populações indígenas, majoritárias no país, dos mineiros, dos trabalhadores e do povo em geral, modernizando o Estado. Aprovada em referendo a Constituinte, convocou-se eleições gerais para a Assembléia Constituinte e novamente os apoiadores de Evo Morales, o partido Movimento ao Socialismo (MAS) e partidos menores aliados alcançaram a maioria, 164 de 255 deputados constituintes. Estabeleceu-se um prazo para que os trabalhos constituintes se completassem e a nova Constituição fosse levada a referendo popular.

Mas as oligarquias brancas da Bolívia não toleram que um índio os governe e governe a nação. Não engoliram a nacionalização do gás e do petróleo, porque isso implicou em barrar os muitos negócios escusos que se faziam com as grandes corporações. Não admitem uma carta magna em que nações indígenas sejam reconhecidas e tenham sua própria autonomia. As oligarquias não querem perder os seus seculares privilégios e vão até as últimas conseqüências, a força bruta inclusive, para mantê-los.

As classes exploradoras costumam alardear a defesa da liberdade e da democracia, porém quando os seus interesses são atingidos mandas às favas a democracia, sem a menor cerimônia. Dizem que democracia não é só o voto, que um de seus pilares é o respeito às minorias. Todavia a minoria deve também respeitar a maioria e é esta quem governa. A oposição, baseada nos governadores eleitos – antes eram nomeados pelo poder central - para 5 das 9 províncias do país, e no partido de direita Podemos, largamente derrotado nas ultimas eleições presidenciais, começou por boicotar os trabalhos da constituinte alegando inúmeros pretextos: a questão da maioria qualificada para aprovar artigo por artigo da Constituição – pelo regulamento aprovado são necessários dois terços dos constituintes para aprová-lo e o MAS mais os partidos aliados não atingiam essa cifra; a disputa pela capital do país entre Sucre e La Paz, uma divergência histórica. Passou-se mais de ano e os trabalhos constituintes não saiam do impasse. Aproximando-se do prazo fatal de sua promulgação, os constituintes foram convocados e se reunir em Sucre na Assembléia local para dar continuidade aos trabalhos. Uma violenta manifestação organizado pelos comitês cívicos, compostos, liderados e apoiados pela oligarquia ameaçou fisicamente os constituintes e nos embates de rua resultaram três mortos, fato ainda a ser esclarecido. Diante da grave ameaça à incolumidade física dos constituintes, a Assembléia se transferiu a um quartel onde o texto geral foi aprovado por 138 dos 255 constituintes. A oposição radical, liderada pelo ex-presidente Quiroga, líder do partido Podemos boicotou a sessão. Foi designada nova sessão para 8 de dezembro – o prazo fatal das conclusões dos trabalhos era 14 de dezembro –a fim de se discutir artigo por artigo na Universidade de Oruro. A oposição mais radical de novo a boicotou, embora alguns poucos de seus membros resolveram comparecer: 164 foram os presentes nessa nova sessão. Eram 64,3% da composição total e faltavam 2,3%. Diante da postura antidemocrática, chantagista e provocadora da oposição, os constituintes presentes resolveram que aos artigos passassem a ser aprovados por dois terços dos presentes. Legítima e democrática reação. A voz do povo clamada reiteradamente em praça pública e nas urnas tinha de ser ouvida. A campanha vitoriosa à presidência de Evo pregou exaustivamente a convocação de uma Constituinte. Em referendo especifico o povo a confirmou. Foram convocadas eleições constituintes para que os deputados eleitos escrevessem uma nova constituição. Era uma ordem do povo de quem emana, numa democracia, todo o poder. E foi aprovada a Constituição que será levada a referendo confirmatório, com uma única questão a das terras, a ser dirimida no mesmo pleito.

Nesse momento, desencadeou-se o fundamentalismo reacionário e o radicalismo da direita e da oligarquia boliviana: a chantagem da secessão dos estados de Santa Cruz, Beni, Pando, Tarija e Cochabamba cujos governantes se opõem raivosamente a Evo, tendo um deles, Rubem Costas, governador de Santa Cruz, dito que “aquela constituição, aprovada sob a mira de fuzis, não passa de um papel higiênico usado, e bem usado”; a greve de fome iniciada por alguns dos oposicionistas tentando sensibilizar a população; grupos juvenis fascistas armados de Santa Cruz de la Sierra que agridem comerciantes e populares que não compactuam de suas idéias e ordens; listas de nomes são colocados às paredes e postes denunciando a “traição” dos parlamentares que compareceram às discussões na constituinte.

Os opositores são cada vez menos, mas cada vez mais violentos. Contam em sua ação com o apoio político e logístico da embaixada norte-americana em La Paz. Não são as regiões que querem autonomia e sim alguns dirigentes dessas regiões. O povo quer a unidade nacional, também já expressa em voto.

Desesperada, a oligarquia aposta na desestabilização, no caos institucional e na derrubada do governo. Seus representantes foram bater às portas do quartel. Receberam uma resposta pública tendo o Comandante Geral das Forças Armadas, general Wilfredo Vargas ratificado seu respaldo ao presidente legítimo da nação boliviana: “As Forças Armadas não cederão diante das insinuações golpistas daqueles que promovem a violência, a partir de seus feudos.” Do exterior, pela voz dos presidentes, transcrita na Declaração de Buenos Aires, a Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Honduras, Paraguai, Uruguai e Venezuela também saíram em defesa de Evo, expressando solidariedade com o povo e o governo, manifestando confiança na capacidade das forças políticas bolivianas para manter um clima de diálogo e entendimento, rejeitando tentativas de enfraquecer a estabilidade das instituições e do governo eleito democraticamente.

Evo vem insistindo publicamente no diálogo, tendo proposto inclusive uma trégua natalina. Porém, se a oposição desprezar o diálogo e, apoiada na mídia ativamente a seu favor, insistir no plano golpista da sedição, do desabastecimento, do separatismo, do caos e da derrubada do governo, o governo Evo Morales com base em sua legitimidade e apoiado pelos mineiros, camponeses, trabalhadores urbanos, pelos sindicatos e forças populares organizadas, tem o dever e o direito constitucional, valendo-se, se preciso, do uso da força, de impedir a sedição e o separatismo e o golpe de Estado, garantindo a unidade nacional, a democracia, as liberdades e a ordem pública.

(1.Eduardo Galeano in O país que quer existir (artigo de 1993)

Max Altman

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Natal, da igreja ao shopping center

O marketing em torno da festa do dia 25 de dezembro, apoiado em elementos do imaginário religioso, ajuda-nos aentender como o consumo se revela filho legítimo do monoteísmo

Silvio Mieli

O cenário do anúncio impresso,lançado às vésperas do Natal de 2005, reproduzia a atmosfera de um quadro renascentista. Uma cliente se aproxima do caixa para pagar suas compras na loja de decoração. Olhar entre virginal e maternal, vestes angelicais, a mão direita apoiada sobre as caixas brancas e a esquerda sutilmente inclinada, segurando um cartão de crédito. Por trás dos seus cabelos dourados, uma baixela de prata pendurada na prateleira da loja conferia à consumidora uma auréola de “madona rafaelita”. “Fazer o bem é mais fácil do que você imagina”, dizia o slogan do cartão de solidariedade do banco.

A peça publicitária parecia ter sido inspirada no tríptico Virtudes teologais (fé, esperança e caridade), pintado por Raffaello Sanzio em 1507. Só que, na versão original, a santa recosta a mão esquerda no peito e a outra segura o cálice sagrado. Mas cada época tem o Raffaello que merece. E reciclando o estoque de imagens universais para fins instrumentais, o
marketing pré-natalino nos ajuda a entender como o consumo é filho legítimo do monoteísmo. Já no Velho Testamento, no capítulo 1 do livro do Gênese, versículo 26, Deus franqueou ao homem o domínio “sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra”. Sabemos no que deu este apelo explícito ao consumo desmesurado da própria natureza.

No próprio feriado de “Ação de Graças”, comemorado na quarta quinta-feira de novembro, depois de comer o peru em família, uma procissão de americanos afl ui às compras na maior liquidação do planeta. O agradecimento a Deus pela boa colheita de outono, que está na origem da comemoração instituída em 1621, converte-se na celebração do consumo sem trégua, aquecendo o comércio às vésperas do Natal.

Para reagir ao marketing que mistura táticas religiosas com as do universo militar, surgiu a campanha mundial Buy nothing day (um dia sem compras), encabeçada pela canadense Media Foundation, que produz a revista antipublicitária Adbusters. Mas além
da campanha, o ritual fundamentalista do consumo também passou a ser questionado a partir das performances do reverendo Billy. Fundador da Igreja do Anticonsumo, Billy, ao estilo dos “sacerdotes” evangélicomidiáticos, invade lojas aos berros de “No shopping” (não compre). Sua pregação, acompanhada de denúncias contra a exploração de mão-de-obra infantil na fabricação de certos produtos, inspirou grupos de ativistas europeus, que passaram a organizar manifestações no interior das lojas de grandes marcas. Na versão européia, ativistas quedam-se prostrados diante, por exemplo, de um boné da Nike, entoando orações e mantras laudatórios ao venerado produto.

Silvio Mieli é jornalista e professor do Departamento de Comunicação Jornalística da PUCSP, onde desenvolve atividades ligadas ao midiativismo, à análise dos sistemas audiovisuais e à crítica à mídia.

História Viva
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Consumo: 44% das pessoas de baixa renda sonham com carro e casa melhor em 2008

SÃO PAULO - Cerca de 44% das pessoas de baixa renda sonham em ter um carro ou em mudar para uma casa melhor no próximo ano, de acordo com levantamento divulgado pela TNS InterScience na terça-feira (11).

A pesquisa foi realizada em novembro deste ano com 300 pessoas residentes na cidade de São Paulo, das classes C e D, com mais de 20 anos e renda familiar média de R$ 1.956.

Outros sonhos

Ainda segundo o estudo da TNS InterScience, 7% dos entrevistados desejam ter mais tempo para o lazer em 2008 e 14% pretendem transformar este desejo em realidade.

Já o investimento na educação dos filhos ainda é apenas sonho para 7% das pessoas, sendo que também já aparece como meta para outros 7%.

Por fim, outros 6% dos pesquisados, muito mais otimistas, sonham em ganhar na Mega-Sena.

De olho no futuro

Com o pensamento nestes sonhos, a pesquisa mostrou, também, que 21% dos entrevistados vão utilizar o 13º salário para pagar parte das dívidas que possuem, enquanto 12% têm a intenção de quitá-las totalmente.

Além disso, 12% declararam que economizarão ou investirão o décimo terceiro.

Jornal Folha de S. Paulo
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Com mais crédito e renda, consumo das famílias sobe 6% e atinge R$ 390,6 bi

SÃO PAULO - A maior oferta de crédito, o aumento da massa salarial e o conseqüente aumento do poder de compra do brasileiro colaboraram para o aquecimento das compras. No terceiro trimestre deste ano, as famílias brasileiras consumiram R$ 390,6 bilhões - 6% a mais do que no mesmo período do ano passado, marcando o 16º crescimento consecutivo na taxa nessa base comparativa.

Os dados fazem parte dos componentes da demanda interna do PIB (Produto Interno Bruto), divulgados nesta quarta-feira (12) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Apenas para se ter uma idéia, na mesma análise, as compras do governo aumentaram em 3,5%.

Renda e crédito

Pesquisa sobre mercado de trabalho com dados de outubro, divulgada recentemente também pelo IBGE, mostrou que o rendimento médio real do trabalhador brasileiro ficou em R$ 1.123,60 no décimo mês do ano, marcando alta de 1,2% na comparação com o mesmo período de 2006.

Em 2006, o crédito à pessoa física cresceu 23,4%, segundo a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), e deve aumentar outros 22,5% sobre essa expansão este ano. De acordo com a Nota de Política Monetária, do Banco Central, também em outubro, a proporção de crédito em relação ao PIB era de 34%.

Trimestre x trimestre

Na comparação com o segundo trimestre deste ano, o consumo das famílias cresceu 1,5%. No acumulado deste ano, a expansão é de 5,9%, enquanto, em 2006, houve alta de 4,3%.

Jornal Folha de S. Paulo
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Quem é a mulher na janela?

Parte da tragédia entre judeus e árabes é a incapacidade de muitos de nós, judeus e árabes, nos imaginarmos

Amos Oz

Se você comprar uma passagem para outro país, é possível que veja os monumentos, os palácios, as praças, os museus, as paisagens, os locais históricos desse país. Com sorte, terá oportunidade de conversar com alguns habitantes. E voltará para casa trazendo uma coleção de fotografias e postais.

Mas, se ler um romance, vai adquirir na verdade uma passagem para os recantos mais secretos dos países e dos povos. A leitura de um romance estrangeiro é um convite para visitar as casas de outras pessoas e lugares secretos de outros países.

Se você não é mais que um simples turista, talvez tenha a oportunidade de parar numa rua, olhar uma casa antiga na região velha da cidade, e ver uma mulher que olha da janela. E continuará seu caminho.

Mas, se é um leitor, você não apenas verá a mulher que olha da janela, mas estará com ela, na sala dela, na sua cabeça.

Quando você lê um romance estrangeiro, na verdade é convidado a entrar na sala de outras pessoas, no quarto das crianças, na cozinha, na sala de leitura, no quarto de dormir. É convidado a visitar suas dores secretas, suas alegrias familiares, seus sonhos.

É por isso que acredito na literatura como uma ponte entre as pessoas. Creio que a curiosidade possa ter uma dimensão moral. Creio que a capacidade de imaginar o outro possa ser um antídoto contra o fanatismo. A capacidade de imaginar o outro não só o converte num homem de negócios melhor, ou num amante melhor, mas numa pessoa melhor.

Parte da tragédia entre judeus e árabes é a incapacidade de muitos de nós, judeus e árabes, de nos imaginarmos uns aos outros. De imaginar, realmente, os amores, os medos terríveis, a raiva, a paixão do outro. Existe demasiada hostilidade entre nós e muito pouca curiosidade.

Judeus e árabes têm em comum uma coisa essencial: no passado, ambos foram tratados dura e brutalmente pela mão violenta da Europa. Os árabes foram vítimas do imperialismo, do colonialismo, da exploração e de humilhações. Os judeus foram vítimas da discriminação, da perseguição, de expulsão e, finalmente, de assassinato em massa numa escala sem precedentes.

Poderíamos imaginar que duas vítimas, e especialmente duas vítimas do mesmo opressor, desenvolveriam um sentido de solidariedade recíproca. Infelizmente as coisas não funcionam assim, nem em romances nem na vida real. Na verdade, alguns dos piores conflitos quase sempre envolvem duas vítimas do mesmo opressor. Duas crianças vítimas do mesmo pai violento não vão, necessariamente, gostar uma da outra. Com freqüência vêem na outra a imagem do pai opressor.

É exatamente o caso entre judeus e árabes no Oriente Médio. Enquanto, para os árabes, os israelenses são os cruzados modernos, uma extensão da Europa branca e colonialista, muitos israelenses vêem os árabes como a nova encarnação dos perseguidores do passado, responsáveis pelo pogrom e nazistas.

Diante dessa situação, a Europa tem uma responsabilidade particular na solução do conflito árabe-israelense: em vez de apontar ameaçadoramente para qualquer dos lados, os europeus devem oferecer a empatia, a compreensão e o apoio a ambas as partes. A escolha não é mais entre ser pró-Israel ou pró-Palestina, mas pró-paz.

A mulher na janela pode ser uma palestina de Nablus. Pode ser uma judia israelense de Tel-Aviv. Se você quiser colaborar para que essas duas mulheres em suas janelas vivam em paz, seria bom ler sobre elas. Leiam romances, caros amigos. Eles lhes dirão muito.

E essas mulheres também devem ler uma sobre a outra. Para saber, enfim, o que deixa a outra mulher na janela aterrorizada,irada ou cheia de esperança.

Não estou sugerindo, esta noite, que a leitura de romances possa mudar o mundo. Estou sugerindo, e creio nisso, que ler romances é uma das melhores maneiras para compreender que todas as mulheres, em todas as janelas, estão, no final do dia, precisando urgentemente de paz.

Jornal Estado de S. Paulo
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Entenda como o PIB é calculado

Redação
Em São Paulo

O PIB (Produto Interno Bruto) é a soma de todos os bens e serviços produzidos em um país durante certo período. Isso inclui do pãozinho até o apartamento de luxo.

O índice só considera os bens e serviços finais, de modo a não calcular a mesma coisa duas vezes. A matéria-prima usada na fabricação não é levada em conta. No caso de um pão, a farinha de trigo usada não entra na contabilidade.

Um carro de 2002 não é computado no PIB de 2007, pois o valor do bem já foi incluído no cálculo daquele outro ano.

O primeiro fator que influencia diretamente a variação do PIB é o consumo da população. Quanto mais as pessoas gastam, mais o PIB cresce. Se o consumo é menor, o PIB cai.

O consumo depende dos salários e dos juros. Se as pessoas ganham mais e pagam menos juros nas prestações, o consumo é maior e o PIB cresce. Com salário baixo e juro alto, o gasto pessoal cai e o PIB também. Por isso os juros atrapalham o crescimento do país.

Os investimentos das empresas também influenciam no PIB. Se as empresas crescem, compram máquinas, expandem atividades, contratam trabalhadores, elas movimentam a economia. Os juros altos também atrapalham aqui: os empresários não gastam tanto se tiverem de pagar muito pelos empréstimos para investir.

Os gastos do governo são outro fator que impulsiona o PIB. Quando faz obras, como a construção de uma estrada, são contratados operários e é gasto material de construção, o que ele eleva a produção geral da economia.

As exportações também fazem o PIB crescer, pois mais dinheiro entra no país e é gasto em investimentos e consumo.

Em março deste ano, o IBGE anunciou novos parâmetros para o cálculo do índice, o que elevou, por exemplo, o crescimento do PIB de 2006, que, pela metodologia antiga, foi de 2,9% e, com a nova metodologia, passou para 3,7%.

Jornal Folha de S. Paulo
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