Arquivo de 3 de Janeiro de 2008

A queda do dólar - parte 7: o fator China

Um papel fundamental cabe agora à China. Ironicamente, este Estado
(oficialmente) comunista conta atualmente com o poder para determinar se o bastião do capitalismo implodirá. Se a China descarregasse no mercado apenas uma porção das reservas em dólar que acumulou nos últimos anos, as transações cambiais com a moeda norte-americana entrariam em colapso.

Mas se fizesse tal coisa a China infligiria um grande dano a si própria. As suas reservas remanescentes quase não teriam valor, e quem seria capaz de pagar pelas grandes quantidades de bens de consumo que as fábricas chinesas despejam diariamente no mundo? Ambos os lados, os norte-americanos e os chineses, beneficiam-se do sistema atual, que proporciona aos Estados Unidos bens de consumo baratos e à China dólares em abundância.

No entanto, esse mecanismo parece estar atingindo os seus limites.
Reconhecendo isso, os políticos ocidentais vêm pedindo há anos aos líderes chineses que abandonem a desvalorização artificial da sua moeda, mas sem sucesso. Com a exceção de uns poucos ajustes de menor importância, até agora nada aconteceu.

Jean-Claude Juncker, diretor do grupo Euro, formado pelos ministros das Finanças da zona do euro, viajou a Pequim nesta semana para rogar mais uma vez aos chineses que reajustem o yuan. A chanceler alemã Angela Merkel disse em uma entrevista na semana passada na estação de televisão N24: “Estamos trabalhando internacionalmente no sentido de obter um equilíbrio razoável entre as moedas”.

Mas o trabalho ao qual ela se referiu consiste de pouco mais do que visitas e apelos, porque o que está faltando é um conjunto de instrumentos adequados para garantir que as ações sigam-se às palavras. Porém, acima de tudo, existem sérias dúvidas de que os norte-americanos estejam interessados em um dólar forte.

Autoridades graduadas do Ministério das Finanças da Alemanha suspeitam fortemente que a política dos Estados Unidos - conforme ocorreu nas décadas de 1960 e 1970 - seja sistematicamente orientada para a redução do valor da moeda por meio de uma inflação maior, reduzindo desta maneira a dívida do país para com os chineses e outras nações asiáticas. Segundo um funcionário de alto escalão do Ministério das Finanças, taxas de câmbio de US$ 2 por euro são possíveis no médio prazo, mesmo que, conforme acreditam alguns, haja uma correção de curto prazo no ano que vem.

“Sob a perspectiva dos Estados Unidos, há pouca pressão para se fazer algo em relação ao dólar fraco”, afirma Michael Heise, o principal economista da Allianz, a gigante alemã do setor de seguros. “A pressão sobre o governo e o Federal Reserve só aumentará se houver uma verdadeira crise de confiança na moeda e como resultado o fluxo de capital começar a diminuir”. Mas este é um risco que Heise não vê se materializar, pelo menos por ora.

Como os norte-americanos aparentemente não estão dispostos a tomar qualquer medida em relação ao dólar fraco, existe um apoio crescente para que os europeus adotem uma abordagem mais ativa e fortaleçam a moeda norte-americana, comprando dólares e vendendo euros nos mercados de câmbio. “O Banco Central Europeu (ECB na sigla em inglês) precisa deixar claro que não aceitará a elevação constante do euro e que poderá até intervir”, diz Gustav Adolf Horn, do Instituto de Política Macroeconômica, em Düsseldorf, um grupo vinculado aos sindicatos alemães.

No entanto, intervenções no mercado de moeda estrangeira geralmente só são efetivas se todos os bancos centrais cooperarem, conforme aconteceu sete anos atrás. Os corretores de títulos e valores só se impressionam quando percebem que todos os grandes protagonistas juntam forças. Se isso ocorresse, eles não teriam mais confiança para apostar em um dólar em queda. Historicamente, aqueles que especularam contra a força conjunta dos bancos centrais raramente terminaram como vencedores.
Mas os bancos centrais e os seus governos estão longe da unanimidade necessária. Os norte-americanos, mais do que todos, não seguirão essa linha.

Além disso, há desacordos quanto à possibilidade de as intervenções serem até mesmo efetivas na atual situação. Joachim Poss, o vice-diretor do grupo de social-democratas no parlamento alemão, acredita que “uma tentativa de fortalecer o dólar poderia se dissipar de forma muito rápida”.

O motivo para isso é que existe um número suficiente de países que estão simplesmente aguardando a oportunidade certa para transferir pelo menos parte das suas reservas em dólares para euros. Se o ECB intervier contra o dólar, haverá uma grande tentação nesses países no sentido de tirar vantagem dos preços mais elevados do dólar a fim de comprar euros.

“Dessa forma, dólares adicionais voltariam a entrar nos mercados, o que eliminaria total ou parcialmente a estabilização pretendida”, argumenta Poss.

O ECB raramente se viu tão impotente quanto nos dias atuais. Ele nada pode fazer em relação ao dólar anêmico, e tampouco é capaz de cumprir a sua verdadeira tarefa de proteger o valor intrínseco do euro. A inflação na Europa subiu para acima da meta de 2% já faz algum tempo, o que deveria ter feito com que o ECB elevasse as taxas de juros. Mas isso tornaria o euro ainda mais caro em relação ao dólar - causando ainda mais danos à economia.

Por este motivo, muitos economistas temem que o ECB nada possa fazer, a não ser seguir o exemplo do Fed e continuar reduzindo as taxas de juros. Mas esse tipo de política monetária tem o seu preço: o aumento da inflação.

Isso deixa políticos e banqueiros centrais com poucas opções a não ser adotar uma abordagem impotente de esperar para ver o que acontece - e torcer para que o resultado final não seja tão negativo quanto muitos temem.

Klaus-Peter Müller, o presidente do Commerzbank da Alemanha, também espera que as coisas acabem se mostrando melhores do que têm sido antecipado. Ele acha que o euro flutuará entre US$ 1,50 e US$ 1,60 nos próximos 12 meses, mas acrescenta que isso “não é um quadro muito otimista”.

Mas diversos observadores vêem essa possibilidade sob uma ótica inteiramente diferente. Eles chamam tal cenário de altamente otimista.

Der Spiegel
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A queda livre do dólar - parte 6: uma desaceleração econômica global?

Então a situação não é tão ruim quanto parece? Pode não ser. Mas ninguém sabe se o dólar continuará a cair - ou, se continuar caindo, qual será a velocidade dessa desvalorização.

Companhias individuais já estão sendo duramente afetadas, especialmente as empresas de pequeno e médio porte que não compensaram adequadamente as suas rendas esperadas em dólar, e que não contam com os recursos das grandes corporações para construir fábricas nos Estados Unidos. Mas todas as outras indústrias também sentirão os efeitos de um esfriamento mundial da economia devido à crise do dólar.

Mas agora esse processo voltou a se fazer presente. Nada mudou realmente desde então. Os norte-americanos - tanto os cidadãos quanto o governo - continuam desfrutando de um estilo de vida que está além dos seus recursos financeiros. E os economistas concordam que, enquanto isto continuar ocorrendo, a tendência do dólar será desvalorizar-se.

Mas as opiniões estão divididas quando se trata de prever o que acontecerá a seguir. Existem três cenários possíveis. Qual deles irá se tornar realidade é algo que vai depender de os participantes comportarem-se de forma mais ou menos racional, ou de serem tomados pelo pânico.

No melhor dos cenários, o declínio do dólar se desacelerará. Os norte-americanos apertarão os cintos, poupando mais e gastando menos. As importações diminuirão, e as exportações aumentarão, porque os produtos norte-americanos serão mais baratos e competitivos. O déficit da balança comercial encolherá e o dólar deixará de cair.

Talvez os chineses concordem até em estabelecer um novo valor para a sua moeda.

A economia mundial estabilizar-se-á em um novo patamar de equilíbrio. Mas até mesmo neste caso a economia sofrerá, já que todos os especialistas reduziram as suas previsões mais otimistas para o ano que vem. No entanto, eles ainda esperam índices de crescimento positivos. Esse não é um cenário que faz lembrar uma recessão.

Isso poderia mudar se - no segundo cenário - a crise do mercado imobiliário continuasse aumentando, possivelmente expandindo-se para a área de empréstimos aos consumidores. Nesse caso - quando a “infecção se disseminasse”, para usar a expressão de um importante banqueiro alemão -, os bancos seriam forçados a promover ajustes bem mais drásticos. Isso não só envenenaria o clima para os gastos com compras, mas também abalaria a confiança do consumidor na economia dos Estados Unidos. E isso por sua vez causaria uma queda ainda mais substancial do valor do dólar, e provavelmente um crash nos mercados, que ainda estão apresentando preços surpreendentemente elevados.

Isso significaria um golpe duplo para a economia alemã. Esse cenário não só afetaria negativamente as exportações para os Estados Unidos, mas o estrago causado na economia mundial seria tão substancial que não seria mais capaz de ser contrabalançado pelo crescimento da Ásia. Os asiáticos ainda estão empurrando a economia global, e não há sinais de crises iminentes nas suas economias. Se uma recessão norte-americana afetar a economia dessas nações, elas também reduzirão as encomendas de produtos alemães, o que provavelmente causará uma recessão na Alemanha.

Os dois primeiros cenários baseiam-se na suposição de que os países afetados mantenham-se tranqüilos. Mas o que ocorrerá se o dólar simplesmente continuar despencando? E se o medo de um declínio permanente do dólar se espalhar pelos países que acumularam vastas quantidades de moeda norte-americana nos últimos anos, como é o caso da China, do Japão, dos Tigres Asiáticos, bem como dos países exportadores de petróleo e da Rússia? E se o pânico estourar e o novo mantra passar a ser “caia fora enquanto pode”?

Se isso acontecer - e este é um cenário de horror - o dólar entrará em colapso e, juntamente com ele, os mercados financeiros internacionais.
Então, o mundo globalizado entrará em uma depressão mundial. Este cenário é menos provável, até porque promovê-lo não atende ao interesse de ninguém.

Mas ele não pode ser completamente descartado, como até mesmo os mais ponderados banqueiros admitem reservadamente.

Alguns especialistas esperam que um movimento contrário tenha início nos mercados de moedas estrangeiras, conforme aconteceu mais de três anos atrás, quando o euro continuou subindo, e foi só uma questão de tempo até que ele atingisse a marca dos US$ 1,40, e a seguir a dos US$ 1,50, fazendo surgir a possibilidade, como alguns especialistas temiam, de que a moeda européia chegasse a valer US$ 1,80.

Mas a taxa de câmbio parou subitamente de aumentar ao chegar aos US$ 1,40, quando os especuladores resgataram as suas aplicações e livraram-se das suas opções de compra. O dólar recuperou-se, e o espectro de um colapso pareceu ter sido evitado.

Der Spiegel
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A queda livre do dólar - parte 5: Airbus, BMW e uma crise alimentada pelo dólar

Dietmar Hawranek, Alexander Jung, Armin Mahler, Christian Reiermann, Wolfgang Reuter e Gabor Stei

Os chamados subprime loans —empréstimos concedidos a indivíduos com história de crédito ruim ou inexistente— podem dar a impressão de serem meros empréstimos imobiliários, mas na verdade eles são apenas uma forma moderna de especulação. São apostas no futuro da classe média baixa e no aumento dos preços dos imóveis, e representam um mercado que ainda vale mais de US$ 1 trilhão nos Estados Unidos.

Segundo números recentes, 20% dos financiamentos imobiliários nos Estados Unidos foram concedidos a indivíduos com históricos de crédito extremamente ruins. Em 2001, esse número era de apenas 5%. O atual lema da indústria poderia muito bem ser: “A minha casa é o meu castelo de cartas”.

O que aconteceu agora era inevitável. À medida que a economia entrava em declínio, os primeiros a cair foram os que recebiam baixos salários —freqüentemente os devedores das hipotecas subprime. À medida que os preços da energia aumentam e a renda disponível encolhe, os gastos dos consumidores tendem a cair.

Os preços dos imóveis vêm caindo há algum tempo. À medida que os valores das casas cai para patamares inferiores aos valores totais emprestados em diversas hipotecas, os devedores deixam de pagar as suas dívidas e os credores das hipotecas são forçados a assimilar grandes calotes. Mais de 20% dos credores já entraram em processo de falência. O Citigroup, o maior banco do mundo, está deslizando rumo a um desastre financeiro que poderá chegar aos bilhões de dólares.

Transferindo problemas
Tudo isso deprime a moeda norte-americana, mas um dólar fraco tem também as suas vantagens. Algumas corporações dos Estados Unidos que terceirizaram os seus serviços no passado, no Canadá, por exemplo, estão agora pretendendo trazer de volta a produção para os Estados Unidos. E graças ao dólar fraco, muitas companhias que em outra situação teriam dificuldade de se manterem competitivas estão obtendo sucessos inesperados no mercado mundial. Uma delas, a Terex Corporation, fabricante de equipamentos de construção, foi capaz de dobrar a sua força de trabalho em uma das suas unidades, para 3.000 funcionários, porque as exportações, especialmente para a Europa, estão disparando.

Essas vantagens podem fazer com que os políticos norte-americanos sintam-se tentados a continuar apreciando o cenário enquanto o dólar cai. Mas como o dólar é a moeda de reserva global, e não apenas uma simples moeda, tudo o que eles estão fazendo é exportar os seus problemas para o resto do mundo. A indústria de exportação européia já foi afetada.
Duas indústrias de importância fundamental para a economia alemã estão sofrendo com a debilidade do dólar: as indústrias aeronáutica e automobilística.

Juntas, a Airbus, a Daimler, a BMW, a Volkswagen e a Porsche —e seus fornecedores— empregam mais de 700 mil pessoas. Essas companhias desempenham um papel fundamental para fazer da Alemanha um dos principais exportadores do mundo. Mas é precisamente este sucesso nos mercados globais que as torna tão vulneráveis às flutuações cambiais.

A Airbus, com o seu programa de reestruturação Power 8, está em processo de redução dos seus custos em dois bilhões de euros por ano até 2010. Isso significará a venda de sete das 16 fábricas européias do conglomerado e a eliminação de 10 mil empregos. Mas essas medidas tinham como objetivo manter a companhia competitiva com uma taxa de câmbio de US$ 1,35 por euro. Mas isso é um câmbio de ontem. No câmbio atual o euro vale quase US$ 1,50.

É claro que a Airbus poderia tornar-se bem mais eficiente se abandonasse a sua divisão de trabalho politicamente motivada entre espanhóis, britânicos, franceses e alemães e montasse aeronaves onde quer que isso fizesse mais sentido sob o ponto de vista econômico: o gigantesco A380 na França e a família A320 na Alemanha.

Mas os executivos que tentam enxugar a Airbus estão atualmente engajados em uma corrida com a moeda dos Estados Unidos que é impossível de ser vencida.

Por exemplo, já é um grande passo para a sede da Airbus na Alemanha em Hamburgo o fato de a produtividade em etapas da montagem final na fábrica daquela cidade ter subido 40% desde 2005. Pode ser um passo na direção certa, mas é ainda um passo muito pequeno para compensar as perdas decorrentes da desfavorável taxa de câmbio.

O dólar terá caído ainda mais e as previsões terão caducado muito antes que as medidas da Airbus para a redução de custos surtam efeito. Para cada centavo que a taxa de câmbio do euro excede os US$ 1,35, a companhia tem um prejuízo de 100 milhões de euros. Uma taxa de câmbio de US$ 1,50 por euro traduz-se em prejuízos de 1,5 bilhão para a Airbus.

É claro que os gerentes financeiros da Airbus e de outras companhias vêm tentando compensar os efeitos negativos do dólar fraco com transações de hedging (investimentos para redução de riscos) —recorrendo a opções de compra que garantam uma taxa de câmbio fixa para seus dólares em um período de um ou dois anos. Mais isso é apenas uma medida preventiva temporária.

Caso a moeda dos Estados Unidos continue despencando de forma tão severa e rápida quanto agora, as companhias européias não contarão com tempo suficiente para reagir com os mecanismos usuais de ajuste.

A Airbus dificilmente poderá equilibrar essa tendência demitindo funcionários e fechando fábricas. Os seus livros de encomendas estão cheios e os funcionários estão trabalhando em regime de hora extra para atender à demanda. Reduções salariais também serão insuficientes para contrabalançar as perdas causadas pela dinâmica cambial.

Agora é a hora de a Airbus tomar uma medida que deveria ter tomado anos
atrás: a companhia precisa transferir parte da sua produção para os Estados Unidos. Os executivos da companhia aeroespacial européia foram mais do que descuidados por não terem feito isso há mais tempo. A Airbus é mais dependente da moeda norte-americana do que qualquer outra indústria européia. E ela também é mais vulnerável do que a maioria das empresas à turbulência nos mercados cambiais estrangeiros.

Além de não contar com unidades de montagem de aeronaves nos Estados Unidos, a Airbus também compra um número muito pequeno de peças na zona do dólar.

Mesmo se o presidente da Airbus, Thomas Enders, decidir mudar esta situação, demorará muito tempo até que sejam encontrados novos fornecedores e que uma possível fábrica nos Estados Unidos possa dar início às suas operações. Até lá, a companhia provavelmente terá que amargar prejuízos substanciais, que a obrigarão a adiar investimentos em novas aeronaves. Como resultado disso, a capacidade da Airbus de competir com a Boeing será prejudicada.

Apostando corrida contra a crise
A indústria automobilística alemã está mais bem preparada para flutuações cambiais. Anos atrás, a BMW e a Mercedes-Benz construíram fábricas nos Estados Unidos, onde produzem e montam carros, especialmente veículos utilitários esportivos: 100 mil no caso da BMW e 170 mil no da Mercedes-Benz. Mas isso não é suficiente para compensar as conseqüências do dólar em declínio. Ambas as companhias ainda vendem diversos veículos nos Estados Unidos que são exportados da Alemanha. E até mesmo os veículos que montam nas suas fábricas localizadas, respectivamente, em Tuscaloosa, no Alabama, e em Spartanburg, na Carolina do Sul, exigem motores, transmissões e eixos feitos na Alemanha.

A BMW, com sede em Munique, teve um prejuízo de 666 milhões de euros (US$
983,5 milhões) no ano passado devido ao dólar fraco. A companhia respondeu a isso com planos para expandir o volume da sua produção nos Estados Unidos para 200 mil veículos.

Martin Winterkorn, presidente da Volkswagen, pretende decidir em breve se a companhia com sede em Wolfsburg construirá uma fábrica nos Estados Unidos.

Mas essa decisão já foi praticamente tomada por ele. Com quase todos os especialistas acreditando que o dólar continuará caindo, a Volkswagen não é capaz de assimilar prejuízos de bilhões de dólares no mercado norte-americano. Sair do país também não é uma opção viável. A única opção provável para a Volkswagen será construir uma fábrica no sudeste dos Estados Unidos, na qual seja capaz de produzir cerca de 200 mil automóveis por ano.

Até o momento os fabricantes alemães de veículos e máquinas não demitiram na Alemanha quando abriram novas fábricas nos Estados Unidos. Mas é evidente que mesmo se essas companhias continuarem crescendo, elas dificilmente criarão novos empregos na Alemanha. Em vez disso, os novos empregos irão para a Ásia e os Estados Unidos, que está rapidamente transformando-se na terra da moeda barata.

A crise do dólar não afetou ainda mais a Alemanha, um dos maiores exportadores mundiais, porque a maior parte das exportações alemãs destinam-se a outros países europeus —somente 13% das exportações alemãs seguem para a zona do dólar.

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A queda livre do dólar - parte 4: as indústrias perdidas dos Estados Unidos

Dietmar Hawranek, Alexander Jung, Armin Mahler, Christian Reiermann, Wolfgang Reuter e Gabor Stei

Em seu livro, “A Year Without ‘Made in China’: One Family’s True Life Adventure in the Global Economy” (”Um Ano Sem o ‘Fabricado na China’: A Aventura da Vida Real de uma Família na Economia Global”), a autora Sara Bongiorni descreve os sentimentos mistos do norte-americano médio quando ele ou ela vai até o supermercado mais próximo. “Quando vejo o rótulo ‘Fabricado na China’, uma parte minha diz: bom para a China. Mas uma outra parte sente uma onda de nostalgia, porque eu perdi alguma coisa sem saber exatamente o que”.

Os especialistas sabem que coisa é essa. O que os Estados Unidos perderam foi nada menos do que uma parcela substancial da sua base de produção. A economia industrial abandonou o país e a economia de serviços chegou, sendo entretanto incapaz de preencher a lacuna deixada pela indústria.

Entre o café-da-manhã e o jantar, a ilusão
Os impressionantes números referentes ao crescimento da economia dos Estados Unidos nos últimos anos oferecem apenas uma ilusão de uma economia próspera.

Esse crescimento baseia-se especialmente nos gastos crescentes dos consumidores, gastos estes que são financiados em grande parte com crédito ou a venda de bens. Resumindo, os norte-americanos estão comendo o passado como café-da-manhã, e devorando o futuro como jantar.

O índice de poupança é praticamente inexistente. A dívida externa dos Estados Unidos cresceu cerca de US$ 1 bilhão por dia em 2006, e atualmente supera os US$ 2,5 trilhões. Os domicílios privados norte-americanos atualmente devem cerca de US$ 13 trilhões a credores domésticos e estrangeiros. Cerca de 36% dessa dívida foi criada nos últimos cinco anos.

Os norte-americanos não são mais capazes de arcar com grande parte dos custos do presente.

A única coisa que dobrou de valor durante os sete anos de governo Bush foi o orçamento militar do país. Comparativamente, a renda média da família norte-americana está estagnada há cerca de uma década.

Faz muito tempo desde a última vez em que o país foi capaz de anunciar sucessos no comércio exterior, algo que na Alemanha representa um pilar importante de sustentação da economia. A parcela dos Estados Unidos nas exportações globais foi reduzida à metade desde a década de 1960. O valor do dólar é basicamente um número que representa a soma de todas essas transações. É um indicador da direção que a economia está tomando, e durante anos esse indicador vem apontando para baixo.

O dólar perdeu 24% do seu valor em relação ao euro desde que a moeda européia foi criada. A supermodelo brasileira Gisele Bündchen, bonita, loura e aparentemente longe de ser burra, anunciou, através da sua gerente e irmã gêmea, Patrícia, que a partir de agora prefere ser paga em euros, em vez de em dólares.

Atualmente os Estados Unidos são um país em grande parte destituído do seu centro industrial. As fábricas norte-americanas de hoje ficam do outro lado da fronteira com o México, ou na Ásia. Os seus produtos podem ser “Concebidos nos Estados Unidos”, “Vendidos nos Estados Unidos” ou “Projetados nos Estados Unidos”, mas o termo “Made in USA” parece que teve o mesmo destino dos dinossauros.

Faz muito tempo que a IBM transferiu a sua produção de computadores pessoais para o Extremo Oriente. Os iPods da Apple são produzidos em iPod City, uma cidade fabril chinesa na qual vivem mais de 120 mil operários que recebem baixos salários. Até mesmo a fabricante de roupas Land’s End, que vende aos seus clientes o sabor dos antigos Estados Unidos juntamente com os seus vestuários, faz os seus produtos na região industrial do Delta do Rio Pérola, na China.

Uma grande parte dos brinquedos, produtos alimentícios, mobiliário e carros produzidos atualmente vem do Japão, de Taiwan, da Coréia do Sul e da China. A Wal-Mart, a Home Depot e o Safeway, três das maiores redes de lojas dos Estados Unidos, são praticamente satélites da indústria asiática de exportação.

Segundo Lou Dobbs, um dos principais jornalistas da rede de notícias CNN, os Estados Unidos estão em um processo de auto-terceirização. O candidato presidencial John Edwards condena rotineiramente a “remessa para o exterior de empregos norte-americanos”.

A atual indústria dos Estados Unidos não é sequer capaz de satisfazer as demandas dos consumidores do próprio país. A outrora orgulhosa nação industrial é pouco mais do que um esqueleto daquilo que já foi. Atualmente o ciclo de produção, desde os fornecedores às unidades produtivas e aos funcionários do setor de serviços, espalha-se por todo o globo. A economia mundial está prosperando e os lucros das corporações norte-americanas explodindo, mas os trabalhadores norte-americanos foram deixados na geladeira.

Decadência e prejuízos
Aquilo que os alemães chamam de mudança estrutural é na verdade uma fratura estrutural nos Estados Unidos, onde esse processo transformou muitos cidadãos em vítimas. O antigos centros industriais no nordeste do país formam hoje em dia o chamado Rust Belt (Cinturão da Ferrugem). A cidade de Gary, no Estado de Indiana, é um dos mais notáveis símbolos do declínio industrial dos Estados Unidos.

Situada às margens do Lago Michigan, cerca de 20 minutos ao sul de Chicago, Gary já foi o centro do milagre econômico norte-americano. Nos dias em que a sede da maior companhia siderúrgica do mundo ficava em Gary, a piada corrente era que a US Steel precisava tanto de empregados que acabaria contratando até defuntos. A companhia atraiu trabalhadores de todo o mundo, e os metalúrgicos de Gary injetaram prosperidade nos Estados Unidos.

A US Steel transferiu a sua sede para outro lugar e reduziu drasticamente as suas operações em Gary. O mercado de aço está em expansão, mas a indústria está agora em mãos indianas, e não norte-americanas. A própria Gary transformou-se em uma cidade fantasma. Outrora uma cidade de 200 mil habitantes, metade da sua população desde então foi embora em busca de campos mais verdejantes. Muitos estabelecimentos comerciais na Broadway, a principal avenida da cidade, estão lacrados com folhas de compensado, e figuras sombrias vagam pelas ruas, com os capuzes colocados sobre as cabeças para oculta-lhes as faces. Gary não é os Estados Unidos, e no entanto muitos norte-americanos têm a sensação de que em breve os Estados Unidos se parecerão bem mais com Gary. De fato, Detroit, o centro da indústria automobilística dos Estados Unidos, já está seguindo o rumo tomado por Gary.

Detroit é o lar das “Três Grandes” empresas automobilísticas dos Estados
Unidos: Ford, Chrysler e General Motors. Elas ainda estão fabricando carros, mas o que essas companhias estão de fato produzindo são prejuízos na casa dos bilhões de dólares. As fabricantes de carros de Detroit anunciaram prejuízos conjuntos de mais de US$ 23 bilhões desde 2005. Atualmente, a competidora japonesa, a Toyota, é a maior e mais valiosa companhia automobilística do mundo.

À medida que caem as vendas de automóveis, o mesmo ocorre com os salários, prejudicando a economia como um todo. Após semanas de negociações entre montadoras e sindicatos, o novo salário inicial para os operários do setor foi finalmente anunciado: US$ 14 por hora. A maioria das faxineiras em Washington cobra mais pelos seus serviços.

Na época de Henry Ford, as perspectivas para os trabalhadores de Detroit eram sem dúvida alguma melhores. O fundador da Ford Motor Company dobrou os salários dos seus funcionários para US$ 5 ao dia. Em 1914, Ford afirmou que desejava transformar os seus funcionários em compradores de carros. O “Wall Street Journal” publicou à época matéria afirmando que o aumento salarial concedido por Ford era “imoral”, e que ele estava praticando valores cristãos “em um local ao qual tais valores não pertencem”.

Atualmente o “Wall Street Journal” está bem mais feliz com o novo salário inicial de US$ 14 por hora, mas os trabalhadores não estão. Até agora, o custo médio para se empregar um trabalhador da indústria automobilística em Detroit chegava a US$ 70 a hora, porque incluía tanto o valor da pensão quanto um plano de saúde até o fim da vida. Mas neste momento as corporações estão tentando enxugar e terceirizar os seus custos com salários.

“Nós não paramos de fazer concessões”, reclama o sindicalista Jim Stoufer. Quando lhe perguntam quando acha que as concessões salariais acabarão, Stoufer dá de ombros. “Precisamos dos nossos empregos. Queremos um futuro”.

Em troca deste cenário vago, os sindicatos que representam os trabalhadores da Chrysler, da Ford e da General Motors também estão dispostos a abrir mão dos planos de saúde pagos pelas companhias. Em em uma permuta envolvendo a aquisição de ações das companhias automobilísticas, os próprios sindicatos assumirão o risco dos seguros-saúde no futuro. Isso provavelmente fará da United Auto Workers (UAW), com a sua parcela de 16% das ações da Ford, a maior acionista da companhia.

A situação em Detroit pode ser presenciada em todos os Estados Unidos, onde várias corporações estão simplesmente eliminando os seus planos de saúde corporativos. Em parte como resultado dessas mudanças, 16% da população dos Estados Unidos —47 milhões de pessoas— vive atualmente sem qualquer plano de saúde.

O colapso industrial e a queda dos salários causaram sérios danos à economia dos Estados Unidos. Os novos empregos no setor de serviços são geralmente mal pagos, e eles não geram produtos de exportação. O conceito de trabalhador pobre tornou-se um fenômeno de massa nos Estados Unidos.

A crise do mercado imobiliário é ao mesmo tempo um resultado direto da debilidade geral na economia e uma causa de mais debilidade. Atualmente está ficando tremendamente claro que os bancos geraram o crescimento dos últimos anos com empréstimos que provavelmente transformar-se-ão em dívidas não pagas.

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A queda livre do dólar - parte 3: o centro da ordem econômica mundial pós-guerra

Dietmar Hawranek, Alexander Jung, Armin Mahler, Christian Reiermann, Wolfgang Reuter e Gabor Stei

A era do dólar começou em uma data específica. Em 22 de julho de 1944, 730 delegados de 44 países reuniram-se em uma conferência em Bretton Woods, um resort no Estado norte-americano de New Hampshire. No Hotel Mount Washington, o grupo decidiu como seria o sistema monetário mundial do pós-guerra. John Maynard Keynes, o grande economista inglês que chefiou a delegação britânica em Bretton Woods, propôs a criação de uma espécie de moeda artificial que seria válida em todo o mundo. Foi uma idéia brilhante —em tese. Mas os norte-americanos, sob a liderança do então presidente Franklin Delano Roosevelt, acabaram vencendo.

Segundo o acordo de Bretton Woods, o dólar, vinculado a uma quantidade fixa de ouro —US$ 35 por onça troy (31,1 gramas)— ficaria no centro de uma ordem econômica global pós-guerra, enquanto o valor das outras moedas dependeria do valor do dólar. Se a moeda de um país individual se tornasse muito forte ou fraca em relação à moeda dos Estados Unidos, o banco central de tal país interviria comprando ou vendendo dólares.

Foi dessa forma que o sistema funcionou até 1971, quando o presidente Richard Nixon aboliu a garantia de compensar dólares com ouro. O problema foi que, àquela altura, o dólar havia ficado muito popular, de forma que o volume de moeda norte-americana fora dos Estados Unidos excedia as reservas de ouro do país. Em março de 1973, os bancos centrais do mundo decidiram que não mais interviriam, e o sistema de Bretton Woods chegou ao fim.

À época muitos temeram que os países simplesmente continuariam desvalorizando as suas moedas, melhorando desta maneira as perspectivas de exportações das suas companhias. Isso já havia ocorrido anteriormente, entre as duas guerras mundiais, tendo jogado a economia do mundo em uma crise fatal.

Mas a nova liberdade de câmbio entre moedas foi mais efetiva do que se esperava. A eliminação das regras de controle dos bancos centrais possibilitou que a força de uma economia individual determinasse que a nação geradora dessa economia robusta assumiria a liderança monetária do mundo. E, esse país, graças à sua enorme economia, era nitidamente os Estados Unidos.

Todavia, as moedas continuaram flutuando consideravelmente, enquanto os políticos tentavam reduzir a magnitude dessas oscilações cambiais com palavras. Reunindo-se em Nova York, em 1985, os ministros das Finanças das principais economias minimizaram a importância do dólar no Acordo Plaza.

Somente dois anos mais tarde eles assinaram o Acordo do Louvre a fim de impedir que o dólar entrasse em colapso. Mas, desde então, o dólar americano, apesar dos seus altos e baixos, passou a ser a medida de todas as coisas —e permaneceu nesta situação até hoje.

“A maior boca livre da história”
O domínio do dólar é algo muito atraente para os norte-americanos. Eles podem imprimir continuamente as notas verdes e vendê-las no exterior sem que isso provoque inflação no seu país. Eles podem contrair dívidas para financiar coisas como a guerra do Iraque ou desfrutar dos benefícios das reduções de impostos. Essa atitude provocou uma dívida nacional recorde nos Estados Unidos de US$ 5 trilhões.

Ao mesmo tempo, os norte-americanos deram-se ao luxo de consumir mais do que ganham. O déficit da balança comercial vem aumentando há anos —tendo passado de cerca de US$ 80 bilhões em 1990 para um nível projetado de mais de US$ 700 bilhões em 2007. Isso representa mais de 5% do PIB do país.

Nos últimos anos os Estados Unidos financiaram o seu recente boom econômico pegando dinheiro emprestado. O seu atual déficit duplo se constitui na evidência monetária de que a maior economia do mundo está vivendo há anos com um padrão que não condiz com as suas receitas.

Essa estrutura inteira só funciona porque foi implementado um sistema especial de fornecimento e retirada, um mecanismo que desafia nitidamente toda teoria econômica. Durante anos, grandes quantidades de capital têm fluído das economias emergentes mais pobres para os Estados Unidos, a nação mais rica da terra. Esse fluxo de capital estrangeiro, a maioria dele proveniente do Extremo Oriente, é de cerca de US$ 2 bilhões por dia.

O banco central em Pequim, por exemplo, acumulou enormes reservas em moeda forte com as exportações do país. A China possui a incrível cifra de mais de US$ 1,4 trilhão em suas reservas. Os chineses investiram a maior parte do seu dinheiro em Letras do Tesouro dos Estados Unidos, um investimento de baixo risco, mas também de lucratividade relativamente baixa. Ao proceder dessa forma, eles mantiveram o dólar elevado e a sua própria moeda em um valor baixo, garantindo que as suas exportações permanecessem competitivas.

Enquanto a Ásia financia o gasto excessivo dos consumidores norte-americanos, estes compram camisetas, carros e televisores de tela plana da Ásia a baixos preços.

“Endividar-se tanto assim e, ao mesmo tempo, usufruir das rendas de títulos governamentais de longo prazo de menos de 5% —eu chamaria isso de a maior boca-livre da história econômica moderna”, afirma o historiador da Universidade Harvard, Niall Ferguson, referindo-se à audácia com que os norte-americanos tiram vantagem do privilégio de serem os detentores da reserva monetária mundial.

Raras vezes a economia mundial esteve de tão mal humor ou os desequilíbrios globais foram tão grandes. Os norte-americanos foram os financiadores do mundo durante anos. Atualmente eles são os que mais tomam emprestado, enquanto os asiáticos funcionam como o banco dos Estados Unidos.

É óbvio que isso não indica boas perspectivas no longo prazo. Durante anos, economistas e políticos têm advertido a respeito de um colapso iminente.

Algo tem de mudar
Agora, parece que o momento é propício para que isso ocorra. A queda acentuada do dólar nas últimas dez semanas é um sinal de que o pacto dos Estados Unidos com o Extremo Oriente tornou-se frágil. Os asiáticos passaram a mostrar bem menos disposição para comprar dólares e Letras do Tesouro dos Estados Unidos. E, à medida que os países do Extremo Oriente foram ficando cada vez mais impacientes com os Estados Unidos, eles começaram a modificar as suas reservas para euros.

Os credores não estão dispostos a simplesmente observar passivamente enquanto o valor das suas Letras do Tesouro dos Estados Unidos despenca; eles já perderam bilhões e bilhões nas últimas semanas. A parcela em dólares das reservas monetárias mundiais encolheram de 80% na década de 1970 para o número atual estimado em 65%. A China, a Rússia e a Malásia já desvincularam parcialmente as suas moedas do dólar, e o Kuait pretende fazer o mesmo em maio de 2008. Muitos produtores de petróleo também estão se distanciando da moeda norte-americana, tanto por razões econômicas quanto por ideológicas.

O banco de investimento Morgan Stanley considera improvável que a Arábia Saudita abandone a sua paridade com o dólar. Mas, de acordo com um estudo recente, os países menores do Golfo Pérsico poderão seguir o exemplo do
Kuait: “Isso poderá significar mais um impacto psicológico para o dólar” —e para os Estados Unidos, a outrora orgulhosa potência econômica.

A nação está profundamente intranqüila, à medida que tem início a tentativa coletiva de entender as causas das crise. Muitos norte-americanos sentem agora —e justificadamente— que o seu futuro pode ser bem mais sombrio do que o presente.

Der Spiegel
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A queda livre do dólar - parte 2: “eu amo um euro forte”

Dietmar Hawranek, Alexander Jung, Armin Mahler, Christian Reiermann, Wolfgang Reuter, Gabor Stein

O governo alemão vem mantendo uma postura diplomática discreta, embora a chanceler Angela Merkel tenha dito que o baixo valor do dólar é problemático para as exportações alemãs. O comentário de Merkel revela uma alteração no seio do governo de coalizão composto de sociais-democratas (SPD) e democratas-cristãos (CDU) em Berlim. Há apenas algumas semanas, o ministro das Finanças, Peer Steinbrück (SPD) mal podia conter o entusiasmo enquanto propalava as vantagens de um euro forte. Steinbrück argumentou animadamente que a alta taxa de câmbio reduz a conta de petróleo alemã, e acrescentou: “Eu amo um euro forte”.

Esse caso de amor aparentemente esfriou. Steinbrück e o ministro da Economia, Michael Glos, um integrante do partido bávaro ligado ao CDU, a União Social Cristã (CSU), recentemente tornaram-se bastante reticentes em relação às questões monetárias. Glos passou a murmurar desculpas, dizendo, por exemplo, que já levou em conta as atuais tendências da taxa de câmbio na sua projeção para a economia alemã. Mas isso não é bem verdade.

Especialistas econômicos do governo basearam as suas previsões em um euro a US$ 1,40, um patamar que há muito foi ultrapassado —e que nem mesmo membros do ministério de Glos esperam que retorne tão cedo.

Os especialistas de Steinbrück também andam mais cautelosos nos últimos dias. Em um memorando interno, eles recentemente advertiram que um novo aumento do euro seria “especialmente prejudicial para a competitividade, o crescimento e o índice de emprego na Alemanha”.

O presidente francês Nicolas Sarkozy expressou o seu ponto de vista de forma ainda mais clara. Ele suspeita que os políticos norte-americanos estejam usando propositadamente o dólar fraco para melhorar as perspectivas de exportação da indústria dos Estados Unidos e enfraquecer a competitividade européia. Não seria a primeira vez que isso aconteceria. No início da década de 1970, o então secretário do Tesouro, John Connally, confessou abertamente ao mundo : “O dólar é a nossa moeda, mas é o problema de vocês”.

A fim de enfrentar o desafio de frente, Sarkozy disse ao congresso dos Estados Unidos que Washington deveria fazer algo para fortalecer o dólar —ou então arriscar-se a enfrentar uma “guerra econômica”.

É bastante improvável que o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, deixe-se impressionar por esse tipo de retórica vinda da Velha Europa. Ele mostrou-se mais uma vez um mestre na arte de ignorar o óbvio, comportando-se como se o problema do dólar não existisse.

“A política deste governo é promover um dólar forte”, disse ele, acrescentado: “Acreditamos que o mercado é o melhor lugar para estabelecer as taxas de câmbio”.

Trata-se de uma estratégia arriscada, tanto para os Estados Unidos quanto para a economia mundial. Isso porque o mercado não confia mais na vitalidade da economia norte-americana. Ben Bernanke, presidente do Federal Reserve Bank dos Estados Unidos (o Fed, o banco central norte-americano), sabe disso e mostra-se bem mais cético do que o presidente do país. Ele alerta que uma continuidade da crise do dólar resultará em maior inflação, redução dos gastos dos consumidores e menores índices de crescimento.

Não faz muito tempo que o Fed previu um crescimento de 4% da economia dos Estados Unidos em 2008. Na terça-feira da semana passada, a instituição reduziu a sua previsão de crescimento da economia do país para o ano que vem, afirmando que o crescimento ficará entre 1,8% e 2,5%.

Segundo Klaus Kaldemorgen, diretor da maior companhia de investimentos da Alemanha, a DWS, o atual estado da economia dos Estados Unidos faz lembrar o Japão no início da década de 1990, quando aquele país mergulhou em uma recessão que durou mais de uma década. “Na verdade, os Estados Unidos terão que mergulhar até um patamar ainda inferior ao atingido pelo Japão”, afirma o economista norte-americano Michael Burda, da Universidade Humboldt, em Berlim. “O país atravessa um grave dilema. Eu acredito que haverá uma profunda recessão”.

Durante o governo Bush, a dívida nacional subiu para mais de US$ 9 trilhões. O presidente dos Estados Unidos transformou o superávit orçamentário de US$ 236 bilhões que herdou em 2000 em um déficit que atualmente anda próximo dos US$ 250 bilhões. E, quase na casa dos US$ 760 bilhões, o déficit da balança comercial representa mais de 6.5% do produto interno bruto (PIB) dos Estados Unidos.

“Se a crise continuar no próximo ano, é bem possível que ela assuma proporções semelhantes à da depressão mundial da década de 1930″, adverte Burda.

Para muitos economistas, a queda do dólar também simboliza o declínio de uma potência econômica global. A China poderá assumir esse papel em algum momento no futuro. O problema é o período de transição, no qual uma potência está se enfraquecendo enquanto a outra ainda não é capaz de ocupar o lugar da anterior.

Os perigos potenciais são tão grande porque raramente houve tantas incertezas na estrutura monetária mundial. Nenhum economista é capaz de prever com confiança se o domínio do dólar, que proporcionou relativa estabilidade no comércio internacional após o fim da Segunda Guerra Mundial, está agora chegando a um fim. E ninguém sabe o que acontecerá a seguir. O euro fortalecido poderia assumir o papel do dólar como reserva monetária internacional? Ou o euro e o dólar dividiriam essa tarefa até que, um dia, no futuro, uma moeda asiática superasse ambas as moedas ocidentais?

Essa alteração não seria algo de incomum. Toda era possui a sua própria moeda mundial. Quando o Império Romano dominava o mundo, o dinar de prata assumiu este papel. No início da era moderna foi a vez do florim holandês, seguido pela libra esterlina, que dominou o mundo até o declínio do Império Britânico, após as duas guerras mundiais. Desde então o dólar tem sido a reserva monetária mundial.

Der Spiegel
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A queda livre do dólar - parte 1: por que a moeda dos Estados Unidos é o problema do mundo

Dietmar Hawranek, Alexander Jung, Armin Mahler, Christian Reiermann, Wolfgang Reuter e Gabor Stei

A enferma economia dos Estados Unidos parece estar empurrando inexoravelmente para baixo o valor do dólar, com sérias conseqüências para a economia global. Políticos e banqueiros centrais estão observando impotentes a situação enquanto o cenário econômico piora a cada dia e as companhias européias amargam grandes prejuízos.

O custo de fabricação de uma nota de um dólar é de quatro centavos —uma ninharia quando comparada à influência dessa nota verde sobre a economia mundial.

A taxa de câmbio do dólar é capaz de fortalecer companhias ou economias inteiras —ou de fazer com que estas mergulhem em crises. A taxa de câmbio entre o dólar e o euro normalmente flutua cerca de alguns centésimos de centavo por dia. Mas nos últimos cinco anos essa flutuação resultou, com mais freqüência, em uma inflexão negativa da moeda dos Estados Unidos, causando consternação —e agora desespero— entre indivíduos de todo o mundo.

Na quinta-feira passada, Thomas Enders, o diretor executivo da Airbus, fez um discurso aos funcionários do prédio 261 do complexo de produção do consórcio aeronáutico em Hamburgo. Ele estava ali para comunicar aos funcionários que foi atingido um limiar doloroso. O gráfico que ele projetou na parede revelou a aterrorizante trajetória do dólar com o passar do tempo.

A moeda norte-americana perdeu 13% do seu valor em relação ao euro desde o início deste ano. Por outro lado, o euro aumentou de valor, e por um breve período na última sexta-feira chegou a aproximar-se da marca de US$ 1,50, que tem um impacto simbólico.

Segundo Enders, o ritmo de queda da moeda norte-americana torna “os processos razoáveis de ajuste” uma impossibilidade prática. Cada centavo de desvalorização do dólar em relação ao euro significa um prejuízo de 100 milhões de euros para a Airbus. Isso deixou até o normalmente otimista Enders alarmado. “É uma ameaça letal”, disse ele à platéia.

Mas ele se recusou a dizer como a Airbus reagirá, ou seja, se as demissões superarão a já planejada marca de 10 mil, ou se a companhia será obrigada a fechar algumas das suas unidades de produção. Aparentemente, nem mesmo Enders sabe ainda o que acontecerá.

Assim como muita gente na política e nos negócios, Enders não tem idéia do que fazer a respeito do declínio do dólar, que ainda é a reserva monetária mundial. A velocidade do declínio é especialmente preocupante. Só nas últimas dez semanas, o dólar desvalorizou-se 12 centavos em relação ao euro.

Jean-Claude Trichet, o presidente do Banco Central Europeu, diz que já percebe “movimentos brutais” na estrutura monetária internacional.

Enquanto isso, o preço do petróleo está alcançando patamares recordes.
Poucos anos atrás, quem tivesse previsto que o euro valeria US$ 1,50 e que o preço do barril de petróleo se aproximaria dos US$ 100 seria ridicularizado como notório pessimista e profeta de desgraças. Qualquer desses dois valores, separadamente, teria parecido suficiente para deixar a economia global de joelhos.

Mas agora essas duas notícias terríveis surgem juntas, e no entanto a economia mundial continua crescendo. Até mesmo os preços dos mercados de ações mundiais continuam surpreendentemente elevados.

Mas cada aumento do preço do petróleo em dólares e, especialmente, cada centavo de desvalorização da moeda norte-americana fazem aumentar o temor de conseqüências aparentemente inevitáveis, o medo de que o crescimento global sofra uma desaceleração e de que, em um cenário extremo, tal crescimento seja até mesmo paralisado.

O mundo depende do dólar. Essa é a mais importante moeda no comércio global. Aeronaves, petróleo, aço e a maioria das reservas naturais são cotados em moeda norte-americana. Bancos centrais de todo o mundo investem uma parcela substancial de suas reservas monetárias em dólares. A competitividade de continentes inteiros depende de mudanças nos valores da reserva monetária mundial. Por essas razões, o declínio do dólar tem o potencial de jogar a economia mundial em uma crise.

Os norte-americanos gastam mais do que ganham há anos. Isso inclui tanto os consumidores, que com freqüência compram casas, carros e outros produtos de consumo a crédito, e o governo, que acrescenta bilhões de dólares à dívida nacional para pagar os seus programas, especialmente o combate ao terrorismo e a guerra no Iraque.

Durante muito tempo, esses empréstimos constantes não foram um problema, já que os Estados Unidos desfrutavam de uma linha de crédito praticamente ilimitada no exterior.

Mas agora essa confiança se desvaneceu. Assim que a bolha imobiliária dos Estados Unidos estourou, ficou claro o quão frágil era de fato a base sobre a qual se apoiava o crescimento econômico do país. Bancos de todo o mundo poderiam muito bem acabar tendo prejuízos de centenas de bilhões de dólares em dívidas não honradas em dólares. Diversos bancos internacionais importantes já demitiram os seus executivos graduados por terem feito investimentos excessivamente arriscados.

Os financiadores mundiais tornaram-se cautelosos, fazendo com que ficasse cada vez mais difícil para os consumidores e os empresários norte-americanos tomar dinheiro emprestado. Os gastos dos consumidores e os investimentos, os dois principais pilares de sustentação da economia dos Estados Unidos, estão abalados.

Esse fenômeno fez com que tanto os críticos quanto os inimigos dos Estados Unidos praticamente dançassem de felicidade nas ruas. “O reino do dólar está desmoronando”, afirmou o presidente venezuelano Hugo Chávez, dando a entender que o próprio Estados Unidos será a bola da vez. O presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad não perdeu tempo em ridicularizar a moeda dos Estados Unidos, afirmando que ela “não passa de um pedaço de papel sem valor”.

Mas o que os detratores dos Estados Unidos não conseguem entender é que os abalos secundários de um terremoto econômico nos Estados Unidos também atingirão os seus países. Os europeus, por outro lado, já estão preocupados com esse efeito colateral.

Der Spiegel
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E se… os nazistas tivessem ganho a guerra?

Denis Russo Burgierman

A idéia de que Hitler pudesse concretizar seus planos megalomaníacos hoje soa absurda. Mas os alemães estiveram perto de ganhar a guerra. Tanto que o historiador inglês Stephen Ambrose atribui a derrota dos nazistas a um meteorologista escocês. Ele chamava-se J.M. Stagg e fazia a previsão do tempo para as tropas aliadas. No dia 5 de junho de 1944, apesar da tempestade que castigava a costa francesa, ele garantiu que o céu abriria mais tarde.

Foi um chute, pois o clima naquela região é tão instável que até hoje os satélites erram metade das previsões. Mas Stagg acertou. Se a chuva continuasse, os soldados que desembarcaram na França na manhã seguinte - o Dia D - chegariam à costa enjoados, incapacitados para lutar. E não haveria visibilidade para soltar páraquedistas ou bombas. Resultado: a operação para libertar a França seria um fiasco.

Por outro lado, o historiador militar inglês John Keegan acredita que Hitler perdeu sua chance de vencer 3 anos antes, em 1941. Nessa época, quase toda a Europa estava em suas mãos ou na de seus cúmplices italianos e simpatizantes espanhóis. Animado, o ditador encarou de frente a Rússia e foi derrotado pelo inverno. Keegan argumenta que Hitler poderia ter optado por uma invasão indireta. Ele entraria fácil na Turquia e de lá estenderia seus tentáculos pelo Oriente Médio. Garantiria, assim, um suprimento inesgotável de petróleo para suas tropas. Depois, tomaria o sul da União Soviética, onde o inverno não é tão cruel. E deixaria Stálin sem suas maiores reservas petrolíferas.

“Daí para a frente, seria fácil conquistar a Rússia e depois a Índia, então colônia inglesa”, diz Keegan. Enquanto isso, seus aliados japoneses ocupariam a China, ligando o Japão à Alemanha. E não pararia por aí. “A Inglaterra é pouco populosa e pobre em recursos naturais”, afirma Keegan. Sem suas colônias, viraria presa fácil. Na época, boa parte da África era colônia européia e acabaria nas mãos do führer.

Resultado: antes mesmo de 1950, o “império nazista” já teria se estendido por Europa, Ásia e África - mais do que os Impérios Romano e Mongol somados. “Seria um mundo de duas classes”, diz Christian Lohbauer, especialista em história alemã, da USP. Os arianos, considerados superiores, mandariam. Eslavos, negros e asiáticos virariam cidadãos menores. Outros povos, como judeus e ciganos, seriam dizimados.

É bem possível que nem assim os nazistas sossegassem. “Eles dependiam da guerra”, diz Lohbauer. “As empresas alemãs cresceram fornecendo equipamento para o Exército e precisavam da mão-de-obra escrava dos prisioneiros”. Ou seja: continuariam invadindo país após país para manter esse esquema. Iriam para o Pacífico e de lá para a Oceania. “Podemos ter um século de luta à nossa frente”, disse Hitler certa vez. “Antes isso do que ir dormir.”

Assim, ele esbarraria nos interesses de outra potência: os EUA. “Não permitiríamos que eles se apoderassem da América Latina”, afirma o americano Robert Cowley, fundador da revista Militar History Quarterly, especializada em história militar.

Neste cenário, a Guerra Fria teria ocorrido entre Alemanha e EUA. “Mas o mais provável seria uma guerra quente mesmo”, diz Keegan. E o palco seria a América Latina. A luta duraria para sempre? “Acho difícil”, diz Cowley. “O império nazista baseava-se numa figura carismática. Uma hora Hitler morreria. Quem o substituiria?”

Depois da morte do ditador, os oprimidos iriam se rebelar e o império se despedaçaria. Chegaríamos ao ano 2000 nos reerguendo dos destroços. É bem possível que a ciência estivesse estagnada, depois de décadas torrando dinheiro em bombas. A informática seria primitiva. E a internet não existiria: regimes autoritários, que dependem do controle da informação, impediriam que ela se difundisse. Na próxima vez que navegar na rede mundial de computadores, agradeça, portanto, àquele sortudo meteorologista escocês.

Revista Superinteressante
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A Índia em busca do poderio perdido

Como o segundo país mais populoso do planeta age para se transformar em potência mundial. O complicado xadrez das relações com EUA, China e Rússia. O drama: nos planos de poder, eliminar a pobreza e exclusão maciças não é prioridade

Martine Bulard

Inclinando suavemente a cabeça, como os indianos fazem enquanto falam, Amit Raynah, estudante de uma das mais prestigiosas universidades do país, a Universidade Jawaharlal Nehru (UJN), em Nova Délhi, é categórico: “Um elefante corre bem depressa”. Dentre os estudantes reunidos em volta dele, nenhum contesta esta afirmação. Todos estão certos de que a Índia, em um prazo mais ou menos curto, vai voltar ao seu lugar no comércio mundial. A ponto de ultrapassar o dragão chinês? Sobre essa questão, os jovens estão mais divididos. Porém os sonhos de poder estão em todas as cabeças.

Houve um tempo, é verdade, em que a civilização hindu brilhava em toda a Ásia. Um tempo em que a Índia, quase em pé de igualdade com a China, ocupava o primeiro lugar mundial, respondendo por 22,6% da renda do planeta [1]. Era 1700. Um século mais tarde, em 1820, sua participação já se reduzia a 15,7%, duas vezes menos que sua poderosa vizinha — que acabou por segui-la na queda, a ponto de, em 1980, a Índia (com 3,4% da renda mundial) e a China (com 5%), ficarem marginalizadas. Desde então, esta última provou que um país pode dar de novo a partida. E Nova Délhi, que ficou para trás, quer recuperar o atraso o mais depressa possível.

Para alcançar este objetivo, a Índia decidiu tomar o trem norte-americano, mais por pragmatismo, que por ideologia [2]. No seu escritório de Nova Délhi, mobiliado à moda soviética dos anos 1960, Navtej Singh Sarna, porta-voz do ministério de Assuntos Exteriores, confirma isso com palavras estudadas: “Os Estados Unidos são a superpotência dominante, é lógico que estejamos inclinados a manter boas relações com eles”. De certa forma, é uma simples normalização, depois de décadas de um não-alinhamento mal aceito por Washington e de uma vida diplomática sonolenta à sombra da URSS. Confirmando esta tese, o aumento do intercâmbio comercial indo-norte-americano, foi de 11% em 2005-2006, enquanto que o comércio com a Rússia, sua ex-parceira principal, marca passo.

Na verdade, a Índia quer muito mais. Fascinada pela rapidez com que avança sua irmã-inimiga chinesa, de economia aberta [3], não esconde sua vontade de utilizar essas novas amizades para obter vantagens sonantes e frementes e atrair os capitais que lhe faltam. O montante dos investimentos estrangeiros diretos (IED) recebidos pela China chegou a cerca de 72,4 bilhões de dólares no ano passado; a Índia recebeu apenas 6,6 bilhões. Esse volume é certamente subestimado, pois os movimentos de capitais não são todos registrados. E Nova Délhi ressalta o fato de que acolhe 40% dos IED nas tecnologias da informação destinadas aos países em desenvolvimento, enquanto a China só recebe 11%. Nem por isso a diferença é menos abissal.

Em busca de capitais, o governo de Manmohan Singh multiplica vantagens de todo o tipo, copiando as receitas chinesas (zonas econômincas especiais quase sem impostos, suspensão de proteções administrativas, redução de impostos alfandegários…). Com resultados. Além dos investimentos nos serviços de informática e na indústria automobilística (a Renault anunciou, em novembro de 2006, a criação de uma montadora), as grandes redes de distribuição (Wal-Mart, Tesco, Carrefour) trombetearam sua chegada. Azar se estes hipermercados, hoje ausentes, trazem o risco de matar o comércio local e modificar a paisagem, ainda a salvo da urbanização uniformizada ocidental. A “modernização” está em curso com os Estados Unidos à frente dos investidores, seguidos pelas Ilhas Maurício (paraíso fiscal), Grã-Bretanha, Japão e Coréia do Sul.

Armas nucleares, parte do projeto de potência mundial
Porém, mais ainda que ambições econômicas, são as preocupações políticas que animam as autoridades: a Índia quer ser reconhecida como uma superpotência asiática e mundial. Donde a importância do acordo nuclear com os Estados Unidos. Ratificado pelos democratas e republicanos no Congresso norte-americano, no fim de 2006, será efetivado no começo do ano, prontinho para a segunda visita de George W. Bush a Nova Délhi, em março de 2007. O embargo que atingia a Índia desde seus testes nucleares autônomos de 1998 foi suspenso, embora o país ainda não tenha assinado o Tratado de Não-Proliferação de nuclear (TNP) e recuse – em nome de sua independência – inspeções internacionais em mais de um terço de suas instalações (exigências impostas pelos Estados Unidos e os países ocidentais ao Paquistão, Coréia do Norte e Irã).

A Índia poderá agora importar materiais especiais para produzir energia nuclear, num momento em que suas necessidades energéticas estão explodindo. Mas isso não é o essencial, como explica um dos dipllomatas indianos mais em evidência, Shashi Tharoor, secretário-geral adjunto da ONU (e candidato derrotado à sucessão de Kofi Annan): “Mais importante que o abastecimento energético, o que conta nesse acordo é o reconhecimento total da Índia como potência nuclear. Os Estados Unidos e as potências nucleares reconhecem a exceção indiana.” Porque está claro que “a Índia não é um país como os outros”, segundo uma fórmula hoje muito recorrente.

Em 1947, esta singularidade fazia da Índia uma “potência moral”, que brilhava entre os países do “Terceiro Mundo” em processo de descolonização e investia na política de não-alinhamento. Hoje, Nova Délhi assume ares de “potência militar” amparada pelos americanos. Alguns indianos concluíram, com essa reviravolta, que o país corria o risco de cair na “armadilha do alinhamento”, o que lhes valeu uma resposta enérgica do primeiro-ministro Manmohan Singh. Ele lamentou “a falta de avaliação justa do que é preciso alterar em nossas relações como o mundo” – especialmente, por parte dos dirigentes políticos [indianos]: “Muitas vezes adotamos uma postura política baseada no passado”.

Se o acordo nuclear com Washington deixa à Índia a possibilidade de “desenvolver seus próprios programas de produção de material físsil”, como aliás lamentam alguns senadores norte-americanos [4], não deixa de exigir contrapartidas políticas. O governo Bush já fez saber que se oporia ao projeto do gasoduto com o Irã, que garantiria uma parte não desprezível das necessidades energéticas nacionais e teria um alcance diplomático importante, levando a Índia a negociar com seu inimigo principal, o Paquistão, por onde a obra também passaria. “Seria um forte atrativo para a manutenção da estabilbidade entre a Índia e o Paquistão” [5], nota Edward Luce, ex-colaborador da equipe de Bill Clinton, hoje em dia comentarista do Financial Times. Por hora, Singh usa, para manter-ser vago, o pretexto de exigências de preço excessivamente elevadas, por parte do Irã. É difícil que consiga sustentar esta posição por muito tempo.

O complicado xadrez das relações com a China
Mas a Índia deve ainda compor-se com sua poderosa vizinha, a China. Irão estes dois gigantes que emergem construir um entendimento regional para pesar no comércio asiático e planetário? Ou guerrearão pelo primeiro lugar na Ásia? Esta última hipótese parece mais plausível. Mas o jogo ainda não foi feito. De fato, a partida não se joga a dois, mas a três (com os Estados Unidos) ou mesmo quatro (com o Japão).

Se os norte-americanos resolveram correr o risco de amenizar as regras do Tratado de Não-Proliferação nuclear, é para impulsionar a Índia como contrapeso à China, cuja ascensão econômica, militar e também diplomática ameaça a hegemonia de Washington na região. A ponto de alguns de seus sustentáculos tradicionais parecerem mais frágeis — como a Coréia do Sul, que se recusou-se a entrar em choque com a Coréia do Norte. Por ora, o governo Bush encontra um ouvido atento do lado indiano, que desconfia da vizinha.

Entretanto, o primeiro-ministro chinês Wen Jiabao argumentava, com um formidável sentido da história, em visita a Nova Délhi em abril de 2005: “Durante os últimos 2200 anos – ou, digamos, durante 99,9% desse tempo – estabelecemos cooperações de amizade entre nossos dois países” [6]. Este 0,1% da contabilidade chinesa tem como nome… a guerra de 1962 [7], que continua viva na mente dos indianos. A derrota, inesperada, anunciou o fim da era Nehru, e hoje permanece com uma ferida.

Contudo, como no início das relações sino-indianas, que segundo o economista Amartya Sen, começaram “com o comércio – e não com o budismo” [8] foi pela economia e o intercâmbio comercial que os dois países reataram laços. Pouco significativo até 2000 (3 bilhões de dólares), o comércio chegou a 22 bilhões de dólares em 2006. A China, que vende mais do que compra, e quer aproveitar as sinergias entre as duas economias para superar mais rapidamente seu atraso tecnológico, milita pela assinatura de um acordo de livre-comércio, constantemente rechaçado. Com um produto interno bruto (PIB) três vezes menor, a Índia teme que os produtos chineses cheguem com toda a força. E procura acima de tudo consolidar sua indústria, envelhecida e relativamente débil: está consciente de que a especialização em televendas, serviços terceirizados para as empresas anglo-saxônicas do mundo inteiro ou informática não bastam para sustentar o desenvolvimento nacional. Nem por isso deixou de assinar treze acordos de cooperação (em finanças, agricultura, informática, energia…), durante a viagem do presidente chinês Hu Jintao, de 20 a 23 de novembro de 2006.

Na pauta com Pequim, energia e forças armadas
A distensão ensaiada poderia também desenvolver-se no campo da energia, onde a demanda está explodindo. Por ora, a concorrência para apoderar-se do abastecimento domina amplamente, e Pequim está muito à frente, principalmente na África. Ocorre que no fim de 2005, a China National Petroleum Corporation (CNPC) e a Oil and Natural Gas Corporation (ONGC) indiana entraram em acordo para investir na exploração de reservas de petróleo sírias. No mesmo ano, os ministros do petróleo dos dois países quiseram criar uma espécie de cartel de compradores para influenciar nos preços – uma tentativa, que nunca se concretizou, pois o ministro indiano Mani Shakar Aiyer foi derrubado nesse meio tempo. Entretanto, o comunicado comum que marcou a última visita de Hu Jintao esclarece que é preciso “encorajar a colaboração entre as empresas dos dois países, o que inclui a prospecção e a exploração em comum de recursos energéticos de um terceiro país” [9]. A declaração faz sentido quando se sabe que os Estados Unidos protestaram vivamente junto ao governo indiano depois dos investimentos na Síria.

Este comunicado sino-indiano insiste também na necessidade de “promover a cooperação no campo da energia nuclear, respeitando os compromissos internacionais de cada um”. Os termos são vagos – ao contrário do acordo que o presidente chinês assinaria alguns dias mais tarde com o Paquistão. Mas é a primeira vez que tal referência à cooperação nuclear existe em um documento oficial [10]. No fundo, Pequim procura contrapor-se ao acordo indo-norte-americano, tentando evitar que Nova Délhi se torne o interlocutor privilegiado de Washington.

Estes avanços permanecem, no entanto, contidos. Os contenciosos fronteiriços, ainda existem (no nordeste da Índia, uma parte do Arunachal Pradesh reivindicado por Pequim; a noroeste o Aksai Chin, reclamado pela Índia). A Comissão encarregada de resolvê-los não avança para valer. A China admitiu, é certo, que o Sikkim, antigo reinado budista transformado em província indiana desde 1975, era parte integrante da federação indiana. Por seu lado – e o alcance estratégico é bem maior – a Índia reconheceu, desde 2003, a soberania da China sobre o Tibete, enquanto o Dalai Lama e de 100 mil a 120 mil refugiados ainda vivam no seu território. Em julho de 2006, a garganta himalaia de Nathu La foi aberta, dando de novo um pouco de vida à célebre rota da seda, fechada desde 1962. Estamos longe da atividade do começo do século 20, quando três quartos da troca de mercadorias entre os dois países passava por essa estrada, mas podemos achar que os militares vão progressivamente ceder lugar aos comerciantes.

Entretanto, a desconfiança indiana continua, com o medo de um cerco da potência chinesa. No norte, o Paquistão gozou por muito tempo de um apoio incondicional de Pequim no conflito com Nova Délhi na questão da Caxemira [11]. O financiamento da construção de um porto em águas profundas, em Gwadar (Baluquistão paquistanês), reforça eses temores. Como o financiamento dos equipamentos navais na Birmânia, no sudeste. Pequim diz querer unicamente um acesso ao mar que proteja as rotas marítimas de suas importações. Nova Délhi não acredita: multiplica as manobras militares e navais com as forças norte-americanas, inclusive nos confins da fronteira chinesa, ou no Oceano Índico até o estreito de Málaga, linha de passagem de navios petroleiros. Também são realizadas manobras com o Japão, que está forjando uma nova concepção, mais ofensiva, de seu exército [12].

Surpresa: um possível “triângulo China-Índia-Rússia”
A Índia quer mostrar seus músculos. Entre as elites, a maioria, abertamente pró-norte-americana, aceita que o país cumpra o papel de plataforma contra a China, desejado pelo governo Bush. Mas uma parte do empresariado mostra-se mais reticente. “Não é a Índia contra a China que vamos ver, mas a China junto com a Índia” [13], declarou recentemente Syamam Gupta, diretor da Tata Sons, um dos grandes industriais indianos. A posição encontra eco entre os dirigentes políticos. O ex-primeiro-ministro Jairam Ramesh, membro do Partido do Congresso, no poder, publicou um livro de muita repercussão com um título emblemático: Making Sense of Chindia [”Dando sentido à Chíndia”].

Ninguém propõe, naturalmente, construir relações sino-indianas contra os Estados Unidos. E ninguém pode esquecer que os dirigentes chineses agem com pouca margem com os norte-americanos, com quem têm relações econômicas muito vastas. Entretanto, dar um conteúdo real à declaração de intenção sino-indiana “de explorar uma nova arquitetura para uma colaboração mais estreita na Ásia” torna-se urgente em uma região onde as despesas militares explodiram nos últimos anos, envolvendo a China (2º lugar mundial), Japão (4º) e Índia (8º)… Como diz Siddarth Varadarajan, célebre comentarista do The Hindu: “A Ásia é importante demais para ser dirigida por uma única potência; nem a China, nem a Índia, nem o Japão podem pensar em dirigir a região sozinhos ou em aliança com uma potência externa”. Como muitos intelectuais progressistas, Varadarajam preconiza uma presença indiana mais ativa nas organizações regionais.

Um dos pontos de apoio da diplomacia indiana de outrora parece ter desaparecido: a Rússia. As declarações comuns são discretas, as relações bilaterais pouco espetaculares. No entanto, o comércio, que havia desmoronado no início dos anos 1990, recuperou-se, singularmente, no campo militar. Segundo a pesquisadora Anuradha M. Chenoy, professora emérita no departamento de Estudos Internacionais da universidade UJN, “a Índia é o único país que tem um programa de cooperação técnica e militar com a Rússia”, movimentando um comércio que atingiu 6,5 bilhões de dólares em 2005. A Rússia continua sendo o principal vendedor de armas na Índia, sendo o segundo Israel, com o qual o antigo governo nacionalista indiano estabeleceu relações diplomáticas estreitas [14].

A procura de petróleo e gás constitui também um poderoso estímulo à cooperação. O ex-ministro do petróleo, Mani Shankar Aiyer, declarava em outubro de 2004: “Ao longo da primeira metade do século da independência da Índia, a Rússia garantiu nossa integridade territorial; na segunda metade, ela vai garantir nossa segurança energética” [15]. Sem dúvida não é o ponto de vista oficial, mas a companhia ONCG participa da exploração das jazidas petrolíferas de Sarhalin I e II. A Rússia comprometeu-se também em fornecer 60 toneladas de urânio. A energia constitui uma de suas armas para tornar-se de novo um dos pólos que contam na vida política mundial. “A superpotência militar tornou-se superpotência petroleira sob Putin, cuja missão é manter a Rússia como uma potência que deve ser respeitada, se não for temida”, assegura Yu Bin, do International Relations Center [16].

É possível ver desenhar-se um “triângulo Índia-China-Rússia” na vez e lugar do “triângulo China–Índia–Estados Unidos” (”triângulo CIA”, segundo a expressão de seus oponentes)? Não se chegou aí. Contudo, Nova Délhi decidiu participar, a título de observador (assim como o Paquistão e o Irã) da Organização de Cooperação de Xangai (OCS). Esta abrange as repúblicas da Ásia Central (Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão e Uzbequistão), além da China e da Rússia. Estas últimas procuram dar-lhe um poder diplomático mais forte, diante do aumento da influência norte-americana na região.

Exclusão maciça: o grande calcanhar-de-Aquiles
Por ora, a Índia não parece capaz de tomar inicativas estratégicas espetaculares, como explica muito bem o escritor Sunil Rhilnani: “Fomos seduzidos pela idéia de que logo nos tornaríamos um convidado permanente na festa perpétua das grandes potências, que deveríamos sacudir a poeira e usar roupas novas para o banquete [17].”

Na verdade, uma parte de sua energia está mobilizada para resolver os problemas em suas fronteiras. Embora sem pressa em estabelecer relações igualitárias com seus vizinhos, ela contribuiu para levantar a Associação para uma Cooperação Regional da Ásia do Sul (Acras ou Saarc - South Asian Association for Regional Cooperation) reunindo sob a mesma bandeira Bangladesh, Butão, Maldivas, Nepal, Paquistão e Sri Lanka. Mas a cooperação econômica continuou marginal (menos de 10% do comércio) e a organizção sobrevive, sem conseguir superar os conflitos.

Naturalmente, as relações tensas entre a Índia e o Paquistão contribuem para essa anomia. Ainda mais porque se arrastam as conversações iniciadas em 2004 sobre a Caxemira, dividida em duas, com Azad Caxemira (Caxemira livre) ao norte, controlada pelo Paquistão e ao sul Jammu-et-Caxemira, sob controle indiano. A fronteira foi aberta em cinco pontos, o comércio recuperou-se ligeiramente. Interrompido após um atentado em Mumbai, em 11 de julho de 2006, que provocou cem mortos e cuja responsabilidade foi atribuída pela Índia aos serviços secretos paquistaneses, ele recomeçou no final de outubro. Pela primeira vez, o preseidente paquistanês Pervez Musharraf anunciou, em 5 de dezembro último, que o Paquistão estava disposto a renunciar à Caxemira, se a Índia também o fizesse. A proposição foi acolhida “com interesse” pelo primeiro-ministro indiano. Nos dois lados da Caxemira, continua a predominar a prudência.

Sem ser conflituosas, as relações com os outros vizinhos mais próximos não estão, contudo, normalizadas — ainda que o acordo no Nepal, entre as forças governamentais e os movimentos maoístas, no começo de novembro, permita esperar novas relações. As incertezas em Bangladesh, o caos que reina no Sri Lanka não deixam de ter conseqüências internas. Estima-se em 20 mil o número de refugiados bengaleses do outro lado da fronteira e cerca de 10 mil tamuls se amontoam nos campos do Estado do Tamil Nadu. Muitos vivem em penúria total, dando lugar aos movimentos mais violentos e desencadeando as mais terríveis ações policiais.

A miséria alimenta o movimento dos naxalistas (maoístas), singularmente em Bengala Oeste, em Orissa e um pouco mais ao norte, no Estado do Bihar, na fronteira com o Nepal, onde as reivindicações independentistas ganham amplitude. “É nosso maior problema de segurança”, declarou Singh. As fronteiras certamente são porosas. Mas o primeiro-ministro esquece as causas sociais dessas rupturas, especialmente a destruição causada pela “modernização” do campo. Em 2005, mais de 10 mil camponeses se suicidaram, no mais das vezes bebendo pesticidas, porque não podiam enfrentar suas dívidas. A Índia é exportadora de cereais, mas a desnutrição atinge a metade das crianças. Quatro indianos em dez não sabem ler nem escrever (um em dez na China). A Índia está em 126º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano (a China está em 81º).

Se o governo tomou algumas medidas, muitas vezes desviadas por causa da corrupção maciça, nem o governo, nem as elites, parecem tocados por este fosso entre a maioria da população e os 60 a 70 milhões de indianos (entre 5% a 6% da população) que conquistaram um nível de vida comparável aos padrões europeus. O diplomata Shashi Tharoor é um dos poucos a dizer: “É preciso cuidar da outra Índia (…) devemos investir no “hardware” [estradas, portos e aeroportos, de fato em estado lamentável], mas também no “software”, isto é, nos seres humanos, e dar-lhes aquilo que precisam. É uma questão de civilidade… ” A exclusão maciçaa é o calcanhar-de-Aquiles de um país tido como “a mior democracia do mundo”.

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[1] Angus Maddison, “L’Economie chinoise, une perspective historique”, Etudes de l’OCDE, Paris, 1998.

[2] Ler Christophe Jaffrelot, “Washington aposta na Índia”, Le Monde Diplomatique-Brasil, setembro de 2006.

[3] A Índia representa 1% do comércio mundial; a China, 6%.

[4] Dafna Linzer, “India nuclear report never done”, The Wall Street Journal, Nova Iorque, 16 de novembro de 2006.

[5] Edward Luce, In Spite of the Gods, Little, Brown, Londres, 2006.

[6] Declarações relatadas por Jairam Ramesh, Making sense of Chindia, India Research Press, Nova Délhi, 2005.

[7] Entre outubro e novembro de 1962, e China e a Índia, já em desacordo sobre o Tibet, confrontaram-se na fronteira do Himalaia.

[8] Amartya Sen, “Passage to China”, New York Review of Books, volume 51, n° 19, 2 de dezembro de 2004.

[9] “Joint déclaration by the Republic of India and the People’s Republic of China”, Nova Délhi, 21 de novembro de 2006.

[10] Ler Siddharth Varadarajan, “New Delhi, Beijing talk nuclear for the first time”, The Hindu, Nova Délhi, 22 de novembro de 2006.

[11] Ler Jean-Luc Racine, “A via estreita do Paquistão”, Le Monde Diplomatique-Brasil, junho de 2004.

[12] Ler Emilie Guyonnet, “As novas ambições do Japão”, Le Monde Diplomatique-Brasil, abril de 2006.

[13] Associated Press, 22 de novembro de 2006.

[14] O objetivo era encontrar um fornecedor de armas, depois do desmoronamento soviético, mas também afirmar uma aproximação ideológica com forte conotação anti-muçulmana. Ler Nicolas Blarel, Inde et Israël: le rapprochement stratégique, L’Harmattan, Paris, 2006.

[15] Declarações relatadas por Anuradha M. Chenoy, “India and Russia: allies in the international political system” em um número do India’s Foreign Policy, a ser publicado em 2007.

[16] “Central Asia between competition and coopération”, Foreign Policy in Focus, Washington, 4 de dezembo de 2006.

[17] “The mirror asking”, Outlook, Nova Délhi, , 21 agosto de 2006.

Jornal Le Monde
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Para quilombolas, desenvolvimento depende de acesso à terra

Em seminário sobre desenvolvimento sustentável e geração de renda, comunidades quilombolas expõem dificuldade de obtenção do título de propriedade, que impede a implementação de projetos e políticas públicas

Beatriz Camargo

Conseguir o título das terras e acesso a seus recursos, gerar renda e manter a identidade. Os três desafios da população quilombola foram discutidos, nesta quarta-feira (21), no seminário “Desenvolvimento sustentável e geração de renda”, organizado pelo Instituto de Terras de São Paulo (Itesp), na Secretaria de Justiça, em São Paulo (SP).

Como parte da programação de atividades do Dia da Consciência Negra, comemorado na última terça-feira (20), o evento contou com a presença de representantes de comunidades remanescentes de quilombos, acadêmicos, membros do governo federal, estadual e de organizações não-governamentais (ONGs).

Na visão dos quilombolas - que também participaram da manifestação do Dia da Consciência Negra na Avenida Paulista, venderam produtos e fizeram apresentações culturais na feira organizada no Parque da Água Branca -,
o conceito de desenvolvimento sustentável se mescla com o saber tradicional, nas práticas de uso e ocupação do solo. No entanto, eles sabem que a posse da terra é fundamental para a melhoria das condições de vida.

“Como podemos desenvolver um projeto de desenvolvimento sustentável sem a terra?”, indaga Benedito Alves, o “Ditão”, da Coordenação Estadual Quilombola e membro da comunidade de Ivapurunduva, no município de Eldorado, no Vale do Ribeira. Lea Sales, coordenadora-geral de apoio a grupos vulneráveis do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), endossa a raciocínio de Ditão. “Sem o título das terras, não dá para o governo federal construir nem uma casa de farinha.”

A população quilombola, define Marcos Gamberini, coordenador técnico do projeto Vale do Ribeira do Instituto Socioambiental (ISA), é protagonista da proteção da biodiversidade na região e de um novo tipo de desenvolvimento. “Cada comunidade tem uma característica e um potencial na Mata Atlântica a ser explorado. É um caminho novo, mas que só vai ser trilhado se as comunidades estiverem com o título da terra em mãos”.

Novos caminhos
A sobreposição de territórios quilombolas e Unidades de Conservação (UCs) surge freqüentemente como um problema para a titulação. “Hoje se fala que o quilombo está dentro de um parque, e não o contrário. Nós ocupamos aquela área há 400 anos”, critica Ditão. Para ele, contudo, mesmo com a posse terra, é preciso encontrar novos caminhos. “A nossa tradição de roça de sustento não comporta a situação de hoje”.

Para desenvolver atividades sustentáveis e que gerem renda, porém, muitos obstáculos precisam ser contornados. A maneira como está redigida a versão original da Lei da Mata Atlântica, por exemplo, impede o manejo de diversas espécies nativas, entre elas a palmeira jussara, considerada a grande riqueza do Vale do Ribeira. “Ela sempre foi a riqueza daqueles de fora do Vale. O desenvolvimento sustentável na região passa por novos planos de manejo e pela exploração do palmito da jussara”, aposta o professor Celso Lopes, coordenador do projeto de extensão “Comunidades Quilombolas” da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Enquanto a lei está sendo modificada no sentido de permitir manejos sustentáveis, já existem estudos sobre o uso da polpa da fruta da palmeira, parecida com o açaí.

Hoje, os principais projetos de geração de renda estão relacionados à produção de palmito da jussara e banana orgânica - sobretudo no Vale do Ribeira -, ao artesanato e ao turismo étnico-cultural. “As comunidades precisam transformar essa manifestação cultural importante em negócio”, pontua Marta Maria Mendes, coordenadora de artesanato do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). “O artesanato quando comercializado dentro da comunidade, para turistas que viveram a experiência ali, tem um alto valor. Fora da comunidade, o produto tem o valor que o mercado quer” No evento, Marta se comprometeu a buscar alternativas de programas específicos para comunidades quilombolas.

Agenda quilombola
Ditão lembrou a diferença entre assentados do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e quilombolas e pediu um tratamento diferenciado. “Nós que somos de lá é que somos os técnicos de lá. Não adianta levar técnico para ensinar a gente a trabalhar”, critica João Forte, da comunidade de Bombas, localizada no município de Iporanga, também no Vale do Ribeira

Isabel dos Santos, gerente de desenvolvimento de produção e renda do Itesp, admitiu que essa é uma preocupação do órgão, que vai investir na formação dos técnicos para trabalhar no contexto de remanescentes de quilombos. “Assentados são pessoas unidas pela vontade de ter terra para plantar. São essencialmente agricultores. Os quilombolas estão unidos por uma identidade e vivem lá há séculos. Não somos nós que vamos dizer o que vai ser plantado”. O Itesp contará em 2008 com um orçamento de R$ 6 milhões, valor que o próprio órgão considera insuficiente para atender quilombolas e assentados em todo o estado. “Precisamos da força política das comunidades quilombolas para pressionar o governo a aumentar esse repasse”, comenta Isabel.

No plano federal, o governo fez do Dia da Consciência Negra a data de lançamento da “Agenda Quilombola”, que vai destinar R$ 2 bilhões do orçamento para o cumprimento de metas por parte de 14 órgãos federais até 2011. Serão investimentos em acesso à terra, infra-estrutura e qualidade de vida, inclusão produtiva e desenvolvimento local e direitos de cidadania. A rubrica de regularização fundiária contém cerca de R$ 300 milhões para reconhecimento, demarcação, titulação de terra e pagamento de indenização aos ocupantes.

“Esperamos que boa parte deste dinheiro venha para o Incra [Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária] desapropriar os fazendeiros que estão em terras quilombolas”, afirma Marcelo, do Isa. Até agora, o Incra não fez nenhuma desapropriação em prol de comunidades quilombolas no estado de São Paulo. O Itesp concedeu títulos a seis comunidades em terras devolutas (públicas) e reconhece, no total, 21 - em processo de titulação. De acordo com o movimento quilombola porém, há cerca de 100 territórios remanescentes de quilombos no Estado de São Paulo.

Repórter Brasil
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O capital monopolista-financeiro

John Bellamy Foster

O ano agora a terminar marca o quadragésimo aniversário da obra clássica de Paul Baran e Paul Sweezy, Monopoly Capital: An Essay on the American Economic and Social Order (Monthly Review Press, 1966). Comparado com os trabalhos da corrente económica dominante de meados da década de 1960 (dos quais os mais populares e influentes foram New Industrial State de John Kenneth Galbraith e Capitalism and Freedom de Milton Friedman), o Capital monopolista destaca-se não só pelo seu radicalismo como também pela sua especificidade histórica. O que Baran e Sweezy procuravam explicar não era o capitalismo como tal, cuja explicação fundamental encontra-se no Capital de Marx, mas ao invés disso uma etapa particular do desenvolvimento capitalista. O seu objectivo declarado era nada menos do que proporcionar um breve “ensaio-esboço” da etapa do capitalismo monopolista através do exame da interacção das suas tendências económicas básicas, concebidas em sentido estrito, com as forças históricas, políticas e sociais que o ajudaram a perfilá-lo e o apoiam.

Portanto, a mais importante questão a levantar no quadragésimo aniversário do livro de Baran e Sweezy é: Será que o capitalismo mudou, evoluindo ainda mais dentro ou mesmo além da etapa monopolista como eles a descrevem? Não há, naturalmente, qualquer resposta fácil a esta questão. Como no caso de todos os grandes desenvolvimentos históricos, o que é mais evidente em retrospectiva é a natureza contraditória das mudanças que tiveram lugar desde meados da década de 1960. Por um lado, é claro que o sistema ainda não descobriu um meio para avançar em relação à sua força condutora: o processo de acumulação de capital. O impasse da estagnação descrito no Capital monopolista agravou-se: a doença subjacente espalhou-se a aprofundou-se enquanto novo sintomas corrosivos se verificavam. Por outro lado, o sistema descobriu novos caminhos de reproduzir-se a si próprio, e o capital paradoxalmente até prosperou dentro deste impasse, através do crescimento explosivo das finanças, ou aquilo a que Sweezy se referiu como “O triunfo do capital financeiro” ( Monthly Review, Junho de 1994). Provisoriamente chamarei a esta nova fase híbrida do sistema “capital monopolista-financeiro”. [1]

Em termos sumários, o argumento do Capital monopolista pode ser resumido como se segue. No início do século XX, o capitalismo experimentou uma grande transformação, marcada pela ascensão da corporação gigante. As primeiras décadas que se seguiram foram dominadas por guerras mundiais e uma depressão associada a esta grande transformação. A seguir à Segunda Guerra Mundial a nova etapa do capitalismo estava plenamente consolidada, particularmente dentro dos Estados Unidos, a economia capitalista mais avançada. O resultado foi uma situação na qual um punhado de corporações gigantes controlou a maior parte das indústrias. Isto constituiu um enorme afastamento em relação ao sistema livremente competitivo do século XIX, no qual a economia fora constituída principalmente por firmas pequenas, de base familiar, que tinham pouco controle sobre o preço, a produção e os níveis de investimento — os quais eram determinados por forças de mercado mais vastas.

Na nova ordem do capital monopolista as firmas comportavam-se não como as empresas livremente competitivas dos manuais de economia mas como aquilo a que Joseph Schumpeter em Capitalism, Socialism and Democracy chamou firmas “correspectivas”, ou oligopólios cuja razão era a maximização do lucro, cada uma das quais levava os seus principais rivais em consideração nas suas decisões sobre preços, e nas suas tentativas de aumentar as suas margens de lucro e as suas fatias de mercado. [2] Tais firmas monopolistas abandonaram a competição de preços mutuamente destrutiva, a qual era alcunhada “guerra de preços”. O resultado foi o que Baran e Sweezy denominaram uma “tendência para o aumento do excedente” na economia como um todo, e particularmente naquela parte representada pelas grandes corporações.

Isto significava que o principal problema da economia era descobrir meios para absorver o enorme excedente económico real e potencial. Alinhado com os trabalhos pioneiros anteriores de Michal Kalecki e Joseph Steindl, Baran e Sweezy argumentaram que a economia capitalista monopolista era caracterizada por uma tendência para a estagnação pois faltavam saídas de investimento lucrativo para o excedente e os outros meios para absorver o excedente (tais como esforços de vendas e gastos governamentais) eram em última análise incapazes de preencher a lacuna. A resultante super-capacidade crónica de produção mantinha a acumulação numa rédea curta ao reduzir a expectativa de lucros sobre novos investimentos e portanto a disposição para investir.

A não ser que surja uma inovação que faça época e reacenda o processo de acumulação com os efeitos de escala do motor a vapor, da ferrovia e do automóvel, o sistema pode permanecer atolado na estagnação por tempo indefinido. Como afirmou Kalecki na sua Theory of Economic Dynamics (1965), “A nossa análise mostra que o desenvolvimento a longo prazo não é inerente à economia capitalista. Assim, ‘factores de desenvolvimento’ específicos são necessários para sustentar um movimento ascendente a longo prazo”. [3]

A questão chave para o capital monopolista era descobrir saídas adicionais para o excedente, para além do consumo capitalista e do investimento, que servissem para impedir o sistema de afundar num mal estar económico. Na verdade, no momento em que Baran e Sweezy escreviam o capitalismo estava a desfrutar uma “idade de ouro”, um período de prosperidade que recordava os melhores tempos da sua juventude. Grande parte do seu trabalho foi portanto destinado a identificar aquelas forças que se opunham à tendência para a estagnação do sistema. Os capítulos 5-7 examinavam como o consumo e o investimento capitalista eram complementados como absorvedores de excedente pelos gastos governamentais civis, pelas despesas militares/imperialistas e pelos esforços de vendas. Contudo, o crescimento do dispêndio governamental civil era estritamente limitado pelo facto de que tendia a invadir áreas de acumulação privada. As despesas militares precisavam ser justificadas em termos de alguma ameaça externa, e portanto só podiam até certo ponto. Os esforços de vendas só eram racionais ao nível da firma na medida em que se traduzissem em vendas adicionais e fatias acrescidas de mercado. Em geral, argumentavam Baran e Sweezy, havia uma falta de simetria entre a estagnação e aqueles factores que se lhe opunham. Enquanto a tendência para estagnação estava profundamente enraizada, era poderosa e persistente, as tendências contrabalançadoras eram mais superficiais, mais fracas e auto-limitantes. [4]

Ao examinar outra vez este argumento um quarto de século depois, no seu artigo “Monopoly Capital After 25 Years” ( Monthly Review, Dezembro de 1991), Sweezy observou: “No todo, penso que se sustenta muito quando julgado à luz de todos os desenvolvimentos e mudanças que se verificaram neste quarto de século cheio de acontecimentos”. A prosperidade das décadas iniciadas após a Segunda Guerra Mundial começou a enfraquecer quase imediatamente após a publicação do seu livro e a década de 1970 assistiu a um retorno às condições de estagnação, recordando a década de 1930 mas não tão sombria, que desde então permaneceram na economia americana e mundial. A afirmação ousada do Capitalismo monopolista, em meados do boom pós Segunda Guerra Mundial, de que “o estado normal da economia capitalista monopolista é a estagnação” (108), invertendo a suposição habitual do rápido crescimento pela frente, foi portanto confirmada numa medida considerável pelo registo histórico ulterior. [5]

No entanto, Sweezy, no vigésimo quinto aniversário do Capitalismo monopolista considerou a sua análise profundamente enviesada quanto a um aspecto: a falha em vislumbrar o ascenso financeiro que começou na década de 1970 e acelerou-se na de 1980. Como ele disse: “Há uma discrepância gritante [entre a teoria e o desenvolvimento histórico real] que não é nem mesmo sugerida, menos ainda explicada, em Capital monopolista. Trata-se do florescimento, precisamente nestes últimos 25 anos, de um sector financeiro expandido e cada vez mais complexo tanto nos Estados Unidos como nas economias capitalistas globais. E este desenvolvimento por sua vez reagiu de maneiras importantes sobre a estrutura e o funcionamento da economia ‘real’ dominada pelas corporações”. Ele continua descrevendo três características desta financeirização da economia que modificaram ou minaram importantes aspectos de argumentos do Capital monopolista.

Primeiro, o capítulo sobre a corporação gigante assumiu que a estrutura da firma do capitalismo das corporações era mais ou menos estável. Contudo, a mania das compras alavancadas (leveraged buy-out) da década de 1980 alimentada por títulos lixo (junk bonds) mudou tudo isto, demonstrando que até mesmo algumas das maiores corporações eram vulneráveis a tomadas de controle (takeovers) externas da parte de empresários financeiros. Tais interesses financeiros, conduzidos pelos reis dos títulos lixo, drenaram enormes reservas de cash para tribunais e pagamentos a accionistas e despejando a dívida acrescida sobre a firma alvo uma vez terminada a tomada, saqueando a companhia adquirida. Embora apenas relativamente poucas corporações gigantes estivesse sujeitas a tais takeovers hostis, o feito global provocado sobre o universo corporativo foi enorme, forçando firmas a carregarem-se de dívidas a fim de se tornarem menos atraentes para os lobos financeiros à procura de activos para alavancagem. As corporações como um todo ganharam “a coloração das finanças especulativas”, enquanto a estabilidade anterior do mundo corporativo era abalada. Isto, notou Sweezy, “põe em questão o paradigma corporativo que Baran e eu tratámos como uma característica inerente do capitalismo monopolista”. Em alguma medida, o controle sobre a economia foi comutado dos gabinetes corporativos de administração para os mercados financeiros. As corporações eram vistas cada vez mais como pacotes de activos, quanto mais líquidas melhor. [6]

Um segundo modo em que o Capital monopolista revelou-se insuficiente, observou Sweezy, foi na sua falha em prever a explosão financeira das décadas de 1970 e 1980, a qual veio a ter efeitos de grande alcance sobre as leis do movimento do capital monopolista. Isto, declarou ele, tem “várias dimensões: o número e variedade de mercados [e de instrumentos financeiros] envolvidos…; a expansão dramática da actividades nestes mercados; o crescimento absoluto e relativo do emprego em ocupações financeiras; e o aumento da fatia das finanças no PNB. Juntamente com todas estas dimensões, o tamanho relativo do sector financeiro cresceu enormemente nas últimos duas décadas”.

Este inchaço das finanças produziu novas saídas para o excedente nos sectores do PIB das finanças, seguros e imobiliário (FIRE, finance-insurance-real estate) sob a forma de novo investimento em edifícios, equipamento de escritório, etc. No entanto, o grosso do capital dinheiro dedicado às finanças era utilizado para a especulação em títulos (securities), imobiliário e mercados de commodities ao invés de investimento em bens de capital, e portanto não alimentou o crescimento do PIB, o qual continuou estagnado.

Terceiro, o argumento avançado em Capital monopolista, observou Sweezy, não previa uma mudança que estava a ocorrer na direcção geral do investimento. Baseando-se na sua análise “The Strange Recovery of 1983–84″ ( Monthly Review, Outubro de 1986), feita com Harry Magdoff, co-editor da MR, ele notou que as recuperações de ciclos de negócio tradicionalmente tomam a forma de investimento forte em fábricas e equipamentos manufactureiros, transportes e companhias de serviços públicos. Mas estas áreas de investimento experimentavam agora pouco crescimento mesmo na etapa da recuperação do ciclo de negócios em comparação com outras áreas tais como o equipamento de escritório associado ao FIRE.

“Por que”, perguntava Sweezy, “o Capital monopolista deixou de prever as mudanças na estrutura e no funcionamento do sistema que se verificaram nos últimos 25 anos? Basicamente, penso que a resposta é que a sua conceptualização do processo de acumulação de capital é unilateral e incompleta”:

Na tradição estabelecida tanto da teoria económica dominante como da marxiana, tratámos a acumulação de capital como sendo essencialmente uma matéria de acréscimo ao stock existente de bens de capital. Mas na realidade isto é apenas um aspecto do processo. A acumulação é também uma matéria de acréscimo ao stock de activos financeiros. Os dois aspectos estão naturalmente interrelacionados, mas a natureza desta interrelação é no mínimo problemática. O modo tradicional de manipular o problema tem sido, com feito, assumi-lo do lado de fora: por exemplo, comprar acções e títulos (duas das formas mais simples de activos financeiros) é assumido ser meramente um modo indirecto de comprar bens de capital reais. Isto dificilmente é verdadeiro, e pode ser totalmente enganoso.
Este não é o lugar para tentar apontar o caminho para uma conceptualização mais satisfatória do processo de acumulação de capital. Trata-se, na melhor das hipóteses, de um problema extremamente complicado e difícil, e sou franco em dizer que não tenho pistas para a sua solução. Mas posso dizer com alguma confiança que alcançar um melhor entendimento da sociedade capitalista monopolista de hoje será possível só na base de uma teoria mais adequada da acumulação de capital, com ênfase especial na interacção dos seus aspectos reais e financeiros, do que a que possuímos agora.

Revendo a reavaliação de Sweezy do Capital monopolista uma década e meia depois, acredito que ele foi um crítico demasiado duro do livro de Baran e seu quanto ao que chamou “discrepância gritante” em relação ao seu entendimento da acumulação e das finanças. Longe de falhar em “sugestões” sobre o papel das finanças, o Capital monopolista incluiu no fim do seu capítulo sobre “Os esforços de vendas” uma secção separada sobre o papel do sector das finanças como uma saída para a absorção do excedente, argumentando que isto estava “em pé de igualdade com os esforços de vendas”. Ali, Baran e Sweezy enfatizam a “magnitude absoluta” do excedente desviado para dentro do FIRE nas contas nacionais. Isto representou, argumentaram, nada menos do que um “sistema de especulação gigantesco, malversando e trapaceando” a aumentar cada vez mais juntamente com o ascenso do excedente e contribuindo para a crescente irracionalidade do sistema (139–41).

Se houve um economista americano próximo a Baran e Sweezy enquanto o Capital monopolista estava a ser escrito, este foi Harry Magdoff, que tomou parte nas discussões que conduziram ao livro de Baran e Sweezy, e que veio a tornar-se co-editor da Monthly Review em 1969. No número de 1965 do Socialist Register, publicado quase no mesmo momento em que o Capital monopolista era acabado, Magdoff enfatizou o problema do ascenso do crédito/débito na economia americana. Além disso, na sentença final da sua revisão de 1967 do Capitalismo monopolista, Magdoff escreveu: “Outras áreas que parecem ser especialmente pertinentes para o desenvolvimento e teste das teses de Baran-Sweezy são o papel do crédito e da especulação na expansão e contracção do excedente, e a interrelação entre os EUA, como banqueiro mundial, o dólar como divisa internacional, dificuldades de balança de pagamentos, e a natureza internacional da economia americana”. [7] Portanto não é de surpreender que, logo após a publicação do Capital monopolista, Magdoff e Sweezy fossem levantar todas estas questões, focando em particular o problema crítico do crédito e da especulação na absorção do excedente.

A financeirização do capital monopolista, agora é evidente, representou todo um novo período histórico — um período de que ninguém tinha qualquer suspeita na década de 1960 e que, de acordo com a doutrina económica existente, tanto a dominante como a marxiana, continua em grande parte inexplicável até hoje. Quando surgiram os primeiros sinais reais de um aumento secular maciço na dívida nas décadas de 70 e 80, os escritos de Magdoff e Sweezy na Monthly Review foram dos primeiros a revelarem a magnitude das mudanças que se verificavam, e ambos permaneceram quase isolados ao enfatizar a significância da realidade dual da estagnação e da explosão financeira. [8]

Na verdade, do ponto de vista de hoje, fica-se impressionado sobre quão cedo os editores da MR reconheceram a importância da mudança que estava a verificar-se no funcionamento do capitalismo. Como notou recentemente Fred Magdoff em “A explosão da dívida e a especulação” ( Monthly Review, Novembro de 2006), o que eles “observaram na primeira metade da década de 1980 era apenas um prenúncio do que viria a ser uma irrupção da dívida na economia sem precedentes… Na década de 1970 [quando apontaram para o fenómeno] a dívida em aberto (outstanding debt) era cerca de uma vez e meia a dimensão da actividade económica anual do país (PIB). Por volta de 1985, momento em que estavam cada vez mais concentrados no assunto, era o dobro do PIB. Em 2005 o total da dívida americana era quase três vezes e meia o PIB do país e não longe dos US$ 44 milhões de milhões do PIB do mundo todo”. [9]

O principal pano de fundo contra o qual vemos normalmente o crescimento das finanças é a produção, a chamada economia real. Ao tomar um atalho através das obscuridades habituais do pensamento económico e concentrar sobre as tendências do mundo real de excedente em ascensão e estagnação, Capital monopolista proporcionou a base teórica em relação à produção, a partir do que Sweezy e Magdoff foram capazes de averiguar a enormidade da transformação quantitativa representada pela explosão das finanças quase desde o seu momento inicial.

Mas, se o argumento básico do Capital monopolista, sustento eu, permanece decisivo, não há como evitar a alegação do próprio Sweezy de que o livro, seu e de Baran, continha um viés comum tanto à teoria económica marxiana como à dominante com a sua confiança numa visão unilateral do processo de acumulação de capital. De acordo com o argumento que avançou nos anos 90, a acumulação de capital não pode ser vista como simples acréscimo aos stocks de bens de capital existentes. Ela deve ser percebida também como um acúmulo de créditos financeiros sobre a riqueza. Além disso, esta última não pode ser apagada como um mero espelho ficcional da primeira como tem sido habitual na teoria económica, a qual há muito distingue entre o que chama os aspectos “reais” e os financeiros da economia — um subproduto da sua tendência para tratar o dinheiro como principalmente “neutro” nos seus efeitos sobre a economia, deixando de lado o nível de preços. [10] Tanto a produção como as finanças sob o capitalismo são unas e simultaneamente tanto reais como monetárias por natureza.

A ascensão do capitalismo monopolista desde o fim do século XIX até o XX foi paralelo à ascensão do mercado de títulos industriais, isto é, a introdução do mercado de acções. Tradicionalmente, a acumulação de acções, títulos e outros instrumentos financeiros tem sido encarada como uma forma de junção colectiva de poupanças (ou excedente) para o investimento na produção. Isto, entretanto, raramente é o caso real uma vez que muito pouco do que passa através da bolsa de valores e de outros mercados financeiros é canalizado para o investimento na economia produtiva. O desenvolvimento de um sistema maciço e refinado de finanças associado com a finança corporativa e bancária, centrada na bolsa de valores (a qual Marx já no seu tempo via como a base de uma vasta expansão do mercado de crédito) foi um produto do desejo de investidores de limitarem o seu risco associado ao investimento dentro da produção através da posse de direitos à riqueza “em papel”. Tais direitos em papel eram líquidos e facilmente transferíveis, e portanto separados dos activos “reais” que residiam na corporação. “Desde que isto permite ao indivíduo o emprego da sua riqueza no entesouramento ou no empréstimo de dinheiro “, escreveu Keynes na Teoria geral, “a alternativa de comprar activos reais de capital não pode ser tornada suficientemente atraente senão pela organização de mercados onde estes activos possam ser facilmente realizados em dinheiro”. [11]

Mas a contradição que isto cria para a acumulação é de extremo alcance. Como explicaram Magdoff e Sweezy em “Production and Finance” ( Monthly Review, Maio de 1983), “os títulos corporativos adquiriram o atributo da liquidez — convertibilidade instantânea em cash — que os activos físicos das corporações, pela sua própria natureza, nunca poderiam ter. E uma vez alcançada esta etapa, estava aberto o caminho para uma proliferação de instrumentos financeiros e mercados os quais, até agora de todas as maneiras, demonstraram ser literalmente ilimitados”. Concentrando-se sobre esta contradição da economia capitalista, Keynes em 1931 havia notado que numa considerável medida “os possuidores reais de riqueza [digamos as corporações] têm direitos não sobre activos reais, mas sobre dinheiro… A interposição deste véu monetário entre o activo real e o possuidor da riqueza é uma característica especificamente marcada do mundo moderno”. [12] Tal sistema dual de acumulação estava obrigado a gerar uma ascensão na especulação, e um sistema financeiro cada vez com mais camadas e alavancado. Sob tais circunstâncias, observou Keynes numa expressão citada frequentemente, o perigo e que “a empresa se torne a bolha num remoinho de especulação”. [13]

No fim das décadas de 50 e princípio da de 60, quando o Capitalismo monopolista estava a ser escrito, o capital industrial ainda estava firmemente no controle, financiando seu investimento através dos seus próprios fundos internos, e era comum ver a base do sistema ao nível da firma gigante como razoavelmente estável. Mas as mudanças que emergiram com ressurgimento da estagnação alteraram tudo isso. À idade de ouro da década de 1960 seguiu-se uma idade de chumbo que arrastou-se de modo aparentemente infindável sem nenhuma esperança de recuperação plena. “Um novo estímulo era francamente necessário” sob tais condições, observou Sweezy em “The Triumph of Financial Capital”, e “ele emergiu numa forma que, apesar de inesperada, era no entanto uma resultante lógica das tendências bem estabelecidas no interior do sistema capitalista global”. Incapaz de encontrar saídas lucrativas para o seu excedente à procura de investimento no seio da economia produtiva, as corporações/capitalistas, procuram aumentar o seu capital dinheiro através da especulação financeira, enquanto o sistema financeiro por sua vez respondeu a esta procura crescente pelos seus “produtos” com um desconcertante conjunto de novos instrumentos financeiros — incluindo acções futuras, opções, derivativos, hedge funds, etc. O resultado foi o ascenso na década de 1980 de uma superestrutura financeira que cada vez mais ganha vida por si própria.

Naturalmente, esta autonomia das finanças em relação à produção é de uma espécie antes relativa do que absoluta. Euforias financeiras, durante as quais a finança especulativa parece estar a desprender-se do seu ancoradouro na produção, conduziram inevitavelmente a noções generalizadas de uma “Nova economia”, tal como no fim da década de 1990, enraizada na suposição errada de que as leis da gravidade haviam sido suspensas. [14] Tais bolhas financeiras acabam inexoravelmente por explodir, como nos crashes do mercado de acções de 1987 e 2000. O que Hyman Minsky, com base no trabalho de Keynes, denominou “a hipótese da instabilidade financeira”, de acordo com a qual economias capitalistas avançadas de modo inevitável movem-se progressivamente rumo a estruturas financeiras mais frágeis não apoiadas pelo processo de acumulação subjacente, gerando com isso crises financeiras, permanece uma verdade irrefutável. [15] Reflectindo isto, uma colecção recentemente publicada de entrevistas de investidores financeiros e analistas da Wall Street é ironicamente intitulada O que sobe. [16]

No entanto, o que é mais assustador, olhando outra vez as últimas duas décadas desde o crash do mercado de acções de 1987, é que os maiores colapsos financeiros ao longo do período pouco fizeram para travar o crescimento da dívida a longo prazo em porcentagem do PIB na economia americana, a qual continuou a disparar apenas com breves pausas após as explosões financeiras. Enquanto o mercado de acções perdia aproximadamente 50 por cento do seu valor (em termos do Standard and Poor 500) entre Março de 2000 e Outubro de 2002, dois anos depois ele recuperou cerca da metade do que perdera. [17] A dívida, enquanto isso, continua sua ascensão inexorável. O choque económico do arrebentamento da bolha do mercado de acções foi facilitado pela expansão da bolha da dívida nos preços do imobiliário, com base na especulação no mercado da habitação — uma bolha que agora foi furada pela elevação das taxas de juro, diminuindo a velocidade do crescimento económico (”Housing Cools Down Economy,” New York Times, 28/Outubro/2006). Sem dúvida outras bolhas se seguirão só para se romperem no fim.

Naturalmente, nada disto significa negar que um choque financeiro muito maior uma deflação da dívida possam ter um efeito mais duradouro — produzindo uma forma severa de estagnação que altere as regras do jogo. No Japão, um grande crash financeiro no princípio da década de 1990 contribuiu para o que foi denominada “A grande estagnação”, na qual aquele país tem estado atolado desde então. [18]

Muita coisa depende não apenas das condições nos Estados Unidos mas da economia global e do sistema financeiro global. A produção mundial como um todo é caracterizada por um crescimento vagaroso, capacidade excedente, uma polarização sempre crescente, com os mais pobres entre os pobres (especialmente na África) a afundarem-se dentro de um horror de miserabilismo e de afundamento das expectativas de vida. Enquanto isso, o maciço défice de transacções correntes dos EUA tornou-o o maior devedor da economia mundial. Isto significa que há uma abundância de dólares global. A China sozinha possui não menos de um milhão de milhões de dólares americanos nas reservas de divisas estrangeiras. Sob as circunstâncias da crescente fragilidade financeira global centrada sobre o dólar, não é difícil antever um colapso (meltdown) de proporções que virtualmente sacudirão a Terra. A crise financeira asiática de 1997-98 deu alguma indicação de quão rápido o contágio financeiro pode difundir-se.

Mas se um colapso da dívida global e da deflação das dívidas é com certeza uma possibilidade no presente, uma outra é que a contradição dual da estagnação e da explosão financeira serão prolongadas indefinidamente, salvo algum grande choque externo ao sistema. O Federal Reserve e os bancos centrais de outros estados capitalistas avançados estão preparados para rapidamente bombearem liquidez dentro do sistema a qualquer sinal de uma grande ruptura financeira, actuando como prestamistas de último recurso. A possibilidade de que eles possam ser capazes de sustentar toda esta estrutura instável por algum tempo não pode portanto ser inteiramente ignorada. Levanta-se então a questão: Quais são as prováveis consequências de uma continuação a longo prazo da explosão financeira das últimas três décadas? A experiência histórica sugere que enquanto a expansão financeira tem sido útil para absorver o excedente ela não foi capaz de retirar a economia produtiva para fora da estagnação em qualquer grau apreciável — de modo que as duas realidades da estagnação e da explosão financeira coexistem. Como a Business Week certa vez editorializou (16/Setembro/1985): “O crescimento vagaroso e a exuberante orgia especulativa de hoje estão amarrados em alguma espécie de abraço simbiótico”. A fabricação de dinheiro desloca cada vez mais a fabricação de bens (e serviços) e esta última está consequentemente a definhar na mesma proporção.

Na verdade, agora parecem ser necessárias injecções cada vez maiores de dívida para estimular um dado crescimento do PIB. Como notou em Novembro Fred Magdoff em “A explosão da dívida e a especulação” , “Embora não haja relacionamento exacto entre criação de dívida e crescimento económico, na década de 1970 o aumento no PIB era de cerca de 60 centavos por cada dólar de acréscimo de dívida. No princípio de 2000 este rácio havia decrescido para cerca de 20 centavos de crescimento do PIB por cada dólar de nova dívida”.

Um sistema ajustado para a especulação sob condições de crescente fragilidade financeira precisa de novas infusões constantes de cash, grande parte do qual é obtido da população trabalhadora através de aumentos drásticos na exploração. Para a maior parte dos trabalhadores americanos as contradições económicas do capital monopolista-financeiro criaram uma situação que se assemelha ao apertamento de uma morsa de bancada. Os salários reais para a maior parte dos trabalhadores têm estado estagnados durante uma geração ou mais, a dívida imobiliária está a ascender em proporção ao rendimento disponível, o desemprego/subemprego ascendeu; a participação da força de trabalho está a cair (reflectindo a fraca criação de empregos e o desencorajamento que isto engendra), os benefícios com cuidados de saúde, pensões e serviços governamentais para a população (incluindo educação) estão todos em declínio, e a fatia de impostos paga pelos trabalhadores está a expandir-se. Tudo isto dá a impressão que sob o capital monopolista-financeiro “uma acumulação de miséria” é “uma condição necessária, correspondendo à acumulação de riqueza”. [19]

Uma questão que precisa ser urgentemente levantada é a relação específica da nova fase do capital monopolista-financeiro com o imperialismo. A presente década assistiu à emergência de um novo imperialismo nu, assinalado pelas guerras americanas no Iraque e no Afeganistão, uma expansão global de bases militares americanas, e um grande salto nas despesas militares americanas. A agressão de Washington é destinada primariamente a recuperar alguma da hegemonia perdida dos EUA sobre a economia mundial. Mas por trás desta expansão imperialista há também preocupações entranhadas no topo do império global americano sobre estagnação económica, controle do abastecimento mundial de petróleo e de outros recursos estratégicos, e das bases do domínio financeiro e da estabilidade (incluindo a hegemonia do dólar).

Além disso, este novo imperialismo nu é uma extensão de tendências já visíveis na globalização neoliberal que se levantam em resposta à propagação da estagnação nas décadas de 1970 e 1980, e que tomou uma forma particularmente virulenta com o início da crise da dívida do terceiro mundo no princípio dos anos 80. Não há dúvida de que o capital monopolista-financeira exige intrusão acrescida dentro da vida económica e social dos países pobres para a finalidade de extrair cada vez maior excedente da periferia. Os países do terceiro mundo têm há muito experimentado um enorme saída líquida de excedente na forma de pagamentos líquidos a investidores estrangeiros e prestamistas localizados no centro do sistema mundial. Estes e outros pagamentos por serviços (exemplo: encargos com transportes possuídos pelo capital nos países ricos) têm um efeito negativo sobre as balanças de transacções correntes de países subdesenvolvidos e tendem a empurrá-los para o vermelho independentemente da balança comercial, a qual normalmente também lhes é desfavorável. [20] A reestruturação económica neoliberal, característica da era do capital monopolista-financeiro, só pior esta situação geral, removendo quaisquer dos limitados controles que as economias periféricas tinham sobre o capital internacional nos seus países e os limitados apoios que foram estabelecidos para as suas próprias populações. Tal reestruturação neoliberal é encabeçada pela troica económica do FMI/Banco Mundial/OMC, e pelos governos e corporações dos países do centro. Mas é em última análise suportada pelas forças militares dos estados capitalistas avançados, particularmente o gendarme americano, o qual na produção de meios de destruição excede todas as outras potências imperiais tomadas em conjunto. Se a história representa alguma orientação, a actual revolta que emerge por toda a periferia contra o neoliberalismo será recebida com intervenções acrescidas do centro do sistema imperial, liderada pelos Estados Unidos.

Quatro décadas após a publicação do Capital monopolista as contradições do capitalismo ali pintadas metamorfosearam-se todas em formas mais destrutivas. Não há teoria económica existente que explique adequadamente a fase do capital monopolista-financeiro. Mas a resposta específica para “o sistema irracional” que Baran e Sweezy proporcionaram nas sentenças de encerramento do seu livro (o qual dedicaram ao seu amigo Che) são agora mais pertinentes do que nunca: “O que precisamos nos Estados Unidos é de perspectiva histórica, coragem para enfrentar os factos e fé na espécie humana e no seu futuro. Tendo isto, podemos reconhecer nossa obrigação moral de nos dedicarmos a combater contra um sistema perverso e destrutivo que mutila, oprime e desonra aquele que vivem sob ele, e que ameaça milhões por todo o globo com a devastação e a morte”.

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Notas
1- Ao utilizar aqui a expressão “capital financeiro” não estou a fazer isso no sentido específico com que foi apresentada na grande obra de Rudolf Hilferding, Finance Capital (1910), onde era definida como “capital controlado pelos bancos e utilizado pelos industriais”. Ao invés disso, a expressão neste caso pretende referir-se ao emprego do capital dinheiro em mercados financeiro e mais geralmente na especulação. A este respeito, a crítica aguda de Doug Henwood à posição de Hilferding sobre o controle bancário vale a pena ser citada: “Sou muito crítico de Hilferding… por argumentar que o modelo de capitalismo estilo germânico, com um punhado de grandes bancos a possuírem grande complexos industriais, era o futuro do sistema, e que o sistema anglo-americano de mercado de acções estava a caminho de acabar. Ele não podia ter estado mais errado; como o economista da Wall Street Henry Kaufman disse há poucos anos, estamos a assistir à americanização das finanças globais”. Doug Henwood entrevistado por Geert Lovink, “Finance and Economics After the Dotcom Crash,” December 20, 2001, http://www.nettime.org. Ver também Paul M. Sweezy, The Theory of Capitalist Development (New York: Monthly Review Press, 1942), 266.

2- Joseph Schumpeter, Capitalism, Socialism and Democracy (New York: HarperCollins, 1942), 90n.

3- Michal Kalecki, Theory of Economic Dynamics (London: George Allen and Unwin, 1954), 161. Ver também Josef Steindl, Maturity and Stagnation in American Capitalism (New York: Monthly Review Press, 1976).

4- No seu livro Baran e Sweezy também destacam factores históricos, tais como a segunda onda de automobilização na economia americana na década de 1950 (a qual incluiu a construção do sistema de rodovias interestaduais, o crescimento dos subúrbios, etc). Contudo, a automobilização da economia americana, argumentaram, já não era um factor expansivo e estava a entrar num período de reprodução simples.

5- Para um trabalho que aplica esta teoria à economia global de hoje ver Bill Lucarelli, Monopoly Capitalism in Crisis (New York: Palgrave Macmillan, 2004).

6- O domínio das finanças não é a mesma coisa que uma mudança de poder das instituições não financeiras para as financeiras, uma vez que a distinção entre as duas tem-se tornado cada vez mais difusa. Corporações não financeiras, desde a General Motors até a Wal-Mart, estão cada vez mais envolvidas em actividades de empréstimo das quais extraem grande parte do seu rendimento, bem como em finanças abertamente especulativas. Para evidências empíricas do que poderia ser chamado a financeirização de firmas não financeiras ver Greta R. Krippner, “The Financialization of the American Economy,” Socio-Economic Review 3, no. 2 (2005): 173–208.

7- Harry Magdoff, “Monopoly Capital,” Economic Development and Cultural Change, 16, no. 1 (October 1967): 145–50, e “Problems of United States Capitalism” em Paul M. Sweezy e Harry Magdoff, The Dynamics of U.S. Capitalism (New York: Monthly Review Press, 1972), 7–29.

8- Ver em particular Harry Magdoff e Paul M. Sweezy, Stagnation and the Financial Explosion (New York: Monthly Review Press, 1987).

9- Fred Magdoff, “The Explosion of Debt and Speculation,” Monthly Review 58, no. 6 (November 2006): 7. Os números sobre a explosão da dívida na economia americana, embora assustadores, subestimam o crescimento da especulação financeira. Não há um modo aceite de medir plenamente tal especulação uma vez que existem agora numerosos instrumentos financeiros que, como destaca Henwood, estão “completamente fora do âmago conceptual da contabilidade tradicional, a qual pode pensar acerca de dívida e património líquido (equity), passivos e activos, mas não de instrumentos insubstanciais como options, futures e inverse floaters. E ao contrário de acções ou empréstimos, é difícil colocar um volume de dólares sobre eles, uma vez que o suposto valor da transacção — conforme a noção de principal — é habitualmente muito maior do que soma do dinheiro realmente em risco… Mas a própria não mensurabilidade das coisas enfatiza o ponto acerca da financeirização: camadas de obrigações (claims) foram acumuladas sobre camadas de obrigações, a maior parte delas comerciada furiosamente, com algumas delas resistindo a definição e medida… Se houvesse alguma forma de capturar o seu crescimento, a linha sobre o gráfico sem dúvida correria para fora da página”. Doug Henwood, After the New Economy (New York: The New Press, 2005), 192. See also Doug Henwood, Wall Street (New York: Verso, 1997).

10- As enormes dificuldades que os economistas encontram em qualquer tentativa de relacionar os mercados “real” e financeiro podem ser vistas em John H. Cochrane, ed., Financial Markets and the Real Economy (Northampton, MA: Edward Elgar, 2006).

11- John Maynard Keynes, The General Theory of Employment, Interest and Money (London: Macmillan, 1973), 160–61.

12- John Maynard Keynes, Essays in Persuasion (New York: Harcourt, Brace and Co., 1932), 169.

13- Keynes, The General Theory, 159.

14- Para uma crítica da “Nova Economia”, mito utilizado para racionalizar a bolha do mercado de acções no fim da década de 1990 (antes do seu arrebentamento em 2000) ver The Editors, “The New Economy: Myth and Reality,” Monthly Review 52, no. 11 (April 2001): 1–15. Um dos pontos empíricos revelados neste trabalho é que o grosso do investimento na tecnologia de informação ocorre no sector das finanças, seguros, imobiliário e outros serviços (tais como comércio a retalho) e não na manufactura.

15- Hyman P. Minsky, John Maynard Keynes (New York: Columbia University Press, 1975), e Can “It:” Happen Again?: Essays on Instability and Finance (Armonk, NY: M.E. Sharpe, 1982). Ver também Gary Dymski e Robert Pollin, eds., New Perspectives in Monetary Macroeconomics: Explorations in the Tradition of Hyman P. Minsky (Ann Arbor: University of Michigan Press, 1994).

16- Eric J. Weiner, What Goes Up: The Uncensored History of Modern Wall Street (New York: Little, Brown and Co., 2005).

17- Henwood, After the New Economy, 231.

18- Michael M. Hutchinson e Frank Westermann, eds., Japan’s Great Stagnation (Cambridge, MA: MIT Press, 2006).

19- Karl Marx, Capital, vol. 1 (London: Penguin, 1976), 799.

20- Ver The Editors, “A Prizefighter for Capitalism: Paul Krugman vs. the Quebec Protesters,” Monthly Review 53, no. 2 (June 2001): 1–5.

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Comentários

Do mercado financeiro para as usinas

Com a explosão do álcool, surgem novos investidores como George Soros, o Merril Lynch e o fundo Kidd & Company

Renée Pereira

Os personagens da nova onda de expansão do setor sucroalcooleiro em nada se assemelham aos usineiros que fizeram fama e dinheiro nas décadas passadas. São investidores acostumados ao especulativo mundo do mercado financeiro e dispostos a correr grandes riscos para embolsar grandes fortunas. Nos dois últimos anos, eles despejaram bilhões de dólares no País, compraram dezenas de usinas e deram partida em outra série de projetos de produção de etanol.
Nessa turma, estão incluídos nomes de peso como o húngaro George Soros, o indiano Vinod Khosla, a administradora americana de ativos Wellington Management, os fundos de investimentos Kidd & Company, Stark e Och Ziff Management e o banco Merril Lynch, entre outros. Todos eles chegaram ao País de olho no futuro promissor do combustível verde, que ganhou força com a explosão do preço do petróleo e as crescentes preocupações com o aquecimento global.
Cada um tem uma estratégia diferente. Uns preferem comprar usinas prontas, outros se associam a produtores locais e há ainda aqueles que optam por novos projetos. No caso da Comanche Clean Energy, a fórmula foi mesclar as opções. A empresa, com sede no exterior e formada por investidores institucionais americanos e ingleses, estreou no Brasil este ano com a compra de uma unidade de biodiesel e duas destilarias de álcool. Nessa primeira leva, a empresa captou US$ 85 milhões no exterior e deve buscar mais recursos para ampliar as unidades e construir um pólo de biocombustível no Maranhão.
O projeto, de US$ 300 milhões, contará com uma unidade de biodiesel e de etanol, além da geração de energia. “Estamos construindo uma ponte para trazer dinheiro externo para o mercado de biocombustível no Brasil”, afirma o vice-presidente da Comanche no Brasil, João Pesciotto. Segundo ele, as unidades da empresa serão as mais modernas do País. “Estamos usando técnicas novas para aumentar a produtividade. Queremos mais eficiência e redução de custos, pois commodity vale cada centavo.”
Apesar da febre do etanol, os novos investidores são criteriosos na escolha dos projetos e empreendimentos para comprar. Marcelo Junqueira conta com propriedade todo o percurso que culminou na criação da empresa Clean Energy Brazil (CEB), um fundo de investimentos com ações negociadas na Bolsa de Valores de Londres. Neto de usineiros, ele foi responsável por apresentar o setor sucroalcooleiro aos estrangeiros.
“Depois de muitos encontros e visitas em usinas, eles me chamaram e disseram que havia investidores interessados”, conta Junqueira. A partir daí, nascia a CEB, que lançou ações na Bolsa de Londres e captou o equivalente a US$ 180 milhões. Parte do dinheiro foi aplicado na compra de 49% do Grupo Usaciga. “Contou bastante para os investidores o fato de a empresa ter participação em terminal no Porto de Paranaguá.”
A parceria resultará na construção de mais duas unidades em Mato Grosso do Sul e no Paraná. O apetite dos investidores, que permitiu mais uma captação de US$ 42 milhões, também propiciou a compra de 33% de três unidades do Grupo Unialco, por US$ 65 milhões. Além disso, vai arcar sozinha com um projeto em Campo Grande (MS) com capacidade para moer 1,6 milhão de tonelada de cana. “Apesar de o momento do setor não ser o melhor por causa dos preços baixos, os fundamentos são bons. O mercado consumidor continuará crescendo”, diz ele.
Essa também é a aposta do megainvestidor George Soros. Ele é o maior acionista da Adecoagro, uma empresa que começou investindo na produção de grãos e leite na Argentina. Chegou ao Brasil há três anos para produzir algodão, soja e milho, e logo se rendeu aos apelos da onda verde. O bilionário, que por muitas vezes apostou contra o Brasil, se tornou um entusiasta do etanol feito à base de cana-de-açúcar.
Além de comprar a usina Monte Alegre por US$ 70 milhões, a empresa decidiu investir US$ 1 bilhão na construção de três novas unidades em Mato Grosso do Sul. Juntas elas terão capacidade para moer 12 milhões de toneladas de cana. Na Monte Alegre, que tem capacidade para moer 1 milhão de toneladas de cana, o projeto será equipar a usina para produzir eletricidade a partir de 2009.
“O estrangeiro quer retorno garantido. Por isso, tem prioridade em melhorar a competitividade do negócio. Exige mais eficiência”, afirma Marcelo Vieira, um dos sócios da Monte Alegre, que se tornou sócio da Adecoagro. Entre os grandes objetivos da empresa está o desenvolvimento do mercado externo de etanol. A produção das três usinas, que começarão a operar a partir de 2008, deverá seguir para o exterior. Vieira reconhece, porém, que o mercado internacional ainda precisa de grande trabalho para ter uma demanda firme, que garanta volume expressivo de exportação.
De qualquer forma, o uso do etanol como combustível não tardará para se tornar realidade difundida no mundo todo, avaliam investidores. “Nesse cenário, o álcool brasileiro vai ser o que mais vai crescer, pois é mais competitivo, avalia Sergio Thompson-Flores, presidente e sócio da Infinity Bio-Energy. A empresa, com ações negociadas em Londres, é formada por 50 investidores, entre eles, Merrill Lynch, Wellington Management, Stark Investments, Kidd & Company e Ranch Capital Investment.
Nos últimos anos, a empresa tem demonstrado um apetite invejável por ativos do setor. Já comprou sete usinas em operação e em construção em Minas Gerais e Espírito Santo, além de contar com outros três projetos em Mato Grosso do Sul. No total, investiu US$ 600 milhões e planeja mais US$ 400 milhões para 2008. “Hoje temos cinco processos de aquisição em andamento”, diz Thompson-Flores. Toda essa voracidade traduz o lema da empresa, que é se transformar no maior grupo usineiro do País.
Outro time de bilionários que entrou de cabeça para investir no setor é a Brenco, que tem como acionista o indiano Vinod Khosla, um dos fundadores da Sun Microsystems. Contrário à produção de álcool de milho, por causa da sua ineficiência, e fã da tecnologia total-flex brasileira, ele viu no álcool da cana-de-açúcar uma grande oportunidade de ganhar dinheiro e se tornou o principal lobista do produto nos EUA. Presidida pelo ex-presidente da Petrobrás Philippe Reichstul, a empresa está construindo cinco usinas no País e planeja um parque produtor de 10 unidades.

Febre do etanol amplia fusões e aquisições

De 2004 para cá, foram realizadas 45 operações desse tipo no setor, sendo 23 delas somente neste ano

Renée Pereira

Um bom termômetro para medir a efervescência do setor sucroalcooleiro é a escalada do número de fusões e aquisições nos últimos anos. De 2004 para cá, já houve 45 transações, sendo 23 delas apenas neste ano (até outubro). O crescimento em relação a 2006 foi de 155%, segundo a consultoria KPMG. O maior destaque são os investidores estrangeiros, responsáveis por 16 operações. Em todo o ano de 2006, eles haviam feito apenas 5 transações.
A tendência é que esse movimento se intensifique nos próximos anos, já que uma das principais características do setor é ser muito pulverizado entre empresas familiares. “O horizonte é muito bom. Hoje o álcool encontra ambiente favorável ao seu crescimento no mundo, pois é um combustível alternativo ao petróleo, cujo preço está bastante elevado”, afirma o sócio da IBM Business Consulting, Martiniano Lopes.
Além da escalada de preço do combustível fóssil, o etanol também pode ser uma arma no combate ao aquecimento global. Nesse cenário, diz Lopes, o Brasil está em ótima posição. “Ainda somos o País mais competitivo no custo de produção do álcool. Por isso, os fundos estão investindo pesadamente em usinas e novos projetos.”
O presidente da Infinity Bio-Energy, Sergio Thompson-Flores, ratifica a opinião do especialista. Segundo ele, o álcool da cana é imbatível, em especial por causa da eficiência do uso da terra. “A partir da cana, produzimos 7,2 mil litros de álcool por hectare, enquanto o milho faz 3 mil litros e a beterraba, 4,5 mil litros. Isso explica parte do nosso apetite para investir no setor brasileiro”, destaca o executivo, representante de importantes fundos estrangeiros.
Ele conta que durante um período foi muito difícil comprar unidades por causa da expectativa favorável ao etanol. “Num primeiro momento houve o modismo do combustível verde. Mas acabaram ficando apenas os mais responsáveis.”
Exemplo disso é que a expectativa de investimentos caiu pela metade neste ano, de US$ 30 bilhões para US$ 17 bilhões, segundo a IBM Business Consulting. Desse total, US$ 14 bilhões referem-se a novas unidades em construção ou com projetos prontos no País. Os outros US$ 3 bilhões serão destinados à expansão de unidades existentes.
O menor volume de investimento reflete os preços desfavoráveis do açúcar em 2007, que influenciaram também o preço do álcool. Para não perder dinheiro, muitos produtores decidiram mudar o mix de produção: diminuir a fabricação de açúcar e aumentar a de álcool.
A mudança provocou uma inundação da oferta do produto no mercado que derrubou os preços na safra. “Isso serviu para dar um banho de realismo no mercado”, afirma Thompson-Flores, para quem as possibilidades de investimentos melhoraram significativamente. “O potencial do setor continua extremamente favorável. A produção será 15% superior, mas o consumo subirá 23%”, diz o vice-presidente da Comanche no Brasil, João Pesciotto.

CONSOLIDAÇÃO

Para o sócio da Adecoagro, Marcelo Vieira, o setor deve passar por um longo período de consolidação nos próximos 5 a 10 anos. “Nesse ambiente em ebulição, ou você cresce ou será engolido”, afirma ele, um ex-sócio da Monte Alegre, usina comprada pela Adecoagro. Hoje o setor sucroalcooleiro é formado por 350 usinas que estão nas mãos de 80 diferentes grupos.

OS INVESTIMENTOS  ESTRANGEIROS NO SETOR DO ETANOL

1. BRENCO

Fundo formado por diversas empresas estrangeriso coordenado pelo Vinod Khosla, da empresa VK services LK.

Esta construindo 5 usinas no Mato grosso, goias e mato grosso do sul. O Plano do fundo é controlar dez usinas no país.

2. ADECO

É formado por varias empresas coordenador pelo mega investidor George Soros.

Já comprou a usina monte alegre, em Minas, e está construindo tres novas Usinas no Mato Grosso do sul.

3. COMANCHE

É formado por diversos investidores ingleses e americanos, que não se identificam.

Já comprou tres usinas. Uma refinadora de oleo e duas destilarias de etanol, em São paulo, nos municipos de Canitar e Tatui.

E tem um projeto de mais uma Usina no Maranhão

4. Infinity Bio-energy

Conta com mais de 50 empresas investidoras, entre eleas a Merrill Lynch, Weligton Management, Stark invfestements, etc. 

Já tem quatro Usinas em operação.  Tem tres outras Usinas em construção.  E tem mais tres projetos para implementar.  E tambem está negociando a compra de outros 5 Usinas que já funcionam.

5. CLEAN ENERGY

Ém fundo de investimentos ingles, que tem suas ações negociadas na bolsa de Londres, com dezenas de investidores..

Comrpou a metada da Usina Usaciga, de cidade Gaucha-Parana.  Vai construir mais duas Usinas, uma no Parana e outra  em Mato grosso do sul.  Comprou 33% das ações da Usina  Unalco, do MS.  E tem dois novos projetos em construçao um em Campo grande e outreo em Santa fé do sul, SP.

Pastoral do Imigrante

Comentários (6)

Dias de sombra, dias de luz

Jurandir Freire Costa

Sem o sonho de que os tempos sombrios passarão, viver serve para quê?

Começo pelas sombras. O Brasil vive uma escalada da violência urbana desorientadora. Quando a lista de atrocidades parecia esgotar-se, aparece mais uma figura do medonho, do horror dos horrores, a morte do menino João Hélio. Será que somos uma aberração coletiva apelidada de nação? Será que somos uma civilização sem amanhã? Talvez sim, talvez não. Seja como for, para evitar o dano mais grave é preciso admitir o evidente: criamos uma sociedade inconseqüente que se vê a braços com o pior efeito da inconseqüência humana: a carnificina monstruosa, na qual crianças matam crianças, sem se dar conta da imoralidade do que estão fazendo.

O assassinato de João Hélio por um adolescente que afirmou “não saber o que significa perder um filho assassinado porque nunca teve filho” mostra a face disforme do imaginário da terra de palmeiras onde cantam sabiás. O adolescente que disse ignorar o que é a dor de perder um filho assassinado porque nunca teve filho, exibiu, sem se dar conta, sua patológica cegueira de valores. Mas, sobretudo, mostrou que nunca teve a chance de saber o que é um pai, uma mãe, um filho, enfim, o que é amar e perder um ser amado a quem se deu a vida. Ao ser privado dessa experiência afetivo-moral básica, o jovem criminoso também foi privado de conhecer a distinção entre o justificável e o injustificável. A impiedosa engrenagem da miséria triturou sua capacidade de introjetar o sentido ético do que Levinas chamou de “infinita responsabilidade pelo Outro”!

Aí, porém, reside a trágica antinomia da condição humana. Apesar de não ter controle sobre as causas que o levaram a agir como agiu, o garoto é responsável pelo que fez, a menos que o consideremos um puro espectro humanóide, o que seria incomensuravelmente mais desumanizante. Podemos, é claro, conceder-lhe o benefício da ausência de consciência plena do crime cometido; podemos olhar com clemência a dolorosa história de vida que o fez praticar o que praticou, mas não podemos isentá-lo da autoria do seu ato. Conclusão: é nosso dever ético condenar e procurar mudar, por todos os meios possíveis, regimes socioeconômicos que favoreçam a formação moral de pessoas sem consciência do que seja crueldade. Caso contrário, estaremos permanentemente expostos a um terrível impasse ético, qual seja, não saber como julgar alguém que não teve condições de dar sentido a palavras como culpa, crime e castigo.

Renato Janine Ribeiro, ao comentar o homicídio do menino João Hélio, exprimiu esse mal-estar. A fantasia de vingança contra o assassino que lhe veio ao espírito, entretanto, nem significou incitação à tortura - longe disso!-, nem neutralidade moral em relação ao Bem e ao Mal. De minha perspectiva - e pode haver outra que não seja pessoal? -, ao escrever o que escreveu, ele pensou em carne viva e revelou um aspecto recalcado de nossa cultura, o convívio promíscuo com a barbárie. Reagindo como reagiu, mostrou o barro de que todos somos feitos, e seu discurso, por isso, foi objeto de numerosas contestações. Compreendo o sentido das objeções feitas, mas não concordo com a maioria delas.

Nós, universitários ou acadêmicos, não somos anjos prudentes com uma régua de virtudes à mão, prontos para dirimir, judiciosa e incansavelmente, o que é joio e o que é trigo. Nossa tola vaidade nos faz pensar, muitas vezes, que “os outros”, os incultos ou conservadores, podem tropeçar na própria ignorância e não saber o que dizem ou dizerem “não sei”. Nós, não! Nós somos embaixadores do Iluminismo, do Humanismo ou de qualquer outro “ismo”. Por conseguinte, vir a público falar do que sentimos em momentos de comoção moral e intelectual significa confessar o pecado leigo de lesa-razão! Crime, diz-se, é com a justiça, e fora da justiça não há salvação. Porém, o que chamamos de justiça, entendida como lei ou direito instituídos, não nasce da cabeça de Zeus. Nasce de um sentimento anterior, pré-reflexivo e pré-racional, adquirido mediante experiências psicológico-morais primárias, que ao longo das vidas pessoais e da vida cultural tornam-se familiares. Acontecimentos extraordinários do ponto de vista moral podem, assim, fazer-nos hesitar quanto à propriedade e a natureza do que julgamos justo ou injusto. Nestas situações, o moralmente indecidível pode emergir, posto que a enormidade do fato ocorrido força-nos a oscilar, de modo ambivalente, entre o “impiedoso, frio e impessoal” e o “compassivo, passional ou leniente”. Esse é um dos efeitos mais nocivos da anomia cultural: suportar a dúvida de estar sendo, simultaneamente, injusto com a vítima e com o algoz. No caso de João Hélio, como decidir entre a piedade devida a cada um e a equanimidade devida a todos? O que é mais justo: pedir o endurecimento na punição do responsável pela morte de uma criança inocente brutalmente assassinada ou argumentar, em favor do adolescente assassino, que ele jamais teve condições de entender, por questões psicológico-sociais, que o direito à vida é uma prerrogativa de qualquer ser humano?

Pode-se responder: podemos ficar ao lado dos dois, escolher um lado contra o outro, ou não querer pensar no assunto, pouco importa. O fundamental é que isto é da alçada da justiça válida para todos e não do arbítrio voluntarista ou dos espasmos emocionais de um só. Em parte, é verdade. Mas qual justiça, volto a perguntar? A dos códigos e protocolos ou a da aspiração ao respeito absoluto e inegociável pela singularidade do outro? O dilema é mais difícil do que se costuma fazer crer. Como bem apontou Olgária Mattos, não por acaso, Adorno, no julgamento dos nazistas, foi levado a dizer algo mais ou menos assim: não faria o menor gesto para condená-los à morte; não faria o menor gesto para poupá-los da morte! No mesmo tom, não foi algo semelhante que levou Hannah Arendt a dizer que há crimes sem perdão, pois aqueles a quem competeria perdoar já não podem mais fazê-lo, por terem sido mortos?

Naturalmente, o infeliz garoto assassino não é um nazista. Ele é um sobrevivente social a quem foi sonegada a mais elementar possibilidade de valorizar a vida do próximo. Isso - creio e defendo - é razão suficiente para julgarmos seu crime com indulgência, mas não é motivo para recalcar o horror que podemos sentir, ao imaginar o que João Hélio sofreu e o desespero alucinadodos pais que viram o filho ser morto como foi. O gênio da língua tarda, mas não falta. Dispomos, em português, de uma palavra para designar filhos que perdem pais, qual seja, “órfão”; não dispomos de palavra alguma para nomear o que se torna um pai ou uma mãe que perde um filho. Este estado é feito de uma dor que não se inscreve na linguagem. Ele é provação extrema; é o mais escuro vazio e a mais lenta agonia; é algo que nenhuma lágrima apaga, porque é a nudez implacável da morte no coração de uma vida que gostaria de não mais ser, e, que, no entanto, é obrigada a continuar sendo.

Diante dessa desmedida, afirmar que não se sabe o que fazer ou que se pode experimentar desejos de retaliação não significa jogar a ética na lama; significa mostrar que a malignidade de algumas circunstâncias sociais podem fazer o discernimento ético vacilar. Para alguns, isto é retórica vazia ou falta de coragem para tomar partido. Mas agir e pensar com justiça não é questão de tomar partido; é questão de experimentação sócio-moral, como sustentaram James, Dewey, Rorty; é questão de apostar, sem garantias e com riscos de frustração, na boa-vontade de nossos parceiros de vida em comum; é questão, enfim, do “perigoso talvez”, tão repetido pelo saudoso Derrida. O que fazer, então, para sanar este estado de coisas? Não há resposta fácil. Como, por exemplo, combater a secular injustiça brasileira, reforçando, ao mesmo tempo, as instituições democráticas, se dependemos, para isso, de parlamentares, que, na maioria, sequer se dão ao trabalho de ocultar do público a baixeza de seus mesquinhos interesses? Como fazer deste país um país tolerante, se os líderes intelectuais, empresariais, políticos etc, comportam-se como fanáticos encastelados em seitas ideológicas, sempre prestes a renunciar ao diálogo e à persuasão e a desqualificar com arrogância ou desdém a opinião do opositor? Como, enfim, restaurar o princípio da boa-fé atribuível, em primeira mão, ao outro, se vemos líderes políticos mentir despudoradamente ou empresários da locomotiva agrícola falando de “liberalismo”, enquanto literalmente escravizam ou deixam morrer por exaustão física seus empregados?

Não sou derrotista ou desistente. Há coisas nas quais podemos acreditar porque existem e podem ser feitas. Dou dois exemplos. O primeiro é o da conversa recente entre o ex-prefeito de Bogotá, Enrique Peñalosa, e três governadores recém-eleitos. O ex-prefeito foi direto ao ponto: “polícia sem cidadania e sem reforma urbana é o mesmo que nada”. E, prosseguiu, “quando era prefeito, ao invés de gastar US$ 2,2 bilhões em auto-estradas que beneficiariam 15 %o da população de Bogotá, decidi usar o dinheiro em transporte público, e, com o que sobrou, investir em escolas de qualidade, bibliotecas, parques, ciclovias e melhorias das calçadas. Nós demos a cidade aos pobres que não tinham como usá-la”.

Tão simples quanto isso. Por que, então, já não fizemos o óbvio? Porque, de um lado, o arcaico senhoriato empresarial-político brasileiro empenhou-se em fabricar uma caricatura dos mais pobres como um bando de desclassificados indolentes, reprodutores irresponsáveis de criaturas que não sabem como alimentar e educar, e que, por isso mesmo, não merecem viver na mesma cidade que eles; de outro, porque boa parte dos que têm poder de agir na esfera pública e criticam essa concepção indigna do povo brasileiro demitiu-se, por cansaço ou decepção, da tarefa de formar uma elite comprometida com um projeto de nação. Elite, como bem disse a ministra Marina Silva, não é sinônimo de oligarquia vampiresca. Elite são os melhores; os que pensam e agem com a consciência da responsabilidade pública que têm, em função do poder social e da autoridade moral que souberam conquistar no legítimo exercício de seus talentos e competências.

Encontramos, neste ponto, o segundo exemplo, que nos foi dado a ver pelo cineasta João Jardim, em seu belo documentário Pro dia nascer feliz. O filme trata da escolarização de adolescentes brasileiros de pequenas cidades rurais do Nordeste, da periferia das grandes cidades do Sudeste e da alta classe média paulistana. O resultado é impactante. Como seria previsível, presenciamos a trajetória de garotos que terminaram cometendo crimes e foram parar nos aviltantes centros de detenção de menores. O mais importante, contudo, é a surpresa de testemunhar o vigor do desejo de auto-realização e de justiça que anima tantos jovens brasileiros que ainda não sucumbiram á lavagem cerebral do “este país não presta”. Da humilde garota pernambucana que supera obstáculos gigantescos para concretizar suas aspirações literárias ao depoimento de duas garotas da escola paulistana, o que vemos é o desenho humano do que deveria ser uma verdadeira elite. O caso das garotas privilegiadas, em especial, é ainda mais eloqüente, pois contraria em tudo o clichê de alienação e insensibilidade colado aos jovens desse grupo social. Em uma cena, duas dessas garotas conversam, e, ao se referirem à injustiça social que lhes deu tudo, privando a maioria de quase tudo, uma delas diz: “São dois mundos separados”. Ao que a outra, com uma acuidade intelectual cirúrgica, responde: “O pior é que não são dois mundos, é um mundo só”.

Eis uma das chaves da saída: um só mundo, um só povo. Com essa simples consciência, esses brasileirinhos decentes e encantadores mostram que possuem o senso de pertencimento a uma mesma comunidade de tradições, e, portanto, são capazes de reconhecer o direito dos demais ao mesmo respeito e oportunidade que lhes foram dados. No mundo deles - se permitirmos - mortes de inocentes como João Hélio serão lembradas, apenas, como dias de sombras que antecedem os dias de luz. No mundo deles - se permitirmos - a referência do pronome “nós”, na sensível expressão de Rorty, será estendida a todos os brasileiros e a todos aqueles que elegerem nosso país como um bom lugar para se viver. Sonho de bobo alegre, dirão os cínicos. Talvez. Mas - plagiando a rústica Macabéia de Clarice Lispector -, sem esse sonho, viver serve pra quê?

Jurandir Freire Costa

O Estado de S. Paulo, 1.4.2007

Sem o sonho de que os tempos sombrios passarão, viver serve para quê?

Começo pelas sombras. O Brasil vive uma escalada da violência urbana desorientadora. Quando a lista de atrocidades parecia esgotar-se, aparece mais uma figura do medonho, do horror dos horrores, a morte do menino João Hélio. Será que somos uma aberração coletiva apelidada de nação? Será que somos uma civilização sem amanhã? Talvez sim, talvez não. Seja como for, para evitar o dano mais grave é preciso admitir o evidente: criamos uma sociedade inconseqüente que se vê a braços com o pior efeito da inconseqüência humana: a carnificina monstruosa, na qual crianças matam crianças, sem se dar conta da imoralidade do que estão fazendo.

O assassinato de João Hélio por um adolescente que afirmou “não saber o que significa perder um filho assassinado porque nunca teve filho” mostra a face disforme do imaginário da terra de palmeiras onde cantam sabiás. O adolescente que disse ignorar o que é a dor de perder um filho assassinado porque nunca teve filho, exibiu, sem se dar conta, sua patológica cegueira de valores. Mas, sobretudo, mostrou que nunca teve a chance de saber o que é um pai, uma mãe, um filho, enfim, o que é amar e perder um ser amado a quem se deu a vida. Ao ser privado dessa experiência afetivo-moral básica, o jovem criminoso também foi privado de conhecer a distinção entre o justificável e o injustificável. A impiedosa engrenagem da miséria triturou sua capacidade de introjetar o sentido ético do que Levinas chamou de “infinita responsabilidade pelo Outro”!

Aí, porém, reside a trágica antinomia da condição humana. Apesar de não ter controle sobre as causas que o levaram a agir como agiu, o garoto é responsável pelo que fez, a menos que o consideremos um puro espectro humanóide, o que seria incomensuravelmente mais desumanizante. Podemos, é claro, conceder-lhe o benefício da ausência de consciência plena do crime cometido; podemos olhar com clemência a dolorosa história de vida que o fez praticar o que praticou, mas não podemos isentá-lo da autoria do seu ato. Conclusão: é nosso dever ético condenar e procurar mudar, por todos os meios possíveis, regimes socioeconômicos que favoreçam a formação moral de pessoas sem consciência do que seja crueldade. Caso contrário, estaremos permanentemente expostos a um terrível impasse ético, qual seja, não saber como julgar alguém que não teve condições de dar sentido a palavras como culpa, crime e castigo.

Renato Janine Ribeiro, ao comentar o homicídio do menino João Hélio, exprimiu esse mal-estar. A fantasia de vingança contra o assassino que lhe veio ao espírito, entretanto, nem significou incitação à tortura - longe disso!-, nem neutralidade moral em relação ao Bem e ao Mal. De minha perspectiva - e pode haver outra que não seja pessoal? -, ao escrever o que escreveu, ele pensou em carne viva e revelou um aspecto recalcado de nossa cultura, o convívio promíscuo com a barbárie. Reagindo como reagiu, mostrou o barro de que todos somos feitos, e seu discurso, por isso, foi objeto de numerosas contestações. Compreendo o sentido das objeções feitas, mas não concordo com a maioria delas.

Nós, universitários ou acadêmicos, não somos anjos prudentes com uma régua de virtudes à mão, prontos para dirimir, judiciosa e incansavelmente, o que é joio e o que é trigo. Nossa tola vaidade nos faz pensar, muitas vezes, que “os outros”, os incultos ou conservadores, podem tropeçar na própria ignorância e não saber o que dizem ou dizerem “não sei”. Nós, não! Nós somos embaixadores do Iluminismo, do Humanismo ou de qualquer outro “ismo”. Por conseguinte, vir a público falar do que sentimos em momentos de comoção moral e intelectual significa confessar o pecado leigo de lesa-razão! Crime, diz-se, é com a justiça, e fora da justiça não há salvação. Porém, o que chamamos de justiça, entendida como lei ou direito instituídos, não nasce da cabeça de Zeus. Nasce de um sentimento anterior, pré-reflexivo e pré-racional, adquirido mediante experiências psicológico-morais primárias, que ao longo das vidas pessoais e da vida cultural tornam-se familiares. Acontecimentos extraordinários do ponto de vista moral podem, assim, fazer-nos hesitar quanto à propriedade e a natureza do que julgamos justo ou injusto. Nestas situações, o moralmente indecidível pode emergir, posto que a enormidade do fato ocorrido força-nos a oscilar, de modo ambivalente, entre o “impiedoso, frio e impessoal” e o “compassivo, passional ou leniente”. Esse é um dos efeitos mais nocivos da anomia cultural: suportar a dúvida de estar sendo, simultaneamente, injusto com a vítima e com o algoz. No caso de João Hélio, como decidir entre a piedade devida a cada um e a equanimidade devida a todos? O que é mais justo: pedir o endurecimento na punição do responsável pela morte de uma criança inocente brutalmente assassinada ou argumentar, em favor do adolescente assassino, que ele jamais teve condições de entender, por questões psicológico-sociais, que o direito à vida é uma prerrogativa de qualquer ser humano?

Pode-se responder: podemos ficar ao lado dos dois, escolher um lado contra o outro, ou não querer pensar no assunto, pouco importa. O fundamental é que isto é da alçada da justiça válida para todos e não do arbítrio voluntarista ou dos espasmos emocionais de um só. Em parte, é verdade. Mas qual justiça, volto a perguntar? A dos códigos e protocolos ou a da aspiração ao respeito absoluto e inegociável pela singularidade do outro? O dilema é mais difícil do que se costuma fazer crer. Como bem apontou Olgária Mattos, não por acaso, Adorno, no julgamento dos nazistas, foi levado a dizer algo mais ou menos assim: não faria o menor gesto para condená-los à morte; não faria o menor gesto para poupá-los da morte! No mesmo tom, não foi algo semelhante que levou Hannah Arendt a dizer que há crimes sem perdão, pois aqueles a quem competeria perdoar já não podem mais fazê-lo, por terem sido mortos?

Naturalmente, o infeliz garoto assassino não é um nazista. Ele é um sobrevivente social a quem foi sonegada a mais elementar possibilidade de valorizar a vida do próximo. Isso - creio e defendo - é razão suficiente para julgarmos seu crime com indulgência, mas não é motivo para recalcar o horror que podemos sentir, ao imaginar o que João Hélio sofreu e o desespero alucinadodos pais que viram o filho ser morto como foi. O gênio da língua tarda, mas não falta. Dispomos, em português, de uma palavra para designar filhos que perdem pais, qual seja, “órfão”; não dispomos de palavra alguma para nomear o que se torna um pai ou uma mãe que perde um filho. Este estado é feito de uma dor que não se inscreve na linguagem. Ele é provação extrema; é o mais escuro vazio e a mais lenta agonia; é algo que nenhuma lágrima apaga, porque é a nudez implacável da morte no coração de uma vida que gostaria de não mais ser, e, que, no entanto, é obrigada a continuar sendo.

Diante dessa desmedida, afirmar que não se sabe o que fazer ou que se pode experimentar desejos de retaliação não significa jogar a ética na lama; significa mostrar que a malignidade de algumas circunstâncias sociais podem fazer o discernimento ético vacilar. Para alguns, isto é retórica vazia ou falta de coragem para tomar partido. Mas agir e pensar com justiça não é questão de tomar partido; é questão de experimentação sócio-moral, como sustentaram James, Dewey, Rorty; é questão de apostar, sem garantias e com riscos de frustração, na boa-vontade de nossos parceiros de vida em comum; é questão, enfim, do “perigoso talvez”, tão repetido pelo saudoso Derrida. O que fazer, então, para sanar este estado de coisas? Não há resposta fácil. Como, por exemplo, combater a secular injustiça brasileira, reforçando, ao mesmo tempo, as instituições democráticas, se dependemos, para isso, de parlamentares, que, na maioria, sequer se dão ao trabalho de ocultar do público a baixeza de seus mesquinhos interesses? Como fazer deste país um país tolerante, se os líderes intelectuais, empresariais, políticos etc, comportam-se como fanáticos encastelados em seitas ideológicas, sempre prestes a renunciar ao diálogo e à persuasão e a desqualificar com arrogância ou desdém a opinião do opositor? Como, enfim, restaurar o princípio da boa-fé atribuível, em primeira mão, ao outro, se vemos líderes políticos mentir despudoradamente ou empresários da locomotiva agrícola falando de “liberalismo”, enquanto literalmente escravizam ou deixam morrer por exaustão física seus empregados?

Não sou derrotista ou desistente. Há coisas nas quais podemos acreditar porque existem e podem ser feitas. Dou dois exemplos. O primeiro é o da conversa recente entre o ex-prefeito de Bogotá, Enrique Peñalosa, e três governadores recém-eleitos. O ex-prefeito foi direto ao ponto: “polícia sem cidadania e sem reforma urbana é o mesmo que nada”. E, prosseguiu, “quando era prefeito, ao invés de gastar US$ 2,2 bilhões em auto-estradas que beneficiariam 15 %o da população de Bogotá, decidi usar o dinheiro em transporte público, e, com o que sobrou, investir em escolas de qualidade, bibliotecas, parques, ciclovias e melhorias das calçadas. Nós demos a cidade aos pobres que não tinham como usá-la”.

Tão simples quanto isso. Por que, então, já não fizemos o óbvio? Porque, de um lado, o arcaico senhoriato empresarial-político brasileiro empenhou-se em fabricar uma caricatura dos mais pobres como um bando de desclassificados indolentes, reprodutores irresponsáveis de criaturas que não sabem como alimentar e educar, e que, por isso mesmo, não merecem viver na mesma cidade que eles; de outro, porque boa parte dos que têm poder de agir na esfera pública e criticam essa concepção indigna do povo brasileiro demitiu-se, por cansaço ou decepção, da tarefa de formar uma elite comprometida com um projeto de nação. Elite, como bem disse a ministra Marina Silva, não é sinônimo de oligarquia vampiresca. Elite são os melhores; os que pensam e agem com a consciência da responsabilidade pública que têm, em função do poder social e da autoridade moral que souberam conquistar no legítimo exercício de seus talentos e competências.

Encontramos, neste ponto, o segundo exemplo, que nos foi dado a ver pelo cineasta João Jardim, em seu belo documentário Pro dia nascer feliz. O filme trata da escolarização de adolescentes brasileiros de pequenas cidades rurais do Nordeste, da periferia das grandes cidades do Sudeste e da alta classe média paulistana. O resultado é impactante. Como seria previsível, presenciamos a trajetória de garotos que terminaram cometendo crimes e foram parar nos aviltantes centros de detenção de menores. O mais importante, contudo, é a surpresa de testemunhar o vigor do desejo de auto-realização e de justiça que anima tantos jovens brasileiros que ainda não sucumbiram á lavagem cerebral do “este país não presta”. Da humilde garota pernambucana que supera obstáculos gigantescos para concretizar suas aspirações literárias ao depoimento de duas garotas da escola paulistana, o que vemos é o desenho humano do que deveria ser uma verdadeira elite. O caso das garotas privilegiadas, em especial, é ainda mais eloqüente, pois contraria em tudo o clichê de alienação e insensibilidade colado aos jovens desse grupo social. Em uma cena, duas dessas garotas conversam, e, ao se referirem à injustiça social que lhes deu tudo, privando a maioria de quase tudo, uma delas diz: “São dois mundos separados”. Ao que a outra, com uma acuidade intelectual cirúrgica, responde: “O pior é que não são dois mundos, é um mundo só”.

Eis uma das chaves da saída: um só mundo, um só povo. Com essa simples consciência, esses brasileirinhos decentes e encantadores mostram que possuem o senso de pertencimento a uma mesma comunidade de tradições, e, portanto, são capazes de reconhecer o direito dos demais ao mesmo respeito e oportunidade que lhes foram dados. No mundo deles - se permitirmos - mortes de inocentes como João Hélio serão lembradas, apenas, como dias de sombras que antecedem os dias de luz. No mundo deles - se permitirmos - a referência do pronome “nós”, na sensível expressão de Rorty, será estendida a todos os brasileiros e a todos aqueles que elegerem nosso país como um bom lugar para se viver. Sonho de bobo alegre, dirão os cínicos. Talvez. Mas - plagiando a rústica Macabéia de Clarice Lispector -, sem esse sonho, viver serve pra quê?

Bresser Perereira Website
http://www.bresserpereira.org.br/

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