Arquivo de 7 de Janeiro de 2008

A retomada da indústria bélica brasileira

Dois modelos diferentes de como incentivar a indústria bélica brasileira foram mostrados em um seminário em São Paulo. De um lado uma veterana indústria de material de defesa sobrevive graças a exportações de equipamento de alta qualidade. Do outro, os centros de pesquisa das Forças Armadas procuram desenvolver material visando uma auto-suficiência, mas não conseguem chegar à linha de produção pois não há recursos do governo para comprar o que foi laboriosamente pesquisado durante anos. A reportagem é de Ricardo Bonalume Neto e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 8-12-2007.

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, declarou várias vezes que pretende impulsionar a indústria de material de defesa. O responsável pela principal empresa “sobrevivente” da área, o engenheiro João Verdi, presidente da fabricante de foguetes militares Avibrás, se declarou “muito otimista” com a intenção do ministro, mas disse isso logo depois de uma longa catilinária reclamando da falta de apoio governamental aos fabricantes de material bélico.

“As intenções são boas, ele conseguiu mais verbas. Se vai dar tudo certo, é complicado de dizer”, disse Verdi em São Paulo durante o seminário “Tecnologia Estratégica: Pesquisa e Desenvolvimento”, sobre indústria de material de defesa: “O ministro e os três comandantes militares nos visitaram na semana passada. Seu discurso é coerente e lógico”, afirmou.

Verdi fez essas declarações ao final de uma palestra na qual reclamou veementemente que o mercado militar interno, das três forças, é “pequeno, variável, volúvel e frágil”.

A Avibrás é uma empresa de 46 anos de idade que fez parte do auge de vendas da indústria bélica brasileira nos anos 80 e conseguiu sobreviver à derrocada da maioria delas na década seguinte. “Durante esse tempo todo fizemos pesquisa, produzimos e exportamos. A sobrevivência está ligada a produtos novos visando principalmente o mercado externo”, declarou Verdi.

Entre os sucessos de vendas está o lançador de foguetes Astros, de 1981, que foi encomendado pelo ditador iraquiano Saddam Hussein, então em guerra com o Irã. Segundo o empresário, o custo do projeto, de quase US$ 2 bilhões, foi bancado pelo Iraque.

O Astros foi depois vendido para a Arábia Saudita, que ironicamente o usou contra o Iraque na Guerra do Golfo, de 1991. A última grande venda foi para a Malásia, em 2002.

É praxe no mercado internacional de armas que um comprador procure saber se o equipamento é utilizado pelo país de origem, uma espécie de “selo de aprovação”. Verdi diz que a Avibrás é uma exceção à regra: faz 15 anos ele fornece foguetes ar-terra para a Colômbia, material que só recentemente a FAB comprou. E o Exército levou 12 anos para comprar o Astros depois de Saddam.

O empresário está particularmente indignado com o Exército, com quem ajudou a desenvolver um blindado de quatro rodas, o Guará, que não recebeu nenhuma encomenda. Também reclamou que o convênio que tinha para desenvolver um sucessor do blindado de transporte de tropas Urutu foi atropelado por uma concorrência vencida pela Fiat e Iveco, da qual ele se recusou a participar.

Penúria

O Exército decidiu racionalizar seus projetos de pesquisa e desenvolvimento (P&D) pela penúria de verba. Mais de cem planos foram reduzidos para apenas 11 prioritários, como um radar de defesa aérea e uma família de blindados, segundo o general-de-brigada Alessio Ribeiro Souto, que dirige o Centro Tecnológico do Exército.

Alguns projetos foram criados com apoio da indústria, como o míssil antitanque (”anticarro” no jargão do exército) MSS 1.2, desenvolvido pela empresa Mectron. Apesar de já estar “concluído, avaliado e aprovado”, o general também reclama da falta de verbas, que não existem nem para produzir um primeiro lote-piloto. Era um projeto originalmente previsto para estar operacional em 1990. O Exército também desenvolveu uma arma antitanque de menor alcance, a ALAC (Arma Leve Anticarro), um morteiro pesado calibre 120 mm e sua munição, um novo fuzil calibre 5,56 mm.

Faltam, porém, indústrias dispostas a produzir equipamentos como esses ou seus acessórios, pois o Exército não tem a verba para comprar um lote que justifique o início de uma produção em série.

O Exército e a indústria têm a tecnologia, ou mesmo o produto; mas falta dinheiro para a compra. Estima-se em R$ 1 bilhão a verba para produzir os blindados médios para substituir os mais de mil blindados Urutu e Cascavel que o Exército adquiriu no passado.

Instituto Humanitas Unisinos
http://www.unisinos.br/ihu/index.php

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Eles mudaram de opinião

Depoimentos de algumas das mentes mais brilhantes mostram que até convicções muito sólidas se modificam ante novos fatos

Pedro Doria

Todos os anos, a revista eletrônica Edge.org apresenta uma pergunta a cientistas, acadêmicos, pensadores. Em 2008 a pergunta é: “Em que você mudou de opinião?” E termina: “Por quê?” O site pertence à Fundação Edge, criada com o objetivo de reunir as mentes mais brilhantes do mundo para discussão. A pergunta anual é um evento que atrai leitores de toda parte. Os editores complementam, provocando: “Quando idéias mudam sua opinião, é filosofia; quando é Deus quem muda, trata-se de fé; e quando são fatos, isso é ciência.”
“Eu costumava acreditar que quanto mais moderna a educação que as pessoas recebessem, mais elas terminariam por rejeitar a idéia de algo sobrenatural”, escreve o biólogo molecular Lee Silver, da Universidade Princeton. “Não acredito mais nisso.” O embate entre ciência e religião, entre evolucionistas e criacionistas, é um dos mais presentes nas 164 respostas.
Quando estudante, Carolyn Porco achava que a ciência seria unanimemente respeitada e jamais questionada. Hoje, responsável pelo Laboratório Cassini, que produz as mais nítidas imagens de planetas e galáxias, ela não tem mais “certeza de que o método científico sobreviverá se não for constantemente protegido”.
O psicólogo Steven Pinker, de Harvard, é outro consultado que mudou suas convicções. “Estudos publicados há pouco”, diz ele, “indicam que até 10% do genoma humano tem passado por um forte processo recente de seleção natural”. Por “recente”, entenda-se alguns milhares de anos. Diferentemente do que ele acreditava, “nós humanos continuamos passando pelo processo de evolução”.
Seu companheiro de Harvard, o médico Nicholas Christakis, também acreditava que a evolução estivesse interrompida, mas mudou de opinião. Ele cita a habilidade que alguns grupos humanos, em comunidades pastoris, desenvolveram de digerir lactose após a idade adulta. Isso não aconteceu em culturas dedicadas à caça, que não se alimentavam de leite animal. Para Christakis, isso quer dizer que não apenas estamos ainda evoluindo como confirma que “a cultura influi na seleção natural”.
Antropólogo da Universidade de Michigan, Scott Atran descobriu em suas pesquisas recentes que algumas das velhas convicções de sua ciência não explicam determinados comportamentos. O martírio dos homens-bomba, por exemplo. Seguindo a antropologia tradicional, ele foi a campo convicto de que um misto de fatores socioeconômicos e individuais levariam jovens muçulmanos a se matarem em nome de Deus. Mas descobriu que 70% dos afiliados da Al-Qaeda chegam pelas mãos de amigos. Os laços que impõem a fidelidade mortal são de amizade. Não são portanto os fatores em que se acreditava, mas a dinâmica de pequenos grupos, que põe o terrorismo em marcha.
Freeman Dyson, talvez o maior físico vivo e um antigo crítico do armamento nuclear, jamais havia questionado a possibilidade de o Japão ter-se rendido, no final da 2ª Guerra, por causa das bombas atômicas que destruíram Hiroshima e Nagasaki. Mas uma pesquisa do historiador Ward Wilson, publicada há alguns meses na revista International Security, de Harvard, o convenceu do contrário. Wilson teve acesso às atas das reuniões do alto conselho de guerra japonês naquele agosto de 1945. Mal discutiram as bombas, enquanto acompanhavam obcecados o avanço russo na costa do Pacífico da Ásia. O Conselho Supremo decidiu pela rendição no próprio 9 de agosto em que Nagasaki explodiu. Mas a bomba atômica foi a menor de suas preocupações. A conclusão de Dyson, baseada nos documentos, é que o Japão se rendeu aos americanos para evitar uma invasão russa.
Ernst Pöppel, neurocientista da Universidade de Munique, puxa de uma afirmação do filósofo Ludwig Wittgenstein um dos dogmas que perdeu recentemente. “O limite de minha linguagem é o limite do meu mundo”, havia escrito Wittgenstein. “Hoje, respondo a isso com um sonoro não!”, diz Pöppel. A idéia de que o conhecimento de alguém seja limitado pelo repertório de palavras começa a ser descartada pela neurociência. “O que é o tempo?”, pergunta Pöppel, citando Santo Agostinho. “Se ninguém me perguntar, sei o que é; mas se precisar explicar, não saberei.” Seria o mesmo que indagar “o que é consciência” ou “o que é livre arbítrio”, conceitos difíceis de definir, mas que compreendemos intuitivamente. O que Pöppel não consegue é explicar como se livrou da “camisa de força de Wittgenstein”. “Provavelmente foram vários pequenos motivos se acumulando”, ele sugere, referindo-se à essência do método científico.
Há pelo menos uma questão antiga e polêmica da física que virou a cabeça de cientistas que responderam à Edge. É a possibilidade de que uma única teoria possa, um dia, explicar como se relacionam as quatro forças fundamentais do universo: gravitacional, eletromagnética, forte (que mantém prótons e nêutrons juntos no átomo) e fraca (que explica o decaimento de núcleos atômicos e a conseqüente radioatividade). Isoladamente, essas forças são bem conhecidas e explicadas. Há teorias que conseguem explicar a relação de duas, até três delas - mas nenhuma que dê conta das quatro. Albert Einstein passou os últimos 30 anos de sua vida nessa busca infrutífera.
O brasileiro Marcelo Gleiser, do prestigiado Dartmouth College, considerava-se um unitarista, mais um entre os muitos físicos que acreditavam na existência dessa teoria que representa o Santo Graal de sua ciência. “Uma teoria assim, que explique toda a natureza, nos atrai pela estética”, ele escreveu. “Mas minha impressão atual é de que ela não existe, não corresponde à realidade: a natureza não dá a mínima para os mitos que criamos.” Ele não está sozinho. John Baez, da Universidade da Califórnia, é outro que dedicou mais de uma década da vida à teoria unificadora. Aí, parou. “Estou pensando em outras coisas e, com outras preocupações, começo a entender o universo muito melhor do que antes.”
São muitos, afinal, os mistérios das ciências. Paleontólogos discutem há anos o que levou à extinção dos dinossauros. Um asteróide gigantesco no final da Era Mesozóica, faz uns 65 milhões de anos, chocou-se contra a Terra. Scott Sampson, curador chefe do Museu de História Natural de Utah e apresentador da popular série de TV, nos EUA, Dinosaur Planet, acreditava que o asteróide não levou os grandes sauros à extinção sozinho. O planeta já vinha sofrendo lentas transformações climáticas. Novas evidências sugerem que não - e Sampson mudou de time. A fauna e a flora mesozóicas iam muito bem, obrigado. Ou seja: aquele choque, a mais de 100 mil quilômetros por hora, mudou rápida e radicalmente a vida que existia no planeta.
Imagine um cientista, um tipo intelectual, e o estereótipo sugerido pelo psicólogo Jonathan Haidt, da Universidade da Virgínia, não estará longe: “Nasci sem o centro neural que faz os meninos sentirem prazer em brincar com bola”. Acreditava que esportes não tinham utilidade. Depois de muitos e muitos anos, recentemente mudou de idéia: esportes não são assim tão maus. Estudos recentes indicam a importância de “dança sincronizada, marcha e outras formas de movimento”, uma inovação evolutiva que formou a base para a “coesão social de todo e qualquer grupo que se mantenha unido ao longo do tempo”. Esportes, quem diria, servem à sobrevivência humana.

Estado de S. Paulo

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A verdadeira história do Natal

A humanidade comemora essa data desde bem antes do nascimento de Jesus. Conheça o bolo de tradições que deram origem à Noite Feliz

Thiago Minami e Alexandre Versignassi

Roma, século 2, dia 25 de dezembro. A população está em festa, em homenagem ao nascimento daquele que veio para trazer benevolência, sabedoria e solidariedade aos homens. Cultos religiosos celebram o ícone, nessa que é a data mais sagrada do ano. Enquanto isso, as famílias apreciam os presentes trocados dias antes e se recuperam de uma longa comilança.

Mas não. Essa comemoração não é o Natal. Trata-se de uma homenagem à data de “nascimento” do deus persa Mitra, que representa a luz e, ao longo do século 2, tornou-se uma das divindades mais respeitadas entre os romanos. Qualquer semelhança com o feriado cristão, no entanto, não é mera coincidência.

A história do Natal começa, na verdade, pelo menos 7 mil anos antes do nascimento de Jesus. É tão antiga quanto a civilização e tem um motivo bem prático: celebrar o solstício de inverno, a noite mais longa do ano no hemisfério norte, que acontece no final de dezembro. Dessa madrugada em diante, o sol fica cada vez mais tempo no céu, até o auge do verão. É o ponto de virada das trevas para luz: o “renascimento” do Sol. Num tempo em que o homem deixava de ser um caçador errante e começava a dominar a agricultura, a volta dos dias mais longos significava a certeza de colheitas no ano seguinte. E então era só festa. Na Mesopotâmia, a celebração durava 12 dias. Já os gregos aproveitavam o solstício para cultuar Dionísio, o deus do vinho e da vida mansa, enquanto os egípcios relembravam a passagem do deus Osíris para o mundo dos mortos. Na China, as homenagens eram (e ainda são) para o símbolo do yin-yang, que representa a harmonia da natureza. Até povos antigos da Grã-Bretanha, mais primitivos que seus contemporâneos do Oriente, comemoravam: o forrobodó era em volta de Stonehenge, monumento que começou a ser erguido em 3100 a.C. para marcar a trajetória do Sol ao longo do ano.

A comemoração em Roma, então, era só mais um reflexo de tudo isso. Cultuar Mitra, o deus da luz, no 25 de dezembro era nada mais do que festejar o velho solstício de inverno - pelo calendário atual, diferente daquele dos romanos, o fenômeno na verdade acontece no dia 20 ou 21, dependendo do ano. Seja como for, esse culto é o que daria origem ao nosso Natal. Ele chegou à Europa lá pelo século 4 a.C., quando Alexandre, o Grande, conquistou o Oriente Médio. Centenas de anos depois, soldados romanos viraram devotos da divindade. E ela foi parar no centro do Império.

Mitra, então, ganhou uma celebração exclusiva: o Festival do Sol Invicto. Esse evento passou a fechar outra farra dedicada ao solstício. Era a Saturnália, que durava uma semana e servia para homenagear Saturno, senhor da agricultura. “O ponto inicial dessa comemoração eram os sacrifícios ao deus. Enquanto isso, dentro das casas, todos se felicitavam, comiam e trocavam presentes”, dizem os historiadores Mary Beard e John North no livro Religions of Rome (”Religiões de Roma”, sem tradução para o português). Os mais animados se entregavam a orgias - mas isso os romanos faziam o tempo todo. Bom, enquanto isso, uma religião nanica que não dava bola para essas coisas crescia em Roma: o cristianismo.

Solstício cristão

As datas religiosas mais importantes para os primeiros seguidores de Jesus só tinham a ver com o martírio dele: a Sexta-Feira Santa (crucificação) e a Páscoa (ressurreição). O costume, afinal, era lembrar apenas a morte de personagens importantes. Líderes da Igreja achavam que não fazia sentido comemorar o nascimento de um santo ou de um mártir - já que ele só se torna uma coisa ou outra depois de morrer. Sem falar que ninguém fazia idéia da data em que Cristo veio ao mundo - o Novo Testamento não diz nada a respeito. Só que tinha uma coisa: os fiéis de Roma queriam arranjar algo para fazer frente às comemorações pelo solstício. E colocar uma celebração cristã bem nessa época viria a calhar - principalmente para os chefes da Igreja, que teriam mais facilidade em amealhar novos fiéis. Aí, em 221 d.C., o historiador cristão Sextus Julius Africanus teve a sacada: cravou o aniversário de Jesus no dia 25 de dezembro, nascimento de Mitra. A Igreja aceitou a proposta e, a partir do século 4, quando o cristianismo virou a religião oficial do Império, o Festival do Sol Invicto começou a mudar de homenageado. “Associado ao deus-sol, Jesus assumiu a forma da luz que traria a salvação para a humanidade”, diz o historiador Pedro Paulo Funari, da Unicamp. Assim, a invenção católica herdava tradições anteriores. “Ao contrário do que se pensa, os cristãos nem sempre destruíam as outras percepções de mundo como rolos compressores. Nesse caso, o que ocorreu foi uma troca cultural”, afirma outro historiador especialista em Antiguidade, André Chevitarese, da UFRJ.

Não dá para dizer ao certo como eram os primeiros Natais cristãos, mas é fato que hábitos como a troca de presentes e as refeições suntuosas permaneceram. E a coisa não parou por aí. Ao longo da Idade Média, enquanto missionários espalhavam o cristianismo pela Europa, costumes de outros povos foram entrando para a tradição natalina. A que deixou um legado mais forte foi o Yule, a festa que os nórdicos faziam em homenagem ao solstício. O presunto da ceia, a decoração toda colorida das casas e a árvore de Natal vêm de lá. Só isso.

Outra contribuição do norte foi a idéia de um ser sobrenatural que dá presentes para as criancinhas durante o Yule. Em algumas tradições escandinavas, era (e ainda é) um gnomo quem cumpre esse papel. Mas essa figura logo ganharia traços mais humanos.

Nasce o Papai Noel

Ásia Menor, século 4. Três moças da cidade de Myra (onde hoje fica a Turquia) estavam na pior. O pai delas não tinha um gato para puxar pelo rabo, e as garotas só viam um jeito de sair da miséria: entrar para o ramo da prostituição. Foi então que, numa noite de inverno, um homem misterioso jogou um saquinho cheio de ouro pela janela (alguns dizem que foi pela chaminé) e sumiu. Na noite seguinte, atirou outro; depois, mais outro. Um para cada moça. Aí as meninas usaram o ouro como dotes de casamento - não dava para arranjar um bom marido na época sem pagar por isso. E viveram felizes para sempre, sem o fantasma de entrar para a vida, digamos, “profissional”. Tudo graças ao sujeito dos saquinhos. O nome dele? Papai Noel.

Bom, mais ou menos. O tal benfeitor era um homem de carne e osso conhecido como Nicolau de Myra, o bispo da cidade. Não existem registros históricos sobre a vida dele, mas lenda é o que não falta. Nicolau seria um ricaço que passou a vida dando presentes para os pobres. Histórias sobre a generosidade do bispo, como essa das moças que escaparam do bordel, ganharam status de mito. Logo atribuíram toda sorte de milagres a ele. E um século após sua morte, o bispo foi canonizado pela Igreja Católica. Virou são Nicolau.

Um santo multiuso: padroeiro das crianças, dos mercadores e dos marinheiros, que levaram sua fama de bonzinho para todos os cantos do Velho Continente. Na Rússia e na Grécia Nicolau virou o santo nº1, a Nossa Senhora Aparecida deles. No resto da Europa, a imagem benevolente do bispo de Myra se fundiu com as tradições do Natal. E ele virou o presenteador oficial da data. Na Grã-Bretanha, passaram a chamá-lo de Father Christmas (Papai Natal). Os franceses cunharam Pére Nöel, que quer dizer a mesma coisa e deu origem ao nome que usamos aqui. Na Holanda, o santo Nicolau teve o nome encurtado para Sinterklaas. E o povo dos Países Baixos levou essa versão para a colônia holandesa de Nova Amsterdã (atual Nova York) no século 17 - daí o Santa Claus que os ianques adotariam depois. Assim o Natal que a gente conhece ia ganhando o mundo, mas nem todos gostaram da idéia.

Natal fora-da-lei

Inglaterra, década de 1640. Em meio a uma sangrenta guerra civil, o rei Charles 1º digladiava com os cristãos puritanos - os filhotes mais radicais da Reforma Protestante, que dividiu o cristianismo em várias facções no século 16.

Os puritanos queriam quebrar todos os laços que outras igrejas protestantes, como a anglicana, dos nobres ingleses, ainda mantinham com o catolicismo. A idéia de comemorar o Natal, veja só, era um desses laços. Então precisava ser extirpada.

Primeiro, eles tentaram mudar o nome da data de “Christmas” (Christ’s mass, ou Missa de Cristo) para Christide (Tempo de Cristo) - já que “missa” é um termo católico. Não satisfeitos, decidiram extinguir o Natal numa canetada: em 1645, o Parlamento, de maioria puritana, proibiu as comemorações pelo nascimento de Cristo. As justificativas eram que, além de não estar mencionada na Bíblia, a festa ainda dava início a 12 dias de gula, preguiça e mais um punhado de outros pecados.

A população não quis nem saber e continuou a cair na gandaia às escondidas. Em 1649, Charles 1º foi executado e o líder do exército puritano Oliver Cromwell assumiu o poder. As intrigas sobre a comemoração se acirraram, e chegaram a pancadaria e repressões violentas. A situação, no entanto, durou pouco. Em 1658 Cromwell morreu e a restauração da monarquia trouxe a festa de volta. Mas o Natal não estava completamente a salvo. Alguns puritanos do outro lado do oceano logo proibiriam a comemoração em suas bandas. Foi na então colônia inglesa de Boston, onde festejar o 25 de dezembro virou uma prática ilegal entre 1659 e 1681. O lugar que se tornaria os EUA, afinal, tinha sido colonizado por puritanos ainda mais linha-dura que os seguidores de Cromwell. Tanto que o Natal só virou feriado nacional por lá em 1870, quando uma nova realidade já falava mais alto que cismas religiosas.

Tio Patinhas

Londres, 1846, auge da Revolução Industrial. O rico Ebenezer Scrooge passa seus Natais sozinho e quer que os pobres se explodam “para acabar com o crescimento da população”, dizia. Mas aí ele recebe a visita de 3 espíritos que representam o Natal. Eles lhe ensinam que essa é a data para esquecer diferenças sociais, abrir o coração, compartilhar riquezas. E o pão-duro se transforma num homem generoso.

Eis o enredo de Um Conto de Natal, do britânico Charles Dickens. O escritor vivia em uma Londres caótica, suja e superpopulada - o número de habitantes tinha saltado de 1 milhão para 2,3 milhões na 1a metade do século 19. Dickens, então, carregou nas tintas para evocar o Natal como um momento de redenção contra esse estresse todo, um intervalo de fraternidade em meio à competição do capitalismo industrial. Depois, inúmeros escritores seguiram a mesma linha - o nome original do Tio Patinhas, por exemplo, é Uncle Scrooge, e a primeira história do pato avarento, feita em 1947, faz paródia a Um Conto de Natal. Tudo isso, no fim das contas, consolidou a imagem do “espírito natalino” que hoje retumba na mídia. Quer dizer: quando começar o próximo especial de Natal da Xuxa, pode ter certeza de que o fantasma de Dickens vai estar ali.

Outra contribuição da Revolução Industrial, bem mais óbvia, foi a produção em massa. Ela turbinou a indústria dos presentes, fez nascer a publicidade natalina e acabou transformando o bispo Nicolau no garoto-propaganda mais requisitado do planeta. Até meados do século 19, a imagem mais comum dele era a de um bispo mesmo, com manto vermelho e mitra - aquele chapéu comprido que as autoridades católicas usam. Para se enquadrar nos novos tempos, então, o homem passou por uma plástica. O cirurgião foi o desenhista americano Thomas Nast, que em 1862, tirou as referências religiosas, adicionou uns quilinhos a mais, remodelou o figurino vermelho e estabeleceu a residência dele no Pólo Norte - para que o velhinho não pertencesse a país nenhum. Nascia o Papai Noel de hoje. Mas a figura do bom velhinho só bombaria mesmo no mundo todo depois de 1931, quando ele virou estrela de uma série de anúncios da Coca-Cola. A campanha foi sucesso imediato. Tão grande que, nas décadas seguintes, o gorducho se tornou a coisa mais associada ao Natal. Mais até que o verdadeiro homenageado da comemoração. Ele mesmo: o Sol.

Revista Superinteressante
http://super.abril.com.br/super2/home/

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O entusiasmo de um inventor

Apaixonado por fotografia, Conrado Wessel criou a primeira fábrica brasileira de papel fotográfico

Ciência e arte sempre foram as paixões de Conrado Wessel. Como inventor nato, criou um papel fotográfico inovador; como empreendedor obstinado, foi dele a primeira fábrica brasileira para produzir esse papel. Há 86 anos, Conrado conseguia junto com o pai, Guilherme Wessel, a expedição da carta patente do invento, assinada pelo presidente Epitácio Pessoa. Mesmo com a forte concorrência estrangeira, ele conquistou o mercado e formou um patrimônio imobiliário que, obedecendo ao desejo expresso em seu testamento, foi utilizado como lastro para criar uma fundação que apoiasse atividades educativas e culturais de seis entidades e incentivasse a arte, a ciência e a cultura por meio de prêmios. A Fundação foi instituída em 1994, um ano após sua morte, aos 102 anos, e hoje cumpre exemplarmente as metas de seu idealizador.

Conrado Wessel nasceu em Buenos Aires, em 1891, filho de família tradicional de fabricantes de chapéus de Hamburgo, na Alemanha, em meados do século XIX. No ano seguinte ao seu nascimento, a família migrou para Sorocaba, interior de São Paulo, e posteriormente para a capital paulista. Apaixonado por fotografia, Guilherme Wessel, o pai, previa um grande futuro para o setor. Paralelamente às aulas de matemática que lecionava no Seminário Episcopal de São Paulo, no bairro da Luz, perto da Escola Politécnica, ele alugou uma loja onde instalou uma clicheria e na qual também vendia material fotográfico, na rua Direita n° 20.

Conrado herdou a paixão do pai e sempre se aventurou a fazer fotos – ainda jovem, ganhou dois prêmios em concursos promovidos pela Secretaria de Agricultura. Também auxiliava Guilherme na gerência da loja. Por insistência do pai foi para Viena, na Áustria, em 1911, estudar química. Lá aprendeu fotoquímica na K.K. Lehr und Versuchs Antstalt, renomada escola de fotografia, especializando-se em clichês para jornais e revistas. Voltou ao Brasil dois anos depois com um projeto ambicioso: sonhava com uma fábrica de papel fotográfico nacional. Posteriormente, Conrado assistiu por quatro anos às aulas na Escola Politécnica como aluno-ouvinte do curso de engenharia química e foi um assistente informal do professor alemão Roberto Hottinger, responsável pela cadeira de bioquímica, físico-química e eletroquímica.

“Durante quatro anos fiz de tudo ali”, contou Wessel. “Desde a preparação do nitrato de prata até os estudos das diferentes qualidades de gelatinas. Da ação dos halogênios como o bromo, o cloro e o iodo sobre o nitrato de prata. Fiz inúmeras experiências misturando o nitrato de prata ao brometo de potássio, ao cloreto de sódio e ao iodeto de potássio. Cheguei à conclusão de que a mistura de uma pequena dose de iodo ao bromo dava muito melhor resultado, assim como a adição do bromo ao cloro.”

Depois de muitas experiências, Conrado Wessel chegou a uma fórmula satisfatória para o papel, cujas provas, como ele sublinhou, agradaram muito ao seu pai. “Em plena pujança da mocidade, taxado de louco inclusive pelo então representante de uma indústria estrangeira de fotografia que por todos os meios quis me persuadir a desistir de continuar no meu sonho de fabricar papel fotográfico no Brasil, no ano de 1921 eu instalei a fábrica de papéis fotográficos situada à Rua Lopes de Oliveira, 198”, escreveu Wessel. “Comprei umas máquinas que estavam de posse do dr. Picarollo, professor de filosofia na Escola Normal, hoje Caetano de Campos. Quando eu soube que ele e o filho queriam vender as máquinas me apressei em comprá-las. Depois de regatear consegui adquirir tudo por oito contos e quinhentos.”

Na época, os fotógrafos do Jardim da Luz, um dos principais locais de lazer da cidade, trabalhavam com uma câmera-laboratório. Era uma caixa de madeira com uma objetiva sobre um tripé. A câmera era dividida em duas partes. A inferior continha os banhos de revelador e fixador utilizados para o processamento químico de filmes e papéis. O papel utilizado era importado de fabricantes europeus.

O próximo desafio de Wessel era iniciar a produção. “As fórmulas que eu havia elaborado pareciam boas, mas não poderia assegurar que seriam boas também na fabricação”, ele registrou, preocupado. O papel necessário para os testes foi mais difícil, já que no Brasil não havia nenhuma fábrica para fornecer o papel baritado. O material tinha que ser comprado na França, fabricado pela Rivers, ou na Alemanha, pela Scholler. O jovem inventor saiu à cata de um importador. “Enquanto a encomenda não chegava, estudei como pendurar o papel emulsionado para secar no pequeno espaço de que dispunha”, disse.

O acaso ajudou-o a encontrar a solução. Wessel estava na Tapeçaria Schultz, para a qual realizava um serviço de propaganda, quando lhe chamou a atenção o sistema de cortinas que se moviam por cordinhas usadas pelos tapeceiros. Fez um croqui do sistema utilizado na Schultz e imaginou que, empregando método semelhante, poderia secar mais de 100 metros de papel.

O papel chegou e a pequena fábrica iniciou sua produção. “Foi um desastre”, resumiu. Não se aproveitaram mais do que 10 centímetros dos 10 metros de papel emulsionados. Nova tentativa, nova frustração. O papel, ele descreveu, estava quase todo “eivado de pequenas bolhas e outras partículas indesejáveis”. Enquanto pensava sobre o problema, mais uma vez o acaso – e o olhar arguto – trouxe a solução. Wessel foi chamado à fábrica das Linhas Correntes, no Ipiranga, para executar um serviço de clichês. No salão de espera, reparou numa pequena máquina utilizada para passar goma no verso das etiquetas. “Havia uma cuba e um rolo imerso dentro dela. Com a máquina em movimento, o rolo passava uma certa quantidade da solução, deixando estrias sobre o papel, que também seguia seu curso. Eureca, pensei, meu problema está resolvido”, descreveu.

Mais uma vez fez um croqui e adaptou a máquina de emulsionagem ao modelo daquela utilizada para gomar etiquetas. E detalhou os resultados: “A máquina se resumia no seguinte: uma cuba de barro vidrado (naquela época não existia o aço inoxidável) cheia de emulsão e um rolo de ebonite que mergulhava nela. O papel passava entre um outro eixo fixo, regulado como o rolo. Dessa maneira, as bolhas ficavam todas na cuba. Mais tarde esse sistema foi melhorado, com mais de um rolo de ebonite, tornando impossível o surgimento de bolhas sobre o papel. Fizemos novas experiências com pleno êxito. Vamos fabricar e vender”, comemorou. Nasceu assim a Fábrica Privilegiada de Papéis Photographicos Wessel.

Ele não imaginava, no entanto, que teria que enfrentar ainda a resistência dos fotógrafos, seus potenciais clientes. “Eles experimentaram o material, acharam bons os resultados, mas julgaram melhor continuar com o postal da Ridax, da Gevaert, apesar de o preço do meu ser bem menor.” Foi nessa época que Wessel forjou o lema que o acompanharia por toda a vida: “Insista, não desista”.

Os negócios iam mal até que a história reverteu o risco do fracasso. No dia 5 de julho de 1924 Isidoro Dias Lopes deflagrou o movimento conhecido como a Revolução dos Tenentes. São Paulo ficou sitiada, isolada do resto do país. Aos fotógrafos da Luz faltou papel importado. “Numa manhã de um dos primeiros dias de revolução apareceu um deles em minha casa e perguntou se eu tinha postais para vender”, contou. A revolução abriu-lhe o mercado. Ao fim de 29 dias de cerco, os rebeldes se renderam. O fluxo de papel importado foi restabelecido, mas a fábrica de papéis criada por Conrado Wessel já tinha, definitivamente, conquistado a clientela que lhe permaneceu fiel.

Os grandes fabricantes estrangeiros, como a Gevaert, tentaram ainda recuperar o mercado oferecendo produtos mais baratos. Wessel também baixou os preços. “Por incrível que pareça, estes postais mais baratos não foram aceitos pelos ambulantes. Nem os meus, nem os da Gevaert”, escreveu.

A produção brasileira cresceu, Conrado Wessel comprou um prédio maior e consolidou sua posição no mercado. Não faltaram propostas de empresas estrangeiras interessadas em parceria com a agora próspera fábrica brasileira de papéis, até que o inventor – e agora empresário – firmasse um contrato com a Kodak, garantindo para ela praticamente toda a sua produção, por muitos anos. Em 1949 ficou acertado que a sua patente seria cedida à empresa norte-americana, mediante um acordo societário de construção de nova fábrica em Santo Amaro com maquinário moderno e o nome de Kodak-Wessel, sob a gerência e participação nos lucros de Conrado Wessel. Isso ocorreu em 1949 e durou até 1954. A partir dessa data a patente passou definitivamente à Kodak e o nome da fábrica deixou de ser Kodak-Wessel.

Ao longo desse período, com o lucro dos negócios bem administrados, Conrado Wessel comprou imóveis nos bairros de Campos Elísios, Barra Funda, Santa Cecília e Higienópolis e os deixou, em testamento, como patrimônio inicial da Fundação Conrado Wessel.

Revista da FAPESP
http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

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Teia para saquear o bem público

Quando círculos estatais, semi-estatais e financeiros se unem para burlar a Justiça, seu poder é inesgotável

Francisco Foot Hardman*

Hurricane (Furacão). Navalha. Taturana. Rapina. Carranca. Metástase. Persona. Etc. Os nomes não param nem mentem, as operações da Polícia Federal, idem. Nestes anos todos, a sociedade brasileira acompanha pela TV, quase em tempo real, os desmontes de quadrilhas especializadas no desvio galopante do dinheiro público, muitas delas incrustadas no aparelho de Estado, seja na administração municipal, estadual ou federal, seja no Poder Executivo, Legislativo ou Judiciário. Os números de ações e prisões chegam a ser bombásticos. Nas 184 operações da PF registradas em 2007, até o último dia 18, prenderam-se 310 funcionários públicos. A acusação que lidera o ranking é a de corrupção, seguida pela de fraude. Em 2006, foram 178 operações que detiveram 385 servidores públicos, para 219 em 2005 e 265 no biênio 2003-04.
Acostumou-se também a opinião pública brasileira à constatação - numa rotina quase diária que atinge perigosamente o sentimento de indignação social - de que a impunidade generalizada tem sido o capítulo seguinte à pirotecnia cinematográfica das operações, dos homens de vestes pretas da PF e dos nomes originais de cada uma dessas incursões aos territórios do crime organizado que se perpetra e se reproduz à sombra do Estado. Das centenas de ações e detenções, passado pouco tempo, praticamente ninguém é efetivamente punido com a condenação penal devida. Advogados vangloriam-se do torneio de liminares. Juízes complacentes com os “colarinhos brancos” fazem sua perfomance de favores à defesa do direito ao enriquecimento ilícito, já que a teia processual foi concebida para facilitar o jogo quase infinito de recursos. Velhas raposas da política clientelística, um dos lastros mais tradicionais da corrupção que se apropria privadamente do bem público, repetem, cínicas, no Senado, por exemplo, que se “deve presumir inocência” do réu, mesmo diante das mais sórdidas evidências. Recorre-se à esperteza bacharelesca dos processos arquivados por decurso de prazo, ou à basófia do “transitado em julgado” que jamais transita. Salvam-se Renans. Reelegem-se Malufs e Barbalhos, com anteparo da base governista, para blindagem do mandato popular sob manto excrescente de “imunidade”. Palocci e outros já logo aprendem na mesma escolinha.
O poder de aliança dos círculos estatais, semi-estatais e privados do capital financeiro parece inesgotável e é suprapartidário. Veja-se o caso emblemático do mensalão - um processo que resultou de curiosa aliança de procedimentos tucano-petistas, já que o Valerioduto, gestado em eleições mineiras, foi “universalizado” pelo trio dinâmico Dirceu-Delúbio-Silvinho, com genuíno beneplácito do então presidente do PT.
Será que a culpa toda é do dinheiro? Há muitas leituras assim, que remontam à Roma imperial. Entre as mais próximas de nossa era ressoam ainda como vozes rebeldes e de belas transgressões as imagens com que escritores românticos criticavam a civilização que se assentava com força no século 19, baseada exclusivamente no valor de troca, na vida desumana das grandes cidades, nas ilusões do poder de sedução do dinheiro, entre luxúrias e vexames. Trago para cá, a propósito, alguns versos do enorme poeta que foi Álvares de Azevedo, nascido em São Paulo em 1831 e morto no Rio de Janeiro em 1852, que só precisou de 21 anos para produzir algo da melhor poesia da literatura brasileira (e, por que não dizer, em língua portuguesa?), que em sua sublime e por vezes profética Lira dos Vinte Anos, assim versejava: “O sol é este Deus indefinível/Oiro, prata, papel, ou mesmo cobre/Mais santo do que os Papas - o dinheiro!” Ou então, num outro poema inspirado em Chateaubriand e intitulado simplesmente Dinheiro: “Quem sobe a Deputado, até Ministro/Quem é mesmo Eleitor, embora sábio/Embora gênio, talentosa fronte/Alma Romana, se não tem dinheiro?”
Não é o deus Mammon o bode expiatório de toda a corrupção sistêmica, mas antes as relações sociais e políticas que o engendram e reproduzem. Não é também uma criação original brasileira, nem mesmo recente. Claro que a burocratização maior da máquina estatal e o crescimento das grandes corporações financeiras, em ritmo on-line, acelerou e concentrou enormemente os poderes corrupto-corruptores. Perceber esse processo e sua complexidade não significa naturalizá-lo. Para que não me chamem de derrotista, apelo aqui às mulheres e homens compromissados com uma democracia social digna desse nome para: 1- lutar para o financiamento público de campanhas eleitorais, entre outros tópicos de uma reforma política efetiva; 2- reivindicar que se acabe com a farra das “emendas parlamentares” nas três esferas de poder; 3- defender o fim das nomeações políticas e jetons abusivos nos conselhões das estatais e nos fundos de pensões; 4- lutar pelo fim completo do imposto sindical compulsório no Brasil, uma das heranças mais funestas da era Vargas, dispositivo inspirado, é bom lembrar, no sistema corporativista do aparelho sindical do Estado fascista italiano.
Por que o Senado acaba de salvar, mais uma vez, tal dispositivo? Porque sindicatos e centrais sindicais nascidos e criados sob a égide do Ministério do Trabalho não necessitam de nenhuma legitimidade nem de nenhuma representação real para existirem. São a partir daí criadouros de máfias, elos vivos nas transações mais corruptas entre Estado, trabalhadores e sociedade. E esse conluio entre o corporativismo de políticos e sindicalistas é um dos males mais perversos e autoritários remanescentes entre nós.
*Francisco Foot Hardman é professor de teoria e história literária no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp

Estado de S. Paulo

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Ataques a zonas tribais ameaçam a unidade do Paquistão

O radicalismo islâmico e a repressão de Musharraf ativam as forças contrárias à união do país

Georgina Higueras

Em seu escritório em Islamabad, vestido à ocidental e em um inglês aperfeiçoado durante seus estudos em Oxford, o letrado Iftijar adverte que os bombardeios indiscriminados do exército paquistanês contra as zonas tribais fronteiriças com o Afeganistão e povoadas por pashtuns acabarão por destruir o país.

“Não estamos dispostos a nos transformar no bode expiatório da aliança contra o terror dos EUA com Pervez Musharraf. A vingança é um dos quatro pilares do código pashtun, e a paciência do nosso povo tem um limite”, afirma.

O 11 de Setembro deslocou o foco de tensão desse país conflituoso de sua fronteira oriental para a ocidental. Desligada por motivos religiosos da Índia quando ambos se tornaram independentes em 1947, a disputada região da Caxemira provocou duas guerras e alimentou a terceira (1971), na qual nasceu Bangladesh, o antigo Paquistão Ocidental.

Os 2.912 quilômetros que separam a Índia do Paquistão -dois Estados nucleares desde 1998- continuam sendo, apesar do cessar-fogo estabelecido em 2004, a região mais militarizada do mundo. Por isso os especialistas temem que possa voltar a se incendiar por uma faísca do fogo que alimenta o extremismo islâmico e suas conexões com as máfias da droga e do tráfico de armas.

Hoje a situação tornou-se explosiva na chamada Província Fronteiriça do Noroeste (NWFP na sigla em inglês), uma das quatro que formam o Paquistão, junto com Baluchistão, Punjab e Sind. A maioria da população da NWFP é pashtun, etnia que representa 15,9% dos 165 milhões de paquistaneses.

Os pashtun nunca reconheceram a Linha Durand, fronteira de 2.430 quilômetros que separa o Paquistão do Afeganistão e que os taleban e a Al Qaeda transformaram em um dos maiores focos de tensão do mundo. Traçada pelo Império Britânico em 1893 depois de duas guerras contra o Afeganistão que acabaram em empate, a Linha Durand divide os pashtun: 27 milhões no Paquistão (além de 2 milhões de refugiados afegãos) e 12 milhões no Afeganistão, onde representam 42% da população.

Enquanto a Assembléia da NWFP pediu que o governo central mude o nome da província para Pajtunjua (enclave pashtun), o estado de exceção decretado pelo presidente Musharraf no último dia 3 é utilizado para bombardear o vale de Swat, onde se fortaleceram membros da Al Qaeda e militantes da ilegal Aliança para a Imposição da Lei Islâmica (TNSM). Esta, dirigida pelo religioso pró-taleban Fazlulah, proíbe o urdu -a língua nacional do Paquistão- e defende um Pashtunistão independente governado pela lei islâmica.

O advogado, que prefere que não se mencione seu sobrenome, afirma que “a honra, a hospitalidade e a submissão do vencido ao vencedor” são os outros princípios que governam essa etnia, milhares de anos antes de abraçar o islamismo. Acrescenta que os pashtun são os “mais democráticos do Paquistão”, pelo menos no que se refere aos homens -as mulheres não contam-, porque suas decisões são tomadas por unanimidade do Conselho de Respeitáveis (Loya Yirga). Esse código moral, muito respeitado pelas tribos, contém o avanço das tropas de Musharraf pelas Fata (Áreas Tribais de Administração Federal), zonas nas quais nunca entraram nem o exército paquistanês nem o do Império Britânico.

As Fata, com cerca de 3,5 milhões de habitantes, são historicamente um território indômito de guerreiros, bandoleiros e contrabandistas, que cavalgaram entre a civilização persa e a Índia. Na atualidade, a marginalização imposta pelos chefes tribais em relação ao governo, as instituições e inclusive o desenvolvimento econômico do Paquistão -82% da população é analfabeta-, transformou essas áreas em caldo de cultura do integralismo islâmico, que nas décadas de 70 e 80 ajudou os EUA a combater a invasão soviética do Afeganistão.

Os bombardeios aéreos do exército paquistanês exacerbaram o sentimento de separação e serviram principalmente -segundo o jornalista Shamin ur Rehman, do prestigioso jornal “Dawn”- para “impermeabilizar” outras áreas da NWFP e do Punjab. A infiltração de grupos armados na província mais rica do Paquistão e sua eventual tentativa de desestabilizar o Punjab -que já sofre tensões entre os agricultores e os proprietários de terra- são um dos maiores medos do governo.

Essa ameaça de talebanização é o que Musharraf usa para defender sua mão de ferro contra os militantes. No entanto, o exército está dominado pelos punjabis, assim como a administração, o que agrava o mal-estar de pashtuns, beluchis e sindis e alimenta as aspirações independentistas de seus movimentos nacionalistas.

O general aposentado Masud Talal, que defende a democratização do Paquistão para conter a violência que deixou cerca de mil mortos nos últimos seis meses, afirma que as forças contrárias à unidade do país se alimentam da repressão.

Para o antropólogo Adam Nayar, porém, o que detonou a instabilidade atual não é a divisão étnica do Paquistão, mas a “ruptura do sistema tradicional imposta pela globalização, um fenômeno que o Paquistão ainda não digeriu”. Nayar afirma que “os valores tradicionais se romperam pela influência do dinheiro” e que este, “mais que a violência religiosa”, exacerba as relações entre as diversas comunidades e especialmente dos baluchis com o resto do país.

O Baluchistão, a maior província paquistanesa, conta com apenas 10 milhões de habitantes -60% baluchis e os demais pashtuns-, mas guarda em seu subsolo enormes reservas de gás. Com 909 km de fronteira com o Irã e o resto com o Afeganistão, os nacionalistas baluchis sempre estiveram isolados e têm uma longa lista de agravos contra o poder central paquistanês.

Na década de 1970, as tentativas do então primeiro-ministro Zulfikar Ali Bhutto de povoar as terras baluchis com panjabis e hindis provocou uma revolta armada baluchi, brutalmente esmagada. A derrota dos taleban, cujo feudo era Kandahar, a cerca de 500 km de Queta, a capital baluchi, fez que centenas de dirigentes do antigo regime e da Al Qaeda fugissem para esta província paquistanesa.

O general Musharraf aproveitou a conjuntura para se empenhar na limpeza da região, tanto de militantes procedentes do Afeganistão como das diversas guerrilhas separatistas baluchis. O ano mais conflituoso foi 2005, quando o governo paquistanês sitiou o povoado de Dera Bugti para acabar com o chefe guerrilheiro Nawab Akbar Jan Bugti e provocou um banho de sangue. Na última quarta-feira foi decretado o toque de recolher em Queta para evitar uma chacina depois da morte em circunstâncias estranhas do líder do ilegal Exército de Libertação do Baluchistão (BLA), Nawabzada Balach Marri.

Sind é a província mais multiétnica do país. Nela estão amplamente representadas todas as nacionalidades, além dos mohairs, que são de origem indiana e língua urdu. Os sindis não chegam a 60% dos 57 milhões de habitantes. O movimento independentista se alimenta dos freqüentes choques entre sindis e mohairs. Os primeiros são proprietários de terras e agricultores, enquanto os segundos são majoritários nas cidades -incluindo a capital financeira, Karachi- e com suas conquistas econômicas deixaram para trás os sindis, o que cria um enorme mal-estar.

El País
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Aspectos dos conflitos nas últimas décadas

Nelson Bacic Olic

A desagregação da União Soviética e a unificação da Alemanha introduziram alterações profundas no cenário político europeu e mundial sem que houvesse guerra. A antiga Checoslováquia separou-se em dois países sem guerra. Embora a desintegração da Iugoslávia socialista tenha acontecido com grande violência e que conflitos e tensões geopolíticas continuem ocorrendo em várias regiões do Cáucaso (Chechênia, Geórgia) e da África subsaariana, estas são guerras razoavelmente localizadas, bem diferentes das “guerras globais”.

Há uma certa rarefação do fenômeno guerra, embora isso não queira dizer que o nosso mundo esteja menos afetado pela violência que no passado, mas tornaram-se raras as guerras convencionais que opunham uma nação à outra. O balanço que se pode fazer dos conflitos nos últimos 25 anos mostra como foram escassas as guerras entre dois Estados.

Numerosos pontos de crise e zonas sensíveis, onde existiria probabilidade de conflito como entre as duas Coréias ou as duas Chinas, não redundaram em conflitos abertos. As poucas guerras de conquistas que se verificaram não tiveram resultados positivos, no sentido em que nenhum Estado agressor, nenhum país que teve a iniciativa de desencadear operações militares com intuitos de conquista, salvo exceções pouco significativas, alcançou seus objetivos.

No passado, a maioria das guerras tinha motivações territoriais, fossem litígios fronteiriços, fossem reivindicações de territórios, fossem ambições expansionistas e terminavam muitas vezes pela ocupação e submissão de uns povos a outros. Atualmente, a conquista territorial parece ter caído em desuso.

Isso ocorreu, por exemplo, quando no final da década de 1970, a Somália pretendeu conquistar a região do deserto de Ogaden da Etiópia, ou quando a Argentina tentou recuperar pela força as ilhas Malvinas então sob domínio britânico (1982), ou ainda quando o Iraque atacou o Irã para anexar a outra margem do Shatt-el-Arab (conflito que durou de 1980 a 1988) e, anos mais tarde quando o Iraque invadiu o Kuwait (1991). Mais recentemente, o mesmo aconteceu quando a Eritréia se dispôs a recuperar uma faixa de território dos etíopes (1998/2000). Em todos esses casos, as guerras fracassaram sem a vitória dos que iniciaram os conflitos.

Por outro lado, desde a China e o Vietnã até a Argélia e as colônias portuguesas da África, passando por Cuba e Nicarágua, as guerrilhas foram somando êxitos, numa dupla vertente que combinou lutas de libertação e de instauração de regimes revolucionários. Mas essa promessa deixou de se cumprir a partir da década de 1980. A revolução sandinista da Nicarágua parece ter sido o último episódio de uma “luta popular prolongada” vitoriosa. A partir de 1980 nenhum movimento de guerrilha chegou ao poder pela via armada, com exceção da Frente Popular de Libertação da Eritréia, a qual mesmo assim se submeteu a um referendo de legitimação.

Ao mesmo tempo, ocorreu um novo fenômeno: a guerrilha passou a ser usada, não mais pelas forças de esquerda como forma libertadora, mas por correntes denominadas contra-revolucionárias, apoiadas pelo governo norte-americano, como foram os casos dos “fedahins” no Afeganistão, da UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola) em Angola, da RENAMO (Resistência Nacional Moçambicana) em Moçambique e dos “contra” na Nicarágua.

Curiosamente, o conjunto destes conflitos armados teve como ponto comum a ausência de uma vitória militar. Eles não terminam graças a um triunfo de um dos lados, mas acabaram ou por via de negociação pacífica, por desfecho político, ou simplesmente por um intenso desgaste das partes em luta.

O levantamento de várias dezenas de guerrilhas espalhadas pelos diversos continentes nestas últimas duas décadas vem demonstrando que a proclamada força das armas não tem sido eficaz para a obtenção de vitórias militares. Essa conclusão mais o fato da relativa raridade dos conflitos interestatais parece nos levar a conclusão de que estamos diante a uma tendência relevante da conflitualidade em nosso tempo: o desgaste da violência armada tradicional como forma de resolução de conflitos.

É claro que o ataque às Torres Gêmeas e ao Pentágono, em setembro de 2001, e a invasão do Iraque por parte das forças norte-americanas e de países aliados em 2003, abriram novas perspectivas para análise da dinâmica dos conflitos contemporâneos. Mas, isso é assunto para um outro artigo.

Revista Pangea
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As sete faces da musa

Espelhos de sua decantada beleza, os auto-retratos de Tarsila do Amaral revelam a permanente inquietação da pintora modernista

Lucia Teixeira

Famosa por sua beleza, invejada pela riqueza, criticada por afrontar a moral vigente, Tarsila do Amaral é uma das personalidades mais interessantes do modernismo brasileiro. Viagens ao exterior, quatro casamentos, uma prisão política, ligações com grandes artistas da época e outros episódios de sua vida movimentada ajudaram a criar a imagem da mulher bela, livre e determinada que se colou indelevelmente à sua obra e aos muitos juízos críticos sobre ela formulados.

“Nunca vi boniteza tão brasileira como a da pessoa e dos quadros de Tarsila”, escreveu o poeta Manuel Bandeira, em contraste, e ao mesmo tempo de acordo, com a crítica ferina do Jornal do Comércio, na qual o autor, tachando de “monstruosas” as formas da pintura de Tarsila, reconhece tratar-se “evidentemente” de “mulher muito bela, a julgar pelo retrato que ilustra o seu catálogo”. Já um crítico do Correio da Manhã identificou nas telas da pintora “a mesma radiosa e inegável beleza, que condiz plenamente com a da própria artista”.

Tarsila aparece numa crônica do escritor Geraldo Ferraz, publicada no Jornal de Notícias, quase como personagem de conto de fadas: “Em São Paulo de 1920, era uma vez uma moça que morava na rua Barão de Piracicaba, num casarão… Discípula de Pedro Alexandrino, pintara academicamente. Essa ‘sinhazinha’ descobriria, a partir daquele ano, a pintura moderna”. E mais adiante: “Pois é essa moça fazendeira, sinhazinha garrida da felicidade de ser bonita e de ter o mundo aos seus pés, que faz o primeiro levantamento da pintura brasileira, em seus coloridos mais reconhecíveis…”.

O crítico e historiador do modernismo Mário da Silva Brito, no texto de apresentação do catálogo da exposição retrospectiva de Tarsila, realizada no MAM do Rio de Janeiro em 1969, depois de reconhecer o papel de luta e polêmica desempenhado pela pintora, curva-se aos encantos da mulher, “a linda Tarsila, que encanta os seus companheiros, que inspira paixões, musa e artista…”.

A imagem da pintora era atravessada pelo corpo da mulher, beleza a arrebatar o olhar desviado das telas pintadas. É quase um dever histórico, portanto, voltar a Tarsila, admirar as qualidades internas de seus quadros, contemplar os efeitos obtidos por uma cor, uma forma, admirar o modo espaçoso de ocupar as telas. Mas é possível também encontrar de volta, nessa contemplação, a mulher bonita que arrebatou olhares de admiração.

Deixemos de lado “A Negra”, o “Abaporu” e “Antropofagia”, ícones do modernismo, e as paisagens singelas, coloridas com os rosas e azuis tomados das paredes simples de casas do interior. Não nos fixemos na pintura comprometida socialmente, como “Operários”, “S. Paulo (Gazo)” ou “Segunda Classe”, nem nos conhecidos flagrantes urbanos de “Vendedor de Frutas”, “A Feira” ou “A Gare”.

Se de cada pintura de Tarsila se podem recolher traços, gestos, cores e formas que juntos constituem a personalidade artística da pintora, é em seus auto-retratos, explicitamente assim intitulados, que vamos encontrar a mulher moderna, ativa e ativista, que, dentro da tela, afirma sua passagem de musa a artista.

No livro em que faz a catalogação das obras de Tarsila, a historiadora e crítica de arte Aracy Amaral lista sete auto-retratos, dos quais o primeiro é o óleo sobre tela de 1921, de influência claramente acadêmica. O quadro identifica a formação de Tarsila, adquirida primeiro nas aulas com o pintor brasileiro Pedro Alexandrino e, em seguida, com a freqüência, em 1920, aos cursos livres da Academia Julian, em Paris, onde conviveu com estudantes de arte do mundo inteiro. Proibidas de freqüentar as aulas da Escola de Belas-Artes, as mulheres tinham na Julian a oportunidade não só de aprender técnicas de pintura, mas também de pintar nus a partir de modelos masculinos. Se a escola inovava em comportamento e acolhia artistas animados pelo espírito dos tempos modernos, em busca da liberdade de criar, seus professores insistiam na pintura marcada por regras clássicas, presa às convenções das boas proporções e da elegância de cores e figuras.

Apenas dois anos depois desse auto-retrato acadêmico, Tarsila pintaria aquele que é seu auto-retrato mais conhecido, o do manteau rouge. Retomando do anterior o fundo neutro do qual ressalta uma figura de mulher, a pintora subverte o motivo, com o emprego da cor pura e da forma geometrizante, aprendidas em outra viagem a Paris, com a freqüência aos ateliês de Lhote e Léger, dois pintores antenados com os novos tempos. Ainda que tenha declarado certa vez que foi no Brasil que tomou contato com o modernismo, Tarsila não terá passado impunemente pela Paris efervescente dos admiradores de Picasso, dos críticos do cubismo, das exposições provocadoras das vanguardas. Sua formação acadêmica vai ceder lugar à fatura moderna que a consagrará.

Nesse auto-retrato de 1923, duas cercaduras englobam o corpo, a roupa e o fundo. A roupa, pintada em gradações quentes do vermelho, é a forma que ocupa maior espaço na tela. O efeito volumoso da gola é criado pelo contraste entre a cor da pele e o vermelho, esfumaçado nas pinceladas ora aparentes, ora diluídas, que se movimentam em diferentes direções, alternando sombreamentos com zonas iluminadas. Em forma de elipse, a gola cerca mas não aprisiona o corpo, e ressalta a predominância das linhas curvas que marcam a sensualidade dos movimentos. Além de ocupar essa posição central, a gola deixa à mostra colo e pescoço, reforçando a pose sensual. Transforma-se, assim, em traço fundamental o que poderia ser mero detalhe do vestuário.

O rosto aparece realçado pelo clareamento do fundo em volta dos contornos bem delineados na curva que desenha o cabelo, em nova linha curva descendente nas sobrancelhas. A boca, em tom vermelhão, reduplicando o carmim da roupa, é delineada em traço firme, ao passo que o nariz, de construção acadêmica, cria seu volume com zonas de sombreamento e diluição do desenho, recurso também usado nas orelhas, quase apenas adivinhadas na pincelada estudadamente descuidada.

A observação de faixas verticais ajuda a examinar mais detalhadamente a pintura. Divididas pelo V do decote, a faixa à direita do espectador apresenta maior volume e diluição, enquanto à esquerda os contornos são mais nítidos e os volumes, mais contidos. Indica-se assim a impossibilidade de dois lados absolutamente iguais, a impossibilidade da harmonia simétrica proposta pelos acadêmicos. Também o corpo, fixado na pose frontal, não obedece à imobilidade do rígido padrão acadêmico, pendendo ligeiramente na diagonalidade da linha que acompanha o rosto até a margem inferior da tela para encontrar-se com a linha do pulso, da qual se solta a mão de dedos longos.

Em pintura, os recursos expressivos obtidos com a cor, as formas e a ocupação do espaço da tela correspondem a efeitos de sentido, a significados do quadro. No auto-retrato de 1923, as cores ora se misturam e diluem umas nas outras, ora se mostram puras e saturadas. As formas ganham contornos geométricos, como no desenho do rosto, mas também, por vezes, diluem seus limites, como nas orelhas e nos olhos. É assim que o retrato põe em jogo os sentidos de revelação e ocultamento do corpo da mulher.

Como se quisesse fazer-se bonita para o olhar do outro, como se provocasse com sutileza e arrogância o desejo do outro, a mulher que posa, a mulher que se contempla no espelho da tela, é a mulher que oferece o corpo solto sob a vestimenta. Abre o decote, mas encobre o contorno do corpo, mostra uma das mãos e esconde a outra, delineia sensualmente a boca, esculpe o nariz e desfaz a orelha.

Mas é no olho que vê e pinta o mundo que está o detalhe mais significativo do rosto. O sombreamento criado pela diluição do mesmo azul e do mesmo vermelho que englobam o corpo constrói o conteúdo da turvação, do embaçamento, criando o significado da impossibilidade de tudo ver e representar tal e qual se apresenta ao olhar.

Em 1924, Tarsila pinta novo auto-retrato, agora completamente centrado no rosto. Suspenso no ar, sem nada que o integre a um corpo, o rosto se equilibra sob o peso dos enormes brincos e fixa-se à tela pela continuidade entre as cores pálidas do fundo e da pele. Tons de cinza ganham ligeiros sombreamentos azulados na base e rosa diluídos nas maçãs do rosto, para ganhar alguma vida e efeito dramático no vermelho da boca e nos contornos negros dos olhos, das sobrancelhas e dos cabelos. Mas é do brilho dourado dos brincos que vem o intrigante efeito de movimento do quadro, seu ar de desafio à cena moral de uma sociedade que recomendava às mulheres a dedicação à casa, ao marido, aos filhos, os bons modos, a contenção e a discrição.

Tão certa estava Tarsila do significado poderoso desse auto-retrato que, ao preparar sua exposição em Paris, em 1926, repintou-o em novo quadro e fez dele a capa do catálogo da mostra. O que fazia o auto-retrato dos brincos pendentes em meio à pintura “pau-brasil”, marcada pelas cores e pelos temas acentuadamente brasileiros das paisagens singelas e simplificadas? Como se intrometia assim o auto-retrato nos motivos da pintora brasileira? Mais do que simplesmente ilustrar a beleza da artista ou indicar seu comportamento contestador, o retrato falava de uma pintura que via o mundo de outro modo e criava cenas em que explodiam novos valores.

O auto-retrato etéreo, solto no infinito, tinha, assim, no peso dos brincos que o traziam de volta à terra, o poder de ligar-se a um mundo em transformação e fechava a série de buscas de uma mulher em permanente inquietação.

Da ousadia de um rosto solto no espaço da tela pendem os brincos que emolduram o contorno preciso. O adorno, o vermelho ainda na boca, os olhos agora livres de embaçamento, essas três mulheres que posam e pintam os auto-retratos de 1921, 1923 e 1924/1926 são a mesma mulher e são todas as mulheres.

É a idéia de feminilidade, ou, melhor ainda, a idéia de ser e fazer-se mulher, que se constrói. Os dois detalhes, o brinco e a gola, exagerados nos dois últimos auto-retratos, criam um contraste com a figura suave e diluída do primeiro retrato, fazendo vibrar os novos retratos, que se afirmam pela agressividade da exibição. Pondo em relevo certas marcas do ser feminino, marcas da vaidade, detalhes do vestuário, a pintora chama a atenção para sua beleza, mas não meramente por um motivo exibicionista ou narcisista.

Essa mulher pintada por uma mulher está a dizer: eis-me aqui, a mulher que sempre esteve nas pinturas de todos os tempos, a mulher que quase nunca esteve na assinatura de um quadro. Eis-me aqui, e esta não sou eu, mas uma outra, mas todas. Eis-me aqui, de brincos enormes e roupa vermelha, chamando a atenção para a mulher que sempre sou e que não sou mais, fazendo-me mulher em detalhes de adorno que distraem os olhos do espectador, mas que, ao levá-los para a beleza de quem posa, acabam por concentrá-los na grandiosidade de quem pinta. Ao chamar a atenção para a gola e os brincos, Tarsila chamava a atenção para sua pintura, para os efeitos que obtinha com o uso das cores e das formas, para os destaques que criava e as inquietações que prometia.

Teriam razão os que a achavam bonita, garrida, musa. Teriam razão os que a adulavam chamando-a de caipirinha, sinhazinha. Teriam, porém, mais razão se a tratassem sobretudo como artista e se, em seus discursos de crítica, afastassem o deslumbramento, que acabava por ir da mulher ao quadro, quando o quadro, os quadros, neles mesmos e por tudo o que representavam, esses sim mereceriam as críticas, de louvação ou rejeição.

E se a beleza põe mesa, como diz o ditado popular, além de genialidade e fama, como diziam os críticos, também pode a beleza pôr em dúvida o talento. Tarsila, entretanto, foi a beleza de seus quadros mais que a beleza de seus vestidos ou de seu rosto. O rosto belo de Tarsila que fica de herança é o dos auto-retratos. E aí eles não são mais a mulher Tarsila, mas a pintura de Tarsila. Que foi, ela própria, vaidosa e complacente com a corte que lhe faziam, não havendo registro, em sua correspondência ou em entrevistas, de incômodo com o tratamento. Mas já isso também não importa, pois, por sobre o entorno das curiosidades mundanas, o que se impôs foi a memória estética de Tarsila.

Revista de História
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Solução parcial

Historiografia ainda se debruça sobre múltiplas hipóteses para tentar explicar o que deu origem ao nazismo

BORIS FAUSTO

Em pleno século 21, apesar dos novos problemas, os fantasmas do século 20 continuam presentes. Dentre eles, o do regime nazista e seu cortejo de horrores, em que o Holocausto figura com destaque. A propósito desse meteórico genocídio que, em poucos anos, produziu mais de 5 milhões de mortos, uma questão central permanece em aberto: o Holocausto era evitável ou estaria inscrito na história da Alemanha, como o ovo da serpente que iria quebrar a casca, surgindo por inteiro, mais cedo ou mais tarde?
A meu ver, a interpretação mais sensata é a que lança um foco de luz mais intenso na história alemã posterior à Primeira Guerra Mundial (1914-18), sem abandonar elementos do passado mais distante.
Essa posição é fundamentada, com muita clareza, pelo jornalista e autor israelense Amos Elon, num livro com o expressivo título de “The Pity of It All - A Portrait of the German-Jewish Epoch (1743-1933)” (ed. Picador, 464 págs., US$ 16, R$ 28), de 2003, cuja melhor tradução seria “O Pior de Tudo -Um Retrato da Época Germano-Judaica”.

Conjuntura recente
Depois de analisar a história dessas relações, recuando, por vezes, ao início do Sacro Império Germânico (meados do século 15) até chegar à ascensão de Hitler ao poder, Elon afirma que há poucas razões para mergulhar na história alemã, retrocedendo até Lutero -notório anti-semita- para explicar o êxito de Hitler.
Seu êxito foi possível pelo caos e a desintegração do governo que se seguiram à crise econômica de 1929 e como resultado da complacência política de conservadores e comunistas para com o “fenômeno grotesco e transitório” do nazismo. Em outras palavras, a conjuntura econômica e decisões políticas desastrosas abriram caminho para a implantação do Terceiro Reich e a perpetração do genocídio que o regime trazia em germe.
Mas o nazismo foi também um produto do passado, ainda que não um inevitável produto, pela conjunção de uma série de fatores de natureza diversa: entre eles o autoritarismo, o militarismo, o racismo, o fracasso da revolução democrática de 1848, a derrota na Primeira Guerra Mundial, a hiperinflação dos primeiros anos 1920, a já referida crise econômica aberta em 1929.
Esses traços socioculturais e o rumo dos acontecimentos potenciaram o impacto das teorias conspirativas da história, em que os “grandes conspiradores”, na realidade, foram os bodes expiatórios das vicissitudes de um país.

Tragédia inevitável
Ressalve-se, porém, que os fatores negativos não foram os únicos constitutivos da história alemã, a ponto de podermos falar em duas trilhas paralelas que às vezes se aproximaram, a do Iluminismo e a do racismo militarista e autoritário.
Foi a cultura alemã iluminista -que deu origem a figuras como Kant, Lessing, Goethe e tantos outros- um elemento essencial da identificação dos judeus alemães com o país onde nasceram, não obstante o desprezo e a discriminação de que foram vítimas ao longo dos séculos.
Seguindo adiante, não é demais indagar se a ascensão de Hitler ao poder trazia em seu bojo, inevitavelmente, a “solução final” para a chamada questão judaica. A resposta é afirmativa. Já em 1919, Hitler demonstrava sua obsessão com o problema, como lembra o historiador inglês Ian Kershaw em “Hitler - 1889-1936 - Hubris”, (W.W. Norton, 1.210 págs., US$ 25, R$ 44), de 1999.
Numa carta de setembro daquele ano, quando já era visto como um especialista no assunto, o futuro führer dizia que o “anti-semitismo racional”, de qualidade superior ao “anti-semitismo emotivo”, levaria à sistemática supressão dos direitos dos judeus, tendo como inabalável objetivo final sua eliminação. Durante a década de 1920, os judeus foram responsabilizados pela derrota na Primeira Guerra Mundial, pela crise econômica de 1922-1923 e pela implantação da brilhante, mas politicamente frágil, República de Weimar (1919-1933).
Ao chegarem ao poder, Hitler e seus acólitos trataram de levar à prática seu propósito de “remoção” do problema judaico, que se encaixava numa estratégia política correspondente aos sentimentos de frustração, ressentimento e racismo, característicos de ponderável parcela da população alemã no pós-guerra.
Mas a inevitável “solução final” não foi um artefato pronto e acabado desde a instalação do regime nazista. Nos primeiros tempos, mais presente na cabeça de figuras como Himmler -chefe da Gestapo- e Heydrich -o “protetor” da Boêmia e da Morávia (Tchecoslováquia)-, seguiu um curso de radicalização que passou das propostas de expulsão dos judeus para Madagáscar ou para o Leste Europeu à política dos “guetos” e, por fim, à liqüidação em massa nos campos de extermínio.
As questões aqui discutidas são hoje de natureza historiográfica, embora venham acompanhadas de não poucas emoções. Para os judeus da Europa e para os judeus alemães em particular, a decisão do que fazer diante do ascenso do nazismo teve um conteúdo vital, na estrita acepção da palavra.
Os destinos dessa gente variaram: os mais ricos, os mais intelectualizados, os que tinham melhores conexões no exterior partiram para o exílio; os mais pobres, os mais velhos, os que não quiseram acreditar na dimensão do horror ficaram na Europa e tiveram o fim trágico bem conhecido.

Jornal Folha de S. Paulo
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Nos EUA, o desmonte do ideal democrático

A ultra-direita no poder fez um esforço deliberado para destruir a democracia social ao estilo norte-americano, reduzindo seus custos e efeitos igualitários. Seu alvo: a comunidade universitária. Suas armas: o ataque ao “politicamente correto” e as privatizações.

Christopher Newfield

O sistema universitário norte-americano é formado por 4 mil faculdades distribuídas em 50 estados. Algumas parecem escolas secundárias para alunos com dificuldade de aprendizagem; outras têm estudantes e professores provenientes de 100 países diferentes, trabalhando nos mais caros e avançados programas de pesquisas. Essa enorme variedade de instituições recebe, em média, 17 milhões estudantes – 2 milhões deles engajados em mestrados e doutorados. Das 4 mil faculdades, 2.500 oferecem cursos de graduação, enquanto as outras 1.500 são escolas superiores voltadas para a educação profissionalizante, com cursos de dois anos de duração e a possibilidade, em alguns casos, de transferência para programas universitários de quatro anos. Das 2.500 faculdades, cujos cursos duram 4 anos, 1.850 são instituições privadas, fora do controle direto do Estado, que cobram taxas de matrícula e mensalidade para cobrir seus custos. As anuidades variam de US$10 mil a US$30 mil. Atualmente, a maioria das universidades públicas também cobra taxas elevadas: entre US$3 mil e US$12 mil ao ano.

A verdadeira estrutura que rege a profusão desorganizada é uma profunda divisão, bem estabelecida, entre as boas e más universidades. Em cada região, existem poucas “boas universidades”, que são assim definidas em função da combinação de diversos fatores: a reputação histórica, a alta seletividade e os sistemas de ranking comercial. A qualidade de uma universidade é aferida pela dificuldade dos alunos em serem admitidos. Harvard e Stanford aprovam aproximadamente 1 em 10 candidatos. Não somente esses números impressionam o público em geral, com a aparente excelência de tão almejadas universidades, como a seletividade também se torna um fator fundamental no cálculo dos rankings comerciais. Uma grande indústria de ingresso à faculdade vem-se desenvolvendo. As estimativas sugerem que ao menos 20% dos alunos aprovados nas melhores faculdades utilizaram-se de cursos extras, particulares, para atingir tal fim.

Na realidade, somente 35 universidades norte-americanas aprovam menos de um em cada quatro candidatos [1]. E apenas as 100 melhores admitem um em dois, ou menos. Na grande maioria das faculdades e universidades norte-americanas, entram quase todos. Portanto, a seletividade não protege a qualidade da educação superior, como afirmam seus defensores, mas acentua as grandes desigualdades na atenção e na distribuição dos recursos – tão abundantes em 1% ou 2% das melhores universidades. Um estudo demonstrou que as10 universidades mais ricas foram responsáveis por metade do aumento nas doações privadas, durante o ano fiscal de 2006 [2]. Outro estudo evidenciou que a verba por aluno nas instituições mais ricas (25%) cresceu dez vezes mais rápido do que a verba por aluno nas instituições mais pobre [3].

As maiores campanhas para a arrecadação de fundos são realizadas nas universidades mais abastadas. Por exemplo, a Universidade de Stanford, cuja verba é de US$14 bilhões, lançou, recentemente, uma campanha para levantar outros $4,3 bilhões. A seletividade não melhora a qualidade do ensino superior como um todo, mas assegura que recursos quase ilimitados sejam destinados a uma pequena elite.

O sistema pós-1945
Em contraposição ao cenário atual, o boom pós 2ª Guerra Mundial permitiu que a universidade pública se tornasse um palco da igualdade e do desenvolvimento. Após 1945, os Estados Unidos construíram universidades públicas que aumentaram, consideravelmente, sua capacidade de oferecer um ensino superior às classes trabalhadoras. Entre 1940 e 1970, as matrículas multiplicaram-se por cinco, evoluindo de 1,5 milhão para quase 8 milhões. Nos 30 anos seguintes, as inscrições dobraram outra vez. A expansão substituiu a concorrência, como base do desenvolvimento educacional. Ironicamente, a Guerra Fria colaborou para esse momento de igualdade. Em uma atmosfera política radicalmente anticomunista e anti-socialista, a universidade se transformou no instrumento ideal para encobrir e americanizar as formas necessárias de investimento social. As elites tradicionais perceberam que a universidade distribuiria recursos de acordo com o esforço individual, evitando, assim, a contaminação pelas políticas de bem-estar social e assistência pública. Mais do que educar, a universidade pública parecia eliminar a classe trabalhadora, transformando seus membros em um exército de trabalhadores intelectuais de classe média que servia a industria norte-americana.

Com essa perspectiva, muitos políticos de direita terminaram por aceitar aumentos de gastos públicos. E o governo federal ofereceu subsídios generosos às faculdades que acolhessem veteranos de guerra e usou a ameaça militar soviética para justificar o considerável aumento dos gastos em pesquisas. Na Califórnia, entre 1960 e 1980, os cidadãos triplicaram a parcela de suas rendas particulares destinadas ao ensino superior. Da mesma forma, o orçamento da National Science Foundation multiplicou-se por 100 após 1952.

A mundialmente famosa “universidade norte-americana” foi marcada por essa socialização disfarçada. Primeiro, foram os aumentos vultosos no financiamento: não 3%, 5% ou 8% ao ano, mas 25%, 100% e até 500%, com acréscimos que trouxeram alvoroço, um sentido de missão e novos recursos para lidar com problemas difíceis. Depois, foi a inclusão de milhares de estudantes, cujas famílias nunca tiveram acesso à faculdade, criando um senso de direito político na maioria da população. Em terceiro lugar, a universidade mesclou o ensino, respondendo às necessidades dos cidadãos comuns, com a pesquisa, desejada por intelectuais, cientistas, líderes de negócio e militares. Esses pesquisadores, que não faziam parte das elites tradicionais, começaram, pouco a pouco, a perceber que tinham um papel essencial na economia “pós-industrial” e, portanto, o direito a um poder e renda maiores. Em quarto lugar, os estudantes universitários simpatizavam com os movimentos sociais, e as universidades públicas, em especial, passaram a tolerar cada vez mais e até a incentivar a igualdade de raça e gênero. O resultado foi uma universidade que parecia combinar serviço público de alta qualidade, igualitarismo e uma democracia multirracial com o entusiasmo da pesquisa fundamental.

Essas mudanças do pós-guerra ajustaram-se bem às práticas universitárias tradicionais, que, durante muito tempo, tinham desafiado as regras ortodoxas dos negócios. Nos idos de 1900, o presidente conservador da Universidade da Califórnia, Benjamin Wheeler, afirmou que a universidade “se propõe a salvar os homens da escravidão, libertando-os”. Na metade do século 20, a universidade estabeleceu o princípio da pesquisa intelectual livre dos interesses financeiros ou políticos. E elaborou uma teoria do trabalho intelectual, dizendo que seus funcionários acadêmicos deviam controlar, individualmente, as condições da produção, sendo julgados segundo os padrões de seus pares.

Os diretores acadêmicos eram, em geral, professores, estando mais propensos a representar seus grupos sociais do que a se curvar à vontade dos patrocinadores externos, políticos ou econômicos. Os departamentos acadêmicos deviam, em última instância, controlar a contratação, a demissão, o ensino e as diretrizes intelectuais. Embora a universidade servisse aos grandes interesses capitalistas, ela deveria permanecer independente e focada nas formas de desenvolvimento humano que não podiam ser alcançadas com a eterna obsessão norte-americana pelo crescimento econômico.

As implicações desse reformismo foram finalmente divulgadas pelos próprios membros graduados da classe média. O sintoma mais aparente era a participação dos estudantes em manifestações pelos direitos civis ou contra a guerra, mas o maior desafio enfrentado pelos líderes norte-americanos era a transformação que sofriam os não radicais, que proviam o trabalho técnico e gerencial indispensável ao sistema de negócios. Esses quadros controlavam a economia, ao mesmo tempo que questionavam suas regras básicas. O economista da Harvard, John Kenneth Galbraith, disse que a classe média instruída formava a “tecnoestrutura” que rejeitava o empreendedor autocrático, considerava as corporações como instituições sociais, negava que o único fruto do trabalho fosse o aumento do consumo, e repudiava, totalmente, as definições econômicas de desenvolvimento. As massas com ensino superior, afirmou, recusavam “a forte motivação ajustável do sistema de planejamento”, criando, assim, “mecanismos de emancipação” em nome das “dimensões negligenciadas da vida” [4]. As elites tradicionais podiam notar que a universidade estava criando uma nova cultura do poder econômico, político e cultural em seus alunos, que começavam a perceber que eram os verdadeiros líderes da sociedade, que seus trabalhos eram a verdadeira fonte de riqueza nacional, e que suas experiências pessoais careciam de cultura e lazer.

A era das privatizações
A ascensão da ultra-direita estadunidense ao poder, após 1980, é melhor compreendida por meio do sucesso de sua tentativa de destruir a democracia social ao estilo norte-americano, reduzindo seus custos e efeitos igualitários. O mecanismo utilizado foi o da “guerra cultural”, focada especialmente na base universitária. Os ataques da direita ao “politicamente correto” e aos elementos afins da cultura universitária eram, na realidade, ataques aos componentes fundamentais do poder da “nova classe” de diplomados: integração racial, independência profissional, comunitarismo científico alheio aos objetivos do mercado e conhecimento social sem retorno econômico imediato.

As guerras culturais eram guerras econômicas contra as reivindicações da nova maioria instruída. Sua estratégia fiscal foi a privatização de recursos públicos. O ensino público foi reduzido por meio de crises financeiras artificiais que escondiam um simples fato: a redução dos orçamentos públicos destinados às universidades não reflete a diminuição da renda pessoal, mas a redução da parcela da crescente renda pessoal destinada às universidades públicas. Nada menos que 80% dos universitários norte-americanos estão matriculados em universidades públicas, mas viram os recursos públicos destinados ao financiamento de seus estudos serem reduzidos em 1/3 nos últimos 25 anos. A Universidade de Califórnia, outrora a universidade pública pioneira em pesquisas, perdeu quase 40% de suas verbas públicas desde 1990.

As universidades perceberam que todos os seus novos recursos provinham do patrocínio para a realização de pesquisas específicas, de recursos privados e dos consideráveis aumentos das taxas pagas pelos estudantes. Nesse ínterim, as verbas destinadas às universidades privadas cresceram vertiginosamente, cerca de 10 a 20% ao ano, nos últimos 15 anos. As maiores doações, intrinsecamente ligadas às empresas privadas, crescem duas ou três vezes mais rápido que as menores. Tal espetáculo da opulência privada, em meio à escassez pública, incentivou as universidades públicas a imitar esse cultivo de fundos privados. Até os reitores e catedráticos estão envolvidos na “solicitação” – pedindo doações aos pais, antigos alunos e membros da comunidade.

A lógica econômica da privatização é a mais absurda. Para que a Universidade da Califórnia conseguisse recuperar os subsídios públicos cortados desde 2001, ela necessitaria arrecadar $25 bilhões da noite para o dia, a mesma quantia de que dispõe Harvard, que tem 400 anos de história [5]. A privatização prejudica, também, o apoio ao financiamento público. Tendo em vista que as famílias gastam cada vez mais com o ensino superior público, elas estão cada vez menos dispostas a pagar impostos para contribuir com o mesmo. O resultado é o fim da proposta educacional do pós-guerra que pretendia o acesso da população a um ensino de alta qualidade. Agora, amplo acesso e qualidade estão em conflito.

A maioria dos líderes educacionais não gosta das tendências que acabei de descrever. Mas a lógica social do ensino superior mudou drasticamente nos últimos 25 anos. Os pontos fortes da universidade norte-americana têm sido a vontade do acesso universal, a independência do corpo docente, os investimentos públicos transformadores, a abertura aos movimentos sociais e o entrelaçamento da pesquisa avançada com o ensino. Tais fatores levam, agora, às fraquezas das universidades: a dependência dos recursos privados para a manutenção da qualidade, os baixos investimentos, a forte estratificação, a concorrência custosa e acirrada, e a concentração dos recursos nas mãos da elite. Essa mudança representa uma vitória da direita, já que idéia de uma educação superior de alta qualidade, acessível a toda à sociedade foi, há muito, esquecida pela maioria. A única solução é reinventar a visão igualitária da universidade sobre os usos do conhecimento. Mas é muito mais provável que essa iniciativa seja da população em geral do que própria da universidade norte-americana.

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[1] Leia mais

[2] “Conselho para a ajuda na educação”, citado por Steven O. Michael, Why give to a college that already has enough. Acesse (CHE 6 July 2007).

[3] Selingo and Brainard, “The rich-poor gap widens for colleges and students”, Chronicle of Higher Education, 7 de Abril de 2006. Acesse

[4] JK Galbraith, The new industrial state (1967).

[5] Newfield et al., [Budget Trends->http://www.universityofcalifornia.edu/senate/reports/AC.Futures.Report.0107.pdf O único caminho possível tem sido substituir o dinheiro público por mensalidades e matrículas cada vez mais caras. Na Universidade de Califórnia, as taxas dobraram desde 2001. Se a universidade tivesse que cobrir a diferença entre a verba atual e o orçamento de 2001, atualizado em função da taxa de crescimento da renda per capita, as mensalidades e taxas de matrícula deveriam dobrar outra vez, chegando a, aproximadamente, US$15.000 por ano. A maioria das universidades públicas tenta, conseqüentemente, empregar os recursos privados em projetos especiais ou com potencial de retorno. Isso cria “comunidades fechadas” de excelência acadêmica cercadas por instalações que se degradam de maneira suficientemente lenta para que a população não perceba.

Para a maioria dos estudantes, com exceção dos muito abastados, a privatização significou pagar mais e receber menos. Às falhas financeiras da privatização, somaram-se as sociais. Isso incentiva as universidades a alocar recursos para atrair estudantes ricos que podem pagar altas taxas de matrícula e mensalidades e acentua as diferenças sociais existentes, já que os estudantes carentes terão, provavelmente, que freqüentar as escolas de baixa qualidade. Por outro lado, aumenta a dívida dos estudantes (3/4 das famílias norte-americanas são obrigadas a fazer empréstimos para mandar seus filhos à faculdade) e reduz o número de funcionários públicos qualificados (uma vez que os baixos salários pagos não cobrem os gastos com educação).

Os fundos da educação são destinados a atividades não-educacionais, como propaganda e melhoria das instalações, para atrair o cliente-estudante que paga: um aumento de 400% nas mensalidades e custos de moradia nos campus. Isso resultou, entre 1975 e 1995, em um aumento líquido de 32% no custo por estudante [[Eric Gould, The university in a corporate culture (2003).

Jornal Le Monde
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