Arquivo de 8 de Janeiro de 2008

Como a elite anglo-americana partilha os seus ‘valores’

John Pilger

Quando o primeiro-ministro Gordon Brown referiu-se recentemente à devoção do seu governo para com os Estados Unidos, “fundamentada nos valores que partilhamos”, estava a reflectir o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Kim Howells, o qual preparava-se para dar as boas vindas ao ditador saudita na Grã-Bretanha com efusões de “valores partilhados”. O significado foi o mesmo, em ambos os casos. Os valores partilhados são os do poder e da riqueza predatória, ignorando democracia e direitos humanos, como confirmam o banho de sangue no Iraque e o sofrimento dos palestinos, para mencionar apenas dois exemplos.

Os “valores que partilhamos” são celebrados por uma sombria organização que acaba de efectuar a sua conferência anual. É o British-American Project for the Successor Generation (BAP), estabelecido em 1985 com dinheiro de um trust de Filadelfia com um longo historial de apoio a causas da extrema-direita. Embora o BAP não reconheça publicamente a sua origem, a fonte da sua inspiração foi um apelo do presidente Reagan em 1983 para que as “próximas gerações” em ambos os lados do Atlântico “trabalhassem juntas no futuro em assuntos de defesa e segurança”. Ele fazia numerosas referências a “valores partilhados”. Compareceram a esta cerimónia na Sala de Situação da Casa Branca estavam os ideólogos Rupert Murdoch e o finado James Goldsmith.

Como esclareceu Reagan, a necessidade do BAP surgiu da ansiedade de Washington acerca da crescente oposição britânica às armas nucleares, especialmente quanto ao estacionamento de mísseis de cruzeiro na Europa. “Uma preocupação especial”, disse ele, “serão as próximas gerações, quando estas pessoas mais jovens tiverem de trabalhar juntas no futuro sobre questões de defesa e segurança”. Uma nova, preferivelmente jovem, elite – jornalistas, académicos, economistas, “sociedade civil” e líderes liberais da comunidade de um tipo ou de outro – compensariam o crescente “anti-americanismo”.

Os objectivos desta rede moderna, segundo David Willetts, o antigo director de estudos do Centre for Policy Studies, de extrema-direita, agora membro do gabinete sombra Tory, são simplesmente “ajudar a reforçar ligações anglo-americanas, especialmente se alguns membros já ocuparam ou ocuparão posições de influência”. O antigo embaixador britânico em Washington, sir John Kerr, foi mais directo. Num discurso a membros do BAP, ele afirmou que “a poderosa combinação de pessoas eminentes e de estreitas ligações atlânticas” desta organização “ameaçavam deixar a embaixada sem tarefas”. Um organizador americano do BAP descreve a rede como comprometida com a “preparação de líderes” ao mesmo tempo que promove a “o papel de liderança global que [os EUA e a Grã-Bretanha] continuam a desempenhar”.

Os alunos britânicos do BAP são retirados em grande parte do novo Labour e da sua corte. Não menos de quatro “companheiros” do BAP e um conselheiro tornaram-se ministro no primeiro governo Blair. Os nome do novo Labour incluem Peter Mandelson, George Robertson, Baronesa Symons, Jonathan Powell (chefe de gabinete de Blair), Baronesa Scotland, Douglas Alexander, Geoff Mulgan, Matthew Taylor e David Miliband. Alguns são membros da Sociedade Fabiana e descrevem-se a si próprios como sendo “de esquerda”. Trevor Philips, presidente da Comissão de Igualdade e Direitos Humanos, é outro membro. Eles objectam quanto aos boatos de “uma conspiração”. A origem (mutuality) de classe ou de aspirações é simplesmente assegurada, sem ser mencionada, e o abraço cálido do poder faz o resto.

A conferências BAP são realizadas alternadamente nos EUA e na Grã-Bretanha. A deste ano foi em Newcastle, com o tema “Fé e Justiça”. Na direcção estado-unidense está Diana Negroponte, a esposa de John Negroponte, o antigo chefe da segurança nacional de Bush notório pela sua associação com a política dos esquadrões da morte na América Central. Ele seguiu outro destacado neocon, Paul Wolfowitz, o arquitecto da invasão do Iraque e desacreditado responsável do Banco Mundial. Desde 1985, “alunos” e “veteranos” do BAP tem sido reunidos por cortesia da Coca-Cola, Monsanto, Saatchi & Saatchi, Philip Morris e British Airways, dentre outras multinacionais. Nick Butler, ex-líder da BP, tem sido a luz condudora.

Para muitos, as conferências contem prazeres revivalistas afinados por técnicas americanas de RP, com jogos de administração, apresentações pessoais e uma linda revista de encerramento para aliviar dos negócios sérios. O relatório da conferência de 2002 observou: “Muitos graduados do BAP estão envolvidos directamente com instituições militares e de defesa dos EUA e do Reino Unido”.

O BAP raramente recebe publicidade, o que pode ter algo a ver com a alta proporção de jornalistas que são graduados. Destacados jornalistas do BAP são David Lipsey, Yasmin Alibhai-Brown e um conjunto sortido de murdochistas. A BBC está bem representada. No popular programa Today, James Naughtie, cujas emissões reflectem os seus próprios interesses transatlânticos, foi aluno desde 1989. A nova voz do Today, Evan Davis, anteriormente o cuidadoso editor de economia da BBC, é membro. E no topo do sítio web do BAP está uma fotografia do famoso locutor da BBC Jeremy Paxman, com o seu endosso. “Um meio maravilhoso de reunir uma amostragem variada de amigos transatlânticos”, diz ele.

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Entre a feijoada e o chucrute

Criado conforme o modelo original, partido nazista no Brasil foi “se amolecendo, se abrasileirando, se tropicalizando”, diz pesquisadora

Carlos Haag

Quando se fala em nazistas no Brasil, a imagem que nos vem à cabeça é de um bando ridículo de gaúchos louros levantando o braço direito em meio à fumaceira de um churrasco. Em verdade, a presença nazista foi menos folclórica e de uma importância política notável, em especial para a consolidação do Estado Novo varguista, que completa, neste ano, 70 anos. Nazismo tropical? “O partido nazista no Brasil”, tese de doutorado de Ana Maria Dietrich, recém-defendida na Universidade de São Paulo, traz novas luzes sobre um velho chavão. Pesquisando em arquivos alemães, entrevistando antigos militantes do partido no país e até as filhas do Führer tupiniquim, Hans Henning von Cossel, o chefe da célula nazista brasileira, Ana descobriu que mesmo o nazismo é passível de tropicalização quando abaixo do Equador. “Essa tropicalização ocorreu de acordo com as nuances que a realidade brasileira impôs ao nazismo. Assim foi possível aos alemães e descendentes ao mesmo tempo comemorar o aniversário de Hitler e uma Festa de São João, tomar cerveja alemã e comer canjica”, explica a pesquisadora.

Esse é o lado anedótico do nazismo à brasileira, mas há fatores mais importantes e igualmente desconhecidos: o partido nazista brasileiro funcionou por dez anos no país, atuando em 17 estados brasileiros (incluindo-se improváveis Bahia, Pará e Pernambuco), com 2.900 integrantes, um contingente só superado pelo partido na Alemanha. Dos 83 países que tiveram uma “filial” do NSDAP hitleriano, o Brasil ocupa o primeiro lugar, na frente da Áustria, país natal do Führer. Aliás, antes mesmo de Adolf chegar ao poder, em 1933, o partido nazista já existia por aqui. Em 1928, antecedendo em cinco anos a ascensão de Hitler, foi criado um grupo em Benedito Timbó, Santa Catarina, não só a primeira célula estrangeira do país, como a primeira do movimento nazista no exterior. Assim como o comunismo preconizava sua internacionalização, nazistas, seus rivais, queriam o mesmo. “O partido nazista no Brasil era para a Alemanha muito mais importante do que para o Brasil. Enquanto o governo brasileiro não se incomodou por dez anos com sua existência, o governo hitlerista fez dele o representante do povo alemão em território brasileiro e as ações contra este partido tinham conseqüências diretas nas relações com o Brasil”, observa Dietrich. Sua articulação e controle eram feitos pela Auslandorganisation der NSDAP (Organização do partido nazista no exterior, ou A.O.), cujo chefe, Ernst von Bohle, estava diretamente subordinado a Rudolf Hess, o segundo da hierarquia nazista, e tinha o mesmo status de dirigentes como Joseph Goebbels. O mandamento central da A.O. era a manutenção do Deutschtum, a “germanidade”, dos alemães no exterior, que não deveriam se misturar com os estrangeiros ou usar a língua local. “Em contrapartida, como solidariedade a Gastland (terra de hospedagem), os países onde estavam as comunidades de alemães, não era permitida aos partidários a participação na política local. Os nazistas deveriam se manter neutros com relação à política interna e não poderiam divulgar suas idéias aos nativos”, nota a pesquisadora.

A propaganda apelava à responsabilidade do alemão no exterior com sua pátria. “A Alemanha de Hitler resgatava e oficializava o sentimento de ‘pertencimento’ do povo alemão à nação alemã, cujas origens remontam ao pangermanismo e ao anti-semitismo eliminacionista germânicos manifestos desde a segunda metade do século XIX”, afirma a historiadora Maria Luíza Tucci Carneiro, diretora do Laboratório de Estudos sobre a Intolerância, da Universidade de São Paulo (USP). A eleição de Hitler, em 1933, contou com preciosos votos desses “hóspedes”, inclusive brasileiros. A suástica, porém, não abrigava todos. Um dos fatores da tropicalização, observa Dietrich, era que os “alemães puros” eram considerados superiores aos teuto-brasileiros, a geração nascida nos trópicos. Essa divisão seria a perdição nazista: “A criação de um movimento fascista à brasileira, o integralismo, se expandiu e despertou fascínio na comunidade teuto-brasileira, com inúmeras adesões, pois, na década de 1930, o integralismo atraiu, pelo seu conteúdo ideológico, muitos alemães e descendentes, em especial os ‘desprezados’ pelo nazismo internacional por suas origens mistas”, nota a autora.

Mas, como tudo que é nazista, há situações folclóricas. Num espírito digno dos nazistas hollywoodianos de Indiana Jones, houve expedições do Reich ao Brasil, visto como um laboratório racial, com o objetivo de verificar as condições de colonização da raça branca em terras tropicais. Em 1936, lembra Dietrich, o Instituto Tropical de Hamburgo enviou um grupo de cientistas germânicos para estudar as populações alemãs que viviam no Espírito Santo. Receberam auxílio do governo brasileiro e apoio de Henrique da Rocha Lima, segundo a pesquisadora, saudado pelos nazistas como “nosso velho amigo, o professor”. Rocha Lima (que recebeu uma comenda das mãos do Führer) participou ativamente dos estudos sobre a febre amarela com Oswaldo Cruz e esteve à frente de Manguinhos, quase levando um Nobel por seus estudos sobre uma variante de tifo transmitido por piolhos aos combatentes em trincheiras. O resultado da pesquisa capixaba mostrou que “a raça ariana poderia sobreviver bem nos trópicos, desde que evitada a mistura com a população local”. Dentro do espírito do Lebensraum (a busca do “espaço vital” via expansionismo militar), o Brasil tinha potencial, embora, nas palavras do próprio Führer, “não vamos desembarcar tropas e conquistar o Brasil com armas na mão. As armas que temos, para a ação no exterior, são as que não se vêem”. A Amazônia igualmente interessava ao Reich. Entre 1935 e 1937, outra expedição percorreu o rio Jari até a fronteira com a Guiana Francesa, resultando num documentário sobre o “enigma do inferno da mata”, feito pela UFA, o célebre estúdio cinematográfico alemão. Houve a “tentativa de fazer amizade entre alemães e índios”, sem falar nas caixas de peles de animais, esqueletos, fósseis e milhares de artefatos arqueológicos levados para a Vaterland, em sigilo, para análise posterior. Até hoje uma cruz de madeira amazônica, com a suástica, marca o lugar onde está enterrado Josef Greiner, intérprete do grupo nazista.

Segundo Dietrich, o partido brasileiro tinha ligação direta com o Reich e designou Hans von Cossel para chefiar a célula nacional, a partir de São Paulo. Ele viajava com freqüência para a Alemanha, onde foi apresentado a Hitler e elogiado por Joachim von Ribbentropp, o ministro das Relações Exteriores do III Reich, como “um dos mais bem afortunados e confiáveis chefes nacionais do NSDAP que comanda o maior grupo nacional da A.O.”. Em 1938 teve o privilégio de ganhar uma festa de despedida organizada pelo vice de Hitler, Hess. Cossel chegou ao Rio em 1931, como adido cultural à embaixada alemã e impressionou seus chefes a ponto de ser indicado à chefia do grupo, em 1934, no lugar de um colega corrupto, graças a sua capacidade de transitar com facilidade entre brasileiros e alemães, como por sua familiaridade com os estadistas Vargas e Hitler. Ana Dietrich, na Alemanha, conseguiu entrevistar as filhas de Cossel que revelaram ser ele “muito bem visto por Vargas, que lhe deu de presente uma pintura sua com uma bela moldura”. Elas também contaram à pesquisadora que, ao deixar o Brasil, em 1942, após o rompimento do Estado Novo com o Eixo, Cossel, convidado a trabalhar no Ministério das Relações Exteriores, declinou e foi servir na Marinha. “Meu pai disse que os olhou e afirmou: ‘Nisso não colaboro’. Ele também nos disse que não se impressionara com Hitler e só enviava relatórios a ele. O partido nazista no Brasil foi algo diferente. Como meu pai entrou, as pessoas acham que ele sabia de tudo, mas não foi assim. No exterior, as pessoas são mais alemãs porque existe um sentimento de pátria”, afirmou Gisela von Cossel. Memórias familiares nem sempre são confiáveis. “A relação de Cossel com Hitler e Vargas (que, em carta ao Führer, o chamava de “grande e bom amigo”) tem um caráter especial que mostra a amplitude do movimento nazista no Brasil. Não era apenas um movimento de colonos ‘saudosistas’, e sim algo que interferiu nos grandes escalões de poder da sociedade”, prefere acreditar, com razão, a pesquisadora.

E quanto à questão judaica? Como agiram os nazistas brasileiros em relação a uma comunidade que, nos anos 1930, tinha 40 mil integrantes? “A convivência de alemães com judeus era rara, só há poucos registros. O anti-semitismo local era um discurso importado, ou seja, na prática ele quase inexistia (embora tenha existido) e, na teoria, ele existia na publicação de artigos contra judeus. Mas o tom era de luta entre os ‘judeus de lá’ contra os ‘alemães de lá’”, diz Dietrich. O “racismo tropical” era mais forte contra os negros e mestiços, classificados como “brasileiros” de forma pejorativa. Há mesmo casos hilários sobre casamentos “étnicos”, como o de um colono catarinense que resolveu “importar” uma noiva ariana, apenas para descobrir que se casara com uma mulher “feia e com uma perna mais curta do que a outra”. Há outros, mais sintomáticos, como o de Roland Braun, da diretoria do partido nazista em São Paulo, que se casou com uma brasileira e batizou sua filha brasileira de Irene. “Igualmente, não houve, ao contrário do que se costuma afirmar, um isolamento dessas comunidades, rurais ou urbanas, que interagiam com a sociedade local e absorviam hábitos e costumes desta.”

O Reich fazia “vista grossa” para esses pecadilhos tropicais, já que a comunidade brasileira, além dos serviços diplomáticos informais que fazia para a Vaterland, igualmente era fonte de recursos: “Morando no Brasil desde 1924, Otto Braun coordenava toda uma série de transações proibidas de câmbio e, ao ser preso, em 1942, forneceu detalhes de como se faziam espionagem e fraudes financeiras no Brasil por meio do Banco Alemão Transatlântico, que transferia dinheiro da comunidade para bancos suíços, que depois eram enviados à Alemanha”, revela Dietrich. A verdadeira face tropical do nazismo, porém, foi política e acabou sendo um “presente” para o Estado Novo: a relação entre nazistas e a Ação Integralista Brasileira (AIB), de Plínio Salgado, com suas camisas verdes e seu “anauê”. “O integralismo pode ser visto como importante característica do nazismo tropical por ser algo extraordinário que não estava nos planos originais da organização do partido nazista no Brasil”, explica Dietrich. O canto de sereia integralista era doce: “Se tu fosses alemão serias Nacional Socialista. És brasileiro, inscreve-te, portanto, nas Legiões Integralistas e vem vestir a camisa verde dos que se batem pelo bem do Brasil”. Só que, enquanto a AIB, como movimento nacionalista, não concordava com o nacionalismo alemão (embora, com fins de propaganda, se apresentasse como a solução viável para a materialização do Deutschtum tropical), o nazismo não queria a assimilação da comunidade alemã no Brasil. “Caracterizando-o pejorativamente como nativista, o NSDAP era totalmente contrário a que os alemães e seus descendentes se filiassem à AIB, pois se achava que isso iria afetar a germanização do Brasil. Sob a visão do III Reich, o integralismo destacava principalmente a questão racial, visando melhorar a raça com a diminuição de negros e índios e o aumento de europeus. O governo nazista chamava isso de ‘lusitanização’, encarada como ameaça ao Deutschtum.”

Visto com desprezo pelos alemães de Berlim, conta a pesquisadora, o integralismo tornou-se um anátema após a patética tentativa de golpe contra Vargas, em 1938, com a suspeita de participação de nazistas brasileiros. Além de desobediência aos ditames da Alemanha, o putsch tupiniquim também deixava o Estado alemão numa saia-justa indesejável com o governo brasileiro, ao qual procurava, sem sucesso, agradar, mesmo ciente de que Oswaldo Aranha era o chanceler de Getúlio. Este preferia virar o jogo em favor dos Estados Unidos, que considerava parceiros mais valiosos do que a Alemanha, embora, nos anos 1930, o comércio entre tedescos e brasileiros fosse o dobro do feito com os ianques. Plínio Salgado, de pedra no sapato do ditador brasileiro, virou pedregulho nas botas de Hitler por um erro de cálculo de Berlim. “Por culpa da proibição de descendentes de alemães de entrar no partido, este perdeu uma de suas maiores forças no Sul, onde a comunidade alemã mais expressiva era de teuto-brasileiros. Assim, houve uma reação ao nazismo segregacionista, líderes não foram aceitos e o integralismo se tornou a opção viável”, analisa a historiadora. Tomando do próprio remédio, o nazismo tradicional errou no passo de ganso para a sua versão tropical. O movimento conservador, direitista e nacionalista de Salgado atendia ao que os alemães nascidos no Brasil queriam, mas eram alijados pela Vaterland.

No fim das contas, ao vencedor, muitas Kartoffel. Diante do imbróglio que envolvia nazistas e integralistas, Vargas pôde, sem problemas, colocar várias organizações na clandestinidade, inclusive a célula do NSDAP no país. “Afinal, entre 1938 e 1942, dentro do projeto de nacionalização do Brasil almejado por Vargas, o alemão passa de perigo ideológico, pela divulgação do ideário nazista, para perigo étnico, como alienígena ao ‘Homem Novo’ que se desejava construir. Com a entrada do Brasil, na Segunda Guerra Mundial, em 1942, ao lado dos Aliados, o perigo vira ‘militar e ideológico’”, observa a pesquisadora. Vargas estava com o melhor dos mundos políticos graças à inabilidade de nazistas e integralistas. Dessa forma, não precisava mais se preocupar com indivíduos que venerassem Hitler, e não a ele. Ao mesmo tempo, nota, pôde canalizar a seu favor toda a demanda autoritária, xenófoba e nacionalista desses grupos. Bastava fazer com que se sentissem vinculados ao Estado Novo, e não ao III Reich. Lá estava, para todos, um chefe “pai da nação”, anticomunista, adepto da ordem, do progresso e das massas.

O mesmo ocorreu entre a Itália de Mussolini e a AIB. “A ação fascista, que de início apoiou Salgado, foi muito útil à direita nacional ao popularizar as idéias autoritárias e estimular muitas pessoas a uma maior simpatia em relação ao Estado Novo”, observa o historiador João Fábio Bertonha, que, em seu doutorado, trabalhou com a contrapartida italiana da tese de Ana Dietrich. Os fascistas, melhores políticos do que os germânicos, por um longo tempo fizeram um jogo duplo com Vargas e seus inimigos, os integralistas, apostando em ganhar em quem vencesse no futuro. Como o que houve com os nazistas brasileiros, foram os filhos de imigrantes italianos que optaram pelo apoio total à AIB, ao contrário de seus pais ou avós, italianos natos, que eram fascistas à Mussolini. Também, como no caso alemão, havia uma preocupação étnica implicada no apoio ao movimento de Salgado e, após 1938, um total descrédito na capacidade revolucionária dos integralistas. A italianidade falava mais alto, como a germanidade. Aqui Salgado deu-se melhor, pois antes de ser esquecido recebeu grandes somas de dinheiro vindas de Roma. Curiosamente, a poderosa burguesia paulistana, fervorosa apoiadora do fascismo italiano, fechou seus cofres ao integralismo. “Sobraram os descendentes italianos que, influenciados por esse contexto político-nacional, por seus problemas de aceitação na sociedade brasileira como filhos de imigrantes e pelo clima geral de apoio às idéias de direita, suscitado pela propaganda italiana, poderiam ter sido cooptados pelos fascios, mas acabaram, dada a sua aculturação e o desejo de serem vistos como brasileiros e de participar da política brasileira ativamente, por aderir à AIB”, nota Bertonha. Quando essa se quebrou, dirigiram seu entusiasmo ao similar nacional que estava no poder: o varguismo. Nazismo que acabou em “feijoada”?

Há quatro variáveis que demonstram a tropicalização do nazismo no Brasil: o racismo tropical, ou seja, além dos judeus, houve preconceito contra outros grupos, como os negros e mestiços, que estavam mais em contato com o partido; a possibilidade de casamentos interétnicos e certa resistência da população local ao germanismo, já que até o diretor da célula nazista paulista, Roland Braun, era casado com uma brasileira e muitos alemães diziam se ‘sentir em casa’ na Gastland nacional; a presença do integralismo que distorceu a lógica do modelo; e a mistura de hábitos, já que, ao contrário do preconizado, não houve a formação de guetos teutônicos, mas uma interação com a sociedade local, em que os alemães absorviam hábitos e costumes”, enumera Dietrich. Ainda assim, as estratégias de propaganda desenvolvidas surtiram efeito sobre os colonos do Sul, que, observa Tucci Carneiro, “se tornaram apáticos à política brasileira com tendências ao auto-enclausuramento”, conforme documentou um jornal da colônia nazista: “Somos 1 milhão de alemães no Brasil. Somos um exército sem soldados, uma igreja sem torre, aceitai o desafio agora. Vós fostes chamados para serem líderes deste povo, pois sois o povo mais inteligente desta terra”. Igualmente a colônia alemã estava fragmentada em relação aos judeus. “Getúlio Vargas cercou-se de germanófilos convictos, políticos e intelectuais que não ocultavam seu fascínio pelas conquistas empreendidas pela nova Alemanha”, observa Tucci Carneiro. Parte da comunidade alemã no Sul do Brasil acreditava que reproduzia, em “microrregionalidades”, a sua “velha Alemanha” agora reavivada pelo Führer.

Essa aproximação dos teutos com a cultura original provocou um isolamento lingüístico e cultural que, durante o Estado Novo, foi combatido pelas autoridades políticas que interpretavam essa postura como “erosão do espírito de brasilidade”. Segundo a pesquisadora, esse discurso nacionalista não apenas serviu para combater os quistos raciais, mas também para encobrir valores racistas e anti-semitas sustentados pela elite política que falava em “promover o homem brasileiro, defender o desenvolvimento econômico e a paz social do país”. A professora lembra que o conjunto de decretos nacionalistas e xenófobos promulgados em 1938 pelo Estado Novo, assim como a Polícia Política, serviu para legitimar a ação repressiva e preventiva contra aqueles que, segundo o discurso oficial, eram considerados como elementos ameaçadores para a composição racial e para a ordem política brasileiras. “Quem eram os elementos corrosivos da nação brasileira? Os judeus tornados apátridas pelos nazi-fascistas. Somavam-se a essa ‘escória’ os comunistas, os ciganos, os negros, tratados como párias da humanidade.”

Assim, segundo Tucci Carneiro, a postura de neutralidade de Vargas ante os países do Eixo era uma fachada, uma máscara adequada aos grandes estadistas coroados pelos louros do fascismo. “Essa leitura possibilita compreender o árduo processo de gestação dos direitos humanos no Brasil. A história do Brasil contemporâneo ainda está para ser escrita trazendo a público a postura omissa do governo brasileiro diante da questão judaica. O Brasil, a partir de 1937, editou uma série de circulares secretas proibindo a concessão de vistos aos judeus e facilitando a entrada de ‘arianos puros’.” Há várias cartas anônimas em arquivos do Deops com denúncias de desembarque de judeus nos portos do Rio e Santos. Assim como a historiadora descobriu uma carta do chanceler de Vargas, Oswaldo Aranha, que, como presidente das Nações Unidas, criou o Estado de Israel: “Nela, Aranha afirma a importância de se criar Israel justamente para evitar a migração de mais judeus e pôr fim à entrada ‘indesejada’ deles no Brasil”, conta Tucci Carneiro. A união de chucrute e feijoada certamente provocou indigestões históricas que merecem ser recuperadas.

Revista da FAPESP
http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

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Gangues de adolescentes disputam por território nos conjuntos habitacionais ingleses

Marc Roche
Correspondente em Londres

Um adolescente morto após ter sido esfaqueado; dois feridos, um gravemente, durante uma batalha encarniçada entre gangues rivais, sem dúvida vinculada ao tráfico de drogas. Esses crimes ocorreram em 5 de janeiro no Larner Road Estate, um conjunto habitacional tão vasto quanto sinistro situado em Erith, no sudeste de Londres. Em 1º de janeiro, na primeira hora do dia, um enfrentamento também havia ocorrido no norte da capital, quando um adolescente de 17 anos fora mortalmente apunhalado no tórax.
Os policiais estão fartos de tudo isso. Eles não agüentam mais esta violência juvenil que, em 2007, ceifou a vida de 27 adolescentes londrinos, a maioria foi morta por golpes de arma branca. Foi por esta razão que Bob Carr, um delegado-chefe de Islington, um bairro situado a nordeste da capital que foi particularmente atingido por esta onda de crimes, reclamou a imposição de uma pena automática de cinco anos de prisão para todo indivíduo maior de idade que for preso em flagrante de posse de uma arma. As associações de proteção da juventude - a exemplo da Knives Destroy Lives Campaign ("Os punhais destroem vidas") ou da Mothers Against Guns ("as mães contra as armas de fogo") - deram o seu apoio à proposta do delegado da Scotland Yard.
Este fenômeno, que atinge os bairros "problemáticos" das grandes cidades inglesas, foi batizado de "postcode lottery" (a loteria do código postal). Não se trata de uma revolta contra as instituições, a escola ou a polícia. Essas crianças britânicas que cresceram sem família, sem ensino nem educação atacam outros adolescentes para tomar ou conservar o controle sobre o seu conjunto habitacional.
Segundo avaliam os especialistas, mesmo se os agressores e as vítimas são, na sua maioria, de origem antilhana ou africana, o território transcende a raça ou a religião. "A violência das batalhas de gangues em Londres sempre existiu, mas é a sua intensidade que constitui uma novidade. Os jovens criminosos carregam consigo não só facões de lâmina comprida, cutelos ou machadinhas, como também revólveres com o objetivo de defender um suposto território, como se este último fosse a única coisa no mundo que eles possuem", explica o comandante Shaun Sawyer, um dos chefes da seção de repressão às gangues da Scotland Yard. Esta delinqüência vem se alastrando em bairros populares que estão atingindo o status de classe média, onde coabitam sem se misturarem entre si, jovens desempregados e profissionais liberais. Este é o caso de bairros como Hackney, Islington ou Enfield.
Na maioria dos casos, esses incidentes ocorrem por ocasião de eventos esportivos ou de shows, na frente de casas noturnas, durante festas em casas de particulares e em pontos de ônibus. "Eles estão no mundo da ‘Laranja Mecânica’", afirma Harry Fletcher, um responsável do sindicato dos profissionais da assistência social, referindo-se ao filme de Stanley Kubrick. Fletcher faz uma constatação de impotência: "eles pensam estar atuando num filme de gângsteres; eles não mais conseguem fazer a distinção entre a realidade e a ficção".
Numa entrevista ao "Sunday Telegraph" e que foi publicada no dia que se seguiu ao drama de Erith, a ministra do interior Jacquie Smith comprometeu-se a implantar um dispositivo reforçado para combater o tráfico que alimenta de armas os conjuntos habitacionais. Para o governo trabalhista, a obrigação de agir tornou-se uma emergência: segundo uma pesquisa de opinião, dois britânicos em cada três consideram que o Labour fracassou no campo da luta contra a insegurança.
Tradução: Jean-Yves de Neufville

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Pequenos tiranos

Muitas crianças têm seus desejos atendidos pelos pais como se fossem ordens que devem ser cumpridas sem questionamento. A conseqüência é o exercício do poder marcado pela arbitrariedade; sem limites, também não há possibilidade de satisfação

Michele Roman Faria

Como nos tornamos aquilo que somos? Essa pergunta, para a qual se buscaram (e ainda se buscam) respostas nas mais variadas áreas do conhecimento, conduziu Freud à descoberta do inconsciente. O homem não é senhor em sua própria casa, suas ações são determinadas por desejos e motivações que ele mesmo desconhece. A psicanálise surge como uma forma de tratamento que visa tais determinações, revelando paradoxos do desejo que evidenciam a existência da divisão entre a consciência e o inconsciente.

Essa subjetividade não é, entretanto, um dado a priori, é efeito de um árduo trabalho psíquico, por meio do qual é possível encontrar os instrumentos necessários para a entrada na cultura, pagando o preço do recalque e de uma divisão subjetiva sem a qual não haveria inscrição na ordem simbólica que orienta os caminhos do desejo. A família encontra aí seu papel fundamental, pois é nela que se recolhe, peça por peça, cada um dos instrumentos necessários para que se encontre lugar na cultura. A família adquire, nesse contexto, seu caráter e sua função de transmissão.

Podemos pensar em um caso particular dessa transmissão de recursos para a entrada na ordem social: o dos pequenos tiranos. Um trecho de conto infantil auxiliará a reflexão acerca de como essa transmissão regula a relação com o desejo, a lei, os valores morais, o narcisismo, e de como o sujeito se apropria dela. Como situar a posição dessas crianças, tanto de sua própria posição subjetiva como do ponto de vista dos vínculos familiares e daquilo que, desse laço, se transmite?

No início da história, somos apresentados ao desejo do casal de ter um filho. Como em todo desejo, há a marca de uma função simbólica: caberá ao príncipe ocupar seu lugar na linhagem paterna, herdando o reino de um pai que, por sua vez, herdou-o de seu próprio pai, numa ordem de gerações que conduz ao primeiro pai sobre a terra.

A família é, em essência, esse lugar de transmissão psíquica, que conta com o desejo dos pais e o lugar simbólico destinado à criança: “serás rei como eu”. A criança encontrará nesse espaço simbólico o ponto de sustentação de seu narcisismo e a organização psíquica que lhe permitirá situar-se como eu – unidade ilusória, mas estruturante, que assegura ao sujeito a consciência de si mesmo como um todo. Temos aí a função alienante do desejo do Outro que, ao mesmo tempo, sustenta o narcisismo e serve de suporte para a eleição dos ideais a serem alcançados: “serei rei”. É na exigência de responder a esse ideal narcísico que o super-ego exerce sua função.

Ocorre que, entre o que se é e o que se realiza desse ideal, há sempre um hiato, uma distância. Essa distância situa o sujeito, em sua essência, marcado por uma falta. Trata-se do que a psicanálise denominou castração, o sentimento de que falta algo, quando se tem no horizonte a referência a um ideal.

Entretanto, é justamente porque há falta que há algo a buscar – e é nessa busca que nos situamos como desejantes. O desejo é sempre condicionado pela falta, própria do ser humano. É uma condição que ao mesmo tempo nos aliena na busca do narcisismo perdido e nos lança em direção à vida, orientados pela aposta na realização de nossos desejos.

Como o principezinho do conto se conduz em relação ao que lhe falta e como isso o faz funcionar psiquicamente? A tirania do príncipe é a tirania do desejo. Seu desejo adquire o estatuto de ordem e a conseqüência é o exercício de um poder marcado pela arbitrariedade de sua vontade: “Mandou cortar todas as árvores, porque um dia lhe caiu uma ameixa na cabeça; mandou estrangular os pássaros, um a um, porque cantavam de manhã muito cedo e isso atrapalhava seu sono; ordenou que sua mãe fosse presa no 749o andar da mais alta das suas torres, porque ela tinha se atrevido a mandá-lo fazer os seus deveres reais”. Quanto maior a arbitrariedade de suas determinações, guiadas não pela lei, mas por seus caprichos, tanto maior a demonstração do peso de seu poder. Um poder tirânico que é exercido à revelia do desejo dos pais, impotentes diante do filho.

Que os pais sofram com o comportamento da criança não quer dizer, entretanto, que não estejam diretamente implicados nele. Como nos ensinou Freud, temos sempre nossa parcela de contribuição naquilo de que padecemos. Não é a própria rainha que diz ao filho “tu és o meu reizinho, o meu único rei, e os teus desejos são ordens”? Não é em resposta a esse desejo da mãe que o principezinho orienta suas ações? Não é como rei, como único rei, que ele se apresenta assim que o tiram de sua redoma de vidro?

Isso não significa, porém, que a resposta que o principezinho oferece não seja sua própria resposta. Afinal, coube a ele, e a ninguém mais, posicionar-se diante do desejo do Outro. É ele quem escolhe afirmar, diante do rei pai: “Passa para cá a sua coroa!”. Nesse sentido, não podemos considerá-lo uma vítima passiva diante do desejo do Outro. Ele produz sua resposta e é justamente ela que faz dele o que ele é: tirano.

Não nos esqueçamos, porém, de que ao formular sua resposta o principezinho encontra eco na postura do pai, que lhe entrega a coroa sem dizer uma palavra, “porque nunca havia dito não a ele, nem quando tinha 1 dia, nem quando tinha 3 meses. Como proibi-lo então de alguma coisa aos 7 anos?”. Tal é o dilema desse pai real, que escolhe ceder seu lugar porque lhe parece demasiado pesada a tarefa de ferir o narcisismo do filho para quem nunca fora possível dizer não. É assim que algo se transmite nessa família real, que testemunha, prematura e irresponsavelmente, a transformação do principezinho em rei. O narcisismo intocável do príncipe, a quem não se pode negar nada, é também o narcisismo intocável dos pais, que o criam como criança amada e infinitamente preciosa, numa redoma, servido por uma dúzia de criadas com o que havia de melhor e mais precioso. Protegido de tudo e sem conhecer proibições, não há, para o príncipe-rei de nosso conto, distância entre o ideal a realizar e aquilo que é – delineia-se então uma situação sem lugar para um desejo legítimo, ordenado e orientado simbolicamente pela lei compartilhada socialmente.

“…e viveram felizes para sempre” não parece ser o final que se descortina no horizonte quando o preço pago pela felicidade é a sustentação de um narcisismo que leva a crer num mundo onde não há limites. É justamente isso que nos revela a queixa final do principezinho que, tendo realizado todos os seus caprichos, permanece infeliz, assolado por sentimentos de solidão, tristeza e falta de amor.

Trecho de O principezinho tirano, extraído do blog http://geracoesdialogo.wordpress.com :

Num reino longínquo, uma rainha desesperava-se por não ter filhos.
– Temos de ter um! Temos de ter um!, gemia o rei. Para quem ficará este soberbo reino que me deixou o meu pai, que o recebeu do seu pai, e assim sucessivamente, desde a criação do primeiro pai sobre a Terra? A quem entregarei a minha coroa quando os meus ossos se tornarem velhos e quebradiços, quando estiver cheio de cabelos brancos e tolhido de reumatismo?
– Que quadro tão terrível da velhice! Mas não deixa de ter razão: precisamos ter uma criança.
A rainha consultou todos os manuais e os médicos mais poderosos e mais sábios. Por fim, graças aos tratamentos, finalmente engravidou.
– Cuidado, este principezinho será seu tesouro, mas não lhe dêem mimo demais. Não tenham pressa em fazer dele um pequeno rei, preveniu o médico, assim que o bebê nasceu.
Mas mal ele virou as costas, a rainha pegou logo o pequeno príncipe e começou a enchê-lo de mimos.
– Tu és o meu reizinho, o meu único rei, e os teus desejos são ordens.
Os pais meteram o menino numa redoma infinitamente preciosa e, todas as manhãs, uma criada diplomada levava-lhe mamadeiras de cristal com leite da melhor qualidade e mel de abelhas raras. Dormia num colchão de pétalas de rosa colhidas na Abissínia exatamente às 5 horas da manhã -– quando estavam mais frescas -– e em lençóis bordados a ouro. Para servir o menino, uma dúzia de criadas corriam de um lado para o outro durante o dia e, à noite, dormiam a seus pés. Estava protegido de tudo: da mais leve brisa, do menor sopro… Para o aquecer, os pais mandaram construir um sol artificial, que não queimava a pele, mas fornecia vitamina D. Foi assim que o garotinho cresceu, tranqüilamente, em silêncio. Seus desejos eram ordens, sempre atendidas prontamente.
No dia em que completou 7 anos, pareceu conveniente aos pais tirar a criança adorada da sua redoma de vidro.
– Meu pequerruchinho, agora já és grande!, disse a mãe, aproximando-se para lhe fazer um carinho.
– Não sou pequerruchinho coisa nenhuma, disse o príncipe com desdém. E se quer me beijar, autorizo que me beije os pés. É o quanto basta.
Depois, dirigiu-se ao pai:
– Ei, velhote, passa para cá a sua coroa!
O rei entregou-lhe a coroa sem dizer uma palavra, porque nunca havia dito “não” ao principezinho, nem quando ele tinha 1 dia, nem quando ele tinha 3 meses. Como proibi-lo então de alguma coisa aos 7 anos? E foi assim que o principezinho se transformou em rei. Um rei tirano de 7 anos e alguns dias. Mandou cortar todas as árvores, porque um dia lhe caiu uma ameixa na cabeça; ordenou que todos os pássaros fossem estrangulados, um a um, porque cantavam de manhã muito cedo e isso atrapalhava seu sono; determinou que sua mãe fosse presa no 749o andar da mais alta das suas torres, porque ela tinha se atrevido a mandá-lo fazer os seus deveres reais. É o que por vezes acontece quando se é criado numa redoma.
O pior é que, apesar dos seus caprichos, ele tinha sempre um rosto infeliz e gritava:
– Sinto-me sozinho! Estou triste! Ninguém gosta de mim!

Revista Mente e Cérebro
http://www2.uol.com.br/vivermente/

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Emmanuel, a criança perdida das Farc

Paulo A. Paranaguá
Enviado especial a Bogotá, Colômbia

Emmanuel, filho da refém Clara Rojas e de um guerrilheiro colombiano, deverá ser entregue à sua avó, Clara Gonzalez de Rojas, daqui a duas semanas, até que uma decisão da justiça sobe o caso seja oficializada. Foi o que prometeu a diretora do Instituto Colombiano do Bem-estar Familiar (ICBF), Elvira Forero, em entrevista para o canal de televisão Caracol, no sábado, 5 de janeiro. Testes de DNA permitiram confirmar, na sexta-feira, que a criança que havia sido confiada dois anos atrás aos serviços sociais pertence à família Rojas.
"Emmanuel está com boa saúde, é uma criança feliz, carinhosa, repleta de alegria", assegurou a senhora Forero. "Ele se dá bem com todo mundo, tanto com as outras crianças quanto com os adultos". O público ainda não conhece o rosto do pequeno Emmanuel, que se tornou aos 3 anos e meio a estrela de uma novela política. A televisão colombiana mostra com freqüência a ficha de identificação do menino, que foi colocado numa casa de família em Bogotá e registrado sob o nome de Juan David Gómez Tapiero. Mas o retrato não permite distinguir os seus traços, sem dúvida para não expor a mãe adotiva, cujo nome e o endereço não foram revelados.
O percurso deste menino, que nasceu no cativeiro em 2004, comoveu a Colômbia. Os veículos de comunicação lançaram uma campanha, que teve como símbolo a sua avó, a senhora Gonzalez de Rojas, selecionada pela revista semanal "Semana" como "a personagem do ano de 2007". "Libertem Emmanuel!", repetiam sem parar os jornais, as rádios e as televisões. Foi por intermédio de um policial, Jhon Pinchao, que conseguiu evadir-se de um acampamento das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc, de extrema-esquerda), em maio de 2007, que o nome do menino passou a ser conhecido.

TV Noticias Uno/AFP - 31.ago.2003

Imagem de TV exibida em 2003 mostra Clara Rojas, uma das reféns da Farc

Em 31 de dezembro, o presidente Álvaro Uribe surpreendeu a opinião pública ao emitir uma "hipótese" retumbante, que supostamente se destinava a explicar por que as Farc não haviam entregado os três reféns dos quais elas haviam anunciado a liberação em 18 de dezembro: Clara Rojas, o seu filho e a antiga deputada Consuelo Gonzalez de Perdomo. Enquanto as Farc alegavam que não cumpriram a promessa porque continuavam sendo alvos de "operações militares", o presidente Uribe explicava que a guerrilha não estava mais de posse do menino. Ele havia sido entregue para os serviços sociais de San José de Guaviare (sul da Colômbia) em junho de 2005, gravemente doente, com um braço fraturado e sinais de maus tratos, segundo consta do seu dossiê médico.
O homem que trouxera o menino, José Crisanto Gómez, tentou recuperá-lo no mês de dezembro de 2007, cumprindo ordens das Farc. Ao ser informado de que o menino estava em Bogotá, Gómez optou por fugir junto com a sua família, por temer represálias da guerrilha, e solicitou a proteção das autoridades.
Em 3 de janeiro, estava no auge a controvérsia entre Álvaro Uribe e o presidente venezuelano Hugo Chávez, que enxergava na hipótese do menino reencontrado uma "cortina de fumaça" destinada a fazer fracassar a sua mediação com as Farc. Neste mesmo dia, o antigo refém Jhon Pinchao convocou uma coletiva de imprensa durante a qual ele recusou-se a se pronunciar a respeito da identidade do pequeno Emmanuel. "A minha intuição me dizia que todos os indícios convergiam para a direção que as autoridades estavam apontando", afirmou Pinchao em entrevista ao "Le Monde". "Mas eu não poderia mostrar-me afirmativo no momento da coletiva de imprensa. Um menino daquela idade costuma mudar muito de aparência, eu não tenho toda certeza de poder reconhecê-lo. Agora que os testes de DNA e as Farc confirmaram que se trata mesmo de Emmanuel, sinto-me muito feliz pela sua família. Pelo menos, aqui está um mistério que acabou sendo desvendado".
A divulgação da existência de um menino, nascido de um caso amoroso entre Clara Rojas e um dos seus carcereiros, foi um "furo" do jornalista colombiano Jorge Enrique Botero. Ele manteve a informação em segredo até o lançamento de um livro bastante romanesco, "Últimas notícias da guerra", que foi publicado em Bogotá em abril de 2006. Logo na primeira página, o narrador descreve um relacionamento amoroso entre "Dona Clara" e um guerrilheiro chamado Rigo, que se desenvolve apesar do regulamento das Farc, que proíbe todo relacionamento íntimo entre os combatentes e os civis, e mais ainda quando estes últimos são reféns.
O autor vai soltando aos poucos fragmentos desta história sentimental, no decorrer da centena de páginas da narrativa. Um dos trechos mais dramáticos do livro relata as circunstâncias do parto. Um bombardeio que tem por alvo o acampamento das Farc provoca uma modificação da posição do bebê no útero da mãe, que começa a se queixar de contrações prematuras. No fundo de uma trincheira, Clara Rojas, sofrendo muito, pede aos gritos para que alguém proceda a uma cesariana. Só que ninguém acha o bisturi, que desapareceu no meio da confusão. Então, duas mulheres da guerrilha, Sofia e Solangie, juntam as forças. A primeira segura um isqueiro, a outra uma faca de cozinha que foi encontrada no chão e "limpa" com água.
"Por meio da faca utilizada para descascar tomates, ela cortou dezesseis centímetros do abdôme, deixando uma abertura ampla o bastante para que a criança pudesse sair, mas evitando que a lâmina de metal a atingisse", escreve o autor. O bebê foi batizado por alguns guerrilheiros de Bombardeio Rojas, ou ainda, Pequeno Acordo Humanitário. Antes de impor um castigo ao pai, Manuel Marulanda, o chefe histórico das Farc, pediu aos seus camaradas para levarem em conta o fato de que "esta criatura é metade deles e metade nossa".
Jorge Henrique Botero foi criticado por ter "dramatizado" a sua narrativa, misturando crônica e ficção. "Contudo, eu nunca poderia ter imaginado um destino tão surpreendente para este menino", confessa o autor ao "Le Monde". "Dois anos atrás, eu afirmei que ele havia sido separado da mãe, mas eu ignorava em quais circunstâncias", prossegue. "As informações a respeito de Emmanuel parecem ser críveis. Entretanto, eu penso que o governo deveria ter avisado a família, antes de fazer todas essas revelações à imprensa. Além disso, até agora não consigo encontrar uma explicação para o fato de os guerrilheiros das Farc não terem entregado o menino para a sua avó, se eles queriam mesmo afastá-lo da zona de combates, em vez de entregá-lo para camponeses".
O comunicado da "secretaria" das Farc (a diretoria da guerrilha), de 2 de janeiro, reconhece que Juan David é mesmo Emmanuel, mas acrescenta que o governo Uribe "seqüestrou" o menino. "Esta interpretação está muito distante da realidade", avalia Botero. Por sua vez, o alto-comissário colombiano para a paz, Luis Carlos Restrepo, mostra-se mais severo. "As Farc estão tentando cinicamente dissimular a sua mentira por meio de outra mentira", afirma. "Agora, a guerrilha tem por obrigação libertar Clara Rojas e Consuelo Gonzalez de Perdomo sem demora, conforme ela havia prometido".
Tradução: Jean-Yves de Neufville

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Nenhuma solução em vista para o Quênia

Mediadores internacionais estão tentando persuadir o presidente Kibaki e o líder de oposição Odinga a chegarem a um entendimento na crise do Quênia. Apesar de Odinga ter cancelado um comício, centenas de milhares de pessoas permanecem deslocadas e mais violência pode estar a caminho.

Thilo Thielke

Era por volta do meio-dia em Kiambaa, perto da linha do equador, quando um grupo de moradores que buscava refúgio na pequena igreja da cidade ouviu pessoas entoando cantos de guerra. Os cantos vinham de duas direções e gradualmente se tornavam mais altos e mais distintos. Quando o primeiro grupo se tornou visível -centenas de jovens empunhando facões, lanças e arcos e flechas- as pessoas reunidas ali perceberam o perigo iminente. Elas fugiram para a igreja simples, feita de pau-a-pique, onde se ajoelharam e começaram a rezar. De repente a cantoria do lado de fora parou e houve silêncio.

Segurando sua filha de três anos firmemente em seus braços, Grace Githuthwa era uma das pessoas que buscavam refúgio na igreja. Quando as primeiras pedras e flechas começaram a atingir o santuário, “nós sabíamos que nossa hora tinha chegado”, disse Githuthwa, 30 anos. Os agressores derrubaram as portas podres de madeira, deixando o grupo desprotegido. Enquanto os homens correriam para fora, onde a turba os despedaçava com seus facões, as mulheres e crianças se encolhiam no interior da igreja em colchões que trouxeram consigo. Após matarem os homens, os agressores levantaram barricadas nas portas, despejaram gasolina nos colchões e colocaram fogo.

Grace Githuthwa conseguiu escapar por uma janela com sua filha Miriam, apenas para se deparar com a turba enfurecida do lado de fora. Um dos homens arrancou sua filha de seus braços e a atirou nas chamas. Githuthwa fugiu correndo sem olhar para trás. Ela conseguiu escapar, mas sem sua filha.

O massacre que ocorreu na semana passada nesta cidade perto de Eldoret, uma cidade nas montanhas quenianas, foi o pior caso de violência étnica dos últimos dias no Quênia. A violência foi provocada por uma eleição presidencial aparentemente manipulada em 27 de dezembro, que levou a esforços frenéticos da comunidade internacional para desarmar a crise.

Na última sexta-feira, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon falou por telefone com o presidente Mwai Kibaki e com o líder da oposição Raila Odinga, pedindo aos dois adversários que garantissem um “retorno à paz e normalidade”.

O presidente de Gana, John Kufuor, que também preside a União Africana, anunciou seus próprios esforços de mediação e também contatou as autoridades no Quênia por telefone. “Nós estamos ansiosos em restaurar a paz em nosso país irmão”, disse o ministro das relações exteriores de Gana.

Na quinta-feira, o bispo Desmond Tutu, o sul-africano ganhador do Prêmio Nobel da Paz, viajou para o Quênia, onde falou no Conselho das Igrejas da África, em Nairóbi, e pediu aos quenianos que restaurem a paz. Ele disse ao encontro que a África do Sul experimentou uma situação semelhante de falta de esperança e lidou com ela. Ele pediu por uma reconciliação de todos os lados.

O presidente Kibaki demonstrou inicialmente pouco interesse em ceder. Até o final de semana, ele se recusava a permitir que o presidente da União Africana viajasse para Nairóbi, apesar de ter concordado em se encontrar com Tutu na sexta-feira. Naquela noite, Kibaki anunciou que estava disposto a aceitar uma nova votação -mas apenas se a Justiça decidisse a favor de novas eleições. A concessão de Kibaki foi mais ou menos insignificante, já que os juízes do Quênia são escolhidos a dedo e estão sob o controle do presidente.

A onda de violência no Quênia dos últimos dias não é resultado apenas de uma fraude eleitoral. As rivalidades tribais, a marginalização social de grupos étnicos inteiros e o abuso despudorado de poder são as raízes da tragédia sangrenta. Kibaki comanda um governo altamente corrupto, com quase todas as cadeiras de ministro ocupadas por membros da etnia kikuyu. Apesar de ser o maior grupo étnico do país, os kikuyu ainda assim correspondem a apenas cerca de 20% da população. Eles dominam o Quênia há décadas, o que resulta em receberem os melhores empregos, as melhores estradas nas regiões onde vivem e o melhor atendimento de saúde. O pai da independência do Quênia, Jomo Kenyatta, era kikuyu, assim como Mwai Kibaki, o terceiro presidente do país.

O grupo da União Européia que monitorou a eleição, chefiado pelo político alemão Graf Lambsdorff, também confirmou que a eleição presidencial foi uma farsa. “As eleições gerais ficaram aquém dos padrões internacionais e regionais para eleições democráticas”, ele disse. O comparecimento de eleitores foi de impossíveis 115% em pelo menos um local de votação. Em pelo menos dois distritos ocorreram enormes disparidades entre os resultados de uma contagem local de votos e os posteriormente anunciados pela comissão eleitoral queniana na capital, Nairóbi. Em todos os casos as mudanças foram a favor do presidente.

Odinga, o adversário, logo acusou Kibaki de fraude eleitoral, argumentando que a vitória esmagadora de seu Movimento Democrático Laranja (ODM) na eleição parlamentar que ocorreu no mesmo dia apoiava suas alegações.

As cabines de votação para ambas as eleições eram próximas nos locais de votação, tornando ainda mais improvável que os quenianos que votaram em um partido na eleição parlamentar tenham escolhido o outro partido na eleição presidencial. E parecia altamente estranho que o nome de Kibaki tenha sido escolhido na maioria das cédulas presidenciais. Quando os votos estavam sendo contados, Odinga estava à frente às vezes com mais de um milhão de votos, mas então o quadro virou repentinamente em uma vantagem estreita de 232 mil votos a favor de Kibaki.

Odinga é membro do grupo étnico luo, que representa aproximadamente 10% população do Quênia. Os kikuyu vivem no centro do país, na região em torno do Monte Quênia, enquanto os luo estão concentrados ao longo das margens do Lago Vitória, no oeste do país. Há décadas eles se sentem discriminados pelos kikuyu. Em 1969, um kikuyu assassinou Tom Mboya, um proeminente político luo, e os luo nunca esqueceram seu assassinato.

Odinga é um homem alto, carismático. Ele estudou nas cidades alemãs de Leipzig e Magdeburgo nos anos 60 e fala alemão fluentemente. Seu pai foi vice-presidente do país no governo Kenyatta. Após a posse de Kibaki em uma cerimônia realizada às pressas no jardim da residência oficial do presidente, Odinga também se proclamou presidente. A disputa levou a choques entre manifestantes antigoverno e a polícia nas ruas de Nairóbi, onde barricadas foram erguidas e o comércio saqueado. Dezenas morreram nos choques.

Na onda de violência, Odinga também mudou sua estratégia. Apesar de seus eleitores esperarem que ele lute pelo poder, ele também está sob pressão para evitar outro derramamento de sangue. “Nós temos três opções”, disse o líder de oposição no quartel-general de seu partido, apelidado de “Casa Laranja”: desobediência civil, resistência no Parlamento e ação judicial.

Mas a opção parlamentar representaria uma capitulação aos olhos dos eleitores de Odinga. A desobediência civil, por outro lado, poderia levar a um maior caos, o que Odinga deseja evitar, mas não está disposto a descartar. Na semana passada, ele comparou Kibaki ao ex-ditador ugandense e assassino em massa Idi Amin, chamando a vitória eleitoral de seu oponente de um “golpe civil”.

Quando policiais altamente armados usaram seus cassetetes para conter os protestos de seus simpatizantes no centro de Nairóbi, na quinta-feira, Odinga pediu prontamente por outra marcha de protesto no dia seguinte. Apesar dela ter fracassado em se materializar, a simples ameaça foi suficiente para manter a tensão em Nairóbi. Poucas lojas abriram suas portas na sexta-feira, mas a estocagem de alimentos e combustível levou rapidamente a escassez. Segundo um porta-voz da ONU, a violência forçou 180 mil pessoas a deixarem suas casas e meio milhão de quenianos atualmente dependem de assistência humanitária.

É improvável que Kibaki será capaz de ignorar a pressão internacional por muito tempo. Mesmo os americanos, que prematuramente o parabenizaram por sua vitória eleitoral, foram rápidos em retirar sua declaração. Apesar de Washington ver Kibaki como um aliado leal na guerra contra o terrorismo, os americanos se distanciaram do governante autocrático após os crescentes protestos contra o presidente.

Apesar dos esforços internacionais, uma solução sustentável para o conflito ainda não está em vista. Kibaki ofereceu a formação de um governo de unidade nacional com a oposição, mas Odinga prefere uma coalizão com divisão do poder ou mesmo um governo interino durante a preparação de novas eleições. Ainda assim, Odinga concordou em se encontrar com mediadores internacionais no fim de semana, incluindo um alto diplomata de Washington na África, Jendayi Frazer. Na segunda-feira, ele cancelou os protestos planejados para terça-feira.

Mesmo Desmond Tutu reconhece que uma recontagem dos votos seria ineficaz. Após o caos dos últimos dias, acredita Tutu, seria quase impossível reconstruir os resultados verdadeiros. E qualquer coalizão entre Odinga e Kibaki também parece pouco promissora, porque a mesma experiência já fracassou antes.

Odinga formou a coalizão arco-íris que conduziu Kibaki ao poder há cinco anos. Mas assim que assumiu a presidência, Kibaki quebrou sua promessa de nomear Odinga seu primeiro-ministro. Em vez disso, ele colocou os kikuyu em posições chave e logo provou ser tão desinibido em encher seu próprio bolso a ponto de Edward Clay, o ex-alto comissário britânico no Quênia, acusou Kikuya e seus ministros, em sua arrogância e ganância, de se fartarem “como glutões”.

O recente encontro de cúpula União Européia-África, em Portugal, revelou quão irritadiços alguns líderes africanos como Kibaki ficam em relação a críticas ocidentais. Quando a chanceler alemã Angela Merkel censurou o ditador do Zimbábue, Robert Mugabe, por violações de direitos humanos, o presidente do Senegal, Abdoulaye Wade, corrigiu furiosamente Merkel, dizendo aos repórteres: “Quem pode dizer que direitos humanos são violados mais no Zimbábue do que em outros países africanos? Ninguém pode dizer isso”.

Ironicamente, o fluxo constante de ajuda à África reduziu a eficácia da pressão diplomática. O Ocidente fornece ajuda à maioria das ditaduras africanas, incluindo o Zimbábue, quase sempre justificando sua decisão com o argumento de que a eliminação da ajuda seria mais prejudicial para aqueles que necessitam dela.

Outro elemento complicador no caso de Kibaki é que a comunidade mundial considerava o Quênia um bastião de estabilidade até agora, especialmente dada as condições bem mais problemáticas em outros países da região. Uganda sofre há mais de duas décadas com agitação interna e guerra civil, Ruanda foi devastada pelo genocídio em 1994, e o Congo, Somália e o Sudão tiveram todos sua cota de guerra civil. Enquanto isso, o Ocidente deliberadamente optou por fazer vista grossa às condições alarmantes no interior do Quênia.

Enquanto mediadores internacionais entram e saem de Nairóbi, as represálias étnicas parecem continuar fora da capital. Na última quinta-feira, homens do grupo étnico kalenjin, armados com facas e facões, ergueram bloqueios de estrada em chamas na região ao redor de Eldoret, onde revistaram carros atrás de membros do odiado grupo kikuyu.

Ao mesmo tempo, comboios intermináveis de carros se formavam diante da delegacia de polícia da região, onde centenas de kikuyu acamparam por dias. “Na semana passada, um kalenjin veio à nossa casa e nos disse que eles voltariam em breve para matar a mim e minha família”, disse Joe Kamau, 37 anos. Ele empacotou seus pertences, pegou seus três filhos e buscou refúgio na delegacia. Kamau disse que deseja ir para Nairóbi.

Enquanto isso, funcionários da Cruz Vermelha encontraram 13 cadáveres carbonizados de crianças e bebês, a mais jovem com não mais de dois meses de idade, nas ruínas da igreja em Kiambaa. Os corpos de seus pais assassinados ainda se encontram diante da igreja, onde tentaram proteger suas famílias e foram mortos em seus esforços.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Der Spiegel
http://www.spiegel.de/

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Nenhuma solução em vista para o Quênia

Mediadores internacionais estão tentando persuadir o presidente Kibaki e o líder de oposição Odinga a chegarem a um entendimento na crise do Quênia. Apesar de Odinga ter cancelado um comício, centenas de milhares de pessoas permanecem deslocadas e mais violência pode estar a caminho.

Thilo Thielke

Era por volta do meio-dia em Kiambaa, perto da linha do equador, quando um grupo de moradores que buscava refúgio na pequena igreja da cidade ouviu pessoas entoando cantos de guerra. Os cantos vinham de duas direções e gradualmente se tornavam mais altos e mais distintos. Quando o primeiro grupo se tornou visível -centenas de jovens empunhando facões, lanças e arcos e flechas- as pessoas reunidas ali perceberam o perigo iminente. Elas fugiram para a igreja simples, feita de pau-a-pique, onde se ajoelharam e começaram a rezar. De repente a cantoria do lado de fora parou e houve silêncio.
Segurando sua filha de três anos firmemente em seus braços, Grace Githuthwa era uma das pessoas que buscavam refúgio na igreja. Quando as primeiras pedras e flechas começaram a atingir o santuário, "nós sabíamos que nossa hora tinha chegado", disse Githuthwa, 30 anos. Os agressores derrubaram as portas podres de madeira, deixando o grupo desprotegido. Enquanto os homens correriam para fora, onde a turba os despedaçava com seus facões, as mulheres e crianças se encolhiam no interior da igreja em colchões que trouxeram consigo. Após matarem os homens, os agressores levantaram barricadas nas portas, despejaram gasolina nos colchões e colocaram fogo.
Grace Githuthwa conseguiu escapar por uma janela com sua filha Miriam, apenas para se deparar com a turba enfurecida do lado de fora. Um dos homens arrancou sua filha de seus braços e a atirou nas chamas. Githuthwa fugiu correndo sem olhar para trás. Ela conseguiu escapar, mas sem sua filha.

Roberto Schmidt/AFP - 4.jan.2008

Morador do bairro de Mathare, em Nairóbi, observa destruição após onda de violência

O massacre que ocorreu na semana passada nesta cidade perto de Eldoret, uma cidade nas montanhas quenianas, foi o pior caso de violência étnica dos últimos dias no Quênia. A violência foi provocada por uma eleição presidencial aparentemente manipulada em 27 de dezembro, que levou a esforços frenéticos da comunidade internacional para desarmar a crise.
Na última sexta-feira, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon falou por telefone com o presidente Mwai Kibaki e com o líder da oposição Raila Odinga, pedindo aos dois adversários que garantissem um "retorno à paz e normalidade".
O presidente de Gana, John Kufuor, que também preside a União Africana, anunciou seus próprios esforços de mediação e também contatou as autoridades no Quênia por telefone. "Nós estamos ansiosos em restaurar a paz em nosso país irmão", disse o ministro das relações exteriores de Gana.
Na quinta-feira, o bispo Desmond Tutu, o sul-africano ganhador do Prêmio Nobel da Paz, viajou para o Quênia, onde falou no Conselho das Igrejas da África, em Nairóbi, e pediu aos quenianos que restaurem a paz. Ele disse ao encontro que a África do Sul experimentou uma situação semelhante de falta de esperança e lidou com ela. Ele pediu por uma reconciliação de todos os lados.
O presidente Kibaki demonstrou inicialmente pouco interesse em ceder. Até o final de semana, ele se recusava a permitir que o presidente da União Africana viajasse para Nairóbi, apesar de ter concordado em se encontrar com Tutu na sexta-feira. Naquela noite, Kibaki anunciou que estava disposto a aceitar uma nova votação -mas apenas se a Justiça decidisse a favor de novas eleições. A concessão de Kibaki foi mais ou menos insignificante, já que os juízes do Quênia são escolhidos a dedo e estão sob o controle do presidente.
A onda de violência no Quênia dos últimos dias não é resultado apenas de uma fraude eleitoral. As rivalidades tribais, a marginalização social de grupos étnicos inteiros e o abuso despudorado de poder são as raízes da tragédia sangrenta. Kibaki comanda um governo altamente corrupto, com quase todas as cadeiras de ministro ocupadas por membros da etnia kikuyu. Apesar de ser o maior grupo étnico do país, os kikuyu ainda assim correspondem a apenas cerca de 20% da população. Eles dominam o Quênia há décadas, o que resulta em receberem os melhores empregos, as melhores estradas nas regiões onde vivem e o melhor atendimento de saúde. O pai da independência do Quênia, Jomo Kenyatta, era kikuyu, assim como Mwai Kibaki, o terceiro presidente do país.
O grupo da União Européia que monitorou a eleição, chefiado pelo político alemão Graf Lambsdorff, também confirmou que a eleição presidencial foi uma farsa. "As eleições gerais ficaram aquém dos padrões internacionais e regionais para eleições democráticas", ele disse. O comparecimento de eleitores foi de impossíveis 115% em pelo menos um local de votação. Em pelo menos dois distritos ocorreram enormes disparidades entre os resultados de uma contagem local de votos e os posteriormente anunciados pela comissão eleitoral queniana na capital, Nairóbi. Em todos os casos as mudanças foram a favor do presidente.
Odinga, o adversário, logo acusou Kibaki de fraude eleitoral, argumentando que a vitória esmagadora de seu Movimento Democrático Laranja (ODM) na eleição parlamentar que ocorreu no mesmo dia apoiava suas alegações.
As cabines de votação para ambas as eleições eram próximas nos locais de votação, tornando ainda mais improvável que os quenianos que votaram em um partido na eleição parlamentar tenham escolhido o outro partido na eleição presidencial. E parecia altamente estranho que o nome de Kibaki tenha sido escolhido na maioria das cédulas presidenciais. Quando os votos estavam sendo contados, Odinga estava à frente às vezes com mais de um milhão de votos, mas então o quadro virou repentinamente em uma vantagem estreita de 232 mil votos a favor de Kibaki.
Odinga é membro do grupo étnico luo, que representa aproximadamente 10% população do Quênia. Os kikuyu vivem no centro do país, na região em torno do Monte Quênia, enquanto os luo estão concentrados ao longo das margens do Lago Vitória, no oeste do país. Há décadas eles se sentem discriminados pelos kikuyu. Em 1969, um kikuyu assassinou Tom Mboya, um proeminente político luo, e os luo nunca esqueceram seu assassinato.
Odinga é um homem alto, carismático. Ele estudou nas cidades alemãs de Leipzig e Magdeburgo nos anos 60 e fala alemão fluentemente. Seu pai foi vice-presidente do país no governo Kenyatta. Após a posse de Kibaki em uma cerimônia realizada às pressas no jardim da residência oficial do presidente, Odinga também se proclamou presidente. A disputa levou a choques entre manifestantes antigoverno e a polícia nas ruas de Nairóbi, onde barricadas foram erguidas e o comércio saqueado. Dezenas morreram nos choques.
Na onda de violência, Odinga também mudou sua estratégia. Apesar de seus eleitores esperarem que ele lute pelo poder, ele também está sob pressão para evitar outro derramamento de sangue. "Nós temos três opções", disse o líder de oposição no quartel-general de seu partido, apelidado de "Casa Laranja": desobediência civil, resistência no Parlamento e ação judicial.
Mas a opção parlamentar representaria uma capitulação aos olhos dos eleitores de Odinga. A desobediência civil, por outro lado, poderia levar a um maior caos, o que Odinga deseja evitar, mas não está disposto a descartar. Na semana passada, ele comparou Kibaki ao ex-ditador ugandense e assassino em massa Idi Amin, chamando a vitória eleitoral de seu oponente de um "golpe civil".
Quando policiais altamente armados usaram seus cassetetes para conter os protestos de seus simpatizantes no centro de Nairóbi, na quinta-feira, Odinga pediu prontamente por outra marcha de protesto no dia seguinte. Apesar dela ter fracassado em se materializar, a simples ameaça foi suficiente para manter a tensão em Nairóbi. Poucas lojas abriram suas portas na sexta-feira, mas a estocagem de alimentos e combustível levou rapidamente a escassez. Segundo um porta-voz da ONU, a violência forçou 180 mil pessoas a deixarem suas casas e meio milhão de quenianos atualmente dependem de assistência humanitária.
É improvável que Kibaki será capaz de ignorar a pressão internacional por muito tempo. Mesmo os americanos, que prematuramente o parabenizaram por sua vitória eleitoral, foram rápidos em retirar sua declaração. Apesar de Washington ver Kibaki como um aliado leal na guerra contra o terrorismo, os americanos se distanciaram do governante autocrático após os crescentes protestos contra o presidente.
Apesar dos esforços internacionais, uma solução sustentável para o conflito ainda não está em vista. Kibaki ofereceu a formação de um governo de unidade nacional com a oposição, mas Odinga prefere uma coalizão com divisão do poder ou mesmo um governo interino durante a preparação de novas eleições. Ainda assim, Odinga concordou em se encontrar com mediadores internacionais no fim de semana, incluindo um alto diplomata de Washington na África, Jendayi Frazer. Na segunda-feira, ele cancelou os protestos planejados para terça-feira.
Mesmo Desmond Tutu reconhece que uma recontagem dos votos seria ineficaz. Após o caos dos últimos dias, acredita Tutu, seria quase impossível reconstruir os resultados verdadeiros. E qualquer coalizão entre Odinga e Kibaki também parece pouco promissora, porque a mesma experiência já fracassou antes.
Odinga formou a coalizão arco-íris que conduziu Kibaki ao poder há cinco anos. Mas assim que assumiu a presidência, Kibaki quebrou sua promessa de nomear Odinga seu primeiro-ministro. Em vez disso, ele colocou os kikuyu em posições chave e logo provou ser tão desinibido em encher seu próprio bolso a ponto de Edward Clay, o ex-alto comissário britânico no Quênia, acusou Kikuya e seus ministros, em sua arrogância e ganância, de se fartarem "como glutões".
O recente encontro de cúpula União Européia-África, em Portugal, revelou quão irritadiços alguns líderes africanos como Kibaki ficam em relação a críticas ocidentais. Quando a chanceler alemã Angela Merkel censurou o ditador do Zimbábue, Robert Mugabe, por violações de direitos humanos, o presidente do Senegal, Abdoulaye Wade, corrigiu furiosamente Merkel, dizendo aos repórteres: "Quem pode dizer que direitos humanos são violados mais no Zimbábue do que em outros países africanos? Ninguém pode dizer isso".
Ironicamente, o fluxo constante de ajuda à África reduziu a eficácia da pressão diplomática. O Ocidente fornece ajuda à maioria das ditaduras africanas, incluindo o Zimbábue, quase sempre justificando sua decisão com o argumento de que a eliminação da ajuda seria mais prejudicial para aqueles que necessitam dela.
Outro elemento complicador no caso de Kibaki é que a comunidade mundial considerava o Quênia um bastião de estabilidade até agora, especialmente dada as condições bem mais problemáticas em outros países da região. Uganda sofre há mais de duas décadas com agitação interna e guerra civil, Ruanda foi devastada pelo genocídio em 1994, e o Congo, Somália e o Sudão tiveram todos sua cota de guerra civil. Enquanto isso, o Ocidente deliberadamente optou por fazer vista grossa às condições alarmantes no interior do Quênia.
Enquanto mediadores internacionais entram e saem de Nairóbi, as represálias étnicas parecem continuar fora da capital. Na última quinta-feira, homens do grupo étnico kalenjin, armados com facas e facões, ergueram bloqueios de estrada em chamas na região ao redor de Eldoret, onde revistaram carros atrás de membros do odiado grupo kikuyu.
Ao mesmo tempo, comboios intermináveis de carros se formavam diante da delegacia de polícia da região, onde centenas de kikuyu acamparam por dias. "Na semana passada, um kalenjin veio à nossa casa e nos disse que eles voltariam em breve para matar a mim e minha família", disse Joe Kamau, 37 anos. Ele empacotou seus pertences, pegou seus três filhos e buscou refúgio na delegacia. Kamau disse que deseja ir para Nairóbi.
Enquanto isso, funcionários da Cruz Vermelha encontraram 13 cadáveres carbonizados de crianças e bebês, a mais jovem com não mais de dois meses de idade, nas ruínas da igreja em Kiambaa. Os corpos de seus pais assassinados ainda se encontram diante da igreja, onde tentaram proteger suas famílias e foram mortos em seus esforços.
Tradução: George El Khouri Andolfato

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Em 2007, Lula tem pior ano em desapropriação de terras

Enquanto mantém na gaveta do Planalto a proposta de atualização dos índices de produtividade (utilizados por técnicos do Incra na avaliação de uma área que pode ser desapropriada), o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve em 2007, disparado, o pior ano em desapropriações de terra para a reforma agrária. A reportagem é de Eduardo Scolese e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 7-01-2008.

Os 204,5 mil hectares desapropriados por Lula no ano passado, área suficiente para assentar cerca de 6.000 famílias, representam pouco menos de um terço da média anual de 682,5 mil hectares do primeiro mandato (2003-2006).

Até então, o pior resultado da gestão petista havia sido em 2003 (404,7 mil). O volume de 2007, se comparado com 2006 (538,6 mil), representou uma queda de 62%, segundo decretos de desapropriação publicados no "Diário Oficial" da União e tabulados pela Folha.

Esse baixo volume de terras desapropriadas contribuiu para que o governo petista, assim como ocorrera em 2003, 2004 e 2006, mais uma vez não atingisse a meta anual de famílias assentadas.

Segundo a Folha apurou, o número fechado pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) ficou em 67 mil famílias, ante uma meta de 100 mil.

MST

Para o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), esse desempenho do governo não surpreende. "É uma vergonha. Já tínhamos alertado o governo sobre a ineficácia e a morosidade", afirma João Pedro Stedile, da direção nacional do movimento.

O volume de 2007 ficou abaixo também da média de 465,7 mil hectares desapropriados nos três últimos anos da gestão tucana de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002).

Entre janeiro e dezembro de 2007, foram desapropriados cem imóveis rurais, contra 311 em 2006, 395 em 2005, 389 em 2004 e 190 em 2003.

O resultado do ano passado também traz um agravante para o estoque de terras de 2008. Como um processo de assentamento pode ultrapassar os seis meses, é comum o governo concluir o assentamento das famílias somente no ano seguinte à publicação do decreto de desapropriação.

A desapropriação é o instrumento clássico da reforma agrária, defendido pelos sem-terra como a única forma de punir o latifúndio improdutivo.

Esse procedimento tem perdido espaço no governo petista, ironicamente aliado histórico de movimentos como o MST. Um dos motivos está no fato de Lula, que um dia prometeu fazer a reforma agrária na base da "canetada", manter engavetada, sob pressão dos ruralistas, a proposta que atualiza os índices de produtividade.

Com a atualização dos índices (os números usados hoje são baseados no censo agropecuário de 1975), cresceria a quantidade de imóveis rurais considerados improdutivos e, como conseqüência, avançaria também o volume de hectares desapropriados, em especial no Sul e no Sudeste.

"A não revisão dos índices de produtividade limita muito a capacidade do Incra de desapropriar terras", diz o ministro Guilherme Cassel (Desenvolvimento Agrário). Outros fatores também contribuíram para o resultado de 2007. Cassel, por exemplo, foi o último ministro a ser confirmado por Lula no primeiro escalão do segundo mandato do presidente petista.

O clima de incerteza e de inoperância prosseguiu nos meses seguintes, com as disputas dos partidos da base aliada pelos comandos das superintendências regionais do Incra. Soma-se a isso a greve dos 5.000 servidores do órgão, ocorrida entre maio e agosto.

 

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O protagonismo popular na América Latina ameaça as elites classistas

Luiz Alberto Gómez de Souza

Recebemos e publicamos o artigo abaixo de Luiz Alberto Gómez de Souza, sociólogo, ex-funcionário das Nações Unidas (CEPAL e FAO) e diretor do Programa de Estudos Avançados em Ciência e Religião da Universidade Candido Mendes.

Luiz Alberto é graduado em Direito, pela PUCRS, e pós-graduado em Ciência Política, pela Facultad Latino-americana de Ciencias Sociales (Flacso), de Santiago do Chile, e doutor em Sociologia, pela Universidade de Paris Sorbonne Nouvelle. Atualmente, ele é diretor do Programa de Estudos Avançados em Ciência e Religião da Universidade Candido Mendes. De sua vasta obra bibliográfica, destacamos A JUC: os estudantes católicos e a política (Petrópolis: Vozes, 1984). No sítio da IHU On-Line, podem ser conferidos artigos do sociólogo. No dia 11-05-2007, publicamos “A chegada do Papa: palavras simplificadas e afirmações editadas”; em 18-05-2007, “Um véu de integrismo e fundamentalismo ameaça o mundo pluralista de hoje”, e, em 18-07-2007, “Simplesmente cristão”. O material está disponível em www.unisinos.br/ihu. Na edição 231 da IHU On-Line, intitulada Gramsci, 70 anos depois, concedeu a entrevista “A redescoberta de Gramsci”. Eis o artigo.

Faz alguns anos, o coronel Perón na Argentina, para horror das “gentes como uno”, colocou os “cabecitas negras” nas ruas, os “descamisados” e lhes deu direitos de cidadania. Ao mesmo tempo, seu populismo autoritário esmagou organizações intermediárias, colocando a sós o líder, sua companheira Evita, de um lado, e o povo do outro. Os militares intervieram para destruir o processo, mas Perón e Evita viraram mitos. As ambigüidades do peronismo foram tantas que dificultaram até hoje o crescimento da cidadania democrática, depois de ditaduras terríveis, mas, ao mesmo tempo, estas não conseguiram apagar o protagonismo popular, chame-se hoje “piqueteros” ou nação peronista, apesar de um Menem caricato e corrupto pelo meio. No México, o “tata” Cárdenas deu voz a índios e mestiços, nacionalizou o petróleo e trouxe dignidade ao país, diante de seu feroz vizinho do norte. A solução das oligarquias foi cooptar os sucessores presidenciais num Partido Revolucionário Institucional de caciques. Mas as sementes dos anos 30 rebrotaram no PRD do filho de Lázaro Cárdenas, Cuhautémoc e depois em Chiapas, no zapatismo. No Brasil, Getúlio, ditador no Estado Novo, deu direitos aos trabalhadores e voltou triunfalmente em 1950, para suicidar-se em 1954 pelas pressões de um udenismo direitista de falso moralismo, que preparou o golpe dez anos depois. Porém, mais adiante, se fortaleceram os movimentos populares, o MST como exemplo significativo, e surgiram o PDT de Brizola e, principalmente, o Partido dos Trabalhadores de Lula.

Estaremos diante de uma nova fase populista? Diria enfaticamente que não. Há diferenças notáveis. Os três estadistas citados vinham das próprias elites e, a partir delas, faziam concessões. Agora a situação para os setores dominantes é muito mais ameaçadora. Tudo começou aqui com um operário metalúrgico migrante. No dizer de Luis Fernando Verissimo, até então tínhamos sido governados por Braganças e agora chegava um simples da Silva. É audível o ranger de dentes quando, em alguns setores, se fala de Lula e de Marisa Letícia, para eles uma situação social e política insuportável. Prefeririam alguém com português escorreito e, se possível, vindo da academia. Na Bolívia, depois de um Sanchez de Lozada com forte sotaque gringo, da estirpe dos novos donos de mineração, sucessores dos Patiños, chegou, para horror de muitos, um índio cocalero, um Morales com o estranho nome de Evo. No Equador, o movimento indígena foi se fortalecendo nos últimos anos, como previu o notável bispo de Riobamba, D. Leonidas Proaño e levou à presidência Rafael Corrêa, que não tem essa origem étnica, mas que tenta expressar seus anseios, e que se declara seguidor da teologia da libertação e das comunidades de base cristãs. No Peru, um mestiço de propostas pouco nítidas, Ollanta, quase ganhou de um ex-presidente aprista branco, Alan Garcia, de posições também indefinidas. Mas as marchas pré-eleitorais de um e de outro mostraram dois países visualmente diferentes. Também ver as manifestações pró e contra Chávez é como descobrir duas realidades distintas, raças e classes opostas. Numa eleição futura no Paraguai, um ex-bispo católico, Fernando Lugo, cresce nas sondagens por suas ligações com as comunidades guaranis. Kirchner e Cristina, provenientes de províncias pobres e periféricas, mas com fisionomias bem pouco populares, fazem, no entanto, apelo a uma nação peronista que nunca desapareceu. No caso de Tabaré Vásquez no Uruguai leste, dirigente da Frente Ampla, acabou com a alternância histórica e elitista de blancos e colorados, pondo a esquerda no poder. No Chile, Michele Bachelet, presa e torturada com sua mãe pela ditadura, pai general expurgado, depois Ministra da Defesa, que os militares tiveram de engolir, continuando Ricardo Lagos, repetiu a derrota do “barrio alto” pelo povo das poblaciones, que saiu às ruas com Allende e foi depois massacrado por Pinochet. Deixemos de lado a Colômbia, conservadora e em plena insurreição e o México, com eleições fraudulentas. Na Nicarágua, voltou enfim Daniel Ortega, mas com um sandinismo deturpado pela corrupção (a triste “piñata” que distribuiu benesses entre os vencedores).

Cada um destes processos tem uma história própria, com suas ambigüidades e suas potencialidades. O caso brasileiro parece o mais maduro, preparado por muitos anos de tentativas eleitorais frustradas desde 1989 e por caravanas da cidadania pelo país afora, hoje com uma política realista, cônscia da diferença entre o desejável e o possível, mas com políticas sociais que o povo, sentindo na pele, avalia muito melhor do que uma esquerda ideológica. Meu carinho pela Bolívia, onde acompanhei o curto governo de J.J. Torres, assassinado a mando de Banzer e dos americanos, me faz ver com interesse um processo frágil, às vezes imaturo, rondado por separatismos comandados de fora, mas sobre o qual há que fortemente apostar e ser solidário. Lembro especialmente de um amigo arguto daqueles anos, hoje senador do MAS, o companheiro Filipo.

Bem mais ambíguo é o caso da Venezuela e não consigo acreditar no chavismo entusiasta de certos setores da esquerda. Faz-me lembrar Perón, atacando verbalmente o imperialismo e fazendo acordos com ele por baixo do pano. Muita verbosidade e uma tendência autoritária latente. Mas tem o povo pobre a seu lado e desenvolveu políticas sociais ambiciosas. Um elemento positivo foi Chávez aceitar a derrota do último referendo, para decepção da direita, que esperava uma reação violenta, ela que tentaria preparar um golpe se perdesse. Derrota por um fio, num país dividido ao meio. Reação democrática e constitucional de Chávez, que pode ser desfeita mais à frente por nova onda de ameaças e de retaliações. Mais complexo é o caso de Cuba, prisioneira de um bloqueio americano absurdo e criminoso e de um sistema interno autoritário, com um líder que pretende eternizar-se, mas com saúde e futuro incertos. O país parece mal preparado para uma transição difícil. Dizem alguns que Raul Castro pode surpreender, com uma saída à chinesa, politicamente mantendo símbolos e enrijecimento, economicamente com aberturas ao mercado internacional.

Digo isto ainda que em linhas muito gerais, porque temos de tentar fazer análises cuidadosas sobre processos históricos complexos, pesando os prós e os contras de cada caso, que podem também mudar a qualquer momento, para bem e para mal. Marx indicou a necessidade de subir do abstrato para o concreto. Vejo muitas análises, de alguns que se crêem seus seguidores, encerradas num plano filosoficamente idealista e ideológico, a partir de teses gerais, sem raízes na realidade, mitificadas, preconceituosas ou emocionais. É o que nosso autor alemão chamava de ideologia, isto é, uma visão invertida da realidade e de falsa consciência. Temos de acompanhar estes processos cada um em seu contexto, não apenas para conhecê-los, mas antes de tudo para trabalhar pela transformação da realidade (ver a última tese de Marx contra Feuerbach), torcendo para que dêem certo no que têm de positivo emergente, pensando no que eles podem ajudar - ou dificultar - um processo necessário de integração latino-americana, em nível dos povos e não apenas dos setores dominantes. Nesse sentido, a diplomacia brasileira de Celso Amorim e de Samuel Pinheiro Guimarães, seguindo orientações do presidente, tem sido cuidadosa e criativa. Não é com bravatas que se avança, mas com medidas concretas, Lula dialogando com Evo, Corrêa, Bachelet, Tabaré, Cristina, no futuro talvez Lugo e, sempre que possível, com o surpreendente Chávez, talvez o mais difícil, por sua ânsia de liderança.

Voltando ao princípio, nunca a América Latina teve possibilidades tão interessantes, ainda que frágeis, num mundo conturbado, onde o império está enredado no oriente em guerras sem saída. Isso, colocado num espaço latino-americano estrategicamente secundário em nível internacional, poderia abrir-nos possibilidades para experimentar e criar, se não formos atropelados por posições aprioristas de uma esquerda ideológica e se soubermos anular a volta de uma direita impaciente e revanchista. Tudo a começar pelo Brasil, que iniciou o processo e que não pode, de maneira alguma, interrompê-lo.

Instituto Humanitas Unisinos
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O homem que releu a alma brasileira

Antonio Gonçalves Filho

Roberto Schwarz, responsável por uma revisão da obra machadiana, é celebrado em Um Crítico na Periferia do Capitalismo.

Convidado a participar de um seminário sobre a obra do crítico literário, professor e tradutor Roberto Schwarz, realizado há três anos na Universidade de São Paulo, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, lembrando os tempos em que estudavam a obra de Marx, notou que houve uma transformação radical no amigo, “uma espécie de reconstrução da personalidade” desse que é considerado, com justa razão, uma das vozes mais lúcidas do País. Schwarz, austríaco nascido há 69 anos em Viena e criado em São Paulo, não era mais o “esquivo” colega ou o “difícil” professor da juventude. Teria, ao contrário, se amalgamado no “cidadão-escritor” que vive e critica a produção cultural com uma paixão “tropicalista”, segundo FHC. O último adjetivo, reconheceu, era uma provocação ao amigo, que não chegou a ser vienense (veio ainda bebê para o Brasil) e fez-se brasileiro, seja escrevendo sobre Machado de Assis, traduzindo Brecht para o português, analisando Fellini ou o tropicalismo. É desse intelectual multidisciplinar que trata o livro Um Crítico na Periferia do Capitalismo (Companhia das Letras, 408 págs., R$ 59), organizado pelo historiador Milton Ohata e pela professora de literatura Maria Elisa Cevasco, ambos da USP.

Mais que uma homenagem ao autor de Ao Vencedor as Batatas, o livro reúne 30 textos entre análises, depoimentos e ensaios. Eles ajudam a entender por que um ensaísta com talento para poeta e cientista social preferiu dedicar-se sistematicamente à pesquisa e dar ao Brasil o ensaio que o crítico americano Perry Anderson (leia ao lado entrevista com o organizador Milton Ohata) considerou o melhor livro de crítica literária da segunda metade do século 20 centrado num só romance (Um Mestre na Periferia do Capitalismo, sobre a obra de Machado de Assis). Não é exagero. Outro americano, Neil Larsen, professor de literatura comparada na Universidade da Califórnia, diz que não escreve uma palavra de crítica nem dá uma aula sem consultar os escritos do professor, destacando que o conceito básico do pensamento dialético de Schwarz - “o conceito do social como forma objetiva que habita na obra literária desde dentro” - ainda não foi pensado por nenhum crítico americano.

Crítico de formação marxista, Schwarz está, de fato, distante das abstrações de Jameson. Tem um olho na palavra e outro no mundo - sem cortar os vínculos entre os dois, como já observou seu mestre Antonio Candido. O psicanalista Tales A. M. Ab Saber acrescenta, no livro, outro mérito do crítico, o de ter formulado uma subjetividade própria ao país a partir da leitura de Machado de Assis, contribuindo para a discussão sobre o arsenal teórico freudiano. Machado, especialmente em Memórias Póstumas de Brás Cubas, já trataria de um tipo de sujeito psicanalítico, tipicamente brasileiro, avesso aos padrões do neurótico europeu analisado por Freud. Seria o perverso oscilante, aquele entre não-ser e ser o outro.

A singularidade do caso brasileiro é tal que o delírio brasiano é analisado com base numa frase-chave do livro: “A obra é tudo.” O narrador, em seu “radical narcisismo defunto”, assinala Ab Saber, diz que “a obra é tudo” porque totaliza a vida cultural em si mesmo, chamando a atenção sobre quanto o trabalho crítico de Schwarz foi importante para entender o “espaço social arcaico-moderno” do Brasil. Ainda convivendo com a herança de uma ordem escravista e o lustro cultural da época de Machado, o País foi marcado pela importação das idéias do liberalismo europeu que ajudaram a elite brasileira a legitimar uma ordem perversa. Brás Cubas apenas mimetizaria, segundo essa interpretação, o comportamento da classe dominante sob a máscara de infrator de suas regras.

Há no livro Um Crítico na Periferia do Capitalismo outros exemplos da visão “estereoscópica” de Schwarz. Um deles é lembrado pelo professor de História Francisco Alambert, ao citar a descoberta do escritor Paulo Lins e seu romance Cidade de Deus pelo crítico. Hoje consagrado, o livro, adaptado com sucesso para o cinema, poderia, segundo Alambert, convidar a uma abordagem tradicional, não fosse a percepção de Schwarz. Desde o início, antes mesmo que o livro chegasse à gráfica, diz o professor, o crítico “notou que o romance de Paulo Lins era sintomático de uma reorganização da sensibilidade crítica na produção literária contemporânea”.

O professor e crítico de cinema Ismail Xavier reafirma esse talento visionário de Schwarz ao extrair propositalmente citações de um artigo escrito por ele em 1965 (sobre o hoje clássico Oito e Meio, de Fellini) e mostrar como esse texto poderia ter sido escrito ontem, antes mesmo que a noção de “sociedade de espetáculo” fosse usada pela primeira vez por Guy Debord em 1968. Schwarz viu Fellini com outros olhos, antecipando em muitos anos as discussões sobre o problema da imagem no mundo contemporâneo e o exibicionismo de uma sociedade que começava a descer a ladeira quando Fellini acompanhou seus primeiros passos antes da queda. Por tudo isso o seminário sobre Roberto Schwarz foi imperdível. O livro é uma segunda chance para quem não estava presente ao encontro.

Bresser Perereira Website
http://www.bresserpereira.org.br/

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“Armadilha egípcia”: a trajetória dos refugiados sudaneses rumo a Israel

Cécile Hennion

Em seu passaporte sudanês, estava escrito que ele poderia viajar para todos os países do mundo, com a exceção de Israel. Contudo, foi em Eilat, uma estância balneária israelense na ribanceira do mar Vermelho, que terminou a longa e perigosa viagem de Nour El-Din. As suas panturrilhas apresentam profundas escoriações, causadas por uma corrida ensandecida de três dias através do lado egípcio do deserto do Sinai e pela passagem pela cerca de arame farpado na fronteira. Além de cicatrizes mais antigas, recordações deixadas pela guerra em Darfur.

Já faz dois meses, este sudanês de 24 anos é um assalariado, contratado pelo Hotel Royal Beach. Parado, segurando uma vassoura e pouco à vontade no seu avental apertado, ele observa as montanhas pedregosas cuja extensão é interrompida pelo mar. “As minhas montanhas, em Darfur, eram suaves e verdejantes”, sussurra. “Eu não agüentava mais a guerra, mas eu gostava do meu país. Agora, por ironia do destino, eis que estou vivendo no único lugar da terra que me era proibido! Que Deus me perdoe, pois o Sudão jamais me perdoará isso”.

Cerca de 3.000 refugiados sudaneses seguiram para Israel, dos quais a metade em Eilat, onde servem como mão-de-obra barata para os numerosos complexos turísticos. Da mesma forma que Nour El-Din, eles haviam inicialmente optado pelo Egito, este país vizinho que, até a independência do Sudão em 1956, formava praticamente uma única nação com o deles. Eles haviam viajado até lá, diz Nour El-Din, movidos pela esperança de encontrar “a liberdade e a segurança que eles não poderiam desfrutar nos campos de refugiados do Chade”. As esperanças foram frustradas, destruídas nas engrenagens daquilo que os refugiados sudaneses descrevem como a “armadilha egípcia”.

O seu ponto de partida é Wadi Halfa, o último porto do Sudão no rio Nilo, na entrada do Egito. Longe de Eilat, das suas piscinas e das suas discotecas, este canto de deserto oferece três albergues a céu aberto e uma mesquita. Mais afastado, o souk (mercado) de Mazallah reúne 50 biroscas, todas elas mantidas por habitantes de Darfur. Este souk constitui a primeira etapa antes do êxodo. Ali encontramos Sediq, que tem 24 anos como Nour El-Din, e mostra ter fé no futuro.

Trabalhando com a sua máquina de costurar, ele dá duro enquanto está esperando a esposa, uma jovem mulher que ele nunca viu. O casamento foi concluído pelas suas famílias “no país”, em Jenena, na região a oeste de Darfur. Tão logo ela tiver chegado, eles partirão para o Egito. No Cairo, eles irão se inscrever no escritório do Alto Comissariado dos Refugiados para as Nações Unidas (HCR), com a esperança de serem incluídos nas quotas de imigração dos Estados Unidos, do Canadá ou da Austrália.

Em Wadi Halfa, o veículo que serve para escapar do Sudão, o Patas de Avestruz, tem uma aparência modesta. Trazendo no topo do seu mastro as bandeiras egípcia e sudanesa, é um esquife cuja pintura está descascada, e que avança aos trancos e barrancos pelo Nilo, apinhado de passageiros. Para ir do Oeste sudanês em guerra até o porto de Assuã, o ponto final no Egito do Patas de Avestruz, a viagem custa uma fortuna: mais de US$ 500 (pouco menos de R$ 900) por cabeça. Mas, uma vez embarcados, os passageiros voltam os olhares para o Egito, com a certeza de que “uma existência melhor é possível”. Quando eles chegarem ao Cairo, muitos terão de rever as pretensões. As carteiras de refugiado que lhes são fornecidas pelo HCR não lhes dão o direito de trabalhar. Diante da falta de condições para terem acesso aos cuidados médicos ou aos estudos, um bom número deles irá afundar no círculo vicioso da precariedade e da miséria.

Os primeiros refugiados sudaneses fugiam da guerra civil que assolou o Sul (1983-2005). Majoritariamente cristãos, eles se beneficiaram da ajuda das igrejas do Cairo, que lhes forneciam 1 kg de açúcar, de farinha ou de lentilhas, além de locais de encontro, freqüentados atualmente por imigrantes de Darfur, apesar de estes serem muçulmanos. Em 30 de dezembro de 2005, essas igrejas se tornaram o derradeiro refúgio, quando 3.000 deles, que estavam acampados na Praça Moustafa Mahmoud, na frente do HCR, foram evacuados brutalmente pela polícia.

Boutros Akotmanot, originário do sul do Sudão, era um dos principais líderes deste acampamento. “Eu escapei por acaso do ataque e da grande prisão em massa que veio logo depois”, diz, na soleira da igreja adventista do bairro de Ramsés. “A confusão era total. Os refugiados haviam sido mortos, feridos ou presos. Nós organizamos uma célula de crise dentro da igreja para ajudar as famílias das vítimas e dos desaparecidos”. O balanço oficial era de 27 mortos. Baseando-se nos depoimentos de testemunhas, Boutros Akotmanot afirma que 55 pessoas foram mortas. Aqueles que haviam sido presos foram desde então libertados. “Restam 36 desaparecidos, dos quais uma adolescente de 14 anos”, assegura. “Ninguém sabe o que aconteceu com eles”. “Nós, refugiados sudaneses, reclamamos junto à ONU os nossos direitos naturais à dignidade, ao trabalho, à educação e à saúde”, insiste. “No nosso grupo, alguns estão aguardando uma decisão já faz cinco ou sete anos. Em 2006, apenas 2% dos casos foram solucionados. Muitos são aqueles que não possuem mais nada. Os nossos jovens estão desesperados, frustrados, dominados pela violência”.

No outono de 2007, 42.000 refugiados no total haviam sido registrados pelo escritório do HCR no Cairo, entre os quais uma maioria de sudaneses. O número de não-inscritos alcança, segundo as estimativas das ONGs, números astronômicos. Possivelmente 2 milhões. Isso representa uma chaga para o Egito que acolhe, além deles, desde 2003, um fluxo crescente de iraquianos. Bloqueados no Egito, sem terem conseguido se integrar no país, traumatizados pelo ataque de dezembro de 2005, os sudaneses inventaram “a solução derradeira”: a fuga para Israel.

Ilegal, esta última parte da viagem é a mais perigosa. Uma vez que o Sudão e Israel são oficialmente países inimigos, a fronteira está fechada para eles. Resta a linha proibida, entre Rafah e Taba, um caminho de 150 km no meio do deserto e apinhado de arame farpado, na extensão do qual os guardas egípcios têm ordem para abrirem fogo, após intimação. Desde o mês de abril, quando foram registradas as primeiras tentativas, são cada vez mais numerosos aqueles que arriscam esta mortal travessia.

A polícia procede a prisões tão logo eles passam por Suez, ao passo que, teoricamente, os refugiados têm o direito de circular pela totalidade do território egípcio. Atualmente, existem mais de 250 presos nos cárceres do Sinai, condenados a um ano de prisão em média. Apenas as mulheres e as crianças foram libertadas.

Madhal Aguer Gout Chol, um advogado sudanês e militante instalado no Cairo que representa o Movimento de Liberação do Povo do Sudão (SPLM), a ex-rebelião do sul, atua como intermediário entre os prisioneiros e as autoridades egípcias. É Madhal que as autoridades chamam quando é preciso recuperar um cadáver no Sinai. Assim, ele foi buscar o corpo de Ouik Malong Agui, 30 anos, com uma bala no peito; aquele de Hajja Abbas Haron, 29 anos, grávida de 6 meses, com uma bala na cabeça; e aquele de Yasser Ali Mohammed, ferido por balas, morto na prisão de Ismaïlia. Além daquele corpo que foi descoberto no deserto e que não pôde ser identificado, pois só restavam os pés e que o advogado concluiu que ele havia sido comido pelos abutres. Todos eles foram enterrados num cemitério no Cairo.

“Essas tragédias não dissuadiram ninguém”, lamenta Madhal Chol. Como resultado do boca a boca, muitos são a