05/10/1998
Líder yanomami cumpriu uma longa jornada pelos gabinetes de Brasília e até da ONU para conseguir a demarcação do território de seu povo
Paulo Markun: Boa noite! Ele diz que os brancos desenham suas palavras porque o seu pensamento é cheio de esquecimento e que o dos índios não é. Eles guardam e passam para as crianças as palavras dos seus antepassados, pois assim elas renovam e ampliam os pensamentos. No centro do Roda Viva esta noite o líder indígena Davi Kopenawa Yanomami. Ele é um dos participantes do evento Brasil 500 anos – aqui o material do Brasil 500 anos - que o Instituto Itaú Cultural, a Funarte [Fundação Nacional de Arte, fundação do governo que promove estudos, pesquisas, serviços e apresentações artísticas nas áreas das artes visuais, teatro, cinema, vídeo, dança e outros], o Ministério da Cultura estão promovendo já como parte das comemorações dos 500 anos do chamado Descobrimento do Brasil. Um dos ciclos desse evento, “A outra margem do Ocidente”, reúne, até o dia cinco de novembro, no Itaú Cultural da Avenida Paulista, aqui em São Paulo, e no Palácio da Cultura do Rio de Janeiro, 27 filósofos, antropólogos e historiadores do Brasil e do exterior para discutir as sociedades indígenas, o tema do Roda Viva desta noite.
[Comentarista]
Na descoberta do Brasil, calcula-se que 4 ou 5 milhões de índios viviam aqui, divididos talvez em 1400 tribos ao longo de todo o território, não se sabe ao certo. Hoje são pouco mais de 300 mil, em 220 sociedades, menos de 10% do que eram na chegada dos descobridores. Passado o primeiro momento de um possível encanto no encontro desses dois povos tão diferentes, a história dos índios brasileiros seguiu o mesmo rumo da de tantos outros povos nativos subjugados de forma cruel à cultura do mundo branco ocidental. Quase cinco séculos depois, o pouco que restou daquela sociedade diferente, que descobridores e colonizadores não conseguiram entender e aceitar, tenta se organizar para garantir a sobrevivência possível. Davi Yanomami é um dos raros líderes indígenas a assumir a dianteira da batalha pela defesa dos direitos dos povos nativos junto aos brancos. Ele nasceu na comunidade yanomami de Roraima, uma das maiores do Brasil. E em seu primeiro contato com o homem branco, pode ter revivido o sentimento experimentado por seus antepassados diante da mesma situação. Líder espiritual e político de seu povo, Davi Yanomami já cumpriu uma longa jornada pelos gabinetes de Brasília e até da ONU [Organização das Nações Unidas] para conseguir a demarcação do território yanomami. Mas as fronteiras indígenas ainda não se tornaram barreiras à exploração branca, que segue fechando o cerco em torno das aldeias por todo o país. Ameaçados pelo fogo das grandes queimadas nas fazendas vizinhas, encurralados por madeireiros e garimpeiros, que só deixam destruição e morte no rastro da busca do ouro, os índios brasileiros estão definhando e suas crianças têm um fardo pesado pela frente. Entre brincar e descobrir como exercer a subsistência, precisam aprender ou reaprender a própria língua, correr atrás de uma identidade cultural que estão perdendo ou que já foi perdida entre os que migraram para as cidades e se transformaram em índios urbanos, gente sem rumo e ainda mais pobre. Os que ficaram nas aldeias não podem se preocupar apenas com a caça ou a pesca. Precisam refazer a vida. E para isso procuraram também os espíritos da floresta, pedindo paz, futuro, proteção à natureza. Eles deixam, nas palavras de Davi Yanomami, o alerta de que a destruição branca terá seu preço. “Brancos não sabem segurar o céu no seu lugar. Eles também acabarão morrendo”. Davi Yanomami.
[Yanomami significa ser humano. O povo que leva esse nome caracteriza-se por uma sociedade de caçadores-agricultores da floresta tropical do norte da Amazônia cujo contato com a sociedade nacional é, na maior parte do seu território, relativamente recente. Seu território cobre, aproximadamente, 192.000 km², e situa-se em ambos os lados da fronteira Brasil-Venezuela entre as nascentes da região Orinoco - Amazonas (afluentes da margem direita do rio Branco e esquerda do rio Negro). Esse povo constitui um conjunto cultural e lingüístico composto de quatro subgrupos adjacentes que falam línguas da mesma família (Yanomae, Yanõmami, Sanima e Ninam). A população total dos Yanomami, no Brasil e na Venezuela, é hoje estimada em cerca de 26.000 pessoas. No Brasil, a população yanomami é de cerca de 12.500 pessoas, repartidas em 188 comunidades (censo Funasa). A terra indígena yanomami cobre 96.650 km² de floresta tropical e foi homologada por um decreto presidencial em 25 de maio de 1992.]
Paulo Markun: Para entrevistar Davi Yanomami, nós convidamos os jornalistas: Ulisses Capozoli, repórter da área de ciência e tecnologia do jornal O Estado de S. Paulo; Gilberto Nascimento, sub-editor de Brasil, da revista Isto É; Dilea Frate, diretora geral do programa Jô Onze e Meia, do SBT; a fotógrafa Cláudia Andujar, secretária executiva da Comissão Pró-Yanomami; o antropólogo Beto Ricardo, pesquisador do Instituto Sócio-Ambiental de São Paulo; a jornalista Rosa Gaugirtano, repórter fotográfica; e o sociólogo Laymert Garcia, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp. Davi, boa noite!
Davi Yanomami: Boa noite!
Paulo Markun: Esta é a primeira vez que eu faço um programa com um índio e também é a primeira vez que eu vejo tanto bichinho dentro do estúdio [câmera mostra pequenos insetos voadores ao redor da lâmpada]. Você acha que uma coisa tem a ver com a outra, que eles estão aqui por alguma razão?
Davi Yanomami: Eu acho que esse bichinho, eles tá aqui comigo pra você pensar o movimento da floresta, porque dentro da floresta tem muito desses daí. Então, eu estou aqui… ele tá querendo aparecer também como eu na televisão e também aparecer na televisão como representante da terra.
Paulo Markun: E esses bichos e todas as coisas que tem na floresta, elas ficam fora de lugar quando saem de lá? Na cidade, por exemplo, a gente ainda encontra alguns tipos de bichos e até de árvores, e de coisas, mas não tem aquele conjunto que é a floresta, tem?
Davi Yanomami: Tem, tem muito esse aí [Davi pensa que Markun perguntou sobre os insetos que rodeavam a lâmpada do estúdio]. Vocês chamam cupim. Nós chamamos “alam’conaxip”. Então toda floresta tem. Nas montanhas, na beira do rio e no lavrado tem esse cupim grande, [onde] eles mora.
Paulo Markun: E você que já esteve numa porção de cidades grandes, né? Você já esteve em Nova Iorque, teve em Brasília, onde mais?
Davi Yanomami: Primeiro conheci a cidade de Boa Vista, depois fui conhecendo Manaus, depois Brasília…
Paulo Markun: Cada vez uma cidade maior…
Davi Yanomami: São Paulo, depois para o Rio e depois para o outro lado do mundo. Eu conheci assim.
Diléa Frate: O que é que te metia medo no branco?
Davi Yanomami: Primeiro eu tinha medo dos brancos, quando cresci e me reagi. Reagi pra lutar, pra defender o meu povo. Então esse é que… O xabori me [deu] criou coragem para falar com vocês brancos, para respeitar nosso direito. [xabori: nome usado tanto para designar uma entidade espiritual - o Espírito Criador - como para denominar o pajé, líder espiritual da tribo. Há também o ritual do xabori, rito central yanomami, no qual o pajé, após inalar o pó yakoana, extraído da árvore Virola, entra numa espécie de transe durante o qual é capaz de contatar espíritos de ancestrais e forças da natureza. Graças a esse contato, pode desempenhar funções de cura]
Paulo Markun: O que é o xabori?
Davi Yanomami: Xabori é o [palavra incompreensível] espírito. Espírito que protege, espírito que anda em qualquer lugar. Espírito que qualquer gente que usa como rezar. Então, nós chama “xamã”, “xapïribë” [outros nomes para xabori].
Paulo Markun: Xamã fala com esse espírito?
Davi Yanomami: Sim, xamã a gente usa pra proteger as terra, pra proteger a aldeia, proteger povo e pra fazer um trabalho quando a pessoa tá doente, da aldeia… Então a gente usa uma “yãkõana” [alucinógeno], um yakoana de uma árvore, que a gente tira o leite dela pra usar pra poder chamar o xapïribë. Sem yakoana, ninguém vê. Só tomando pó de yãkõana, os olhos fica diferente pra poder enxergar… O xabori vem de longe… e para poder ver o caminho dele.
[Em suas sessões espirituais, os pajés inalam o pó yãkõana, considerado como a comida dos espíritos. Sob seu efeito, dizem “morrer”: entram num estado de transe visionário durante o qual chamam a si e “fazem descer” vários espíritos auxiliares, com os quais acabam se identificando, imitando as coreografias e cantos de cada um em função da sua mobilização na pajelança. Assim, quando “seus olhos morrem”, os pajés adquirem uma visão ou um poder que lhes dá acesso à essência dos fenômenos e ao tempo de suas origens, portanto, à capacidade de modificar seu curso.]
Paulo Markun: Só gente grande toma esse pó, ou não? Ou criança também?
Davi Yanomami: Não, criança não pode tomar. Nem mulher não pode tomar. Só quem quer xabori, quem quer ficar pajelança, quem quer trabalhar com saúde, cuidar de saúde, eles podem usar.
Ulisses Capozoli: Ô, Davi, a gente fez uma viagem há dois anos atrás pela Venezuela - você foi junto com a gente lá no Orinoco - e nós viajamos por um dez dias pela estrada de terra. Você lembra, né? E você falou muito nessa história de xabori, não? Uma pessoa qualquer pode fazer essa invocação do xabori? Precisa ter uma escolha? Como é que é isso, como é que é definido isso?
Davi Yanomami: É assim: a nossa comunidade escolhe o xabori, escolhe uma pessoa que quer, está interessada em virar xabori, porque xabori é uma coisa fácil não, xabori é difícil…
Ulisses Capozoli: Por exemplo, por que é difícil?
Davi Yanomami: Porque eles não se mostra… Pra mostrar o corpo, tem que usar primeiro yãkõana, tem que deixar toda a sua comida, não pode mais comer, não pode tomar água, não pode andar, não pode tomar banho, porque se você quer virar pajé, tem que deixar tudo. Tem que deixar para usar depois de novo. Ser xabori não é como de brincadeira, não, é sério mesmo, porque a gente aprende com energia, energia da floresta… e o xabori é algo especial… São bonitos! Outros são brilhoso, também tem outro espírito do mal, espírito bom…
Ulisses Capozoli: Quando você conta essa história para um branco, você acha que as pessoas são capazes de entender esse tipo de coisa? Elas se sensibilizam com isso? Elas percebem que isso é uma realidade? Ou você acha que as pessoas não conseguem entender isso, fica um pouco de fantasia na cabeça delas? Como é que você vê um branco quando conta uma história dessas, Davi? Como você contou pra gente naquelas noites longas de viagem, por exemplo.
Davi Yanomami: Eu acho que eles podem entender melhor do que ter que ficar explicando todo o tempo. Eles nunca viam, nunca ouviam, nunca ouviam o próprio yanomami falando sobre xabori. Então, pessoal da cidade quer ouvir muito. Tem que ver também como o xabori está fazendo… Vai [deve ir] lá para a aldeia, lá para o mato, para acreditar, olhar de perto. Eu tô aqui falando com vocês… A minha aldeia tá longe, mas eu tô tentando explicar pra vocês, pra vocês entender. E xabori pra você entender tem que ouvir muito as palavras dos índios. Também tem que olhar yãkãana, “ipó” [pó alucinógeno]. Tem que olhar como os pajé prepara pra usar. Porque esse yãkõana…então fica…uma pessoa fica bêbado…Yãkõana é tipo maconha… Não é maconha, não, é para os yanomami usar para…
Dilea Frate: E é tirado de que árvore?
Davi Yanomami: Yãkõana.
Dilea Frate: Yãkõana é a árvore…?
Davi Yanomami: É uma árvore…
Dilea Frate: Vocês raspam a árvore…?
Davi Yanomami: A árvore tem um leite entre [a] casca. Então a gente tira a casca, então a gente esquenta no fogo. Então, o leite da yãkõana, ele sai. Depois a gente derrama com a vasilha, com “raboca” [termo para vasilha], fazer de panela… Então a gente deixa ferver, depois que começar a secar, quando está quase secando, a gente tira, bota no sol para poder ficar seco… Depois fica fazendo em pó…
Dilea Frate: E você se comunica com os espíritos ou é só visão?
Davi Yanomami: Não, a gente comunica. A gente comunica porque esse yãkõana a gente usa primeiro… Tem que estudar muito para poder se comunicar com xabori. Se a gente não estudar bem, a gente fica sem saber nada.
Laymert Garcia: Davi, uma vez você disse que os xaboris são os inventores das coisas. Até você pegou um objeto e disse: “Esse objeto, por exemplo, esse é um brinquedo de xabori”. Como é que é essa história de xabori inventar? É xabori que inventa as coisas?
Davi Yanomami: Xabori que inventa? Como é? [não entende a pergunta]
Laymert Garcia: É. Você uma vez pegou na minha casa umas frutas que tinha lá, de madeira, e aí você falou: “Esse é um brinquedo de xabori”. E aí eu achei curioso aquilo porque eu falei: “Ué, mas como é que é essa história?” Daí você falou: “Não, é xabori que inventa as coisas”. Então eu queria saber com você, um pouco, como é que é essa história do xabori inventar.
Davi Yanomami: Xabori inventar… que eu falei na sua casa, porque você pegou a coisa do xabori. Fica pendurado na sua parede. Então, ele…fica…a “pruma” dele [ele segura o adereço de penas preso a sua nuca], a [palavra incompreensível] do xabori tá lá na sua casa… como representando…pra proteger a sua casa. E xabori tá achando que você é a favor do xamanismo. É por isso que você está usando na sua casa. Se você tiver contra ele, você não poderia usar.
Beto Ricardo: Davi, quando você era pequeno, você foi criado pelo Roberto, não foi? Ele era uma pessoa muito importante dos yanomamis, que morreu faz algum tempo atrás. Como foi essa sua… Quando você era criança, o que ele te ensinou? Como ele te ensinou?
Davi Yanomami: Então eu sou criado do [pelo] Roberto desde pequeno. Ele ensinou muita história. Ele contou muito… E com esta, com Roberto, que eu… Ele passou as palavra pra mim… Ele contava tudo pra mim entender. Eu pedia repetido: “Repete de novo”. Agora, se ele falar uma vez, ninguém entende. Tem que fazer três, quatro vezes pra explicação. Explicar bem direitinho pra poder usar como ele passou pra os neto. Ele é muito legal comigo, ele me criou, ele me protegeu e ensinou também de xabori… Esse negócio de caçar, esse negócio de falar de coragem pras outras pessoas… Ele me falou que não tem… que não tem medo pra estar falando com os outros, que tem que mostrar coragem de homem. Assim que ele me ensinou.
Cláudia Andujar: Davi, o Roberto que te criou, porque seu pai morreu, ele te ensinou a ser xabori, não? Ele foi um dos teus professores, como você fala de “aprender a ser xabori”. É isso mesmo?
Davi Yanomami: Ele casou [com] a minha mãe. Quando meu pai morreu, ele casou com minha mãe. Aí ele cuidou de mim pra ensinar, pra caçar, pra trabalhar e também ele explicou pra mim pra aprender com vocês, com os brancos…ouvir… e assim que ele me ensinou. E depois quem me ensinou pra ser xabori foi o Lorival, o meu sogro.
Cláudia Andrujar: Agora, se você é xabori, você fala que tem xaboris por todo o lado e que eles ajudam a curar, a fazer muitas coisas naquele mundo que a gente não percebe. Qual é a diferença entre você, um xabori, e aqueles xaboris com os quais você se comunica, aqueles que você recebe, aqueles que você invoca para te ajudar? Qual é a diferença entre um e o outro? Você é um xabori, não é? Mas você trabalha com os xaboris?
Davi Yanomami: Então, eu sou xabori. Eu pedi pra ser xabori pra ajudar meus parente, porque eu preciso ajudar meus parente. Ser xabori serve pra curar uma pessoa, pra tirar doença… É doença de floresta…
Paulo Markun: Doença de branco não tira, não?
Davi Yanomami: A doença do branco não tira, porque é doença da cidade. A gente cura a doença da floresta, porque é doença conhecida. Sabe curar, descobrir pelo corpo da gente. Xabori é pra isso, pra deixar um amigo ficar bom. A doença da cidade é só médico que cura. Médico examina, tira sangue…
Paulo Markun: Mas já teve tempo que yanomami achava que, por exemplo, que a medicina, a ciência do branco não funcionava. No começo era assim ou desde o começo o yanomami achou que a medicina do branco funcionava?
Davi Yanomami: Não. A nossa xabori funciona até hoje pra doença. Porque antigamente ninguém não sabia que vocês têm médico, ninguém sabia que vocês têm tudo pra deixar uma pessoa ficar boa. E nós já tinha… já tinha xabori pra curar, pra se comunicar, pra se preparar, já tinha tudo isso. Depois que chegou os branco lá na nossa terra, aí que prejudicou nossa saúde. Então, nós tentamos, os velhos xaboris tentaram, mas não conseguiram, porque era outra doença, foi trazido de longe…
Beto Ricardo: A sua mãe morreu de sarampo, não foi, Davi?
Davi Yanomami: [Balança a cabeça confirmando]
Beto Ricardo: E xabori não conseguiu dar conta quando chegou o sarampo?
Davi Yanomami: A minha mãe morreu de sarampo. Porque esse missionário que trabalhou lá, ele foi tirar suas férias na cidade dele. Ele foi lá na Inglaterra. Ele voltou pra Manaus, Boa Vista, e ele trouxe essa doença, o sarampo. Então, todo mundo pegou e transmitiu, até minha mãe morreu.
Rosa Gauditano: Muitas pessoas morreram?
Davi Yanomami: Morreram muitos meus parentes, até minha mãe morreu dessa doença. Então xabori não conseguiu, porque era outra doença.
Rosa Gauditano: Davi, e hoje? Como é que está? Ainda tem sarampo? As pessoas morrem muito de sarampo ainda na sua região?
Davi Yanomami: Nós hoje já tá tudo vacinado. Todo mundo recebeu vacina de sarampo
Rosa Gauditano: E todo mundo lá da aldeia Demini ou das outras aldeias também?
Davi Yanomami: Outras aldeias também…
Rosa Gauditano: Todas as aldeias…
Davi Yanomami: Porque até teve os que morreram porque não estavam vacinados. A autoridade nossa não pensou antes em ir lá para nossa aldeia, é por isso que morreram. Agora eles pensaram em levar vacina, pra fazer vacina, pra proteger nós.
Rosa Gauditano: E agora, quando as pessoas ficam doentes, o que mais que elas têm, que outras doenças elas têm agora? Mesmo depois das vacinas.
Davi Yanomami: A gente está sofrendo mais da doença da malária, [fala duas palavras incompreensíveis], epidemia… Então, os três tipos de doença que tá matando mais.
Ulisses Capozoli: Lá na sua aldeia inclusive, Davi, no Toototobi?
Davi Yanomami: Em todo o Toototobi, Balawaú [aldeias do extremo sul da terra indígena yanomami, em Roraima].
Ulisses Capozoli: Mas Toototobi agora não tem mais garimpeiro ali perto?
Davi Yanomami: Garimpeiro saiu, mas a doença não saiu. A doença ficou no lugar dele. A doença que permanece porque os garimpeiro que trabalhou deixou lixo, deixou os óleo no rio… contaminado. Eles deixaram buraco cheio de água, aí mosquito se cria, fazem o ovo e aí depois eles fica procurando alimentação. A alimentação pra eles somos nós. Eles estão procurando o nosso sangue. Então os “chupa-sangue” estão transmitindo a doença de malária.
[Dezenas de pistas clandestinas de garimpo foram abertas no curso superior dos principais afluentes do Rio Branco entre 1987 e 1990. O número de garimpeiros na área yanomami de Roraima foi, então, estimado em 30 a 40 mil, cerca de cinco vezes a população indígena ali residente. Apesar do seu grave impacto demográfico, essas invasões foram de curta duração (até 1990), possibilitando que a sociedade yanomami escapasse da dizimação e da aculturação. No entanto, atualmente, ainda existem núcleos de garimpagem na terra yanomami, onde seguem espalhando violência e graves problemas sanitários e sociais.]
Dilea Frate: E a malária não existia antes do branco chegar?
Davi Yanomami: Não. Muito pouco.
Gilberto Nascimento: Davi, você tem um número de quantos índios morreram nos últimos anos lá? Ou nesse ano, ou no ano passado, ou num período mais recente…
Davi Yanomami: Olha, eu não sei quantos que morreram [de] meus parente, porque é difícil pra contar com a aldeia, com a aldeia…
Paulo Markun: Agora, está morrendo mais gente do que está nascendo, ou não? Ou já nasce mais yanomami do que morre?
Davi Yanomami: Tão morrendo demais.
Paulo Markun: Pois é, antigamente, nos anos 1980, começo dos anos 1990, morreu muita gente, não é isso?
Davi Yanomami: Foi.
Paulo Markun: Mas hoje em dia, nasce mais menino do que morre gente?
Davi Yanomami: Não. Em outro lugar, outras aldeia tão nascendo, tão nascendo as criança e outras tá morrendo, outro lugar como Awaris, como Paapiú, Xidea, Homoxi [aldeias yanomamis], e lá pra divisa de Roraima e do Amazonas, que a gente mora, tem meninos que tão crescendo… No Toototobi também tá aumentando as criança, e no [Alto] Catrimani [aldeia yanomami] também tão aumentado…
Paulo Markun: Mas você acha que yanomami não vai acabar? Que o povo yanomami não vai acabar?
Davi Yanomami: Não. O povo yanomami não vai acabar se a nossa autoridade cuidando [cuidar], ajudando [ajudar], tratar com malária… [sendo interrompido]
Gilberto Nascimento [interrompendo a resposta de Davi] E eles vêm tratando satisfatoriamente, Davi?
Davi Yanomami: Eles não vão acabar, não. Se o nosso governo não ajudasse… Se ele ajudar, vamos crescer [continua sua resposta anterior, sem responder à pergunta de Gilberto]
Gilberto Nascimento: Mas, Davi, as autoridades vêm ajudando satisfatoriamente? A Funai [Fundação Nacional do Índio, órgão do governo brasileiro criado para estabelecer e executar a Política Indigenista no Brasil, dando cumprimento ao que determina a Constituição de 1988], as autoridades em geral estão tomando medidas para combater essas doenças?
Davi Yanomami: A responsabilidade da Fundação Nacional da Saúde [Funasa] é do governo. Então a Funai tá aí… A Funai só protege pra vigiar a terra demarcada… A Funai cuidou antes de saúde. Agora quem tá cuidando é o Fundo [Fundação] Nacional de Saúde, então eles [têm] responsabilidade. [Por] Outro lado, a Funai tem responsabilidade de demarcação, pra vigiar, pra não deixar entrar os garimpeiro, nem fazendeiro. Então eles têm trabalhado nisso.
[Em agosto de 1999, o Ministério da Saúde, por intermédio da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), assumiu a responsabilidade de estruturar o Subsistema de Atenção à Saúde Indígena, articulado com o Sistema Único de Saúde (SUS). A inexistência, até então, de uma política setorial no SUS que atendesse à diversidade dos povos indígenas comprometia o acesso adequado às ações de saúde, impossibilitando o exercício da cidadania e a garantia das diretrizes estabelecidas na Constituição, no que diz respeito ao atendimento de saúde diferenciado dos índios.]
Cláudia Andujar: Davi, como que foi quando você chegou a ver os primeiros brancos? Quando você nasceu você não havia visto branco, não é? Depois, de repente, eles chegaram lá na aldeia. Como que foi? Onde que foi?
Davi Yanomami: Eu não conhecia. Como eu falei, eu não conhecia nenhum homem branco. Nem minha mãe, nem meu pai, nem os parente. Não conhecia nada, só os velhos e as velhas que contavam para nós. Mas pra ver mesmo quando você estava nascendo, crescendo, pra ver logo os branco é difícil. Mas eu nunca pensei encontrar um branco.
Gilberto Nascimento: E você era menino quando eles chegaram?
Davi Yanomami: Sim, quando era menino, eles chegaram. Não é garimpeiro, não. Era a Comissão de Limite que chegou lá na maloca Caxibi.
[Os primeiros contatos dos yanomanis com os brancos foram feitos por militares da Comissão dos Limites, Serviço de Proteção do Índio, balateiros ou viajantes e datam das primeiras décadas do século XX. Entre os anos 1950 e 1960, algumas missões católicas e evangélicas se instalaram de modo permanente na região. A patir de meados da década de 1970, os yanomanis tiveram as formas mais intensas e letais de contato com a sociedade nacional. A abertura, no sudeste do território yanomani, de um trecho da estrada Perimetral Norte, no período de 1973 a 1976, facilitou a entrada de garimpeiros - a “corrida do ouro” - o que trouxe uma série de consequências tanto para a saúde e segurança dos yanomanis (epidemias de malária, infecções respiratórias, violência desenfreada) quanto para o ambiente.]
Laymert Garcia: E aí? Você foi correndo ver, você ficou curioso ou não?
Davi Yanomami: Sim, eu não fiquei curioso, não, eu fiquei com medo [risos]. Fiquei com medo porque eles ficavam fazendo barulho, gritando, falando diferente… e cheiro de cigarro.
Gilberto Nascimento: Davi, hoje é verdade que os índios mais jovens, adolescentes, eles têm vontade ou manifestam o desejo de conviver, de ser educado junto aos brancos? Isso acontece muito? É verdade?
Davi Yanomami: Acontece sim. Acontece porque eles querem deixar, perder… Eles pega costumes dos branco. Ele vai pra a cidade, vai provando o chá do branco, provando a bebida… O branco vai dando bebida para ele deixar como [de ser] índio. Mas, por mim, a minha parte é diferente. Eu pode falar a sua língua, português, mas eu não virar branco. Eu pode usar roupa, eu pode usar sapato, mas eu não vou deixar, esquecer a minha cultura, a minha tradição, a minha língua porque é minha.
[Entrevistador não identificado]: E a língua continua sendo ensinada também para os jovens?
Davi Yanomami: Continua falando o yanomami.
Ulisses Capozoli: Davi, deixa eu te perguntar uma coisa. Você mantém as raízes, tal, mas eu me lembro que você me contou uma história, aliás, você falou: “Eu não vou deixar que aconteça isso”. E é a seguinte: vocês prometem as filhas em casamento muito jovens, crianças, não? E eu sei que você tem três menininhas, três gatinhas… E você falou: “Eu não vou fazer isso. Elas vão poder escolher o marido que elas quiserem e eu vou romper com o costume do meu povo”. Então, de certa forma, essa convivência sua com o branco alterou também os seus costumes, não? E você mantém essa idéia ainda de deixar que as suas filhas escolham os maridos futuros, ou como é isso?
Davi Yanomami: A minha opinião para as minhas filhas é pra casar com um yanomami.
Ulisses Capozoli: Sim, com yanomami, mas que elas possam escolher, não?
Davi Yanomami: Não, porque eu pode escolher quem é mais trabalhador, quem é mais esperto, quem gosta de trabalhar…
Paulo Markun: Mas você que vai escolher?
Davi Yanomami: É. Eu e a mãe delas também. Tem que olhar o olho da gente, tem que ficar olhando…
[Entrevistador não identificado]: Você mudou, mas nem tanto… [risos]
Paulo Markun: Mas se muito branco fizesse isso, tinha coisa que ia melhorar por aqui [risos]. As feministas que o digam…
Dilea Frate: Então, qual o seu critério de julgamento? Você estava falando do seu critério de julgamento. Tem que olhar no olho, o que mais?
Davi Yanomami: Bom, pra conhecer uma pessoa, tem que olhar quando você tá trabalhando, que gosta de trabalhar, gosta de fazer as coisas: comida, caçar, pescar, limpar o chão…
Dilea Frate: Tem muito índio vagabundo?
Davi Yanomami: Tem sim. Tem índio como aqui na cidade.
Laymert Garcia: Você estava falando de olhar, mas lá, hoje, na abertura do evento da Funarte, você falou que tem brancos, que os brancos olham por cima para enganar, mas estão olhando por baixo da terra para ver o que tem de baixo da tela. Como é que é essa história de olho de branco que é para cima e para baixo?
Davi Yanomami: O olho dos branco é como lua, ele está olhando muito longe, do outro lado do planeta… Os branco, eles olha pra gente pra cima… Acha graça, fica oferecendo cafezinho, uma camisinha [camisa], mas no fundo, no fundo ele não te mostra o que ele quer. Ele quer fazer segredo, escondido… mas ele não vai dizer: “Olha, eu vô querer esse, índio. Índio, eu quero ouro. Eu vou querer madeira”, eles não vão dizer nada.
Paulo Markun: Mas, Davi, você tem amigo branco, né? Porque às vezes, sabe, ouvindo você falar, dá a impressão que todo índio é bom e que todo branco é mau. É assim que acontece ou você tem amigos índios? Eu sei, por exemplo, que a Cláudia é uma pessoa que é muito amiga dos yanomami.
Davi Yanomami: Sim, eu tenho os amigos… meus parentes. Tenho outros que nunca me conheceram…
Paulo Markun: Mas você nunca ficou amigo de um branco?
Davi Yanomami: Eu tenho amigos brancos. Não são muito, não, eu tenho pouco…
Dilea Frate: Você acha que é difícil se fazer se compreender pelos brancos?
Davi Yanomami: Hum?
Dilea Frate: É difícil um índio… Uma pessoa como você, que fala outra língua… É outra cultura, é outra… É difícil você conseguir se fazer compreender, se fazer entender pelo branco? Você se mostrar para o branco… Ao contrário, você diz que o branco não se mostra. O índio se mostrar para o branco, você acha que é difícil o branco compreender o que você tem a dizer?
Davi Yanomami: Eu não entendi, não.
Dilea Frate: Por exemplo, quando você passa uma mensagem, você acha que o branco entende o que você tem a dizer?
Davi Yanomami: Quando o índio fazer a mensagem pro branco?
Dilea Frate: É.
Davi Yanomami: Para fazer amizade [com] branco tem que ser você é bom pra amigo o índio [você tem que ser bom amigo para o índio]. Tem que gostar realmente. Não enganar com o índio. Assim que nós indígenas se conhece. Conhecer o seu jeito pelos olhos, pelos…
Dilea Frate: Pelas intenções…Você acha que existe uma linguagem… É possível uma linguagem entre o branco e o índio? E essa linguagem qual é? Quer dizer, seria uma linguagem do coração… Que linguagem seria essa? Linguagem do olhar, não sei…
Ulisses Capozoli: Eu acho que você tem essa gente, esses amigos. Acho que a Cláudia é um, o Carlos Aquino é outro, o Walter lá da Funai… Eu sei que vocês são pessoas bastante próximas, que têm uma confiança e um