Arquivo de 15 de Dezembro de 2007

Memórias dos filhos do clarão

2 de agosto de 1995

Um flash de luz, um monumental flash de luz, e depois um estrondo, eis, em resumo, o que é a explosão de uma bomba atômica.
Roberto Pompeu de Toledo, do Japão

O prédio mais famoso de Hiroshima é inútil como um guarda-chuva sem o pano que o recobre. Pelo teto a chuva e o sol têm livre acesso. As janelas são como olhos furados. As paredes protegem o Nada contra o Coisa Alguma. O prédio mais famoso de Hiroshima, cidade japonesa conhecida internacionalmente por abrigar a fábrica de carros Mazda e, nacionalmente, pelo time Carpas de beisebol, é absurdo como uma casa feita para não morar, um casaco para não agasalhar, uma comida para não comer.

Hiroshima, como se sabe, é conhecida por uma terceira circunstância, além dos Mazda e do Carpas: foi a primeira cidade do mundo, e ainda é uma das duas únicas, a sofrer um ataque atômico. A bomba que então ninguém sabia do que era, e que os jornais japoneses nos dias seguintes chamariam de “bomba especial”, explodiu sobre Hiroshima no dia 6 de agosto de 1945, às 8h15 da manhã. Está fazendo cinqüenta anos. Três dias depois, outra cidade japonesa, Nagasaki, teve a mesma sorte. As cifras não são nem poderiam ser precisas, mas aceita-se em geral a soma de 140.000 mortos em Hiroshima e 70.000 em Nagasaki.

Um flash de luz, um monumental flash de luz, e depois um estrondo, eis, em resumo, o que é a explosão de uma bomba atômica. O jovem policial militar Takashi Morita descera havia cinco minutos de um bonde, em Hiroshima, e caminhava pela rua, naquela manhã, quando sentiu um calor nas costas. Foi jogado longe, acredita que uns 10 metros, e perdeu o quepe. Que será que acontecera? O Exército mantinha ali perto uma fábrica de pólvora, e ele pensou: “A fábrica deve ter explodido”. O menino Noboru Shigemichi, de 10 anos, estava na escola. O prédio desabou. Ele ficou soterrado entre os escombros, e achou que ia morrer. Pensou: “Como é que um homem morre? Em que ordem acontecem as coisas?”

A senhora Fumiko Furuya, de 23 anos, estava sozinha em casa, deitada na cama, e de repente notou - coisa extraordinária - que o “shoji” de seu quarto, a divisória de papel que os japoneses usam para separar ambientes internos, estava pegando fogo. Pensou: “Preciso apagar esse fogo”, e foi à cozinha apanhar um balde com água. Os cinqüenta anos de Hiroshima marcam também os cinqüenta anos da era atômica no mundo. Esta nasce no momento mesmo em que explode sobre a cidade aquela bomba de formato cilíndrico, medindo 3 metros de comprimento por 70 centímetros de diâmetro, pesando 4 toneladas e apelidada de “Little Boy”. Então temos que, na casa da senhora Fumiko, no momento zero da era atômica, uma pessoa tenta contornar o novo problema tendo como arma um balde d’água. Foi inútil. Quando ela voltou ao quarto, o shoji tinha virado cinza.

A senhora Fumiko Furuya é hoje uma viúva sem filhos, vivendo sozinha numa casa modesta em Hiroshima. Noboru Shigemichi, que estava na escola e se pôs a cogitar como é que um homem morre, também vive ainda em Hiroshima, onde é um comerciante de bairro. Takashi Morita, o policial militar que achou que o depósito de pólvora tinha explodido, mora em São Paulo desde a década de 50. Possui um armazém, o Sukiyaki, na Avenida Jabaquara, vizinho à estação Saúde do metrô, e ali passa os dias no caixa. Vai-se voltar a falar deles, nas páginas seguintes. Esta reportagem será entremeada dos testemunhos prestados ao enviado de VEJA pelos sobreviventes da bomba atômica, os chamados “hibakushas”. Neles, eles reconstituem como viveram aquele dia em que, como escreveu um pacifista americano, o pastor George Marshall, voltou-se às “terríveis condições primitivas do obscuro passado em que a humanidade ainda lutava para erguer-se da brutalidade de suas origens”.

Os hibakushas, palavra japonesa que significa “expostos à bomba”, conheceram o famoso e inútil prédio de Hiroshima quando o teto e as paredes protegiam contra o sol e a chuva e as portas e janelas abriam e fechavam. Ou seja, quando era útil. Tratava-se de um edifício da prefeitura, destinado a exposições comerciais. Projetado pelo arquiteto checo Jan Letzel e inaugurado em 1915, o edifício de três andares tinha como traço mais característico a cúpula arredondada, ou domo. Na verdade, ainda tem. Pois o prédio bem ou mal continua de pé, e continua encimado por seu domo, ainda que estropiado como um guarda-chuva do qual só sobrassem as varetas.

O antigo palácio das exposições foi um dos cinco ou seis prédios que, por terem estruturas mais sólidas, de alguma forma sobraram, na região central de Hiroshima. Todas as pessoas que estavam dentro morreram, mas o esqueleto do prédio se manteve, e resolveu-se preservá-lo tal qual ficou. Hoje é conhecido como o Domo de Hiroshima, ou o Domo da Bomba Atômica, e é o símbolo maior da cidade.

Desde o início da II Guerra desenvolviam-se, nos Estados Unidos e na Europa, pesquisas destinadas a desenvolver a fabulosa bomba que se poderia obter a partir da fissão do átomo. No caso dos Estados Unidos, considera-se que foi decisiva, para a implementação de um projeto oficial, uma carta do físico Albert Einstein ao presidente Franklin Roosevelt alertando que, se os EUA não corressem, os alemães desenvolveriam antes a nova arma. Em 1942 foi implantado o Projeto Manhattan, no qual, cercada de sigilo, trabalhou a fina flor dos físicos domiciliados nos Estados Unidos. Três anos mais tarde, no dia 16 de julho de 1945, foi realizado com sucesso, no Deserto de Alamogordo, Estado do Novo México, o primeiro teste nuclear do mundo.

Menos de um mês depois, o agora presidente Harry Truman deu o sinal verde para que a nova bomba fosse jogada de verdade. O alvo eram os japoneses, que, três meses depois da rendição alemã, continuavam a resistir no Pacífico. O mundo ficou assustado e perplexo com a novidade. A manchete do jornal Asahi Shimbun, no dia 8, foi: “Hiroshima atingida por um novo tipo de bomba”. O desconcerto do Japão oficial e informado não era menor do que o de Fumiko, com o balde na mão.

Hiroshima é um curioso caso de cidade. Ônibus repletos de turistas não param de chegar. Sucedem-se os grupos que, em marcha batida, seguem os guias de bandeirinha na mão. Os escolares comparecem às centenas. É uma cidade de intensa peregrinação turística, em resumo, mas um tipo diferente de turismo, em que o que se reverencia não é a arte, como em Veneza ou Florença, nem uma metrópole audaz, como em Nova York, nem a História, nem o berço de uma religião ou uma antiga civilização. O que se reverencia é um ataque aéreo de tipo especial e um morticínio.

Ou melhor: o que se reverencia é a paz. É com esse argumento que a prefeitura da cidade e o governo japonês fazem a promoção de Hiroshima. Tudo é “da paz”, na cidade - Parque da Paz, Museu da Paz, Avenida da Paz. O Parque da Paz ocupa bem o centro da cidade, e dentro dele está o Museu da Paz, ambos obras de Kenzo Tange, um Oscar Niemeyer japonês - o arquiteto que assina os projetos mais marcantes do Japão contemporâneo. Entre as alamedas e árvores do parque sucedem-se os monumentos menores. Há uma Pira da Paz, que só será apagada quando as armas nucleares forem extintas no mundo. Há também uma homenagem à menina Sadako Sasaki, que morreu em 1955 de leucemia, conseqüência da radiação atômica.

Há no Japão a crença de que o grou, a ave pernalta parente das garças, vive 1 000 anos, e que a pessoa que conseguir fazer 1 000 grous de papel garantirá a longevidade. A menina que morreu de leucemia só teria chegado aos 900. De todo o Japão, as escolas mandam a Hiroshima, para suprir o trabalho que a menina deixou incompleto, grouzinhos em origami - a arte japonesa de moldar o papel. No centro do parque fica o cenotáfio, o túmulo vazio que simboliza a sepultura de todas as vítimas. Sobre ele, uma inscrição afirma: “Que todas as almas aqui descansem em paz, pois nós não repetiremos o mal”.

O Museu da Paz tem mantido uma média de 1,4 ou 1,5 milhão de visitantes por ano. Ele é tão importante para Hiroshima quanto o Louvre para Paris ou o Prado para Madri mas, ao contrário destes, não tem belezas, só horrores. São fotos de vítimas e de destroços, objetos calcinados, a maquete da cidade como era e como ficou. O conjunto todo, parque e museu da paz, foi feito para comover. Comove? Sim, mas ao mesmo tempo algo incomoda. E não é o permanente clima de quermesse, de grupos de turistas que podem ser tão festivos quanto num balneário no Mediterrâneo. Afinal, é da natureza humana rir e fazer barulho em velório.

Incomoda que a celebração armada em Hiroshima tenha transformado o lançamento da bomba quase num acidente natural. Há poucas referências a quem jogou a bomba. Alguém mais distraído pode até sair com a impressão de que ela caiu sozinha. Leia-se de novo a inscrição no cenotáfio: “Que todas as almas aqui descansem em paz, pois nós não repetiremos o mal”. Nós? Nós quem? E mal? Não é crime, ato tresloucado - é “mal”, um conceito teológico, tal se o castigo tivesse vindo de Jeová, como no caso de Sodoma e Gomorra.

Numa manhã de maio, um dos origamis no monumento à menina que morreu de leucemia vinha de uma escola de Kobe, e era acompanhado de uma mensagem dizendo que, se Kobe sofreu muito com o terremoto que a devastou no início do ano, pelo menos tratou-se de um desastre natural, enquanto Hiroshima foi vítima de falha humana. O máximo a que se chega é isso: falha humana, produto das “paixões humanas”, das “imperfeições humanas”. Todos viram culpados, todos nós, a “humanidade”. Não se politiza a questão. O que equivale a dizer que fica faltando algo para colocá-la devidamente na História. Por quê?

Responde Shunichi Matsubayashi, um dos diretores dos Arquivos Municipais de Hiroshima, entidade que entre outras atribuições supervisiona o museu: “Inculpar alguém pelo que aconteceu nunca foi a intenção dos expositores, e creio que isso corresponda à propensão do povo, que é muito budista e, como tal, em vez da ira, prefere uma posição mais construtiva”. Há outras explicações. Uma é a amizade que, no pós-guerra, uniu os Estados Unidos e o Japão. Outra são os cadáveres que o Japão tem escondidos no armário - os atos de agressão e crueldade que cometeu durante a guerra, e que poderiam vir à tona no contrafluxo de uma atitude mais assertiva com relação à bomba atômica. Fica-se na conversa de “falha humana” e de promoção da “paz”, como se a paz fosse um valor abstrato, apolítico, independente do projeto das nações e do desejo de suas lideranças. Tudo somado, sente-se algo de mal resolvido, nos ares de Hiroshima.

Muito longe de vilões, os americanos são modelos para os japoneses, inclusive os das novíssimas gerações. Numa manhã de maio um grupo de escolares de Kochi, cidade situada em Shikoku, uma das quatro ilhas principais que constituem o Japão, tirava fotografia em frente do cenotáfio. Lia-se nos blusões dos meninos: “Georgetown University”, “Dunlop Racing Sport”, “Duke University”, “Mickey Mouse”. Os adolescentes japoneses são tão adoradores dos signos americanos quanto os brasileiros, ou mais.

A operação destinada a arrasar a cidade teve início à zero hora do dia 6 de agosto de 1945, quando um pequeno grupo de militares americanos, entre os quais o coronel-aviador Paul Tibbetts, se reuniu na base onde serviam, em Tiniam, nas Ilhas Marianas, Pacífico Sul. Os militares receberam um briefing sobre a missão de que estavam incumbidos. Seguiu-se um ofício religioso, comum antes das missões difíceis, em que o capelão militar William Downey pediu: “Que os homens que voam esta noite estejam sob a Tua proteção, e que retornem sãos e salvos”. às 2h45, o coronel Tibbetts decolou a bordo de um bombardeiro B-29, por ele batizado com o nome de sua mãe, Enola Gay. Junto decolaram dois aviões de observação. O Enola Gay levava “Little Boy”.

Tudo se passou da melhor forma possível, ao amanhecer daquele dia. Fazia um belo dia de verão, em Hiroshima. Céu de brigadeiro. Os americanos queriam ter certeza de que a bomba atingiria o alvo e surtiria os efeitos desejados, por isso dependiam crucialmente do bom tempo. Ao liberar sua carga, a partir de uma altitude de 9 000 metros, às 8h15, a tripulação de quatro homens que viajava no Enola Gay podia ter certeza de que a missão fora bem cumprida.

Hiroshima é uma cidade cheia de rios e de pontes. Bem no centro, numa das extremidades de onde hoje se encontra o Parque da Paz, fica uma ponte em forma de “T” , a Ponte Aioi. Afirma-se que o “T”, muito marcante visto de cima, serviu de alvo para o Enola Gay. A bomba explodiu no ar, a 580 metros de altitude. O ponto que fica bem abaixo, em terra, é chamado de hipocentro, e essa noção é fundamental em tudo o que se refere a Hiroshima: calcula-se se uma pessoa morreu ou não, que tipo de morte, se tal construção foi destruída total ou parcialmente, com base na distância respectiva do hipocentro.

A Ponte Aioi fica a dois quarteirões do hipocentro. O Domo fica a 160 metros. Já o hipocentro fica num lugar mais prosaico, onde é hoje um hospital, numa rua estreita. Nas vizinhanças há três estacionamentos verticais. Em frente do hospital, há uma barraca que vende “bento” - a refeição rápida dos japoneses, acondicionada numa bandeja de papelão. Ao lado da barraca há uma máquina de vender refrigerantes. Está escrito nela: “Enjoy Coca Cola”.

Revista Veja
http://veja.abril.uol.com.br/

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A cor do sal da terra

Quilombolas buscam proteção legal para garantir propriedade e resgatam tradições com apoio de antropólogos

Gonçalo Junior

Um tipo novo de guerra no campo parece não ter despertado ainda o merecido interesse da grande imprensa: a luta de comunidades quilombolas pela propriedade da terra em todo o país. Talvez pela relativa novidade. Embora com a Constituição de 1988 (artigo 68 do Capítulo das Disposições Constitucionais Transitórias) tenha se criado uma ferramenta legal de posse, somente a partir do Decreto 4.887, de 20 de novembro de 2003, a questão se tornou conflituosa. Seu artigo 2º estabelece critérios mais completos para conceituar o termo e considera os remanescentes das comunidades dos quilombos e os grupos étnico-raciais segundo critérios de auto-atribuição, com trajetória histórica própria, presunção de ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida.

O processo de certificação de propriedade, no entanto, é burocrático e demorado. A Fundação Cultural Palmares analisa atualmente processos de regularização de terras para os remanescentes dos quilombos que deverá beneficiar 500 comunidades de 300 territórios. A meta é, até o fim do próximo ano, certificar 22.650 famílias de 969 comunidades quilombolas em todo o território nacional. Estão identificadas oficialmente mil localidades em condições de serem atendidas, espalhadas por todos os estados brasileiros, de norte a sul – as maiores concentrações estão na Bahia e no Maranhão.

Com o início das demarcações, a polêmica se ampliou entre proprietários, prefeituras e entidades ruralistas. Do outro lado, as comunidades quilombolas contam com entidades de direitos humanos, principalmente a Pastoral da Terra. O Legislativo federal, então, tem sido a arena da briga entre lobistas dos dois lados. Como resultado, já tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Decreto Legislativo (PDL) 44/2007, do deputado federal Valdir Colatto (PMDB-SC), que, se aprovado, torna sem efeito a aplicação do decreto de 2003.

Enquanto isso, os quilombolas e sua rica história têm se tornado cada vez mais objeto de interesse de teses de mestrado e doutorado em todo país. Na verdade, o próprio debate para lhes dar proteção da lei e aplicação contou com a presença ativa da academia, como revela uma das pioneiras no assunto, Neusa Maria Mendes de Gusmão, antropóloga e professora associada do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp. Fruto da luta social dos movimentos negros, explica ela, a discussão envolveu também desde os anos 1970 pesquisadores e acadêmicos preocupados com a questão racial no Brasil.

Entre eles os antropólogos. “Muitos passaram, nos anos 1990, a ser sistematicamente solicitados a tomar posição diante da conquista do dispositivo legal ou mesmo a fornecer seus préstimos à exigência de laudos territoriais necessários nos processos de reivindicação das terras quilombolas.” Havia, porém, uma polêmica instaurada em relação ao enunciado da lei em torno dos termos “remanescentes” e “quilombos”. Um remetia a alguma coisa que “sobreviveu” e outro consolidado pela historiografia conservadora e de domínio do senso comum a grupo ou coletivo de negros fugidos (da escravidão). “A questão se tornou alvo de debates acirrados não só entre acadêmicos, mas entre juristas e políticos.”

O impasse, prossegue ela, acabou por mobilizar os antropólogos e a Associação Brasileira de Antropologia (ABA) a fim de rever a significação possível desses termos, de modo a viabilizar o direito desses grupos à sua terra. Isso aconteceu não apenas pela natureza do envolvimento do antropólogo brasileiro com as populações que estuda, mas em razão da demanda do próprio Estado, que requereu à ABA sua experiência na realização e emissão de laudos periciais de terras indígenas e outras, visando viabilizar os princípios contidos no artigo 68.

A designação de “quilombo” como de “grupos negros fugidos”, afirma ela, poderia sugerir no processo jurídico que as atuais comunidades seriam “resquícios” do passado e que teriam que comprovar essa origem. “No entanto, a constituição dessas realidades negras rurais obedeceram a determinações históricas diversas e não se deram por um caminho único e homogêneo, como bem mostra a história de Campinho da Independência.” Assim, as múltiplas formas de acesso à terra, historicamente constituídas, não poderiam ser reconhecidas na concepção tradicional de quilombo. Com isso, a lei, mais que beneficiar os grupos como pretendido, poderia ser um limite à própria conquista da terra.

Nesse contexto, o GT da ABA, na busca da abrangência conceitual para a efetiva aplicação da lei, passou a designar o termo “remanescente de quilombos” como um legado, uma herança cultural e material que dá aos grupos negros em contexto rural uma referência própria de um modo de ser e pertencer a um lugar específico (Doc. da ABA, 1994). Nesse sentido, explica Neusa Gusmão, fica claro que esses grupos não são resquícios, sobrevivências ou o que quer que seja. “Trata-se de grupos com práticas cotidianas de resistência, o que permite que eles se mantenham e se reproduzam por meio de modos de vida específicos e vinculados a um território que consideram seu, bem como através de regras de pertencimento e de uso coletivo da terra. São organizados e orientados pelo parentesco comum e em laços de solidariedade e reciprocidade.”

Para a antropóloga, duas décadas depois da promulgação da lei, o cenário ainda é composto de muitos desafios. “Os debates que envolvem os muitos agentes e agências, órgãos públicos e outros na definição e titulação das terras quilombolas ainda enfrentam muitos limites.” A indefinição dos parâmetros jurídicos e políticos persiste, afirma, em razão de diferentes entendimentos e devido a novas demandas que dizem respeito aos interesses em jogo nos espaços ocupados pelos grupos negros, numa ou noutra realidade particular. “Há conflitos entre órgãos responsáveis pela aplicação da lei (o caso das comunidades do Vale do Ribeira em São Paulo é emblemático) e também entre órgãos civis e associações que se criam com a finalidade de conduzir a luta no campo institucional.”

Por outro lado, acrescenta ela, é inegável que houve avanços significativos. “Não só a maior visibilidade da existência desses grupos e a constatação de que não são poucos, mas também o fato de que reconhecidos (em maior número) ou já titulados (poucos dentre os reconhecidos) e com registros efetivos de uma terra própria (pouquíssimos) passam a ter acesso a benefícios vários.”

Aconteceu igualmente um processo de fortalecimento da história comum e de novas formas de organização visando agora não apenas a um “viver para dentro” mas também para o mundo exterior e, nele, uma série de direitos que vão do atendimento à saúde e educação ao de obtenção de financiamento para projetos de desenvolvimento locais e cooperação com órgãos públicos, entre outros. Ocorreu ainda o fortalecimento de redes de apoio e constituem-se outras fontes de renda com base em atividades familiar e/ou grupal.

Contudo, os entendimentos diversos das diferentes agências a respeito da condução dos processos afetam o cotidiano dos grupos pela persistência da indefinição e constante reavivar das ameaças sobre as terras (ainda que reconhecidas como quilombolas – o que acontece na primeira fase do processo). “Por vezes, mesmo quando já tituladas, as comunidades quilombolas não conseguem registrar seus títulos em cartório e ficam à mercê de novos conflitos com os que se opõem ao seu direito.”

Isso significa que de 1988 até o presente muitas foram as conquistas, mas nem todas encontram-se consolidadas. “Esse fato exige muita mobilização por parte de todos os envolvidos e solidários à causa quilombola.” Portanto, o reconhecimento age no sentido de dar visibilidade e legitimidade ao grupo para impetrar o processo jurídico de direito à terra, porém não define esse direito. Para tal, é necessário cumprir as quatro fases do processo de regularização das terras, ou seja, identificação e demarcação dos limites, reconhecimento oficial, outorga do título e registro no cartório de imóveis.

A utora da tese de doutorado “Bairros negros do Vale do Ribeira: do ‘escravo’ ao ‘quilombo’”, Maria Celina Pereira de Carvalho acredita que o isolamento dos quilombolas no começo do século XXI não é tanto geográfico, mas político. “Existem projetos para ajudá-los, o problema é que tudo chega pronto de fora, não é discutido com a comunidade para melhor atender as suas necessidades. É preciso consultar cada grupo e debater com eles o que deve ser feito.” Mesmo assim, a luta pela terra trouxe uma nova mentalidade aos moradores das comunidades. “Antes alguns não sabiam que viviam em quilombos nem gostavam de ser chamados de negros. Atualmente isso mudou muito, existe uma clara autovalorização e melhora da auto-estima.”

A mobilização na região que ela estudou teve início em 1994, com a chegada da Pastoral da Terra, que levou para os moradores a idéia de como os quilombolas poderiam se proteger de invasores e obter o título de suas propriedades. Hoje muitos são organizados politicamente. Sabem também que precisam agir assim para impedir que suas casas sejam cobertas pelas águas das barragens. Aliás, tem sido muito forte o papel das mulheres nesse sentido.

Maria Celina se aproximou do tema em 1997, quando participou de um seminário sobre a ameaça aos quilombos com as construções de barragens no Vale da Ribeira. Ela entrou em contato com as comunidades e decidiu estudá-las como tese de doutorado na Unicamp. Por coincidência, dois anos depois, começou a trabalhar no Instituto de Terras de São Paulo, onde ficou encarregada de elaborar relatórios técnico-científicos para efeito de reconhecimento e titulação.

Ela focou os povoados de Galvão e São Pedro e deparou com a fascinante história de Bernardo Furkin, que montou o quilombo com um grupo de fugitivos perto da nascente do rio Bocó por volta de 1830. Aos poucos, Furkin conseguiu estruturar com os vizinhos uma eficiente rede de informação que permitiu a defesa e a chegada de novos fugitivos. Ao mesmo tempo, formaram alianças por meio de casamentos.

A educadora mineira Ana Luiza de Souza, que defendeu a tese de mestrado “História, educação e cotidiano de um quilombo chamado Mumbuca (MG)”, na Unicamp, passou a interessar-se pela questão dos quilombolas ao se mudar para a região do Vale do Jequitinhonha, quando manteve contato com comunidades lá existentes. Ela revela um aspecto interessante de Mumbuca: havia uma tradição estabelecida por seu fundador, José Cláudio de Souza, de que todos os moradores recebessem educação escolar. Souza era instruído e, após deixar o garimpo, onde supostamente acumulou uma pequena fortuna, comprou em 1862 uma área bastante isolada, que deu origem a um quilombo. Foi essa curiosa característica que despertou a atenção da pesquisadora, que reconstituiu sua história, com ênfase na educação.

A área do antigo quilombo é atualmente disputada por um fazendeiro que usa uma certidão de propriedade do ex-escravo para alegar direito ao usucapião. Ana Luiza conta que, durante muito tempo, até a década de 1960, Mumbuca viveu com prosperidade, graças ao cultivo do café. Nas cidades vizinhas, seus moradores eram respeitados como “negros trabalhadores e letrados”. O declínio começou quando a política de proteção à exportação do café determinou que todas as plantações antigas fossem destruídas. Para sobreviver, os quilombolas recorreram à mandioca, cujo rendimento é bem menor. Hoje, enquanto disputam na Justiça a posse da terra, eles e um grupo de educadores, do qual Ana Luiza faz parte, lutam para recuperar suas tradições, como a Festa do Rosário.

A relação dos quilombos do Vale do Ribeira com o movimento social também foi o tema da tese de mestrado do sociólogo Leandro Rosa pela Unesp. Assessor de cultura para Gêneros e Etnias da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, Rosa se debruçou sobre as mudanças trazidas aos quilombolas pela Constituição de 1988. Segundo ele, tanto nos quilombos paulistas como em outros estados vê-se o surgimento de uma “consciência política” explorada e potencializada sobretudo pela atuação da Pastoral da Terra e outros movimentos sociais, dos ameaçados ou atingidos por barragens, que passam a incorporar as terras protegidas pela Constituição para reforçarem seus discursos. “Portanto, devemos desmistificar algumas coisas. A primeira é a de dizer que não existe (ou é exceção) encontrar uma consciência política entre os quilombolas.”

E ssa “consciência”, acredita ele, sempre existiu nessas comunidades. “O que veio de novo foram novos elementos de luta e que por se tratar de uma questão fundiária grave vem à tona agora com mais visibilidade.” O pesquisador defende em sua dissertação que uma comunidade quilombola é, antes de mais nada, um movimento social. “É um movimento histórico e portanto sua mobilização de resistência é política e imanente a ela. Logicamente, a atuação dentro da comunidade e em seu entorno sempre passou despercebida da dita ‘história oficial’, salvo em questões de conflito ou guerra (vide Palmares).” Portanto, hoje em dia essa atuação é mais bem qualificada porque tem mais elementos – proteção da lei e outras bandeiras, como a questão ecológica, das mulheres quilombolas, a agrária, a étnica etc.

Carmem Lúcia Rodrigues, professora do Departamento de Ciências Florestais da Universidade de São Paulo (Esalq), acredita que não há preconceito detalhado que justifique a carência de certas comunidades, como em geral acontece quando se trata da cultura negra no Brasil. “No caso dos quilombolas, suas áreas transformaram-se, curiosamente, em atrativo turístico – caso da comunidade do Mandira perto de Cananéia.”

Autora da tese de doutorado “Limites do consenso: territórios polissêmicos na Mata Atlântica e a gestão ambiental participativa”, ela sugere observar duas comunidades bastante divergentes quanto à sua integração e ao desenvolvimento: a do Mandira, em Cananéia – que tem o apoio de diversos projetos governamentais e de ONGs e criou uma depuradora de ostras com sucesso – e a do Cambury, localizada no interior do parque estadual da serra do Mar, Núcleo Picinguaba, município de Ubatuba, que, na sua opinião, teve pouco apoio do poder público até o momento, à exceção da construção de equipamentos de saneamento básico.

Revista da FAPESP
http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

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Soja deve promover inflação dos preços de alimentos

Javier Blas

Os custos da soja atingiram os níveis mais altos em 34 anos, e os níveis dos estoques estão tão baixos que a total falta é uma possibilidade.

Os políticos, que já estão preocupados com o aumento constante da inflação global de alimentos, estão recebendo mais más notícias com o disparo do preço da soja.

Os preços do grão de soja atingiram seu nível mais alto em 34 anos, pressionados pela forte demanda chinesa e pelos temores que os atuais preços não estão altos suficientes para que as terras plantadas com milho nos EUA, maior produtor do mundo, migrem para a soja.

Em Chicago, o preço da soja nesta semana chegou a US$ 11,14 a bushel (1 bushel equivale a 27,21 kg), o mais alto desde julho de 1973. A alta foi ajudada pelo aumento da demanda pela indústria de biocombustível, com os preços do óleo chegando a US$ 100 (em torno de R$ 180) por barril, e também por temores com a safra do Brasil -segundo maior produtor do mundo- depois da seca no Estado do Mato Grosso, principal região de produção. A soja foi negociada ontem a US$ 10,85 por bushel.

O salto nos preços ameaça afetar a cadeia de alimentos e pressionar o preço da carne de boi e frango, pois a soja é usada em grande parte para a ração animal, advertiram os analistas.

A alta nos custos da soja -atrelada ao aumento do preço de outros produtos básicos nas rações, como trigo e milho- pode levar alguns produtores a abandonarem a criação de porco, boi e carneiro em meio às perdas, pavimentando o caminho para preços mais altos de carne no futuro.

A inflação alimentar já é grande preocupação para os políticos em países desenvolvidos e em desenvolvimento. A inflação alemã acaba de atingir 3% pela primeira vez desde ao menos 1995, por causa dos preços mais altos de alimentos e energia, enquanto a inflação chinesa atingiu uma alta de uma década.

A soja é, junto com o milho, o arroz e o trigo um dos maiores cultivos do mundo. Cerca de 80% da safra é processado para farinha de soja e rações, enquanto o restante é convertido em óleo para consumo humano (e, mais recentemente, para alimentar a indústria de biodiesel).

Peter Thoenes, especialista em óleos vegetais da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) em Roma, disse que o Brasil e outros países sul-americanos agora eram chave para deter a falta dos EUA, após os produtores na maior região de produção de soja do mundo converterem parte de suas terras ao milho.

“Qualquer clima desfavorável na América do Sul pode gerar uma alta”, diz Thoenes.

A safra de soja reduzida junto com a maior demanda de ração animal e de óleo para biodiesel levaram a uma queda nos estoques mundiais. A razão entre estoque e uso atingiu seu mais baixo nível em cinco anos, de acordo com estimativas da FAO.

Os estoques atuais equivalem a 10% da demanda anual.

Gavin Maguire, da Iowa Grains em Chicago, disse: “A demanda crescente combinada com o efeito de produção reduzida nos EUA em 2007 tornam o esvaziamento total dos estoques uma verdadeira possibilidade.”

O governo chinês recentemente promoveu a compra de soja, reduzindo temporariamente a tarifa de importação de 3% para 1%, em um esforço para baixar os preços locais. Pequim espera que a medida, que expira no final de dezembro, promova a produção de suínos, após uma doença no início do ano ter matado milhões de porcos.

A firma de consultoria de Hamburgo World Oil disse ontem que novas compras de grande escala pela China são “prováveis, a curto ou médio prazo”. A China é a maior produtora do mundo e adquire cerca de 40% da soja vendida no mundo, seguida de longe pela União Européia e Japão.

No início deste ano, a soja tornou-se a mais recente vítima da guerra de mercado, depois que produtores americanos responderam aos altos preços do milho do final de 2006 aumentando as áreas que dedicavam ao milho para o maior nível em mais de 60 anos.

Este aumento levou a uma redução profunda da área plantada com soja e, até certo ponto, trigo e algodão.

A área plantada de soja nos EUA caiu neste ano cerca de 16%, para 63,7 milhões de acres, de acordo com o Departamento de Agricultura dos EUA. A queda em área e a baixa produtividade cortaram a oferta de soja para 2,6 bilhões de bushels, 19% menos que a produção recorde do ano passado.

Lewis Hagedorn, analista de agricultura da JPMorgan em Chicago, disse: “A soja precisa comprar sua área de volta do milho antes da próxima estação de plantio, na primavera.”

Até agora, não está claro se os preços recorde serão suficientes para convencer os produtores a mudarem de cultivo porque os preços do milho para a safra do ano que vem continuam altos.

Os contratos futuros do milho na Chicago Board of Trade (CBOT), usados para avaliar o valor das safras, de dezembro de 2008 estão sendo negociados a US$ 4,25 por bushel, bem acima dos preços spot atuais de cerca de US$ 3,80. Enquanto isso, os contratos futuros da soja de novembro de 2008 estão atualmente a US$ 10,20 por bushel, abaixo dos preços spot.

Apesar da razão do preço do milho para a soja ter se recuperado da baixa do ano passado que levou os produtores a abandonarem sua soja pelo milho, 2,4 vezes não é suficiente para convencer os agricultores a voltarem ao grão, de acordo com analistas.

Maguire disse que, se os preços do milho continuarem perto de US$ 4 por bushel, então a soja precisará chegar a US$ 12 “para estabelecer a razão chave de 3 para 1 que provocaria o aumento da produção da soja”.

A produção brasileira é chave para a oferta
Os EUA são o maior produtor de soja do mundo, com uma fatia do mercado de cerca de 38%, de acordo com o Deutsche Bank. A soja é o terceiro maior cultivo do país, depois do milho e trigo, com a produção concentrada nos Estados de Illinois e Iowa.

O Brasil e a Argentina são o segundo e o terceiro maiores produtores, fornecendo juntos cerca de 43% do total mundial.

A oferta desta base da alimentação animal importante também está sendo pressionada porque os produtores brasileiros estão relutando em aumentar sua área de plantio de soja.

Desde o início de 2006, o real brasileiro apreciou 23,5% contra o dólar, gerando os preços recordes da soja em Chicago.

Os negociadores dizem que, sem maior produção do Brasil e dos EUA, o custo da soja continuará alto.

Financial Times
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/fintimes/

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As feridas da revolução chinesa

David Brooks

Durante o século 20, o inferno desceu sobre muitos países, e cada um parece recuperar-se à sua maneira. Essa é a história da recuperação de um homem, e um vislumbre da ascensão da China moderna. Edward Tian tinha 3 anos quando Mao Tsé-tung lançou a Revolução Cultural. Seus pais, ecologistas educados na União Soviética, foram deportados para remotas regiões rurais. Uma turba invadiu sua casa e queimou os livros de sua família. Separado de sua irmã, foi enviado para viver com a avó materna na cidade Shenyang. Sua avó era uma mulher assustadora, mas firmemente zelosa, cuja filosofia para a criação de filhos se resumia ao lema: “Não sorria até as crianças estarem na cama.”

Tian lembra-se de ter ficado zangado com os pais durante seus 11 anos de separação: “Eu ficava muito aborrecido. Por que eles não cuidaram de mim? Só tive uma boa relação com meus pais depois que meus filhos nasceram.” Nesse ínterim, ele estudava marxismo na escola e sonhava em tornar-se um soldado da revolução. Sua avó o persuadiu a não entrar no serviço militar e continuar seus estudos. Em 1981, ele se inscreveu na Universidade de Liaoning, e depois de se formar, enviou cartas a universidades americanas na esperança de conseguir uma bolsa em alguma delas.

A Universidade Técnica do Texas ofereceu-lhe uma, e Tian, achando que Lubbock, Texas, era perto de Nova York, aceitou. “A primeira viagem de avião da minha vida foi de Pequim para San Francisco, e em seguida eu voei para Dallas onde o aeroporto era enorme. Fiquei muito assustado.”

Tian sentiu-se obrigado a seguir os passos de seus pais e estudou ecologia, de modo que o garoto de Shenyang acabou obtendo um doutorado em administração de fazendas no Texas. Sua dissertação foi um modelo estatístico da propagação de uma espécie de grama, que foi lida, depois de anos de trabalho, por dez pessoas. No entanto, foi nessa universidade que ele teve acesso a um computador Macintosh. “Durante as folgas eu não tinha família nem amigos por perto, por isso brincava com ele”, conta Tian. “Isso plantou uma semente em meu coração.”

No início dos anos 90, as reformas de Deng Xiaoping estavam começando a transformar a China e a internet, o mundo. Tian, então, agarrou o momento histórico. Ele e um amigo chinês de Dallas fundaram a AsiaInfo Holdings para levar a tecnologia da internet para seu país. Três anos depois, ele tinha 320 empregados e uma receita anual de US$ 45 milhões.

Em 1999, o governo chinês criou uma nova empresa, a China Netcom Group, para competir com a China Telecom para trazer a banda larga para a China. Tian foi convidado para ocupar a chefia executiva e aceitou. O pesquisador de fazendas de Lubbock terminou no comando de 230 mil pessoas.

No entanto, a Revolução Cultural continua espreitando das sombras mentais. “Insegurança é um pensamento muito importante em minha cabeça”, diz Tian. Ele agora trabalha com luminares do ramo como Henry Kravis, e observa: “Henry não precisa provar quem ele é. Como sou chinês, preciso provar que posso fazer isso. Que posso viajar mais depressa e aprender mais.”

Recentemente, ele foi o principal orador em uma conferência na Malásia e chegou tarde e faminto a um jantar. Ele foi até a mesa do bufê, encheu seu prato de arroz e começou a enfiá-lo avidamente na boca. Um amigo disse que ele envergonhou seus colegas chineses comportando-se como um camponês. Enquanto isso, o encorajamento de casa continua. Numa viagem ao Japão, Tian ligou para sua avó, hoje com 92 anos, e disse-lhe que apesar do que ela sofrera durante a ocupação japonesa, ele agora estava parado num lindo parque japonês. Ela respondeu: “Por que você é míope? Devia estar trabalhando duro?”

Cansado da burocracia, Tian pediu demissão da Netcom e fundou a China Broadband Capital. Ela financia empresas que estão usando telefones celulares como a próxima plataforma de tecnologia da informação, e possui uma parte do MySpace China. Ele está instalado, sozinho, num belo escritório no meio do parque onde os imperadores da Dinastia Qing vinham adorar o sol. Seu escritório foi a sala de vestir do imperador.

Com sua persistente insegurança, sua firme determinação de provar a si mesmo e reprovar, ele é, de certa maneira, um produto típico da elite da geração da Revolução Cultural, mas é também um homem culto, e nisso ele é atípico. A Revolução Cultural varreu muito da antiga cultura chinesa. Ela foi sucedida por uma onda de mercantilismo e materialismo. A dignidade se define hoje por dinheiro e artigos de luxo franceses e italianos.

O vazio espiritual deixado pela Revolução Cultural ainda não foi preenchido. Alguns conjuntos de valores - bons ou maus - o acabarão preenchendo, e, a essa altura, o abalo secundário final do inferno será finalmente sentido.

*David Brooks é colunista do jornal ‘The New York Times’

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

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PSOL critica falta de coerência política no Congresso e sugere reforma tributária urgente

Epidemia de metamorfoses ambulantes. PT e Lula, que sempre criticaram a CPMF, agora a defendem como se fosse imprescindível. PFL/DEM e PSDB, criadores do imposto, agora consideram-no uma extorsão. Enquanto isso, só o PSOL questionou e votou contra a DRU.

Por Mariane Andrade (*)

O resultado da votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) e da Desvinculação de Receitas da União (DRU), nesta madrugada, 13/12, no Senado Federal, representa falta de coerência política, na opinião do PSOL. A CPMF foi extinta, já a DRU continua válida. O PSOL aponta ainda para a necessidade de uma reforma tributária urgente.
O deputado Ivan Valente (SP) lembrou que o PT foi contra a criação da CPMF, há 12 anos, porque representava mais um imposto para ajudar o superávit primário e pagar os juros da dívida, e que o governo de Fernando Henrique aumentara de 0,20% para 0,38% a alíquota da tarifa. “Os tucanos e os democratas não têm moral para votar contra a CPMF porque eles a criaram e usaram o tributo para pagar religiosamente os juros da dívida para os banqueiros. Mas o PT também é incoerente porque foi contra e agora, no governo, manteve o superávit primário para não mudar a política econômica”, avaliou o deputado, em discurso durante sessão extraordinária na manhã de hoje.
O PSOL defende a renegociação da dívida pública e a suspensão do superávit primário, como um novo conceito em economia, e aplicação do dinheiro do orçamento na área social, particularmente na saúde e na educação. A verdadeira questão, afirma o deputado, que é a mudança do modelo econômico, não é debatida. Para o PSOL, essa votação representou um festival de cinismo, já que o Brasil arrecada recursos, paga R$ 180 bilhões de juros e ainda dá dinheiro aos banqueiros.
Segundo Ivan Valente, a maior incoerência do cenário desta madrugada é a votação contra a CPMF (45 votos a favor e 34 contra, mas eram necessários 49 para aprovação) e a favor da DRU (60 a favor e 18 contra). “É um escândalo que 60 senadores tenham votado pela manutenção da DRU, que implica em um contingenciamento de 20% das verbas orçamentárias. Então, 3,6% da arrecadação de impostos da educação são sugados, são R$ 50 bilhões”, alerta o deputado. “E ainda vieram pedir ao nosso senador (José Nery - PA) que votasse a favor da CPMF. Não dá. Temos coerência para dizer não à CPMF e não à DRU”.
Nesse embate pela aprovação da PEC fica a certeza, acredita Ivan Valente, das grandes demandas estruturais da sociedade brasileira e a necessidade de uma reforma tributária. Para o deputado, a reedição da CPMF ou qualquer outro tipo de imposto com intuito de evitar a sonegação, um dos argumentos defendidos pelo governo federal, é válida, mas tem que ser uma CPMF com alíquota de 0,01% para toda transação financeira. “Aí quero ver senadores e deputados votarem contra…. Nós, do PSOL, vamos votar a favor do fim da sonegação”, afirmou.
A reforma tributária também foi defendida pelo líder do PSOL, deputado Chico Alencar (RJ). Para ele, um novo sistema tributário no Brasil não pode ser conservador. “A reforma tributária tem que ser para constituição de um estado forte, que arrecade, e não pequena do jeito que quer o governo”, afirmou Chico Alencar.
Pauta da Câmara - Apesar da votação da PEC da CPMF e da DRU no Senado, a pauta da Câmara deve continuar na mesma situação: sofrendo obstrução da base governista. A DRU tem que ainda ser votada em segundo turno, o que deve acontecer no próximo dia 20. Para não trancar a pauta do Senado, a base aliada na Câmara continuará utilizando de artifícios regimentais para impedir a votação na Casa.
No momento, cinco medidas provisórias e três projetos de lei trancam a pauta na Câmara. O primeiro item é a MP 395/07, que abre crédito de R$ 3,25 bilhões a diversos ministérios, dos quais R$ 1,7 bilhão para a pasta da Saúde. Ontem, o Supremo Tribunal Federal considerou inconstitucional a MP 394, que trata sobre o registro de armas.
Chico Alencar criticou a falta de deliberação do plenário da Casa, paralisado há um mês. “O resultado no Senado é fruto, absolutamente, dos erros do governo. E nós é que pagamos por isso”.

Na próxima semana, entretanto, termina o ano legislativo de 2007 e a dúvida sobre as votações continua. O Congresso - Câmara e Senado - precisa ainda votar o Orçamento 2008.

(*) Mariane Andrade é jornalista.

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Passagens por tempos e lugares da cultura árabe

Michel Sleiman

O que segue nas linhas abaixo é uma conversa sobre a cultura árabe, em diversas de suas formas, em várias de suas manifestações, em muitos de seus debates, contradições e construções. A entrevista com o professor de Literatura Árabe da USP e secretário-geral deste Icarabe, Michel Sleiman, foi guiada pela mais nova edição da revista acadêmica Tiraz, uma publicação do Programa de Pós-Graduação de Letras Árabes da USP, mas estendeu-se e encontrou caminhos que levaram a debates atuais da história e da cultura árabe. Desde a dinâmica da língua até a vida dos árabe-muçulmanos da Espanha do século XVI, católicos ao público – deviam isso à perseguição da Inquisição – mas muçulmanos no interior de suas casas. Nas palavras de Sleiman, a Tiraz é “uma iniciativa que tenta trazer e divulgar, através dos estudos que se desenvolvem na Academia, debates importantes das Letras e da Cultura”.
a Arturo Hartmann

Icarabe: Como foi estruturada a última edição da revista Tiraz? Quais são seus destaques?
Michel Sleiman: A seção Artigos traz seis textos divididos em dois focos temáticos. Um deles, “A diglossia nas comunidades árabes”, fala da situação diglóssica da língua árabe, de como as comunidades árabes lidam com o fato de terem que usar a língua padrão erudita ao mesmo tempo em que são falantes de dialetos. Cada localidade tem um dialeto. Em determinados países, como no Egito, há vários dialetos árabes, um mais aceito como padrão e outros que ficam na região do baixo Nilo, que são outras variações dialetais do árabe. O artigo procura lançar um olhar sobre como acontece essa diglossia, uma situação em que uma língua se desdobra em um registro alto, elevado, até chegar a um nível mais baixo.

I: Esses estudos devem trazer dificuldades imensas, pois a diferença entre os “árabes” falados deve ser grande?
M: Por um lado, há uma questão no âmbito interno dos países. Peguemos o caso da Síria. Como qualquer outro país árabe, ali há um dialeto árabe, que é a língua espontânea de todos, usada no interior das casas. Este dialeto tem uma gramática implícita, que só recentemente começa a ser descrita, mas que já existe. Os falantes obedecem a certas regras que estão neles internalizadas. Então, dentro de um país como a Síria, você tem todos falando o mesmo dialeto. Agora, todo mundo em que situação? Numa situação familiar, no âmbito da casa, no trato com os amigos. No entanto, o sujeito que tem um certo nível de estudo médio, quando trata com um servente da casa ou do trabalho, tenta usar o dialeto em um nível mais baixo. Quando trata com uma pessoa numa loja ou órgão público, lugar que requer um certo distanciamento, uma postura formal, ele automaticamente sai do nível baixo do dialeto e emprega a língua num módulo virtual, que não aquela língua do Alcorão, da alta literatura árabe. É uma língua padrão, que não é do Alcorão, pois existiu uma modernização, mas que também não implica em rompimento com o árabe clássico. Esse caminho do baixo para o médio árabe é que chamamos de diglossia, pois o dialeto não está tão distanciado que não possa se aproximar do árabe padrão, árabe clássico ou literário. O que possibilita esse trânsito é o fato de as pessoas dominarem um árabe elevado.

I: A diferença é marcante entre as classe sociais dentro dos países árabes?
M: Não sei como está hoje a situação das escolas, mas, 20 anos atrás, quem tinha escola média tinha um bom nível de escolaridade. No mundo árabe, nos países onde há trânsito cultural forte, pelo menos havia, como no Iraque, Síria, Líbano e Egito, no Marrocos talvez, era comum haver esse trânsito, isso acontecia. Mas quando a pessoa tem acesso ao árabe padrão, ela faz esse trânsito. Mesmo pessoas que têm pouco estudo, quando vão dar uma entrevista na televisão, procuram usar uma ou outra palavra que ela conhece do clássico para marcar que ela saiu daquela situação natural e espontânea da língua, e que ela precisa produzir uma língua mais oficial.

I: Como funciona a diglossia entre os países árabes?
M: Nesse caso, se cada um se mantiver no seu dialeto, haverá muita dificuldade para acontecer a comunicação. Se ambos saírem de seu dialeto e irem em direção ao árabe padrão, aí vão se entender. A diglossia permite sair de um árabe natural e entrar em um árabe artificial, virtualmente existente. Como nenhum país fala o árabe padrão como língua natural, pois foi feito para ser escrito, a diglossia transita sempre, não é estável, não é fixa.

I: O árabe que se fala na Arábia Saudita se aproxima desse árabe padrão?
M: Não. Isso é um mito, de que o árabe da península ou do golfo sejam árabes melhores. Não, não são. São dialetos, tanto quanto outros. Agora, segundo a bibliografia, eles teriam um número de palavras mais próximo ao árabe que deu origem ao que é hoje considerado o árabe clássico. Isso porque o árabe que está no Alcorão, considerado base e padrão, é o árabe que era mais próximo daquele usado pelas populações da península, em torno de Meca. Agora, quando alguém da Arábia Saudita se põe a falar rápido, marcando o dialeto, ele usa um dialeto tão incompreensível quanto um sírio. É um dialeto muito específico.

I: Há outros artigos que dêem destaque à discussões sobre a língua?
M: Há um texto, “Na contramão dos cristãos – a literatura mourisco aljameada na Espanha”. Fala de como o árabe permaneceu entre os mouriscos da Espanha e Portugal, nos séculos XVI e XVII, quando as populações muçulmanas desses países se viram forçadas, até pela Inquisição, à conversão ao cristianismo. Conversos por fora, mas em suas casas cultivavam a língua árabe. As festividades eram islâmicas, o calendário de festas religiosas era islâmico. Então, existe uma literatura que é considerada, até pela autora que trata a questão, Luce Lopez Baralt, secreta no sentido de que não era para ser compreendida pela maioria. Eles escreviam em castelhano, que era língua que usavam, já que estavam inseridos no contexto da Espanha. Isso na época em que a Espanha estava no esplendor de sua cultura, que é o momento do Barroco, o chamado século de ouro. A língua da cultura, para você se inserir socialmente, politicamente e ter uma figura mínima de cidadania, era o espanhol. Não era diferente para esses mouriscos. E, no entanto, como eles veiculavam em seus escritos a cultura islâmica, que era perseguida pelos inquisidores do Santo Ofício, eles precisavam disfarçar, e o jeito encontrado foi escrever o castelhano com letras árabes

I: Alguns desses muçulmanos vieram ao Brasil?
M: Há uma leva considerável. Usamos o termo cristãos-novos para judeus conversos e podemos usar também os termos cristão-novo ou mourisco para o árabe-muçulmano da Espanha. O mourisco seria exatamente o sinônimo, o equivalente para aquele convertido muçulmano. Há referências de pessoas ligadas à Inquisição e ao governo real da Espanha sugerindo sua deportação para as terras do novo continente. Segundo a autora, que estuda literatura espanhola e nos últimos 20 anos se dedica à literatura aljameada, essa literatura deveria entrar no cânone da literatura espanhola, pois são poetas, romancistas, escritores e narradores que interagem, inclusive com outros escritores espanhóis e dão uma outra visão da Espanha, que ela chama de uma Espanha às avessas, que vai na contramão da visão oficial da Espanha cristã. Mostra, por exemplo, que as pessoas da Inquisição são cachorros famintos e raivosos, enquanto os outros escritores da época falavam bem da Igreja, eram amigos, digamos assim, do status quo da época.

I: Há algum artigo que fale da literatura árabe?
M: Traduzimos o texto de um estudioso alemão, Hermann Zotenberg, que foi escrito imediatamente após a publicação, de Antoine Galland, da tradução das “Mil e Uma Noites”. Ele faz um estudo sobre essa tradução, um estudo grande. Está cheio de citações em árabe, é um grande humanista. É um texto importante e, como estamos lendo “As Mil e uma Noites” pela primeira vez do árabe para o português, é interessante voltar o foco para quando surgiram “As Mil e Uma Noites” na cultura ocidental.

I: É a versão mais conhecida, apesar de não ser a melhor tradução…
M: Eu gosto. O Mamede (Jarouche, tradutor da primeira versão das “Mil e Uma Noites” direto do árabe para o português) mesmo disse que todo mundo critica esta tradução, mas todo mundo lê. Claro que há uma diferença enorme entre a do Galland e a do Jarouche, mas elas têm o seu charme cada uma. A do Jarouche não seria reconhecida no século XVIII e nem a do Galland no século XXI. As traduções são fruto da época, não interessa a época do texto que foi traduzido, mas o texto da época da tradução, que é o que ficou. Se traduzo hoje, escrevo para você ler, e não para o cara do século XIX ler. Ela é sempre produto do tempo.

I: Como estão os estudos árabes hoje no Brasil?
M: No Brasil ainda temos pouca coisa. Se você pensar em dois focos, temos a Universidade de São Paulo e a Federal do Rio de Janeiro. Agora, que tenha um programa de pós-graduação e que esteja desenvolvendo pesquisa, só São Paulo. Fora isso, existem iniciativas pulverizadas. Em termos de pesquisa, ainda há pouco, mas existe o interesse que pode ser medido pelo mercado editorial, pela tradução de obras do mundo árabe. Se você pegar de dez anos para cá, houve um salto. Era um nada e veio a ser alguma coisa. Do ponto de vista estrangeiro, existe hoje um interesse dúbio. Há, como sempre houve, estudos árabes nas principais universidades européias, agora, isto está acompanhado, segundo depoimento de um colega de fora, de uma certa desconfiança e uma má-vontade em relação ao islã, ao árabe em função do 11 de setembro. As pessoas amam e odeiam. Há um certo desconforto e duvido que alguém apareça na mídia, encha a boca para dizer ‘sou pesquisador em árabe’. Mas o interesse é dúbio. O mundo oriental, de um modo geral, e o islâmico, em particular, ainda exercem algum fascínio nas pessoas. Normalmente, o mundo oriental, incluindo o Extremo Oriente, está associado à espiritualidade. Hoje, já noto a seguinte atitude de estranhamento: ‘espera aí, o islamismo tem coisas espirituais?’. Hoje você escuta isso. ‘Não é só morte, batalha? Não é só guerra?’. Isso sim mudou para pior. A imagem que se tinha do mundo árabe era a da sabedoria, da esperteza, da sensualidade, e quando se falava em sabedoria, é aquela que roça o filosófico, o espiritual. Hoje já começa a se estranhar, ‘existe também isso?’. É uma idéia bem belicizada. Começamos o século XXI com isso.

I: Que tipo de dificuldades isso traz para quem organiza uma publicação como a Tiraz?
M: Acho que as revistas espelham o que está acontecendo no mundo. É curioso, por exemplo, que até o terceiro número nunca houve mais do que um artigo de literatura na Tiraz. Não é curioso que uma revista editada por um curso de Letras não fale muito de literatura? Isso porque não é o que as pessoas querem saber sobre o mundo árabe hoje. Embora as pessoas queiram saber também sobre literatura, elas querem saber sobre a política, a religião, a língua, a filosofia, a história, a arte.

I: Se pudesse indicar um assunto central para um artigo de literatura árabe, qual seria?
M: Talvez o mais interessante da literatura árabe hoje é que ela não é árabe. Insisto nesse ponto. A literatura árabe contemporânea é uma literatura que, traduzida, não deixa a possibilidade de que seja percebida sua origem, pois estamos num mundo cada vez mais desterritorializado. As pessoas estão conectadas no mundo inteiro, na mesma hora, e as questões são cada vez mais as mesmas.

Instituto da Cultura Árabe
http://icarabe.org/

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Reitor da FSA faz farra com dinheiro dos estudantes

Fernandes
Diário do Grande ABC
http://home.dgabc.com.br/

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Tão parecidos, tão diferentes

Missão espacial ajuda a desvendar processos que diferenciaram ambientes de Vênus e Terra

Thaís Fernandes

Nosso vizinho mais próximo, Vênus, é considerado ‘gêmeo’ da Terra, por apresentar massa, raio, densidade e composição química bastante similares aos do nosso planeta. Mas como astros tão parecidos a princípio podem ter desenvolvido condições ambientais tão diferentes? Observações feitas durante o primeiro ano da missão Venus Express, da Agência Espacial Européia (ESA), estão ajudando os cientistas a entender esse mistério.

A análise completa dos dados da missão européia – que chegou a Vênus em abril de 2006, cinco meses após seu lançamento – foi publicada em uma série de oito artigos na revista Nature desta semana. O mapeamento detalhado de todas as camadas da atmosfera venusiana permitiu uma melhor compreensão dos processos que fizeram as trajetórias evolutivas de Vênus e da Terra divergirem tanto.

Enquanto a Terra apresenta hoje um clima propício à formação da vida, Vênus tem uma superfície seca, com temperatura de cerca de 450ºC e pressão muito mais alta que a do nosso planeta, além de uma atmosfera composta predominantemente por dióxido de carbono (CO2) e permeada por nuvens de ácido sulfúrico. Apenas vestígios de água foram encontrados em Vênus – todos em sua atmosfera –, mas é possível que tenha havido muito mais no passado, talvez até com a formação de oceanos como os da Terra.

Os dados colhidos pela Venus Express reforçam a hipótese de que Terra e Vênus tiveram ambientes similares no passado e evoluíram de forma distinta. Embora os dois planetas tenham aproximadamente a mesma quantidade de dióxido de carbono, a maior parte do CO2 atmosférico da Terra foi cristalizada pelos oceanos em rochas de carbono. Já em Vênus, o composto existe principalmente como gás e compõe 96,5% da atmosfera. Além disso, Vênus perdeu a maioria de sua água para o espaço.

Segundo os autores do estudo, o padrão dos ventos e as altas temperaturas na superfície de Vênus resultam da profundidade da atmosfera e da enorme quantidade de gases de efeito-estufa retidos pelo planeta. Se essa característica evoca para o leitor as atuais condições da Terra, acalme-se: o clima extremo de Vênus não é um retrato do futuro do nosso planeta. “A Terra nunca poderia se transformar em Vênus, a menos que diminuísse abruptamente sua velocidade de rotação”, avalia o astrônomo Fernando Roig, pesquisador do Observatório Nacional, no Rio de Janeiro.

Fuga de partículas
A missão Venus Express confirmou evidências anteriores da enorme perda de água na atmosfera do planeta ao longo de sua história. Cientistas acreditam que Vênus tinha uma grande atmosfera feita de vapor d’água, que se dissociou em hidrogênio e oxigênio pela ação da radiação solar ultravioleta. O hidrogênio, por ser mais leve, teria escapado para o espaço, enquanto o oxigênio, mais pesado, teria oxidado a crosta e criado uma superfície quente e seca.

A análise da interação da atmosfera venusiana com o meio espacial permitiu caracterizar esse mecanismo de escape de partículas, que provavelmente tem relação com o vento solar (corrente de partículas carregadas vindas do Sol). Fatores como a ausência de um campo magnético interno em Vênus (devido talvez à sua rotação vagarosa) e sua proximidade do Sol permitem que o vento solar, mesmo em períodos de atividade mínima, interaja diretamente com a camada mais alta da atmosfera do planeta e retire átomos e íons em um ritmo mais rápido do que na Terra. “No nosso planeta, o campo magnético forte funciona como um escudo protetor”, compara Fernando Roig.

Os dados coletados estabeleceram de forma inédita a composição dos íons que mais escapam da atmosfera de Vênus. Para cada dois íons de hidrogênio, um de oxigênio é perdido para o espaço, a mesma proporção encontrada na molécula de água. Os cientistas esperam obter uma quantificação mais detalhada das taxas de perda de íons na atmosfera para estimar quanta água Vênus perdeu em sua história. “Ao final da missão, devemos saber melhor se o planeta teve alguma vez um oceano tão extenso e profundo quanto os da Terra”, afirmam os autores do artigo que traz uma visão geral das conclusões.

Relâmpagos venusianos
Os pesquisadores também coletaram a primeira evidência definitiva da ocorrência de relâmpagos em Vênus, uma descoberta inesperada, já que as nuvens venusianas são como uma mistura de nevoeiro e fumaça. Apesar de não terem sido observados flashes bem delineados, foram detectadas ondas eletromagnéticas de baixa freqüência que duram uma fração de segundo e possivelmente têm origem em descargas elétricas. O índice de ocorrência de relâmpagos em Vênus corresponde pelo menos a metade daquele observado na Terra.

A análise dos dados da missão permitiu ainda a criação de perfis de temperatura mais exatos para diferentes latitudes de Vênus. Os resultados indicam que a diferença de temperatura entre o dia e a noite venusianos é bem maior do que se imaginava – ela varia entre 30ºC e 40ºC na faixa de altitude entre 55 e 60 km. Outro resultado inesperado é a constatação de uma camada aquecida na parte mais alta da atmosfera de Vênus em uma região que se acreditava ser extremamente fria.

“Ainda é preciso entender melhor por que o CO2 tomou caminhos tão diferentes em Vênus e na Terra e como o vulcanismo em Vênus pode ter afetado sua evolução e a composição de sua atmosfera atual”, afirma Fernando Roig. A missão Vênus Express deve durar até 2013. As próximas observações devem ser mais ambiciosas, o que permitirá aumentar nosso conhecimento sobre esse planeta ao mesmo tempo tão parecido e tão diferente da Terra.

Instituto Ciência Hoje
http://cienciahoje.uol.com.br/materia/view/

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Setenta anos após o “Massacre de Nanquim”

O massacre brutal de até 300 mil civis chineses em Nanquim ocorreu 70 anos atrás. Mas as repercussões do ataque ainda podem ser sentidas hoje nas relações sino-japonesas. E a memória coletiva da carnificina continua sendo vital para a coesão do país

Wieland Wagner

Quando os japoneses entraram em Nanquim, a antiga capital chinesa na margem sul do Rio Yangtzé e cerca de 250 quilômetros a oeste de Xangai, Xia Shuquin tinha oito anos de idade. “De repente, os soldados invadiram a minha casa. Eles mataram o meu pai a tiros sem proferir uma palavra”, recorda-se ela. A seguir os japoneses estupraram e mataram as mulheres da residência, deixando vivas apenas Xia e a sua irmã mais nova.

Sho Mitani tinha 18 anos à época, sendo dez anos mais velho que Xia Shuqin. Ele servia em uma equipe de artilharia no navio de guerra japonês “Umikaze” (”Brisa Marítima”). Quando ele chegou a Nanquim, a matança já estava em andamento. “Havia corpos empilhados por toda parte, em parques e em quadras de tênis”, conta o ancião na sua casa em Osaka. Dia após dia, o exército trazia caminhões carregados de chineses até as margens do Yangtzé e abatia os prisioneiros indefesos com rajadas de metralhadoras.

Nesta semana faz 70 anos que ocorreu o massacre de Nanquim. Foi um dos ápices sangrentos da invasão japonesa da China que finalmente terminou com a derrota de Tóquio na Segunda Guerra Mundial, depois que os norte-americanos lançaram duas bombas atômicas contra Hiroshima e Nagasaki em agosto de 1945.

Somente em Nanquim, os japoneses mataram pelo menos 100 mil civis chineses. A China alega que o número de vítimas foi três vezes maior. Os dois vizinhos asiáticos atualmente ainda não concordam quanto ao número exato, e às vezes discordam até a respeito da existência ou não do episódio. Vários nacionalistas japoneses negam que o massacre - muitas vezes chamado de Estupro de Nanquim - tenha ocorrido.

Nanquim e o patriotismo chinês
Mas os chineses estão igualmente determinados a manter viva a memória do sangrento massacre de Nanquim - uma metáfora para crimes de guerra de todo o mundo. As relações entre Pequim e Tóquio podem hoje em dia estar mais tranqüilas do que foram durante um longo período, mas é difícil que se passe um dia sequer sem que um programa sobre os crimes de guerra japoneses seja transmitido pela televisão chinesa. Afinal, a luta heróica para repelir a opressão japonesa é um importante elemento do esforço dos comunistas para manter os 1,3 bilhão de habitantes do país unidos sob seu comando, especialmente no atual sistema essencialmente capitalista. Só a questão de Taiwan tem a mesma importância para Pequim. Nanquim continua sendo vital para a política chinesa, mesmo hoje em dia.

O memorial existente no local do horrível massacre está sendo atualmente renovado. O diretor do museu, Zhu Chengshan, 53, exibe um modelo em madeira do novo projeto. O formato é de um navio e ele será mais de três vezes maior que o atual museu. Os trabalhadores tiveram que tomar cuidado especial durante as obras de renovação, diz ele, devido aos incontáveis esqueletos remanescentes do massacre que ainda estão sob o local. O número 300.000 - representando o total de mortos - está gravado em uma parede de concreto.

Em Nanquim, o passado é onipresente. Quase todo lugar é politicamente simbólico, incluindo a casa que pertenceu a John Rabe, o “Bom Nazista” de Nanquim, que protegeu milhares de civis dos seus algozes japoneses. O funcionário da Siemens e autoridade do Partido Nazista criou uma zona de segurança de cerca de 250 mil moradores que moravam junto com estrangeiros ocidentais. Lá, atuando para todos os fins e intenções como prefeito, chefe de polícia e juiz, ele desafiou os japoneses. Os chineses reverenciam o alemão como um “Buda vivo”. Duas das pessoas que ele colocou na zona de segurança foram a jovem Xia e a sua irmã, que desde então se referem ao alemão como sendo um “santo”. As anotações de Rabe continuam tendo um valor inestimável para os chineses: o ex-funcionário da Siemens é uma importante voz estrangeira que dá legitimidade à posição chinesa no debate em torno das atrocidades de guerra japonesas.

O diário é um compêndio repulsivo de acontecimentos chocantes e atualmente está sendo transformado em filme pelo diretor Florian Gallenberger, que já foi agraciado com um Oscar. “A cada 100 ou 200 metros nós encontrávamos novos corpos”, observou o nazista. “O observador fica asfixiado pela náusea ao ver sistematicamente corpos de mulheres que tiveram estacas de bambu enfiadas nas vaginas. Até mesmo mulheres idosas, de mais de 70 anos, estão sendo constantemente estupradas”.

Bandeira com suástica
A ex-mansão de Babe é atualmente utilizada como um centro para o estudo da paz. Porém, os financiadores do projeto em Berlim temem que o local transforme-se em um centro de peregrinação de direitistas, e a abordagem do “Oskar Schindler da China”, conforme o “New York Times” já se referiu a Rabe, é algo que exige extrema cautela diplomática. Na sua recente visita a Nanquim, a chanceler alemã Angela Merkel evitou o memorial porque o seu itinerário envolvia uma passagem pelo Japão.

Afinal, Nanquim continua sendo em grande parte um tabu no Japão, e muitos políticos japoneses justificam a invasão imperial alegando que ela foi parte de uma luta asiática de libertação contra o jugo das potências coloniais ocidentais. Porém, na realidade, os japoneses foram parceiros do Ocidente na aceleração da partilha da China.

Já na primeira guerra sino-japonesa em 1889 e 1895,o Japão assumiu o controle sobre Taiwan; na Primeira Guerra Mundial, Tóquio conquistou Tsingtao, que era controlada pelos alemães. A seguir, em 1932, os japoneses criaram o Estado fantoche de Manchukuo - uma região historicamente conhecida como Manchúria - sob o governo de Puyi, o último imperador da China.

Mas eles também queriam subjugar o resto da China, e em 1932 forças japonesas continuaram o seu assalto atacando Xangai. Todavia, a verdadeira guerra com a China finalmente irrompeu em 7 de julho de 1937 - quando um embate noturno com tropas chinesas na Ponte Marco Polo, perto de Pequim, serviu como pretexto para o combate. O imperador Hiroito e seus assessores esperavam conquistar o país em apenas alguns meses como parte daquilo que desejavam que se tornasse uma “nova ordem” no Extremo Oriente controlada pelos japoneses. Eles também desejavam deter Chiang Kai-Shek, o enigmático general e inimigo ferrenho dos comunistas que, com as suas tropas do Kuomintang, conseguiu com bastante sucesso unir o país fragmentado. Chiang desafiou os invasores japoneses e atraiu-os para Xangai, na esperança de que as potências ocidentais, fortemente representadas à época naquela metrópole econômica, unissem-se à sua batalha.

Em agosto de 1937, aviões do Kuomintang atacaram navios de guerra japonesas no Rio Huangpu, mas erraram grosseiramente os seus alvos. Dos bares dos hotéis do Bund, a agradável passarela de Xangai, empresários estrangeiros observavam incrédulos enquanto os aviões chineses sem pontaria bombardeavam a sua própria cidade. Cerca de 2.000 pessoas foram mortas no trágico ataque.

Comemorando Pearl Harbor
A vitória japonesa acabou ocorrendo após uma luta longa e difícil, na qual cerca de 200 mil chineses tombaram vítimas dos ataques japoneses. Chiang Kai-shek recuou para o interior do país, primeiro para a capital Nanquim, e a seguir, através de Wuhan, para Chongqing. Os chineses desmontaram fábricas inteiras no leste para transportá-las para o oeste do país pelo Rio Yangtzé.

Chiang passou a morar em uma pequena colina na cidade, que usava como o seu quartel-general. As casas camufladas de cinza são hoje um museu. Aqui, em 7 de dezembro de 1941, ele comemorou o ataque japonês contra a base naval dos Estados Unidos em Pearl Harbor. Agora, conforme a China esperava, a superpotência norte-americana iria entrar oficialmente na Segunda Guerra Mundial contra o Japão.

Porém, as esperanças de Chiang de uma vitória rápida sobre os japoneses foram frustradas. Os Estados Unidos de fato enviaram ao general encurralado mais suprimentos e dinheiro, mas a ajuda dos norte-americanos ao ditador foi fornecida sem muito entusiasmo. A prioridade de Washington era a vitória sobre o Terceiro Reich. Além disso, os Estados Unidos avançaram contra o Japão principalmente a partir das ilhas do Oceano Pacífico, e um número relativamente pequeno de operações foi lançado da China.

A segunda Guerra Sino-Japonesa continuou se arrastando. Após as suas primeiras vitórias, os japoneses viram-se atolados nas profundezas da China. Incapazes de de destruir a resistência, mesmo como o auxílio do regime fantoche que instalaram em Nanquim em 1940, eles recorreram a métodos cada vez mais brutais.

Diversas técnicas utilizadas na Europa durante a Segunda Guerra Mundial com o objetivo de causar destruição maciça, tais como os ataques aéreos sistemáticos contra cidades do interior com número elevado de habitantes, haviam sido usadas anteriormente pelos japoneses. O bombardeio de Chongqing teve início na primavera de 1938, matando mais de 5.000 civis em apenas dois dias. Segundo testemunhas, os mortos estavam empilhados pelas ruas.

A estratégia de terra arrasada do Japão estimulou os excessos cometidos pelos soldados imperiais, levando a comportamentos como aquele presenciado em Nanquim. Os soldados podem não ter recebido ordens oficial para realizar o massacre, mas a doutrinação de obediência incondicional ao divino Tenno (o imperador) encorajou-os a abusar dos chineses, tratando-os como uma raça inferior. Eles eram, no entanto, quase tão impiedosos consigo próprios. “Desde pequenos fomos criados para morrer pelo imperador”, explica Sho Mitani, um ex-fuzileiro naval que mais tarde participou no ataque à bomba contra Chongqing na função de engenheiro.

Cooperação brutal entre Japão e Alemanha
Os japoneses também usaram gases venenosos e armas biológicas contra os seus inimigos. A infame “Unidade 731″ em Pingfang, no nordeste da China, matou milhares de prisioneiros chineses em brutais experiências médicas com seres humanos. O diretor da unidade, Shiro Ishii, trouxe a idéia das experiências de uma viagem à Alemanha.

Durante a guerra com a China, os médicos militares japoneses trocaram experiências com os seus aliados nazistas: sob recomendação de Hitler, oficiais médicos alemães viajaram ao leste da Ásia em fevereiro de 1938, a fim de pesquisar os efeitos de novas técnicas de combate. Mais tarde os médicos alemães forneceram à Unidade 731 o vírus da febre amarela, de forma que os japoneses pudessem testá-lo na China - uma cooperação macabra no intuito de exterminar um grande número de pessoas. Os criminosos de jaleco branco jamais foram levados a julgamento no Japão. Mais tarde as forças de ocupação dos Estados Unidos prometeram imunidade a Shiro Ishii para que este fornecesse a elas os resultados das suas pesquisas. As autoridades norte-americanas ainda mantêm bem guardado o material da Unidade 731, e utilizaram algumas das descobertas japonesas nas suas campanhas no Vietnã.

Wu Xuelong ainda sofre as conseqüências das “bombas sujas” japonesas. No seu casebre em Jinhua, na província de Zhejiang, Wu levanta as bainhas da calça e mostra as pernas. Das canelas até os pés os membros têm uma cor negra, como se estivessem carbonizados. Wu, que é agricultor, é uma das diversas vítimas em Zhejiang. A maioria morava ao longo da ferrovia quando os japoneses lançaram bombas durante os seus ataques. Assim como Wu, os outros apresentam sintomas que indicam o uso de antraz. “Os médicos queriam amputar a minha perna”, conta Wu com um sorriso amargo. “Mas eu ainda preciso delas”.

Wu não pode esperar indenização do Japão. Embora um tribunal japonês tenha reconhecido os danos causados por armas biológicas, a lei chinesa anulou a decisão: indivíduos não têm o direito de entrar com processos por indenizações relacionadas à guerra.

Assim, a controvérsia em relação ao passado foi se transformando cada vez mais em uma polêmica de ordem moral. Mas no 70° aniversário do massacre de Nanquim, é improvável que haja gestos amplos de reconciliação por parte de Tóquio - até hoje nenhum primeiro-ministro japonês visitou Nanquim.

Tradução: UOL

Der Spiegel
http://www.spiegel.de/

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Fundação Santo André demite irmão de vereador

Bruno Ribeiro
Do Diário do Grande ABC

A Fundação Santo André demitiu quinta-feira o professor Silvio Leite,
assessor da Pró-Reitoria de Administração e Planejamento e irmão do
vereador de Santo André Antônio Leite (PT). Como funcionário da Fundação,
coube a Sílvio transmitir a ordem do cancelamento do processo de bolsas de
estudo no Colégio da Fundação, em uma ação que terminou com o fechamento
de turmas da 1ª série em 2008 no colégio.

Segundo Sílvio, a demissão foi ordenada pelo reitor da Fundação, Odair
Bermelho. A notícia pegou o professor de surpresa. “Foi um presente de
Natal que eu não esperava”, resumiu. Ele diz que prefere não falar sobre
os motivos que o levaram à demissão. “Foi muito difícil de aceitá-la. É
uma situação muito constrangedora”, disse o professor.

Umas das polêmicas mais recentes da crise da Fundação envolveu Sílvio. Ele
fazia parte da Comissão de Ingresso, um órgão responsável pelo vestibular
da universidade e pelo concurso de bolsas de estudo do colégio. A polêmica
se deu porque a reitoria impediu a prova da bolsa, alegando que não havia
número mínimo de inscritos para se formar uma sala. A direção do colégio
contestou a posição da reitoria, mas teve de ceder à ordem passada por
Sílvio.

A seriedade da ação está no fato de que, ano que vem, por conta da
não-realização da prova, não haverá turmas de primeiro ano no colégio pelo
segundo ano consecutivo.

O professor preferiu não comentar a suspeita de ter sido um “bode
expiatório” para a confusão. A assessoria de imprensa da Fundação informou
que não divulgaria detalhes sobre a demissão do professor.

Conselho - No início de 2006, antes de trabalhar diretamente na Fundação,
Silvio foi indicado pela Câmara Municipal de Santo André para ser o
representante do Legislativo no Conselho Diretor da Fundação.

Em janeiro de 2007, o professor foi contratado para o cargo de confiança
que ocupava na reitoria. Até julho deste ano, ele manteve as duas funções:
funcionário da Fundação e representante do órgão público responsável por
fiscalizar a Fundação. Sílvio não vê complicações pelo acúmulo de funções
opostas. “Foi por apenas alguns meses, e eu separava as funções uma da
outra”, disse o professor.

Diário do Grande ABC
http://home.dgabc.com.br/

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“Realistas” de Washington miram Moscou

DANIEL VERNET

Os Estados Unidos estudam uma mudança em sua estratégia global, com o objetivo de resolver a crise nuclear iraniana. O chamado clã dos “realistas”, que ganhou força no Departamento de Estado, considera o Irã o problema mais importante para a diplomacia americana e acha todas as soluções propostas são más. Assim, busca uma saída da alternativa -”catastrófica”, como diz Nicolas Sarkozy- entre “bombardear o Irã ou aceitá-lo com a bomba”.
A primeira hipótese é defendida pelo vice-presidente Dick Cheney. A segunda, rejeitada pelos “realistas” -assim como a primeira- corre o risco de se confirmar se o Irã não renunciar ao programa nuclear. A busca da terceira via passa por Moscou, como nos bons velhos tempos do mundo bipolar.
Não é por acaso que os diplomatas da escola Kissinger vêm retornando ao primeiro plano, depois de marginalizados pelos neoconservadores após o 11 de Setembro. Seu raciocínio é o seguinte: após os muitos reveses sofridos no Oriente Médio, os EUA não podem se permitir um novo fracasso com Teerã.
Os russos, que não têm interesse em ter um Irã nuclearizado, deveriam mostrar-se mais cooperativos. Putin, aliás, seria mais firme com o Irã do que suas declarações levam a supor. Putin é também mais flexível com os EUA reservadamente do que em público. O discurso da tensão lhe é útil internamente; porém, os russos vêm demonstrando algum interesse pelas propostas feitas pela EUA em relação ao escudo antimísseis e ao Tratado sobre Forças Convencionais na Europa (FCE). Para assegurar-se da cooperação de Moscou sobre o dossiê iraniano, os EUA deveriam ser menos rígidos em relação a outros temas ligados ao leste da Europa. Essa é a tese dos “realistas”.
Bob Blackwill, conselheiro de Condoleezza Rice no Departamento de Estado, desenvolveu a tese numa conferência trilateral em Viena. Entre os temas que, para os americanos, podem ser secundários se comparados ao Irã, merecem ser recordados: o Kosovo e a Geórgia. Em relação ao primeiro, Washington poderia mostrar menos pressa em reconhecer a independência da Província e buscar um entendimento com a Rússia. Quanto à Geórgia, ela procura obter o chamado Plano de Ação para tornar-se membro da Otan, a aliança militar ocidental. Os EUA tinham previsto entregá-lo na cúpula da Otan de abril de 2008. Agora, Tbilisi corre o risco de ser vítima da troca de favores entre Washington e Moscou.
O sucesso dessa estratégia depende das “linhas vermelhas” fixadas pelas partes. A ampliação da Otan rumo ao leste era uma da linhas para a Rússia. Será que ela a abandonará em troca de concessões sobre outros pontos controversos, ou mesmo de uma partilha de poder com os EUA e os europeus em assuntos do velho continente? O chanceler russo, Serguei Lavrov, não economiza elogios à “troika” que negocia sobre o Kosovo, como se ela prefigurasse o diretório a três na Europa que Moscou deseja desde a queda do comunismo.
Essa abordagem reforçaria o presidente russo, consagrando sua tática de tensão controlada com o Ocidente. Para os defensores do “realismo”, esse é o preço a pagar. Mas não é certo que Bush esteja disposto.

Jornal Folha de S. Paulo
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A piada do consentimento informado

Como os Estados Unidos relaxaram, em favor da indústria de medicamentos, as normas sobre testes de novas drogas realizados no exterior

Sonia Shah

No máximo, 1% dos indianos possuem plano de saúde. Por isso, a maior parte das pessoas paga adiantado por seus tratamentos de saúde e o vínculo com o médico têm uma importância especial. A correlação de forças entre médicos e pacientes é muito diferente da que se observa nos países ocidentais.

Segundo Farhad Kapadia, médico pesquisador no Hospital Hinduja de Mumbai, só os que absolutamente não têm escolha aceitam dispensar a opinião de um médico e se submeter a experimento em que caberá ao computador determinar se receberão tratamento ou um placebo. Em outras palavras, as pessoas que participam dos testes clínicos são as mais pobres, que vivem no espaço social mais afastado de todo o universo médico.

Os responsáveis norte-americanos da agência de medicamentos e alimentação (Food and Drug Administration, FDA) mostram-se, entretanto, confiantes na capacidade de auto-proteção dessas pessoas, dando ou retirando seu consentimento. Para Robert Temple, diretor médico da FDA, questionar a capacidade dos pacientes carentes de dar seu consentimento seria uma atitude paternalista. “Não se deve tratá-los como se fossem incapazes de atingir seus próprios objetivos”, explicou. Ser analfabeto e pobre não é certamente um obstáculo intransponível: os conceitos científicos utilizados no centro de pesquisas são provavelmente desconhecidos para essas pessoas, mas não incompreensíveis.

Consentimento informado: direito e dever
Antropólogos médicos encontraram um meio de verificar se o consentimento é informado ou não. Interrogando, por meio de um questionário, 33 participantes tailandeses de um teste de vacina contra a AIDS, descobriram que 30 deles não tinham sido informados corretamente. Do mesmo modo, um estudo sobre um teste de anticoncepcional no Brasil revelou que nenhum dos participantes tinha sido satisfatoriamente informado. E num teste realizado no Haiti, sobre a transmissão do vírus HIV, 80% dos participantes ignorava as finalidades precisas do teste [1].

“O consentimento informado é uma piada”, disse um pesquisador da National Bioethics Advisory Commission. “Como uma pessoa que nunca ouviu falar de bactérias ou de vírus pode dar um consentimento informado?”, disse outro. “Essa idéia de consentimento do indivíduo… Isso não existe. As pessoas fazem o que as mandam fazer“.

Desde 2001, a FDA distancia-se da Declaração de Helsinki [2], pois considera as proteções muito restritivas. Em 2001, a FDA opôs-se à integração de novos regulamentos relativos aos testes com placebos. Em 2004, propôs que os regulamentos da Declaração de Helsinki para os testes realizados no exterior fosse abandonados e substituídos por normas técnicas elaboradas por laboratórios farmacêuticos e autoridades reguladoras norte-americanas, européias e japonesas. A tendência geral confirmou-se no verão passado, quando o Instituto de Medicina, um dos principais órgãos reguladores dos Estados Unidos na área científica, recomendou retirar as proibições que impedem a realização de testes clínicos em prisioneiros. Ao mesmo tempo, qualificou os defensores do consentimento informado, que durante décadas se opuseram aos testes clínicos com detentos, de “míopes” [3]

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traduções deste texto >> English — Neither informed nor consenting
[1] Punnee Pitisuttithum et al, “ Risk behaviors and comprehension among intravenous drug users volunteered for HIV vaccine trial ”, Journal of the Medical Association of Thailand, janeiro de 1997; Daniel W. Fitzgerald et al, “ Comprehension during informed consent in a less-developed country ”,The Lancet, 26 de outubro de 2002.

[2] A primeira Declaração de Helsinki, que regula a pesquisa médica com seres humanos, data de 1964 e já foi atualizada em 1975, 1983, 1989 e 1996. A Associação Médica Mundial estabelece o compromisso do médico com as seguintes palavras: “A Saúde do meu paciente será minha primeira consideração”. Na versão de 1996, a declaração recomenda o respeito ao bem-estar dos animais utilizados e à integridade do meio ambiente (N.T.).

[3] Lawrence O. Gustin et al, eds., Ethical considerations for research involving prisoners, National Academies Press, Washington DC e S. Sh., “ Testing new drugs on prisoners: the easy out ”, The Boston Globe, 17 de agosto de 2006

Jornal Le Monde
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As brumas de Mianmar

O olhar de um diplomata brasileiro sobre o país onde o budismo une e radicaliza a sociedade

Marcos Caramuru de Paiva

Ouvi o comentário de um guia birmanês na viagem de charrete no trajeto entre Amanpura e Ava, no centro de Mianmar: “Num monastério budista”, disse-me Win, “há sempre um monge que guarda a autoridade máxima. É ele quem decide o que será feito. Os demais podem opinar, mas não mandam. A coisa funciona mais ou menos como na vida política. Nós temos um Parlamento, mas não o usamos”. Foi exatamente essa a expressão: we do not use it.

O tema de que falávamos nada tinha a ver com política. Acabávamos de sair do monastério de Mahagandanyon, o maior do país, onde havíamos parado para assitir à procissão do meio-dia. Cerca de mil monges, descalços e com suas túnicas vermelhas, enfileiram-se nas ruas em torno da área monástica para coletar o alimento do dia. A cerimônia carrega, a um só tempo, um tom solene e simples. As famílias mais abastadas de Amanpura disputam o privilégio de ofertar a comida. Com isso, crêem acumular méritos. Os monges recebem o que lhes é dado sem qualquer reverência ou agradecimento.

Win e eu discutíamos por que admitir turistas num momento de convivência coletiva e prazer individual, quando cada um quer comer em paz. Eu achava que os ocidentais comportávamo-nos como intrusos, verdadeiros voyeurs num ambiente que não nos pertencia. Win concordava, mas não sabia bem como evitar as visitas turísticas. Em minha opinião, caberia aos guias assumir o compromisso de não mais levar visitantes a Mahagandanyon. Para ele, a decisão de barrar os intrusos era do monge superior. Em outras palavras, eu partia da visão de que só o entendimento coletivo poderia mudar uma prática equivocada. Win, como bom asiático, acreditava apenas na força da autoridade.

DILEMA DEMOCRÁTICO

No dia anterior à visita a Mahagandonyon, havíamos trocado impressões genéricas sobre a vida em Mianmar. Win havia feito um comentário que me pareceu merecer uma longa reflexão: “Num país budista nesta região do mundo”, disse ele, “é difícil fazer vigorar um regime político aberto. Os budistas rejeitam a confrontação, o desentendimento, e a democracia pressupõe o debate aberto e a disputa permanentes”.

Quem vive na Ásia dá-se conta de que os asiáticos tendem a ter baixo apetite pelo confronto direto. Mesmo assim, o comentário surpreendeu. O budismo, em essência, nada tem de conformação. Além disso, Mianmar tem uma história de conflitos que contraria o lema pacífico do budismo. Lutou três guerras contra os ingleses, antes de render-se à posição de colônia; esteve por longos períodos mergulhada em conflitos externos e em disputas entre as várias etnias que compõem sua população: os shans, os chins, os kachins, os kayahs, os kayins, os mons, os nagas, os rakhains, os was e a etnia dominante que, por muito tempo, deu o nome ao país: os bamares ou birmaneses.

Mianmar é o lugar mais intrigante do Sudeste Asiático. Desperta o prazer estético e a reflexão. O país vive ensimesmado, sem relação direta com o mundo de hoje. A era da globalização e dos mercados sem fronteiras ainda não teve vez ali. O campo guarda práticas medievais; a indústria funciona com teares e máquinas que remetem aos primeiros tempos da Revolução Industrial. Ao lado disso, as grandes cidades vivem um ambiente de desorganização com ar de anos 50. À noite as ruas são escuras. De dia, sobretudo na cidade de Rangum, vêem-se milhares de pessoas à cata de emprego ou de resolver problemas burocráticos, em prédios públicos maltratados, ainda da época da colônia, ou recorrendo a despachantes de rua, que lhes preenchem formulários com máquinas de escrever anteriores às elétricas, que há mais de três décadas estão fora de mercado.

Theravada, a corrente budista mais conservadora de Mianmar, é a grande força de coesão da sociedade e satisfação do indivíduo. Cerca de 90% da população é budista. Toda a vida se passa em torno de templos, imagens múltiplas de Lord Budha, construções em sua homenagem, algumas monumentais, como o templo principal de Rangum, Shwedagon, onde a torre central, em forma cônica com o cume arredondado, leva 60 toneladas de ouro.

A paisagem humana e arquitetônica surpreende o visitante mais cético. A vista dos mil pagodes e estupas na área arqueológica de Bagan, cobertas de cal ou tijolo, contra a vegetação desigual da planície, é estonteante. Deixa poucas dúvidas de que o visitante esteja diante de um dos grandes monumentos da humanidade. Bagan teve seu apogeu nos séculos 11 a 12, antes de ser invadida pelos mongóis. Suas construções históricas só se comparam na região, em beleza e imponência, às ruinas Khmer de Angkor, no Camboja, também dos primeiros 200 anos do segundo milênio.

O TEMPO PÁRA

O interior do país guarda práticas e costumes centenários. A vida comunitária é tudo e o compromisso religioso central. Todas as famílias mandam seus filhos para um monastério em algum momento da infância ou da adolescência. Os mais ricos celebram a ocasião patrocinando uma festa, com banda e comida gratuitas para o povoado local e os vizinhos. Nelas, os meninos se vestem de príncipes e desfilam em cavalos engalanados, antes de raspar a cabeça, vestir o pano vermelho dos monges, seguindo o exemplo do próprio Buda, que deixou um ambiente abastado, mulher e filho para procurar sua verdade com despojamento. Alguns dos noviços ficam apenas alguns dias nos mosteiros e regressam às casas paternas. Outros alongam o tempo e, em algum momento, retomam a vida secular. Outros, ainda, os que verdadeiramente orgulham os pais, passam de noviços a monges e se dedicam à compreensão dos textos budistas e à meditação. Os monastérios são escolas de aprendizado intelectual e de formação da disciplina e valores individuais.

Em todo o país a indumentária é local. Os homens vestem-se com longjis de algodão e sandálias de dedo. As mulheres também privilegiam os longjis (a diferença está na forma de amarrar o sarong), embora às vezes apresentem-se com cortes ocidentais. Estão quase sempre bastante maquiadas ou passam no rosto um creme de proteção solar e amaciamento da pele chamado tanaka, que se lhes fixa com a aparência de uma pincelada de tinta dada a esmo numa parede, apenas para testar a cor e a textura. Há mercados em toda parte, vendendo comida, roupas, escrituras antigas e só aparentemente antigas, histórias de Gautam Data com quadrinhos coloridos e texto, objetos de bronze, colares de jade, tecidos de seda e algodão, laca de poucas camadas. A boa laca tem que levar 7 a 14 camadas de tinta. É excelente em Mianmar, mas só é possível encontrá-la em locais especializados. Cartão de crédito tem quase nenhuma aceitação. Telefones celulares há tão poucos que não são visíveis no dia-a-dia. Computadores são peças raras. A internet funciona com muitas falhas e permanente controle.

Tudo isso num território do tamanho da França, com uma população de 52 milhões, o país mais rico do Sudeste Asiático até o final dos anos 40, enquanto alguns de seus vizinhos, hoje prósperos e avançados, viviam mergulhados no atraso.

DISTANTE DO TODO

O que mais faz refletir sobre Mianmar é a distância da modernidade. Em seu entorno, a China, a Índia, a Tailândia e, um pouco adiante, a Malásia e Cingapura abraçaram os rumos da mudança, crescem a taxas elevadíssimas, transformam radicalmente suas realidades internas. Há outros países no Sudeste Asiático, como o Laos e o Camboja, que estão igualmente atrás dos que avançaram, mas eles não têm a história de prosperidade de Mianmar. Não saíram da liderança em matéria de geração de riqueza e passaram para o fim da fila. É aí que o tema levantado por Win pode ter algum significado.

No Sudeste Asiático, a oferta de liberdades individuais e de democracia liberal nos moldes ocidentais é limitada. Na verdade, a própria demanda é limitada. A oferta responde, em parte, à falta de procura. O asiático do sudeste tem dificuldade em conviver em um mundo em que não há limites ao indivíduo. Em todos os países onde se registram diversas etnias, com culturas e religiões arraigadas - sejam budistas, taoístas, muçulmanos, hinduístas ou mesmo cristãos - tolerância e respeito mútuo são pontos capitais, mais importantes que a proposta de garantir ao indivíduo espaço livre para a expressão de suas idéias. Ao mesmo tempo, a diversidade torna difícil formar consensos. A expectativa é que a liderança estabelecida, no melhor espírito confucionista, tome as rédeas da vida nacional e trace o caminho a ser seguido.

AS MUITAS NAÇÕES

Entender a vida em sociedades com muitas etnias e pouca mescla não é trivial para um cidadão brasileiro. Por mais que tenhamos uma multietnicidade, e ainda que recentemente se tenha ampliado entre nós a discussão sobre a abertura de oportunidades para as etnias menos favorecidas, há uma uniformidade na nossa cultura, resultante de séculos de miscigenação. Estamos longe das realidades asiáticas, onde a diversidade é tão forte e tão presente que se tornou um valor a preservar. O próprio conceito de nacionalismo é obscurecido. E a organização política assume uma forma obviamente diferenciada da democracia liberal do Ocidente. “A democracia é quase impossível num país composto por nacionalidades distintas.” A frase é de John Stuart Mill, mas não está distante do que se vê no mundo de hoje do Sudeste Asiático.

Mianmar tornou-se independente em 1948. Quatorze anos depois, em março de 1962, o Governo democrático foi deposto por um golpe militar. Os estudantes que, naquele momento, saíram às ruas em protesto foram contidos à bala. Nunca se determinou exatamente quantos perderam a vida: se 14, a estimativa oficial, ou 100, o cálculo dos manifestantes que sobreviveram. Vinte e seis anos depois, os estudantes voltaram a protestar. Naquele momento, houve uma mudança na liderança do partido no poder, e o Partido do Programa Socialista da Birmânia (BSPP) passou a aceitar a realização de eleições. Outros 20 anos e, em 2007, os monges ocuparam a rua para pedir mudanças. Na essência da discussão política em e sobre Mianmar está o fato de que os militares perderam as eleições de 1990 e se mantiveram no poder, sem ceder o comando da nação, reprimindo duramente a crítica e levando à prisão a líder vencedora, Aung San Suu Kyi. Ao lado disso, coloca-se a questão da ética no Estado, ou seja, avaliar o grau de compromisso dos governantes com o bem-estar dos cidadãos. Este é um tema universal, mas, em Mianmar, ganha dimensão própria, dado o baixo grau de desenvolvimento e seu distanciamento do resto do mundo.

O TETO, O CHÃO

Dentro de Mianmar, o debate sobre essas matérias tem complexidade. Sua base está nos ensinamentos budistas. É inconcebível reduzi-lo à perspectiva puramente secular que domina o debate fora das fronteiras. Isso, por si só, torna difícil compatibilizar as visões interna e externa sobre o país, já que muitos dos que, no Ocidente, abraçam a causa da liberdade em Mianmar desconhecem os fundamentos budistas. Protestam em solidariedade, tomando como referência valores ocidentais de proteção do indivíduo e direito à manifestação.

Shway Yoe, pseudônimo de J.G. Scott, britânico que residiu no país no final do século 19 e se tornou o mais importante comentarista da vida e dos costumes locais, disse uma vez que o maior presente que um birmanês podia dar a um inglês era desejar-lhe que, em recompensa por suas boas ações, ele renascesse budista e, de preferência, na Birmânia. No cidadão de Mianmar há um espírito de orgulho por sua terra e sua cultura que impressiona e usualmente se sobrepõe às dificuldades do dia-a-dia.

Vivendo num país que enfrenta anualmente o período de monções, o birmanês, contrariando o senso comum, costuma dizer que é no teto, e não na base, que está o risco da casa. Quando chove muito, o teto vaza e põe a construção em perigo. Em outras palavras, é no topo que as reformas têm que ser empreendidas. Os que não estão no comando podem motivá-las, mas elas têm que vir sempre dos que detêm a autoridade. Isso explica talvez o protesto silencioso de San S Kyi, à espera de mudanças, confessadamente dedicada à meditação, dentro da visão budista de que se os líderes aprimorarem o espírito, exercerão melhor seu papel. Isso esclarece também tudo que o meu guia birmanês quis me transmitir e, no melhor padrão ocidental, eu contestei, sem entender o verdadeiro sentido da mensagem.

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

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