Arquivo de 4 de Janeiro de 2008

Opus Dei

Perguntas, respostas e algumas dúvidas inquietantes sobre uma organização católica que prefere viver no silêncio

José Francisco Botelho

Na Espanha, durante os anos 40, era raro passar por um grupo de homens sem avistar um cigarro. O tabagismo era comum à maioria da população masculina, como bem sabia o sacerdote Josemaría Escrivá de Balaguer, fundador da organização católica Opus Dei. Tanto que, em 1944, quando foram ordenados os 3 primeiros padres do grupo, Escrivá ficou preocupado ao perceber que nenhum deles fumava. Afinal de contas, o Opus Dei pretendia ser (nas palavras do fundador) “uma injeção intravenosa na corrente sanguínea da sociedade”. Ou seja: uma legião de homens e mulheres comuns, que se misturassem ao mundo sem se distinguirem por sinais exteriores - mas que fossem, todos, fiéis a um mesmo objetivo e obedientes a uma mesma direção espiritual. Se sentassem na mesa de um café de Madri, aqueles 3 padres recém-ordenados poderiam chamar a atenção pela inusitada ausência de cigarros. Pareceriam diferentes. Escrivá resolveu o problema com uma decisão categórica: determinou que pelo menos um dos jovens adquirisse, de propósito, o vício do tabaco. O escolhido para executar a missão foi Alvaro del Portillo, que mais tarde sucederia Escrivá no comando da organização.

Essa história, famosa nos círculos internos da instituição, ilustra uma das características mais notórias do Opus Dei - expressão latina que significa “Obra de Deus”. Seus membros podem ser motoristas de táxis, donos de lavanderias, banqueiros, médicos, editores de revistas. Embora conte com padres e bispos em suas fileiras, o grosso da organização é formado por membros laicos, que não usam hábitos monásticos, uniformes característicos ou crachás de identificação. Em vez de se isolarem atrás dos muros de um mosteiro, os membros da Obra, como é chamada entre os íntimos, fundem-se à sociedade, como as peças de um mecanismo invisível, para realizar o grande objetivo de seu fundador: “transformar o mundo de dentro para fora”.

Para milhares de católicos, o Opus Dei é um dos fenômenos mais admiráveis da Igreja contemporânea, um movimento que promove o bem e santifica a humanidade. Para outros, o grupo desperta sentimentos que vão desde a desconfiança até a hostilidade aberta. Segundo os detratores mais ferozes, os objetivos piedosos do grupo são apenas uma fachada, escondendo uma organização implacável, inescrupulosa e autoritária. A versão mais radical dessa crítica surgiu em 2003, nas páginas de O Código Da Vinci, de Dan Brown. O best seller mostra a Obra como um onipresente partido de fanáticos religiosos, vilão de um complô internacional e responsável por assassinatos para impedir a revelação de segredos sobre a vida de Cristo. Uma imagem que ganhou tintas ainda mais fortes com a estréia da versão hollywoodiana do romance. Verdade seja dita, esse relato é o principal responsável por hoje se escrever e falar tanto sobre a Obra. Afinal, em termos numéricos, o Opus Dei está longe de ser um fenômeno do catolicismo. Tem cerca de 85 mil seguidores, entre leigos e sacerdotes, uma ninharia se comparado aos cerca de 120 milhões de fiéis do movimento da renovação carismática. Não fosse o livro - e também os boatos de que o grupo agia nos bastidores da escolha do papa Bento 16, no ano passado -, a Obra de Deus provavelmente estaria vivendo na mesma sombra em que se escondeu nos últimos 70 anos.

O sanguinário Opus Dei de Dan Brown, porém, é um personagem de ficção - até adversários públicos do grupo admitem que o retrato pintado pelo Código tem cores berrantes demais. Mas acrescentam: atrás de toda lenda há um traço de verdade. “O livro exagera na periferia, mas sugere algumas verdades centrais”, diz Jean Lauand, professor titular de filosofia da USP, que pertenceu durante 35 anos à Obra e é um dos 3 autores de Opus Dei: Os Bastidores. Os defensores retrucam: o Opus Dei de O Código Da Vinci não tem absolutamente nada a ver com a realidade, e ponto final. “Aquilo não somos nós. Se as pessoas percebessem como somos normais, não haveria tanto interesse no assunto”, diz Beatriz Willemsens, de 30 anos, que é membro da Obra desde 1995. No meio da controvérsia, resta apenas uma unanimidade: hoje, a Obra de Deus é a instituição mais intrigante - e uma das mais poderosas - no corpo da Igreja Católica. Para decifrar a polêmica, é preciso entender como surgiu, o que pensa e como se comporta esse organismo complexo.

O que é o Opus Dei?

O sacerdote de 26 anos estava no claustro de um mosteiro, em Madri, remexendo as anotações de seu diário. Era o dia 28 de outubro de 1928 e ele acabara de rezar a missa e agora se recolhia para meditar. De repente, levantou o rosto e seu olhar se perdeu no infinito. O que aconteceu nos minutos seguintes, de acordo com o dogma da Igreja, foi um milagre. O sacerdote era Josemaría Escrivá de Balaguer. E o que seus olhos contemplaram, segundo contaria mais tarde, foi uma iluminação enviada por Deus. Escrivá viu - essa era a palavra que sempre usava ao contar a história - homens e mulheres espalhados pelo mundo, realizando a “obra de Deus” e mudando os rumos da história. Imediatamente, compreendeu que transformar aquela visão em realidade era a missão de sua vida.

Lampejo de gênio ou linha direta com Deus, a idéia que surgiu naquela manhã era mesmo revolucionária. Na época, a cristandade estava radicalmente dividida em dois blocos: de um lado, padres, monges, cardeais e bispos; do outro, os “cristãos comuns”, ou leigos. Aos primeiros, cabia levar uma vida santa. Aos demais, a maioria dos crentes, bastava ir ao confessionário, tomar a comunhão uma vez por semana e seguir acompanhado pela paz do Senhor. Escrivá, porém, viu que essa divisão não era completa. Para ele, o cristão verdadeiro tinha o dever de procurar a santidade em cada detalhe de sua vida: no trato com a família, no trabalho, ao entrar em um táxi. Como se Deus o estivesse olhando - e julgando - a cada segundo. O fervor relegado às missas de domingo deveria ser estendido aos 7 dias da semana e aos 12 meses do ano, 24 horas por dia.

Mas como espalhar essa idéia radical entre os milhões de cristãos ao redor do mundo? A solução encontrada por Escrivá - ou revelada por Deus, dependendo do ponto de vista - era criar, primeiro, um grupo de “super-heróis” espirituais, com profunda formação nas doutrinas cristãs e uma obediência total ao papa. Em vez de se isolar do mundo, como os monges e as freiras fizeram durante séculos, esses paladinos de Deus deviam mergulhar na sociedade, misturar-se, transformá-la de dentro para fora. O lema que Escrivá legou a seus seguidores é: “Seja santo. Santifique-se no seu trabalho. E santifique os outros com seu trabalho”. Quando escreve um artigo para um jornal, prepara-se para uma reunião com a alta cúpula de sua empresa ou simplesmente dirige seu táxi pela cidade, o membro do Opus oferece mentalmente aquela ação a Deus e procura a perfeição, tanto moral quanto profissional - exatamente como se estivesse sendo observado por oniscientes olhos divinos.

Após receber sua epifania, Escrivá saiu em busca de seguidores. Mas o Opus teve uma juventude difícil. Em 1936, começaram os horrores da Guerra Civil Espanhola, que contrapôs o governo de inspiração marxista aos militares de extrema direita comandados pelo general Franco. As tropas de esquerda, que viam a Igreja como um de seus piores inimigos, incendiaram templos e massacraram milhares de padres e freiras. Para escapar aos fuzis do inimigo, Escrivá teve de se esconder com um grupo de seguidores na embaixada de Honduras, em Madri. Depois, procurou refúgio em um manicômio - durante 5 meses, fingiu-se de louco. Em 1937, fugiu para a França com seus primeiros adeptos, empreendendo uma perigosa jornada pelos montes Pirineus - a pé. O recém-nascido Opus Dei só retornaria à Espanha dois anos depois, quando Franco derrotou os comunistas e virou ditador. Sua relação com o generalíssimo, conhecido pela simpatia ao ideário fascista, seria apenas a primeira de outras tantas polêmicas em que Escrivá se veria metido. Quando morreu, em 1975, Escrivá era considerado ao redor do mundo uma figura quase mitológica, um emissário da vontade divina.

Hoje, a Obra controla bases em 62 nações. A tropa de elite é formada pelos numerários - membros que fazem voto de castidade e vivem em residências do Opus. A maioria deles segue carreira profissional, mas seus salários têm de pingar mensalmente nos cofres da instituição. Já os supernumerários podem casar, ter filhos e viver em suas próprias casas. Além disso, a organização conta com milhões de simpatizantes e colaboradores ao redor do mundo. Antes de ingressar no grupo, o membro passa por uma formação que inclui a doutrina católica, os livros de Escrivá e o aprendizado para a contemplação espiritual em meio à correria do mundo. Algo como um curso intensivo de santidade, que os detratores preferem chamar de lavagem cerebral.

O Opus Dei é uma organização ultra-conservadora?

A década de 1960 foi a época em que a Igreja Católica resolveu sair da geladeira. Em 1962, o papa João 23 convocou o Concílio Vaticano 2ºcom o objetivo de tornar o catolicismo mais adequado aos tempos modernos. Quando foi encerrado, 3 anos mais tarde, o concílio mudara conceitos petrificados havia centenas de anos. “A Igreja deixou de ver a si mesmacomo único caminho para Deus”, diz o teólogo Fernando Altemeyer Júnior, da PUC de São Paulo.

Para os defensores do Opus Dei, o Vaticano 2º nada mais fez do que referendar as idéias de Escrivá. Foi naquele período que a Igreja lançou o “chamado universal à santidade”. Ficou estabelecido que a tarefa de viver como santo não era monopólio de padres e freiras, mas dever de todo católico sincero. Escrivá já defendia essa filosofia havia 4 décadas - aliás, sempre sob olhares de reprovação de católicos tradicionalistas. “Naquela época, o Opus era encarado como um movimento revolucionário e liberalizante, pois desafiava o monopólio do clero”, escreve John Allen Jr., um dos maiores especialistas em catolicismo, no enciclopédico Opus Dei: os Mitos e a Realidade. Em 1948, Escrivá e seus seguidores chegaram a ser denunciados à Congregação para a Doutrina da Fé, antiga Inquisição. Por pouco, não foram julgados como hereges.

Críticos rebatem que, embora concordasse com aspectos do Vaticano 2º, Escrivá achava que a liberalização da Igreja ia longe demais. As mudanças na liturgia o teriam deixado especialmente irritado. Até os anos 60, a missa era rezada em latim, com os padres de costas para os fiéis. Depois do concílio, a celebração passou a ser feita na língua de cada país, com padre e público cara a cara. O Opus Dei, contudo, conseguiu uma licença especial para se ater ao rito antigo. Outra medida que teria ficado atravessada em sua garganta foi a abolição do Index Librorum Prohibitorum, o famoso “Índice dos Livros Proibidos”. Criado no século 16, continha leituras consideradas “perigosas” para a fé e a moral dos cristãos.

No meio da disputa teológica, a Obra se viu numa posição surreal. Sem mudar sequer uma de suas opiniões sobre o mundo, o Opus Dei saiu do Vaticano 2º transformado: o grupo entrou a década de 1960 sendo considerado uma força jovem e liberal da Igreja e terminou visto como uma das alas mais conservadoras e rabugentas do catolicismo. A ponto de até hoje ter uma lista de livros desaconselhados, que inclui todas as obras do Index e acrescenta outras - como os romances de James Joyce e os trabalhos de Karl Marx. A função dessa lista é uma encruzilhada em que as versões se chocam de frente. Segundo Os Bastidores, o Opus classifica livros seguindo uma gradação de 1 a 6: no primeiro nível estariam as leituras permitidas a todos, e no último, as totalmente proibidas. No meio, ficariam as que só podem ser abertas com permissão dos diretores. O Opus Dei responde que o índice é apenas orientador: serve para dar uma idéia do que trata cada obra e não proíbe nada. A reportagem da SUPER visitou a biblioteca da Obra no Centro Mirador, em Porto Alegre. Encontrou livros de Thomas Mann, Tolkien, Ernest Hemingway, publicações científicas e, claro, ensaios sobre virtudes cristãs. Perguntei se os membros podem tirar das estantes o que bem entenderem. “Eu nunca proibi ninguém de ler nada”, afirmou Renato Vieira, diretor do centro. Após uma pausa, acrescentou: “Só temos um certo cuidado para que as pessoas estejam preparadas para o que vão ler”.

Quem tiver tempo para conferir os 60 mil itens no índice do Opus - disponível no site www.opuslibros.org - vai encontrar algo no mínimo curioso: dois livros escritos por Joseph Raztinger, o hoje papa Bento 16. Tod und Ewiges Leben e Die Geschichtstheologie des Heiligen (”Morte e Vida Eterna” e “A Teologia da História de São Boaventura”) foram redigidos entre as décadas de 1950 e 1970, quando Ratzinger tinha fama de ser um teólogo progressista, bem diferente do conservador que é hoje. O primeiro texto é uma reflexão sobre o fim do mundo, a morte, o céu e o inferno. O segundo, a tese de doutorado de Ratzinger, estuda as obras de São Boaventura, um polêmico filósofo da Idade Média. Hoje Ratzinger mudou de time e está no rol dos falcões do Vaticano. E essa ortodoxia o aproximou bastante do Opus Dei. Mas isso é coisa que você vai saber em detalhes mais adiante.

Os seguidores do Opus Dei são obrigados a se flagelar?

Ao chegar em casa, o brutamontes se ajoelha na sala e tira as roupas. Primeiro, espia a coxa, onde está amarrado o cilício, arame com pontas de ferro que pressionam a carne. Insatisfeito com as manchas roxas que o instrumento deixa na pele, ele aperta ainda mais o arame. Em seguida, apanha um chicote pesado e golpeia violentamente as costas. O sangue começa a escorrer. O penitente é Silas, “monge” do Opus Dei retratado em O Código Da Vinci. A cena atingiu a imagem pública da Obra como bomba. Na cabeça de muita gente, a Obra passou a ser vista como uma confraria de masoquistas.

Até críticos ferozes concordam que a cena é exagerada. Em primeiro lugar, porque não existe monge da Opus Dei. Monges, por definição, vivem isolados em mosteiros. Como a intenção do Opus Dei é se misturar à sociedade, a Obra tem apenas leigos e padres. O instrumento usado pelos membros da Obra tampouco é um chicote pesado, mas uma pequena corda com nós, conhecida como “disciplina”, que geralmente não deixa marcas na pele. Mas o amor de Silas pelo flagelo tem, sim, um pezinho na realidade.

Para Escrivá, o corpo era um vespeiro de tentações - como a gula, a preguiça e, claro, o desejo sexual. A penitência física servia para matar o pecado na raiz e controlar instintos na marra. Hoje em dia, mesmo católicos praticantes acham essas idéias difíceis de engolir, mas, no passado, a mortificação foi praticada por muita gente. Uma das personalidades que costumavam chicotear as próprias costas é madre Teresa de Calcutá. A freira albanesa, Prêmio Nobel da Paz por seus trabalhos junto aos pobres da Índia, via na mortificação uma maneira de compartilhar e compreender o sofrimento dos miseráveis. Outro exemplo: durante todo o tempo em que ocupou o trono de são Pedro, de 1963 a 1978, o papa Paulo 6º usou uma camisa com correntes pontiagudas sob as vestes episcopais. E até hoje o cilício é comum em algumas ordens religiosas, como as Carmelitas Descalças e os Irmãos Franciscanos da Imaculada Conceição. O Opus argumenta: se eles podem, por que nós não?

Para a maioria dos numerários, o cilício é um hábito corriqueiro. Eles passam no mínimo duas horas por dia com o arame na coxa. Uma vez por semana, o diretor do centro determina um “dia da guarda” - em que se deve redobrar os esforços para ser santo. É nesse dia que o numerário tranca a porta do quarto, e enquanto reza o pai-nosso ou a ave-maria golpeia as costas e nádegas com a disciplina. “Algumas pessoas passam horas malhando para ficar bonitas. Nós oferecemos esforço e sofrimento a Deus. Qual a diferença?”, diz Renato Vieira.

Apesar do favoritismo nas manchetes e na imaginação popular, a mortificação é apenas uma das controvérsias que cercam a vida no Opus. Segundo críticos (e eles são muitos), a Obra exige de seus membros obediência cega - a maior parte das acusações contra a ordem é encampada por grupos de ex-membros, como o americano Odan, o espanhol Opuslibros e o brasileiro Opuslivres.

Os relatos dão conta de que o funcionamento dos centros é semelhante ao de um miniestado totalitário. O simples ato de ver um filme ou visitar um amigo deve passar pela censura dos diretores. A delação de desvios é incentivada sob o eufemismo de “correção fraternal”. Homens e mulheres vivem em centros separados - e elas são aconselhadas, embora não obrigadas, a dormir deitadas em tábuas acolchoadas colocadas sobre o chão. Eles dormem em colchões. Quem tenta abandonar o grupo, afirmam ex-membros, é ameaçado com o inferno. E, para quem está envolvido até o pescoço com a fé, essa é uma ameaça das mais terríveis.

O Opus Dei está infiltrado em governos mundiais?

Na década de 1940, o então chefe dos jesuítas, padre Vladimir Ledochowsky, enviou um memorando para o Vaticano. Ele escrevia para comentar sobre uma ordem novata que ganhava espaço na Espanha. Eram bons cristãos, dizia. Todos preocupados com a religião. Mas o real intuito da carta perdia-se nas entrelinhas. Casualmente, Ledochowsky deixou clara sua opinião. Achava que o Opus tinha “o desejo secreto de dominar o mundo”.

O documento de Ledochowsky teve dois efeitos. Primeiro: inaugurou a birra entre Opus e jesuítas, que dura até hoje (nos anos 80, outro líder jesuíta, Pedro Arrupe, afirmaria que “vendo o que o Opus Dei é hoje, vejo o que nós fomos no passado e nunca deveríamos ter sido”. Fundada no século 16 para evangelizar a Ásia e as Américas, a Companhia de Jesus também foi acusada de armar complôs maquiavélicos e manipular governos). Segundo: deu o tom que dominaria a “mitologia opusdéica” nos anos seguintes. No livro O Mundo Secreto do Opus Dei, o jornalista canadense Robert Hutchinson afirmou que o Opus é dono de uma fortuna de 400 bilhões de dólares. Essa riqueza teria sido usada para, entre outros objetivos, financiar o sindicato Solidariedade, na Polônia, que teve papel central na derrubada do comunismo nos anos 80. O “complô” explicaria a amizade entre o Opus e João Paulo 2º - que era polonês e anticomunista. Tudo, claro, feito em completo e profundo sigilo.

Histórias nunca confirmadas como essa renderam à ordem o apelido de Octopus Day, um trocadilho com a palavra octopus (”polvo”, em inglês). Com sua filosofia de mudar o mundo de dentro para fora, a Obra estaria é estendendo seus tentáculos para dentro das escolas, das universidades e dos governos. Dinheiro nunca foi problema. Não são exatamente 400 bilhões de dólares. Mas, nas investigações para o livro Os Mitos e a Realidade, John Allen avaliou a riqueza do grupo em 2,8 bilhões de dólares - o patrimônio inclui uma sede de 60 milhões de dólares em Manhattan. É uma bela bolada, que mantém faculdades, hospitais e escolas ligadas ao Opus Dei. Todos com nomes genéricos, que escondem a filiação religiosa. Nada de Colégio Sagrado Coração ou Hospital de Santa Helena. A ordem prefere nomes como Universidade de Navarra, na Espanha, ou Heights School, em Washington, onde estudam os filhos de diversos congressistas do Partido Republicano.

Laços com a política também são cultivados. Na rua K de Washington, onde todos os lobistas que atuam no Congresso americano têm seus escritórios, o Opus Dei mantém uma salinha. Não que isso seja essencial para os contatos com o alto comando dos EUA. Pelo menos dois senadores e um ministro do Supremo Tribunal são bastante próximos de padres da Obra. Em outras partes do mundo, existem casos de membros do Opus galgando espaço nos altos escalões do governo. O ministério de Franco, por exemplo, tinha 3 numerários. O governo de Lech Kaczynski, da Polônia, tem em seu gabinete um ministro que pertence ao Opus. Kaczynsky se elegeu em 2005 com a promessa de trazer de volta os valores cristãos para a política do país - filosofia que parece seguir de perto uma das máximas de Escrivá: “Você já pensou em quão absurdo é deixar de lado o seu catolicismo ao entrar em uma universidade, em uma associação profissional ou no Congresso, como quem pendura um chapéu ao lado da porta?” O jornalista espanhol Jesus Infante chegou a chamar o grupo de “máfia santa” - uma espécie de “Internacional Conservadora”, que não mede escrúpulos para modelar a sociedade à sua visão de mundo. No Brasil um dos políticos mais ligados à Obra de Deus é o candidato a presidente Geraldo Alckmin, que em seus tempos de governador de São Paulo costumava assistir a palestras sobre doutrina cristã ministradas por numerários e se confessar com um padre do Opus. Alckmin, porém, nega fazer parte da ordem.

O Opus Dei comanda os bastidores da igreja?

Durante 5 décadas, a Obra cresceu em silêncio. Mas tudo mudou em novembro de 1982, quando João Paulo 2º transformou a Obra em “prelazia pessoal”, figura de Direito Canônico criada na década de 1960. O Opus ganhou um grau de independência inédito. Seus membros passaram a ser subordinados não aos bispos de suas cidades, mas diretamente ao chefe supremo da organização, o “prelado”, posto hoje ocupado pelo espanhol Javier Echevarría. E o prelado, por sua vez, responde apenas ao papa.

A decisão atraiu holofotes nem sempre confortáveis para a discreta organização. Muita gente opinou que o posto de prelazia pessoal havia conferido à Obra um poder desmesurado - o jornalista americano Kenneth Woodward, especialista em religiões, escreveu que o Opus Dei estava se tornando uma espécie de “Igreja dentro da Igreja”. Ainda em 1982, Karol Wojtyla oficializou a idéia de que a Obra foi fundada por vontade divina - para a Igreja, Deus realmente tocou a mente de Escrivá naquela manhã de 1928. Uma década depois, o sacerdote espanhol foi transformado em beato e depois em santo, em um processo que alguns chamaram de ilegítimo e escandaloso. A beatificação de Escrivá foi uma formidável demonstração de força do Opus Dei dentro do Vaticano - e o entusiasmo de João Paulo 2º pelo grupo começou a assustar católicos liberais. Para eles, o sucesso dos seguidores de Escrivá é um sinal de que a ala conservadora está novamente tomando as rédeas da Igreja, depois da liberalização que se seguiu ao Vaticano 2º. O tamanho desse poder é motivo de polêmica. John Allen afirma que a Obra tem 20 membros nos altos escalões, contra 24 dos arqui-rivais jesuítas. Jean Lauand rebate dizendo que o enorme poder do Opus na Cúria não nasce do tamanho, mas de sua organização política.

O papa Bento 16 ainda não deu mostras tão claras de favoritismo, e sua relação com o Opus é pouco definida. Mas o Ratzinger da “fase conservadora” sempre teve uma ligação amigável com o Opus. Em 2001, quando era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o então cardeal lançou o polêmico documento Dominus Iesus, em que dizia que todas as outras religiões são “deficientes” em comparação com o cristianismo. Foi a partir daí que sua fama de ultra-ortodoxo cresceu e as obras progressistas que escrevera na juventude foram colocadas de lado pelos especialistas. Na conferência em que apresentou o Dominus Iesus ao mundo, Ratzingerestava sentado ao lado do monsenhor Fernando Ocáriz - o segundo na hierarquia mundial do Opus Dei e co-autor do texto-bomba. O papel que a Obra de Deus terá no papado de Bento 16 - e, por conseguinte, no futuro da Igreja - é mais um enigma esperando por solução.

Operação Limonada

“Se a vida lhe dá um limão, faça uma limonada”. Essa foi a conclusão a que chegaram os 12 homens reunidos no quartel-general do Opus Dei em Roma, em janeiro de 2006. Os líderes do grupo tinham viajado para a cidade com um objetivo: preparar-se para o estrago extra que o filme O Código Da Vinci causaria na imagem do grupo.

Nascia ali a “Operação Limonada”. O Opus Dei decidiu aproveitar a péssima publicidade do filme para lavar sua imagem e, de quebra, fazer um pouco de proselitismo. A estratégia era bem simples: em vez de fugir de entrevistas, aceitá-las para mostrar o lado simpático do grupo.

A operação já estava sendo preparada desde 2003 , quando Dan Brown lançou seulivro. Desde então, a Obra vem se abrindo gradualmente à curiosidade alheia. Exemplo disso é o livroOs Mito e a Realidade, de John Allen Jr., repórter considerado o principal especialista em Vaticano no mundo. Para escrevê-lo, Allen entrevistou centenas de membros e diretores. Os limões deram suco: a obra é, de longe, o mais favorávelretrato do Opus Dei já escrito por um não-membro.

A SUPER também bebericou nesse copo. O escritório de imprensa do Opus respondeu a todos os e-mails enviados e nenhum dos membros procurados se recusou a falar. Porém, sintomas do famoso sigilo foram sentidos quando pedimos para ver os “documentos secretos” - publicações religiosas e administrativas cuja leitura é vedada a não- membros. Para escrever seu livro, Allen consultou trechos dos documentos. Disse não ter achado “nada de terrível ou explosivo”.

A SUPER não pode confirmar ou negar a afirmação, já que a diretoria nacional da Obra de Deus preferiu manter os textos em segredo.

A limonada, como se vê, ainda tem um gosto levemente azedo.

Seis palavras para entender o Opus Dei

CILÍCIO
Corrente de metal com pontas que pressionam a pele.
Os membros do Opus o utilizam na coxa, duas horas por dia.

APITAR
Gíria interna usada quando alguém se torna membro. O termo, inventado por Escrivá, é referência ao barulho de uma chaleira com água prestes a ferver - metáfora para a “ebulição” espiritual de quem decide dedicar a vida a Deus.

PRELAZIA PESSOAL
Figura de Direito Canônico, dá aos seus membros o direito de seguir ordens do prelado, que mora em Roma, em vez de obedecer à autoridade católica regional. Nas dependências da ordem, por exemplo, as cerimônias e os aconselhamentos não precisam seguir orientações do bispo local.

NUMERÁRIOS
Fazem voto de castidade e vivem nos centros da Obra.
Alguns trabalham em tempo integral para o grupo, outros têm suas profissões. Os numerários detêm postos de liderança e são responsáveis pela expansão do grupo - são eles que fundam novos centros e dão formação espiritual a outros membros.

SUPERNUMERÁRIOS
São os membros que vivem em suas próprias residências e são livres para casar. Contribuem financeiramente com o Opus, mas têm patrimônio próprio. Dos 85 mil membros do grupo, cerca de 70% são supernumerários.

ASSOCIADOS
Membros que fazem voto de celibato, como os numerários, mas vivem em suas próprias casas ou com a família.

Todas as polêmicas de são Escrivá

A personalidade de Escrivá
Paternal e compreensivo. Controlador e paranóico. Os testemunhos de quem conheceu Escrivá costumam ser conflitantes. Segundo o ex-membro Miguel Fisac, que conviveu com Escrivá, o fundador da Obra costumava tratar a todos como inferiores. María Angustinas Moreno, numerária de 1959 a 1973, descreveu o fundador como um “ditador arrogante”. Quando Escrivá morreu, ela comentou: “Não sabia que algo tão humano quanto a morte poderia acontecer com ele”. Do outro lado, amigos de Escrivá garantem que ele era bem- humorado, corajoso, dotado de grande compaixão e dono de uma paciência de Jó.

A canonização de Escrivá
O fundador do Opus Dei ganhou sua auréola 26 anos depois de morto. Para se ter uma idéia: Joana d’Arc teve de esperar 6 séculos para virar santa. A pressa fez o americano Kenneth Woodward, especialista em religiões da revista Newsweek, acusar o Opus de usar a influência para comprar um atestado de santidade. Três ex-numerários que haviam conhecido Escrivá na intimidade e tinham uma visão crítica dele foram proibidos de depor no processo de canonização. E o arcebispo italiano Luigi de Magistris, um dos únicos no júri que se opôs à decisão, acabou demitido pelo Vaticano. O resultado da polêmica é que muitos vêem Escrivá como um “falso santo” - opinião que certamente é rejeitada pelas 300 mil pessoas que, em 2002, foram à praça de São Pedro aplaudir o anúncio da canonização.

Escrivá e Franco
“Escrivá, com toda certeza, era fascista”, diz Diane DiNicola, do grupo Opus Dei Awareness. O fundador do Opus Dei teria escrito cartas a Franco e aproveitado o clima ultracatólico do governo para aumentar seu poder. Abertamente, Escrivá jamais defendeu o regime franquista. “Se o Opus Dei se meter em política, eu o abandonarei imediatamente”, escreveu.

Escrivá era anti-semita?
Em 1992 um ex-membro do Opus Dei afirmou que Escrivá lhe dissera: “Hitler foimaltratado pela opinião mundial. Ele jamais poderia ter matado 6 milhões de judeus. No máximo, foram 4 milhões”. Os arquivos do Opus Dei oferecem uma evidência em contrário. Numa palestra gravada em 1945 Escrivá diz: “Amo os judeus, pois amo Jesus loucamente, e Jesus é judeu”.

Revista Superinteressante
http://super.abril.com.br/super2/home/

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Irã: alianças, energia e futuro

Chico Villela

A segunda Cúpula do Cáspio (Caspian Summit) reuniu em 17 de outubro em Teheran, no Irã, chefes de governo e representantes de Irã, Rússia, Azerbaijão, Casaquistão e Turcmenistão, países cujas fronteiras reúnem-se ao redor do Mar Cáspio, e gerou decisões que podem afetar a região e o mundo e alterar os lances do xadrez geopolítico e estratégico. O respeitado analista independente Mahdi Darius Nazemroaya foi além: “A Segunda Cúpula dos Estados do Cáspio em Teheran mudará o ambiente geopolítico global”, e ainda: “O que ocorrer em Teheran pode decidir o curso do resto deste século.”

ANTECEDENTES
Duas citações são freqüentes no trato de temas do Cáspio, da Ásia Central e do futuro regional e global: Great Game (Grande Jogo) e chessboard (tabuleiro de xadrez). A expressão Great Game vem da Inteligência britânica, e foi popularizada em 1901 pela obra “Kim”, do escritor Rudyard Kipling. Foi o nome dado à disputa entre os impérios inglês e russo czarista pelo controle da região da Ásia Central, Tibet e Índia, e ainda do Irã e da região do Cáucaso, que correu por algumas décadas do século XIX e chegou até o raiar do século XX. País insular, a sede do império inglês duelava pelo mando na maior porção contínua de terra do planeta, principalmente pela Ásia Central, que se interpõe entre a Europa e as partes mais setentrionais e orientais da Ásia, e onde se situam hoje Casaquistão, Turcmenistão, Quirguistão, Tadjiquistão, Uzbequistão, Afeganistão, Mongólia e vizinhanças russas, chinesas, iranianas, caucasianas e outras. Digna de nota é a opinião de núcleos conservadores euamericanos sobre a não-existência de um Great Game na região, talvez pelos revezes que lhes vêm sucedendo. Outros especialistas consideram a extinta guerra fria como a sua continuação.

Chessboard faz referência à obra exaustivamente citada, de 1997, do ex-assessor de segurança nacional do governo Carter e respeitado analista e estrategista Zbigniew Brzezinski, “The Grand Chessboard: American Primacy and Its Geostrategic Imperatives”. Brzezinski discute as condições a serem atendidas, ou criadas, ou impostas, para que a supremacia euamericana possa tornar-se permanente e garantir a si e a seus aliados o acesso, o controle e a certeza de fornecimento das imensas riquezas da região, com destaque para petróleo e gás.

Stan Stão (Stan) posposto ao nome da etnia seria para nós ‘terra de’ (‘land’); assim, Uzbequistão é a terra dos uzbeques; Casaquistão, a dos cazaques; Baluchistão, a dos baluches. Em verdade, a Eurásia congrega centenas de povos e de línguas, de origens indo-européias, turcas, chinesas, mongóis, irânicas, caucasianas, etc. Mas mesmo essa caracterização genérica é inadequada, já que, por exemplo, ‘China’ abriga uma reunião de uma etnia dominante, a Han (92%), e 55 etnias menores. Algumas dessas etnias eurasianas associam-se a Estados; a maioria dispersa-se por países. São exemplos dessa maioria os curdos, 30 milhões de pessoas, que ocupam territórios de Turquia, Irã e Iraque e uma diminuta porção de Síria e Armênia, e os baluches, 10 milhões de pessoas, que ocupam mais de um terço do Paquistão e parte do sul do Afeganistão e do sudeste do Irã.

Esta é, aliás, uma constante da região que facilita condições para tentativas divisionistas, partição de países, recomposições territoriais, etc. O fato é relevante porque um dos pilares da política aliada EUA-Reino Unido para a região é o esfacelamento de países, o que multiplica as forças de mando e abre espaços para alianças novas contra os velhos inimigos Rússia, China e Irã. O plano da dupla Bush-Cheney para o Iraque, por exemplo, prevê um norte curdo, um sul xiita e um centro-oeste sunita. Como vários outros, esse plano está suspenso enquanto o imbroglio das guerras e a crise entre a guerrilha curda e a Turquia não se desenrolam.

Alianças e Traições
Após a dissolução da União comunista, quinze repúblicas tornaram-se independentes; algumas mantiveram-se vinculadas à Rússia, e outras aproximaram-se do Ocidente. Fundou-se a Comunidade dos Estados Independentes (CEI), que hoje tem papel menor nos eventos. Hoje, Georgia (terra natal de Stálin), Ucrânia e Moldávia são próximas do Ocidente; Casaquistão, Belarus, Tadjiquistão, Quirguistão, Uzbequistão, Turcmenistão, Armênia e outras são aliadas da Rússia. Logo após o fim da URSS, a aliança EUA-Reino Unido ganhou adeptos, com apoio da Otan, e a partir de então é grande a disputa por apoios e ampla a ação de serviços diplomáticos e de segurança de ambos os lados.

A Rússia, abalada pelo fim do império soviético e em grave crise econômica, com queda de mais de 20% do produto interno bruto, perdeu aliados e terreno. Tudo indicava que iria submergir sob o cerco progressivo da aliança ocidental, que instalava bases militares nos países recém-aliados da Europa e da região, sempre com a mente nos três inimigos principais e o olho gordo na imensa riqueza em petróleo e gás da região, cujo controle estratégico permitiria, além do mais, manter em pé o combalido e decadente sistema financeiro do dólar. Chegou a constituir-se um agrupamento, conhecido como GUUAM, que reunia Geórgia, Uzbequistão, Ucrânia, Azerbaijão e Moldávia, além de outros sócios menores que cediam espaços para bases e instalações e facilitavam a ação dos serviços ocidentais de segurança e espionagem. Hoje, sem Uzbequistão e Azerbaijão, o grupo seria mais propriamente conhecido como GUM; em inglês, chiclete.

Uma exceção na região é o Turcmenistão, dos turcmenos ou turcomanos, único país neutro a ter seu status de neutralidade reconhecido pela ONU; os outros dois países tradicionalmente neutros são Áustria e Suíça. A história dos turcmenos guarda muitos exemplos de pacifismo e de políticas de ‘portas abertas’. Embora parte da etnia habite o norte do Afeganistão, os turcmenos não participam da guerra, como o fazem outras etnias vizinhas.

Putin Com Putin, oriundo do serviço soviético de segurança do Estado KGB, a situação foi revertida. Com a segunda maior produção mundial de petróleo e detentora das maiores reservas de petróleo (10%), gás (30%) e carvão (20%) do planeta, e forte fornecedora de petróleo (20%) e gás (50%) para a União Européia, a Rússia de Putin beneficiou-se com a subida acelerada dos preços da energia (em 1970, o barril de petróleo valia US$ 10; hoje, anda próximo de US$ 100). Entre 2000 e 2007 o PIB russo subiu de rasos US$ 250 bilhões para mais de US$ 1,2 trilhão. Recompôs sua posição de líder regional e voltou a ‘flexionar músculos’ de grande potência nuclear contraposta aos interesses e à política de invasões e força bruta da aliança anglo-euamericana.

O diretor da área de estudos russos de um instituto europeu situou o enigma Putin em declaração recente. Para ele, na época soviética, os planos eram de longo prazo, e as ações das lideranças geriátricas eram razoavelmente previsíveis. Hoje, a equipe de governo, que abriga também um núcleo mais jovem de egressos da KGB, é mais dinâmica em suas ações e resoluções. A força de Putin pode ser vista nas últimas eleições de 2 de dezembro: seu partido teve mais de 60% dos votos, e discute-se seu futuro papel, seja como um super primeiro ministro, seja como um árbitro tipo ‘Pai da Nação’, um grão-conselheiro.

Há, no entanto, outros campos em que existe cooperação entre Oriente e Ocidente, a exemplo do combate aos agrupamentos terroristas e movimentos separatistas e de fundo político-religioso, temas que interessam tanto à aliança anglo-euamericana quanto à oriental. O movimento fundamentalista afegão-paquistanês Talibã, por exemplo, é hostilizado hoje por russos e aliados ocidentais, e também pelo Irã, que nunca o apoiou. Os talibãs foram armados e apoiados pela aliança ocidental e pelo Paquistão nos tempos em que combatiam os invasores russos. Mas isso não impede que os dois lados continuem estimulando nos adversários revoltas e as chamadas ‘revoluções de veludo’. A Ucrânia se coloca ao lado da aliança ocidental e candidata-se a aderir à União Européia e talvez à Otan, tanto quanto a Geórgia, sacudida hoje por movimentos favoráveis ao realinhamento do país.

Erros e equívocos Com o Uzbequistão errou-se de modo drástico. De início pendente a aliar-se com o Ocidente, o Uzbequistão sofreu uma fermentação interna auxiliada pelos serviços secretos aliados, pois havia insatisfação com a condução do jogo pelo presidente Karimov. Uma revolta estimulada por agentes na cidade de Andijan foi brutalmente reprimida pelo governo. Após tomar conhecimento de que o governo Bush-Cheney pretendia animar uma comissão para levantar os acontecimentos de Andijan, além de ser responsabilizado por uma tentativa anterior de assassiná-lo, o Uzbequistão de Karimov repeliu a aliança, defenestrou as tropas ocidentais e aproximou-se em caráter definitivo da Rússia. Em 2005, finalmente foi fechada a base euamericana que ainda se mantinha no país. A importância do Uzbequistão também vem de possuir o maior exército da região depois do russo.

Ocorrência similar deu-se no Tadjiquistão, que também colocou para fora do país essas tropas. O Quirguistão ainda permite a presença de uma base euamericana, situada a 30 km de uma base russa, mas cobra um aluguel tão elevado que os EUA pretendem abandoná-la.

Em 1953, o líder iraniano e primeiro-ministro Mohammad Mossadegh estatizou as multinacionais do petróleo do Irã e nacionalizou as reservas. Mossadegh foi derrubado num golpe armado (e hoje fartamente documentado) pela CIA e pelo MI6 inglês. Em 1979, o aiatolá Ruhollah Khomeini liderou da Europa um golpe que depôs o aliado do Ocidente, o xá Pahlevi, e proclamou a primeira república islâmica da história. O nacionalismo iraniano, reprimido no país, ganhara refúgio nos templos e escolas islâmicos. Alguns analistas consideram a instalação da república islâmica iraniana como o fato político mais decisivo do século, além mesmo do fim da URSS. A julgar pelos fatos atuais, em que o futuro do mundo decide-se em torno da região, a idéia parece merecer fundamento. Ganham relevo nesse contexto as palavras do veterano repórter Robert Fisk sobre a ‘esquerda’ no Oriente Médio: para Fisk, não existem mais organizações de esquerda entre árabes; existem apenas agrupamentos islâmicos.

[Em posição menor mas não desimportante, organizações não governamentais tomam partido e são peças-chave nos embates. Organizações ambientalistas ou voltadas a direitos humanos e liberdades civis, como Greenpeace, WWF (World Wildlife Fund), Human Rights Watch, Transparência Internacional, atuam como atores do jogo político a serviço dos capitais internacionais que financiam suas atividades. O WWF foi fundado pela Casa Real inglesa, e o Greenpeace, pela Casa Real belga. É parte da história da época o fato de valores que hoje se incorporam ao exercício da cidadania serem também moeda de troca no Grande Jogo.]

A Aliança Oriental
Ainda na presidência do pândego Boris Ieltsin, em dezembro de 1999, a Rússia celebrou com a China de Jiang Zemin um acordo histórico de apoio mútuo e de oposição à aspiração euamericana de poder imperial num mundo então pretendido como unipolar, após o fim da guerra fria. Em meados de 2001, os dois países assinaram um tratado de boa vizinhança e cooperação amigável, que previa um pacto de defesa mútua. Nesse período, na chinesa Xangai, Rússia, China, Cazaquistão, Quirguistão e Tadjiquistão, já em sua sexta reunião conjunta, convidaram o Uzbequistão e formaram juntos a Organização de Cooperação de Xangai (Shangai Cooperation Organization, SCO).

SCO A segunda cúpula da SCO reuniu-se em 2002 na Rússia, em São Petersburgo; a terceira, em 2003, em Moscou; a quarta, em Tashkent, capital do Uzbequistão, em 2004, com a presença da Mongólia na posição de observador, ocasião em que se estreitaram os laços de cooperação econômica e de defesa. A quinta reunião, realizada em 2005 em Astana, capital do Cazaquistão, contou com Mongólia e os novos observadores Índia,

Paquistão e Irã.
A sexta reunião, em 2006, novamente em Xangai, contou com os quatro observadores anteriores mais o convidado Afeganistão. À exceção da Índia, que enviou seu ministro de petróleo e gás, os três outros países observadores e o convidado Afeganistão, além dos membros plenos, foram representados pelos seus presidentes. Participaram também o chefe do comitê executivo da Comunidade de Estados Independentes - CEI e o secretário geral da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean).

Na sétima e última cúpula, realizada em agosto deste ano em Bishkek, capital do Quirguistão, participaram os mesmos quatro observadores. Destaque-se que a posição de observador é um status, e o passo seguinte seria a incorporação do país à SCO, com status de membro pleno. Na mensagem que endereçou à cúpula, o presidente chinês Hu Jintao encareceu a necessidade de aprofundar a cooperação econômica entre os membros, oferecendo crédito e suporte

financeiro para os projetos multi e bilaterais, em especial nas áreas de transportes, energia e comunicações.
O ensaísta Alexander Lukin analisa a SCO e anota algumas sugestões sobre seu futuro. De início, destaca o que se convencionou chamar de “Espírito de Xangai” e que a SCO não tem inimigos, é um grande projeto de cooperação e desenvolvimento. Destaca ainda que a SCO não se coloca contra o Ocidente, e que seus membros estão abertos à cooperação com empresas e governos de todo o mundo, como ocorre hoje na China e, em menor escala após Putin, também na Rússia.

No capítulo ‘Segurança’, a SCO vê intimidade entre o terrorismo internacional e o separatismo e extremismo religioso. Assim, coloca ênfase na garantia da integridade territorial e na manutenção dos regimes leigos, posição contrária às pretendidas por Washington com sua política de ‘dividir para reinar’.

Lukin alerta para fatos como projetos fracamente implementados, entre eles as complexas interligações de transportes e de energia entre os parceiros. Em parte, atribui o atraso à política individualista chinesa, que termina por ser pouco atraente para todos. Outro fator limitante à expansão da colaboração é a não-constituição ainda de um fundo de desenvolvimento, embora já existam um Conselho de Negócios e uma Associação Interbancária.

Os EUA chegaram tarde a esses lances. Só em 2005, quando o Uzbequistão decidiu desfazer-se da aliança e voltar-se para a Rússia, a diplomacia euamericana acordou. Ainda em 2005, Frederick Starr publicou na revista “Foreign Affairs” seu projeto, endossado pelo governo, da constituição da Greater Central Asia Partnership for Cooperation and Development, para implementar programas conduzidos pelos EUA, com centro no Afeganistão. Os papéis de Rússia e China seriam irrisórios; o Irã não seria admitido; Paquistão e Afeganistão entrariam, com Índia e Turquia para, junto com o autor, zelarem pela segurança e a estabilidade na região.

No ano seguinte, 2006, numa audiência no Congresso, o secretário assistente de Estado para Assuntos da Ásia Central e Sul, Richard Boucher, nem sequer conseguiu nomear os seis países membros nem se referiu à SCO, numa omissão que aclarou seu desconhecimento. O agravamento da situação no Afeganistão atrapalhou em definitivo os planos euamericanos. Além disso, a imagem dos EUA é negativa entre os países da região, principalmente após os eventos do Uzbequistão, e muitos temem que a aproximação com os EUA lhes traga problemas.

Lukin aponta algumas mudanças necessárias ao fortalecimento da SCO e ao esvaziamento das propostas ocidentais. São: (1) interessar Índia, Paquistão e Mongólia a se tornarem membros plenos, e dar a Turquia e Afeganistão status de observadores; (2) envolver mais o Irã em seus propósitos pacíficos e construtivos; (3) criar mais cooperação econômica via fundos estatais alocados para projetos multilaterais; (4) abrir mais canais para a cooperação da China; (5) estabelecer uma universidade e um instituto de estudos; e (6) estimular as trocas culturais, esportivas e artísticas entre os membros.

A Aliança Militar
São muitos os acordos gerais, bilaterais e multilaterais que vêm se concertando no âmbito da SCO e seus parceiros observadores. Questões como energia, meio ambiente, infra-estrutura, finanças e educação têm recebido tanta atenção e investimentos quanto segurança e combate às manifestações separatistas, terroristas e extremistas, religiosas ou não. Para Nazemroaya, o Irã é um membro de fato, e sua aparente situação de observador destina-se a ocultar a natureza da cooperação trilateral entre Rússia, China e Irã e evitar a caracterização da SCO como um grupo anti-ocidental.

Segundo Brzezinzki em seu “The Grand Chessboard…”, para a aliança anglo-euamericana a formação de um eixo desse calibre é o que poderia acontecer de mais ameaçador a seus planos de hegemonia. Brzezinski alertava sobre a “emergência de uma coalisão que poderia eventualmente opor-se à supremacia” euamericana. Profeticamente, citou uma “aliança anti-hegemônica” que poderia “ser formada por China, Rússia e Irã”.

Além de a SCO implicar compromissos de defesa e colaboração contra eventuais ataques a um país-membro, embora não seja uma organização militar, existe ainda a CSTO (Collective Security Treaty Organization), sucessora da entidade que reuniu alguns países da ex-URSS logo após a sua dissolução. Compõem hoje a CSTO Rússia, Armênia, Belarus, Quirguistão, Cazaquistão, Tadjiquistão e Uzbequistão. Um general russo é o secretário geral da organização. A Otan não tem ligações com a SCO ou a SCTO, tanto quanto não as tem com a China.
Em outubro de 2007, foi assinado um acordo entre a CSTO e a SCO para ampliação da colaboração em campos como segurança, combate ao crime organizado e tráfico de drogas. O Irã analisa convite da Rússia para aderir à CSTO; seria o primeiro país fora da órbita da ex-URSS a compor a organização, que tem status de observador junto à Assembléia Geral da ONU. Embora a mídia pró-ocidental ainda não se tenha dado conta, existem hoje duas grandes alianças militares, a velha Otan que emergiu da Segunda Guerra e a CSTO recente, além de pactos que ampliam seu alcance, como os que envolvem a China e suas poderosas forças armadas.

Aliados e inimigos A posição de aliado de um ou outro lado é sempre dinâmica, e nesse jogo, se datado do início da década de 1990, os aliados ocidentais começaram bem e vêm desde então deixando escorrer pelos dedos suas conquistas iniciais. A Otan hoje acha-se mergulhada na interminável guerra no Afeganistão, e as tropas anglo-euamericanas vêm patinando na guerra no Iraque. O caso da Turquia, principal aliado ocidental na região, é ilustrativo do choque entre os interesses militares e políticos da aliança ocidental e os mais elevados interesses geopolíticos do país.

Há duas guerrilhas curdas, ligadas ao partido PKK e a um ramo seu, que combatem tropas turcas e iranianas. Ambas são toleradas e, da parte dos curdos, estimuladas; a anti-iraniana tem laços com militares euamericanos. A Turquia, que sedia boa parte do apoio logístico à guerra no Iraque, chegou a movimentar tropas para invadir o Iraque ao norte e desmantelar as bases em que se escondem os guerrilheiros curdos-turcos. Ameaçada pela intenção do Congresso dos EUA de reconhecer o genocídio turco contra os armênios entre 1915 e 1923, tema tabu que leva à prisão, a Turquia ameaçou fechar a base de apoio aos aliados. A questão ainda se acha pendente de gestões diplomáticas, que, sem que se neutralizem os curdos, serão dadas como fracasso.

Sob protestos e pressões de todo tipo dos aliados, e invocações ao embargo econômico imposto ao Irã, a Turquia e o Irã acabam de celebrar vários acordos para projetos conjuntos de produção de energia. Juntos, seus ministros de Energia declararam que outros pactos viriam em seqüência. Os acordos incluem a construção de três centrais de energia térmica de 2 mil MW cada, duas no Irã e uma na Turquia; várias hidrelétricas no Irã, com total de 10 mil MW; melhoria e expansão dos sistemas de transmissão dos dois países.

A Turquia compra gás do Irã, entregue por um gasoduto que parte da iraniana Tabriz até a capital Ankara, e do Azerbaijão, por um gasoduto que passa pela Georgia. Em julho, já se havia assinado acordo internacional para captar gás do Oriente Médio e da Ásia Central, que seria dirigido à União Européia por um gasoduto em desenvolvimento, o Projeto Nabucco europeu, de 3,3 mil km, que passa pelos Bálcãs. A pretensão original do Nabucco era garantir gás da Ásia Central sem interferência da Rússia nem passagem por seu território. Mas a Cúpula do Cáspio relativizou de modo profundo essa pretensão.

A Cúpula do Cáspio
A região do Mar Cáspio é rica em gás, petróleo e recursos variados, e os cinco países que reúnem fronteiras no mar dedicam-se, todos, à sua produção. A importância estratégica da Cúpula de 17 de outubro transparece nas 25 declarações finais do encontro, sob o pano de fundo das declarações de Putin, reproduzidas por todos os jornais influentes do planeta: “Não se deve pensar em usar a força nessa região”. Alguns dias antes, havia oferecido em Moscou um chá-de-cadeira de 45 minutos à secretária de Estado e ao de Defesa, Condoleezza Rice e Robert Gates, já que a meta de sua viagem era pedir concordância para mais sanções ao Irã e também tentar dissuadir Putin de ir à Cúpula do Cáspio. Também a chanceler alemã Ângela Merkel, tanto quanto o presidente francês Nicholas Sarkozy, tentaram dissuadir Putin na ocasião. Dois dias antes, fez-se circular na imprensa européia uma notícia de um pretenso atentado suicida contra Putin, que ocorreria em Teheran. Putin reagiu bem-humorado: ‘Se ouvisse esses conselhos, nunca sairia de casa’.

Na mesma semana, explodia pela última vez o velho conflito entre a Turquia e a guerrilha curda, o Congresso dos EUA ameaçava reconhecer o genocídio turco contra os armênios, e Bush recebia na Casa Branca o dalai lama tibetano, atitude que revoltou os meios diplomáticos e militares chineses. A visita do dalai lama veio pouco mais de um ano após uma inédita seqüência de humilhações armada pelo staff do governo Bush-Cheney contra o presidente chinês Hu Jintao na sua visita ao país. Ao invés do protocolar banquete, Bush ofereceu um pequeno jantar a Hu. Na recepção solene, tocou-se o hino, não da China, mas da inimiga Taiwan. E na conferência de imprensa organizada pelo governo permitiu-se a entrada de um membro do grupo Falun Gong, proibido na China, que discursou com acusações por mais de três minutos sem que fosse interrompido. A dupla Bush-Cheney trata amigos e inimigos com a mesma irresponsabilidade, como nota Brzezinski. Definitivamente, foi uma semana de Putin e Ahmadinejad.

Resoluções Entre as 25 resoluções, o Mar Cáspio foi fechado à navegação civil ou militar de outras bandeiras. Projetos de exploração de seus vastos recursos (terceira maior bacia energética do planeta) e associações setoriais para desenvolver programas específicos passarão a ser discutidos no âmbito da Cúpula. Essa resolução deve ser vista do ângulo da extensa e interminável pendência sobre a propriedade dos recursos no Cáspio. Kevin Kallaugher escrevia em abril: “Ter acesso direto ao gás da Ásia Central e do Cáspio é vital para a segurança energética européia”; “A grande batalha estratégica agora será sobre a rica-em-gás Ásia Central”. E arrematava: “Mas uma disputa longa e não resolvida sobre a propriedade no Cáspio entre, Irã, Casaquistão, Azerbaijão e Rússia torna essa questão explosiva”. Com a Cúpula, abriu-se um largo caminho para a solução harmônica da questão.

Um dos artigos da declaração final estabelece um acordo de não-agressão entre os cinco países, de solução pacífica de conflitos, e desautoriza o uso dos territórios por outrem para ataques a um membro. Isso deixa à disposição da aliança anglo-euamericana apenas o Iraque e o Afeganistão, além dos oceanos, para um ataque contra o Irã. A edição de 18 de outubro da e-revista Turkish Weekly esclarece: “O fato de as opções militares dos EUA terem sido repentinamente limitadas é apenas um dos efeitos da Cúpula de Teheran”.

A decisão foi definitiva para o Azerbaijão, que chegou a aprofundar novas relações com a aliança ocidental. Na verdade, o país sempre se caracterizou por um jogo duplo, em que cedia a apelos da aliança, mas não abandonava seus antigos laços. O Irã decidiu a questão antes da Cúpula, por meio de duas missões diplomáticas bem cimentadas por contatos anteriores. Obteve-se, na capital Baku, uma declaração em que os dois países rejeitavam interferências externas e o uso da força para a solução de problemas, um golpe nas pretensões dos EUA de aprofundar sua presença e apoiar um eventual ataque ao Irã também a partir do vizinho Azerbaijão. Na capital armênia Yerevan, o Irã intermediou o encaminhamento amigável da solução de um antigo conflito de fronteira que opõe armênios e azerbaijanos.

Antes, os aliados ocidentais haviam ajudado movimentos entre a imensa população azerbaijana do Irã. Os azerbaijanos são uns 8 milhões em seu país e mais de 10 milhões no norte do Irã (os números variam entre 10 e 19 milhões). Na existência de clima de conflito, seria imaginável “libertar” o norte do Irã e associá-lo ao Azerbaijão. Um trecho de noticiário sobre esses conflitos anteriores coloca em jogo as forças e a linguagem da guerra, ao afirmar que o clima na região azerbaijana do Irã era de fermentação, com o governo iraniano prendendo “ativistas de direitos humanos” e combatendo o que alguns vêem como a “luta por mais democracia” e outros vêem como “separatismo”.
Entre as declarações da Cúpula do Cáspio, anotam-se alguns outros pontos fortes. Reconhece-se o direito aos países de implementarem programas pacíficos de uso de energia nuclear, sob as salvaguardas do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares, do qual o Irã é signatário (Israel, Índia e Paquistão não o são). A proteção ambiental e um sistema de consultas e adequação de leis foi sacramentado. Exatamente como nas proposições da SCO, a declaração 22 afirma que as partes consideram o terrorismo internacional, o separatismo agressivo, o tráfico de drogas, armas e outras ações ilegais uma ameaça a todo o mundo.

Corredor Norte-Sul Como fundamento e base da cooperação econômica, o Corredor Norte-Sul integra-se firmemente aos planos da Cúpula. Uma nova ferrovia Casaquistão-Turcmenistão-Irã está prevista. Com a interligação das vias de transporte de mercadorias e energia dos países ao gigantesco sistema russo, uma nova saída para o Golfo Pérsico via Irã se tornaria disponível. A SCO tem interesse direto no Corredor, com ênfase nas intenções do Turcmenistão, de ganhar uma saída ao mar, e da China, de reduzir o tempo de transporte das mercadorias até pontos como norte da África, Oriente Médio e Europa. O Corredor, que interligará a Rússia, ao norte, países do Cáspio e a Ásia Central ao Golfo Pérsico, ao sul, fortalece a posição da região como fonte de matérias-primas essenciais, como petróleo, gás e carvão, e solidifica ainda mais a posição da Rússia.

Sobre o Corredor Norte-Sul, a Turkish Weekly registra que, aspectos militares à parte, a integração do Corredor Norte-Sul na Cúpula do Cáspio é o fato maior que avultou. Acha que é difícil a alguém fabular sobre o enorme potencial do Corredor Norte-Sul. “Se a descoberta dos caminhos marítimos decretou a morte da Rota da Seda, o estabelecimento do Corredor Norte-Sul poderia reverter o curso da história.”, afirma com veemência a Turkish Weekly. Como irá reduzir o tempo de trânsito das mercadorias e baratear os fretes, o Corredor seria solução também para muitos países da Ásia fazerem chegar seus produtos até seus maiores mercados, e vice-versa. Iniciativas como áreas de livre comércio e de industrialização seriam abertas ao longo do Corredor. A Turkish Weekly finaliza seus comentários com a constatação de que, com metade da carga mundial de mercadorias passando pelo país, a Rússia sempre poderia habilitar-se a continuar participando do jogo global mesmo com o declínio de suas jazidas de energia.

Energia A posse das fontes de energia, questão central da época, vai-se firmando nas mãos dos próprios atores locais, como se viu na Cúpula do Cáspio. Ao lado disso, corre aos poucos a transformação das petroleiras, de antigas proprietárias e donas de jazidas, à posição atual de parceiras menores. A Rússia fornece gás, entre outros, à União Européia; para alguns países, chega a 100% da oferta, além de a poderosa estatal russa de energia Gazprom (terceira empresa em valor de mercado do mundo) deter participação em dezenas de empresas de energia européias.
Há muito os países da região vêm desenvolvendo esforços diplomáticos e comerciais para harmonizarem suas políticas de energia, e este é mais um ponto de atrito e desconforto nas relações com o Ocidente. Há uma profusão de projetos que atravessam, quando não ameaçam, alianças e conveniências políticas. A oposição dos EUA à construção de um gasoduto Irã-Paquistão-Índia contraria os governos aliados, interfere em seu desenvolvimento e altera a moldagem de seu futuro, além de prejudicar também empresas e forças políticas diversas. O gasoduto, de 2,8 mil km e US$ 7,7 bilhões, seria financiado e construído pela Gazprom.

O governo euamericano apoiou há pouco uma iniciativa de independência energética da Europa: o gasoduto Nabucco, que sai da Turquia e avança pelos Bálcãs e Europa Central até a Áustria, onde estão sendo construídas as instalações de um gigantesco reservatório de distribuição. O objetivo original seria entregar à Europa o gás da Ásia Central sem depender da Rússia e circundando seu território, afinal, hoje boa parte da União Européia já vive à mercê da torneira russa. Do lado russo, outros gasodutos são bem-vindos, a exemplo do que sai da Rússia pelo Mar Báltico direto para a Alemanha, em construção por consórcio de empresas dos dois países dirigido pelo ex-chanceler Gerhard Schroeder. O gasoduto do norte reduzirá o total do gás russo que passa pela Ucrânia, país ligado ao Ocidente. E inicia-se o projeto russo de um gasoduto via Grécia e Bulgária, sem passar pela Turquia, outro aliado do Ocidente.

Mas a dupla de governo Bush-Cheney não contava com a astúcia de Putin, cuja popularidade vem de sua gestão que levantou o país e o repôs no tabuleiro do Grande Jogo novamente em pé de igualdade com algumas potências. O Nabucco poderá transportar gás do Turcmenistão, Casaquistão etc., mas, após a Cúpula do Cáspio, qualquer negociação contará com a presença da Rússia. Dessa forma, o objetivo estratégico de obter gás sem a presença russa foi sumariamente eliminado. Além disso, Putin associou-se aos austríacos no empreendimento, por intermédio da Gazprom.

A ativa diplomacia do Irã, ignorada pela mídia ocidental, registra recentes articulações com países do Cáucaso, da África do Norte e da Ásia Central e o Conselho de Cooperação do Golfo, maiores produtores mundiais de petróleo. O Irã vem fechando acordos comerciais vitais com outros vizinhos, inclusive com a Turquia, membro da Otan (que vive hoje momentos de sério atrito com os EUA, cuja popularidade no país acha-se num recorde de baixa).

Sonhos e Pesadelos
A intenção da União Européia de garantir cada vez mais seu gás e seu petróleo sem Rússia e Irã vai se tornando inatingível. Mas a União Européia tem um mau sonho mais próximo e elementar. A ex-URSS e a Rússia por muito tempo aplicaram recursos e esforços na construção de uma imensa rede de oleodutos e gasodutos, mas não destinaram suficiente atenção à produção. Com uma Rússia em crescimento econômico firme e crescente demanda interna de sua própria produção, além de prazos dilatados para que novos supercampos comecem a produzir, um receio começa a manifestar-se entre especialistas europeus: o de que a Rússia em breve não tenha gás suficiente para vender a uma sempre ávida UE.

E o grande pesadelo da dupla Bush-Cheney também vai tomando corpo. A China, desde 2003 o segundo maior consumidor de energia do mundo, vai ocupando os espaços do Ocidente junto a produtores africanos e do Oriente Médio. Em visita em 2006 à China, primeiro país a ser visitado pelo rei Abdullah, da Arábia Saudita, firmaram-se acordos que dão sustentação ao comércio anual de US$ 16 bilhões entre os países. Após a humilhação nos Estados Unidos, em 2006, Hu Jintao aportou na Arábia Saudita, depois na nova aliada Nigéria, Marrocos e Quênia. Ao contrário dos financiamentos do Banco Mundial e FMI, repletos de juros e imposições, a China celebra acordos e simplesmente dá sua contrapartida, muitas vezes gratuita.

O grande pesadelo inclui ainda a futura imensa rede de petróleo e gás, que parte do norte da Rússia, passa pela Ásia Central e pelo Cáspio, cruza Irã e Síria, abarca o norte da África e os países do Golfo, e une as duas grandes regiões produtoras mundiais num só corpo. Nas mãos de Rússia, Irã, Arábia Saudita, Síria, Argélia… Anda aceso o debate acerca da criação do que vem sendo chamado “Opep do Gás”, liderada hoje por Rússia, Irã, Qatar, Argélia e Venezuela, que juntam 80% das reservas mundiais.

É relevante o imenso tabuleiro eurasiático de predominantes acordos bilaterais e também multilaterais estratégicos, entre países, organizações e empresas, que se destinam a construir entre os interessados relações pacíficas, amigáveis e prósperas, conduzidas no contexto do respeito às leis internacionais. Numa ponta do tabuleiro, a aliança EUA-Reino Unido assina até agora a recente invasão genocida de dois países, em ‘ataques preventivos’ decididos ao arrepio de normas internacionais e de resoluções da ONU, para combate ao ‘terrorismo internacional’, e assume o apoio à maior força de desestabilização do Oriente Médio, a nuclear Israel.

A Opep e o Dólar
Também fonte de maus sonhos para a aliança ocidental foi a recente reunião da Opep, em Riad, que abordou a diversificação da cesta de moedas habilitadas ao comércio de petróleo, desde 1974 praticamente restrita ao dólar, o que ainda ajuda a sustentá-lo como moeda. Apesar das promessas da Arábia Saudita de não abandonar o dólar-petróleo, torna-se a cada dia mais difícil aos países, governos e bancos centrais manter a moeda e, ao mesmo tempo, arcar com os riscos e prejuízos.

Outras notícias dão conta de que Coréia do Sul, Angola, Iraque, Nigéria, China, Irã, Venezuela, Rússia, Arábia Saudita e outros começam ou continuam a movimentar-se para trocar parte de suas reservas em dólar por moedas e papéis mais seguros. Mas não se deve tratar, conforme o analista Muriel Mirak-Weissbach, de derrubar o império junto com sua moeda, como deseja e expressou Chávez. O sistema financeiro internacional e o sistema de comércio mundial apóiam-se também no dólar, e por isso, para o analista, as transições devem ser articuladas com a participação dos EUA, ainda a maior economia do planeta; qualquer outro caminho provocaria apenas caos e anarquia, e, conseqüentemente, mais guerra.

Mirak-Weissbach expõe caminhos para a saída. Um deles seria a convocação de uma conferência internacional para reforma do sistema monetário, com a presença essencial de EUA, Rússia, China, etc. Seriam restabelecidas taxas fixas de câmbio entre as principais moedas, e a partir daí a especulação seria contida. Assim, qualquer dessas moedas poderia servir para a compra de petróleo. Seriam também retomados outros aspectos positivos, como o direcionamento dos investimentos à produção de bens e riquezas.

Outro caminho seria uma opção pela energia nuclear. Para Mirak-Weissbach, a Opep deveria organizar-se para o futuro de pouco petróleo investindo agora suas imensas reservas em centrais nucleares, a energia do futuro para todos. O analista registra as opiniões de vários chefes de Estado  inclusive do Irã, que põe à disposição sua tecnologia própria  de que um país neutro (a Suíça é citada) poderia centralizar as atividades de enriquecimento de urânio e fabricação dos combustíveis nucleares para as usinas. Isso afastaria o fantasma do desvio de produção para chegar a armas nucleares. E também permitiria redirecionar o petróleo para aplicações mais interessantes, por exemplo na petroquímica.

No discurso, os aliados ocidentais brilham. No terreno firme dos fatos econômicos e políticos, a aliança vai-se desfazendo em derrotas, dívidas de trilhões, recessão, crise financeira, isolamento e condenações. Por enquanto, as brancas jogam e perdem…

Rabo de artigo
O agudo comentário de Mirak-Weissbach não toca na existência de uma indústria e um estoque de armas nucleares nas mãos de aliados ocidentais, Rússia e China. A dupla Bush-Cheney ameaça uma guerra nuclear contra o Irã. Falta um motivo, real ou fictício. Entre 29 e 30 de agosto deste ano, um míssil nuclear com carga dez vezes maior que a da bomba de Hiroxima desapareceu nos Estados Unidos, numa história militar tão ou mais cheia de desencontros e mentiras quanto a dos ataques às torres gêmeas em 2001.
Em depoimento à Comissão de Relações Exteriores do Senado dos EUA, em 1º de fevereiro de 2007, Zbigniew Brzezinski iniciou com as palavras: “A guerra no Iraque é uma calamidade histórica, estratégica e moral”. Sobre a possível ação militar contra o Irã, afirmou que poderia vir após “alguma provocação no Iraque ou um ato terrorista nos Estados Unidos que seria atribuído ao Irã”.

Revista NovaE
http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=605

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Banco Central dos EUA, o parceiro silencioso nos banhos de sangue

Mike Whitney

A economia de um país é um espelho de água que nos reflecte. A face que nos olha da água é a da cultura e das características prevalecentes. Não é diferente com a América. Os comissários do sistema económico estado-unidense — Paulson e Bernanke — estão inextricavelmente ligados a um establishment político/militar totalmente impregnado na cultura da violência e da corrupção. O “Plano Marshall” de Paulson destinado aos proprietários de habitações subprime é apenas a mão enluvada do déspota. A outra mão ainda está ocupada a arrancar olhos em Guantanamo, ou a moer de pancada cidadãos estrangeiros nos sítios negros da CIA, ou a despejar bombas incendiárias sobre escolas de crianças em Faluja. Isto é tudo igual. A cultura de guerra e demagogia tem suas raízes no sistema económico. Os seus líderes financeiros são tão culpáveis quanto qualquer GI de baixa patente em Abu Ghraib.

O plano Paulson nada tem a ver com salvar pessoas da classe trabalhadora das devastações dos arrestos. Ah, não. A administração Bush opõe-se ideologicamente a ajudar pessoas em estado de necessidade. Já sabemos isto. Basta olhar para o Katrina. A finalidade real da proposta “salvação de emergência” (”bailout”) é permitir que bastantes pessoas continuem a fazer pagamentos mínimos das suas hipotecas de modo a que o sistema bancários não se estilhace em um milhão de pedaços. É isso. Não preciso chamar um génio para ver que o desespero tomou conta do Federal Reserve. A última vez que o governo orquestrou uma salvação de emergência desta grandeza foi na década de 1930. E o que mais? George Bush não é Franklin Dellano Roosevelt.

A verdade é que o sistema está em erupção e o botão de pânico do Fed está a “piscar vermelho”. É óbvio. Eles estão a fazer tudo o que podem para manter o comboio sobre os carris, mas não estão a conseguir. Estão a cortar taxas, a aceitar colaterais dúbios (como papel comercial e tremulantes títulos apoiados por hipotecas) como reposição, e estenderam o período das reposições indefinidamente, o que equivale a “monetizar” a dívida. Paulson tentou estabelecer um Super SIV [1] para ajudar os grandes bancos de investimento a descarregarem o seu lixo apoiado por hipotecas sobre o público desconfiado, mas isto tão pouco está a funcionar. Nada está a funcionar. Enquanto isso, os ventos contrários continuam a ficar mais fortes, as ondas continuam a esmagar-se sobre a proa, e o navio do Estado continua a declinar perigosamente de lado. Ele está numa confusão.

Os bancos são o canal para o papel-moeda inescrupuloso emitido pelo Federal Reserve. É um negócio torto dirigido pelas mesmas pessoas que enviam nossos filhos para a guerra enquanto premeiam-se a si próprios com cortes fiscais. Agora o sistema está em horrendas dificuldades. Deveríamos sentir-nos mal por isso?

Bancos centrais estrangeiros e investidores estão a livrar-se dos seus dólares e dos seus activos denominados em dólar, os Estados do Golfo ameaçam desligar o petróleo do dólar, e investidores por toda a parte sabem que foram roubados por uma burla ordinária de lavagem de hipotecas que obteve o “sinal verde” dos reguladores dos Estados Unidos. O cenário em torno de nós é mau. E agora as galinhas voltam a casa para se empoleirarem.

CÓ-CÓRÓ-CÓ

O colapso no mercado imobiliário continua a enviar tremores a toda Wall Street. Milhões de milhões de dólares em títulos complexos (CDOs e MBSs) estão a ser degradados quando aumentam os arrestos e os inventários de casas sobem. Bancos, companhias de seguros, fundos de pensão, títulos de companhias de seguros, hedge funds, todos eles estão entre a vida e a morte. Muitos já insolventes e muitos mais os seguirão. É apenas uma questão de tempo. Os fundamentos dos mercados financeiros estão a esfarelar-se. O esquema de transformar os passivos dos candidatos a empréstimos com mau crédito numa fonte confiável de lucros gordos fracassou. A alquimia não funciona. Nunca funcionou.

A crise subprime e o (subsequente) esmagamento do crédito teve origem no Federal Reserve. O Fed disparou um frenesim especulativo ao baixar taxas de juros abaixo da taxa de inflação durante mais de 31 meses entre 2002 e 2004. Milhões de milhões de dólares alimentaram então o sistema bancário criando a maior bolha equity da história. Agora que a bolha imobiliária está a estraçalhar-se na terra – e milhões de milhões de dólares em títulos tremelicantes estão destinados ao aterro sanitário – o Fede está a tentar distanciar-se de qualquer responsabilidade. Mas nós sabemos a verdade. O plano foi concebido e executado pelo Fed e é nele que reside a culpa. Todos os outros são apenas “pequenos actores”.

O que importa é que o sistema está a entrar em colapso. Está a ser vagarosamente esmagado pelo peso acumulado da sua própria corrupção. Quando o sistema cair, a bandeira será arriada na Baía de Guantanamo, a actual oligarquia de extorsionários (racketeers) será removida do gabinete, e as tropas no Iraque voltarão para casa. Por vezes resultados positivos decorrem da tragédia.

Poderia haver anarquia ou tirania ou lei marcial ou campos de detenção. Quem é que sabe, realmente? É compreensível que o público esteja preocupado quanto “ao que poderia acontecer” no futuro próximo. Mas, considere-se isto: podemos nós continuar a derramar o sangue de pessoas inocentes por todo o planeta enquanto afirmamos possuir o mundo e todos os seus recursos? Podemos nós ignorar desafios que ameaçam as espécies, como o aquecimento global [2] , o pico petrolífero e a proliferação nuclear?

Não.

Bem, nesse caso, haverá qualquer probabilidade de que os media, o congresso, os tribunais, ou o presidente cheguem a cair em si, a traçar uma rota diferente, a restaurar liberdades civis, a parar o abuso de direitos humanos e a retirar as tropas?

Não

Então, caro leitor, diga-me que esperança há de mudança senão através de um colapso económico de todo o sistema?

Sistemas políticos não têm de ser perfeitos para serem aceitáveis. Não sou ingénuo. Mas – para muitos de nós – há critérios morais básicos que têm de ser cumpridos para merecer o nosso apoio. A administração Bush elevou a matança, a tortura e o sequestro a um nível de política de Estado. Isto é inaceitável por qualquer padrão e, com isso, todas as alavancas do poder são controladas por pessoas que apoiam a doutrina actual.

NÃO É ASSIM?

Os Estados Unidos não são um foco de esperança ou uma luz no mundo. São, sim, uma ameaça, e cada vez maior, para a sobrevivência na Terra. A política da América e a beligerância militar constituem apenas uma extensão de um sistema económico dominador que serve unicamente aos interesses dos ricos e poderosos. O Banco Central desempenha um papel crítico neste paradigma. O país não vai à guerra sem a bênção das suas principais instituições financeiras. Os sujeitos do “big money” são os parceiros silenciosos nas pilhagens e nos banhos de sangue.

Os homens que possuem e fiscalizam o sistema financeiro dos EUA criaram o cancro que actualmente está a devorá-lo por dentro. Agora o tumor entrou em metástases e espalhou-se através de todo o organismo. A situação é irreversível. A economia está nos seus últimos passos e destinada a uma queda. Os líderes políticos estado-unidenses terão de aceitar um mundo no qual a América será apenas um entre muitos Estados de igual poder e significância. O financiamento militar reduzir-se-á a umas gotas. A matança acabará. Finalmente.

——————————————

[NT1] SIV: Structured Investment Vehicles .

[NT2] Pelo menos este podemos seguramente ignorar, pois é um desafio fictício. O autor deixou-se influenciar pela enxurrada desinformativa acerca do suposto “aquecimento global”. Para uma informação rigorosa ler, por exemplo, Rui G. Moura: A fabricação do pânico climático e A paranóia do dióxido de carbono .

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Guerra de fronteira

Luis Fernando Verissimo

As fronteiras ideológicas da Guerra Fria atravessavam países e continentes, separando o ‘mundo livre’ do outro e dos simpatizantes do outro. A não ser que visitasse um país comunista ou freqüentasse algum ‘aparelho’, você nunca as cruzava. Sequer as via. Independentemente das suas simpatias ou eventuais rebeldias, vivia dentro de um perímetro comum bem definido. Com o fim da Guerra Fria as fronteiras ideológicas desapareceram e nos vimos dentro de outra macrogeografia, a das fronteiras econômicas. Estas são visíveis demais. Separam bairros, dividem ruas, são fluidas e ondulantes - e no Brasil você as cruza todos os dias. Mais de uma vez por dia você passa por flóridas, suíças, bangladeshes, algumas bolívias… E em cada sinal de trânsito que pára, está na Somália.

É impossível proteger estas fronteiras como se protegia as outras. A grande questão do novo século é como defender seu perímetro pessoal da miséria impaciente e predadora à sua volta. Os americanos não podem ajudar desta vez, a fronteira maluca ziguezagueia dentro dos Estados Unidos também. No Brasil da criminalidade crescente e da bandidagem organizada as fronteiras econômicas são, cada vez mais, barricadas e terras de ninguém. No fim é uma guerra de contenção, de proteção de perímetros. E os excessos cometidos são defendidos com a velha frase, que foi o adágio definidor do século 20 e ganha força no século 21: os fins justificam as barbaridades. As chacinas de lado a lado, o poder de pequenos tiranos com ou sem uniforme de aterrorizarem o cotidiano de todo o mundo, tudo é permitido porque é uma luta de barreira, onde se repelem ou se forçam tomadas de território, como em qualquer fronteira deflagrada. Cara a cara, nação contra nação.

Há um sentimento generalizado, mesmo que não seja dito, que a maior parte da população do mundo é lixo. Excrescência irrecuperável, condenada a jamais ser outra coisa. Esta não é certamente uma constatação nova e nem qualquer utopista ultrapassado chegou a pensar que o contrário era completamente viável. A novidade é que hoje se admite pensar o mundo a partir dela. Já se pode dormir com ela. A ordem econômica mundial está baseada na inevitabilidade de a maior parte do planeta ser habitada por lixo irreciclável. Ser ‘politicamente correto’ hoje é dizer o que ninguém mais realmente pensa - sobre raças, sobre os pobres, sobre consciência e compaixão - para não parecer insensível, mas com o entendimento tácito de que só se está preservando uma convenção, que a retórica dos bons sentimentos finalmente substituiu totalmente os bons sentimentos. É a intuição destes novos tempos sem remorso que move o entusiasmo crescente do público com a truculência policial na nossa guerra do dia a dia. Nem tem sentido discutir se as vítimas mereceram ou não. Não existe lixo inocente ou culpado. O que está no lixo é lixo. Demasia. Excesso. Excrescência.

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

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Mentes aprisionadas

Pesquisas com imageamento cerebral ajudam médicos a identificar pacientes em estado vegetativo com chance de recuperação

Karen Schrock

O paciente abre os olhos, sem expressão alguma. Ele está vigilante, mas não têm consciência do que acontece ao seu redor. Há meses permanece assim, não-responsivo, desde o terrível acidente. Será capaz de pensar?

Em breve talvez possamos nos comunicar com essas mentes enclausuradas, aprisionadas num corpo que não mais reage ao controle mental. Imagens divulgadas no fim de 2006 por pesquisadores da Universidade de Cambridge mostravam o cérebro de uma mulher em estado vegetativo, indicando que ela estava vigilante e, para surpresa geral, consciente. Mais recentemente, a mesma equipe desenvolveu um método para fazer perguntas que podiam ser respondidas com sim ou não a pacientes que pareciam ter poucas chances de recuperação. “Podemos detectar se o indivíduo está consciente, e nos comunicar com ele, sem que tenha de dizer alguma coisa ou mover qualquer parte do corpo”, diz o médico Adrian Owen, coordenador da pesquisa.

Segundo Owen, até hoje os médicos investiram pouco nesses pacientes, na crença de que nada podia ser feito além dos cuidados paliativos que os mantêm alimentados, limpos e confortáveis até a hora da morte. Vez por outra, porém, um deles desperta inesperadamente, sem que se conheçam os fatores que contribuíram para a recuperação. Sempre foi muito difícil e impreciso estimar as chances da pessoa com transtorno de consciência (em coma ou estado vegetativo) voltar à vida normal.

NEURORREABILITAÇÃO

Novas esperanças começaram a surgir a partir dos anos 70, quando vários centros de reabilitação foram criados nos Estados Unidos e em outras partes do mundo. A medicina passou a estudar cada lesão cerebral individualmente, a elaborar regimes terapêuticos específicos com base em medicamentos e fisioterapia personalizados. O progresso foi sensível, ainda que ninguém sonhasse com as técnicas de imageamento cerebral, que apareceram na década de 80. Mas foi com o advento da ressonância magnética funcional (fRMI), nos anos 90, que se tornou possível estudar a atividade de cérebros vivos.

“A técnica de diagnóstico por fRMI permitiu examinar pela primeira vez as engrenagens cognitivas de portadores de transtornos da consciência”, diz o neurocientista Joy Hirsch, da Universidade Colúmbia. Em 1992, cientistas descobriram que esse tipo de varredura podia mapear alterações no fluxo sangüíneo de diferentes áreas do cérebro, sinalizando quais estavam funcionando durante qualquer pensamento ou estimulação sensorial. Nos anos seguintes foi possível diferenciar entre padrões de resposta passiva a estímulos e de pensamento deliberado, o que é crucial para o exame do cérebro do indivíduo cujo estado de consciência é desconhecido. De lá para cá a técnica de fRMI foi aperfeiçoada a ponto de os cientistas darem comandos aos pacientes e analisar suas reações minuto a minuto. Com isso, muitos consideram que estamos na iminência de nos comunicar com essas pessoas.

Obviamente nem todos os pacientes em estado vegetativo conseguem se recuperar; em alguns deles simplesmente não restou estrutura cerebral suficiente. “Temos vários casos com claras chances de recuperação, mas infelizmente não são todos”, diz Owen. Esse foi o caso da americana Terri Schiavo, que permaneceu anos em estado vegetativo e virou notícia quando seus pais contestaram a decisão do marido de interromper a alimentação e deixá-la morrer. O imageamento cerebral já havia mostrado que parte considerável de seu cérebro estava atrofiada; os médicos foram unânimes em afirmar que o caso dela era irreversível.

Contudo, o prognóstico dos pacientes com transtorno de consciência nem sempre é definitivo e inalterável. O cérebro é um órgão frágil, mas pode reagir de forma inesperada. Em alguns casos, as vítimas estão conscientes do seu entorno, mas são incapazes de reagir. Outras, ainda, inconscientes e desacordadas. O desafio da medicina de reabilitação é identificar todas essas possibilidades.

DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL

Os transtornos da consciência são divididos em três categorias: coma, em que o paciente não está vigilante nem responsivo; vegetativo, em que está vigilante, mas não-responsivo; e minimamente consciente, em que o indivíduo está vigilante, reage a estímulos, mas tem capacidade limitada de realizar ações intencionais. Em geral, os médicos fazem essas classificação pela observação visual do paciente no leito. “Costumamos pedir à pessoa que nos diga se está consciente. Realmente, é um método muito impreciso”, afirma Owen.

No estudo coordenado por Owen, publicado em setembro de 2006 na Science, os médicos pediram a uma paciente em estado vegetativo que se imaginasse fazendo diversas tarefas, como jogar tênis e caminhar pelos cômodos de sua casa. Enquanto isso seu cérebro era analisado por meio da fRMI. Os resultados mostraram imagens comparáveis às de pessoas saudáveis: ela compreendia os comandos e decidia se obedecia ou não.

A varredura por fMRI gera uma enorme quantidade de dados cuja análise leva tempo. Um experimento de poucos minutos pode demandar vários dias de trabalho de interpretação. “O momento heureca não aconteceu com a moça deitada dentro do aparelho. Só duas semanas depois percebemos que ela realmente esteve jogando tênis em pensamento”, explica o médico. Além disso, a análise de dados revelou que ela já estava se recuperando, ainda que os primeiros sinais físicos externos só fosse aparecer mais tarde. Essa detecção precoce, segundo os pesquisadores, poderá dar origem a novos tratamentos − medicamentos, cirurgia ou fisioterapia − muito mais eficazes.

Atualmente, a equipe de Owen trabalha num protocolo para “conversar” com a mente de pacientes em estado vegetativo, empregando os mesmos princípios básicos do seu experimento inicial. “Se o paciente imaginar que joga tênis, isto significará `sim`. Se imaginar que caminha pelos cômodos de sua casa, significará `não`”, explica o médico. Praticando com indivíduos saudáveis, os médicos aprenderam a distinguir esses dois tipos de resposta em menos de um minuto. Se tiverem sucesso, serão os primeiros a “conversar” com uma mente enclausurada.

É claro que ainda levará tempo para que essa tecnologia esteja disponível em hospitais. Por ora, a fMRI para diagnosticar pacientes com transtorno de consciência, e para se comunicar com eles, é usada em poucos laboratórios de pesquisa, em parte porque o custo do equipamento é muito alto, da ordem de alguns milhões de dólares. Mas com os resultados positivos já obtidos, é provável que nos próximos anos a medicina consiga libertar muitas pessoas condenadas ao leito do hospital.

Revista Mente e Cérebro
http://www2.uol.com.br/vivermente/

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Conservadorismo marca crônicas do jovem Lins do Rego

Estilo prolixo e rabugento contrasta com a escrita direta e simples da maturidade do autor de “Menino de Engenho”

NOEMI JAFFE

Não deixa de ser irônico o lançamento das crônicas de mocidade de José Lins do Rego, da geração regionalista de 30, logo após o relançamento da biografia de Oswald de Andrade, da geração de 22. Era de se esperar que alguém bem mais jovem, mesmo morando distante do centro industrial e cultural do Brasil, mas sendo erudito e atualizado como era, tivesse uma visão um pouco mais avançada sobre a arte e o país.
Mas não. O que se lê nestas crônicas de mocidade, em sua maioria, são escritos que oscilam entre o conservador e o encomiástico, muitas vezes carregados de uma rabugice e de uma prolixidade que em tudo contrasta com as idéias de quem, em São Paulo, escrevia: “A alegria é a prova dos nove”.
Mais tarde, já na década de 30, com os romances do ciclo da cana-de-açúcar, o autor saberia destilar o aspecto caudaloso de seu texto e justificar a fama de direto e simples, movido, segundo seu amigo Manuel Bandeira, a “bagaço de cana-de-açúcar”. Mesmo assim, dificilmente viria a reconhecer alguma influência da geração de 22 sobre sua literatura. Considerava a agitação modernista um “desfrute, que o gênio de Oswald de Andrade inventara para divertir seus ócios de milionário”, e Macunaíma “uma coisa morta, folha seca, mais um fichário de erudição folclórica do que um romance”.
Ainda com essas ressalvas, os escritos da juventude de José Lins auxiliam a compor um quadro interessante da paisagem cultural e política brasileira durante a década de 20 no Nordeste e a entender como pode se dar a formação de um romancista. Como se vê, por caminhos inesperados.
Para o organizador César Braga Pinto, o livro “tem o propósito de rastrear o papel desta incansável procura de modelos na formação do talento individual, assim como mapear a formação de um ambiente intelectual e suas ramificações”. Um dos maiores amigos de Gilberto Freyre, de quem herdaria o “regionalismo tradicionalista” e brevemente interessado em Plínio Salgado, José Lins aparece, nestas páginas, ora como boêmio, ora com ódio veemente, ora totalmente identificado com o Carnaval; critica dura e sentimentalmente a pena de morte, o vício da cocaína, elogia Pedro Américo, Olavo Bilac e Rui Barbosa e pende entre o parnasianismo, o decadentismo e a ironia contundente. É difícil compreender que alguém que certa vez escreveu “Rui Barbosa, o sol da América, a cachoeira formidolanda do ideal” e “Momo, que tendes a glória admirável de ver, sob teus pés divinos, a humanidade em convulsões diabólicas” viesse mais tarde a denunciar a decadência do patriarcalismo e criar personagens tão fortes como Vitorino Carneiro da Cunha, um Quixote brasileiro, um dos protagonistas de “Fogo Morto”.
Mas são justamente essas contradições que tornam tão cativante e tão brasileira a história do escritor.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

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Profissão: “passador” de clandestinos

Yves Bordenave

Eles estão na 16ª Câmara do Tribunal Correcional de Paris, sentados lado a lado em uma área fechada ou nos bancos dos réus, diante de juízes. No total, 21 deles, majoritariamente afegãos e curdos do Iraque, serão julgados. Os outros são iranianos, franceses e iugoslavos… Em sua maioria, são imigrantes em situação irregular; eles vêm comparecendo neste tribunal desde 14 de novembro, sob a acusação de “ajudar e facilitar a entrada, a circulação e a estadia irregular (de clandestinos)” no território francês. Nove deles estão presos, enquanto os outros estão livres ou sob regime de controle judiciário. Quando eles foram presos, em 15 de dezembro de 2005, a polícia se declarou satisfeita por ter desmantelado “a mais importante conexão de imigração clandestina”.

Esta operação de uma rara amplidão havia sido organizada pelas justiças francesa, italiana, britânicas, turca e grega. Na França, ela havia mobilizado mais de 400 policiais em Calais, Paris, Reims, Troyes e Oyonnax. Os investigadores da Administração Central para a Repressão da Imigração Irregular e do Emprego de Estrangeiros sem Lincença (Ocriest na sigla francesa) precisaram de mais de um ano para chegar a esta conexão, cujo ponto de partida se situava na Avenida de Verdun, no bairro da estação ferroviária Gare de l’Est, em Paris. Operações de vigilância e de espionagem foram executadas de Paris até Calais, de Paris até Bourg-en-Bresse, de Paris à Alemanha ou à Dinamarca, na maioria dos casos, de carro, mas também, mais raramente, de trem; além de escutas telefônicas praticadas em dezenas de números fixos e de celulares franceses e estrangeiros, haviam permitido desbaratar esta rede “de dimensão internacional”, conhecida sob o nome de “rede pachtou”.

Segundo os termos da acusação, várias centenas de afegãos e de curdos do Iraque teriam sido transportados da França até a Grã-Bretanha e a Europa do Norte por intermédio desta rede, que dispunha de motoristas passadores. Mustafa Adnan, originário da Iugoslávia e residente em Oyonnax (região sudoeste), era um deles. Rahim Kouhi, originário do Afeganistão e também morando em Oyonnax, era um dos organizadores e angariadores de “fregueses”.

O primeiro tem 34 anos. Uma espécie de representante comercial itinerante do transporte de imigrantes clandestinos, ele só fala sérvio e não entende praticamente nada de francês. Ele responde às perguntas da presidente do tribunal através de um intérprete. Entre 2004 e 2005, ele não parou de efetuar idas e voltas entre a França e a Europa do Norte. Ele teria encaminhado “64 clientes” por ocasião de uma dezena de viagens a bordo de um furgão para a Bélgica, a Alemanha e a Dinamarca. Ele não contesta os fatos, e sim o número de viagens. Ele só reconhece ter efetuado “quatro transportes para 23 pessoas”, com os quais ele teria faturado 9.200 euros (cerca de R$ 24.230), à razão de 400 euros (cerca de R$ 1.000) por pessoa. “Uma vez deduzidas as despesas com gasolina, os pedágios, os ferries e alguns cafés tomados à beira da estrada”, ele ganhava “cerca de 1.500 euros (em torno de R$ 3.950) para uma viagem com quatro pessoas”. Era Rahim Kouhi quem lhe fornecia “fregueses” e também quem o pagava “uma parte antes da partida e a outra na chegada”.

Rahim Kouhi, 30 anos, cobrava cerca de 800 euros (em torno de R$ 2.100) de cada clandestino que ele se encarregava de transportar. O seu negócio parecia funcionar a todo vapor: após ter cuidado ele mesmo das operações de transporte, foi obrigado a terceirizar o “comércio”.

Ele tampouco nega completamente os fatos, mas considera que a acusação lhe atribui um papel importante demais. Em seu depoimento, garante ter transportado até a Suíça apenas cerca de vinte migrantes em situação irregular, mas diz que não sabia “que aquilo era ilegal”. Ele deixou o Afeganistão em 2001 e se parece com um daqueles que ele extorquia dinheiro. “São homens que estão fugindo da guerra, que procuram trabalhar e viver normalmente. Não são nem traficantes, nem exploradores da miséria humana; são apenas integrantes de uma rede de ajuda mútua”, argumenta o advogado Yves Levano, que defende dois dos réus.

Filho de um militar morto no combate, Rahim Kouhi optou pelo exílio com a intenção de escapar do destino do seu pai. Da mesma forma que os seus “clientes”, ele percorreu milhares de quilômetros, atravessando o Paquistão, o Irã, a Turquia, a Grécia e a Itália a pé, de caminhão, de carro e de navio, até chegar finalmente à França em abril de 2003. A cada etapa, teve que pagar para os passadores que encontrou nos lugares onde os imigrantes costumam se reunir. Na França, depois do fechamento do centro de Sangatte, os afegãos, candidatos à imigração na Inglaterra, sabiam que, ao transitarem pela Gare de l’Est, acabariam encontrando esses famosos passadores. O preço da passagem varia ao sabor das conexões e dos itinerários escolhidos. É o “routing”, como denominam os especialistas da imigração clandestina.

Assim, um migrante precisa pagar cerca de US$ 1.000 (aproximadamente R$ 1.800) para ir do Afeganistão até o Irã, passando pelo Paquistão, e ainda outra quantia semelhante para alcançar a Turquia, em um percurso que é feito a pé e de caminhão através do Curdistão. Depois disso, ele ainda deve desembolsar US$ 2.500 (cerca de R$ 4.400) ou mais para ir de Istambul ou de Atenas até a Itália, escondido dentro de um veículo embarcado num ferry com destino a Bari ou a Rimini.

Para chegar à França - passagem obrigatória para quem pretende ir à Grã-Bretanha, destino muito procurado, ou à Europa do Norte - seja de trem ou de carro, o imigrante clandestino ainda precisa desembolsar mais algumas centenas de euros. No total, ele gasta entre US$ 6.000 e US$ 8.000 (entre R$ 10.600 e R$ 14.200, aproximadamente). Nenhum deles carrega uma quantia tão alta nos bolsos.

São as famílias que ficaram no país que remetem essas quantias, ao longo das etapas, para “terceiros de confiança” - que são geralmente refugiados já instalados, que possuem um comprovante de residência temporária ou que são detentores do estatuto de refugiado. Em muitos casos, este terceiro fatura o “serviço” cobrando uma porcentagem sobre o montante do valor recebido, assim como faziam os cúmplices ingleses da “rede pachtou”.

O processo judicial deverá ser concluído até 30 de novembro. Os réus podem ser condenados a penas de até dez anos de prisão.

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

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‘Poupança externa não fará o País crescer’

Para Bresser-Pereira, estratégia traz redução da poupança interna, câmbio valorizado, dependência, endividamento e crises

Fernando Dantas

O ex-ministro da Fazenda Luiz Carlos Bresser-Pereira considera desastroso que o Brasil tenha deixado o real se valorizar a ponto de eliminar o superávit em conta corrente, que deve se transformar em déficit em 2008, segundo as projeções do Banco Central (BC). Um país com déficit em conta corrente não consegue fazer com que a sobra do consumo, que é a poupança interna, financie todo o seu investimento. Por essa razão, importa poupança dos outros países.
Esse processo é visto como saudável por muitos economistas, desde que seja trilhado de forma moderada e sem despertar temores de calotes nos financiadores internacionais. Para Bresser, porém, a poupança externa não traz crescimento e, sim, dependência, endividamento, câmbio valorizado, redução da poupança interna e crises. Ele cita países como China, Coréia e Índia, como exemplos de rápido crescimento sem uso da poupança externa. A seguir, os principais trechos da entrevista:
Como o sr. vê as projeções de que haverá déficit em conta corrente em 2008, pela primeira vez desde 2002?

É a crônica de uma morte anunciada. Essa tendência estava se anunciando desde meados do ano, e a causa evidentemente é a sobrevalorização da taxa de câmbio. Como estamos no Natal, é época de comemorar. Crescimento de 5% não é nenhuma maravilha, mas para o Brasil é um ano bom, dadas as taxas de crescimento medíocres que temos tido. Mas, evidentemente, não estamos plantando para o futuro, muito pelo contrário.
Por quê?
Porque estamos abrindo novamente o fosso do endividamento externo, do déficit em conta corrente, do crescimento com poupança externa. Aliás, ponha entre aspas, porque crescimento com poupança externa significa não crescer. Isso tudo mostra claramente que o Brasil não tem uma estratégia nacional de desenvolvimento.
O sr. poderia explicar melhor?
A história econômica do Brasil tem um período que termina em 1980, do nacional-desenvolvimentismo, que foi um grande sucesso. Depois houve a crise da dívida externa, nos anos 80, e, a partir de 1990, com a abertura comercial, mas especialmente com a abertura financeira em 1992, o Brasil deixa de controlar as entradas de capitais e passa a adotar o que eu chamo de ortodoxia convencional - a estratégia que é proposta para nós pelos concorrentes lá do Norte. É claro que o Brasil desde então não cresce. Em vez de usar sua estratégia nacional de desenvolvimento, usamos a estratégia que os nossos concorrentes nos dão.
Por que o câmbio valorizado atrapalha o crescimento?
O grande obstáculo dos países em desenvolvimento para crescer é a tendência à sobrevalorização do câmbio. O câmbio artificialmente apreciado tira o estímulo ao investimento no setor industrial na quantidade que você precisa para exportar. Tem de ter também educação, instituições, infra-estrutura, reformas, mas não basta. Se não tiver oportunidade de investimento lucrativo, o país cresce muito menos, porque quem provoca crescimento é o empresário investindo.
Mas o investimento está crescendo a taxas robustas e sendo puxado pelo mercado interno. O empresário não pode investir e produzir para o mercado interno?
Está havendo espaço no mercado interno porque, primeiro, com a valorização cambial os salários aumentam, e isso aumenta o consumo. Em segundo lugar, houve uma melhoria do crédito direto ao consumidor muito grande, desde o ano passado. E, com a queda da taxa de juros, que foi muito boa, o crédito aumentou fortemente para o consumo. Mas quando o câmbio se valoriza, a importação acontece em três etapas. Na primeira, são as commodities - é um produto homogêneo, que tem preço de mercado, e, se o preço fica mais barato lá fora, importa-se. Mas o Brasil importa pouco commodity. Em segundo lugar, importa-se equipamentos. É um cálculo racional feito por empresas. Só no terceiro momento vem a importação de bens de consumo, que é muito mais complicada, porque são produtos de marca, que têm de ter canais de distribuição no varejo. Essa importação também está aumentando, mas não o suficiente. O ano que vem é que vai ser um desastre para a indústria nacional, porque vai aumentar muito mais essa importação de bens de consumo.
Por que o sr. é contra o crescimento com poupança externa?
Nenhum país cresceu com poupança externa. Essa é a forma de ficar dependente e não crescer. A China não cresce com poupança externa, nem a Índia, nem a Coréia. A Coréia, quando cresceu um pouquinho com poupança externa, antes de 1997, foi para a crise. Quando começa a entrar dinheiro, como entre 1994 e 1999 no Brasil, e o que está acontecendo de novo agora, o câmbio se valoriza, os salários aumentam, cresce o consumo e diminui a poupança interna.
Mas não falta poupança interna ao Brasil para crescer?
A história de que o Brasil não tem poupança para crescer é absolutamente falsa. O Brasil tem uma classe capitalista e uma classe média muito grandes. Objetivamente, nos últimos anos, durante os quais não se usou nenhuma poupança externa, o País cresceu bem mais do que nos anos 90, quando se usou muita. Em 1994, tínhamos zero de poupança externa, em 1999 tínhamos 4,32% do PIB, ou seja, este era o déficit em conta corrente. E, nesse período, não aumentou nada a taxa de investimento do País. A conta corrente ficou positiva a partir de 2003 e chegou a mais de 1% de superávit. Isso é exportação de poupança, e era de se esperar que a taxa de investimento caísse, mas não caiu nada. Até aumentou um pouco. Nós mostramos que temos capacidade de poupar.
Por que o câmbio se valoriza?
Há dois motivos fundamentais. Um é a chamada doença holandesa (sobrevalorização por causa da exportação maciça de commodities), que no Brasil não é grave feito na Venezuela ou na Arábia Saudita, mas é suficientemente grave, por causa do café, do ferro, da cana, da soja, da madeira. Isso não dá uma enorme valorização, mas dá alguma, de 20% a 30%, que é mais que suficiente para criar problema. O segundo fator é a atração que juros altos e altas taxas de lucro fazem ao capital estrangeiro, seja investimento direto ou empréstimo.
O que se pode fazer para evitar a valorização cambial?
Tem que controlar a entrada de capitais e o endividamento externo. E tem que neutralizar a doença holandesa, com um imposto sobre exportações dessas commodities supervalorizadas que o País tem em abundância, como fazem o Chile e Argentina. No caso argentino, há o imposto na exportação de soja, carne e trigo, que eles acabaram de aumentar. Com esse imposto, os exportadores não são lucrativos com uma taxa de câmbio mais valorizada do que a que eles têm. Se não fosse o imposto, o câmbio poderia baixar de 3 para 2 pesos por dólar, porque seria lucrativo exportar commodities nesse preço. Mas, com o imposto, você segura o câmbio no nível em que há competitividade das commodities.
O sr. tem elogiado a estratégia da Argentina. Como a compara com o Brasil?
Com exceção de falsificar os números da inflação, que é um vergonha, a estratégia mostra que eles aprenderam que o fator fundamental do processo de desenvolvimento é a taxa de câmbio. E isso apesar da violenta pressão do FMI (Fundo Monetário Internacional) para que eles valorizem o câmbio, o que facilitaria a vida, porque baixaria a inflação. Mas eles estão certíssimos, tiveram um aprendizado muito forte com o desastre causado pelo fato de terem seguido o FMI nos anos 90. Eu acho que a economia brasileira está muito pior do que a argentina hoje. No critério mais importante de todos, que tanto economistas keynesianos (desenvolvimentistas) quanto os ortodoxos acham fundamental,que é garantir a disciplina fiscal, a deles está muito melhor que a nossa - eles têm superávit e nós temos déficit público de 2%. Estão muito melhor do que nós também no câmbio. Só estão pior na inflação. Mas a inflação, se você não deixa haver indexação nenhuma, ela volta, baixa, assim que equilibra oferta e demanda. Nós sofremos horrores com a inflação entre 1980 e 1994 por causa da indexação que tínhamos, que deu inércia na inflação. Controlar a inflação é muito importante, mas é alguma coisa que se pode fazer com razoável facilidade.
O sr. tem mais recomendações para o Brasil?
Sim, tem de haver um ajuste fiscal mais duro e tem de se praticar taxas de juros mais baixas. Os juros devem flutuar de acordo com a inflação, mas num nível baixo, e não nesse nível escandaloso do Brasil, que melhorou um pouco nos últimos tempos.

Ainda vale a pena ser industrial?

Sandra Papaiz

Uma pergunta que muitos industriais estão se fazendo hoje é se ainda vale a pena produzir, dar emprego, pagar impostos, cumprir seu papel social e, depois, disputar as prateleiras com produtos importados, que chegam aqui a preços muitas vezes até inferiores aos valores cobrados no país de origem, numa clara demonstração da prática de dumping. É uma luta desigual, pois, por mais que os empresários brasileiros cortem custos, é impossível chegar aos preços cobrados pelos chineses, por exemplo - valores que não cobrem nem os custos que temos com a matéria-prima. É nessa hora que muitos industriais começam a pensar se vale mesmo a pena fabricar e se, diante deste quadro, não seria mais vantajoso comprar produtos asiáticos e apenas revendê-los no mercado nacional. Ou, quem sabe, fechar a fábrica brasileira e montar uma nova na China, ou em algum outro país asiático, para, aí, sim, competir em “igualdade”. Ou, ainda, simplesmente sair do ramo.
O desânimo pode ser, realmente, muito grande, mas o empresariado, por sua vez, está muito acomodado. É como se já pensasse que não vale a pena lutar, antes mesmo do início, que as coisas são assim mesmo e não há como reagir. Não percebe que, pensando deste jeito, não há mesmo o que fazer. Seremos vencidos, sem sombra de dúvidas. O empresariado precisa acordar, pois apenas com garra e enfrentando as adversidades é que conseguiremos mudar essa complexa competição.
Para lutar, no entanto, é imperativo ser realista. A taxa cambial é um fator que vem atrapalhando os negócios? O dólar baixo prejudica as exportações e facilita a entrada de artigos asiáticos que não cumprem as normas? A resposta é sim, mas não adianta reclamar do câmbio, pois, nós, industriais, não temos o poder de interferir nesta questão.
Se o empresário pensou que não vale a pena cair no aparentemente fácil caminho da importação/distribuição e respondeu que sim, que ser industrial é sua vocação, ele tem à sua disposição um arsenal de medidas legais que podem ajudá-lo a continuar produzindo. São medidas que demoram a ser adotadas, exigem tempo, esforço, união do setor, mas valem a pena. Ainda mais porque o governo federal se tem mostrado firmemente empenhado em defender a indústria nacional.
O setor de cadeados, por exemplo, está usando todas as medidas legais para não perder espaço para produtos asiáticos que chegam ao Brasil pela prática de dumping. Para a adoção de algumas dessas medidas foi preciso, inclusive, unir rivais históricas, como a Papaiz e a Pado. Houve um entendimento entre as duas empresas para pedir ao governo a prorrogação das medidas antidumping - a cobrança de uma taxa ou um valor fixo sobre o preço do produto para eliminar as distorções nos preços dos cadeados chineses exportados para o Brasil. O pedido foi aprovado em novembro pelo governo federal, seguindo rígidas normas internacionais.
A valoração aduaneira é outra maneira de coibir abusos na importação. A Papaiz pediu a valoração e qualquer outro industrial pode solicitá-la. Por esse mecanismo, as importações de um determinado produto são acompanhadas pela Receita Federal com mais cuidado, evitando o subfaturamento ou a descrição errada do produto com o intuito de burlar o pagamento dos tributos devidos.
Um terceiro instrumento, não menos importante, é a adoção de normas técnicas. Leva anos, necessita do apoio de grande número de empresas discutindo o assunto, mas, no final, compensa. O objetivo é obrigar que o produto importado esteja sujeito às mesmas normas técnicas a que já se sujeita o produto fabricado no Brasil, garantindo qualidade e segurança ao consumidor final.
Para todas estas medidas os industriais contam com o apoio de seus sindicatos, associações, federações estaduais e a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Também, é claro, é preciso cortar custos, investir em tecnologia. Mas, para o industrial que produz e quer continuar produzindo, essas são medidas rotineiras, independentemente da ameaça de produtos asiáticos. O que não pode acontecer é o industrial ficar esperando que alguém bata à sua porta para saber do que ele precisa para enfrentar os concorrentes desleais. O governo não fará isso. Então, agora é hora de os empresários competentes, que se sentem pressionados, tomarem uma atitude!
*Sandra Papaiz é presidente do Conselho de Administração do Grupo Papaiz

Estado de sao paulo 26 de dez 07

País cresce em 2008 por ‘efeito inercial’

Crise dos EUA não terá tempo de estragar crescimento do ano que vem

Lu Aiko Otta

O governo segue apostando em um crescimento econômico de 5% no ano que vem, conforme previsto no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). “Será 5%, talvez um pouco menos, mas perto de 5%”, afirmou o ministro da Fazenda, Guido Mantega. A estimativa coincide com a da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e está próxima dos 4,4% previstos pelo mercado, conforme a pesquisa Focus feita pelo Banco Central, na qual são consultadas cerca de 100 instituições financeiras.
Não será, porém, um ano fácil. A crise de crédito nos Estados Unidos, cuja extensão e reflexos sobre o Brasil são desconhecidos, é a maior fonte de insegurança sobre o futuro da economia. Dependendo de sua extensão, o crescimento de 2007 e 2008 pode se revelar mais um “vôo de galinha”.
Além disso, a alta da inflação nos preços dos alimentos no mundo e no País coloca no horizonte o risco de uma elevação da taxa de juros no ano que vem. Em parte, a confiança dos economistas numa taxa de crescimento forte no próximo ano é baseada no princípio físico da inércia.
“Não vai dar tempo de a crise estragar o crescimento de 2008”, disse o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco Lima Gonçalves. “Quando se cresce mais do que 5%, no ano seguinte já se tem garantido um crescimento de pelo menos 3%, só pelo efeito estatístico.”
Segundo Flávio Castelo Branco, coordenador da Unidade de Política Econômica da CNI, o crescimento econômico de 2008 será parcialmente puxado pelo “efeito inercial” do forte desempenho deste ano.
A maior garantia de uma economia aquecida no ano que vem é a força do mercado interno, a exemplo do que se viu neste ano. A inflação baixa, os juros em queda e o crediário com prazos mais longos vêm estimulando o consumo.
Mas, ao contrário do que se viu logo após o Plano Real, por exemplo, quando houve uma onda consumista semelhante, desta vez os brasileiros estão conseguindo pagar as prestações. Os índices de inadimplência estão em queda, porque a renda média está em crescimento e o desemprego diminuindo.
Por causa desse cenário positivo, a CNI projeta um crescimento de 6,2% no consumo das famílias em 2008.
Para dar conta de toda essa demanda, as indústrias planejam investir 14% mais do que em 2007, um ano que já foi forte em termos de expansão da capacidade instalada. De janeiro a outubro deste ano, o consumo de máquinas pesadas aumentou 18,8%, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Essas evidências de fortalecimento do parque produtivo nacional é que animam economistas a falar em um ciclo sustentado de crescimento econômico.
AMEAÇA
A manutenção desse ciclo, porém, não é algo garantido. “Um risco é a infra-estrutura, que começa a ficar tencionada”, disse Flávio Castelo Branco. “O PAC precisa dar resultados, para continuar a estimular os investimentos privados.” Ele observou que a regulação em torno de projetos de infra-estrutura continua sendo um problema. “A questão ambiental continua algo complexo e demorado”, disse Castelo Branco
Para Gonçalves, do Banco Fator, há outro ingrediente de risco: a possibilidade de elevação das taxas de juros em 2008. A inflação nos preços dos alimentos, explicou ele, persiste em todo o mundo e tem reflexos no Brasil.
“Não vejo como esse problema possa se perpetuar, mas acho que o Copom (Comitê de Política Monetária, que fixa a taxa de juros) está numa situação complicada”, afirmou Gonçalves. “Não está claro se é questão de aumentar a taxa de juros.”
O economista disse que, até pouco tempo atrás, achava que as taxas de juros ficariam estacionadas nos atuais 11,25% até abril e depois cairiam. “Agora, acho que tem possibilidade de aumentar, se tudo continuar como está.” Por essas razões, o economista-chefe da corretora Convenção, Fernando Montero, acha que as restrições ao crescimento da economia brasileira em 2008 são internas, e não a crise externa.
“Acabamos o ano de 2007 com mais inflação, mais riscos de gargalo, menos folga e mais uso de fatores do que quando começamos”, disse Montero. Na sua avaliação, essas são indicações que que a economia brasileira cresceu, em 2007, acima do que permitia sua estrutura.
Para o economista da Convenção, “a não ser que o crescimento potencial tenha acelerado substancialmente estamos fadados a crescer menos em 2008.”
A maior incógnita, porém, está no cenário mundial. O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, disse na última quinta-feira, em reunião na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, que os analistas de mercado calculam que o risco de a economia norte-americana entrar em recessão está entre 30% e 50%.
“Em havendo (recessão), a questão é sua extensão”, afirmou Meirelles. “Não há dúvida de que impactará a economia mundial.”
Meirelles, porém, procurou tranqüilizar os senadores ao afirmar que o Brasil será menos afetado do que nas crises dos anos 90. Entre outras razões, porque o mercado interno forte garantirá a manutenção do crescimento econômico.
Além disso, o País tem hoje reservas internacionais na casa dos US$ 180 bilhões e o Brasil tem um tratamento diferenciado na visão dos investidores internacionais: a taxa de risco é menor do que a média.

Estado de S. Paulo

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Antonio Nóbrega

30/12/1996

Músico, ator, cantador e bailarino, Nóbrega pesquisa e trabalha com o universo da cultura popular desde a década de 1970

Matinas Suzuki: Boa noite! Ele acaba de ganhar o prêmio de Linguagem e Pesquisa Musical do Ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte. No centro do último Roda Viva de 1996 está Antonio Nóbrega.

“Ele tem pouco mais de 1,60m, mas no palco ele é bem maior. Ator grande, ele é cheio de personagens engraçados e instigantes. Chamam-no as vezes de Cazumba, uma espécie de duende, meio bixo meio gente. Chamam-no as vezes de Tonheta, clown de multiplas habilidades que o melhor que faz é transformar tristeza em felicidade. Para vestir essas mascáras envolventes, o homem não quis palco pomposo não. Por isso fez lá na Vila [Vila Madalena] um teatro diferente. Deu o nome do lugar de Brincante, galpão que é também escola para encher bagagem de estudante. Como se isso não bastasse, o tal Nobrega também é mímico. Conta histórias com movimento numa gramática gestual cheia de refinamento, parece até que a mão fala às vezes por um momento. Grande ele é quando dança. Também aprendeu nas populares festanças, jogou muita capoeira, dançou aqui na Suiça e na França. Aprendeu técnicas circenses e acabou no Carlton Dance. Ficou famoso o danado por misturar o erudito com folgazões dos reizados. É também um grande músico com formação em academia, mas foi nas ruas que aprendeu como se faz a magia de encantar serpentes-platéias com sua música e folia. Chamam-no, às vezes, Toinho. Pai desse menino que já vai pelo mesmo caminho. É um artista completo do tipo que não se acomoda, daqueles que merecem estar no meio desta roda”.

Matinas Suzuki: Maravilha. Dá vontade da gente ficar assistindo, mas temos que conversar com o Antonio Nóbrega. Para conversar com ele nós convidamos esta noite a jornalista Marta Góes, que é redatora-chefe da revista Cláudia; a Helena Katz, que é crítica de dança do jornal O Estado de S. Paulo e também é professora da PUC, aqui em São Paulo; o ator Paulo Autran, a quem a gente agradece imensamente a presença nesse programa essa noite; Alberto Guzik, que é escritor e crítico de teatro do Jornal da Tarde; Ana Francisca Ponzio, crítica de dança da Folha de S. Paulo; Ivana Diniz, repórter da Rede Cultura e Luiz Fernando Carvalho, diretor de novelas da Rede Globo, que também gentilmente interrompeu as suas gravações de novela para participar desse programa. Eu lembro a você que o Roda Viva é transmitido em rede nacional (…). Boa noite, Antonio Nóbrega.

Antonio Nóbrega: Boa noite.

Matinas Suzuki: Músico, cantador, ator, bailarino, é difícil a gente começar a definir o seu trabalho, a começar a arrumar um jeito de conversar sobre o seu trabalho. Mas você prefere uma expressão própria, que é a tradição do brincante. Você poderia falar um pouco sobre isso? De onde veio esse nome, onde você o escolheu?

Antonio Nóbrega: Quando eu comecei a me interessar pelo universo dos artistas populares, isso em Recife, em 1970, a partir deste ano, então eu logo tomei conhecimento que os fazedores de espetáculos populares não se chamavam, não se autodenominavam artistas e sim brincantes ou folgazões. Até aqui na região sul do país eles também se chamam de folgazeiros, que é muito bonito também. E esse nome logo que eu encontrei, ele me seduziu. E eu então, quando parti para o que eu chamo, grandiosamente, da minha iniciação aos mistérios do povo brasileiro, então, eu tomei esse nome como nome de batismo. Quando eu criei também o meu teatro, juntamente com Rosa, minha mulher, eu coloquei esse nome de brincante. Quer dizer, o brincante é o quê? É aquele artista que tanto toca, quanto dança, quanto canta, quanto faz pantomimas. Artista esse que eu sempre fiquei seduzido e eu me propus a ser.

Alberto Guzik: Eu queria que você falasse, você já falou várias vezes para a gente em entrevistas, mas eu acho que precisa ficar registrado. O processo teu de formação do erudito para o popular, eu queria que você contasse como foi essa passagem, a descoberta do popular e, obviamente, queria que você falasse da influência do Suassuna [Ariano Vilar Suassuna. João Pessoa, 1927- importante dramaturgo brasileiro. Autor de O auto da compadecida] na tua vida. Que papel ele desempenhou?

Antonio Nóbrega: Bem, o Ariano Suassuna, que eu chamo de mestre e amigo, teve um papel decisivo, porque quando eu tinha 18 anos, eu estudava violino, tinha tido uma formação acadêmica muito boa de violino e mantinha com minhas irmãs um conjunto doméstico, um conjunto de música popular. As músicas que ouvíamos nas rádios, na televisão, nós então as tocávamos à nossa maneira em programas que fazíamos na televisão de Recife. Então, eu como que habitava dois universos bastante distintos. A da música clássica por um lado e o da música, eu diria, mais popular ou mais popularesca. E quando eu conheci Ariano ele teve um papel fundamental…

Alberto Guzik: Como é que você conheceu o Ariano?

Antonio Nóbrega: Eu o conheci porque ele fundou o Quinteto Armorial, ele estava começando a criar esse grupo e em Recife eu tocava em orquestra de Câmara, em quarteto, enfim, eu era um músico que participava do universo da música erudita de Recife. E muito jovem, naturalmente, 17 anos, ele me convidou para integrar o Quinteto Armorial. E a partir desse encontro com Ariano eu comecei então a ver, a enxergar um universo que até então eu não tinha visto, que foi o dos artistas, culturalmente muito rica neste sentido. Ariano gosta até de dizer uma coisa que eu repito: eu via e não avistava. Ou avistava e não via. E a partir daí eu comecei a me interessar então, eu fui seduzido, eu digo até que brutalmente, pelos artistas populares da minha região primeiramente, e depois pelos do Brasil. E aí, durante pelo menos 10 anos da minha vida, eu me coloquei integralmente, quer dizer, meu corpo, minha voz, a serviço desse aprendizado. Então eu não só aprendia com os passistas, do frevo de Recife, com os capoeiristas, com os mestres do reisado, como viajava até para outras regiões, principalmente do Nordeste e conheci muitos mestres. Eu não diria que eu fui um autodidata, eu tive outros mestres, não habituais àqueles que normalmente se tem para uma formação de dançarino e de ator. Eu acho que, sinteticamente, é esse o início do meu trajeto como artista.

Helena Katz: Toninho, pegando esse seu trânsito para o dito popular, você sabe que na dança existe aquela verdade oficial, que é uma mentira, mas é uma verdade oficial, que sem o erudito do balé não dá para dançar. Como você faz a síntese, é verdade que para o Tonheta, para o Mateus, essa sua formação erudita é que garantiram o sucesso ou não?

Antonio Nóbrega: Não, elas têm um papel muito importante e acho que nem respondi integralmente à pergunta do Guzik. No violino, por exemplo, eu tive uma formação clássica, bastante completa, com um professor maravilhoso, chamado Luiz Soleil, um grande catalão, que mora em Florianópolis. E o que eu fiz? Eu depois coloquei essa técnica a serviço da rabeca popular, que eu aprendi. No caso da dança, foi o oposto. Eu aprendi a dançar com os artistas populares e depois comecei a estudar os princípios e leis gerais do movimento, não só estudei, por exemplo, o código da dança clássica, mas eu me interessei por outros códigos de dança. Inclusive, eu gosto muito de utilizar um conceito do Peter Burke, que ele fala dos grandes teatros diferentes do mundo. E aí ele coloca os teatros rituais da África, das festas do carnaval do Brasil e de outros países da América Latina, os grandes teatros do Oriente, como a Ópera de Pequim, de Cabul etc. E comecei então a ver que esses códigos, eles são, inclusive, chamados de Teatros dança, quer dizer, os limites entre teatro e dança neste tipo de teatro-dança [risos], é muito difícil de se mostrar. Eu então comecei a observar que havia princípios e leis gerais em todos os eles. O que ocorre é o seguinte, é que as danças são diferentes em suas formas, mas são idênticas em seus princípios. Então, no caso da dança eu comecei a colocar esses princípios para fortalecer, para amplificar tudo aquilo que eu tinha aprendido com os dançarinos populares. De maneira que eu acho muito importante. Neste sentido, nós temos um país maravilhoso, porque nós temos uma cultura popular fecundíssima, vitalizadora e, ao mesmo tempo, temos a possibilidade de ter uma formação clássica erudita muito boa. Eu acho que a ponte entre elas duas - é no meio delas duas - que reside a grande arte e cultura brasileira…

Paulo Autran: E o Klaus Viana [Belo Horizonte: 1928-1992. Dançarino e coreógrafo] também teve um papel grande nessa sua formação, não foi?

Antonio Nóbrega: Nesse sentido o Klaus Viana teve um papel fundamental, porque quando eu cheguei aqui em São Paulo, na busca justamente de estudar esses princípios, Klaus Viana foi uma dessas pessoas que me fez conhecer esses princípios. De maneira que eu tenho em Klaus um grande mestre também em São Paulo. Talvez da minha formação, não com os artistas populares, Klaus Viana seja o mais representativo.

Paulo Autran: Me diga uma coisa, você se considera tenor ou barítono?

Antonio Nóbrega: A minha voz é de tenor.

Paulo Autran: Eu li um artigo num jornal elogiando muito você, aliás, você é unanimidade. Todo mundo te elogia, com toda a razão, porque você merece. Mas dizia que você era um tenor primitivo. Tua voz era de tenor primitivo. Eu nunca tinha ouvido essa classificação. O que você achou quando se viu chamado de tenor primitivo?

Antonio Nóbrega: Eu acho que até entendo. Na verdade, o registro da minha voz realmente é de tenor, um tenor clássico. E eu acho que pelo tipo de procedimento que eu uso na minha voz, embora eu tenha estudado também canto lírico, eu fiz sempre o mesmo processo, aprendi a técnica do canto lírico e colocá-la a serviço dos cantos que eu aprendi com os artistas populares. Então, embora eu tenha adquirido a técnica do canto lírico, os procedimentos, quer dizer, portamentos, trinados, do cantador. Então, eu acho que é isso que responde o tenor primitivo. O tenor primitivo é a voz rascante que eu utilizo na maioria dos cantos que eu canto.

Antonio Nóbrega: Propositalmente [risos].

Luiz Fernando Carvalho: Eu gostaria que você falasse um pouco sobre o mestre Salustiano [Manuel Salustiano Soares, Pernambuco: 1945. Especialista em música popular brasileira], que é um pouco talvez o seu mestre no plano do popular.

Antonio Nóbrega: Mestre mais moderno. Entre os artistas populares que eu tive, eu devo, principalmente, a um deles, de maneira bem maior, que foi o mestre Antonio Pereira [Pernambuco. Antônio Pereira, intérprete do Capitão do Boi Misterioso, do bairro Mustardinha em Recife]. Ele morreu com 88 anos. Inclusive morreu até no dia do meu aniversário, ou seja, dois de maio.

Luiz Fernando Carvalho: E era de Recife também.

Antonio Nóbrega: Era de Recife. Foi com ele que eu aprendi muito. Eu me recordo que até eu ia com ele às vezes catar Jacu-Ipiranga, que é um tipo de vime, que a gente recolhe nos canais de Recife, com os quais a gente fazia as figuras do boi, da burrinha. E nós íamos lá então nos mangues buscar isso, configurávamos as figuras. Eu guardo grandes recordações do mestre Antonio Pereira. Chamado capitão Antonio Pereira, porque no bumba-meu-boi ele fazia o papel do capitão, mas ele não era um capitão de patente não. Mas, posteriormente a ele, eu conheci mestre Salustiano. Vindo do meio rural, se estabeleceu em Recife e é um grande brincante. Um grande artista popular, que mora lá em Recife, que é rabequeiro também e é, sobretudo, responsável por um grande maracatu que existe, o maracatu Piaba de ouro. Eles usam muito esses nomes. Piaba é um peixe desse tamaninho, [mostra com a mão o tamanho do peixe] que dá nos córregos de Recife. E o mestre Salustiano - mestre Salu, como é conhecido - é um grande mestre. Já fizemos até alguma coisa com ele em cinema.

Luiz Fernando Carvalho: Eu queria completar um pouco essa pergunta, que você falasse da relação entre o Mateus e o Tonheta?

Antonio Nóbrega: O Mateus é a figura principal do bumba-meu-boi. Aqui em São Paulo, eu não sei se vocês já viram a Folia de Reis. E tem duas figuras que se paramentam festivamente, com máscara, e que dançam, carregam bastão. São os cômicos, os bufões, para usar um conceito bastante conhecido. E no bumba-meu-boi essas figuras são representadas pelas figuras do Mateus e do Bastião. É como se fosse, na nomenclatura do circo clássico, do Augusto e do clown. É o homem da cobra e o secretário, ou seja, é o sisudo e o farsesco. Eu digo, na brincadeira, que é o cartesiano e o desordenado [risos]. É o yin e o yung. Pois bem, existem essas duas figuras, que correspondem até, ligando até com a comédia de arte ao arlequim e ao briguela. Pois bem, logo que eu botei os olhos nessa figura do Mateus, fui tomado integralmente por essa figura. E eu comecei então a aprender o que ele fazia. O meu processo de aprendizado com os artistas populares foi primeiro da pura imitação. Mimeses. Pois bem, e comecei a imitá-los, em tudo que eles faziam. E eu tive, especialmente, um deles, foi um grande mestre meu, foi mestre Guariba. O Guariba é o nome que se dá lá no Nordeste ao macaco. E o mestre Guariba, nas gatimanhas que ele fazia, nas micagens, ele lembrava muito o macaco. E, por isso, chamavam ele Guariba. E foi com ele que eu aprendi muito das coisas. Naturalmente, como eu disse desde o início, a base, a referência da minha formação com a cultura popular. Então, Mateus é essa figura e que depois, então, a essa substância popular eu fui incorporar outros elementos daquela que eu poderia chamar da formação erudita. E aí estão, o quê? Estão os comediantes do cinema mudo, Buster Keaton, Chaplin; estão até aqui os palhaços mesmo do Kiogen, da Ópera de Pequim, os grandes cômicos da época da chanchada, Oscarito, Grande Otelo, e até da chanchada não brasileira, como o Totó. Enfim, tudo isso é material que é referência para o personagem Tonheta.

Ivana Diniz: É sempre um pé aqui e outro ali. O Brasil real e o Brasil oficial. A idéia do Machado de Assis [Joaquim Maria Machado de Assis -1839-1908. Escritor], o erudito e o popular, a bandeira do Ariano Suassuna e o masculino e o feminino da dança oriental. Você acha que o equilíbrio entre esses conceitos é que é a matéria do Tonheta, que é a matéria do Mateus, que virou o Tonheta?

Antonio Nóbrega: Eu acho que, eu mesmo, carrego dentro de mim uma tensão muito forte entre esses dois pólos. Quando eu comecei a criar o Tonheta, eu observei o seguinte, que os cômicos, na maioria deles, quando eles têm um personagem, um palhaço, eles geralmente se dedicam, eles doam toda a sua vida àquele personagem. Por exemplo, Buster Keaton [Joseph Frank Keaton Jr. -1895-1966. Ator], Chaplin [Charles Chaplin -1889-1977. Ator e diretor. Seu personagem mais conhecido foi o vagabundo], Tati [Jacques Tati -1907-1982. Ator e diretor. A escola dos carteiros é um dos seus principais filmes], Oscarito [pseudônimo de Oscar Lorenzo Jacinto de la Imaculada Concepción Tereza Dias- 1906-1970. Ator e comediante], Totó [Antonio de Curtis -1898-1967. Ator e comediante], Renato Aragão, quer dizer, o palhaço cômico é muito obsessivo. Ele quase que não permite que outra figura se intrometa no diálogo entre ele e o seu criador. O próprio Mateus, do bumba-meu-boi, é assim. Mas eu, dentro de mim, pulsavam outros impulsos que não só o do palhaço e era muito difícil de resolver isso, porque eu estava com o estereótipo muito forte dentro de mim. E eu disse como é que eu vou resolver isso na minha vida? Não que eu não tinha que ter esses paradigmas como achatadores, eles não poderiam ser de tal maneira obsessivos a ponto de eu minar dentro de mim outros impulsos. E eu vi que eu tinha um impulso oposto ao do Tonheta. Que no caso dos meus espetáculos eu resolvo com a figura do narrador. É a figura que conta as aventuras do Tonheta, justamente com Rosalina de Jesus, que é a sua mulher, que é a minha mulher na vida real, Rosane, que é atriz nos espetáculos. E eu criei então a figura de João Sidurino. E desta maneira eu pude resolver esses pólos que eu tenho dentro de mim, que é essa tensão contínua entre o masculino e o feminino, entre ser brincalhão e sério. Nesse momento, por exemplo, aqui, eu vivo um pouco essa tensão [risos]. A vontade de pegar a rabeca e o violão e dar uns cangapés [piruetas] aqui pelo ar [risos] e, ao mesmo tempo, ser obrigado a ser um pouco conceitual, teórico. Uma vez eu fui para o Jô Soares, não sabia como ir há cinco anos, era uma participação que eu tinha numa peça do Gabriel Vilela, eu fazia o Tonheta. Então, pediram para eu ir paramentado como o Tonheta. E eu fui. Agora, o Jô não conhecia a mim, pessoalmente, muito menos conhecia que diabo é esse Tonheta [risos]. Então, apresentou a mim para conversar com ele e eu fiquei extremamente dividido, porque eu com a máscara, o nome do personagem e o homem perguntando perguntas sérias. Então, foi um desastre completo [risos]. Ainda hoje ele não me quer no programa dele. Foi um desastre absurdo. Mas, enfim, mas eu acho que aqui eu estou mais à vontade [risos].

Ana Francisca Ponzio: Você se considera mais músico, mais ator, mais bailarino ou isso se alterna?

Antonio Nóbrega: Olha, eu tenho uma paixão muito grande por tudo, pela música, pela dança, pelo teatro. Mas, eu acho que a música é a base profunda de tudo isso. Eu acho que ela é o que move. Eu, sem a música, não posso cantar, não posso, naturalmente, tocar nenhum instrumento e não posso dançar. E até no teatro que eu faço, a música, eu sinto até que o Tonheta, a gestualidade do Tonheta nasceu da música. A codificação gestual dele é como se ele tivesse uma musiquinha por dentro, um metrônomo melódico, não só rítmico que animasse a cadência de atuação dele. De maneira que eu acho que a música, talvez, tenha um papel mais importante. E a música tem uma coisa que é um pouco diferente, por exemplo, da dança. Na dança, você com três 4 horas de trabalho você está exaurido. A dança depende muito de uma energia física. E a música não. A música você pega, eu pego o violino, o violão e se me deixarem eu passo três, 4 horas tocando. É mais fácil por esse lado. Há esse fator que favorece a música ser, digamos no meu caso, elemento principal.

Paulo Autran: Você é instrumentista, é compositor, é cantor, é bailarino, é mímico e é ator. Você alguma vez sentiu a tentação de fazer um espetáculo só como ator, por exemplo?

Antonio Nóbrega: Essa é uma pergunta muito boa. Eu acho que eu nunca saberia, eu não tenho limites muito precisos de onde começa o ator, onde começa o músico e onde começa o bailarino. Eu acho que eu não conseguiria. Eu teria limitações. Por que, quem sabe, tudo isso que eu faço, não é uma forma de dissolver, quem sabe, a minha incompetência para ser cada um deles bem competente? [risos]. Eu acho que eu consigo, dentro da minha história, é a junção de tudo isso - eu não posso rodar muito, senão vai dar uma confusão aqui, ele me alertou - quer dizer, é a conjunção de tudo isso que faz com que os meus espetáculos sejam, vamos dizer assim, bem recebidos. Talvez se eu fosse fazer uma coisa só eu talvez não tivesse o resultado que eu tenho, presumo eu. Mas a sua pergunta é instigante [risos].

Marta Góes: Antonio, em relação à maneira como você é recebido. O que a gente poderia concluir a respeito do público brasileiro diante do fato de que você se tornou uma unanimidade? Será que o público gosta mais da arte popular do que ele tem oportunidade de encontrar?

Antonio Nóbrega: Como eu tenho me apresentado em platéias muito diferentes, muito díspares entre elas, então eu tenho um testemunho, até me desculpem a vaidade, mas eu tenho um testemunho otimista em relação ao que eu tenho feito. Porque como eu tenho, às vezes eu coloco um pouco essa metáfora, não sei se ela é muito clara, não sei se ela é boa. É como a palma da minha mão, é como se no espetáculo eu tivesse, por exemplo, dez elementos de comunicação com o público. Dentre esses dez, cinco tem um respaldo um pouco mais erudito, são as minhas referências. Por exemplo, no brincante eu tenho, é um espetáculo em que o tecido musical - depois é que eu me dei conta - a trilha sonora é composto de grandes compositores russos. Tem um tema de Procófia, de Stravinsky e de Rakmanima. Compositores eruditos. Eu tenho referência de Rabelais, por exemplo. É claro que essas músicas são dissolvidas também. A maneira como elas são colocadas não são dentro do rigor do erudito, não é um quarteto de cordas que está tocando, não é uma orquestra sinfônica.

Matinas Suzuki: E são músicos também que tiveram uma influência popular muito grande.

Antonio Nóbrega: Exatamente. Principalmente o Stravinsky [Igor Stravinsky. 1892-1971, compositor ]. Tem um momento imbricante que eu uso o Petruskha. E o Petrushka é o irmão do Tonheta. E quando eu danço essas músicas, eu estou dançando, digamos, com os movimentos de um bailarino brasileiro. Pois bem, mas são referências eruditas. Por outro lado aqui, eu tenho referências absolutamente populares. É a maneira farsesca de Tonheta rir, é a piada mais fácil de ser digerida, é o gesto mais fácil de se aprendido. Aí um público menos letrado, digamos assim, encontra aqui nesses resonadores de se comunicar. O outro já encontra aqui. Então, eu tenho sempre essa interligação, essa perene utilização de elementos que vem de códigos, digamos da alta e da baixa cultura, vamos utilizar esses termos, se bem que eu não acho nem que um é baixo e que o outro é alto. De maneira que eu acho que isso responde então à comunicação que eu venho tendo com o público. Eu tenho me apresentado em palanques, para um público bem popular e tenho recebido uma compreensão muito boa, muito generosa. E me apresentado também em públicos bem cultos [risos].

Alberto Guzik: Como é que nasceu o Tonheta, qual foi o dia de nascimento do Tonheta? Como é que você identificou essa personagem, que é tua?

Antonio Nóbrega: Eu acho que o Tonheta nasceu no espetáculo que eu fiz em Recife, há exatos 20 anos. Que bodas é 20 anos?[risos]… precisamos inventar uma boda, boda tonhetânica, pronto [risos]. Então, no espetáculo que eu montei, chamado Bandeira do divino, nesse momento eu chamava de Mateus Tonheta. Por quê? Porque o Mateus era um genérico de palhaço. Existe o Mateus cravo do dia, flor do dia, Mateus Guariba e eu era o Mateus Tonheta. Tonheta pelo fato seguinte, eu em Recife acompanhava muito as peripécias de um velho artista popular chamado Velho Faceta. Velho de pastoril. É um outro tipo de palhaço, só que é um palhaço cujo universo dele está mais ligado ao picaresco, com as pastoras, as piadas dele são bastantes picantes, e o Velho Faceta, ele era chamado de Faceta por ser uma pessoa que fazia muitos trejeitos com a face.

[Exibição da peça de Nobrega]

Antonio Nobrega: Aquela ali é a rainha Isabel e o Tonheta sendo apresentado para a rainha [refere-se ao vídeo que entra em exibição].

Antonio Nobrega: Eu…posso continuar a falar? Pois bem, e eu ia muito ver o Velho Faceta e os meus amigos, por derivação, eu sou chamado de Tonhinho, passaram de Tonhinho para Tonheta. E eu achei muito bonito esse nome, muito profícuo. A gama de significados que Tonheta tem, está aí a Rosana para provar isso depois. Pois bem, eu comecei então a chamar de Mateus Tonheta. Depois eu vi que eu não precisava colocar o nome Mateus e no brincante então eu tirei o Mateus e ficou só o Tonheta. Mas, no nascimento mesmo, a data de nascimento foi novembro de 1976, com a Bandeira do divino, bodas de Tonheta.

Alberto Guzik: E quando é que você começou a elaborar a história do Tonheta, que já se transformou numa saga, numa epopéia, numa espécie de uma aventura cósmica?

Antonio Nóbrega: Bem, eu comecei assim… eu acho que desde essa época que a minha cabeça já circunavegava em torno dessa epopéia bufônica, como eu chamo, dessa epopéia picaresca. Eu li muito as novelas picarescas e há muito tempo que eu tive a sorte de ter parceiros maravilhosos na criação, principalmente brincante, como o Bráulio Tavares, que ainda tenho, o Romero de Andrade Lima e, principalmente, a minha mulher Rosane, porque agüentar essa história toda não foi fácil para ela não [risos]. Mas, enfim, até eu descobrir, por exemplo, que eu, para contar a história do Tonheta, eu precisava de um narrador, João Sidurino, isso não foi brincadeira não. Por exemplo, o nome João Sidurino. De onde veio esse nome, Sidurino, por exemplo? Eu, uma vez, lendo Guimarães Rosa [João Guimarães Rosa-1908-1967. Escritor.], eu me recordo que quando ele faz, quando Riobaldo assume o bando, assume o jagunço para começar a campanha, ele começa então a se reunir com o bando e a certa altura ao nomear cada um dos jagunços ele para num Sidurino, que alegrava a gente. É a única referência que existe a esse nome no Grande sertão veredas. Então, o que eu fiz, eu pressupus que Sidurino devia ser o festeiro dos jagunços, deveria ser aquele que contava histórias. Já fiz aí, já dei panos para a imaginação. E achei que é um nome bonito, consolidado o nome através de um personagem, não chega nem a ser um personagem, está lá numa obra grandiosa do Brasil. E João, é primeiro evangelista, é o nome do meu pai, enfim, João tem uma grande história na minha vida pessoal. Então, está aí, João Sidurino.

Marta Góes: E o João é o contador de histórias?

Antonio Nóbrega: E o João então é o contador da história do Tonheta, mas eu estava concluindo isso em relação a quê?

Alberto Guzik: A história do Tonheta.

Antonio Nóbrega: Pronto, a história do Tonheta.

Matinas Suzuki: Pegando um pouco a pergunta da Marta Góes, você trabalha com um material que é de tradição oral e, portanto, de difícil preservação, vamos dizer assim. E num país que é cada vez mais urbano, num país que está cada vez mais, aliás, o Brasil tem um processo de urbanização violento, quer dizer, não é um processo de organização que acontece sem traumas, ele é violento e é muito rápido. Eu tinha uma curiosidade. Você acha que o interesse por este tipo de trabalho está crescendo, está diminuindo, há algo a ser feito? Enfim, como é que você analisa, saindo um pouco dos seus personagens e olhando um pouco esse universo?

Antonio Nóbrega: Eu acho que o interesse por esse universo está crescendo muito. Eu me lembro que quando eu saí de Recife, por exemplo, há 13 anos, os músicos da minha cidade não tinham o interesse que hoje já tem. Por exemplo, hoje já existem bandas, grupos de música, por exemplo, é o caso do mestre Ambrósio, que esteve até aqui, é de Recife.

Alberto Guzik: Faz um sucesso louco.

Antonio Nóbrega: Exatamente. É o caso, por exemplo, de trabalhos até de ordem mesmo, até de ordem teórica sobre a cultura popular. Por exemplo, mas naturalmente nós não temos mais aquela efervescência que tínhamos em relação, por exemplo, no caso específico do bumba-meu-boi. Hoje já diminuiu bastante o número deles. Mas, em contrapartida, por exemplo, no carnaval, o número de pessoas que já dança frevo, de passistas, que não só dança no período de carnaval, mas até em outras épocas, é diferente de há 15 anos. Mas, ao mesmo tempo, eu acho que a tendência ao cosmopolitismo é muito grande por outro lado. Eu não sei se o interesse do crescimento por aqui é proporcional ao crescimento do outro lado. Mas que é maior, sem dúvida, do que, por exemplo, do que quando eu estava em Recife, sem dúvida. A poesia popular, os cantadores, há uma resistência muito forte ainda, quer dizer, nós temos ainda grandes cantadores populares, é uma poesia popular muito rica, muito forte, agora, não sei, não tenho condições de avaliar até que ponto essa cultura vai conseguir gerar, consolidar uma arte brasileira mesmo, nos moldes que eu acho que o Brasil necessita. Você veja, por exemplo, no campo da dança. Eu falo muito para os dançarino e, principalmente, para os coreógrafos, que a gente tem que desocidentalizar um pouco a nossa dança. A nossa dança ainda é muito angulosa, para usar um conceito tirado da filosofia, é muito cartesiana. Eu acho que a gente tem que ondulear - será que existe essa palavra? [risos] - frasear mais essa dança. E eu acho que a gente tem um bolsão tão maravilhoso, de movimento, de passos. O frevo, por exemplo, é um armazém de passos. A história do frevo, a história do nascimento do frevo é uma coisa maravilhosa, é um milagre musical e da dança, que eu não sei se eu vou poder contar aqui, que os coreógrafos e dançarinos brasileiros deviam procurar compreender, para compreender amar e ver o quanto isto poderia ser importante para a música brasileira.

Marta Góes: Mas o que nos impede de saber a história do frevo?

Antonio Nóbrega: Eu vou contar. A história do frevo foi assim. O capoeira era uma figura que, no início do século, as bandas militares do Recife, as maiores corporações militares, eram rivais. Então, os mestres o que faziam, chamavam os leões de chácara, ficavam protegendo para eventuais refregas com outras bandas [risos]. Então, o que tinha o capoeirista? Além de ter a eficiência da luta, ele tinha o corpo impregnado de uma gestualidade. Pois bem, e a banda tocava o quê? Dobrados, maxixes, polcas, valsas. Na época, não existia o frevo. Com o tempo, isso gastou, pelo menos, uns 50 anos, começou o maestro da banda a acelerar aquela música em função da figura do capoeirista que iria ali na frente. Começou a haver um diálogo mudo, um diálogo sem palavras, inconsciente, que no final de mais de 50 anos gerou uma música que não era mais o dobrado, o maxixe ou a polca, mas sim uma música quente, mais acelerada e daí o nome de frevo. O povo, na sua ignorância, quer dizer, na sua falta de conhecimento da música, a água ta frevendo, em vez de a água está fervendo. Frever e daí Frevo. Frevo é frevioca, frevidouro, pois bem, com o tempo essa música, gerou, o passista era o quê? Era oriundo da capoeira e dos próprios movimentos do maxixe, da polca e do dobrado começou a nascer um vocabulário que é maravilhoso. O armazém de passos que o frevo tem, a meu ver, ele é capaz de criar uma dança clássica brasileira. Agora, quer dizer, criar essa dança clássica brasileira sem o que não só a dança clássica pode oferecer, mas outras tantas. Por exemplo, a noção que nós temos do en dedans e en dehors. Às vezes, as pessoas não sabem nem o que quer dizer en dedans e en dehor. Para dentro e para fora. No frevo, tem um passo chamado para fora e para dentro, então, é um movimento que é exatamente aquele movimento do clássico…

[mostra o passo sem sair da cadeira]

Antonio Nobrega: Agora, o que nós precisamos é sistematizar, é codificar, é ver onde, por exemplo, os princípios das danças…

Matinas Suzuki: Nós estamos ouvindo um frevo seu.

Antonio Nóbrega: É, eu não posso dançar porque estou amarrado [Fala se segurando na cadeira… risos]. Ponta de pé e calcanhar, pronto. O que é en dedan e en dehors chama ponta de pé e calcanhar. O que eu acho muito é que a gente no Brasil ignora. Eu vejo boa vontade nos coreógrafos e nos bailarinos, mas o meio que a gente vive, o cosmopolitismo, não permite que a gente enxergue.

Matinas Suzuki: Agora, por falar nisso, eu não sou uma pessoa especializada na área, mas eu li os jornais. Parece que a dança brasileira foi muito bem num festival que houve em Lyon, na França. Inclusive você foi um dos destaques lá. Há um interesse internacional pela dança brasileira, você detectou isso?

Ana Francisca Ponzio: Eu perguntaria o seguinte: depois do teu sucesso na Bienal de Lyon [Festival Internacional de dança que ocorre em Lyon- interior da França. Antonio Nobrega abriu o festiva dançando frevo], você está convencido de que os regionalismos brasileiros têm sentido universal?

Antonio Nóbrega: Estou. Eu acho que a dança brasileira tem que se impor pela sua diferença, não pelo exotismo. Porque eu acho a gente tentar revelar o Brasil pelo exotismo eu acho um gosto falso, menor. Agora, é claro que tem que mostrar a nossa diferença, a nossa maneira particular de ser. E eu acho que existe, quer dizer, provavelmente eu tenha sido bem recebido por esse contingente diferencial que existe no meu trabalho. Eu acho sim, eu acho que existem elementos regionais que se universalizam no meu trabalho.

Helena Katz: Eu queria retomar uma coisa. Quanto você estava falando sobre os coreógrafos brasileiros e a necessidade de sistematização, Antonio Nóbrega não tem uma dor na consciência pela responsabilidade de não estar fazendo isso?

Antonio Nóbrega: Olhe, tem, mas veja, eu pergunto muito, eu acho que eu estou me reserando, se Deus me der vida suficiente, para no futuro poder me dedicar mais à dança. Pelo fato de eu ter abraçado a música, o teatro, a dança, eu não me sinto muito à vontade, até por uma questão física de tempo. As pessoas me procuram bastante para que eu crie uma companhia. Eu estou pensando seriamente neste ano…

Helena Katz: Eu até lembro que você já foi para uma universidade, faz uns 10 anos, para tentar fazer alguma coisa.

Antonio Nóbrega: Exatamente. Na Universidade de Campinas [Unicamp], nós estivemos juntos lá. E eu tenho muito interesse, porque, curiosamente, apesar de eu ser da música mesmo, a minha essência é musical, onde eu me sinto mais competente para trabalhar com pessoas, se eu for dar aula de violino, eu sou um desastre [risos]. Mas eu não sinto que sou um desastre ao trabalhar com pessoas com a dança. Eu não sei porque. Talvez por ter ficado muito atento a ela, talvez pelo fato de no Brasil ainda ser difícil encontrar pessoas que tenham se debruçado sobre a vertente popular mesmo, então isso me obrigou a ter uma acuidade maior, a observar maior.

Ana Francisca Ponzio: Você acha que existe um certo preconceito por parte de criadores e até da mídia com relação a essa dificuldade de usar mais intensamente os elementos da cultura brasileira, com o receio de que isso possa ser interpretado como folclórico, no sentido reducionista, pejorativo, enfim?

Paulo Autran: Por outro lado também, tudo o que a gente lê a seu respeito, diz que você conseguiu universalizar uma inspiração regional e eu acho que você conseguiu isso plenamente. Vocês não estão de acordo comigo não? Realmente, o espetáculo que você faz é um espetáculo para qualquer lugar do mundo. Daí o sucesso que você fez em Lyon, na França. Não é só pelo exótico, é pelo bonito, pelo elevado, pela alegria que você transmite, pela beleza do que você faz. É absolutamente universal.

Antonio Nóbrega: É, realmente eu não posso reclamar da acolhida que eu tenho tido do público em geral, dos críticos em particular…

Paulo Autran: E tem outra coisa, os brasileiros em geral, os que moram nas grandes cidades, pensam que só existem as grandes cidades no Brasil. Eles se esquecem que o Brasil é um país enorme, colossal. A variedade de coisas que existe, eu viajo muito, adoro viajar com a minha companhia de teatro, então eu tenho conhecido brasis que o paulista, que o carioca não tem noção de que existe. E você pegou toda, principalmente no nordeste, toda a sua inspiração nordestina e transformou isso numa coisa absolutamente universal.

Antonio Nóbrega: Obrigado.

Matinas Suzuki: Toninho, nós estamos chegando no finalzinho do primeiro bloco. Vamos encerrar o primeiro bloco com você cantando ou tocando alguma coisa e daí a gente volta daqui a pouquinho com a segunda parte da entrevista com o Antonio Nóbrega.

Antonio Nóbrega: Vamos fazer o seguinte, eu deixo para cantar no final.

Matinas Suzuki: Então está bom. Nós voltamos daqui a pouco.

[intervalo]

Matinas Suzuki: Nós voltamos com o último Roda Viva de 1996 que essa noite entrevista o músico bailarino ator.

Helena Katz: Eu queria continuar e queria que voltasse a falar sobre a questão da mídia e dos preconceitos, talvez, e que você pegasse isso e levasse adiante. Por que, então, com tanta riqueza, lá de onde você vem, do nordeste, porque a cada verão a gente precisa deglutir só a dança do “tchan”, a dança “da garrafa”, por que é isso, só?

Antonio Nóbrega: Eu, antes de chegar aqui, eu vou retomando aquela pergunta do preconceito. Eu acho que, às vezes, até numa cidade como São Paulo, que, às vezes, as pessoas me perguntam, você vem lá de Recife, lá do nordeste, lá a cultura popular é tão rica. Está certo, é uma região bem presenteada em relação à cultura popular. Mas, em relação a São Paulo. A capoeira? A capoeira é uma coisa muito importante e a gente enfrenta até um problema curiosa com a capoeira. Os grandes mestres da capoeira, por formação, eles acham que capoeira é só luta. E, às vezes, não tem a abertura de cabeça de ver que a capoeira, além da luta, é muito mais. Vocês viram, eu desconheço se existe no mundo uma luta marcial que ao invés de brados, gritos de guerra

[Faz gestos de lutas orientais enquanto faz “gritos” como os existentes no karatê].

Antonio Nobrega: Não, a capoeira se faz dançando, cantando e tocando instrumento. Se luta dessa maneira. Veja que coisa maravilhosa. Isso é uma coisa diferenciadora do que nós somos. Isso marca muito claramente o temperamento, o caráter do povo que nós somos. Então, você veja, a capoeira, além de servir naturalmente para a luta, ela serve para muito mais coisas, quer dizer, eu acho que é um adestramento maravilhoso para o ator-bailarino brasileiro. A capoeira permite movimentos no chão, permite saltos, propicia saltos, tem movimentos acrobáticos, então, quer dizer, na medida que o bailarino se lança na capoeira, eu acho que nós temos um pouco de medo, às vezes, do esteriótipo da capoeira. De se impregnar naquele movimento e depois não conseguir se libertar. Mas, na medida que a gente consiga penetrar no universo da capoeira, a gente consegue depois se libertar daquilo que é somente utilizado para a luta. Então, é nesse sentido é que eu acho que falta, às vezes, um pouco é coragem mesmo. Vamos aprender aquilo mesmo. O medo de perder o chão, como se eu aprendesse a capoeira e vou deformar a minha formação com o clássico, com o moderno. Não, eu acho que nós precisamos ter essa coragem de deformar. Eu acho que precisa ser deformado. O clássico, para sobreviver, precisa ser deformado. E onde ele tem sobrevivido é onde ele foi deformado. Porque senão ele vira catacumba. Eu reconheço que sou bastante conhecido entre os críticos, entre os chamados formadores de opinião, mas eu não sou um artista, absolutamente, popular no Brasil. Eu não tenho popularidade. Popularidade quem é que dá? São programas de audiência como o Faustão, como Silvio Santos, por aí. Eu não estive. Não que eu não queira, porque eu acho que se em algum momento eu participar de algum desses programas irei, naturalmente, fazer aquilo que eu faço, em qualquer um deles. Agora, eu acho que a mídia, às vezes, tem um papel, é… eu acho que não existe outra razão para explicar uma música como o “Tchan”, por exemplo, ter um sucesso tão grande neste país, em detrimento de obras de compositores tão maravilhosos como Lamartine [Lamartine de Azeredo Babo.1904-1963. Cantor, compositor, revistógrafo, humoristoa e produtor], como Noel Rosa [Noel de Medeiros Rosa.1910-1937. Sambista], como Capiba [Lourenço de Fonseca barbosa. Pernambuco-1904. Compositor de frevo]. Pronto, eu vou tocar. Vê que marchinha bonita de Capiba [toma o violão e canta]. Então veja, a delicadeza dessa marchinha.

Paulo Autran: A mesma rosa amarela também é dele. Linda.

Antonio Nóbrega: Também é dele. Capiba é um compositor, o que ele escreveu, tudo maravilhoso. E, no entanto, ficou restrito ao carnaval, praticamente, de Recife. Agora, dizer que o povo não gosta, dizer que o povo só gosta do “Tchan”, é mentira, porque tem que mostrar isso aqui, como outras coisas que eu tenho mostrado dentro deste espírito, principalmente no pancada do Algazarras. O povo gosta, o povo vibra. Aí é que eu acho. A mídia tem um papel muito grande. É uma deformação da mídia. Eu só acredito que seja isso. Não tem outra razão.

Ana Francisca Ponzio: Costuma se dizer que a dança é uma manifestação espontânea no Brasil, presente em todas as circunstâncias. No entanto, ao contrário da música popular, a dança como linguagem estética mais elaborada, ela não tem tanta repercussão e é até um pouco frágil, digamos. Você acha que isso ocorre por situação que você está explicando, de negar um pouco as suas raízes?

Antonio Nóbrega: Em Recife, por exemplo, a gente, mesmo não sendo carnaval, a gente comemora certos eventos com a orquestra de frevo e dançando frevo. Eu já presenciei essas cenas. A mesma banda que toca o frevo é a mesma que acompanha a procissão, no dia, por exemplo, de Nossa Senhora da Conceição, oito de dezembro. Então, há essa ligação. Na África, nos países africanos eu já vi isso muito também. Na própria África do Sul, eles comemoram muitos eventos cantando e dançando, sai todo mundo cantando e dançando no meio da rua. Isso, em Pernambuco particularmente, em Recife, existe. Numa cidade como São Paulo isso é bastante diluído. Quiséramos nós que a gente pudesse comemorar mais sempre cantando e dançando as coisas. Mas, o que eu acho, no caso da dança, o que é pior é que, por exemplo, nós temos uma literatura brasileira, que se identifica com o caráter do povo que nós somos. Desde os regionalistas até os não-regionalistas. Temos uma artes plásticas com a mesma característica; temos uma música, no campo da música erudita Villa-Lobos [Heitor villa Lobos.1887-1959. Compositor], Marlos Nobre [1939. Compositor de música erudita], por aí vai. Uma música erudita, mas cuja referência é o popular. No caso da dança, a nossa dança artística ainda não tem a mesma ligação. A dança artística que nós vamos ver no teatro, ela é a mais distante da nossa dança, da nossa cultura popular, diferentemente de todas as outras manifestações artísticas. Por isso é que eu acho que a dança do Brasil está em atraso em relação às outras, não sei se vocês concordam com isso. É claro, há grupos de interesse, eu vi o trabalho do Grupo Corpo e acho que estão buscando, não estou deselogiando não [risos], muito pelo contrário, mas eu acho que a gente não chegou ainda aonde podemos chegar.

Marta Góes: Mas, Antonio, em relação à maneira como nós nos movemos, não só como nós dançamos, você vendo a movimentação do brasileiro, o que você pode dizer a respeito do nosso caráter, a partir da nossa movimentação?

Antonio Nóbrega: Olhe, eu acho que em termos de caráter não muito… rapaz, não gosto dessa palavra, mas sempre caio nela, cartesiano [risos]. Eu acho que a nossa composição de humor e cordialidade, eu acho que nós somos sim um pouco cordial, apesar de toda a discussão que nós não somos, se somos mais ou se nunca fomos, eu acho que não, que nós somos um povo em que muitas de nossas atitudes são geradas pelo coração. Está aí a nossa cordialidade. Então, acho que isso se reflete na nossa, até mesmo nós lá nordestinos, temos uma gestualidade um pouco mais intensa que os paulistanos e as pessoas do sul. E eu acho que essa composição de nossa generosidade, de nossa maneira de ser, se traduz também na nossa maneira de andar, na nossa maneira de falar, em tudo isso. Agora, eu não conseguiria traduzir uma dança somente a partir do nosso código gestual do dia a dia. Eu preciso ter um repertório muito maior ao meu alcance. Além da capoeira, que eu já falei, as danças, por exemplo, Moçambique, as festas, nós temos em todo o Brasil. O bumba-meu-boi, por exemplo. Ah, o bumba-meu-boi é do nordeste. É não. O bumba-meu-boi existe praticamente, praticamente não, em todos os estados brasileiros.

Paulo Autran: Em Santa Catarina, Rio de Janeiro…

Antonio Nóbrega: Em Santa Catarina, é chamado boi-de-mamão. Por que? Porque a cabeça do boi é esculpida no mamão, no fruto. Em todos os lugares tem. Num lugar se chama cavalo-marinho, outro é boi-de-mamão, no outro é boi bumbá. Com diferenças regionais, mas com uma cepa única. O frevo, por exemplo, outra coisa muito bonita. O frevo, às vezes, a gente pensa que é uma dança de um passo só. A gente está longe lá, daí vem aquela multidão, subindo e descendo. É a onda do frevo. Daí a gente se aproxima mais, aí já vê que já existem movimentos, já começa a haver uma individualização. Quando chega mais perto, vê que cada um está fazendo um movimento, mas é como se fosse um movimento dentro do todo. Isso é que eu acho bonito. O chão coletivo de todo mundo, mas dentro desse chão coletivo, cada um personalizado. Eu acho que isso pode ser feito em toda dança brasileira.

Matinas Suzuki: Uma curiosidade que eu tenho. São Paulo, na verdade, é uma grande cidade nordestina. Você encontrou aqui no contato com essas pessoas que vieram do nordeste trabalhar em São Paulo em busca de um sonho, de uma vida, uma coisa desse tipo, você encontrou alguma manifestação que ao chegar em São Paulo tenha mudado as suas características e que seja uma coisa do nordeste, mas já com um sotaque de São Paulo, alguma coisa que seja interessante por esse lado? Você conseguiu detectar alguma coisa desse tipo?

Antonio Nóbrega: Não, Matinas, não consegui. Eu, aqui em São Paulo, talvez eu esteja mentindo. Eu encontrei sim no Embu [município brasileiro pertencente à região metropolitana de São Paulo], uma grande figura, que é Raquel Trindade [1941.Artista plástica]. E foi com ela, inclusive, que eu aprendi as danças dos Orixás, que nós chamamos lá de xangô, na Bahia é chamado de Candomblé. Que a meu ver, por exemplo, para o ator especialmente, eu acho que é uma grande codificação gestual de personagens e figuras. Em algumas daquelas figuras do meu espetáculo, na figura da Velha, na figura, por exemplo, do guerreiro, eu parti do arquétipo vamos dizer assim, do esteriótipo, dos orixás que fazem parte da dança dos orixás. Parti de Oxossi [do iorubá Òsóòsi, é um Orixa da caça e da fartura], para a criação do guerreiro e parti de Obaluayê [é o mesmo que Omulu, é um Orixa associado à Terra] para a criação daquela velha. Ou seja, eu aprendi um código, sistematizei um código de cada uma dessas figuras e a partir daquilo eu comecei a improvisar. Comecei a colocar o meu universo popular a partir daquilo, como inclusive fazem os teatros codificados do Oriente, que são, evidentemente, codificações mais refinadas,porque existe a cristalização do tema. Mas, que cada ator, um Mei Lan Fang [1894-1961. Ator e dramaturgo], que foi um grande ator chinês, ele fazia vários papéis femininos e papéis femininos cujas diferenças entre si eram mínimas, eram muito pequenas. Eram coisas de um requinte absoluto. Mas partia de um grande quadro codificado.

Alberto Guzik: A gente chegou num ponto que me parece muito importante. Eu queria que você falasse um pouco como você cria os seus espetáculos, como é que você reúne material e como é que você canaliza esse material para os seus espetáculos. Você já deu alguns exemplos, eu queria que você desse mais alguns exemplos. E eu queria que você falasse também como é o seu processo de trabalho, porque você canta, dança, toca, são todas atividades que exigem um treino constante. Você tem horário no dia para fazer tudo isso? Você se prepara constantemente para tudo isso? Fala sobre isso.

Antonio Nóbrega: Eu tenho uma disciplina muito rigorosa. A sorte é que eu nasci com essa propensão. Então, para mim não é difícil ser disciplinado. Seria difícil se eu não tivesse inclinação para isso.

Alberto Guzik: Além do mais, você lê muito e você vai a teatro ver espetáculos de outras pessoas, não é daquele tipo de artista que só vê o seu próprio espetáculo.

Antonio Nóbrega: Naturalmente, com tudo isso eu tenho, eu gostaria de ler mais. Eu me ressinto muito, eu acho que a minha formação não é sólida não, eu gostaria de ter uma formação mais rica. Eu tenho, necessariamente, uma disciplina muito rigorosa. E não só isso, eu tenho um universo de vida já pautado por isso. Eu divido minha vida em duas contingências. Quando eu vivo em época de apresentação, eu procuro falar menos, dormir mais cedo, até mesmo no meu dia a dia, com a minha mulher e com meus filhos, eu tenho uma vida em que eu não me exponho muito. Quando eu não tenho, eu quase que viro outra pessoa. Por exemplo, na semana retrasada eu fiz seis espetáculos, um atrás do outro, o que exige muito da voz, então não posso estar falando o tempo todo. Uma vez, eu pegando um táxi, coisa mais incômoda do mundo, o motorista conversando comigo e eu já não podia falar mais [risos]. E o motorista querendo conversar comigo e eu doido para conversar com o homem. Uma atitude muito ingentil, muito descortês da minha parte. E aquela pessoa pensa então que eu sou um chato. Mas, enfim, eu tenho que enfrentar isso, quer dizer, em função mesmo do que eu abracei. Mas, eu tenho, então, disciplina muito rigorosa que, às vezes, obedecem a certas injunções momentâneas. Por exemplo, nesse momento eu ando estudando muito violino. Eu até vou apresentar a vocês e ao público em geral o meu mais novo instrumento. Esse aqui é um violino barroco [pega e mostra o violino para os entrevistadores], que é o instrumento que eu estou fazendo, digamos, é o instrumento médio entre a rabeca popular que eu tocava e o violino moderno. Pois bem, e eu estou muito interessado neste equipamento pela literatura barroca que escreveu para esse instrumento. Não só Vivaldi, como Bach, mas também Tartini, Nardini, Locatelli, então estou estudando três, 4 horas por dia. Mas é uma agonia isso porque eu vou estudando a dinâmica, aí digo agora tenho que fazer trabalho de corpo, porque tenho apresentação [risos], aí fazendo voz. Às vezes eu queria passar um tempo na minha vida faça agora assim, um mês só o que você gosta.

Marta Góes: E daí, o que você ia fazer?

Antonio Nóbrega: Eu ia somente pelo prazer. E, às vezes não, às vezes não posso me pautar só pelo prazer. Eu tenho que fazer. Se eu tenho espetáculo, Figural, por exemplo, é um espetáculo que me exige muito. Eu começo cantando, já que ele perguntou minha voz de tenor, com um som sustenido lá em cima, cantando, uma nota muito e depois vou fazer uma figura, que é o Cazumba, que me puxa muito. Então, eu tenho que estar bem com o corpo para fazer isso. Então, eu não posso me dar ao luxo de estar tocando Nardini, Tartini.

Marta Góes: Eu li numa entrevista, que você fala o seguinte, eu achei ótimo: A gente não pode esquecer que a arte precisa divertir. E você acha que tem muita gente esquecendo disso hoje em dia?

Antonio Nóbrega: Eu acho que tem. É um pouco a minha… não sei se é crítica, mas, enfim, que eu faço um pouco ao teatro. Eu acho que o teatro tende, se não tomar cuidado, a ficar desprazeiroso. Eu acho que a arte, sobretudo, tem que divertir. Agora, quer dizer, a gente não pode identificar divertir com banalizar ou vulgarizar. O teatro de Molière [pseudonimo de Jean Baptiste Poquelin. 1622-1673. Considerado um dos maiores comediógrafos do teatro francês. Seu nome é utilizado em um festival na França onde há diversos tipos de premiações relacionadas à produção teatral - premio molière]. e o teatro de Sófocles [496a.c. 406a.c. dramaturgo grego. Autor de Édipo Rei] divertem. Moliére diverte, sobretudo. Agora, ali está o grande teatro. Lorca. Educava, divertindo, para usar uma frase do próprio Lorca e eu procuro também me pautar por esses princípios, ou seja, divertir sem vulgarizar. Eu acho que o teatro sofre um pouco isso e aí talvez haja uma crítica velada, eu não sei se o excesso da presença do diretor no universo do teatro em detrimento do autor, em detrimento do próprio ator…

Alberto Guzik: Você acha isso uma crítica velada? [risos]

Paulo Autran: Mas não é só isso, não. É por que o jovem ator, ele fica deslumbrado por todas as teorias cerebrais, intelectuais a respeito da arte de interpretar e escolhe, em geral, autores que só tem alguma coisa para dizer para um limitadíssimo número de pessoas que se interessa especificamente por aqueles problemas. Então, às vezes, são montadas peças que não tem a menor repercussão na platéia e isso realmente afasta o público. Mas eu estou de acordo é com Bretch [Bertolt Bretch.1898-1956. Dramatugo, poeta e ator], a função primordial do teatro é divertir, o que não significa só dar risada. Você emocionando a pessoa, mesmo falando ao seu intelecto com determinado tipo de inteligência, você diverte a platéia, você interessa a platéia. Divertir no sentido de interessar a platéia. Então, quer dizer, o ator tem sorte quando ele escolhe justamente um tipo de espetáculo, um tipo de diretor que tem essa compreensão, que quer fazer um espetáculo que atinja a platéia, que interesse a platéia. Eu acho que essa é, não só a função primordial do teatro, como é também o insight que o ator, que o empresário tem que ter na escolha de elenco, de texto e de diretor.

Antonio Nóbrega: Ultimamente eu vi um espetáculo, com o Luis Melo, Sonata Kreutzer. É um ator em cena, com uma luz única, com um texto tirado de um romance, um romance até pesado, um romance trágico, Tolstói [Liev Tolstói.1828-1910. Escritor], ou seja, tem todos os ingredientes para ser chato. No entanto, prazeirosíssimo. O que é? É um bom ator, contando uma boa história. Eu acho que, o teatro talvez se resuma a isso: uma boa história sendo bem contada. E talvez a falta disso também, quer dizer, o uso excessivo da luz, o uso excessivo da cenografia, para mim tudo isso desfoca o teatro. É como se sujasse… o teatro.

Ivana Diniz: Agora que você falou do teatro do autor, da figura do diretor. Até Segundas histórias você sempre tinha um diretor, uma pessoa assinando, mesmo que a concepção fosse completamente sua. A partir de então, você assumiu essa idéia que foi sendo maturada aos pouquinhos. É irreversível, quer dizer, a partir de agora você assina essa direção sempre?

Antonio Nóbrega: Eu sempre fui um diretor, me faltou coragem, nos meus primeiros espetáculos eu era diretor: Maracatu, se bem que eu não acho, que a palavra ideal não seria diretor, encenador seria uma palavra mais adequada. Mas, importante, eu fui encenador do Maracatu misterioso, mas depois até por uma opinião do Iago Sikorsk, meu produtor, ele achava que eu devia trabalhar em parceria com um diretor. Eu acho que foi muito bem vindo o conselho dele, tanto fiz com o Romero, O Brincante, com o Francisco Chiquinho Medeiros, O Reino meio-dia, mas depois eu vi, porque também essa parceria, como eu sou também criador dos trabalhos teatrais, às vezes tem um momento que fica meio difícil.

Matinas Suzuki: No seu caso nasce tudo junto, texto, interpretação, maneira de fazer?

Antonio Nóbrega: É, se bem que o texto, os próprios textos, são idéias que eu tenho e o Bráulio Tavares[1950. Compositor], na própria terminologia dele, ele psicografa [risos]. Pois bem, é uma parceria que tem dado muito certo. Mas eu vi também, mesmo com a experiência com esses diretores, eu vi que eu já podia tomar conta do que eu faço. E depois, eu estou caminhando mais para um trabalho de síntese, a partir da música. Na pancada do ganzá, para mim, é um divisor de águas muito forte. As pessoas me perguntam muito se eu volto a Brincante, Segundas histórias e eu não sei se eu não vou diluir nos meus próximos espetáculos musicais. É a forma que eu me sinto mais à vontade de fazer. Respondi essa e mais alguma coisa.

Ana Francisca Ponzio: Como seria essa tua companhia de dança, que você manifestou a intenção de ter, uma vez que você valoriza mais o trabalho do ator/intérprete do que o trabalho do diretor?

Antonio Nóbrega: Bem, primeiro que isso é um projeto, pelo menos, a médio prazo. Quando eu falo de dança também, eu acho que eu nunca consegui fazer um espetáculo puro de dança. Você veja, é muito difícil, pelo menos para mim, saber o movimento onde começa e onde termina. Se é dança ou se começa a ser teatro. Hoje, utilizando certos conceitos como tensão, às vezes a energia que eu uso para um salto é a mesma energia que público está parado aqui, eu ficar nessa posição [se contorce, fazendo uma careta]. Isso pode ser tanto, eu tenho fotografia de Nijinski [Vaslav Nijinski. 1890-1950. Bailarino e coreógrafo] fazendo Petruskha, que está fazendo isso aqui e tenho fotografia de ator de teatro fazendo isso aqui. É dança ou teatro? Eu acho que então a gente precisa rever esses conceitos. E, da mesma maneira, eu não queria criar um limite entre eles. Eu queria também, por exemplo, trabalhar com música ao vivo. Uma orquestra de tambores, por exemplo. Você veja a dança flamenga, é o que mais se aproxima o que eu gostaria de fazer com um grupo. Botar os músicos ali tocando, a emoção do momento. Os dançarinos estão dançando sob o influxo daquela voz, do cantaô e da cantaora. Mas eu queria utilizar mais coisas, mais cangapés [ou pirueta] [risos]. Não restringir. A poesia narrativa que a gente tem é muito bonita, os romances populares, eu acho que eles dão ensejo para coisas dessa natureza.

Marta Góes: Eu fiquei curiosa lendo sobre a sua apresentação em Lyon, que você se apresentou em francês. Então, eu queria saber como é que soou isso?

Antonio Nóbrega: Olha, o francês é a língua, eu estudei no marista e, antigamente não, porque aí é me envelhecer muito [risos], mas quando eu estudava, a segunda língua da gente era o francês, hoje é o inglês. Ecos do nosso francesismo, hoje é americanismo. E então eu sempre que estudei francês, sempre tive intimidade com a língua francesa. Na verdade o Fulgural só a segunda parte dele que eu uso texto. Eu já fiz, inclusive, em espanhol e minha meta é fazer em várias línguas, até chegar no sânscrito [risos], aí eu paro.

Helena Katz: Mas, no francês, até as picardias [astúcias] ficaram ótimas.

Alberto Guzik: A primeira vez que eu te vi foi na rua, na praça da República, fazendo o primeiro espetáculo em São Paulo, que foi Maracatu. De lá para cá, eu te vi em vários espaços, em vários lugares, em teatros maiores, menores. Você parece igualmente bem em todos. Existe algum que seja efetivamente o teu preferido. Qual é o espaço que você sente que o teu trabalho está completamente bem colocado? Você tem um projeto de rua ainda?

Antonio Nóbrega: Não, não tenho não. O melhor espaço é o teatro brincante [risos]. A rua, eu fugi um pouco da rua, porque na rua a gente fica muito vulnerável. Você está fazendo, de repente passava um motoqueiro, é de doer. E depois também tem as pessoas, um que chega, aí por injunções, ou porque não gostava ou porque alguém chama, passa, então isso tira um pouco a atenção. Fiz, mas não é o meu local ideal não. E ao mesmo tempo o teatro oficial, a própria configuração dele, às vezes, não se identifica muito com o espetáculo que eu fazia. Então, os próprios panos do espetáculo Brincante, o pessoal usa o cenário, é um só. É uma meia lua de panos velhos e acabou. Tudo o que eu fizer vai ser com aquilo. Já resolvi o problema da minha vida [risos]. Já resolvi o de personagem, agora resolvi o de cenário. É só mudar, agora uma peça vai entrar por aqui, outra por ali, mas isso é muito criador, porque isso me obriga a tirar vantagens daquilo que é tão pobre. Na Pancada do ganzá eu incorporei latas, para fazer a luz. Eu posso incorporar outras coisas. Então, no teatro, no Brincante, eu encontrei as condições, são dois galpões envelhecidos, arquibancada de cimentos, então tudo se identifica muito o espetáculo, então é por isso que eu me sinto bem lá.

Marta Góes: Aquele lugar é seu?

Antonio Nóbrega: É alugado. Eu e Rosângela.

Alberto Guzik: Falando do Brincante, é verdade que você já teve problemas com a vizinhança, que tem gente lá do bairro que não gosta muito da idéia de ter um teatro lá naquela região?

Antonio Nóbrega: Pode ter até pessoas, mas eu realmente queria até pedir desculpas, na verdade, é um senhor e uma senhora que moram, não sei se ela vai ver aqui, mas enfim, eu peço até desculpas publicamente por algum dano decibélico que tenhamos causado, mas nós já providenciamos então isolamento acústico.

Alberto Gazik: Era uma questão de isolamento acústico?

Antonio Nóbrega: Por exemplo, na Pancada no ganzá, tem um momento que a gente toca um maracatu, que a gente utiliza cinco tambores desse tamanho. Então, o negócio é para lascar, é barulhento. E o serviço acústico que nós fizemos numa sala não foi suficientemente forte para não permitir o vazamento. De maneira que para shows, para coisas dessa natureza, o teatro ainda não dá não. Por exemplo, agora houve a apresentação de Torturas de um coração e não ouvimos ninguém reclamar. Mas, nosso próximo projeto é fazer todo o isolamento acústico da área, o que nos obrigará a fazer, a propiciar também o sistema de ventilação. Então, nunca acaba [risos].

Ivana Diniz: Aliás, tem o projeto teatro-escola Brincante também, para retomar uma idéia que a Helena já citou, da Unicamp. Como é o desenvolvimento desse aprendizado?

Antonio Nóbrega: Eu tenho tentado, até juntamente com Rosane dar cursos de vez em quando, que eu chamo Curso da arte do brincante, mas as apresentações não permitem, quer dizer, eu não tenho condições, por exemplo, de seis meses agendar minha vida artística, seis meses agendar minha vida de professor por aí.

Alberto Guzik: Mas você tem essa vocação pedagógica, quer dizer, você gosta de fazer isso, você curte dar aulas?

Antonio Nóbrega: Não, eu gosto na medida de conhecer pessoas que venham, que se apaixonem por esse universo, que tenham a mesma paixão, aí eu gosto de trabalhar. Mas, para ensinar só o bê-á-bá, aí fica meio difícil. E trabalhar com poucas pessoas, aí eu gosto. Porque nós vamos descobrindo conjuntamente. Na questão da dança, por exemplo, o interlecutor da pessoa que queira dançar é fundamental, porque eu cheguei até aqui, mas na medida que eu tenho outras pessoas ao meu lado, nós vamos chegar mais adiante. Essas pessoas vão me mostrar coisas que eu não vejo e vão sair da bitola onde eu estou.

Helena Katz: Assim como lá no teatro Brincante você transforma aqueles panos da pobreza em riqueza, eu discordo de você. Eu acho que a dança brasileira faz isso. É porque a mídia, não dá para ela cobrir tudo que acontece de rico na dança brasileira. Uma porção de manifestações urbanas e não-urbanas estão sendo filtradas. Assim como tem uma Lia Rodrigues, no Rio de Janeiro, uma Marta Milhades, um Cena 11, em Florianópolis, uma Lenora Lobo, em Brasília, um Antonio Carlos, na Bahia, ou os paradigmas, Balé Spazio e Grupo Corpo, tem uma porção de coisas sendo processadas sim. Eu acho que a dança brasileira já está fazendo essa diversidade que, em outras áreas, especialmente o teatro, ele não está cobrindo não. Eu discordo de você.

Antonio Nóbrega: Está bom. Eu confesso que não tenho conhecimento de tudo que está. É uma excelente notícia, quer dizer, para mim, como acredito a maioria de nós, temos sempre notícias dos paradigmas. Não é verdade? Por exemplo, a Lia Rodrigues, eu não tive a oportunidade de ver. Soube que ela está fazendo um trabalho, inclusive, com coisas de Mário de Andrade. Mas, eu quero que fique bem claro, também, quer dizer, há um desconhecimento também, até do campo do teatro mesmo, do campo da música. Por exemplo, o que está se fazendo show? Hoje eu recebi, por exemplo, seis números de uma revista chamada Roda de choro. Uma coisa da maior importância, até partitura tem. Isso chega tão pouco à mídia. Eu estava até falando para os meus filhos, meu filho hoje que estuda música e para o amigo dele, veja esse material aqui, a música que chega para os jovens hoje é uma música com todos os cacoetes da música urbana, da música pop. Mas, há coisas muito importantes em relação à música brasileira que a gente não conhece, porque a mídia, infelizmente, não privilegia. Pelo menos a mídia mais ostensiva. Eu acho que realmente é uma falta mesmo.

Matinas Suzuki: Você falou aí em Mário de Andrade. Você podia falar um pouco desse seu interesse pelo Mário de Andrade?

Antonio Nóbrega: Eu conheci, eu tomei conhecimento da obra de Mário de Andrade, isso já há mais de 20 anos, principalmente através, primeiramente através do Turista, onde ele faz um relato das suas viagens através de 27/28, pelo nordeste do Brasil, onde ele fez o registro da cultura popular dessas regiões. E ele, então, deixou tudo anotado, quer dizer, é um desses pesquisadores que dominavam…

Matinas Suzuki: É, ele era um musicólogo.

Antonio Nóbrega: Um musicólogo, exatamente. E ele copiava de ouvir. E ele fez um registro de mais de 900 peças, toadas, cantigas populares, perdidas por aí. E eu acho essa obra um verdadeiro vademecum da música brasileira. E eu, então, não só aprendi cantos, como reconheci outros que eu já tinha encontrado nas minhas andanças. E depois sempre achei o nome muito bonito: Na pancada do ganzá, um nome que ele pensava dar a esse conjunto de peças que ele registrara. Então, há 15 anos, eu, ao ler isso, eu disse ainda vou fazer um espetáculo com esse nome, utilizando-me de algumas daquelas cantigas e de outras, porque existem cantigas tão bonitas desse universo…

Matinas Suzuki: Você podia mostrar uma que o Mário recolheu e que você canta, por exemplo?

[Antonio Nóbrega toma o violão e canta]

Matinas Suzuki: Você lembra de onde é essa?

Antonio Nóbrega: Essa cantiga faz parte da jornada da nau Catrineta. Chegança, barca, marajuda são nomes dessa peça. Naturalmente, quando eu apresento no espetáculo é recriado com violinos, mas eu procurei conservar a mesma melodia, o mesmo texto, que eu acho muito bonito, marinheiro, não embarquem, que o mar é traidor, o mar levou a minha amada, nunca mais ela vai voltar, é muito bonito isso, pelo menos para mim é muito bonito.

Ana Francisca Ponzio: Você comentou sobre a diversão dos espetáculos, do lado prazeroso, vamos dizer, de um espetáculo de dança. E eu lembrei que você já declarou também que a cultura brasileira tem um traço feminino muito forte e que isso deveria ser valorizado. Eu gostaria que você explicasse um pouco melhor essa observação.

Antonio Nóbrega: É que reconheço um traço que eu acho muito forte na cultura brasileira, às vezes eu uso esse conceito de masculino e feminino, mais como se contrapor ao outro, eu acho que a nossa cultura ocidental, eu acho que ela é, sobretudo, masculina, no sentido de que ela, por exemplo, voltando à dança clássica, ela é muito geométrica na sua forma, ela é muito cartesiana e a nossa cultura popular, por exemplo, o bailarino de formação clássica, veja uma coisa curiosa, a movimentação de perna é muito mais rica do que a movimentação do braço e torso e o tronco é a região mais expressiva, o rosto é a região mais expressiva que nós temos, muito mais do que as pernas. As pernas são a usina do movimento, enquanto que o nosso universo expressivo sai por aqui. Então, eu acho que, por exemplo, na nossa dança ocidental o diálogo entre masculino e feminino privilegia o masculino. Nas danças do Oriente, por exemplo, esse diálogo é muito mais intenso, é muito mais equilibrado. No flamengo, existe uma tensão muito grande entre o masculino e o feminino. Por exemplo, a dançarina ou o dançarino que está aqui com a posição rigorosa, bem máscula, peito para frente, mas ao mesmo tempo dissolvendo com as mãos ou batendo com os pés. Ou seja, o diálogo entre masculino e feminino entre ondulado e retilíneo é muito constante. Então, eu acho que o aporte que a gente tem na cultura popular é justamente o aporte do feminino, que a meu ver se caracteriza no campo da dança pelo ondulado, pelo fraseado mais rico. Na própria capoeira, existe uma distinção muito grande. Na capoeira, novamente, os mestres dividem: capoeira regional e capoeira angola. A regional é aquela mais porrada, mais alta, mais elevada, são as pernas que vão, a ginga é maior; enquanto na Angola não, é mais aqui, mais dançarina. Então, quer dizer, o próprio ser da nossa cultura, essa tensão é muito forte. Então eu acho que a outra forma de dizer, desocidentalizar a nossa dança, é tornar ela mais feminina. Mas, eu não gosto também de falar muito no feminino, porque acho que a gente tem que ter dois conceitos que, às vezes, são diferentes, que é o feminino e o efeminado, que não é a mesma coisa. Tem que haver essa distinção. É muito bonito o varão, o macho dançando. E, às vezes, quer dizer, há uma presença muito grande do efeminado na dança artística brasileira e é uma coisa que também, às vezes, eu me ressinto, eu acho que a gente precisa dar mais masculinidade ao homem brasileiro. Eu acho que esse processo, as duas tensões, às vezes, na dança clássica, em geral, fica mal resolvidos.

Ivana Diniz: Você uma vez deu uma definição interessante para esse tipo de dança, que ainda precisa encontrar o seu sotaque no exterior, ao contrário do que já aconteceu com a música e as artes plásticas. Você disse que era a dança do colonizado, do povo que capitulou, que foi vencido. Parece uma contraposição à idéia da dança do Ocidente. Agora, que dança seria, dessa idéia do povo que foi colonizado, que foi vencido?

Antonio Nóbrega: A dança do povo brasileiro, a dança do capoeira e do frevo é a dança de um extrato social que foi vencido, quer dizer, não é da classe dominante. É mais nesse sentido que eu falava. O velho conceito que eu me utilizo, do que Ariano já falou, do Brasil oficial e não-oficial, esses velhos conceitos. A dança, a arte oficial brasileira está mais identificada com a dança clássica, com o jazz, com a dança moderna, enquanto, a meu ver, a dança do Brasil real eu acho que se identifica mais com a dança popular e essa foi a dança trazida e permanece ainda, pelos colonizados. Não é a dança do colonizador. Nesse sentido que eu fazia.

Matinas Suzuki: Nós estamos virando o ano, quais são os seus projetos para 1997?

Alberto Guzik: Sai o filme?

Antonio Nóbrega: Eu acho que sai o filme, se bem que agora eu estou sigiloso em relação a ele, pois eu falo tanto, mas o roteiro está andando, a produção também já está firme.

Marta Góes: É a empresa do Cacá Diegues?

Antonio Nóbrega: O diretor? O que eu posso dizer apenas é que o filme não vai ser mais dirigido pelo Cacá Diegues.

Marta Góes: E vai ser por quem?

Antonio Nóbrega: Aí eu não digo, não [risos]. Aí eu não digo, sabe por quê? Porque foi um pacto que nós fizemos. Quando estiver mais próximo da realização do filme, então a gente divulga. Porque fica muito chato essa coisa da gente falar do filme sem ele estar a beira de ser rodado. Vamos fazer o filme, é uma idéia que nós temos, a história do Tonheta, mais para frente a gente fala. Tenho idéias também de fazer um outro espetáculo, um outro show. Mas acho que Na pancada do ganzá foi um espetáculo ainda tão pouco visto ainda no Brasil, praticamente ele foi visto no Rio, São Paulo, uma vez em Recife, de maneira que eu não queria ainda abortar Na pancadá do ganzá, porque, na verdade, eu estou com quatro espetáculos no repertório. O Brincante, Segundas histórias, Fulgural e o Na pancada do ganzá e fazer mais um quinto. Se o espetáculo agradou - Na pancada do ganzá - deixa ele rodar mais. Se ele der conta da minha vida toda.

Alberto Guzik: Até no Rio ele foi pouco visto?

Antonio Nóbrega: É, exatamente, foi pouco. Porque no teatro Brincante, é um teatro que permite muito poucas pessoas. E agora no fim do ano foram duas sessões no Cultura Artística.

Ivana Diniz: Mas tem um selo novo na praça também, o Brincante, qual é, Na pancada do ganzá?

Antonio Nóbrega: Não, o selo é Brincante, mas isso foi uma falta, como foi um disco, como eu digo, dependente [risos], então eu tinha que colocar o nome de um selo e o nome que eu coloquei foi o nome Brincante, que é o selo do meu teatro, o nome da minha filha.

Ivana Diniz: Mais discos em 97?

Antonio Nóbrega: Tem um disco infantil, nós participamos de um edital da Secretaria de Cultura e ganhamos um patrocínio para um projeto de arte e educação lá no Brincante. E, dentro desse projeto, está a edição de um disco infantil, com cantigas populares. Esse é um disco também dependente.

Paulo Autran: Há uma lenda, quase no Brasil inteiro, de que o paulista é sério, só pensa em trabalhar, é pouco comunicativo. O que você me diz a respeito dessa lenda, pensando no final do seu espetáculo, Na pancada do ganzá, que eu assisti no Teatro Cultura Artística, com o auditório praticamente lotado, e que a platéia inteira saiu dançando em volta da sala do espetáculo com você puxando?

Antonio Nóbrega: Realmente, essa visão que até eu tinha, o Na pancada do ganzá parece dissolver. Eu não sei também, quer dizer, na verdade, por exemplo, existe o público do Rio, existe o público de São Paulo, existe o público de Recife e eu encontro realmente uma gradação para o calor do carioca e o calor do paulista. E o carioca, sem dúvida, ele é mais caloroso [risos]. Essa maneira como recebe os meus espetáculos. Em São Paulo, quer dizer, eu acho que o problema de São Paulo, para mim, é o seguinte: é eu conseguir levar as pessoas. Depois que eu conseguir levar as pessoas […] Então, esse momento, você veja, eu tenho 13 anos de São Paulo e não foi fácil, não. Com três anos de atividade no Rio, eu conquistei o Rio muito mais facilmente. Quer dizer, tem um reconhecimento popular lá muito maior do que em São Paulo.

Alberto Guzik: Mas isso não se deve a esse preconceito, embora o Matinas tenha dito que São Paulo é uma cidade nordestina? Isso não se deve contra o grande preconceito contra nordestinos que há em São Paulo?

Antonio Nóbrega: Será?

Alberto Guzik: E que a gente sente em tantas camadas, de tantas formas?

Antonio Nóbrega: É, que sem dúvida existe. Mas, o que eu acho do Rio é que o Rio é mais aberto a tudo. Não só ao que vem dele mesmo, como ao que vem de fora. Não é à toa que Hollywood, Hollywood Rock, sei lá, é no Rio, então, quer dizer, ele abraça tanto, quando eu saí do Recife, eu pensei, eu disse vou para o Rio ou vou para São Paulo? Aí eu observei o seguinte, que o meu temperamento era um temperamento mais, no dia a dia, mais do quieto, mais do disciplinado, me dava um pouco, me inquietava um pouco o espírito muito aberto do carioca, muito festivo, muito oba, oba. Aí resolvi vir para São Paulo. Eu, hoje, me desculpem os paulistas [risos]. Eu estou gastando muito tempo aqui da minha vida, agora tenho um teatro, não posso sair mais daqui, já tenho uma base, mas…

Alberto Guzik: Mas você ainda tem suas dúvidas?

Antonio Nóbrega: É, eu tenho minhas dúvidas. Mas eu sempre notei isso, o carioca sempre é mais caloroso. Agora, também, eu não sei se na maneira que ele abraça, com tanto calor, se isso não é menos consistente, não sei.

Matinas Suzuki: Nóbrega, infelizmente nós estamos chegando ao final desse Roda Viva. Eu gostaria de pedir para você se a gente poderia encerrar com você tocando alguma coisa para os nossos telespectadores? Enquanto ele pega a viola, eu gostaria de agradecer muito a presença dos nossos entrevistadores, que foi de excelente nível, agradecer demais ao Antonio Nóbrega por essa aula de cultura brasileira, que é necessária que a gente tenha de vez em quando, gostaria muito de agradecer - esse é o último Roda Viva de 1996 - agradecer a sua atenção e a sua participação durante esse ano e eu gostaria de fazer um agradecimento especial ao pessoal que trabalha na produção do Roda Viva, aos técnicos que trabalham no Roda Viva, porque foi um ano muito difícil para a TV Cultura, se empenharam ao máximo para que esse programa pudesse ter uma boa qualidade para chegar a vocês. Eu lembro a vocês que o Roda Viva volta na próxima segunda-feira, às dez e meia da noite. Até lá, uma boa noite para todos e um feliz 97! E vamos de Antonio Nóbrega.

Antonio Nóbrega: Eu, infelizmente, não pude mostrar o som da minha rabequinha, vou mostrar aqui uma cantiga do grande Capiba, madeira do rosarinho, madeira que o cupim não rói [começa a cantar]

Portal Roda Viva
http://rodaviva.fapesp.br/?

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