Arquivo de 1 de Janeiro de 2008

O “pior” estádio do Brasil

Relatório revela as graves deficiências do campo de Salvador em que morreram sete pessoas quando caiu uma arquibancada

Juan Arias

O acidente que aconteceu no domingo no estádio Fonte Nova em Salvador, Bahia, com sete mortos -no início as autoridades informaram que eram oito- e 84 feridos, quando a arquibancada superior se desprendeu e atirou os espectadores no vazio de 20 metros de altura, poderia ter sido evitado se as autoridades tivessem levado em conta relatórios técnicos, e por isso se fala em uma “tragédia anunciada”. Um relatório do Sindicato Nacional de Empresas de Arquitetura e Engenharia, depois de analisar 27 estádios em 18 cidades, acabava de concluir que o Fonte Nova é “o pior” de todos. Segundo essa análise, seu estado é “lastimável” e não oferece “segurança nem conforto”.

As autoridades, que provavelmente fecharão o estádio de maneira definitiva, lavam as mãos. O governador do Estado da Bahia, Jacques Wagner, do Partido dos Trabalhadores, um dos políticos mais ligados ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, afirmou ontem que não sabia “nada” sobre a situação do campo e que agora cabe construir um novo. De sua parte, o secretário de Esportes, Nilton Vasconcelos, afirmou que tinha sido inspecionado no final de 2006 e que foi declarado apto. Acrescentou que esse estádio tinha recebido até 110 mil pessoas e que ultimamente sua lotação se limitava a 60 mil, aproximadamente o número de torcedores que enchiam as arquibancadas no domingo.

Ontem os engenheiros do Departamento de Polícia Técnica de Salvador começaram a analisar o local da tragédia. Segundo o diretor do órgão, Raul Barreto, pode ter-se tratado de um “desgaste de material”. De fato, algumas testemunhas afirmaram que onde a arquibancada caiu viam-se claros sinais de cimento desgastado.

A tragédia pegou de surpresa a bela cidade de Salvador, cuja população, amada em todo o país por sua ancestral cordialidade de cunho africano, se preparava para tomá-la de assalto e transformá-la em uma grande festa: o resultado da partida que acabou ensangüentada antecipava o retorno do clube local à segunda divisão. A equipe, que foi campeã brasileira em 1959 e 1988, acabou caindo para a terceira devido, segundo analistas, a suposta má gestão, desperdícios e abandono do estádio, cuja reforma tinha sido anunciada na quinta-feira pelo superintendente de Esportes da Bahia.

Apesar da situação desastrosa em que se encontrava o estádio de Fonte Nova, a cidade de Salvador tinha sido escolhida para sediar a Copa do Mundo de 2014.

El País
http://www.elpais.com/

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Mário de Andrade visita Adorno

Henry Burnett

Convergências e divergências entre o poeta e o filósofo a respeito da indústria cultural e da música popular

O titulo desse texto joga com um dado pouco mencionado quando estudamos a música popular brasileira sob o foco da filosofia da música de Theodor Adorno: a posição contemporânea ocupada por ele e Mário de Andrade.
Causa estranhamento que ainda não se tenha escrito um estudo de fôlego sobre eles, já que refletiram sobre música a partir de uma mesma preocupação, mais exposta em Adorno e um pouco mais nuançada em Mário: a hegemonia do capitalismo. Basta pensar que suas análises musicais partem justamente da música popular veiculada através dos discos e das rádios comerciais1. A despeito dessa proximidade inequívoca, eles permanecem isolados e desconectados. Embora existam muitos pontos de contato, gostaria de tomar apenas um em especial aqui, e ainda assim apenas como o resumo de um estudo mais aprofundado que está em curso: o olhar que ambos lançaram sobre a música popular.
Para que se possa pensar sobre os caminhos atuais da música popular no Brasil, os ensaios de Adorno ainda permanecem incontornáveis e fundamentais, ainda que, de um certo ponto de vista, se possa considerá-los limitados para dar conta do sentido mais profundo que a canção popular atingiu no seio da cultura nacional – o estilo adquiriu entre nós um nível lítero-musical jamais presenciado ou imaginado pelo alemão. Mas Adorno dedicou especial atenção à música em muitos de seus textos, livros e conferências, pois sempre acreditou que ela deveria ser discutida dentro dos círculos da filosofia e da sociologia acadêmica; por isso ele nos é imprescindível.
Mário de Andrade, por sua vez, desenvolveu importantes análises a respeito da música brasileira num momento paralelo à própria formação de uma musicalidade nacional. Suas análises, ainda hoje, são de extrema importância para quem se debruça sobre a história e a teoria da arte musical popular e erudita, ainda que sua visão a respeito da então nascente música comercial possa ser criticada em muitos pontos, como pelo nacionalismo por vezes exacerbado com que lidou com os domínios do folclore, imaginando ser possível quase domesticá-lo para fazer dele a fonte das criações eruditas. Ao aproximá-los, tentaremos mostrar que, de modos diversos, ambos estiveram preocupados com os destinos da música popular, ainda que tenham chegado a lugares completamente diferentes.

A música popular para Adorno
Quando Adorno escreve o prefácio ao livro Filosofia da nova música, de 1948, ele mesmo destaca o ensaio “O Fetichismo na música e a regressão da audição”, de 1938, como um momento determinante de seus estudos sobre a música2. Sua intenção no texto de 38 era apontar as modificações que a percepção musical sofria no interior da indústria cultural, alterações que teriam atingido não só o gosto como a própria faculdade de audição dos ouvintes modernos.
Esse texto, junto com outro do mesmo período, “Sobre música popular” (escrito com a colaboração de George Simpson, com quem Adorno trabalhou no The Princeton Radio Research Project, uma pesquisa sobre os fenômenos musicais das emissões radiofônicas nos Estados Unidos, na qual tomou parte convidado pelo pesquisador Paul Lazarsfeld3) serve de base para este comentário.
Sempre que Adorno escreve mais diretamente sobre música e indústria cultural, faz questão de marcar uma diferença entre a música popular e a chamada música clássica, que ele chama de “séria” (“serious music”). Tal posição, não significa uma parcialidade sua em proveito de uma música erudita que seria hierarquicamente superior à popular, antes parece ter sido gerada pela uniformização dos estilos veiculados nas rádios comerciais, que ele conhecia desde antes do exílio, ainda na Alemanha. E mais do que isso: o conceito de popular utilizado por Adorno, parece vinculado de forma muito estreita ao funcionamento e à especificidade do mercado norte-americano.
A bem da verdade, o que Adorno chama de popular não tem um correspondente similar no Brasil, como afirma Rodrigo Duarte: “Registra-se aqui uma confusão, que não é normalmente feita por Adorno nos textos em alemão, entre ‘música de massa’ e ‘música popular’. Para um norte-americano parece quase impossível fazer essa distinção, já que a autocompreensão dos EUA como uma cultura própria, independente da européia, se dá às vésperas da consolidação dos monopólios culturais. No Brasil, ainda podemos, felizmente, diferenciar -pelo menos em termos parciais- a cultura popular mais enraizada, daquela totalmente fabricada para o consumo, ainda que tenha raízes supostamente populares”4.
A representação mais clara desse processo de decadência da música popular para Adorno era o jazz. Num pequeno texto chamado “A indústria cultural” ele tenciona um pouco mais essa distinção: “A indústria cultural é a integração deliberada, a partir do alto, de seus consumidores. Ela força a união dos domínios, separados há milênios, da arte superior e da arte inferior. Com prejuízo para ambos. A arte superior se vê frustrada de sua seriedade pela especulação sobre o efeito; a inferior perde, através de sua domesticação civilizadora, o elemento de natureza resistente e rude, que lhe era inerente enquanto o controle social não era total”5.
Esses primeiros movimentos servem para indicar alguns pontos de contato entre a abordagem de Adorno do contexto norte-americano e a ligação disso com a canção popular do Brasil. O que aproxima, às vezes estreitamente, a perspectiva de Adorno da nossa é a abrangência global e, quase sempre, atual de suas observações. Vejamos: “Se perguntarmos a alguém se ‘gosta’ de uma música de sucesso lançada no mercado, não conseguiremos furtar-nos à suspeita de que o gostar e o não gostar já não correspondem ao estado real, ainda que a pessoa interrogada se exprima em termos de gostar e não gostar. Ao invés do valor da própria coisa, o critério de julgamento é o fato de a canção de sucesso ser conhecida de todos; gostar de um disco de sucesso é quase exatamente o mesmo que reconhecê-lo”6.
No artigo já citado de Iray Carone, encontramos o seguinte: “O negócio da música envolvia, como uma complexa indústria, os editores dos ‘sheets’ ou partituras com arranjos instrumentais e letras do sistema Tin Pan Alley, os donos de orquestras e arranjadores, as gravadoras de discos, os cantores famosos e suas editoras privadas, os ‘pluggers’ (promotores comerciais de músicas), os ‘disc jockeys’ e a prática da ‘payola’ (suborno usado pelas gravadoras para a divulgação intensiva de músicas na programação radiofônica) das emissoras, os interesses da máquina de produção de filmes sonoros de Hollywood etc.”7.
O cenário norte-americano que Adorno tinha diante de si não parece servir como parâmetro para um entendimento adequado do que se passou por aqui na mesma época. O resultado dos processos culturais específicos do Brasil não pode se posto à luz das análises de Adorno desconsiderando questões pontuais; uma entre tantas delas, o fato de que aqui não se produz música séria na mesma proporção que a popular por carências musicais, mas que o cancioneiro popular é hegemônico por conta de um imperativo histórico.
O que está aqui, digamos, para além de Adorno, é o papel diferenciado que as canções populares ocupam no Brasil, seu poder de emancipação, enquanto agente político que foi em momentos chave da história recente do Brasil, já distanciam nosso cenário daquele vislumbrado por ele. Mas isso Adorno não podia saber.
Quando ele reflete sobre o jazz, parece vê-lo apenas como fruto daquele processo de padronização, o que parece restritivo, mesmo que pensemos apenas no contexto americano. Ele não atribui, ou não pôde atribuir, quase nenhuma importância ao cancioneiro popular e nem ao jazz produzidos na América. Em alguns momentos, é muito difícil dialogar com Adorno nesse quesito, como diante de uma afirmação dessa natureza: “Seria igualmente cômodo ocultar a separação e a ruptura entre as duas esferas e supor uma continuidade, que permitiria à formação progressiva passar sem perigo do jazz e das canções de sucesso aos genuínos valores da cultura”8.
Creio que nós, que invocamos Adorno buscando nele um antídoto contra a opressão atual exercida pela indústria sobre o cancioneiro popular do Brasil, nos sentimos órfãos.

Mario de Andrade e um projeto de Brasil
Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De sopetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.
Não vê que me lembrei lá no norte, meu Deus!
/muito longe de mim,
Na escuridão ativa da noite que caiu,
Um homem pálido, magro de cabelo escorrendo nos olhos
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.
Esse homem é brasileiro que nem eu…
(Mário de Andrade, “Descobrimento”, de “Dois Poemas Acreanos”)

O poema, de certa forma, mostra que Mário caminhou na contramão de Adorno quando estudou e tentou caracterizar a música popular em geral. Ele já sugere no poema que o Brasil é muito maior que a cidade de São Paulo -e, portanto, maior que o louvor da sofisticação trazida com o capital e os ideais de progresso sem freios- e que o essencial para qualquer projeto de país, já naquele momento, passava pelo entendimento de nosso não-lugar, isto é, de nossa condição multicultural: “Cabe lembrar mais uma vez aquilo do que é feita a música brasileira. Embora chegada no povo a uma expressão original e étnica, ela provêm de fontes estranhas: a ameríndia em porcentagem pequena; a africana em porcentagem bem maior; a portuguesa em porcentagem vasta (…). Além dessas influências já digeridas temos que contar as atuais. Principalmente as americanas do jazz e do tango argentino. Os processos do jazz estão se infiltrando no maxixe. Em recorte infelizmente não sei de que jornal guardo um ‘samba macumbeiro, Aruê de Changô’ de João da Gente que é documento curioso por isso. E tanto mais curioso que os processos polifônicos e rítmicos de jazz que estão nele não prejudicam em nada o caráter da peça. É uma maxixe legítimo. De certo os antepassados coincidem…”9.
Como se vê, desde muito cedo, Mário não estava alheio aos fenômenos de massa e compreendia com lucidez onde e como esses fenômenos agiam sobre a música popular do Brasil. Suas observações, fruto de grande erudição e das viagens que ele empreendeu e organizou país afora, mostram que, desde as origens, nossa música foi alimentada por uma teia de influências de grande complexidade. Essa aproximação da canção popular com o jazz, por exemplo, muitas décadas antes que se desse o mesmo vínculo através da bossa nova, mostra que já havia uma tendência comercial na produção popular, mas que essa ligação entre entretenimento e boa música ainda não era uma relação excludente.
Com isso, se quer confirmar, com Adorno, que o modo de produção capitalista foi avassalador, mas que, contra ele, a arte musical no Brasil não foi abatida como, eventualmente, se deu nos EUA, se acatamos sua análise sem restrições críticas. Mas como é quase consensual, a despeito das diferenças entre o jazz e os ritmos brasileiros na primeira metade do século XX, Adorno não parece ter enxergado devidamente a importância e o significado histórico do gênero nos EUA.
A resistência de Adorno ao jazz pode ser interpretada de várias formas. Em 2003 foi publicado o livro de Christian Bèthume, “Adorno et le jazz - analyse d’um dèni esthétique”. Na resenha do livro, Iray Carone fornece uma hipótese interessante: “Adorno começou a escrever sobre o jazz na Alemanha, onde conheceu o ‘jazz craze’ da República de Weimar: uma verdadeira onda de jazz de segunda mão, uma música de dança, porque os alemães não tinham condições econômicas para lá trazer os seus criadores norte-americanos e tampouco importar os seus discos. Por causa dessa particularidade histórica, o que circulava na Alemanha sob a etiqueta ‘jazz’ era apenas um sucedâneo redutor, uma música de salão, feita de cadências militares e reminiscências folclóricas”10.

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1 - De Mário de Andrade, um bom exemplo pode ser encontrado na edição de sua discografia comentada: Toni, Flávia Camargo (Org.). “A Música Popular Brasileira na Vitrola de Mário de Andrade”. São Paulo: Sesc São Paulo/ Senac São Paulo, 2004. De Adorno, podemos citar, por exemplo, sua pesquisa no “The Princeton Radio Research Project”, que comentarei mais adiante.

2 - Adorno, Theodor. “Philosophie der neuen Musik”. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 2003, pág. 9.

3 - Sobre o envolvimento de Adorno nesse projeto de pesquisa sobre o rádio nos EUA, ver o artigo de Iray Carone. “Adorno e a música no ar: the princeton radio research project”. Em: “Tecnologia, Cultura e Formação… Ainda Auschwitz”. São Paulo: Cortez Editora, 2003.

4 - Rodrigo Duarte. “Teoria Crítica da Indústria Cultural”. Belo Horizonte: UFMG, 2003, p. 192.

5 - Adorno, Theodor. “A Indústria Cultural”. Em: “Adorno”. São Paulo: Ed. Ática, 1986, págs. 92-3.

6 - Adorno, Theodor. “O Fetichismo na Música e a Regressão da Audição”. Em: “Benjamin, Habermas, Horkheimer, Adorno”. São Paulo: Abril Cultural, pág. 165.

7 - Carone, Iray. “Adorno e a Música no Ar: The Princeton Radio Research Project”. In: “Tecnologia, Cultura e Formação… Ainda Auschwitz”. São Paulo: Cortez Editora, 2003, págs. 82-3.

8 - “O Fetichismo na Música e a Regressão da Audição”, pág. 169.

9 - Andrade, Mário de. “Ensaio Sobre a Música Brasileira”. São Paulo: Ed. Martins, 1962, pág. 25.

10 - Iray Carone. “A obsessão pelo jazz”. São Paulo: caderno “Mais”, “Folha de S. Paulo”, 2003.

Revista Trópico
http://p.php.uol.com.br/tropico/html/index.shl

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Segredos da Marquesa

Milton Hatoum

A Marquesa era uma amazonense que sonhava com o Rio de Janeiro, numa época em que muitos brasileiros sonhavam com a ex-capital, e o mundo, com Paris. Ela morou mais da metade de sua vida num pequeno apartamento de Copacabana. Quando me dei conta – quando você se dá conta –, o tempo já deu suas voltas e foi embora, veloz e involuntário como uma distração. A mulher morreu aos 92 anos, e a primeira lembrança do rosto, do corpo e da voz dela faz quase meio século.

Era mãe de uma amiga minha, mas destoava de outras mães, tão convencionais e carolas, tão donas-de-casa e voltadas apenas para o marido, o lar, os filhos. A Marquesa convidava crianças humildes para brincar com sua filha: crianças que moravam em palafitas na beira dos igarapés próximos do nosso bairro, mas distantes de nossa vida protegida. As mães comuns não permitiam que “indiozinhos” convivessem com seus filhos, mas não podiam viver sem as mãos serviçais das mães desses mesmos “indiozinhos”. Aos sábados, brincávamos e merendávamos no quintal da casa da Marquesa, e às vezes nos levava para assistir a um filme no cine Guarany, o antigo teatro Alcazar. Éramos oito ou dez crianças na matinê de sábado, nossa noite de sonho e fantasia no meio da tarde. Depois da sessão, tomávamos tacacá na barraca de dona Vitória, ali na calçada do cine Odeon, uma das maravilhas de Manaus.

Ao meio-dia, quando eu chegava do colégio Pedro II, ia visitar minha amiga e encontrava a Marquesa na sala, lendo uma revista francesa, ouvindo Bach ou Villa-Lobos; às vezes ela entrava em casa para conversar sobre música com a professora de piano da minha irmã caçula. E entrava também na roda dos homens para falar de política. O marido dela, um homem rígido e poderoso, sumia quando ela falava. Não sei por que casaram, talvez por amor, mas os dois amantes pareciam inimigos, como no poema de Drummond.

Na primeira semana de abril de 1964, ela reuniu os amigos da filha e disse que o país estava nas “garras dos bárbaros”. Eu tinha 12 anos, e não entendi muita coisa do que ela queria dizer. Mas memorizei estas palavras: nas garras dos bárbaros. Aos poucos, ela percebeu que o marido bajulava os milicos, recebia políticos servis e interesseiros, raposas que passaram a freqüentar o quintal de sua casa. Quando eles chegavam com suas garras, cheios de empáfia e triunfo, ela saía ou se trancava no quarto para não ver aquela gente.

Foi nessa época que começou a beber, e quando bebia muito, era capaz de desafiar até o diabo, com ou sem farda. Por desamor ou indiferença – ou por algo mais –, ela se viu sozinha no casamento e decidiu viajar com a filha para o Rio. Calhou de conversarmos a sós em várias ocasiões, e alguma vez lhe disse que eu também queria partir.

Isso foi em 1967. Eu tinha 15 anos, ela, 51.

E então, na despedida, me revelou que era amante de um homem que eu conhecia e queria viver com ele em Copacabana. Esse era o algo mais. Ou alguém a mais na vida da Marquesa: uma paixão incendiária, como são as paixões de verdade. Essa história de amor durou mais de duas décadas de encontros esporádicos. Ela se confinou em Copacabana e eu dei voltas pelo Brasil, sempre pensando em visitá-la, curioso por saber o nome do amante que eu conhecia. Até simulava uma conversa com ela antes desse encontro prometido e tantas vezes adiado. Enfim, visitei-a em 1978, quando lancei no Rio um livrinho de poesia. Eu era um jovem de 26 anos, recém-formado em arquitetura, e lecionava numa universidade no interior de São Paulo. Almocei em seu apartamento de Copacabana, depois andamos até o Forte, onde conversamos sobre sua filha, minha amiga de infância, que estava morando em Londres.

Ela fugiu das garras dos bárbaros?

A Marquesa deu uma risada:

E das garras da mãe.

No fim da tarde, ela revelou que seu amante – o homem que eu conhecia – era um dos meus tios solteiros.

A revelação me deixou mudo por um momento. Mas não resisti e perguntei qual deles.

O galã sonhador, disse ela, sem hesitar. De vez em quando a gente namora aqui no Rio. Não piso mais em Manaus.

Revelou outras coisas de sua vida, e contou detalhes da história amorosa com o galã sonhador. Nunca os imaginei juntos, nem desconfiei do caso entre os dois. Foi uma história de amor clandestina, que resistiu ao mau-olhado da província e, depois, à velhice. No fim do nosso encontro, ela me disse que eu podia aproveitar tudo o que ela me havia contado.

Aproveitar?
Se um dia tu escreveres um romance…

Mais de 20 anos depois do encontro no Forte, me lembrei das histórias da Marquesa e, de fato, fiz de sua vida uma ficção. Quando ela leu o romance, me telefonou para dizer que estava radiante como uma criança, mas que eu havia exagerado e inventado tanta coisa, que mal se reconheceu na personagem da mulher adúltera.

Ainda bem, eu disse. Se tivesse sido fiel, qual teria sido a reação de tua filha e do teu ex-marido?

Minha filha teria adorado porque ela sabe de tudo. E meu ex-marido já virou pó. Não sabias? Morreu de infarto. Deve estar no inferno, limpando as botas dos amigos dele.

Ia lamentar a morte do pai de minha amiga, mas decidi não dizer nada. Depois de uns segundos de silêncio, a Marquesa completou: Além disso, ele nunca gostou de literatura. Por que iria ler o teu livro?

Revista Entre Livros
http://www2.uol.com.br/entrelivros/

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São Petersburgo: Fragmentos da Revolução.

Carta Maior apresenta esta matéria especial sobre São Petersburgo, o berço da revolução de 1917, evocando as reminiscências, que ainda se encontram na cidade, dos acontecimentos que levaram à criação da primeira sociedade socialista do século XX. Na medida em que o leitor for lendo a matéria, e clicando sobre as palavras marcadas, aparecerão fotos atuais dos cenários referidos.


Flávio Aguiar

São Petersburgo é a cidade mais romântica que já visitei. O cenário é ideal para almas apaixonadas: muita água, pontes, prédios baixos para o padrão de uma metrópole contemporânea, horizontes amplos. Não raro vêem-se pescadores tentando a sorte nas geladas águas do rio Neva, que abraça a cidade.

No final de setembro, quando lá estive, as árvores já estão tomadas pelas suaves cores do outono europeu. Mas a principal propaganda da cidade é feita em torno de suas “noites brancas”, no verão, quando as noites são curtíssimas e deixam o céu apenas esmaecido. São Petersburgo, com 6 milhões de habitantes, é a metrópole mais próxima do Pólo Norte.

São Petersburgo foi fundada em 1703 pelo czar Pedro, O Grande. Pedro foi grande em todos os sentidos: tinha 2m04 de altura, e idealizou modernizar a Rússia. Para tanto quis esta nova cidade, como símbolo de seu poder e de uma nova era para seu país. Contou com um arquiteto de gênio, Bartolomeo Francesco Rastrelli, italiano, que veio para São Pertersburgo em 1716 com seu pai, em grande parte das principais construções da cidade. Quase ao fim do século XVIII, outro italiano, Carlo Rossi, acrescentou novos prédios aos de Rastrelli.

Na construção da cidade morreram muitos trabalhadores, vitimados pelas más condições de vida e particularmente de saúde, pois o lugar era pantanoso e completamente gelado no longo inverno. Além disso, São Petersburgo suportou um cerco de 900 dias durante a Segunda Guerra Mundial, mas não foi ocupada nem bombardeada. Sua arquitetura dos séculos XVIII e XIX está intacta, apesar de muitos prédios estarem em mau estado de conservação. A população, no entanto, sofreu demais com o cerco. A luta chegou a poucos quilômetros da cidade, e a fome e as doenças também provocaram mortes aos milhares. O resultado disso é que São Petersburgo tem hoje o maior cemitério do mundo.

Aliás, tudo é grande nesta cidade. Sempre pensei que o estilo monumental na arquitetura e na escultura fosse uma das marcas do regime comunista, o que o aproximava esteticamente do estilo preferido pelos nazistas. Era, é verdade. Mas visitando São Petersburgo me dei conta que essa preferência pelo monumental já existia no tempo dos czares. Os portais são enormes, as praças são enormes, os prédios são gigantescos. O Palácio de Inverno, hoje museu Ermitage, obra de Rastrelli, tem 400 salas, distribuídas em 3 andares de um prédio que tem, sozinho, o tamanho de um quarteirão. Tudo é incrivelmente belo, mas ao mesmo tempo vê-se que esse estilo provocava uma sensação de esmagamento do indivíduo frente ao poderio e a magnificência da monarquia. A arquitetura do regime comunista não rompeu com esse estilo.Tornou-o mais sóbrio, mais “funcional” e até mesmo menos bonito.

Desejando reencontrar símbolos da grande revolução de 1917, eu esperava na verdade me deparar com uma devastação. Não foi o que aconteceu. Andando um pouco a esmo pela cidade, logo depois de atravessar uma das principais e mais belas pontes da cidade (são 500!), logo eu e minha companheira Zinka nos deparamos com uma praça enorme, e bem à sua frente, com um quadrilátero cercado por bandeiras vermelhas, com flores da mesma cor e um fogo simbólico ao centro. As informações para o viajante estrangeiro não são abundantes. Mas decifrando o russo escrito em alfabeto cirílico, foi possível descobrir que a praça chamava-se Marsowo Pole, Campo de Marte. O parque foi inaugurado no século XIX, e desde 1919 abriga, na praça, um memorial onde estão enterrados os revolucionários que morreram durante a revolução de outubro/novembro de 1917 (outubro pelo calendário Juliano, novembro pelo Gregoriano, que hoje é o adotado também na Rússia).

Da praça já se avistam as torres da Igreja da Ressurreição, hoje um dos cartões postais da cidade. Essa igreja é parecida com a de São Basílio, na Praça Vermelha, em Moscou, e de fato a teve por modelo. A de Moscou foi terminada em 1560, enquanto a de São Petersburgo foi construída de 1883 a 1907. O estilo imitativo lhe dá uma natureza kitsch, mas isso não lhe diminui a estranha beleza, ainda mais se emoldurada pelas árvores cobertas pelas cores outonais.

Erigiu-se a igreja em homenagem ao czar Alexandre II, no local onde ele morreu, vítima de um atentado à bomba. Os autores do atentado pertenciam à organização “Vontade do Povo”, e muitos deles foram presos e fuzilados ou deportados na seqüência. Os comunistas foram muito críticos em relação a essas práticas, que julgavam incoerentes e inconseqüentes.

Voltando em direção ao Rio Neva e acompanhando-o para o Oeste, em direção da baía da Finlândia, chega-se ao mítico Palácio de Inverno, para quem, como eu, tenha se formado politicamente, pelo menos em parte, estudando eventos como a Revolução Francesa de 1789 e a Russa de 1917. O Palácio de Inverno, monumental como quase tudo nesta cidade, foi tomado pelos revolucionários no lance capital do início da grande revolução. Também se pode ver e visitar, ancorado no rio Neva, o encouraçado Aurora, cujo tiro de seu canhão frontal foi a senha que desencadeou os acontecimentos na segunda quinzena de outubro, pelo calendário Juliano, primeira de novembro pelo Gregoriano.

O palácio fica em frente a uma praça também monumental, onde se concentraram os atacantes. Ali, naquela praça e em seus arredores, também se deu o chamado Domingo Sangrento, no inverno de 1905. Nesse dia uma marcha pacífica de trabalhadores e familiares famintos foi reprimida pela guarda do czar com uma fuzilaria que deixou centenas de mortos e milhares de feridos. Hoje em dia esta praça é palco de desfiles militares, cerimônias patrióticas e manifestações de protesto de todo o tipo.

O Palácio foi construído por Rastrelli entre 1754 e 1762. Hoje abriga o museu Ermitage, cuja coleção de pinturas foi iniciada pela czarina Katarina II com 225 quadros de mestres holandeses e flamengos pertencentes ao “marchand” berlinense, Johann Ernst Gotzkowsky. Este acervo fora reunido primeiramente com a idéia de passar às mãos do rei da Prússia, Frederico II. Katarina II continuou a comprar obras de arte e , como seu antecessor Pedro, Grande, objetos da antiguidade e curiosidades. Seus sucessores continuaram essa prática, que o regime comunista, a partir de 1917, apesar da severidade das guerras contra-revolucionárias e da Segunda Guerra, não interrompeu. Aliás, pelas datas das compras dos quadros pode-se ver que, pelo menos dentro do museu, a propalada hostilidade entre comunistas e vanguardas não existiu.

Katarina II queixava-se de que ninguém apreciava seus quadros. Hoje o acervo do museu é visitado todos os anos por hordas e mais hordas de amantes das artes e de turistas de todos os rincões do mundo. Eu me pergunto o que ela diria a esse respeito.

Ao entrar no museu… Bem, viajante, visitador, turista, peregrino da revolução e/ou das artes, se és cristão, persigna-te, se muçulmano vira para Meca e faz a oração, se és judeu lê um salmo de Davi ou algo assim, e daí por diante em todas as religiões e em todos os ateísmos. O que vais ver não tem igual no mundo.

Em termos de tamanho, o Ermitage só tem pares no Louvre francês, no Metropolitan de Nova Iorque e no Prado de Madri. Nem o Museu Britânico nem o Pérgamon de Berlim se lhe comparam. São 400 salas com 4 milhões de peças. Mas não é só isso. É que tudo, absolutamente tudo, é do bom e do melhor. Não há uma única peça de se possa dizer: “ah, este quadro é daquela fase menor do pintor X e foi comprado para cobrir uma lacuna”. Não há lacunas no Ermitage. E cada quadro, cada um deles, tem uma moldura que lhe vai perfeitamente. Não se pode dizer: “ah, esta moldura ficaria melhor no quadro ao lado, naquele da outra sala, etc.”. Vê-se que cada moldura foi pensada especificamente para cada quadro. É tudo muito bom, mas ressalto que os acervos do Renascimento, do Impressionismo e da Vanguarda do século XX são grandiosos.

Quase em frente ao Ermitage, do outro lado do rio, está a Fortaleza de São Pedro e São Paulo, em cujo interior fica a Catedral do mesmo nome, onde estão os túmulos dos czares da dinastia dos Romanov (diz-se Románov, eu aprendi). Tirei uma foto da entrada com alegres cadetes de academias militares da cidade, no portão principal da imensa fortaleza, onde esteve preso Máximo Gorki durante o regime czarista. A fortaleza também foi um bastião dos revoltosos de 17, tomada pelos soldados amotinados.

No interior da Catedral ortodoxa está um dos mais eloqüentes ícones (o nome vem a propósito…) da restauração simbólica do czarismo por que passa a Rússia depois da queda do comunismo. Há um mausoléu especial para os restos mortais do czar Nicolau II, deposto e morto com seus familiares pelos revolucionários, num dos episódios até hoje mais polêmicos da revolução. Até aí, tudo bem, digamos. Mas paira no lugar uma atmosfera de culto à continuidade da dinastia, que inclui as fotos dos atuais descendentes dos Romanov, que dá o que pensar.

Mais ou menos entre a fortaleza e o lugar onde está o encouraçado Aurora, pode-se visitar o hoje chamado Museu da História Política da Rússia. Antigamente, ele chamava-se Museu da Grande Revolução. Os atuais curadores garantem que deixaram tudo como estava antes da queda do comunismo. São duas casas. A primeira pertencia a um barão da nobreza russa e é basicamente um museu da luta política soviética depois da morte de Lenine. É, portanto, um memorial anti-stalinista, mas que chega, laudatoriamente, ao dias de Putin, que têm algo de neo-czarismo. Aliás, este museu abriga os únicos vestígios de Leon Trotski que vi na cidade, com fotos e documentos do grande revolucionário. Nas ruas, por exemplo, encontra-se Lenine por todo lado. Entre as Matrioshkas, aquelas simpáticas bonequinhas russas, encontram-se bonecos com rostos de tudo: Lênin, Stalin, Kruschev, Brezhnev, Putin, Gagarin, George Bush, jogadores de futebol, de futebol americano, etc. De Trotski, nem a sombra do bigode. Nada. Não existe.

A segunda casa é uma “villa”magnífica, que pertenceu a uma bailarina, Matilda Kichensssiskaja, que, a julgar pelas fotos, era tão bela quanto a residência, concluída em 1902, em estilo Art Nouveau. Nesta casa está o acervo referente a 1917. A casa serviu de QG para o comitê central dos comunistas em 17 e abrigava a sala de reuniões. Destaques: o gabinete de Lenine, intacto, e a vista da sacada de onde ele seguidamente discursava para as massas reunidas embaixo.

Em matéria de gabinetes, pego uma linha transversal para dizer que também se pode visitar o gabinete do grande Fiodor Dostoievski, na casa que leva o nome do escritor e hoje é um museu aberto à visitação. Na verdade, essa é a última casa do escritor na cidade, onde ele morou em várias. Era muito metódico, escrevia à noite, dormia até tarde. Consta que no dia anterior ao de sua morte foi à igreja e pediu ao padre que viesse até sua casa para lhe dar a bênção. Morreu pela manhã do dia seguinte e também consta que o relógio em seu gabinete parou nesse mesmo momento, e guarda até hoje a hora de sua morte.

Voltando à revolução: pude visitar também a famosíssima Estação Finlândia, que tem esse nome porque dela partia o trem que ia para o país vizinho. Nela Lenine chegou de trem, do exílio, em fevereiro de 1917 (sempre é bom lembrar que essas datas são do calendário Juliano e há uma diferença de uns 15 dias entre ele e o Gregoriano). Logo em seguida Lenine teve de fugir para novo exílio, desta vez curto, na Finlândia. A locomotiva que o levou nesta viagem ainda está lá na estação, numa autêntica redoma de vidro.

Quase ao lado da estação há uma outra, esta de Metrô, a Leninaskaja, onde se encontra um mural em homenagem ao líder da revolução. Em outra estação (Ploschad Wosstanija) encontram-se medalhões incrustados na parede, que lembram momentos da revolução. Ao lado desta fica a Maiakovskaja, belíssima, em homenagem ao extraordinário poeta revolucionário. O próprio metrô, ainda muito eficiente e barato, não deixa de ser uma lembrança do regime desaparecido, pois é evidente que ele foi construído para beneficiar a enorme massa de trabalhadores que viveu e vive na cidade. Ele é dos mais profundos que existem, suas escadas são enormes e nelas vêem-se pessoas lendo livros, jornais, fazendo palavras cruzadas, tal o tamanho da viagem.

Para completar esta magnífica visita às reminiscências da Grande Revolução em São Petersburgo, fomos eu e Zinka a uma cidade próxima, onde fica o suntuoso e belíssimo palácio de Katarina, mandado construir por Pedro, o Grande, onde de novo vê-se o gênio de Rastrelli. O estilo se repete: é tudo monumental, o magnífico parque, o palácio enorme, os salões internos. O de baile tem 900 metros quadrados, por exemplo. Dentro dele há o resquício de um dos maiores mistérios da Segunda Guerra. O rei Frederico II da Prússia deu de presente ao seu colega russo uma sala, ou seja, pagou sua construção e seus materiais: é o Salão Âmbar, cuja decoração é toda nesta cor, além de abrigar diversas peças desse material. Em retribuição o czar enviou um regimento militar para seu colega prussiano.

Pois bem, durante a Segunda Guerra, o salão foi desmontado e levado pelos nazistas, que ocuparam a cidade como parte do cerco a S. Petersburgo, para outro local. E ali tudo desapareceu. Ninguém sabe até hoje o que aconteceu com o salão, se ele foi destruído, ou se está escondido em algum sítio privado de colecionador. Recentemente, com base em fotografias, o salão foi reconstruído.

A visita a este palácio completa uma visão, a de que pode-se compreender ao mesmo tempo tanto a grandeza, o bom gosto e o poderio do czariato russo, quanto os motivos e a necessidade da Grande Revolução. É tudo ao mesmo tempo muito bonito e muito acintoso. E não se pense que aqui fala algum iconoclasta que prega a destruição destes símbolos. Pelo contrário. Sua conservação é necessária, assim como sua contemplação, porque são cicatrizes do tempo, e são também, além de uma homenagem ao gênio de seus construtores, uma homenagem ao sacrifício de seus trabalhadores.

Se São Petersburgo (que se chamou sucessivamente Petrogrado e Leningrado antes de voltar ao nome original) é uma cidade romântica pelo ambiente, também o é porque abrigou uma das grandes revoluções românticas da humanidade. Sei que algum marxista enragé poderá me atacar por dizer isso eu de uma revolução que apelava para uma leitura científica da história. Mas lhe apelarei: vá a São Petersburgo, e contemple o que ficou da revolução. De científico, é verdade, ficou o estro inspirador do método marxista, que foi e é dos mais fecundos do pensamento humano. Mas ao lado disso ficou aquele gigantesco esforço para, em meio aos escombros de tantas guerras, construir uma nova humanidade. Não deu certo. Nas ruas de S. Petersburgo por vezes hoje se encontram exemplos que reúnem em si o pior das formas de controle que o regime autoritário com que se construiu o comunismo deixou como herança. Na Rússia há pequenas e grandes máfias para tudo. E isso convive com a pior barbárie do capitalismo vencedor, que trouxe um individualismo feroz e desabrido que beira a anomia (por exemplo, no tráfego de automóveis, que é dos mais violentos e agressivos que já vi). Mas tudo isso só ressalta a grandeza daqueles sonhos e daquelas utopias, e daqueles que lhes dedicaram suas vidas e por vezes a sua morte. Eles, tais heróis e tais sonhos, seguem na memória grávida de futuro, não pelas estatuárias, mas pelas cicatrizes da passagem daquelas e daqueles que romanticamente soltaram sua imaginação e seu amor pela solidariedade e pela liberdade.

Correio da Cidadania
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China e Índia exploram reservas congeladas de energia

China e Índia anunciaram a descoberta de enormes reservas de metano congeladas ao largo das suas costas, e acreditam que tais reservas atenderão as suas necessidades energéticas. Mas os ambientalistas temem que a exploração desses recursos possa causar efeitos adversos sobre o clima mundial

Gerald Traufetter

Aparentemente, esta parece ser uma amostra comum do fundo do oceano obtida por perfuração. A sua superfície cintilante de um verde acinzentado é ao mesmo tempo lisa e granulada. Mas a amostra só revelou o seu empolgante segredo quando os geólogos a bordo do navio de prospecção geológica “Bavenit” reduziram a pressão no tubo de aço e acenderam um fósforo em uma das suas extremidades. De repente uma chama vermelho amarelada brotou do material escorregadio.

“Um fenômeno surpreendente”, observaram os cientistas do Instituto de Pesquisas Geológicas Marítimas Guangzhou. Na verdade, tão surpreendente que, quando o navio ancorou no porto de Shenzen, em 12 de junho deste ano, os cientistas eram só sorrisos.

Shengxiong Yang e Nengyou Wu, os dois líderes da expedição, contam com uma excelente chance de passar para a história do seu país como heróis. O material que eles retiraram do fundo lamacento do Mar do Sul da China tem o potencial para satisfazer às necessidades energéticas da China e à sua economia de crescimento acelerado.

As chamas presenciadas na amostra eram oriundas do hidrato de metano, que foi descoberto na década de 1970. A sua característica ímpar é o fato de ele ser um material aparentemente congelado e, no entanto, inflamável.

No Ocidente, esse combustível potencial existente no fundo dos oceanos tem sido visto, freqüentemente, como uma idéia fantasiosa. Mas na Ásia a história é diferente. A República Popular da China está investindo milhões no estudo desta fonte maciça de energia. E o mesmo ocorre na Índia, na Coréia do Sul e em Taiwan, países que estão em uma rota rápida para superar o Ocidente como potências econômicas.

Esses países - e especialmente a China, que produz um terço do aço e do alumínio e metade do cimento do mundo - estão desempenhando um papel fundamental na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, à qual atualmente comparecem cerca de 10 mil delegados na ilha indonésia de Bali.

As necessidades dessas economias emergentes continuam aumentando. A cada ano a China experimenta um aumento do consumo energético equivalente à produção total anual de energia na França. Até o final de 2007, o país, com a sua população de 1,3 bilhão de habitantes, terá superado os Estados Unidos como o maior produtor mundial de gases causadores do efeito estufa.

Uma das ironias do Protocolo de Kyoto é o fato de a China ainda ser tratada como um país em desenvolvimento, o que significa que, pelo menos sob o ponto de vista legal, ela não está obrigada a prestar qualquer atenção às questões relativas à proteção climática. No entanto, a China e as outras superpotências econômicas em formação não mais gozarão desse status segundo um acordo que sucederá o Protocolo de Kyoto, e ao qual os delegados em Bali pretendem dar início.

O governo chinês está seguindo uma estratégia dupla. Por um lado, ele manifesta grande preocupação com a mudança climática. Os observadores ficaram surpresos ao constatar que o primeiro-ministro Wen Jiabao usou os termos “meio ambiente”, “poluição” e “proteção ambiental” 48 vezes no seu discurso ao Congresso Nacional Popular neste ano, Ele disse que a China não repetirá o erro de “poluir primeiro e limpar depois”.

Porém, ao mesmo tempo, a China está buscando freneticamente novas maneiras de satisfazer a sua demanda voraz por mais energia. E as autoridades chinesas têm depositado as suas esperanças no hidrato de metano como uma dessas alternativas.

O metano, aprisionado em espécies de gaiolas congeladas de moléculas de água, é encontrado na permafrost (camada de terra congelada encontrada nas regiões de latitude alta) e, em quantidades ainda maiores, sob o fundo do mar. O hidrato de metano é criado apenas sob condições específicas de pressão e temperatura. Essas condições são especialmente predominantes no oceano ao longo das plataformas continentais, bem como nas águas profundas de mares semi-fechados.

As reservas mundiais desse gás preso em cristais de água congelada são enormes. Os geólogos calculam que existe uma quantidade significativamente maior de hidrocarbonetos na forma de hidrato de metano do que em todas as reservas de carvão, gás natural e petróleo combinadas. “Há simplesmente uma quantidade muito grande desse material para que ele seja ignorado”, afirma o especialista Gerhard Bohrman, do Centro de Pesquisas de Margens Oceânicas, na cidade de Bremen, no norte da Alemanha.

Alguns meses atrás, o premiê chinês Wen Jiabao segurou o material nas mãos - ou melhor, em um recipiente metálico -, enquanto este emitia chamas. Na época ele estava visitando um centro australiano de pesquisas, mas agora Jiabao pode observar com a mesma facilidade esse espetáculo nos laboratórios de pesquisa chineses.

Os pesquisadores chineses encontraram o hidrato de metano, também conhecido como cristal de gás, devido à sua estrutura molecular, em uma camada de sedimentos de 15 a 20 metros de espessura ao largo da costa chinesa. “Ele estava incrustado em argila e lama”, diz John Roberts, cuja firma, a Geotek, forneceu equipamentos tecnológicos para a expedição de sondagem.

Esse é o tipo de informação que as companhias de gás natural gostam de ouvir. A porosidade da mistura de sedimentos é bastante propícia à perfuração para a extração do gás. “O hidrato do gás nunca foi encontrado antes desta forma”, explica Roberts. De repente passou a ser concebível que a produção com o uso das técnicas convencionais tenha resultado.

Um possível método envolveria o uso de tubos de perfuração que conduziriam fluido aquecido até as reservas geladas. Isso dissolveria a gaiola de gelo que aprisiona o metano. O próximo passo seria capturar o gás por meio de uma segunda perfuração.

Foram esses tipos de perspectivas que inspiraram outros países a tentar imitar o sucesso dos pesquisadores chineses. O Japão construiu o maior navio de pesquisa de hidrocarbonetos marinhos do mundo, o Chikyu, com o principal objetivo de estudar o hidrato de metano. E a Índia investiu 200 milhões de euros no lançamento de um grande programa nacional - tendo já anunciado sucessos.

Os pesquisadores indianos descobriram uma camada de hidrato de metano de 132 metros de espessura na Bacia de Krishna-Godavari. “Essa é uma das reservas mais espessas já encontradas em todo o mundo”, afirma Malcolm Lall, diretor do programa indiano de hidrato de gás. A equipe também foi bem-sucedida nas Ilhas Andaman, onde encontraram, 600 metros abaixo do fundo do mar, uma camada de metano congelada incrustada em sedimentos de cinzas gerados por erupções vulcânicas pré-históricas. “Essa descoberta também foi pioneira”, afirma Lall.

Mas muitos cientistas vêem nas chamas que tremulam das amostras nos laboratórios indianos e chineses um sinal de alerta. Eles temem que um dia o metano do fundo do mar aqueça o clima global muito mais do que fazem hoje o carvão, o petróleo e o gás natural.

É exatamente isso o que os cientistas do Instituto de Pesquisa Marinha (Geomar), no porto de Kiel, no norte da Alemanha, desejam evitar. Eles esperam ser capazes de transformar uma potencial maldição em uma bênção antes que seja muito tarde. Os cientistas visualizam um método segundo o qual o gás poderia ser extraído dos sedimentos com o auxílio do dióxido de carbono.

“O dióxido de carbono poderia ser obtido a partir dos gases emitidos pelas usinas termoelétricas movidas a carvão, por exemplo”, afirma Klaus Wallmann, diretor do projeto conhecido como SUGAR, que foi criado recentemente para o estudo dessa questão. O que ele propõe soa quase muito bom para ser verdade: produzir combustível e, ao mesmo tempo, seqüestrar os gases causadores do efeito estufa, aprisionando-os abaixo do fundo do mar - eliminando as carências de energia e simultaneamente freando o aquecimento global.

Wallmann e os seus colegas baseiam as suas teorias em uma reação que os cientistas observaram mais de uma década atrás. Quando uma determinada pressão é aplicada sobre uma estrutura de cristal de gelo em forma de gaiola, o dióxido de carbono penetra na camada de gelo e desloca o metano. A seguir, uma nova gaiola de moléculas de água congelada forma-se em torno do dióxido de carbono. “Esse comportamento já foi demonstrado em experiências de laboratório”, explica Wallmann.

Ele ficou impressionado com a relação da troca dos gases. Para cada molécula de metano dissolvida, até cinco moléculas de dióxido de carbono desaparecem na gaiola molecular de gelo.

“Além disso, o gelo encapsula o gás carbônico de uma maneira mais estável do que ocorre com o metano. Não consigo imaginar uma maneira melhor de seqüestrar dióxido de carbono”, explica Wallmann, acrescentando: “Estamos seguindo esta abordagem com grande interesse”. Companhias industriais alemãs como a BASF, a Ruhrgas e a E.on também estão interessadas, e têm fornecido dinheiro e tecnologia para promover o estudo da técnica de seqüestro de gás carbônico. “É mais difícil convencer os políticos de que esta é uma boa idéia”, diz Wallmann.

Segundo Wallmann, as pesquisas relativas ao uso de energias renováveis para evitar o aquecimento global são encaradas com entusiasmo, mas pouquíssimos políticos estão interessados nos estudos sobre seqüestro de carbono. “Estas pesquisas são vistas como uma tentativa desesperada de salvar a era do combustível fóssil do seu fim”, afirma Wallmann com um suspiro. Mas ele acrescenta que a humanidade mais cedo ou mais tarde não terá escolha a não ser seqüestrar os gases causadores do efeito estufa.

Wallmann teme que o tópico seja completamente ignorado na conferência de Bali, que ele considera ingênua e irresponsável. “O que está ocorrendo na China e na Índia joga as negociações sobre o clima no reino do absurdo”. De fato, as autoridades de Nova Déli e de Pequim esperam que os seus geólogos apresentem resultados que permitam à China e à Índia dar início à mineração sistemática do hidrato de metano na próxima década.

Já os pesquisadores alemães esperam até lá ter aperfeiçoado totalmente o seu método. Wallmann visualiza, em um futuro não muito distante, navios-tanques carregados de gás carbônico seguindo para o alto-mar a fim de bombear as suas cargas prejudiciais ao clima para as profundezas abissais.

Naturalmente, até mesmo Wallmann sabe que esta é uma idéia altamente otimista. Isso ajuda a explicar a falta de entusiasmo por parte dos cientistas chineses e indianos que ele encontra nas conferências sobre uma tecnologia que ainda se encontra distante do desenvolvimento completo. “Eles têm medo de que o Ocidente queira impedí-los de extrair rapidamente o hidrato de metano”.

Jornal Der Spiegel
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/derspiegel/

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Quase 9% das crianças e jovens de 5 a 17 estavam fora das escolas em 2005, diz IBGE

Em 2005, 8,8% das crianças e adolescentes de 5 a 17 anos não freqüentavam escola. O resultado está na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2005, divulgada nesta sexta pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Freqüentavam escola pública 25,9% dos estudantes do ensino superior, 85,6% do médio, 89,2% do fundamental e 76,3% do pré-escolar.

As maiores diferenças na proporção de estudantes em escola da rede pública ocorreram no ensino superior. Enquanto na região Sudeste 18,4% dos estudantes do ensino superior freqüentavam escola pública, na Norte eram 45,1% e na Nordeste, 40,5%. Na região Sul este indicador situou-se em 23,9% e na Centro-Oeste, em 27,9%.

A pesquisa do IBGE mostra ainda que vem diminuindo o analfabetismo no país, mas este ainda atingia 10,2% das pessoas de 10 anos ou mais de idade, e 11,1% das de 15 anos ou mais.

No contingente de 10 anos ou mais de idade, as diferenças regionais permaneceram mais acentuadas: a taxa de analfabetismo variou de 5,4% na região Sul a 20,0% na Nordeste. Em 2005, no mesmo grupo etário, a proporção dos que tinham pelo menos 11 anos de estudo foi de 27,2%, contra 26,0% em 2004.

A média de anos de estudo do total da população de 10 anos ou mais de idade foi de 6,7 anos — menor que a da parcela das pessoas ocupadas, de 7,4 anos. Para a população 25 anos ou mais de idade, o número médio de anos de estudo foi de 6,6 anos, enquanto para os ocupados nesse grupo etário, ficou em 7,2 anos.

A região Nordeste apresenta ainda o menor nível de instrução, com média de 5,4 anos de estudo e o Sudeste mais elevado com 7,4 anos.

UOL Educação
www.uol.com.br

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Ensino médio vive “crise aguda”, diz ministro da Educação

O ensino médio vive “uma crise aguda”, afirmou o ministro da Educação, Fernando Haddad, nesta segunda-feira (17). A declaração foi feita na abertura do seminário Ensino Médio Diversificado, na Câmara dos Deputados, em Brasília.

Com base nos resultados do Saeb (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica), o ministro acrescentou: “O ensino médio custa a reagir”.

Haddad disse que há perspectivas de melhora na qualidade do ensino médio em dez ou 15 anos, mas não é possível esperar esse tempo para oferecer educação de qualidade aos jovens.

O ministro admitiu que, em 2004, o governo acreditava que a qualidade do ensino médio melhoraria se fossem ampliadas as oportunidades de acesso à educação superior.

“Imaginávamos que essas providências [ProUni e ampliação de vagas nas universidades federais] poderiam ajudar a robustecer o ensino médio, mas os indicadores, pelo menos até 2005, demonstram que essas iniciativas não têm impactado satisfatoriamente a questão da qualidade.”

Para melhorar o quadro, o ministro defendeu a ampliação das escolas técnicas profissionalizantes e a discussão de um novo currículo para o ensino médio. Ele afirmou que a separação entre formação geral e profissionalizante no ensino médio “está um pouco fora de moda”. Para o ministro, a formação geral “é desinteressante” para uma boa parcela dos estudantes.

“Não podemos dar uma formação geral de primeiro mundo para alguns jovens e uma formação técnica para um sistema produtivo obsoleto para outros Jovens. Temos que combinar virtuosamente essas duas dimensões”, disse.

Entre 2005 e 2006, a rede pública de ensino perdeu 311 mil alunos no Brasil, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Segundo professores, pais e diretores de escola, qualidade de ensino, violência e greves são alguns dos motivos por trás dessa evasão.

BBC Brasil
http://www.bbc.co.uk/portuguese/

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Educação põe Brasil entre últimos em ranking mundial de talentos

Gargalos na educação devem reduzir o potencial brasileiro de produzir ou atrair profissionais talentosos nos próximos cinco anos. Essa é a conclusão de um novo indicador elaborado pelas consultorias EIU (Economist Intelligence Unit ), de Londres, e Heidrick & Struggles, de Chicago, nos Estados Unidos.

Da 23ª posição em 2007, o país deve cair para a 25ª em 2012, em um ranking de 30 países escolhidos a dedo pelas duas firmas com base em sua representatividade regional e disponibilidade de indicadores.

O chamado IGT (Índice Global de Talentos) mede a capacidade de um país de formar ou atrair jovens talentosos e criativos em relação a outros países, em um mundo onde a globalização tornou mais fácil a mobilidade dos profissionais qualificados.

Baixo desempenho
Dados da Unesco manuseados pelas consultorias apontam que o Brasil tem uma relação ainda baixa de professores para alunos no ensino secundário - 22, contra, por exemplo, 10 da Itália e 14 dos Estados Unidos e do Canadá.

“Não é que a situação vá piorar no Brasil nos próximos anos, apenas não se desenvolverá de maneira tão rápida quanto em outros países”, explicou, por meio de sua assessoria de imprensa em Londres, a Economist Intelligence Unit.

Na América Latina, a Argentina e o México também foram escolhidos, e ambos tiveram desempenho melhor que o brasileiro.

A Argentina ficou na 17ª posição e o México, na 21ª. Daqui a cinco anos, devem trocar de lugar com os mexicanos, subindo para a 19ª, e a Argentina caindo para a 21ª, projetaram os consultores.

Os países foram medidos em sete critérios: qualidade da educação obrigatória das universidades de negócios, dos incentivos para jovens talentosos, mobilidade e abertura do mercado de trabalho, crescimento demográfico, propensão a atrair investimentos externos e a atrair novos talentos.

Os Estados Unidos, primeiros no ranking, devem manter sua posição como o país que mais forma ou atrai talentos em 2012, seguido pela Grã-Bretanha, que deve superar a Holanda como o país europeu mais bem posicionado na lista.

Entretanto, os pesquisadores alertaram que os Estados Unidos pós-11 de Setembro se tornaram um país muito mais fechado no quesito mercado de trabalho, o que pode reduzir seu apelo para jovens talentosos no futuro.

Na direção oposta, economias de crescimento acelerado e com possibilidades de atração de investimentos externos oferecem melhor prospectos de ganhos - um imã para os profissionais talentosos.

O presidente da Heidrick & Struggles, Kevin Kelly, afirmou que a pesquisa confirma a percepção geral de que profissionais talentosos, criativos e ambiciosos “vão aonde está o dinheiro”.

À frente do Brasil
Razões macroeconômicas foram apontadas pela Economist Intelligence Unit para colocar o México e a Argentina à frente do Brasil. Em 2012, África do Sul e Egito - que hoje estão atrás do Brasil no ranking - devem ultrapassar o país. As cinco últimas posições continuariam sendo da Turquia, Nigéria, Arábia Saudita, Indonésia e Irã.

“Mas a diferença de um país para outro é muito pequena”, disse a porta-voz do levantamento. “Uma mudança no desempenho do Brasil poderia levar o país à frente de outros emergentes.” No mundo emergente, o destaque será da China, que nos próximos cinco anos deve subir da 8ª para a 6ª posição no ranking de atração de talentos.

Os pesquisadores acreditam que o país vai tirar vantagem de sua enorme disponibilidade de mão-de-obra e apostar na melhora da educação e na capacidade de atração de investimentos.

Já a Índia deve permanecer na 10ª posição, graças ao crescimento populacional, mobilidade da força de trabalho e flexibilidade trabalhista.

Nas projeções das consultorias, a Rússia deve perder atratividade e despencar da lista dos dez primeiros - da atual 6ª posição, o país deve figurar na 11ª em 2012, estimaram as consultorias.

As conclusões levaram os autores do estudo a dizer que, em termos de talento, os chamados BRIC (iniciais de Brasil, Rússia, Índia e China) se resumem a “IC”.

“Até agora, as companhias conseguiram perceber que países atraíam ou desenvolviam talentos de maneira mais efetiva, mas faltavam dados objetivos para apoiar suas impressões”, disse Kevin Kelly.

“Se talento é o petróleo do nosso futuro, precisamos identificar os campos, identificar as reservas e saber a capacidade de transporte dos canos. O índice global de talentos vai nos permitir fazer isso.”

BBC Brasil
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Em lista de 34 países, Brasil é o que menos gasta em educação

O Brasil é o que menos gasta com educação dos 34 países analisados por um estudo da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) divulgado nesta terça-feira (18). O país apresenta o menor investimento por estudante (desde o ensino básico até a universidade), gastando em média cerca de R$ 2.488 por ano.

Os 30 países da OCDE gastam, em média R$ 14.376, e no país que mais gasta em educação, Luxemburgo, este valor chega a R$ 25.705. No Chile, o único outro país sul-americano incluído no estudo, o gasto total é de R$ 5.470.

O Brasil também é o país que apresenta o maior nível de diferença entre os gastos por estudante no ensino fundamental e secundário, em comparação com os estudantes universitários.

Enquanto o país gasta R$ 2.213 em estudantes da pré-escola (à frente apenas da Turquia, que gasta R$ 2.139) e R$ 1.973 em estudantes do ensino fundamental e ensino médio (o mais baixo), os gastos com estudantes universitários chegam a R$ 17.226 por estudante, ao ano.

Gastos com universitários
Em média, os países da OCDE gastam apenas duas vezes mais na educação de estudantes universitários do que estudantes dos ensinos fundamental e médio. O gasto com os universitários no Brasil se compara ao de países como a Espanha e a Irlanda, e fica à frente da Itália, Nova Zelândia, México e Portugal, entre outros.

O total do PIB investido em educação chega a 3,9% no país, segundo o relatório da OCDE, ficando à frente apenas da Rússia (3,6%) e da Grécia (3,4%). De acordo com a OCDE, a porcentagem do PIB gasta em educação demonstra a prioridade que este país dá à educação em relação a outros gastos de seu orçamento.

Nos Estados Unidos, os gastos com Educação correspondem a 7,4% do PIB, a maior proporção, e na Dinamarca e Luxemburgo, ele corresponde a 7,2%. Segundo o documento, todos os países analisados aumentaram o investimento em educação com o aumento dos gastos chegando a mais de 40% em comparação a 1995.

Mercado de trabalho
Os resultados deste investimento ainda não atingiram seu potencial total e, segundo analistas ouvidos pelo estudo, ainda pode crescer 22%. O relatório também conclui que quanto mais difundida a educação universitária em um país, mais próspera a economia e melhor o mercado de trabalho para os recém-formados.

O documento mostra ainda que as perspectivas de emprego para os profissionais menos qualificados não parecem ser prejudicadas pelo aumento do número de universitários e podem até melhorar.

Em todos os países avaliados, os profissionais com curso universitário ganham mais e encontram emprego mais facilmente do que os que não chegam à universidade.

BBC Brasil
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Gaddafi: o tirano teatral

O mais veterano dos ditadores árabes modelou a Líbia à sua imagem e semelhança. Tirou o país do ostracismo, mas não lhe devolve a liberdade.

Ángeles Espinosa

Sua fama o precede. Antes de cada viagem de Muammar Gaddafi, a imprensa fala da "jaima" onde se alojará, da camela cujo leite fresco bebe toda manhã e inclusive que estará protegido por uma guarda pessoal de 30 virgens treinadas para matar. Com semelhante encenação, fica difícil distinguir a realidade da lenda sobre esse excêntrico governante que, depois de 35 anos à frente da Líbia, se transformou no mais antigo dos ditadores árabes. Com 65 anos, o líder líbio busca o reconhecimento internacional que não conseguiu com a "revolução verde", uma virada radical de seu apoio ao terrorismo na década de 1980, com o qual condenou o país ao ostracismo.
Gaddafi conquistou o poder em um golpe de Estado em 1969. O jovem coronel, que tinha crescido alimentado pelas arengas pan-árabes do egípcio Abdel Gamal Naser e o espírito rebelde de uma família que lutou contra a ocupação italiana, utilizou seu posto militar para derrubar o doente rei Idris. Embora oficialmente tenha acabado com a monarquia, ele exerceu como o mais caprichoso dos reis absolutistas, ajudado pelo petróleo descoberto dez anos antes em seu país. E ainda falta ver se não será sucedido por Saif al Islam, o segundo dos oito filhos que teve com duas esposas.
Até aí, nada incomum na triste história contemporânea de muitos países árabes. O que torna Gaddafi diferente de outros autocratas de sua época é o modo como sua personalidade modelou a Líbia até criar uma associação quase indissolúvel. Desde o início ele propôs estabelecer um sistema de governo diferente do capitalismo e do comunismo, numa adaptação sui generis do islã que os mais puristas denunciam como herege e que alimentou o desafio à sua autoridade, principalmente na oposição islâmica.

Jacky Naegelen/AFP - 12.dez.2007

Muammar Gaddafi (esq.) é acompanhado por sua guarda pessoal formada por mulheres (dir.)

Quatro anos depois do golpe, lançou uma revolução cultural cujo objetivo era eliminar qualquer influência estrangeira dentro do país e criar uma nova sociedade. Sua visão revolucionária, compilada no famoso Livro Verde, buscava no fundo diferenciar a Líbia de seu entorno. Assim, estabeleceu como forma de governo a "yamahiria", um neologismo que criou a partir da palavra árabe "yumhuria" (república) e que é traduzida de forma livre como "governo das massas".
O coronel, depois de garantir o controle de um país com três vezes o tamanho da Espanha mas com um décimo de sua população, renunciou a todos os cargos e se transformou no líder da revolução. O poder passou teoricamente para comitês populares, muitas vezes dirigidos por adolescentes educados no culto à sua personalidade. Ele purgou os funcionários públicos considerados corruptos e foram queimados livros politicamente perigosos. Na realidade, os comitês serviram de pretexto para encurralar o Conselho de Comando da Revolução e tirar autoridade de ministros, governadores de províncias e outros altos funcionários.
Fossem quais fossem as aparências, Gaddafi concentrou em suas mãos todo o poder. Tudo isso com uma boa dose de teatralidade que o transformou em um dos líderes mais singulares do século passado. Honrando suas origens beduínas, passa grandes temporadas no deserto, mas a aparente simplicidade desse estilo de vida tradicional contrasta com a exibição de conforto que o acompanha sob a tenda onde recebe seus convidados.
Na primeira vez que esta correspondente viu Gaddafi em pessoa, o líder líbio interpretava seu papel. Os EUA acabavam de bombardear a Líbia e, apesar da morte de sua filha adotiva Jana em um dos ataques, o dirigente apareceu perfeitamente maquiado e com os olhos marcados por um traço de kohl. Era 1986 e a Líbia constituía um precedente do ainda não inaugurado Eixo do Mal. Ele era acusado de apoiar grupos terroristas, desde o IRA até os palestinos de Abu Nidal e inclusive o ETA, e concretamente de estar por trás dos atentados contra os aeroportos de Viena e Roma (1985) e a discoteca La Belle em Berlim (1986), onde morreu um soldado americano.
O governo Reagan decidiu lhe dar uma lição. Os bombardeios contra Trípoli e Bengasi não só deixaram dezenas de mortos como marcaram o início da marginalização da Líbia e de seu líder pela comunidade internacional. Mas nem mesmo esse castigo conseguiu apagar o ímpeto revolucionário de Gaddafi. Apenas dois anos depois atribuiu-se a ele o atentado contra um avião da PanAm que explodiu quando sobrevoava a cidade escocesa de Lockerbie e deixou 270 mortos. Foi a gota d’água que transbordou o copo.
Todo mundo o deixou de lado. As sanções da ONU fizeram que as empresas estrangeiras abandonassem um país do qual foram cortadas inclusive as conexões aéreas com o exterior (mas não lhe proibiram que exportasse seu petróleo). Nem mesmo seus irmãos árabes saíram em sua defesa.
Esse abandono confirmou a futilidade de seus esforços em prol de uma união árabe utópica. Imune ao desânimo, Gaddafi voltou os olhos para a África. Muitos de seus vizinhos receberam com alívio as ajudas econômicas que o líder podia se permitir às custas do petróleo. "A África está mais próxima de mim em qualquer aspecto que o Iraque ou a Síria", ele chegou a declarar em uma entrevista. Embora seu sonho dos Estados Unidos da África não tenha prosperado, foi a semente para a União Africana, que em julho de 2002 enterrou a inoperante OUA.
Mas a África nunca conseguiria tirá-lo do ostracismo. O líder deixou de aparecer com suas vistosas túnicas nas capas das revistas internacionais e seus diplomatas se entediavam nos "escritórios populares da grande yamahiria árabe líbia" (como os líbios chamam suas embaixadas). Até 2003. Em agosto desse ano, de maneira repentina, Gaddafi admitiu formalmente a responsabilidade de seu país pelo atentado de Lockerbie e aceitou indenizar as famílias das vítimas. Sua decisão permitiu que fossem levantadas as sanções da ONU. Pouco depois reconheceu seu envolvimento em um ataque semelhante contra um avião da companhia francesa UTA que deixou 171 mortos em 1989.
Mais surpreendente foi seu anúncio de que renunciava às armas de destruição em massa. Os EUA restabeleceram em seguida as relações diplomáticas suspensas em 1986. Tal medida permitiu o regresso das companhias de petróleo americanas e, com seu incentivo, do resto das empresas do setor, ávidas por novas fontes de petróleo e gás.
Desde então passaram por sua jaima diversos políticos ocidentais, incluindo os primeiros-ministros do Reino Unido, Itália e Alemanha, além do presidente francês. E em seu site na web (www.algathafi.org), o irmão líder se orgulha de falar diante de professores e estudantes da Universidade de Cambridge. Enquanto isso, os opositores líbios exilados em Londres sentem-se muito desiludidos com a rápida aceitação internacional da repentina conversão de Gaddafi. Rejeitam que o regime tenha se reformado e apontam que continua violando os direitos humanos.
Oficialmente se explicou que a espetacular mudança de rumo de Gaddafi foi fruto de um longo trabalho da diplomacia britânica. Alguns analistas afirmam que Saif al Islam convenceu seu pai da necessidade de romper o isolamento. No entanto, a maioria dos observadores considera que a invasão do Iraque exerceu um efeito decisivo no astuto líder líbio.
Embora o segredismo do regime faça que se conheça pouco o que acontece dentro do país, os analistas da Jamestown Foundation documentaram pelo menos três tentativas de assassinato (em 1992, 1996 e 1998) a cargo do Grupo Islâmico de Luta da Líbia e outros pequenos grupos militantes. Gaddafi, que não queria que seu país se transformasse em outra Argélia, lançou uma campanha de repressão que terminou com a morte ou a prisão de todos aqueles membros e simpatizantes que não puderam fugir para o exterior. Depois do 11 de Setembro, a possibilidade de unir-se à luta global contra o terrorismo dos EUA foi a cobertura perfeita para reprimir qualquer dissidência interna.
Os gestos de Gaddafi talvez tenham reduzido os temores ocidentais sobre seu apadrinhamento do terrorismo internacional, mas, como não são acompanhados de mudanças internas equivalentes, a Líbia continua sendo pouco confiável, como se viu no dramático caso das enfermeiras búlgaras. A corrupção crescente e a opacidade política aliaram-se para culpar cinco enfermeiras búlgaras e um médico palestino de contaminar 400 crianças com Aids. A mediação européia permitiu que no último verão as penas fossem comutadas.
Seja como for, a tentativa de lavar a imagem de seu país como paraíso de terroristas parece ter salvado a vida política e Gaddafi. Está menos claro o benefício que a virada teve para os líbios. Embora desde 2003 tenha ocorrido certa abertura econômica, a política não a acompanha. A oposição insiste que Gaddafi não mudou nem seus métodos autocráticos nem sua atitude repressiva diante do menor sinal de dissidência. Por isso os grupos de direitos humanos insistem atualmente na necessidade de que seus anfitriões, em Lisboa, Paris ou Madri, exijam que o líder da revolução ponha fim ao regime totalitário e deixe sua população se expressar com liberdade.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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Comentários

Davi Kopenawa Yanomami

05/10/1998

Líder yanomami cumpriu uma longa jornada pelos gabinetes de Brasília e até da ONU para conseguir a demarcação do território de seu povo

Paulo Markun: Boa noite! Ele diz que os brancos desenham suas palavras porque o seu pensamento é cheio de esquecimento e que o dos índios não é. Eles guardam e passam para as crianças as palavras dos seus antepassados, pois assim elas renovam e ampliam os pensamentos. No centro do Roda Viva esta noite o líder indígena Davi Kopenawa Yanomami. Ele é um dos participantes do evento Brasil 500 anos – aqui o material do Brasil 500 anos - que o Instituto Itaú Cultural, a Funarte [Fundação Nacional de Arte, fundação do governo que promove estudos, pesquisas, serviços e apresentações artísticas nas áreas das artes visuais, teatro, cinema, vídeo, dança e outros], o Ministério da Cultura estão promovendo já como parte das comemorações dos 500 anos do chamado Descobrimento do Brasil. Um dos ciclos desse evento, “A outra margem do Ocidente”, reúne, até o dia cinco de novembro, no Itaú Cultural da Avenida Paulista, aqui em São Paulo, e no Palácio da Cultura do Rio de Janeiro, 27 filósofos, antropólogos e historiadores do Brasil e do exterior para discutir as sociedades indígenas, o tema do Roda Viva desta noite.

[Comentarista]

Na descoberta do Brasil, calcula-se que 4 ou 5 milhões de índios viviam aqui, divididos talvez em 1400 tribos ao longo de todo o território, não se sabe ao certo. Hoje são pouco mais de 300 mil, em 220 sociedades, menos de 10% do que eram na chegada dos descobridores. Passado o primeiro momento de um possível encanto no encontro desses dois povos tão diferentes, a história dos índios brasileiros seguiu o mesmo rumo da de tantos outros povos nativos subjugados de forma cruel à cultura do mundo branco ocidental. Quase cinco séculos depois, o pouco que restou daquela sociedade diferente, que descobridores e colonizadores não conseguiram entender e aceitar, tenta se organizar para garantir a sobrevivência possível. Davi Yanomami é um dos raros líderes indígenas a assumir a dianteira da batalha pela defesa dos direitos dos povos nativos junto aos brancos. Ele nasceu na comunidade yanomami de Roraima, uma das maiores do Brasil. E em seu primeiro contato com o homem branco, pode ter revivido o sentimento experimentado por seus antepassados diante da mesma situação. Líder espiritual e político de seu povo, Davi Yanomami já cumpriu uma longa jornada pelos gabinetes de Brasília e até da ONU [Organização das Nações Unidas] para conseguir a demarcação do território yanomami. Mas as fronteiras indígenas ainda não se tornaram barreiras à exploração branca, que segue fechando o cerco em torno das aldeias por todo o país. Ameaçados pelo fogo das grandes queimadas nas fazendas vizinhas, encurralados por madeireiros e garimpeiros, que só deixam destruição e morte no rastro da busca do ouro, os índios brasileiros estão definhando e suas crianças têm um fardo pesado pela frente. Entre brincar e descobrir como exercer a subsistência, precisam aprender ou reaprender a própria língua, correr atrás de uma identidade cultural que estão perdendo ou que já foi perdida entre os que migraram para as cidades e se transformaram em índios urbanos, gente sem rumo e ainda mais pobre. Os que ficaram nas aldeias não podem se preocupar apenas com a caça ou a pesca. Precisam refazer a vida. E para isso procuraram também os espíritos da floresta, pedindo paz, futuro, proteção à natureza. Eles deixam, nas palavras de Davi Yanomami, o alerta de que a destruição branca terá seu preço. “Brancos não sabem segurar o céu no seu lugar. Eles também acabarão morrendo”. Davi Yanomami.

[Yanomami significa ser humano. O povo que leva esse nome caracteriza-se por uma sociedade de caçadores-agricultores da floresta tropical do norte da Amazônia cujo contato com a sociedade nacional é, na maior parte do seu território, relativamente recente. Seu território cobre, aproximadamente, 192.000 km², e situa-se em ambos os lados da fronteira Brasil-Venezuela entre as nascentes da região Orinoco - Amazonas (afluentes da margem direita do rio Branco e esquerda do rio Negro). Esse povo constitui um conjunto cultural e lingüístico composto de quatro subgrupos adjacentes que falam línguas da mesma família (Yanomae, Yanõmami, Sanima e Ninam). A população total dos Yanomami, no Brasil e na Venezuela, é hoje estimada em cerca de 26.000 pessoas. No Brasil, a população yanomami é de cerca de 12.500 pessoas, repartidas em 188 comunidades (censo Funasa). A terra indígena yanomami cobre 96.650 km² de floresta tropical e foi homologada por um decreto presidencial em 25 de maio de 1992.]

Paulo Markun: Para entrevistar Davi Yanomami, nós convidamos os jornalistas: Ulisses Capozoli, repórter da área de ciência e tecnologia do jornal O Estado de S. Paulo; Gilberto Nascimento, sub-editor de Brasil, da revista Isto É; Dilea Frate, diretora geral do programa Jô Onze e Meia, do SBT; a fotógrafa Cláudia Andujar, secretária executiva da Comissão Pró-Yanomami; o antropólogo Beto Ricardo, pesquisador do Instituto Sócio-Ambiental de São Paulo; a jornalista Rosa Gaugirtano, repórter fotográfica; e o sociólogo Laymert Garcia, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp. Davi, boa noite!

Davi Yanomami: Boa noite!

Paulo Markun: Esta é a primeira vez que eu faço um programa com um índio e também é a primeira vez que eu vejo tanto bichinho dentro do estúdio [câmera mostra pequenos insetos voadores ao redor da lâmpada]. Você acha que uma coisa tem a ver com a outra, que eles estão aqui por alguma razão?

Davi Yanomami: Eu acho que esse bichinho, eles tá aqui comigo pra você pensar o movimento da floresta, porque dentro da floresta tem muito desses daí. Então, eu estou aqui… ele tá querendo aparecer também como eu na televisão e também aparecer na televisão como representante da terra.

Paulo Markun: E esses bichos e todas as coisas que tem na floresta, elas ficam fora de lugar quando saem de lá? Na cidade, por exemplo, a gente ainda encontra alguns tipos de bichos e até de árvores, e de coisas, mas não tem aquele conjunto que é a floresta, tem?

Davi Yanomami: Tem, tem muito esse aí [Davi pensa que Markun perguntou sobre os insetos que rodeavam a lâmpada do estúdio]. Vocês chamam cupim. Nós chamamos “alam’conaxip”. Então toda floresta tem. Nas montanhas, na beira do rio e no lavrado tem esse cupim grande, [onde] eles mora.

Paulo Markun: E você que já esteve numa porção de cidades grandes, né? Você já esteve em Nova Iorque, teve em Brasília, onde mais?

Davi Yanomami: Primeiro conheci a cidade de Boa Vista, depois fui conhecendo Manaus, depois Brasília…

Paulo Markun: Cada vez uma cidade maior…

Davi Yanomami: São Paulo, depois para o Rio e depois para o outro lado do mundo. Eu conheci assim.

Diléa Frate: O que é que te metia medo no branco?

Davi Yanomami: Primeiro eu tinha medo dos brancos, quando cresci e me reagi. Reagi pra lutar, pra defender o meu povo. Então esse é que… O xabori me [deu] criou coragem para falar com vocês brancos, para respeitar nosso direito. [xabori: nome usado tanto para designar uma entidade espiritual - o Espírito Criador - como para denominar o pajé, líder espiritual da tribo. Há também o ritual do xabori, rito central yanomami, no qual o pajé, após inalar o pó yakoana, extraído da árvore Virola, entra numa espécie de transe durante o qual é capaz de contatar espíritos de ancestrais e forças da natureza. Graças a esse contato, pode desempenhar funções de cura]

Paulo Markun: O que é o xabori?

Davi Yanomami: Xabori é o [palavra incompreensível] espírito. Espírito que protege, espírito que anda em qualquer lugar. Espírito que qualquer gente que usa como rezar. Então, nós chama “xamã”, “xapïribë” [outros nomes para xabori].

Paulo Markun: Xamã fala com esse espírito?

Davi Yanomami: Sim, xamã a gente usa pra proteger as terra, pra proteger a aldeia, proteger povo e pra fazer um trabalho quando a pessoa tá doente, da aldeia… Então a gente usa uma “yãkõana” [alucinógeno], um yakoana de uma árvore, que a gente tira o leite dela pra usar pra poder chamar o xapïribë. Sem yakoana, ninguém vê. Só tomando pó de yãkõana, os olhos fica diferente pra poder enxergar… O xabori vem de longe… e para poder ver o caminho dele.

[Em suas sessões espirituais, os pajés inalam o pó yãkõana, considerado como a comida dos espíritos. Sob seu efeito, dizem “morrer”: entram num estado de transe visionário durante o qual chamam a si e “fazem descer” vários espíritos auxiliares, com os quais acabam se identificando, imitando as coreografias e cantos de cada um em função da sua mobilização na pajelança. Assim, quando “seus olhos morrem”, os pajés adquirem uma visão ou um poder que lhes dá acesso à essência dos fenômenos e ao tempo de suas origens, portanto, à capacidade de modificar seu curso.]

Paulo Markun: Só gente grande toma esse pó, ou não? Ou criança também?

Davi Yanomami: Não, criança não pode tomar. Nem mulher não pode tomar. Só quem quer xabori, quem quer ficar pajelança, quem quer trabalhar com saúde, cuidar de saúde, eles podem usar.

Ulisses Capozoli: Ô, Davi, a gente fez uma viagem há dois anos atrás pela Venezuela - você foi junto com a gente lá no Orinoco - e nós viajamos por um dez dias pela estrada de terra. Você lembra, né? E você falou muito nessa história de xabori, não? Uma pessoa qualquer pode fazer essa invocação do xabori? Precisa ter uma escolha? Como é que é isso, como é que é definido isso?

Davi Yanomami: É assim: a nossa comunidade escolhe o xabori, escolhe uma pessoa que quer, está interessada em virar xabori, porque xabori é uma coisa fácil não, xabori é difícil…

Ulisses Capozoli: Por exemplo, por que é difícil?

Davi Yanomami: Porque eles não se mostra… Pra mostrar o corpo, tem que usar primeiro yãkõana, tem que deixar toda a sua comida, não pode mais comer, não pode tomar água, não pode andar, não pode tomar banho, porque se você quer virar pajé, tem que deixar tudo. Tem que deixar para usar depois de novo. Ser xabori não é como de brincadeira, não, é sério mesmo, porque a gente aprende com energia, energia da floresta… e o xabori é algo especial… São bonitos! Outros são brilhoso, também tem outro espírito do mal, espírito bom…

Ulisses Capozoli: Quando você conta essa história para um branco, você acha que as pessoas são capazes de entender esse tipo de coisa? Elas se sensibilizam com isso? Elas percebem que isso é uma realidade? Ou você acha que as pessoas não conseguem entender isso, fica um pouco de fantasia na cabeça delas? Como é que você vê um branco quando conta uma história dessas, Davi? Como você contou pra gente naquelas noites longas de viagem, por exemplo.

Davi Yanomami: Eu acho que eles podem entender melhor do que ter que ficar explicando todo o tempo. Eles nunca viam, nunca ouviam, nunca ouviam o próprio yanomami falando sobre xabori. Então, pessoal da cidade quer ouvir muito. Tem que ver também como o xabori está fazendo… Vai [deve ir] lá para a aldeia, lá para o mato, para acreditar, olhar de perto. Eu tô aqui falando com vocês… A minha aldeia tá longe, mas eu tô tentando explicar pra vocês, pra vocês entender. E xabori pra você entender tem que ouvir muito as palavras dos índios. Também tem que olhar yãkãana, “ipó” [pó alucinógeno]. Tem que olhar como os pajé prepara pra usar. Porque esse yãkõana…então fica…uma pessoa fica bêbado…Yãkõana é tipo maconha… Não é maconha, não, é para os yanomami usar para…

Dilea Frate: E é tirado de que árvore?

Davi Yanomami: Yãkõana.

Dilea Frate: Yãkõana é a árvore…?

Davi Yanomami: É uma árvore…

Dilea Frate: Vocês raspam a árvore…?

Davi Yanomami: A árvore tem um leite entre [a] casca. Então a gente tira a casca, então a gente esquenta no fogo. Então, o leite da yãkõana, ele sai. Depois a gente derrama com a vasilha, com “raboca” [termo para vasilha], fazer de panela… Então a gente deixa ferver, depois que começar a secar, quando está quase secando, a gente tira, bota no sol para poder ficar seco… Depois fica fazendo em pó…

Dilea Frate: E você se comunica com os espíritos ou é só visão?

Davi Yanomami: Não, a gente comunica. A gente comunica porque esse yãkõana a gente usa primeiro… Tem que estudar muito para poder se comunicar com xabori. Se a gente não estudar bem, a gente fica sem saber nada.

Laymert Garcia: Davi, uma vez você disse que os xaboris são os inventores das coisas. Até você pegou um objeto e disse: “Esse objeto, por exemplo, esse é um brinquedo de xabori”. Como é que é essa história de xabori inventar? É xabori que inventa as coisas?

Davi Yanomami: Xabori que inventa? Como é? [não entende a pergunta]

Laymert Garcia: É. Você uma vez pegou na minha casa umas frutas que tinha lá, de madeira, e aí você falou: “Esse é um brinquedo de xabori”. E aí eu achei curioso aquilo porque eu falei: “Ué, mas como é que é essa história?” Daí você falou: “Não, é xabori que inventa as coisas”. Então eu queria saber com você, um pouco, como é que é essa história do xabori inventar.

Davi Yanomami: Xabori inventar… que eu falei na sua casa, porque você pegou a coisa do xabori. Fica pendurado na sua parede. Então, ele…fica…a “pruma” dele [ele segura o adereço de penas preso a sua nuca], a [palavra incompreensível] do xabori tá lá na sua casa… como representando…pra proteger a sua casa. E xabori tá achando que você é a favor do xamanismo. É por isso que você está usando na sua casa. Se você tiver contra ele, você não poderia usar.

Beto Ricardo: Davi, quando você era pequeno, você foi criado pelo Roberto, não foi? Ele era uma pessoa muito importante dos yanomamis, que morreu faz algum tempo atrás. Como foi essa sua… Quando você era criança, o que ele te ensinou? Como ele te ensinou?

Davi Yanomami: Então eu sou criado do [pelo] Roberto desde pequeno. Ele ensinou muita história. Ele contou muito… E com esta, com Roberto, que eu… Ele passou as palavra pra mim… Ele contava tudo pra mim entender. Eu pedia repetido: “Repete de novo”. Agora, se ele falar uma vez, ninguém entende. Tem que fazer três, quatro vezes pra explicação. Explicar bem direitinho pra poder usar como ele passou pra os neto. Ele é muito legal comigo, ele me criou, ele me protegeu e ensinou também de xabori… Esse negócio de caçar, esse negócio de falar de coragem pras outras pessoas… Ele me falou que não tem… que não tem medo pra estar falando com os outros, que tem que mostrar coragem de homem. Assim que ele me ensinou.

Cláudia Andujar: Davi, o Roberto que te criou, porque seu pai morreu, ele te ensinou a ser xabori, não? Ele foi um dos teus professores, como você fala de “aprender a ser xabori”. É isso mesmo?

Davi Yanomami: Ele casou [com] a minha mãe. Quando meu pai morreu, ele casou com minha mãe. Aí ele cuidou de mim pra ensinar, pra caçar, pra trabalhar e também ele explicou pra mim pra aprender com vocês, com os brancos…ouvir… e assim que ele me ensinou. E depois quem me ensinou pra ser xabori foi o Lorival, o meu sogro.

Cláudia Andrujar: Agora, se você é xabori, você fala que tem xaboris por todo o lado e que eles ajudam a curar, a fazer muitas coisas naquele mundo que a gente não percebe. Qual é a diferença entre você, um xabori, e aqueles xaboris com os quais você se comunica, aqueles que você recebe, aqueles que você invoca para te ajudar? Qual é a diferença entre um e o outro? Você é um xabori, não é? Mas você trabalha com os xaboris?

Davi Yanomami: Então, eu sou xabori. Eu pedi pra ser xabori pra ajudar meus parente, porque eu preciso ajudar meus parente. Ser xabori serve pra curar uma pessoa, pra tirar doença… É doença de floresta…

Paulo Markun: Doença de branco não tira, não?

Davi Yanomami: A doença do branco não tira, porque é doença da cidade. A gente cura a doença da floresta, porque é doença conhecida. Sabe curar, descobrir pelo corpo da gente. Xabori é pra isso, pra deixar um amigo ficar bom. A doença da cidade é só médico que cura. Médico examina, tira sangue…

Paulo Markun: Mas já teve tempo que yanomami achava que, por exemplo, que a medicina, a ciência do branco não funcionava. No começo era assim ou desde o começo o yanomami achou que a medicina do branco funcionava?

Davi Yanomami: Não. A nossa xabori funciona até hoje pra doença. Porque antigamente ninguém não sabia que vocês têm médico, ninguém sabia que vocês têm tudo pra deixar uma pessoa ficar boa. E nós já tinha… já tinha xabori pra curar, pra se comunicar, pra se preparar, já tinha tudo isso. Depois que chegou os branco lá na nossa terra, aí que prejudicou nossa saúde. Então, nós tentamos, os velhos xaboris tentaram, mas não conseguiram, porque era outra doença, foi trazido de longe…

Beto Ricardo: A sua mãe morreu de sarampo, não foi, Davi?

Davi Yanomami: [Balança a cabeça confirmando]

Beto Ricardo: E xabori não conseguiu dar conta quando chegou o sarampo?

Davi Yanomami: A minha mãe morreu de sarampo. Porque esse missionário que trabalhou lá, ele foi tirar suas férias na cidade dele. Ele foi lá na Inglaterra. Ele voltou pra Manaus, Boa Vista, e ele trouxe essa doença, o sarampo. Então, todo mundo pegou e transmitiu, até minha mãe morreu.

Rosa Gauditano: Muitas pessoas morreram?

Davi Yanomami: Morreram muitos meus parentes, até minha mãe morreu dessa doença. Então xabori não conseguiu, porque era outra doença.

Rosa Gauditano: Davi, e hoje? Como é que está? Ainda tem sarampo? As pessoas morrem muito de sarampo ainda na sua região?

Davi Yanomami: Nós hoje já tá tudo vacinado. Todo mundo recebeu vacina de sarampo

Rosa Gauditano: E todo mundo lá da aldeia Demini ou das outras aldeias também?

Davi Yanomami: Outras aldeias também…

Rosa Gauditano: Todas as aldeias…

Davi Yanomami: Porque até teve os que morreram porque não estavam vacinados. A autoridade nossa não pensou antes em ir lá para nossa aldeia, é por isso que morreram. Agora eles pensaram em levar vacina, pra fazer vacina, pra proteger nós.

Rosa Gauditano: E agora, quando as pessoas ficam doentes, o que mais que elas têm, que outras doenças elas têm agora? Mesmo depois das vacinas.

Davi Yanomami: A gente está sofrendo mais da doença da malária, [fala duas palavras incompreensíveis], epidemia… Então, os três tipos de doença que tá matando mais.

Ulisses Capozoli: Lá na sua aldeia inclusive, Davi, no Toototobi?

Davi Yanomami: Em todo o Toototobi, Balawaú [aldeias do extremo sul da terra indígena yanomami, em Roraima].

Ulisses Capozoli: Mas Toototobi agora não tem mais garimpeiro ali perto?

Davi Yanomami: Garimpeiro saiu, mas a doença não saiu. A doença ficou no lugar dele. A doença que permanece porque os garimpeiro que trabalhou deixou lixo, deixou os óleo no rio… contaminado. Eles deixaram buraco cheio de água, aí mosquito se cria, fazem o ovo e aí depois eles fica procurando alimentação. A alimentação pra eles somos nós. Eles estão procurando o nosso sangue. Então os “chupa-sangue” estão transmitindo a doença de malária.

[Dezenas de pistas clandestinas de garimpo foram abertas no curso superior dos principais afluentes do Rio Branco entre 1987 e 1990. O número de garimpeiros na área yanomami de Roraima foi, então, estimado em 30 a 40 mil, cerca de cinco vezes a população indígena ali residente. Apesar do seu grave impacto demográfico, essas invasões foram de curta duração (até 1990), possibilitando que a sociedade yanomami escapasse da dizimação e da aculturação. No entanto, atualmente, ainda existem núcleos de garimpagem na terra yanomami, onde seguem espalhando violência e graves problemas sanitários e sociais.]

Dilea Frate: E a malária não existia antes do branco chegar?

Davi Yanomami: Não. Muito pouco.

Gilberto Nascimento: Davi, você tem um número de quantos índios morreram nos últimos anos lá? Ou nesse ano, ou no ano passado, ou num período mais recente…

Davi Yanomami: Olha, eu não sei quantos que morreram [de] meus parente, porque é difícil pra contar com a aldeia, com a aldeia…

Paulo Markun: Agora, está morrendo mais gente do que está nascendo, ou não? Ou já nasce mais yanomami do que morre?

Davi Yanomami: Tão morrendo demais.

Paulo Markun: Pois é, antigamente, nos anos 1980, começo dos anos 1990, morreu muita gente, não é isso?

Davi Yanomami: Foi.

Paulo Markun: Mas hoje em dia, nasce mais menino do que morre gente?

Davi Yanomami: Não. Em outro lugar, outras aldeia tão nascendo, tão nascendo as criança e outras tá morrendo, outro lugar como Awaris, como Paapiú, Xidea, Homoxi [aldeias yanomamis], e lá pra divisa de Roraima e do Amazonas, que a gente mora, tem meninos que tão crescendo… No Toototobi também tá aumentando as criança, e no [Alto] Catrimani [aldeia yanomami] também tão aumentado…

Paulo Markun: Mas você acha que yanomami não vai acabar? Que o povo yanomami não vai acabar?

Davi Yanomami: Não. O povo yanomami não vai acabar se a nossa autoridade cuidando [cuidar], ajudando [ajudar], tratar com malária… [sendo interrompido]

Gilberto Nascimento [interrompendo a resposta de Davi] E eles vêm tratando satisfatoriamente, Davi?

Davi Yanomami: Eles não vão acabar, não. Se o nosso governo não ajudasse… Se ele ajudar, vamos crescer [continua sua resposta anterior, sem responder à pergunta de Gilberto]

Gilberto Nascimento: Mas, Davi, as autoridades vêm ajudando satisfatoriamente? A Funai [Fundação Nacional do Índio, órgão do governo brasileiro criado para estabelecer e executar a Política Indigenista no Brasil, dando cumprimento ao que determina a Constituição de 1988], as autoridades em geral estão tomando medidas para combater essas doenças?

Davi Yanomami: A responsabilidade da Fundação Nacional da Saúde [Funasa] é do governo. Então a Funai tá aí… A Funai só protege pra vigiar a terra demarcada… A Funai cuidou antes de saúde. Agora quem tá cuidando é o Fundo [Fundação] Nacional de Saúde, então eles [têm] responsabilidade. [Por] Outro lado, a Funai tem responsabilidade de demarcação, pra vigiar, pra não deixar entrar os garimpeiro, nem fazendeiro. Então eles têm trabalhado nisso.

[Em agosto de 1999, o Ministério da Saúde, por intermédio da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), assumiu a responsabilidade de estruturar o Subsistema de Atenção à Saúde Indígena, articulado com o Sistema Único de Saúde (SUS). A inexistência, até então, de uma política setorial no SUS que atendesse à diversidade dos povos indígenas comprometia o acesso adequado às ações de saúde, impossibilitando o exercício da cidadania e a garantia das diretrizes estabelecidas na Constituição, no que diz respeito ao atendimento de saúde diferenciado dos índios.]

Cláudia Andujar: Davi, como que foi quando você chegou a ver os primeiros brancos? Quando você nasceu você não havia visto branco, não é? Depois, de repente, eles chegaram lá na aldeia. Como que foi? Onde que foi?

Davi Yanomami: Eu não conhecia. Como eu falei, eu não conhecia nenhum homem branco. Nem minha mãe, nem meu pai, nem os parente. Não conhecia nada, só os velhos e as velhas que contavam para nós. Mas pra ver mesmo quando você estava nascendo, crescendo, pra ver logo os branco é difícil. Mas eu nunca pensei encontrar um branco.

Gilberto Nascimento: E você era menino quando eles chegaram?

Davi Yanomami: Sim, quando era menino, eles chegaram. Não é garimpeiro, não. Era a Comissão de Limite que chegou lá na maloca Caxibi.

[Os primeiros contatos dos yanomanis com os brancos foram feitos por militares da Comissão dos Limites, Serviço de Proteção do Índio, balateiros ou viajantes e datam das primeiras décadas do século XX. Entre os anos 1950 e 1960, algumas missões católicas e evangélicas se instalaram de modo permanente na região. A patir de meados da década de 1970, os yanomanis tiveram as formas mais intensas e letais de contato com a sociedade nacional. A abertura, no sudeste do território yanomani, de um trecho da estrada Perimetral Norte, no período de 1973 a 1976, facilitou a entrada de garimpeiros - a “corrida do ouro” - o que trouxe uma série de consequências tanto para a saúde e segurança dos yanomanis (epidemias de malária, infecções respiratórias, violência desenfreada) quanto para o ambiente.]

Laymert Garcia: E aí? Você foi correndo ver, você ficou curioso ou não?

Davi Yanomami: Sim, eu não fiquei curioso, não, eu fiquei com medo [risos]. Fiquei com medo porque eles ficavam fazendo barulho, gritando, falando diferente… e cheiro de cigarro.

Gilberto Nascimento: Davi, hoje é verdade que os índios mais jovens, adolescentes, eles têm vontade ou manifestam o desejo de conviver, de ser educado junto aos brancos? Isso acontece muito? É verdade?

Davi Yanomami: Acontece sim. Acontece porque eles querem deixar, perder… Eles pega costumes dos branco. Ele vai pra a cidade, vai provando o chá do branco, provando a bebida… O branco vai dando bebida para ele deixar como [de ser] índio. Mas, por mim, a minha parte é diferente. Eu pode falar a sua língua, português, mas eu não virar branco. Eu pode usar roupa, eu pode usar sapato, mas eu não vou deixar, esquecer a minha cultura, a minha tradição, a minha língua porque é minha.

[Entrevistador não identificado]: E a língua continua sendo ensinada também para os jovens?

Davi Yanomami: Continua falando o yanomami.

Ulisses Capozoli: Davi, deixa eu te perguntar uma coisa. Você mantém as raízes, tal, mas eu me lembro que você me contou uma história, aliás, você falou: “Eu não vou deixar que aconteça isso”. E é a seguinte: vocês prometem as filhas em casamento muito jovens, crianças, não? E eu sei que você tem três menininhas, três gatinhas… E você falou: “Eu não vou fazer isso. Elas vão poder escolher o marido que elas quiserem e eu vou romper com o costume do meu povo”. Então, de certa forma, essa convivência sua com o branco alterou também os seus costumes, não? E você mantém essa idéia ainda de deixar que as suas filhas escolham os maridos futuros, ou como é isso?

Davi Yanomami: A minha opinião para as minhas filhas é pra casar com um yanomami.

Ulisses Capozoli: Sim, com yanomami, mas que elas possam escolher, não?

Davi Yanomami: Não, porque eu pode escolher quem é mais trabalhador, quem é mais esperto, quem gosta de trabalhar…

Paulo Markun: Mas você que vai escolher?

Davi Yanomami: É. Eu e a mãe delas também. Tem que olhar o olho da gente, tem que ficar olhando…

[Entrevistador não identificado]: Você mudou, mas nem tanto… [risos]

Paulo Markun: Mas se muito branco fizesse isso, tinha coisa que ia melhorar por aqui [risos]. As feministas que o digam…

Dilea Frate: Então, qual o seu critério de julgamento? Você estava falando do seu critério de julgamento. Tem que olhar no olho, o que mais?

Davi Yanomami: Bom, pra conhecer uma pessoa, tem que olhar quando você tá trabalhando, que gosta de trabalhar, gosta de fazer as coisas: comida, caçar, pescar, limpar o chão…

Dilea Frate: Tem muito índio vagabundo?

Davi Yanomami: Tem sim. Tem índio como aqui na cidade.

Laymert Garcia: Você estava falando de olhar, mas lá, hoje, na abertura do evento da Funarte, você falou que tem brancos, que os brancos olham por cima para enganar, mas estão olhando por baixo da terra para ver o que tem de baixo da tela. Como é que é essa história de olho de branco que é para cima e para baixo?

Davi Yanomami: O olho dos branco é como lua, ele está olhando muito longe, do outro lado do planeta… Os branco, eles olha pra gente pra cima… Acha graça, fica oferecendo cafezinho, uma camisinha [camisa], mas no fundo, no fundo ele não te mostra o que ele quer. Ele quer fazer segredo, escondido… mas ele não vai dizer: “Olha, eu vô querer esse, índio. Índio, eu quero ouro. Eu vou querer madeira”, eles não vão dizer nada.

Paulo Markun: Mas, Davi, você tem amigo branco, né? Porque às vezes, sabe, ouvindo você falar, dá a impressão que todo índio é bom e que todo branco é mau. É assim que acontece ou você tem amigos índios? Eu sei, por exemplo, que a Cláudia é uma pessoa que é muito amiga dos yanomami.

Davi Yanomami: Sim, eu tenho os amigos… meus parentes. Tenho outros que nunca me conheceram…

Paulo Markun: Mas você nunca ficou amigo de um branco?

Davi Yanomami: Eu tenho amigos brancos. Não são muito, não, eu tenho pouco…

Dilea Frate: Você acha que é difícil se fazer se compreender pelos brancos?

Davi Yanomami: Hum?

Dilea Frate: É difícil um índio… Uma pessoa como você, que fala outra língua… É outra cultura, é outra… É difícil você conseguir se fazer compreender, se fazer entender pelo branco? Você se mostrar para o branco… Ao contrário, você diz que o branco não se mostra. O índio se mostrar para o branco, você acha que é difícil o branco compreender o que você tem a dizer?

Davi Yanomami: Eu não entendi, não.

Dilea Frate: Por exemplo, quando você passa uma mensagem, você acha que o branco entende o que você tem a dizer?

Davi Yanomami: Quando o índio fazer a mensagem pro branco?

Dilea Frate: É.

Davi Yanomami: Para fazer amizade [com] branco tem que ser você é bom pra amigo o índio [você tem que ser bom amigo para o índio]. Tem que gostar realmente. Não enganar com o índio. Assim que nós indígenas se conhece. Conhecer o seu jeito pelos olhos, pelos…

Dilea Frate: Pelas intenções…Você acha que existe uma linguagem… É possível uma linguagem entre o branco e o índio? E essa linguagem qual é? Quer dizer, seria uma linguagem do coração… Que linguagem seria essa? Linguagem do olhar, não sei…

Ulisses Capozoli: Eu acho que você tem essa gente, esses amigos. Acho que a Cláudia é um, o Carlos Aquino é outro, o Walter lá da Funai… Eu sei que vocês são pessoas bastante próximas, que têm uma confiança e um