Arquivo de Janeiro de 2008

Vírus é associado a câncer de pele

Lawrence K. Altman

Os cientistas descobriram um vírus fortemente ligado à forma mais agressiva de câncer de pele, eles relataram em uma revista científica na quinta-feira.

O câncer, o carcinoma de célula de Merkel, tende a ocorrer mais freqüentemente nas áreas do corpo expostas ao sol, como rosto, cabeça e pescoço. Apesar de ser raro, sua incidência triplicou de 1986 a 2001, e agora é responsável por cerca de 1.200 casos nos Estados Unidos há cada ano, diz o Instituto Nacional do Câncer.

O vírus foi descoberto por uma equipe da Universidade de Pittsburgh que inclui o dr. Patrick S. Moore e sua esposa, a dra. Yuan Chang. Em 1994, quando estavam na Universidade de Columbia, Moore e Chang descobriram o herpes-vírus humano tipo 8, que causa o sarcoma de Kaposi, a malignidade mais comum em pacientes com Aids.

Até o advento da cirurgia de transplante e da Aids, o sarcoma de Kaposi e o carcinoma de célula de Merkel geralmente afetavam pessoas com mais de 65 anos. Agora, a estas pessoas se juntaram aqueles cujos sistemas imunológicos foram comprometidos pela Aids ou pelos medicamentos de transplante de órgãos.

O vírus recém-descoberto pertence à família polioma, que os cientistas estudam há mais de 50 anos porque foi descoberto que outros membros da família produzem cânceres em animais. Apesar da suspeita de que os vírus polioma causavam cânceres em seres humanos, havia falta de provas conclusivas.

Os cientistas de Pittsburgh chamam o novo agente de vírus polioma de célula de Merkel. Em um trabalho publicado on-line pela revista “Science”, eles disseram que apesar de suspeitarem que ele causa o câncer de pele de célula de Merkel, mais trabalho é necessário para provar.

“Nós podemos dizer que temos um suspeito com a arma fumegante na cena do crime, mas isto ainda não significa que ele é culpado”, disse Moore em uma entrevista por telefone.

“Nós temos um longo caminho para provar que este agente é realmente a causa”, ele disse. “Mas o fato do vírus estar tão fortemente associado ao tumor é, no mínimo, uma aposta muito boa de que ele tem um papel importante.”

O dr. Anthony S. Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, chamou a descoberta de “muito interessante e importante”.

“Não é todo dia que se tem uma prova molecular tão convincente de que um vírus está associado, provavelmente de forma casual, com o desenvolvimento de um processo canceroso em particular”, disse Fauci.

O vírus polioma é o sétimo vírus associado a cânceres humanos, disseram Moore e Fauci. Os outros, além do vírus do sarcoma de Kaposi, são os vírus da hepatite B e C, associados ao câncer de fígado; o papilomavírus, ao câncer cervical; o vírus Epstein-Barr, ao câncer no nariz e faringe e ao linfoma de Burkitt; e o HTLV-1, ou vírus da leucemia de células T humanas do tipo 1.

Enquanto Moore e Chang estavam em Columbia, eles começaram a desenvolver uma técnica chamada subtração digital de transcriptoma, que continuaram usando após se mudarem para Pittsburgh, em 2002, na busca de vírus novos ou conhecidos em cânceres relacionados ao sistema imunológico.

Mas não dispondo de amostras de tecido de carcinoma de célula de Merkel na Universidade Pittsburgh, eles tiveram que obter os tecidos na Comprehensive Human Tissue Network, um banco nacional de tecidos financiado pelos Institutos Nacionais de Saúde para fins de pesquisa.

A equipe, que também inclui Huichen Feng e Masahiro Shuda, adaptou sua técnica de forma a se beneficiar de desenvolvimentos como o projeto do genoma humano.

“Levou muito tempo e cometemos todos os erros que poderíamos cometer nisto”, disse Moore.

Os pesquisadores encontraram o vírus polioma nos cânceres de oito de 10 pacientes de Merkel cujos tecidos foram testados. Eles também encontraram o vírus integrado ao genoma da célula de tumor, uma descoberta que fortaleceu a crença de que ele tem um papel importante na causa do câncer.

Para fins de controle, os cientistas também procuraram o vírus entre dois grupos de pessoas sem carcinoma de célula de Merkel. Evidência do novo vírus foi encontrada em tecidos de várias partes do corpo em cinco dos 59 pacientes que compuseram um grupo de controle. Tal evidência também foi encontrada em tecidos da pele de quatro das 25 pessoas do segundo grupo, algumas com sistemas imunológicos saudáveis, outras com deficientes.

Os resultados geraram novos desafios científicos. Um é determinar possíveis ligações entre o vírus e outras doenças. Entre os próximos passos desta equipe está um esforço para determinar se o vírus está relacionado ao linfoma de Hodgkin e não-Hodgkin, disse Moore.

A técnica usada para identificar o vírus polioma da célula de Merkel elimina seqüências moleculares humanas conhecidas de uma amostra de tecido, deixando seqüências desconhecidas ou não humanas que são exploradas pelos cientistas na busca de um possível agente infeccioso. Moore disse esperar que a técnica seja útil na análise de tecidos de pacientes com doenças de causa desconhecida, visando encontrar um novo agente ou reduzir a probabilidade de que estejam ligadas a um.

The New York Times
http://www.nytimes.com/

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200 anos de integração comercial

Custo País, o grande desafio da expansão comercial. Os planos para aumentar a capacidade exportadora. Mentor da abertura, Visconde de Cairu foi pioneiro do liberalismo. Abertura não é só econômica, mas mental, diz Ricupero. Estivadores resistem a modernização. Um episódio mal explicado na história do Brasil. Quadros de pintores viajantes retratam o surgimento dos portos brasileiros

Uma decisão anunciada há exatamente 200 anos representou, na prática, o fim do sistema colonial e teve conseqüências profundas na história do Brasil. A abertura dos portos do País às nações amigas foi anunciada no dia 28 de janeiro de 1808, por dom João VI, uma semana depois de desembarcar em Salvador, após fugir de Napoleão com a família real. A medida, imposta pela Inglaterra, representou o início da inserção brasileira no comércio mundial.
Menos de dois meses depois, já no Rio de Janeiro, o monarca de Portugal decretaria a liberdade de comércio e indústria manufatureira, com a revogação do alvará de 1785, que proibia a fabricação de qualquer produto na colônia. Livres das proibições, as indústrias começaram a despontar no território brasileiro e o Brasil libertou-se de três séculos de monopólio português, passando a integrar-se ao sistema internacional de produção e comércio como nação autônoma.
Passados 200 anos da abertura dos portos, o Brasil ainda detém hoje apenas 1,14% do fluxo comercial do planeta. E sonha alcançar uma fatia de 1,25% do comércio mundial em 2010. Se conseguir o pequeno incremento de 0,11 ponto porcentual, poderá ascender a uma posição próxima à da Malásia, que comercializou US$ 62 bilhões a mais que o Brasil em 2006.
Neste início de século 21, o comércio exterior mostrou-se capaz de dar um salto e superar o perfil acanhado que manteve ao longo de décadas. Mas seu desempenho ainda motiva polêmicas sobre o grau de abertura dos portos brasileiros. O Brasil é a décima maior economia do mundo, mas é apenas o 24º maior exportador.
O secretário de Comércio Exterior, Welber Barral, acredita que o Brasil pode ser considerado muito aberto em relação a outros mercados. A tarifa de importação média de 14%, aplicada conjuntamente com os sócios do Mercosul, é bem maior que a dos Estados Unidos, de 4%. Mas o País respeita a alíquota máxima de 35% e não aplica picos tarifários - recurso que protege os setores menos competitivos dos EUA e da Europa.
Para Barral, o sistema de comércio no Brasil mostra mais transparência e rapidez que em outros vizinhos latino-americanos. Na Argentina, as licenças de importação são emitidas em papel. “Não há mais resquícios da Cacex”, afirma, referindo-se à Carteira de Comércio Exterior, que regeu e controlou as importações com mão de ferro entre 1953 e 1990.
Mas, na avaliação do embaixador José Botafogo Gonçalves, presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), a sombra protecionista, tão presente no século 20, ainda permanece no País, alimentada pelas demandas do setor industrial. Para Fernando Ribeiro, economista-chefe da Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (Funcex), a herança de décadas de políticas de substituição de importações pela produção nacional fez do Brasil um país fechado. O coeficiente de abertura comercial do Brasil é de 21,4% do Produto Interno Bruto (PIB), nível considerado baixo, dado o peso econômico do País. Cingapura, um dos países mais abertos do mundo, tem um coeficiente de 104%.
Esse quadro indica que há uma margem enorme para o avanço no comércio brasileiro no futuro. Mas não diminui os esforços realizados ao longo de mais de uma década. Em 1990, quando o governo promoveu uma ampla e unilateral abertura do mercado brasileiro, as exportações alcançavam US$ 31,4 bilhões, enquanto as importações chegavam a US$ 20,7 bilhões. O crescimento do comércio enfraqueceu no final da década de 90, por causa de sucessivas crises, e só se reaqueceu a partir de 2003, impulsionado por uma série de medidas para facilitar as exportações.

Estado de S. Paulo

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Cidadania: um olhar sobre o futuro

João Baptista Herkenhoff

A cidadania há de ser conquistada através da luta individual e através da luta coletiva.

Há situações concretas onde o cidadão tem de travar uma luta individual para conquistar seus direitos.

Esta luta individual, solitária, que o cotidiano da vida às vezes exige, é sempre dura e difícil.

A luta individual é mais penosa, mais longa, com possibilidade de êxito menor. Porém, se uma situação concreta reclama a luta individual, não devemos recuar diante dos obstáculos. Devemos buscar nossos direitos, custe o que custar.

Podemos renunciar a um direito por generosidade, jamais por comodismo ou apatia. Dou o exemplo: posso rasgar um documento de crédito, de que sou titular, se o devedor encontra-se numa situação aflitiva, porque o homem não pode ser lobo de outro homem. Neste ponto discordamos humildemente do grande jurista Rudolf von Ihering que, na sua obra clássica “A luta pelo Direito”, não admite a renúncia a direitos.

Sempre que for possível, devemos recorrer à luta coletiva.

Imaginemos uma situação na qual várias pessoas têm um mesmo interesse a defender perante a Justiça. Ora, será muito mais prático que se juntem para uma ação em comum do que cada um lutar separadamente.

Pela Constituição de 1988, os sindicatos, as entidades de classe, as associações, os partidos políticos podem ingressar coletivamente em Juízo em favor de centenas ou milhares de pessoas.

Para a luta coletiva, em seus diversos níveis, a sociedade tem de aprender a organizar-se. Os pleitos que se formulam de maneira atabalhoada não são vitoriosos. O planejamento, a discussão, a partilha dos problemas, a montagem de uma estratégia de luta – este me parece ser o caminho para o bom encaminhamento das causas que envolvem muitos.

Se a organização autônoma da sociedade é indispensável aos avanços sociais e às pugnas em prol da Cidadania, nem por isso o Poder Público está dispensado de fazer sua parte.

Numa sociedade democrática, os Poderes Públicos estimulam, encorajam e apóiam todo o esforço que se desenvolva no sentido da consolidação da Cidadania. Daí a importância da criação de Conselhos de Cidadania e Direitos Humanos, por iniciativa governamental, no âmbito federal, estadual ou municipal.

Também quando se trata de uma luta extrajudicial (isto é, uma luta fora da Justiça), será sempre mais eficaz a luta coletiva.

Um provérbio popular resume tudo isto que estamos dizendo: “Uma andorinha só não faz verão”.

As classes dominantes desencorajam as lutas coletivas. Com freqüência, os líderes das lutas coletivas são perseguidos, presos e até mesmo assassinados.

Também os meios de comunicação social, freqüentemente a serviço das classes dominantes, estimulam o individualismo. Citemos, por exemplo, as novelas de televisão. Com raras exceções, as histórias das novelas são simplesmente histórias individuais. Poucas vezes as novelas apresentaram as lutas coletivas, as lutas do povo. (Há honrosas exceções, por parte de alguns novelistas.)

Mesmo sendo a novela um entretenimento, pode também educar. As novelas e outros programas de televisão, com muita constância, transmitem a mensagem do individualismo. Assim atuando, dificultam o avanço político do povo. (Aqui também é preciso que se registrem as exceções, que merecem todo aplauso.)

O povo tem de aprender a vencer seus desafios, com suas próprias forças. Mesmo que o ambiente envolvente seja adverso, mesmo que a luta coletiva não seja valorizada e enaltecida, é a união que faz a força.

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Faltam 355 dias para Bush ir embora

ELIO GASPARI

Messiânico, despreparado e mentiroso, transformou sua incapacidade pessoal num problema mundial

TERMINADO O ESPETÁCULO da leitura de sua última mensagem ao Congresso, George Bush começará sua viagem de volta para o Texas. Faltam 355 dias, mas será uma satisfação acompanhar cada manhã do ocaso de um dos piores presidentes que os Estados Unidos tiveram. (Talvez tenha sido o pior, mas essa é outra conversa.) Messiânico, despreparado e mentiroso, transformou sua incapacidade pessoal num problema mundial.
Bush despediu-se com um discurso ressentido e sectário, atacando um Congresso onde a vontade do povo colocou-o em minoria. Jogou palavras de efeito em frases sem conteúdo. Mostrou-se como parte de uma “geração” que enfrentou e derrotou o terrorismo. Queimou uma palavra que John Kennedy usou magistralmente no seu discurso de posse, em 1960: “a tocha passou para uma nova geração de americanos -nascidos neste século, temperados na guerra, disciplinados numa paz amarga e dura”. Kennedy, podia dizer isso porque, como voluntário, lutou com bravura no Japão. Bush escapuliu do recrutamento que mandava a garotada para o Vietnã.
De todas as ruínas que produziu, Bush poderia esperar que a última, econômica, ficasse para seu sucessor. Enganou-se. Sua despedida poderia ter ficado à altura da crise que cevou. Nada. Limitou-se a vagas banalidades. Falou em “incerteza” e ensinou: “No longo prazo, os americanos podem confiar no crescimento econômico. No curto prazo, todos podemos ver que o crescimento está diminuindo”. A crise já é muito mais que isso.
Bush fingiu não ter percebido sua reverberação internacional. Pior: tratou do assunto como se lidasse com um meteorito que vem sabe-se lá de onde. A irresponsabilidade da banca ficou para depois. Pode-se pensar que esse distanciamento é o que se espera de conservador de boa cepa. Falso. Tomando-se o dia 19 de dezembro passado como referência (nele anunciou-se a queda de 24,2% na construção de novas casas), passaram-se 47 dias entre o início da crise e o discurso de Bush.
Entre a Quinta-feira Negra de outubro de 1929 e a leitura da Mensagem ao Congresso do presidente Herbert Hoover passaram-se 40 dias. Não vai aqui nenhuma insinuação de que as duas crises se parecem, nem que haja semelhança entre Bush e Hoover, um republicano exemplar, homem decente.
Em 1929, quando Hoover discursou na mesma tribuna ocupada por Bush, falou em risco de “depressão” e associou o colapso da Bolsa a um “excesso de otimismo” que provocou uma “especulação descontrolada”, transferindo dinheiro da produção para o mercado de papéis. Muitos historiadores sustentam que não foi a quebra da Bolsa que gerou a crise, mas Hoover foi sincero quando procurou apontar a sua causa. Bush, nem isso. Hoover não inventou guerras, mas no dia do seu discurso havia 5.000 soldados americanos na Nicarágua, no Haiti e na China.
Por conta da crise iniciada em 1929, Hoover virou um maldito. Hoje seu papel é reavaliado, para melhor. Isso não acontece porque seus erros foram menores, mas porque sua figura tinha tamanho. Referindo-se às tropas no exterior, informou: “Num sentido mais amplo, essa não é a maneira pela qual nós queremos ser representados lá fora”.
Na noite de segunda-feira, Bush permaneceu pouco mais de uma hora no plenário do Congresso. Só ficou à vontade na saída, perto da porta, quando parou para autografar cópias do discurso que acabara de ler. Sua vocação era outra.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

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Quem não sabe dançar improvisa

Hip-hop oferece aos jovens da periferia a chance da existência social

Carlos Haag

Um rapper, tão anônimo quanto sábio, afirmou que o hip-hop era “a CNN da periferia” (apesar da insistência da mídia, em especial a brasileira, em associar o movimento à violência e ao crime), ou seja, uma forma de a periferia expressar suas necessidades de classes excluídas. O hip-hop teria nascido em 1968, baseado em dois movimentos: a maneira como se transmitia a cultura dos guetos americanos e, daí o nome, no jeito da dança popular da época, que reunia saltar (hop) e movimentar os quadris (hip). Ao chegar ao Brasil, nos anos 1980, a ligação entre cultura, dança e lazer se estreitou a ponto de deixar no ar a pergunta: é um movimento cultural ou político? “Hip- hop é teres direito de discordares do que quiseres/ de certa forma é estar na política/ não aceitar tudo calado nem desenvolver consciência crítica/ o som que analisa, critica, contesta/ não te esqueças que hip-hop também é festa/ ritmo e poesia é o que nos caracteriza/ e quem não sabe dançar improvisa!”, define, com precisão, a letra de Hip-Hop, do Boss AC.

“É por meio do canto, da dança e do grafite que os participantes do hip-hop demonstram suas posições políticas e ideológicas. Para eles, o fazer político não está reservado somente para os que se especializam nessa área. Com suas rimas no rap, seus passos no break e imagens transmitidas em seus desenhos reproduzidos nos grafites, estão assumindo uma posição política e fazendo aliança com outras formas de expressão que são, a um só tempo, políticas, sociais e culturais”, explica João Batista de Jesus Felix, autor da tese de doutorado Hip-Hop: cultura e política no contexto paulistano, orientada por Lilia Schwarcz e defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Para o pesquisador, o hip-hop é um degrau a mais alcançado pela população negra e pobre brasileira que fez do seu lazer uma forma de protesto contra a violência e as condições a que são submetidos pela sociedade. “Ao saírem dos bailes e irem para as ruas, os espaços públicos, eles estavam rompendo o tênue ‘pacto social brasileiro’. A presença deles na praça era uma afronta ao nosso ‘racismo cordial’ e à idéia de que se toleram (ou não) as demonstrações deste tipo no espaço privado”, observa o pesquisador, cuja preocupação central era justamente descobrir o que esse movimento social entende por política e o que estava por trás de declarações polêmicas como do rapper Mano Brown, do Racionais MC’s, que resumiu seu trabalho de forma inusitada: “Eu não faço arte. Artista faz arte, eu faço arma. Sou terrorista”.

Assim, entender essa divisão ou dialética é essencial para a compreensão do hip-hop, para além do que retrata a mídia. “Os meios de comunicação construíram imagens e representações de uma forma muito negativa, do delinqüente juvenil, como se eles fossem uma espécie de inimigo número um das cidades”, analisa Micael Herschmann, da UFRJ, autor de O funk e o hip-hop invadem a cena. Para o professor, o divisor de águas para o movimento foram os arrastões ocorridos em Ipanema, no Rio, entre 1992 e 1993. “A partir daquele momento, com a intensa veiculação na mídia, o hip-hop adquire uma nova dimensão, colocando em discussão o ‘lugar do pobre’ no debate político e intelectual do país.” As cenas mostrando conflitos entre jovens policiais despertaram curiosidade e preconceito na sociedade sobre os movimentos da juventude da periferia. “Optou-se, em muitos casos, pelo medo, quando o lado político do hip- hop é de conscientização, de criação de alternativas para os jovens da periferia não caírem no crime e nas drogas.” Ou, nas palavras do antropólogo Luiz Eduardo Soares, “o hip-hop acena com a paz politizada, que se afirma com a agressividade crítica, isto é, com estilo afirmativo do orgulho reconquistado”. Para muitos, porém, essa postura radical fez com que fosse visto como violento.

“O hip-hop surgiu no Brasil de maneira ‘parcelada’, isto é, seus diferentes elementos foram sendo adotados por pessoas que não viam maiores ligações com a dança que praticavam nos bailes black, que, antes do surgimento do movimento, não assumiam posição política contestadora explícita”, avalia Felix. “O que não significa que eram ações sociais simplesmente com a função de divertir, sem outra conseqüência. Afinal, em nosso país, o break e o rap surgiram em locais de lazer e distração da população negra e pobre, que ia a esses lugares porque se sentia entre iguais, sem se preocupar em ser tratada como inferior pelos demais.” Essa junção entre divertimento e contestação foi fundamental para a escalada do movimento negro, cujas raízes remontam à Frente Negra Brasileira (FNB), fundada em 1931, que defendia que “os negros deveriam assumir as etiquetas comportamentais da ‘boa sociedade’, o que equivalia a dizer ‘branca’, para que pudessem ser incorporados ao social brasileiro”. Os bailes da FNB, observa Felix, complementavam as atividades políticas de defesa da comunidade negra, embora fossem vistos como “apêndices”, e não como instrumentos na construção da identidade dos negros. O lazer, para eles, não contava na luta contra a discriminação.

Surgido nos anos 1940, o Teatro Experimental do Negro (TEN) era o seu oposto, apostando no resgate dos valores da cultura negro-africana como remédio contra o racismo. É com esse espírito que surgiram, nos anos 1960, o Aristocrata Clube, freqüentado pela classe média negra, e o Clube 220, para os trabalhadores e funcionários públicos. “O fato de tanto a FNB como o Aristocrata e o Clube 220 usarem os bailes em suas atividades mostra como o lazer tinha um significado para a população negra e que esses bailes serviam como veículo para reflexão, isto é, ‘eles são bons para pensar’, componentes interessantes no processo de criação da identidade negra”, explica o pesquisador. Outro exemplo de arte mobilizada politicamente foi o samba cuja nacionalização, na contramão do esperado, “foi um processo de manipulação das elites e contou com a participação de vários sambistas conscientes das vantagens sociais que poderiam obter”. Assim, a elevação do samba ao trono de “ritmo nacional” só ocorreu porque fazia parte da lógica de que no Brasil existia, de fato, uma “democracia racial”.

Assim, nota o pesquisador, se o uso da cultura afro-brasileira em termos políticos não é novidade na nossa história recente, o hip-hop inova pela forma e pelo paradigma que adotou já nos bailes black, dos anos 1970, muitos artistas como Tim Maia e Jorge Benjor, após viajar aos EUA e ver como os cantores negros aproveitavam as manifestações artísticas para “fazer discursos a seu público”, passaram também a falar sobre questões raciais, embora centrando em temas menos contundentes do que o racismo, como a beleza negra etc. “Esses espaços foram locais de práticas políticas, pois neles as pessoas podiam construir suas identidades, mesmo que, apenas dançando e ouvindo músicas, se sentissem menos discriminadas, numa alternativa ao racismo cotidiano, pois nesse lugar não se reporia a hierarquia racial presente no dia-a-dia”, analisa o pesquisador. Segundo ele, no início do século XXI, vê-se que tanto o samba como a música negra internacional tocada nos bailes black se prestam à construção de uma identidade negra contemporânea entre jovens da cidade de São Paulo. “À primeira vista, parece que o público estava nos bailes black totalmente alienado sobre as lutas pela democratização da nossa sociedade. Uma análise mais minuciosa revela que eles procuravam, de outra forma, encontrar condições para aumentar a inclusão dos negros na mesma sociedade.”

Mas não é tão fácil dançar essa música, por melhor que ela soe aos ouvidos dos excluídos. “É conflitante para um jovem da periferia abraçar o discurso ‘consciente’, pacifista, antidrogas do hip-hop e viver em situações concretas de extrema violência policial, de convivência com traficantes e de puro e simples desespero existencial”, conforme citação de Arnaldo Contier, professor de história da USP, em seu artigo “O rap brasileiro e os Racionais MC’s”. Contier lembra que o hip-hop chegou ao Brasil em inícios da década de 1980 por meio do break, paradoxalmente trazido por agentes sociais das camadas mais ricas da sociedade. “Alguns brasileiros que viajavam para o exterior ao retornarem ao Brasil introduziram o break nas danceterias dos bairros nobres de São Paulo, logo transformado em modismo entre os jovens de classe média”, conta. Posteriormente, continua, é que o break conquistou as ruas e as camadas dos excluídos da cidade por meio da formação de grupos de baile, que se reuniam na praça Ramos e, depois, nas proximidades das galerias de lojas de discos da rua 24 de Maio. O ideal do rap politizado foi apresentado pelo Racionais em janeiro de 1988 num show no Parque do Ibirapuera. O movimento se expandiu pela cidade e surgiu, ainda naquele ano, a primeira posse, na praça Roosevelt, no centro de São Paulo.

O termo se refere a organizações que congregam grupos e pessoas que praticam algum dos quatro elementos do hip-hop: a presença dos DJs, os responsáveis pela base musical na manipulação das velhas pick-ups (os toca-discos desprezados pela elite com a chegada do CD); o MC, a pessoa que fala ou canta a poesia (ao lado do DJ, ele desenvolve o rap, abreviação de rhythm and poetry); o break, dança que, reza a lenda, foi inspirada nos movimentos dos mutilados do Vietnã e que, observa o pesquisador, mostra como os praticantes “usam seu corpo como se ele fosse seu único capital cultural”; e, por fim, o grafite, expressão de arte de rua explícita cuja proposta é a divulgação, da maneira mais ampla, dos ideais do movimento. A primeira posse foi batizada de Sindicato Negro, o que, afirma Felix, demonstra a preocupação mais direta com a questão racial. “Com o surgimento do Sindicato tem início, de fato, o hip-hop no Brasil. Antes dele o rap, o break e o grafite eram praticados somente quando havia uma ligação orgânica entre eles. A possibilidade de ‘amarrar’ essas expressões culturais só surgiu com essa primeira posse.”

Antropofagicamente, o movimento de raízes americanas ganhou novo espírito no Brasil. “Nos EUA, o hip-hop surgiu nos bairros e depois ganhou lugares mais privilegiados das cidades, enquanto em São Paulo ocorreu o oposto: primeiro ele acontece nos bairros da periferia, posteriormente se organiza no centro e depois vai para os bairros e lá cresce e conquista sua legitimidade social e política. Atualmente abre, cada vez mais, espaços entre as classes média e alta.” O hip-hop igualmente inova na forma em que pretende quebrar paradigmas. “Depois que o ‘choque de gerações’ foram superados e os ‘rebeldes sem causa’ foram pacificados pelas tentações da sociedade de consumo, eles se levantam para apresentar ao mundo uma nova pauta de exigências que querem ver materializada imediatamente”, observa o historiador Rafael Lopes de Sousa, que está terminando seu doutorado na Unicamp sobre a “República dos manos”. “Reivindicar mudanças imediatas requer organização e pensar em modelos a serem seguidos. Mas no caso do hip-hop, o engajamento não foi tutelado por nenhum modelo cêntrico, mas, ao contrário, pela arte da dispersão e pela capacidade de desfazer aparências que os jovens criaram em suas manifestações, a fim de escapar do controle.” Assim, é justamente o isolamento social que tem, paradoxalmente, se transformado em estimulantes poderosos para uma criatividade emancipatória sem precedentes na periferia de São Paulo.

“Se, nos anos 1970, os agrupamentos juvenis se dividiam entre os engajados políticos e os espontâneos das comunidades hippies, nos dois casos jovens de classe média, a partir do hip-hop o desejo de mudança, em oposição às dimensões políticas que orientavam as gerações anteriores, centra-se no aparecimento espetacular no espaço público, que envolve uma estratégia de choque pela apresentação do inusitado e da agressão”, observa. Desenvolve-se, assim, nota o historiador, uma nova modalidade de resistência dos indivíduos que, descrentes das utopias e alijados da participação cívica, forjam práticas desviantes e “subversivas” dos caminhos propostos à integração social. É a legítima ira social que canta e exige mudanças, uma cobrança, nota Micael Herschmann, que “abandona a costumeira cordialidade do homem brasileiro”. São jovens, sim, mas não adolescentes típicos. “Essas experiências de jovens organizando movimentos sociais se contrapõem à idéia de adolescência como uma fase de rebeldia que antecede a entrada no mundo adulto. No caso dos ‘manos’, são mais experiências educativas e formativas, como muitas outras que os sujeitos vivenciam na sua trajetória de vida”, explica Rosangela Carrilo Moreno, do Grupo de Pesquisa sobre Instituição Escolar e Organizações Familiares, da Faculdade de Educação da Unicamp, e autora do artigo “Práticas educativas de protesto na adolescência”.

Manos unidos em tribos de criatividade. “A partir do hip-hop as ‘culturas das favelas’ aparecem não simplesmente como um subproduto da violência social do país, mas como uma produção e um discurso capazes não só de espelhar a realidade dura, mas que também exprimem a reivindicação da ampliação da cidadania ao segmento social que habita essas áreas urbanas”, observam Ivana Bentes e Micael Herschmann, ambos da UFRJ, no artigo “O espetáculo do contradiscurso. Espetáculo?” .“Da moda ao ativismo, da atitude à música e ao discurso sociopolítico, vemos emergir novos sujeitos do discurso, que saem de territórios estigmatizados da cidade e ascendem à esfera midiática, trazendo um discurso renovado, distante das instituições políticas mais tradicionais e próximo da esfera da cultura.” É preciso aparecer para apresentar, como diz o nome do rapper MV (mensageiro da verdade) Bill. “Após a crise das vanguardas artísticas e intelectuais dos anos 1970, os protagonistas do hip-hop emergiram com os novos intelectuais locais, orgânicos, forjados ao longo dos anos 1980 e especialmente dos anos 1990, no bojo de uma cultura popular ou minoritária já não idealizada pelas vanguardas e com maior autonomia”, avaliam os autores. Em resumo, notam, assistimos à emergência de um discurso sociopolítico nascido na própria cultura da periferia e “traficado” crescentemente pelo mercado.

“Portanto, essa manifestação assume um caráter político, pois é por meio dela que a juventude periférica se mostra e representa discursivamente a forma pela qual entende a si própria e a realidade na qual está inserida. Desse modo, retira da invisibilidade pública inúmeros jovens, ‘olhados sem ver’ como ‘perigosos’”, afirma a doutora em lingüística da Unicamp Adriana Carvalho Lopes em seu artigo “A transgressão do sujeito racializado no discurso do hip-hop brasileiro”. Para ela, essa incapacidade de “ver” fundamenta-se num argumento que encontra na “cor da pele” a sua principal justificativa.

“O hip-hop reinventa a negritude, transgride as imagens opressoras atribuídas pela sociedade à juventude periférica e, assim, lhe oferece possibilidade de existência social. Daí o movimento ter como objetivo uma transformação simbólica da sociedade, alterar algumas representações que definem a realidade social e os sujeitos que dela fazem parte.” A oferta é irrecusável: novas possibilidades de interpretação do mundo e das identidades e uma cidadania conseguida por esforço próprio. Tudo fruto de uma notável aliança entre cultura e política. “Procure a sua paz. Não se acostume ao cotidiano violento, que esta não é a minha vida, esta não é a sua vida. Cheguei aos 27 anos, sou um sobrevivente. Vinte sete anos contrariando as estatísticas”, avisa Mano Brown em Fórmula mágica da paz. Quem não sabe dançar improvisa.

Revista da FAPESP
http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

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Como a elite anglo-americana partilha os seus ‘valores’

John Pilger

Quando o primeiro-ministro Gordon Brown referiu-se recentemente à devoção do seu governo para com os Estados Unidos, “fundamentada nos valores que partilhamos”, estava a reflectir o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Kim Howells, o qual preparava-se para dar as boas vindas ao ditador saudita na Grã-Bretanha com efusões de “valores partilhados”. O significado foi o mesmo, em ambos os casos. Os valores partilhados são os do poder e da riqueza predatória, ignorando democracia e direitos humanos, como confirmam o banho de sangue no Iraque e o sofrimento dos palestinos, para mencionar apenas dois exemplos.

Os “valores que partilhamos” são celebrados por uma sombria organização que acaba de efectuar a sua conferência anual. É o British-American Project for the Successor Generation (BAP), estabelecido em 1985 com dinheiro de um trust de Filadelfia com um longo historial de apoio a causas da extrema-direita. Embora o BAP não reconheça publicamente a sua origem, a fonte da sua inspiração foi um apelo do presidente Reagan em 1983 para que as “próximas gerações” em ambos os lados do Atlântico “trabalhassem juntas no futuro em assuntos de defesa e segurança”. Ele fazia numerosas referências a “valores partilhados”. Compareceram a esta cerimónia na Sala de Situação da Casa Branca estavam os ideólogos Rupert Murdoch e o finado James Goldsmith.

Como esclareceu Reagan, a necessidade do BAP surgiu da ansiedade de Washington acerca da crescente oposição britânica às armas nucleares, especialmente quanto ao estacionamento de mísseis de cruzeiro na Europa. “Uma preocupação especial”, disse ele, “serão as próximas gerações, quando estas pessoas mais jovens tiverem de trabalhar juntas no futuro sobre questões de defesa e segurança”. Uma nova, preferivelmente jovem, elite – jornalistas, académicos, economistas, “sociedade civil” e líderes liberais da comunidade de um tipo ou de outro – compensariam o crescente “anti-americanismo”.

Os objectivos desta rede moderna, segundo David Willetts, o antigo director de estudos do Centre for Policy Studies, de extrema-direita, agora membro do gabinete sombra Tory, são simplesmente “ajudar a reforçar ligações anglo-americanas, especialmente se alguns membros já ocuparam ou ocuparão posições de influência”. O antigo embaixador britânico em Washington, sir John Kerr, foi mais directo. Num discurso a membros do BAP, ele afirmou que “a poderosa combinação de pessoas eminentes e de estreitas ligações atlânticas” desta organização “ameaçavam deixar a embaixada sem tarefas”. Um organizador americano do BAP descreve a rede como comprometida com a “preparação de líderes” ao mesmo tempo que promove a “o papel de liderança global que [os EUA e a Grã-Bretanha] continuam a desempenhar”.

Os alunos britânicos do BAP são retirados em grande parte do novo Labour e da sua corte. Não menos de quatro “companheiros” do BAP e um conselheiro tornaram-se ministro no primeiro governo Blair. Os nome do novo Labour incluem Peter Mandelson, George Robertson, Baronesa Symons, Jonathan Powell (chefe de gabinete de Blair), Baronesa Scotland, Douglas Alexander, Geoff Mulgan, Matthew Taylor e David Miliband. Alguns são membros da Sociedade Fabiana e descrevem-se a si próprios como sendo “de esquerda”. Trevor Philips, presidente da Comissão de Igualdade e Direitos Humanos, é outro membro. Eles objectam quanto aos boatos de “uma conspiração”. A origem (mutuality) de classe ou de aspirações é simplesmente assegurada, sem ser mencionada, e o abraço cálido do poder faz o resto.

A conferências BAP são realizadas alternadamente nos EUA e na Grã-Bretanha. A deste ano foi em Newcastle, com o tema “Fé e Justiça”. Na direcção estado-unidense está Diana Negroponte, a esposa de John Negroponte, o antigo chefe da segurança nacional de Bush notório pela sua associação com a política dos esquadrões da morte na América Central. Ele seguiu outro destacado neocon, Paul Wolfowitz, o arquitecto da invasão do Iraque e desacreditado responsável do Banco Mundial. Desde 1985, “alunos” e “veteranos” do BAP tem sido reunidos por cortesia da Coca-Cola, Monsanto, Saatchi & Saatchi, Philip Morris e British Airways, dentre outras multinacionais. Nick Butler, ex-líder da BP, tem sido a luz condudora.

Para muitos, as conferências contem prazeres revivalistas afinados por técnicas americanas de RP, com jogos de administração, apresentações pessoais e uma linda revista de encerramento para aliviar dos negócios sérios. O relatório da conferência de 2002 observou: “Muitos graduados do BAP estão envolvidos directamente com instituições militares e de defesa dos EUA e do Reino Unido”.

O BAP raramente recebe publicidade, o que pode ter algo a ver com a alta proporção de jornalistas que são graduados. Destacados jornalistas do BAP são David Lipsey, Yasmin Alibhai-Brown e um conjunto sortido de murdochistas. A BBC está bem representada. No popular programa Today, James Naughtie, cujas emissões reflectem os seus próprios interesses transatlânticos, foi aluno desde 1989. A nova voz do Today, Evan Davis, anteriormente o cuidadoso editor de economia da BBC, é membro. E no topo do sítio web do BAP está uma fotografia do famoso locutor da BBC Jeremy Paxman, com o seu endosso. “Um meio maravilhoso de reunir uma amostragem variada de amigos transatlânticos”, diz ele.

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Ações do documento “A violência institucional é uma política que não depende dos governos”, diz Paulo Arantes

Para o filósofo, o Estado de Direito encontra-se à deriva no mundo inteiro: “ainda é norma incontornável, porém cada vez mais inefetiva”

da redação

“Tortura-se desde sempre em qualquer cadeia pública brasileira. O escândalo dos anos de chumbo é que esta prática se estendeu aos brancos de classe média politicamente radicalizados. Quer dizer, o que havia de chocante era a inédita ampliação das classes torturáveis brasileiras, até então seletivamente restritas aos pobres, negros e presos”. A opinião é de Paulo Arantes em entrevista especial, por e-mail, à IHU On-Line.

Segundo ele, “a violência institucional ilegal é exercida hoje como uma política sistêmica”. Tanto é assim que, constata o filósofo, que “os governos não fazem mais a diferença. Foi assim com o FHC, e continua agora com o Lula, ambos equipados não obstante com os melhores secretários de direitos humanos disponíveis no mercado de ativistas bem intencionados”.

Paulo Arantes é graduado em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), doutor pela Universidade Paris X, Nanterre, com a tese Hegel: l’ordre du Temps (Paris: Harmattan, 2000), também disponível em português: Hegel: a ordem do tempo (2. ed. São Paulo: Hucitec, 2000). Arantes é docente emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, departamento de Filosofia da USP. Escreveu inúmeras obras, das quais destacamos Um departamento francês de ultramar (São Paulo: Paz e Terra, 1994); Ressentimento da dialética (São Paulo: Paz e Terra, 1996); e Extinção (São Paulo: Boitempo, 2007).

Considerando os últimos acontecimentos no Brasil, como a prisão da menor L. em uma cela masculina, o ataque a mendigos e a morte de crianças indígenas por desnutrição, como o senhor avalia o cumprimento dos direitos humanos em nosso país? Concorda com a declaração da ONU de que no Brasil podem estar havendo atos de tortura?

Paulo Arantes - As barbaridades que você acaba de evocar dentre os descalabros mais recentes em foco na mídia – e bastaria apenas uma, como disse certa vez Borges , interrompendo um relato de atrocidades perpetradas pela ditadura argentina – dão bem uma idéia do novo ciclo histórico de violência que paradoxalmente se abateu sobre o Brasil desde o fim do regime militar. Registro de violações como o da ONU sempre ajudam, mas acabam contribuindo para a anestesia geral na medida em que tudo acaba virando uma questão de indicadores mais ou menos desalentadores.

Comecemos pelo básico: tortura-se desde sempre em qualquer cadeia pública brasileira. O escândalo dos anos de chumbo é que esta prática se estendeu aos brancos de classe média politicamente radicalizados. Quer dizer, o que havia de chocante era a inédita ampliação das classes torturáveis brasileiras, até então seletivamente restritas aos pobres, negros e presos. Não deixa de ser inquietante reparar que é precisamente esta a circunstância histórica que viu nascer o que viria depois a se institucionalizar como uma política de direitos humanos e igualmente não por acaso desde então acoplada à eterna promessa de uma “verdadeira” política de segurança pública, em contraposição à usual, baseada na escalada punitiva, desde o enfrentamento tipo “guerra urbana” até o endurecimento contínuo da execução penal. Voltando ao básico.

Nunca é demais lembrar que o gatilho da violência institucional ilegal contra os de baixo no Brasil foi disparado no momento em que o Código Criminal dos primeiros tempos do país independente restabeleceu a tortura e a punição sem encarceramento dos escravos, de cuja força de trabalho seus proprietários não poderiam ser privados. Vem dessa atualização liberal do escravismo a tradição de uma polícia com plenos poderes de arbítrio, até às prerrogativas de vida e morte que vemos hoje. Essa, a matriz histórica da catástrofe humanitária em que o Brasil está se tornando. Resta a contribuição da regressão global em curso, a confluência do grande capital corporativo com o sistema local da violência: penso, por exemplo, no episódio de alguns anos atrás, quando se verificou que um hiper-mercado Carrefour havia contratado seus serviços de segurança junto ao tráfico numa favela ao lado. Parcerias.

O que a postura das autoridades de segurança e saúde revela sobre a estrutura política do governo Lula a respeito desses temas?

Paulo Arantes - Mostra que os governos não fazem mais a diferença. Foi assim com o FHC, e continua agora com o Lula, ambos equipados não obstante com os melhores secretários de direitos humanos disponíveis no mercado de ativistas bem intencionados. Que a violência institucional ilegal é exercida hoje como uma política sistêmica. E não adianta dizer que as coisas mudarão quando forem enfim controladas e unificadas as vinte e sete polícias autônomas dos 27 estados, que além do mais são três, federal, militar e civil. Já é assim na Colômbia (polícia unitária e exército dando combate direto ao narcotráfico). Mas, por acaso, mano dura com obras públicas, isto é, o modelo Medellín – é o que se está buscando? Não é só no Brasil que nos defrontamos com um Estado de Direito cuja polícia pode agir como um grupo de extermínio.

O Estado de Direito encontra-se à deriva no mundo inteiro: ainda é norma incontornável, porém cada vez mais inefetiva. Nos países centrais, tornou-se quando muito uma ordem política mínima encarregada de tutelar os direitos subjetivos para o terço superior da população entrincheirado na fortaleza do conforto material capitalista. Pelo menos é assim que raciocina um jurista como Danilo Zolo: o Estado de Direito continua insubstituível e em vigor, mas tudo se passa como se estivesse suspenso.

Que contradições o senhor percebe entre a duplicação do orçamento para rearmar o exército brasileiro a fim de defender nossas fronteiras e a situação da segurança pública nacional, mal-equipada e muito mais reativa do que preventiva?

Paulo Arantes - Nenhuma. A fronteira que realmente conta é interna e social, a função de polícia das forças armadas é questão de tempo, e está sendo testada no laboratório cruento do Haiti. Quanto ao descalabro da segurança pública nacional, não é uma questão de maior ou menor dotação orçamentária. Um aparato policial bem equipado continuaria amalgamando os ilegalismos, em cujo limiar os pobres estão condenados a sobreviver, com a condição descartável de indivíduos fora do direito.

Como o senhor conecta a situação social brasileira com a situação mundial da globalização, sobretudo de mazelas como a violência, fome e educação precária? Esses problemas tendem a se aprofundar ou é possível vislumbrar uma solução?

Paulo Arantes - Se fosse realmente para valer, a declaração da ONU deveria reservar um tópico especial para os Estados Unidos, a globalização da tortura e crimes conexos, como seqüestro de suspeitos e a proliferação de campos em que prevalece a lógica da exceção. O que era operação encoberta durante a Guerra Fria tornou-se objetivo explícito de memorandos oficiais legitimadores do limbo jurídico para o qual se está empurrando uma espécie de classe torturável global, algo como uma humanidade excedente em que todos são a rigor clandestinos. Daí a guerra suja de contenção permanente desse povo subterrâneo e o decorrente embrutecimento do conjunto da sociedade.

Qual deveria ser a postura dos intelectuais sobre temas como os direitos humanos e segurança pública? Nesse sentido, como o senhor percebe o caso brasileiro?

Paulo Arantes - O Estado hoje é a um só tempo, e cada vez mais, penal e social. A massa carcerária barbarizada aumenta na mesma proporção dos pobres assistidos. Além de vigiar e punir, é preciso “cuidar”. Novos fatores de risco e populações vulneráveis exigem novos gestores dessas emergências. Daí o número proliferante de núcleos de estudo da violência que já não se distinguem mais de agências ideológicas da Lei e da Ordem, assim como o Terceiro Setor vai tocando programas em que direito se confunde com prestação de serviço. Se um militante dos direitos humanos também se encarrega de segurança pública, só um doido recusaria este tipo ideal. Um cínico diria, porém, que ele oferece a vantagem suplementar de livrar da má consciência o atual esforço punitivo, enquanto acena para o povo dos porões com a eventualidade de uma janela na mídia das violações espetaculares.

Jornal Brasil de Fato
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Previdência tirou 881 mil da pobreza, afirma estudo

Redução do número de pobres cresce de 21 mi, em 2005, para 21,9 mi, em 2006. Ministério reconhece porém que ainda existem no país 32,7 milhões de pessoas que não estão protegidas pela Previdência Social.

JULIANNA SOFIA

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Um contingente adicional de 881 mil brasileiros deixou a pobreza em 2006 em relação ao ano anterior por conta dos benefícios pagos pela Previdência e Assistência Social, segundo estudo divulgado ontem pelo Ministério da Previdência.
Em 2006, os benefícios previdenciários permitiram a redução do número de pobres no país em cerca de 21,9 milhões de pessoas. Em 2005, a renda previdenciária e assistencial retirou da pobreza pouco mais de 21 milhões. É nessa diferença que estão as 881 mil pessoas.
O estudo ainda mostra que no Brasil existem 32,7 milhões de pessoas “socialmente desprotegidas”, ou seja, não são cobertas pela Previdência. Os dados não consideram os beneficiários do Bolsa Família.
O governo federal comemorou os novos números sobre o impacto da Previdência Social na redução da pobreza no país e atribuiu o feito ao aumento do poder de compra do salário mínimo e à melhoria na distribuição de renda.
“Se não houvesse a Previdência, o total de pessoas abaixo da linha de pobreza seria muito maior”, afirmou o ministro Luiz Marinho (Previdência).
Para o pesquisador do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) Sergei Soares, no entanto, a redução observada em 2006 foi modesta quando comparada com o total de pessoas que deixaram a pobreza por vários fatores no ano.

Critério
Com base no critério adotado pela Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) para definição de pobreza, afirma ele, em 2006 saíram dessa condição 8 milhões de brasileiros.
“Mas isso não me surpreende. O salário mínimo, que é o indexador da Previdência, não tem muito mais fôlego para reduzir a pobreza, quando se considera níveis mais elevados e não a pobreza extrema”, afirma Soares. “Isso não tira o mérito da Previdência na redução da pobreza. Sem esses benefícios, haveria uma enxurrada de velhinhos pobres”, declarou.
O estudo da Previdência, elaborado a partir das informações da Pnad (Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios) de 2006, ainda traça o perfil do trabalhador “socialmente desprotegido”. Em geral são homens que moram nas regiões Norte ou Nordeste, atuam na construção civil, serviços ou comércio e têm entre 16 e 24 anos. Além disso, são assalariados sem carteira ou trabalhadores por conta própria que ganham até dois salários mínimos.
Do total de trabalhadores da população ocupada entre 16 e 59 anos, 29,03 milhões encaixam-se nesse perfil. Os “socialmente desprotegidos” acima de 60 anos são 3,68 milhões, segundo os dados da Previdência.

Desprotegidos
Na comparação com 2005, o número de desprotegidos registrados no ano passado chega a aumentar em 600 mil pessoas. O secretário de Previdência Social, Helmut Schwarzer, explica, porém, que esse aumento se deve ao crescimento da população.
Em termos relativos, destaca o secretário, houve uma redução dos “socialmente desprotegidos”. No caso da população ocupada, o número caiu de 36,5% para 35,9%.
Marinho disse que a tendência é que o Brasil recupere nos próximos quatro anos o nível de cobertura social que tinha no início da década de 90.
Em 1992, o país exibia um patamar de cobertura social de 66,4%. Em 2002, foi registrada a menor taxa: 61,7%. Desde então, destaca o ministro, iniciou-se um processo de recuperação. Em 2006, o nível de cobertura ficou em 64%.

Jornal Folha de S. Paulo
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No que se parecem

L. F. Veríssimo

No que Kaká e Tom Cruise se parecem? Os dois são admirados pelo que fazem e criticados pelo que acreditam. Não seriam criticados pelo que acreditam se não fossem artistas conhecidos com caras de bons moços. Um declara que pertence a Jesus, o que não deixa de ser elogiável nesta época em que tantos jogadores de futebol pertencem a empresários nem sempre escrupulosos, mas os líderes da sua igreja, a Renascer em Cristo, estão tendo que explicar à justiça americana o que fazem com o dinheiro dos fiéis. O outro é hoje o mais conhecido adepto da Cientologia, uma mistura de religião, filosofia e negócio de auto-ajuda que saiu pronta da cabeça de um escritor de ficção científica, entre outras coisas, chamado L. Ron Hubbard, nos anos 50. Ninguém teria nada a ver com a religião dos moços se eles não fossem celebridades e sua notoriedade não servisse para propagar suas crenças no mínimo discutíveis. Mas a discussão é boa: o que torna uma crença mais, digamos, exótica do que outra? É fácil lamentar a exploração da fé de certas seitas neopentecostais e ridicularizar as esquisitices da Cientologia, mas todas as religiões do mundo exigem a mesma suspensão do bom senso dos seus seguidores. O que católicos, protestantes históricos, muçulmanos e judeus precisam acreditar para serem fiéis sinceros só perde em estranheza para as novas igrejas porque suas religiões são mais antigas. A mais jovem delas tem quatro séculos. Todas têm a respeitabilidade indiscutível que vem com a idade. Nada a ver com a Igreja da Boa Vida em Miami apoiada por Kaká ou a invenção autopromocional de um excêntrico que Tom Cruise e outros em Hollywood (John Travolta, por exemplo) promovem. Mas com o tempo, apesar de suas doutrinas e práticas, estas também serão instituições antigas, e respeitáveis.

No que Jerome Kerviel, responsável por um rombo de 50 bi euros no banco Société Générale da França, se parece com o anônimo milionário da Arábia Saudita que encomendou o roubo dos quadros de Picasso e Portinari do Masp?

Se tivessem ficado com o produto do roubo, nenhum dos dois poderia ostentá-lo. Nada que Kerviel fizesse com o dinheiro desviado, mesmo que doasse ou queimasse a maior parte e ficasse só com um bi ou dois para os croissants deixaria de chamar atenção. O milionário saudita só poderia pendurar os quadros no seu quarto ou no seu banheiro e jamais mostrá-los em público. Mas nem o francês, pelo que se sabe até agora, queria ficar com o dinheiro nem o saudita tinha intenção de exibir os quadros. Os dois foram movidos pelo amor à arte. No caso do francês, a arte de manipular bilhões com o teclado de um computador e descobrir até onde poderia ir com o seu poder mágico antes de chegar ao absurdo, no caso do saudita a arte pela arte, pelo puro deleite da contemplação solitária. Dois heróis - ou que outro nome mereçam - do nosso estranho tempo.

Jornal Estado de S. Paulo
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O fim dos tratados de controle de armas: adeus à segurança da Guerra Fria

O sistema que garantiu a estabilidade militar entre Leste e Oeste desmorona

Andrea Rizzi

A arquitetura de segurança internacional estabelecida durante a Guerra Fria e nos anos 1990 com a assinatura de um complexo emaranhado de tratados sobre controle de armas está desmoronando.

Todos os principais pilares dessa estrutura tremem sob a pressão de novas relações de força que se afirmaram, ou pretendem se afirmar, no tabuleiro mundial. A suspensão da aplicação do Tratado sobre Armas Convencionais decidida pela Rússia é só um elemento de um conjunto de atritos que também afetam os tratados sobre armas nucleares intermediárias e intercontinentais. “A medida é mais um passo, uma conseqüência lógica de uma dinâmica que começou em 2002, quando Washington se retirou do Tratado Antimísseis Balísticos”, comenta Oksana Antonenko, analista do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos em Londres. “O governo Bush deixou claro então que não apostava nesse emaranhado de tratados, e a única coisa surpreendente na reação de Moscou é que tenha demorado tanto”, argumenta Antonenko.

“Trata-se de um sistema pensado para um mundo bipolar que já não existe. Mas seria um erro pensar que não faz mais sentido. É preciso adaptá-lo”, considera Kart Kaiser, professor da Universidade de Harvard. “EUA e Rússia continuam mantendo arsenais nucleares muitas vezes maiores que os de todos os outros juntos.”

O motivo de discórdia oficial em torno do Tratado de Armas Convencionais é que os países da Otan não ratificaram a revisão acordada depois da desintegração do Pacto de Varsóvia. O Kremlin denuncia que sem a ratificação há vários países ex-comunistas -por exemplo, os bálticos- que ficam de fato com as mãos livres. A Otan justifica sua posição alegando que a Rússia descumpriu o compromisso de retirar suas tropas da Abcázia (Geórgia) e de Transdniester (Moldávia).

O atrito é só a ponta de um iceberg. “As forças convencionais em si -tanques, artilharias, etc.- já não têm relevância estratégica”, comenta Antonenko. Outra coisa, por exemplo, é a vontade dos EUA de instalar mísseis e radares na Polônia e na República Checa para seu escudo espacial. Ou os contrastes sobre tratados nucleares.

“A Rússia manteve um perfil discreto durante muito tempo. Foi paciente, apesar da atitude expansionista da Otan. Agora seus progressos econômicos respaldam posições de maior firmeza na defesa de seus interesses nacionais”, observa Vladimir Orlov, presidente do Centro de Estudos Políticos em Moscou. O Kremlin mostra os músculos.

“Nesse movimento devem-se levar em conta algumas coisas. Apesar do crescimento, o PIB russo tem praticamente o mesmo tamanho que o da Holanda. Isso esclarece as relações de força”, indica José Ignacio Torreblanca, diretor do Conselho Europeu sobre Relações Exteriores em Madri. “A Rússia, que além disso é um país em declínio demográfico, não tem força para financiar um gasto militar realmente ameaçador.”

“Por outro lado”, continua Torreblanca, “creio que a atitude russa em relação ao exterior corresponde em grande medida a motivações de política interna. Essa atitude produz consenso político. Mas acentua o retrocesso da ordem multilateral a que assistimos. Retrocesso para o qual os EUA também contribuem. O mundo está se obscurecendo.”

Nesse quadro, os analistas concordam em salientar a relevância das tensões ao redor do Tratado sobre Armas Nucleares Intermediárias. Com esse acordo bilateral, Moscou e Washington pactuaram a eliminação dos arsenais de mísseis com alcance entre 500 e 5.500 km. O Kremlin pede uma internacionalização do acordo, alegando que enquanto a Rússia está de mãos atadas seus países vizinhos podem desenvolver livremente seus arsenais. “É claro que há um problema aí. A Rússia destruiu seu arsenal e agora se preocupa com a China, Índia, Paquistão, Irã”, comenta Kaiser. “Um novo tratado que preveja a eliminação é impossível, esses novos países não aceitariam destruir suas armas nucleares. Mas é possível pensar em um novo tipo de disciplina que torne o cenário mais estável. Penso em normas que permitam inspeções, transparência. Inclusive estabelecer limites legais; por exemplo, cem ogivas para cada país.”

Kaiser está convencido de que, apesar de haver “novos atores, e até atores não-estatais com armas de destruição em massa”, os sistemas de controle de armamentos não devem ser abandonados. Acredita que uma mudança de rumo em Washington permitiria reatar o diálogo com eficácia. Antonenko, por sua vez, se diz totalmente “cética” sobre a possibilidade de que sistemas desse tipo possam ter sentido em “um mundo tão fragmentado quanto o atual”.

El País
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O mito e o real

Gianni Carta

Marcado por protestos em várias partes do mundo, o ano de 1968, o mais simbólico do século XX, tem sua importância reavaliada por historiadores e protagonistas

Quarenta anos atrás, manifestações sacudiram o planeta, mulheres e negros lutaram pelos seus direitos civis, os assassinatos de Martin Luther King e Robert Kennedy traumatizaram os Estados Unidos, os soviéticos invadiram Praga, e criou-se a impressão de que o mundo mudava. No entanto, neste aniversário do lendário ano de 1968 não se sabe ao certo se vale a pena assoprar velas.

Dentro de três meses, saberemos como a França se comportará. A mítica revolta de maio de 68 foi iniciada por um punhado de alunos da Universidade de Nanterre, Paris, insatisfeitos com o “sistema” autoritário e com a burocracia responsável pelo financiamento da instituição. Nanterre, sob a liderança do franco-alemão Daniel Cohn-Bendit (teria sido seu papel amplificado pela mídia, minimizando, assim, a participação de outros líderes apolíticos ou filiados a partidos e sindicatos?), teria engatilhado mais enfrentamentos quase-revolucionários Europa afora e na América Latina.

De modo geral, tratava-se de uma juventude disposta a se rebelar contra a rigidez da polícia, das administrações universitárias e de seus pais. Mas o mais sólido elo entre manifestantes de diversos países foi a oposição à guerra no Vietnã. Por que, então, quatro décadas após aquele marcante ano, tantas dúvidas sobre como interpretá-lo permanecem sem respostas?

Em May 68: A Contested History, a avaliação do historiador Chris Reynolds, da Nottingham Trent University, do Reino Unido, é válida também para certos países. “Quando consideramos os eventos (na França), suas conseqüências, interpretações ou explicações, é bastante difícil, se não impossível, de se chegar a um real consenso”, argumenta Reynolds.

Um exemplo de falta de consenso é sobre o papel da polícia, em particular das Companhias Republicanas de Segurança (CRS), no confronto com os estudantes em Paris. Após o sumiço do presidente Charles de Gaulle (ele pretendia renunciar ao rumar com a família para Baden-Baden, ou criar suspense?), e seu subseqüente discurso de 30 de maio, no qual anunciou o fim do conflito, veio chumbo por parte do governo, preocupado com obstáculos surgidos durante a campanha legislativa, em junho (pressionado, De Gaulle dissolveu a Assembléia). Foi banida uma série de grupos de esquerda e jornais. Gilles Tautin, um estudante, e dois operários da Peugeot, Pierre Beylot e Henri Blanchet, foram mortos pelas CRS.

Há quem defenda a tese de que o número reduzido de mortos (sem contar os feridos), naquela delicada situação, demonstra a habilidade da polícia. Cenas de brutalidade foram, porém, confirmadas pela televisão, nova tecnologia que transformou os noticiários, e influenciou vários manifestantes apolíticos a participarem do conflito, a favor dos estudantes.

Violência, diga-se, não faltou em outros países. Por tabela, alguns experts dizem que o fenômeno, em Paris, deve ser incluído num contexto internacional. Reynolds pondera, contudo, que “cada região experimentou os eventos de sua própria maneira, com várias motivações, devido a diversas demandas”, e o mesmo se aplica a outras cidades espalhadas pelo mundo. Em suma, é mítica a percepção de que Maio de 68 só aconteceu em Paris, e não no resto da França.

No México, em outubro, o Exército reagiu com brutalidade a manifestações de estudantes por melhores condições nas universidades. O episódio, que passou à história como o Massacre de Tlatelolco, acabou na morte de 48 universitários e cerca de 500 presos e feridos.

Em Berlim, houve protestos contra a guerra no Vietnã, a primeira a ser televisionada. Ao contrário da França, na Itália os estudantes uniram-se à classe operária. Após duas semanas de demonstrações contra a brutalidade da polícia, a Universidade de Roma foi fechada. Uma das repercussões de 1968 foi a proliferação de movimentos armados, como as Brigadas Vermelhas, na Itália, e o Baader-Meinhof, na Alemanha.

Em Varsóvia, narra a CartaCapital o jornalista Leszek Mazan, então com 26 anos, uma peça do poeta Adam Mickiewicz no Teatro Nacional foi banida. “Isso foi pretexto para manifestações estudantis em Varsóvia, Cracóvia, Lódz e outras cidades”, diz Mazan. Em 21 de agosto, os soviéticos invadiram Praga e prenderam o primeiro-secretário do Partido Comunista, Aleksander Dubcek, o qual havia tentado estabelecer reformas democráticas na então Tchecoslováquia.
“Após 68”, diz Mazan, que seria correspondente em Praga durante a década de 70, “o país viveu mais 21 anos de tirania.”

Leland Emerson McCleary, professor de letras modernas da Universidade de São Paulo (USP), presente, aos 24 anos, em manifestações de 1968 no seu país natal, os Estados Unidos, avalia: “Maio de 68 não significa nada para mim, especificamente. Nos Estados Unidos, toda a década de 60 foi de protesto. Ainda no colegial, em Houston, Texas, no início da década de 60, tomei parte em manifestações que uniam brancos e negros, a fim de provocar estabelecimentos segregados, como restaurantes”.

Elizabeth Vance, em 1968 aluna de pós-graduação da California State University at Long Beach, hoje professora de Sociologia no Santa Monica College, resume: “1968 foi um ano caótico, ligado, em grande parte, ao envolvimento dos EUA no Vietnã. Martin Luther King foi assassinado em 4 de abril, o senador Robert F. Kennedy foi morto em 5 de junho, e, em agosto, tivemos demonstrações na Convenção Nacional do Partido Democrata, em Chicago”. Vance afirma que participou de várias manifestações. “Certamente fui fotografada pela CIA.”

Perguntada sobre quais foram os legados dos anos 60, Vance responde: “Foram os anos nos quais uma resistência a desigualdades e contra a guerra aumentou dramaticamente”. A socióloga acrescenta que “as mulheres deram largos passos. Além disso, a pílula lhes deu maior liberdade sexual. Os gays continuam lutando, mas nos anos 60 conseguiram vitórias. Os negros iniciaram o movimento de direitos civis, e Martin Luther King deu continuidade a ele”.

Mais pessimista, Wilton Woods, universitário em 1968 e manifestante contra o Vietnã, crê que, com a morte de Luther King, o movimento de direitos civis a favor dos negros arrefeceu. “Os negros conseguiram avanços nos últimos anos em várias áreas, mas foram muito superficiais em outras”, argumenta Woods, ex-editor da quinzenal Fortune. “Mas a popularidade de negros não foi conseguida no tablado político, e sim graças a atletas negros e à mídia que divulga suas imagens.”

Woods acredita que a cobertura da mídia da violência em Chicago, em 1968, centrada no ponto de vista da polícia, abriu caminho para os reacionários tomarem o poder. “Durante uma geração, as cenas de violência, em Chicago, foram usadas pelos republicanos e outros grupos conservadores para atacar democratas, hippies, e manifestantes em geral”, afirma. O resultado, interpreta Woods, foram as eleições de Richard Nixon e Ronald Reagan, e a tomada do Congresso pelos republicanos, nos anos 90.

Na França, argumenta Reynolds, a “falta de consenso” gerou novas análises sobre Maio de 68 a partir dos hedonísticos anos 80. Aquele período passou a ser visto por significante fatia da população (incluindo o atual presidente Nicolas Sarkozy) como um “carnavalesco psicodrama”. Mais: 1968 perdeu seu “apelo romântico”, e teria impulsionado a predominância do capitalismo na França. “Criou, assim, o oposto daquilo que pretendia realizar”, conclui Reynolds.

Carta Capital

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‘O governo deve ficar longe da função de mediar o debate público’

Roldão Arruda

Para o jornalista Eugenio Bucci, ex-presidente da Radiobrás, entre 2003 e 2007, e atual professor visitante do Instituto de Estudos Avançados da USP, quase todos os meios públicos de comunicação no Brasil ainda são verdadeiros feudos de governantes, que os utilizam para a promoção pessoal e de seus grupos políticos. Isso só pode mudar com mais debates e maior esclarecimento da população sobre o assunto. Na entrevista a seguir, Bucci fala dos projetos de criação de uma nova TV estatal, condena os gastos com propaganda governamental, que não teriam nenhuma utilidade além da promoção dos donos do poder, e faz uma recomendação: “O governo deve ficar longe da mediação de debates públicos.”

Doutorado pela Escola de Comunicação e Artes da USP, autor de seis livros, nos quais discute sobretudo ética e comunicação, e integrante do conselho da TV Cultura de São Paulo, Bucci passará a escrever quinzenalmente para o Estado, na seção Espaço Aberto, na página A2.

Como o sr. vê a montagem de uma nova rede de radiodifusão pública, a TV Brasil? Ela é necessária?

Vou responder em dois níveis. Um conceitual e outro mais prático. Conceitualmente, uma democracia precisa de uma forma de radiodifusão que não seja comercial. O espaço público, se dominado por formas de comunicação apenas comerciais, corre o risco de não ter como dar vazão a temas que não são economicamente interessantes, a conteúdos economicamente inviáveis. Um exemplo: se a TV Cultura, de São Paulo, ficar presa apenas àquilo que é lucrativo, jamais vai ter programas com orquestras sinfônicas. Esse gênero de música não tem muito apoio. Enfim, é necessária uma complementaridade entre o público e o comercial.

E a questão de ordem prática?

Não vejo sentido em perseguir um sonho de TV pública. É preciso que se trabalhe pela construção de um sistema de comunicação que conjugue rádio, TV e, sobretudo, internet. O sonho da TV pública é um sonho de 50 anos atrás, quando a Europa sai da Segunda Guerra debatendo de que forma o espaço público poderia ser protegido da colonização promovida pelo mercado e pelo capital.

Um dos principais focos do debate em torno da nova emissora pública é o temor do controle e da manipulação do conteúdo.

Quando alguém fala no risco de manipulação ou de uso político da comunicação pública no Brasil, eu digo que isso não é um risco, mas a regra. Sempre aconteceu. Tradicionalmente, as instituições públicas de radiodifusão são uma espécie de reserva ecológica do patrimonialismo. Um patrimonialismo simbólico, porque os governantes não se apropriam das coisas que estão lá, mas fazem com que elas trabalhem pela sua promoção pessoal. Quando comecei a tomar contato com esses lugares, percebi a existência de uma enorme quantidade de gente contratada sem concurso, por causa de afinidades políticas, não por competência.

Esse comportamento é generalizado nas televisões mantidas pelos Estados?

Quase todos os Estados da Federação têm hoje a sua rede institucional de comunicação, com rádio e televisão. E em quase todos é comum o uso político-partidário do conteúdo do que veiculam a favor do governo. É a tradição. Portanto, se existe um risco hoje no Brasil, é o de mudar esse quadro. Essas instituições precisam de transparência, de profissionalismo, de rigor administrativo - mais do que de recursos. O seu conteúdo deve ser comprometido com o direito de informação do cidadão, não servir de caixa de ressonância ou de linha auxiliar de promoção pessoal dos governantes.

A Cultura de São Paulo se encaixa nesse padrão?

Sempre existem exceções. A TV Cultura é responsável pelas melhores produções da TV pública no Brasil. Por quê? Porque teve momentos de autonomia de gestão, de independência. A TV Cultura tem um conselho com garantias formais de autonomia. Embora seja vulnerável a pressões do governo, esse conselho, pelas suas regras de funcionamento, pela maneira como é organizado, consegue ser independente. A Cultura é talvez o melhor exemplo que nós temos hoje de comunicação pública no Brasil.

Do que viu até agora, acha que a criação da nova rede está sendo conduzida de forma correta?

É evidente que existe a ameaça de manipulação. Mas se ela tiver - como está prometido - um conselho realmente independente, sem uma pauta governamental, é possível que no futuro o País ganhe com isso. Essa possibilidade não está fechada. Vamos esperar.

Como vê a introdução de anúncios publicitários na programação da Cultura?

Acho um erro, uma concessão estética e prática à lógica da comunicação comercial. A TV pública não deveria veicular anúncios de mercadorias e de serviços como qualquer outra TV comercial. Poderia veicular apoios institucionais, uma fórmula consagrada em vários lugares do mundo.

Ainda a TV Brasil: a idéia de sua criação ganhou corpo com as acusações, feitas pelo PT, de que a mídia distorceu fatos - especialmente na cobertura do mensalão e do dossiê Vedoin - para prejudicar o governo. Em mais de uma ocasião, falou-se na necessidade de uma contracorrente na área de informações. Como vê isso?

Essa é a pior razão do mundo para se construir uma mídia pública. Ela é necessária não porque a comunicação comercial seja de má ou de boa qualidade, mas por ser de outra natureza.

Acha que a mídia errou na cobertura dos episódios citados?

Existiram momentos de infelicidade na cobertura, mas o pior erro não aconteceu.

Qual seria?

Não ter feito a cobertura. Podem ter acontecido distorções, preconceitos, julgamentos, mas foi no interior de um movimento correto na sua essência, que é informar o público. A imprensa cumpriu seu dever de apurar, informar e levantar o debate, permitindo que as partes se manifestassem. Nos debates internos, nos setores de comunicação pública, mais de uma vez eu disse: vamos tomar mais cuidado nas restrições à imprensa, porque, se dependesse de nós, da Radiobrás e das outras emissoras públicas, o País não teria ficado sabendo do que aconteceu. As nossas ferramentas de cobertura na época chegaram atrasadas a esse evento. Depois nós fizemos uma elogiada cobertura, com mais de 3.500 matérias veiculadas pela Agência Brasil sobre o mensalão, mas é importantíssimo registrar que não foi a cobertura da Radiobrás que levantou o tema. Foi a imprensa comercial.

O governo precisa de meios para defender suas causas?

O governo deve ficar longe da função de mediar o debate público. Uma das garantias do funcionamento democrático reside justamente nesse ponto: governo governa, mas não faz a mediação do debate público. Ele não deve ter uma emissora que ponha em pauta aquilo que lhe interesse.

O senhor tem se dedicado a estudar a internet. Acha que ela deve substituir os atuais meios de comunicação, como os jornais?

A internet deveria ser comparada mais à rede elétrica do que a um meio de comunicação propriamente dito. Ela transforma informação em energia elétrica, abastecendo todos os pontos. Não é um meio de comunicação, mas um ambiente para vários meios - a mídia escrita, a publicidade, games. Você tem ali todo tipo de interconexão, de aproximação entre pólos diferentes, por meios diferentes. É um ambiente, e nesse sentido não disputa com outros meios de comunicação.

Como vê a questão da confiabilidade das informações numa rede que aceita e redistribui tudo?

Essa é questão mais fascinante. O cidadão começa a se perguntar cada vez mais, e com razão, em quem confiar? Estão surgindo respostas novas. De um lado ele tende a buscar selos de responsabilidade tradicionais - e aí os jornais saem na frente, assegurando posições, com a garantia de que a informação foi apurada e trabalhada, sem a contaminação de interesses comerciais, governamentais ou de grupos de influências. Por outro lado, existem soluções inovadoras. Um exemplo é a Wikipedia, enciclopédia elaborada anonimamente e cada vez mais mencionada como uma fonte confiável de informação. A internet traz essas possibilidades que antes não estavam postas. De qualquer maneira, o problema da credibilidade é nevrálgico.

Na Radiobrás, o senhor foi pressionado por petistas a dar uma cor mais partidária à cobertura dos fatos, numa situação que levaria à partidarização de um órgão público. Acha que o PT confunde partido com governo e Estado?

Essa confusão é outra tradição perversa da política brasileira. Está longe de ter sido inventada pelo PT. Em outras épocas, ela foi mais grave, porque envolvia partido, governo, Estado e famílias, com oligarquias que prevaleciam dentro e fora do governo, agindo como poder público, dominando meios de comunicação supostamente privados, numa promiscuidade tenebrosa. A vacina contra isso é o esclarecimento da opinião pública - por mais iluminista que pareça a formulação.

Como vê os gastos governamentais com propaganda?

Isso é no mínimo muito discutível. Em primeiro lugar porque raramente algumas dessas peças de publicidade governamental são realmente de utilidade pública. Quase sempre a utilidade pública é um pretexto, para que fique um rescaldo de imagem positiva do governo. Não se fala o nome do governante, mas se inventa um logotipo comercial, uma marca para aquela administração - sempre com a intenção de que reverta em capital eleitoral. No interior, em cidades de pequeno e médio porte, a situação é mais grave. Ali se encontra uma seqüência enorme de emissoras de rádio e pequenos jornais que não sobrevivem sem as verbas públicas dos municípios e dos Estados. Nos grandes centros, os grandes jornais atendem aos requisitos formais da independência editorial. Se o governo corta o anúncio dessas empresas, elas não vão à falência. Mas no interior o risco é grande - e, por isso, o dinheiro público jogado em veículos comerciais se converte num instrumento de pressão e de cooptação.

Por que não continuou à frente à Radiobrás?

Entrei para ficar só um governo, porque nunca tive intenção de ser administrador público de carreira e porque o rodízio é bom. Na função pública, é importante a consciência de que a gente não refunda nada, não cria, não inaugura. A gente absorve a experiência de quem veio antes, dá seqüência aos bons projetos e deixa uma perspectiva ao que vem depois. Essa ilusão de que você é fundamental só atesta que não confia na dinâmica natural das renovações da democracia.

Estende isso a todos os cargos públicos?

Todos. Inclusive à Presidência. Nada mais indigno que um presidente da República que julgue ser melhor para a sociedade a permanência dele no cargo indefinidamente. No fundo, está dizendo que a sociedade não é capaz de produzir soluções melhores do que ele.

Jornal Estado de S. Paulo
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O mundo refém das finanças

Por que o estouro da bolha imobiliária dos EUA é uma ameaça à economia internacional. Quais as novas formas de especulação nos mercados financeiros, e de que modo elas podem propagar a crise. Como os grandes bancos e fundos de investimento transferem a conta de sua irresponsabilidade para os Estados e sociedades

Frédéric Lordon

Há dois séculos, Hegel deplorava a incapacidade crônica dos Estados de aprender com as experiências da história. Os governos não são os únicos poderes incapazes de aprender. O capital – notadamente o financeiro – também parece condenado à perseverança no erro, à aberração recorrente e ao eterno retorno da crise financeira. Apesar de envolver novos “produtos”, a atual crise dos mercados de crédito permite entrever, uma vez mais, os ingredientes quimicamente puros do desastre. Também oferece, a quem quiser enxergar, uma oportunidade a mais para refletir sobre as “vantagens” da liberalização dos mercados de capitais.

É que a crença financeira não se dissipa com facilidade. Logo ela, que se vangloria de ser a encarnação do princípio de realidade, que submete as empresas à “validação dos fatos”, segundo os critérios do “reporting” (prestação de contas trimestral) e do “track record” (histórico de desempenho), mantém-se ignorante do que a história recente — sua própria história — lhe entrega de bandeja. É que o “track record” da liberalização financeira não tem boa reputação. Desde que ela se impôs, tem sido difícil passar mais de três anos seguidos sem um incidente de envergadura. Quase todos poderiam figurar nos livros de história econômica: 1987, quebra dos mercados de ações; 1990, quebra dos “junk bonds” (“títulos podres”) e crise das “savings and loans” (instituições financeiras de poupança e empréstimos) norte-americanas; 1994, crise de debêntures norte-americanos; 1997, primeira fase da crise financeira internacional (Tailândia, Coréia, Hong Kong); 1998, segunda fase (Rússia, Brasil); 2001-2003, estouro da bolha da Internet.

E aqui estamos nós, em 2007. Leitura dos devotos: “A globalização é auspiciosa, mas dolorosa” [1]. No Le Monde, Pierre-Antoine Delhommais deleita-se com a resistência da besta diante de tantos choques de vulto — que parecem prestes a matá-la, apenas para vê-la reerguer-se caminhar com ânimo renovado. Omite-se quanto custou, aos assalariados, pagar a conta da embriaguez financeira em cada ocasião. Invariavelmente, o solavando dos mercados atinge os bancos, e portanto o crédito; em seguida, os investimentos, o crescimento e o emprego.

Seria necessário quem sabe, que o jornal fosse adquirido por um fundo de investimentos um pouco impiedoso para que, ao viver a experiência concreta do “downsizing” (“enxugamento”), o jornalista se visse mais impelido a calcular o número de empregos destruídos em função das práticas do mundo financeiro e de suas crises.

A crise dos mercados de crédito que castiga a economia norte-americana oferece uma visão quase ideal das relações fatais da especulação desenfreada. Como em uma parada, desfilam novamente as toxinas gerais do mundo financeiro, sempre as mesmas e numa ordem absolutamente idêntica: 1. as tendências “Ponzi” da especulação; 2. a lassidão das avaliações de riscos na fase de alta do ciclo financeiro; 3. a vulnerabilidade estrutural a uma pequena mudança de ambiente e o efeito catalizador de um enfraquecimento pontual do sistema, que precipita a reviravolta; 4. a revisão instantânea das estimativas; 5. o contágio de outros setores do mercado; 6. o choque dos bancos excessivamente expostos; 7. a ameaça de um acidente sistêmico, ou seja, de um colapso global, seguido de uma recessão generalizada por estrangulamento do crédito e um pedido de socorro aos bancos centrais feito por todos os fanáticos da livre iniciativa privada.

1. AS TENDÊNCIAS “PONZI” DOS MERCADOS
Como “pirâmides da felicidade”, as bolhas especulativas apóiam-se numa hipótese impossível: a de que novos investidores sempre entrarão na ciranda, para sustentar os ganhos dos que chegaram antes

Provavelmente, ninguém melhor do que Hyman Minsky evidenciou os encadeamentos da economia de mercado, resumidos por ele na eloqüente expressão “cegueira ao desastre” [2]. Minsky dedicou particular atenção aos distúrbios provocados por Charles Ponzi, especulador dos anos 20, que iludiou pessoas ingênuas, seduzidas por promessas de rendimentos extraordinários. Na falta de qualquer ativo real capaz de cobrir os rendimentos anunciados, Ponzi oferecia a seus primeiros clientes o capital aportado pelos que vinham depois. A sustentabilidade do conjunto supunha, portanto, a manutenção infinita do fluxo de novos clientes.

Próximas à fraude, todas as bolhas especulativas baseiam-se num mecanismo bastante semelhante. Elas requerem uma entrada constante de investimentos, para manter o mercado em alta e a ilusão de que, assim, todo mundo ganha. O segredo da bolha é a adesão especulativa. Investimentos de alta rentabilidade atraem aplicadores cada vez mais comuns — portanto, cada vez menos esclarecidos, porém mais numerosos.

Para que o crescimento do mercado imobiliário norte-americano se prolongasse, se possível ad aeternum, era necessário que grupos cada vez mais significativos de famílias fossem levados a procurar o mercado de empréstimos hipotecários. Com a ajuda do sonho norte-americano de ser proprietário, não foi difícil convencê-los no início. Escaldados pela queda das ações no estouro da bolha da internet, eles estavam à procura de outras formas de investimento. Mas o contingente de tomadores de empréstimo “saudáveis” esgotou-se rapidamente. Como o mercado precisava imperativamente ser sustentado, as instituições financeiras foram à procura de novos clientes. Os rios de dinheiro emprestados levaram os preços dos imóveis às alturas.

Mesmo que não seja possível manter o pagamento da dívida, famílias e emprestadores julgam que o imóvel poderá ser vendido com valorização para uns e comissão para outros. A crença no crescimento incessante do mercado leva a aprovar qualquer empréstimo. As torneiras do crédito são abertas por completo, e a alta especulativa parece dar razão a todos. Surge a categoria das hipotecas de segunda linha (subprime mortgages) — cujos beneficiários têm capacidade de pagamento mais que duvidosa. Como a euforia está no auge, todos os limites podem ser ultrapassados. Criam-se figuras como os empréstimos “Ninja”: “No Income, No Job or Asset”, ou seja concedidos a clientes, “sem renda, sem emprego ou sem ativo (a ser dado como garantia)” — e o champanhe de brinde, talvez.

2. LASSIDÃO NAS AVALIAÇÕES DE RISCOS
Fantástico milagre da securitização: em teoria, qualquer empréstimo pode ser fatiado em infinitos pedaços, para que os riscos de inadimplência sejam pulverizados até se tornarem irrisórios

Mas o mercado financeiro, que costuma se dizer especialista em controle de riscos tem alternativas. Ele não peca jamais por falta de criatividade. A grande mágica? Os “produtos derivados”. O problema de um crédito, ainda mais quando de risco, é que ele continua nos livros contábeis de quem o concedeu até sua liquidação — seja ela boa ou ruim. O grande achado, que remonta ao início dos anos 90, consiste em “fundir” um certo número de créditos para, com lastro neles, emitir títulos negociáveis. A grande vantagem dessa operação, adequadamente chamada de “securitização”, é o fato de que os títulos assim “fabricados” podem ser vendidos nos mercados em pequenos lotes a múltiplos investidores (institucionais). E eis que, então, os créditos duvidosos saem do balanço do banco. Compreende-se agora que ele os conceda com tanta facilidade: pode livrar-se deles assim que forem securitizados!

Por que os investidores querem comprar aquilo de que o banco quer se livrar? Para começar, porque adquirem os títulos em pequenas quantidades e, sobretudo, porque esses papéis são negociáveis, ou seja, podem ser novamente vendidos. Além disso, a linha de títulos derivada do grupo inicial de créditos é recortada em diferentes fatias de risco homogêneas. Conforme seu próprio perfil, cada investidor institucional garimpará na fatia que lhe convém, sabendo que sempre encontrará algo — especialmente os “hedge funds” [3]. Mesmo as fatias de alto risco são atraentes, por oferecerem maior retorno… enquanto tudo vai bem.

Evidentemente, a instituição que fez o empréstimo inicial transfere todos os direitos (juros e amortizações) e riscos (de inadimplência) aos portadores desses títulos, chamados de RMBS (“Residential Mortgage Backed Securities”, ou seja, títulos amparados em créditos imobiliários). Porém, esses portadores são tantos — e mudam tanto — que daí decorre uma extraordinária dispersão do risco global. Antes, o banco enfrentava sozinho a inadimplência relativa a um de seus empréstimos. Agora não somente está totalmente desembaraçado como também as conseqüências do não-pagamento estão pulverizadas entre uma miríade de investidores. Cada um assume uma parte mínima do risco, diluída no conjunto de sua própria carteira.

Riscos diluídos… ou subestimados?
Mas então, por que o alarme se, com o milagre da securitização, o mercado financeiro resolveu a quadratura do círculo? Ocorre que as piores fatias de uma dívida recebem um tratamento especial, para serem mais facilmente escoadas. Alguns investidores re-fatiarão os próprios RMBS que adquiriram. Emitirão um novo tipo de títulos negociáveis, os CDO (Collateralised Debt Obligations). Títulos derivados de títulos, os CDOs podem ser de três tipos, correspondentes ao risco de inadimplência da fatia da dívida a que se referem. A fatia superior, chamada de “investment grade”, torna seus portadores imunes aos primeiros 20% ou 30% de inadimplência sobre os créditos imobiliários iniciais. Segue-se uma fatia intermediária, chamada de “mezzanino”, e finalmente uma mais baixa, que sofrerá o choque das primeiras insolvências.

Dá-se o nome pudico de “equity” a essa fatia, mas a linguagem dos mercados diz as coisas mais na lata: “toxic waste”, ou seja, “resíduos tóxicos”. Esses produtos elevam o risco ao quadrado, pois representam a fatia de maior risco dos CDOs, derivada da fatia mais arriscada dos RMBSs, retirados da carteira inicial de créditos. Mas, enquanto o mercado imobiliário seguir em alta e as famílias continuarem pagando as dívidas, sempre haverá quem compre os papéis. Como a toxicidade ainda não está materializada, o que aparece são as remunerações espetaculares.

Um dos segredos do desempenho dos “hedge funds” é levantar fundos a taxas mais baixas e investir em títulos de alto risco, que remuneram proporcionalmente — ou seja, muito. As margens são enormes, os “resíduos tóxicos” são vistos como minas de ouro e os golden boys fazem a festa. Os lucros faraônicos mascaram os riscos objetivos, que ninguém quer enxergar para que a ciranda gire o maior tempo possível.

3. DA VULNERABILIDADE ESTRUTURAL À INSOLVÊNCIA
A construção cresce como um enorme castelo de cartas. Em certo ponto, qualquer pequeno incidente é capaz de ameaçar todo o edifício

A dispersão dos riscos por meio das operações de securitização em cadeia acabou levando a crer que eles não mais existiam. É uma ilusão. Ainda mais porque essa doce embriaguez logicamente induziu a comportamentos cada vez mais aventureiros. Já que estou me desfazendo dos meus créditos, mesmo dos piores, diz a si mesmo o financiador imobiliário, então o negócio é ir cada vez mais fundo nos empréstimos. E já que o mercado está com liquidez, diz a si mesmo, na outra ponta, o “hedge fund”, por que não comprar os CDO mais podres, que são os mais lucrativos? Os riscos certamente foram diluídos, mas a própria diluição engendrou um crescimento totalmente descontrolado de seu volume global e a situação caminha suavemente para as zonas críticas.

A fragilidade estrutural do edifício agora é tal que ele se torna vulnerável a modificações do ambiente a priori insignificantes. A elevação de 0,25% na taxa de juros pelo banco central dos EUA (o Federal Reserve, FED) aparentemente não é nada. Exceto pelo fato de que, na outra ponta da curva de riscos, o crédito imobiliário de Mrs. Brimmage passou dos 6,3%, em 2005, para 11,25%, e suas parcelas mensais subiram de 414 para 691 dólares [4]. Razão mais que suficiente para ela deixar de pagar. Como ela, 14% dos tomadores de empréstimo subprime entraram em inadimplência no primeiro trimestre de 2007.

Falando em termos modestos, as altas da taxa de juros do FED têm um duplo efeito de corte. De um lado, há menos gente entrando no mercado imobiliário e os preços começam a baixar. De outro, aqueles que estão nele vêem as parcelas de suas dívidas se tornarem insuportáveis. A própria possibilidade de “sair” do sistema fica comprometida. A eventual venda da propriedade, para tentar saldar a dívida, se fará por um preço inferior ao previsto. E a multiplicação das vendas acentua a pressão de baixa generalizada dos preços dos imóveis.

Como sempre ocorre nas crises financeiras, uma instituição financeira tem uma grande perda e o abalo provocado por seu colapso dá o sinal da grande virada. Nesse caso, duas falências — nas duas pontas da corrente — vieram colocar um ponto final na embriaguez dos mercados. Primeiro, foi o banco de investimentos Bear Stearns, que teve de fechar dois de seus fundos “dinâmicos”, ou muito lucrativos. Mas também o American Home Mortgage (AHM), agente imobiliário, teve de se colocar claramente sob a proteção do capítulo 11 da lei de falências norte-americana [5]. Esse fato é mais inquietante que o anterior. O AHM não está especialmente comprometido no compartimento dos empréstimos “subprime”. Será sinal de que as inadimplências estão se generalizando? Haverá outras instituições em dificuldades?

4. A REVISÃO IMEDIATA DAS AVALIAÇÕES DE RISCOS
A crise está provavelmente no começo. A queda do preço dos imóveis provocará uma onda de inadimplência que pode atingir os poderosos “hedge funds”

Desta vez, houve uma leve brisa de pânico. Os “toxic wastes” já cheiram bem mal e as pessoas começam a dizer que os CDOs antes tidos como mais seguros talvez estejam bastante contaminados. Mas como se pôde chegar a erros de avaliação tão monumentais? Com certeza, a complexidade objetiva da avaliação dos produtos derivados não tem nada a ver com isso. Com certeza, as agências de avaliação de risco (rating) avaliam essas fatias de CDO e RMBS às centenas. Entretanto, elas são, num certo sentido, impotentes. Seu próprio faturamento provém das instituições financeiras, que emitiram incessantemente títulos a serem avaliados — 40% do rendimento de 2006 da Moody’s foi conseguido com avaliações de produtos estruturados. Para que haja novos produtos a analisar, sem dúvida é preferível que os antigos sejam declarados saudáveis.

As agências de rating nunca souberam ser independentes dos entusiasmos do mercado que deveriam moderar. Na maior parte do tempo, lhe serviram de coro. Quem está próximo ao meio financeiro e vive às suas custas, tem dificuldade se mostrar independente, num momento em que todo mundo está enchendo os bolsos. Catastroficamente pró-cíclicas quando deveriam ser contra-cíclicas, as agências mantêm-se alheias durante a alta. Quando a reviravolta acontece, lançam-se, apavoradas, a fazer à revisão das avaliações anteriores, contribuindo para transformar o sobressalto em colapso.

E a crise provavelmente está apenas no começo. As falências imobiliárias que estão por vir caminham lado a lado com as teasing rates, as taxas muito atraentes que os corretores usam para seduzir os clientes. Nos últimos anos, uma das modalidades mais praticadas ficou conhecida como “2 + 28”. Nos dois primeiros anos, uma taxa de juros simpática. Nos 28 seguintes, a taxa plena, que causa problemas. Portanto, ainda não irrompeu a inadimplência relativa às vendas em 2006, e quase nada da de 2005 — as mais fortes da bolha imobiliária. Sem dúvida serão notáveis. Trarão grandes prejuízos aos “hedge funds”, empanturrados de seus produtos derivados.

E com a globalização das finanças e a estupidez financeira, nada disso se detém nas fronteiras norte-americanas. É nos EUA que o mercado hipotecário delira, mas a securitização daí derivada se oferece a todos os fundos especulativos do planeta. Os alemães, durante muito tempo considerados mornos e tediosos, agarrados a seus melancólicos bancos de varejo, decidiram, na virada do século, tornar-se “modernos” e se voltar mais decididamente para as atividades de mercado. Resultado: depois do grande susto de 1998 (risco russo) e das surras da bolha de internet (2001), eis que um banco, o IKB, encontra-se à beira da falência por causa da superexposição aos papéis subprime…

5. SUSPEITAS POR CONTÁGIO
Num dominó típico das crises financeiras, a descoberta de riscos num setor da economia desperta dúvidas sobre outros. Ninguém confia na solidez de atividades contaminadas pela especulação

Agora, tudo se encadeia de um canto a outro do globo e dos mercados. O frágil equilíbrio dos produtos derivados resistia enquanto ninguém o provocava — ou seja, enquanto todos fingiam acreditar que o mercado tinha liquidez. Mas assim que um dos atores sofre perdas exageradas e considera a hipótese de sair do sistema, vendendo seus CDO, o medo latente se cristaliza e todos os compradores desaparecem. Com a liquidez evaporada, os papéis, formalmente negociáveis, praticamente deixam de sê-lo. Torna-se quase impossível avaliá-los, já que seu preço pode virtualmente cair a zero.

Engraçado — até a hora em que se começa a chorar —, o comunicado do BNP-Paribas, que, em 9 de agosto, fechou três de seus fundos (também eles “dinâmicos”): “O desaparecimento em certos segmentos do mercado da securitização nos Estados Unidos conduz a uma ausência de preço de referência e a uma falta de liquidez quase total dos ativos dos fundos, não importa qual seja a sua qualidade ou classificação” [6]. Tudo isso não havia impedido que Baudoin Prot, controlador do banco, afirmasse categoricamente, uma semana antes, que a liquidez dos três fundos estava assegurada. Significa, sobretudo, que a inquietação ultrapassa amplamente o perímetro dos produtos de maior risco e contamina as fatias consideradas mais seguras.

Nesse seara tão fértil, o contágio não vai parar. Além de atingir todas as classes de risco dos RMBS e seus derivados, ele também se estende a outras partes do mercado que nada têm a ver com crédito imobiliário — exceto o fato de terem também caído na orgia dos créditos indiscriminados. É exatamente o caso do setor de private equity, esses fundos de investimento, vedetes das finanças nos últimos anos, que recompram integralmente empresas tidas como promissoras, fazem-nas sair da bolsa, reestruturam-nas no tranco para revendê-las, dois a quatro anos mais tarde, com forte valorização.

Tais fundos comprometem muito pouco dos seus capitais próprios. Mergulham fundo em dívidas, cujo serviço, aliás, transferem à empresa recomprada. A rentabilidade que resulta é excepcional. Atingiu tais níveis que os bancos literalmente se precipitaram para financiar tais operações. Num estado de quase mistificação, e persuadidos de que se ganha de todos os lados, concederam a esses fundos condições de empréstimo surpreendentes. É o caso dos chamados empréstimos covenant-lite, ou seja, livres de todas as cláusulas relativas a coeficientes financeiros elementares a que são normalmente submetidos os tomadores de empréstimo — “aconteça o que acontecer, nós estamos do seu lado”.

Melhor ainda são os chamados empréstimos PIK (Payment In Kind – pagamento em espécie) ou ainda IOU (I Owe You), cujos juros e principal são reembolsados não em dinheiro, mas em adicional de dívida acrescentado à dívida inicial. Os encargos de crédito orientados para os fundos de private equity atingiram volumes astronômicos. Ora, as operações desse tipo são particularmente vulneráveis no momento de desatá-las, já que se trata de revender ativos notoriamente sem liquidez: não blocos de ações, mas empresas inteiras. Ao primeiro acidente que ocorra em meio a essa operação — revenda impossível, adiada ou com desvalorização — será a vez de todo o setor viver seu momento dramático.

As recentes operações para captação de recursos financeiros acontecem de forma bastante trabalhosa, se comparadas com a facilidade exuberante dos meses anteriores. É que os bancos, antes cúmplices lassivos, tornam-se subitamente reticentes. Por um efeito de amálgama, típico das crises financeiras, a súbita revelação dos riscos em um setor suscita questionamentos paralelos em outros, onde a euforia quase produziu o mesmo estrago. Em 1994, os insucessos do México induziram a dúvida em relação à Tailândia, por um puro efeito de amálgama, com base na categoria “mercados emergentes”. Da mesma forma, hoje, o mercado imobiliário produz efeitos sobre a private equity.

6. CHOQUE NOS BANCOS
Expulso pela porta, o risco implícito nos empréstimos retornou pela janela. Para reequilibrar as contas, será preciso fechar as torneiras do crédito, atingindo trabalhadores e empresas não-financeirizadas

Ainda que tenham conseguido se desfazer de suas carteiras de créditos imobiliários por meio da securitização, os bancos suportam o giro da manivela, por múltiplas vias. Para começar, deixaram seus fundos de gestão se encarregar dos produtos derivados, e o risco hipotecário expulso pela porta voltou pela janela. Mas é, também, o contágio lateral que os ameaça, marcadamente por meio da private equity, onde estão diretamente expostos.

Ora, a regulação prudente do setor bancário não brinca: os bancos são forçados a manter cuidadosos coeficientes de solvência entre seus capitais próprios e compromissos. Se houver desvalorizações de patrimônio — e elas se anunciam com muito mais força, levando as agências de rating a despertar e rever todas as avaliações para baixo —, os bancos devem contabilizar as provisões correspondentes. Para manter seus coeficientes, terão de reduzir o denominador (os créditos concedidos) proporcionalmente à contração do numerador (os capitais próprios onerados pelas provisões).

Em conseqüência, e como sempre, serão os agentes da economia real — assalariados e empresas não-financeirizadas, distantes de todas as piruetas da especulação — que encontrarão as torneiras de crédito fechadas, sem nem mesmo compreender o que fizeram para merecer isso. Porque, para recompor os balanços dos bancos, a contração do crédito será geral, e todos os tomadores de empréstimos serão atingidos.

7. O PEDIDO DE SOCORRO AOS BANCOS CENTRAIS
Quando a crise bate à porta, as finanças engolem o discurso privatista e aconchegam-se nas tetas do Estado. O prejuízo imposto às sociedades é idêntico ao resgate que se cobra de um seqüestrado

Bela figura fazem agora os heróis do mundo das finanças. Modernos e arrogantes quando os mercados estavam em alta, ei-los pendurados nas tetas do Estado, que tanto desprezam, quando a fortuna os estimula ao discuro ideológico privatista. Os bancos centrais, chamados a livrá-los da ruína cortando as taxas de juros para restaurar a liquidez geral, não são o próprio Estado — mas integram o setor público, o fora-do-mercado, detestado quando os lucros correm soltos, requisitado quando fecha o tempo.

Jim Cramer, que tem um programa de aconselhamento financeiro na rede norte-americana de negócios CNBC, teve um ataque de nervos em 3 de agosto. Aos berros e vestindo camisa de mangas curtas, com um fundo musical de hard rock saturado, de buzzers e bulls [7] sobrepostos, insultou [8] Ben Bernanke, presidente do FED, aos gritos de “cut! cut!” — “corta! corta!” (as taxas de juros). E como Bernanke parece dispor de tempo, Cramer premia-o com o insulto supremo: ele não entende nada, não passa de um “intelectual” (acadêmico) [9].

Bem vestidos e não tão vulgares, os outros gestores de fundos consultados no mesmo canal estão totalmente de acordo. Ah, que saudade de Alan Greenspan, que “cortava” as taxas de juros sem reclamar. Um verdadeiro clínico, não se deixava atrapalhar por estudos inúteis. Bastava-lhe simplesmente tatear o lombo da besta, para saber que era preciso afrouxar o nó.

Os menos idiotas começam, porém, a dizer que essa longa tolerância monetária com os excessos das finanças tem algo a ver com o surgimento e multiplicação dos riscos que irromperam agora. Bernanke tendeu, de início, a deixar os operadores mais imprudentes suportarem as conseqüências de sua inconseqüência. Mas não devemos nos enganar. Essa posição do banqueiro central só pode ser mantida se os problemas continuarem localizados. Quando eles se concentram e precipitam um “risco sistêmico” — ou seja, uma quebra generalizada, por efeito-dominó —, não há outra escolha a não ser intervir, e maciçamente.

Aliás, é esse o aspecto mais insuportável dos danos causados pelo mundo das finanças. Sempre encorajado a ir longe demais, ele avança muito além do limite a partir do qual o Estado é obrigado a entrar de cabeça — e a atingir a sociedade — para lhe salvar o pescoço. Nada mais parecido com um seqüestro de reféns.

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[1] Delhommais, Pierre-Antoine, Le Monde, 9 ago. 2007.

[2] Minsky, Hyman P. Stabilizing an Unstable Economy. Yale University Press, 1986.

[3] Fundos de investimentos aplicados em diversos mercados visando diminuir riscos e reduzir eventuais prejuízos ao mesmo tempo (Nota da Edição brasileira

[4] Mortgage Maze May Increase Forclosures, The New York Times, 6 ago. 2007.

[5] Entre outros aspectos, este capítulo libera o empregador de suas obrigações trabalhistas e permite renegociar os acordos salariais.

[6] Comunicado do BNP-Paribas, 9/8/2007

[7] O touro – bull – é o animal que representa a alta da Bolsa.

[8] CNBC, 3 ago. 2007. Veja no YouTube

[9] Ben Bernanke tem um longo passado de economista acadêmico.

Jornal Le Monde
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Nenhuma solução em vista para o Quênia

Mediadores internacionais estão tentando persuadir o presidente Kibaki e o líder de oposição Odinga a chegarem a um entendimento na crise do Quênia. Apesar de Odinga ter cancelado um comício, centenas de milhares de pessoas permanecem deslocadas e mais violência pode estar a caminho

Thilo Thielke

Era por volta do meio-dia em Kiambaa, perto da linha do equador, quando um grupo de moradores que buscava refúgio na pequena igreja da cidade ouviu pessoas entoando cantos de guerra. Os cantos vinham de duas direções e gradualmente se tornavam mais altos e mais distintos. Quando o primeiro grupo se tornou visível -centenas de jovens empunhando facões, lanças e arcos e flechas- as pessoas reunidas ali perceberam o perigo iminente. Elas fugiram para a igreja simples, feita de pau-a-pique, onde se ajoelharam e começaram a rezar. De repente a cantoria do lado de fora parou e houve silêncio.

Segurando sua filha de três anos firmemente em seus braços, Grace Githuthwa era uma das pessoas que buscavam refúgio na igreja. Quando as primeiras pedras e flechas começaram a atingir o santuário, “nós sabíamos que nossa hora tinha chegado”, disse Githuthwa, 30 anos. Os agressores derrubaram as portas podres de madeira, deixando o grupo desprotegido. Enquanto os homens correriam para fora, onde a turba os despedaçava com seus facões, as mulheres e crianças se encolhiam no interior da igreja em colchões que trouxeram consigo. Após matarem os homens, os agressores levantaram barricadas nas portas, despejaram gasolina nos colchões e colocaram fogo.

Grace Githuthwa conseguiu escapar por uma janela com sua filha Miriam, apenas para se deparar com a turba enfurecida do lado de fora. Um dos homens arrancou sua filha de seus braços e a atirou nas chamas. Githuthwa fugiu correndo sem olhar para trás. Ela conseguiu escapar, mas sem sua filha.

O massacre que ocorreu na semana passada nesta cidade perto de Eldoret, uma cidade nas montanhas quenianas, foi o pior caso de violência étnica dos últimos dias no Quênia. A violência foi provocada por uma eleição presidencial aparentemente manipulada em 27 de dezembro, que levou a esforços frenéticos da comunidade internacional para desarmar a crise.

Na última sexta-feira, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon falou por telefone com o presidente Mwai Kibaki e com o líder da oposição Raila Odinga, pedindo aos dois adversários que garantissem um “retorno à paz e normalidade”.

O presidente de Gana, John Kufuor, que também preside a União Africana, anunciou seus próprios esforços de mediação e também contatou as autoridades no Quênia por telefone. “Nós estamos ansiosos em restaurar a paz em nosso país irmão”, disse o ministro das relações exteriores de Gana.

Na quinta-feira, o bispo Desmond Tutu, o sul-africano ganhador do Prêmio Nobel da Paz, viajou para o Quênia, onde falou no Conselho das Igrejas da África, em Nairóbi, e pediu aos quenianos que restaurem a paz. Ele disse ao encontro que a África do Sul experimentou uma situação semelhante de falta de esperança e lidou com ela. Ele pediu por uma reconciliação de todos os lados.

O presidente Kibaki demonstrou inicialmente pouco interesse em ceder. Até o final de semana, ele se recusava a permitir que o presidente da União Africana viajasse para Nairóbi, apesar de ter concordado em se encontrar com Tutu na sexta-feira. Naquela noite, Kibaki anunciou que estava disposto a aceitar uma nova votação -mas apenas se a Justiça decidisse a favor de novas eleições. A concessão de Kibaki foi mais ou menos insignificante, já que os juízes do Quênia são escolhidos a dedo e estão sob o controle do presidente.

A onda de violência no Quênia dos últimos dias não é resultado apenas de uma fraude eleitoral. As rivalidades tribais, a marginalização social de grupos étnicos inteiros e o abuso despudorado de poder são as raízes da tragédia sangrenta. Kibaki comanda um governo altamente corrupto, com quase todas as cadeiras de ministro ocupadas por membros da etnia kikuyu. Apesar de ser o maior grupo étnico do país, os kikuyu ainda assim correspondem a apenas cerca de 20% da população. Eles dominam o Quênia há décadas, o que resulta em receberem os melhores empregos, as melhores estradas nas regiões onde vivem e o melhor atendimento de saúde. O pai da independência do Quênia, Jomo Kenyatta, era kikuyu, assim como Mwai Kibaki, o terceiro presidente do país.

O grupo da União Européia que monitorou a eleição, chefiado pelo político alemão Graf Lambsdorff, também confirmou que a eleição presidencial foi uma farsa. “As eleições gerais ficaram aquém dos padrões internacionais e regionais para eleições democráticas”, ele disse. O comparecimento de eleitores foi de impossíveis 115% em pelo menos um local de votação. Em pelo menos dois distritos ocorreram enormes disparidades entre os resultados de uma contagem local de votos e os posteriormente anunciados pela comissão eleitoral queniana na capital, Nairóbi. Em todos os casos as mudanças foram a favor do presidente.

Odinga, o adversário, logo acusou Kibaki de fraude eleitoral, argumentando que a vitória esmagadora de seu Movimento Democrático Laranja (ODM) na eleição parlamentar que ocorreu no mesmo dia apoiava suas alegações.

As cabines de votação para ambas as eleições eram próximas nos locais de votação, tornando ainda mais improvável que os quenianos que votaram em um partido na eleição parlamentar tenham escolhido o outro partido na eleição presidencial. E parecia altamente estranho que o nome de Kibaki tenha sido escolhido na maioria das cédulas presidenciais. Quando os votos estavam sendo contados, Odinga estava à frente às vezes com mais de um milhão de votos, mas então o quadro virou repentinamente em uma vantagem estreita de 232 mil votos a favor de Kibaki.

Odinga é membro do grupo étnico luo, que representa aproximadamente 10% população do Quênia. Os kikuyu vivem no centro do país, na região em torno do Monte Quênia, enquanto os luo estão concentrados ao longo das margens do Lago Vitória, no oeste do país. Há décadas eles se sentem discriminados pelos kikuyu. Em 1969, um kikuyu assassinou Tom Mboya, um proeminente político luo, e os luo nunca esqueceram seu assassinato.

Odinga é um homem alto, carismático. Ele estudou nas cidades alemãs de Leipzig e Magdeburgo nos anos 60 e fala alemão fluentemente. Seu pai foi vice-presidente do país no governo Kenyatta. Após a posse de Kibaki em uma cerimônia realizada às pressas no jardim da residência oficial do presidente, Odinga também se proclamou presidente. A disputa levou a choques entre manifestantes antigoverno e a polícia nas ruas de Nairóbi, onde barricadas foram erguidas e o comércio saqueado. Dezenas morreram nos choques.

Na onda de violência, Odinga também mudou sua estratégia. Apesar de seus eleitores esperarem que ele lute pelo poder, ele também está sob pressão para evitar outro derramamento de sangue. “Nós temos três opções”, disse o líder de oposição no quartel-general de seu partido, apelidado de “Casa Laranja”: desobediência civil, resistência no Parlamento e ação judicial.

Mas a opção parlamentar representaria uma capitulação aos olhos dos eleitores de Odinga. A desobediência civil, por outro lado, poderia levar a um maior caos, o que Odinga deseja evitar, mas não está disposto a descartar. Na semana passada, ele comparou Kibaki ao ex-ditador ugandense e assassino em massa Idi Amin, chamando a vitória eleitoral de seu oponente de um “golpe civil”.

Quando policiais altamente armados usaram seus cassetetes para conter os protestos de seus simpatizantes no centro de Nairóbi, na quinta-feira, Odinga pediu prontamente por outra marcha de protesto no dia seguinte. Apesar dela ter fracassado em se materializar, a simples ameaça foi suficiente para manter a tensão em Nairóbi. Poucas lojas abriram suas portas na sexta-feira, mas a estocagem de alimentos e combustível levou rapidamente a escassez. Segundo um porta-voz da ONU, a violência forçou 180 mil pessoas a deixarem suas casas e meio milhão de quenianos atualmente dependem de assistência humanitária.

É improvável que Kibaki será capaz de ignorar a pressão internacional por muito tempo. Mesmo os americanos, que prematuramente o parabenizaram por sua vitória eleitoral, foram rápidos em retirar sua declaração. Apesar de Washington ver Kibaki como um aliado leal na guerra contra o terrorismo, os americanos se distanciaram do governante autocrático após os crescentes protestos contra o presidente.

Apesar dos esforços internacionais, uma solução sustentável para o conflito ainda não está em vista. Kibaki ofereceu a formação de um governo de unidade nacional com a oposição, mas Odinga prefere uma coalizão com divisão do poder ou mesmo um governo interino durante a preparação de novas eleições. Ainda assim, Odinga concordou em se encontrar com mediadores internacionais no fim de semana, incluindo um alto diplomata de Washington na África, Jendayi Frazer. Na segunda-feira, ele cancelou os protestos planejados para terça-feira.

Mesmo Desmond Tutu reconhece que uma recontagem dos votos seria ineficaz. Após o caos dos últimos dias, acredita Tutu, seria quase impossível reconstruir os resultados verdadeiros. E qualquer coalizão entre Odinga e Kibaki também parece pouco promissora, porque a mesma experiência já fracassou antes.

Odinga formou a coalizão arco-íris que conduziu Kibaki ao poder há cinco anos. Mas assim que assumiu a presidência, Kibaki quebrou sua promessa de nomear Odinga seu primeiro-ministro. Em vez disso, ele colocou os kikuyu em posições chave e logo provou ser tão desinibido em encher seu próprio bolso a ponto de Edward Clay, o ex-alto comissário britânico no Quênia, acusou Kikuya e seus ministros, em sua arrogância e ganância, de se fartarem “como glutões”.

O recente encontro de cúpula União Européia-África, em Portugal, revelou quão irritadiços alguns líderes africanos como Kibaki ficam em relação a críticas ocidentais. Quando a chanceler alemã Angela Merkel censurou o ditador do Zimbábue, Robert Mugabe, por violações de direitos humanos, o presidente do Senegal, Abdoulaye Wade, corrigiu furiosamente Merkel, dizendo aos repórteres: “Quem pode dizer que direitos humanos são violados mais no Zimbábue do que em outros países africanos? Ninguém pode dizer isso”.

Ironicamente, o fluxo constante de ajuda à África reduziu a eficácia da pressão diplomática. O Ocidente fornece ajuda à maioria das ditaduras africanas, incluindo o Zimbábue, quase sempre justificando sua decisão com o argumento de que a eliminação da ajuda seria mais prejudicial para aqueles que necessitam dela.

Outro elemento complicador no caso de Kibaki é que a comunidade mundial considerava o Quênia um bastião de estabilidade até agora, especialmente dada as condições bem mais problemáticas em outros países da região. Uganda sofre há mais de duas décadas com agitação interna e guerra civil, Ruanda foi devastada pelo genocídio em 1994, e o Congo, Somália e o Sudão tiveram todos sua cota de guerra civil. Enquanto isso, o Ocidente deliberadamente optou por fazer vista grossa às condições alarmantes no interior do Quênia.

Enquanto mediadores internacionais entram e saem de Nairóbi, as represálias étnicas parecem continuar fora da capital. Na última quinta-feira, homens do grupo étnico kalenjin, armados com facas e facões, ergueram bloqueios de estrada em chamas na região ao redor de Eldoret, onde revistaram carros atrás de membros do odiado grupo kikuyu.

Ao mesmo tempo, comboios intermináveis de carros se formavam diante da delegacia de polícia da região, onde centenas de kikuyu acamparam por dias. “Na semana passada, um kalenjin veio à nossa casa e nos disse que eles voltariam em breve para matar a mim e minha família”, disse Joe Kamau, 37 anos. Ele empacotou seus pertences, pegou seus três filhos e buscou refúgio na delegacia. Kamau disse que deseja ir para Nairóbi.

Enquanto isso, funcionários da Cruz Vermelha encontraram 13 cadáveres carbonizados de crianças e bebês, a mais jovem com não mais de dois meses de idade, nas ruínas da igreja em Kiambaa. Os corpos de seus pais assassinados ainda se encontram diante da igreja, onde tentaram proteger suas famílias e foram mortos em seus esforços.

Der Spiegel
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Revolução Negra

A independência do Haiti, influenciada pela Revolução Francesa, é considerada a única revolta de escravos bem-sucedida desde a Antigüidade clássica. Esse capítulo da história enche de orgulho os afro-descendentes latino-americanos, como símbolo da abolição. Na época, provocou temor nas nações escravocratas – Estados Unidos, Brasil e Cuba

Aloisio Milani

O trabalho na cana era extenuante e desumano. Por décadas, a colônia francesa de São Domingos sustentou um dos mais lucrativos negócios do Novo Mundo com o chicote apontado para o corpo dos escravos africanos. Os negros cavavam valas para o plantio das mudas, cuidavam dos brotos, zelavam pelo crescimento, faziam a colheita e toda a fabricação do açúcar. Os lucros dependiam da exploração do trabalho. A manutenção da escravidão pelos donos de engenho se baseava em castigos brutais e tinha um nível de perseguição implacável. Os relatos da época descreviam que as punições das chibatas eram mais comuns do que receber comida. Mutilavam-lhes membros, orelhas e genitais; faziam-nos comer excrementos; amarravam-lhes grilhões e blocos de madeira; prendiam-nos a postes fincados no chão. A tortura sistemática originava, não sem razão, uma sede de vingança. E este foi um dos motivos da revolta que seria iniciada em 1791 e conformou a única rebelião vitoriosa de escravos desde a Antigüidade clássica. A independência do Haiti, proclamada em 1804, só nasceu por causa dela.

Na ilha de Ahti – como os índios descreveram a região montanhosa para Cristóvão Colombo em 1492 –, o período colonial deixaria as marcas de genocídios, torturas e escravizações desde fins do século XV. A população nativa foi dizimada. Passou de aproximadamente meio milhão para cerca de 60 mil em rápidos 15 anos. Enquanto os espanhóis deixavam parte do território à medida que acabava a riqueza das minas de ouro, os franceses passavam a ocupar o norte da ilha. Em 1697, a Espanha reconheceu a soberania da França nas terras. A partir daí, o empreendimento dos colonizadores foi a cana-de-açúcar produzida pelas mãos dos escravos. São Domingos era um oásis exponencialmente lucrativo para a burguesia marítima, responsável pelo tráfico negreiro, e para os produtores de açúcar. Cerca de 20 anos antes da revolta, a colônia começou a viver a apoteose. Exportava 35 mil toneladas de açúcar bruto e 25 mil toneladas de açúcar branco. A elite branca ostentava mais e mais. Entre 1783 e 1789, a produção quase dobrou. E a colônia não avançava sem os escravos.

Ingleses, espanhóis, portugueses e franceses seqüestravam africanos aos milhões. Apesar de o poder estar com a nobreza, a burguesia francesa se transformou na maior força econômica da nação, cujas riquezas eram a produção colonial e o tráfico negreiro. Em São Domingos, entre 1764 e 1771, importava-se uma média anual de 10 mil escravos. De 1787 em diante, eram mais de 40 mil por ano. Os africanos que chegavam escravizados eram sobreviventes: os negros enfrentavam uma viagem transatlântica pela Rota do Meio como cargas selvagens de um traficante. Não raro, quase um quarto dos escravos transportados morria dentro dos navios pelas péssimas condições de alimentação e higiene. Quando chegavam aos portos, eram examinados, comprados e queimados com ferro em brasa em cada lado do peito para identificar seu dono. Os maus tratos que se seguiam estimulavam juras de contra-ataque. Algumas delas eram proferidas nos rituais noturnos de vodu, sincretismo dos rituais africanos com o catolicismo.

OS INIMIGOS BRANCOS Em creoule, dançavam e gritavam canções ameaçadoras, registra o escritor Cyril Lionel Robert James. “Ê! Ê! Bomba! Heu! Heu! Canga, bafio té! Canga, mauné de lé! Canga, do ki la! Canga, li!” A tradução seria algo como: “Juramos destruir os brancos e tudo o que possuem; que morramos se falharmos nesta promessa”. Tal qual o Brasil pré-abolicionista, também havia quilombos organizados nas montanhas haitianas para montar uma resistência contra a escravidão. O mais temido foi o líder Mackland. Negro da Guiné, ele era um visionário, grande orador e se dizia imortal com os poderes do vodu. Tinha seguidores aos montes. Em 1758 planejou envenenar a água das casas dos brancos para libertar os escravos. Foi traído, capturado e queimado vivo. Essa história, que mais parece invenção, virou até mote para livro do realismo fantástico latino-americano – O reino deste mundo, do cubano Alejo Carpentier.

Mas o rancor dos maus-tratos não foi a única razão para a eclosão das revoltas de 1791. Os ecos dos ideais iluministas da Revolução Francesa de 1789 reboaram na colônia. Sob o lema “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”, o marco histórico europeu derrubou valores do absolutismo e acendeu idéias burguesas. A abolição dos escravos era defendida, apesar de ser o sustentáculo da burguesia marítima. A Inglaterra, que havia perdido sua colônia na América do Norte com ajuda dos pensamentos iluministas franceses, passava a fazer propaganda contra a escravidão. Após a convocação dos Estados-gerais na França – representações da nobreza, burguesia e clero –, alguns proprietários de terra em São Domingos apressaram-se em formar um comitê para defender seus interesses. Um grupo de mulatos também enviou uma delegação. Formou-se uma representação colonial, um fato inédito. Logo os colonistas queriam mais espaço na política às vésperas da revolução. Conseqüentemente, foi questionada sobre a contradição da exigência de um número maior de cadeiras para os proprietários de São Domingos com a manutenção da escravidão. Afinal, o lema não era igualdade?

BURGUESIA NO PODER Mirabeau, representante do Terceiro Estado, gritava que caso os latifundiários colonialistas não considerassem os negros como homens de direito seria equivalente à França ter de admitir, em sua representação política, também os “cavalos e as mulas”. Num golpe, a burguesia francesa conseguiu criar uma Assembléia Nacional, o que contrariava os interesses da monarquia. A revolução começava. Na visão do autor C.L. R James, que escreveu Os jacobinos negros, o mais importante registro daquelas revoltas, essa discussão atrelava, por fim, as fortunas de São Domingos à assembléia de um povo em revolução. “Dali em diante a história da liberdade na França e da emancipação em São Domingos seria una e indivisível.” O rei Luís XVI ordenou a dissolução da assembléia. As forças populares tomaram a Bastilha, símbolo do absolutismo. Na prática, o rei perderia poder. Em 1790, com o andar da revolução, foi permitida a formação de uma Assembléia Colonial. A sociedade de São Domingos mantinha uma divisão entre latifundiários, brancos pobres, mulatos livres e escravos. Nos debates na colônia, permanecia o conservadorismo do statu quo.

A Assembléia Constituinte, na França, em 1791, aprovou a igualdade de direitos entre todas as pessoas em São Domingos. A medida permitia o voto dos mulatos, mas ainda não era a abolição da escravidão. Sua repercussão na colônia era questão de tempo, pois tinha se reconhecido o direito de “homens de cor”. O clima revolucionário contagiou as ruas de São Domingos. Muitos escravos, alguns mais próximos aos centros onde ocorriam os debates, começavam a entender a dimensão da oportunidade. Ricos fazendeiros viam a decisão da igualdade de direitos como uma ameaça brutal. Insistiram na posição de que mulatos e negros simplesmente não eram pessoas – uma rasura mal emendada da regra. Paralelamente aos protestos dos mulatos contra os brancos, os escravos começavam a se organizar. Não mais como o quilombola Mackland.

Na planície do norte de São Domingos, onde os canaviais se alastravam lado a lado por dezenas de quilômetros, um capataz (e também sacerdote do vodu) liderou uma rebelião. Boukman planejou atear fogo nas plantações, exterminar os brancos e tomar a colônia a partir de Lê Cap. Quando começou a revolta, os escravos destruíram completamente as fazendas. As plantações viraram cortinas de chamas e fumaça. Os latifundiários foram executados. O ódio dos negros aflorou e Boukman começou a revolução negra.

Os escravos da parte sul e do lado ocidental engrossaram o coro das revoltas. A repressão aumentou. Boukman foi morto em luta, mas o levante não parou. Os insurgentes passaram de 100 mil e ganharam adeptos. De uma onda de fúria, o movimento amadureceu e abraçou a bandeira da liberdade e da independência.

Ao lado dos primeiros líderes, como Jean François e Biassou, outro ex-escravo demonstrou excelência de planejamento militar e conhecimento de política: Toussaint L’Ouverture. Ele recebeu certa liberdade de seu senhor de engenho para tocar a fazenda, teve acesso a alguma literatura e não foi submetido aos suplícios dos maus-tratos. Possuía uma intuição política acima da média e logo se tornou um dos comandantes da revolta. Unificou e organizou um exército que poderia derrotar tropas européias.

PAZ INATINGÍVEL Os brancos se negavam a aceitar uma rendição ou um acordo de paz. Três comissários franceses com 6 mil soldados chegaram a São Domingos para tentar acabar com as disputas políticas e as rebeliões dos escravos. Logo depois a monarquia caiu na França e a República foi proclamada. Em meio às negociações dos comissários, os franceses declararam guerra contra a Inglaterra e os rebeldes também se mobilizavam na medida da evolução política do Velho Continente. Os exércitos dos ex-escravos se movimentaram entre apoios à Espanha, Inglaterra e França durante os anos seguintes. Em 1794, a França aboliu a escravidão de todos os seus territórios. Toussaint, lutando pelos franceses, conseguiu expulsar britânicos e espanhóis da colônia. Foi nomeado pela metrópole chefe do exército. Chegava ao auge de seu poder. Quando Napoleão Bonaparte foi eleito primeiro-cônsul, São Domingos proclamou uma Constituição, tornando-se província autônoma. Contudo, em 1802, Napoleão se tornou cônsul vitalício e começou a reação. Já com o domínio da Louisiana, ao sul dos Estados Unidos, enxergou São Domingos como um ponto-chave para a expansão do império francês no Novo Mundo. Enviou uma armada para a ilha:47 mil homens sob o comando do general LeClerc.

Toussaint não acreditava que Napoleão quisesse restabelecer o domínio e a escravidão, mas virou-se contra o governante. Após fracassos de seu exército, rearticulou as forças sob seu comando e imprimiu sobre as tropas francesas derrotas memoráveis. Ainda bem-intencionado com os colonizadores, o líder negro fez um acordo de paz e se deixou levar, preso, até a França, na tentativa de negociar. Acabou morto numa prisão em Forte Joux, nos Alpes. O maior líder da revolta foi traído por sua própria confiança na liberdade.

O movimento independentista não parou. Nova rebelião, desta vez liderada por Dessalines, derrotou as tropas de LeClerc e proclama a independência da ilha em 1804 sob o nome de Haiti. O ciclo da revolução negra se fechava depois de mais de uma década de conflitos com um saldo de pelo menos 200 mil mortes entre os rebeldes.

“A revolta iniciada por Toussaint L’Ouverture visava assegurar aos habitantes da colônia os mesmos direitos que os da metrópole. Era uma luta pela igualdade, e essa luta sempre foi um equívoco dos movimentos negros. Jacques Dessalines, aliado de Toussaint, não pensava em igualdade. Sabia que a liberdade de sua gente só estaria assegurada se lutasse pelo poder”, explica Afonso Teixeira Filho, tradutor para o português da obra Os jacobinos negros.

A repercussão da revolução de São Domingos foi gigantesca para a luta contra a escravidão. Ainda maior era o temor dos escravocratas de que a revolta influenciasse todas as Américas. O historiador John Hope Franklin escreveu, em Da escravidão à liberdade, que os americanos ficaram horrorizados diante das notícias do que acontecia no Haiti. A partir de 1791, “muitos preocuparam-se mais com os acontecimentos no Haiti do que com a luta de vida ou morte que se desenvolvia entre França e Inglaterra”. No Brasil, muitos comentaristas nativos e estrangeiros escreveram sobre os perigos da revolta em terras tupiniquins, embora a influência tenha sido limitada. Alguns milicianos mulatos no Rio de Janeiro usavam retratos de Dessalines.

EXEMPLO PARA O MUNDO “No período da Regência (1831-40), o termo ‘haitianismo’ foi usado como um epíteto contra jornais que supostamente representavam os interesses da população de cor livre e abordavam persistentemente a questão racial”, diz Stuart Schwartz, em Segredos internos – Engenhos e escravos na sociedade colonial. Nenhum dos inquéritos judiciais contra as rebeliões escravas na Bahia apontava a inspiração haitiana, mas não há dúvidas sobre sua importância na luta contra a escravidão colonial.

A revolução de São Domingos tocou no cerne dos interesses da época. Naquela geopolítica, a derrota das tropas francesas fez com que Napoleão vendesse a Louisiana a preços baixos e evitou uma possível expansão nas Américas. Gerou, claro, grande impacto no mercado do tráfico de escravos e no preço do açúcar. Quando o parlamentar francês Jean Jaurès, autor de História socialista da Revolução Francesa, classifica a Revolução Francesa de “triste ironia da história humana”, uma análise pode ser estendida ao Haiti. Isso porque a própria riqueza do comércio de escravos deu orgulho suficiente para a burguesia francesa lutar pela Revolução Francesa – liberdade e igualdade de direitos dos seres humanos. Ou seja, a desumanidade da escravidão gerou a revolução da emancipação humana. E a principal fonte de recursos dessa burguesia, a venda de escravos a São Domingos, se esvaiu depois que a liberdade impregnou as mentes dos habitantes do Haiti. Causou outra ruptura. Ironia de um realismo fantástico.

REVOLUÇÃO NA FRANÇA
9/7/1789
Nobreza, clero e burguesia (Estados gerais) discutem a crise

14/7/1789
Queda da Bastilha, símbolo do absolutismo

26/8/1789
Votação da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão

1792
Após a convenção nacional, a monarquia é abolida

1793
Rei Luís XVI é guilhotinado

1804
Napoleão proclama-se imperador

EM SÃO DOMINGOS
1791
Início das primeiras rebeliões de escravos

3/9/1791
Assembléia francesa decreta igualdade de direitos em São Domingos

1793
O líder rebelde Toussaint L’Ouverture é nomeado general da República

1801
São Domingos proclama uma Constituição e se torna província autônoma

1802
Napoleão envia tropas para retomar o domínio da colônia

1804
Dessalines proclama a independência do Haiti

História Viva
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Stanley Jordan - fantástico

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Atualidade de Lênin

Antonio Ozaí da Silva

Algumas obras sobrevivem ao tempo. “O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo”, de Lênin é uma delas. Escrita de janeiro a junho de 1916, quando a Rússia se encontrava sob o governo tzarista, o autor precisou driblar a censura política:

“Por isso, não só me vi forçado a limitar-me estritamente a uma análise teórica, sobretudo econômica, como também tive de formular as indispensáveis e pouco numerosas observações políticas com a maior prudência, servindo-me de alusões na língua de Esopo – linguagem alegórica que o tzarismo constrangia todos os revolucionários a utilizar sempre que pegavam na pena para escrever uma obra “legal” (prefácio, p.09).

Mesmo sob condições adversas, o autor oferece aos leitores um “ensaio popular” esclarecedor e instigante. Lênin apresenta um quadro analítico sobre a economia capitalista mundial à época, analisando as origens e desenvolvimento do monopólio, do capital financeiro, do novo colonialismo e a necessidade de partilhar o mundo, em suma, as origens e características do capitalismo na fase imperialista. Ele expõe a essência da natureza da guerra mundial de 1914-1918: uma guerra imperialista.

Sob o risco da redundância, é preciso ter claro que o objetivo de uma obra como esta é, fundamentalmente, político. Lênin foi um intelectual prático e sua obra é, também, fator de intervenção política. Com esta, almeja contribuir com os comunistas, em especial, dos países avançados. Ele considera “que é possível – e necessário – aproveitar mesmo os pequenos vestígios de legalidade que ainda lhes restam (…) para demonstrar toda a falsidade das concepções social-pacifistas e das esperanças numa democracia mundial” (Prefácio às edições francesa e alemã, p. 11). Seu alvo é a II Internacional, que se rendeu ao reformismo e ao nacionalismo, e, especialmente, o kautskismo,

“essa corrente ideológica internacional que em todos os países do mundo é representada pelos “teóricos mais eminentes”, chefes da 2ª Internacional (Otto Bauer e cia. na Áustria, Ramsay MacDonald e outros na Inglaterra, Albert Thomas na França etc. etc.) e um número infinito de socialistas, de reformistas, de pacifistas, de democratas burgueses e de clérigos” (p. 14).

Para Lênin, Kautsky e companhia representam a falência da II Internacional, sua decomposição e putrefação, e a “renúncia completa dos fundamentos revolucionários do marxismo” (p. 15).

A obra centra-se na análise econômica:

“Nas páginas que se seguem, procuraremos expor sumariamente, da forma mais simples possível, os laços e as relações recíprocas existentes entre as particularidades econômicas fundamentais do imperialismo. Não nos deteremos, por mais que mereça, no aspecto não-econômico do problema” (p. 20).

Não obstante, como afirmado acima, cumpre objetivos políticos.

O autor, devido às condições precárias nas quais teve que escrever, se vale, essencialmente, de fontes “burguesas”.[1] Contudo, utilizou o livro Imperialismus do inglês J. A. Hobson, publicado em 1902, considerado “a obra inglesa mais importante sobre o imperialismo” (p. 09). Lênin usou e abusou de dados, estatísticas e declarações, considerados “irrefutáveis”, produzidos pela “ciência burguesa” (p. 11). Ele se apropria destas fontes para argumentar criticamente.

O livro estrutura-se em dez partes. Na primeira, Lênin analisa como se deu a concentração da produção e a formação dos monopólios. “O enorme incremento da indústria e o processo notavelmente rápido de concentração da produção em empresas cada vez maiores constituem uma das particularidades mais características do capitalismo”, afirma (p. 21). Este processo gerou o monopólio, “a última palavra da “fase mais recente de desenvolvimento do capitalismo” (p. 36). Para compreender plenamente a formação deste, é preciso analisar os bancos e o novo papel que este passa a cumprir nesta fase. Este é o tema da segunda parte.

O capital financeiro passa a predominar e forma-se a oligarquia financeira. Esta é uma característica importante que assinala a superação do velho capitalismo competitivo da fase pré-monopolista. A predominância do capital financeiro tem como fundamento a crescente exportação de capital e a criação de uma rede internacional de dependências. Estes temas são analisados nas partes III e IV.

A exportação de capital ocorre porque passa a haver excedente de capital nos países avançados. Lênin ironiza os que pensam que este capital poderia ser utilizado para melhorar as condições de vida das massas, em vez de ampliar os lucros. Então, diz ele, “o capitalismo deixaria de ser capitalismo, pois o desenvolvimento desigual e a subalimentação das massas são as condições e as premissas básicas inevitáveis, deste modo de produção” (p. 74). O excedente de capital nos países avançados e a necessidade de exportá-los fizeram com que estes passassem a disputar o mundo, partilhando-o. Neste processo, formam-se os cartéis, trustes etc., que expandem as suas respectivas áreas de influências. Lênin analisa-o nas partes V e VI.

Na sétima parte, ele sintetiza e faz um balanço sobre o que expôs até então:

“O imperialismo surgiu como desenvolvimento e desdobramento direto das características fundamentais do capitalismo em geral. Mas o capitalismo só se transformou em imperialismo capitalista quando chegou a um determinado grau, muito elevado, do seu desenvolvimento, quando algumas das características fundamentais do capitalismo começaram a transformar-se na sua antítese (…). O que há de fundamental neste processo, do ponto de vista econômico, é a substituição da livre concorrência capitalista pelos monopólios capitalista. A livre concorrência é a característica fundamental do capitalismo e da produção mercantil em geral. O monopólio é precisamente o contrário da livre concorrência” (p. 103).

Ele conclui esta parte com uma questão fundamental:

“… sob o capitalismo, que outro meio poderia haver, a não ser a guerra, para remediar, de um lado, a desigualdade entre o desenvolvimento das forças produtivas e a acumulação de capital e, de outro, a partilha das colônias e das zonas de influência do capital financeiro?” (p. 115).

A guerra imperialista é a resposta, a conseqüência lógica do desenvolvimento capitalista em sua fase superior, dos monopólios e domínio do capital financeiro. Lênin reafirma a crítica política ao kautskismo e aos oportunistas de toda espécie. Ele detecta uma tendência importante na fase do monopólio: o parasitismo (Lênin considera que, neste ponto, o não-marxista Hobson tem uma análise mais avançada que o marxista austríaco Rudolf Hilferding, autor de O Capital Financeiro, publicado em 1910).

Por outro lado, o capitalismo imperialista tende a cooptar setores da classe operária, a qual passa por um processo de aburguesamento. “A ideologia imperialista penetra até mesmo no seio da classe operária, que não está separada das outras classes por uma muralha da China”, diz Lênin (p. 129). O imperialismo fortalece o reformismo e é um dos fatores que explicam a falência da II Internacional. É preciso, portanto, fazer a crítica do imperialismo, isto é, analisar “a atitude das diferentes classes da sociedade perante a política imperialista, de acordo com a sua ideologia geral” (id.). Lênin concentra-se na crítica a Kautsky, cujas idéias expressam o “espírito reacionário, reformista burguês” (p. 134). Estas questões são analisadas nas partes VIII e IX.

Na última parte, Lênin trata do lugar do imperialismo na história, assinalando os seus traços essenciais. Para ele, a luta contra o imperialismo soará como “uma frase oca e falsa se não for indissoluvelmente ligada à luta contra o oportunismo”, ou seja, Kautsky e os “social-imperialistas”. Porém, sua mensagem soa otimista: “De tudo que dissemos sobre a natureza econômica do imperialismo deduz-se que se deve qualificá-lo de capitalismo de transição ou, mais propriamente, de capitalismo agonizante” (pp. 148-149).

Esta edição reproduz o “Manifesto do Congresso de Basiléia da Internacional Socialista” (1912), que aprovou, por unanimidade, a política revolucionária de negação e enfrentamento da guerra imperialista iminente. Contém, ainda, a biografia do autor, escrita por Trotsky e o posfácio “Notas sobre a atualidade de “O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo”, assinado por Markus Sokol (economista, da direção nacional do PT e da corrente O Trabalho, e integrante do Conselho Geral da IV Internacional). A publicação do livro, como indicado na apresentação, foi “uma decisão política, que dá toda dimensão à criação da Nova Palavra Editora” (p. 07). Como também foi uma “decisão política”, aliás, legítima, incluir na mesma um posfácio que, como o título indica, procura comprovar a atualidade da obra de Lênin e polemiza com outros setores do trotskismo, mais precisamente com Ernest Mandel e Michael Löwy (Secretariado Unificado), e o “revisionismo direitista do grupo inglês “Militant”, de Ted Grand (pp. 187-190). Foi uma “decisão política”… O leitor que avalie se deve entrar no mérito da polêmica ou se ater à parte principal da edição, a obra de Lênin.

“O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo” situa-se num contexto de luta política nas hostes do marxismo, numa fase em que a polêmica não se restringe aos conceitos e teorias, mas opõe uns aos outros de forma irreconciliável. Lênin agrupará em torno da sua liderança, impulsionada pela vitória da Revolução Russa, a ala revolucionária contra os que teriam renegado o marxismo.

As circunstâncias mudaram, mas a polêmica ressuscita e se reincorpora em outros corpos e mentes que atuam em organizações e partidos que se reivindicam do legado marxista. Isto me parece normal, na medida em que as contradições da sociedade capitalista renovam e tornam necessário a crítica, no sentido da sua superação. Como no passado, hoje também há os que imaginam transformar o capitalismo através de reformas graduais e pacíficas; e há os revolucionários. Por outro lado, é compreensível a disputa pelo legado simbólico da tradição marxista. No entanto, no contexto atual, uma obra deste gênero abre-se à novas leituras e novos leitores, libertos dos maniqueísmos ou mesmo do culto ao líder. “O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo” serve tanto aos objetivos da disputa política entre os marxismos e destes em relação às correntes liberais e conservadoras, quanto à formação intelectual e política de leitores não necessariamente convertidos a qualquer “ismo”.

Em tempos de pretensa globalização e de guerras patrocinadas pelo Imperiu, Lênin permanece atual. Vale a pena ler a sua obra!

Revista Espaço Acadêmico
http://www.espacoacademico.com.br/

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‘Duas Caras’ para um só discurso: a ode ao conservadorismo

Se Duas Caras ataca a organização estudantil e apresenta como modelo de
comportamento a obediência bovina, acrítica e despolitizada dos "bons
alunos" da Universidade Pessoa de Moraes, o tratamento que dá à favela da
Portelinha não é muito melhor. (…) Duas Caras (…) nada de braçada no
preconceito. Dificilmente será lembrada no futuro, pelo que fez ao avanço
da democracia no Brasil.

Por Gabriel Priolli, no Observatório da Imprensa

Juvenal (Antonio Fagundes): fascistóide O ex-presidente da Radiobrás
Eugenio Bucci, arguto pensador da mídia, já observou que a telenovela
revela mais do Brasil do que o telejornalismo. Enquanto este enfrenta uma
enorme multiplicidade de fatos, está sujeito a toda sorte de pressões e
utiliza técnicas de abordagem que privilegiam a frieza de análise, o
distanciamento crítico e a isenção possível, aquela opera no registro
oposto.
Seleciona aspectos da vida social e trata deles de forma apaixonada,
visceral, pelas ações e conflitos de um grupo de personagens. É dessa
forma que o Brasil real emerge, com mais clareza, do microcosmo pulsante
dos folhetins do que do caos entorpecente do noticiário.
Bucci refere-se à telenovela em geral, ou àquela que busca realismo em
suas tramas, mas visa particularmente a novela das 9 da Rede Globo, ainda
hoje, como há quase 40 anos, o principal produto da televisão brasileira
pelo volume de audiência, faturamento comercial e importância na estrutura
da programação.
Se a sua tese é correta, como parece, é muito preocupante o retrato do
Brasil que nos oferece o título atual em exibição no horário, Duas Caras.
Delineia-se ali um perfil de regressão geral no debate democrático e de
fortalecimento do "pensamento único", ou do pensamento conservador que a
máquina coordenada da mídia quer fazer passar por verdade universal.
O esfacelamento da diversidade no jornalismo é fato notório, desde que os
grandes veículos deixaram de ter em seus quadros gente das mais variadas
tendências ideológicas, preferindo dar espaço a uma infinidade de vozes
que, com raríssimas exceções, apenas ecoam o pensamento liberal e fazem
proselitismo de seu ideário, em absoluta sintonia com a perspectiva
patronal.
Agora percebe-se que os colunistas de política e economia, os
editorialistas, os articulistas amigos e demais zeladores do pensamento
único ganharam a companhia dos autores de telenovelas. Ou, ao menos de um
peso-pesado entre eles, o consagrado Aguinaldo Silva, regente da orquestra
de redatores de Duas Caras.
Acusação oportunista
Antigo militante do progressismo, editor do primeiro jornal voltado à
defesa dos homossexuais no Brasil (Lampião da Esquina, anos 1970),
Aguinaldo Silva é agora o patrono de uma verdadeira ode ao
conservadorismo, entoada ao público em capítulos diários. O tratamento que
vem dando a alguns conflitos seriíssimos do cotidiano carioca, foco de sua
novela, está carente de equilíbrio e longe de permitir ao telespectador um
julgamento isento do que lhe é oferecido.
Algumas situações e personagens são construídos por uma ótica muito
restrita, totalmente discutível, que não por acaso é a mesma com a qual
são pautados os produtos jornalísticos da grande imprensa, em geral.
Nos últimos dias, uma parte importante da trama gira em torno de uma
acusação de racismo ao reitor Francisco Macieira (José Wilker),
recém-entronizado no comando de uma instituição particular de ensino, a
Universidade Pessoa de Moraes. Figura de proa na esquerda revolucionária,
exilou-se em Paris durante a ditadura militar e lá permaneceu depois da
redemocratização do país, trabalhando como professor, até encontrar a
proprietária da universidade, iniciar um romance com ela e receber o
convite para voltar ao Brasil.
Macieira chega à UPM como um demiurgo da modernidade, um reformador
avançado. Rapidamente entra em conflito com os professores da casa,
retratados como um bando de preguiçosos corporativistas, que só querem
manter privilégios, trabalhar pouco e ganhar muito. Da mesma forma,
conflita com parte dos estudantes, apresentados como marionetes dos
professores espertalhões, agitadores inconseqüentes, que só querem
atrapalhar a vida da universidade.
Um desses estudantes - um rapaz negro com o ariano nome de Rudolf Stenzel
(Diogo Almeida), sugerindo ser um órfão criado por família estrangeira,
portanto um privilegiado que não deveria se queixar da boa sorte que teve
na vida - tenta colocar os colegas contra o reitor "porque ele foi
imposto", não foi eleito em consulta democrática.
Rudolf inscreve-se num curso de verão de Macieira, mas falta
sistematicamente às aulas. No dia em que resolve aparecer na classe, o
reitor ironiza a sua presença, perguntando se ele é algum zumbi, um ser
errático que surge das sombras. Oportunista inescrupuloso, o rapaz
distorce a acepção em que termo zumbi foi usado, enxerga nele um sentido
pejorativo e acusa o reitor formalmente de racismo, dando queixa à
polícia. O caso explode na mídia e Macieira está às voltas com uma grande
dor de cabeça.
Destrambelhados de terceiro grau
O problema dessa história está na diferença de tratamento. Enquanto
Macieira tem todas as condições para afirmar o seu discurso, justificar
suas ações, delinear-se como um personagem coerente, Rudolf é pouco mais
que um figurante. Personagem unidimensional - como, de resto, são os seus
professores -, não se sabe ou se ouve dele nada além da sua obstinação em
protestar, criar caso, arrumar problemas sem razão objetiva.
No episódio em questão, a sua má-fé é clara e, obviamente, suscita toda
simpatia do telespectador ao seu oponente. Mas Rudolf não é apenas o
"aluno-problema", como o site da novela no portal Globo.com o define. Ele
representa um estereótipo abertamente negativo do estudante engajado, que
é desqualificado como inconseqüente, intransigente e desonesto.
Esse estereótipo começou a ser construído há algumas semanas, quando
Aguinaldo Silva concebeu uma invasão estudantil à UPM, em protesto contra
as mensalidades cobradas aos alunos. Inspirando-se nas ocupações do ano
passado na USP, Unicamp e PUC-SP, o autor e sua equipe reproduziram o
mesmo discurso da grande imprensa naqueles episódios: o de que os
estudantes mobilizados são radicais, não têm uma postura construtiva e são
baderneiros, depredadores do patrimônio alheio.
Ainda que os casos de vandalismo tenham sido marginais nos movimentos
universitários citados, foram apresentados com grande estardalhaço, como
se sintetizassem a postura estudantil. Duas Caras embarcou nesse clima e
providenciou o seu próprio grupo de destrambelhados de terceiro grau. Fez
o estrago que desejava.
Outro dia, um dirigente estudantil comentou na Unicamp que, "depois da
novela, ficou impossível convencer a minha mãe que a política estudantil
não é aquela baderna apresentada". Agora, tempos depois da invasão, os
estudantes politizados da novela não são mais apenas baderneiros. São
também mentirosos, ardilosos, desonestos.
Legítima defesa
Se Duas Caras ataca a organização estudantil e apresenta como modelo de
comportamento a obediência bovina, acrítica e despolitizada dos "bons
alunos" da Universidade Pessoa de Moraes, o tratamento que dá à favela da
Portelinha não é muito melhor.
Todos sabem que, em qualquer grande favela brasileira, do Rio de Janeiro
ou alhures, o crime (em geral, o tráfico de drogas) tem um grande poder
político, derivado de sua força militar e do intenso assistencialismo que
promove. Tanto os "chefes de morro" quanto seus subordinados são,
inequivocamente, bandidos e dessa forma são percebidos por toda a
comunidade, ainda que as eventuais bondades que distribuam sejam
apreciadas e usufruídas. Com absoluta certeza, qualquer morador de favela
preferia se ver livre deles, se tivesse a mínima chance de obter isso.
Na favela da Portelinha, entretanto, a ambigüidade é total. O chefão
Juvenal Antena (Antonio Fagundes) não é traficante nem bandido, assim como
todos os seus fiéis soldados. É apenas dirigente da associação de
moradores local, que toca com mão-de-ferro e democracia zero, que não
impedem o povo de considerá-lo um herói. Impossível saber como Juvenal
conseguiu o milagre de, durante muitos anos, manter o crime longe de sua
comunidade, sem apoio do Estado ou das milícias paramilitares que vendem
segurança, e também sem usar qualquer tipo de arma.
Apenas recentemente, quando um grupo de traficantes tentou invadir a
Portelinha, os moradores souberam que Juvenal estocava um verdadeiro
arsenal de guerra, incluindo bazuca, de procedência ignorada. Foi o que
lhes permitiu rechaçar os invasores, num combate apresentado como muito
honroso, travado em legítima defesa, como se os dois lados em conflito não
estivessem na ilegalidade do porte e uso de armas privativas das Forças
Armadas.
De braçada
Na moral ambígua de Duas Caras, em suma, a turma do bem pode transgredir a
lei sem problemas, se for para combater a turma do mal. Estudantes que
dissentem da orientação da universidade são radicais perniciosos, portanto
formam na turma do mal. Professores idem, eles que são vagabundos e
manipuladores.
E um fascistóide explícito como Juvenal Antena, ainda que contestado em
suas práticas antidemocráticas pelo pupilo Evilásio Caó (Lázaro Ramos),
segue firme e forte na turma do bem, com direito a namorar a maior beldade
da trama, a disputada Alzira (Flávia Alessandra).
Ok, tudo isso é novela e não se pode levá-la tão a sério, dirão os que
discordam da tese de Eugênio Bucci. Há que se conceder descontos ao autor,
para que a trama possa funcionar como folhetim e a telenovela cumpra o seu
papel de impelir a indústria televisiva.
Mas é a própria TV Globo que se ufana do compromisso de suas novelas com a
realidade brasileira, sempre exaltado em seu discurso institucional e em
sua publicidade. Se é assim, suas novelas podem e devem ser levadas a
sério, e criticadas com rigor no discurso que enunciam.
Anos atrás, na mesma TV Globo, O Rei do Gado de Benedito Ruy Barbosa deu
grande contribuição para uma visão menos estereotipada dos trabalhadores
sem-terra e suas ações. Duas Caras, ao contrário, nada de braçada no
preconceito. Dificilmente será lembrada no futuro, pelo que fez ao avanço
da democracia no Brasil.

Observatório da Imprensa

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Os sonhos decifrados

Nos sonhos, o fantástico é natural e as coisas não precisam fazer sentido.

No mundo dos acordados, o homem tenta há milênios descobrir um sentido para os sonhos

André Santoro

Já pensou em visitar um lugar em que as leis da física valem tanto quanto uma nota de 3 reais? Onde você pode beijar uma estrela de cinema segundos antes de sair voando, cair e morrer, para levantar em seguida e ir para o trabalho de pijama? Num universo em que a lógica não tem vez, mas tudo parece fazer sentido - até você acordar e não entender nada do que se passou no momento anterior?

Você e a humanidade inteira são habitués desse lugar mental - o domínio dos sonhos. Supondo que uma pessoa passe um terço do dia dormindo e ocupe um quinto do tempo de repouso sonhando, ela passa um fim de semana por mês totalmente desligada do mundo consciente. Em uma existência de 75 anos, os sonhos correspondem a nada menos que 5 anos completos.

Apesar de termos tanta familiaridade com os sonhos, poucos fenômenos são tão intrigantes quanto eles. Seus mistérios atormentam o homem desde sempre - e ainda não há nenhuma resposta 100% convincente para esses enigmas. Entre os antigos, os sonhos costumavam ser interpretados como mensagens de outros mundos. Com a psicanálise, ganharam destaque como o caminho mais privilegiado para decifrar o inconsciente. Os avanços científicos mais recentes são promissores: graças ao desenvolvimento das neurociências, já foram desvendados alguns mecanismos cerebrais e funções da experiência onírica. Sabe-se, por exemplo, que os devaneios noturnos ajudam, e muito, a consolidar memórias. Nesta reportagem, você vai acompanhar a trajetória do pensamento humano no maravilhoso mundo dos sonhos. Por enquanto, fique de olhos bem abertos e aproveite a viagem.

Ponte para o divino

Em 332 a.C., Alexandre, o Grande, tentava invadir a cidade fenícia de Tiro (no atual Líbano). Apesar da supremacia de seu exército, a localização da cidade - que ficava em uma ilha a quase 1 quilômetro da costa - atrapalhou os planos do conquistador. Depois de 7 meses de cerco, os soldados estavam sem ânimo e o próprio Alexandre começou a pensar na possibilidade de desistir da empreitada. Antes de bater em retirada, no entanto, ele teve um sonho enigmático com um sátiro dançando sobre o seu escudo. A imagem da figura mitológica ficou martelando tanto em sua cabeça no dia seguinte que ele resolveu se aconselhar com um guia espiritual que acompanhava suas tropas. Depois de ouvir o relato do sonho, o adivinho o interpretou como um sinal de que o cerco deveria ser ainda mais agressivo, pois a cidade seria conquistada em breve. Ele chegou a essa conclusão após desmembrar a palavra sátiro em duas partes - o resultado foi a expressão sa Turos, que pode ser traduzida do grego como “Tiro é sua”. Alexandre acreditou no guru, fechou o cerco e, dito e feito, invadiu Tiro.

Esse episódio foi descrito pelo grego Artemidoro de Daldis na obra Oneirocrítica, escrita no século 2 da era cristã, e reproduzido por Sigmund Freud no livro A Interpretação dos Sonhos. Artemidoro e Ambrósio Teodósio Macróbio - pensador latino que viveu entre os séculos 4 e 5 - colheram relatos de pessoas e, após analisar esse material, dividiram os sonhos em duas categorias principais. Na primeira se encaixavam aqueles que reproduziam fatos do cotidiano do sonhador. Na segunda entravam aqueles que traziam alguma mensagem sobre o futuro, que podia se apresentar de forma direta - quando o próprio acontecimento é imaginado - ou simbólica, como o sonho de Alexandre, que precisou ser decifrado para revelar seu conteúdo oculto.

Artemidoro e Macróbio são considerados os principais pesquisadores sobre os sonhos na Antiguidade, mas não foram os únicos. Aristóteles, que viveu no século 4 a.C., já falava sobre o assunto em sua obra. “Ele sabia que o sonho converte informações sem muita importância percebidas durante o sono em sensações fortes”, escreveu Freud. Uma pessoa com febre, por exemplo, pode sonhar que está sendo queimada viva numa fogueira. O filósofo também teve outra sacada genial, que seria mais tarde confirmada pelas neurociências: segundo ele, os movimentos corporais que ocorrem durante algumas fases do sono têm relação direta com os sonhos.

Os estudos de Artemidoro, Macróbio e Aristóteles revelam uma preocupação pouco comum entre nossos antepassados. O sonho não era visto como uma produção da mente humana, mas como um fenômeno sobrenatural. A mitologia dos próprios gregos, por exemplo, delega a responsabilidade dos sonhos aos filhos de Hypnos, deus do sono, que por sua vez era irmão gêmeo de Tanatos, deus da morte. Entre os filhos de Hypnos estavam o célebre Morfeu, que trazia os sonhos dos homens; Icelus, que provocava os sonhos nos animais; e Phantasus, que despertava sonhos nas coisas inanimadas. Outro deus relacionado aos sonhos era Esculápio, cultuado em templos aonde as pessoas doentes iam para receber a cura divina durante os sonhos.

Outras crenças, tanto antigas quanto atuais, atribuem importância ao conteúdo dos sonhos. “A mitologia em que o sonho tem um papel mais fundamental é a das culturas xamânicas”, diz Malena Contrera, especialista em mitologia e professora da Universidade Paulista. Entre algumas, não há distinção entre o sonho e a realidade. No livro O Ramo de Ouro, o antropólogo britânico James George Frazer cita casos como o da tribo macusi, da Guiana: “Um índio doente sonhou que seu patrão o havia forçado a passar com sua canoa por uma série de cataratas e, quando acordou, reclamou que o mestre não teve piedade ao obrigar um inválido a sair e pegar no batente durante a noite”, escreveu Frazer. O autor cita ainda o exemplo dos dyak, indígenas que vivem na ilha de Bornéu (Indonésia). Eles acreditam que o espírito pode se desgarrar do corpo durante o sonho: “Quando um dyak sonha que caiu na água, ele é enviado a um feiticeiro para que este pesque o espírito de volta”.

Também era comum associar os sonhos a mensagens divinas. Em episódios da Bíblia, por exemplo, vários personagens recebem recados de Deus durante os sonhos. No capítulo 41 do Gênesis, José, capturado como escravo no Egito, se apresenta ao faraó como uma espécie de intermediário de Deus. Ele decifra um sonho do soberano, no qual 7 vacas magras devoram 7 vacas gordas. Para José, trata-se de uma mensagem clara: os egípcios deveriam se preparar, pois depois de 7 anos de abundância viriam outros tantos de fome. Só a passagem de todos os anos de escassez bastou para que o hebreu fosse levado a sério - e finalmente nomeado vice-rei do Egito. Pouquíssimo tempo, se comparado à demora da humanidade para adotar uma postura menos mística em relação ao estudo dos sonhos.

De Darwin à psicanálise

As interpretações sobrenaturais dos sonhos perderam força a partir do século 19, quando a ciência começou a se ocupar mais atentamente da questão. Um dos primeiros indícios dessa transformação está no livro A Descendência do Homem, de Charles Darwin, publicado em 1871. Nessa obra, o autor do célebre A Origem das Espécies, de 1859, faz algumas observações sobre a nossa capacidade de sonhar e sugere que não estamos sozinhos no reino de Morfeu. “Cachorros, gatos, cavalos e provavelmente todos os animais superiores, até mesmo as aves, têm sonhos vívidos, o que é mostrado por seus movimentos e pelos sons que emitem. Por isso devemos admitir que eles têm algum poder de imaginação”, escreveu. Ele acertou na mosca - hoje os cientistas sabem que praticamente todos os mamíferos e aves têm a capacidade de sonhar.

Darwin foi contemporâneo de pesquisadores como a psicóloga americana Mary Calkins. No artigo Estatística dos Sonhos, publicado em 1893, ela apresenta um método usado até hoje: durante o sono, quando seus pacientes começavam a mover algumas partes do corpo, ela os acordava e pedia que relatassem o que estavam sonhando. Calkins descobriu, entre outras coisas, que a maioria dos sonhos acontecia na segunda metade do período de sono e que 89% dos relatos tinham relação direta com os eventos do dia anterior. Houve vários outros estudos sobre os sonhos na segunda metade do século 19, mas eles não fizeram muito sucesso. “Descobertas importantes como essa foram enterradas pelo impacto da psicanálise”, escreveram os neurologistas César Timo-Iaria - que morreu no ano passado - e Ângela do Valle, da USP, em artigo publicado em 2004 na revista Hypnos, da PUC-SP.

Depois de Freud, de fato, nada seria como antes. O criador da psicanálise inaugurou um novo campo do saber, distinto da medicina, ao publicar A Interpretação dos Sonhos, em 1900 - a data correta é 1899, mas ele pediu ao editor que alterasse o ano para simbolizar sua pesquisa como o marco de um novo século. Depois de elaborar sua teoria sobre o inconsciente, Freud apontou os sonhos como uma “via régia” ou “estrada real” para o conteúdo oculto em nossas mentes. À noite, depois de fechar os olhos, deixamos aflorar os desejos que reprimimos quando estamos acordados. Mas isso não acontece de forma direta - quem deseja cometer um crime, por exemplo, não adota necessariamente um comportamento ilegal no sonho.

Freud atribui ao sonho um caráter simbólico, formado a partir de dois mecanismos básicos: a condensação e o deslocamento, que servem para distorcer o desejo reprimido - ou recalque, como preferem os psicanalistas - e driblar a censura que nos impomos, no sono ou na vigília. A condensação é um processo de síntese (um sonho relatado em um parágrafo pode render muitas páginas de interpretação) e o deslocamento transfere a importância do tema em destaque para outro sem relevância (um marido infiel pode não sonhar com a amante, mas com as cortinas do quarto de hotel onde se encontram).

Nas décadas seguintes, a psicanálise foi debatida, modificada e ampliada por vários pesquisadores. Um deles foi Carl Gustav Jung, acolhido inicialmente por Freud como seu discípulo, mas que depois se afastou do mestre e criou sua própria teoria. Inclusive no que diz respeito ao sonhos. “Para Jung, o sonho é um mecanismo compensatório da psique, e a realização de desejos reprimidos é apenas um aspecto dessa compensação”, diz a psicóloga Marion Gallbach, da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica. Ela dá um exemplo para ilustrar o conceito: “Pessoas na meia-idade que insistem em cultivar a juventude tendem a sonhar com a morte ou com símbolos relacionados ao envelhecimento, como a descida de uma montanha”. Só assim elas caem na real e começam a perceber que a vida, um dia, vai acabar. Outro conceito difundido por Jung foi o de inconsciente coletivo, que contém representações compartilhadas por todos nós - os arquétipos. “O arquétipo materno, por exemplo, é uma predisposição inata para reconhecer a figura da mãe, mesmo quando nascemos e não sabemos o que é uma mãe”, diz Marion. E o que os arquétipos têm a ver com os sonhos? Para Jung, eles ajudam a explicar alguns fenômenos que, vistos de outro ângulo, podem ser considerados sobrenaturais. Um deles é a sincronicidade, ou a ocorrência de sonhos semelhantes em pessoas sem nenhum vínculo. Como já nascemos com várias imagens moldadas em nossas mentes, é razoável imaginar que muitas delas podem se expressar ao mesmo tempo em indivíduos diferentes.

A teoria psicanalítica teve o mérito de desvendar os mecanismos e funções do sonho para, a partir desse conhecimento, permitir o tratamento de distúrbios de comportamento, certo? Não, nem todos pensam assim. “Não acredito na psicanálise como técnica de terapia. Os sonhos revelam alguns conteúdos da vida do indivíduo, mas o fato de relatá-los não cura ninguém de nada”, diz Ângela do Valle, da USP. O psiquiatra Robert Stickgold, da Universidade Harvard, nos EUA, pega mais pesado: “A psicanálise parte de premissas injustificadas e equivocadas, como a de que os sonhos refletem desejos reprimidos. Não há nenhuma evidência real de que isso esteja correto”. Os defensores da psicanálise, é claro, discordam. Mas o fato é que, 14 anos após a morte de Freud, em 1939, os estudos da neurologia jogaram um balde de água fria na interpretação subjetiva dos sonhos.

O ataque científico

O ano de 1953 foi especial para a ciência. Em abril, James Watson e Francis Crick anunciaram na revista Nature a descoberta da estrutura do DNA. Em setembro, Nathaniel Kleitman e seu aluno Eugene Aserinsky, da Universidade de Chicago, publicaram um artigo na revista Science que revolucionou os estudos sobre sonhos. Eles descobriram que, durante várias fases do sono, nós mexemos os olhos como se estivéssemos acordados. O fenômeno foi batizado de sono REM, sigla em inglês para “movimento rápido dos olhos”, e passou a ser associado aos sonhos. Para chegar a essa conclusão, eles usavam um método parecido com aquele usado por Mary Calkins no século 19: acordavam seus pacientes durante a fase REM e pediam que eles relatassem se e com o que haviam sonhado. De 27 relatos, 20 foram de sonhos detalhados e repletos de imagens visuais. Estudos posteriores aprofundaram a descoberta de Kleitman e Aserinsky. Em 1962, o neurofisiologista francês Michel Jouvet descobriu, a partir de experiências com gatos, que o sono REM - e, portanto, o sonho - era controlado por uma parte primitiva do cérebro conhecida como ponte, que não tem relação direta com os centros da emoção. Durante a fase REM, segundo Jouvet, a ponte emite estímulos que se espalham por diversas partes do cérebro, provocando os sonhos.

As conexões entre os neurônios explicavam muita coisa, mas ainda faltava descobrir de onde vinham, afinal, as sensações que passam pela nossa cabeça quando dormimos. E para isso Freud ainda era mais útil do que os neurologistas. Mas não por muito tempo. Em meados da década de 1970, o psiquiatra James Allan Hobson, de Harvard, apresentou um modelo que descartava definitivamente o conteúdo subjetivo dos sonhos. Para ele, o ato de sonhar era o resultado da ação de neurotransmissores que ativavam regiões superiores do cérebro, como o sistema límbico, responsável pelas emoções. Para os pesquisadores que aderiram à causa de Hobson, o sonho era apenas uma seqüência aleatória de imagens geradas pela atividade do nosso cérebro enquanto dormimos.

As descobertas de Hobson desferiram mais um golpe contra a psicanálise. Quando o charuto de Freud parecia definitivamente apagado, alguns estudos realizados a partir da década de 1980 reacenderam a discussão. O psiquiatra Mark Solms, da Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, fez uma revisão da literatura médica e descobriu 110 casos de pacientes que haviam deixado de sonhar devido a lesões cerebrais. Para surpresa da comunidade científica, todos tinham a ponte cerebral intacta e continuavam tendo sono REM, o que jogou por terra a relação obrigatória entre a experiência onírica e os movimentos oculares rápidos. Para Solms, os sonhos são ativados por outras regiões do cérebro, como as que transformam a percepção concreta em pensamento abstrato. Qualquer semelhança com a psicanálise não é mera coincidência. Afinal, você já sabe que um dos mecanismos do sonho, segundo Freud, é a transformação de desejos ou experiências em símbolos que não têm relação direta com a realidade. As descobertas de Mark Solms fizeram com que os psicanalistas e psicólogos colocassem novamente as mangas de fora e abriram caminho para a criação da neuropsicanálise, uma área do conhecimento que tenta aproveitar as descobertas sobre a fisiologia do cérebro para justificar parte das proposições de Freud. “A psicanálise não tem o objetivo de desvendar os mecanismos fisiológicos do cérebro. Isso é função da neurociência. Mas os fenômenos que emergem desses processos físicos são objeto da investigação psicanalítica”, diz o psicanalista brasileiro Yusaku Soussumi, da Sociedade Internacional de Neuropsicanálise.

Afinal, por que sonhamos?

A resposta mais honesta seria: ninguém sabe ainda. Mas há várias pistas. E uma delas é a relação mais que comprovada entre os sonhos e a memória. Nos últimos anos, vários artigos têm batido na tecla de que o sono REM - durante o qual, sabe-se agora, ocorrem mais de 90% dos sonhos, mas não todos - é importantíssimo no processo de aprendizado. Fazem parte desse time cientistas como Robert Stickgold, de Harvard, e o brasileiro Sidarta Ribeiro, da Universidade Duke, também nos EUA. Este último vem desenvolvendo uma pesquisa que relaciona a expressão de alguns genes ao processo de formação de memórias. Os resultados do estudo indicam que a fase REM ajuda a consolidar memórias recém-adquiridas - sem os sonhos, as informações do dia-a-dia entram por um ouvido e saem pelo outro.

Todos parecem concordar que o sonho é essencial para o bom funcionamento do nosso cérebro. “Sonhar é uma ferramenta cognitiva importantíssima”, diz o neurologista Sérgio Tufik, diretor do Instituto do Sono da Universidade Federal de São Paulo. Mas alguns pesquisadores vão além e afirmam que o sonho é fundamental à nossa sobrevivência. Em um artigo que tem o título sugestivo de A Reinterpretação dos Sonhos, o psicólogo Antti Revonsuo, da Universidade de Turku, na Finlândia, afirma que os sonhos parecem simular ameaças reais que ocorrem no nosso cotidiano. E isso, segundo ele, foi vital para a sobrevivência da nossa espécie - ao sonhar com ameaças, o homem primitivo tinha muito mais chances de se defender em um ambiente hostil. A proposta de Revonsuo faz sentido, mas já foi alvo de críticas. Um time de psicólogos da Universidade de Montreal liderado pela psicóloga Anne Germain afirmou, por exemplo, que um dos furos da teoria é a baixa incidência de sonhos com temática negativa.

Durante o processo evolutivo, o sonho foi incorporado a algumas espécies, mesmo representando um risco real. “Ao desligar-se do mundo completamente, o homem e outras espécies podem ser atacados. Mas ainda assim o sono REM se manteve, o que é um sinal de que os benefícios dessa fase do sono superaram bastante os riscos”, diz o neurologista Rubens Reimão, da USP. Há indícios de que o sono REM e os sonhos teriam aparecido há mais ou menos 140 milhões de anos, quando os mamíferos se desenvolveram a partir dos répteis. As aves também têm sono REM, mas com períodos bem mais curtos, de apenas alguns segundos, o que sugere que as espécies de mamíferos - inclusive a nossa - sonham mais do que todas as outras. E para que serve tanto sonho?

“O sono REM mais longo nos mamíferos, em especial nos primatas, pode ter relação com a maior plasticidade das idéias”, diz Sidarta Ribeiro. Ou seja, ao sonhar, nos tornamos capazes de fazer novas associações para resolver tarefas simples ou complexas.

Um dos desafios atuais das neurociências é o estudo do conteúdo dos sonhos. Afinal, é relativamente fácil colher depoimentos de pacientes, mas olhar o cérebro com uma lupa para descobrir exatamente o que se passa lá dentro ainda é uma utopia. “Não acredito que, nos próximos anos, teremos instrumentos específicos para a análise dos sonhos ou dos pensamentos que ocorrem durante a vigília”, diz o psiquiatra Jerome Siegel, da Universidade da Califórnia em Los Angeles.

Enquanto isso, dá para arriscar um palpite sobre um futuro em que as pessoas possam controlar o enredo dos próprios sonhos. Há quem creia que isso seja possível agora: o psicólogo americano Stephen LaBerge organiza workshops de indução de sonhos lúcidos por meio da meditação, do relaxamento e da ioga, ante o horror da comunidade científica “séria”. Ainda que a academia torça o nariz para o bicho-grilismo de LaBerge, ela também acredita no potencial do sonho dirigido. “Se as pressões seletivas sobre a nossa espécie diminuírem ainda mais, o fenômeno do sonho lúcido pode ser usado de forma corriqueira como ferramenta de aprendizado”, diz Sidarta Ribeiro. Qualquer pessoa poderia se programar para desenvolver habilidades durante a noite, sem os riscos das experiências reais - se você viu Matrix, sabe que uma simulação de luta pode ensinar quase a mesma coisa que uma pancadaria ao vivo, só que sem os hematomas. Sonhar não custa nada.

5 perguntas sobre os sonhos

Como é o sonho dos cegos?
Quando uma pessoa nasce cega e não tem referências visuais, os sonhos são recheados pelos outros sentidos, como a audição. Mas ela pode formar imagens mentais relativas ao espaço, assim como consegue perceber os caminhos por onde anda durante o dia. Já quem nasce com a visão em ordem e fica cego mais tarde pode ter sonhos com imagens durante a vida toda.

Bebês sonham?
Como eles não falam, não dá para saber com precisão. O sono REM, um dos principais indícios do sonho, está presente em todas as idades. Mas a experiência deve ser bem diferente da vivida por nós, adultos, pois o bebê tem uma consciência em formação, tem emoções, memória e percepção do mundo, mas ainda não tem uma ferramenta essencial para a construção do sonho como ele ocorre nas pessoas adultas: a linguagem.

Sonhamos em cores ou em preto-e-branco?
Nossos sonhos, segundo os neurologistas, têm cores. O que pode causar a sensação de um sonho em preto-e-branco é a dificuldade que temos de manter as imagens oníricas na memória - elas vão, quase literalmente, esmaecendo no decorrer do dia. Esse esquecimento é causado pelo fato de o conteúdo dos sonhos ficar armazenado em nossa memória de curta duração. Para evitar que uma cena sensacional seja perdida, o único jeito é mentalizar o sonho várias vezes ao acordar. Se tomar nota, melhor ainda. Só assim eles ficam guardados em uma memória mais duradoura - e colorida.

Existem sonhos premonitórios?
Há muitos indícios de que não. Um deles é a inconsistência dos relatos. “Quem acredita nesse tipo de sonho costuma relatar fatos isolados relativos à experiência premonitória, mas quase nunca diz quantos sonhos não correspondem ao que realmente aconteceu depois”, diz J. Allan Hobson em seu livro Dreaming: An Introduction to the Science of Sleep (”Sonhando: Uma Introdução à Ciência de Dormir”, inédito no Brasil).

Animais sonham?
Sim, com quase 100% de certeza. Os donos de gatos e cachorros sabem que, durante o sono, os bichos se movem e emitem ruídos que sinalizam uma atividade mental intensa. A ciência já descobriu que os mamíferos - e as aves, em menor escala - têm sono REM, portanto concluiu-se que eles sonham de alguma maneira. O único entrave nessa pesquisa é a impossibilidade de relatos dos sujeitos - no caso, os animais.

Terror sob os lençóis

No meio da noite, acordamos sobressaltados, com o coração acelerado e suando frio. Como se não bastasse, demoramos a pegar no sono de novo. Muitas pessoas têm sonhos assustadores com menor ou maior freqüência. As estatísticas mostram que cerca de 50% dos adultos relatam pesadelos ocasionais e 6,9% a 8,1% têm pesadelos crônicos, que detonam o sono sem dar trégua.

Outra curiosidade numérica: as mulheres têm dois a 4 pesadelos para cada um relatado pelos homens - mas ainda não há nenhuma explicação para essa diferença entre os sexos. O pesadelo tradicional, sem nenhuma relação direta com fatos do dia anterior, se encaixa na categoria dos distúrbios do sono. Mas há uma outra classe de pesadelos, os pós-traumáticos, que tem algumas nuances importantes. “O conteúdo, na maioria das vezes, é idêntico ao evento que gerou o trauma”, diz o psicólogo Júlio Peres, que desenvolve uma tese de doutorado sobre o tema.

E esse tipo mais realista de pesadelo é tiro e queda: mais de 60% das pessoas que passam por algum tipo de experiência traumatizante, como assaltos e agressões físicas, acabam desenvolvendo o problema. Um jeito de liquidar com ele é abrir o jogo e tentar completar, acordado, as histórias que causam a aflição noturna. Esse método, conhecido como Terapia do Ensaio Imaginário, usa o recurso da narrativa para tirar a força das emoções e sensações que teimam em manter viva a chama de uma lembrança ruim. Ninguém esquece o trauma, mas com a terapia dá para tirá-lo de baixo do travesseiro e dormir sem pesadelos.

Revista Superinteressante
http://super.abril.com.br/super2/home/

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O declínio de Nietzsche

A deterioração mental de um dos maiores filósofos dos últimos anos, provavelmente conseqüência da sífilis, pode ser detectada precocemente em algumas de suas obras

Vittorino Andreoli

Um dos principais filósofos do século XIX, o alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche foi vítima de um distúrbio mental, provavelmente causado pela sífilis, que arruinou seus últimos anos de vida e cuja evolução pode ser percebida em suas obras.

A evolução da doença se divide em três fases: na primeira a infecção fica restrita aos órgãos genitais; na segunda, alastra-se pelo organismo; na terceira causa paralisia progressiva e demência. Nietzsche adoeceu em 1873, mas só se afastou da atividade docente na Universidade da Basiléia em 1879 − quando sua voz era quase inaudível para os alunos. Os sintomas da demência só vieram dez anos depois, mas os primeiros sinais de deterioração intelectual já aparecem nos seus textos de 1887.

O que se observa, a partir de A gênese da moral, é a passagem de um Nietzsche que escreve com força e determinação, de forma densa e ao mesmo tempo sintética, para “outro” que parece incapaz de afrontamentos, que se perde entre notas e apontamentos publicados postumamente e cuja organização lógica até hoje é alvo de críticas. Nessa mesma época, o filósofo alemão redige quatro panfletos pouco concisos, cheios de contradições, que parecem escritos com raiva, algo que os leitores não esperavam encontrar em volumes de filosofia.

Os quatro panfletos
O primeiro, Nietzsche contra Wagner, de 1888, chega a ofender o amigo músico. Depois de se aconselhar com seu editor, o filósofo corrige o texto, publica-o novamente com um prefácio, um epílogo e ainda um post scriptum. O segundo panfleto se chamaria Alegria de um psicólogo, mas por sugestão do editor recebeu o título O crepúsculo dos ídolos: ou a filosofia a golpes de martelo. Diz o autor nesse texto: “Não existe uma realidade supra-sensível, aquela imaginada pelos idealistas, não existe um mundo racional, não há um mundo moral, ainda que os moralistas continuem insistindo. Não existe nem mesmo o mundo das aparências. Definitivamente não existe nada”.

O anticristo é o terceiro panfleto e se limita a demolir o cristianismo. Aqui também as frases são carregadas de violência, ira e ausência de reflexão e de direção. O quarto e último panfleto é Ecce homo. O que significam os títulos desses dois textos? Uma referência a Cristo? Talvez O anticristo fosse somente um nome para indicar a figura mítica de Dionísio, que Nietzsche passou a encarnar em algumas cartas a amigos.

Outra idiossincrasia diz respeito ao emprego de expressões líricas, usadas de forma superficial em alguns textos, ao mesmo tempo que outros se aprofundavam na introspecção e na auto-reflexão. Estes elementos testemunham o declínio de uma mente brilhante, declínio este que começou exatamente no dia 5 de janeiro de 1889. Nesse dia Nietzsche teve início a enviar cartas aos amigos Jacob Burckhardt e Franz Overbeck. Ao primeiro escreveu: “Eu sou Ferdinand de Lesseps, eu sou Prado, eu sou Chambige [assassinos dos quais se ocupavam a imprensa parisiense], eu fui envolvido no lençol dos mortos duas vezes neste outono”. Overbeck recebeu uma carta com o mesmo conteúdo macabro. Em uma terceira correspondência, enviada ao músico Peter Gast, ele assina como “o crucificado”. À antiga amiga Cosima Wagner (mulher do compositor Wilhelm Richard Wagner), escreve: “Arianna, eu te amo”. Assinado: “Dionísio”.

Anos depois, historiador francês Daniel Halévy refaz o caminho de Overbeck em busca do amigo perturbado: “Overbeck parte para Turim. Encontra Nietzsche num quarto mobiliado, cantando e gritando sua glória, batendo no teclado do piano (…) Mais tarde, ao sair de casa, viram um homem que guiava uma carroça batendo no próprio cavalo; indignado, o filósofo colocou-se imediatamente entre os dois, imobilizando o homem com os braços e impedindo-o de continuar a bater no animal. Os transeuntes pararam para olhar, um agente policial interveio. Queriam retirá-lo daquela situação, mas ele se jogou no chão, parecia numa crise de delírio (…) O policial decidiu algemá-lo, mas Overbeck intercedeu. Falando em nome da Universidade da Basiléia, obteve permissão para levá-lo de volta para casa”.

Nietzsche estava completamente perturbado. Misturava canções, dirigia-se às pessoas por meio de cantigas. Um médico da Basiléia, cujo filho era grande apreciador das obras do filósofo, dedicou-se ao caso com particular atenção e o transferiu para uma clínica psiquiátrica em Jena, de onde saiu em 1897 para viver com a mãe em Naumburg. Com a morte dela, mudou-se para a casa da irmã em Weimar, onde permaneceu até a morte em 1900. Desses anos sabemos muito pouco. É possível que ele tenha chegado à forma grave de demência, mas o assunto era delicado demais para ser comentado na época.

Revista Mente e Cérebro
http://www2.uol.com.br/vivermente/

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O físico como astro

A nova biografia de Einstein, por Walter Isaacson, usa as cartas divulgadas em 2006 e mostra um homem mais rebelde e mulherengo, mas também inclinado à religião

Daniel Piza

Albert Einstein (1879-1955) não é o tipo de personagem sobre quem se pergunte ‘para que uma nova biografia?’. O pai da teoria da relatividade foi também uma figura pública célebre e controversa, além de ter se tornado a própria imagem do gênio. Logo, sua história nunca será suficientemente explicada e será sempre tema de biografias e estudos sem-fim. Além disso, a abertura no ano passado de cartas inéditas escritas por ele, que estavam no espólio de sua enteada, lançou alguns feixes de luz sobre seu comportamento.

Na biografia de Walter Isaacson, Einstein - Sua Vida, Seu Universo (Companhia das Letras, 675 págs., R$ 64), que acaba de chegar ao Brasil e já é best-seller em vários países, essas cartas servem para mostrar como ele foi ainda mais rebelde em relação às convenções - científicas, mas também sociais. Aparece, como nunca antes, arrogante, mulherengo e antinacionalista. Ao mesmo tempo, Isaacson dá grande atenção a seu desejo de um universo mais ordenado e previsível do que o sugerido pela mecânica quântica e associa esse desejo a um impulso religioso.

É como se, para lidar com esse Einstein atrevido, que às vezes parece julgar moralmente (como quando o repreende por não ter paciência para ‘os problemas dos outros’), o autor precisasse dar ênfase ao contraponto. Biógrafo de Benjamin Franklin e Henry Kissinger, Isaacson - que concedeu entrevista ao Estado por e-mail - fez de Einstein um homem com vocação para astro, tentou ser muito didático com suas idéias e dedicou boa parte dos capítulos à sua vida nos EUA. Embora não mencione a visita do físico ao Brasil, o livro tem tudo para fazer muito sucesso também por aqui.

Em muitos sentidos, Einstein não era o gênio do estereótipo: não era criança prodígio, não era estudante fenomenal, não era um romântico ‘outsider’. A revolução estava dentro dele. Será por isso mesmo que continuamos a ler as biografias dele? Ou o sr. não escreveria seu livro se não fosse pelas novas cartas?

O gênio de Einstein vinha de sua imaginação e criatividade. Ele era capaz de pensar fora do esquadro e visualizar as coisas de modo diferente. Parte disso veio do fato de ter demorado a começar a falar: ele pensava em imagens mais do que em palavras. Isso também se deve ao fato de ser intelectualmente um rebelde: ele desafiava a autoridade e contestava o dogma dominante. E isso fica muito claro nessas novas cartas.

Sua biografia também soa nova ao descrever fatos em outra perspectiva. Por exemplo, o sr. diz que trabalhar com patentes num escritório da Suíça foi bom para ele, pois as questões da vida real o ajudaram a lidar com a teoria. O sr. não diria que a diferença foi que desde adolescente ele se concentrava em poucos e fundamentais problemas?

Desde quando era adolescente, ele tentava visualizar como seria viajar ao lado de um raio de luz. E se ele fosse pego numa onda de luz? Ela não pareceria estacionária a ele quando a olhasse? Mas as equações de Maxwell dizem que isso não é possível. A onda tem de viajar sempre à mesma velocidade. Ele meditou sobre isso durante anos. No escritório de patentes, ele observava um monte de aplicativos para equipamentos que poderiam ser usados para sincronizar relógios distantes. Isso o fez pensar sobre o significado da simultaneidade e se as pessoas em diferentes estados de movimento definiriam de modo diferente o que era simultâneo. Ele percebeu que elas definiriam, sim, e isso o ajudava a responder o dilema sobre a velocidade constante da onda de luz e seria um passo em direção à teoria especial da relatividade.

O sr. dá muita atenção às dúvidas dele sobre Deus, religião, unidade. Einstein escreveu que era um agnóstico, que a idéia de um legislador moral não era necessária (carta para M. Berkowitz, em 25/10/1950). Por que a discussão?

Einstein disse que era religioso, que acreditava que existe um espírito manifesto nas leis do universo, um espírito diante do qual ele se sentia humilde e admirado. Esse era seu sentido de fé. Não acreditava num Deus pessoal a quem pudesse rezar para que fizesse milagres por nós. Mas ele também dizia que odiava ser chamado de ateu. Sua visão era muito interessante, e é por isso que devoto um capítulo inteiro a seus escritos sobre Deus.

Sua busca de uma teoria unificada não era uma busca científica e filosófica, em vez da busca por uma nova religião? Suas teorias foram um grande baque para visões holísticas, não?

Sim, sua busca por uma teoria unificada foi motivada por seu realismo científico. Ele acreditava que havia leis que determinavam o que acontece no universo, e a incerteza e a probabilidade e o acaso no coração da mecânica quântica o deixavam desconfortável.

O sr. acha que o gênio de Einstein era o de combinar a razão e a imaginação em alto grau, onde as fronteiras entre arte, ciência e humanidades já não existem? Ele não era como Darwin, totalmente aberto a novas questões genéricas em vez de específicas?

Acho que o gênio dele vinha da capacidade de ver coisas - como a gravidade - de uma forma totalmente nova.

O sr. escreveu que ‘ele tinha pouca inclinação ou talento para dividir os problemas dos outros, e compensava concentrando-se no que era importante para ele’. Não seria o contrário? Ele tinha uma mente tão concentrada em problemas complexos que naturalmente tinha pouca paciência para os problemas do cotidiano. No Brasil, ficou bem aborrecido com os discursos e bajulações…

Sim, ele às vezes se referia a assuntos não-científicos como ‘meramente pessoais’. Ele dizia que escapava dessas distrações mergulhando na ciência.

Embora não fosse tão bom marido ou pai, ele não era um homem agressivo ou frio, era? Depois de ler seu livro, sentimos mais afeto por ele, não apenas pelo que ele fez.

Ele era um homem gentil, um grande humanista. Ele era, especialmente no começo da vida, frio com seus familiares. Mas depois se tornou mais e mais caloroso à medida que envelheceu, assim como uma alma caridosa com a humanidade em geral.

Muitas pessoas dizem que a teoria de Einstein significa ‘tudo é relativo’. Que livros além do seu o sr. recomendaria a elas que lessem? Bertrand Russell e Kip Thorne fizeram introduções; há as biografias de Abraham Pais e Albrecht Folsing. E o que sr. acha de livros que tentam interpretá-lo ficcionalmente, como o de Alan Lightman (Os Sonhos de Einstein)?

Há dúzias de livros maravilhosos sobre Einstein. Eu recomendaria o livro que ele mesmo co-escreveu com Leopold Infeld chamado A Evolução da Física. Recomendaria as maravilhosas biografias de Folsing e Pais. E também as análises científicas de Jeremy Bernstein (Albert Einstein and the Frontiers of Physics) e Peter Galison (Einstein’s Clocks, Poincaré’s Maps), assim como o livro delicioso de Lightman.

Desde a morte de Einstein, a física quântica foi se tornando mais e mais forte, embora ninguém ainda a tenha tornado compatível com a relatividade. Em face de novas evidências, Einstein não faria uma revisão de suas idéias?

Einstein, creio, admiraria a mecânica quântica por seu grande sucesso, mas se estivesse vivo suspeito que ainda estaria procurando por uma teoria do campo unificado que a reconciliasse com a relatividade.

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

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Plínio Marcos

15/02/1988

Plínio Marcos trouxe para o teatro o submundo brasileiro. Criou personagens comuns, rompeu fronteiras e foi perseguido pela censura. Sua obra é um marco na dramaturgia brasileira

Marcelo Rubens Paiva: A TV Cultura reapresenta agora um Roda Viva gravado com Plínio Marcos em 1988. Plínio Marcos que morreu há uma semana, esse que é um dos maiores dramaturgos brasileiros, com uma obra de densidade e sensibilidade que em poucos países do mundo se vê, criou personagens - com os quais conviveu e conseguiu retratar: homossexuais, prostitutas, um imigrante chegando em uma grande cidade - como poucos escritores conseguiram, porque o Plínio era um autor que escrevia com o coração na mão.

Antônio Carlos Ferreira: O entrevistado desta noite é o autor de teatro Plínio Marcos. Plínio Marcos, 53 anos, foi quase tudo na vida antes de se tornar um autor consagrado do teatro brasileiro: foi funileiro, bancário, camelô, biscateiro do cais do Porto de Santos, soldado, palhaço de circo. O primeiro grande sucesso de Plínio Marcos aconteceu em 66, com a peça Dois perdidos numa noite suja. Depois foi o autor de teatro mais perseguido pela censura, com peças como Navalha na carne e Abajur lilás. Plínio Marcos trouxe para o teatro, para o palco, o submundo brasileiro. Criou personagens comuns, que falam palavrões, por exemplo. Rompeu fronteiras. Daí, a perseguição da censura. Sua obra é um marco na dramaturgia brasileira. Por isso, Plínio Marcos está no centro do Roda Viva desta noite e será entrevistado por Antonia Chagas, atriz e repórter da revista Final; Paula Dip, jornalista e apresentadora do programa Paulista Novecentos, da TV Gazeta; Kleber de Almeida, editor do caderno de sábado do Jornal da Tarde; Cacá Rosset, ator e diretor de teatro, com a peça TeleDeaum, atualmente em cartaz na cidade; Ninho Moraes, jornalista e cineasta da TV Cultura; Luiz Fernando Ramos, editor responsável da revista Palco e Platéia; Marcos Kaloy, ator e diretor de teatro com a peça a estrear em março, a peça Black-out; Sérgio Lhamas, editor de cultura da Folha da Tarde. Nós vamos contar também com o cartunista Negreiros, que vai fazer alguns desenhos que serão mostrados ao longo do debate. A platéia aqui do estúdio da TV Cultura é formada por alunos da Escola de Teatro Macunaíma. Como este programa não está sendo transmitido ao vivo, nós não vamos poder receber perguntas por telefone de telespectadores, como a gente faz normalmente.

Plínio, na década de 60, você se tornou o grande “autor maldito” do teatro brasileiro. Ganhou fama e virou um símbolo da luta contra a censura. Hoje, com a liberdade política, mesmo trabalhando muito, mesmo com uma peça em cartaz atualmente aqui em São Paulo, você sumiu um pouco do cenário cultural. O que foi que aconteceu?

Plínio Marcos: Hoje nós temos um inimigo violento que não é mais a polícia federal como censura. É a mídia, não é? Então, quando a mídia te marginaliza, você está marginalizado, você não é notícia. Então, você veja, por exemplo, a minha última peça A balada de um palhaço estreou no Zero Hora, que eu acho a minha melhor peça, com um trabalho deslumbrante da Valderez de Barros que a crítica, a pouca que foi assistir e, por exemplo, o trabalho do Petrim era considerado o melhor da carreira dele e do da Valderez considerado perfeito. Tinha o trabalho do Valfoli, da Vasperti, do Guga, as músicas do Léo Lama, gente profissional. De repente, foi esnobado, por exemplo, pela revista Veja, que resolveu não noticiar, não mandou nem seu crítico assistir à peça, porque eles não noticiam teatro alternativo. Então, você veja como acontece: por exemplo, a Folha de S. Paulo levou 15 dias para noticiar que a peça estava em cartaz. No Jornal da Tarde, por exemplo, tem um grilo lá… O Edson é meu amigo, meu camaradinha de bar, mas tem um grilo lá, que eu não sei qual é, que eles não noticiam coisas nossas. Então, por exemplo, veja bem, recentemente o Sábato Magaldi fez uma grande reportagem sobre Dois perdidos numa noite suja, que é de 66, e eu dizia para ele: “fala da Balada de um palhaço, que você gostou e que mandava seus alunos lá da Europa, de Paris escreverem carta pedindo a peça, porque achava que a peça era importante, e ninguém fala dessa peça”.

Antônio Carlos Ferreira: No seu entender, hoje, a sua produção teatral é de melhor qualidade do que a da década de 60?

Plínio Marcos: Não sei se de melhor qualidade, porque eu não tenho que ficar justificando nem analisando: eu tenho que escrever. Só que eu acho que A balada do palhaço, ela dizia muito bem o que aconteceu com o artista neste país. Nós lutamos, fomos realmente … nós artistas e jornalistas - e eu posso me orgulhar das duas coisas, tanto como jornalista como artista de teatro - fomos resistentes. Eu dediquei a minha vida e não é dos meus perdidos, é desde o tempo da barrela, que foi em cinqüenta e tanto, que ela foi proibida, fiquei dez anos proibido, eu não estreei junto com as pessoas da minha geração por causa da censura. Eu fui o único autor proibido no tempo do Juscelino. Então, a minha vida eu dediquei contra a censura, e estou dedicando nesse prezado momento com essa luta absurda que é contra a imprensa, que não noticia mesmo. Não noticia.

Antônio Carlos Ferreira: O seu principal inimigo é a imprensa.

Plínio Marcos: Não, não é meu inimigo, é inimigo do povo, porque o compromisso do jornalista devia ser com a notícia. Então se, por exemplo, um autor que nem eu, que passa lutando contra a ditadura militar, quando vem um período de abertura eu faço uma peça como a Blavatski [peça de teatro: Madame Blavatski], e dei entrevista para jornal da Polônia, para jornal da Alemanha, e não dei uma entrevista no Brasil? Depois que a peça saiu do cartaz eu dei uma entrevista para o jornal Estado de S. Paulo. Mas, a Tonica [aponta para Antonia Chagas, uma das entrevistadoras] é testemunha, porque ela trabalhou na peça, não dei uma entrevista. Ninguém veio me perguntar o que aconteceu nesses sete anos, e por que, de repente eu tinha aparecido com uma peça mística, entende? Isto o que que é? Isto no meu entendimento é censura. Mais ainda, o que é um caso muito mais grave, por exemplo, os chamados - esse foi um discurso que eu fiz, quando recebi o Prêmio Molière, pela Madame Blavatski - eu dizia o seguinte: “Há uma censura”. E tinha lá mais de cinqüenta jornalistas que tiveram que calar o bico. Isso chama-se censura, quando você põe no roteiro dos espetáculos, você põe um espetáculo e não põe outro. Então você põe, por exemplo, o meu show e não põe o do Ary Toledo, evidentemente que estão censurando o Ary Toledo. Agora, se põem o dele e não põem o meu, estão me censurando. E vira e mexe. Eu não saio. Eu telefono para o Bóris Casoy, o Bóris Casoy acha um absurdo. Aí manda pôr. Aí dois dias depois já não sai. Eu não tenho dinheiro para por anúncio em jornal. Um anúncio, por exemplo, hoje para você por - o Cacá sabe melhor do que eu quanto é que custa uma publicidade, o Kaloy sabe - se você puser três tijolinhos, custa 20 mil cruzeiros por dia. E um cara que faz teatro alternativo que nem eu não pode por anúncio. Eu tenho que viver daquele serviço que a imprensa devia prestar ao público, mas não presta.

Cacá Rosset: Você sente que esse fenômeno é uma coisa que ocorre em geral com o teatro, ou especificamente com o seu caso?

Plínio Marcos: Não, é geral com os alternativos, porque, de repente, a imprensa, ela mesmo que chia, veja bem a incoerência: os críticos de teatro vivem dizendo assim: “não se renova, o teatro não se renova”, mas eles só noticiam o que a gente classifica de global. Então, você vai estrear… Uma estréia de artistas famosos da televisão no Rio de Janeiro, e, que Deus seja louvado porque eles são famosos e porque eles têm espaço na imprensa, imediatamente, os jornais de São Paulo dão notícia, dão página inteira. Agora, por exemplo, você veja assim, a Maitê… A Malu Mader, que é uma excelente criatura, uma menina belíssima, vai fazer uma peça do Léo Lama, que é meu filho.

Ninho Moraes: Estréia dele, né?

Plínio Marcos: Não, não é estréia dele. Esse é que é o grande problema. Isso que eu ia falar. Ele estava com uma peça em cartaz até domingo. Até domingo estava uma peça em cartaz com a Martinha que é uma excelente atriz, com o Edson e com o outro meu filho, Quico de Barros, que são três excelentes atores, uma direção maravilhosa do próprio Léo Lama… A imprensa ignorou. De repente, a moça vai estrear em outubro, mas ela é global, ela dá entrevista de página inteira e todo mundo pensa que ele vai estrear em outubro. Por que? Porque a peça que está no teatro alternativo, ninguém dá uma nota.

Ninho Moraes: Eu acho que eu li que era uma estréia. Eu li em algum lugar.

Plínio Marcos: Claro, porque ninguém sabe da outra peça. É estréia da Malu Mader, mas não é estréia de Léo Lama. O Léo Lama estreou com Meu amor, minha vida, numa privada entupida, que saiu domingo, saiu de cartaz.

Sérgio Lhamas: Mas, Plínio, recentemente a Folha da Tarde deu uma boa matéria sobre você. Mas não é sobre isso, não. Você fala na…

Plínio Marcos: Qual matéria?

Sérgio Lhamas: Essa aqui…

[risos]

Plínio Marcos: Essa aí não é boa, é pequena, né? [risos] Se eu fico falando duas horas para o repórter e sai dez minutos [risos]

Sérgio Lhamas: Mas, Plínio, esse lado místico aí. Eu queria que você falasse disso.

Plínio Marcos: Falasse do meu lado místico? Olha aqui, é o lado místico. Eu acredito, companheiro, que, na verdade, a religiosidade é subversiva, a política não. A política consiste na luta pelo poder. Então tudo se repete. Tanto faz você ser de esquerda ou de direita, resulta sempre no poder, na luta pelo poder. É o caso, por exemplo, no outro dia em um debate com os estudantes, a menina falou: “Você já foi em Cuba? Não, não ponho nem o pé lá, porra. Se eu tenho que lutar contra a ditadura no Brasil, porque que eu vou em um lugar onde tem ditadura?” Para mim, eu não consigo diferenciar Pinochet [Augusto José Ramón Pinochet Ugarte (1915-2006), ditador do Chile de 1973-1990] de Fidel Castro [Fidel Alejandro Castro Ruz (1926- ), ditador de Cuba, assumiu o poder em 1959]. Os dois são ditadores, lutaram pelo poder e são poder, e eu odeio poderes. Eu não acho que alguém possa ficar perto do poder. Eu não posso esquecer de paizinho Stalin ([óssif Stalin (1878-1953) ditador da URSS de 1924-1953], eu não posso esquecer de Hitler (Adolf Hitler (1885-1945); ditador da Alemanha entre 1933-1945], eu não posso esquecer de Mussolini [Benito Amilcare Andrea Mussolini (1883-1945) ditador da Itália entre 1922-1943, criador da ideologia fascista] de Salazar [António de Oliveira Salazar (1889-1970) ditador de Portugal entre 1932-1968], de Getúlio Vargas [Getúlio Dornelles Vargas (1882-1954) governou o Brasil de 1930-1945 e teve seu último mandato entre 1951 a 1954, ano em que se suicidou] dessa eu não posso esquecer. De Perón [Juan Domingo Perón (1895-1974) presidente da Argentina de 1946 a 1955 e de 1973 a 1974] eu não posso me esquecer. Ditadura, qualquer pessoa que tente botar a pata na minha cabeça para me dirigir, é uma ofensa e a política consiste nisso. São grupos de pessoas disputando para ver quem tutela o resto do povo. Então tudo consiste na habilidade do mais esperto, ou na brutalidade do mais forte. Mas a religiosidade, que não as religiões oficiais, evidentemente, a religiosidade consiste no seu auto-conhecimento, atenção sobre você mesmo. Esta te leva a você não querer ser nem o poder, nem querer que ninguém exerça poder sobre sua cabeça. Então, é isso que eu tenho feito. Feito um trabalho de procurar encontrar caminhos para dizer para as pessoas que o que nos liberta é o auto-conhecimento. O que pode te tirar de uma sociedade capitalista baseada nos princípios de propriedade privada dos bens sociais, portanto na ânsia possessiva do lucro, portanto, na competição e na violência, é o auto-conhecimento, é a religiosidade.

Paula Dip: Inclusive você escreveu alguns livros a respeito disso.

Plínio Marcos: Alguns não. Eu escrevi peças, não é? A Madame Blavatski, que era mostrando a vida desta mulher, que ela luta, luta, luta até chegar nessa conclusão de que não vai ser a sociedade, não há possibilidade de você se libertar coletivamente, porque depende do seu nível do auto-conhecimento, que é o caso do Senhor Jesus Cristo. Ele pôde renunciar à sua individualidade, porque ele era uma individualidade. Então ele pôde ser um homem coletivo. Se você não é uma individualidade, então você vai renunciar do quê? Não adianta você nascer coletivo em um lugar. Você não nasce coletivo. Você tem que fazer um trabalho de auto-conhecimento para você poder renunciar à sua personalidade.

Kleber de Almeida: Plínio, você não acha que a atividade política é muito importante porque, sem atividade política, qualquer país pode acabar na situação que você se referiu de ditadores. É a atividade política que impede justamente o crescimento desses ditadores.

Plínio Marcos: Eu não acho. Desculpe, mas eu não acho e eu entendo que você está dizendo atividade política no sentido de política partidária. Porque toda a minha ação é política.

Kleber de Almeida: Falando de política partidária…

Plínio Marcos: É. Partidária. Não, porque você veja no Brasil. Desde que o país foi fundado, todos os partidos de esquerda ou de direita eles têm no fundo uma elite disputando entre si para ver quem tutelava o povo. Isto é uma ditadura. E no Brasil essa ditadura se exerce, por exemplo, no momento nós estamos marginalizados ainda na nossa história. Nenhum de nós aqui está participando da própria história, nem influindo no próprio destino. É a elite que está lá nos congressos, nos “sarneys” da vida discutindo, e, qualquer hora, nos ameaçam com a invasão dos militares de novo.

Kleber de Almeida: Sim… É que nós realmente nunca tivemos uma atividade política continuada. Essa atividade foi sempre interrompida. Quer dizer, todo mundo deve fazer atividade política como você faz, como qualquer associação, mas até para forçar a entrada de toda a sociedade nessa atividade política. Ela então fica restrita realmente às elites. Porque se a gente também concordar que as elites é mandam, nós não vamos participar, elas vão continuar mandando, realmente.

Plínio Marcos: Não sei. Eu quero te dizer que eu acredito demais na cooperação espontânea, e não acredito nem um pouco nas leis. Mesmo que haja lei, você precisa de alguém para garantir que se mantenha essa lei. Esse alguém é a polícia, e a polícia está aí para defender quem tem, contra quem não tem. Portanto, eu não acredito nessa política que está aí mesmo…

Luiz Fernando Ramos: Você é anarquista?

[risos]

Plínio Marcos: Eu não posso discutir por rótulos com você, porque eu não sei. Veja bem, se você me perguntasse se eu sou católico e eu te respondesse que eu sou, tu ia dormir na mesma, pois eu podia ser da Tradição Família e Propriedade [TFP - movimento católico de extrema direita], eu podia ser da Pastoral da Terra [grupo católico que participa de movimentos de esquerda]. Então, quando você me diz “anarquista”, eu deveria saber o que você considera anarquista…

Luiz Fernando Ramos: Então, melhor perguntando: O que você é?

Plínio Marcos: Eu não sou nada. Eu sou uma pessoa que está em busca do seu auto-conhecimento e que acha que a verdadeira subversão não é você entrar dentro desse esquema, dessa política, dessa luta pelo poder. É você sair desse poder.

Marcos Kaloy: Isso descreve, Plínio, o que você vê na política? Você não acha que está acontecendo isso também com a própria juventude e com os próprios autores novos teatrais? Falam de descrédito generalizado sobre as instituições, sobre os partidos políticos, sobre a política em si, e por isso mesmo a produção dos autores teatrais está limitada, as pessoas não sabem direito sobre o quê falar, com uma posição mais definida? No teu caso não, porque você tem uma posição mais clara e definida.

Plínio Marcos: Eu não quero parecer o pai da pátria, mas eu acho que tudo que está aí é plantado. Esse descrédito é plantado. O povo está no sufoco, mas o povo não é descrente. O povo acredita na vida e a garotada acredita na vida. Você pega qualquer curso de teatro, tem uma multidão de gente. Pergunta para esse pessoal do Macunaíma aí quantas pessoas tem lá estudando para fazer arte? E eu posso te citar Léo Lama, por exemplo, que é um dramaturgo que sabe o que dizer. Escreve quatro, cinco peças por ano. E outros colegas dele que estão escrevendo. Agora, você veja bem, Kaloy, belíssimo ator: não surge vinte, trinta dramaturgos em uma geração, não. Por exemplo, isso era uma coisa que o Artur Rumo dizia: em uma geração surge, no máximo, cinco dramaturgos. Por isso que essa censura censurou três, censurou muita gente. Agora todo mundo escreve e você … vai ficar dois, três. Então, não é todo mundo que tem coisas a dizer. O teatro é uma coisa muito específica, Kaloy, você sabe muito melhor do que eu, você é um brilhante ator. Então, as pessoas, por exemplo, grandes escritores, não conseguiram escrever para o teatro. Está aí nosso querido Machado de Assis [Joaquim Maria Machado de Assis:1839-1908, escritor], que sempre era mau quando ia ao teatro, não é? Porque era uma coisa muito específica. Então, não tem tanta falta de ator assim, não. E a garotada não acredita nos políticos, e não pode acreditar na cultura, e não pode acreditar em nada. Mas a política continua engraçada. É que as pessoas ficam revoltadíssimas. Eles passam a vida inteira endeusando Macunaíma. “Macunaíma, Macunaíma, Macunaíma…” quando aparece o próprio Macunaíma na figura de Marronzinho, fica todo mundo “AArhg”. Que não é anti-herói sem caráter pode ser…Vocês não queriam tá aí ele…. Engraçado sim, ridiculariza sim, tapeou esse bobo desse Ademar de Barros, [muitos risos] tapeou todos eles, levou o partido para ele, quer vender… Brinca e ri não tem nenhum caráter, sabe? Então, é isso que é. E como é que está? Esse país continua vivo, acordado. Um dia eu falei num jornal que tem lá um negócio assim “lista de preço: se a tua quitanda não puser anúncio no meu jornal, eu falo que a banana no teu caso é mais cara que no supermercado”. Mas qual é a imprensa no Brasil que não é assim, meu querido?

Cacá Rosset: Plínio, como é que você está vendo a política cultural no Brasil? Eu quis perguntar isso sobretudo pelo fato de hoje nós termos em São Paulo uma Secretaria da Cultura.

Plínio Marcos: Você me permita um aparte. Eu acho que ali é o nosso amigo Serra [Luís Serra, ator e apresentador de TV], formidável. Chega cá, Serra. Senta aí, você é um ator brilhante [aponta para Serra] Não faz mal, senta cá, tá sem maquiagem. [risos] Vem aí, senta aí.

Cacá Rosset: Como é que a política cultural nesse momento que nós temos uma secretária de Cultura, que é uma atriz [Beth Mendes], o Celso Furtado [Celso Moreira Furtado: 1920-2004, economista], que é ministro da Cultura, a Lei Sarney, existe uma política cultural no Brasil?

Plínio Marcos: Claro que existe. Independe de nomes. Beth Mendes é minha colega. Aliás, foi minha colega, que eu não sou secretário, mas ela foi minha colega com os atores juntos numa novela, né? Não sou secretário de nada. Agora, veja bem, a política cultural é uma ofensa a um artista que nem você. Porque ela vem de quê? Do governo central. E eles financiam aquilo que é bem comportado. Olha, por exemplo, só no Brasil que você pode ver professores que se dizem marxistas querendo preparar as pessoas para uma sociedade que eles abominam, que é a capitalista.

Antônio Carlos Ferreira: Você acha que não devia ter Ministério da Cultura, Secretaria da Cultura?

Plínio Marcos: Não, claro que não. O que devia ter no Brasil, e nós tínhamos que ter consciência disso, é que cada homem que trabalha ganhasse o suficiente para por o seu filho na escola que quisesse, para ir ao teatro, para pagar entrada de cinema, para ver as coisas! Agora, se você tem, de repente, o governo do Estado apregoa como um grande sucesso que ele dá uma banana, um copo de leite e um pão para a molecada, significa que ninguém que trabalha pode comprar uma banana, um copo de leite e um pão. Isso é um absurdo! E a política pública prova por aí.

Cacá Rosset: Agora, o que você está achando especificamente da gestão do Celso Furtado no Centro da Cultura, e da Beth Mendes na Secretaria…

Plínio Marcos: Eu não estou achando nada. Eu acho o Sarney [José Sarney de Araújo Costa: 1930-, presidente da República entre 1985-1988] uma coisa espúria, que invadiu - nisso eu concordo inteiramente com o Figueiredo, ele invadiu. Só que o Figueiredo [João Baptista Figueiredo:1918-1999, presidente do Brasil entre 1979-1985] é um, como eu diria? Um bunda mole…

[risos]

Plínio Marcos: É um… Sei lá, é um tontão que deixou o Sarney tomar posse, mesmo sabendo que ele não tinha direito, compreende? Nós não fizemos essa marcha pela rua, essas coisas todas para depois se unirem ao Ulysses Guimarães e seu partido PMDB e fazerem um conchavão que resultou em Sarney. Então, qualquer coisa que venha do governo Sarney, é lesiva ao povo brasileiro.

Antonia Chagas: Você usaria a Lei Sarney? A gente estava reclamando de “pô, não temos dinheiro, fazer um teatro alternativo, estamos sempre devendo as calças”, o diabo a quatro. Aí tem a tal da Lei Sarney, que eles gostam … Tem até uma campanha institucional no ar aí, usando a campanha. Você usaria a Lei Sarney?

Cacá Rosset: Sua vida mudou após a Lei Sarney?

[Muitos risos]

Plínio Marcos: Você é um espírito vivo e alerta. A minha vida mudou, porque agora as pessoas não acreditam que a gente está sob uma ditadura. As pessoas não acreditam que o Sarney é o boneco do Geisel [Ernesto Beckmann Geisel:1908-1996, presidente do Brasil entre 1974-1979] Compreende? A Lei Sarney não será aplicada em cima da Tonica, nem do Kaloy, nem do Serra, nem de você. Por que? Porque vocês são malditos.

Antonia Chagas: Não somos pessoas culturais como eles querem

Plínio Marcos: Então, porque que o cara vai… Outro dia, o Renato Borghi dava uma entrevista, aliás, muito inteligente, como ele é, um autor e um ator inteligente, ele dizia o seguinte: “É muito mais fácil para mim, e para o Fagundes” - para ele, né, Renato Borghi. Não, para mim é ele, o Renato Borghi, o Juca de Oliveira e o Fagundes falar com um empresário. Agora, quem que vai receber Kaloy, Tonica, Elimar….Você não, você já está famoso [aponta para Cacá Rosset]

[Muitos risos]

Cacá Rosset: Mas não fui recebido ainda. Ainda não fui recebido.

Plínio Marcos: Porque você é um famoso pinguço. Eles estão tramando: “temos que acabar com esse rapaz aí porque ele é meio folgado. Eu desconfio que ele seja anarquista”.

[risos]

Paula Dip: Olha, é uma pergunta difícil de fazer. Você veio aqui em um programa de televisão com uma camiseta rasgada. E, assim, com uma…

Plínio Marcos: Nada mais cabe em mim.

[risos]

Paula Dip: Pois é. Mas aí você fala: Como é que um empresário vai me receber? A gente sabe que a sociedade tem uma série de regulamentos, que talvez eu nem concorde com eles. Mas, como é que você faz para entrar em um banco, ou pedir uma Lei Sarney ou pedir um financiamento fica complicado. Tem certas coisas que você tem que, de repente conceder. Você acha que é por aí ou você acha que continuar de havaianas…

Antônio Carlos Ferreira: Pode parecer que você faz um pouco questão de ser marginal.

Plínio Marcos: Mas é claro que eu faço. Eu não quero pertencer a essa sociedade! Eu já disse aqui claramente: “Eu não quero ser dessa sociedade e nem vou pedir dinheiro”. Eu pedi dez pau pro Gigeto [dono de restaurante], eles deram e eu gastei lá mesmo! E pedi vinte paus para um bar de Santos, Bar da Praia. Que fica um cara assim: “bom, um dia tu vem aqui em faz um show de graça”. E eu: “Claro, outro dia eu venho aqui. E estou fazendo propaganda do teu show”. Vão dois, três ver o show e eu falo assim: “e quando for a Santos, não esqueçam, Bar da Praia”. E é o que eu consegui, entende? Mas eu não vou pedir. Pedir para o Marquinho da Costa Previato, que é meu amigo de jogar bola. Não é de empresário. E que ainda não deu, mas falou que vai dar trinta paus e eu estou precisando desses trinta paus. O Marquinho! [risos] Vai gastar no carnaval. Marquinho da Costa Previato. Então, você toma uma graninha aqui, uma graninha ali. Agora, quem conhece gente, então vem aquelas coisas assim: quem estudou em colégio granfino, conhece os granfinos que têm dinheiro para gastar. Agora, como é que você vai… Eu acho até gozado. Por isso que eu não vou pedir. Como é que alguém vai dar dinheiro para eu falar mal dele?

Ninho Moraes: A sua peça que foi montada em Nova Iorque deu algum dinheiro?

Plínio Marcos: Não. Ela foi montada por um rapaz aqui de São Paulo mesmo, ele montou lá tão clandestinamente quanto nós. Ninguém sabia, só ele. Porque no Brasil também tem dessas coisas. Como ele era amigo do Paulo Francis, ele pediu para o Paulo Francis falar, o Paulo Francis falou, e ninguém fala mal dos amigos, né? Então fazia um tremendo sucesso, vai todo mundo… Que vai todo mundo coisa nenhuma! No dia, nem a mãe dele foi, porque estava no Brasil. [risos] Quando a gente fala assim “tremendo sucesso”, é que ele não recebeu e o cara fala: “pô, Plínio. Ficou louco?” “estou querendo te divulgar, não sei o quê”. Talvez vá alguém e goste um monte. Mas o dinheiro mesmo não aparece. Outro dia mesmo recebi uma carta de uma mulher comovida, mas a mulher estava … uma carta tão linda, vinha de Caracas. Dizia assim: “nós estamos aqui montando toda a sua obra, autorizados por um convênio cultural que fizemos com a embaixada no Brasil”. Nem um tostão. Mandei as SBAT [Sociedade Brasileira de Autores Teatrais] falar com o pessoal da embaixada, eles nem receberam. Seu André é capaz de achar que eu vou lá atirar pedra nele … aquele comunista da Praça da Sé.

Luiz Fernando Ramos: Todos os autores falam mal da SBAT. Nem todos falam na frente do público, quer dizer, falam na boca pequena. O que você acha da SBAT. A SBAT funciona, a SBAT é um esquema corrupto?

Plínio Marcos: Eu e Cacá, que está aqui presente, nós fomos lá em Brasília, fui assim de chinelo, Cacá lembra, Cacá até falava que eu deveria ter vindo vestido de Bouree. É até um negócio interessante, vou te contar uma história assim, que já vi que gosta de política… De repente, adentra o gramado uma tribo de índios de cocar, não sei o quê, penas, procurando o Cabral. Aí o Cacá até falou para eles: “O Cabral que descobriu vocês não é esse, pô. Ele não tem culpa.” Mas os índios vinham com todos aqueles cocares, não sei o quê, shorts e tênis Rainha, procurando o Cabral. Eu estava assim, com a minha gravata; pegamos o Cabral…

Cacá Rosset: Aliás, um pequeno parênteses à gravata do Plínio por troféu originalidade. [risos]

Plínio Marcos: Aí eu sei que os caras davam toda hora close do meu pé. Cabeça não saía nunca, mas o pé saía toda hora, o cara falava assim: “tá sujo vão pensar que é pé de índio, nunca pensaram que era o meu”. Mas aí, né, você veja… Então nós lutamos lá e conseguimos, e o Cabral nisso foi até muito cortez, que o dinheiro dele não rola aí [risos], não é? E até passou de novo outra vez SBAT. Então defendi a SBAT lá, defendi publicamente. Agora evidentemente, quando eu quero pegar um vale lá na SBAT, a última vez quem foi receber lá… Receber a grana dele, foi o Léo Lama, meu filho, que ele vendeu essa peça para o dramaturgo e para a Maitê, o cara fala assim para o Léo: o seu pai está devendo duzentos milhões aqui!. O Léo Lama falou assim: O Sr. quer que eu empreste meu dinheiro para pagar? Eu falei assim: “você ficou louco?” [risos]. Algum dia paga … se precisar. Ou tem duas táticas: ou fala mal ou fala bem e vai lá fazer um vale. Tem que ter próximo à gente né.

[Todos falam ao mesmo tempo]

[ ]: O que é SBAT?

Cacá Rosset: Sociedade Brasileira de Autores Teatrais que é quem regula a arrecadação, quem arrecada os direitos autorais. Ela não funciona… Eu estou com uma experiência atual que é a seguinte: o autor da peça que eu estou fazendo, o Telemdaum, o Alberto Barbela, a peça está a onze meses em cartaz. Ele tem 8% do bruto da bilheteria. Até hoje ele não recebeu um centavo. A peça é uma peça que está indo relativamente bem.

Plínio Marcos: Aí é outra história, é outra história. Você vê, por exemplo, a minha peça em Portugal, a minha peça na Alemanha, a minha peça no… Eu também não vejo nenhum tostão. Isso é normal no mundo inteiro, é lá e cá, né? Eles não mandam para lá, os caras não mandam para cá e fica tudo empate.

Cacá Rosset: Mas aonde fica esse dinheiro que não veio para você?

Plínio Marcos: O gato comeu [risos] ultimamente. O meu, por exemplo, deve ter vindo algum, porque se eu estou lhes devendo duzentos paus é porque… “O Plínio tem algumas manhas”, eu ia lá para Araraquara e telefonava lá, fazia: “Alô, aqui em Araraquara nós queremos montar uma peça do Plínio Marcos”, e desligava. Aí os caras telefonavam para minha casa e faziam assim: “Tem um grupo de Araraquara que querem montar a sua peça. Só se pagar vinte pau adiantado, senão não tem”, e ia fazendo vale, porque nesse país é assim, não tenho nada contra…

Antônio Carlos Ferreira: Em algum momento você ganhou um bom dinheiro com o teatro?

Plínio Marcos: Já ganhei muito, mas muito mesmo. O teatro é uma coisa que dá infinitamente grana, né? Eu quando tive… Cheguei a ter, por exemplo, cinco peças em cartaz em São Paulo, tive quatro peças no Rio, duas em Porto Alegre, duas no Recife e não sei o quê, naquele auge de Navalha na Carne, Dois perdidos numa noite suja, então, graças a Deus tinha os inimigos, que falavam mal. No Brasil não adianta todo mundo falar bem, porque você se ferra. Tem que ter alguém ao menos para falar mal. Fala mal, fala bem… Então dava dinheiro, deu um dinheirão. Agora, tem um detalhe: nós nunca fomos de guardar. Fomos gastando. Para começo de conversa, eu me lembro até uma vez preso lá no exército um cara me pergunta assim: “você ganha muito mais do que um general!”. Eu falei assim: “Mas quando você entrou na sua carreira, o senhor já sabia que vinha [o cargo de] general, bastava ser feroz soldado, e eu quando comecei em circo, eu não sabia nada. Então, se eu pegar minha grana toda e dividir pelo tempo que eu estou na profissão, o senhor vai ver que não dá nem salário mínimo.”

Paula Dip: Quer dizer então que você vivia melhor quando você era maldito?

Plínio Marcos: Não, eu não vivia melhor. Eu vivo melhor agora, porque agora eu sei viver. Naquele tempo era muita ansiedade, muita tensão, muita vontade, muita competição. Agora que eu não me coloco mais sobre as leis do rei e da banalidade, que eu não estou mais perseguindo sucesso, claro que eu não tenho a ansiedade de antigamente, e claro que eu sou muito mais feliz. Gordo e feliz, um gato gordo e satisfeito.

Ninho Moraes: E onde é que você está brincando o seu carnaval? Estamos em pleno dia de carnaval.

Plínio Marcos: Vou trabalhar, estarei na avenida trabalhando para o terrível canal 12 na cobertura do carnaval.

Ninho Moraes: Você ainda brinca carnaval?

Plínio Marcos: Não dá mais para pular, né meu filho? Se rolar ainda vai [risos].

Antônio Carlos Ferreira: Agora, Plínio, você acabou de dizer assim, que você não busca mais o sucesso, mas não é meio da natureza do artista buscar o sucesso?

Plínio Marcos: Não quando você está procurando sucesso em outra área. Se eu estou procurando, me esforçando, por exemplo, em setores… por exemplo, estou estudando profundamente, querendo me aprofundar em problema de cura pela mão. Então me dedico a isso, estudo magnetismo, estudo Do-In, estudo nessas coisas e busco o sucesso aí, que às vezes você tem, às vezes não tem. Eu me lembro até que um dia eu fui experimentar curar a perna de uma velha argentina ali perto do meu pedaço, a perna dela ficou pior [risos]. O filho dela queria me bater, queria chamar a polícia. Ele assim: “ele quer ser o novo Lumbrunk” [risos]. Foi um vexame!

Luiz Fernando Ramos: Quando que começa esse período seu, essa conversão sua, essa coisa sua espiritual e tal? Qual é o marco disso?

[ ]: Tem a ver com a saúde?

Plínio Marcos: Não, não teve não, aliás, até me beneficiou na saúde.

Antônio Carlos Ferreira: Acho que seria bom até explicar a questão da saúde, né?

Plínio Marcos: A saúde, eu explico. Eu fiquei diabético e eu estava numa madrugada no Gigeto conversando, que eu sempre fui meio peralta. Então, eu tinha ficado de sexta para sábado sem dormir, de sábado para domingo sem dormir. Eu até fui em Santos que era aniversário da minha mãe e a velha Ermínia não brinca em serviço, faz aquelas enormes comidas, não sei o quê e tal, o melhor feijão do Brasil, aí eu comi demais, aí eu falei assim: “agora eu chego em casa e puf!”. Não ficava com sono, fui lá assistir Tonica e outros na peça Madame Blavatski, aí não dormia, fui pro Gigeto às cinco horas da manhã, estava ligado. Aí quando fui sair, senti uma enorme dor no peito, nas costas e achei que era friagem. Aí meti uma ginástica, aí tomei um banho, e fiz um Do-In em mim, para tirar a dor, tirei a dor e dormi. Aí acordei no dia seguinte às duas horas, a dor persistia, eu tirava. Eu tinha que encontrar o Marquinhos santista, que nós íamos fazer uma leitura pública dos Dois perdidos… Aí eu esperei ele até às quatro e meia, ele veio e eu falei assim: “O Marquinho, eu não estou legal, essa dor não passa, eu vou até lá o Hospital das Clínicas”, que eu brincava de bola lá, né, o pessoal lá, “Eu vou até lá ver o que é isso aí”. E fui lá. E quando cheguei lá era enfarte. Aí foram ver que era a diabetes que tinha atacado o coração. Mas foi esse negócio de Do-In e essas coisas todas é que conseguiram serenar a barra por tanto tempo, que foi quase duas horas depois.

Paula Dip: Plínio, você disse que você era peralta, você é mulherengo, foi mulherengo?

Plínio Marcos: Não, eu jamais fui mulherengo, imagina com essa cara, porra.

Paula Dip: Aí não sei, você tem o seu charme pô…

Plínio Marcos Eu posso até ser esforçado, né. Esforçado é uma coisa, mulherengo é outra. Eu não sou nem Serra, nem Kaloy, nem Cacá, que são galãs, né? Eu tenho que batalhar.

Paula Dip: Mas no teu tempo de sucesso, você era paquerado?

Plínio Marcos: Por incrível que pareça, a gente estava em passeata [risos].

Paula Dip: Mas em passeatas acontecem romances…

Plínio Marcos: …todo o tempo em passeata. Gritando: “Zé Dirceu, Zé Dirceu!. Para presidente, Zé Dirceu” e o tempo passou e agora não dá mais. A última façanha que eu estou fazendo é uma propaganda aí, eu estou dando dois prazeres para a mulherada. Um quando executa e outro quando saiu de cima. [risos] Eu estava falando da minha avó, que é benzedeira, meu pai, que era doutrinador espírita, eu até me lembro que ele me botou para tomar conta da primeira banca espírita que teve no Brasil em praça pública, ele me botou lá para tomar conta, para ver se eu ficava com medo das vidas pregressas e passadas e futuras. Então, me comportava um pouco. Então desde aquela época… Depois eu trabalhei em circo, trabalhei como cigano, que eram os grandes magnetizadores.

Luiz Fernando Ramos: Você fugiu para o circo, ou foi uma coisa que a família tudo bem?

Plínio Marcos: Fugir? Em todos os lugares que eu tive até hoje eu não precisei fugir. Me mandaram embora.

Luiz Fernando Ramos: Quando você foi para o circo, você foi com a família numa boa?

Plínio Marcos: Não, fui porque fui. Sempre numa boa. Meu pai, minha mãe são pessoas…

[ ]: Em Santos ainda?

Plínio Marcos: É, em Santos, mas daí fomos viajar. Viajei com o circo dos ciganos, e aí eu conheci esse magnetizador que era fantástico. Realmente eu vi ele fazer curas fantásticas com a mão. Depois veio aquele rebuliço, aquela coisa, negócio de intelectual, despreza essas coisas, tudo vigarista, não sei o quê, aí um belo dia eu realmente comecei a pesquisar e comecei a ver que muitas coisas que o cigano falava e fazia com as mãos, o Reich também fazia. Eu comecei a estudar, estudar, estudar, e, de repente, descobri que até o nosso belo Jung lia tarô, lia tarô, e agora eu estou lendo tarô para fora, né? [risos]

Paula Dip: Você acredita em astrologia?

Plínio Marcos: A Valderez [Valderez de Barros, atriz, foi casada com Plínio Marcos] é uma mestra em astrologia.

Paula Dip: Qual é o seu signo e o seu ascendente?

Plínio Marcos: Meu signo é, eu nasci em libra, mas preferia nascer em dólar [risos].

Paula Dip: Agora, e o ascendente?

Plínio Marcos: Ascendente há controvérsias, eu mudo de acordo com a freguesia. [risos] E aí que está a chave.

Antônio Carlos Ferreira: Mas, Plínio, quando você estava respondendo sobre a questão da conquista das mulheres, você falou: “na época do sucesso”, agora, na época do grande sucesso assim, mais de público, que foi na época da novela, digo, em Beto Rockfeller você era, digamos era o grande nome da…

Plínio Marcos: Falando em história de galã, tem uma história que é lamentável pelo cinema brasileiro. Os caras contrataram o John Herbert [1929, ator] para ser o vilão e eu para ser o galã [risos]. Aí ele ia daqui até o lugar da filmagem, ele ia dirigindo e eu ia do lado e ele falava assim: “por isso que o cinema não vai para frente!” [risos]. Aí nós entramos num bar um dia, aí o cara fala assim “ô, seu John Herbert, depois o senhor quer que a gente vá assistir filme. Estão dizendo que no seu filme botaram um galã sem dente!” [risos]. Aí ele fala assim: “é um absurdo! Até o povo não quer ir no cinema!” Aí quando foi fazer a propaganda do filme, marcaram um dia para tirar retrato e o John Herbert não apareceu. Ele mandou um retratão dele bonito de quando ele tinha dez anos assim… [risos] Aí o cara, de sacanagem, botou dois dentes de vampiro nele e pregou na porta. Ele ficou um horror. Aí queria processar o cartaz. Esse filme até passa na televisão até agora. Por sorte, nem minha filha me reconhece.

Antônio Carlos Ferreira: Mas, Plínio, como é que você curtiu essa fama naquela época?

Plínio Marcos: Ali foi uma história esquisita, sabe, porque o Brasil é muito gozado. Eu escrevi uma novela. O Cassiano me chamou, ele estava voltando e queria que eu escrevesse uma novela nos moldes dos Dois perdidos…, da minha peça. Chamava-se Dentro da noite. Evidentemente, a novela foi proibida pela censura, e o Edmundo Monteiro foi em Brasília pegar e tentar liberar e voltou de lá alarmado. Falaram que iam me ralar mesmo. Falaram: “vamos pegar esse garoto”. Naquele tempo eu era garoto. Aí o pessoal do Canal 4, daí todo mundo falou assim: “olha, eles vão te pegar mesmo! Então entra na novela. Se tu se abafar, tu nem precisa sair do país, sucesso ninguém mata”. Aí entrei na novela e fiquei. Fiquei e foi a salvação da lavoura. Foi por causa disso. Agora, veja bem, eles não tinham ódio por causa dos Dois perdidos…, não.

Antônio Carlos Ferreira: Mas você chegou a ser ameaçado fisicamente mesmo?

Plínio Marcos: Isso era toda hora porque eles tinham uma bronca violenta, o exército tinha uma bronca porque eu tinha uma peça chamada Verde porque te quero verde, é uma gozação contra um cidadão chamado Coronel Campeiro, na feira paulista de opinião e eles não perdoavam. Ficou aquele rolo e tal, até o Roberto, o Beto, filho do Graça Mello, que até faleceu, que Deus o tenha, fazia o meu papel também na peça que ele fazia pelo Penhor. Só ele foi preso um monte de vezes, pensando que era eu que fazia aquele papel.

Antônio Carlos Ferreira: Quantas vezes você foi preso? Eu sei de pelo menos uma.

Plínio Marcos: Isso aí eu entrava e saía. Era mais canseira, eu fiquei proibido de trabalhar. Você veja, eu fui o único cronista esportivo do Brasil preso e impedido de trabalhar!

Antonia Chagas: Aliás, eu queria lembrar uma coisa, vamos lembrar desse teu lado também de jornalista. Em um número recente da Revista Imprensa, aquele baixinho e italiano falou daquela história de cortar as cabeças na Veja, que ele tinha sido chamado, que os … até chamaram e tal, deu a versão dele sobre tua saída da Veja. Eu queria que você…

Plínio Marcos: Mas, qual é a versão dele. Pode ser a mesma, né?

Antonia Chagas: Pois é, eu queria saber a sua. O que houve?

Plínio Marcos: Mas é a mesma situação. O baixinho italiano é o Mino Carta, que você está dizendo? O Mino Carta foi muito digno nesse episódio, não teve dúvida, porque o Mino Carta entrou em férias e eu fui despedido. Aí, quando o Mino Carta voltou e ele era o diretor da Veja e não tinha sido ele que tinha me despedido, ele pediu demissão junto. Foi isso aí. Eu trabalhei três meses na Veja, consegui publicar duas crônicas e meia sobre futebol.

[ ]: Era época da censura, né?

Plínio Marcos: Era censura. Por exemplo, eles, logo de cara se irritaram porque eu escrevi uma crônica sobre o Santos Futebol Clube, dizendo que o Santos Futebol Clube ficou com vinte e cinco anos com aquele Jorge Cury de presidente e teve até o seu milagre, Pelé, mas que tudo indicava que quando acabou e acabou o milagre, o Santos ia falir, o que - não vá me chamar de profeta, - mas está aí. Então falei, e eles acharam que era igual à história do Brasil. Então mandaram, fizeram isso, fizeram aquele rolo, fui detido. Aí eu escrevi a segunda crônica, que era uma crônica que, com a graça de Deus… Tem poucas coisas na imprensa, que a gente fala assim: “realmente deu resultado”. Eu escrevi uma crônica porque o Estevão, ele jogava naquele tempo, ele jogava no time que jogava o Carlos, o Tobias, o Estevão de beque [zagueiro], o Juninho. Eu ainda era garotão, tinha uns 42 anos, magrão, até o Jornal da Tarde um dia publicou lá assim: “Na década de 60, Plínio Marcos abafava, careca”. Ele não tinha aquela barriga. E é verdade. Um sentimento, que era um time que a gente jogava pelo interior do estado. Jogavam vários craques, o Emilio Carlos, o Adriano, aquele menino que morreu, o Gersinho, que está em Portugal, O Carlito Godoy. E o Estevão, que era o beque de seleção brasileira de amadores, ele ficava proibido de ser profissionalizado porque queriam ele na Olimpíada. E o rapaz só sabia jogar bola, é um jogador de futebol. E ele tinha que fazer um bico. Naquele tempo estava muito de moda, pegarem jogadores e levar em fazenda de rico para eles jogarem para os granfinos assistirem eles no campo da fazenda. E aquele menino ponta-esquerda do Corinthians, Marco Antônio, um crioulinho, quebrou a perna do Estevão. E como o Estevão era juvenil, chegou os caras olharam, falaram: “está inutilizado para o futebol”. Engessaram a perna dele errada e sem limpar e deu cancro. E eu escrevi um artigo violentíssimo na Veja que dizia: “a grandeza de um país não se faz com medalhas olímpicas, se faz com respeito com quem trabalha, não sei o quê…” e aí fui levado para a polícia federal. O delegado até era o Dr. Gilberto Alves, e olha como esse país é fantástico. E aí ele me deu uma prensa, falou: “olha, filho, o negócio é o seguinte, você vai acabar ficando sem trabalhar”. E eu falo: “Olha, o que o senhor quer?” E eu contei a história do Estevão. “Mas isso é verdade?” Eu falei: “Claro que é verdade! Mas então traz o Estevão aqui. O Estevão não queria ir, naturalmente”. Nós levamos lá conseguimos levar, acho que um foi lá de muleta lá, contou a história, confirmou a história, o Dr. Gilberto falou assim: “Poxa, não é que é verdade? Então vamos pegar e cuidar de você”. Arrumaram pro médico do Palmeiras cuidar do Estevão e arrumaram para mandar o Estevão para a Escola Superior de Educação Física do Exército do Rio de Janeiro, onde ficou por conta do Exército, tratou da perna, e está aí este becão que jogou domingo contra o Guarani. Jogando, dando porrada. E outro dia eu estava ali vendendo um livro na porta de um teatro, o Dr. Gilberto passou e falou: “você me traiu, hein? Você prometeu que se a gente salvasse o Estevão ele ia jogar no América do Rio de Janeiro”. [risos] “Mas, ora doutor, só o senhor torce para o América. Não existe esse time, não existe mais”. Então, tem essas coisas que são… aí não consegui mais escrever na Veja, não escrevi. Eu escrevi um negócio chamado Barra do Catimbó, cortado, aí fui despedido. E o Mino Carta saiu, foi essa a versão.

Marcos Kaloy: Você é corinthiano, Plínio?

Plínio Marcos: Que é isso, me respeita [risos]. Estou até com o chapéu do meu time aqui, que é um time que ainda existe. Olha aqui, Jabaquara. Estamos na terceira, mas prometemos voltar. Agora nós temos o Leão da Caneleira. Essa história é gozada. Eu vou te contar. Eu fui fazer um show em Santos, o pessoal do Jabaquara me levou uma camisa. Pra fazer… “Se for na televisão, você vai com a camisa do Jabaquara”. Aí eu fui no programa do Helena Júnior [Alberto Helena Junior], lá na Record e fui com a minha camisa velha, a do tempo que eu joguei lá, de 52, toda furada e ele falou: “você tem cabimento, gosta de ser marginal e vem com essa camisa toda furada!” Aí eu contei a história, falei assim: “o Jabaquara me deu uma camisa, mas a camisa está com defeito, ela não passa aqui”. Aí eles mandaram outra que também não passa. Aí eu só posso usar o chapéu. Tá aqui ó, Jabaquara.

[ ]: o Jabaquara então é só você e o Gilmar, né? [risos]

Plínio Marcos: Não, o Gilmar torce para o Corinthians.

[ ]: Sim, mas ele nasceu em Jabaquara, né?

Plínio Marcos: Ele nasceu. Foi ele, Baltazar, Ciciá, meu irmão Claudinho agora está cuidando lá de arrumar os veteranos. Outro dia eu fui jogar lá com os veteranos da Portuguesa Santista e não conhecia ninguém! Os veteranos têm tudo 35 anos.

Antônio Carlos Ferreira: Agora, todo santista - e eu sou santista também - gosta do Jabuca, né?

Plínio Marcos: O Jabuca é o time de todos, porque é o anti-time. Nunca conseguiu… O nosso melhor jogador foi um advogado, lembra [risos]? O Jabaquara caía para a segunda divisão e ele fazia uma petição e não deixava ir. Era a famosa “jabaquarada”. Jabaquara, que bonito…

Antônio Carlos Ferreira: Plínio, eu queria que você falasse um pouquinho dessa sua peça atual que você está em cartaz.

Plínio Marcos: A minha peça não é peça. Não é peça não. Eu estava lá vendendo um livro na porta do teatro e a mulher falou assim: “Olha, o teatro vai ficar vazio, nós não temos porcaria nenhuma para pôr. Você não quer entrar?” Aí “Vamos lá, né?” E aí entrei, estou lá sentado, sento numa cadeira e vou contando histórias.

Antônio Carlos Ferreira: Mas tem um script, né?

Plínio Marcos: Não. Não precisa script nenhum. Vai pintando, eu paro o espetáculo, converso com o público e tal…

Paula Dip: O espetáculo é cada dia de um jeito?

Plínio Marcos: É, varia de acordo com o público, depende das pessoas. Eu conto umas historinhas iniciais, eu conto até umas histórias muito bonitas sobre os embiques, sobre o Procópio Ferreira, que justifica não ter cenário. Até histórias que eu poderia contar aqui, por exemplo, os embiques, eu lembro que nós íamos estrear no César de Cleópatra e ele fazia o papel de principal da peça e dirigia, queriam ganhar prêmio com aquela peça e Dupom ganhou mesmo de ator. De repente ele foi dar uma fiscalizada no cenário, foi quando, de repente, ele olha e vê um buraco no cenário. Fica desesperado, chama o Jabaruto fala: “você não tem responsabilidade, você é um sem-vergonha, nós vamos abrir o pano e aquele buraco! Calma, Ziembinski, calma! Eu arrumo. Agora também tem um detalhe: se alguém olhar pro chão, tá torto. Que ruim que você é, hein?” Ele fala: “Deixa o buraco, deixa o buraco!”, e a peça fez-se com buraco a temporada toda. E digo isto para justificar que eu também não tenho cenário, e digo depois do Procópio Ferreira, uma vez a Vivi me telefonou para mim visitar o Procópio no hospital, que ele estava muito mal, e como depois logo morreu. Eu fui lá e o mestre estava deitado de bruços e o médico falou assim: “Olha, não força ele que ele tá muito fraco”. Aí eu falei assim: “Mestre, sou eu, Plínio Marcos”. Ele foi olhando, olhando, olhando e me disse “Que bom que você veio, eu queria que você me escrevesse uma peça sobre o Catulo da Paixão Cearense [poeta cearense - 1863-1946] como você escreveu a vida do Noel Rosa e você conhece o Catulo”… e começou a contar a história e cantar as músicas. Aí o médico veio para me tirar, veio à enfermeira que trocava o xixi, veio a outra que dava injeção de dormir, veio o outro médico de plantão e, quando vimos, tinha uma multidãozinha e ele deu um show de duas horas. Sem cenário, sem nada, comovente. Cantou, representou, daí deitou. Dois dias depois ele morreu. Então eu dizia isto, assim: “claro, eu não sou ator, imagina, mas eu sou um contador de história”. Mas eu tenho impressão que os atores realmente dessa época aqui são muito importantes, sabe? Gente que nem o Serra que nos espia ali, o Cacá, o Kaloy, a Tonica e tantos outros que tem por aí, essa molecada que está aprendendo. Por mais que um homem esteja duro e cínico com esse confronto do dia-a-dia, com essa batalha sem glória, ele sempre conserva no coração dele um pequeno núcleo, como um olho violeta, um lugar sensível onde ele guarda alguns ecos de algum momento de amor que ele viveu na vida dele. E bendito é quem pode tocar esse óleo nesse pequeno núcleo e, por aí, despertá-lo para as lutas de libertação coletiva. Um ator sempre pode.

Sérgio Lhamas: Plínio, você numa evidente brincadeira, você disse que preferia, como ator, atuar em peças dos outros para não prejudicar a sua.

Plínio Marcos: Claro, na minha eu pus o Kaloy, por exemplo, [risos]. O Kaloy, a Tonica, entende? Trabalho em peça dos outros para não estragar as minhas, agora, tem um detalhe: Ninguém me chama para dos outros, então eu tenho que fazer uma minha. Então, estou lá, sentado contando história, né?

Luiz Fernando Ramos: Sobre a sua dramaturgia. Você é estudado na universidade, sua dramaturgia é considerada a mais importante dramaturgia nacional da década de 60 e tal e, nesses últimos, quer dizer, tem 20 anos separando aquelas peças dessas últimas, a Madame Blavatski, a Balada de um palhaço, que você estava falando agora pouco no começo do programa, e eu queria saber se tem alguma evolução, quer dizer, você tem alguma preocupação de ter mudado alguma coisa? Porque, só para terminar, o Luiz Antônio de Abreu, que eu acho que é um dos bons autores da nova geração, aquele que eu acho intermediário entre você, ele tem colocado muito a preocupação de romper com o realismo, de tentar encontrar um novo caminho, o Sofredini também tem ido por aí. Você tem essa preocupação de sair daquela coisa realista, estática?

Plínio Marcos: Não, não tenho.

Sérgio Lhamas: Eu só acrescentaria uma coisa à pergunta dele: Você foi cotado pelo próprio Nelson Rodrigues como o sucessor do Nelson Rodrigues no teatro brasileiro. Eu acho que dá para você explicar as duas coisas…

Plínio Marcos: Primeiramente, era brincadeira. O Nelson Rodrigues era muito brincalhão.

Luiz Fernando Ramos: Você admirava ele assim como autor?

Plínio Marcos: Ah, nós éramos muito amigos. Eu paquerava, porque quando eu estourei, a imprensa carioca queria fazer uma onda Plínio Marcos contra Nelson Rodrigues. Eu não deixei, porque o Nelson Rodrigues é uma santa criatura e isto não é brinquedo não. Nós todos… Pode haver Plínio Marcos porque teve Nelson Rodrigues na frente. Ele realmente… Há discordâncias, algumas pessoas dizem que é o Oswald de Andrade [José Oswald de Souza Andrade - 1890-1954, escritor e poeta, foi um dos promotores da Semana de Arte Moderna], que é o pai do teatro moderno, mas não é não. É o Nelson Rodrigues. Ao Oswald de Andrade se deve muito mais o talento do Zé Celso [José Celso Martinez Corrêa (1937-), ator e dramaturgo, criador do Teatro Oficina de São Paulo], e o Nelson Rodrigues não. O Nelson Rodrigues foi na frente mesmo, ele abriu o caminho para nós, todos nós autores: o Abreu mesmo que você citou, o Leonardo que vem agora atrás de mim. Nós devemos tudo ao Nelson Rodrigues, que ele abriu. Ele era violentíssimo. Então ele falava tudo isso porque ele gostava muito de mim. Mas o Nelson Rodrigues era cismado com os outros autores. Ele achava que os outros autores não gostavam dele, ele achava que a crítica não gostava dele especificamente. Então ele tinha até uma frase que ele dizia assim: “O Plínio, você conhece o Vianinha [Oduvaldo Vianna Filho - 1936-1974 - dramaturgo]?” Eu falei: “conheço”. “Eu quando vejo o Vianinha eu quero que o Vianinha venha comer alpiste da minha mão. Você conhece o Boal [Augusto Boal (1931-) escritor e dramaturgo]” Eu falei: “conheço”. “O Boal era bom dramaturgo quando copiava os meus defeitos”.[risos] “Você conhece o Dias Gomes [Alfredo de Freitas Dias Gomes (1922-1999) dramaturgo que, entre outras obras, escreveu O pagador de promessas ]?” Eu falei: “conheço”. “Estão dizendo que o Dias Gomes é o melhor autor brasileiro, mas ele não é nem o melhor da casa dele!” [risos]. Então ele ficava horas falando essas coisas. E ele era muito gozado, falava com muito humor. Então ele ficava e ele dizia: “Não tem esse negócio, isso que a gente tem que enfiar na cabeça, que não tem esse negócio de melhor ou de pior”. Outro dia um cara falou assim para mim: “você é um grande autor”. Eu falei: “muito mais largo do que grande, né?” Nem maior, nem menor, eu estou no caso… No caso do Nelson. O Nelson Rodrigues provavelmente agora viria o Leonardo e falava assim: “Não é nem o melhor da família dele” [risos].

Luiz Fernando Ramos: Mas, a coisa da preocupação estética, quer dizer, naquela época você foi hiper intuitivo…

Plínio Marcos: Não tem. Você vê que, naquela época, por exemplo, isto não é uma verdade, as pessoas falam que eu … Muito pelo contrário, convivi com Patrícia Galvão, com Geraldo Ferraz. Na casa do Geraldo, do Ferraz e da Patrícia reuniam-se Narciso de Andrade, Roldão Mendes Rosa Mirta Guarani Rosato, Dias de Amaral, vinham poetas, Bruno Jorge, Celso Cardoso, os artistas todos, o Arrabal, esse arrabal que as pessoas todas… Na primeira vez que ele foi traduzido e montado foi em Santos pelo grupo da Patrícia Galvão. E isso é uma universidade. Mais ainda: eu tinha uma escola de circo. Eu sabia andar dentro do palco, que isso facilita muito os dramaturgos. O Guarnieri [Gianfrancesco Guarnieri - 1934-2006 - autor e ator de cinema, teatro e televisão], por exemplo, é esse excelente dramaturgo que ele é porque ele é um excelente ator. Eu saí quase do mesmo nível do Molière que andava tão bem no palco quanto o Guarnieri. Então, quem sabe andar dentro do palco sempre tem uma vantagem, mas não tem maior. Lauro César, por exemplo. Que autor magnífico ele é, né, de teatro. E tantos outros. Se eu for ficar citando os autores aqui, com certeza eu vou criar injustiça. O próprio Dias Gomes, que belíssimo autor. Agora, não tem como você pegar e falar assim: “este é melhor, não?” Nós temos Vianinha, Paulo Pontes, Leilah, Adelaide, Consuelo… É uma infinidade de dramaturgo, é um país riquíssimo, sabe? Então, nós podíamos dizer até assim: Neste prezado momento, nós temos uma obra que é a do Nelson Rodrigues, e todos os outros, nós, juntos, seremos outra obra se Deus quiser, e está feito uma grande dramaturgia para o Brasil.

Luiz Fernando Ramos: Mas não muda essa fase sua última?

Plínio Marcos: Não. A minha fase, eu nunca tive problema. Você veja, por exemplo, depois da Barrela eu escrevi A jornada do imbecil, até o entendimento que é uma alegoria, uma brincadeira. E depois escrevi os Dois perdidos… e depois escrevi A balbina de Iansã, e depois escrevi Dia virata, é tudo diferente. Eu não quero ter estilo. Como você vê, se você acha que isto é anarquismo, eu sou anarquista até no estilo. Agora, o que me comove é você dizer… Claro, eu passei tanto tempo… As pessoas malhando a linguagem “só fala palavrão”. Eu me lembro até que quando eu fui estrear, a Cacilda Becker [Cacilda Becker Iaconis - 1921-1969 - dramaturga e atriz] falou assim: “É inacreditável, você conhece 20 palavras e escreveu uma peça. Só tem palavrão” [risos]. Aí de repente eu me vejo estudado nas cadeiras de lingüística das faculdades. Lingüística, que eu pensava que era uma ginástica que as pessoas faziam para fazer sexo depois de velho [risos]. De repente estudo na faculdade. Mas não tenho essa importância, porque agora, por exemplo, eu estou trabalhando para tentar fazer uma vida de Chico Viola, que não tem nada que ver com a Madame Blavatski, Madame Blavatski era uma… E o Chico era um boêmio, né? Inveterado, um cara gozador, vivia a vida, cantava. Não tenho preocupações de estilo nenhum.

Antônio Carlos Ferreira: Você está escrevendo isso nesse momento?

Plínio Marcos: Estou, nesse momento.

Sérgio Lhamas: Agora, escrever para o senhor é um processo penoso?

Plínio Marcos: O contrário. Imagina se eu não tivesse conseguido ser um escritorzinho razoável, eu talvez tivesse dando duro na estiva. Aquilo lá que é penoso.

Paula Dip: Você falou do teu amor pelo teatro, o teu amor pela boemia, o teu amor pelo futebol, e eu percebo que você fala com muito carinho do teu filho. Toda hora ele volta, esse filho. E eu queria saber dos outros. Eu não sei como é que é sua vida em casa, com a tua família, os teus filhos. Como é que você vive? Quando que você escreve?

Plínio Marcos: Eu não tenho horário de escrever, eu não tenho horário para acordar, eu não tenho horário para nada. Se fosse para ficar o horário, eu ficava dentro do sistema. Não tenho um horário. Agora, tem uma relação ultramaravilhosa com a Valderez, que é a mãe dos meus filhos.

Paula Dip: E quantos filhos você tem?

Plínio Marcos: Eu tenho três. O Leonardo, o Léo Lama, que é o escritor, ótimo compositor, toca um violão imenso…

Paula Dip: Que idade ele tem?

Plínio Marcos: Vinte e três. É meu parceiro na peça lá do palhaço A balada do palhaço, o Quico se revelou um ator quando ele deu baixa no exército, ele queria fazer cursinho eu falei pra ele: “Não vai fazer cursinho coisa nenhuma, rapaz. Vai sair do exército e entrar num cursinho, aí tu fica um idiota para sempre”. [risos] “Você vai pegar… Pega uma grana e vai dar uma banda pelas praias para ver o que você quer”. Porque o Quico é o que a gente se preocupava, porque o Léo Lama desde pequenininho já estava pegando na viola, então ele já ia ser violeiro. A Aninha, que é a Ana Festa, que é uma graça de menina,

Paula Dip: É a caçula

Plínio Marcos: É a caçula, mas é lindíssima. Ela é uma festa na alma e na esperança. Para ela a vida é uma festa mesmo. E vai ser atriz, quer ser atriz, já vai ser atriz, já escreveu peças quando era garotinha de escola, então tudo bem. E o Quico, a gente não sabia o que ele queria. Ele queria ser mergulhador, depois não queria. Então assim, me preocupava um pouco, mas também procurava não interferir. Aí eu falei; “Não, pega uma grana e vai andar por aí. Vai andar na praia”. Se ele gosta de praia, fica andando na praia. Talvez baixa uma luz, né, porque a gente já sabia que não podia deixar de ser. Aí ele veio, quando ele voltou, ele disse : “Eu quero ser ator. Então vai se virar”. Ele foi se virar e logo se destacou. Fez um papel lá na Helena, um papel principal até no Pedro e o lobo, aí foi candidato à revelação, aí foi fazer a peça do irmão, a Meu amor…, todo mundo acha ele maravilhoso, aí já quiseram convidar ele para uma novela e para um filme, “Devagar com esse seu andor que tu não aprendeu nada ainda”. Profissão de ator é muito difícil. Taí os atores que nem Serra e Cacá, que são veteranos…
[Todos falam juntos]

Plínio Marcos:… Mas já a Tonica, eu não vou dizer que ela é veterana porque senão ela vai ficar brava. Vocês estão vendo que ela tá começando. Mas ela é uma atriz muito conhecida em Curitiba. [risos]

Antonia Chagas: Em alguns bairros.

Antônio Carlos Ferreira: Antes de continuar o debate, só um minutinho, nós vamos ter que fazer um intervalozinho. E logo em seguida a gente volta. Então, o Roda Viva volta dentro de instantes.

Antônio Carlos Ferreira: Nós voltamos com o programa Roda Viva, esta noite entrevistando o autor de teatro Plínio Marcos. Antes de retomar o nosso debate, eu gostaria de apresentar então o ator Luís Serra, que foi muito comentado aqui na primeira parte do nosso programa, é ator e apresentador do programa São Paulo Rural aqui na TV Cultura, estava ali nos bastidores e agora conseguimos uma cadeira e um microfone para o Luís Serra.

Luís Serra: Quero agradecer ao amigo Plínio por participar dessa… Sempre é uma honra, um prazer, ouvir o Plínio falar e aprender muito com ele nas coisas que ele fala.

Plínio Marcos: Desde que você está no programa da roça, você deve entender da agricultura que anima Cacá [risos].

Antônio Carlos Ferreira: Agora, Plínio, eu queria retomar aqui nesse nosso debate nessa segunda parte falando do outro tipo de… Que desde o começo você falou assim: “O meu teatro é alternativo, um teatro alternativo e tal”. Queria que você falasse um pouco do outro teatro, o não-alternativo, o grande teatro, o teatrão e qual é sua opinião sobre ele hoje no Brasil.

Plínio Marcos: Eu acho que, por exemplo, nós temos que nos orgulhar, porque nós temos em cena hoje algumas interpretações de altíssimo nível. Se você pegar, por exemplo, o trabalho dos atores Juca de Oliveira e de Luís Gustavo, na peça do Juca, o trabalho de Pompeu e o trabalho do próprio Fagundes [Antonio Fagundes] nessa série de peças que ele fez. O Fagundes no O anarquista, por exemplo, um trabalho de altíssimo nível. O Pompeu também. Se você pegasse o Caruso e o Arutim na televisão, se você pegasse Raúl Cortez, no O lobo, e tantos outros que eu estou esquecendo, por exemplo, não estou falando nem das mulheres, porque se você pega das grandes atrizes, então nós estamos… E eu não estou falando do Rio de Janeiro, porque faz tempo que eu não vejo no Rio e não tenho ido ver Ítalo Rossi, Valmor Chagas … Valmor Chagas não, ele está até fazendo um alternativo lá. Ele é seu pai, né Tonica?

Antonia Chagas: Não senhor.

Plínio Marcos: Ah, não? Nem parente?

Antonia Chagas: Não senhor

Plínio Marcos: Os dois são Chagas, né? Mas o Valmor Chagas tá alternativo, o Rubens Corrêa, que também é alternativo, mas é um gênio, mas tem Ítalo Rossi, uma porção, uma infinidade de grandes atores…

Antônio Carlos Ferreira: Mas então por que você não quer fazer esse teatro?

Plínio Marcos: Não é que eu não queria fazer, eu não sou é profissional.

Antônio Carlos Ferreira: Agora, sobre essa questão, Plínio, inclusive nós temos uma pergunta gravada aqui do Ignácio Loyola Brandão [escritor e jornalista] que eu acho que vai pegar um pouquinho, a gente vai poder discutir um pouquinho mais esse assunto técnico. Você pode assistir à pergunta por um desse monitores.

Ignácio Loyola Brandão: Plínio, você faz um trabalho pelo qual eu tenho a maior admiração, ou seja, você edita os seus livros e você sai com os seus livros debaixo do braço vendendo por toda parte. Até na praça pública, ou principalmente na praça pública. Talvez a última pessoa que faça esse trabalho, talvez o último alternativo do Brasil. Agora, o que eu quero te perguntar é o seguinte: Evidente que esse é um trabalho muito bonito, é um trabalho muito importante que exige uma coragem até. Agora, isso não te limita um pouco como autor? Porque, como é aquele leitor do Rio Grande do Sul que conhece e que gostaria de ler o Plínio Marcos? Ou aquele leitor do nordeste, ou de Cuiabá, ou de Corumbá? Como que esse livro seu vai chegar a ele? Você não acha que tem esse aspecto que, não sei se é negativo, mas, limitativo desse teu trabalho?

Plínio Marcos: Loyola. Loyola é um dos poucos que vive de escrever no Brasil. Eu fui de vender livro. Agora, veja bem, eu vendo livro e estou gordo, ele escreve e é profissional e está magro [risos]. Mas não é, é que ele faz regime, ele é um grande escritor e um grande… Não limita não, Loyola, muito pelo contrário. Você veja assim: quando eu era de editora, eu tirava, por exemplo, Querô, que era o meu romance campeão, tirava cinco mil exemplares por ano e era uma batalha para vender. Era três livros para Goiânia, três livros para Corumbá, três livros para não sei aonde. Hoje quando eu vou fazer uma palestra num lugar desse aí, eu vendo trinta, quarenta, cinqüenta e até cem livros em uma cidade. Quer dizer, eu vendo muito mais andando, e eu não sou alternativo, sou enjeitado. Alternativo é quem escolhe e eu fui posto para fora. Ninguém quer editar os meus! Mas eu queria editar e eu queria que garantissem que o livro seria distribuído. Como o livro não é distribuído, então eu vendo muito mais. Não é uma limitação, é muito mais. Por exemplo, o Querô, tiraram uma edição de cinco mil exemplares por ano. Qualquer livro que eu vendo de mão em mão, eu tiro quinze mil, vinte mil por ano, que é muito mais, não é? Quer dizer, o escritor é ruim, mas o camelô é ótimo.

Antonia Chagas: É, mas o camelô anda camelando há muito tempo. Há muito tempo você faz esse trabalho de vender livros nas portas dos teatros, nas ruas, nas escolas e tal. Mas outro dia você estava saindo do Gigeto, com esse teu… Arrastando as havaianas, e já de costas, você falou assim: “Ah, já estou cansando desse negócio e tal”. Você está cansando de ser alternativo?

Plínio Marcos: Vender livro em terra de analfabeto com fome não é uma tarefa fácil. Então agora, por exemplo, cansei. Estou lá, fazendo um show. Enquanto estou no show eu não vendo livro.

Antonia Chagas: Mas nunca cansou de ser alternativo?

Plínio Marcos: Eu não canso de ser alternativo. É o que eu estava dizendo para o Tonico. O Tonico é ele [mostrando Antônio Carlos Ferreira]. De repente você se ofende. Aquelas coisas, essa gente do teatro é fogo. Mas, Tonico, eu estava te dizendo o seguinte: eu não sou profissional. Eu não teria, provavelmente, a sutileza dos meus colegas que escrevem, por exemplo, novela. Provavelmente não conseguiria. Então não posso ser profissional. Então tenho que escrever o que me dá na cabeça, o que me apaixone. Então outro dia conversando com o Zé Ramos Tinhorão [(1932-) historiador, antropológo e pesquisador da música popular brasileira] a gente começou a falar de Chico Alves, de Chico Viola, essas coisas todas, aí me entusiasmei para escrever a peça por aí. Mas nem me passa na cabeça quem é que vai montar. Eu escrevo e deixo lá. Eu tenho uma peça que está, que o pessoal fica todo entusiasmado para escrever e está guardada para o meu Quico, né? O Quico da gente é o Querô. Ou faz com o Quico, ou não faz. Desde que… Ele nem sabia que ia ser ator, eu já sabia que era ele que ia fazer o Querô. Porque, pô, eu escrevo assim. Não tem nenhum jeito, por exemplo, de eu escrever A Madame Blavaski se não fosse a Valderez que fosse fazer. Ou ela faz ou eu não monto. A balada de um palhaço, ou ela fazia, ou eu não montava. Porque eu não sou profissional, eu não vivo disso. Já sei que não vou ganhar dinheiro mais mesmo.

Antônio Carlos Ferreira: Agora, você acha que vender livro - e desculpe a insistência nessa questão, porque a gente gosta tanto de você, a gente gosta tanto da sua obra que a gente gostaria que a sua obra tivesse… Que você tivesse toda vez sendo encenada, ela tivesse no teatro o tempo todo e tal. Agora, quando você sai para vender livro na rua. Isso te dá alguma coisa, algum incentivo, algum… Te inspira alguma coisa? Porque eu acho que não! A minha impressão.

Plínio Marcos: Na verdade é muito mole, né? Na verdade é mole. Eu pego meu livro, por exemplo, eu vou lá na porta do teatro do Cacá, que é um sucesso retumbante, aquelas pessoas vão entrando lá, e junto tem o Fagundes, dois grandes teatros juntos ali funcionando “Esses dois canalhas lá dentro fazendo sucesso e você aqui fora! Me dá três livros”. [risos]. É meia hora de trabalho, rapaz. Eu não nasci para trabalhar. Eu nasci para ser bon vivant. Se eu fosse trabalhar, eu arrumava um emprego. Então é mole, não tem nada…

Antônio Carlos Ferreira: Não, eu digo assim do ponto de vista da experiência, da inspiração inclusive, para poder escrever alguma coisa, porque quando você trabalhou em teatro, em circo, quando você trabalhou no porto e tudo, tudo aquilo é claro que te ajudou a fazer as suas peças.

Plínio Marcos: Mas não tinha consciência. Não tinha consciência, Tonico. Não tinha consciência. Na verdade verdadeira, veja bem: existem as coisas que você sabe e as coisas que você compreende. Todos nós sabemos que o país está miserável, mas não compreendemos direito o que é a miséria, portanto, não compreendemos e não fazemos nada pela miséria. Então, isto que é fundamental. O que fica em você é teu. O que tu sabe, já fica discurso. Então, você vai vender livro, você não está se preocupando, você vai lá e vai brincando, é uma brincadeira. Eu falo com as pessoas, discute com um…

Antônio Carlos Ferreira: E você consegue se sustentar com isso aí? Você se sustenta com a venda de livros?

Plínio Marcos: Você vê que estou gordo vendendo livro em terra de analfabeto tem que ser um sucesso.

Antônio Carlos Ferreira: Mas, como agora os seus filhos também estão fazendo sucesso, né, talvez…

Plínio Marcos: Não, o Leonardo toda hora ameaça de me sustentar. Ele pensa que eu tenho alguma coisa contra. [risos] Acho que filho é para isto. Será a primeira vez que eu serei sustentado por homem, mas o quê que eu posso fazer? A Valderez, por exemplo, vai estrear uma peça, eu espero que ela faça sucesso para me dar pensão, né? Que eu sou a favor de receber pensão. Quicão, mais cedo ou mais tarde vai ser sucesso. Quico da gente é um grande ator, é bonito, é talentoso e está tocando clarinete maravilhosamente, e a Aninha, esta será um retumbante sucesso.

Cacá Rosset: Plínio, esse substitutivo do centrão [agrupamento político do Congresso brasileiro], que provavelmente será aprovado, não garante a liberdade de expressão no país. Quer dizer, você que é o inimigo público número um da censura, como é que você está vendo a questão da liberdade de expressão nesse momento?

Plínio Marcos: Eu não sou o inimigo número um. Nós todos, nós todos aqui presentes, os atores, os jornalistas, nós sabemos disso mais do que ninguém. O Cacá, que se não houver liberdade total de expressão, não pode haver preservação dos direitos humanos. Mas o que você pode esperar de um país onde Plínio Sampaio [Plínio de Arruda Sampaio (1930), deputado, atualmente do PSOL], que é do PT, vota a favor da censura, rapaz! A sociedade é censura. Eles têm um tremendo medo de que as pessoas falem e pensem livremente. Imaginem, deixando uma fera brava que nem Kaloy fazer o teatro que quiser, dizer o que quiser, sem nenhum controle. Cai a sociedade deles, as instituições estão podres! Eles não entenderam ainda que, para a gente viver bem, não pode mais haver instituição: não pode haver mais igreja, não pode haver mais exército, não pode haver mais casamento, nem família obrigatória. Então, eles entenderam isto, eles se defendem da gente. Então, a liberdade de expressão para eles é uma doença. Então vem o cidadão… É Sampaio mesmo o nome dele, Plínio Sampaio? Plínio de Arruda Sampaio, que é do PT e em nome do compromisso que ele tem com a igreja, vota a favor da censura! O que tu vai esperar da direita? O que tu vai esperar do Robertão [Roberto Marinho - 1912-2003 - jornalista, dono da Rede Globo], do, daquele lá… Daquela cria do Lacerda [Carlos Frederic Werneck de Lacerda - 1914-1977 - jornalista e político da UDN, partido de direita do anos 1950, apoiou o golpe de estado em 1964] lá… O Amaral Neto. Sabe o que a gente tinha que esperar deles, rapaz, se a esquerda vota a favor da censura? Aí então é terrível. Agora, eles sabem muito bem que se deixarem a gente pensar e falar, cai toda a instituição.

Luiz Fernando Ramos: Você acha que a liberdade de expressão, que o teatro livre tem esse poder? Quer dizer, teve uma época em que você não era… Agora é possível, você…

Plínio Marcos: A Balada de um palhaço era isso, companheiro. Jovem, você que é um guerreiro porque você que faz uma revista de teatro no Brasil e fazer uma revista de teatro no Brasil é uma tremenda ousadia, né? É uma loucura, é uma maldição. Essa é que é uma alternativa! Mas, então, você veja: A Balada de um palhaço era isto, é o que aconteceu conosco. Nós ficamos exauridos lutando contra a censura, lutando contra a ditadura, toda hora nos perseguido, toda hora preso, e não era. Você diz assim: “mas era fulano que era preso?” Não era fulano! Era qualquer um de nós que caía era como se nós caíssemos. Quando você pega os formuladores, você Zé Celso, você pega Boal, você pega o Ferreira Gullar, que eram formuladores. E essas pessoas têm que sair do país, foram obrigadas a sair do país porque não podiam formular mais coisas. Nós, artistas, era fácil censurar, mas os que formulavam, estes tiveram que ser realmente postos para fora do país. Então, o teatro cansou, se exauriu. Quando veio a chamada “liberdade”, que o governo Sarney, através do Fernando Lira, que também se diz de esquerda, fez uma festa para dizer que acabou a censura e era mentira, porque a lei permanecia igualzinha, igualzinha. Quando aconteceu tudo isto, nós não sabíamos direito o que dizer, porque a gente não sabe se situar. Por mais que o artista queira … E você tem razão. E não sou eu, são todos os artistas. Na verdade, os que mexem com a idéia, na verdade, são anarcos [anarquistas]. Então as pessoas não sabiam dizer, e elas são generosas. De repente elas vem: “Olha, você não diz isso aí que atrapalha. Se você disser isso, (não entendi) pode sair outra vez do quartel. Se você disser isso, você desvaloriza a classe política…” Então os artistas começaram cansados e perdidos, sem saber se situar. Em qualquer profissão, em qualquer coisa, seria legítimo haver um descanso, haver um relaxamento. Mas não, nós tivemos que continuar trabalhando, trabalhando…

[ ]: Você acha que a classe teatral está cansada, Plínio?

Plínio Marcos: Não é a classe teatral. O Brasil. Só que na escola da vida, como diz Jorge Amado, não tem férias. O povo não pode sentar na sarjeta e chorar. Continuamos apinhados dentro dos ônibus, esmagados, sem saber o que vai ser com o nosso aluguel, aumentando tudo todos os dias, o leite, o pão, as coisas essenciais, o feijão o aluguel. Então estamos exauridos. Então você veja: na Balada de um palhaço, eu colocava isso. O artista que é o palhaço, que luta pelo direito de não ter que fazer uma arte comprometida, uma arte para agradar, e quando ele entra em cena, ele não tem absolutamente para dizer.

Antonia Chagas: O Bobo Plin era um auto-retrato?

Plínio Marcos: Os dois são um auto-retrato. Tanto o Menelão como o Bobo Plin.

Antonia Chagas: Você tem um lado de Menelão?

Plínio Marcos: Claro, meu amor. Você sempre tem um conflito dentro de você. É essa que é nossa ansiedade, é a dualidade. Se eu fosse uno, que maravilha seria, mas não, eu tenho uma dúvida. Quando eu de repente sou convidado para fazer uma coisa que eu não quero, eu penso na Aninha, penso nos meus filhos, penso na minha mãe, que meu pai trabalhou a vida inteira e deixou para ela uma aposentadoria de 900 cruzados. E a minha velha está lá, com setenta e oito anos e se não fosse eu e meus irmãos, ela provavelmente estaria catando bagulho no chão da feira. Então tudo isto é uma indignidade neste país, quando a gente sabe que qualquer calhorda desses tem quatro, cinco aposentadorias. Que eles cooperam em causa própria mesmo. Então essas coisas todas são doídas, não é? Então, não é o artista. O artista, talvez, seja o porta-voz do povo. Eu às vezes fico pensando, viu? Eu rezo uma oração que diz assim “Senhora, Jesus se fez verdade em seus braços, e, no entanto, para a senhora ele sempre foi menino. E, no entanto, não foi por ele que a Senhora chorou no Calvário. A Senhora chorou por nós. Homens que Jesus quis como irmão, por quem foi recusado. Chorou por nós, homens que Jesus quis libertar, mas que preferimos continuar escravos. Agora nesta hora, nesta hora dura, hora certa da tristeza materna, hora das cordas, dos açoites, dos lamentos, nesta hora que o homem de pouca fé pensa que é o fim, por causa das transformações profundas, concede-me, Senhora, o direito de pegar a palavra dos fundos das águas e entregar para os homens no continente como ponte da libertação, do despertamento, da subversão”. E é isso que nós estamos procurando todos, cada um no seu campo, cada um no seu sentido. E é isso que eu estou procurando, é essa palavra que incendiasse, que eu pudesse te dizer “eu te amo” e ela significasse exatamente a intenção do meu espírito. Porque senão se torna na palavra ociosa que resulta em nada, se resulta nesse homem moderno, homem de Babel, um homem que não sabe o que falar, não sabe por onde seguir.

Antônio Carlos Ferreira: Plínio, isso que você acaba de dizer me lembra… Novamente lembra a gente de uma relação entre a sua obra e a do Nelson Rodrigues, porque vocês dois também sempre foram considerados autores malditos, o autor que coloca o sexo, coloca o palavrão, e, ao mesmo tempo, os dois também têm essa religiosidade. Que que é isso aí? Tem uma ligação assim?

Plínio Marcos: Você pode negar que algum autor brasileiro escreva sem ser a favor do homem? Quem escreve a favor do homem, evidente que tem. Você pega o Guarnieri, o Dias Gomes, Ferreira Gullar, Paulo Pontes, Vianinha, Leilah, todos todos, Lauro César, todos escrevendo a favor do homem, portanto, escrevendo a favor de uma religiosidade. Todos os artistas, o Cacá quando procura, o Serra quando procura, o Kaloy, a Tonica, os outros atores, todos, quando eles procuram uma peça, claro que eles querem ser a ponte do despertamento do homem. Não conheço nenhum artista que não queria fazer, o grande jornalista que não queira fazer a reportagem que mantenha no fundo da sua alma aquele compromisso que tinham os apóstolos, de contar a Bíblia. Não conheço nenhum. Agora, veja bem, de repente nós não temos espaço. A nossa luta, a gente fica de repente caído. Veja, eu lutei contra a polícia como jornalista, nas folhas eu vi minha cabeça ser trocada para a polícia federal, na Veja, fui despedido, no República, fui despedido, não sei onde fui despedido, o jornal Movimento que era um jornal onde a gente trabalhava de graça eu fui apreendido, fui processado tantas vezes, e, de repente quando vem os caras dizendo: “agora tem liberdade de expressão”, você não tem onde falar. Você não pode entrar na Bandeirantes, não pode entrar não sei aonde, não pode entrar no canal do Sílvio Santos, não pode trabalhar aqui, não pode falar nesse jornal, não pode dar entrevista nesse. É claro que, evidentemente isso é uma força bruta.

Luiz Fernando Ramos: Agora, você não acha que, por exemplo, essa marginalidade que você está vivendo, que você sente… Você estava falando de grandes interpretações de grandes autores, mas, se você comparar com a década de 60 em termos de espetáculos, de diretores, o teatro está muito menos importante do que foi naquela época para a sociedade. Então, mudou o teatro, mudou o Brasil, o que aconteceu com o teatro que o teatro está tão por baixo?

Plínio Marcos: Olha aqui, quando um ator estiver em cena representando com grandeza absoluta, como neste exato momento representa o Cacá, que está aqui presente, o Serra recentemente representou, e a Tonica sempre representa, na Blavaski, por exemplo, ela era de uma força, Kaloy, na minha peça também era de uma força, de uma coragem… Quando essas pessoas estiverem em cena, você pode ter certeza que o teatro está vivo. Então, você veja, eu vou te dizer uma coisa, é claro que você não acompanhou, mas, em 64, quando teve o golpe militar, as pessoas estavam desesperadas e fizemos uma reunião para saber o que seria de nós. E a alma grande, esse mestre do teatro brasileiro, Alberto da Versa dizia o seguinte: “os atores representem os grandes textos. Nenhum censor vai ter coragem de proibir um Shakespeare. Nenhum vai proibir esses grandes autores que são heranças espirituais da humanidade. E se eles se fizerem grandes, quando o autor puder escrever, vai ter que escrever para estes grandes atores”. Então, neste prezado momento, se nós escritores, os poetas todos que estão aí, estão exauridos e está chegando agora então a geração de Léo Lama, de Quico de Barros, de Aninha, das meninas da Blasfêmia, daquela Aninha Cafuri, da Rita Malui, e do Lage, e dos jovens diretores e eles vem chegando, e eles vem chegando, com certeza eles vão ter que escrever para grandes atores. Veja, por exemplo, Cacá é um jovem ator e é novíssimo. Daqui há dois, três anos, você vai ter que pegar e escrever para ele. Então você que está começando e o outro vão ter que escrever para o Serra. Isso te obriga a escrever para nós todos, porque você fala “em 60… Em 60 começou a aparecer uma dramaturgia, na verdade”.

Luiz Fernando Ramos: Você acha que a existência de uma dramaturgia é fundamental para que exista um teatro forte?

Plínio Marcos: Não. Os atores são fundamentais. O artista do teatro é o ator. Não existe essa coisa. Ninguém vai pagar a entrada para ver Nelson Rodrigues, para ver Guarnieri, para ver Plínio Marcos. Todo mundo vai pagar para ver os atores. Eu vou no teatro para ver os atores. O diretor não existe no teatro.

Marcos Kaloy: Falando nessa perspectiva, Plínio, uma vez eu estava vendo um programa aqui, o Raul [Cortez] estava sentado onde você está e a Célia Helena [atriz, foi casada com Raul Cortez] perguntou para ele sobre os grupos de teatro antigamente existiam, que tinham uma certa continuidade que outros, hoje são muito poucos e que são poucos os autores que topam trabalhar com os grupos e criar um espetáculo conjuntamente com os atores. Você ainda é aberto a isso, você trabalha dessa forma?

Plínio Marcos: A Celinha, ela está desinformada, porque, por exemplo, o Cacá é 10 anos de grupo.

Marcos Kaloy: Não, a gente também, 10 anos.

Plínio Marcos: Então? Claro, 10 anos. Se eu tenho dois grupos com 10, não tem tão poucos assim, porque em São Paulo tinha o quê? O Arena e o Oficina.

[ ]: Já é um casal vinte, né? [risos]

Plínio Marcos: Então, você veja que, de repente, essas pessoas, por força das cirscunstâncias elas ficam mal informadas. O que não tem mais é a divulgação que tinha essa do Arena. Os críticos, por exemplo, perdiam um tempo enorme conversando com as pessoas que estavam fazendo trabalho de pesquisa de coisa, publicavam, impulsionavam, e essas coisas todas. Agora, você veja, por exemplo, o Teatro de Arena tinha 170 lugares. O do Cacá tinha até pouco tempo 500 lugares. Veja qual que cabia mais gente.

Cacá Rosset: Não era meu. Era da Dona Ruth aqui. [risos]

Plínio Marcos: Não é sua tia? [risos] Ela te protegia.

Marcos Kaloy: Mas você estaria aberto a trabalhar com grupos, com atores.

Plínio Marcos: Não, pelo contrário, a última vez que eu organizei alguma coisa era um grupo. Era o grupo “O bando”, que era uma experiência cooperativada que deu certo durante dois anos. É que, por exemplo, o que eu acho é que, de repente, o grupo tem que acabar. Então chega um belo dia e você acaba, para não viciar, porque senão fica viciado. Senão, chega num ponto em que todo mundo sabe o que o outro fala, de repente, se fala demais não tem salvação, sabe como é? O negócio é que tem que se misturar, o artista tem que se misturar. Você tem que conviver com pessoas que não acreditam tanto no que você fala. Conviver com pessoas que te contestam.

Luís Serra: Agora, só uma pequena intervenção…com relação

Plínio Marcos: Fala Serra! Bebendo água hein quem diria…

[risos]

Luís Serra: …Com relação a esse assunto, eu tenho tido muita discussão com esse pessoal que está surgindo, esse pessoal de valor, a respeito desses grupos com relação aos grupos que existiam antigamente como esse tema aí do Arena e do Oficina, que eram os dois grupos, digamos, principais na ocasião… O Opinião lá no Rio, e tal. E eu sinto uma certa (da parte deles) uma certa desconsideração pelo trabalho que foi feito nosso durante aquele tempo e tudo o que a gente fala hoje, fala assim: “Bom, naquele tempo aconteceu isso, aconteceu aquilo. Ah, mas isso é coisa de passado, não interessa mais, não sei o quê”. Quer dizer, uma certa tendência de considerar aquilo como coisa feita, não deu certo e vamos partir para outra. Eu, muitas vezes brigo com esse pessoal por causa disso porque eu acho que, fundamentalmente o que está existindo hoje, se você pegar de 1964 até 73 para cá, até 80, oitenta e pouco, eu tenho a impressão de que está havendo uma retomada agora dos estilos, do tipo de assunto que o pessoal, principalmente desses grupos está procurando montar, é uma retomada daquilo que foi interrompido por volta de 73, 72. Qual é a sua opinião sobre isso, quer dizer, eu me sinto assim meio como se toda a minha participação, durante todo esse tempo, o fato de eu ter feito todo o tipo de teatro que eu fiz durante todos esses anos, jogado fora em razão de uma situação agora. Não tem mais valor.

Plínio Marcos: É sadio. É sadio eles chegarem com um trator e passarem por cima de você. Porque, veja bem: o Arena e o Oficina conseguiram se instalar passando com o trator por cima de Procópio Ferreira, de Bibi Ferreira. Essa á a luta da juventude. Eu vou te contar um diálogo que eu tive com o Leonardo e com o Quico crescido eu falei: “Vocês tem que chegar e arrebitar a boca do balão! Se você começar a me respeitar - papai é melhor autor - você não faz nada. Tem que chegar e falar que era uma coisa que já era”. Porque senão você não ocupa o lugar. Você tem que vir com o seu. Sabe, por exemplo, na Balada de um palhaço, uma das coisas mais bonitas que eu escrevi na minha vida, eu gostava tanto daquilo, eu dizia assim: “Quando eu fui começar a ir em circo, as pessoas vieram e me diziam assim ‘Olha, tem um gordo que faz dupla com um magro engraçado. Eles são ótimos. Tem um que tem um bigodinho, que ridicularizou uma coisa, tem um que tem uma calça pelas canelas, tem um…’ eu só não podia ser eu mesmo”. Por isso que a minha carreira de palhaço frustrou, porque todo mundo tinha uma referência. A nossa cultura é de comparação. O Serra, de repente eu te acho um magnífico ator. Mas, se de repente, eu pegar o Quico e falar assim: “faça como o Serra, já tem Serra”.

Luís Serra: Não, não é nesse sentido que eu estou falando, Plínio. Como você, como foi dito aqui, você criou…

Plínio Marcos: Não tem. Não acaba, não acaba. Você pode, por exemplo, o Procópio Ferreira foi mandado para o interior. Só andava pelo interior mambembando. A Bibi Ferreira, esta mestra, esta criatura adorada não existe neste prezado ninguém mais completo no teatro brasileiro do que Bibi Ferreira [Abigail Izquierdo Ferreira, 1922, atriz, diretora e dramaturga, filha de Procópio Ferreira], esta mulher, ela teve que ir para Portugal. Não tinha lugar para ela, rapaz, quando o TBC [Teatro Brasiliero de Comédia] entrou. Mas não acaba. De repente, por exemplo. Eu me lembro quando apareceu Jaime Costa fazendo um musical, todo mundo: “Mas meu deus, de onde surgiu esse ator?” Esse ator não surgiu, ele sempre existiu. Nós é que não acreditamos mais nele, então ocupamos espaço. Mas depois ele tem tanto talento que ele fica lá. Não tem como você tirar, como você fazer. Claro que o Leonardo tem que sair por aí dizendo: “O meu pai já era! Senão ele … o meu pai é bom, eu tenho uma pecinha”. Não existe isso, rapaz. A juventude tem que pegar e seguir o livro: “É lixo sim, por isso que não deu certo! Era um bando de idiotas”.

Luís Serra: Não, eu não concordo com essa postura deles de querer ganhar o espaço e ter que…

Plínio Marcos: Para ganhar o espaço tem que falar mal, falar mal, falar mal. O Nelson Rodrigues só era maravilhoso porque ninguém podia falar do Nelson Rodrigues. Sempre tinha uns dois, três para falar mal. Aí tinha um que defendia, então ficava evidente. Não tem disso. O jovem tem que pegar e desconhecer mesmo. Mas não desconhece tanto assim, tanto é que, por exemplo, lá o Humberto Mariani, o Marquinhos Santista, o Fláusio Arapi que está organizando aquele negócio de representar, o Chico de Assis, esse magnífico dramaturgo que é de tanto sucesso, inclusive está dando aula de dramaturgia e fica toda a juventude lá no Inacem [Instituto Nacional de Artes Cênicas]. Então você vê que não está perdido o elo. Acho que quem chega, tem que chegar com tudo. Sabe, era aquela coisa: eu me lembro que eu desacatava mesmo, eu era folgado que só… O colarinho. A Patrícia Léo Rumo uma vez escreveu no jornal lá de Santos, lá na Tribuna. A Tonica conhece bem e sabe o que significa você ser pichado dentro da Tribuna. A Patrícia botou assim na manchete do jornal: “este analfabeto está esperando outro milagre de circo. E me esculhambava”. Botou um retrato meu assim grandão, com gravata borboleta e tudo, e Bumba, Bumba meu Boi. Eu falei: “Patrícia, você ficou louca, rapaz? Você é minha amiga!” Ela falou: “Assim tu aprende. Tu não gosta da guerra de geração? Só quer dar porrada e não quer tomar? Então toma para tu ver como é bom” [risos] Aí bebemos juntos e ficamos dando risada, só que eu era vaiado em público. Parecia que eu era o único analfabeto de Santos. Quando passava [risos]… Tinha um programa de rádio oficial para me esculhambar. Então, essas coisas todas que você tem … que é a luta normal, sabe? Isso que é a vida, isto que é o sangue, isto que é maravilhoso. E no dia em que te respeitarem, você deixa de ser o grande Serra que você é.

Paula Dip: Falando de guerra de geração, você falou num momento da tua carreira, você trabalhou para a televisão, fez sucesso na televisão. Hoje você disse que a televisão não te chama mais. Porque você não quer ou porque você acha que elas não têm espaço para você?

Plínio Marcos: Ó, meu amor, por exemplo, o meu amigo Oswaldo Loureiro me chamou para fazer uma coisa chamada… Como é que era? Senti firmeza. Eu não condeno nem que vá, eu tenho vários colegas que estavam desempregados para ir lá. Para começo de conversa, mesmo que quisesse, a Bandeirantes não ia deixar, como não deixou. Como o Carlos Alberto de Nóbrega me convidou para fazer a Praça da Alegria dele lá, na Bandeirantes, e depois não pode confirmar o convite porque eles não deixaram.

Paula Dip: Mas você iria?

Plínio Marcos: Não, eu não iria. Eu não iria porque eu não posso. Veja bem: eu sou uma pessoa que faço uma média de três palestras por semana em igrejas, em periferias, em favelas, em colégios, em interior, essas coisas todas pelo Brasil inteiro. E digo determinadas coisas que daí não permitem que eu apareça fazendo outras.

Paula Dip: É concordo…

Plínio Marcos: Então eu posso aparecer aqui nesse programa que, brincando, eu vou dizendo todas as minhas coisas que então as pessoas… Mas eu vejo que o que está acontecendo com a juventude brasileira é exatamente isto, não sei quem me perguntou, não sei se foi o Kaloy… O que eu vejo com a juventude é que ela está desacorçoada do cara que faz um discurso bonito e não cumpre. E o que me tem diferenciado e a minha religiosidade me obriga a ser é uma pessoa que procura viver o seu próprio discurso. Então eu não posso aparecer numa favela dizendo uma coisa lá e, de repente para aparecer na televisão fazendo outra coisa. Eu não posso fazer, por exemplo, comercial de televisão porque eu abomino comercial. Eu acho que é apregoar a loucura você pegar pessoas que não podem comprar e insistir que elas comprem. Eu não posso fazer. Então eu vou ter que pegar, morrer na sarjeta se for o caso, mas não posso fazer isto, porque eu sei que a molecada não acredita no padre, não acredita no professor, não acredita no pai, não acredita no artista, não acredita em ninguém. Por quê? Porque ele não tem um parâmetro de honestidade. Então se eu vou lá e converso com eles e vejo que tem isto, eu tenho que garantir o meu taco, e é isso que eu estou fazendo.

Paula Dip: Mas o que você acha da televisão que está sendo feita no Brasil atualmente?

Plínio Marcos: A televisão tem dono, né? Então você não pode pegar e negar. Isso aí outro dia um jornalista escreveu que eu sempre falo a mesma coisa. Mas a televisão que é o vínculo cultural do nosso tempo está entregue aos invasores. Isso não há como negar. Eu tive que dizer isso na marinha, no exército, na polícia federal, no Dops.. São 9600 filmes estrangeiros por ano nos cinemas brasileiro. São 80% de música estrangeira tocando diuturnamente nas nossas rádios, são 280 filmes estrangeiros por semana na televisão brasileira. Esta massa de cultura de consumo não está aí por acaso. Ela está aí para esmagar as manifestações que protegem o povo brasileiro, para descaracterizar o homem como um brasileiro, para mesquinhar o mercado de trabalho do homem brasileiro, do comunicador brasileiro, impedindo que a gente possa discutir os aspectos culturais da nossa profissão, e se você quer ver, hoje, em plena crise econômica, o Brasil gasta muito mais na importação de cultura de consumo do que na importação de petróleo, e ninguém vai falar em economizar nisto porque para vender de café, soja, sapato lá nos Estados Unidos, nós temos que comprar essa bagulhada. Eu me apresso a dizer que sou contra as fronteiras, sou contra essa idéia de país, essas coisas todas, mas eu não posso aceitar o mundo sem a participação cultural de um povo onde me criei. Não posso aceitar o mundo sem berimbau, sem caipirinha, sem bumba-meu-boi, sem feijoada, sem farofa, sem macumba. Então eu quero que seja a recíproca verdadeira, eu quero um espaço de criação. Então, nós não temos um mercado de trabalho. Então, essa previsão é mal feita. O jornalista, de repente, não pode ter compromisso com a notícia. O ator não pode discutir os aspectos culturais do seu trabalho. Então é ruim, é muito ruim a televisão que está sendo feita aí.

Ninho Moraes: Você topa fazer um tele-teatro aqui na Cultura?

Plínio Marcos: Fui convidado, apareceu um rapaz em casa. Ele foi lá em casa e queria adaptar uma peça minha. Eu perguntei se ele sabia se Plínio Marcos estava vivo. Porque se eu estava vivo, eu mesmo poderia adaptar [risos]. Ele falou que não e tal, que ele ia adaptar, que era uma chance dele. Eu achei o rapaz bobo, era Roberto, não sei o sobrenome dele, dei uma peça para ele adaptar chamada Homens de papel, onde ele ia ganhar mais do que eu. Mas eu dei, ele falou que precisava entender de televisão, eu falei: “Tudo bem. Você vai lá e faz a adaptação”. Depois ele apareceu lá em casa e deu a peça para mim ler e eu não tinha tempo de ler peça que eu já li. Então eu peguei o Marquinhos Santista, que é um amigo, bom diretor, eu dei para ele ler, ele achou que estava ótima a adaptação. Devolvemos a peça para o garoto e falamos: “pode fazer”. Ele veio aqui e proibiram.

Antônio Carlos Ferreira: E isso quando?

Plínio Marcos: Faz uns sete, oito meses atrás. Proibiram. Agora, desta vez eu peguei, ano passado no carnaval uma figura falou assim para mim: “Olha aqui, eu indiquei o teu nome lá no canal dois e eles não deixaram”. Esse ano eu peguei no pé do Roberto Oliveira: “Ora, que história é essa, não deixar trabalhar no carnaval?” “Não, muito pelo contrário. Ano passado eu falei do teu nome e os caras falaram que você não quer mais trabalhar”!. Eu falei: “Mas eu quero, pô. Claro que eu quero. É carnaval, eu vou ter que ficar na Avenida mesmo! Já falo lá ‘olha aí, não sei o que…” Então já me pôs para trabalhar.

Luiz Fernando Ramos: Qual é a sua escola? Será que pode falar aqui? Você vai cobrir…

Plínio Marcos: Não, não tem escola, porque, por exemplo, nós éramos agitados. Eu o Geraldão, o Toniquinho, o Zéca da Casa Verde. Nós na verdade implantamos, incrementamos, eu que incentivei o Inocêncio Mulato a fazer a primeira roda de samba de São Paulo, que era a camisa verde e branca da Barra Funda, eu que incentivei o Geraldão a fazer a roda de samba da Paulistano. Eu com a Valderez, com o Roberto Ruco, com a Beth Ruco, e com tantos artistas, com o Alexandre Borra, que fundamos a Banda Bandalha, então nós sempre agitamos carnaval, entende?

[ ]: O Carlão…

Plínio Marcos: O Carlão, o jovem Carlão que agora tira a banda do redondo desesperado. Porque as outras bandas agora querem inaugurar o carnaval de São Paulo, já estão saindo em janeiro do ano passado [risos]. Quer ser a primeira, né, aquela coisa toda. Então nós temos aquela banda maravilhosa, que era a Banda Bandalha, que era bonita. Eu me lembro que um cidadão punha guarda reforçada na porta do Jaraguá, o primeiro que passasse ou atirasse pedra, sei lá. Tinha os que pensavam que era passeata, né? Que a banda de São Paulo, o carnaval de São Paulo tem umas piras… Eles confundem um pouco banda com São Silvestre. Eles vão depressa.

Sérgio Lhamas: Como é que é essa peça que foi proibida aqui no Canal 12? Só para ter uma idéia, por que ela foi proibida?

Plínio Marcos: Era Homens de papel, não tenho a mínima idéia por que foi proibida. Eu mandei o cara perguntar e ele nunca mais apareceu. Mas era Homens de papel, uma peça que a Maria Delacosta [atriz e produtora teatral] montou em 67. É a discussão da mais valia entre catadores de papel. Com papéis…

Marcos Kaloy: Plínio, a gente estava no carro, a gente estava falando sobre um fato que ocorreu com um crítico no teatro. Qual é a tua relação com a crítica? Se puder contar esse fato, conte…

Plínio Marcos: A crítica, eu não tenho fato nenhum, eu não tenho nada a esconder, tudo meu é público, o problema da crítica é o seguinte: no ano passado, veja bem, a crítica, por exemplo, o João Cândido e a Sônia Goldenfeld, que são pessoas até que são consideradas colegas nossos, porque eles até fizeram escola de arte dramática, foram atores, essas coisas todas, e de repente eles vão ser críticos. E vão, por exemplo, o João Cândido foi convidado umas três ou quatro vezes para assistir a Balada de um palhaço. Evidente que nós não estamos querendo ganhar prêmio. Mas a Veja é uma revista que tira 680 mil exemplares. Nós queremos ser noticiados lá. E não fomos. E a resposta que ele dava era que, seguinte: que a Veja não queria noticiar teatro alternativo. Então, tudo bem, é um direito que ele tem. Só que, quando chegou na hora da votação, ele foi lá e a Sônia Goldenfeld foram lá e votaram. Votaram o quê? Sem ver? Isto aí a gente acha um absurdo. É um absurdo sem conta. Mesmo contando que o Inacem ( Instituto Nacional de Artes Cênicas) é um órgão do MEC e o MEC é do governo Sarney, é uma afronta você pegar e pagar pessoas para votarem em coisas que não viram. Então, a gente chiou. E a crítica ficou aí, meia nariz torcido com a gente. Não foram ver a peça do Leonardo, só foi o Roberto Cossich, e aí o Roberto Cossich foi assistir o meu grande espetáculo, falei assim: “Sempre meteu o pau na peça do Leonardo, agora como é que faz para votar? Você vai contar para os outros que você não gostou da peça? Os outros não vão ver a peça do Leonardo? Não é porque a peça é do meu filho, não”. Eu tenho testemunhas de várias pessoas no teatro que dizem que o Leonardo é uma grande revelação como diretor e um grande autor, e o Quico é um ótimo ator e a menina Martinha é uma atriz excelente, a que está fazendo um papel lá, e o Edson, um outro garoto, é de um talento raro. Bom, vai um lá que eu até acho que estava de má vontade, e escreve dizendo que os rapazes não tem cultura, que acabou, essas coisas, aquilo que ninguém ligou, que eles tem o negócio lá da Patrícia Galvão para gozar o pai toda hora, então também isso é para eles… Só que, de repente, eles vão votar e só tem um crítico que viu. O das folhas, o… Ele assistiu, mas assistiu depois da votação. Aí, conversou com o Leonardo, que ele gostou da direção do Leonardo, gostou de tudo, aí o Leonardo falou assim: “É, mas vocês votaram sem ver”. “Não, mas a gente não pode ver tudo. Então, qual é o critério que a crítica usa para ver um e não ver outro?” Então, é isso que eu acho que é indignidade. Veja bem, o crítico existe e pode e deve ajudar o artista. Evidentemente que todos nós somos meio mediúnicos, meio instintivos como artistas e, de repente, o crítico inteligente, ele te ajuda a conscientizar. Mas os que estão aí, eles estão querendo determinar o que você deve fazer ou não. E não é determinar o que você quer fazer. “O Cacá tem que fazer esse tipo de…” Não, eu digo assim: o Cacá faz, eu digo se ele atingiu o objetivo ou não. E explico o porquê.

Cacá Rosset: Plínio, você fica magoado quando você tem uma crítica desfavorável a algum espetáculo seu?

Plínio Marcos: Não, todo mundo prefere ser elogiado. Mas eu não ligo não. Nós defendemos o direito das pessoas de dizerem o que quiserem. Agora, na verdade verdadeira, crítica de teatro, atualmente, quem lê são os colegas para te falar assim: “Já viu aquela crítica que saiu em tal jornal? Te arrasa, hein” [risos]. Aí você saca um outro papel do bolso e fala assim: “Mas eu tenho uma boa!” [risos]. Aí! “Essa eu não vi”. É isso aí, porque se você tivesse, por exemplo, eu me lembro do Davessa, o Davessa era gozado. Então teve uma peça que era um terror, mas foi dirigida por um diretor do canal 4. E a peça era um terror e só ele elogiou, o resto caiu de cacete. Aí eu falei “O Davessa, você elogiou essa peça e todo mundo pichou?” Ele falou assim: “Eu quero trabalhar no Canal 4, não quero ser crítico! Crítico ganha pouco”. [risos]

Antônio Carlos Ferreira: Plínio, você falou no começo da nossa entrevista que você está escrevendo alguma coisa sobre Chico Viola. Eu tenho a lembrança da morte do Chico Viola. É uma das imagens da minha infância é a morte dele.

Plínio Marcos: É mesmo? Pô, eu ia dizer que você não era nascido. O Kaloy eu falei agora que… o Kaloy não era nascido.

Antônio Carlos Ferreira: Não, meu pai era fotógrafo em Santos e eu me lembro que, no dia em que o Chico Viola morreu ele tinha lá uma foto do Chico Viola. Ele tirou um monte de cópias e nós ficamos com fotografias secando na casa inteira, porque ele queria, no dia seguinte, vender e malhar a fotografia do Chico Viola. Então, aquilo foi uma coisa, aquela morte e tudo. O que você pode adiantar para a gente? Do que, do seu trabalho que você está fazendo agora?

Plínio Marcos: Ah, bom, como eu escrevi o Noel Rosa, aliás, isso aí era uma coisa que eu gostaria de fazer em televisão. Vida do, por exemplo, a do Noel Rosa, que já está escrita, a do Chico Viola, que eu estou escrevendo, a do Heleno de Freitas, porque, por essa vida dessa gente toda aí desse ano, por exemplo, você pega o que era imprensa brasileira, essas coisas todas, você vai ver do quê que a gente é conseqüência. Naquele tempo, você pegava e endeusava o herói cafajeste, né? Ninguém podia ser mais cafajeste do que o Chico Viola.

Antônio Carlos Ferreira: Tinha que morrer em um carro conversível, em uma estrada… num Buick.

Plínio Marcos: Em um Buick. Aquele Buick, que era o carro da época. Aquele Buick, que era o carro que mais corria na época, essas coisas.

Sérgio Lhamas: O Heleno de Freitas também se achava um herói cafajeste?

Plínio Marcos: Também. Ele era terrivelmente cafajeste, porque ele era doente, né? Então era aquele cara louco. Era extremamente. Ele pegava bandeirinha e saía correndo atrás do (…) com a bandeira de impedimento.

[todos falam juntos]

Sérgio Lhamas: Gilda Barroso…

Plínio Marcos: Gilda, a Gilda. Gilda, porque ele era lindo. Era lindo. Tão lindo que morreu com sífilis.

Cacá Rosset: E o Marronzinho?

Plínio Marcos: O Marronzinho é o Macunaíma, já está escrito. [risos]

[ ]: E hoje, quem é o herói cafajeste?

Plínio Marcos: Cacá, por exemplo, está aí [risos]. Fazendo essas perguntas sobre o Marronzinho e essas coisas agressivas. Querendo me indispor com aquela imprensa.

Sérgio Lhamas: O Nelson Rodrigues achava, brincando ou não, talvez brincando, que a vaia era glória total. Você acha também a vaia a apoteose do espetáculo?

Plínio Marcos: Não. Não é verdade. O Nelson Rodrigues falava isso é de charme. Ninguém tinha mais charme que o Nelson Rodrigues. O Nelson Rodrigues é uma criatura deliciosa. Isto é um termo dele, ele via as pessoas, via a Tonica, fazia assim: “doce criatura”, aquelas coisas dele. Mas ele era todo cheio de charme. Ele tinha todo um vocabulário, ele era o rei da frase. O Otto Lara Resende [1922-1992, escritor e jornalista] vai entrar para a história como o “rei da frase”, e a maioria das frases foi o Nelson Rodrigues que fez para ele. Que inventava essas coisas todas, e botava nos amigos nomes de peça. E eram coisas maravilhosas. Porque, veja bem, nós estamos perdendo um pouco, sei lá, pela vida moderna que está cada vez mais agitada, nós estamos perdendo um pouco aquela poesia que havia nas relações. Eu ainda cheguei a trabalhar com o Samuel Wainer [1912-1980, jornalista, dono de jornal e escritor]. Uma maravilha, uma pessoa cheia de poesia. O Nelson Rodrigues é uma pessoa encantadora. Ele começava a escrever aquela vida dele A vida como ela é e aí saía para tomar café, os caras continuavam escrevendo para ele, ele voltava, continuava de onde o cara parava… Nem ligava. É um negócio incrivelmente belo.[risos]

Sérgio Lhamas: Até ligava, dizia assim: “como eu ia dizendo…” [risos].

Paula Dip: Plínio, você falou da vida do Chico Viola. E a vida do Plínio Marcos? Você tem vontade de escrever? Você pensa em uma auto biografia? Você anota coisas? Como é que é a história da tua vida?

Plínio Marcos: É que, você veja, a vida, na verdade, nós vamos ficando muito… O dia-a-dia da nossa vida leva a gente a ter muita mágoa. Então, você dá um testemunho enquanto você está vivendo, você daria testemunhos que não são honestos. Que são pessoas às vezes boas que se indispuseram com você e aí você vai escrever uma biografia, vai pegar, dar uma paulada no cara, coisa que você não faria depois de cinqüenta anos. Então eu prefiro não escrever nada, nem contar as coisas. Vou deixando. Conto em botequim. Aí sim, botequim vale tudo. Botou um nome em cima da mesa, a gente arruma defeito [risos].

Antônio Carlos Ferreira: Agora, Plínio, você falou em Samuel Wainer e acabou de sair a biografia dele, e, no final do livro tem uma coisa que me lembrou também… Jornalista gosta de fazer comparações e eu vou fazer mais uma com você, porque o Samuel também foi um homem poderosíssimo neste país e chegou ali no finalzinho do livro e disse que as coisas que restavam para ele eram os filhos dele. E era aquilo que ele gostava. Eu vejo que você nessa entrevista ao longo de toda essa noite aqui você retoma sempre aos seus filhos. Eles adquirem com o tempo uma força maior até quase que a tua obra.

Plínio Marcos: Você veja que eu me refiro ao pessoal de teatro e ao pessoal da boemia também com muito carinho, com o que me diferenciava do Samuel, porque o Samuel era um homem muito magoado, embora não parecesse. Eu me lembro até de uma passagem: uma tarde nós ficamos na redação da Última Hora, ele já era empregado, que eu só trabalhei com ele nesta fase, aí chegou um bando daquelas perigosas criaturas que vem com gravador e uniforme de colégio… A professora não tem o que fazer com eles, manda entrevistar alguém que eles não gostam. Aí mandaram entrevistar o Samuel, e o Samuel, eu sei lá se ele estava carente naquele dia, ele chamou parte da redação para ir ali falar para as menininhas, todas encantadoras, e ele foi falando: falou de Getúlio Vargas, falou uma porção de passagem, e, no fim da tarde, o sol já ia se pondo. Então estava aquela coisa melancólica, aquele homem falando, aquelas menininhas tristes, aí ele vira para a menininha e fala assim: “Tenho certeza…” quando o gravador fez “tec”, que acabou a fita, a última fita das meninas, “Tenho certeza que quando vocês vieram me entrevistar, vocês não tinham… não sabiam que eu não era nada disso aqui”. Aí a menininha mais bonita e mais inteligente de todas, virou e falou assim: Para ser franca, Sr. Samuel, a única coisa que a gente sabia do senhor, é que o senhor tinha sido marido da Danuza Leão [risos]. E aí eu tive que ficar bebendo com ele até às quatro [risos]. O cara faz a história, e não sei o quê… e aí você entra para a história como marido da Danuza Leão! … Seu cafetão!…

Luiz Fernando Ramos: Você está traduzido em quantas línguas?

Plínio Marcos: Eu fui traduzido, em primeiro lugar, para Portugal [risos].

Antônio Carlos Ferreira: Os palavrões devem ser diferentes.

Plínio Marcos: É diferente porque lá tem palavrão que não é palavrão. Não sei, eu vejo às vezes campeonato de Portugal na padaria ali onde eu tomo café, o português põe a televisão lá para ver o jogo, eu falo assim: “Lá tem 350 jogadores brasileiros, como será que o pessoal xinga lá, né? Deve ser gozado, né? Mas aí eu fui traduzido para a Alemanha, agora recentemente saiu Dois perdidos… lá, fui convidado para fazer uma palestra lá na Áustria [risos]. Mal falo português, eles não vão entender coisa nenhuma. Com aquele frio lá falando. De repente eu aprendo a língua deles e esqueço a nossa [risos].

Antônio Carlos Ferreira: Você nunca saiu do país?

Antonia Chagas: Isso eu achava engraçado você… Engraçado não é bem o termo, mas eu gostaria que você lembrasse uma coisa: Você já ganhou alguns Molières, eles sempre dão passagens para quem ganha ir para a França. E o que você fez? Quem é que foi com aquelas passagens para a França e quando?

Plínio Marcos: Nas duas primeiras, nós vendemos e demos para um grupo da faculdade de filosofia, que tinham que levar algumas pessoas na bagagem que não podiam ficar aqui. E as outras duas, que coincidiu que a Valderez também ganhava, eu vendi a minha passagem e dava o dinheiro e ela ia para a França, porque ela tem que ver, tem que se informar, é uma atriz maravilhosa. E a Valderez tem um detalhe, né, Tonica? Isso que eu não sei nem se falei ou se não falei, mas o nosso relacionamento, da Valderez com os nossos filhos é bom porque é de tribo. Nós somos uma tribo. Como eu sou com você, com outras pessoas. Eu me lembro até de um bilhete que a Aninha, minha filha mandou para a Bibi Ferreira, que dizia assim: “Bibi, você não me conhece, mas nós estamos na mesma barca”. Que é, que nós somos tudo da mesma barca, da mesma tribo. A Valderez, sem dúvida nenhuma foi a atriz mais massacrada do teatro brasileiro, compreende? Ela foi várias vezes proibida na estréia, ensaiavam, ensaiavam, ensaiavam, quando ia estrear, a censura vinha e proibia. Proibia a peça do Plínio Marcos, mas ela como atriz, ficava na angústia. Ela foi invadida no palco dela, quando a gente fazia quando as máquinas param lá no sindicato dos tecelões, ela foi invadida e entrou um cara com metralhadora, ela falou assim: “aqui no palco, quando eu estou, não! Você desça!” E o cara: “não…” e ela disse: “Desça!”. Aí eu desse dia eu quase bati nela, porque naquela confusão toda, mandaram me chamar. O cara me bateu com aquela porra na cabeça “Mas em você eu atiro. Mas nunca mais me chame para resolver uma parada enjoada dessa”. Então, uma atriz valorosa que batalha e que foi feito aos poucos e, hoje, sem dúvida nenhuma, ela é uma atriz generosa e foi muito perseguida no tempo em que ela era minha mulher. Eu me lembro que, por exemplo, lá no canal 4, eu dava pau no canal 4 que não pagava ninguém não sei o quê e o cacete, eles se vingavam não botando a Valderez para trabalhar.

Antônio Carlos Ferreira: Agora, Plínio, você disse assim: “eu dei a passagem para a minha ex-mulher, para ela se informar, para ir para o exterior”. E por que você não?

Plínio Marcos: Porque eu não tenho mais jeito. A única coisa que eu posso fazer para melhorar meu aspecto é lavar o pé. Eu não tenho mais jeito, eu não tenho vontade de ir. Eu não gosto mesmo. Eu gosto de, por exemplo, eu gosto de ir para Santos, Paraná, a turma do Chope in bola, e ver os veteranos da Portuguesa jogar, e ver os veteranos da Jabaquara jogar, gosto de sentar em botequim e ficar conversando com a rapaziada de teatro e com a boemia, e paro lá no Gigeto, lá no Bar da Praia em Santos, paro no Fiolim, paro no Orvieto. Então eu gosto de papo furado. É isto que eu gosto. Agora, outras pessoas podem gostar. Tem gente que gosta de viajar. A Valderez, por acaso, gosta de viajar.

Marcos Kaloy: Falando em papo furado, a Hebe [Camargo, apresentadora de TV] veio uma vez aqui no programa e falou que você tinha quebrado um galho para ela, que galho que é esse?

Plínio Marcos: Não, ela não falou que eu quebrei um galho para ela. Você ouviu… Ela disse que quando ela me levou no programa dela na Bandeirantes, ela levou para me ajudar, que a barra estava muito difícil e depois ela foi chamada na polícia federal. A história não é bem assim, a ajuda provavelmente foi mútua. Eu fui lá porque as pessoas não queriam muito ir porque ela tinha ajudado o Maluf, aquela história, e eu achava que ela, numa democracia deve ser isso: ela ajuda quem ela quiser. E fui, e fui eu, a Terezinha Sodré, foram outras pessoas, foi até muito bom participar do programa dela, eu disse o que era, depois me informaram mesmo que ela tinha sido levada no ralo da polícia federal, aquelas coisas todas. Agora, a verdade verdadeira é que depois, nunca mais ela deixou entrar no programa dela. Mesmo na Bandeirantes, quando a gente foi divulgar a Madame Blavaski, ela não deixou eu ir. E esses anos todos em que ela está lá no canal do Sílvio Santos, nunca me convidou. São essas coisas, e a história, de repente, é mal contada. As pessoas contam um lado, mas tem o outro lado. Então, eu tenho muita simpatia pela Hebe Camargo, acho uma grande comunicadora, mas ela não me ajudou tanto assim não, não corre risco por ninguém não.

Antônio Carlos Ferreira: Agora, Plínio, você teve falando, você falou agora onde você vai, onde gosta de ir e bater papo e tudo… Você tem algum interesse maior assim, voltar a fazer algumas coisas que você fez antes por necessidade até, de voltar um pouco para a marginalidade, ver como ela está hoje? O que tem a marginalidade hoje em relação à marginalidade de 1960 e 50?

Plínio Marcos: A rua onde eu moro é a própria, né? Eu moro na Teodoro (…). Ali fica toda a fina flor.

Luiz Fernando Ramos: Mas assim, quer dizer, tinha uma marginalidade romântica e que não tem mais, ou…

Plínio Marcos: Isso aí é história, isso aí é conversa. Isso é sempre conversa. É a mesma. Marginal é aquela coisa, as pessoas falam: “poder corrompe”, mas a miséria corrompe absolutamente. Então, por exemplo, no lodo não vai nascer nenhum lírio, não é?

[ ]: A noite é eterna?

Plínio Marcos: Ou uma criança se você gosta das frases novas [risos].

Paula Dip: Plínio, você disse agora há pouco que você é diabético, que você teve um infarto e é diabético. Você cuida da sua saúde? Você se cuida? Você é uma pessoa que se cuida?

Plínio Marcos: Eu não espalho porque doce atrai as abelhas, mas eu me cuido, claro. Natural, eu adoro viver.

Paula Dip: Você não é mais boêmio? Vive mais…

Plínio Marcos: Boêmio eu sou, mas eu sou um boêmio que bebe água.

Paula Dip: Jura?

Luís Serra: [No fundo] Como eu…

Plínio Marcos: Que quê há Serra?! Já está bebendo água aí e falando mole. [risos] Mete a garrafa no bolso… Trouxe a garrafinha no bolso. Mas é isso aí, é claro que eu me cuido, eu adoro a vida, sou daquelas pessoas que, todos os dias, eu: “Graças a Deus, estou vivo! Apesar de tudo que está aí, estou vivo”.

Luís Serra: Plínio, aquela pergunta que eu te fiz antes é no sentido seguinte: eu queria esclarecer a… Nós tínhamos um assunto preferencial naquela época, ou seja, nós vivíamos numa efervescência política muito grande. Então, o nosso assunto era de crítica política, de crítica social muito grande. Os atores de hoje, os novos atores não têm, ou pelo menos não tinham até agora, essa efervescência. Então, eu não sei. Talvez o fato de a gente ter vivido, passado por aquele período terrível nosso e não ter o mesmo período agora têm esvaziado, digamos assim, uma motivação política para se fazer determinado tipo de teatro. E, à falta disso, aqueles todos nós que fizemos teatro engajado naquela época e tal, como não existe essa veia agora, pelo menos até esse momento. Está voltando, mas até agora não houve, de vinte e poucos anos para cá, muitos de nós fomos fazer outro tipo de teatro, que não é exatamente aquele que nós fazíamos, e, com isso, somos combatidos. É nesse sentido que eu queria sua opinião a respeito desse tipo de teatro diferente… Entendeu?…

Plínio Marcos: A molecada tem razão. A molecada tem razão. Veja bem, naquele tempo, todos eram comunistas. Era ruim. Era muito ruim. Era uma gaiola, a ideologia é uma gaiola, rapaz. O grande artista não pode ter ideologia, porque senão fica numa gaiola. De repente você, por exemplo, nós tínhamos no Brasil só um teatro social. Você não tinha, de repente, digamos, um teatro existencial. Aí você fica com uma ditadura do outro lado: Só ficava um tipo de teatro para assistir. E o bom é quando você tem tudo, pôxa.

Luís Serra: Já havia o chamado TBC [Teatro Brasileiro de Comédia], que era combativo, havia o…

Plínio Marcos: Havia o combate. Tinha duas coisas: a esquerda e o TBC. E que ficavam se xingando o tempo todo e que não tinham muita coisa. Eram ideologias, era um choque de duas ideologias. Poderíamos dizer, de um lado, a esquerda, e de outro lado a direita.

Luís Serra: E como você vê isso hoje?

Plínio Marcos: Hoje é melhor. A molecada é mais livre. E, por exemplo, tinha uma coisa que era boa naquele tempo e está voltando, é que naquele tempo o se discutia muito não era política. Porque a política ninguém discutia. Todo mundo era comunista! Todo esse país. Eu me lembro até quando o Jean Genet [1910-1986, escritor francês, tido como maldito, com persagens delinquentes e marginais] veio à São Paulo, ele falou assim: “Me conta uma coisa. Por que todo mundo nesse país, todos são comunistas e só o governo que é de direita?”. Agora, só para concluir aqui, o seguinte, naquele tempo tinha uma coisa que era fundamental: todos discutiam muito interpretação de ator. Você veja, por exemplo, o Arena e o Oficina disputavam o Eugênio Kusnet [criador de método teatral] para dar aula para os seus atores. O curso do Eugênio Kusnet era freqüentado pela Isabel Risbeiro, por Abraão, por você, por Odine, por Valderez, por Fauzi Arap, por todo mundo que está aí.

Antônio Carlos Ferreira: Plínio, o Serra deu um novo caminho de discussão, mas nós estamos encerrando o nosso programa. Nós estamos chegando ao fim dessas nossas duas horas de debate. E eu gostaria de encerrar com você, rapidinho, você falar se você tem esperança. Você falou tão mal do país esse tempo todo aqui…

Luiz Fernando Ramos: Ou melhor, qual é a saída?

Plínio Marcos: Meu único desejo, se você quer saber, o meu único desejo é ser mão do homem. Seja ele negro, malabarista ou esteja repousando ainda das profundezas da guarda materna, ou vibre no pátio um canto de menina, ou seja, ele com toda a jangada no fogo do crepúsculo, ou seja, o soldado, ou aviador de estranha energia. Oi menina, você ainda outro dia não brincava de boneca? E aquele Serra que está ao seu lado, não empinava uma pipa? Olha, seu canto, seu destino, você não me queira mal, porque eu procuro me esforçar para conhecer todos os destinos. Eu quero conhecer o desespero de um ator quando ele treme diante do público, porque esquece o texto. Eu quero conhecer a solidão daquela garotinha que é obrigada a migrar e ficar no seio da família estranha como empregada doméstica. Eu quero conhecer o desespero daquele garoto que é obrigado a sufocar os apelos vocacionais e se debruçar sobre livros de contabilidade e atender fregueses rabugentos. Eu fui tantas e tantas vezes o cantor dessas canções do Silvio Santos, o carregador amargo da amargura, o sonhador dos sonhos inúteis, o perdedor de salário miserável, mas agora, eu quero cantar o destino do ser humano, e, se de alguma maneira, eu arranhei seu coração nessa noite, não me queira mal. Arrebente em soluço e chora comigo por quê? Porque eu tenho esperança, porque eu tenho fé, porque eu sou uma pessoa de teatro e, por causa disso, eu confio, confio muito, porque eu pus filhos no mundo e amo tanto quanto você, criança de hoje. Por causa disso tudo, eu só tenho um desejo: o desejo de pertencer a você, assim como eu gostaria de pertencer a toda a humanidade.

Antônio Carlos Ferreira: Muito obrigado, Plínio Marcos, muito obrigado a todos que participaram deste debate desta noite, obrigado ao pessoal da escola de teatro Macunaíma, que participou aqui nos nossos estúdios, e o programa Roda Viva termina neste instante, mas volta na próxima segunda feira. Boa noite!

Portal Roda Viva
http://rodaviva.fapesp.br/?

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Verba pública, fortuna privada

Na França, como em alguns outros países do mundo, o clientelismo de Estado baseia-se numa fórmula já clássica: privatizar os lucros e nacionalizar as perdas. O caso do banco Crédit Lyonnais é emblemático: o governo acobertou o bilionário fraudador

Olivier Toscer

O dia 15 de outubro de 2003 será uma data particularmente sombria na história das finanças públicas da França. Nesse dia, o governo de Jean-Pierre Raffarin rompeu o acordo que firmara um mês e meio antes com a justiça norte-americana com o objetivo de encerrar o caso da empresa Executive Life. Com uma multa de 440 milhões de euros (1,5 bilhão de reais), o poder público podia ter posto fim à ação da justiça norte-americana referente à compra fraudulenta, pelo Crédit Lyonnais, então estatal, de uma companhia de seguros californiana1. Mas François Pinault, bilionário e amigo íntimo do presidente da República, e Jean Peyrelevade, ex-diretor-adjunto do gabinete do primeiro-ministro Pierre Mauroy entre 1981 e 1983 – e depois, diretor-presidente do banco hoje privatizado –, ambos pessoalmente envolvidos neste caso, teriam ficado na mira do tribunal de Los Angeles.

Os dois magnatas, e principais envolvidos no escândalo do Crédit Lyonnais, são amigos pessoais do presidente da República e de um ex-primeiro-ministro
O lobby de Pinault no Ministério das Finanças parece ter funcionado2. O Estado preferiu buscar um novo acordo que proteja, desta vez, todos os atores franceses envolvidos, sejam eles públicos ou privados. O custo para as finanças públicas deste acordo judicial corre os risco de ficar consideravelmente mais alto.

Desta maneira, por um lado o Estado aceita pagar por um banco hoje privatizado, embora convencido de que este tenha infringido uma lei estrangeira; por outro, assume as multas impostas à Artémis, holding pessoal de François Pinault, uma das maiores grandes fortunas da França, e a Jean Peyrelevade, um banqueiro privado3.

Falência é um conto de fadas
O tratamento dado ao caso da Executive Life é uma das mais recentes manifestações do clientelismo de Estado, um método muito antigo que consiste em privatizar os lucros e nacionalizar as perdas. Oriundo da promiscuidade entre a tecnocracia de Estado e as elites privadas, protegido pelo pouco conhecimento da coisa pública pelos cidadãos (uma vez que os meios de comunicação, protagonistas e beneficiários deste tipo de acordo, pouco falam sobre o tema…), o clientelismo de Estado guia as políticas econômicas adotadas por todos os poderes, de direita ou de esquerda há pouco mais de vinte anos.

O caso Executive Life é um dos últimos capítulos da novela do Crédit Lyonnais, um golpe baseado no desperdício, na irresponsabilidade e na malandragem, muitas vezes apresentado pela imprensa como “o escândalo bancário do século”. Pois, para os cofres públicos, o desastre do banco – ainda público, no início da década de 90 – traduz-se por uma fatura de uma quinzena de bilhões de euros (52,5 bilhões de reais), o total de todas as verbas públicas envolvidas na recuperação do banco. Esta versão do caso foi sempre muito badalada pela mídia: ilustrando os malefícios da economia mista e a incapacidade dos fiscais, ela satisfaz todo o mundo.

Todavia, ao contrário de que uma abundante literatura possa sugerir, o caso do Crédit Lyonnais está longe de se resumir a um pesadelo para o orçamento do Estado e dos contribuintes. Para um punhado de industriais que construíram sua fortuna graça aos generosos empréstimos do banco público, a falência do estabelecimento será, ao contrário, como um conto de fadas. Este lado do escândalo que, em grande parte, ficou na sombra até agora, aparece, entretanto, como emblemático do funcionamento do capitalismo francês4.

O “escândalo bancário do século”
O clientelismo de Estado guia as políticas econômicas adotadas por todos os poderes, de direita ou de esquerda há pouco mais de vinte anos
No tempo de seu esplendor, o Crédit Lyonnais público funcionou, efetivamente, como uma fábrica industrial de novos bilionários. François Pinault, Bernard Arnault, Vincent Bolloré, Jean-Charles Naouri e vários outros membros do Top 25 das grandes fortunas francesas ficaram devendo à generosidade do banco a possibilidade de desenvolver suas atividades econômicas. Sob o pretexto de dinamizar a economia francesa, os dirigentes do banco pareciam sempre dispostos a conceder generosos empréstimos a um punhado de barões da indústria. Também não deixavam de investir diretamente naqueles negócios, participando do capital5. Uma boa oportunidade para os aventureiros das finanças: um empréstimo se paga, uma capitalização, não…

Na época das dificuldades do banco, em 1993, quando os poderes públicos, desesperados, procuravam injetar dinheiro novo para reerguer o estabelecimento, bastou a estes mesmos bilionários recomprar, a preço de banana, as participações do banco em seus negócios, ganhando na ocasião apetitosas mais-valias que lhes permitiram aumentar ainda mais suas fortunas. Falência pública, riqueza privada: eis aqui o outro lado do “escândalo bancário do século”.

Um empresário como Jean-Charles Naouri (leia, nesta edição, o artigo “À esquerda… mas com os patrões”), atual dono das empresas Casino, Rallye et Go Sport, pôde comprar, em 1997, as ações que o Crédit Lyonnais detinha em suas holdings pessoais por 67 milhões de euros a menos (235 milhões de reais) do que seu valor no mercado. Para cada um dos dezessete milhões de contribuintes franceses que pagam Imposto de Renda, o prejuízo foi de 3,94 euros (cerca de 14 reais). As autoridades públicas permitiram a François Pinault – aconselhado por Alain Minc, desejoso de explorar pessoalmente o potencial da Globalização feliz6 – fazer o mesmo tipo de operação. No seu caso, os peritos avaliam que a menos-valia para os cofres públicos chegou a 300 milhões de euros (1,05 bilhão de reais), ou seja, 17,64 euros (cerca de 62 reais) por contribuinte.

O clientelismo como política oficial
O total das verbas públicas envolvidas na recuperação do banco traduz-se por uma fatura de uma quinzena de bilhões de euros (52,5 bilhões de reais)
A reciclagem de verbas públicas em capitais privados significa, de uma maneira geral, o golpe que serve de base à constituição rápida de grandes fortunas na França. É também uma maneira de salvá-las. O próprio “patrão dos patrões” sabe disso. Será que Ernest-Antoine Seillière teria condições de liderar hoje a ofensiva do Medef (sindicato patronal) se, em 1978, o governo de Raymond Barre não tivesse começado a nacionalizar as usinas siderúrgicas de sua família, então em grande dificuldade, salvando desta maneira o grupo Wendel da falência? Na realidade, os 22 bilhões de francos de dívidas que o grupo Sacilor (herdeiro dos donos das Forjas Wendel) tinha naquela época, foram assumidos pelo Estado. Quando a família Wendel anunciou seu desejo de suspender essa atividade, o governo Barre aceitou tomar seu lugar. Quatro anos depois, o governo Mauroy nacionalizou completamente a siderúrgica dos Wendel no contexto de um plano do aço muito oneroso. Desde então, a generosidade do Estado para com as grandes potências econômicas não foi desmentida. Sob pretexto de realismo administrativo e de seu corolário (o respeito pelo dogma da eficiência econômica do setor privado, por oposição à obrigatória inépcia dos atores públicos), bilhões de euros saem a cada ano dos cofres do Estado para rechear os patrimônios privados – sempre os mesmos, aliás.

Transformado em política governamental, este clientelismo permitiu à família Dassault, por exemplo, atualmente acionista do jornal Le Figaro e do semanário L’Express, vender ao exército francês seu avião caça “Rafale” por um valor 30% superior ao de orçamento votado pela Assembléia Nacional7. Ou ainda, ao industrial Vincent Bolloré, comprar no ano passado a Sociedade Francesa de Produção (SFP) por apenas 4,5 milhões de euros (15,75 milhões de reais). Isto, conseguindo ainda que o Estado assumisse o custo do plano social iniciado pela empresa, um encargo financeiro dez vezes superior. Estas transferências de riquezas públicas-privadas apelam para o pretexto da eficiência econômica para explicar a má gestão das empresas privadas devido às limitações que o Estado faria pesar sobre elas…

A “aposentadoria americana” da Vivendi
Para um punhado de industriais que construíram sua fortuna graça aos generosos empréstimos do banco público, a falência será como um conto de fadas
Nesse aspecto, o sistema fiscal francês (tal como funciona de fato, e não como a legislação o prevê) carrega a marca deste clientelismo de Estado. Na França, para não pagar (ou quase não pagar), basta, na verdade, ser muito rico. Segundo o Conselho dos Impostos, um órgão indiscutivelmente oficial, o produto de uma fortuna de 15 milhões de euros (52,5 milhões de reais) pode escapar a qualquer taxação, desde que investido meticulosamente8.

As grandes empresas também gozam de generosidades fiscais cotidianas. O grupo Vivendi, então dirigido por Jean-Marie Messier, beneficiou-se de mais de oito bilhões de euros (28 bilhões de reais) de isenção de impostos sobre as mais-valias por ocasião da aquisição do grupo Universal9. É óbvio que a legislação oferece ao ministro das Finanças – na época, Laurent Fabius – o poder discricionário de conceder isenções deste tipo. Mas como justificar tamanha generosidade fiscal concedida a um grupo francês, quando este está transferindo suas atividades para os Estados Unidos? O ministro realmente exigiu, em contra-partida, o compromisso de que Jean-Marie Messier conservaria a sede do grupo na França. Por… três anos.

Os defensores da livre iniciativa argumentaram que estas isenções fiscais eram do interesse geral, permitindo à Vivendi Universal se desenvolver e criar empregos. Sabe-se o que aconteceu com este tipo de raciocínio: dois anos após sua criação, o novo conglomerado franco-americano, asfixiado por dívidas, teve que se separar de seu brilhante patrão e, principalmente, de setores completos de suas atividades, para evitar a falência pura e simples. Esta “aposentadoria americana” já provocou uma longa lista de demissões de pessoal10.

A “punição exemplar” do corrupto
O empresário Jean-Charles Naouri comprou, em 1997, ações do Crédit Lyonnais por 67 milhões de euros a menos (235 milhões de reais) do que o valor no mercado
A França também é um país em que um de seus empresários mais ricos, no caso François Pinault, pôde escapar – utilizando uma brecha da legislação – de pagar Imposto de Renda até 1997. Conseguiu esconder do fisco, durante cerca de vinte anos, um quarto de sua fortuna, mantida através de empresas-fantasmas localizadas num paraíso fiscal das Antilhas holandesas11. Resumindo, o espectro do Estado espoliador e voraz, tão freqüentemente denunciado pela literatura econômica dominante, em geral não passa de um mito. Basta dizer que o próprio Francis Mer, atual ministro das Finanças e ex-dono da Usinor (atualmente, Arcelor), alguns meses antes de entrar no governo, registrou sua empresa, com o nome de Arcelor, com domicílio em Luxemburgo, por ocasião de uma fusão com dois outros grupos industriais…

O clientelismo de Estado também permite deslocar os contornos da fraude pura e simples para o conceito mais respeitável da simples operação de “otimização fiscal”. É até uma das grandes forças do sistema: a capacidade de mascarar alguns de seus piores escândalos devastadores, concedendo uma ampla impunidade a seus atores. O exemplo do Crédit Lyonnais ilustra o funcionamento deste sistema de proteção. Em setembro de 1993, diante da amplitude dos prejuízos do banco público, o fiscal da receita Jean-Yves Haberer, diretor-presidente do estabelecimento desde 1988, foi demitido pelo governo de Edouard Balladur. Mas foi imediatamente guindado para a presidência do Crédit National, outro banco estatal. Já se viram punições mais severas…

Juízes aposentados, os novos assessores
A reciclagem de verbas públicas em capitais privados significa, em geral, o golpe que serve de base à constituição rápida de grandes fortunas na França
No ano seguinte, a Assembléia Nacional – onde a direita era então onipotente – constituiu uma comissão de inquérito sobre o Crédit Lyonnais. Suas conclusões foram implacáveis para o sistema de economia mista. Porém, omitem o estudo das muito instrutivas relações, em sentido único, do banco com seus grandes clientes. No início daquele ano, até o processo, que deveria estabelecer as responsabilidades penais do escândalo, evitou cuidadosamente essa delicada questão. Ao ignorar os verdadeiros beneficiários do sistema e ao isentar os dirigentes do Tesouro e do Banco Central, a justiça contentou-se em bombardear os ex-diretores do banco, então afastados dos negócios e utilizados como descartáveis12. Jean-Claude Trichet, diretor do Tesouro e depois presidente do Banco Central, foi absolvido naquela época. Foi recentemente promovido para presidir o Banco Central europeu.

A justiça também não escapa à influência do clientelismo de Estado. Nos últimos anos, os grandes grupos econômicos orquestraram uma onda de contratações de magistrados. Encontram-se, por exemplo, juízes aposentados do Tribunal de Contas de Paris nas empresas de Lagardère, de Arnault, na Vivendi e na Thalès (ex-Thomson). Os grupos Dassault e Bolloré, por sua vez, preferem ex-juízes de instrução especializados em assuntos financeiros. Jean-Marie Messier, ex-chefe de gabinete de Balladur e grande conhecedor do funcionamento da máquina do Estado fez, de seu lado, um uso quase industrial da reciclagem privada de magistrados. Chamou três para seu estado-maior: Alain Marsaud, ex-juiz anti-terrorista, Sylvie d’Arvisenet, ex-juíza substituta da seção financeira do Tribunal de Paris, e Francis Cazorla, ex-presidente da Suprema Corte. É verdade que, quando chegou à presidência da Vivendi, o dinâmico empresário anunciara sua intenção de colocar o grupo “em conformidade com a lei. Mais ainda do que com a lei. Com a moral13”.

Polícia investiga… com o caso encerrado
Segundo o Conselho dos Impostos, um órgão indiscutivelmente oficial, o produto de uma fortuna de 50 milhões de reais pode escapar a qualquer taxação
Oficialmente, todos estes magistrados seduzidos pelas sereias da mordomia do privado agem de forma preventiva. Trata-se de ajudar os “clientes da República” a não cometerem infrações por inadvertência… A explicação foi validada pelos mais altos magistrados da França, como Pierre Bézard. Presidente honorário da Câmara de Comércio do Tribunal, ele considera que “a magistratura deve (…) ajudar dirigentes que não falharam por fraude, mas falharam por não entender a lei e aplicá-la14”.

Os riscos de tráfico de influência decorrentes de uma privatização do corpo judiciário também existem. É claro que o Ministério da Justiça tem poder para se opor à passagem de um magistrado para uma empresa com que já tenha tido contato no contexto de uma questão judicial. Mas esta proteção pode parecer irrisória, como reconhece Laurent Mayer, ex-juiz substituto da seção financeira do Tribunal de Paris e hoje com um cargo no grupo Thalès: “Eu nunca me envolvi oficialmente com o caso das ‘fragatas’, em que meu empregador aparece. Mas poderia conhecê-lo de cor. Bastaria ter pedido ao colega responsável.”

No mundo dos negócios, as bases de apoio de controle parecem ruir uma após outra. A própria polícia que trata da questão é um exemplo típico. A Comissão de Operações da Bolsa de Valores (COB), que serve de “vigilante” para as transações, permitiu todos os grandes escândalos financeiros que poderia ter impedido de acontecerem. Como o colapso da Vivendi Universal, por exemplo. Ignorando os indícios de graves desvios na contabilidade, alguns dos quais, inclusive, noticiados pela imprensa, a COB resolveu abrir um inquérito apenas no dia seguinte ao da demissão de Messier.

Os cães de guarda do clientelismo
A justiça também não escapa à influência do clientelismo de Estado. Os grandes grupos econômicos orquestraram uma onda de contratações de magistrados
Os elos que a amarram ao mundo dos negócios talvez expliquem esse torpor. Pois, desde 1985, a elite das altas finanças virou uma espécie de milícia particular. Na realidade, a COB não é financiada pelo poder público, mas pelo mundo dos negócios, via uma contribuição paga pelas empresas cotadas na Bolsa. Este tipo de financiamento contribui para uma política de avestruz em relação às grandes potências financeiras. Aliás, o número de inquéritos tratando de supostas graves infrações no mercado de capitais – e, portanto, encaminhados pela COB à justiça – diminui a cada ano, enquanto o número de transações na Bolsa não pára de aumentar. Em 1997, a COB entregou 24 caso à justiça; quatro anos depois, encaminhou apenas 19.

A interpenetração entre interesse geral e assuntos privados é ainda mais eficaz por ser pouco divulgada junto ao público. A discrição dos meios de comunicação em relação a este tema é reveladora. Explica-se melhor quando se sabe que os principais beneficiários do sistema também são os donos da principal fatia da informação na França. O clientelismo de Estado é solidamente protegido por cães de guarda em papel jornal ou em ondas de rádio e televisão15.

O poder político teria também tudo a perder se a manifestação de seu enfraquecimento em favor das potências financeiras fosse debatida em praça pública. Também não hesita em organizar a opacidade das transferências de fundos públicos para fortunas privadas, conforme demonstra, por exemplo, o caso da bastante efêmera Comissão Nacional de Subvenções Públicas. Encarregada de verificar se as subvenções alocadas anualmente junto às empresas privadas pelo Estado ou pelas instituições públicas eram corretamente empregadas, esta estrutura intergovernamental foi criada em 2001 pelo governo de Lionel Jospin, sob pressão dos parlamentares de esquerda. Mas assim que a comissão começou seus trabalhos, foi subitamente suprimida por uma enigmática emenda votada na calada da noite pela nova maioria em dezembro de 2002. Não teve tempo de entregar um único relatório.

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1 - Em 1991, o Crédit Lyonnais adquiriu a Executive Life, embora a lei norte-americana Glass-Steagal proibisse, na época, um banco de possuir uma companhia de seguros. Esta restrição foi posteriormente abolida.
2 - Ler “France may spurn ‘blackmail deal’ on Executive life”, Financial Times, 15 de outubro de 2003 e, no mesmo jornal, a reportagem detalhada, publicada em 30 de outubro de 2003.
3 - No início de setembro de 2003, o tribunal de Los Angeles exigiu o pagamento de uma multa de 250 milhões de dólares para parar o processo contra o império Pinault neste caso.
4 - Ler, de Christian de Brie, “Au carnaval des prédateurs”, Le Monde diplomatique, março de 1995.
5 - Em 11 de maio de 1994, Jean-Yves Haberer, ex-dono do Crédit Lyonnais, depondo na comissão de inquérito, avaliou o montante investido exclusivamente pelo Crédit Lyonnais em 40% do total do dinheiro injetado por todos os bancos franceses no início da década de 90.
6 - Título do livro assinado por Alain Minc em 1997 (ed. Plon, Paris).
7 - Ler, sobre o assunto, o relatório de Jean-Michel Boucheron, em nome da comissão das finanças, sobre o projeto de lei referente ao ano 2000, anexo n°40, Paris, Assembléia Nacional.
8 - Conselho de Impostos, 11° relatório público, ed. La Documentation française, Paris, 1990.
9 - Ler, de Olivier Toscer, Argent public, fortunes privées, ed. Denoël, 2002.
10 - Citando apenas as medidas de supressão de pessoal mais recentes, um plano social envolveu 305 empregos no Canal Plus e outro envolveu 1.350 empregos na Universal Music France.
11 - Le Nouvel Observateur, 1º a 7 de novembro de 2001.
12 - Jean-Yves Haberer foi condenado em primeira instância, em junho de 2003, a dezoito meses de cadeia, com condicional, e a 50 mil euros de multa (175 mil reais). Ele recorreu.
13 - Ler, de Jean-Marie Messier, J6M.com, ed. Hachette Littératures, Paris, 2000.
14 - Minutas da conferência “Encontros empreendedores e justiça”, organizada pelo Insead em 30 de março de 2001 na sede do Insead, 6 rue de Mederic, 75017 Paris.

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

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As lacunas do nosso álbum de família

Catherine MacRae Hochmuth

De vez em quando cai sobre a minha cabeça um dos muitos livros de bebês que eu encaixo no canto mais alto do armário de nosso futuro filho. Dada a falta de espaço em nosso apartamento de pouco mais de 200m quadrados, eu provavelmente já deveria tê-los passado adiante.

Mas quando você está tentando, sem sucesso, ter um bebê, há quatro anos e meio, livros não são as únicas coisas das quais você tem dificuldades de se desfazer.

Entre os títulos estão “The Expectant Father” (”O candidato a pai”), “The Girlfrend’ Guide to Pregnancy” (”O guia das amigas para a gravidez”), “What to Expect When You’re Expecting”) (”O que esperar quando você está esperando”), “Secrets of the Baby Whisperer” (”Segredos de um encantador de bebês”), e o meu favorito, “The No-Cry Sleep Solution” (”A solução para um sono sem choro”). Só me pergunto se existem soluções “sem choro” para uma mulher crescida que de vez em quando não se controla na hora de dormir porque não tem ninguém para levar para o berço.

Algumas das minhas amigas colocam nas geladeiras as imagens de ultra-som de seus fetos chupando o dedo. É a primeira foto de seus bebês, a mesma enviadas por e-mail e todos, com chamadas animadas como: “É uma menina!”

Nós temos fotos de ultra-som também, de vários anos, mas sem mãozinhas ou o narizes perfeitamente copiados dos nossos. A imagem de ultra-som mais antiga apresenta duas promissoras bolinhas de gude, que pararam de crescer em sete semanas, o que foi três semanas antes que soubéssemos que alguma coisa estava errada. A mais recente é de um espaço vazio, negro, com a legenda: “Útero vazio”.

Eu queria saber como é que as pessoas iriam responder se eu enviasse a todos e-mails com a seguinte frase: “É um útero vazio!” Eu sei - nada adequado. Mas no mundo do fracasso na fertilização, você aprende que um pouco de humor negro pode ajudar a enfrentar um bocado de dores de cabeça. A foto da minha gravidez ectópica parece perfeita, exceto pelo fato de o embrião estar no lugar errado. Outra provável mensagem de e-mail: “Embrião no Lugar Errado!”

Essa gravidez foi em maio passado, depois do nosso segundo round em fertilização in-vitro. Meu marido havia faltado ao trabalho porque havia uma chance de ouvimos a batida do coração. Até havíamos combinado assistir “Ligeiramente Grávidos” depois, para comemorar.

Então, a enfermeira não viu nada. Eu achei que ela precisava ajustar um pouco a ampliação. Mas aí ela disse: “Pode ser ectópica.”

Eu disse: “Você está dizendo que não é nada ou que é ectópica?”

“Sim.” E nos deixou com uma caixa de lenços de papel. Tiraram um pouco do meu sangue para confirmar que havia uma gravidez em algum lugar. A assistente médica teve dificuldade para encontrar a minha veia e me deu uma picada e outra enquanto eu soluçava descontroladamente. Então eles gentilmente sugeriram que poderíamos sair por uma porta lateral. Honestamente, eu considerei aquilo uma gentileza, embora também tenha me ocorrido que provavelmente seria ruim para os negócios de um centro de fertilidade ter uma mulher aos soluços passando pela sala de espera.

Umas poucas semanas depois da cirurgia para remover a gravidez desenganada, eu e meu marido nos reunimos com o médico, para discutir nossa situação. Nem sabíamos que era possível uma gravidez ectópica porque os embriões foram transferidos diretamente para o útero. E que a possibilidade é extremamente reduzida: o médico disse que a chance era de menos de 1%, o que é menos que entre a população em geral.
“A pior sorte que vocês poderiam ter,” ele disse.

Nosso primeiro ano de tentativas, quando meu marido e eu tínhamos 30 e 31 anos, foi uma época de conjecturas: que nós poderíamos conceber como qualquer outra pessoa, que ter um filho era a coisa mais natural do mundo.

O ano seguinte trouxe exames, ansiedade e dúvidas. Depois vieram os tratamentos de fertilidade, seguidos por dois ciclos de fertilização in-vitro, e finalmente, três meses de acupuntura e ervas de um médico de Taiwan. E agora, quase cinco anos desde que começamos, não temos nada para mostrar em relação a nenhum deles.

À exceção de nossas fotos: imagens granuladas de todos os embriões que criamos em um laboratório. E eu não consigo encontrar coragem de jogá-los fora, tais artefatos de nosso experimento em ciência da fertilidade e nosso jogo com a sorte. Embora não passem de massas amorfas de células, não consigo deixar de pensar em quem elas poderiam ter-se transformado. Elas podem não ter ido muito longe na vida, mas são a única vida que nós criamos.

Como as fotos em nossas paredes ou álbuns, são parte da nossa história. Acontece que nós provavelmente estaríamos violando alguma norma social se as enquadrássemos e pendurássemos na parede. Não que queiramos fazer isso. Em vez disso, nós as dobramos em esconderijos, enfiamos em gavetas, embutimos nos cantos dos nossos armários e mentes, junto dos livros, roupas, mobília, expectativas e sonhos. De vez em quando tropeçamos com elas e lembramos: “Certo, existe isso.”

No armário com os livros há uma sacola da ‘Target’ com roupas de bebê e um babador “I love Daddy” (”Eu amo o papai”) que eu comprei em um acesso de esperança durante a primeira gravidez. Em nossos armários e na geladeira, nós também temos vitaminas para o período pré-natal, receitas de ácido fólico e medicamentos para a fertilização in-vitro. Em algum lugar do apartamento há uma relação da ONG Consumer Reports sobre o que se deve ter em mobiliário e engenhocas para bebês.

Quanto aos arranjos para creches, nós chegamos a elaborar vários planos, cada um deles com prós e contras. Nós havíamos tomado decisões quanto a fraldas de pano e planos flexíveis de poupança para a universidade. Excluímos a possibilidade de compra de produtos da loja Baby Einstein antes dos dois anos, ou deixar que a criança dormisse em nossa cama e permitir telefones celulares no segundo grau (nós admitimos que quando realmente tivéssemos um adolescente, os telefones poderiam ser implantados em seu cérebro). Nós até mesmo temos nomes, que não ocupam nenhum espaço a não ser nas nossas mentes. Tínhamos o primeiro e o segundo preferidos, seja para menino ou menina, e não desistimos deles em dois anos. No mês passado, durante um almoço, pedi à minha irmã, no início de uma gravidez, que não roubasse - ou melhor, não usasse nossos nomes. Mas eu me senti muito cerimoniosa quando anunciei a ela que precisava “discutir um assunto importante”, e ela sorriu aliviada quando percebeu que era apenas a respeito de nomes de bebês. “Pensei que você ia dizer que você e o Bill estão se divorciando ou algo parecido,” disse.

No final, acho que ela acreditou que eu estava sendo irracional a respeito dos nomes, um dos quais era sua escolha também, particularmente quanto ao meu pedido de que ela não usasse também os nomes que vinham em segundo lugar na nossa preferência. Mas como ela poderia saber o quanto esses nomes são valiosos para nós? Nós os temos carregado em nossos corações há anos, se não nos braços.

A maior parte de nossos amigos e familiares não sabe que temos todos esses livros, fotos, nomes e filosofias sobre a paternidade. Eu duvido que isso aconteça com pessoas com bebês reais, pois nós nos preparamos exatamente como eles, se não mais. A única coisa que não temos é o livro do bebê. A Hallmark não tem uma versão para que pessoas como nós guardemos as fotos “Útero Vazio” e “Embrião no Lugar Errado” (em vez de “Nosso Bebê” enfeitando a capa, imagino que eles poderiam colocar “Bem, de qualquer forma foi uma grande tentativa”).

É hora de seguir adiante, eu sei. Mas como seguir adiante se cada mês traz um novo ciclo de esperança? Quando sua primeira reação a uma nova menstruação é acrescentar previsões sobre ovulação à sua lista de compras? Quando você não consegue parar de sentir uma amargura corrosiva em relação a cada família que passa com seus bebês que eles parecem ter tido com tanta facilidade?

O senso comum nos diz que a esperança é uma coisa boa. A esperança é o que nos conduz pelas dificuldades. Mas nesses anos, cheguei à conclusão de que esperança às vezes é uma tortura lenta. Quando a esperança mantém você ansioso e amargo e preso a alguma fantasia sobre o núcleo familiar perfeito, então esperança não é mais o que você precisa. Talvez a mais promissora ação que alguém possa adotar seja a de abandonar totalmente a esperança.

Acontece que não estou sozinha em pensar isso. Quando a The New York Times Magazine publicou recentemente sua lista das idéias mais inovadoras de 2007, fiquei satisfeita com a inclusão de um estudo alegando que em certos casos a esperança pode ser um obstáculo para a recuperação emocional.

Eu imagino que muitas pessoas poderiam considerar nossos anos de tratamento de fertilidade e nossa conta de US$ 20.000 pela fertilização in-vitro, que pagamos com um empréstimo, nada mais que futilidade, ou egoísmo. Mas não é tão simples.

Não é futilidade querer ter um filho que tenha a risada de meu marido e seu cabelo loiro e espetado, ou para ele querer uma menina com longas pernas e cabelo castanho, sardas e os dentes separados. É amor. E de todas as coisas para bebês para as quais precisamos encontrar lugar para guardar em nosso apartamento, o amor desperdiçado é o mais difícil de carregar. Ao contrário de nossos livros, mobília, roupas e retratos, não pode ser devolvido, dado ou enfiado nos cantos do armário. E ao contrário da esperança, ele provavelmente não será considerado em estudos científicos como um obstáculo para a recuperação emocional.

Então, estamos em busca de uma adoção na China. Alguns de nossos amigos se surpreenderam com o fato de encararmos numa boa que pode demorar cerca de dois anos para se completar uma adoção na China, sem se incluir os três ou cinco meses de demora para colocar a papelada em dia.

Mas por enquanto estamos acostumados a esperar. E escolhemos a China porque ela oferece algo que os médicos especializados em fertilidade ou a Mãe Natureza ou muitas outras opções de adoção não oferecem: uma programação previsível e a coisa mais próxima possível a uma garantia.

Nós não sabemos como parar de ter esperança de um filho biológico. Mas isso não significa que não possamos seguir adiante com a adoção. Lentamente, livros sobre adoção e afeto como “Are Those Kids Yours?” (”Aquelas crianças são suas?”) e “A Love Like No Other” (”Um amor como nenhum outro”) encontram seu lugar no armário, junto de títulos ainda importantes como “The No-Cry Sleep Solution”.

Afinal, soluções sem choro são úteis, não importa em quais circunstâncias. Sem falar nos babadores “Eu amo o Papai”.

The New York Times
http://www.nytimes.com/

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Por que o Paquistão pode abalar a estabilidade mundial?

A bomba atômica, a progressiva talebanização de regiões do país e as fronteiras com a China, o Irã e o Afeganistão transformam o país asiático em um nó chave para a estabilidade mundial

Georgina Higueras

A religião, que foi o catalisador que impôs o nascimento do Paquistão, gerou forças extremistas que ameaçam desintegrar o Estado no momento de maior valor geoestratégico do país. “Parceiro indispensável”, segundo o presidente George W. Bush, na guerra contra o terrorismo internacional, o chamado “país dos puros” dotou-se de armas nucleares supostamente para se defender de sua grande vizinha politeísta, a Índia, sem querer ver que o germe destruidor de sua unidade não vem de fora, mas de dentro.

Os EUA, seu principal defensor, também não perceberam que ajudando maciçamente o exército paquistanês -desde 2001 lhe entregaram, sem pedir contas, US$ 10 bilhões- alimentavam o ressentimento da sociedade civil e de uma multiplicidade de etnias sufocadas pela repressão militar. Para Washington, o importante era estreitar os vínculos com o regime de um país fundamental para o desenho de sua nova estratégia democratizadora no Afeganistão.

Além disso, o Paquistão também tem fronteiras com o grande rival dos EUA, a China, e com seu principal inimigo, o Irã. O Paquistão foi criado em um dos episódios mais violentos da história. A divisão da Índia em duas nações separadas, ao tornar-se independente da coroa britânica em 1947, obrigou 10 milhões de pessoas a se transferir por motivos religiosos para um ou outro lado da fronteira. O êxodo foi acompanhado de violentos choques comunitários, incêndios, violações e todo tipo de incidente sangrento, que causaram cerca de 2 milhões de mortes.

Governado quase ininterruptamente por militares durante seus 60 anos de existência, o Paquistão, que já travou três guerras com a Índia, se concentrou na indústria armamentista. Especialistas indicam que possui entre 60 e 115 ogivas nucleares, todas supostamente estacionadas na província de Punjab, da qual procedem 90% dos oficiais e soldados paquistaneses, o que também não favorece a unidade do país.

Os distúrbios na província de Sind, no sul, feudo da família Bhutto, depois do assassinato de Benazir, deixaram claras as tensões entre Sind e Punjab. Além disso, o desaparecimento de Benazir Bhutto, única líder com indiscutível caráter nacional, pode fortalecer o nacionalismo sind, o que provocaria sérios problemas dentro da província, cujas principais cidades, incluindo Karachi, são povoadas majoritariamente pela minoria mohayir, muçulmanos de origem indiana e língua urdu.

Mas o maior desafio que o Paquistão e a comunidade internacional enfrentam é a crescente aliança entre o extremismo religioso e o nacionalismo pashtun, que poderia dar origem a uma nação, o Pashtunistão. Esta agruparia mais de 40 milhões de pashtuns que habitam os dois lados da fronteira entre Afeganistão e Paquistão e que se sentem fustigados pelos bombardeios americanos no Afeganistão e pelos helicópteros de artilharia no Paquistão.

Segundo a ONG International Crisis Group, desde 2004, quando o exército paquistanês, pressionado pelos EUA, multiplicou suas operações militares na zona de fronteira com o Afeganistão, mais de 50 mil pashtuns foram obrigados a abandonar seus lares e deslocar-se para áreas mais seguras, sobretudo as cidades.

Esse “uso indiscriminado e excessivo da força afastou o apoio da população local” ao governo de Islamabad.

O regime taleban instalado em Cabul em 1996 era fundamentalmente pashtun, e depois de ser derrubado pelos EUA em 2001 se refugiou entre seus “irmãos” das tribos pashtuns belicosas do Paquistão. A talebanização das zonas tribais se estende hoje por boa parte da chamada Província de Fronteira do Noroeste (NWFP) e pelo norte do Baluchistão, a província com mais recursos naturais do país -gás, petróleo e minerais-, onde o Exército de Libertação do Baluchistão luta pelo controle e a separação do governo de Islamabad.

Os nacionalistas balúchis também se sentem incomodados porque o exército paquistanês realizou em sua região em 1998 os testes atômicos que demonstram sua capacidade nuclear, mas tem todos os silos atômicos no Punjab. “Não tenho a menor dúvida de que nunca poderão cair nas mãos de extremistas”, declarou o general Pervez Musharraf em 2005 para acalmar a preocupação dos EUA sobre a estocagem dessas armas, diante do interesse da Al Qaeda para conseguir pelo menos uma bomba suja, isto é, um artefato explosivo com uma quantidade mínima de urânio enriquecido.

O temor de Washington se fundamenta em que o pai da bomba atômica paquistanês, o cientista Abdul Qadir Jan, condecorado como herói nacional, não hesitou em oferecer ou vender ao longo da década de 1980, enquanto realizava seus testes, parte destas e da tecnologia necessária ao Irã, Coréia do Norte e Líbia. “Se não houver uma mudança radical e imediata em toda a política paquistanesa que aplaque os atritos étnicos, a pobreza crescente, a ignorância e a falta de perspectivas de futuro, poderemos nos encontrar em menos de cinco anos governados por talebans e inclusive enfrentarmos a desintegração do Estado”, afirma Zahir Salam, proprietário da Ferozsons, a principal editora do Paquistão e cônsul honorário da Espanha em Lahore, capital do Punjab.

A ex-primeira-ministra Benazir Bhutto, assassinada há poucos dias, sempre insistiu que as “forças destrutivas” do Paquistão procedem do antigo regime de Mohamed Zia ul Haq (1977-1988), quando os EUA, empenhados na Guerra Fria -a União Soviética invadiu o Afeganistão de 1979 a 1989- “apoiou, treinou e armou” as guerrilhas islâmicas que lutavam contra a dominação comunista. Osama Bin Laden cooperou então em Peshawar (capital da NWFP) com a delegação da CIA americana para promover a luta dos mujahedin.

Assim, o país que foi porta de contenção do comunismo infiltrado no Afeganistão hoje se vê transformado em palco da luta contra o radicalismo islâmico e no tabuleiro de jogo entre os xiitas do Irã e os sunitas da Arábia Saudita. Ambos disputam o domínio que a religião exerce sobre mais de 1 bilhão de muçulmanos, dos quais 165 milhões são paquistaneses.

Setenta e quatro por cento da população do Paquistão vivem com menos de 1 euro por dia; a corrupção do sistema, o nepotismo dos políticos e a ganância de um exército proprietário do maior grupo industrial do país -controla 35% da economia nacional- são o caldo de cultivo em que cresce um extremismo islâmico exaltado pelas guerras do Iraque e do Afeganistão.

El País
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Empresas européias voltam sua atenção para o crescente poder aquisitivo dos países em desenvolvimento

Sempre à procura dos clientes de amanhã, as corporações ocidentais voltaram sua atenção para economias que estão se industrializando e países em desenvolvimento. É uma enorme oportunidade, mas baixo custo não é o único critério importante para um vasto novo grupo de consumidores

Julia Bonstein

Em sua busca por explorar os mercados do futuro, Peter Kleinschmidt investiga ocasionalmente a cultura de banheiro chinesa e discute coisas como hábitos de banho com consumidores asiáticos. Ele também dedica seu tempo percorrendo as lojas do país, onde batons podem ser encontrados nas prateleiras ao lado de panelas elétricas de arroz. “No Vietnã, eu vi produtos Nivea pendurados por um prego em uma árvore”, disse Kleinschmidt com óbvio entusiasmo.

Como membro do comitê executivo da Beiersdorf, a empresa de cosméticos com sede em Hamburgo que é dona da marca Nivea, ele rotineiramente encaixa visitas a consumidores chineses, tailandeses ou indonésios em sua agenda de viagem, para que possa formar uma impressão sobre a forma como vivem. Kleinschmidt está convencido de que a “Ásia, assim como o Leste Europeu e a América do Sul, estão entre os motores mais importantes do crescimento econômico”.

Enquanto as participações de mercado foram divididas há muito tempo na Europa e América do Norte, as empresas ocidentais estão descobrindo e desenvolvendo novas oportunidades de crescimento em economias recém-industrializadas. Além desses países lhes fornecerem legiões de trabalhadores de baixo custo, a globalização está criando um número crescente de consumidores que podem arcar com itens como creme para pele, celulares e até mesmo barra de sabão.

Em sua busca pelos clientes do futuro, as gigantes ocidentais de cosméticos e alimentos, empresas de celulares e até mesmo seguradoras voltaram suas atenções para países como China, Brasil e Índia. “A chave para o crescimento está nas economias emergentes”, disse David Dean, da firma de consultoria Boston Consulting. “É onde vivem os consumidores de amanhã.”

Dean identificou pessoas com rendas familiares mensais entre US$ 63 e US$ 700 como o “Próximo Bilhão” de consumidores potenciais. Não é o punhado de novos indivíduos super-ricos mas sim as massas, cuja ascensão econômica está apenas começando, que prometem promover um verdadeiro mercado de peso. É claro, corporações ocidentais como Nestlé, a gigante financeira e seguradora alemã Allianz ou a Beiersdorf precisam fazer concessões para os magros orçamentos de sua clientela e, é claro, isto exige produção extremamente eficiente e de baixo custo. Certamente não é coincidência o fato do carro mais barato do mundo ter sido apresentado na semana passada não pela Toyota, Ford ou Fiat, mas pelo conglomerado Tata da Índia, que vem armado com muita experiência em produzir e comercializar produtos para um grande número de consumidores de baixa renda.

Mas apenas preço baixo não basta. Para as empresas ocidentais, também é crítico que consigam conquistar os novos consumidores na África e na Ásia com soluções precisamente voltadas para suas necessidades. Um exemplo é um tablete de caldo contendo iodo, que a Nestlé espera comercializar com sucesso na África. Na Índia, a fabricante alemã de produtos de consumo Henkel vende pacotes em miniatura de seu detergente para louça “Pril” por uma rúpia cada, ou pouco menos de dois centavos. Outra inovação é um celular que, apesar de carecer de funções complexas, possui uma lanterna embutida -uma função importante em países onde a falta de luz é uma ocorrência diária. Todos estes são produtos adaptados para as necessidades específicas do próximo bilhão -consumidores de todo mundo que, apesar de longe de serem ricos, não mais vivem na miséria e possuem pequenas quantidades de renda que podem gastar.

Este novo e enorme grupo alvo inclui pessoas como Li Ying. A jovem chinesa que abriu a porta de seu apartamento para um grupo de pesquisadores de mercado da Beiersdorf está morando em Xangai há apenas poucos meses. Seu minúsculo apartamento de um quarto possui apenas 4,5 metros quadrados. Ela compartilha uma área de cozinha e banho com nove vizinhos. Mas Li Ying, 24 anos, não é pobre. Como funcionária de uma imobiliária, ela ganha um salário mensal de cerca de 450 euros.

E o que uma mulher como Li Ying precisa? O que ela quer? Que tipo de respostas os profissionais de marketing podem oferecer para perguntas que ela ainda nem fez? Li Ying nunca ouviu falar de produtos Nivea, mas talvez ela os compre se considerar o perfume da loção mais atrativo e se a embalagem for pequena o bastante para caber em seu criado-mudo.

“A China representa uma enorme oportunidade para nós”, disse Kleinschmidt, o executivo da Beiersdorf. Em 2007, as operações chinesas da Beiersdorf cresceram quase 50% e suas vendas atingiram 90 milhões de euros. A empresa com sede em Hamburgo espera que seu mercado chinês crescerá aos saltos no futuro.

A nova fábrica da Beiersdorf perto de Xangai, que deverá abrir suas portas em 2009, iniciará suas operações em uma capacidade anual inicial de 12.500 toneladas de produtos de cuidados pessoais. A empresa alemã também planeja ingressar no mercado asiático de produtos para cabelo, gastando recentemente 270 milhões de euros para adquirir uma participação de 85% na segunda maior fabricante de produtos para cabelo da China.

Antes desprezada devido à sua pobreza, a população dos países em desenvolvimento está se tornando atraente por dois motivos: sua maior riqueza e crescente participação na população mundial. Oito de cada 10 habitantes do mundo atualmente vivem em países em desenvolvimento, um número que aumentará para nove em menos de 20 anos. Em 2025, o Terceiro Mundo será lar de 7,2 bilhões da população global prevista de 8 bilhões.

O boom econômico em andamento na China está se espalhando para segmentos cada vez maiores da população. A Beiersdorf dedica bastante tempo e dinheiro aos seus esforços de pesquisa de mercado e desenvolvimento, esperando conquistar este mercado potencialmente vasto para seus produtos Nivea. “Seria um sinal de arrogância ocidental presumir que os consumidores na China ou no Brasil estavam esperando por gerações para finalmente serem abençoados com nossos produtos alemães”, disse Kleinschmidt.

Ele fala por experiência. Na Coréia, por exemplo, a tentativa da Beiersdorf de lançar um produto para cuidados faciais com base em uma receita ocidental foi um fracasso. E uma linha de cuidados com a pele contendo arroz e lótus como ingredientes, um grande sucesso na Alemanha, onde é anunciada como um dos segredos da beleza asiática, foi recebido com escárnio pelos grupos-foco asiáticos.

Experiências deste tipo ensinaram os fabricantes a dedicarem mais tempo e esforço analisando as necessidades de seus clientes potenciais. Isto pode levar à comercialização de produtos na Ásia que consumidores ocidentais poderiam considerar desconcertantes. Na Tailândia, por exemplo, a Beiersdorf comercializa com sucesso um desodorante que branqueia a pele na axila dos usuários quando utilizado toda noite.

Desta forma, o entusiasmo das corporações ocidentais pelos países recém industrializados do mundo cria tanto novos mercados para produtos conhecidos quanto para inovações.

A Philips, o conglomerado multinacional de eletrônicos, em um desvio de suas atividades corporativas normais, desenvolveu um sistema doméstico de purificação de água para o mercado indiano. O dispositivo de filtragem, que funciona usando luz ultravioleta, é usado para desinfetar a água.

“O mercado para este produto seria limitado na Alemanha. Mas na Índia, milhões de pessoas não têm acesso a água potável limpa e podem claramente se beneficiar de soluções deste tipo”, disse Gottfried Dutiné, presidente-executivo da Philips Consumer Electronics. A gigante de eletrônicos deseja desenvolver um reconhecimento de marca entre os consumidores indianos e está apostando no rápido crescimento da riqueza na Índia. “Nós presumimos que na Índia, o número de pessoas que poderão comprar nossos barbeadores, ferros de passar e TVs crescerá em cem milhões nos próximos dois a três anos”, disse Dutiné. Seu raciocínio mostra que a linha entre ajuda de desenvolvimento e puro negócio se tornou pouca clara em países como a Índia.

O repentino interesse da fabricante de chips Intel no desenvolvimento de um computador de baixo custo é outro exemplo do mesmo cálculo. No final de 2005, o presidente da Intel, Craig Barrett, desdenhou o laptop de US$ 100 que a organização sem fins lucrativos Um Laptop Por Criança planejava desenvolver como sendo um brinquedo. Mas quando o projeto começou a demonstrar sucesso em questão de poucos meses, a gigante americana de chips rapidamente desenvolveu um produto concorrente. Com o resultado, o “Classmate PC” de US$ 250, a Intel espera entrar em um mercado no valor de bilhões de dólares nas economias emergentes.

Enquanto isso, a indústria de alimentos está explorando oportunidades de negócios na extremidade mais baixa da pirâmide de prosperidade. A chamada “base da pirâmide”, ou BP, inclui mais de 4 bilhões de pessoas, ou cerca de 60% da população mundial. Muitas dessas pessoas possuem apenas cerca de US$ 2 por dia de renda disponível, mas o simples número de pessoas se traduz em um imenso poder aquisitivo, especialmente para a indústria de alimentos.

“O potencial de mercado da BP é gigantesco: quatro a cinco bilhões de consumidores mal-atendidos e uma economia que consiste de US$ 13 bilhões em poder aquisitivo equivalente”, escreveu o economista indiano C.K. Prahalad em seu livro “A Riqueza na Base da Pirâmide”. Prahalad descreve as vantagens resultantes da elevação dos pobres do mundo à condição de consumidores. As empresas já estão sonhando com os modelos de negócios relevantes.

“Nós precisamos de produtos alimentícios mais baratos para os mercados mais pobres”, disse o presidente-executivo da Nestlé, Peter Brabeck. Os tabletes de caldo Maggi da empresa já estão sendo adaptados para se adequarem aos paladares africanos. Em Gana, a Nestlé vende tabletes de sopa instantânea com sabor de camarão por 2 centavos cada. Em outros países africanos, segundo a Nestlé, o sabor de feijão fermentado tem alta demanda. As regiões central e oeste da África já se tornaram o segundo maior mercado mundial para produtos Maggi -atrás da Alemanha e à frente da França.

A longo prazo, a empresa suíça espera aumentar suas vendas anuais nas economias emergentes e países em desenvolvimento para cerca de 10 bilhões de euros -e até mesmo contribuirá para o bem-estar de seus consumidores no processo. Os tabletes de caldo Maggi que a empresa vende na África são enriquecidos com iodo para tratar do problema da deficiência de iodo em áreas onde há pouco dele na dieta. No Peru, nutricionistas percorrem as regiões fornecendo dicas sobre como ter uma dieta balanceada -e vendendo produtos Nestlé.

As fronteiras entre fornecer ajuda e realizar campanhas de marketing, entre má consciência e bons negócios, freqüentemente são indistintas. Funcionários de ajuda humanitária prefeririam ajudar os pobres do mundo a desenvolverem a capacidade necessária para se transformarem em produtores locais de alimentos do que encorajá-los a consumirem produtos ocidentais.

Apesar dessas preocupações, o novo entusiasmo corporativo com os pobres do mundo resulta em parcerias produtivas com organizações de ajuda em países em desenvolvimento. No sul da Índia, por exemplo, o conglomerado alemão de serviços financeiros e seguros Allianz está envolvido em um programa conjunto com a CARE, uma organização de ajuda que já distribuiu pacotes em alemão para ajudar os sobreviventes da Segunda Guerra Mundial, a introduzir um novo tipo de micro-seguro. As mensalidades de cerca de cinco centavos foram concebidas para serem acessíveis aos muito pobres que, na Índia, freqüentemente se vêem na miséria após invalidez ou morte do chefe da família.

Foi necessária uma tragédia para chamar a atenção da Allianz para esta lacuna no mercado. Após o tsunami no Oceano Índico no final de 2004, funcionários na sede da empresa em Munique notaram que receberam muito poucos pedidos de indenização da região -e perceberam que a maioria das vítimas no Sudeste Asiático não era segurada.

A noção de que a necessidade é a mãe da invenção foi particularmente benéfica para o setor de telefonia móvel nos países em desenvolvimento. A disponibilidade de celulares já provocou uma pequena revolução na Ásia e na África. Apenas na Índia, mais de 7 milhões de pessoas assinam novos contratos de celular a cada mês. O setor está se preparando para esperados 2 bilhões de novos clientes em todo mundo nos próximos cinco anos, 80% deles nos países em desenvolvimento.

As empresas foram bem-sucedidas nos países em desenvolvimento ao empregarem modelos de negócios sob medida para as condições locais. A Nokia, por exemplo, desenvolveu um celular com teclado resistente a pó para o mercado indiano.

Na África, algumas empresas de telefonia móvel estão competindo com os bancos na oferta de soluções igualmente inovadoras. O M-Banking é uma tecnologia que permite aos usuários a transferência de dinheiro por celular. Os usuários usam mensagens de texto para transferir dinheiro para o telefone de outro usuário. O recebedor então pode ir até uma loja e converter o crédito em dinheiro.

O M-Banking é um serviço promissor em um país como o Quênia, onde há apenas 500 agências bancárias mas 10 milhões de celulares. As pessoas pobres em áreas remotas do país não têm nenhum acesso a bancos. A movimentação bancária por telefonia móvel agora lhes permite a transferência de dinheiro.

Como no caso do novo carro barato da Índia, empresas locais foram pioneiras na oferta do novo serviço. Mas agora enfrentam a concorrência do Vodafone Group, que descobriu o potencial do mercado. Em um período de 18 meses, o Vodafone vendeu 200 mil contratos para seu serviço M-Pesa no Quênia, e a empresa britânica agora planeja expandir o serviço para outros países, incluindo Afeganistão e Tanzânia. Um dos públicos-alvo são os trabalhadores estrangeiros que ganham dinheiro em lugares como Londres e enviam parte do que recebem para casa, para suas famílias -uma transação que poderia ser facilmente realizada por celular.

O que começou como uma boa idéia na África poderá ser importado para os países ricos. Os executivos das empresas de telefonia móvel estão convencidos de que o conceito tem potencial internacional.

Der Spiegel
http://www.spiegel.de/

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Carlos Drummond de Andrade

Leandro Konder

Há sessenta anos, aparecia o livro de estréia do poeta Carlos Drummond de Andrade, intitulado, ambiguamente, Alguma poesia. O que significava o título? Era a expressão da modéstia do poeta, sua necessidade de dizer ao leitor que naquele volume ele não encontraria “muita” (apenas “alguma”) poesia? Ou era o testemunho da confiança com que o autor anunciava que, num tempo de pouca (quase nenhuma) poesia, os aficcionados do verso podiam estar seguros de que o livro, magrinho, impresso nas oficinas do jornal Minas Gerais (órgão oficial do estado), continha – mesmo – “alguma poesia”?

O próprio título do livro de estréia já indicava um das características do poeta: sua capacidade de perceber e expressar a riqueza dos matizes e a ambivalência da condição humana. Drummond pertence à família espiritual dos escritores que não se empenham em edificar, não têm a veleidade de dissipar todas as sombras da matéria prima da literatura. Ele mesmo dizia: “Sou mineiro, e mineiro é, em geral, reticente, oblíquo. Considero Machado de Assis o maior escritor brasileiro e dele extraio a lição de não fazer o discurso direto, iluminado por todos os lados.”

A maior força da poesia de Drummond está em identificar (não em resolver) os problemas humanos. A poesia dispõe de poderes limitados, não devemos nos iludir a esse respeito. E o poeta, para se consolar, cultiva o senso de humor, que relativiza suas próprias convicções, que o impede de se levar muito a sério. Ele se sente desajeitado, “gauche na vida”.

Leva a sério as brincadeiras e, em seguida, brinca com coisas sérias. Desfaz as fronteiras demasiadamente nítidas. “Eu também já fui poeta”, declara o estranho estreante; e se diverte acrescentando: “Bastava olhar para mulher, / pensava logo nas estrelas / e outros substantivos celestes. / Mas eram tantas, o céu tamanho, / minha poesia perturbou-se.”

Alguma poesia está dedicado a Mário de Andrade. Em 1924, numa “caravana” integrada por um grupo de pessoas ligadas ao movimento modernista de São Paulo tinha chegado a Belo Horizonte e se instalara no Grande Hotel de Belo Horizonte. Do grupo faziam parte Oswald Andrade, Tarsila do Amaral, Gofredo Teles, Olívia Guedes Penteado, Mário de Andrade e o poeta francês Blaise Cendrars. Os jovens intelectuais mineiros que simpatizavam com o modernismo foram ao encontro deles. Ficaram encantados ao ver o piadista Oswald, porém acabaram se interessando mais por Mário. Drummond ficou profundamente marcado pela personalidade de Mário: “O que Mário esperava de nós não era que o seguíssemos, mas que nos descobríssemos a nós mesmos, ao que pudesse haver de bom em nós, no sentido de inquietação, desejo de investigação e reflexão.”

A influência de Mário se fez sentir em duas preocupações centrais do autor de Alguma poesia: a de buscar a consciência social da arte e a de servir dessa consciência para a “descoberta ou redescoberta gradativa do Brasil em nós” (leia-se a entrevista radiofônica concedida a Lya Cavalcanti e reproduzida no volume Tempo vida poesia, lançado em 1986 pela Editora Record).

O Drummond do livro de estréia repelia com firmeza a imitação da Europa: “Meus olhos brasileiros se enjoam da Europa”, dizia ele. E em outro poema, num tom brincalhão: “Para mim, de todas as burrices a maior é suspirar pela Europa. / A Europa é uma cidade muito velha onde só se fazem caso de dinheiro / e tem umas atrizes de pernas adjetivas que passam a perna na gente.” Essa visão crítica, irônica, do “modelo” europeu não era acompanhada de nenhum “ufanismo”, de nenhuma idealização dos brasileiros. Depois de ter se divertido às custas da diversidade de línguas dos povos da Europa, o poeta conclui, debochado: “Aqui ao menos a gente sabe que tudo é uma canalha só.”

Nós, brasileiros, não somos melhores nem piores do que os outros; somos, contudo, diferentes. Nosso modo de viver e de sentir a condição humana se distingue da maneira de viver e de sentir que observamos em outras comunidades (que partilham conosco da mesma condição humana, que temos em comum). Drummond, em 1930, inquieto com os aspectos mais crassamente inumanos da sociedade brasileira, olhava com simpatia para a generosa experiência revolucionária da União Soviética e escrevia: “A Rússia tem as cores da vida. / A Rússia é vermelha e branca. / Sujeitos com um brilho esquisito nos olhos criam o filme bolchevista e no túmulo de Lênin em Moscou parece que um coração enorme está batendo, batendo.” Porém logo o movimento da simpatia se controlava, recorrendo à constatação: “mas não bate igual ao da gente.”

A poesia de Drummond enfrenta o desafio de se inserir energeticamente na realidade brasileira. Essa inserção, entretanto, nunca poderia ser acrítica, nunca poderia resvalar para a auto-indulgência. Se estamos dispostos a assumir nossa brasilidade, devemos ser implacáveis em relação a nós mesmos e às nossas deficiências mais gritantes.

Em seu segundo livro (Brejo das almas), o poeta fustiga sarcasticamente o cinismo do programa modernizador proposto pelos privilegiados para o Brasil: “Precisamos educar o Brasil. / Compraremos professores e livros, / assimilaremos finas culturas, / abriremos dancings e subvencionaremos as elites” (esses versos se encontram num poema ironicamente intitulado “Hino nacional”).

O terceiro livro – Sentimento do mundo – mostra Carlos Drummond de Andrade, no poema “Operário no mar”, procurando discernir o futuro que poderia estar embutido no movimento de um trabalhador simbólico, “Na rua passa um operário”, escreve o poeta. E acrescenta: “Esse é um homem comum, apenas mais escuro que os outros, e com uma significação estranha no corpo que carrega desígnios e segredos.” Da janela do seu apartamento, o poeta se pergunta: “Para onde vai o operário?” E responde: “Não sei.” “Teria vergonha de chamá-lo meu irmão. Ele sabe que não é, nunca foi meu irmão, que não nos entenderemos nunca.” Alguns versos adiante, o poema caminha para o encerramento. O operário vai até o mar, a noite começa a cair e o operário sorri para o poeta: “Único e precário agente de ligação entre nós, seu sorriso cada vez mais frio atravessa as grandes massas líquidas, choca-se contra as formações salinas, as fortalezas da costa, as medusas, atravessa tudo e vem beijar-me o rosto, trazer-me uma esperança de compreensão.” As últimas palavras do poema são: “Sim, quem sabe se um dia o compreenderei?”

Outro poema de Sentimento do mundo sintetiza a perspectiva de Drummond: “Não serei o poeta de um mundo caduco. / Também não cantarei o mundo futuro.” E no final se lê: “O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, / a vida presente.”

O presente, contudo, encarado de um ângulo crítico, cobra de quem o vive opções relativas às possibilidades futuras. E Carlos Drummond de Andrade, já radicado no Rio de Janeiro, funcionário do Ministério da Educação, aproxima-se dos comunistas e tende, cada vez mais, a se identificar com a causa que eles defendem. Revolta-se contra o capitalismo, mas reconhece que não pode, “sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan” (a vitrina da prosperidade – e da insalubridade espiritual – exibida pelo mundo burguês).

O solitário sente-se mal na sua solidão. O individualista desconfiado se sente convocado, com insistência, para embarcar no navio da confiança imprescindível à ação política coletiva. No livro José, surge o ímpeto que manda o poeta cortar sua mão suja, doente, atingida por “mortal desgosto / na pele enfarada”; e surge a idéia compensadora de que, “com o tempo, a esperança, / em seus maquinismos, / outra mão virá / pura – transparente – / colar-se a meu braço”.

Ao comunismo cabe, então, a função de forjar essa nova mão, pura, transparente, que substituirá a mão doente amputada na alma do poeta. Drummond observa sua época e admite: “Esse é tempo de partido, / tempo de homens partidos.” Enquanto a nova mão não vem, o jeito é usar os meios disponíveis, acomodar-se à lógica da ação rude da política partidária. Num dos poemas de A rosa do povo, ele diz: “Os subterrâneos da fome choram caldo de sopa, / olhos líquidos de cão através do vidro devoram teu osso. / Come, braço mecânico, alimenta-te da mão de papel, é tempo de comida, / mais tarde será o de amor.”

As tropas da União Soviética, apesar das graves perdas sofridas, enfrentavam na Europa a poderosa máquina militar nazista e obtinham emocionantes vitórias, que ajudavam a salvar a humanidade do pesadelo de um Terceiro Reich implantado em escala mundial. Drummond encontrou um tom épico na “Carta a Stalingrado”, no “Telegrama de Moscou”, na “Visão 1944” e no poema “Com russo em Berlim” (todos constantes de A rosa do povo). O papel desempenhado pelos russos animava-o a declarar enfaticamente sua disposição: “O poeta / declina de toda responsabilidade / na marcha do mundo capitalista / e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas / promete ajudar / a destruí-lo / como uma pedreira, uma floresta, / um verme.”

Em 1945, com a decomposição do Estado Novo getuliano, o Partido Comunista emergiu fortalecido das catacumbas, tornou-s legal, criou um jornal: a Tribuna Popular. Luís Carlos Prestes, saindo da cadeia, convidou Drummond para integrar o grupo que dirigia o jornal, ao lado de Pedro Mota Lima, Álvaro Moreyra, Dalcídio Jurandir e Aydano do Couto Ferraz. O poeta aceitou.

Faria parte da direção da tribuna Popular, no entanto não era militante da agremiação. Em seu diário (reproduzido no volume O observador no escritório, da Editora Record), Drummond já tinha anotado, em 14-3-1945: “sinto aversão temperamental pelo que, nas esquerdas, é desorganização, agitação e ausência de certas delicadezas e sentimento”. E em 12 de abril do mesmo ano, referindo-se especificamente ao PC: “minha suspeita é que o partido, como forma obrigatória de engajamento, anula a liberdade de movimentos, a faculdade que tem o espírito de guiar-se por si mesmo e estabelecer ressalvas à orientação partidária. Nunca pertencerei a um partido, isto eu já decidi.”

Nas condições em que se dispunha a atuar, preservando sua independência, o poeta logo se deu conta de que ficava isolado, não tinha nenhum poder real. Comentando a edição de uma coletânea de textos de Marx e Engels sobre literatura e arte lançada na França por Jean Fréville e vertida para o português por uma escritora de esquerda que não estava na época nas boas graças da direção do PC, Drummond informou, na última frase de seu artigo: “Eneida traduziu.” Pois bem: cortaram a informação. O nome de Eneida não podia aparecer.

Sem estrépito, o poeta resolveu se afastar, porque percebia que sua co-direção era mais nominal do que real. Deixou a Tribuna Popular em novembro de 1945 e no mês seguinte, nas eleições, votou em Prestes e Abel Chermont para senadores, mas não votou em Yedo Fiúza, candidato do PC à presidência da república: preferiu o candidato liberal, Eduardo Gomes.

A partir desse momento, o caminho do poeta e o caminho dos comunistas se bifurcam, os movimentos se afastam, os malentendidos proliferam. Começam a soprar os ventos sinistros da “guerra fria”, o PC endurece suas posições políticas: preparando-se para a dureza dos novos tempos, os comunistas tratam de ocupar espaços e articulam a conquista da Associação Brasileira de Escritores, numa linha resolutamente sectária. A eleição para a direção da ABDE, em 1949, se transformou numa verdadeira batalha campal, com lances até de violência física. Drummond, aos olhos do PC, estava do “outro lado” e foi atacado como “inimigo”. O episódio aprofundou a decepção do poeta.

Os poemas do período subseqüente refletem a desilusão. No “Desaparecimento de Luísa Porto”, solidário com o sofrimento pessoal de uma mãe cuja filha sumiu na cidade grande, ele pede que todos auxiliem na busca e conclama: “Esqueçam a luta política.” Em “Contemplação no banco”, ele diz que não sabe cantar “os ódios organizados” e pensa no homem que virá, no futuro: “Nalgum lugar faz-se esse homem […] / Contra a vontade dos pais ele nasce, / contra a astúcia da medicina ele cresce, / e ama, contra a amargura da política” (no livro Claro enigma).

Desaparecera, definitivamente, para Drummond, de fazer poesia épica. Ele se retraiu, com a dignidade que lhe era peculiar. Seus versos continuam, eventualmente, a tematizar preocupações políticas e questões sociais, e sempre expressando valores humanistas e democráticos: um compromisso permanentemente reiterado com a liberdade (que o levaria, nos anos sessenta e setenta, a uma clara oposição à ditadura militar). Cada vez mais claramente, entretanto, o poeta se debruça, fascinado, sobre a riqueza da experiência humana – inesgotável – do amor.

Um soneto do livro As impurezas do branco nos explica: “Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. Amor começa tarde.”

***

Há uma observação, entretanto, que eu gostaria de fazer a respeito de um certo vínculo subterrâneo que subsistiu na relação dos comunistas com o poeta. Apesar de todas as divergências políticas, numerosos militantes relativamente intelectualizados do PCB continuaram a ler, com fascínio, os poemas que Drummond ia escrevendo e publicando pela vida afora. Liam-no com admiração quando ele escrevia sobre o amor, sobre a “vitória do pequeno sobre o muito”, ou sobre as encruzilhadas da vida, “onde o diabo joga com o destino.” Liam-no quanto ele cantava o Hotel Avenida sendo demolido, com o Bar Nacional, onde “pura afetividade / súbito ressuscita Mário de Andrade.” Riam, com simpatia, quando o viam dizer – em Discurso de primavera – que “os ateus brasileiros levam sempre um santinho no bolso, / nossos comunas quando morrem, a família reza missa / de sétimo dia e de trigésimo”. Agiam como se, de algum modo, percebessem que tinham coisas essenciais a aprender com o poeta que se afastara deles e seguira seu próprio caminho, saltando por cima de todos os mal-entendidos. Talvez intuíssem que Drummond podia lhes enriquecer o movimento de ampliação da própria reflexão sobre a política, desafiando o projeto revolucionário no sentido de incorporar ao seu quadro de referências toda a complexidade da temática existencial.

Para transformar significativamente a sociedade, é preciso conhecê-la, é preciso conhecer a fundo os homens que a integram. O sujeito precisa se familiarizar com os problemas para poder encaminhar propostas voltadas para resolvê-los. Precisa, inclusive, se conhecer a si mesmo, de acordo com a famosa frase socrática. E Drummond ajudava os “nossos comunas” a se compreenderem melhor em suas contradições. Ajudava-os a conhecer o Brasil em que viviam e que vivia neles.

Pude me dar conta disso, muito claramente, quando publiquei no seminário Voz da Unidade, do PCB, em 8-5-1980, um artigo sobre Drummond e os comunistas, reconhecendo publicamente que o PCB tinha errado no encaminhamento das divergências que se haviam manifestado em suas relações com o poeta. Recebi, após a publicação do artigo, palavras gentis do próprio Drummond; mas recebi, sobretudo, centenas de expressões de apoio, provenientes de várias partes do Brasil, de “comunas” que se regozijavam com a posição autocrítica assumida pelo “partidão” ao publicar a minha matéria no seu jornal.

Revista Espaço Acadêmico
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Há 200 anos a corte portuguesa fugia para o Brasil

Mário Maestri

Em 1793, a Coroa lusitana participara da primeira coalizão contra a República Francesa revolucionária, vista pelos liberais portugueses com grande esperança. Em 1796, após a burguesia francesa conservadora apoderar-se do poder e reprimir as massas populares, Portugal abandonara a coalizão, mantendo difícil neutralidade quanto ao confronto anglo‑francês.

Ingleses e franceses exigiam que Portugal tomasse partido. Uma decisão difícil. Optar pela França significava perder o Brasil, pois a Inglaterra apoiaria a independência da colônia. Apoiar os ingleses era selar a invasão de Portugal pelos franceses, senhores do continente. Portugal seguiu saltando nos dois pés.

Em 1807, Napoleão Bonaparte ordenou a ocupação e desmembramento do reino português. Lisboa tratou secretamente com os ingleses o apoio naval à transferência da Família Real e de parte da nobreza ao Rio de Janeiro, medida apoiada pelos britânicos pois significava a liberdade plena para seu comércio com o Brasil.

A mudança para o Brasil era idéia antiga. Os Diálogos das grandezas do Brasil já registravam a profecia de astrólogo do rei dom Manuel, o Venturoso, de que a colônia serviria, um dia, “de refúgio e abrigo da gente portuguesa”. A aristocracia lusitana tinha consciência de que vivia sobretudo das rendas brasileiras e que o sistema colonial entrava em crise.

Em A utopia do poderoso império, Maria de Lourdes Viana Lyra lembra que os reformistas portugueses propunham antecipar-se à independência da colônia criando novo relacionamento político que permitisse a “emancipação” do Brasil, com Portugal como centro europeu e mercantil, no seio de um império português reconstruído. A transmigração para o Rio de Janeiro foi também desesperada resposta a eventual movimento emancipacionista da colônia.

Em 26 de novembro de 1807, ao escafeder-se para o Brasil, dom João lançou patético manifesto: “Tendo procurado por todos os meios possíveis conservar a neutralidade […] vejo que pelo interior do meu Reino marcham tropas do imperador dos franceses […] querendo eu evitar as funestas conseqüências […] contra minha real pessoa e [crendo] que meus leais vassalos serão menos inquietados, ausentando-me eu deste Reino.”

Na manhã de 29 de novembro, sob a escolta inglesa, partiam do rio Tejo oito naus, quatro fragatas, três brigues, uma escuna e outras embarcações. Dez mil pessoas carregando o que podiam levar – móveis, objetos de arte, louçaria, livros, arquivos… À cabeça da debandada: o príncipe regente dom João; dona Maria Carlota, sua espanhola e em todos os sentidos não muito fiel esposa; dona Maria I, a rainha enlouquecida.

Portugal foi abandonado as frágeis e mal-aparelhadas tropas invasoras. Uma resoluta resistência dos exércitos lusitanos, apoiados pela população, impediria certamente a invasão. Mas a mobilização popular assustava mais a aristocracia do que os franceses. Quando da partida, dom João ordenara aos governadores que ficavam que muito bem recebessem, aquartelassem e assistissem os franceses.

Para muitos liberais, os soldados de Napoleão entraram em Portugal como libertadores. A coroa e a aristocracia lusitana temiam que os liberais portugueses fizessem o mesmo que o Terceiro Estado fizera na França. A família real escapava também das tropas francesas e da revolução burguesa que estremecia a Europa desde 1789.

A transferência da Família Real não constituiu apenas fuga diante das tropas invasoras e do liberalismo europeu. Migrando para o Rio de Janeiro, a aristocracia lusitana fazia virtude da necessidade, transferindo a sede da administração real para a “melhor parte” do império lusitano. Em uma das mais olímpicas demonstrações de falta de raízes e sentimentos nacionais, a grande aristocracia abandonava a terra pátria para melhor defender privilégios sociais e econômicos.

Após parada em Salvador da Bahia, o comboio real chegou, meio desgarrado, ao Rio de Janeiro, a 7 de março de 1808, onde o príncipe dom João teria dito ao representante do governo inglês que considerava “muito pouco provável” seu retorno a Lisboa. Voltaria, treze anos mais tarde, acuado pela revolução liberal portuguesa de 1820.

Correio da Cidadania
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Doentes imaginários

A doença é fictícia, mas o sofrimento é real. Uma breve viagem pela hipocondria, o medo obsessivo de estar doente, com o qual ciência e medicina se confrontam (e divergem) há séculos

Chiara Palmerini

Há mais de dez anos, o qüinquagenário senhor Cantoni sofre de dores nas panturrilhas. O diagnóstico, a princípio, parecia fácil: o hemograma mostrou alteração em um valor de referência, indicando desgaste muscular. Preparando-se para o pior, o médico pensou tratar-se provavelmente de uma doença muscular crônica. Mas, passado algum tempo, o valor voltou ao normal. Então, radiografias do tórax revelaram anomalia em uma vértebra. O ortopedista concluiu ser esta a causa das dores. Entretanto, trações, manipulações e fisioterapia não trouxeram benefício algum. Pelo contrário, às dores acrescentou-se um incômodo formigamento. As veias das pernas, examinadas por um cirurgião vascular, estavam em ordem. Foi quando entrou em cena o neurologista, que falou de uma misteriosa “miopatia autônoma”. O caso parecia encerrado. No entanto, sempre atormentado pelas dores e insatisfeito com o diagnóstico, o senhor Cantoni fez novos exames. A cada vez surgia um indício aparentemente decisivo para o diagnóstico, mas que nunca se confirmava. Então vieram as dores no peito. O senhor Cantoni foi várias vezes ao pronto-socorro, sem que fosse encontrado vestígio algum de ameaça de infarte. Ele começou a se queixar também de zumbido nos ouvidos e de cansaço. E recomeçou um outro período de exames e especialistas. Mas que, novamente, em nada resultou.

O senhor Cantoni, “o homem com sintomas sem respostas”, é um dos pacientes de Dino Zeffiri, o pseudônimo que assina o Diário de um Clínico Geral. Sua história, contou-nos Zeffiri, continuou de modo trágico. No verão passado, a esposa de Cantoni foi tomada por repentinas dores abdominais. Quando os médicos deram o diagnóstico de tumor no pâncreas, Cantoni desmaiou: a mulher foi quem o consolou. Submetida à quimioterapia, com poucas esperanças, ela ainda cuida da saúde do marido, cada vez mais acometido por males inexistentes. Ele os inventa? É um doente imaginário? Um hipocondríaco?

Para o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, a hipocondria faz parte dos transtornos somatoformes, cuja característica é a presença de sintomas que levam a pensar em uma patologia física que de fato não existe. É definida como a “preocupação ligada ao medo, ou à convicção de ter uma doença grave”. Nenhum esclarecimento é suficiente para debelar o medo. Consultas, análises e exames não servem para aliviá-lo. Um hipocondríaco passa grande parte do tempo pensando em seus sintomas, falando sobre eles e consultando especialistas. Como não considera nenhum exame convincente, ele os refaz continuamente para ter certeza de que os médicos não deixaram escapar nada. Se o temor de uma doença passa, imediatamente o de outra o assalta.

Apesar de ser conhecida desde a antigüidade e ainda representar um problema para médicos, o conhecimento sobre as causas e os tratamentos da hipocondria é bastante escasso. Estima-se que a incidência na população varie entre 1% e 6%. Não existe um modo unívoco para entender o transtorno, como salientam Maurizio De Vanna, Mauro Cauzer e Roberta Marchiori no livro O Misterioso Planeta da Hipocondria. Há quem a considere um sintoma, uma verdadeira doença, ou ainda um traço de personalidade.

À pergunta “você tem pacientes hipocondríacos?” formulada em um questionário para cem médicos de clínica geral de Trieste e Pádua, na Itália, 86% responderam sim. Certamente os doentes imaginários constituem um percentual significativo dos chamados frequent attender, os pacientes que são um presença constante nos consultórios. Na verdade, somos todos um pouco hipocondríacos. “Todos os médicos foram hipocondríacos” comenta o neurocientista italiano Fabrizio Benedetti, da Universidade de Turim, especialista em efeito placebo. “O estudo detalhado dos sintomas de uma doença leva quase sempre a imaginar que os temos. Quem nunca apalpou os linfonodos do pescoço quando estudava os linfomas? Quem não se sentiu esquizofrênico quando estudava o desdobramento da personalidade?” Nos verdadeiros hipocondríacos, porém, a preocupação em relação à doença se torna o elemento central da vida: ocupa pensamentos, conversas, e influencia ou impede atividades da vida cotidiana.

A sociedade contemporânea piorou as coisas ao estimular uma preocupação excessiva com o cuidado do corpo. Sempre vigilantes e atentos às suas funções normais, tendemos a notar e amplificar cada pequeno sinal e a considerá-lo indício do funcionamento anômalo de algum órgão. Os mais sensíveis tendem a sentir todos os efeitos colaterais descritos nas bulas dos medicamentos, ou a temer terem contraído a última patologia sobre a qual leram no jornal. A internet, neste sentido, foi um desastre. Para quem tem predisposição para a hipocondria, a massa de informações encontrada na rede, em vez de tranqüilizar, alimenta os pesadelos. Cada sintoma pode corresponder a dezenas de patologias, todas potencialmente mortais. Nos Estados Unidos já foi até mesmo cunhado um termo para a fobia das doenças alimentada pela internet: cybercondria.

Os doente imaginários são o tormento dos clínicos gerais, primeiro filtro das ansiedades. Instruídos para distinguir patologias concretas, freqüentemente encontram-se desorientados diante de quem manifesta males que parecem inventados. “O encontro com um doente hipocondríaco me suscita curiosidade, interesse, vontade de investigar” conta Silvano Biondani. “Os seus sintomas são plausíveis e a preocupação que os acompanha me envolve. Acredito, como ele, que sejam premonitórios de uma ou mais doenças importantes, e me é espontâneo ajudá-lo na investigação.” Mas a aliança dura pouco. “Mesmo quando os exames negam a presença dos males temidos, ele insiste em continuar com investigações cada vez mais sofisticadas. Toda tentativa de tranqüilizá-lo fracassa e o paciente se torna invasivo e obstinado. Então tenho uma sensação embaraçosa de derrota que se transforma em revolta. Começo a duvidar dos seus sintomas. Sinto estar perdendo tempo e sendo explorado.”

À pergunta “o que você sente diante de um hipocondríaco?” as respostas mais freqüentes dos médicos de Pádua e Trieste foram “compreensão”, “pena e comiseração”, “incômodo” e “impotência”. Esses pacientes são bastante conhecidos no meio médico, visto que tendem a migrar de um clínico a outro. Nos formulários clínicos há notas destacando suas características. A frustração dos médicos é certa, mesmo porque esses pacientes normalmente recusam qualquer tentativa de estabelecer um diálogo sobre a doença. Desconfiam dos médicos que, depois de todos os exames, propõem uma psicoterapia, convencidos de que o seu problema é físico, grave e iminente.

O nome para o mal que não existe

Mas se os hipocondríacos não têm um verdadeiro problema orgânico, o que eles têm? Na literatura médica antiga o termo deriva de hypochondria, composto pelas palavras gregas hypo, “sob”, e chondros, “cartilagem”. Pensava-se que o distúrbio estivesse alojado no hipocôndrio, parte superior e lateral do abdome, onde se encontram o fígado e o baço. O primeiro a defini-la foi Galeno, no século II, atribuindo-a a uma desordem da “bile negra”. Esse conceito permaneceu por toda a Idade Média e até a Idade Moderna. A partir do século XVIII, o termo passou a indicar um distúrbio melancólico, que se tratava com a aplicação de sanguessugas. Sobretudo na Inglaterra, a hipocondria era considerada a doença dos literatos, o equivalente masculino da histeria. O significado atual foi introduzido no século XIX, época em que diminuiu o interesse da medicina pelo assunto.

Nem mesmo Freud lhe dedicou grande atenção, afirmando que o transtorno, resultado de energias sexuais que, em vez de serem dirigidas a objetos externos, eram voltadas para o próprio corpo, não podia ser investigado apenas do ponto de vista psicológico. Mais tarde, os psicanalistas forneceram várias interpretações para a hipocondria. A hipótese mais clássica sustenta que sua origem estaria vinculada a um ambiente familiar dominado por uma mãe hiperprotetora, que mantém os filhos em estado de dependência: estar doente é o melhor modo de obter tratamentos e atenções.

Ainda hoje não está totalmente claro o que se entende exatamente por hipocondria, mesmo que se tenda a distingui-la do chamado transtorno de somatização, tendência a desenvolver sintomas físicos. “Os casos mais freqüentes são os de pacientes com uma patologia orgânica que têm, no entanto, sintomas físicos amplificados: uma pessoa com artrose que não se levanta da cama queixando-se de dores insuportáveis, ou um cardiopático que fica sem fôlego diante de um esforço mínimo” explica Riccardo Torta, psiquiatra da Universidade de Turim. Uma de suas pacientes, com síndrome bipolar, manifestava sintomas somáticos bastante graves na fase de depressão, em vez dos clássicos transtornos do humor. Como tinha uma certa cultura e se informava continuamente, acabava por interpretar seus sintomas baseando-se nas definições das enciclopédias médicas, relatando depois aos clínicos os sintomas que para eles eram sinais inequívocos de uma certa doença. Deste modo, ela conseguiu colecionar intervenções cirúrgicas de todo tipo, inclusive a retirada da vesícula biliar.

Curar o incurável

Brian Fallon, neuropsiquiatra da Columbia University, em Nova York, é um dos poucos pesquisadores que fez estudos específicos sobre a hipocondria. Começou a interessar-se pela doença há uns 15 anos, ao tratar de um corretor da bolsa de valores com 50 anos que estava convencido de ter um tumor cerebral. Mesmo depois que todos os exames deram resultados negativos, o homem passava os dias pensando em seu câncer. Fallon lhe prescreveu um antidepressivo. Para sua surpresa, o medicamento funcionou perfeitamente. Desde então ele está convencido de que a hipocondria é uma forma de transtorno obsessivo-compulsivo e que pode ser tratada com inibidores seletivos de recaptação da serotonina, as drogas da família do Prozac.

O psiquiatra Arthur Barsky, do Hospital Brigham, de Boston, usa uma terapia cognitivo-comportamental com hipocondríacos. Conforme estudo concluído recentemente com 187 participantes, a terapia parece dar resultados. O método ensina a reduzir a atenção dada às sensações corpóreas e a corrigir comportamentos específicos: por exemplo, pular as páginas do jornal que falam de saúde e evitar sites de medicina. “É um caminho longo, porque freqüentemente estes estilos de comportamento se cristalizaram durante anos” observa Torta. “Normalmente procura-se reestruturar a relação do paciente com seu corpo, utilizando-se inclusive medicamentos para reduzir a ansiedade de base que freqüentemente acompanha o transtorno.” Giorgio Nardone, diretor do Centro de Terapia Estratégica de Arezzo, propõe aos hipocondríacos psicoterapias breves, de poucas semanas, inspiradas nos métodos do Mental Research Institute de Palo Alto, nos Estados Unidos. Em certa ocasião, relatada em seu livro Non c\\’è notte che non veda il giorno (Não há noite que não veja o dia), prescreveu a um paciente falar de seus medos apenas por meia hora depois do jantar e anotar três vezes ao dia, em pé diante do espelho, todas as sensações e sintomas provenientes do corpo.

Recentemente, surgiram clínicas para hipocondríacos em vários países. “No entanto, a maior parte dos transtornos de ansiedade ligados à saúde, como prefiro me referir à hipocondria, deveria ser administrado e tratado por médicos de família”, afirma Paul Salkovskis, diretor Hospital Maudsley, em Londres.

Uma coisa no entanto é certa: estes doentes, etiquetados de imaginários, realmente sofrem. Além do risco de danos por terapias, exames e intervenções desnecessárias, há ainda o risco de que as doenças não sejam reconhecidas quando aparecerem realmente.

E seria esta a ironia do destino, o paradoxo dramático: adoecer, enfim, exatamente do que se teve medo por toda a vida.

Revista Mente e Cérebro
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Governo dá piores reajustes a salários de saúde e educação

Aumento de despesas com remuneração dessas áreas ficou muito aquém do concedido a funções administrativas

Fernando Dantas

Os gastos salariais com professores e médicos ficaram para trás na corrida dos reajustes e contratações no governo Lula. Nas áreas de saúde e educação, o aumento real das despesas com remunerações do governo federal ficou muito aquém não só do concedido ao Judiciário, ao Legislativo e ao Ministério Público, mas também perdeu para as funções administrativas do Poder Executivo.

O crescimento das despesas com salários da função Administração não é uma exclusividade do governo Lula, e ocorreu fortemente também nos dois últimos anos do governo de Fernando Henrique Cardoso. Até 2006, esse item, que caiu bastante em 2003, ainda estava próximo em termos reais do último ano do governo FHC, mas em 2007 ele disparou. A Administração inclui funções em órgãos como a Presidência da República, Ministérios da Fazenda e do Planejamento, Banco Central, Radiobrás, Receita Federal e outros.

Recentemente, em entrevista ao jornal O Globo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu o aumento da despesa pública, dizendo que não é possível melhorar a educação e a saúde pública sem contratar mais médicos e mais professores. Os números mostram, porém, que o total de salários pagos nessas áreas não é responsável pelo crescimento do bolo das remunerações federais.

Em termos reais, os salários pagos de janeiro a novembro de 2007 na função Administração do governo federal tiveram aumento real de 33,89% em relação a igual período de 2002, atingindo R$ 6,37 bilhões. Esse crescimento real é aproximadamente o dobro do registrado pela função Educação, na qual estão os professores, que foi de 16,89%, para R$ 7,5 bilhões de janeiro a novembro de 2007.

Entre os principais itens do Orçamento por funções, sempre na base de comparação de janeiro a novembro, os grandes perdedores no governo Lula, em termos reais, foram a Saúde (em que ficam médicos e profissionais da área), com crescimento de apenas 6,63%, para R$ 3,49 bilhões; e a Defesa Nacional, com queda real de 2,18%, para R$ 10,2 bilhões. Os gastos salariais da função Legislativa tiveram aumento real de 25,35% no governo Lula, os do Judiciário de 26,18%, e os da função Essencial à Justiça (em que está o Ministério Público),de 135,24%.

As disparidades nos reajustes reais concedidos a carreiras do funcionalismo público aparecem na comparação de remunerações de professores e médicos com cargos da Receita e da Advocacia-Geral da União (ver quadro). Entre 2003 e 2007, enquanto os salários inicial e final de advogados da República cresciam 71% e 40% respectivamente, em termos reais, chegando a R$ 10.497 e R$ 12.900, os médicos (40 horas semanais) tiveram aumento de salário inicial de apenas 5%, para R$ 2.582, e sofreram queda real no salário final de 1%, para R$ 4.443. Para Marcos Mendes, consultor do Senado, “há desequilíbrios que privilegiam as áreas-meio, o funcionalismo sindicalizado e o Judiciário”. Os números mostram, porém, que o crescimento das despesas salariais na Administração também dispararam nos dois últimos anos do governo FHC, rescendo 24% em termos reais.

A despesa primária total do governo federal subiu de 19,5% do PIB para 21,2% do fim de 2002 até 2006, mas os gastos de pessoal na ativa destacavam-se como um dos itens relativamente sob controle. Depois de atingirem 2,5% do PIB em 2002, eles caíram para 2,32% em 2003 e permaneceram praticamente nesse nível até 2005. Nos últimos dois anos, porém, houve uma inflexão, e os gastos com pessoal na esfera federal começaram a crescer como proporção do PIB, atingindo 2,43% em 2006 e devendo voltar a 2,5% este ano, segundo previsão do economista Fábio Giambiagi.

O economista Samuel Pessôa, assessor do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), acha que os números da despesa salarial indicam que, no Poder Executivo, a política de recomposição do governo Lula (com aumentos reais e novas contratações) está se dirigindo mais para as atividades-meio (ligadas ao funcionamento interno da máquina) do que para as atividades-fim, que envolvem prestação direta de serviços à população. Ele discute a questão em recente trabalho (Análise das Contas Fiscais no Governo Lula 2003-2007).

“Eu estranhei as greves de médicos do setor público, diante dos fortes aumentos recentes de despesa com pessoal; mas agora entendi que os médicos não foram beneficiados”, comenta Pessôa.

O Ministério do Planejamento, em nota enviada ao Estado, contestou a idéia de que a função Administração possa ser caracterizada como de atividade-meio. Segundo o Ministério, “a tabela utilizada (no trabalho de Pessôa) considera Administração como sendo gastos meramente burocráticos, quando aí estão incluídas as carreiras de auditores da Receita Federal, analistas de Orçamento, analistas de Finanças e Controle, só para citar alguns exemplos”.

‘DESVIO DE CONCEPÇÃO’

Pessôa contra-argumenta: “O governo tem aumentado o gasto com carreiras que ajudam a maior arrecadação de impostos, como a Receita Federal, e a sua administração, como analistas de Finanças e Controle, e não em atividades-fim, como servidores ligados à função Saúde.” Segundo o economista, “não há nenhuma teoria econômica que considere que arrecadar é uma atividade-fim do Estado, e o próprio fato de isso passar pela cabeça deste governo é um enorme desvio de concepção”.

Independentemente de definições, o grosso crescimento real dos gastos salariais na Administração ocorreu em 2007. De janeiro a novembro, na comparação com igual período de 2006, os gastos salariais na Administração cresceram 21,18%, um salto real de R$ 1,113 bilhão em apenas um ano. Em contraste, as despesas salariais na função Saúde cresceram 1,3% em termos reais de 2006 para 2007, e as da função Educação cresceram apenas 5,3%.

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

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