O amor perdido pelos trabalhistas
Como o novo primeiro-ministro britânico perdeu o rumo
George Parker
Erros e infortúnios deixaram Gordon Brown parecendo uma figura muito menor, mas comparações com o governo fracassado de John Major podem ser prematuras.
Gordon Brown era um caso de raiva impotente, com olhar vazio à frente, punhos cerrados, rosto lívido de fúria. Atrás dele nos bancos verdes de couro da Câmara dos Comuns, fileiras de parlamentares trabalhistas desanimados olhavam para baixo. Isto raramente aconteceu antes: o novo primeiro-ministro britânico tinha se tornado objeto de ridículo.
Após cinco meses no cargo, uma série extraordinária de erros e eventos o deixaram diminuído, em vez da figura dominante de meados do ano, que estava confiante o suficiente para contemplar uma fácil eleição.
Brown costuma provocar de forma alternada medo e admiração, ódio e respeito. Mas nesta semana, na cruel arena de Westminster, era quase possível sentir compaixão por um primeiro-ministro acuado.
“As pessoas não estão perguntando com razão se ele está à altura do cargo?” rosnou David Cameron, o líder conservador da oposição, diante do primeiro-ministro. Então veio o habitualmente gentil Vince Cable, o líder em exercício dos democratas liberais, ponderando de forma devastadora a transformação de Brown “de Stalin a Mr. Bean”.
“Inacreditáveis” foi a primeira palavra usada por muitos parlamentares trabalhistas para descrever os eventos que calaram Brown. O número de trabalhadores migrantes no Reino Unido foi contado de forma errada, a crise do Northern Rock viu a primeira corrida a um banco britânico desde os tempos vitorianos; um funcionário público perdeu os dados pessoais de 25 milhões de requerentes do subsídio infantil.
E agora há a revelação de que os trabalhistas aceitaram doações ilegais de um empresário controverso que declarou diferentes nomes, idades e estado civil. David Abrahams deu dinheiro por meio de terceiros, em uma violação das leis introduzidas pelos próprios trabalhistas para tornar o financiamento dos partidos mais transparente.
Raramente a posição de um líder político se deteriorou tão rapidamente. No início de outubro, o ex-chanceler de ferro do erário planejava uma eleição tranqüila. No final de novembro, uma pesquisa apontou os trabalhistas com 13 pontos atrás dos conservadores, a maior desvantagem desde o auge de Margaret Thatcher, em 1988. Como Brown chegou a esta situação e -mais importante- como ele pode sair dela?
Os problemas de Brown podem ser rastreados até o momento na manhã de 5 de outubro em que Stan Greenberg, o consultor americano de pesquisas para os trabalhistas, abriu seu laptop e deu ao primeiro-ministro seu veredicto sobre o provável resultado das eleições antecipadas no final do ano. “Ele disse que o primeiro-ministro venceria, mas que sua maioria ficaria entre 40 e 20″, disse um dos assessores de Brown.
Dado que Brown já contava com uma maioria de 66 e não precisava realizar uma eleição até 2010, o assunto estava resolvido. No dia seguinte o primeiro-ministro confirmou que a eleição prevista para 1º de novembro estava descartada; Brown precisava de mais tempo para estabelecer sua “visão de mudança” no Reino Unido.
Tal decisão transformou a política britânica. Um partido trabalhista colocado em ritmo eleitoral febril pelos jovens assessores de Brown ficou esvaziado. A lua-de-mel de Brown, que vinha desde que sucedeu Tony Blair em junho, tinha acabado.
Os conservadores de David Cameron, por outro lado, foram rejuvenescidos. Uma semana antes, a equipe de Brown alegava que Cameron estava liquidado e que os conservadores seriam “esmagados” na eleição iminente.
O brilhantismo político do verão dourado do primeiro-ministro desapareceu rapidamente. À medida que o outono se transformou em inverno, a reputação arduamente estabelecida por Brown de líder honesto, competente e sem distorção dos fatos de um “governo de todos os talentos” foi sendo minada semana a semana.
As pessoas começaram a se perguntar quando ouviriam as mudanças prometidas por Brown. Mas, como o primeiro-ministro explicou nesta semana, elas já ouviram. É um programa pragmático que inclui mais casas, ensino pós-16 anos, reformas na saúde e grandes projetos de infra-estrutura como ampliações de aeroportos e prováveis usinas nucleares.
Os críticos de Brown alegam que a lista de políticas foi uma imitação pálida da agenda de Tony Blair, despojada de parte do entusiasmo do ex-primeiro-ministro no uso do setor privado para promover reforma no setor público. “É isto o que estávamos esperando?”, perguntou Cable.
Os parlamentares trabalhistas estão perguntando se Brown conta com a habilidade e a equipe para ressuscitar o partido para uma quarta vitória eleitoral sucessiva. “Até esta semana eu considerava a situação recuperável, mas agora não tenho certeza”, reconheceu um importante parlamentar trabalhista. Perguntas são feitas sobre a dependência de Brown de um círculo interno de conselheiros de confiança -conhecidos como “os três mosqueteiros”- para planejar sua escapada.
Ed Balls, Ed Miliband e Douglas Alexander ascenderam de consultores não oficiais a ministros do Gabinete sob Brown. Todos em seus 30 ou 40 anos, eles participam das teleconferências matinais para discussão de táticas e estratégia com o primeiro-ministro. A influência deles os torna alvos de suspeita e inveja.
“Adolescentes”, murmurou outro parlamentar trabalhista veterano. O fato de todos os três estarem envolvidos no incitar da febre eleitoral de outono -e na previsão da morte política iminente de David Cameron- fez com que alguns questionassem se Brown precisa de novos assessores. Um alto funcionário a chamou de “governo por panelinha”.
Colegas pediram que Brown ampliasse seu círculo. Um ministro do Gabinete disse: “Se a intenção é ter um governo de todos os talentos, é preciso usar todos os talentos e perícia ao seu dispor”.
Mas vários ministros apontam que mesmo existindo um círculo interno, Brown faz mais consultas do que Blair costumava. Reuniões políticas para discussão da estratégia geral também são mais comuns. “As discussões também são mais inclusivas e abertas”, disseram os ministros.
Então ele conta com a equipe ministerial para ajudá-lo a sair do problema? Ao buscar rotular-se como uma mudança em relação a Tony Blair, o novo primeiro-ministro montou um novo Gabinete, com algumas figuras relativamente não testadas em cargos importantes.
Alistair Darling, o chanceler do erário (ministro das finanças), é experiente mas foi arranhado pelo caso do Northern Rock, pela perda dos registros do subsídio infantil e sua decisão altamente questionada de aumentar o imposto sobre os ganhos de capital para os empreendedores.
Jacqui Smith, a ministra do Interior, é virtualmente invisível. David Miliband, o ministro das Relações Exteriores, não é uma celebridade e entrou em choque com Brown depois que o gabinete do primeiro-ministro diluiu parte de um discurso que Miliband faria sobre a Europa. Nenhum deles proporciona a Brown muita proteção no flanco político.
Cada vez mais ele recorre aos “barbas grisalhas”, um grupo sem barba de sobreviventes experientes da era Blair. Jack Straw, o ministro da Justiça (e ex-ministro das Relações Exteriores), se transformou em um vice-primeiro-ministro virtual. Geoff Hoon, o articulador dos trabalhistas, é cada vez mais usado por Brown como bombeiro na mídia.
Kenneth Clarke, o ex-chanceler do erário conservador, alega que a relativa ausência de figuras de peso em cargos importantes não é casual. “Gordon Brown é maníaco por controle -ele não deseja colegas poderosos.” Clarke, um estudante de Brown por muitos anos, acrescentou: “Ele parece cansado, desconcertado e não está tomando as decisões necessárias para lidar com estes problemas”.
As críticas à abordagem do primeiro-ministro às grandes decisões o persegue a anos. Sua decisão de entregar a política de taxa de juros ao Banco da Inglaterra em 1997 mostra que ele é capaz de ação ousada, mas como chanceler ele agonizava por dias ou semanas em torno das escolhas políticas. “Gordon tem um problema com decisões”, reconheceu um assessor de Downing Street.
Seu governo gerou um acúmulo de análises, cobrindo de tudo, de supercassinos, combate ao crime e enchentes. No final decisões terão que ser tomadas.
A hesitação doméstica é refletida na menor visibilidade do Reino Unido no cenário mundial -um descanso, talvez, para aqueles eleitores cansados das aventuras de Tony Blair no exterior. Mas a discrição de Brown coincide a ascensão de Angela Merkel, a chanceler alemã, e particularmente Nicolas Sarkozy, o presidente francês.
A frieza estudada de Brown com o presidente Bush em uma visita a Washington foi notada, contrastando com o abraçar entusiástico de Sarkozy ao presidente. Funcionários do governo Bush disseram que o trabalho com o Reino Unido em segurança e outras questões práticas continua, mas um acrescentou: “Na esfera política, mal existe”.
O mesmo é observado pelos diplomatas de países liberais da União Européia em Bruxelas, que estão pedindo para que Brown se envolva na Europa para agir como um contrapeso para os impulsos protecionistas de Sarkozy. “Nós ainda não atingimos um momento crítico, mas ele chegará”, alertou um.
Mas com seu governo afundado em problemas em casa, o foco de Brown permanecerá voltado aos assuntos domésticos. Ele conquistou sua reputação ao presidir uma década de sucesso econômico no Tesouro e acredita que sua habilidade de mapear “um trajeto de estabilidade em momentos turbulentos” continua sendo seu maior trunfo.
Recentes pesquisas mostram que a vantagem de Brown na área econômica está evaporando depois do Northern Rock e da perda dos dados pessoais mas -como ele aponta- ninguém perdeu dinheiro (ainda) em conseqüência de ambos os casos. Ele espera uma piora da economia, mas diz que o público sabe em quem pode confiar quando os tempos se tornam difíceis.
O primeiro-ministro zomba quando comparações são feitas entre seu governo e o de John Major, o infeliz líder conservador dos anos 90, cujos problemas começaram com a humilhação econômica do descarte da libra esterlina do mecanismo de taxa de câmbio da Europa.
As comparações não são exatas: Major enfrentou a dupla formidável Blair-Brown na oposição -claramente um governo a espera- enquanto David Cameron ainda não foi testado e as políticas de seu partido ainda estão em desenvolvimento.
Enquanto o Novo Trabalhismo na oposição apresentava uma vantagem sustentada nas pesquisas de opinião, as atuais são mais voláteis: Cameron estava 10 pontos atrás nas pesquisas em setembro. Isto não sugere que a população já leva a sério os conservadores.
Mas comparações com Major são inevitáveis. Será Gordon Brown apenas uma nota de rodapé para a década de governo de Tony Blair, assim como Major foi uma coda para a era Thatcher? Ou como colocou o líder conservador Michael Gove (em uma analogia a James Bond), será que Brown é o Roger Moore para o Sean Connery de Blair?
A política britânica raramente foi mais febril. A maioria dos parlamentares trabalhistas está olhando a longo prazo, com a expectativa aumentando de que Brown aguardará até o último momento possível em 2010 antes de fazer campanha. “Nós perdemos a oportunidade de mostrar que somos ‘a mudança’”, disse um estrategista trabalhista. “Agora temos que provar que somos competentes.”
Diferente de Major, Brown preside um partido unido, fora um grupo de blairitas radicais que alegam que ele está recuando na reforma do funcionalismo público. Por ora, a maioria dos parlamentares trabalhistas está preparada para dizer que uma fase extraordinária de má sorte -mais do que erros básicos- foi a principal responsável pela sua situação ruim.
“Um senso trágico de infortúnio em grande escala”, é como colocou Bob Marshall-Andrews, o parlamentar trabalhista independente. Mas como apontou um estrategista trabalhista, os primeiros-ministros só têm direito a uma dose limitada de má sorte antes da credibilidade deles ser arruinada. “Napoleão disse que precisava de generais com sorte”, ele disse. “Nós precisamos de um primeiro-ministro sortudo.”
Financial Times
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