Memórias dos filhos do clarão
2 de agosto de 1995
Um flash de luz, um monumental flash de luz, e depois um estrondo, eis, em resumo, o que é a explosão de uma bomba atômica.
Roberto Pompeu de Toledo, do Japão
O prédio mais famoso de Hiroshima é inútil como um guarda-chuva sem o pano que o recobre. Pelo teto a chuva e o sol têm livre acesso. As janelas são como olhos furados. As paredes protegem o Nada contra o Coisa Alguma. O prédio mais famoso de Hiroshima, cidade japonesa conhecida internacionalmente por abrigar a fábrica de carros Mazda e, nacionalmente, pelo time Carpas de beisebol, é absurdo como uma casa feita para não morar, um casaco para não agasalhar, uma comida para não comer.
Hiroshima, como se sabe, é conhecida por uma terceira circunstância, além dos Mazda e do Carpas: foi a primeira cidade do mundo, e ainda é uma das duas únicas, a sofrer um ataque atômico. A bomba que então ninguém sabia do que era, e que os jornais japoneses nos dias seguintes chamariam de “bomba especial”, explodiu sobre Hiroshima no dia 6 de agosto de 1945, às 8h15 da manhã. Está fazendo cinqüenta anos. Três dias depois, outra cidade japonesa, Nagasaki, teve a mesma sorte. As cifras não são nem poderiam ser precisas, mas aceita-se em geral a soma de 140.000 mortos em Hiroshima e 70.000 em Nagasaki.
Um flash de luz, um monumental flash de luz, e depois um estrondo, eis, em resumo, o que é a explosão de uma bomba atômica. O jovem policial militar Takashi Morita descera havia cinco minutos de um bonde, em Hiroshima, e caminhava pela rua, naquela manhã, quando sentiu um calor nas costas. Foi jogado longe, acredita que uns 10 metros, e perdeu o quepe. Que será que acontecera? O Exército mantinha ali perto uma fábrica de pólvora, e ele pensou: “A fábrica deve ter explodido”. O menino Noboru Shigemichi, de 10 anos, estava na escola. O prédio desabou. Ele ficou soterrado entre os escombros, e achou que ia morrer. Pensou: “Como é que um homem morre? Em que ordem acontecem as coisas?”
A senhora Fumiko Furuya, de 23 anos, estava sozinha em casa, deitada na cama, e de repente notou - coisa extraordinária - que o “shoji” de seu quarto, a divisória de papel que os japoneses usam para separar ambientes internos, estava pegando fogo. Pensou: “Preciso apagar esse fogo”, e foi à cozinha apanhar um balde com água. Os cinqüenta anos de Hiroshima marcam também os cinqüenta anos da era atômica no mundo. Esta nasce no momento mesmo em que explode sobre a cidade aquela bomba de formato cilíndrico, medindo 3 metros de comprimento por 70 centímetros de diâmetro, pesando 4 toneladas e apelidada de “Little Boy”. Então temos que, na casa da senhora Fumiko, no momento zero da era atômica, uma pessoa tenta contornar o novo problema tendo como arma um balde d’água. Foi inútil. Quando ela voltou ao quarto, o shoji tinha virado cinza.
A senhora Fumiko Furuya é hoje uma viúva sem filhos, vivendo sozinha numa casa modesta em Hiroshima. Noboru Shigemichi, que estava na escola e se pôs a cogitar como é que um homem morre, também vive ainda em Hiroshima, onde é um comerciante de bairro. Takashi Morita, o policial militar que achou que o depósito de pólvora tinha explodido, mora em São Paulo desde a década de 50. Possui um armazém, o Sukiyaki, na Avenida Jabaquara, vizinho à estação Saúde do metrô, e ali passa os dias no caixa. Vai-se voltar a falar deles, nas páginas seguintes. Esta reportagem será entremeada dos testemunhos prestados ao enviado de VEJA pelos sobreviventes da bomba atômica, os chamados “hibakushas”. Neles, eles reconstituem como viveram aquele dia em que, como escreveu um pacifista americano, o pastor George Marshall, voltou-se às “terríveis condições primitivas do obscuro passado em que a humanidade ainda lutava para erguer-se da brutalidade de suas origens”.
Os hibakushas, palavra japonesa que significa “expostos à bomba”, conheceram o famoso e inútil prédio de Hiroshima quando o teto e as paredes protegiam contra o sol e a chuva e as portas e janelas abriam e fechavam. Ou seja, quando era útil. Tratava-se de um edifício da prefeitura, destinado a exposições comerciais. Projetado pelo arquiteto checo Jan Letzel e inaugurado em 1915, o edifício de três andares tinha como traço mais característico a cúpula arredondada, ou domo. Na verdade, ainda tem. Pois o prédio bem ou mal continua de pé, e continua encimado por seu domo, ainda que estropiado como um guarda-chuva do qual só sobrassem as varetas.
O antigo palácio das exposições foi um dos cinco ou seis prédios que, por terem estruturas mais sólidas, de alguma forma sobraram, na região central de Hiroshima. Todas as pessoas que estavam dentro morreram, mas o esqueleto do prédio se manteve, e resolveu-se preservá-lo tal qual ficou. Hoje é conhecido como o Domo de Hiroshima, ou o Domo da Bomba Atômica, e é o símbolo maior da cidade.
Desde o início da II Guerra desenvolviam-se, nos Estados Unidos e na Europa, pesquisas destinadas a desenvolver a fabulosa bomba que se poderia obter a partir da fissão do átomo. No caso dos Estados Unidos, considera-se que foi decisiva, para a implementação de um projeto oficial, uma carta do físico Albert Einstein ao presidente Franklin Roosevelt alertando que, se os EUA não corressem, os alemães desenvolveriam antes a nova arma. Em 1942 foi implantado o Projeto Manhattan, no qual, cercada de sigilo, trabalhou a fina flor dos físicos domiciliados nos Estados Unidos. Três anos mais tarde, no dia 16 de julho de 1945, foi realizado com sucesso, no Deserto de Alamogordo, Estado do Novo México, o primeiro teste nuclear do mundo.
Menos de um mês depois, o agora presidente Harry Truman deu o sinal verde para que a nova bomba fosse jogada de verdade. O alvo eram os japoneses, que, três meses depois da rendição alemã, continuavam a resistir no Pacífico. O mundo ficou assustado e perplexo com a novidade. A manchete do jornal Asahi Shimbun, no dia 8, foi: “Hiroshima atingida por um novo tipo de bomba”. O desconcerto do Japão oficial e informado não era menor do que o de Fumiko, com o balde na mão.
Hiroshima é um curioso caso de cidade. Ônibus repletos de turistas não param de chegar. Sucedem-se os grupos que, em marcha batida, seguem os guias de bandeirinha na mão. Os escolares comparecem às centenas. É uma cidade de intensa peregrinação turística, em resumo, mas um tipo diferente de turismo, em que o que se reverencia não é a arte, como em Veneza ou Florença, nem uma metrópole audaz, como em Nova York, nem a História, nem o berço de uma religião ou uma antiga civilização. O que se reverencia é um ataque aéreo de tipo especial e um morticínio.
Ou melhor: o que se reverencia é a paz. É com esse argumento que a prefeitura da cidade e o governo japonês fazem a promoção de Hiroshima. Tudo é “da paz”, na cidade - Parque da Paz, Museu da Paz, Avenida da Paz. O Parque da Paz ocupa bem o centro da cidade, e dentro dele está o Museu da Paz, ambos obras de Kenzo Tange, um Oscar Niemeyer japonês - o arquiteto que assina os projetos mais marcantes do Japão contemporâneo. Entre as alamedas e árvores do parque sucedem-se os monumentos menores. Há uma Pira da Paz, que só será apagada quando as armas nucleares forem extintas no mundo. Há também uma homenagem à menina Sadako Sasaki, que morreu em 1955 de leucemia, conseqüência da radiação atômica.
Há no Japão a crença de que o grou, a ave pernalta parente das garças, vive 1 000 anos, e que a pessoa que conseguir fazer 1 000 grous de papel garantirá a longevidade. A menina que morreu de leucemia só teria chegado aos 900. De todo o Japão, as escolas mandam a Hiroshima, para suprir o trabalho que a menina deixou incompleto, grouzinhos em origami - a arte japonesa de moldar o papel. No centro do parque fica o cenotáfio, o túmulo vazio que simboliza a sepultura de todas as vítimas. Sobre ele, uma inscrição afirma: “Que todas as almas aqui descansem em paz, pois nós não repetiremos o mal”.
O Museu da Paz tem mantido uma média de 1,4 ou 1,5 milhão de visitantes por ano. Ele é tão importante para Hiroshima quanto o Louvre para Paris ou o Prado para Madri mas, ao contrário destes, não tem belezas, só horrores. São fotos de vítimas e de destroços, objetos calcinados, a maquete da cidade como era e como ficou. O conjunto todo, parque e museu da paz, foi feito para comover. Comove? Sim, mas ao mesmo tempo algo incomoda. E não é o permanente clima de quermesse, de grupos de turistas que podem ser tão festivos quanto num balneário no Mediterrâneo. Afinal, é da natureza humana rir e fazer barulho em velório.
Incomoda que a celebração armada em Hiroshima tenha transformado o lançamento da bomba quase num acidente natural. Há poucas referências a quem jogou a bomba. Alguém mais distraído pode até sair com a impressão de que ela caiu sozinha. Leia-se de novo a inscrição no cenotáfio: “Que todas as almas aqui descansem em paz, pois nós não repetiremos o mal”. Nós? Nós quem? E mal? Não é crime, ato tresloucado - é “mal”, um conceito teológico, tal se o castigo tivesse vindo de Jeová, como no caso de Sodoma e Gomorra.
Numa manhã de maio, um dos origamis no monumento à menina que morreu de leucemia vinha de uma escola de Kobe, e era acompanhado de uma mensagem dizendo que, se Kobe sofreu muito com o terremoto que a devastou no início do ano, pelo menos tratou-se de um desastre natural, enquanto Hiroshima foi vítima de falha humana. O máximo a que se chega é isso: falha humana, produto das “paixões humanas”, das “imperfeições humanas”. Todos viram culpados, todos nós, a “humanidade”. Não se politiza a questão. O que equivale a dizer que fica faltando algo para colocá-la devidamente na História. Por quê?
Responde Shunichi Matsubayashi, um dos diretores dos Arquivos Municipais de Hiroshima, entidade que entre outras atribuições supervisiona o museu: “Inculpar alguém pelo que aconteceu nunca foi a intenção dos expositores, e creio que isso corresponda à propensão do povo, que é muito budista e, como tal, em vez da ira, prefere uma posição mais construtiva”. Há outras explicações. Uma é a amizade que, no pós-guerra, uniu os Estados Unidos e o Japão. Outra são os cadáveres que o Japão tem escondidos no armário - os atos de agressão e crueldade que cometeu durante a guerra, e que poderiam vir à tona no contrafluxo de uma atitude mais assertiva com relação à bomba atômica. Fica-se na conversa de “falha humana” e de promoção da “paz”, como se a paz fosse um valor abstrato, apolítico, independente do projeto das nações e do desejo de suas lideranças. Tudo somado, sente-se algo de mal resolvido, nos ares de Hiroshima.
Muito longe de vilões, os americanos são modelos para os japoneses, inclusive os das novíssimas gerações. Numa manhã de maio um grupo de escolares de Kochi, cidade situada em Shikoku, uma das quatro ilhas principais que constituem o Japão, tirava fotografia em frente do cenotáfio. Lia-se nos blusões dos meninos: “Georgetown University”, “Dunlop Racing Sport”, “Duke University”, “Mickey Mouse”. Os adolescentes japoneses são tão adoradores dos signos americanos quanto os brasileiros, ou mais.
A operação destinada a arrasar a cidade teve início à zero hora do dia 6 de agosto de 1945, quando um pequeno grupo de militares americanos, entre os quais o coronel-aviador Paul Tibbetts, se reuniu na base onde serviam, em Tiniam, nas Ilhas Marianas, Pacífico Sul. Os militares receberam um briefing sobre a missão de que estavam incumbidos. Seguiu-se um ofício religioso, comum antes das missões difíceis, em que o capelão militar William Downey pediu: “Que os homens que voam esta noite estejam sob a Tua proteção, e que retornem sãos e salvos”. às 2h45, o coronel Tibbetts decolou a bordo de um bombardeiro B-29, por ele batizado com o nome de sua mãe, Enola Gay. Junto decolaram dois aviões de observação. O Enola Gay levava “Little Boy”.
Tudo se passou da melhor forma possível, ao amanhecer daquele dia. Fazia um belo dia de verão, em Hiroshima. Céu de brigadeiro. Os americanos queriam ter certeza de que a bomba atingiria o alvo e surtiria os efeitos desejados, por isso dependiam crucialmente do bom tempo. Ao liberar sua carga, a partir de uma altitude de 9 000 metros, às 8h15, a tripulação de quatro homens que viajava no Enola Gay podia ter certeza de que a missão fora bem cumprida.
Hiroshima é uma cidade cheia de rios e de pontes. Bem no centro, numa das extremidades de onde hoje se encontra o Parque da Paz, fica uma ponte em forma de “T” , a Ponte Aioi. Afirma-se que o “T”, muito marcante visto de cima, serviu de alvo para o Enola Gay. A bomba explodiu no ar, a 580 metros de altitude. O ponto que fica bem abaixo, em terra, é chamado de hipocentro, e essa noção é fundamental em tudo o que se refere a Hiroshima: calcula-se se uma pessoa morreu ou não, que tipo de morte, se tal construção foi destruída total ou parcialmente, com base na distância respectiva do hipocentro.
A Ponte Aioi fica a dois quarteirões do hipocentro. O Domo fica a 160 metros. Já o hipocentro fica num lugar mais prosaico, onde é hoje um hospital, numa rua estreita. Nas vizinhanças há três estacionamentos verticais. Em frente do hospital, há uma barraca que vende “bento” - a refeição rápida dos japoneses, acondicionada numa bandeja de papelão. Ao lado da barraca há uma máquina de vender refrigerantes. Está escrito nela: “Enjoy Coca Cola”.
Revista Veja
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