Vladimir ‘Super-Homem’ Putin conduz os amigos à vitória
Uwe Klussmann
O partido Rússia Unida de Vladimir Putin obteve uma vitória esmagadora no domingo (2). O resultado causa pouca surpresa dada quantidade de poder e controle que o presidente possui. Mas o que acontecerá a seguir?
O presidente prometeu que manteria o espírito esportivo. Queria sair vencedor de uma “disputa honesta”, disse Vladimir Putin aos representantes de seu partido Rússia Unida em 1º de outubro. O aplauso foi longo e forte; o partido então escolheu Putin como seu principal candidato para as eleições parlamentares. Duas semanas depois, foram concedidas a Putin três horas de tempo em ambos os canais de televisão estatais —os outros candidatos não foram vistos em parte alguma.
A propaganda na TV foi disfarçada como uma oportunidade para os cidadãos telefonarem e fazerem perguntas diretamente ao chefe de Estado. Mas nas províncias, os simpatizantes de Putin tiraram suas luvas: governadores nomeados pelo presidente ordenaram que seus vices cuidassem para que os resultados fossem do agrado do Kremlin. Em empresas, universidades e quartéis militares, os chefes pressionavam seus subalternos a “votarem corretamente”. Como se não bastasse, o político de oposição Garry Kasparov foi detido e preso por cinco dias pouco antes dos russos irem às urnas.
Sem causar surpresa, Putin obteve os resultados que queria. Com 98% das urnas apuradas, o Rússia Unida conseguiu uma vitória esmagadora com 64,1% dos votos. O partido pró-Kremlin Só Rússia recebeu 7,6% e o nacionalista Partido Liberal Democrático, liderado por Vladimir Zhirinovsky, que também apóia Putin, obteve 8,2% —o que significa que o campo de Putin obteve quase 80% de apoio no domingo.
Até mesmo a oposição é leal
Enquanto isso, os partidos de oposição fracassaram miseravelmente. O Yabloko e SPS, ambos partidos liberais, mal conseguiram obter mais que 1% dos votos e não contarão com representantes na Duma, o parlamento russo. De fato, o único partido semi-independente a superar a barreira de 7% —o resultado que os partidos precisam obter para enviar representantes à Duma— foram os comunistas. Mas mesmo eles freqüentemente se mostram leais a Putin, particularmente quando se trata de política externa.
O voto a favor de Putin foi particularmente forte na Tchetchênia e Inguchétia. O comparecimento dos eleitores de 99% e 98% respectivamente aponta para uma retomada das práticas de manipulação soviéticas. Ninguém na Rússia acredita que Putin e seu partido sejam mais populares nas aldeias empobrecidas do Cáucaso, que sofrem com elevado desemprego.
De fato, muitos parecem achar que o Kremlin pode ter exagerado as coisas.
Não é apenas a oposição que não está impressionada. O desconforto com as eleições é evidente em amplas partes da sociedade russa, incluindo até mesmo as forças de segurança russas. A maioria esmagadora dos russos, que uma pesquisa colocava em 69%, suspeitava mesmo antes da eleição que os resultados seriam manipulados. Em uma pesquisa pelo Instituto Levada de Moscou, 94% dos entrevistados disseram “não ter nenhuma influência” nas políticas de seu país.
Desdém pelo Ocidente
Ao mesmo tempo, as pesquisas mostram que cerca de um terço dos russos considera o sistema soviético melhor do que a democracia ocidental. A pobreza e caos que caracterizaram grande parte dos anos 90 levaram a um severo ceticismo em relação ao pluralismo político no país. Muitos foram humilhados pela forma como políticos amigos dos Estados Unidos deixaram o país à mercê do Fundo Monetário Internacional.
O caos apoiado pelo Ocidente nas fronteiras russas, particularmente na Ucrânia e na Geórgia, levou muitos a questionarem ainda mais o conselho estrangeiro. Quando Putin aponta para a expedição infeliz de Bush em Bagdá e anuncia que os russos não precisam de “democracia como no Iraque”, ele pode contar com imensa aprovação.
Mas o desdém russo pelo Ocidente esconde um dilema doméstico. O Rússia Unida, que mal possui diretórios locais ativos, só conseguiu mobilizar uma fração de seus 1,7 milhão de membros. Há relatos de que as organizações partidárias regionais usaram quantias imensas de dinheiro público e funcionários públicos para compensar as fraquezas do “partido dos poderosos”.
O Rússia Unida portanto degenerou —agora mais do que nunca— em um instrumento para os líderes regionais. O resultado eleitoral de domingo é, acima de tudo, uma carta branca para os burocratas de todos as esferas.
Putin reconheceu durante a campanha que “todo tipo de desonestos” estavam se agarrando ao partido que agora celebra um triunfo sem precedente na Rússia.
‘Putin sempre está certo’
O partido viu seus melhores resultados em lugares onde o Rússia Unida é chefiado por figuras questionáveis acusadas de corrupção e clientelismo —ou com imagens manchadas por banditismo e crime, como na Tchetchênia. O desejo expresso por Putin poucos dias antes da eleição —de que a vitória deveria ser “esmagadora”— só pôde ser entendido pelos líderes provinciais inescrupulosos como um pedido pelo resultado máximo possível para o Rússia Unida, por quaisquer meios necessários.
Putin estabeleceu as condições para esta vitória de forma deliberada e disciplinada. Ele sabia o que estava fazendo quando nomeou Vladimir Churov presidente da Comissão Eleitoral Central em março passado. Churov é um parlamentar do populista Partido Liberal Democrático de direita de Vladimir Zhirinovsky. Mas o homem há muito deixou claro que “a primeira lei de Churov” é que “Putin sempre está certo”.
Em uma manifestação em São Petersburgo há dois anos, Churov elogiou um livro chamado Ruhnama (”O Livro da Alma”), de autoria do agora falecido ditador do Turcomenistão, Turkmenbashi, que segundo todos os relatos era um déspota paranóico. Churov elogiou a obra como “quente e clara, como o sol de outono do Turcomenistão”. O futuro chefe eleitoral russo disse que seria “útil para muitos povos e países ter um livro como o ‘Ruhnama’”. Putin podia ter certeza de que um homem como Churov seria capaz de organizar resultados eleitorais apropriados para o Rússia Unida.
Vida imaginária
O atual sistema de poder na Rússia já foi descrito em detalhes meticulosos por uma escritora alemã. A vida das instituições públicas, na análise dela, tinha se tornado “uma vida imaginária, na qual as burocracias se tornaram sozinhas o elemento ativo”. De vez em quando “manifestações eram organizadas para permitir às multidões aplaudir os discursos de seu líder, e aprovar certas resoluções com voz única —em outras palavras, um sistema de panelinha”. Rosa Luxemburgo escreveu isto em 1918, observando o frágil governo alemão após a Primeira Guerra Mundial.
Após o colapso da União Soviética em 1991, as burocracias russas tiveram de, gradualmente, se reinventarem. Putin se tornou seu protetor, apesar de sua campanha pública contra “burocratas corruptos”. O que isso realmente queria dizer é demonstrado pelo fato de que após oito anos de presidência de Putin, nenhum dos milhares de burocratas do Kremlin foi acusado de corrupção —apesar de envolvimento de muitos em negócios obscuros. Mesmo nas agências de inteligência russas, um clichê sugestivo se tornou corrente —”o peixe apodrece a partir da cabeça”.
As eleições da Duma, basicamente um plebiscito para Putin, fortaleceram um partido que, apesar do forte controle do poder, é apenas um reflexo pálido do todo-poderoso Partido Comunista da União Soviética. Algo que o dissidente russo Andrei Amalrik escreveu em 1969 sobre a burocracia soviética também se aplica à composição do Rússia Unida. Segundo Amalrik, um tipo de processo negativo de seleção ocorreu na elite burocrática: os corajosos e independentes foram excluídos em prol dos fracos e indecisos. Um bom exemplo da atual geração de autoridades é fornecido pelo presidente da Duma e líder do Rússia Unida, Boris Gryzlov, um obediente seguidor de ordens que carece de qualquer idéia própria. Permanece um mistério como exatamente Putin pretende conseguir seu avanço prometido para uma economia inovadora de alta tecnologia com tal equipe.
De tal sistema de poder só se pode esperar uma lealdade limitada, mesmo daqueles responsáveis pela segurança do Estado. Além disso, a base de poder de Putin consiste de um grupo muito pequeno de autoridades, das quais uma grande parte costumava trabalhar na prefeitura de São Petersburgo e eram membros ativos da mesma associação dacha de Putin. Mesmo em tempos soviéticos, tal estreitamento da base de poder era impensável.
Disputas de poder impiedosas
Nem mesmo Stalin teria se cercado de velhos companheiros de seu lar no Cáucaso. O sistema de Putin é portanto muito mais vulnerável do que o sistema soviético era durante seu auge. Apesar de enorme popularidade de Putin, clãs rivais estão se preparando para disputas de poder impiedosas.
Pouco antes da eleição, um vice-ministro das finanças foi detido em meio a acusações de que tinha desviado US$ 43 milhões. O ministro das Finanças, Alexei Kudrin, um confidente de Putin, interveio em prol do detido e o proclamou inocente. O chefe da agência de controle de drogas, Viktor Cherkesov, perdeu um de seus generais por dois meses —ele estava na detenção aguardando julgamento. Cherkesov, um associado de Putin dos tempos dele na KGB, alega que o general preso é vítima de uma armação. O serviço secreto doméstico, FSB, organizou as prisões em ambos os casos.
Até a noite da eleição, Putin permaneceu em silêncio sobre o cargo que gostaria de assumir após sua vitória eleitoral. Seu mandato como presidente terminará em maio de 2008 —e a incerteza já está crescendo. Aqueles com força política ao redor de Putin já começaram uma disputa aberta e irrestrita pelo poder, dinheiro e influência. A elite corrupta de Moscou está nervosa.
Clãs ávidos por poder, completamente livres de inibição, estão iniciando rixas perigosas. Razão e disposição de chegar a um meio-termo são dois atributos que faltam entre os poderosos de Moscou.
Neste sentido, a “estabilidade” e “manutenção do curso político” que os propagandistas de Putin alardeiam poderiam ser perdidos antes que a neve no telhado do Kremlin tenha a chance de derreter.
Der Spiegel
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