Arquivo de 6 de Janeiro de 2008

Vladimir ‘Super-Homem’ Putin conduz os amigos à vitória

Uwe Klussmann

O partido Rússia Unida de Vladimir Putin obteve uma vitória esmagadora no domingo (2). O resultado causa pouca surpresa dada quantidade de poder e controle que o presidente possui. Mas o que acontecerá a seguir?

O presidente prometeu que manteria o espírito esportivo. Queria sair vencedor de uma “disputa honesta”, disse Vladimir Putin aos representantes de seu partido Rússia Unida em 1º de outubro. O aplauso foi longo e forte; o partido então escolheu Putin como seu principal candidato para as eleições parlamentares. Duas semanas depois, foram concedidas a Putin três horas de tempo em ambos os canais de televisão estatais —os outros candidatos não foram vistos em parte alguma.

A propaganda na TV foi disfarçada como uma oportunidade para os cidadãos telefonarem e fazerem perguntas diretamente ao chefe de Estado. Mas nas províncias, os simpatizantes de Putin tiraram suas luvas: governadores nomeados pelo presidente ordenaram que seus vices cuidassem para que os resultados fossem do agrado do Kremlin. Em empresas, universidades e quartéis militares, os chefes pressionavam seus subalternos a “votarem corretamente”. Como se não bastasse, o político de oposição Garry Kasparov foi detido e preso por cinco dias pouco antes dos russos irem às urnas.

Sem causar surpresa, Putin obteve os resultados que queria. Com 98% das urnas apuradas, o Rússia Unida conseguiu uma vitória esmagadora com 64,1% dos votos. O partido pró-Kremlin Só Rússia recebeu 7,6% e o nacionalista Partido Liberal Democrático, liderado por Vladimir Zhirinovsky, que também apóia Putin, obteve 8,2% —o que significa que o campo de Putin obteve quase 80% de apoio no domingo.

Até mesmo a oposição é leal

Enquanto isso, os partidos de oposição fracassaram miseravelmente. O Yabloko e SPS, ambos partidos liberais, mal conseguiram obter mais que 1% dos votos e não contarão com representantes na Duma, o parlamento russo. De fato, o único partido semi-independente a superar a barreira de 7% —o resultado que os partidos precisam obter para enviar representantes à Duma— foram os comunistas. Mas mesmo eles freqüentemente se mostram leais a Putin, particularmente quando se trata de política externa.

O voto a favor de Putin foi particularmente forte na Tchetchênia e Inguchétia. O comparecimento dos eleitores de 99% e 98% respectivamente aponta para uma retomada das práticas de manipulação soviéticas. Ninguém na Rússia acredita que Putin e seu partido sejam mais populares nas aldeias empobrecidas do Cáucaso, que sofrem com elevado desemprego.

De fato, muitos parecem achar que o Kremlin pode ter exagerado as coisas.
Não é apenas a oposição que não está impressionada. O desconforto com as eleições é evidente em amplas partes da sociedade russa, incluindo até mesmo as forças de segurança russas. A maioria esmagadora dos russos, que uma pesquisa colocava em 69%, suspeitava mesmo antes da eleição que os resultados seriam manipulados. Em uma pesquisa pelo Instituto Levada de Moscou, 94% dos entrevistados disseram “não ter nenhuma influência” nas políticas de seu país.

Desdém pelo Ocidente

Ao mesmo tempo, as pesquisas mostram que cerca de um terço dos russos considera o sistema soviético melhor do que a democracia ocidental. A pobreza e caos que caracterizaram grande parte dos anos 90 levaram a um severo ceticismo em relação ao pluralismo político no país. Muitos foram humilhados pela forma como políticos amigos dos Estados Unidos deixaram o país à mercê do Fundo Monetário Internacional.

O caos apoiado pelo Ocidente nas fronteiras russas, particularmente na Ucrânia e na Geórgia, levou muitos a questionarem ainda mais o conselho estrangeiro. Quando Putin aponta para a expedição infeliz de Bush em Bagdá e anuncia que os russos não precisam de “democracia como no Iraque”, ele pode contar com imensa aprovação.

Mas o desdém russo pelo Ocidente esconde um dilema doméstico. O Rússia Unida, que mal possui diretórios locais ativos, só conseguiu mobilizar uma fração de seus 1,7 milhão de membros. Há relatos de que as organizações partidárias regionais usaram quantias imensas de dinheiro público e funcionários públicos para compensar as fraquezas do “partido dos poderosos”.

O Rússia Unida portanto degenerou —agora mais do que nunca— em um instrumento para os líderes regionais. O resultado eleitoral de domingo é, acima de tudo, uma carta branca para os burocratas de todos as esferas.

Putin reconheceu durante a campanha que “todo tipo de desonestos” estavam se agarrando ao partido que agora celebra um triunfo sem precedente na Rússia.

‘Putin sempre está certo’

O partido viu seus melhores resultados em lugares onde o Rússia Unida é chefiado por figuras questionáveis acusadas de corrupção e clientelismo —ou com imagens manchadas por banditismo e crime, como na Tchetchênia. O desejo expresso por Putin poucos dias antes da eleição —de que a vitória deveria ser “esmagadora”— só pôde ser entendido pelos líderes provinciais inescrupulosos como um pedido pelo resultado máximo possível para o Rússia Unida, por quaisquer meios necessários.

Putin estabeleceu as condições para esta vitória de forma deliberada e disciplinada. Ele sabia o que estava fazendo quando nomeou Vladimir Churov presidente da Comissão Eleitoral Central em março passado. Churov é um parlamentar do populista Partido Liberal Democrático de direita de Vladimir Zhirinovsky. Mas o homem há muito deixou claro que “a primeira lei de Churov” é que “Putin sempre está certo”.

Em uma manifestação em São Petersburgo há dois anos, Churov elogiou um livro chamado Ruhnama (”O Livro da Alma”), de autoria do agora falecido ditador do Turcomenistão, Turkmenbashi, que segundo todos os relatos era um déspota paranóico. Churov elogiou a obra como “quente e clara, como o sol de outono do Turcomenistão”. O futuro chefe eleitoral russo disse que seria “útil para muitos povos e países ter um livro como o ‘Ruhnama’”. Putin podia ter certeza de que um homem como Churov seria capaz de organizar resultados eleitorais apropriados para o Rússia Unida.

Vida imaginária

O atual sistema de poder na Rússia já foi descrito em detalhes meticulosos por uma escritora alemã. A vida das instituições públicas, na análise dela, tinha se tornado “uma vida imaginária, na qual as burocracias se tornaram sozinhas o elemento ativo”. De vez em quando “manifestações eram organizadas para permitir às multidões aplaudir os discursos de seu líder, e aprovar certas resoluções com voz única —em outras palavras, um sistema de panelinha”. Rosa Luxemburgo escreveu isto em 1918, observando o frágil governo alemão após a Primeira Guerra Mundial.

Após o colapso da União Soviética em 1991, as burocracias russas tiveram de, gradualmente, se reinventarem. Putin se tornou seu protetor, apesar de sua campanha pública contra “burocratas corruptos”. O que isso realmente queria dizer é demonstrado pelo fato de que após oito anos de presidência de Putin, nenhum dos milhares de burocratas do Kremlin foi acusado de corrupção —apesar de envolvimento de muitos em negócios obscuros. Mesmo nas agências de inteligência russas, um clichê sugestivo se tornou corrente —”o peixe apodrece a partir da cabeça”.

As eleições da Duma, basicamente um plebiscito para Putin, fortaleceram um partido que, apesar do forte controle do poder, é apenas um reflexo pálido do todo-poderoso Partido Comunista da União Soviética. Algo que o dissidente russo Andrei Amalrik escreveu em 1969 sobre a burocracia soviética também se aplica à composição do Rússia Unida. Segundo Amalrik, um tipo de processo negativo de seleção ocorreu na elite burocrática: os corajosos e independentes foram excluídos em prol dos fracos e indecisos. Um bom exemplo da atual geração de autoridades é fornecido pelo presidente da Duma e líder do Rússia Unida, Boris Gryzlov, um obediente seguidor de ordens que carece de qualquer idéia própria. Permanece um mistério como exatamente Putin pretende conseguir seu avanço prometido para uma economia inovadora de alta tecnologia com tal equipe.

De tal sistema de poder só se pode esperar uma lealdade limitada, mesmo daqueles responsáveis pela segurança do Estado. Além disso, a base de poder de Putin consiste de um grupo muito pequeno de autoridades, das quais uma grande parte costumava trabalhar na prefeitura de São Petersburgo e eram membros ativos da mesma associação dacha de Putin. Mesmo em tempos soviéticos, tal estreitamento da base de poder era impensável.

Disputas de poder impiedosas

Nem mesmo Stalin teria se cercado de velhos companheiros de seu lar no Cáucaso. O sistema de Putin é portanto muito mais vulnerável do que o sistema soviético era durante seu auge. Apesar de enorme popularidade de Putin, clãs rivais estão se preparando para disputas de poder impiedosas.

Pouco antes da eleição, um vice-ministro das finanças foi detido em meio a acusações de que tinha desviado US$ 43 milhões. O ministro das Finanças, Alexei Kudrin, um confidente de Putin, interveio em prol do detido e o proclamou inocente. O chefe da agência de controle de drogas, Viktor Cherkesov, perdeu um de seus generais por dois meses —ele estava na detenção aguardando julgamento. Cherkesov, um associado de Putin dos tempos dele na KGB, alega que o general preso é vítima de uma armação. O serviço secreto doméstico, FSB, organizou as prisões em ambos os casos.

Até a noite da eleição, Putin permaneceu em silêncio sobre o cargo que gostaria de assumir após sua vitória eleitoral. Seu mandato como presidente terminará em maio de 2008 —e a incerteza já está crescendo. Aqueles com força política ao redor de Putin já começaram uma disputa aberta e irrestrita pelo poder, dinheiro e influência. A elite corrupta de Moscou está nervosa.

Clãs ávidos por poder, completamente livres de inibição, estão iniciando rixas perigosas. Razão e disposição de chegar a um meio-termo são dois atributos que faltam entre os poderosos de Moscou.

Neste sentido, a “estabilidade” e “manutenção do curso político” que os propagandistas de Putin alardeiam poderiam ser perdidos antes que a neve no telhado do Kremlin tenha a chance de derreter.

Der Spiegel
http://www.spiegel.de/

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O Torquemada caipira da Guerra Fria

Há cem anos nascia Joseph McCarthy, maior caçador de bruxas comunistas dos tempos modernos

Sérgio Augusto

Quando Joe Raymond nasceu, em 14 (ou 15, segundo outras fontes) de novembro de 1908, numa fazenda do interior do Wisconsin, Egbert Roscoe Murrow acabara de completar 7 meses de idade, também na roça, só que da Carolina do Norte. Seus destinos se cruzariam algumas décadas mais tarde, não na 2ª Guerra Mundial, de que Joe participou como fuzileiro naval e Egbert como jornalista radiofônico, mas em outra, desenrolada nos EUA, diante das câmeras de TV dos anos 1950. Nessa, Joe era o vilão, um Mussolini caipira, e Egbert, rebatizado Edward, o mocinho que nunca deixou de ser em nenhuma frente. Como na outra guerra, o bem afinal triunfou sobre o mal. Joe, portanto, perdeu.
Num ano rico em centenários ilustres como 2008 (faz cem anos que Machado de Assis morreu e cem que Simone de Beauvoir, Guimarães Rosa, Cartola, Merleau-Ponty, Lévi-Strauss, Jacques Tati e Cartier-Bresson nasceram), um, em particular, me chamou a atenção: os cem anos do macarthismo; vale dizer, o centenário da mais célebre e encarniçada caça às bruxas dos tempos modernos.
Ora, direis, que me equivoco redondamente, que a laica inquisição da Guerra Fria que teve o senador Joseph (Joe Raymond) McCarthy como padroeiro e Torquemada-mor poderia estar fazendo, no máximo, 91 anos, caso a balizássemos pelas primeiras perseguições aos movimentos de esquerda pelas forças repressoras do governo americano. Ou 70 anos, pois foi em 1938 que o Comitê de Investigação de Atividades Antiamericanas (Huac, na sigla em inglês) iniciou, com outro nome, suas atividades. Ou, então, 61 anos, considerando-se que o Huac acendeu suas primeiras fogueiras em Hollywood a partir de 1947.
Menos discutível seria a conta que adiaria para daqui a 25 meses o cinqüentenário do macarthismo, efetivamente deslanchado em 9 de fevereiro de 1950, quando, no clube das mulheres republicanas de Wheeling (Virgínia Ocidental), McCarthy fez seu histórico discurso sobre a infiltração comunista na América, afirmando trazer no bolso uma lista com 205 subversivos empregados no Departamento de Estado. Por conta dessa leviana bravata (a lista nunca existiu) é que a expressão mccarthyism foi criada pelo cartunista Herblock, do Washington Post, em 29 de março daquele ano.
Se abandonarmos o campo da história tradicional, aquela que nos ensinou que a Revolução Francesa estourou em 1789, a Soviética em 1917, a 2ª Guerra Mundial em 1939 e a nossa Revolução de 30 em 1930, descobriremos outros marcos para os eventos citados: datas heterodoxas, mas nem por isso menos dignas de crédito. Ou melhor, tão respeitáveis quanto a que estabeleceu que o século 20 não começou em 1900, nem sequer em 1901, mas em 1914, quando a 1ª Guerra Mundial sepultou de vez o século 19.
Se existe a história contrafactual e suas questionáveis fantasias, por que não tolerar a existência da história parafactual? Parafactual, procrônica, ou que nome mais adequado lhe possa ser dado. Uma coisa é imaginar o que teria acontecido ao mundo se Adolf Hitler tivesse seguido uma frutuosa carreira de artista plástico; outra é deslocar para 1889 o nascimento do nazismo, já que foi naquele ano que seu pai ideológico veio ao mundo.
A Revolução Francesa foi, como todas as revoluções, uma soma de vários fatores e acontecimentos, mas também fruto do rumo que tomaram as vidas de seus três principais líderes. O que nos permite estimar que a Bastilha começou a ruir não em 1789, mas entre 1743 (quando nasceu Marat) e 1759 (quando Danton, um ano mais novo que Robespierre, saiu do ventre de sua mãe). Nesse período também nasceram Luís XVI e Maria Antonieta. Mas quem quiser retroceder a ascensão da burguesia e dos ideais iluministas até 1689, quando nasceu Montesquieu, tudo bem.
Por igual perspectiva, a Revolução Soviética de 1917 teria germinado entre 1868 (quando a imperatriz Maria deu à luz Nicolai Aleksandrovitch Romanov, o último dos czares) e 1870 (quando Vladimir Ilitch Lenin levou seu primeiro tapa no traseiro); e a de 1930, quase 50 anos antes, pois Getúlio Vargas e seu adversário político Júlio Prestes nasceram, respectivamente, em 1883 e 1882.
Mas voltemos ao centenário do macarthismo. Além de Joe McCarthy e Edward R. Murrow (que desmascarou o demagógico senador em seu programa de TV levado ao ar pela CBS em 9 de março de 1954 e recriado recentemente na tela no filme Boa Noite, Boa Sorte), outras 12 personalidades envolvidas na caça às bruxas nasceram em 1908. Coincidência ou fatalidade, foi um recorde, nem de perto acossado por outro ano.
Por ordem de entrada em cena: a espiã Elizabeth Bentley (nascida no primeiro dia de 1908); o ator Lionel Stander; o físico nuclear Edward Teller; o romancista, roteirista, produtor e diretor de cinema Philip Dunne; o roteirista e diretor Robert Rossen; o roteirista Leo Townsend; os atores Paul Stewart e Jack Gilford; o escritor e roteirista A.I. Bezzerides; o cineasta Edward Dmytryk; o contista e roteirista Albert Maltz; a formidável jornalista (e terceira mulher de Hemingway) Martha Gellhorn. Por questão de poucos dias o ator José Ferrer e o cineasta Joseph Losey, ambos da primeira quinzena de janeiro de 1909, não ampliaram o recorde de 1908.
Apenas dois eram adventícios: o húngaro Teller e o greco-armênio Bezzerides. Teller, uma das inspirações do Dr. Strangelove criado por Stanley Kubrick, assenhorou-se da paternidade da bomba de hidrogênio depois de dedurar o colega Robert Oppenheimer. Bezzerides escreveu os roteiros de vários filmes de ação da Warner, supostamente contaminados por mensagens engajadas. Parceiro de William Faulkner, Jules Dassin e Nicholas Ray, assegurou sua presença na história do filme noir com o script do apocalíptico A Morte num Beijo (Kiss me Deadly), dirigido por Robert Aldrich em 1955.
Dunne, nova-iorquino de formação católica e liberal, pagou caro por suas atividades sindicalistas (foi um dos fundadores da associação dos roteiristas de Hollywood) e pela pronta defesa que montou, com John Huston e William Wyler, contra o assédio do Huac aos estúdios em 1947. Escreveu a quatro mãos o roteiro do épico bíblico O Manto Sagrado (1953), mas seu parceiro, Albert Maltz, em pior situação (como um dos “Dez de Hollywood”, fora preso e proibido de trabalhar), acabou banido dos créditos - como acontecera em três outros filmes, um dos quais, Flechas de Fogo (1951), cujo premiado script só em 1997 deixou de ser atribuído exclusivamente a seu testa-de-ferro, Michael Blankort. Fazia então 12 anos que Maltz havia morrido.
Dmytryk, outro dos “Dez de Hollywood”, afinal bateu com a língua nos dentes (entregou Maltz e mais 25 ex-membros do Partido Comunista em atividade na indústria cinematográfica), atitude que também manchou a reputação da espiã Bentley e de Rossen, para ficarmos só entre os nascidos em 1908. Apesar dos pesares, dois sobreviventes da caça às bruxas quase emplacaram 100 anos, e pelo menos outros seis chegaram aos 80. Quem menos durou foi justamente McCarthy, aniquilado por uma hepatite alcoólica aos 48 anos. Convenhamos, a vida não é tão injusta assim.

Estado de S. Paulo

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Outros estados do ser

Ferreira Gullar

A narrativa deixou-me tão impressionado que sonhei com a guerra das formigas

QUANDO MENINO , via, pelas ruas de São Luís, alguns personagens extravagantes ou estranhos, de que achava graça. Um deles era um cara de quase 30 anos, magro, que andava vestido com o uniforme do Ginásio São Luís, onde estudavam os jovens de famílias de mais grana. De quépi e botões dourados, um talabarte sobre o dólman amarfanhado, sobraçava uma bolsa escolar, rasgada, cheia de livros. Ele se inventava estudante por razões que jamais saberei. E ficava enfurecido quando os moleques troçavam dele. Não me dava conta do seu tormento e de nossa crueldade, ao tentar destruir a ilusão que ele criara para si.
Um dia apareceu, na quitanda de meu pai, um rapaz que pouco falava e não sorria nunca. Mas, certa tarde, quando estava sozinho tomando conta da venda enquanto meu pai dera um pulo em casa, o rapaz se aproximou de mim e começou a contar a história fascinante da guerra das formigas. Segundo ele, ali perto, no matagal que marginava o Campo do Ourique, assistira certo domingo a um combate entre as formigas negras e as vermelhas, travada sob as folhas do mato burro: os dois exércitos, providos de armaduras metálicas, escudos e lanças, sob o toque de clarins, travavam fragorosa batalha que atravessava os dias e as noites. A narrativa do moço deixou-me tão impressionado que, naquela noite, sonhei com a guerra das formigas.
Depois disso ele sumiu da quitanda. Perguntei por ele a seu pai, que era freguês nosso, e a resposta que obtive foi vaga. Só entendi por que, quando, ao passar de bonde pelo hospício que ficava próximo ao Areal, o vi debruçado na amurada, com um estranho brilho no olhar.
-Ele é maluco! surpreendi-me, mesmo porque nenhum contador de histórias me havia fascinado tanto quanto ele. Verdadeira ou não, tendo ou não acontecido no matagal do Campo do Ourique, aquela guerra das formigas tornou-se parte de meu mundo. Não obstante, a impressão doída que vi no olhar dele, ali, junto à amurada do hospício, me deixou ferido. E pela primeira vez perguntei-me o que era aquela coisa assustadora chamada loucura.
Resposta mesmo a essa pergunta nunca encontrei mas, no Rio, depois de conhecer Mário Pedrosa e Nise da Silveira, passei a vê-la de outro modo, de um modo parecido ao que me revelara a guerra minúscula das formigas sob o matagal, aliás, a extraordinária invenção daquele moço na quitanda de meu pai.
Mais tarde, descobriria, na revista “Fontaine”, na Biblioteca Nacional, os poemas de Antonin Artaud, que me revelaram uma outra dimensão da vida ou, como ele mesmo afirmou, “os inumeráveis estados do ser”.
Pelas mãos de Pedrosa e Nise, desci aos abismos deslumbrantes que me arrastavam para dentro das telas de Emygdio de Barros, de Fernando Diniz, de Rafael, de Isaac, os gênios revelados nos ateliês da pintura do Museu de Imagens do Inconsciente. Ali conheci Almir Mavignier, entusiasta das criações daqueles artistas anônimos. Deve-se a ele, de certo modo, a descoberta da genialidade de Emygdio, até então simples maluco que há 25 anos não dizia uma palavra sequer. Mas também à coragem intelectual de Nise da Silveira, que soube enfrentar e vencer todos os preconceitos que se interpunham a seu trabalho pioneiro no campo da psiquiatria. Graças a ela -que sempre contou com o apoio de Mário Pedrosa- as obras daqueles artistas se incorporaram ao patrimônio artístico nacional, como algumas de suas mais extraordinárias manifestações.
Não há a menor dúvida de que, depois de conhecer as obras daqueles artistas, alguma coisa mudou em mim. A densidade psíquica da pintura de Emygdio, assim como o espaço-outro surgido do mundo gráfico de Rafael, são parte do que sou, do meu eu profundo, do mesmo modo que estes versos, de um paciente de Nise, que se assinou apenas José D, e que dizem:

“Os grilos desmaiaram de madrugada
de tanto acalentar a noite.
O dia é para eles uma eternidade
no abismo neutro das ervas.
De tarde, com um palmo de sol,
as crianças foram ao rio se banhar
e uma delas se afogou.
Quando os homens procuravam o cadáver,
um menino gritou, com os olhos luzindo:
“Vocês não acham o afogado.
Saiu voando pelas águas
com uma asa branca e outra azul”.

Bresser Perereira Website
http://www.bresserpereira.org.br/

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‘O patriarcado não voltará’

Göran Therborn: Catedrático de sociologia da Universidade de Cambridge
Nem com exortações do papa à família tradicional, nem com investidas islâmicas, aposta sociólogo

Pedro Doria

Foram inúmeras as vezes em que Bento XVI, em seus quase três anos de papado, alertou para uma crise de valores familiares que tocaria especialmente a Europa. Fez isso de novo esta semana, durante a oração do Ângelus, na Praça de São Pedro. No Irã, no Afeganistão, em todo o Oriente Médio, islâmicos radicais acusam o Ocidente de viver um processo de degradação moral, que leva à dissolução dos lares. Afinal, o que acontece com a família nessa parte do mundo onde existe a liberdade dos costumes? Tudo “culpa” da revolução sexual dos anos 60?
Para o sueco Göran Therborn, professor de Sociologia da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, a nova ordem familiar no Ocidente foi determinada por um fator para o qual pouco se atina. “Tudo começou no momento em que as mulheres receberam educação superior”, diz o autor de Sexo e Poder (Editora Contexto, 2006) considerado pelo historiador Eric Hobsbawn um dos livros mais importantes publicados nos últimos 30 anos. E é nele que Therborn crava: o patriarcado não voltará jamais, o que certamente contraria apostas de ultraconservadores dos diferentes credos.
Therborn admite que a crise familiar existe, mas não é só de valores. Prefere creditá-la a uma mistura complexa que envolve pobreza, carência educacional e o novo patamar das ambições. No meio urbano, pais com baixa escolaridade estão ausentes de casa - e sua ausência cria filhos mal integrados à sociedade. Na outra ponta, jovens adultos da classe média, no auge da vida reprodutiva, investem o que podem em educação e carreira para só então pensar em filhos - quando já é tarde demais para ter mais que um. A taxa de natalidade cai em muitas partes, também em conseqüência dos papéis ativos que as mulheres assumem na sociedade. Mas esse é um processo irreversível, alerta Therborn. “A emancipação feminina já está chegando ao mundo islâmico”, declarou ao longo desta entrevista para o Aliás, em sua passagem por São Paulo.
O que já ficou sedimentado da revolução sexual dos anos 60?
Houve uma mudança no comportamento sexual, mas a revolução é muito mais ampla e abrangente. Sua principal causadora foi o aumento do número de mulheres recebendo educação superior, o que, por sua vez, resultou em mais mulheres trabalhando como professoras universitárias, mais pesquisadoras, mais estudos feministas. É um processo que tem início na “desindustrialização” de vários países.
Desindustrialização?
Coincidiu com a passagem de uma economia baseada na indústria para uma de serviços. O processo de consolidação da Revolução Industrial cimentou a família patriarcal clássica, de camponeses. A família patriarcal burguesa manteve o homem como ganhador do pão. Esse processo foi fragilizado pela onda de educação superior após a Segunda Guerra Mundial para jovens mulheres. É quando acontece a mudança crucial.
A revolução sexual seguiu o mesmo padrão nos vários lugares em que aconteceu?
Não. Em países como o Japão, ela se deu de forma mais controlada e discreta. O número de crianças nascidas fora do casamento civil e o índice de divórcios são baixos lá. A iniciação sexual também ocorre muito depois do que é padrão na América do Norte e Europa. Isso se repete em todas as grandes cidades asiáticas, como Taipé, Hong Kong ou Xangai. Em boa parte da Ásia e na África, a sociedade patriarcal se mantém e o motivo é que não houve ainda um número maciço de mulheres com educação superior cobrando igualdade de direitos. É uma combinação de história, instituições e educação. Precisamos pensar nesses três elementos. Na classe média urbana da Índia, hoje, a norma ainda é que os pais escolham os maridos das filhas. Lá existe um mercado de casamentos bastante sofisticado. O casamento é uma commodity, coisa que nos EUA ou na Europa seria considerada vulgar. É claro que existem casamentos envolvendo interesses financeiros nas Américas ou na Europa, mas de forma diferente.
Como funciona o mercado matrimonial indiano?
Assim como acontece na Europa e nos EUA, é comum na Índia a publicação, nos classificados de jornais, de anúncios buscando parceiros. A primeira diferença é que, lá, os textos não vêm em primeira pessoa. Não vêm na linha “sou desse jeito, meu cabelo é de tal cor, tenho interesses tais”. Na Índia, os anúncios são do tipo “temos uma filha em idade para casar, sua pele é clara”. Os anúncios, então, continuam: “Estamos procurando um rapaz educado preferencialmente no exterior”. A questão fundamental é que, mesmo em comunidades urbanas de classe média, na Ásia, as relações familiares são bem diferentes. Tenho certeza de que os anúncios de busca de parceiros publicados pela imprensa brasileira não são assim. Devem ser mais parecidos com os europeus e americanos.
A instabilidade no casamento, no Ocidente, é sinal de uma sociedade com problemas?
Vamos por partes. Quando o índice de natalidade europeu começou a cair pela primeira vez, isso ocorreu porque os casais assumiram o planejamento das próprias vidas e passaram a determinar quantos filhos queriam ter. Isso começou já no fim do século 19. O que acontece agora é diferente. As pesquisas mostram que muitas mulheres têm menos filhos do que gostariam. Seu ideal em quase todo o continente seriam dois, mas acabam tendo apenas um. O que faz isso acontecer é um novo set de prioridades. Primeiro, você quer uma boa educação formal, e isso toma tempo. Depois, você quer estabelecer uma carreira. Em terceiro lugar, você quer comprar um apartamento. Só aí procura um parceiro. Quando tudo acontece, provavelmente já é tarde demais para ter dois filhos. O índice de fertilidade entre humanos cai drasticamente após os 30 anos.
Isso inclui filhos fora do casamento civil?
Sim, mas não são filhos acidentais. São filhos vindos também de relações informais.
Quando abrimos mão de rituais, sejam civis ou religiosos, isso causa algum impacto?
Certamente. Casamentos formais são mais estáveis que os arranjos de coabitação. É por isso que as pessoas escolhem coabitar, não é? Porque não têm certeza de que dará certo.
De onde vem a instabilidade?
O que acontece é que as pessoas estão exigentes, têm mais expectativas num casamento. Não toleram idiossincrasias do parceiro que a geração de meus pais, por exemplo, tolerava. Isso tem um impacto considerável nas crianças.
Como resolver? Será preciso uma nova revolução sexual?
Jamais retornaremos à estrutura patriarcal. O que acontecerá é que os índices de divórcios vão subir e descer. Nos EUA, eles estão caindo bastante, desde que atingiram um pico no início dos anos 1990. É importante nos lembrarmos que não é apenas a maneira como as pessoas encaram relações íntimas que aumenta o número de divórcios. Também há influências sociais e econômicas.
O papa Bento XVI aponta uma crise familiar que, para ser solucionada, exige um retorno a certos valores. Ele tem razão?
A Igreja católica deveria ser cautelosa antes de se manifestar a respeito de relações familiares porque seus representantes abrem mão de ter família. Não sabem como é. Agora, certamente há problemas. Existe o efeito de toda essa instabilidade sobre as crianças. Houve alguma negligência por parte dos movimentos feministas dos anos 1970 e 1980 nessa área, quando puseram toda a ênfase na liberação da mulher. Na Grã Bretanha, onde se verifica a menor presença dos pais no cotidiano das crianças em toda a Europa, sentem-se os efeitos mais sérios, personificados em jovens violentos, mal ajustados à sociedade. Novamente, eis a influência social e econômica, já que a ausência dos pais é mais evidente entre os mais pobres e menos educados. Esse é um padrão repetido em todo o mundo. Na comunidade negra, nos EUA, encontramos a mesma pobreza, a mesma ausência dos pais, assim como a violência entre jovens. É importante apontar que esse conjunto de fatores nem sempre gera violência, mas leva a um comportamento errático. Uma hora o jovem é afetuoso, no momento seguinte, agressivo. Essa é a verdadeira crise familiar: relações interpessoais inseguras, num clima de privação econômica.
Radicais islâmicos denunciam a “decadência sexual” do Ocidente e a apontam como uma das causas de conflito entre as culturas. Diferença cultural gera conflito?
Não creio. Existem sistemas familiares diferentes no mundo e esses contrastes sempre existiram. A emancipação feminina nos países muçulmanos se dará de forma diferente da que tomou na Europa ou nas Américas. Precisamos nos lembrar, sempre, que essas mudanças são recentes. Hoje, no sul da Alemanha, há uma lei estabelecendo que famílias de imigrantes devem reconhecer a igualdade entre os sexos sob ameaça de extradição. Não vejo nada de errado. Mas os democratas-cristãos alemães, que comandaram o país por muito tempo, só reconheceram tal igualdade na década de 70. Deveriam ser extraditados naquela época?
O senhor acredita numa revolução sexual no mundo islâmico?
Com certeza. No Egito, na Líbia e na Tunísia já há mais mulheres do que homens estudando nas universidades. Vemos os efeitos desse fenômeno no aumento da idade média de casamento. Na Líbia, hoje, é de 28 anos para as mulheres, repetindo o padrão europeu. Ainda há tradições patriarcais nesses países, mas é muito mais difícil dar ordens a uma jovem urbana de 28 anos, formada, esclarecida, do que a uma menina camponesa semi-analfabeta, de 17. No Irã, a idade média de casamento vem subindo desde a Revolução Islâmica. Haverá mudanças nos países muçulmanos.
Educação é uma força maior que democracia como instrumento de mudança?
Não em todos os casos. Quando se leva em consideração as relações entre homem e mulher, sim. Educação afeta oportunidades de trabalho, transferência de propriedade, secularização, instrumentos importantes de mudança social.
Polêmicas como casamento gay, direitos reprodutivos, estudos com células-tronco embrionárias podem dominar a discussão política no século 21?
Essas discussões estão dominando parte do discurso político atual. Ao menos, são preocupações evidentes da elite política, freqüentemente levantadas por políticos conservadores. Por quê? Porque eles sabem que essas polêmicas, no fundo, geram pouco conflito e pouca resistência organizada. Ao assumi-las, eles desviam de temas mais prementes e de difícil solução.
O senhor acha que não há resistência quanto a esses temas?
Não há. É mais fácil falar sobre a relação entre os sexos, sobre questões familiares, do que discutir por que o Brasil, no segundo governo Lula, ainda é um dos países com maior desigualdade social no planeta. Para enfrentar esse tipo de problema, aí sim, você encontra resistência organizada. Desigualdade econômica é uma questão muito mais complexa e problemática.
Mas questões sobre família não são discutidas apenas no Brasil.
Elas são discutidas em países nos quais muitas das batalhas cruciais a respeito das relações familiares já foram vencidas. Em países onde ainda existe um patriarcado institucionalizado, nos quais a supremacia masculina não é discutida, não há espaço para outras discussões.

 

Estado de S. Paulo

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O primeiro avião do futuro

Esqueça o 14 Bis. A aeronave mais influente da história é outra obra de Santos Dumont: o Demoiselle, que popularizou a aviação no mundo todo

Salvador Nogueira

O 14 Bis fez seus primeiros vôos no final de 1906. Ok. Mas talvez o Brasil esteja comemorando o centenário errado. É que os aviões modernos talvez não tenham nascido nem naquele ano nem em 1903, quando o Flyer, dos irmãos Wright decolou no interior dos EUA. Mas, sim, em 1907, com a segunda aeronave bem-sucedida de Alberto Santos Dumont: o Demoiselle.

“Esse aparelho, o Nº 19 do brasileiro, representou uma mudança radical na forma dos aviões”, dizo físico Henrique Lins de Barros, do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, no Rio de Janeiro, e especialista no assunto. Uma mudança que, cedo ou tarde, iria parar em todos os outros aviões, inclusive nos dos irmãos Wright.

A chave para isso foi uma iniciativa audaz de Dumont: colocar o “rabo” do avião no devido lugar, a parte de trás. O que vai ali são aquelas duas asinhas menores, que formam uma peça chamada leme profundor - uma das partes responsáveis por levantar e baixar o avião durante o vôo. E a tradição de colocá-la no “lugar errado” (a parte da frente) vinha desde o fim do século 19. Tudo por razões de segurança. Depois que o construtor de planadores alemão Otto Lilienthal morreu em um de seus inventos, em 1896, seus seguidores decidiram manter o leme à frente. Isso porque Lilienthal tinha sido vítima de um estol (do inglês stall, fenômeno em que o aeroplano aponta para cima, perde sustentação e cai de bunda). Para evitar essas empinadas, todos os inventores da época acharam crucial deixar esse leme na parte da frente.

Só tem um problema: essa configuração deixa a máquina bem mais instável no ar - o piloto precisa estar sempre atento aos controles para mantê-la em vôo, do mesmo jeito que um ciclista não pode largar o guidão. Convenhamos, não é a melhor coisa do mundo num avião, que cobra caro por qualquer falha humana.

Por isso, os pioneiros acharam melhor não arriscar. E foi com a parte “de trás” colocada na frente que os irmãos Wright realizaram, em Kitty Hawk, Carolina do Norte (EUA), os primeiros vôos motorizados da história. Os outros aspirantes a aviador usaram sistemas parecidos, inclusive Santos Dumont. O 14 Bis, por exemplo: tem aquele bico enorme na ponta justamente para abrigar o leme. Graças a isso, aliás, o primeiro avião de Dumont não costuma ser chamado de 14 Bis em lugar nenhum fora do Brasil. Lá fora, conhecem a aeronave pelo apelido: Canard (”pato”, em francês).

Só fracasso

Com seu Pato, Dumont percorreu 60 metros no ar em 23 de outubro de 1906. E abocanhou um prêmio de 3 mil francos (R$ 30 mil em dinheiro de hoje), que ofereciam para o primeiro que voasse por mais de 25 metros. Logo depois, em 12 de novembro, faria os primeiros vôos reconhecidos pela Federação Aeronáutica Internacional. Dessa vez, estabeleceu a marca de 220 metros como recorde.

Mas o 14 Bis não era exatamente prático: voava a apenas 6 metros de altitude e só alcançava 40 km/h. Ele não tinha mais para onde evoluir com aquele desenho. E Santos Dumont logo passou a desenvolver novos modelos, bem diferentes - e agora incluindo o inovador leme traseiro. Especialistas da época farejavam que ele estava na trilha certa. Escreveu a revista francesa L’Aérophile, em fevereiro de 1907: “Sob o ponto de vista da estabilidade, o senhor Dumont fez uma volta completa, colocando o que estava atrás na frente e vice-versa. Isso é lógico, ele se conforma à natureza.” No entanto, ainda faltava aprender como decolar direito com essa configuração. E o sucessor do 14 Bis, o Nº 15, não conseguiu levantar vôo.

Frustrado, Alberto fez o Nº 16, um misto de balão e aeroplano. E mais uma vez não conseguiu subir. O Nº 17 seria uma variação do Nº 15 com motor maior e um trem de pouso mais elaborado. Também não saiu do chão. E eis que então o inventor brasileiro vai buscar inspiração de um lugar inesperado: a água. O aparelho Nº 18 de Alberto era um barco de alta velocidade, tipo um ancestral dos offshore. Ao testar a coisa, que tinha hélices fora d’água e lemes submersos, ele teve uma luz: deduziu a aerodinâmica que faltava para que seu novo avião decolasse. “É engraçado que Dumont tenha encontrado uma solução justamente quando não estava fazendo um aeroplano, mas foi exatamente o que ocorreu”, diz Lins de Barros. Nascia então o Demoiselle.

A revolução da libélula

O Nº 19 foi apresentado ao mundo em novembro de 1907 - só um ano depois do 14 Bis. Por sua aparência e leveza, a aeronave ganhou o apelido de Demoiselle, palavra francesa que pode ser traduzida como “senhorita” ou “libélula”, dependendo do contexto. No caso, o nome parecia apropriado nos dois sentidos. Com leveza e elegância nunca antes vistas num avião, merecia o “senhorita” - pesava uns 50 quilos, contra 240 do 14 Bis. E sua aparência no ar lembrava mesmo a de uma libélula.

Tudo ali era mais suave. Até o motor. Enquanto o Pato usava um motor de 8 cilindros e 50 cavalos, o Demoiselle vinha com um pequenininho, com 2 cilindros e metade da potência. Só que o projeto ainda tinha problemas. O motor se mostrou fraco e a estrutura, capenga. A fuselagem, por exemplo, não passava de um tronco de bambu ligando o assento do piloto à cauda. O vôo ainda era instável. E o máximo que Dumont conseguiu com o Demoiselle em 1907 foi um vôo de 200 metros - menos do que havia obtido com o 14 Bis. Talvez por isso mesmo as qualidades de seu invento tenham demorado a contagiar os outros inventores da época.

Mas chegaria a hora do Demoiselle. Primeiro, Dumont aumentou a envergadura das asas, para que o avião se sustentasse no ar com mais facilidade. Depois, reforçou o corpo da senhorita com uma cauda mais firme, em forma de triângulo. Para arrematar, trocou o motor por um de 30 cavalos.

Pronto. Com o banho de loja, o Demoiselle (agora rebatizado como Nº 20) saiu da garagem em 1909 e mostrou a que veio. Confiante, Dumont apostou com um amigo que conseguiria voar os 8 quilômetros que separavam Saint Cyr e Buc, dois campos de pouso nos arredores de Paris. Ganhou. E ainda fez o trajeto em apenas 5 minutos, mostrando que seu novo avião tinha velocidade média de quase 100 km/h. Além de veloz, o avião com o leme no lugar certo era ágil. Tanto que Dumont começou a usar oDemoiselle para visitar os amigos - os jardins das mansões deles serviam de pista. Mas fazer um avião capaz de voar quilômetros a fio não foi pioneirismo de Dumont. Um ano antes, os Wright tinham levado a versão mais nova do Flyer para demonstrações na França. Eles passaram 5 anos na surdina para que ninguém copiasse sua idéias. E, quando finalmente foram a público na Europa, deixaram todo mundo de queixo caído: Wilbur Wright voou por assombrosos 124 quilômetros sem escalas.

Os ianques decidiram mostrar sua força por um motivo pragmático: empurrar seus aviões para as Forças Armadas dos EUA. Conseguiram. Ao voltar para casa, em 1909, receberam o equivalente a R$ 1,3 milhão (US$ 30 mil da época) do governo americano por um de seus Flyers. E a máquina virou a primeira aeronave militar da história. Já Dumont, para quem dinheiro não era problema (nem solução), tinha uma postura idealista: sonhava em transformar o Demoiselle num meio de transporte popular, no esquema “uma aeronave em cada garagem”. Se alguém quisesse construir um por conta própria, era só pedir as plantas do projeto, que ele dava. “É meu presente para a humanidade”, disse o brasileiro.

Campeão de vendas

E tudo isso num momento em que a aviação se transformava num mercado para valer. O interesse por aeronaves cresceuprincipalmente depois de 25 de julho de 1909, quando o aviador francês Louis Blériot, discípulo de Dumont, cruzou os 35 quilômetros do canal da Mancha em sua aeronave - que era parecida com o Demoiselle, diga-se.

A carga simbólica do feito turbinou as vendas de aeroplanos. Diante disso, amigos insistiam que Alberto patenteasse a tecnologia da libélula de uma vez.Mas ele batia o pé, como descreve o jornalista americano Paul Hoffman, em seu livro As Asas da Loucura, biografia mais recente do aviador: “Dumont preferia morrer num cortiço do que cobrar alguém pelo privilégio de copiar sua invenção”.

Aí a montadora de carros Clement-Bayard resolveu aproveitar o privilégio. Ainda em 1909, ela passou a fabricar o Demoiselle em massa, vendendo cada um pela bagatela de 7500 francos (R$ 75 mil de hoje), ou um terço de qualquer outro avião daqueles tempos. E as vendas foram muito bem, obrigado: 300 unidades. Como Dumont dizia que era possível fazer um Demoiselle com 5 mil francos (R$ 50 mil), dá para calcular os lucros que a fábrica francesa teve com o modelo: o equivalente a R$ 7,5 milhões.

E a coisa não parou por aí. O fervor do Demoiselle logo tomaria de assalto a terra dos irmãos Wright. Em 1910, a revista Popular Mechanics publicou as plantas do projeto nos EUA, evários fabricantes passaram a construir versões do aparelho. “Milhares de pessoas nos EUA estão intensamente interessadas no assunto do vôo aéreo, mas até o momento nada de natureza tangível foi apresentado de forma a permitir que se comece a trabalhar com uma perspectiva razoável de sucesso. É com grande satisfação que tornamos acessíveis os desenhos de trabalho do maravilhoso aeroplano inventado pelo senhor Santos Dumont”, escreveu o editor da publicação. “Ele é melhor que qualquer outro jamais construído para os que quiserem obter resultados com um custo baixo e o mínimo de experiência.”

De forma discreta, até os irmãos Wright endossaram os elogios às inovações do Demoiselle, quando, em 1910, apresentaram um novo modelo de aeroplano. Era o Wright Flyer Model B, o primeiro criado pela dupla com o leme profundor lá atrás, como sugeriu Dumont.

Ah, claro: o aviãozinho do nosso amigo Alberto continua firme no mercado. E olha que a cara da libélula nem mudou muito nesses 99 anos. Só o nome. Hoje ele se chama ultraleve.

O homem do dirigível
Santos Dumont entrou para a história por causa de seus aviões, claro, mas no início do século 20 ele era uma das maiores celebridades científicas no mundo por outro motivo: seus dirigíveis. Nascido em Minas Gerais, em 1873, e filho de cafeicultores ricos, ele estudou na Inglaterra e na França, mas jamais chegou a ir a uma faculdade. Quando foi morar em Paris, decidiu realizar um vôo de balão, sonho de menino. Subiu em 1898 e resolveu que, dali por diante, se dedicaria a construir e projetar seus próprios balões. Depois que dominou a técnica, decidiu partir para algo mais complexo: os balões dirigíveis. E com seu aparelho Nº 6 Dumont criaria o primeiro dirigível prático da história, coisa que lhe rendeu o maior prêmio de sua vida - 100 mil francos (R$ 1 milhão), por circunvagar a Torre Eiffel em 1901. Seus dirigíveis lhe compraram a fama. Ele foi recebido na Casa Branca e trocou correspondência com inventores como o americano Thomas Edison. O reconhecimento era tal que, quando os Wright anunciaram seu vôo, em 1903, o jornal Dayton Daily News cravou: “Rapazes de Dayton imitam o grande Santos Dumont”. Na seqüência, partiu para os aviões. Mas uma queda com o Demoiselle e um diagnóstico de esclerose múltipla - ele tinha desenvolvido problemas de visão e vertigens - o aposentaram em 1910. Deprimido com a doença, passou a viver entre suas propriedades no Brasil e casas de repouso na Europa. Em 23 de julho de 1932 ele estava num hotel no Guarujá (litoral paulista). Foi lá que um sobrinho o encontrou pendurado na porta do banheiro. Alberto Santos Dumont tinha se enforcado.

Dumont e os Irmãos Wright voam juntos pela primeira vez

Após 100 anos de rixas, um espetáculo. Finalmente voaram juntos, lado a lado, uma réplica de um aeroplano de Santos Dumont e uma de um avião dos Wright. Foi no dia 30 de setembro deste ano, em Dayton, Ohio, cidade natal dos irmãos Wright. A escolha dos modelos também não poderia ter sido melhor. Do lado tupiniquim, um Demoiselle, o mais influente dos aviões do inventor brasileiro. Do lado ianque, um Flyer Model B, primeiro avião dos Wright com infra-estrutura moderna, por decolar sobre rodas e ter asas auxiliares na parte de trás.

O episódio aconteceu no Aeroporto Irmãos Wright, de Dayton, bancado pelo Instituto Arruda Botelho, uma ong voltada à preservação da cultura que construiu a réplica do Demoiselle, e da Heritage Foundation, comandada por Amanda Wright Lane, sobrinha-bisneta de Wilbur e Orville Wright. Claro que os americanos não estão dispostos a largar o osso - o primeiro avião, para eles, é indiscutivelmente o Flyer de 1903 dos irmãos Wright. Entretanto, até mesmo a família da dupla de inventores ianques admite que existe mais que 1, 2 ou 3 “pais da aviação”.

“Não há como questionar certas datas e eventos”, diz Lane. “Mas eu acredito que há espaço para mais de um pioneiro, no sentido de que vários homens contribuíram para a evolução da ciência aeronáutica naqueles primeiros anos.”

Revista Superinteressante
http://super.abril.com.br/super2/home/

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Pakistán, tras el asesinato de Bhutto: la distorsionada percepción de Occidente

Tariq Alí

30/12/07

«Los matrimonios apalabrados pueden ser asunto complicado. Concebidos primordialmente como instrumento de acumulación de riquezas, no sirven, sin embargo, para superar escarceos amorosos indeseables o para evitar historias amorosas clandestinas. Si es notorio que los contrayentes se detestan mutuamente, sólo un padre despiadado, de sensibilidad embotada por la perspectiva del beneficio inmediato, insistirá en un proceso, cuyo infeliz y aun violento final conoce a la perfección. Que eso vale también para la vida política, es cosa que ha revelado cristalinamente la reciente tentativa de Washington de unir a Benazir Bhutto con Pervez Musharraf. De firme resuelto padre único ha hecho en este caso las veces un desesperado Departamento de Estado –con John Negroponte en el papel de diabólico intermediario y Gordon Brown, en el de damisela azorada— poseído por el temor de no conseguir imponerse a los potenciales contrayentes y hacerse demasiado viejo para reciclarse».

Escribí este párrafo inicial en un largo ensayo para la London Review of Books a comienzos de este mes. Que la violencia haya llegado a tal punto tan pronto, no ha dejado de sorprenderme. El choque inicial del asesinato de Benazir Bhutto va quedando atrás, y es preciso valorar desapasionadamente sus probables consecuencias, evitando el pietismo que invade las columnas de los grandes medios de comunicación globales. Prácticamente todo lo que se escribe en los periódicos o muestran las pantallas televisivas es engañoso y se diría concebido para eludir la discusión de lo que anda verdaderamente en juego.

¿Por qué Bush, Negroponte y los acólitos británicos estaban tan resueltos a poner precisamente ese remedio a la crisis pakistaní? ¿Qué pensaban lograr? ¿Qué "mundo nuevo" habían fantaseado? Casi todos su supuestos se fundaban en hechos sistemáticamente y selectivamente retocados, distorsionados o exagerados, a fin de evitar cualquier responsabilidad occidental en la actual crisis. Puesto que, con insignificantes variaciones, todo eso lo vienen repitiendo hasta la náusea los medios de comunicación globales, no será ocioso examinar específicamente cada uno de los principales argumentos esgrimidos:

a) Pakistán es un estado nuclear, el único país musulmán en posesión de armas atómicas y que ha realizado pruebas nucleares. Si los jihadistas/alQaeda metieran mano en esas armas, existe el peligro de que pudieran desencadenar un holocausto nuclear. Hay que apoyar a Musharraf porque se opone vigorosamente a es posibilidad.

Hay que recordar que Pakistán ha perfeccionado su armamento nuclear en los años 80 bajo la dictadura del general Zia ul Haq, ínclito aliado de Occidente y pieza central de la entonces llamada guerra contra el Imperio del Mal (la URSS) en Afganistán. Los EEUU estaban a tal punto obsesionados con el conflicto con los rusos, que decidieron organizar una red jihadista global para reclutar militantes en la guerra santa de Afganistán y mirar para otro lado durante la poco disimulada construcción de los silos nucleares pakistaníes.

Las instalaciones nucleares están sujetas a un control militar muy rígido. No hay la menor posibilidad de que un grupo extremista pueda sustraerse al control de un ejército de medio millón de soldados. La única manera que tendrían los extremistas religiosos de hacerse con el poder es por la decisión del ejército de que eso es lo que ha de pasar. El Pentágono y la DIA (la inteligencia militar de EEUU) saben muy bien que la estructura de mando militar de Pakistán jamás ha sido derrotada, y que los generales dependen de la financiación y del armamento americanos. Mes tras mes, el ejército pakistaní rinde cuentas al CENTCOM de Florida (el mando central estadounidense para operaciones en el extranjero) de sus actividades en la frontera afgano-pakistaní. Es el ejército como institución el que responde a esas exigencias, no sólo los generales. A Musharraf no le resta la menor legitimidad en este asunto, por cuanto ha abandonado el uniforme. De aquí la insistencia de Bush en que el proceso electoral siga su curso, a pesar del boicoteo masivo, de los procesos judiciales parados, del chitón de los medios de comunicación, de políticos clave bajo arresto domiciliario y de la ejecución pública de la señora Bhutto. De haberse decidido Benazir a boicotear las elecciones (lo que habría significado romper con Washington), seguiría viva.

b) Pakistán es un Estado en bancarrota, a pique del colapso y circundado de resueltos jihadistas furiosos al acecho. De aquí la exigencia de una alternativa no religiosa y el papel de Benazir Bhutto para ayudar a Musharraf a conseguir un poco de la legitimidad que necesita desesperadamente.

Pakistán no es un «estado fracasado» en el sentido en que lo son el Congo o Ruanda. Es un Estado que funciona mal, y en esa condición se ha mantenido durante casi cuatro décadas. A veces, la situación es mejor, a veces, peor. En el corazón de su mal funcionar está la dominación del país por parte del ejército, y cada nuevo gobierno militar no ha hecho sino empeorar las cosas. Eso es lo que ha impedido la estabilidad política y ha hecho imposible la aparición de instituciones consolidadas. De eso traen los EEUU responsabilidad directa, puesto que siempre han considerado –y siguen considerando— al ejército como la única institución del país con la que se puede tratar, el rocallar que contiene las agitadas aguas de la impetuosa torrentada.

Económicamente, el país se apoya desequilibradamente en una elite corrupta y ultrarrica, pero eso, ciertamente, resulta grato al Consenso de Washington. Y el Banco Mundial siempre fue próvido en elogios para las políticas económicas de Musharraf.

La última crisis es resultado directo de la guerra y de la ocupación de Afganistán por las fuerzas de la OTAN, que han desestabilizado la frontera noroccidental de Pakistán, generando una crisis de conciencia en el seno del ejército. Una fuente de desdicha, eso de ser pagado para matar a camaradas musulmanes en las áreas tribales fronterizas con Pakistán y Afganistán. La conducta arrogante y humillante de los soldados de la OTAN no ha ayudado, desde luego, a resolver los problemas entre ambos países. El envío tropas estadounidenses para adiestrar a los militares pakistaníes en labores de contrainsurrección provocará con toda probabilidad una ulterior inflamación de los ánimos. Afganistán sólo podrá ser estabilizado mediante un acuerdo regional que coimplique a India, Rusia, Irán y Pakistán y que venga acompañado de la retirada total de las tropas de la OTAN. Las tentativas de EEUU por evitar precisamente eso refuerzan la crisis en ambos países.

Musharraf ha fracasado en su papel de hombre clave de EEUU en Pakistán. Su incapacidad para proteger a Benazir Bhuto ha tenido mala acogida en Washington, que podría cambiar de posta el año próximo y volver a depositar sus esperanzas en el general Ashfaq Kayani, quien ha relevado ya a Musharraf como jefe del ejército. Menos fácil será hallarle un substituto a Benazir. Los hermanos Sharif no son de fiar, y son demasiado cercanos a los sauditas. Las elecciones serán manipuladas groseramente, lo que las privará de verdadera legitimidad. La noche oscura está muy lejos de su fin.

Tariq Ali es miembro del Consejo Editorial de SINPERMISO.

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O que pode uma mulher

Elas se moveram de seus lugares tradicionais. Eles estão profundamente abalados. Mas confie: há saída

Maria Rita Kehl*

Depois de te perder, te encontro com certeza /Talvez num tempo da delicadeza
(Chico Buarque)
Os argentinos, quem diria! Últimos representantes daquela escola para homens (que aqui no Brasil já fechou) elegeram uma presidente - Cristina Kirchner. Ponto para eles. Não tanto pelo aspecto político da escolha, mas pelo antimachismo. Temos também Michelle Bachelet no Chile, Angela Merkel na Alemanha. Tínhamos Benazir Bhutto, assassinada por ter sacudido a ditadura no Paquistão, o que só aumenta a força simbólica de sua herança. Ainda temos a somali Ayaan Ali, refugiada na Holanda para escapar da lei islâmica. As mulheres estão tomando o poder? O mundo vai virar de cabeça para baixo?
Não nos precipitemos. Mulheres no poder não constituem uma novidade assim tão espantosa. Pensem na rainha Vitória, em Catarina de Médici e Isabel de Castela. No século 20 tivemos Margareth Tatcher, Indira Ghandi, Golda Meir. O poder é um lugar que tolera excentricidades, desde que não alterem seu funcionamento e os compromissos que o sustentam. Mulheres no poder não garantem, como sonhamos nos anos 60, políticas mais justas, mais humanitárias. Podem ser tão truculentas e injustas quanto os homens. Condoleezza Rice não pratica a política dos sonhos dos movimentos feministas. Nem dos movimentos negros. Se o feminismo lutou pelo reconhecimento de que a diferença entre os sexos não implica diferenças de talento e competência, temos de admitir que também não garante diferenças éticas.
As poucas mulheres que se destacam em altos cargos políticos interessam menos que a trajetória de milhões de anônimas para as quais o verbo poder importa mais que o substantivo. Hoje se diz que as mulheres “estão podendo”. O início desse deslocamento empreendido em direção ao território ocupado pelos homens foi registrado por Virginia Woolf em seu diário: ela escreveu que na Inglaterra da década de 20 a humanidade estava se transformando, ou pelo menos 50% dela - as mulheres.
Ocorre que os 50% de mulheres não se moveram de seus lugares tradicionais sem abalar a suposta identidade da outra metade. Masculino e feminino são campos escorregadios que só se definem por oposição, sempre incompleta, um ao outro. São formações imaginárias que buscam produzir uma diferença radical e complementar onde só existem, de fato, mínimas diferenças. O resto é questão de estilo.
Até pelo menos a segunda metade do século 19 o divisor de águas era claro: os homens ocupavam o espaço público. As mulheres tratavam da vida privada. Privada de quê? De visibilidade, diria Hanna Arendt. De visibilidade pública.
O termo é impreciso, pois nunca faltou visibilidade ao corpo feminino. Nem sob os véus islâmicos. Nem sob o jugo torturante de anquinhas e espartilhos. Do que as mulheres estiveram privadas até o século 20 foi de presença pública manifesta não em imagem, mas em palavra. A palavra feminina, reservada ao espaço doméstico, não produzia diferença na vida social. Ouvi do filósofo Bento Prado, em 1988, uma brilhante interpretação para a provocação lacaniana que diz “não existe a mulher”. Bento sugeriu que a inexistência de um significante que represente, no inconsciente, o conjunto das mulheres deve-se ao fato de as mulheres, durante séculos, não terem inscrito sua experiência no campo da cultura. Foram objetos do discurso dos homens, não sujeitos de um discurso próprio.
No último século, o avanço das mulheres sobre todos os espaços da vida pública abalou a sustentação imaginária da diferença, dita “natural”, entre os sexos. Isso produziu nos homens o efeito de uma perda. Ou de uma feminização. A masculinidade, construção discursiva tão cultural como a feminilidade, vem sendo profundamente abalada. A pergunta freudiana, “o que quer uma mulher?” foi substituída, em nossos dias, por: o que é um homem? O que um homem precisa fazer para provar que é realmente um homem?
Se na vida pública os campos já se embaralharam de maneira irreversível, na vida privada a resposta parece banal: um homem “se garante” ao satisfazer sua mulher. Isso torna o poder sexual das mulheres quase intolerável, com efeitos terríveis de aumento da violência doméstica. Se a satisfação da mulher é a prova dos nove da masculinidade do homem, pode-se dizer que esta é hoje uma fortaleza sitiada. Ou uma “identidade” (aspas necessárias) acuada. Os acuados, como se sabe, costumam ficar violentos - mas a brutalidade não pode ser o último avatar da masculinidade.
Desde a popularização dos métodos anticoncepcionais, nada mais obriga uma mulher a permanecer casada, nem fiel, ao homem que não a satisfaz - supondo, como é provável que ela pense, que o problema seja apenas dele. Supondo que, no sexo, alguém possa satisfazer o outro por completo. Outro aforismo provocativo de Lacan, “não existe a relação sexual”, refere-se à impossibilidade de complementariedade perfeita entre os sexos. Até mesmo o casamento, que na modernidade se inspirou na idéia de que homem e mulher poderiam formar dois-em-um, já não é o que prometia ser.
Resta a histeria, essa forma de sofrimento neurótico que muitos psicanalistas (homens) consideram como o paradigma da feminilidade. A histérica acredita no Homem como detentor do falo - o que a torna irresistível para os que ainda esperam manter os territórios masculino e feminino rigorosamente diferenciados. Só que a demanda histérica é impossível de satisfazer, o que acaba por desmoralizar o poder masculino. A histeria seria uma espécie de “feminismo espontâneo”, na expressão de Emilce Dio Bleichmar: uma recusa do lugar estereotipado de castradas aliada à ignorância sobre o caráter simbólico do falo e da castração.
A alternativa seria a invenção de uma nova arte erótica, mais de acordo com as possibilidades de troca que já estão abertas, embora mal aproveitadas, a partir das novas configurações do masculino e do feminino. A relativa feminização dos homens e a recém-conquistada “masculinidade” nas mulheres podem contribuir para romper os automatismos sexuais que sempre empobreceram a experiência erótica de uns e de outras. Se a delicadeza não precisa estar toda do lado das mulheres, os homens já não precisam se garantir pela força. Nem pela brutalidade.
Alguns meninos e meninas das novas gerações pós-feminismo sabem disso. Mas é preciso coragem e um pouco de imaginação para ultrapassar a miragem fálica que estereotipa a diferença sexual. As mulheres, que já nasceram “sem nada a perder”, poderiam ensaiar a mestria nas artes eróticas que a imaginação literária há muito lhes havia reservado.

*Maria Rita Kehl, psicanalista, escreveu Sobre Ética e Psicanálise (Companhia das Letras) e Ressentimento (Casa do Psicólogo), entre outros

Estado de S. Paulo

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James Watson e os quatro novos cavaleiros do Apocalipse

Evolucionariamente, somos todos africanos, vivendo na África ou em exílio recente de lá

Sérgio D.J. Pena

A Bíblia nos apresenta os quatro cavaleiros do Apocalipse: Morte, Guerra, Fome e Pestilência. Com os conflitos na Irlanda do Norte, em Ruanda e nos Bálcãs no final do século passado e após o 11 de Setembro, a invasão do Afeganistão e do Iraque e os conflitos de Darfur no início do século XXI, temos de adicionar quatro novos cavaleiros: Racismo, Xenofobia, Ódio Étnico e Intolerância Religiosa.

Em sua obra Identidade e violência, o ganhador do Nobel Amartya Sen enfatiza como a imposição e a aceitação de identidades unidimensionais de grupo alimentam a tropa do Apocalipse. Assim, devemos nos esforçar para construir uma sociedade que celebre e valorize a singularidade do indivíduo e na qual exista a liberdade de assumir, por escolha pessoal, uma pluralidade de identidades. Este ideal está em perfeita sintonia com o fato demonstrado pela genética moderna que cada um de nós tem uma individualidade genômica absoluta que interage com o ambiente para moldar uma singular trajetória de vida.

Examinemos em especial o conceito de raça, que se impregnou em nossa sociedade a partir do século XVI inicialmente por força de interesses econômicos e como forma de tentar conciliar a fé cristã com o crime da escravização dos africanos. Desde então “raças” têm sido usadas não só para sistematizar as populações humanas, mas também para tentar justificar a dominação de alguns grupos por outros. Assim, a persistência da idéia de raça está ligada à visão atávica e perversa de que os grupos humanos existem em uma escala de valor.

No mês passado o famoso biólogo e também ganhador do Nobel James Watson afirmou estar preocupado com o futuro da África, porque os habitantes daquele continente, sendo menos inteligentes que outros povos, mostravam-se incapazes de resolver seus problemas. Esta declaração estapafúrdia está totalmente na contramão de tudo que a genética tem demonstrado, ou seja, que raças humanas não existem do ponto de vista científico.

Sabemos que a variabilidade humana está concentrada “dentro das populações continentais” e não “entre continentes”. Além disso, há uma relação genealógica entre todas as populações do mundo com a África. A humanidade moderna emergiu na África há menos de 200 mil anos e só nos últimos 60 mil anos saiu de lá para popular os outros continentes. Como dito pelo evolucionista sueco Svante Paabo, somos todos africanos, vivendo na África ou em exílio recente de lá. Pode parecer fácil distinguir fenotipicamente um africano de um europeu ou de um asiático, mas tal facilidade desaparece assim que saímos da “flor da pele” e procuramos evidências dessas diferenças “raciais” nos genomas das pessoas.

Em um recente artigo, tracei um paralelo entre a crença na existência das bruxas, prevalente nos séculos XVI e XVII, e a crença na existência das raças humanas. O texto se encerrava com a seguinte frase: “Um pensamento reconfortante é que, certamente, a humanidade do futuro não acreditará em raças mais do que acreditamos hoje em bruxaria. E o racismo será relatado como mais uma abominação histórica passageira, assim como percebemos hoje o disparate que foi a perseguição às bruxas”.

Por esse prisma, um ponto positivo que ficou do triste imbróglio racista de James Watson foi o imediato e vigoroso repúdio da imprensa e de toda a sociedade às suas declarações. Isso mostra que o fato científico da inexistência das “raças” está finalmente sendo absorvido em nossa cultura e incorporado às nossas convicções e atitudes morais.

Para denotar a postura ética que valoriza a variabilidade humana e a singularidade de cada indivíduo, criei a expressão peciloética (da raiz poikilia– poikilia – que quer dizer “diversidade” em grego). Seu axioma fundamental é o direito inalienável de toda pessoa a ser tratada como um indivíduo, único e singular em seu genoma e em sua história de vida, e não meramente como pertencente a um sexo, religião, país, etnia ou grupo de cor. Minha esperança é que a generalização dessa perspectiva moral ajude no combate aos novos cavaleiros do Apocalipse.

Revista da FAPESP
http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

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O paradoxo andante

Eduardo Galeano

Cada dia, ao ler os diários, assisto a uma aula de história. Os diários ensinam-me pelo que dizem e pelo que calam. A história é um paradoxo andante. A contradição move-lhe as pernas. Talvez por isso os seus silêncios dizem mais que suas palavras e muitas vezes as suas palavras revelam, mentindo, a verdade.

Dentro em breve será publicado um livro meu chamado Espejos. É algo assim como uma história universal, e desculpem o atrevimento. "Posso resistir a tudo, menos à tentação", dizia Oscar Wilde, e confesso que sucumbi à tentação de contar alguns episódios da aventura humana no mundo do ponto de vista dos que não saíram na foto. Pode-se dizer que não se trata de fatos muito conhecidos. Aqui resumo alguns, apenas uns poucos.

Quando foram desalojados do Paraíso, Adão e Eva mudaram-se para África, não para Paris.

Algum tempo depois, quando seus filhos já se haviam lançado pelos caminhos do mundo, foi inventada a escrita. No Iraque, não no Texas.

Também a álgebra foi inventada no Iraque. Foi fundada por Mohamed al Jwarizmi , há mil e duzentos anos, e as palavras algoritmo e algarismo derivam do seu nome.

Os nomes costumam não coincidir com o que nomeiam. No British Museum, por exemplo, as esculturas do Partenon chamam-se "mármores de Elgin", mas são mármores de Fídias. Elgin era o nome do inglês que as vendeu ao museu.

As três novidades que tornaram possível o Renascimento europeu, a bússola, a pólvora e a imprensa, haviam sido inventadas pelos chineses, que também inventaram quase tudo o que a Europa reinventou.

Os hindus souberam antes de todos que a Terra era redonda e os maias haviam criado o calendário mais exato de todos os tempos.

Em 1493, o Vaticano presenteou a América à Espanha e obsequiou a África negra a Portugal, "para que as nações bárbaras sejam reduzidas à fé católica". Naquele tempo a América tinha quinze vezes mais habitantes que a Espanha e a África negra cem vezes mais que Portugal. Tal como havia mandado o Papa, as nações bárbaras foram reduzidas. E muito.

Tenochtitlán, o centro do império azteca, era de água. Hernán Cortés demoliu a cidade pedra por pedra e, com os escombros, tapou os canais por onde navegavam duzentas mil canoas. Esta foi a primeira guerra da água na América. Agora Tenochtitlán chama-se México DF. Por onde corria a agua, agora correm os automóveis.

O monumento mais alto da Argentina foi erguido em homenagem ao general Roca, que no século XIX exterminou os índios da Patagônia.

A avenida mais longa do Uruguai tem o nome do general Rivera, que no século XIX exterminou os últimos índios charruas.

John Locke, o filósofo da liberdade, era acionista da Royal Africa Company , que comprava e vendia escravos.

No momento em que nascia o século XVIII, o primeiro dos bourbons, Felipe V, estreou o seu trono assinando um contrato com o seu primo, o rei da França, para que a Compagnie de Guinée vendesse negros na América. Cada monarca ficava com 25 por cento dos lucros.

Nomes de alguns navios negreiros: Voltaire, Rousseau, Jesus, Esperança, Igualdade, Amizade.

Dois dos Pais Fundadores dos Estados Unidos desvaneceram-se na névoa da história oficial. Ninguém se recorda de Robert Carter nem de Gouverner Morris . A amnésia recompensou os seus atos. Carter foi a única personalidade eminente da independência que libertou seus escravos. Morris, redator da Constituição, opôs-se à cláusula estabelecendo que um escravo equivalia às três quintas partes de uma pessoa.

"O nascimento de uma nação" , a primeira super-produção de Hollywood, foi estreado em 1915, na Casa Branca. O presidente, Woodrow Wilson, aplaudiu-a de pé. Ele era o autor dos textos do filme, um hino racista de louvação à Ku Klux Klan.

Algumas datas: Desde o ano 1234, e durante os sete séculos seguintes, a Igreja Católica proibiu que as mulheres cantassem nos templos. As suas vozes eram impuras, devido àquele caso da Eva e do pecado original.

No ano de 1783, o rei da Espanha decretou que não eram desonrosos os trabalhos manuais, os chamados "ofícios vis", que até então implicavam a perda da fidalguia.

Até o ano de 1986 foi legal o castigo das crianças, nas escolas da Inglaterra, com correias, varas e porretes.

Em nome da liberdade, da igualdade e da fraternidade, em 1793 a Revolução Francesa proclamou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.

A militante revolucionária Olympia de Gouges propõe então a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã . A guilhotina cortou-lhe a cabeça.

Meio século depois, outro governo revolucionário, durante a Primeira Comuna de Paris, proclamou o sufrágio universal. Ao mesmo tempo, negou o direito de voto às mulheres, por unanimidade menos um: 899 votos conta, um a favor.

A imperatriz cristã Teodora nunca disse ser uma revolucionária, nem nada que se parecesse. Mas há mil e quinhentos anos o império bizantino foi, graças a ela, o primeiro lugar do mundo onde o aborto e o divórcio foram direitos das mulheres.

O general Ulisses Grant , vencedor da guerra do Norte industrial contra o Sul escravocrata, foi a seguir presidente dos Estados Unidos. Em 1875, respondendo às pressões britânicas, respondeu: –Dentro de duzentos anos, quando tivermos obtido do protecionismo tudo o que ele nos pode proporcionar, também nós adotaremos a liberdade de comércio. Assim, pois, nos de 2075, o país mais protecionista do mundo adotará a liberdade de comércio.

"Botinzito" foi o primeiro cão pequinês que chegou à Europa. Viajou para Londres em 1860. Os ingleses batizaram-no assim porque era parte do botim extorquido à China no fim das longas guerras do ópio . Vitória, a rainha narcotraficante, havia imposto o ópio a tiros de canhão. A China foi convertida num país de drogados, em nome da liberdade, a liberdade de comércio.

Em nome da liberdade, a liberdade de comércio, o Paraguai foi aniquilado em 1870. Ao cabo de uma guerra de cinco anos, este país, o único das Américas que não devia um centavo a ninguém, inaugurou a sua dívida externa. Às suas ruínas fumegantes chegou, vindo de Londres, o primeiro empréstimo. Foi destinado a pagar uma enorme indenização ao Brasil, Argentina e Uruguai. O país assassinado pagou aos países assassinos, pelo trabalho que haviam tido a assassiná-lo.

O Haiti também pagou uma enorme indenização. Desde que, em 1804, conquistou a sua independência, a nova nação arrasada teve que pagar à França uma fortuna, durante um século e meio, para espiar o pecado da sua liberdade.

As grandes empresas têm direitos humanos nos Estados Unidos. Em 1886, a Suprema Corte de Justiça estendeu o direitos humanos às corporações privadas, e assim continua a ser. Poucos anos depois, em defesa dos direitos humanos das suas empresas, os Estados Unidos invadiram dez países, em diversos mares do mundo.

Mark Twain, dirigente da Liga Antiimperialista, propôs então uma nova bandeira, com caveirinhas em lugar de estrelas. E outro escritor, Ambroce Bierce, confirmou: –A guerra é o caminho escolhido por Deus para nos ensinar geografia.

Os campos de concentração nasceram na África. Os ingleses iniciaram o experimento, e os alemães desenvolveram-no. Depois disso Hermann Göring aplicou na Alemanha o modelo que o seu papa havia ensaiado, em 1904, na Namíbia. Os professores de Joseph Mengele haviam estudado, no campo de concentração da Namíbia, a anatomia das raças inferiores. As cobaias eram todas negras.

Em 1936, o Comitê Olímpico Internacional não tolerava insolências. Nas Olimpíadas de 1936, organizadas por Hitler, a seleção de futebol do Peru derrotou por 4 a 2 a seleção da Áustria, o país natal do Führer. O Comitê Olímpico anulou a partida.

A Hitler não lhe faltaram amigos. A Rockefeller Foundation financiou investigações raciais e racistas da medicina nazi. A Coca-Cola inventou a Fanta, em plena guerra, para o mercado alemão. A IBM tornou possível a identificação e classificação dos judeus, e essa foi a primeira façanha em grande escala do sistema de cartões perfurados. (…)

O original encontra-se em http://www.pagina12.com.ar/diario/sociedad/3-96843-2007-12-30.html Este excerto encontra-se em http://resistir.info/

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La paradoja andante

Eduardo Galeano

Cada día, leyendo los diarios, asisto a una clase de historia.

Los diarios me enseñan por lo que dicen y por lo que callan.

La historia es una paradoja andante. La contradicción le mueve las piernas. Quizá por eso sus silencios dicen más que sus palabras y con frecuencia sus palabras revelan, mintiendo, la verdad.

De aquí a poco se publicará un libro mío que se llama Espejos. Es algo así como una historia universal, y perdón por el atrevimiento. “Yo puedo resistir todo, menos la tentación”, decía Oscar Wilde, y confieso que he sucumbido a la tentación de contar algunos episodios de la aventura humana en el mundo, desde el punto de vista de los que no han salido en la foto.

Por decirlo de alguna manera, se trata de hechos no muy conocidos.

Aquí resumo algunos, algunitos nomás.

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Cuando fueron desalojados del Paraíso, Adán y Eva se mudaron al Africa, no a París.

Algún tiempo después, cuando ya sus hijos se habían lanzado a los caminos del mundo, se inventó la escritura. En Irak, no en Texas.

También el álgebra se inventó en Irak. La fundó Mohamed al Jwarizmi, hace mil doscientos años, y las palabras algoritmo y guarismo derivan de su nombre.

Los nombres suelen no coincidir con lo que nombran. En el British Museum, pongamos por caso, las esculturas del Partenón se llaman “mármoles de Elgin”, pero son mármoles de Fidias. Elgin se llamaba el inglés que las vendió al museo.

Las tres novedades que hicieron posible el Renacimiento europeo, la brújula, la pólvora y la imprenta, habían sido inventadas por los chinos, que también inventaron casi todo lo que Europa reinventó.

Los hindúes habían sabido antes que nadie que la Tierra era redonda y los mayas habían creado el calendario más exacto de todos los tiempos.

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En 1493, el Vaticano regaló América a España y obsequió el Africa negra a Portugal, “para que las naciones bárbaras sean reducidas a la fe católica”. Por entonces, América tenía quince veces más habitantes que España y el Africa negra cien veces más que Portugal.

Tal como había mandado el Papa, las naciones bárbaras fueron reducidas. Y muy.

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Tenochtitlán, el centro del imperio azteca, era de agua. Hernán Cortés demolió la ciudad, piedra por piedra, y con los escombros tapó los canales por donde navegaban doscientas mil canoas. Esta fue la primera guerra del agua en América. Ahora Tenochtitlán se llama México DF. Por donde corría el agua, corren los autos.

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El monumento más alto de la Argentina se ha erigido en homenaje al general Roca, que en el siglo diecinueve exterminó a los indios de la Patagonia.

La avenida más larga del Uruguay lleva el nombre del general Rivera, que en el siglo diecinueve exterminó a los últimos indios charrúas.

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John Locke, el filósofo de la libertad, era accionista de la Royal Africa Company, que compraba y vendía esclavos.

Mientras nacía el siglo dieciocho, el primero de los borbones, Felipe V, estrenó su trono firmando un contrato con su primo, el rey de Francia, para que la Compagnie de Guinée vendiera negros en América. Cada monarca llevaba un 25 por ciento de las ganancias.

Nombres de algunos navíos negreros: Voltaire, Rousseau, Jesús, Esperanza, Igualdad, Amistad.

Dos de los Padres Fundadores de los Estados Unidos se desvanecieron en la niebla de la historia oficial. Nadie recuerda a Robert Carter ni a Gouverner Morris. La amnesia recompensó sus actos. Carter fue el único prócer de la independencia que liberó a sus esclavos. Morris, redactor de la Constitución, se opuso a la cláusula que estableció que un esclavo equivalía a las tres quintas partes de una persona.

“El nacimiento de una nación”, la primera superproducción de Hollywood, se estrenó en 1915, en la Casa Blanca. El presidente, Woodrow Wilson, la aplaudió de pie. El era el autor de los textos de la película, un himno racista de alabanza al Ku Klux Klan.

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Algunas fechas:

Desde el año 1234, y durante los siete siglos siguientes, la Iglesia Católica prohibió que las mujeres cantaran en los templos. Eran impuras sus voces, por aquel asunto de Eva y el pecado original.

En el año 1783, el rey de España decretó que no eran deshonrosos los trabajos manuales, los llamados “oficios viles”, que hasta entonces implicaban la pérdida de la hidalguía.

Hasta el año 1986, fue legal el castigo de los niños en las escuelas de Inglaterra, con correas, varas y cachiporras.

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En nombre de la libertad, la igualdad y la fraternidad, la Revolución Francesa proclamó en 1793 la Declaración de los Derechos del Hombre y del Ciudadano. Entonces, la militante revolucionaria Olympia de Gouges propuso la Declaración de los Derechos de la Mujer y de la Ciudadana. La guillotina le cortó la cabeza.

Medio siglo después, otro gobierno revolucionario, durante la Primera Comuna de París, proclamó el sufragio universal. Al mismo tiempo, negó el derecho de voto a las mujeres, por unanimidad menos uno: 899 votos en contra, uno a favor.

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La emperatriz cristiana Teodora nunca dijo ser revolucionaria, ni cosa por el estilo. Pero hace mil quinientos años el imperio bizantino fue, gracias a ella, el primer lugar del mundo donde el aborto y el divorcio fueron derechos de las mujeres.

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El general Ulises Grant, vencedor en la guerra del norte industrial contra el sur esclavista, fue luego presidente de los Estados Unidos.

En 1875, respondiendo a las presiones británicas, contestó:

–Dentro de doscientos años, cuando hayamos obtenido del proteccionismo todo lo que nos puede ofrecer, también nosotros adoptaremos la libertad de comercio.

Así pues, en el año 2075, la nación más proteccionista del mundo adoptará la libertad de comercio.

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Lootie, “Botincito”, fue el primer perro pequinés que llegó a Europa.

Viajó a Londres en 1860. Los ingleses lo bautizaron así porque era parte del botín arrancado a China, al cabo de las dos largas guerras del opio.

Victoria, la reina narcotraficante, había impuesto el opio a cañonazos. China fue convertida en una nación de drogadictos, en nombre de la libertad, la libertad de comercio.

En nombre de la libertad, la libertad de comercio, Paraguay fue aniquilado en 1870. Al cabo de una guerra de cinco años, este país, el único país de las Américas que no debía un centavo a nadie, inauguró su deuda externa. A sus ruinas humeantes llegó, desde Londres, el primer préstamo. Fue destinado a pagar una enorme indemnización a Brasil, Argentina y Uruguay. El país asesinado pagó a los países asesinos, por el trabajo que se habían tomado asesinándolo.

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Haití también pagó una enorme indemnización. Desde que en 1804 conquistó su independencia, la nueva nación arrasada tuvo que pagar a Francia una fortuna, durante un siglo y medio, para expiar el pecado de su libertad.

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Las grandes empresas tienen derechos humanos en los Estados Unidos. En 1886, la Suprema Corte de Justicia extendió los derechos humanos a las corporaciones privadas, y así sigue siendo.

Pocos años después, en defensa de los derechos humanos de sus empresas, los Estados Unidos invadieron diez países, en diversos mares del mundo.

Entonces Mark Twain, dirigente de la Liga Antiimperialista, propuso una nueva bandera, con calaveritas en lugar de estrellas, y otro escritor, Ambrose Bierce, comprobó:

–La guerra es el camino que Dios ha elegido para enseñarnos geografía.

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Los campos de concentración nacieron en Africa. Los ingleses iniciaron el experimento, y los alemanes lo desarrollaron. Después Hermann Göring aplicó, en Alemania, el modelo que su papá había ensayado, en 1904, en Namibia. Los maestros de Joseph Mengele habían estudiado, en el campo de concentración de Namibia, la anatomía de las razas inferiores. Los cobayos eran todos negros.

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En 1936, el Comité Olímpico Internacional no toleraba insolencias. En las Olimpíadas de 1936, organizadas por Hitler, la selección de fútbol de Perú derrotó 4 a 2 a la selección de Austria, el país natal del Führer. El Comité Olímpico anuló el partido.

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A Hitler no le faltaron amigos. La Rockefeller Foundation financió investigaciones raciales y racistas de la medicina nazi. La Coca-Cola inventó la Fanta, en plena guerra, para el mercado alemán. La IBM hizo posible la identificación y clasificación de los judíos, y ésa fue la primera hazaña en gran escala del sistema de tarjetas perforadas.

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En 1953, estalló la protesta obrera en la Alemania comunista.

Los trabajadores se lanzaron a las calles y los tanques soviéticos se ocuparon de callarles la boca. Entonces Bertolt Brecht propuso: ¿No sería más fácil que el gobierno disuelva al pueblo y elija otro?

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Operaciones de marketing. La opinión pública es el target. Las guerras se venden mintiendo, como se venden los autos.

En 1964, los Estados Unidos invadieron Vietnam, porque Vietnam había atacado dos buques de los Estados Unidos en el golfo de Tonkin. Cuando ya la guerra había destripado a una multitud de vietnamitas, el ministro de Defensa, Robert McNamara, reconoció que el ataque de Tonkin no había existido.

Cuarenta años después, la historia se repitió en Irak.

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Miles de años antes de que la invasión norteamericana llevara la civilización a Irak, en esa tierra bárbara había nacido el primer poema de amor de la historia universal. En lengua sumeria, escrito en el barro, el poema narró el encuentro de una diosa y un pastor. Inanna, la diosa, amó esa noche como si fuera mortal. Dumuzi, el pastor, fue inmortal mientras duró esa noche.

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Paradojas andantes, paradojas estimulantes:

El Aleijadinho, el hombre más feo del Brasil, creó las más hermosas esculturas de la era colonial americana.

El libro de viajes de Marco Polo, aventura de la libertad, fue escrito en la cárcel de Génova.

Don Quijote de La Mancha, otra aventura de la libertad, nació en la cárcel de Sevilla.

Fueron nietos de esclavos los negros que generaron el jazz, la más libre de las músicas.

Uno de los mejores guitarristas de jazz, el gitano Django Reinhardt, tenía no más que dos dedos en su mano izquierda.

No tenía manos Grimod de la Reynière, el gran maestro de la cocina francesa. Con garfios escribía, cocinaba y comía.

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Subir, subir, em chão escorregadio

Confusão entre ‘classe’ e ‘classificação social’ leva a crer que os pobres melhoraram só por comprar mais

José de Souza Martins*

Parece muito animadora a constatação, em pesquisas do DataFolha, de que nos últimos cinco anos 20 milhões de brasileiros passaram das classes D/E para a classe C, fenômeno que se acentuou a partir de 2006. O País vai sendo beneficiado pelas políticas sociais inauguradas bem antes do governo Lula e que nele se consolidam como instrumentos de um sistema de poder e, provavelmente, de uma nova era política. Nem tudo nesse sistema é visível, nem tudo é explicado. Nem por isso deve-se deixar de reconhecer que, como ocorria no governo anterior, aumentou a escolaridade e caiu a mortalidade infantil.
É verdade que monitoramentos internacionais colocam a nossa educação entre as piores do mundo, nossos alunos com níveis de aprendizado muito aquém do necessário e desejável. Verdade, também, que favelas e cortiços desaparecem apenas quando os despejos ocorrem, para rebrotar em outro lugar e não porque tenha havido significativa melhora nas condições de vida dos pobres.
O ProUni abriu portas de escolas superiores para milhares de jovens, mas sabe-se que é maior a proporção de desemprego entre os trabalhadores com mais escolaridade. Mesmo assim, foi muito bom para os jovens, pois passam para um patamar mais alto de acesso à cultura. Tornam-se mais competentes para enfrentar as adversidades do mercado de trabalho.
Nesse cenário de ganhos e perdas as políticas sociais fazem o que podem para manter algum equilíbrio na sociedade. Para assegurar, também, alguma fonte de esperança numa sociedade que já teve maiores e melhores esperanças, baseadas em aspirações sociais, e não apenas em aspirações individuais. Os anos 70 demarcaram a grande virada na concepção de ascensão social, de passagem individual ou familiar de uma classe para outra. Até então, mais se subia do que se descia. Mas já estávamos chegando a esta era de estagnação social com crescimento econômico. Os mesmos dados do DataFolha mostram que as classes A e B praticamente não receberam novos membros, no pequeno crescimento que tiveram. A mobilidade ficou restrita às quireras da pobreza, mais pobre ou menos pobre, mas pobre, nas esperanças fictícias dos pequenos ganhos adicionais em relação ao já insuficiente. Mera escalada social nos degraus inferiores da sociedade.
A ideologia da ascensão social pelo trabalho surgiu e se difundiu entre nós com o fim da escravidão. Num emblemático discurso no Senado do Império, em 1888, Antônio da Silva Prado, de uma família de grandes fazendeiros e grandes empresários, principal patrono da abolição da escravatura e da imigração subvencionada pelo Estado, como fonte substitutiva de mão-de-obra escrava por mão-de-obra livre, explicou ao Parlamento que o País não precisava do que chamaríamos hoje de reforma agrária. Se o trabalhador “fosse morigerado, sóbrio e laborioso” poderia formar pecúlio para comprar a terra que seria sua e o tornaria dono de seu trabalho. Essa ideologia difundiu-se também na indústria e no meio operário, eficaz no ritmo lento, mas seguro das conquistas, como a casa própria e a educação de filhos e netos, que se estendiam por duas ou três gerações. Hoje, as aspirações são pequenas e urgentes, como fica evidente entre os jovens de Notícias de uma Guerra Particular, de João Moreira Salles. Vive-se pouco, apenas intensa e quantitativamente. O ter ganhou precedência em relação ao ser.
A difusão da ideologia da ascensão social pelo trabalho, a partir do final do século 19, era própria de uma sociedade que já não precisava da chibata para fazer o outro trabalhar. No trabalho livre, é preciso motivo e motivação. Em vez da ameaça de um castigo, a promessa de um prêmio. Por mais de 70 anos essa ideologia regeu as relações de trabalho no Brasil, chegando aos tempos do populismo de Vargas. O populismo não desapareceu, hoje personificado por Lula. Mas encolheram e mudaram as condições da mobilidade de classe. O aclive da pirâmide social ficou penoso de escalar e não raro, escorregadio.
Essa ascensão social baseada no trabalho cedeu lugar ao alpinismo social baseado na esperteza e, não raro, na corrupção, de grandes e de pequenos, na sonegação de impostos, nos truques que já valem mais do que o trabalho. Além do que, hoje a mobilidade social é muito menos de natureza econômica e muito mais de natureza simbólica, como o diploma de curso superior, o vestuário, o carro, mesmo o carro velho, pequenos itens de consumo ostensivo que podem chegar até os prisioneiros dos recintos de confinamento econômico, como os moradores das favelas. Dão-lhes o disfarce visual que os torna socialmente iguais, embora economicamente mais desiguais do que foram seus colegas dos anos 30 aos anos 70.
A precedência até política do simbólico disseminou filigranas conceituais, como as que se propõem em debates e escritos sobre as diferenças econômicas entre indigentes, miseráveis e pobres. Quando indigentes se tornam apenas miseráveis, o salto, meramente estatístico, dissemina a ilusão do progresso e esconde o drama da falta de desenvolvimento econômico e, sobretudo, de desenvolvimento social. Quando miseráveis se tornam pobres, incontida e nem um pouco desconfiada euforia nos invade a todos, na certeza de que o Brasil errado está dando certo. Nessa perspectiva, bastaria que os ricos tivessem mais filhos para diminuir a proporção de pobres. No entanto, tudo continuaria na mesma, como continua. Um dos grandes especialistas no assunto já sugeriu que bastaria dar pouco mais de R$ 10 por mês a cada miserável para que os miseráveis desaparecessem das estatísticas. Mas, sociologicamente, convém lembrar, a indigência, a miséria e a pobreza continuariam intocadas.
Nessa anulação da própria concepção de classe social, em favor da mera classificação por estratos econômicos de pobreza, vai-se ao extremo de discutir a má distribuição de renda tendo como referência os próprios assalariados. O abismo que separa o salário mínimo dos salários decentes e justos é tomado como indício de injustiça social. Justificativa para medidas e providências no sentido de achatar os salários só relativamente altos para não tocar nos ganhos do crescimento econômico até escandaloso porque sem real distribuição de renda.
Não é estranho que não se inclua o livro ou a música nas necessidades vitais dos que vivem de seu trabalho e, portanto, na definição do salário justo. Ou a escola em tempo integral para crianças e adolescentes e o bem-estar de idosos e aposentados. Seria estabelecer o desenvolvimento social como premissa do crescimento econômico. Sem poesia, o crescimento econômico é uma fraude.
Poucos se lembram de incluir nas cogitações sobre a economia a necessidade que os trabalhadores têm de salários suficientes para assegurar a habitação que lhes permita morar como gente. Gente que trabalha duro para pagar a habitação cara, os impostos iníquos, os equipamentos de identificação, como o traje e os outros itens de apresentação pessoal, sem os quais o emprego dança, a auto-estima declina e a sociabilidade, que nos faz diferentes de porcos e muares, sucumbe.
A escalada dos 20 milhões de brasileiros que mudaram de categoria econômica, deslocados alguns centímetros na pirâmide social, se baseia na contagem de itens de consumo no domicílio, escolarização do chefe de família e existência ou não de empregado doméstico trabalhando para a família. Não se baseia nos itens próprios da condição de classe, não só bens, mas modo de vida, visão de mundo, direitos, esperanças e realizações. O que aí se mede não é classe social nem progresso social, mas simplesmente potencial de compra para consumo. Incrível: os socialmente excluídos do discurso assistencialista e caritativo estão incluídos, movem-se no interior do mercado, compram, consomem, fazem o dinheiro circular. A pobreza é lucrativa.
Esse número indica os efeitos das chamadas políticas sociais, sobretudo a Previdência e o Bolsa-Família. Porém, essa melhora não retrata desenvolvimento econômico, mas tirania tributária. Não resulta na multiplicação de empregos formais ou melhora de salários que promovam um fluxo crescente de renda e emprego. A informalidade aí está, sem declínio efetivo, como cruel hipoteca sobre a velhice da juventude atual.
Há um lado não cogitado do Bolsa-Família que poderia inspirar outra modalidade de política econômica, liberta da ideologia da caridade, sensível à dignidade da pessoa que dela depende. Segundo estudo da revista Exame, o Bolsa-Família tem nas grandes cidades um efeito multiplicador de renda e emprego que não tem em outras regiões e no meio rural. Dá certo onde existe um potencial de mercado e de serviços. O que indica, também, que a possibilidade da ascensão social renasce, encolhida, já não como fruto exclusivo do trabalho, mas fruto de empreendedorismo de pequena escala, da criatividade do povo como capital social e do dinheiro do Bolsa-Família como capital econômico que abre efetivas possibilidades de ascensão social.
*O sociólogo José de Souza Martins é professor da Faculdade de Filosofia da USP

Estado de S. Paulo

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Tentativa e erro

Autocrítica de Stephen Hawking leva Umberto Eco a refletir sobre certezas dogmáticas

Umberto Eco

Muitos leitores não sabem muito bem o que são os buracos negros, e sinceramente eu mesmo só me arrisco a imaginá-los como o Lúcio de Yellow Submarine, que devorava tudo ao seu redor e por fim engolia a si mesmo.

Mas, para entender a notícia em que me baseio, não é necessário saber mais, a não ser que os buracos negros são uma das questões mais controversas e cativantes da astrofísica moderna.

Li recentemente nos jornais que o renomado cientista Stephen Hawking (talvez mais conhecido do público em geral não tanto por sua descoberta quanto pela força e determinação com que tem trabalhado a vida inteira, apesar da sua terrível doença, que teria reduzido uma pessoa qualquer a um vegetal) fez uma declaração sensacional, para dizer o mínimo. Afirma que cometeu um erro ao enunciar nos anos 70 a sua teoria dos buracos negros, e agora se prepa