Arquivo de 21 de Dezembro de 2007

Governo optou pelo agronegócio

Um dos participantes das marchas do MST no Rio Grande do Sul, Frei Vilson Zanatta, avalia esta última marcha do MST, fala do debate feito com os moradores das cidades por onde caminharam, além de contar como entrou para a luta daqueles que não têm terra para viver e plantar, da relação do movimento com os ruralistas e do governo Lula e sua política de Reforma Agrária. “Sabemos que o governo está com uma dívida muito grande com a sociedade porque fez uma opção, a opção pelo agronegócio”, afirma.

Frei Zanatta é formado em filosofia e teologia pela Universidade Federal de Santa Maria e pela Pontifícia Universidade Católica de Porto Alegre, respectivamente. Ele acompanha a caminhada do MST desde 1995 e reside no assentamento de Hulha Negra, RS, desde 2002.

Qual é a avaliação que o senhor faz dessa última marcha do MST no RS?

Frei Zanatta – Eu participei da marcha que saiu de Bagé, passou por Pelotas, Santa Maria. Eu acho que o melhor que tiramos dessa ação é o apoio que recebemos da sociedade. O pessoal começou a apoiar porque entendeu que a Reforma Agrária não estava acontecendo. Então recebemos esse grande apoio da sociedade que nos motivou a continuar. Eu acho que esse foi um ponto positivo. Outro ponto positivo que eu vejo é o debate em relação à Reforma Agrária, porque nos últimos cinco anos poucas famílias foram assentadas, e agora veremos assentadas 1200 pessoas em um ano. Esse foi um ponto muito interessante para o Movimento dos Sem Terra (MST). Outro ponto positivo é a questão da própria marcha, pois mostrou o nível de consciência do nosso povo. Além disso, a marcha ajudou a mexer com a nossa base.

Como funciona esse debate que os sem-terra têm feito nas paróquias, escolas e associações municipais?

Frei Zanatta – Durante a marcha, nós passamos por bairros escolas e igrejas, e fomos muito felizes, pois todos nos receberam muito bem. Então, nós chamamos a atenção para o fato de que a Reforma Agrária não está sendo feita. Nas escolas, nós fomos muito bem recebidos por termos colocado essa situação. A gurizada entendeu a situação e compreendeu a intenção da nossa marcha. Entendeu que o governo deve fazer alguma coisa para melhorar o panorama. A recepção foi muito boa, e não temos do que nos queixar, no geral. É claro que existem certos casos que foram muito ruins. Alguns latifundiários, por exemplo, nos receberam muito mal, principalmente em Bagé. De modo geral, no entanto, o debate foi muito bom, e as pessoas pediram esclarecimentos em relação à marcha, aos sem-terra e à Reforma Agrária.

Como o senhor entrou para essa luta?

Frei Zanatta – Eu entrei no MST em 1995, porque a Igreja precisava fazer alguma coisa, marcar uma presença muito mais ativa junto aos sem-terra. Nesse ano, eu fui morar no assentamento de Encruzilhada do Sul. Fomos eu, o Frei Sergio Göergen (1), o Frei Flavio Vivian (2) e o Frei Laudino Bertoldo (3). Os dois primeiros são franciscanos, e eu e o Frei Laudino somos capuchinhos. O mais interessante disso é que fizemos parte da única experiência no Brasil de unir essas duas congregações para trabalhar com o Movimento dos Sem Terra. Mas por que eu entrei? Justamente pela questão da fé, da nossa fé em Jesus Cristo, porque nós falamos aquilo que pregamos. A fé nos leva à luta dos movimentos sociais e a ir em busca daquilo que acreditamos nos deixa mais felizes.

Como o senhor chegou ao assentamento de Hulha Negra?

Frei Zanatta – Esse município fica na região de Bagé. Eu cheguei aqui em 2002. Agora, nós estamos morando numa região onde existem 54 assentamentos com aproximadamente duas mil famílias numa área de 47 mil hectares de terra. É uma região onde é clara a necessidade da nossa presença, da presença da Igreja, uma presença mais ativa para que pudéssemos organizar algumas coisas dentro do movimento.

Como é que o senhor avalia a relação do MST e da Igreja aqui no Estado?

Frei Zanatta – A Igreja sempre teve uma posição a favor da Reforma Agrária. Os documentos da Igreja sempre dizem que a Reforma Agrária deve acontecer.

Durante a marcha, os ruralistas de Bagé atacaram os sem-terra acampados no ginásio municipal. Ao explicar a situação, a Farsul disse que as agressões partiram da população local. Como é que está a situação com os ruralistas, com a sociedade?

Frei Zanatta – A relação que temos é com a sociedade. Nós somos a favor da Reforma Agrária. Por isso, a posição dos ruralistas é antipática, ou seja, é uma relação de luta. Hoje, essa luta é muito maior, pois não é só com os fazendeiros, mas também com as grandes empresas que estão comprando terras dos grandes fazendeiros para plantar eucaliptos no Rio Grande do Sul. Nós sabemos que existem fazendeiros que não concordam com isso. Com eles, nos entendemos muito bem. No entanto, o nosso interesse é fazer a Reforma Agrária, e o deles é manter a terra da família. Aquilo que fizeram em Bagé, em Caçapava do Sul, e São Sepé foi próprio de uma posição muito truculenta contra o MST e não tem como aceitarmos essa posição.

O que o MST pretende fazer no próximo ano para que as negociações em relação à Reforma Agrária avancem?

Frei Zanatta – Nós sabíamos, antes da governadora Yeda se eleger, que sua posição era de direita. Então, no momento, ainda não esperamos muita coisa. Sabemos que nossas decisões vão depender da conjuntura do início de 2008. O movimento não tem ainda nada previsto do que vai fazer. O movimento tem claro que nossa luta vai continuar independente do governo que estiver à frente do Estado ou da Federação. Nós vamos sempre lutar para que a Reforma Agrária aconteça. Agora, nós sabemos que o Governo do Estado não está fazendo absolutamente nada pela Reforma Agrária. Ele defende a posição da direita, prejudicando questões como a educação, saúde e outros. Nós pretendemos formar novos acampamentos para pressionar a realização da Reforma Agrária em todo o Brasil. A posição da governadora é totalmente contra o MST. Então, ainda não sabemos o que nós vamos fazer em relação a isso. Nós queremos a Reforma Agrária. Qual é o jeito? Nós vamos sentar e discutir e vamos achar um jeito para que essa questão avance.

Com Lula na presidência, como é que o senhor avalia a luta do MST?

Frei Zanatta – Em relação à Reforma Agrária, o Lula não está fazendo quase nada, ou seja, no Rio Grande do Sul foram assentadas 700 famílias e no Brasil, 30 mil famílias apenas. O governo Lula fez menos que o FHC. Ele está com uma dívida muito grande com o MST e os movimentos sociais exatamente porque se elegeu dizendo que iria fazer a Reforma Agrária de qualquer forma. Por outro lado, sabíamos que não era bem assim, pois temos a consciência de que o governo está com uma dívida muito grande com a sociedade porque fez uma opção, a opção pelo agronegócio.

Notas:

(1) Frei Sergio Göergen foi deputado estadual de 2002 a 2006. É, atualmente, coordenador nacional do Movimento dos Pequenos Agricultores - MPA.

(2) Frei Flavio Vivian faz parte da coordenação do Movimento dos Pequenos Agricultores - MPA - no Rio Grande do Sul.

(3) Laudino Bertoldo é, atualmente, coordenador do programa Infância e Adolescência Missionário da Diocese de Santa Maria.

MST
http://www.mst.org.br/mst/index.html

Comentários

Os árabes na “democracia racial” brasileira

John Tofik Karam

John Tofik Karam, nascido no interior do Estado de Nova York, é professor-assistente da Universidade DePaul, de Chicago. Ele faz parte do Programa de Estudos Latino-americanos. E dá graças a Deus. “Os estudos árabes são muito conservadores nos Estados Unidos. Já nos estudos latino-americanos você encontra pessoas anti-imperialistas. Nos estudos árabes ainda há conservadorismo. O Said ainda é muito mal-visto por lá”. Leia a entrevista com o acadêmico, na qual foram abordados assuntos como o conceito de identidades frente ao neoliberalismo e o fato de sírio-libaneses no Brasil aceitarem a ideologia da democracia racial. Ele também revelou o caminho da foto de um libanês que está em um fundo de armário nos Estados Unidos e na lápide de um túmulo em Belém do Pará.
a Arturo Hartmann

Icarabe: Como exatamente se transforma a identidade dessas pessoas dentro dessa era neoliberal? Uma coisa que se escuta é que quando os imigrantes chegam, na leva que vem na primeira metade do século XX, eles procuram ‘abrasileirar’ seus filhos. Já a terceira geração, de alguma forma, tenta recuperar essa identidade. Isso faria parte desse contexto que você desenha?
Tofik: É uma questão de conjuntura histórica. Não é apenas uma questão da terceira geração, mas que acontece no final do século XX e começo do XXI. Você começa a ver o ressurgimento e a maior visibilidade de identidades étnicas dentro de uma nação. Isso no mundo inteiro. Mas no caso da comunidade árabe no Brasil, a identidade árabe que ganhou mais visibilidade é aquela que tem a ver com a esfera publica. Pode até ocorrer de as pessoas cultivarem essa cultura na esfera privada, da família. Mas, por exemplo, o caso da novela “O Clone” (de 2001). Havia muitos cristãos que não conheciam muçulmanos, mas com essas imagens se gabavam da dança do ventre como um alicerce da cultura árabe, o que sempre foi motivo de risada. O cristão árabe critica o muçulmano dizendo que ele se isola. Outro exemplo acontece com a comida árabe. No meu livro, eu falo um pouco da cadeia de fast-food Habib’s. Isso é único no mundo. A maior rede de fast-food árabe do mundo está no Brasil. E é de um português. Agora, o próprio descendente se orgulha, com toda razão, da culinária árabe. Mas isso tem a ver com contexto. O próprio brasileiro hoje não estranha quando vê comida árabe na rua. Os clubes, como o Homs, o Monte Líbano, o Esporte Clube Sírio, ganharam mais destaque como lugares onde há a comida autêntica árabe. Mas a força de trabalho que estão nesses clubes é a mesma que se vê em outros restaurantes árabes. Então, devido a esse maior reconhecimento, o próprio sócio chama um brasileiro não-árabe e fecham negócio ali mesmo no clube. O brasileiro sente aquela atração de ir para o Monte Líbano porque tem aquele jantar árabe que parece mais autêntico. Para mim não tem esse negócio de autenticidade. É um jogo político. Bom, mas ele vai lá, e enquanto estão jantando, vão fechando negócios. Nesse contexto do mercado, enfatizo essa questão de como a identidade árabe reflete mudanças nacionais. Para mim, o neoliberalismo não é apenas a abertura de mercado, mas a diversificação do mercado. Tentei ver quantos restaurantes tinham na cidade de São Paulo, fora as esfiharias. Hoje em dia, pelo menos na época em que fiz a pesquisa, existem mais de 60 hoje em dia, mas só uns quatro ou cinco que foram fundados nos anos 70. O resto foi fundado dos anos 80 para cá, o que reflete essa novidade. Sempre houve comida árabe. Você ia na 25 de março ou no Monte Líbano Bar e podia saborear a comida árabe. Mas não tinha tanta diversidade, mas digo diversidade entre aspas.

Icarabe: Mas então essa intensificação tem, por um lado, um aspecto negativo, pois dentro dessa nova ordem mundial a identidade árabe seria embrulhada e vendida como um produto?
Tofik: Sim, é algo embrulhado como um produto. Alguma coisa que se consome no Habib´s ou em um clube árabe.

Icarabe: Também se consome o ambiente árabe …
Tofik: Sim. Na verdade, faço um grande elogio à comunidade árabe, pois na verdade o que faço é usar a comunidade árabe aqui no Brasil para fazer uma crítica não tão velada ao tratamento que o árabe recebe nos Estados Unidos. A diferença é marcante. Na verdade, falo que a identidade se identifica no dia-a-dia, pelo menos na esfera pública, onde se vê símbolos e sinais de coisas árabes. Se consome, produz, e se afirma.

Icarabe: Que tipo de crítica você faz ao tratamento que árabes e descendentes recebem lá?
Tofik: Como exemplo, comparando a Câmara de Comércio daqui com a de lá, pois existe uma por lá, mais nova, do final dos anos 90. A Câmara tentou montar uma relação entre os empresariados árabe e norte-americano, mas os militantes da comunidade árabe criticavam e a imprensa também. Além disso, Colin Powell, na época o secretário de Estado, mencionou a possibilidade de usar o mercado livre como forma de levar a democracia para o mundo árabe. O militante árabe criticava muito essa postura, falava da confluência da Câmara com o projeto do imperialismo norte-americano. A identidade árabe nos Estados Unidos é muito problemática, até para a própria comunidade se afirmar. Quando você mora dentro do Império e tentar afirmar a sua identidade híbrida, você acaba afirmando sua identidade norte-americana, que é o centro da economia mundial, do Império. Uma brincadeira que se faz muito aqui é que o árabe sempre tira o máximo que pode com relação ao dinheiro. Essa brincadeira não faz o menor sentido nos Estados Unidos, se você brincar assim, o pessoal não vai entender. O Riad Younis, médico, foi entrevistado no programa do Jô e explicava como era o tratamento de câncer no pulmão. A ortodoxia médica diz que tem que se deixar vazar do pulmão um liquido por xis dias. Ele descobriu que por ipslon dias era melhor. Aí, o Jô, brincando, perguntou: “Ah, você é descendente de árabe, não?”. “Sim, sou”, respondeu. “Será que é por isso que você quer tirar menos do pulmão?”. O Riad respondeu “não, devido à origem eu deveria tirar mais”. Todo mundo aplaudiu, deu risada, pois não é uma coisa que chama muito a atenção. Jamais aconteceria nos Estados Unidos. Quando entrevistei o Riad, fiz questão de perguntar para ele o que ele achou da brincadeira. Um ativista da comunidade nos Estados Unidos sairia denunciando essa atitude como racismo, mas o Riad respondeu que não, é uma forma de brincar. O que eu descobri na minha pesquisa é que muitos descendentes aceitam, até um certo ponto, a questão da democracia racial, pelo menos refletem a ideologia da democracia racial.

Icarabe: Que não haveria preconceito racial no Brasil …
Tofik: O racismo existe, e essa ideologia é mito. O racismo existe, mas o árabe pratica esse discurso.

Icarabe: Como você relaciona a ideologia da democracia racial com o neoliberalismo?
Tofik: Hoje em dia, a ideologia da democracia racial segue um modelo econômico. O árabe fala que nunca sofreu racismo, e que lá atrás ele não tinha dinheiro, e que o pai ou avô dele era mascate, e que os primeiros que chegaram sofreram, mas aí depois subiram na vida, e que quando o descendente vira doutor, médico, advogado, não sofrem mais. O que eu faço é dizer que para o árabe a ideologia da democracia racial se encaixa nesse modelo neoliberal, pois ele fala do processo do mascate que subiu na vida, sem preconceitos. Os primeiros sofreram, a segunda e a terceira gerações viraram doutor. Isso surge a partir dos anos 90. Já existia o profissional liberal descendente de árabe desde os anos 40, mas o discurso não existia, não se comemorava dessa maneira como se faz hoje em dia. Para provar que não há racismo, eles enfatizam a questão econômica, o que não deixa de ser um fato, mas se torna referência para a história desses árabes. No último capítulo do livro, falo das viagens que o descendente faz para o Líbano e para a Síria. Durante essas viagens, existe o turismo político, um passeio que levava você pelo sul liberado de 2001, em pontos bombardeados por Israel. Esses pontos turísticos queriam justamente deixar um sentimento anti-sionista, levantar essa bandeira. Fiz parte de um passeio turístico desse em 2001, patrocinado pelo governo libanês. Fomos em cerca de 100 pessoas do Brasil. O árabe-brasileiro que vai para lá, e o que me chamou a atenção, é que o jovem entre 16 e 22 anos, em um passeio desse, não engolia essa intenção do governo libanês. Dizia que era uma lavagem cerebral, “a gente que nasceu o Brasil não tem esse costume, esse preconceito com Israel”.

Icarabe: Mas esses árabe-brasileiros olhavam para uma outra sociedade, com divisões em outro estágio de intensidade…
Tofik: Como em qualquer ponto turístico, tinha uma mesinha onde se vendiam lembrancinhas. Mesmo na prisão que foi usada para torturar os membros da resistência, eram vendidos chaveiros de Hassan Nasrallah, cartões-postais, bonés do Hizbollah. Quando a gente voltou para o ônibus, o guia pediu para que escondêssemos as coisas, pois o ministério da Integração, que hoje pertence ao ministério de Relações Exteriores, promotor do evento, e que era do Amal, podia não gostar. A gente ia encontrar com o presidente Lahoud, que se dava até certo ponto com o Hizbollah, mas eles não queriam criar um ambiente constrangedor. A gente escondeu. Mas esses árabes que foram para lá criticavam esse tipo de passeio dizendo que a gente que nasce no Brasil não tem esse tipo de preconceito entre árabes e judeus. Aqui seria um país de tolerância. Mas nós temos nossa própria lógica de exclusão, do negro, do índio.

Icarabe: Você nasceu nos Estados Unidos …
Tofik:Nasci lá, infelizmente (risos).

Icarabe: Como é o preconceito?
Tofik:É, hoje em dia é impressionante. Nos aeroportos de cidades grandes, todo mundo passa, não há muitos problemas. Seja árabe, paquistanês ou com cara de muçulmano, ninguém liga. Agora, em um aeroporto de cidade interiorana é complicado, te mandam parar. A paranóia do interior é muito maior do que a de cidade grande. Meus pais continuam morando no interior de Nova York. Às vezes, fica caro viajar de avião, então vou de trem. O trem lá é bom e barato. Toda santa vez que se passa perto da fronteira com o Canadá, numa cidade interiorana do estado de Nova York chamada Rochester, tem uma parada em que entram agentes da imigração da fronteira e pedem documentos. De uns dois anos para cá. Inicialmente, o cara entrava no vagão, simplesmente olhava e parava na frente do meu assento. E começava assim: ‘posso te fazer uma pergunta?’. Inicialmente respondia que sim. Ele perguntava se eu era americano, seu eu tinha nascido ali. Eu respondia a mesma coisa sempre, que sim, “nasci aqui, eu sou daqui”. Mas ficava puto da vida porque ele sempre procurava pessoas que não tivessem cara de americano. Aí ele acabava sempre pegando um outro branquelo e fazia a mesma pergunta só para disfarçar que ele não estava sendo preconceituoso. Uma vez dei uma bronca em um agente. Falei “olha, eu não vou responder a nenhuma pergunta que você fizer. Isso é ilegal. Você não pode parar a pessoa porque ela parece árabe”. Pelo menos antes do dia 11 de setembro era ilegal, não se podia parar fulano na rua para pedir identidade. Isso é coisa de regime militar. Falei isso para o cara. Esculhambei o guarda da fronteira no vagão, gritando, no meio de madrugada. Ele gritou alguma coisa de volta e saiu. Isso me mostrou que o cara não tem direito de fato de te parar. Agora, a parte mais assustadora da história é o que a minha irmã fala, que a gente nem sabe se é contra a lei ou não o fato de ele poder fazer isso, te parar numa parada de trem. A gente não sabe hoje em dia quais são os nossos direitos, essa é a parte mais assustadora da história hoje em dia. Antigamente eu achava que eles faziam isso para pegar mais paquistaneses e árabes, mas eles estão fazendo isso para pegar mais latinos. É contra os mexicanos.

Icarabe: Tem o problema do muro que eles querem construir na fronteira com o México …
Tofik: Sim, tem o muro. A xenofobia voltou com força.

Icarabe: Quem sofre mais?
Tofik: Acho que quem sofre mais é mesmo o negro. Mesmo com todo o preconceito depois do 11 de setembro em relação ao árabe e muçulmanos. O racismo contra o negro é o mais ferrenho que existe dentro dos Estados Unidos. Eu moro em Chicago. A cidade com maior segregação dos Estados Unidos é Los Angeles, mas a maior é Chicago. Se você andar de metrô e pegar uma linha para a zona sul, só verá negros no metrô. Em outra direção, para a zona norte, só há brancos. É impressionante a segregação. Tem muita gente que nasce num bairro e nunca vai para zona sul.

Icarabe: Isso acontece de certa forma em São Paulo…
Tofik: Sim, mas se faz de uma outra forma. Aqui, as pessoas tentam disfarçar.

Instituto da Cultura Árabe
http://icarabe.org/

Comentários (4)

Este nosso cérebro otimista

Roberto Lent

Pesquisa ajuda a entender a misteriosa tendência que temos a criar imagens positivas do futuro

As pessoas costumam ser otimistas consigo próprias, já reparou? Geralmente achamos que o futuro próximo nos trará boas notícias: teremos um aumento de salário, encontraremos um grande amor e seremos para sempre felizes, nossos filhos logo deixarão de depender de nós, a promoção no trabalho não tardará, viveremos muito e com saúde. Pensamos assim mesmo que não haja qualquer indício de que esses eventos felizes realmente estejam por ocorrer. É o que se chama viés otimista, uma característica da maioria dos seres humanos.

O otimismo excessivo, é claro, pode ser prejudicial, porque obscurece uma real avaliação dos riscos desta vida. O pessimismo também, pois pode levar à depressão e à falta de energia para prosseguir enfrentando as dificuldades do dia-a-dia. Os psicólogos consideram que a ilusão otimista moderada – sim, trata-se de uma ilusão, uma suposição sem fundamentos! – é adaptativa, isto é, contribui para ajustar o presente com o futuro e favorece as boas condições de saúde física e mental.

A questão é saber como o cérebro humano saudável produz essa misteriosa tendência a criar imagens positivas do futuro. Essa foi a proposição da pesquisa feita pela britânica Tali Sharot, aluna de pós-doutorado da neurocientista Elizabeth Phelps, no Departamento de Psicologia da Universidade de Nova York.

Os pesquisadores solicitaram a um grupo de 15 indivíduos adultos, jovens e sadios, que pensassem em algum evento autobiográfico enquanto um episódio qualquer da vida aparecia descrito em uma tela de computador e as palavras “passado” e “futuro” indicavam o momento que deviam focalizar. Ao mesmo tempo, uma máquina de ressonância magnética funcional registrava a atividade cerebral de cada um deles, indicando quais regiões se tornavam mais ativas durante a tarefa mental.

Os participantes poderiam pensar, por exemplo, na conquista de um prêmio, ou no término de um relacionamento amoroso, seja como algo passado em suas vidas, ou como uma possibilidade futura. Depois disso, eram solicitados a responder um questionário padronizado para classificar a intensidade do pensamento que tiveram – positivo ou negativo – e avaliar a que distância do presente teria ocorrido o evento imaginado.

Futuro cor-de-rosa
A pesquisa obteve dados interessantes: primeiro, os eventos futuros positivos imaginados foram avaliados pelos participantes como mais positivos do que os eventos passados que deixaram boas lembranças. Além disso, os eventos futuros positivos eram sempre imaginados mais próximos do presente do que os negativos, e do que os eventos passados felizes. Em outras palavras: nossa expectativa do futuro é mais cor-de-rosa do que a avaliação do passado, e tendemos a achar que esse róseo futuro está para acontecer, enquanto os eventos negativos demorarão a ocorrer e o passado passou há muito tempo!

As imagens funcionais do cérebro dos participantes indicaram sempre o envolvimento das mesmas regiões da parte mais frontal do córtex cerebral, e também de um setor localizado na parte inferior do encéfalo, chamado amígdala. Coerentemente, o sinal que mede o grau de atividade cerebral era mais alto para os eventos futuros positivos, em comparação com os futuros negativos e com os eventos passados de qualquer tipo.

As regiões cerebrais envolvidas foram as mesmas atuantes na inter-relação dos processos da memória e da emoção. Esse achado é relevante, pois permite supor que uma das funções da memória é capacitar-nos a prever e avaliar o futuro com vistas a fazer planos para nossa vida. Isso de fato parece ser verdade, pois alguns pacientes com problemas sérios de memória têm muita dificuldade de imaginar eventos novos e futuros.

De qualquer modo, otimismo e pessimismo são duas faces da mesma moeda, isto é, correspondem ao peso emocional que damos às nossas perspectivas futuras. Nem tanto ao mar nem tanto à terra, diz o senso comum. Com razão, pois tanto o otimismo como o pessimismo em doses excessivas comprometem a avaliação realista do futuro.

O que os pesquisadores deixaram de considerar – aliás, uma deficiência da maioria dos neurocientistas – é que, se a memória de nossa vida dá substância à avaliação do futuro, aqueles dentre nós com histórias de vida sofridas, cheias de dificuldades, terão talvez menor capacidade de ver o futuro de modo otimista. A atividade cerebral, portanto, deve refletir o passado na projeção do futuro. E aí entram não apenas as condições psicológicas dos indivíduos, mas também suas condições sociais. Afinal, como se pode esperar que uma pessoa que vive na miséria tenha grandes expectativas do futuro?

SUGESTÕES PARA LEITURA
T. Sharot e colaboradores (2007) Neural mechanisms mediating optimism bias. Nature, vol. 450: pp. 102-106.
D.L. Schacter e D.R. Addis (2007) The optimistic brain. Nature Neuroscience, vol. 10: pp. 1345-1347.
D.L. Schacter e colaboradores (2007) Remembering the past to imagine the future: the prospective brain. Nature Reviews.Neuroscience, vol. 8: pp. 657-661.

Instituto Ciência Hoje
http://cienciahoje.uol.com.br/materia/view/

Comentários

Eugenia, a biologia como farsa

No século XIX o racismo ganhou status científico por meio de uma doutrina que inspirou governos e intelectuais de todo o mundo

Pietra Diwan

ARQUIVO MAX-PLANCK-GESELLSCHAFT, BERLIM

Durante a década de 30, uma série de exames antropométricos foram realizados na Alemanha nazista para catalogar características físicas da população. O célebre eugenista Otmar von Verschuer em ação

Inglaterra, século XIX. As transformações desencadeadas pela segunda fase da Revolução Industrial alteram profundamente a vida social. O medo burguês da multidão nascente, aliado ao triunfo do discurso científico, encontra na biologia um meio de pôr ordem no aparente caos social: reurbanização, disciplina e políticas de higiene pública deveriam ser aplicadas com a finalidade de prevenir a degradação física dos trabalhadores para evitar prejuízos na economia.

Em meio ao clima de crença inabalável na ciência, o naturalista inglês Charles Darwin publica em 1859 o livro fundador do evolucionismo: A origem das espécies. As descobertas de Darwin mostravam que no mundo animal, na permanente luta pela vida, só os mais bem adaptados sobrevivem e os mais bem “equipados” biologicamente têm maiores chances de se perpetuar na natureza. As teses de Darwin logo são transportadas para outros campos do conhecimento em uma tentativa de explicar o comportamento humano em sociedade. Surge assim o darwinismo social, que apresenta os burgueses como os mais capazes, os mais fortes, os mais inteligentes e os mais ricos.

O cenário estava armado para que o primo de Darwin, o pesquisador britânico Francis Galton, se apropriasse das descobertas do naturalista para desenvolver uma nova ciência. Seu objetivo: o aperfeiçoamento da espécie humana por meio de casamentos entre os “bem dotados biologicamente” e o desenvolvimento de programas educacionais para a reprodução consciente de casais saudáveis. Seu nome: eugenia.

Os métodos propostos pelos entusiastas da nova ciência, porém, não se resumiam à criação de um “haras humano”, povoando o planeta de gente sã, como propunham os defensores da “eugenia positiva”. No outro extremo, a “eugenia negativa” postulou que a inferioridade é hereditária e a única maneira de “livrar” a espécie da degeneração seria utilizar métodos como a esterilização, a segregação, a concessão de licenças para a realização de casamentos e a adoção de leis de imigração restritiva.

Inicialmente com pouca repercussão na Inglaterra, a doutrina começou a ganhar espaço nos meios intelectuais e acadêmicos mundiais a partir do início do século XX. Foi nos Estados Unidos e na Alemanha que as palestras e conferências de divulgação realizadas por Galton tiveram maior repercussão e os princípios da nova ciência começaram a ser colocados em prática. Hoje, quando pensamos em eugenia, é inevitável a associação imediata à Alemanha nazista, mas foram os Estados Unidos que implementaram o mais bem-sucedido e organizado plano de eugenização social da história, que segue ativo até os nossos dias.

Entre o ano de 1905 e a década de 20, instituições eugênicas proliferaram por todo o território americano. A principal delas, o Eugenics Record Office (ERO), foi dirigida pelo geneticista Charles Davenport, o maior representante da eugenia americana. A primeira lei de esterilização americana foi aprovada em 1907, no estado de Indiana, e estima-se que mais de 50 mil pessoas tenham sido esterilizadas entre 1907 e 1949 em todo o país, considerando que a última lei do gênero foi revogada somente na década de 70.

Os estudos médicos apresentados pelo Comitê de Imigração contribuíram para a aprovação do Johnson-Reed Immigration Restriction Act of 1924, lei que restringiu a imigração e acabou com a política open-door (portas abertas) nos Estados Unidos para impedir o “suicídio da raça”. Um gigantesco aparato institucional financiado por grandes corporações industriais divulgou a eugenia aos quatro cantos do mundo. Com o dinheiro do petróleo, a Fundação Rockefeller financiou e apoiou a prática na França, na Suécia e na Alemanha. Apesar de o prestígio da teoria ter entrado em declínio depois dos excessos do nazismo, as instituições eugênicas sobreviveram, ainda que com outros nomes, e muitas delas funcionam até hoje.

A radicalidade alemã

Ao contrário dos Estados Unidos, a eugenia na Alemanha teve vida mais curta, ainda que mais intensa. Apesar de normalmente associada à ascensão de Hitler ao poder em 1933, não é verdadeiro dizer que na Alemanha a doutrina esteve exclusivamente associada à ideologia nazista. Acredita-se que, mesmo sem o Führer, as leis de esterilização teriam sido implantadas no país. Aliás, a lei de 1933 que legalizou a prática foi inspirada na legislação da Califórnia, o estado que mais esterilizou nos Estados Unidos.

É verdade, no entanto, que sob o nacional-socialismo a prática assumiu sua faceta mais radical. Centenas de milhares de pessoas foram esterilizadas compulsoriamente e mais de 6 milhões perderam a vida em nome da higiene da raça. Estima-se que mais de 1.700 tribunais, entre 1934 e 1945, aprovaram cerca de 400 mil esterilizações em território nazista.

Outra prática utilizada por Hitler foi a eutanásia, que foi regulamentada ainda antes do início da Segunda Guerra Mundial. Entre 1939 e o fim da guerra, 250 mil casos de eutanásia foram documentados, entre alemães com problemas mentais e deficiências físicas. Com a organização de um sistema de campos de concentração no início da década de 40, judeus, ciganos, homossexuais e oponentes do regime foram assassinados nas câmaras de gás, por meio de injeções letais ou abandonados à morte por desnutrição.

Os números e os nomes das pessoas que sofreram com a eutanásia selvagem são difíceis de precisar. Existem poucos arquivos sobre essa prática. O Tribunal de Nurembergue estimou a morte de cerca de 270 mil alemães, dentre os quais 70 mil idosos e 200 mil doentes. Além da solução final, que executou mais de 6 milhões de judeus a partir de 31 de julho de 1941, o nazismo esterilizou e matou, sob o argumento da raça e por meio da eugenia, centenas de milhares de pessoas “indesejáveis”. Com o fim da Segunda Guerra Mundial a eugenia foi “enterrada viva” na Alemanha a partir de 1948.

Não foi, porém, apenas o nazismo germânico que adotou a higiene da raça como política de Estado. A “ciência” também encontrou um campo fértil nos países escandinavos. Na Dinamarca, Suécia, Noruega e Finlândia a eugenia pode ter sido mais branda, mas certamente não foi menos efetiva. Implantada como política pública pelo modelo local do sistema de bem-estar social, a versão escandinava foi cientificamente controlada pelo Estado com a finalidade de eliminar os caracteres indesejáveis da sociedade. Entre as décadas de 30 e 60 estima-se que a Suécia tenha esterilizado cerca de 39 mil pessoas; a Noruega, 7 mil; a Finlândia, 17 mil e a Dinamarca, 11 mil.

A eugenia tampouco ficou restrita às nações que seriam o berço da “raça branca”. Na Ásia, China e Japão desenvolveram exemplos práticos – e recentes – de tentativas de aperfeiçoamento racial. Durante o período Meiji (1868-1912), o Japão implantou técnicas de melhoramento da raça através de um programa para a produção de futuros samurais. Mais tarde, em 1948, a Eugenic Protection Law (Lei de Proteção Eugênica), formulada sob inspiração da lei de esterilização alemã de 1933, foi instaurada no Japão sob ocupação americana no pós-guerra a fim de prevenir a reprodução dos “indesejados”, incluindo pessoas com doenças infecciosas.

A China, por outro lado, tem fama de praticar a eugenia atualmente. Uma lei de 1995, que atinge 70% da população chinesa, prevê exames pré-nupciais para o controle de doenças genéticas, infecciosas ou mentais. Quando os médicos consideram inapropriada a procriação do casal ou é detectada alguma doença pré-natal no feto, são receitados o aborto e a esterilização voluntária. No entanto, a eugenia na China não é uma novidade. Desde os tempos imperiais há uma preocupação com a descendência da raça chinesa. Para essa cultura milenar, os ancestrais são sempre os responsáveis pelas gerações futuras, e conceber uma criança com qualquer tipo de deficiência significa uma falha moral de seus pais, o que é inconcebível nesse modelo de sociedade.

Nem mesmo a América Latina, região mestiça por excelência, escapou da eugenia. Muito pelo contrário. Por aqui, o desejo de transformação racial esteve diretamente ligado à formação das identidades nacionais e a uma vontade de desfazer a opinião negativa dos europeus sobre a realidade racial de diversos países. Para os antigos colonizadores, a Argentina significava o “melhor do pior da Europa”; o México, com sua maioria racial de índios e mestizos, afastava-se da norma branca européia; e, finalmente, o Brasil, com seu clima tropical, estimulava a miscigenação e, portanto, sua deterioração racial. Dessa forma, a América Latina abraçou a nova teoria científica de melhoramento racial para resolver o problema da miscigenação, até então muito malvisto pelos europeus.

Ligações com o fascismo

O mais importante representante da eugenia na Argentina foi o médico Victor Delfino, que fundou a Sociedad Argentina de Eugenesia em 1918. A conjuntura em que a prática floresceu na Argentina é caracterizada por uma crise econômica e uma reorientação política radical rumo à extrema direita que tornou o país altamente xenófobo. Do ponto de vista da composição racial, a Argentina era (e ainda é) um país branco; quase metade dos imigrantes que entraram no país, entre 1890 e 1930, era de origem italiana; somente 2% da população do país era negra e os indígenas eram marginalizados. Efetivamente, a Argentina foi o único país da América Latina a realizar o branqueamento racial. A eugenia platina teve uma conexão forte com o fascismo italiano. Nossos vizinhos transpuseram as idéias de Mussolini para a sua realidade e passaram a defender uma argentinidad como parte da herança latina e mediterrânea.

O México praticou um tipo de eugenia diametralmente oposto ao da Argentina. Foi o único país a ter uma legislação regulamentando a esterilização, medida rejeitada pelo restante da América Latina, adotada como parte do programa de saúde pública implantado pelo governo que assumiu o poder após o fim da Revolução Mexicana em 1917. Quanto à composição racial mexicana, sua população era principalmente índia e mestiça, sem traços marcantes de imigração. Em 1911, a população estava dividida da seguinte forma: 35% de indígenas; 50% de mestiços; 15% de criollos (brancos hispânicos). A década de 30 no México é marcada pela intensificação do pensamento nacionalista que afirma o discurso da raça na tentativa de exaltar o mestiço e eliminar da nacionalidade mexicana, pelo processo de eugenia negativa, a raça negra. O caminho encontrado foi a imigração restritiva. Para os eugenistas, essas raças se reproduziam mais que os índios e os mestiços.

A eugenia brasileira, por sua vez, surgiu em resposta às teorias degeneracionistas européias do século XIX que criticavam a miscigenação dos trópicos. Apesar do paradoxo racial, implantar a eugenia no Brasil era visto por cientistas e intelectuais do período como um caminho para elevar um país povoado por uma legião de jecas. Antes de 1917, houve algumas iniciativas esparsas que mencionavam a eugenia como um caminho possível, mas foi com o médico paulista Renato Kehl que a teoria adquiriu adeptos e defensores.

O arauto brasileiro

O entusiasmo generalizado causado por uma conferência realizada por Kehl na Associação Cristã de Moços de São Paulo impulsionou a fundação da Sociedade Eugênica de São Paulo (Sesp), em 1918. A primeira associação do tipo na América Latina contou com cerca de 140 associados. Entre eles estavam o fundador da Faculdade de Medicina de São Paulo, Arnaldo Vieira de Carvalho, o sanitarista Arthur Neiva, o psiquiatra Franco da Rocha e o educador Fernando de Azevedo.

Em 1920, Kehl muda-se para o Rio de Janeiro e ao lado de outros médicos psiquiatras participa da fundação da Liga Brasileira de Higiene Mental (LBHM), instituição cujo intuito era combater os “fatores comprometedores da higiene da raça e a vitalidade da Nação”. Miguel Couto, presidente da Faculdade Nacional de Medicina do Rio de Janeiro, Carlos Chagas, diretor do Instituto Oswaldo Cruz, e Edgar Roquette-Pinto, diretor do Museu Nacional, estavam entre os mais de 120 associados da LBHM.

No início da década de 30, boa parte da LBHM passou a defender abertamente a radicalização das ações “antidegenerativas” como a esterilização, mas alguns membros da associação reagiram à proposta. Edgar Roquette-Pinto se colocou contra a segregação e a favor da miscigenação. Adepto da eugenia positiva, profilática e não radical, para ele a solução para o problema nacional era a higiene e não a raça. Insatisfeito com as divergências na LBHM, Renato Kehl organizou então a Comissão Central Brasileira de Eugenia (CCBE) sob inspiração da Comissão da Sociedade Alemã de Higiene Racial, com a qual se correspondia. Por meio da CCBE, Kehl se aproximou de Oliveira Vianna, então consultor jurídico do governo provisório de Getúlio Vargas, e integrou um grupo designado pelo recém-fundado Ministério do Trabalho para pensar os problemas da imigração no Brasil a partir de 1932.

Os resultados dos trabalhos da Comissão de Imigração liderada por Oliveira Vianna contribuíram para a formulação da Lei de Restrição à Imigração. Mais política do que racial, a medida barrou a entrada no Brasil de asiáticos e judeus denominados pelos eugenistas como não-assimiláveis. Essa postura negativa estava então alinhada com a ideologia nazi-fascista e com as políticas imigratórias dos Estados Unidos. Legalizada em 1934, foi retirada da Constituição após o golpe do Estado Novo, em 1937, embora o comprometimento com a eugenia ainda fosse uma política de Estado, que só recuaria após a adesão do Brasil ao bloco dos Aliados na Segunda Guerra Mundial, em agosto de 1942.

Seja no Brasil de Vargas ou na Alemanha de Hitler, o fato é que durante as primeiras décadas do século XX a eugenia exerceu forte influência sobre governos e intelectuais dos quatro cantos do mundo. A prática assumiu uma multiplicidade de facetas que particulariza cada análise de acordo com a época e o país. Há algo, porém, comum aos diversos eugenistas: todos tinham em vista a substituição das leis de proteção social por outras que favorecessem a reprodução de bons elementos na sociedade, utilizando o rótulo de ciência para um projeto essencialmente político e ideológico.

PRECURSORES NA ANTIGÜIDADE

Os ideais eugênicos modernos remontam à Antigüidade. Os padrões de beleza física da Grécia antiga, assim como os exemplos de força dos exércitos de Esparta e, séculos antes, as regras de higiene dos hebreus e sua profilaxia também inspiraram os teóricos eugenistas da segunda metade do século XIX e princípios do século XX. No século VIII a.C. a cidade-estado grega de Esparta já adotava medidas de purificação da raça. Todos os recém-nascidos eram examinados cuidadosamente por um conselho de anciãos e, se constatada anormalidade física, mental ou falta de robustez, ordenava-se que o bebê fosse lançado de cima do monte Taigeto. Para o povo judeu, o ritual de inserção no grupo representada pela circuncisão é tão importante quanto a descendência do sangue puro quando se afirma que só é judeu aquele que nasce de ventre judeu. Dessa forma, apesar de o judaísmo ser uma religião, muitas das relações de seus adeptos são pontuadas pela linhagem de sangue.

MONTEIRO LOBATO E O CHOQUE DAS RAÇAS

O choque das raças ou o presidente negro é o único romance escrito por Monteiro Lobato. Em 1926, o autor criou uma trama futurista num tempo regido pela eugenia, no qual é eleito o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, no ano de 2228. A partir desse enredo, Lobato faz a defesa dos ideais eugênicos. O entusiasmo com a doutrina aparece também em carta escrita a seu amigo, o médico Renato Kehl:

“Renato, tu és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu Choque, grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo. (…) Precisamos lançar, vulgarizar estas idéias. A humanidade precisa de uma coisa só: póda. É como a vinha. Lobato.”

A ficção de Lobato contém em si a junção de todos os desejos e medos de uma sociedade eugenizada. Segundo o autor, o princípio da eficiência “resolverá todos os problemas materiais dos americanos, como o eugenismo resolverá todos os problemas morais”. Para Lobato, a eugenia e a eficiência seriam as chaves para solucionar os males da humanidade.

História Viva
http://www2.uol.com.br/historiaviva/

Comentários (1)

Lênin criou em 1917 potência e ditadura

Revolução de Outubro completa 90 anos, mas sem o comunismo que implodiu em 1991; repressão foi a marca de Stálin

Enquanto durou, o poder russo derrotou Hitler, pôs homem no espaço e falhou ao tentar produzir bens de consumo e maior conforto

JOÃO BATISTA NATALI

Os fatos já foram bastante evocados. Em 1917, na noite de 6 de novembro (24 de outubro, segundo o calendário que vigorava na Rússia), Lênin deixou em companhia de seu guarda-costas finlandês a casa em que se escondia num subúrbio da atual São Petersburgo.
Recém-chegado clandestinamente da Finlândia, toma um bonde e desce disfarçado por uma peruca no ponto mais próximo do instituto Smolny, onde dirigentes revolucionários estavam reunidos.
Convoca uma reunião de urgência do Comitê Central dos bolchevistas, facção de esquerda do movimento que em fevereiro havia deposto o tsar e instituído o governo provisório, então chefiado pelo social-democrata Alexander Kerensky.
Era a vez de depor o primeiro-ministro e tomar o poder. No início da madrugada seguinte, uma das senhas da insurreição parte de um tiro de canhão do encouraçado “Aurora”. Em poucos minutos, revoltosos se apoderam da sede do governo, o Palácio de Inverno, que hoje abriga o museu Hermitage, concluído em 1762 pelo arquiteto Bartolomeo Rastrelli, como residência de inverno de Catarina 2ª, a Grande.

Revolução e bebedeira
Pois os revoltosos neutralizam o grupo que defendia o palácio e se apoderam depois da adega, lembrou há dias o “Le Monde”, dando lugar a um dos maiores porres da história revolucionária mundial.
O 25 de outubro completou esta semana 90 anos. Desde 1991 o comunismo não existe mais na Rússia. A Guerra Fria também acabou. A Revolução de 1917 é hoje assunto de baixa temperatura. Sem defendê-la ou atacá-la para marcar posição ideológica, ela e o regime que instituiu estão em mãos de historiadores, ainda perdidos entre toneladas de documentos mantidos sob sigilo pelos ex-dirigentes soviéticos.
A tomada do Palácio de Inverno estava num roteiro previsto. Havia 24 horas que Leon Trotsky a anunciara aos guardas da fortaleza Pedro e Paulo, depois de confiscar o arsenal ali mantido. Dois jornais haviam anunciado sua iminência, um deles em entrevista do bolchevique Lev Kamenev.
Os soldados não obedeciam mais seus oficiais para combater os alemães -era a Primeira Guerra Mundial-, e se colocavam sob o comando dos comitês revolucionários. Os telefones, telégrafos e correio central já estavam em mãos de Felix Dzerjinsky, que depois chefiaria a Tcheka, polícia política.

74 anos de história
O fato é que se seguiram 74 anos de uma história complexa. A União Soviética, criada em 1922, tornou-se superpotência. Reuniu um Exército e uma produção de armamentos capaz de derrotar Adolf Hitler em sua frente oriental, pagando como preço a morte de 24 milhões de seus cidadãos -e a estimativa é conservadora. Potência atômica desde 1949, foi a primeira a colocar um satélite e um homem em órbita da Terra.
E foi também um regime político que só perdeu para o nazismo no genocídio de dissidentes políticos. Entre 1928 e 1953, a ditadura soviética de Josef Stálin enviou entre 6 milhões e 18 milhões de cidadãos a campos de trabalhos forçados. Três milhões podem ter morrido apenas em Kolyma, ao norte da Sibéria. Mas a americana Anne Applebaum, autora em 2003 de uma história competente do Gulag -sigla em russo para Direção de Campos de Trabalho e Colônias Correcionais-, afirma serem difíceis estimativas precisas.
A URSS atravessou de cócoras a Guerra Fria. Marcou posições, com o apoio à descolonização africana, a Cuba ou à Nicarágua. Deu-se mal no Afeganistão nos anos 80, mas, sobretudo, deixou de transferir para os bens de consumo a tecnologia que pesquisava para superar ou se equiparar aos Estados Unidos na produção bélica.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

Comentários

Os guerrilheiros da causa animal

Na Grã-Bretanha, o movimento ambientalista conquista vitórias na proteção dos direitos dos animais. Entre os que os defendem estão grupos de ecologistas clandestinos que, em nome da causa, desafiam leis e assumem riscos

Cédric Gouverneur

A organização descentralizada da ALF torna difícil a infiltração da polícia e, assim, sua destruição
Impecável em seu terno de “fibras sintéticas”, Robin Webb mais parece um pacato aposentado do que o libertador de zôos enlouquecido do papel desempenhado por Brad Pitt no filme O Exército dos 12 Macacos1. No entanto, o homem com quem conversamos num pub de Nottingham é o porta-voz legal da Frente de Libertação dos Animais (Animal Liberation Front - ALF), um grupo clandestino perseguido pelas forças antiterroristas da Scotland Yard e do FBI.

“A ALF é invencível: o Estado não pode prender uma idéia”, explica Webb, um ex-sindicalista que se tornou vegetariano2 há 25 anos, “quando passava, uma manhã, em frente a um matadouro”. “Qualquer pessoa que pratique uma ação para salvar animais, ou para danificar a propriedade de quem abuse deles – de vidraças quebradas até o incêndio, desde que nenhum animal ou ser humano seja ferido – pode reivindicar sua ação na Internet em nome da ALF que, em contrapartida, lhe dará seu apoio em caso de detenção.” A organização descentralizada da ALF torna difícil sua infiltração pela polícia e, conseqüentemente, sua destruição. “O Exército Republicano Irlandês [Irish Republican Army, IRA] também funciona por meio de células autônomas, mas dispõe de um comando centralizado, identificável. A ALF não tem nada disso: se me prenderem para me calar, será uma ação inútil”, vangloria-se o porta-voz que, em 1995, passou sete meses na cadeia.

Desde que a organização nasceu, em 1976, cerca de 200 ativistas foram presos devido a milhares de ações praticadas. A ALF até reivindica vários “mártires” – um dos quais, Barry Horne, morreu na prisão, durante uma greve de fome em novembro de 2001, quando cumpria uma pena de dezoito anos por um atentado contra uma loja de peles. Morto “em nome da liberdade daqueles que não podem se defender a si próprios”, como diz Webb, os animais.

Militância radical
O recurso ao uso da força por parte desses militantes, egressos de todas as classes sociais, data da década de 60
A Grã-Bretanha sempre teve uma posição avançada em relação aos direitos dos animais. A primeira associação de defesa da fauna e a primeira lei contra mau tratamento infligido aos animais nasceram nesse país, na década de 1820. No ano passado, a Sociedade Real de Prevenção da Crueldade contra os Animais (RSPCA, fundada em 1840), arrecadou 800 milhões de libras esterlinas3, numa contribuição de cerca de 300 mil doadores.

O recurso ao uso da força por parte desses militantes, egressos de todas as classes sociais, data da década de 60. Em 1963, no sul da Inglaterra, nascia a Associação dos Sabotadores de Caça (Hunt Saboteurs Association, HSA). “O objetivo era interpor-se entre caçadores e caçados para salvar os últimos e forçar o Parlamento a proibir a caça”, lembra Robin Webb. “Em 1973, um pequeno grupo, liderado por Ronnie Lee, começou a incendiar os carros dos caçadores. Em seguida, ampliaram sua campanha aos laboratórios de vivissecção e às lojas de peles, adotando o nome de Bando da Misericórdia (Band of Mercy).”

Três anos depois, um grupo clandestino optou pelo acrônimo ALF: “Nessa época, as frentes de libertação pipocavam na América Latina e na Irlanda: a ALF avalia que a ação violenta pode ser legítima, num curto prazo, para conseguir justiça. Na Grã-Bretanha, o movimento pela abolição da escravatura e a luta das feministas pelo direito de voto das mulheres também recorreram a meios ilegais. Como a sigla ALF é um diminutivo de Alfred, ela tem a vantagem de atrapalhar os grampos telefônicos.”

Inviabilização econômica
Com atentados e ameaças, a ALF pretende elevar os custos com segurança até tornar economicamente inviável a “exploração animal”
Por meio dos atentados que praticam e das ameaças, a ALF e seus militantes pretendem elevar os custos com segurança ao ponto de tornar economicamente inviável a “exploração animal”. Várias centenas de ativistas estão dispostos a agir fora da lei pela causa. Sua folha corrida é eloqüente: vitrines de açougues despedaçadas, atentados contra peixarias para salvar “lagostins escaldados”, incêndios de matadouros e de lojas de peles, assédio a circos e zôos, assaltos a estâncias de criação de martas por comandos encapuzados e libertação dos animais cativos (apesar da devastação provocada sobre a fauna pela invasão de predadores), pilhagem de laboratórios de vivissecção e de estâncias de criação, assédio a seus empregados em frente a suas residências, apedrejamento de suas janelas, destruição de seus carros, incêndios de caminhões frigoríficos de matadouros… Nos Estados Unidos e no norte da Europa, a ALF reivindica constantemente ações da mesma natureza.

Às vezes, essas ações em defesa dos animais desandam em conseqüências mais violentas. Em outubro de 1999, homens armados seqüestraram Graham Hall, um jornalista do Canal 4 que fazia uma matéria sobre os militantes da ALF. Com um ferro em brasa, marcaram suas costas com as três letras: A-L-F. Em fevereiro de 2000, alertas de bombas contra os acionistas do Huntingdon Life Sciences (HLF) provocaram a evacuação de milhares de pessoas que trabalhavam na Bolsa de Valores. No início de 2001, o diretor do HLS, Brian Cass, e um executivo da empresa foram agredidos por um comando de homens encapuzados; cartas-bomba feriram um criador de gado e uma menina de seis anos. Outras pessoas, que participam ou são cúmplices no sofrimento dos animais, sofreram ameaças de morte e de seqüestro de seus filhos. Outras ainda foram vítimas de cartas enviadas a conhecidos seus, acusando-as de pedofilia.

Vitórias notáveis
Vários locais de criação de cães e gatos destinados a pesquisas foram levados à falência devido ao assédio
Dois grupos de eco-warriors – a Milícia dos Direitos dos Animais (ARM) e o Departamento da Justiça (JD) – defendem o uso da violência contra quem tortura animais. Os mesmos ecologistas provavelmente são ligados à ALF, à ARM ou ao JD e escolhem um tipo de reivindicação de acordo com a ação cometida. Receando por sua vida, quase 2 mil diretores de empresas ligadas ao sofrimento de animais conseguiram do governo britânico autorização para que seus endereços fossem retirados das listas comerciais. Entretanto, “como o drama da menina ferida prejudicou sua causa, os extremistas passaram a tomar o cuidado de não tocar em ninguém”, pondera um dos alvos em potencial, Mark Matfield, diretor da Sociedade de Defesa da Pesquisa (RDS), um lobby de experiências com animais. “Suas ações decorrem mais da intimidação: nunca mataram ninguém”. Os únicos mortos em conseqüência dessa luta, além do ecologista e grevista de fome Barry Horne, foram dois “sabotadores de caça” e uma manifestante que protestava contra a exportação de gado vivo – todos eles atropelados por carros na década de 90.

Em trinta anos de luta, o movimento pela libertação de animais obteve vitórias notáveis. Conseguir um casaco de peles na Grã-Bretanha tornou-se quase impossível. Nos últimos anos, vários locais de criação de cães e gatos destinados a pesquisas experimentais foram levados à falência devido ao assédio. Em janeiro de 2004, a Universidade de Cambridge teve que abandonar um projeto de pesquisa neurológica em laboratório que envolvia experiências atrozes com primatas4 . Uma campanha de pressão sobre as empresas que colaboravam com o projeto foi coordenada, pela Internet, por Mel Broughton, amigo de Barry Horne, que passou quatro anos na cadeia por posse de explosivos: em três anos, o projeto, que envolvia um simples laboratório, ganhou proporções de uma fortaleza e seu custo chegou a um número entre 24 e 32 milhões de libras esterlinas (de 135 a 175 milhões de reais). O conselho administrativo de Cambridge, avaliando o custo inviável, decidiu abandonar o projeto, para desespero de Anthony Blair, preocupado com o desenvolvimento da pesquisa, e de Matfield, que cita essa data como “um dia negro para os pacientes”. O ecologista Mel Broughton pretende levar ao fracasso um projeto semelhante em Oxford: “Eles podem enfrentar uma manifestação por ano”, explica. “Mas não uma pressão constante sobre seus acionistas e seus fornecedores”. Procurado em março de 2004 pelos defensores dos animais, o grupo BTP (Travis Perkins) abandonou o projeto de Oxford quase instantaneamente.

Cidadela intocável
O principal inimigo dos guerrilheiros da ecologia, o Huntingdon Life Sciences (HLS), continua em plena atividade
Mas o principal inimigo dos guerrilheiros da ecologia, a cidadela cercada por arame farpado sobre a qual concentram sua ofensiva há quatro anos e que, às vezes, comparam a um campo de concentração, continua em plena atividade: O Huntingdon Life Sciences (HLS), maior laboratório de vivissecção da Europa: “Acredito no que faço”, diz Brian Cass, seu diretor e arquiinimigo da ALF há vinte anos. “Os benefícios trazidos pela experiência com animais são inegáveis para os pacientes”, declara. Nesse centro do condado de Cambridgeshire, 70 mil animais servem anualmente de cobaias para a indústria mundial. “85% são peixes e roedores”, explica um dirigente do HLS. “Os cães e os macacos não passam de 1% do total”. O que, de qualquer maneira, significa 700 deles submetidos à tortura…

Em 1996, uma jornalista, Zoe Broughton, conseguiu emprego como assessora no HLS. Escondida sob sua blusa branca, tinha uma câmera minúscula. Em março de 1997, o Canal 4 divulgou o resultado de seis meses de pesquisa, um documentário intitulado É uma Vida de Cão – o público descobre funcionários do laboratório espancando beagles para submetê-los a doações de sangue, sob o olhar indiferente dos colegas. Em campanha eleitoral, o Partido Trabalhista retirou do HLS seu fundo de pensão e alguns clientes do laboratório rescindiram seus contratos. Dois empregados foram demitidos e processados e as autoridades suspenderam, pelo prazo de seis meses, a licença que permitia ao grupo fazer experiências com animais. A equipe dirigente foi destituída e Brian Cass, ex-dono do laboratório Covance, foi nomeado diretor da empresa.

Conduta “correta”
Londres proibiu experiências com animais para o desenvolvimento de produtos de beleza, o que não ocorre em Paris
O HLS abriu as portas à imprensa. Por ocasião de nossa visita, os cães parecem ser corretamente tratados: correm para as visitas em busca de carinhos. Um deles, no entanto, treme de medo quando nos aproximamos… Limpos, suas gaiolas se comunicam duas a duas, para que possam socializar-se. Os beagles têm direito a um passeio de 30 minutos por dia… num corredor. Os funcionários do laboratório demonstram delicadeza, embora isso seja relativo: administram diariamente aos animais produtos misturados com sua comida ou por meio de uma máscara incubadora. Salvo exceções, todos serão submetidos à eutanásia para a realização dos exames post-mortem. E, ao longo de suas vidas, nunca terão corrido por um campo aberto. “É evidente que eles não pediram para estar aqui”, diz um cientista contratado após o escândalo de 1997. “Mas nós os tratamos da melhor maneira possível. De qualquer modo, os efeitos clínicos do estresse irão adulterar os resultados das experiências. Ninguém, aqui, gosta de usar cachorros como cobaias, mas não existe uma alternativa”, afirma.

“Desenvolvemos o uso de leitões em substituição aos cachorros”, explica outro pesquisador, “mas dispomos de mais dados sobre o beagle, que vem sendo utilizado em pesquisa desde a década de 60.” “No momento, a generalização do uso de leitões seria preferível em termos de relações públicas, mas não do ponto de vista científico”, acrescenta outro responsável. Cass relativiza o sofrimento causado: “750 milhões de animais são abatidos anualmente neste país para alimentação, contra 3 milhões para experiências. Tudo isso tem uma alta conotação cultural: na Coréia, o cachorro é consumido como alimento, mas na Grã-Bretanha são arrecadados mais fundos para o bem-estar de velhos cavalos de corridas do que para órfãos. E as condições das experiências são bem melhores aqui do que na França!” Desde 1997, Londres proibiu experiências com animais para o desenvolvimento de produtos de beleza, ao contrário do que ocorre com Paris, devido à influência da indústria cosmética.

Experiências cruéis
O teste de um remédio para ossos encomendado por uma empresa japonesa: 37 cachorros tiveram patas fraturadas
Alguns vazamentos, entretanto, revelaram experiências particularmente cruéis perpetradas no HLS, como os efeitos de gases CFC testados em cães, em 2003, quinze anos após terem sido proibidos5 . Ou, segundo algumas fontes convergentes, o teste de um remédio para os ossos mediante encomenda de uma empresa japonesa: 37 cachorros teriam tido suas patas fraturadas…

O HLS afirma que, antes da comercialização de um produto farmacêutico ou industrial, a lei obriga a que se façam testes sobre duas espécies de mamíferos – quase sempre ratos e cães – para evitar qualquer efeito indesejável sobre o ser humano ou o meio ambiente. A realidade é mais complexa. Uma fonte do Ministério do Interior britânico faz o seguinte comentário sobre o Medicine Act (1968), inspirado na catástrofe da talidomida6 : “A legislação não impõe que se façam testes com animais, caso dados confiáveis possam ser obtidos por outros meios. Existe uma forte presunção de que os testes com animais sejam, provavelmente, uma etapa obrigatória para se lançarem produtos eficientes e seguros para o ser humano”. Forte presunção, probabilidade, mas não uma certeza científica. Os adversários da vivissecção dão exemplos de drogas que tiveram efeitos colaterais sobre o organismo humano, mas nenhum sobre os animais, e vice-versa.

Interesses econômicos
As empresas querem vender seus produtos em várias regiões econômicas e, por isso, exigem a realização de testes
Robert Combes é o diretor científico do Fundo para Substituição de Animais em Experiências Médicas (Frame). Suas equipes pesquisam soluções alternativas às da experiência com animais com o objetivo de eliminá-la, no médio prazo, por meio do financiamento de associações de defesa dos animais, tais como as empresas farmacêuticas – o que torna a Frame um “alvo legítimo” da ALF. Segundo o professor Combes, a suposta necessidade de testes com animais decorre, em grande parte, do “conservadorismo científico”. “A pesquisa fundamental não se interessa pelas alternativas. O enorme potencial da simulação informática, por exemplo, é pouco desenvolvido”. A necessidade é, principalmente, econômica: “No Japão e nos Estados Unidos, os testes com animais são obrigatórios”, explica. Nossa fonte no Ministério do Interior confirma: “As empresas querem vender seus produtos em várias regiões econômicas e, devido a isso, estabelecem a realização de testes.” O professor Combes acrescenta: “Os testes com animais são mais simples para realizar e as alternativas, subfinanciadas, não são uma prioridade.”

A indústria farmacêutica lançou uma campanha sobre a “triste necessidade” da vivissecção, mas se mostra bem mesquinha na hora de investir nas alternativas a essa opção. O HLS deu ao Frame uma participação simbólica que é veiculada com bastante cuidado. A saúde é uma indústria e o HLS, a empreiteira de empresas que são movidas pela lógica do lucro: lançar um produto no mercado mundial, a um custo mínimo, salvaguardando-se legalmente para uma hipótese imprevista para a saúde do ser humano ou do meio ambiente.

Acionistas no alvo
Assediados, preocupados com a tranqüilidade de seus funcionários, os acionistas do HLS retiraram seu capital
Para a guerrilha dos defensores dos animais e contra a vivissecção, o HLS tornou-se um símbolo a ser eliminado. O grupo SHAC (Stop Huntingdon animal cruelty) divulga em seu site, na Internet7 , os nomes das empresas que cooperam com o HLS e convida seu público a agir: mensagens eletrônicas ou por fax, telefonemas e piquetes constantes em frente aos escritórios, com fotos de cães decepados. Em seguida, vêm as manifestações noturnas em frente às residências dos executivos do HLS, às vezes com ações violentas contra seus bens ou pessoas da família, já que os endereços dos funcionários também circulam pela Internet. Ao contrário da ALF, oficialmente o SHAC “não incentiva, nem incita à prática de ações ilegais”, embora o responsável pelo grupo, Greg Avery, já tenha sido condenado várias vezes por ter recorrido ao uso da força.

Localizado na Oxford Street, em Londres, onde recolhia assinaturas para um abaixo-assinado e coletava donativos para o SHAC, Avery declarou: “O fechamento de Hillgrove [uma estância de criação de gatos para laboratórios, levada à falência em 1999] nos mostrou como conseguir nossos objetivos atingindo os acionistas”. Assediados, preocupados com a tranqüilidade de seus funcionários, os acionistas do HLS retiraram, um por um, seu capital: os bancos Barclays, HSBC, Oracle, Merrill Lynch…

“Terrorismo do investimento”
A City [local onde fica a Bolsa de Londres] aponta o “terrorismo do investimento” que ameaça o setor de pesquisa
Em janeiro de 2001, a pressão levou o Royal Bank of Scotland a também abandonar o HLS, que foi salvo in extremis de ir à falência por um investidor norte-americano, o Stephens Group. Em 2002, o HLS tentou se livrar do SHAC retirando suas ações da Bolsa de Londres e transferindo-as para a Nasdaq, em Nova York, onde os acionistas podem permanecer anônimos. Mas seu escritório de consultoria, Deloitte & Touche, passou então a ser pressionado e cancelou sua colaboração… Pouco depois, aconteceu o mesmo com o escritório Marsh & McLellan, o que obrigou o Estado britânico a dar garantias diretas ao laboratório. Seus clientes japoneses sofreram perseguições em Londres e Tóquio, na Suécia, na Suíça, na Itália…

Na noite de 25 de setembro de 2003, um atentado à bomba, na Califórnia, reivindicado pelo grupo “Células Revolucionárias”, destruiu os escritórios de um cliente japonês do HLS. O ministro britânico da Ciência, Lorde Sainsbury, teve que viajar até Tóquio para dar garantias à indústria farmacêutica. A City [local onde fica a Bolsa de Londres] mencionou o “terrorismo do investimento” que ameaçava o setor de pesquisa e planejou oferecer um prêmio a quem obtivesse informações que pudessem confundir o SHAC. Saindo em defesa da Bolsa de Valores, o Financial Times publicou: “Um pequeno grupo de ativistas está conseguindo o que Karl Marx, o grupo Baader-Meinhoff e as Brigadas Vermelhas não conseguiram.”

Por um custo de “uma centena de milhares de libras”, segundo Brian Cass, o HLS obteve, em 2003, uma determinação legal impedindo que os manifestantes se aproximassem dos escritórios e das residências de seus funcionários. Seus clientes fizeram o mesmo. O SHAC contornou o obstáculo passando a assediar “alvos secundários”, sem condições de desembolsarem as 20 mil libras necessárias à obtenção dessa medida judicial, ao mesmo tempo em que duplicava o número de ações violentas (46 no primeiro trimestre de 2004). Em quatro meses, 22 empresas já tinham rompido seus vínculos com o HLS – algumas delas mantêm apenas uma relação tênue com o laboratório, tais como a empresa de táxis que transporta seus executivos e clientes. Mark Matfield contabilizou 400 pessoas prejudicadas e tenta, agora, reuni-las numa associação de vítimas. “Algumas delas sofrem de depressão nervosa. Suas famílias foram aterrorizadas…” Jonathan Djanogly, deputado conservador que defende o Huntingdon, exige uma repressão mais forte, do tipo da que enquadra os hooligans: “Esses terroristas atacam os princípios da democracia”, declara.

“Democracia participativa”
Os ecologistas defensores dos animais mostram que é possível mexer com a democracia parlamentar britânica
O movimento de libertação dos animais prefere chamar suas práticas de “democracia participativa”, diante da inércia da democracia representativa. “Antes de vencer a eleição, em 1997, o New Labour multiplicava promessas aos defensores dos animais. Renegou-as”, lembra Mel Broughton, responsável pela falência do laboratório de Cambridge. “Barry Horne optou por morrer de fome para que Blair se lembrasse de seu programa. Os políticos estão ligados demais à oligarquia para que possam agir: a ação popular direta permite impor-lhes uma agenda política”. Diante dos grupos de pressão industriais, a ação dos defensores dos animais influencia a tomada de decisões políticas. O próprio Matfield admite que “suas manifestações legais contribuíram para o debate e permitiram que o país adotasse, em 1986, a lei sobre experiências com animais mais rigorosa do mundo”. Num movimento paralelo, Londres se apressa em endurecer a repressão contra os eco-warriors e promete a criação de um vasto centro nacional para pesquisar as alternativas às experiências com animais.

Num país com um sólido bipartidarismo, em que a alternativa eleitoral se limita a uma opção entre os trabalhistas neoliberais de Anthony Blair e a ultradireita dos herdeiros conservadores de Margaret Thatcher, algumas faixas da opinião pública sofrem com uma ausência de representatividade. Nesse sentido, as ações – não violentas – dos ecologistas defensores dos animais mostram que é possível mexer com a democracia parlamentar britânica. E defender uma causa nobre.

——————————————————————————-

1 - Filme de Terry Gilliam (1995), inspirado no curta-metragem La Jetée, de Chris Marker, e protagonizado por Bruce Willis e Brad Pitt.
2 - Quatro milhões de ingleses são vegetarianos. Cerca de 250 mil deles não consomem produto algum de origem animal: carne, ovos, leite, manteiga, queijo, couro, lã… N.T.: No caso desses vegetarianos radicais, usa-se, em francês, o termo végétalien em vez de végétarien.
3 - Cerca de 440 milhões de reais.
4 - Com a caixa craniana aberta, eram implantados elétrodos no cérebro dos macacos para o estudo do funcionamento dos neurônios durante seis horas por dia, cinco dias por semana. Os partidários dessas experiências apelavam para a proximidade entre o homem e o macaco, enquanto seus adversários argumentavam que era justamente essa proximidade que tornava o sofrimento eticamente injustificável.
5 - The Observer, 20 de abril de 2003.
6 - Esse medicamento foi responsável por uma catástrofe sanitária em 1957. Receitada para mulheres grávidas, a talidomida provocou o nascimento de milhares de crianças sem braços. Para os adversários da vivissecção, isso prova a inutilidade das experiências com animais, as quais nada haviam revelado. Seus defensores, no entanto, lastimam o número insuficiente de experiências com animais.
7 - www.shac.net/resources/links.html

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

Comentários

Procura-se uma cultura nacional

Sem ela não há nação. O multiculturalismo, que deveria integrar as pessoas, acabou por separá-las

Jonathan Sacks

O multiculturalismo já se esgotou e é hora de seguir em frente. Em sua época, foi uma idéia boa, até mesmo nobre. O objetivo era fazer com que as minorias étnicas e religiosas se sentissem mais à vontade, mais valorizadas e respeitadas e, portanto, mais capazes de integrar-se à sociedade como um todo. O multiculturalismo afirmava a cultura dessas minorias. Dava dignidade à diferença. E, em muitos aspectos, atingiu seus objetivos. A Grã-Bretanha é hoje um ambiente mais aberto, diversificado, ativo e cosmopolita do que em minha época de formação.

Mas isso teve um preço - que aumenta a cada ano. O multiculturalismo não levou à integração, e sim à segregação. Permitiu que grupos vivessem separados, sem incentivos para integrar-se e com todos os incentivos para não fazê-lo. O objetivo era promover a tolerância. Em vez disso, nos países onde o multiculturalismo foi experimentado, as sociedades tornaram-se mais hostis, fragmentadas e intolerantes.

A democracia liberal está em perigo. A Grã-Bretanha se transforma num lugar onde a liberdade de expressão corre risco, as instituições apolíticas tornam-se politizadas e uma combinação entre o politicamente correto e o separatismo étnico-religioso corrói a receptividade da sociedade civil. Grupos religiosos transformam-se em grupos de pressão. Boicotes e campanhas políticas contaminam setores profissionais. A cultura divide-se em sistemas de crenças que eliminam o discurso civil e impossibilitam o debate racional. O processo político corre o risco de ser abandonado em favor do gesto que atrai a atenção da mídia. A política da liberdade corre o risco de ser rebaixada a política do medo.

O multiculturalismo surgiu nos anos 70, mais como fato que como valor, no rastro da migração em massa para as nações ocidentais. Encontrou um ambiente receptivo na intelectualidade da época. A idéia de “uma nação, uma cultura” parecia perigosa e equivocada.

Mas outra coisa acontecia ao mesmo tempo, com importantes conseqüências: a lenta extinção da própria moralidade, concebida como o laço moral que une os indivíduos no projeto comum da sociedade.

Em 1961, o suicídio deixou de ser um crime na lei inglesa. Isso poderia parecer uma iniciativa menor e obviamente humana, mas foi o começo do fim da Inglaterra como um país cristão, isto é, um país onde a ética cristã se refletia na lei. Foi um prelúdio para outras reformas, mais significativas. Em 1967, o aborto foi legalizado, assim como o comportamento homossexual.

Coletivamente, essas mudanças representaram um abandono decisivo da idéia de que a sociedade tinha ou merecia ter um código moral como base, cobrindo muitas áreas da vida que de outro modo poderiam ser consideradas privadas. A sociedade deixou de ser concebida nos termos de um consenso moral. A lei só iria intervir para impedir os indivíduos de prejudicar uns aos outros.

O que acontece quando perdemos o consenso moral? A moralidade é reduzida ao gosto. “Bom” e “ruim” tornam-se reações pessoais: eu gosto disso, não gosto daquilo. Imagine duas pessoas. Uma diz: “Eu gosto de sorvete”. A outra: “Eu, não”. Elas não estão discutindo. Cada uma simplesmente declara seu gosto.

Perdemos a base de moralidade como um conjunto de valores comuns que mantém a sociedade unida. Vivemos “depois da virtude”, isto é, numa era em que as pessoas não têm mais papéis e deveres numa estrutura social estável. Quando isso acontece, a moralidade vira uma simples fachada. As discussões tornam-se intermináveis e insuportáveis. A única resposta adequada a um ponto de vista contrário é: “Quem disse?” Num debate sem referências comuns, a voz mais alta vence. A única maneira de derrotar os oponentes é ridicularizá-los.

Se não há verdade moral aceita, não podemos raciocinar juntos. Toda verdade torna-se subjetiva ou relativa, limitando-se a uma interpretação, uma narrativa, um modo entre muitos outros de se contar a história. Cada um representa um ponto de vista, e cada ponto de vista é a expressão de um grupo. Desse modo, a civilização ocidental não é a verdade, e sim a hegemonia da elite dominante. Portanto, ela precisa ser exposta e contrariada. A civilização ocidental transforma-se no domínio dos grandes homens brancos do passado. Existem outras verdades: a marxista, a feminista, a homossexual, a afro-americana e assim por diante. Qual delas prevalece é uma questão que não depende da razão, e sim do poder. Força tem de ser enfrentada com força. Sem uma linguagem comum, atacamos o argumentador, não o argumento.

Fazemos isso decretando que certas opiniões são inadequadas não porque sejam inverídicas - não existe verdade moral -, mas porque representam um ataque à dignidade de quem acredita em outra coisa. Assim, os cristãos são homófobos. As pessoas de direita são fascistas. Os que acreditam no direito dos judeus de ter um Estado são racistas. Os que acreditam no casamento tradicional são heterossexuais preconceituosos. O politicamente correto, criado para evitar o discurso estigmatizante, transforma-se em seu exemplo máximo.

Um exemplo: em 1957, a comissão Wolfenden, então a vanguarda do liberalismo, declarou que o comportamento homossexual era um pecado, mas não deveria ser um crime. Em 2004, Rocco Buttiglione, um ministro do governo italiano, foi escolhido pelo presidente da Comissão Européia, José Manuel Barroso, como seu comissário de Justiça. Questionado, ele admitiu que, como católico, acreditava que o comportamento homossexual era um pecado, mas não deveria ser um crime. Buttiglione foi desqualificado para o cargo porque suas convicções morais pessoais estavam “em contradição direta com a lei européia”. Ele descreveu o caso como um exemplo do “novo totalitarismo”.

Certo ou errado, uma coisa está clara: a nova tolerância é muito menos permissiva do que a velha intolerância.

Assim, uma série de eventos iniciada nos anos 60 mudou fundamentalmente os termos do debate sobre sociedade e moral. Até recentemente, pensadores sérios argumentavam que a sociedade dependia do consenso moral. Sem ele, não haveria sociedade, mas só o clamor de vozes concorrentes e o choque de vontades conflitantes. Essa visão começou a ruir com a ascensão do individualismo. As pessoas começaram a entender a moralidade em termos de autonomia pessoal, escolha existencial ou desejo de poder. Se a moralidade é privada, não é lógico impô-la à sociedade por meio da lei.

No entanto, se não existe verdade moral, só existe vitória. A busca da verdade se transforma no desejo de poder. Em vez de serem refutadas pela argumentação racional, as visões dissidentes são estigmatizadas como culpadas pelo grande pecado do pós-modernismo: o racismo em qualquer uma de suas inúmeras variedades. Assim, o consenso moral desaparece e o debate moral definha. Os oponentes são demonizados. Novos “ismos” são inventados para excluir ainda mais opiniões. Novas formas de intimidação começam a surgir: protestos, ameaças de violência, às vezes violência concreta. Pois quando não há referências comuns, não pode haver discussão, e onde a discussão termina, começa a violência.

As divisões que moviam a política, especialmente a classe e o poder aquisitivo, tornaram-se menos evidentes depois dos anos 60. Outras questões, mais relacionadas ao “estilo de vida”, tomaram seu lugar. No início, elas foram analisadas levando-se em conta o indivíduo, mas depois acabaram formuladas em termos de grupos: primeiro os judeus, depois os afro-americanos, depois as mulheres, depois os gays. O ponto não era apenas que esses grupos buscavam direitos iguais. A verdadeira mudança foi o fato de eles se definirem como oprimidos. Isto foi um abalo sísmico.

A política da identidade é uma causa profunda e inexorável de divisão. Se a negação do reconhecimento é uma forma de opressão, uma maneira de obter reconhecimento é mostrar que sou oprimido. A lógica é a seguinte: o grupo ao qual pertenço é uma vítima; foi injustiçado; portanto, temos direito de receber tratamento especial. Isso leva ao surgimento de uma lista interminável de prejudicados. Cada uma de suas alegações certamente é verdadeira, mas não podemos construir uma sociedade livre com base nessas verdades, assim como não podemos superar um trauma dando atenção às feridas eternamente. Uma cultura da vitimização volta os grupos uns contra os outros, com cada um alegando que sua dor, dano, opressão ou humilhação são maiores que as dos outros.

Nossa era é de transição, tão revolucionária quanto a mudança da agricultura para a indústria. O crescimento da computação, da internet e da televisão via satélite vai mudar a vida tanto quanto qualquer outro evento que marcou época no passado.

Com as novas tecnologias, a idéia de uma cultura nacional autônoma se desintegra. Até recentemente, as culturas nacionais baseavam-se na idéia de um cânon, um conjunto de textos que todos conheciam. No caso da Grã-Bretanha, ele incluía a Bíblia, Shakespeare e os grandes romances. A existência de um cânon é fundamental para uma cultura. Significa que as pessoas compartilham um conjunto de referências e ressonâncias, um vocabulário público de narrativas e discurso. Até o início dos anos 50, um político podia citar a Bíblia e esperar que o público percebesse a alusão. Não é mais assim.

Como havia jornais e um pequeno número de redes noticiosas de rádio e televisão, as pessoas eram expostas a uma variedade de opiniões. Hoje, só damos atenção à mídia que escolhemos; nos concentramos apenas nas histórias que nos interessam. Se vemos o mundo de uma maneira, assistimos à Al-Jazira; se o vemos de outra, assistimos à Fox. Podemos filtrar as vozes das quais discordamos. Estamos expostos a uma versão cuidadosamente editada da realidade.

Isso é dramaticamente amplificado pelo fenômeno dos blogs, que muitas vezes apresentam as notícias de maneiras altamente tendenciosas. Como resultado, nossos preconceitos são confirmados e poupados de qualquer perturbação.

Unindo as pessoas globalmente, as novas tecnologias as dividem localmente. Fortalecem as filiações não nacionais. Podem fazer com que as pessoas se sintam mais hindus, muçulmanas ou judias do que britânicas. Transformam minorias étnicas em “diásporas”, grupos de pessoas cujos lares e corações estão em outro lugar.

O Estado-nação deve sua existência a uma forma de tecnologia de comunicação - a impressão. Hoje, é ameaçado por outra. Ninguém pode saber se a mídia, os políticos ou todos nós reconheceremos o perigo a tempo. Sem uma cultura nacional, não há nação. Há apenas pessoas próximas umas das outras. Ainda não se sabe ao certo se isso é suficiente para gerar lealdade, participação e um senso do bem comum. Culturas nacionais formam nações. Culturas globais podem vir a destruí-las.

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

Comentários (1)

Mongólia

Haroldo Castro

Naadam, uma olimpíada nômade

Tudo começou no aeroporto de Washington, nos Estados Unidos. Para fazer hora antes de um vôo, passei pela livraria. Meus olhos bateram no Lonely Planet da Mongólia. Folheei algumas páginas, o colorido das fotos me chamou a atenção e um nome me soou familiar: Naadam. Sim, o festival dos arqueiros, lutadores e cavaleiros! Acontece todos os anos, nos dias 11 e 12 de julho. Eu tinha cinco meses pela frente, tempo suficiente para me organizar para uma longa jornada a esse fascinante e tão pouco conhecido país.

O evento Eriin Gurvan Naadam – traduzido por “três tipos de jogos masculinos” – também celebra a independência da nação. Nesse ano, os mongóis aproveitaram o feriadão de cinco dias para se reunir em família, fazer piqueniques e assistir as competições. Embora algumas pessoas tenham saído da capital para curtir a natureza, muita gente do interior – com cavalos, tendas nômades e muita tralha – veio celebrar essa verdadeira olimpíada nômade em Ulan Bator.

A ocasião é tão extraordinária que os estandartes simbólicos das tropas de Gêngis Khan têm a permissão de sair do Palácio do Governo. Ao total, são nove pavilhões brancos, cada um confeccionado com rabos de nove cavalos. Significam paz e prosperidade. Os nove pavilhões negros são reservados para a guerra.

Os estandartes foram levados pelos cavaleiros da Guarda de Honra até o Estádio Central, protegidos pela polícia como um tesouro nacional. No estádio, cerca de 20 mil mongóis e visitantes esperavam os pavilhões. Entre eles, o presidente da Mongólia, Nambaryn Enkhbayar, e o príncipe herdeiro do Japão, Naruhito, de visita ao país.

A abertura do festival durou horas. Teve de tudo: as famosas canções “longas”, as danças tradicionais das estepes e os ritos budistas Tsam, com máscaras das divindades protetoras. Mas, para lembrar que estávamos no século 21, os organizadores também promoveram uma parada de motoqueiros, um desfile de moda e a apresentação de uma banda de rock, a Black Rose. Porém, a essência do Naadam ainda estava por acontecer.

As competições de luta livre são realizadas no gramado do Estádio Central e 512 hércules foram selecionados para as nove rodadas. Como quem perde é eliminado, na oitava apenas sobram 256. Na seguinte, 128. E por aí vai, até chegar à final.

O Naadam é a grande oportunidade para que novos lutadores sejam reconhecidos pelo público. Nesse ano, a maioria dos lutadores famosos foi derrotada por novatos. A partir da quinta rodada, a torcida e os gritos do público podiam ser ouvidos de fora do estádio. Mesmo não chegando até a final, os 16 lutadores que ganham cinco adversários seguidos levam o título de nachin ou falcão.

VÁRIOS JOVENS conseguiram o título pela primeira vez este ano, dominando grandes campeões. Quem ganha sete etapas é chamado de zaan, elefante, e o grande vencedor da nona rodada é condecorado pelo presidente da República como Avarga.

O lutador veste um short apertado, geralmente azul celeste ou vermelho, e um colete com o peito aberto. Narra a lenda que, quando o colete era fechado à frente, uma mulher ganhou de todos os seus adversários masculinos, criando um tremendo mal-estar. Por isso, lutador hoje tem de entrar na luta de peito aberto.

A regra é simples: o primeiro que cair, tocando o chão com o cotovelo, joelho, costas ou cabeça, perde. Mas vale se apoiar com as mãos. Conversando com mongóis e atento aos duelos, notei que cada lutador tem dezenas de truques, desde dar uma rasteira no outro a segurar e levantar a perna do adversário.

A luta SIMBOLIZA coragem e bravura, mas TAMBÉM é um SHOW de elegância e graça

AS LUTAS, CHAMADAS de bokh, fazem parte da identidade mongol desde o século 13. Gêngis Khan fazia questão de manter suas tropas em boa forma física e motivava seus guerreiros a praticar bokh. Hoje, os lutadores são reconhecidos por toda a sociedade.

A luta simboliza coragem e bravura, mas também exibe elegância e graça. No final da disputa, o ganhador dá uma volta ao redor dos estandartes de Gêngis Khan e performa a dança da águia. A massa corporal de 120 ou 150 quilos parece se transformar em um frágil e meigo bailarino.

Sem dar trégua, passei ao estádio vizinho onde já haviam começado as provas de arco e flecha, com 280 arqueiros. As mulheres conseguiram romper o bloqueio de um Naadam “puramente masculino” e hoje também disputam a melhor pontaria. Mas, do jeito que os atletas se vestiam, parecia que a prova era um fashion show. As cores e o requinte das roupas, tanto para elas como para eles, chegavam a ser mais importante do que a qualidade do arco.

A veterana Alimaa contou que pratica o esporte há 17 anos. Ela se interessou pelo tiro com arco quando se aposentou, aos 50. “Não queria apenas ficar em casa”, disse. Durante sua vida ganhou mais de 30 medalhas. Ela me descreveu como é seu arco, que contém peças de chifre de cabra, madeira, couro de camelo e fios de plástico.

Para o piloto de avião e de ultraleve Alexander, 39 anos, se apresentar no Naadam como arqueiro significa reviver as proezas de seu ídolo Gêngis Khan. Amigo do figurinista que preparou as roupas para um filme sobre o grande conquistador, Alexander se vestia como um soldado das hordas mongóis do século 13. “Não estou de acordo com essas roupas de cores chamativas. Por isso, me visto como um soldado que vai à guerra”, diz.

As competições, sempre entre quatro arqueiros, se desenvolvem em várias rodadas. O objetivo é acertar nos quatro alvos vermelhos pousados no chão, mas os outros 26 alvos negros também contam pontos. Quando a flecha acerta uma das canecas vermelhas de couro, os juízes, que estão ao lado do alvo, levantam os braços e cantam hinos para celebrar a proeza.

Os mongóis acreditam que TOCAR o suor dos cavalos VENCEDORES, ou mesmo sentir a poeira deles passando perto, traz boa SORTE

Ainda bem que consegui uma carona, pois, caso contrário, jamais teria chegado a tempo para ver a corrida de cavalos.

A festa eqüestre acontece nas estepes poeirentas de Khui Doloon Khudag, a 30 quilômetros da capital. A mais importante disputa do primeiro dia foi entre os cavalos Soyolon, de cinco anos. São os mais velozes, um símbolo de virilidade e força.

Dizem os mongóis que tocar o suor dos cavalos vencedores – ou até mesmo sentir a poeira deles passando perto – traz boa sorte durante todo um ano. Por isso, além de meus amigos mongóis, uma grande parte da população da capital também estava fazendo o mesmo percurso. A multidão foi estimada em quase 200 mil pessoas.

Infelizmente, graças ao imenso engarrafamento, muita gente não chegou a ver o final da competição de 25 quilômetros. Correndo pelas estepes, ainda consegui fotografar os cinco cavalos vencedores que disputavam a primeira posição. Completaram esta corrida 187 alazões.

Outras cinco provas foram organizadas nos dois dias de festa. A mais longa de todas foi a de 27 quilômetros, para cavalos com mais de sete anos, enquanto que a mais curta, de 12 quilômetros, reuniu potros de um ano de idade. Na realidade, os animais percorrem o dobro, uma vez que o percurso de ida também é realizado a cavalo, mas a trote.

OS GRITOS DA MULTIDÃO foram aumentando à medida que os vencedores se aproximavam. Para surpresa de todos, o cavalo que liderava vinha sem jóquei. O segundo lugar tentava, com todas suas forças, ultrapassar o cavalo da dianteira. Porém, este, sem o peso do ginete, mantinha seu galope firme e cruzou a linha na frente. Entretanto, as novas regras do Naadam foram aplicadas: o cavalo sem jóquei foi multado em uma posição e passou a ser o segundo colocado .

Consegui chegar um pouco mais perto dos jóqueis e fiquei espantado ao ver como os meninos (e algumas meninas) eram jovens e pequenos. O regulamento insiste que o cavaleiro tenha ao menos sete anos. Mas como na Mongólia a idade é contada por ano de vida – no caso o sétimo ano de vida – a maioria das crianças tem, na verdade, apenas seis anos. Como participar do Naadam é uma honra sublime, esses pimpolhos não têm o menor medo do galope ou da velocidade. A recompensa vale a pena: os cinco vencedores das seis corridas recebem seus prêmios diretamente das mãos do presidente da República!

Consegui furar o bloqueio dos policias para tentar falar com um dos meninos. Estavam exaustos, coitados. Foi quando me lembrei que deveria tocar um dos cinco cavalos vencedores. Ludibriei mais uma vez a segurança – imagine se todos ali presentes fizessem o mesmo – e passei meus cinco dedos no pescoço daquele que foi o quinto colocado. Mesmo não sendo um cavalo Soyolon, tenho certeza que terei um ano de boa sorte pela frente, até o Naadam de 2008.

O Naadam, a partir de 2008, será incluído como um dos 150 lances do Teste de Viajologia Mundial

Revista Planeta
http://www.terra.com.br/revistaplaneta/

Comentários