A queda livre do dólar - parte 1: por que a moeda dos Estados Unidos é o problema do mundo
Dietmar Hawranek, Alexander Jung, Armin Mahler, Christian Reiermann, Wolfgang Reuter e Gabor Stei
A enferma economia dos Estados Unidos parece estar empurrando inexoravelmente para baixo o valor do dólar, com sérias conseqüências para a economia global. Políticos e banqueiros centrais estão observando impotentes a situação enquanto o cenário econômico piora a cada dia e as companhias européias amargam grandes prejuízos.
O custo de fabricação de uma nota de um dólar é de quatro centavos —uma ninharia quando comparada à influência dessa nota verde sobre a economia mundial.
A taxa de câmbio do dólar é capaz de fortalecer companhias ou economias inteiras —ou de fazer com que estas mergulhem em crises. A taxa de câmbio entre o dólar e o euro normalmente flutua cerca de alguns centésimos de centavo por dia. Mas nos últimos cinco anos essa flutuação resultou, com mais freqüência, em uma inflexão negativa da moeda dos Estados Unidos, causando consternação —e agora desespero— entre indivíduos de todo o mundo.
Na quinta-feira passada, Thomas Enders, o diretor executivo da Airbus, fez um discurso aos funcionários do prédio 261 do complexo de produção do consórcio aeronáutico em Hamburgo. Ele estava ali para comunicar aos funcionários que foi atingido um limiar doloroso. O gráfico que ele projetou na parede revelou a aterrorizante trajetória do dólar com o passar do tempo.
A moeda norte-americana perdeu 13% do seu valor em relação ao euro desde o início deste ano. Por outro lado, o euro aumentou de valor, e por um breve período na última sexta-feira chegou a aproximar-se da marca de US$ 1,50, que tem um impacto simbólico.
Segundo Enders, o ritmo de queda da moeda norte-americana torna “os processos razoáveis de ajuste” uma impossibilidade prática. Cada centavo de desvalorização do dólar em relação ao euro significa um prejuízo de 100 milhões de euros para a Airbus. Isso deixou até o normalmente otimista Enders alarmado. “É uma ameaça letal”, disse ele à platéia.
Mas ele se recusou a dizer como a Airbus reagirá, ou seja, se as demissões superarão a já planejada marca de 10 mil, ou se a companhia será obrigada a fechar algumas das suas unidades de produção. Aparentemente, nem mesmo Enders sabe ainda o que acontecerá.
Assim como muita gente na política e nos negócios, Enders não tem idéia do que fazer a respeito do declínio do dólar, que ainda é a reserva monetária mundial. A velocidade do declínio é especialmente preocupante. Só nas últimas dez semanas, o dólar desvalorizou-se 12 centavos em relação ao euro.
Jean-Claude Trichet, o presidente do Banco Central Europeu, diz que já percebe “movimentos brutais” na estrutura monetária internacional.
Enquanto isso, o preço do petróleo está alcançando patamares recordes.
Poucos anos atrás, quem tivesse previsto que o euro valeria US$ 1,50 e que o preço do barril de petróleo se aproximaria dos US$ 100 seria ridicularizado como notório pessimista e profeta de desgraças. Qualquer desses dois valores, separadamente, teria parecido suficiente para deixar a economia global de joelhos.
Mas agora essas duas notícias terríveis surgem juntas, e no entanto a economia mundial continua crescendo. Até mesmo os preços dos mercados de ações mundiais continuam surpreendentemente elevados.
Mas cada aumento do preço do petróleo em dólares e, especialmente, cada centavo de desvalorização da moeda norte-americana fazem aumentar o temor de conseqüências aparentemente inevitáveis, o medo de que o crescimento global sofra uma desaceleração e de que, em um cenário extremo, tal crescimento seja até mesmo paralisado.
O mundo depende do dólar. Essa é a mais importante moeda no comércio global. Aeronaves, petróleo, aço e a maioria das reservas naturais são cotados em moeda norte-americana. Bancos centrais de todo o mundo investem uma parcela substancial de suas reservas monetárias em dólares. A competitividade de continentes inteiros depende de mudanças nos valores da reserva monetária mundial. Por essas razões, o declínio do dólar tem o potencial de jogar a economia mundial em uma crise.
Os norte-americanos gastam mais do que ganham há anos. Isso inclui tanto os consumidores, que com freqüência compram casas, carros e outros produtos de consumo a crédito, e o governo, que acrescenta bilhões de dólares à dívida nacional para pagar os seus programas, especialmente o combate ao terrorismo e a guerra no Iraque.
Durante muito tempo, esses empréstimos constantes não foram um problema, já que os Estados Unidos desfrutavam de uma linha de crédito praticamente ilimitada no exterior.
Mas agora essa confiança se desvaneceu. Assim que a bolha imobiliária dos Estados Unidos estourou, ficou claro o quão frágil era de fato a base sobre a qual se apoiava o crescimento econômico do país. Bancos de todo o mundo poderiam muito bem acabar tendo prejuízos de centenas de bilhões de dólares em dívidas não honradas em dólares. Diversos bancos internacionais importantes já demitiram os seus executivos graduados por terem feito investimentos excessivamente arriscados.
Os financiadores mundiais tornaram-se cautelosos, fazendo com que ficasse cada vez mais difícil para os consumidores e os empresários norte-americanos tomar dinheiro emprestado. Os gastos dos consumidores e os investimentos, os dois principais pilares de sustentação da economia dos Estados Unidos, estão abalados.
Esse fenômeno fez com que tanto os críticos quanto os inimigos dos Estados Unidos praticamente dançassem de felicidade nas ruas. “O reino do dólar está desmoronando”, afirmou o presidente venezuelano Hugo Chávez, dando a entender que o próprio Estados Unidos será a bola da vez. O presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad não perdeu tempo em ridicularizar a moeda dos Estados Unidos, afirmando que ela “não passa de um pedaço de papel sem valor”.
Mas o que os detratores dos Estados Unidos não conseguem entender é que os abalos secundários de um terremoto econômico nos Estados Unidos também atingirão os seus países. Os europeus, por outro lado, já estão preocupados com esse efeito colateral.
Der Spiegel
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Grasiely dos Santos disse,
11 de Junho de 2008 @ 13h 40m
O texto é muito interessante.Aprimorou os meus conhecimentos mais ainda.Gostaria de recebê-lo por e-mail.Obrigada!