Arquivo de Janeiro de 2008

Vírus é associado a câncer de pele

Lawrence K. Altman

Os cientistas descobriram um vírus fortemente ligado à forma mais agressiva de câncer de pele, eles relataram em uma revista científica na quinta-feira.

O câncer, o carcinoma de célula de Merkel, tende a ocorrer mais freqüentemente nas áreas do corpo expostas ao sol, como rosto, cabeça e pescoço. Apesar de ser raro, sua incidência triplicou de 1986 a 2001, e agora é responsável por cerca de 1.200 casos nos Estados Unidos há cada ano, diz o Instituto Nacional do Câncer.

O vírus foi descoberto por uma equipe da Universidade de Pittsburgh que inclui o dr. Patrick S. Moore e sua esposa, a dra. Yuan Chang. Em 1994, quando estavam na Universidade de Columbia, Moore e Chang descobriram o herpes-vírus humano tipo 8, que causa o sarcoma de Kaposi, a malignidade mais comum em pacientes com Aids.

Até o advento da cirurgia de transplante e da Aids, o sarcoma de Kaposi e o carcinoma de célula de Merkel geralmente afetavam pessoas com mais de 65 anos. Agora, a estas pessoas se juntaram aqueles cujos sistemas imunológicos foram comprometidos pela Aids ou pelos medicamentos de transplante de órgãos.

O vírus recém-descoberto pertence à família polioma, que os cientistas estudam há mais de 50 anos porque foi descoberto que outros membros da família produzem cânceres em animais. Apesar da suspeita de que os vírus polioma causavam cânceres em seres humanos, havia falta de provas conclusivas.

Os cientistas de Pittsburgh chamam o novo agente de vírus polioma de célula de Merkel. Em um trabalho publicado on-line pela revista “Science”, eles disseram que apesar de suspeitarem que ele causa o câncer de pele de célula de Merkel, mais trabalho é necessário para provar.

“Nós podemos dizer que temos um suspeito com a arma fumegante na cena do crime, mas isto ainda não significa que ele é culpado”, disse Moore em uma entrevista por telefone.

“Nós temos um longo caminho para provar que este agente é realmente a causa”, ele disse. “Mas o fato do vírus estar tão fortemente associado ao tumor é, no mínimo, uma aposta muito boa de que ele tem um papel importante.”

O dr. Anthony S. Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, chamou a descoberta de “muito interessante e importante”.

“Não é todo dia que se tem uma prova molecular tão convincente de que um vírus está associado, provavelmente de forma casual, com o desenvolvimento de um processo canceroso em particular”, disse Fauci.

O vírus polioma é o sétimo vírus associado a cânceres humanos, disseram Moore e Fauci. Os outros, além do vírus do sarcoma de Kaposi, são os vírus da hepatite B e C, associados ao câncer de fígado; o papilomavírus, ao câncer cervical; o vírus Epstein-Barr, ao câncer no nariz e faringe e ao linfoma de Burkitt; e o HTLV-1, ou vírus da leucemia de células T humanas do tipo 1.

Enquanto Moore e Chang estavam em Columbia, eles começaram a desenvolver uma técnica chamada subtração digital de transcriptoma, que continuaram usando após se mudarem para Pittsburgh, em 2002, na busca de vírus novos ou conhecidos em cânceres relacionados ao sistema imunológico.

Mas não dispondo de amostras de tecido de carcinoma de célula de Merkel na Universidade Pittsburgh, eles tiveram que obter os tecidos na Comprehensive Human Tissue Network, um banco nacional de tecidos financiado pelos Institutos Nacionais de Saúde para fins de pesquisa.

A equipe, que também inclui Huichen Feng e Masahiro Shuda, adaptou sua técnica de forma a se beneficiar de desenvolvimentos como o projeto do genoma humano.

“Levou muito tempo e cometemos todos os erros que poderíamos cometer nisto”, disse Moore.

Os pesquisadores encontraram o vírus polioma nos cânceres de oito de 10 pacientes de Merkel cujos tecidos foram testados. Eles também encontraram o vírus integrado ao genoma da célula de tumor, uma descoberta que fortaleceu a crença de que ele tem um papel importante na causa do câncer.

Para fins de controle, os cientistas também procuraram o vírus entre dois grupos de pessoas sem carcinoma de célula de Merkel. Evidência do novo vírus foi encontrada em tecidos de várias partes do corpo em cinco dos 59 pacientes que compuseram um grupo de controle. Tal evidência também foi encontrada em tecidos da pele de quatro das 25 pessoas do segundo grupo, algumas com sistemas imunológicos saudáveis, outras com deficientes.

Os resultados geraram novos desafios científicos. Um é determinar possíveis ligações entre o vírus e outras doenças. Entre os próximos passos desta equipe está um esforço para determinar se o vírus está relacionado ao linfoma de Hodgkin e não-Hodgkin, disse Moore.

A técnica usada para identificar o vírus polioma da célula de Merkel elimina seqüências moleculares humanas conhecidas de uma amostra de tecido, deixando seqüências desconhecidas ou não humanas que são exploradas pelos cientistas na busca de um possível agente infeccioso. Moore disse esperar que a técnica seja útil na análise de tecidos de pacientes com doenças de causa desconhecida, visando encontrar um novo agente ou reduzir a probabilidade de que estejam ligadas a um.

The New York Times
http://www.nytimes.com/

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200 anos de integração comercial

Custo País, o grande desafio da expansão comercial. Os planos para aumentar a capacidade exportadora. Mentor da abertura, Visconde de Cairu foi pioneiro do liberalismo. Abertura não é só econômica, mas mental, diz Ricupero. Estivadores resistem a modernização. Um episódio mal explicado na história do Brasil. Quadros de pintores viajantes retratam o surgimento dos portos brasileiros

Uma decisão anunciada há exatamente 200 anos representou, na prática, o fim do sistema colonial e teve conseqüências profundas na história do Brasil. A abertura dos portos do País às nações amigas foi anunciada no dia 28 de janeiro de 1808, por dom João VI, uma semana depois de desembarcar em Salvador, após fugir de Napoleão com a família real. A medida, imposta pela Inglaterra, representou o início da inserção brasileira no comércio mundial.
Menos de dois meses depois, já no Rio de Janeiro, o monarca de Portugal decretaria a liberdade de comércio e indústria manufatureira, com a revogação do alvará de 1785, que proibia a fabricação de qualquer produto na colônia. Livres das proibições, as indústrias começaram a despontar no território brasileiro e o Brasil libertou-se de três séculos de monopólio português, passando a integrar-se ao sistema internacional de produção e comércio como nação autônoma.
Passados 200 anos da abertura dos portos, o Brasil ainda detém hoje apenas 1,14% do fluxo comercial do planeta. E sonha alcançar uma fatia de 1,25% do comércio mundial em 2010. Se conseguir o pequeno incremento de 0,11 ponto porcentual, poderá ascender a uma posição próxima à da Malásia, que comercializou US$ 62 bilhões a mais que o Brasil em 2006.
Neste início de século 21, o comércio exterior mostrou-se capaz de dar um salto e superar o perfil acanhado que manteve ao longo de décadas. Mas seu desempenho ainda motiva polêmicas sobre o grau de abertura dos portos brasileiros. O Brasil é a décima maior economia do mundo, mas é apenas o 24º maior exportador.
O secretário de Comércio Exterior, Welber Barral, acredita que o Brasil pode ser considerado muito aberto em relação a outros mercados. A tarifa de importação média de 14%, aplicada conjuntamente com os sócios do Mercosul, é bem maior que a dos Estados Unidos, de 4%. Mas o País respeita a alíquota máxima de 35% e não aplica picos tarifários - recurso que protege os setores menos competitivos dos EUA e da Europa.
Para Barral, o sistema de comércio no Brasil mostra mais transparência e rapidez que em outros vizinhos latino-americanos. Na Argentina, as licenças de importação são emitidas em papel. “Não há mais resquícios da Cacex”, afirma, referindo-se à Carteira de Comércio Exterior, que regeu e controlou as importações com mão de ferro entre 1953 e 1990.
Mas, na avaliação do embaixador José Botafogo Gonçalves, presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), a sombra protecionista, tão presente no século 20, ainda permanece no País, alimentada pelas demandas do setor industrial. Para Fernando Ribeiro, economista-chefe da Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (Funcex), a herança de décadas de políticas de substituição de importações pela produção nacional fez do Brasil um país fechado. O coeficiente de abertura comercial do Brasil é de 21,4% do Produto Interno Bruto (PIB), nível considerado baixo, dado o peso econômico do País. Cingapura, um dos países mais abertos do mundo, tem um coeficiente de 104%.
Esse quadro indica que há uma margem enorme para o avanço no comércio brasileiro no futuro. Mas não diminui os esforços realizados ao longo de mais de uma década. Em 1990, quando o governo promoveu uma ampla e unilateral abertura do mercado brasileiro, as exportações alcançavam US$ 31,4 bilhões, enquanto as importações chegavam a US$ 20,7 bilhões. O crescimento do comércio enfraqueceu no final da década de 90, por causa de sucessivas crises, e só se reaqueceu a partir de 2003, impulsionado por uma série de medidas para facilitar as exportações.

Estado de S. Paulo

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Cidadania: um olhar sobre o futuro

João Baptista Herkenhoff

A cidadania há de ser conquistada através da luta individual e através da luta coletiva.

Há situações concretas onde o cidadão tem de travar uma luta individual para conquistar seus direitos.

Esta luta individual, solitária, que o cotidiano da vida às vezes exige, é sempre dura e difícil.

A luta individual é mais penosa, mais longa, com possibilidade de êxito menor. Porém, se uma situação concreta reclama a luta individual, não devemos recuar diante dos obstáculos. Devemos buscar nossos direitos, custe o que custar.

Podemos renunciar a um direito por generosidade, jamais por comodismo ou apatia. Dou o exemplo: posso rasgar um documento de crédito, de que sou titular, se o devedor encontra-se numa situação aflitiva, porque o homem não pode ser lobo de outro homem. Neste ponto discordamos humildemente do grande jurista Rudolf von Ihering que, na sua obra clássica “A luta pelo Direito”, não admite a renúncia a direitos.

Sempre que for possível, devemos recorrer à luta coletiva.

Imaginemos uma situação na qual várias pessoas têm um mesmo interesse a defender perante a Justiça. Ora, será muito mais prático que se juntem para uma ação em comum do que cada um lutar separadamente.

Pela Constituição de 1988, os sindicatos, as entidades de classe, as associações, os partidos políticos podem ingressar coletivamente em Juízo em favor de centenas ou milhares de pessoas.

Para a luta coletiva, em seus diversos níveis, a sociedade tem de aprender a organizar-se. Os pleitos que se formulam de maneira atabalhoada não são vitoriosos. O planejamento, a discussão, a partilha dos problemas, a montagem de uma estratégia de luta – este me parece ser o caminho para o bom encaminhamento das causas que envolvem muitos.

Se a organização autônoma da sociedade é indispensável aos avanços sociais e às pugnas em prol da Cidadania, nem por isso o Poder Público está dispensado de fazer sua parte.

Numa sociedade democrática, os Poderes Públicos estimulam, encorajam e apóiam todo o esforço que se desenvolva no sentido da consolidação da Cidadania. Daí a importância da criação de Conselhos de Cidadania e Direitos Humanos, por iniciativa governamental, no âmbito federal, estadual ou municipal.

Também quando se trata de uma luta extrajudicial (isto é, uma luta fora da Justiça), será sempre mais eficaz a luta coletiva.

Um provérbio popular resume tudo isto que estamos dizendo: “Uma andorinha só não faz verão”.

As classes dominantes desencorajam as lutas coletivas. Com freqüência, os líderes das lutas coletivas são perseguidos, presos e até mesmo assassinados.

Também os meios de comunicação social, freqüentemente a serviço das classes dominantes, estimulam o individualismo. Citemos, por exemplo, as novelas de televisão. Com raras exceções, as histórias das novelas são simplesmente histórias individuais. Poucas vezes as novelas apresentaram as lutas coletivas, as lutas do povo. (Há honrosas exceções, por parte de alguns novelistas.)

Mesmo sendo a novela um entretenimento, pode também educar. As novelas e outros programas de televisão, com muita constância, transmitem a mensagem do individualismo. Assim atuando, dificultam o avanço político do povo. (Aqui também é preciso que se registrem as exceções, que merecem todo aplauso.)

O povo tem de aprender a vencer seus desafios, com suas próprias forças. Mesmo que o ambiente envolvente seja adverso, mesmo que a luta coletiva não seja valorizada e enaltecida, é a união que faz a força.

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Faltam 355 dias para Bush ir embora

ELIO GASPARI

Messiânico, despreparado e mentiroso, transformou sua incapacidade pessoal num problema mundial

TERMINADO O ESPETÁCULO da leitura de sua última mensagem ao Congresso, George Bush começará sua viagem de volta para o Texas. Faltam 355 dias, mas será uma satisfação acompanhar cada manhã do ocaso de um dos piores presidentes que os Estados Unidos tiveram. (Talvez tenha sido o pior, mas essa é outra conversa.) Messiânico, despreparado e mentiroso, transformou sua incapacidade pessoal num problema mundial.
Bush despediu-se com um discurso ressentido e sectário, atacando um Congresso onde a vontade do povo colocou-o em minoria. Jogou palavras de efeito em frases sem conteúdo. Mostrou-se como parte de uma “geração” que enfrentou e derrotou o terrorismo. Queimou uma palavra que John Kennedy usou magistralmente no seu discurso de posse, em 1960: “a tocha passou para uma nova geração de americanos -nascidos neste século, temperados na guerra, disciplinados numa paz amarga e dura”. Kennedy, podia dizer isso porque, como voluntário, lutou com bravura no Japão. Bush escapuliu do recrutamento que mandava a garotada para o Vietnã.
De todas as ruínas que produziu, Bush poderia esperar que a última, econômica, ficasse para seu sucessor. Enganou-se. Sua despedida poderia ter ficado à altura da crise que cevou. Nada. Limitou-se a vagas banalidades. Falou em “incerteza” e ensinou: “No longo prazo, os americanos podem confiar no crescimento econômico. No curto prazo, todos podemos ver que o crescimento está diminuindo”. A crise já é muito mais que isso.
Bush fingiu não ter percebido sua reverberação internacional. Pior: tratou do assunto como se lidasse com um meteorito que vem sabe-se lá de onde. A irresponsabilidade da banca ficou para depois. Pode-se pensar que esse distanciamento é o que se espera de conservador de boa cepa. Falso. Tomando-se o dia 19 de dezembro passado como referência (nele anunciou-se a queda de 24,2% na construção de novas casas), passaram-se 47 dias entre o início da crise e o discurso de Bush.
Entre a Quinta-feira Negra de outubro de 1929 e a leitura da Mensagem ao Congresso do presidente Herbert Hoover passaram-se 40 dias. Não vai aqui nenhuma insinuação de que as duas crises se parecem, nem que haja semelhança entre Bush e Hoover, um republicano exemplar, homem decente.
Em 1929, quando Hoover discursou na mesma tribuna ocupada por Bush, falou em risco de “depressão” e associou o colapso da Bolsa a um “excesso de otimismo” que provocou uma “especulação descontrolada”, transferindo dinheiro da produção para o mercado de papéis. Muitos historiadores sustentam que não foi a quebra da Bolsa que gerou a crise, mas Hoover foi sincero quando procurou apontar a sua causa. Bush, nem isso. Hoover não inventou guerras, mas no dia do seu discurso havia 5.000 soldados americanos na Nicarágua, no Haiti e na China.
Por conta da crise iniciada em 1929, Hoover virou um maldito. Hoje seu papel é reavaliado, para melhor. Isso não acontece porque seus erros foram menores, mas porque sua figura tinha tamanho. Referindo-se às tropas no exterior, informou: “Num sentido mais amplo, essa não é a maneira pela qual nós queremos ser representados lá fora”.
Na noite de segunda-feira, Bush permaneceu pouco mais de uma hora no plenário do Congresso. Só ficou à vontade na saída, perto da porta, quando parou para autografar cópias do discurso que acabara de ler. Sua vocação era outra.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

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Quem não sabe dançar improvisa

Hip-hop oferece aos jovens da periferia a chance da existência social

Carlos Haag

Um rapper, tão anônimo quanto sábio, afirmou que o hip-hop era “a CNN da periferia” (apesar da insistência da mídia, em especial a brasileira, em associar o movimento à violência e ao crime), ou seja, uma forma de a periferia expressar suas necessidades de classes excluídas. O hip-hop teria nascido em 1968, baseado em dois movimentos: a maneira como se transmitia a cultura dos guetos americanos e, daí o nome, no jeito da dança popular da época, que reunia saltar (hop) e movimentar os quadris (hip). Ao chegar ao Brasil, nos anos 1980, a ligação entre cultura, dança e lazer se estreitou a ponto de deixar no ar a pergunta: é um movimento cultural ou político? “Hip- hop é teres direito de discordares do que quiseres/ de certa forma é estar na política/ não aceitar tudo calado nem desenvolver consciência crítica/ o som que analisa, critica, contesta/ não te esqueças que hip-hop também é festa/ ritmo e poesia é o que nos caracteriza/ e quem não sabe dançar improvisa!”, define, com precisão, a letra de Hip-Hop, do Boss AC.

“É por meio do canto, da dança e do grafite que os participantes do hip-hop demonstram suas posições políticas e ideológicas. Para eles, o fazer político não está reservado somente para os que se especializam nessa área. Com suas rimas no rap, seus passos no break e imagens transmitidas em seus desenhos reproduzidos nos grafites, estão assumindo uma posição política e fazendo aliança com outras formas de expressão que são, a um só tempo, políticas, sociais e culturais”, explica João Batista de Jesus Felix, autor da tese de doutorado Hip-Hop: cultura e política no contexto paulistano, orientada por Lilia Schwarcz e defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Para o pesquisador, o hip-hop é um degrau a mais alcançado pela população negra e pobre brasileira que fez do seu lazer uma forma de protesto contra a violência e as condições a que são submetidos pela sociedade. “Ao saírem dos bailes e irem para as ruas, os espaços públicos, eles estavam rompendo o tênue ‘pacto social brasileiro’. A presença deles na praça era uma afronta ao nosso ‘racismo cordial’ e à idéia de que se toleram (ou não) as demonstrações deste tipo no espaço privado”, observa o pesquisador, cuja preocupação central era justamente descobrir o que esse movimento social entende por política e o que estava por trás de declarações polêmicas como do rapper Mano Brown, do Racionais MC’s, que resumiu seu trabalho de forma inusitada: “Eu não faço arte. Artista faz arte, eu faço arma. Sou terrorista”.

Assim, entender essa divisão ou dialética é essencial para a compreensão do hip-hop, para além do que retrata a mídia. “Os meios de comunicação construíram imagens e representações de uma forma muito negativa, do delinqüente juvenil, como se eles fossem uma espécie de inimigo número um das cidades”, analisa Micael Herschmann, da UFRJ, autor de O funk e o hip-hop invadem a cena. Para o professor, o divisor de águas para o movimento foram os arrastões ocorridos em Ipanema, no Rio, entre 1992 e 1993. “A partir daquele momento, com a intensa veiculação na mídia, o hip-hop adquire uma nova dimensão, colocando em discussão o ‘lugar do pobre’ no debate político e intelectual do país.” As cenas mostrando conflitos entre jovens policiais despertaram curiosidade e preconceito na sociedade sobre os movimentos da juventude da periferia. “Optou-se, em muitos casos, pelo medo, quando o lado político do hip- hop é de conscientização, de criação de alternativas para os jovens da periferia não caírem no crime e nas drogas.” Ou, nas palavras do antropólogo Luiz Eduardo Soares, “o hip-hop acena com a paz politizada, que se afirma com a agressividade crítica, isto é, com estilo afirmativo do orgulho reconquistado”. Para muitos, porém, essa postura radical fez com que fosse visto como violento.

“O hip-hop surgiu no Brasil de maneira ‘parcelada’, isto é, seus diferentes elementos foram sendo adotados por pessoas que não viam maiores ligações com a dança que praticavam nos bailes black, que, antes do surgimento do movimento, não assumiam posição política contestadora explícita”, avalia Felix. “O que não significa que eram ações sociais simplesmente com a função de divertir, sem outra conseqüência. Afinal, em nosso país, o break e o rap surgiram em locais de lazer e distração da população negra e pobre, que ia a esses lugares porque se sentia entre iguais, sem se preocupar em ser tratada como inferior pelos demais.” Essa junção entre divertimento e contestação foi fundamental para a escalada do movimento negro, cujas raízes remontam à Frente Negra Brasileira (FNB), fundada em 1931, que defendia que “os negros deveriam assumir as etiquetas comportamentais da ‘boa sociedade’, o que equivalia a dizer ‘branca’, para que pudessem ser incorporados ao social brasileiro”. Os bailes da FNB, observa Felix, complementavam as atividades políticas de defesa da comunidade negra, embora fossem vistos como “apêndices”, e não como instrumentos na construção da identidade dos negros. O lazer, para eles, não contava na luta contra a discriminação.

Surgido nos anos 1940, o Teatro Experimental do Negro (TEN) era o seu oposto, apostando no resgate dos valores da cultura negro-africana como remédio contra o racismo. É com esse espírito que surgiram, nos anos 1960, o Aristocrata Clube, freqüentado pela classe média negra, e o Clube 220, para os trabalhadores e funcionários públicos. “O fato de tanto a FNB como o Aristocrata e o Clube 220 usarem os bailes em suas atividades mostra como o lazer tinha um significado para a população negra e que esses bailes serviam como veículo para reflexão, isto é, ‘eles são bons para pensar’, componentes interessantes no processo de criação da identidade negra”, explica o pesquisador. Outro exemplo de arte mobilizada politicamente foi o samba cuja nacionalização, na contramão do esperado, “foi um processo de manipulação das elites e contou com a participação de vários sambistas conscientes das vantagens sociais que poderiam obter”. Assim, a elevação do samba ao trono de “ritmo nacional” só ocorreu porque fazia parte da lógica de que no Brasil existia, de fato, uma “democracia racial”.

Assim, nota o pesquisador, se o uso da cultura afro-brasileira em termos políticos não é novidade na nossa história recente, o hip-hop inova pela forma e pelo paradigma que adotou já nos bailes black, dos anos 1970, muitos artistas como Tim Maia e Jorge Benjor, após viajar aos EUA e ver como os cantores negros aproveitavam as manifestações artísticas para “fazer discursos a seu público”, passaram também a falar sobre questões raciais, embora centrando em temas menos contundentes do que o racismo, como a beleza negra etc. “Esses espaços foram locais de práticas políticas, pois neles as pessoas podiam construir suas identidades, mesmo que, apenas dançando e ouvindo músicas, se sentissem menos discriminadas, numa alternativa ao racismo cotidiano, pois nesse lugar não se reporia a hierarquia racial presente no dia-a-dia”, analisa o pesquisador. Segundo ele, no início do século XXI, vê-se que tanto o samba como a música negra internacional tocada nos bailes black se prestam à construção de uma identidade negra contemporânea entre jovens da cidade de São Paulo. “À primeira vista, parece que o público estava nos bailes black totalmente alienado sobre as lutas pela democratização da nossa sociedade. Uma análise mais minuciosa revela que eles procuravam, de outra forma, encontrar condições para aumentar a inclusão dos negros na mesma sociedade.”

Mas não é tão fácil dançar essa música, por melhor que ela soe aos ouvidos dos excluídos. “É conflitante para um jovem da periferia abraçar o discurso ‘consciente’, pacifista, antidrogas do hip-hop e viver em situações concretas de extrema violência policial, de convivência com traficantes e de puro e simples desespero existencial”, conforme citação de Arnaldo Contier, professor de história da USP, em seu artigo “O rap brasileiro e os Racionais MC’s”. Contier lembra que o hip-hop chegou ao Brasil em inícios da década de 1980 por meio do break, paradoxalmente trazido por agentes sociais das camadas mais ricas da sociedade. “Alguns brasileiros que viajavam para o exterior ao retornarem ao Brasil introduziram o break nas danceterias dos bairros nobres de São Paulo, logo transformado em modismo entre os jovens de classe média”, conta. Posteriormente, continua, é que o break conquistou as ruas e as camadas dos excluídos da cidade por meio da formação de grupos de baile, que se reuniam na praça Ramos e, depois, nas proximidades das galerias de lojas de discos da rua 24 de Maio. O ideal do rap politizado foi apresentado pelo Racionais em janeiro de 1988 num show no Parque do Ibirapuera. O movimento se expandiu pela cidade e surgiu, ainda naquele ano, a primeira posse, na praça Roosevelt, no centro de São Paulo.

O termo se refere a organizações que congregam grupos e pessoas que praticam algum dos quatro elementos do hip-hop: a presença dos DJs, os responsáveis pela base musical na manipulação das velhas pick-ups (os toca-discos desprezados pela elite com a chegada do CD); o MC, a pessoa que fala ou canta a poesia (ao lado do DJ, ele desenvolve o rap, abreviação de rhythm and poetry); o break, dança que, reza a lenda, foi inspirada nos movimentos dos mutilados do Vietnã e que, observa o pesquisador, mostra como os praticantes “usam seu corpo como se ele fosse seu único capital cultural”; e, por fim, o grafite, expressão de arte de rua explícita cuja proposta é a divulgação, da maneira mais ampla, dos ideais do movimento. A primeira posse foi batizada de Sindicato Negro, o que, afirma Felix, demonstra a preocupação mais direta com a questão racial. “Com o surgimento do Sindicato tem início, de fato, o hip-hop no Brasil. Antes dele o rap, o break e o grafite eram praticados somente quando havia uma ligação orgânica entre eles. A possibilidade de ‘amarrar’ essas expressões culturais só surgiu com essa primeira posse.”

Antropofagicamente, o movimento de raízes americanas ganhou novo espírito no Brasil. “Nos EUA, o hip-hop surgiu nos bairros e depois ganhou lugares mais privilegiados das cidades, enquanto em São Paulo ocorreu o oposto: primeiro ele acontece nos bairros da periferia, posteriormente se organiza no centro e depois vai para os bairros e lá cresce e conquista sua legitimidade social e política. Atualmente abre, cada vez mais, espaços entre as classes média e alta.” O hip-hop igualmente inova na forma em que pretende quebrar paradigmas. “Depois que o ‘choque de gerações’ foram superados e os ‘rebeldes sem causa’ foram pacificados pelas tentações da sociedade de consumo, eles se levantam para apresentar ao mundo uma nova pauta de exigências que querem ver materializada imediatamente”, observa o historiador Rafael Lopes de Sousa, que está terminando seu doutorado na Unicamp sobre a “República dos manos”. “Reivindicar mudanças imediatas requer organização e pensar em modelos a serem seguidos. Mas no caso do hip-hop, o engajamento não foi tutelado por nenhum modelo cêntrico, mas, ao contrário, pela arte da dispersão e pela capacidade de desfazer aparências que os jovens criaram em suas manifestações, a fim de escapar do controle.” Assim, é justamente o isolamento social que tem, paradoxalmente, se transformado em estimulantes poderosos para uma criatividade emancipatória sem precedentes na periferia de São Paulo.

“Se, nos anos 1970, os agrupamentos juvenis se dividiam entre os engajados políticos e os espontâneos das comunidades hippies, nos dois casos jovens de classe média, a partir do hip-hop o desejo de mudança, em oposição às dimensões políticas que orientavam as gerações anteriores, centra-se no aparecimento espetacular no espaço público, que envolve uma estratégia de choque pela apresentação do inusitado e da agressão”, observa. Desenvolve-se, assim, nota o historiador, uma nova modalidade de resistência dos indivíduos que, descrentes das utopias e alijados da participação cívica, forjam práticas desviantes e “subversivas” dos caminhos propostos à integração social. É a legítima ira social que canta e exige mudanças, uma cobrança, nota Micael Herschmann, que “abandona a costumeira cordialidade do homem brasileiro”. São jovens, sim, mas não adolescentes típicos. “Essas experiências de jovens organizando movimentos sociais se contrapõem à idéia de adolescência como uma fase de rebeldia que antecede a entrada no mundo adulto. No caso dos ‘manos’, são mais experiências educativas e formativas, como muitas outras que os sujeitos vivenciam na sua trajetória de vida”, explica Rosangela Carrilo Moreno, do Grupo de Pesquisa sobre Instituição Escolar e Organizações Familiares, da Faculdade de Educação da Unicamp, e autora do artigo “Práticas educativas de protesto na adolescência”.

Manos unidos em tribos de criatividade. “A partir do hip-hop as ‘culturas das favelas’ aparecem não simplesmente como um subproduto da violência social do país, mas como uma produção e um discurso capazes não só de espelhar a realidade dura, mas que também exprimem a reivindicação da ampliação da cidadania ao segmento social que habita essas áreas urbanas”, observam Ivana Bentes e Micael Herschmann, ambos da UFRJ, no artigo “O espetáculo do contradiscurso. Espetáculo?” .“Da moda ao ativismo, da atitude à música e ao discurso sociopolítico, vemos emergir novos sujeitos do discurso, que saem de territórios estigmatizados da cidade e ascendem à esfera midiática, trazendo um discurso renovado, distante das instituições políticas mais tradicionais e próximo da esfera da cultura.” É preciso aparecer para apresentar, como diz o nome do rapper MV (mensageiro da verdade) Bill. “Após a crise das vanguardas artísticas e intelectuais dos anos 1970, os protagonistas do hip-hop emergiram com os novos intelectuais locais, orgânicos, forjados ao longo dos anos 1980 e especialmente dos anos 1990, no bojo de uma cultura popular ou minoritária já não idealizada pelas vanguardas e com maior autonomia”, avaliam os autores. Em resumo, notam, assistimos à emergência de um discurso sociopolítico nascido na própria cultura da periferia e “traficado” crescentemente pelo mercado.

“Portanto, essa manifestação assume um caráter político, pois é por meio dela que a juventude periférica se mostra e representa discursivamente a forma pela qual entende a si própria e a realidade na qual está inserida. Desse modo, retira da invisibilidade pública inúmeros jovens, ‘olhados sem ver’ como ‘perigosos’”, afirma a doutora em lingüística da Unicamp Adriana Carvalho Lopes em seu artigo “A transgressão do sujeito racializado no discurso do hip-hop brasileiro”. Para ela, essa incapacidade de “ver” fundamenta-se num argumento que encontra na “cor da pele” a sua principal justificativa.

“O hip-hop reinventa a negritude, transgride as imagens opressoras atribuídas pela sociedade à juventude periférica e, assim, lhe oferece possibilidade de existência social. Daí o movimento ter como objetivo uma transformação simbólica da sociedade, alterar algumas representações que definem a realidade social e os sujeitos que dela fazem parte.” A oferta é irrecusável: novas possibilidades de interpretação do mundo e das identidades e uma cidadania conseguida por esforço próprio. Tudo fruto de uma notável aliança entre cultura e política. “Procure a sua paz. Não se acostume ao cotidiano violento, que esta não é a minha vida, esta não é a sua vida. Cheguei aos 27 anos, sou um sobrevivente. Vinte sete anos contrariando as estatísticas”, avisa Mano Brown em Fórmula mágica da paz. Quem não sabe dançar improvisa.

Revista da FAPESP
http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

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Como a elite anglo-americana partilha os seus ‘valores’

John Pilger

Quando o primeiro-ministro Gordon Brown referiu-se recentemente à devoção do seu governo para com os Estados Unidos, “fundamentada nos valores que partilhamos”, estava a reflectir o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Kim Howells, o qual preparava-se para dar as boas vindas ao ditador saudita na Grã-Bretanha com efusões de “valores partilhados”. O significado foi o mesmo, em ambos os casos. Os valores partilhados são os do poder e da riqueza predatória, ignorando democracia e direitos humanos, como confirmam o banho de sangue no Iraque e o sofrimento dos palestinos, para mencionar apenas dois exemplos.

Os “valores que partilhamos” são celebrados por uma sombria organização que acaba de efectuar a sua conferência anual. É o British-American Project for the Successor Generation (BAP), estabelecido em 1985 com dinheiro de um trust de Filadelfia com um longo historial de apoio a causas da extrema-direita. Embora o BAP não reconheça publicamente a sua origem, a fonte da sua inspiração foi um apelo do presidente Reagan em 1983 para que as “próximas gerações” em ambos os lados do Atlântico “trabalhassem juntas no futuro em assuntos de defesa e segurança”. Ele fazia numerosas referências a “valores partilhados”. Compareceram a esta cerimónia na Sala de Situação da Casa Branca estavam os ideólogos Rupert Murdoch e o finado James Goldsmith.

Como esclareceu Reagan, a necessidade do BAP surgiu da ansiedade de Washington acerca da crescente oposição britânica às armas nucleares, especialmente quanto ao estacionamento de mísseis de cruzeiro na Europa. “Uma preocupação especial”, disse ele, “serão as próximas gerações, quando estas pessoas mais jovens tiverem de trabalhar juntas no futuro sobre questões de defesa e segurança”. Uma nova, preferivelmente jovem, elite – jornalistas, académicos, economistas, “sociedade civil” e líderes liberais da comunidade de um tipo ou de outro – compensariam o crescente “anti-americanismo”.

Os objectivos desta rede moderna, segundo David Willetts, o antigo director de estudos do Centre for Policy Studies, de extrema-direita, agora membro do gabinete sombra Tory, são simplesmente “ajudar a reforçar ligações anglo-americanas, especialmente se alguns membros já ocuparam ou ocuparão posições de influência”. O antigo embaixador britânico em Washington, sir John Kerr, foi mais directo. Num discurso a membros do BAP, ele afirmou que “a poderosa combinação de pessoas eminentes e de estreitas ligações atlânticas” desta organização “ameaçavam deixar a embaixada sem tarefas”. Um organizador americano do BAP descreve a rede como comprometida com a “preparação de líderes” ao mesmo tempo que promove a “o papel de liderança global que [os EUA e a Grã-Bretanha] continuam a desempenhar”.

Os alunos britânicos do BAP são retirados em grande parte do novo Labour e da sua corte. Não menos de quatro “companheiros” do BAP e um conselheiro tornaram-se ministro no primeiro governo Blair. Os nome do novo Labour incluem Peter Mandelson, George Robertson, Baronesa Symons, Jonathan Powell (chefe de gabinete de Blair), Baronesa Scotland, Douglas Alexander, Geoff Mulgan, Matthew Taylor e David Miliband. Alguns são membros da Sociedade Fabiana e descrevem-se a si próprios como sendo “de esquerda”. Trevor Philips, presidente da Comissão de Igualdade e Direitos Humanos, é outro membro. Eles objectam quanto aos boatos de “uma conspiração”. A origem (mutuality) de classe ou de aspirações é simplesmente assegurada, sem ser mencionada, e o abraço cálido do poder faz o resto.

A conferências BAP são realizadas alternadamente nos EUA e na Grã-Bretanha. A deste ano foi em Newcastle, com o tema “Fé e Justiça”. Na direcção estado-unidense está Diana Negroponte, a esposa de John Negroponte, o antigo chefe da segurança nacional de Bush notório pela sua associação com a política dos esquadrões da morte na América Central. Ele seguiu outro destacado neocon, Paul Wolfowitz, o arquitecto da invasão do Iraque e desacreditado responsável do Banco Mundial. Desde 1985, “alunos” e “veteranos” do BAP tem sido reunidos por cortesia da Coca-Cola, Monsanto, Saatchi & Saatchi, Philip Morris e British Airways, dentre outras multinacionais. Nick Butler, ex-líder da BP, tem sido a luz condudora.

Para muitos, as conferências contem prazeres revivalistas afinados por técnicas americanas de RP, com jogos de administração, apresentações pessoais e uma linda revista de encerramento para aliviar dos negócios sérios. O relatório da conferência de 2002 observou: “Muitos graduados do BAP estão envolvidos directamente com instituições militares e de defesa dos EUA e do Reino Unido”.

O BAP raramente recebe publicidade, o que pode ter algo a ver com a alta proporção de jornalistas que são graduados. Destacados jornalistas do BAP são David Lipsey, Yasmin Alibhai-Brown e um conjunto sortido de murdochistas. A BBC está bem representada. No popular programa Today, James Naughtie, cujas emissões reflectem os seus próprios interesses transatlânticos, foi aluno desde 1989. A nova voz do Today, Evan Davis, anteriormente o cuidadoso editor de economia da BBC, é membro. E no topo do sítio web do BAP está uma fotografia do famoso locutor da BBC Jeremy Paxman, com o seu endosso. “Um meio maravilhoso de reunir uma amostragem variada de amigos transatlânticos”, diz ele.

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Ações do documento “A violência institucional é uma política que não depende dos governos”, diz Paulo Arantes

Para o filósofo, o Estado de Direito encontra-se à deriva no mundo inteiro: “ainda é norma incontornável, porém cada vez mais inefetiva”

da redação

“Tortura-se desde sempre em qualquer cadeia pública brasileira. O escândalo dos anos de chumbo é que esta prática se estendeu aos brancos de classe média politicamente radicalizados. Quer dizer, o que havia de chocante era a inédita ampliação das classes torturáveis brasileiras, até então seletivamente restritas aos pobres, negros e presos”. A opinião é de Paulo Arantes em entrevista especial, por e-mail, à IHU On-Line.

Segundo ele, “a violência institucional ilegal é exercida hoje como uma política sistêmica”. Tanto é assim que, constata o filósofo, que “os governos não fazem mais a diferença. Foi assim com o FHC, e continua agora com o Lula, ambos equipados não obstante com os melhores secretários de direitos humanos disponíveis no mercado de ativistas bem intencionados”.

Paulo Arantes é graduado em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), doutor pela Universidade Paris X, Nanterre, com a tese Hegel: l’ordre du Temps (Paris: Harmattan, 2000), também disponível em português: Hegel: a ordem do tempo (2. ed. São Paulo: Hucitec, 2000). Arantes é docente emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, departamento de Filosofia da USP. Escreveu inúmeras obras, das quais destacamos Um departamento francês de ultramar (São Paulo: Paz e Terra, 1994); Ressentimento da dialética (São Paulo: Paz e Terra, 1996); e Extinção (São Paulo: Boitempo, 2007).

Considerando os últimos acontecimentos no Brasil, como a prisão da menor L. em uma cela masculina, o ataque a mendigos e a morte de crianças indígenas por desnutrição, como o senhor avalia o cumprimento dos direitos humanos em nosso país? Concorda com a declaração da ONU de que no Brasil podem estar havendo atos de tortura?

Paulo Arantes - As barbaridades que você acaba de evocar dentre os descalabros mais recentes em foco na mídia – e bastaria apenas uma, como disse certa vez Borges , interrompendo um relato de atrocidades perpetradas pela ditadura argentina – dão bem uma idéia do novo ciclo histórico de violência que paradoxalmente se abateu sobre o Brasil desde o fim do regime militar. Registro de violações como o da ONU sempre ajudam, mas acabam contribuindo para a anestesia geral na medida em que tudo acaba virando uma questão de indicadores mais ou menos desalentadores.

Comecemos pelo básico: tortura-se desde sempre em qualquer cadeia pública brasileira. O escândalo dos anos de chumbo é que esta prática se estendeu aos brancos de classe média politicamente radicalizados. Quer dizer, o que havia de chocante era a inédita ampliação das classes torturáveis brasileiras, até então seletivamente restritas aos pobres, negros e presos. Não deixa de ser inquietante reparar que é precisamente esta a circunstância histórica que viu nascer o que viria depois a se institucionalizar como uma política de direitos humanos e igualmente não por acaso desde então acoplada à eterna promessa de uma “verdadeira” política de segurança pública, em contraposição à usual, baseada na escalada punitiva, desde o enfrentamento tipo “guerra urbana” até o endurecimento contínuo da execução penal. Voltando ao básico.

Nunca é demais lembrar que o gatilho da violência institucional ilegal contra os de baixo no Brasil foi disparado no momento em que o Código Criminal dos primeiros tempos do país independente restabeleceu a tortura e a punição sem encarceramento dos escravos, de cuja força de trabalho seus proprietários não poderiam ser privados. Vem dessa atualização liberal do escravismo a tradição de uma polícia com plenos poderes de arbítrio, até às prerrogativas de vida e morte que vemos hoje. Essa, a matriz histórica da catástrofe humanitária em que o Brasil está se tornando. Resta a contribuição da regressão global em curso, a confluência do grande capital corporativo com o sistema local da violência: penso, por exemplo, no episódio de alguns anos atrás, quando se verificou que um hiper-mercado Carrefour havia contratado seus serviços de segurança junto ao tráfico numa favela ao lado. Parcerias.

O que a postura das autoridades de segurança e saúde revela sobre a estrutura política do governo Lula a respeito desses temas?

Paulo Arantes - Mostra que os governos não fazem mais a diferença. Foi assim com o FHC, e continua agora com o Lula, ambos equipados não obstante com os melhores secretários de direitos humanos disponíveis no mercado de ativistas bem intencionados. Que a violência institucional ilegal é exercida hoje como uma política sistêmica. E não adianta dizer que as coisas mudarão quando forem enfim controladas e unificadas as vinte e sete polícias autônomas dos 27 estados, que além do mais são três, federal, militar e civil. Já é assim na Colômbia (polícia unitária e exército dando combate direto ao narcotráfico). Mas, por acaso, mano dura com obras públicas, isto é, o modelo Medellín – é o que se está buscando? Não é só no Brasil que nos defrontamos com um Estado de Direito cuja polícia pode agir como um grupo de extermínio.

O Estado de Direito encontra-se à deriva no mundo inteiro: ainda é norma incontornável, porém cada vez mais inefetiva. Nos países centrais, tornou-se quando muito uma ordem política mínima encarregada de tutelar os direitos subjetivos para o terço superior da população entrincheirado na fortaleza do conforto material capitalista. Pelo menos é assim que raciocina um jurista como Danilo Zolo: o Estado de Direito continua insubstituível e em vigor, mas tudo se passa como se estivesse suspenso.

Que contradições o senhor percebe entre a duplicação do orçamento para rearmar o exército brasileiro a fim de defender nossas fronteiras e a situação da segurança pública nacional, mal-equipada e muito mais reativa do que preventiva?

Paulo Arantes - Nenhuma. A fronteira que realmente conta é interna e social, a função de polícia das forças armadas é questão de tempo, e está sendo testada no laboratório cruento do Haiti. Quanto ao descalabro da segurança pública nacional, não é uma questão de maior ou menor dotação orçamentária. Um aparato policial bem equipado continuaria amalgamando os ilegalismos, em cujo limiar os pobres estão condenados a sobreviver, com a condição descartável de indivíduos fora do direito.

Como o senhor conecta a situação social brasileira com a situação mundial da globalização, sobretudo de mazelas como a violência, fome e educação precária? Esses problemas tendem a se aprofundar ou é possível vislumbrar uma solução?

Paulo Arantes - Se fosse realmente para valer, a declaração da ONU deveria reservar um tópico especial para os Estados Unidos, a globalização da tortura e crimes conexos, como seqüestro de suspeitos e a proliferação de campos em que prevalece a lógica da exceção. O que era operação encoberta durante a Guerra Fria tornou-se objetivo explícito de memorandos oficiais legitimadores do limbo jurídico para o qual se está empurrando uma espécie de classe torturável global, algo como uma humanidade excedente em que todos são a rigor clandestinos. Daí a guerra suja de contenção permanente desse povo subterrâneo e o decorrente embrutecimento do conjunto da sociedade.

Qual deveria ser a postura dos intelectuais sobre temas como os direitos humanos e segurança pública? Nesse sentido, como o senhor percebe o caso brasileiro?

Paulo Arantes - O Estado hoje é a um só tempo, e cada vez mais, penal e social. A massa carcerária barbarizada aumenta na mesma proporção dos pobres assistidos. Além de vigiar e punir, é preciso “cuidar”. Novos fatores de risco e populações vulneráveis exigem novos gestores dessas emergências. Daí o número proliferante de núcleos de estudo da violência que já não se distinguem mais de agências ideológicas da Lei e da Ordem, assim como o Terceiro Setor vai tocando programas em que direito se confunde com prestação de serviço. Se um militante dos direitos humanos também se encarrega de segurança pública, só um doido recusaria este tipo ideal. Um cínico diria, porém, que ele oferece a vantagem suplementar de livrar da má consciência o atual esforço punitivo, enquanto acena para o povo dos porões com a eventualidade de uma janela na mídia das violações espetaculares.

Jornal Brasil de Fato
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Previdência tirou 881 mil da pobreza, afirma estudo

Redução do número de pobres cresce de 21 mi, em 2005, para 21,9 mi, em 2006. Ministério reconhece porém que ainda existem no país 32,7 milhões de pessoas que não estão protegidas pela Previdência Social.

JULIANNA SOFIA

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Um contingente adicional de 881 mil brasileiros deixou a pobreza em 2006 em relação ao ano anterior por conta dos benefícios pagos pela Previdência e Assistência Social, segundo estudo divulgado ontem pelo Ministério da Previdência.
Em 2006, os benefícios previdenciários permitiram a redução do número de pobres no país em cerca de 21,9 milhões de pessoas. Em 2005, a renda previdenciária e assistencial retirou da pobreza pouco mais de 21 milhões. É nessa diferença que estão as 881 mil pessoas.
O estudo ainda mostra que no Brasil existem 32,7 milhões de pessoas “socialmente desprotegidas”, ou seja, não são cobertas pela Previdência. Os dados não consideram os beneficiários do Bolsa Família.
O governo federal comemorou os novos números sobre o impacto da Previdência Social na redução da pobreza no país e atribuiu o feito ao aumento do poder de compra do salário mínimo e à melhoria na distribuição de renda.
“Se não houvesse a Previdência, o total de pessoas abaixo da linha de pobreza seria muito maior”, afirmou o ministro Luiz Marinho (Previdência).
Para o pesquisador do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) Sergei Soares, no entanto, a redução observada em 2006 foi modesta quando comparada com o total de pessoas que deixaram a pobreza por vários fatores no ano.

Critério
Com base no critério adotado pela Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) para definição de pobreza, afirma ele, em 2006 saíram dessa condição 8 milhões de brasileiros.
“Mas isso não me surpreende. O salário mínimo, que é o indexador da Previdência, não tem muito mais fôlego para reduzir a pobreza, quando se considera níveis mais elevados e não a pobreza extrema”, afirma Soares. “Isso não tira o mérito da Previdência na redução da pobreza. Sem esses benefícios, haveria uma enxurrada de velhinhos pobres”, declarou.
O estudo da Previdência, elaborado a partir das informações da Pnad (Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios) de 2006, ainda traça o perfil do trabalhador “socialmente desprotegido”. Em geral são homens que moram nas regiões Norte ou Nordeste, atuam na construção civil, serviços ou comércio e têm entre 16 e 24 anos. Além disso, são assalariados sem carteira ou trabalhadores por conta própria que ganham até dois salários mínimos.
Do total de trabalhadores da população ocupada entre 16 e 59 anos, 29,03 milhões encaixam-se nesse perfil. Os “socialmente desprotegidos” acima de 60 anos são 3,68 milhões, segundo os dados da Previdência.

Desprotegidos
Na comparação com 2005, o número de desprotegidos registrados no ano passado chega a aumentar em 600 mil pessoas. O secretário de Previdência Social, Helmut Schwarzer, explica, porém, que esse aumento se deve ao crescimento da população.
Em termos relativos, destaca o secretário, houve uma redução dos “socialmente desprotegidos”. No caso da população ocupada, o número caiu de 36,5% para 35,9%.
Marinho disse que a tendência é que o Brasil recupere nos próximos quatro anos o nível de cobertura social que tinha no início da década de 90.
Em 1992, o país exibia um patamar de cobertura social de 66,4%. Em 2002, foi registrada a menor taxa: 61,7%. Desde então, destaca o ministro, iniciou-se um processo de recuperação. Em 2006, o nível de cobertura ficou em 64%.

Jornal Folha de S. Paulo
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No que se parecem

L. F. Veríssimo

No que Kaká e Tom Cruise se parecem? Os dois são admirados pelo que fazem e criticados pelo que acreditam. Não seriam criticados pelo que acreditam se não fossem artistas conhecidos com caras de bons moços. Um declara que pertence a Jesus, o que não deixa de ser elogiável nesta época em que tantos jogadores de futebol pertencem a empresários nem sempre escrupulosos, mas os líderes da sua igreja, a Renascer em Cristo, estão tendo que explicar à justiça americana o que fazem com o dinheiro dos fiéis. O outro é hoje o mais conhecido adepto da Cientologia, uma mistura de religião, filosofia e negócio de auto-ajuda que saiu pronta da cabeça de um escritor de ficção científica, entre outras coisas, chamado L. Ron Hubbard, nos anos 50. Ninguém teria nada a ver com a religião dos moços se eles não fossem celebridades e sua notoriedade não servisse para propagar suas crenças no mínimo discutíveis. Mas a discussão é boa: o que torna uma crença mais, digamos, exótica do que outra? É fácil lamentar a exploração da fé de certas seitas neopentecostais e ridicularizar as esquisitices da Cientologia, mas todas as religiões do mundo exigem a mesma suspensão do bom senso dos seus seguidores. O que católicos, protestantes históricos, muçulmanos e judeus precisam acreditar para serem fiéis sinceros só perde em estranheza para as novas igrejas porque suas religiões são mais antigas. A mais jovem delas tem quatro séculos. Todas têm a respeitabilidade indiscutível que vem com a idade. Nada a ver com a Igreja da Boa Vida em Miami apoiada por Kaká ou a invenção autopromocional de um excêntrico que Tom Cruise e outros em Hollywood (John Travolta, por exemplo) promovem. Mas com o tempo, apesar de suas doutrinas e práticas, estas também serão instituições antigas, e respeitáveis.

No que Jerome Kerviel, responsável por um rombo de 50 bi euros no banco Société Générale da França, se parece com o anônimo milionário da Arábia Saudita que encomendou o roubo dos quadros de Picasso e Portinari do Masp?

Se tivessem ficado com o produto do roubo, nenhum dos dois poderia ostentá-lo. Nada que Kerviel fizesse com o dinheiro desviado, mesmo que doasse ou queimasse a maior parte e ficasse só com um bi ou dois para os croissants deixaria de chamar atenção. O milionário saudita só poderia pendurar os quadros no seu quarto ou no seu banheiro e jamais mostrá-los em público. Mas nem o francês, pelo que se sabe até agora, queria ficar com o dinheiro nem o saudita tinha intenção de exibir os quadros. Os dois foram movidos pelo amor à arte. No caso do francês, a arte de manipular bilhões com o teclado de um computador e descobrir até onde poderia ir com o seu poder mágico antes de chegar ao absurdo, no caso do saudita a arte pela arte, pelo puro deleite da contemplação solitária. Dois heróis - ou que outro nome mereçam - do nosso estranho tempo.

Jornal Estado de S. Paulo
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O fim dos tratados de controle de armas: adeus à segurança da Guerra Fria

O sistema que garantiu a estabilidade militar entre Leste e Oeste desmorona

Andrea Rizzi

A arquitetura de segurança internacional estabelecida durante a Guerra Fria e nos anos 1990 com a assinatura de um complexo emaranhado de tratados sobre controle de armas está desmoronando.

Todos os principais pilares dessa estrutura tremem sob a pressão de novas relações de força que se afirmaram, ou pretendem se afirmar, no tabuleiro mundial. A suspensão da aplicação do Tratado sobre Armas Convencionais decidida pela Rússia é só um elemento de um conjunto de atritos que também afetam os tratados sobre armas nucleares intermediárias e intercontinentais. “A medida é mais um passo, uma conseqüência lógica de uma dinâmica que começou em 2002, quando Washington se retirou do Tratado Antimísseis Balísticos”, comenta Oksana Antonenko, analista do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos em Londres. “O governo Bush deixou claro então que não apostava nesse emaranhado de tratados, e a única coisa surpreendente na reação de Moscou é que tenha demorado tanto”, argumenta Antonenko.

“Trata-se de um sistema pensado para um mundo bipolar que já não existe. Mas seria um erro pensar que não faz mais sentido. É preciso adaptá-lo”, considera Kart Kaiser, professor da Universidade de Harvard. “EUA e Rússia continuam mantendo arsenais nucleares muitas vezes maiores que os de todos os outros juntos.”

O motivo de discórdia oficial em torno do Tratado de Armas Convencionais é que os países da Otan não ratificaram a revisão acordada depois da desintegração do Pacto de Varsóvia. O Kremlin denuncia que sem a ratificação há vários países ex-comunistas -por exemplo, os bálticos- que ficam de fato com as mãos livres. A Otan justifica sua posição alegando que a Rússia descumpriu o compromisso de retirar suas tropas da Abcázia (Geórgia) e de Transdniester (Moldávia).

O atrito é só a ponta de um iceberg. “As forças convencionais em si -tanques, artilharias, etc.- já não têm relevância estratégica”, comenta Antonenko. Outra coisa, por exemplo, é a vontade dos EUA de instalar mísseis e radares na Polônia e na República Checa para seu escudo espacial. Ou os contrastes sobre tratados nucleares.

“A Rússia manteve um perfil discreto durante muito tempo. Foi paciente, apesar da atitude expansionista da Otan. Agora seus progressos econômicos respaldam posições de maior firmeza na defesa de seus interesses nacionais”, observa Vladimir Orlov, presidente do Centro de Estudos Políticos em Moscou. O Kremlin mostra os músculos.

“Nesse movimento devem-se levar em conta algumas coisas. Apesar do crescimento, o PIB russo tem praticamente o mesmo tamanho que o da Holanda. Isso esclarece as relações de força”, indica José Ignacio Torreblanca, diretor do Conselho Europeu sobre Relações Exteriores em Madri. “A Rússia, que além disso é um país em declínio demográfico, não tem força para financiar um gasto militar realmente ameaçador.”

“Por outro lado”, continua Torreblanca, “creio que a atitude russa em relação ao exterior corresponde em grande medida a motivações de política interna. Essa atitude produz consenso político. Mas acentua o retrocesso da ordem multilateral a que assistimos. Retrocesso para o qual os EUA também contribuem. O mundo está se obscurecendo.”

Nesse quadro, os analistas concordam em salientar a relevância das tensões ao redor do Tratado sobre Armas Nucleares Intermediárias. Com esse acordo bilateral, Moscou e Washington pactuaram a eliminação dos arsenais de mísseis com alcance entre 500 e 5.500 km. O Kremlin pede uma internacionalização do acordo, alegando que enquanto a Rússia está de mãos atadas seus países vizinhos podem desenvolver livremente seus arsenais. “É claro que há um problema aí. A Rússia destruiu seu arsenal e agora se preocupa com a China, Índia, Paquistão, Irã”, comenta Kaiser. “Um novo tratado que preveja a eliminação é impossível, esses novos países não aceitariam destruir suas armas nucleares. Mas é possível pensar em um novo tipo de disciplina que torne o cenário mais estável. Penso em normas que permitam inspeções, transparência. Inclusive estabelecer limites legais; por exemplo, cem ogivas para cada país.”

Kaiser está convencido de que, apesar de haver “novos atores, e até atores não-estatais com armas de destruição em massa”, os sistemas de controle de armamentos não devem ser abandonados. Acredita que uma mudança de rumo em Washington permitiria reatar o diálogo com eficácia. Antonenko, por sua vez, se diz totalmente “cética” sobre a possibilidade de que sistemas desse tipo possam ter sentido em “um mundo tão fragmentado quanto o atual”.

El País
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O mito e o real

Gianni Carta

Marcado por protestos em várias partes do mundo, o ano de 1968, o mais simbólico do século XX, tem sua importância reavaliada por historiadores e protagonistas

Quarenta anos atrás, manifestações sacudiram o planeta, mulheres e negros lutaram pelos seus direitos civis, os assassinatos de Martin Luther King e Robert Kennedy traumatizaram os Estados Unidos, os soviéticos invadiram Praga, e criou-se a impressão de que o mundo mudava. No entanto, neste aniversário do lendário ano de 1968 não se sabe ao certo se vale a pena assoprar velas.

Dentro de três meses, saberemos como a França se comportará. A mítica revolta de maio de 68 foi iniciada por um punhado de alunos da Universidade de Nanterre, Paris, insatisfeitos com o “sistema” autoritário e com a burocracia responsável pelo financiamento da instituição. Nanterre, sob a liderança do franco-alemão Daniel Cohn-Bendit (teria sido seu papel amplificado pela mídia, minimizando, assim, a participação de outros líderes apolíticos ou filiados a partidos e sindicatos?), teria engatilhado mais enfrentamentos quase-revolucionários Europa afora e na América Latina.

De modo geral, tratava-se de uma juventude disposta a se rebelar contra a rigidez da polícia, das administrações universitárias e de seus pais. Mas o mais sólido elo entre manifestantes de diversos países foi a oposição à guerra no Vietnã. Por que, então, quatro décadas após aquele marcante ano, tantas dúvidas sobre como interpretá-lo permanecem sem respostas?

Em May 68: A Contested History, a avaliação do historiador Chris Reynolds, da Nottingham Trent University, do Reino Unido, é válida também para certos países. “Quando consideramos os eventos (na França), suas conseqüências, interpretações ou explicações, é bastante difícil, se não impossível, de se chegar a um real consenso”, argumenta Reynolds.

Um exemplo de falta de consenso é sobre o papel da polícia, em particular das Companhias Republicanas de Segurança (CRS), no confronto com os estudantes em Paris. Após o sumiço do presidente Charles de Gaulle (ele pretendia renunciar ao rumar com a família para Baden-Baden, ou criar suspense?), e seu subseqüente discurso de 30 de maio, no qual anunciou o fim do conflito, veio chumbo por parte do governo, preocupado com obstáculos surgidos durante a campanha legislativa, em junho (pressionado, De Gaulle dissolveu a Assembléia). Foi banida uma série de grupos de esquerda e jornais. Gilles Tautin, um estudante, e dois operários da Peugeot, Pierre Beylot e Henri Blanchet, foram mortos pelas CRS.

Há quem defenda a tese de que o número reduzido de mortos (sem contar os feridos), naquela delicada situação, demonstra a habilidade da polícia. Cenas de brutalidade foram, porém, confirmadas pela televisão, nova tecnologia que transformou os noticiários, e influenciou vários manifestantes apolíticos a participarem do conflito, a favor dos estudantes.

Violência, diga-se, não faltou em outros países. Por tabela, alguns experts dizem que o fenômeno, em Paris, deve ser incluído num contexto internacional. Reynolds pondera, contudo, que “cada região experimentou os eventos de sua própria maneira, com várias motivações, devido a diversas demandas”, e o mesmo se aplica a outras cidades espalhadas pelo mundo. Em suma, é mítica a percepção de que Maio de 68 só aconteceu em Paris, e não no resto da França.

No México, em outubro, o Exército reagiu com brutalidade a manifestações de estudantes por melhores condições nas universidades. O episódio, que passou à história como o Massacre de Tlatelolco, acabou na morte de 48 universitários e cerca de 500 presos e feridos.

Em Berlim, houve protestos contra a guerra no Vietnã, a primeira a ser televisionada. Ao contrário da França, na Itália os estudantes uniram-se à classe operária. Após duas semanas de demonstrações contra a brutalidade da polícia, a Universidade de Roma foi fechada. Uma das repercussões de 1968 foi a proliferação de movimentos armados, como as Brigadas Vermelhas, na Itália, e o Baader-Meinhof, na Alemanha.

Em Varsóvia, narra a CartaCapital o jornalista Leszek Mazan, então com 26 anos, uma peça do poeta Adam Mickiewicz no Teatro Nacional foi banida. “Isso foi pretexto para manifestações estudantis em Varsóvia, Cracóvia, Lódz e outras cidades”, diz Mazan. Em 21 de agosto, os soviéticos invadiram Praga e prenderam o primeiro-secretário do Partido Comunista, Aleksander Dubcek, o qual havia tentado estabelecer reformas democráticas na então Tchecoslováquia.
“Após 68”, diz Mazan, que seria correspondente em Praga durante a década de 70, “o país viveu mais 21 anos de tirania.”

Leland Emerson McCleary, professor de letras modernas da Universidade de São Paulo (USP), presente, aos 24 anos, em manifestações de 1968 no seu país natal, os Estados Unidos, avalia: “Maio de 68 não significa nada para mim, especificamente. Nos Estados Unidos, toda a década de 60 foi de protesto. Ainda no colegial, em Houston, Texas, no início da década de 60, tomei parte em manifestações que uniam brancos e negros, a fim de provocar estabelecimentos segregados, como restaurantes”.

Elizabeth Vance, em 1968 aluna de pós-graduação da California State University at Long Beach, hoje professora de Sociologia no Santa Monica College, resume: “1968 foi um ano caótico, ligado, em grande parte, ao envolvimento dos EUA no Vietnã. Martin Luther King foi assassinado em 4 de abril, o senador Robert F. Kennedy foi morto em 5 de junho, e, em agosto, tivemos demonstrações na Convenção Nacional do Partido Democrata, em Chicago”. Vance afirma que participou de várias manifestações. “Certamente fui fotografada pela CIA.”

Perguntada sobre quais foram os legados dos anos 60, Vance responde: “Foram os anos nos quais uma resistência a desigualdades e contra a guerra aumentou dramaticamente”. A socióloga acrescenta que “as mulheres deram largos passos. Além disso, a pílula lhes deu maior liberdade sexual. Os gays continuam lutando, mas nos anos 60 conseguiram vitórias. Os negros iniciaram o movimento de direitos civis, e Martin Luther King deu continuidade a ele”.

Mais pessimista, Wilton Woods, universitário em 1968 e manifestante contra o Vietnã, crê que, com a morte de Luther King, o movimento de direitos civis a favor dos negros arrefeceu. “Os negros conseguiram avanços nos últimos anos em várias áreas, mas foram muito superficiais em outras”, argumenta Woods, ex-editor da quinzenal Fortune. “Mas a popularidade de negros não foi conseguida no tablado político, e sim graças a atletas negros e à mídia que divulga suas imagens.”

Woods acredita que a cobertura da mídia da violência em Chicago, em 1968, centrada no ponto de vista da polícia, abriu caminho para os reacionários tomarem o poder. “Durante uma geração, as cenas de violência, em Chicago, foram usadas pelos republicanos e outros grupos conservadores para atacar democratas, hippies, e manifestantes em geral”, afirma. O resultado, interpreta Woods, foram as eleições de Richard Nixon e Ronald Reagan, e a tomada do Congresso pelos republicanos, nos anos 90.

Na França, argumenta Reynolds, a “falta de consenso” gerou novas análises sobre Maio de 68 a partir dos hedonísticos anos 80. Aquele período passou a ser visto por significante fatia da população (incluindo o atual presidente Nicolas Sarkozy) como um “carnavalesco psicodrama”. Mais: 1968 perdeu seu “apelo romântico”, e teria impulsionado a predominância do capitalismo na França. “Criou, assim, o oposto daquilo que pretendia realizar”, conclui Reynolds.

Carta Capital

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‘O governo deve ficar longe da função de mediar o debate público’

Roldão Arruda

Para o jornalista Eugenio Bucci, ex-presidente da Radiobrás, entre 2003 e 2007, e atual professor visitante do Instituto de Estudos Avançados da USP, quase todos os meios públicos de comunicação no Brasil ainda são verdadeiros feudos de governantes, que os utilizam para a promoção pessoal e de seus grupos políticos. Isso só pode mudar com mais debates e maior esclarecimento da população sobre o assunto. Na entrevista a seguir, Bucci fala dos projetos de criação de uma nova TV estatal, condena os gastos com propaganda governamental, que não teriam nenhuma utilidade além da promoção dos donos do poder, e faz uma recomendação: “O governo deve ficar longe da mediação de debates públicos.”

Doutorado pela Escola de Comunicação e Artes da USP, autor de seis livros, nos quais discute sobretudo ética e comunicação, e integrante do conselho da TV Cultura de São Paulo, Bucci passará a escrever quinzenalmente para o Estado, na seção Espaço Aberto, na página A2.

Como o sr. vê a montagem de uma nova rede de radiodifusão pública, a TV Brasil? Ela é necessária?

Vou responder em dois níveis. Um conceitual e outro mais prático. Conceitualmente, uma democracia precisa de uma forma de radiodifusão que não seja comercial. O espaço público, se dominado por formas de comunicação apenas comerciais, corre o risco de não ter como dar vazão a temas que não são economicamente interessantes, a conteúdos economicamente inviáveis. Um exemplo: se a TV Cultura, de São Paulo, ficar presa apenas àquilo que é lucrativo, jamais vai ter programas com orquestras sinfônicas. Esse gênero de música não tem muito apoio. Enfim, é necessária uma complementaridade entre o público e o comercial.

E a questão de ordem prática?

Não vejo sentido em perseguir um sonho de TV pública. É preciso que se trabalhe pela construção de um sistema de comunicação que conjugue rádio, TV e, sobretudo, internet. O sonho da TV pública é um sonho de 50 anos atrás, quando a Europa sai da Segunda Guerra debatendo de que forma o espaço público poderia ser protegido da colonização promovida pelo mercado e pelo capital.

Um dos principais focos do debate em torno da nova emissora pública é o temor do controle e da manipulação do conteúdo.

Quando alguém fala no risco de manipulação ou de uso político da comunicação pública no Brasil, eu digo que isso não é um risco, mas a regra. Sempre aconteceu. Tradicionalmente, as instituições públicas de radiodifusão são uma espécie de reserva ecológica do patrimonialismo. Um patrimonialismo simbólico, porque os governantes não se apropriam das coisas que estão lá, mas fazem com que elas trabalhem pela sua promoção pessoal. Quando comecei a tomar contato com esses lugares, percebi a existência de uma enorme quantidade de gente contratada sem concurso, por causa de afinidades políticas, não por competência.

Esse comportamento é generalizado nas televisões mantidas pelos Estados?

Quase todos os Estados da Federação têm hoje a sua rede institucional de comunicação, com rádio e televisão. E em quase todos é comum o uso político-partidário do conteúdo do que veiculam a favor do governo. É a tradição. Portanto, se existe um risco hoje no Brasil, é o de mudar esse quadro. Essas instituições precisam de transparência, de profissionalismo, de rigor administrativo - mais do que de recursos. O seu conteúdo deve ser comprometido com o direito de informação do cidadão, não servir de caixa de ressonância ou de linha auxiliar de promoção pessoal dos governantes.

A Cultura de São Paulo se encaixa nesse padrão?

Sempre existem exceções. A TV Cultura é responsável pelas melhores produções da TV pública no Brasil. Por quê? Porque teve momentos de autonomia de gestão, de independência. A TV Cultura tem um conselho com garantias formais de autonomia. Embora seja vulnerável a pressões do governo, esse conselho, pelas suas regras de funcionamento, pela maneira como é organizado, consegue ser independente. A Cultura é talvez o melhor exemplo que nós temos hoje de comunicação pública no Brasil.

Do que viu até agora, acha que a criação da nova rede está sendo conduzida de forma correta?

É evidente que existe a ameaça de manipulação. Mas se ela tiver - como está prometido - um conselho realmente independente, sem uma pauta governamental, é possível que no futuro o País ganhe com isso. Essa possibilidade não está fechada. Vamos esperar.

Como vê a introdução de anúncios publicitários na programação da Cultura?

Acho um erro, uma concessão estética e prática à lógica da comunicação comercial. A TV pública não deveria veicular anúncios de mercadorias e de serviços como qualquer outra TV comercial. Poderia veicular apoios institucionais, uma fórmula consagrada em vários lugares do mundo.

Ainda a TV Brasil: a idéia de sua criação ganhou corpo com as acusações, feitas pelo PT, de que a mídia distorceu fatos - especialmente na cobertura do mensalão e do dossiê Vedoin - para prejudicar o governo. Em mais de uma ocasião, falou-se na necessidade de uma contracorrente na área de informações. Como vê isso?

Essa é a pior razão do mundo para se construir uma mídia pública. Ela é necessária não porque a comunicação comercial seja de má ou de boa qualidade, mas por ser de outra natureza.

Acha que a mídia errou na cobertura dos episódios citados?

Existiram momentos de infelicidade na cobertura, mas o pior erro não aconteceu.

Qual seria?

Não ter feito a cobertura. Podem ter acontecido distorções, preconceitos, julgamentos, mas foi no interior de um movimento correto na sua essência, que é informar o público. A imprensa cumpriu seu dever de apurar, informar e levantar o debate, permitindo que as partes se manifestassem. Nos debates internos, nos setores de comunicação pública, mais de uma vez eu disse: vamos tomar mais cuidado nas restrições à imprensa, porque, se dependesse de nós, da Radiobrás e das outras emissoras públicas, o País não teria ficado sabendo do que aconteceu. As nossas ferramentas de cobertura na época chegaram atrasadas a esse evento. Depois nós fizemos uma elogiada cobertura, com mais de 3.500 matérias veiculadas pela Agência Brasil sobre o mensalão, mas é importantíssimo registrar que não foi a cobertura da Radiobrás que levantou o tema. Foi a imprensa comercial.

O governo precisa de meios para defender suas causas?

O governo deve ficar longe da função de mediar o debate público. Uma das garantias do funcionamento democrático reside justamente nesse ponto: governo governa, mas não faz a mediação do debate público. Ele não deve ter uma emissora que ponha em pauta aquilo que lhe interesse.

O senhor tem se dedicado a estudar a internet. Acha que ela deve substituir os atuais meios de comunicação, como os jornais?

A internet deveria ser comparada mais à rede elétrica do que a um meio de comunicação propriamente dito. Ela transforma informação em energia elétrica, abastecendo todos os pontos. Não é um meio de comunicação, mas um ambiente para vários meios - a mídia escrita, a publicidade, games. Você tem ali todo tipo de interconexão, de aproximação entre pólos diferentes, por meios diferentes. É um ambiente, e nesse sentido não disputa com outros meios de comunicação.

Como vê a questão da confiabilidade das informações numa rede que aceita e redistribui tudo?

Essa é questão mais fascinante. O cidadão começa a se perguntar cada vez mais, e com razão, em quem confiar? Estão surgindo respostas novas. De um lado ele tende a buscar selos de responsabilidade tradicionais - e aí os jornais saem na frente, assegurando posições, com a garantia de que a informação foi apurada e trabalhada, sem a contaminação de interesses comerciais, governamentais ou de grupos de influências. Por outro lado, existem soluções inovadoras. Um exemplo é a Wikipedia, enciclopédia elaborada anonimamente e cada vez mais mencionada como uma fonte confiável de informação. A internet traz essas possibilidades que antes não estavam postas. De qualquer maneira, o problema da credibilidade é nevrálgico.

Na Radiobrás, o senhor foi pressionado por petistas a dar uma cor mais partidária à cobertura dos fatos, numa situação que levaria à partidarização de um órgão público. Acha que o PT confunde partido com governo e Estado?

Essa confusão é outra tradição perversa da política brasileira. Está longe de ter sido inventada pelo PT. Em outras épocas, ela foi mais grave, porque envolvia partido, governo, Estado e famílias, com oligarquias que prevaleciam dentro e fora do governo, agindo como poder público, dominando meios de comunicação supostamente privados, numa promiscuidade tenebrosa. A vacina contra isso é o esclarecimento da opinião pública - por mais iluminista que pareça a formulação.

Como vê os gastos governamentais com propaganda?

Isso é no mínimo muito discutível. Em primeiro lugar porque raramente algumas dessas peças de publicidade governamental são realmente de utilidade pública. Quase sempre a utilidade pública é um pretexto, para que fique um rescaldo de imagem positiva do governo. Não se fala o nome do governante, mas se inventa um logotipo comercial, uma marca para aquela administração - sempre com a intenção de que reverta em capital eleitoral. No interior, em cidades de pequeno e médio porte, a situação é mais grave. Ali se encontra uma seqüência enorme de emissoras de rádio e pequenos jornais que não sobrevivem sem as verbas públicas dos municípios e dos Estados. Nos grandes centros, os grandes jornais atendem aos requisitos formais da independência editorial. Se o governo corta o anúncio dessas empresas, elas não vão à falência. Mas no interior o risco é grande - e, por isso, o dinheiro público jogado em veículos comerciais se converte num instrumento de pressão e de cooptação.

Por que não continuou à frente à Radiobrás?

Entrei para ficar só um governo, porque nunca tive intenção de ser administrador público de carreira e porque o rodízio é bom. Na função pública, é importante a consciência de que a gente não refunda nada, não cria, não inaugura. A gente absorve a experiência de quem veio antes, dá seqüência aos bons projetos e deixa uma perspectiva ao que vem depois. Essa ilusão de que você é fundamental só atesta que não confia na dinâmica natural das renovações da democracia.

Estende isso a todos os cargos públicos?

Todos. Inclusive à Presidência. Nada mais indigno que um presidente da República que julgue ser melhor para a sociedade a permanência dele no cargo indefinidamente. No fundo, está dizendo que a sociedade não é capaz de produzir soluções melhores do que ele.

Jornal Estado de S. Paulo
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O mundo refém das finanças

Por que o estouro da bolha imobiliária dos EUA é uma ameaça à economia internacional. Quais as novas formas de especulação nos mercados financeiros, e de que modo elas podem propagar a crise. Como os grandes bancos e fundos de investimento transferem a conta de sua irresponsabilidade para os Estados e sociedades

Frédéric Lordon

Há dois séculos, Hegel deplorava a incapacidade crônica dos Estados de aprender com as experiências da história. Os governos não são os únicos poderes incapazes de aprender. O capital – notadamente o financeiro – também parece condenado à perseverança no erro, à aberração recorrente e ao eterno retorno da crise financeira. Apesar de envolver novos “produtos”, a atual crise dos mercados de crédito permite entrever, uma vez mais, os ingredientes quimicamente puros do desastre. Também oferece, a quem quiser enxergar, uma oportunidade a mais para refletir sobre as “vantagens” da liberalização dos mercados de capitais.

É que a crença financeira não se dissipa com facilidade. Logo ela, que se vangloria de ser a encarnação do princípio de realidade, que submete as empresas à “validação dos fatos”, segundo os critérios do “reporting” (prestação de contas trimestral) e do “track record” (histórico de desempenho), mantém-se ignorante do que a história recente — sua própria história — lhe entrega de bandeja. É que o “track record” da liberalização financeira não tem boa reputação. Desde que ela se impôs, tem sido difícil passar mais de três anos seguidos sem um incidente de envergadura. Quase todos poderiam figurar nos livros de história econômica: 1987, quebra dos mercados de ações; 1990, quebra dos “junk bonds” (“títulos podres”) e crise das “savings and loans” (instituições financeiras de poupança e empréstimos) norte-americanas; 1994, crise de debêntures norte-americanos; 1997, primeira fase da crise financeira internacional (Tailândia, Coréia, Hong Kong); 1998, segunda fase (Rússia, Brasil); 2001-2003, estouro da bolha da Internet.

E aqui estamos nós, em 2007. Leitura dos devotos: “A globalização é auspiciosa, mas dolorosa” [1]. No Le Monde, Pierre-Antoine Delhommais deleita-se com a resistência da besta diante de tantos choques de vulto — que parecem prestes a matá-la, apenas para vê-la reerguer-se caminhar com ânimo renovado. Omite-se quanto custou, aos assalariados, pagar a conta da embriaguez financeira em cada ocasião. Invariavelmente, o solavando dos mercados atinge os bancos, e portanto o crédito; em seguida, os investimentos, o crescimento e o emprego.

Seria necessário quem sabe, que o jornal fosse adquirido por um fundo de investimentos um pouco impiedoso para que, ao viver a experiência concreta do “downsizing” (“enxugamento”), o jornalista se visse mais impelido a calcular o número de empregos destruídos em função das práticas do mundo financeiro e de suas crises.

A crise dos mercados de crédito que castiga a economia norte-americana oferece uma visão quase ideal das relações fatais da especulação desenfreada. Como em uma parada, desfilam novamente as toxinas gerais do mundo financeiro, sempre as mesmas e numa ordem absolutamente idêntica: 1. as tendências “Ponzi” da especulação; 2. a lassidão das avaliações de riscos na fase de alta do ciclo financeiro; 3. a vulnerabilidade estrutural a uma pequena mudança de ambiente e o efeito catalizador de um enfraquecimento pontual do sistema, que precipita a reviravolta; 4. a revisão instantânea das estimativas; 5. o contágio de outros setores do mercado; 6. o choque dos bancos excessivamente expostos; 7. a ameaça de um acidente sistêmico, ou seja, de um colapso global, seguido de uma recessão generalizada por estrangulamento do crédito e um pedido de socorro aos bancos centrais feito por todos os fanáticos da livre iniciativa privada.

1. AS TENDÊNCIAS “PONZI” DOS MERCADOS
Como “pirâmides da felicidade”, as bolhas especulativas apóiam-se numa hipótese impossível: a de que novos investidores sempre entrarão na ciranda, para sustentar os ganhos dos que chegaram antes

Provavelmente, ninguém melhor do que Hyman Minsky evidenciou os encadeamentos da economia de mercado, resumidos por ele na eloqüente expressão “cegueira ao desastre” [2]. Minsky dedicou particular atenção aos distúrbios provocados por Charles Ponzi, especulador dos anos 20, que iludiou pessoas ingênuas, seduzidas por promessas de rendimentos extraordinários. Na falta de qualquer ativo real capaz de cobrir os rendimentos anunciados, Ponzi oferecia a seus primeiros clientes o capital aportado pelos que vinham depois. A sustentabilidade do conjunto supunha, portanto, a manutenção infinita do fluxo de novos clientes.

Próximas à fraude, todas as bolhas especulativas baseiam-se num mecanismo bastante semelhante. Elas requerem uma entrada constante de investimentos, para manter o mercado em alta e a ilusão de que, assim, todo mundo ganha. O segredo da bolha é a adesão especulativa. Investimentos de alta rentabilidade atraem aplicadores cada vez mais comuns — portanto, cada vez menos esclarecidos, porém mais numerosos.

Para que o crescimento do mercado imobiliário norte-americano se prolongasse, se possível ad aeternum, era necessário que grupos cada vez mais significativos de famílias fossem levados a procurar o mercado de empréstimos hipotecários. Com a ajuda do sonho norte-americano de ser proprietário, não foi difícil convencê-los no início. Escaldados pela queda das ações no estouro da bolha da internet, eles estavam à procura de outras formas de investimento. Mas o contingente de tomadores de empréstimo “saudáveis” esgotou-se rapidamente. Como o mercado precisava imperativamente ser sustentado, as instituições financeiras foram à procura de novos clientes. Os rios de dinheiro emprestados levaram os preços dos imóveis às alturas.

Mesmo que não seja possível manter o pagamento da dívida, famílias e emprestadores julgam que o imóvel poderá ser vendido com valorização para uns e comissão para outros. A crença no crescimento incessante do mercado leva a aprovar qualquer empréstimo. As torneiras do crédito são abertas por completo, e a alta especulativa parece dar razão a todos. Surge a categoria das hipotecas de segunda linha (subprime mortgages) — cujos beneficiários têm capacidade de pagamento mais que duvidosa. Como a euforia está no auge, todos os limites podem ser ultrapassados. Criam-se figuras como os empréstimos “Ninja”: “No Income, No Job or Asset”, ou seja concedidos a clientes, “sem renda, sem emprego ou sem ativo (a ser dado como garantia)” — e o champanhe de brinde, talvez.

2. LASSIDÃO NAS AVALIAÇÕES DE RISCOS
Fantástico milagre da securitização: em teoria, qualquer empréstimo pode ser fatiado em infinitos pedaços, para que os riscos de inadimplência sejam pulverizados até se tornarem irrisórios

Mas o mercado financeiro, que costuma se dizer especialista em controle de riscos tem alternativas. Ele não peca jamais por falta de criatividade. A grande mágica? Os “produtos derivados”. O problema de um crédito, ainda mais quando de risco, é que ele continua nos livros contábeis de quem o concedeu até sua liquidação — seja ela boa ou ruim. O grande achado, que remonta ao início dos anos 90, consiste em “fundir” um certo número de créditos para, com lastro neles, emitir títulos negociáveis. A grande vantagem dessa operação, adequadamente chamada de “securitização”, é o fato de que os títulos assim “fabricados” podem ser vendidos nos mercados em pequenos lotes a múltiplos investidores (institucionais). E eis que, então, os créditos duvidosos saem do balanço do banco. Compreende-se agora que ele os conceda com tanta facilidade: pode livrar-se deles assim que forem securitizados!

Por que os investidores querem comprar aquilo de que o banco quer se livrar? Para começar, porque adquirem os títulos em pequenas quantidades e, sobretudo, porque esses papéis são negociáveis, ou seja, podem ser novamente vendidos. Além disso, a linha de títulos derivada do grupo inicial de créditos é recortada em diferentes fatias de risco homogêneas. Conforme seu próprio perfil, cada investidor institucional garimpará na fatia que lhe convém, sabendo que sempre encontrará algo — especialmente os “hedge funds” [3]. Mesmo as fatias de alto risco são atraentes, por oferecerem maior retorno… enquanto tudo vai bem.

Evidentemente, a instituição que fez o empréstimo inicial transfere todos os direitos (juros e amortizações) e riscos (de inadimplência) aos portadores desses títulos, chamados de RMBS (“Residential Mortgage Backed Securities”, ou seja, títulos amparados em créditos imobiliários). Porém, esses portadores são tantos — e mudam tanto — que daí decorre uma extraordinária dispersão do risco global. Antes, o banco enfrentava sozinho a inadimplência relativa a um de seus empréstimos. Agora não somente está totalmente desembaraçado como também as conseqüências do não-pagamento estão pulverizadas entre uma miríade de investidores. Cada um assume uma parte mínima do risco, diluída no conjunto de sua própria carteira.

Riscos diluídos… ou subestimados?
Mas então, por que o alarme se, com o milagre da securitização, o mercado financeiro resolveu a quadratura do círculo? Ocorre que as piores fatias de uma dívida recebem um tratamento especial, para serem mais facilmente escoadas. Alguns investidores re-fatiarão os próprios RMBS que adquiriram. Emitirão um novo tipo de títulos negociáveis, os CDO (Collateralised Debt Obligations). Títulos derivados de títulos, os CDOs podem ser de três tipos, correspondentes ao risco de inadimplência da fatia da dívida a que se referem. A fatia superior, chamada de “investment grade”, torna seus portadores imunes aos primeiros 20% ou 30% de inadimplência sobre os créditos imobiliários iniciais. Segue-se uma fatia intermediária, chamada de “mezzanino”, e finalmente uma mais baixa, que sofrerá o choque das primeiras insolvências.

Dá-se o nome pudico de “equity” a essa fatia, mas a linguagem dos mercados diz as coisas mais na lata: “toxic waste”, ou seja, “resíduos tóxicos”. Esses produtos elevam o risco ao quadrado, pois representam a fatia de maior risco dos CDOs, derivada da fatia mais arriscada dos RMBSs, retirados da carteira inicial de créditos. Mas, enquanto o mercado imobiliário seguir em alta e as famílias continuarem pagando as dívidas, sempre haverá quem compre os papéis. Como a toxicidade ainda não está materializada, o que aparece são as remunerações espetaculares.

Um dos segredos do desempenho dos “hedge funds” é levantar fundos a taxas mais baixas e investir em títulos de alto risco, que remuneram proporcionalmente — ou seja, muito. As margens são enormes, os “resíduos tóxicos” são vistos como minas de ouro e os golden boys fazem a festa. Os lucros faraônicos mascaram os riscos objetivos, que ninguém quer enxergar para que a ciranda gire o maior tempo possível.

3. DA VULNERABILIDADE ESTRUTURAL À INSOLVÊNCIA
A construção cresce como um enorme castelo de cartas. Em certo ponto, qualquer pequeno incidente é capaz de ameaçar todo o edifício

A dispersão dos riscos por meio das operações de securitização em cadeia acabou levando a crer que eles não mais existiam. É uma ilusão. Ainda mais porque essa doce embriaguez logicamente induziu a comportamentos cada vez mais aventureiros. Já que estou me desfazendo dos meus créditos, mesmo dos piores, diz a si mesmo o financiador imobiliário, então o negócio é ir cada vez mais fundo nos empréstimos. E já que o mercado está com liquidez, diz a si mesmo, na outra ponta, o “hedge fund”, por que não comprar os CDO mais podres, que são os mais lucrativos? Os riscos certamente foram diluídos, mas a própria diluição engendrou um crescimento totalmente descontrolado de seu volume global e a situação caminha suavemente para as zonas críticas.

A fragilidade estrutural do edifício agora é tal que ele se torna vulnerável a modificações do ambiente a priori insignificantes. A elevação de 0,25% na taxa de juros pelo banco central dos EUA (o Federal Reserve, FED) aparentemente não é nada. Exceto pelo fato de que, na outra ponta da curva de riscos, o crédito imobiliário de Mrs. Brimmage passou dos 6,3%, em 2005, para 11,25%, e suas parcelas mensais subiram de 414 para 691 dólares [4]. Razão mais que suficiente para ela deixar de pagar. Como ela, 14% dos tomadores de empréstimo subprime entraram em inadimplência no primeiro trimestre de 2007.

Falando em termos modestos, as altas da taxa de juros do FED têm um duplo efeito de corte. De um lado, há menos gente entrando no mercado imobiliário e os preços começam a baixar. De outro, aqueles que estão nele vêem as parcelas de suas dívidas se tornarem insuportáveis. A própria possibilidade de “sair” do sistema fica comprometida. A eventual venda da propriedade, para tentar saldar a dívida, se fará por um preço inferior ao previsto. E a multiplicação das vendas acentua a pressão de baixa generalizada dos preços dos imóveis.

Como sempre ocorre nas crises financeiras, uma instituição financeira tem uma grande perda e o abalo provocado por seu colapso dá o sinal da grande virada. Nesse caso, duas falências — nas duas pontas da corrente — vieram colocar um ponto final na embriaguez dos mercados. Primeiro, foi o banco de investimentos Bear Stearns, que teve de fechar dois de seus fundos “dinâmicos”, ou muito lucrativos. Mas também o American Home Mortgage (AHM), agente imobiliário, teve de se colocar claramente sob a proteção do capítulo 11 da lei de falências norte-americana [5]. Esse fato é mais inquietante que o anterior. O AHM não está especialmente comprometido no compartimento dos empréstimos “subprime”. Será sinal de que as inadimplências estão se generalizando? Haverá outras instituições em dificuldades?

4. A REVISÃO IMEDIATA DAS AVALIAÇÕES DE RISCOS
A crise está provavelmente no começo. A queda do preço dos imóveis provocará uma onda de inadimplência que pode atingir os poderosos “hedge funds”

Desta vez, houve uma leve brisa de pânico. Os “toxic wastes” já cheiram bem mal e as pessoas começam a dizer que os CDOs antes tidos como mais seguros talvez estejam bastante contaminados. Mas como se pôde chegar a erros de avaliação tão monumentais? Com certeza, a complexidade objetiva da avaliação dos produtos derivados não tem nada a ver com isso. Com certeza, as agências de avaliação de risco (rating) avaliam essas fatias de CDO e RMBS às centenas. Entretanto, elas são, num certo sentido, impotentes. Seu próprio faturamento provém das instituições financeiras, que emitiram incessantemente títulos a serem avaliados — 40% do rendimento de 2006 da Moody’s foi conseguido com avaliações de produtos estruturados. Para que haja novos produtos a analisar, sem dúvida é preferível que os antigos sejam declarados saudáveis.

As agências de rating nunca souberam ser independentes dos entusiasmos do mercado que deveriam moderar. Na maior parte do tempo, lhe serviram de coro. Quem está próximo ao meio financeiro e vive às suas custas, tem dificuldade se mostrar independente, num momento em que todo mundo está enchendo os bolsos. Catastroficamente pró-cíclicas quando deveriam ser contra-cíclicas, as agências mantêm-se alheias durante a alta. Quando a reviravolta acontece, lançam-se, apavoradas, a fazer à revisão das avaliações anteriores, contribuindo para transformar o sobressalto em colapso.

E a crise provavelmente está apenas no começo. As falências imobiliárias que estão por vir caminham lado a lado com as teasing rates, as taxas muito atraentes que os corretores usam para seduzir os clientes. Nos últimos anos, uma das modalidades mais praticadas ficou conhecida como “2 + 28”. Nos dois primeiros anos, uma taxa de juros simpática. Nos 28 seguintes, a taxa plena, que causa problemas. Portanto, ainda não irrompeu a inadimplência relativa às vendas em 2006, e quase nada da de 2005 — as mais fortes da bolha imobiliária. Sem dúvida serão notáveis. Trarão grandes prejuízos aos “hedge funds”, empanturrados de seus produtos derivados.

E com a globalização das finanças e a estupidez financeira, nada disso se detém nas fronteiras norte-americanas. É nos EUA que o mercado hipotecário delira, mas a securitização daí derivada se oferece a todos os fundos especulativos do planeta. Os alemães, durante muito tempo considerados mornos e tediosos, agarrados a seus melancólicos bancos de varejo, decidiram, na virada do século, tornar-se “modernos” e se voltar mais decididamente para as atividades de mercado. Resultado: depois do grande susto de 1998 (risco russo) e das surras da bolha de internet (2001), eis que um banco, o IKB, encontra-se à beira da falência por causa da superexposição aos papéis subprime…

5. SUSPEITAS POR CONTÁGIO
Num dominó típico das crises financeiras, a descoberta de riscos num setor da economia desperta dúvidas sobre outros. Ninguém confia na solidez de atividades contaminadas pela especulação

Agora, tudo se encadeia de um canto a outro do globo e dos mercados. O frágil equilíbrio dos produtos derivados resistia enquanto ninguém o provocava — ou seja, enquanto todos fingiam acreditar que o mercado tinha liquidez. Mas assim que um dos atores sofre perdas exageradas e considera a hipótese de sair do sistema, vendendo seus CDO, o medo latente se cristaliza e todos os compradores desaparecem. Com a liquidez evaporada, os papéis, formalmente negociáveis, praticamente deixam de sê-lo. Torna-se quase impossível avaliá-los, já que seu preço pode virtualmente cair a zero.

Engraçado — até a hora em que se começa a chorar —, o comunicado do BNP-Paribas, que, em 9 de agosto, fechou três de seus fundos (também eles “dinâmicos”): “O desaparecimento em certos segmentos do mercado da securitização nos Estados Unidos conduz a uma ausência de preço de referência e a uma falta de liquidez quase total dos ativos dos fundos, não importa qual seja a sua qualidade ou classificação” [6]. Tudo isso não havia impedido que Baudoin Prot, controlador do banco, afirmasse categoricamente, uma semana antes, que a liquidez dos três fundos estava assegurada. Significa, sobretudo, que a inquietação ultrapassa amplamente o perímetro dos produtos de maior risco e contamina as fatias consideradas mais seguras.

Nesse seara tão fértil, o contágio não vai parar. Além de atingir todas as classes de risco dos RMBS e seus derivados, ele também se estende a outras partes do mercado que nada têm a ver com crédito imobiliário — exceto o fato de terem também caído na orgia dos créditos indiscriminados. É exatamente o caso do setor de private equity, esses fundos de investimento, vedetes das finanças nos últimos anos, que recompram integralmente empresas tidas como promissoras, fazem-nas sair da bolsa, reestruturam-nas no tranco para revendê-las, dois a quatro anos mais tarde, com forte valorização.

Tais fundos comprometem muito pouco dos seus capitais próprios. Mergulham fundo em dívidas, cujo serviço, aliás, transferem à empresa recomprada. A rentabilidade que resulta é excepcional. Atingiu tais níveis que os bancos literalmente se precipitaram para financiar tais operações. Num estado de quase mistificação, e persuadidos de que se ganha de todos os lados, concederam a esses fundos condições de empréstimo surpreendentes. É o caso dos chamados empréstimos covenant-lite, ou seja, livres de todas as cláusulas relativas a coeficientes financeiros elementares a que são normalmente submetidos os tomadores de empréstimo — “aconteça o que acontecer, nós estamos do seu lado”.

Melhor ainda são os chamados empréstimos PIK (Payment In Kind – pagamento em espécie) ou ainda IOU (I Owe You), cujos juros e principal são reembolsados não em dinheiro, mas em adicional de dívida acrescentado à dívida inicial. Os encargos de crédito orientados para os fundos de private equity atingiram volumes astronômicos. Ora, as operações desse tipo são particularmente vulneráveis no momento de desatá-las, já que se trata de revender ativos notoriamente sem liquidez: não blocos de ações, mas empresas inteiras. Ao primeiro acidente que ocorra em meio a essa operação — revenda impossível, adiada ou com desvalorização — será a vez de todo o setor viver seu momento dramático.

As recentes operações para captação de recursos financeiros acontecem de forma bastante trabalhosa, se comparadas com a facilidade exuberante dos meses anteriores. É que os bancos, antes cúmplices lassivos, tornam-se subitamente reticentes. Por um efeito de amálgama, típico das crises financeiras, a súbita revelação dos riscos em um setor suscita questionamentos paralelos em outros, onde a euforia quase produziu o mesmo estrago. Em 1994, os insucessos do México induziram a dúvida em relação à Tailândia, por um puro efeito de amá