Ar, ar!

Verissimo

O velho entrou na catedral pelos fundos, como fazia todos os domingos. Dirigiu-se para o seu nicho. Ficou sentado na laje fria, encostado na parede, encaracolando e desencaracolando uma mecha de barba branca enquanto esperava pelo sacristão. Pensando na sua vida. Pensando em nada.

O sacristão trouxe o pão e o vinho, como fazia todos os domingos. Contou que a igreja estava cheia. Ele não queria olhar? O velho deu de ombros. Cheia ou vazia, era a mesma igreja de todos os domingos. Só queria comer, fazer seu trabalho e ir embora.

- Sabe quem vai tocar aqui hoje? - perguntou o sacristão.

- Quem?

- Bach.

- Quem?!

- Bach, o grande Bach. Por isso a igreja está cheia. Você não sabe quem é Bach?

O velho deu de ombros. Nem queria saber. Só estava ali para fazer seu trabalho. O sacristão disse que tinha pena do velho. O grande Bach ia tocar no órgão da catedral de Freiberg, no grande órgão que o grande Gottfried Silbermann levara quatro anos construindo para a grande catedral de Freiberg, e o velho nem se importava? Você merece a vida insignificante que leva, disse o sacristão, recolhendo o copo tosco em que trouxera o vinho e deixando o velho no seu nicho, encaracolando e desencaracolando a barba.

Dali a pouco o velho ouviu um “Pst”. Depois uma voz que dizia:

- Você está aí?

Não respondeu. Não se moveu do seu nicho. Outro “Pst”. O velho nada. Só quando a voz cochichou mais alto, com uma ponta de apreensão, “Ei, você está aí?” é que respondeu.

- Estou.

- Pode começar! - disse a voz.

O velho dirigiu-se para os foles. Mas não começou a acioná-los. Esperou. Se alguém olhasse a sua cara naquele instante, não saberia identificar o que via. Alguma coisa estranha tomara conta das suas feições. Alguma coisa que nunca aparecera naquele rosto antes. O próprio velho não se reconheceria se visse seu rosto no espelho. Se conhecesse espelho.

- Ei! - disse a voz. - Comece!

- Você é Bach? - perguntou o velho.

- Sou.

- O grande Bach?

- Sou. Quem é você?

- Você não me conhece.

- Olhe, seja lá quem você for…

- Ninguém me conhece.

- Está bem. Mas comece a…

- Ninguém nunca me conheceu.

- Certo, certo. Mas por favor…

- Ninguém nunca vai me conhecer.

- Escute. Eu não quero ser grosseiro. Mas se você não começar a acionar esses foles agora, eu…

- Sou o anônimo mais anônimo do mundo. Meu anonimato atravessará os séculos. Nasci desconhecido e vou morrer mais desconhecido ainda.

- Depois a gente conversa sobre isso, meu caro. O importante agora é acionar esses foles!

- Eu não sou seu caro. Você nunca me viu. Você nunca me verá. O grande Bach nem sabe que eu existo.

- Neste momento você é a pessoa mais importante da minha vida! Se não acionar esses foles, eu não posso tocar!

- É isso mesmo. Sem mim, o grande Bach apertará as teclas e o grande órgão não produzirá um som. Os grandes tubos do grande órgão da grande catedral de Freiberg não emitirão um suspiro, um pum. O grande Bach dará um concerto de silêncio. Um recital de pausas!

- O que é que você quer? Mais dinheiro? Isso não é comigo. Fale com o bispo. Só o que eu preciso é de ar. Ar! Por favor, me dê ar. Eu imploro.

Ar! Ar!

O velho ouviu o murmúrio que percorria a igreja lotada. Por que o grande Bach não começava a tocar? Com quem ele estava falando? Por que parecia tão agitado?

- O que você quer em troca do ar? Reconhecimento? Eu anuncio o seu nome no fim do recital. Você pode vir até aqui, eu apresento você ao público. Eu acabo com o seu anonimato. Eu digo que sem você eu não seria nada, o órgão não seria nada. Eu beijo os seus pés. Eu…

Mas Bach não precisou continuar. O velho começara a acionar os foles, o ar subia pelos tubos. Bach pressionou as teclas, sua música encheu a grande catedral de Freiberg e o público respirou, aliviado, encantado.

Gênio, gênio.

Parece que no fim do recital Bach espiou atrás do órgão e não viu ninguém. Ou esqueceu e nem espiou. Não sei.

Jornal Estado de S. Paulo
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