Arquivo de 12 de Janeiro de 2008

O inventário do museu sonhado por Hitler

Recuperados para pesquisa dois álbuns do saque nazista de obras de arte

Maribel Marín

A Segunda Guerra Mundial está prestes a terminar e as tropas aliadas se preparam para bater em retirada. Hitler morreu. Sua casa, Berghof, não passa de uma ruína, mas uma ruína carregada de história. Entre seus escombros, um soldado americano baseado perto de Berchtesgaden (Alemanha), se empenha em buscar um suvenir para levar para casa. Uma prova de que ele esteve ali e sobreviveu.

Vê dois álbuns de couro. Os abre e encontra em suas páginas a prova do saque artístico cometido pelos nazistas durante os primeiros dias da ocupação de Paris em 1940. Quadro a quadro. Com fotografias, inscrições, referências a suas vítimas, grandes colecionadores da época como Wildenstein, Kahn, Seligmann, Rothschild. Após a morte do soldado anônimo, décadas depois, seus familiares descobrem os livros no sótão de sua casa. Agora, desde o início de novembro, estão à disposição dos pesquisadores no Arquivo Nacional dos EUA e na The Monuments Men Foundation for the Preservation of Art.

“É uma das descobertas mais significativas relacionadas ao espólio artístico de Hitler desde os julgamentos de Nuremberg”, afirma o arquivista Allen Weinstein. Sua importância é em todo caso mais testemunhal, documental e simbólica que outra coisa, porque a maioria das obras artísticas registradas nos livros foram restituídas a seus donos originais. “O que os álbuns provam é o saque sistemático e premeditado promovido pelo Führer”, indica Robert Edsel, responsável pela Monuments Men Foundation.

Em 1937 já haviam começado na Alemanha as primeiras expropriações de coleções judias. Por motivos econômicos e por xenofobia. “Queriam destruir artisticamente essa cultura”, afirmou Inge Reist, pesquisadora do Center for the History of Collecting in America, que esteve recentemente em Sevilha, em uma jornada sobre espólios artísticos no Ocidente organizada pela Fundação Abengoa. “Mas também enriquecer as próprias coleções dos oficiais nazistas e sobretudo a do Museu do Führer”, a perversão artística que Hitler nunca conseguiu materializar -calcula-se que se chegaram a reunir 10 mil obras.

Com o amparo da Reichskammer der Bildenden Kunste, criada por Josef Goebbels em 1933 para controlar quem operava no mercado de arte, foram rescindidas as licenças de galeristas como Max Stern até afogá-los. E a partir de 1940, seguindo os ditames da Einsatzstab Reichleiter, roubaram em igrejas e museus; se saciaram com particulares que abandonavam suas casas para fugir, estavam em campos de concentração ou procuravam dinheiro rápido para comprar vistos e com eles sua liberdade… Também se apropriaram de importantes obras de arte degenerada. A importação dessa arte moderna proscrita - Monet, Renoir e Matisse- era proibida na Alemanha, mas servia para financiarem sua guerra.

“As estatísticas variam. No entanto, calcula-se que foram espoliadas mais de 650 mil obras de arte antes do fim da guerra”, afirma Reist. Às vezes os roubos eram à la carte. “Alguns membros do círculo de Hitler e Goering chegaram a fazer listas da compra com instruções. Kajetan Muhlamann, por exemplo, preparou um catálogo com obras a ser obtidas. Entre elas havia dois Rafael da coleção Zartoriski de Cracóvia.”

Os nazistas foram sistemáticos, obsessivamente cuidadosos ao documentar seus furtos. Deviam deixar prova de sua eficácia espoliadora e apresentá-las ao Führer para que escolhesse no papel as obras que queria para seu museu. Depois da capitulação foram encontrados 39 livros, utilizados como provas nos julgamentos de Nuremberg. Mas o responsável pela implementação desse sistema de controle de peças roubadas, Robert Scholtz, disse em 1945 aos americanos que chegaram a se criar mais de cem, conta Greg Bradsher, do Arquivo Nacional dos EUA. Os dois que aquele soldado anônimo levou -sua família quis que permaneça no anonimato- eram os números 6 e 8; o primeiro está com a The Monuments Men Foundation à disposição de estudiosos e pesquisadores; o segundo foi depositado por Edsel no Arquivo Nacional americano.

Os dois caíram em suas mãos e não por acaso. Foram oferecidos -contra o pagamento de uma quantia que não quis revelar- por honrar com seu trabalho a memória dos homens e mulheres que, após o fim da guerra, ajudaram a recuperar parte do espólio e continuar com seu trabalho. O nome de Rose Valland soou com força nas jornadas organizadas pela Abengoa. Foi funcionária do Museu do Louvre em Paris e a única francesa no Jeu de Paume, a pinacoteca para onde eram transferidas as peças roubadas. Essa mulher se dedicou a catalogar esse furto maciço de forma clandestina, arriscando a própria vida, para depois passar as listas para a resistência.

Sua informação serviu para recuperar, depois da Segunda Guerra Mundial, um grande número de pinturas, esculturas e outras obras de arte. Mas outros milhares, de valor incalculável, ficaram dispersas pelo mundo, em coleções privadas ou penduradas em paredes de museus e outras instituições. Alguns de seus donos legítimos, herdeiros das vítimas dos nazistas como Maria Altmann, recuperaram o que era seu moralmente: neste caso, o Retrato de Adele Bloch Bauer I, de Gustav Klimt, restituído pelo Estado austríaco e depois vendido pela sobrinha da retratada. Outros acabaram desistindo na busca. E alguns outros persistem e vivem obcecados por recuperá-las.

Não é preciso buscar exemplos de batalhas jurídicas no estrangeiro. Em janeiro, a Corte de Apelação dos EUA deverá resolver o litígio entre a Fundação Thyssen e a família judia Cassirer, que reclama o Rue St. Honore, Après-Midi, Effet de Pluie (1897), de Camille Pisarro. O quadro, que seus ancestrais deram aos nazistas em troca dos vistos para sair da Alemanha, foi adquirido pelo barão Thyssen há três décadas em uma galeria de Nova York.

São dezenas os exemplos como este, cheios de conotações éticas. Até onde chega o direito das famílias espoliadas? E o das pessoas que adquiriram as obras a preço de mercado, de boa fé? Ninguém tem uma resposta clara, porque também não existe uma legislação uniforme para esse problema de alcance internacional -em alguns países, fundamentalmente europeus, o delito é considerado prescrito. Por isso quase sempre a solução desses conflitos de interesses depende do ânimo das partes adversárias. No dia em que o Museu da Carolina do Norte constatou que tinha um Lucas Cranach expropriado pelos nazistas, o devolveu. O que fizeram os donos? O venderam de volta a um preço razoável.

“Os museus e as grandes casas de leilões estão cada vez mais conscientes de que precisam investigar a origem das obras em sua propriedade. Embora a Espanha não seja exatamente o melhor exemplo”, afirma Sarah Jackson, da empresa The Art Loss, com sede em Londres. Há dez anos essa mulher se dedica junto com uma equipe seleta de advogados, historiadores e investigadores, a seguir a pista de quadros roubados por Hitler. “Muitas vezes nos procuram apenas com uma foto, com a imagem de um determinado quadro na sala de sua casa. E a partir daí começamos a agir.” Para começar, procuram nos catálogos dos mais de 200 mil lotes que são leiloados todos os anos. Com sorte, demoram meses para encontrar uma peça. Mas o normal é que a investigação se prolongue durante anos, exija um périplo por diversos países e um importante gasto econômico. E os países não têm verbas consignadas para rastrear os horrores do saque nazista, ela salienta.

Em todo caso, seu trabalho tornou-se um pouco mais fácil nos últimos anos. Primeiro porque em 1998, durante a Conferência de Washington, 44 países se comprometeram a publicar uma lista com as obras adquiridas por suas instituições nos cinco anos anteriores e a promover outras medidas para favorecer a identificação, localização e recuperação de materiais artísticos. Segundo, porque a Internet democratizou o acesso aos registros criados por museus, associações ligadas ao Holocausto e outros organismos das peças com origem desconhecida ou em sua história. “A tecnologia está jogando um papel importantíssimo para a devolução dessas propriedades aos seus donos”, afirma Shauna Isaac, responsável pela companhia Sage Recovery de Londres. Mas não é a panacéia. As dificuldades para verificar a autenticidade das reclamações continuam as mesmas, e a litania para encontrar as obras que Hitler quis para seu museu, igualmente longa.

El País
http://www.elpais.com/

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Articulação entre ditaduras do Cone Sul para repressão política

Jan Rocha*

Em maio de 1979, uma assistente social chilena que trabalhava num orfanato em Valparaíso decidiu passar férias na Venezuela. Em Caracas, viu no jornal La Nación um artigo sobre crianças desaparecidas na Argentina após o golpe de 76. O texto era ilustrado com fotografias em preto e branco. Ela não conseguiu acreditar no que via: os rostos dos irmãozinhos que tinham sido abandonados numa praça de Valparaíso três anos antes, e levados depois para o orfanato.
Por meio de grupos de exilados uruguaios, a notícia da descoberta da assistente social chegou até María (codinome de Mariela Salaberri), exilada política uruguaia que vivia em São Paulo. Numa manhã de maio, ela me ligou entusiasmada: “Jan, encontramos Anatole e Vicky”.
Eu participava do Clamor, um pequeno grupo ecumênico criado um ano antes para ajudar os refugiados políticos que afluíram a São Paulo depois dos golpes militares no Chile, Uruguai e Argentina, e denunciar as atrocidades cometidas naqueles países. Em nossos boletins, publicávamos listas de crianças desaparecidas - entre elas, Anatole e Victoria Julien Grissonas, que tinham respectivamente 4 anos e 1 ano e meio quando desapareceram, com seus pais. Na ocasião, a casa deles em Buenos Aires foi invadida por uma equipe conjunta de forças de segurança argentinas e uruguaias, em setembro de 1976.
Apressadamente, convoquei uma reunião do Clamor - o reverendo Jaime Wright, os advogados Luiz Eduardo Greenhalgh e Fermino Fecchio, o padre Roberto Grandmaison, a irmã Michael Mary Nolan, a professora Teresa Brandão. Ficamos entusiasmados, mas cautelosos. Seria realmente verdade? A assistente social - que não quis dizer seu nome - poderia estar enganada? Como as duas crianças podiam estar a quase 200 quilômetros do lugar em que sumiram?
Alguém deveria ir ao Chile investigar. María candidatou-se. Os pais das crianças, Roger e Victoria Lucia Julien, tinham sido seus companheiros no Partido para a Vitória do Povo (PVP), uma agremiação de esquerda. María devia a eles o esforço de buscar os seus filhos.
O Chile era uma ditadura e sabíamos, já naquele momento, que as forças de segurança dos países do Cone Sul mantinham estreita colaboração para a captura de exilados políticos. Seis meses antes, uma outra participante do PVP, Lilian Celiberti, que vivia em Porto Alegre, fora seqüestrada com seus dois filhos pequenos e forçada a retornar ao Uruguai, numa operação conjunta das polícias e dos Exércitos brasileiro e uruguaio. Investigações da Ordem dos Advogados do Brasil, da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, de grupos de direitos humanos e da imprensa encontraram provas dessa colaboração.
María, felizmente, também tinha cidadania francesa, de maneira que partiu para Santiago usando seu passaporte francês, armada com fotos das crianças, uma agenda com nomes escritos em código - e a bênção de dom Paulo Evaristo Arns, então arcebispo de São Paulo, que acompanhava de perto todas as operações do Clamor.
Foi apenas quando chegou lá que percebeu o enorme desafio a sua frente. A assistente social dissera que as crianças tinham sido adotadas “por um dentista”. María não sabia seu nome nem endereço. Temia ir ao orfanato e chamar atenção para sua busca. Dirigiu-se então ao escritório do Alto Comissariado para Refugiados das Nações Unidas (Acnur), porque sabia que a representante do órgão era uma conterrânea, Belela Herrera. Ela descobriu que Belela (hoje vice-ministra das Relações Exteriores do Uruguai) era uma funcionária pública internacional que conservava seu lado humano - e ficou fascinada pelo caso, indicando um contato em Valparaíso, um porto na costa do Pacífico a apenas uma hora de Santiago.
Esse contato finalmente levou-a até o consultório de um dentista amigo. Ele examinou as fotos. E reconheceu imediatamente as crianças, adotadas por um colega seu, Jesús Larrabeiti, e sua mulher, Silvia. Deu a María o endereço da escola das crianças, dirigida por padres católicos, onde, depois de ouvir a história da real identidade das crianças e ver as fotos, o diretor forneceu-lhe o endereço da família. Naquela noite, María jantou num restaurante e viu pela TV imagens do general Pinochet desfilando pelas ruas - para ela, eram imagens assustadoras.
Dia seguinte María tomou o avião de volta para o Brasil. No embarque, ficou com o coração na boca quando soldados examinaram sua mala. Eles ignoraram as fotos e confiscaram a garrafa de pisco que ela comprara de lembrança.
Agora que estávamos certos de ter encontrado Anatole e Vicky, começamos a planejar o passo seguinte. Alguém teria de ir ao Uruguai e contatar os avós das crianças para conseguir as certidões de nascimento necessárias para provar suas identidades verdadeiras. Obviamente não poderia ser María. O jornalista Ricardo Carvalho concordou em ir. Dom Paulo escreveu uma carta pedindo às autoridades da Igreja no Uruguai para darem toda assistência a ele.
Ficamos nervosamente à espera de notícias. Em Montevidéu, Ricardo localizou os avós paternos - que nunca desistiram de procurar seus netos, tendo escrito um número incontável de cartas às autoridades argentinas e até ao papa.
A repressão no Uruguai era implacável. Não se permitia nenhuma organização de direitos humanos e mesmo a Igreja Católica, assustada e temerosa, recusou-se a ajudar Ricardo. No outro dia, tão logo seu vôo Varig decolou, pediu um uísque duplo. Em seguida, dirigiu-se à cabine da aeronave. E narrou sua história ao piloto perplexo.
Agora tínhamos os documentos para provar quem eram realmente as crianças e o próximo passo seria levar Angélica Julien, a avó, para o Chile. O avô estava muito doente para viajar. Ela voou para Santiago em 25 de julho de 1979, acompanhada de dois membros do Clamor - Jaime Wright e Luiz Eduardo Greenhalgh. Chegaram em tempo para descobrir que a família Larrabeiti, sem saber da azáfama de atividades que agora se estendiam pelos três países, estava em vias de completar o processo de adoção formal das crianças. Com base na lei chilena, a adoção extingue os direitos da família biológica. Os Larrabeiti, que não tinham nenhuma idéia da real identidade das crianças, ficaram consternados diante dessa reviravolta inesperada dos fatos. Eles permitiram que Angélica visse as crianças. Três anos tinham se passado. Anatole e Vicky não se lembravam da avó. Ainda assim ela desejava levá-los de volta para Montevidéu.
“Eles perderam seus pais uma vez. Se isso acontecer de novo, ficarão traumatizados”, argumentou o dentista Jesús. Angélica mostrou todas as cartas que escrevera aos militares, às autoridades políticas e eclesiásticas, para provar que nunca deixara de procurar os netos. Disse que tinha que levá-los, para o caso de seus pais reaparecerem.
A equipe do Clamor descobriu que, quando as crianças foram encontradas na Plaza Bernardo O’ Higgins, pouco antes do Natal de 1976, a imprensa chilena cobrira amplamente o mistério. Anatole descreveu como homens armados invadiram a casa onde viviam com mamucha e papucho, e seu pai os escondeu dentro da banheira. Depois, viu sua mãe numa poça de sangue. Ele chegou mesmo a dar seu endereço em Buenos Aires. Lembrou o nome das vilas na fronteira chilena que atravessaram, e de ter visto neve nas montanhas. Disse que viajou num grande carro com “tia Mónica”, que os deixou brincando na praça enquanto foi comprar doces. Mas ela jamais voltou. Depois de algumas horas, alguém que notara as duas crianças chamou a polícia. Foi observado que Anatole tinha um forte sotaque portenho. A prova final de que eram crianças estrangeiras surgiu quando eles não conseguiram reconhecer os artistas de programas infantis da TV chilena.
Em 1979, o embaixador uruguaio Dante Paladini declarou que seu governo nunca ouvira falar das crianças e jamais recebera nenhuma queixa de sua família. A história completa, o aparecimento das crianças , como também a história dos pais desaparecidos, disse ele, eram exageradas e tinham conotação política. Alguns meses antes, o ditador chileno, Augusto Pinochet, usando seu uniforme do Exército, tinha sido aclamado como herói em Montevidéu, desfilando em carro aberto com o presidente uruguaio Juan María Bordaberry. Cartazes proclamavam: “Presidente Pinochet, aqui o senhor está em casa”.
Quem decidiu deixar as crianças no Chile sabia que essa admiração mútua entre os ditadores da América do Sul garantiria que nenhuma investigação séria sobre a origem dos irmãos seria autorizada. E julgava que sua família nunca imaginaria procurá-las em outro país. Assim, todas as informações de Anatole sobre o lugar de onde teriam vindo - nomes dos pais, endereço em Buenos Aires - foram ignoradas. Não houve nenhum empenho em descobrir como duas crianças pequenas entraram no Chile sem documentos, ou para localizar a misteriosa “tia Mónica”. Nenhum órgão internacional - nem a Interpol, nem a Cruz Vermelha - foi solicitado a auxiliar na solução do caso.
Em São Paulo, no dia 31 de julho, Clamor organizou uma coletiva de imprensa. Dom Paulo deu a notícia da descoberta de Vicky e Anatole. Era a primeira vez que crianças desaparecidas depois do golpe na Argentina eram encontradas. E encontradas em outro país, mostrando a colaboração entre as autoridades militares da Argentina, Uruguai e Chile.
Em seus boletins, Clamor já publicara listas de crianças desaparecidas. A primeira continha os nomes de 17 bebês e 21 adolescentes, e também de quase 60 mulheres grávidas que tinham desaparecido. As avós dessas crianças organizaram seu próprio grupo - as Avós da Praça de Maio. Para elas, a notícia vinda de São Paulo foi uma luz no fim de um túnel de desespero e tristeza.
Finalmente, Angélica desistiu da sua demanda para que Anatole e Vicky retornassem a Montevidéu, reconhecendo que as crianças já tinham sofrido muito e uma outra mudança seria ainda mais traumática. Ficou combinado que elas passariam regularmente as férias em Montevidéu, e gradativamente voltariam a conhecer sua família biológica. Hoje, embora continuem a viver no Chile, sentem-se em casa no Uruguai.
Com os anos, surgiram mais detalhes sobre o que acontecera com Anatole e Vicky depois de seu desaparecimento, por meio do testemunho de prisioneiros que sobreviveram. Os dois foram mantidos primeiro em Buenos Aires, num centro de detenção clandestino chamado Automotores Orletti, onde um dos métodos de tortura era pendurar os prisioneiros no teto pelos braços. Depois, foram levados para Montevidéu num dos vôos clandestinos organizados pela Operação Condor para transportar prisioneiros uruguaios presos na Argentina de volta ao Uruguai. Em Montevidéu, as crianças ficaram em um local onde os prisioneiros que retornavam eram torturados. Não está claro ainda quando os pais de Anatole e Vicky foram mortos, mas não há dúvida de que as crianças passaram semanas nesses centros clandestinos de tortura, cercadas por prisioneiros algemados e encapuzados, onde devem ter ouvido os gritos dos torturados. Depois foram abandonadas num país estranho, sozinhas - para matar qualquer esperança de serem reencontradas por sua família.

*A AUTORA
Jan Rocha é inglesa e vive em SP desde 1969. Foi correspondente da BBC (73 a 94) e do jornal The Guardian (84 a 94). Durante a ditadura, fundou o grupo Clamor, que denunciava abusos de Estado na América do Sul. É autora, entre outros, de Haximu (Casa Amarela). Ainda colabora com The Guardian e BBC.

Estado de S. Paulo

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Mundo Cão

Cristina Moreno de Castro

Estou lendo O Processo, de Kafka, que, qual um pesadelo bizarro, narra um Judiciário no ápice da burocracia, em que os próprios oficiais de justiça desconhecem as acusações e os acusados são intimados, julgados e condenados sem saber por quê.

Reduzindo-se as proporções, vemos um retrato da burocracia e da morosidade do nosso judiciário, que, atolado nos protocolos e ofícios, deixa uma jovem de 15 anos trancafiada numa cela com mais de 20 marmanjos, numa espera dolorosa e cruel.

Pelo menos é o que nos informou o Diário do Pará (24/11/07), sobre o caso da menina L.A.B., presa na carceragem de Abaetetuba, interior do Pará:

“A Justiça teria conhecimento da situação da Delegacia de Polícia de Abaetetuba e houve falhas na comunicação entre os órgãos de Justiça e a Superintendência de Polícia Civil do Baixo Tocantins. É o que mostram documentos obtidos pelo Diário. Além disso, vários pedidos de transferências de delegacias do interior revelam que a situação se repete em outros municípios. Entre os documentos, um ofício, anterior ao escândalo, mostra que a Superintendência Regional do Baixo Tocantins, situada em Abaetetuba, solicitou a transferência da menor antes das denúncias virem à tona, ainda que com um inexplicável atraso de 14 dias em relação à prisão, ocorrida no dia 22 de outubro.

A comunicação em tempo hábil poderia ter evitado que a presa sofresse tantos abusos. O ofício nº 870/07, de 5 de novembro de 2007, enviado pelo superintendente regional, Antonio Fernando Botelho da Cunha, e encaminhado à juíza da 3ª Vara Criminal de Abaetetuba, foi protocolado na secretaria do Fórum Penal no dia 7. No documento, o superintendente pede a transferência da presa para o CRF (Centro de Recuperação Feminino), em Belém, ’em caráter de urgência (…) uma vez que não possuímos cela para o abrigo de mulheres, estando a mesma custodiada juntamente com outros detentos, correndo o risco de sofrer todo e qualquer tipo de violência por parte dos demais’.”

Muito bem. Se esse ofício tivesse sido levado a sério, a menina teria sofrido por menos tempo os abusos que sofreu. Ela foi obrigada a fazer sexo com todos os cerca de 20 presos que estavam em sua cela, às vezes em troca de comida, pelo menos seis vezes por dia. Ela foi agredida: tem marcas de hematoma e de queimaduras de cigarro pelo corpo. Ela foi, enfim, violentada.

Isso suscita diversas reflexões. A primeira: quem é o responsável? A Justiça, a delegacia, a governadora? Ou todo o sistema carcerário do país? Afinal, o que uma menina de 15 anos estava fazendo numa prisão? Por que não estava nos centros de reabilitação de menores, garantidos pelo ECA? Aproveitando a deixa, cadê os defensores da redução da maioridade penal, em meio a essa crise? Será que eles acham que uma menina que passa pelo que L. passou vai voltar para a sociedade uma pessoa melhor?

Inda vem o delegado geral da Polícia Civil do Pará, Raimundo Benalussy, dizer pra Comissão de Direitos Humanos do Senado que a menina “tem certamente alguma debilidade mental porque em nenhum momento ela manifestou sua menoridade penal”. Claro, porque, se fosse uma mulher adulta, estuprada pelos vinte colegas de cela, estaria tudo bem. (Alerta: estou sendo irônica!) É como disse o presidente nacional da OAB, Cezar Britto: “Mata-se [o índio] Galdino e dizem ’desculpa, pensei que era um mendigo’. Ataca-se uma empregada doméstica, ’desculpe, pensei que era uma prostituta’. Agora se diz a mesma coisa, ’não sabia que era uma adolescente’, como se fosse menor o crime de ter uma mulher sendo estuprada sob os olhos coniventes do aparelho estatal.”

Aqui, vale lembrar que a menina era viciada em drogas e se prostituía desde os 12 anos de idade – razão pela qual teria sido presa. Será que a lógica de nossas autoridades é a mesma da usada pelos punks que espancaram a doméstica? “É prostituta, então tudo bem”? A prostituta poderia acalmar os ânimos exaltados dos presos e evitar rebelião. A prostituta poderia agüentar horas de estupro em troca do prato do dia, mesmo sendo uma menina com corpo de criança presa naquele mundo cão.

E por falar em mundo cão, como classificar este nosso mundo? Em que a governadora Ana Júlia Carepa diz que é comum esse tipo de prática, não só no Pará mas em todo o país?

A questão é de direitos humanos e, mais especificamente, de direitos da mulher. Mas não interessa que a delegada seja mulher, que a juíza seja mulher, que a governadora seja mulher. Não interessa, se elas ocupam cargos de poder num mundo de valores machistas. Segundo a professora Betânia Tanure de Barros, da Fundação Dom Cabral, “o ambiente empresarial é masculino e por isso, quando a mulher ocupa posição de direção, ela tende a adotar o modelo masculino, para ter sucesso. Existe um discurso sobre a incorporação de valores femininos nas organizações, mas esse discurso ainda não se concretizou”.

Vivemos num país em que as meninas de 12 anos precisam se drogar e se prostituir pra sobreviver. Que são presas para acalmarem os ânimos agitados dos presos. Que são estupradas e agredidas com a conivência dos delegados e carcereiros (pequenas autoridades que, ao subir no tamborete, têm vertigem de altura…). Que não encontram apoio da Justiça, sempre burocrática, lenta e cega. Que não encontram providências do governo, ignorante e inepto. E ainda enfrentam um discurso massivo de pessoas que querem diminuir a maioridade penal, lotar mais as cadeias, já sem espaços adequados, multiplicar casos de atentado aos direitos civis, e, especialmente, aos direitos dos pobres e juridicamente fracos e desprotegidos.

Afinal, como na época da Guerra Fria, os fins justificam as barbáries. Lotar as cadeias de sobreviventes do capitalismo (”lixos humanos”, no subconsciente da maioria) é um jeito cômodo de garantir a proteção e o poder dos que detêm a maior parte dos bens. O desrespeito aos direitos humanos desses “lixos” não interessa. A indignidade a que eles são submetidos, tampouco. Eles nem mesmo são vistos como humanos! O que interessa é defender as fronteiras que separam o pequeno grupo dos ricos de uma imensa multidão de pobres.

Revista NovaE
http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=605

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O Brasil e seus nomes

O longo debate em torno dos muitos nomes que teve o país pode ser lido como indicação da insegurança sobre nossa identidade e das frustrações de nossos sonhos.

José Murilo de Carvalho

Julieta parecia não dar grande importância a nomes: a rosa manteria seu perfume sob qualquer outra denominação. Mas o próprio Shakespeare a desmentiu, fazendo com que o peso dos nomes de Capuleto e Montéquio levasse à tragédia que vitimou os dois amantes. Haveria algo no nome dos países que pudesse afetar sua identidade e seu destino, para o bem ou para o mal, para a felicidade ou para a tragédia? O nome faz o país ou é o país que faz o nome? Há países que moldam seu nome e países que são por ele moldados? Um país que se autonomeia é o mesmo que um país nomeado? Ao começar este trabalho sobre o nome do Brasil, não tinha qualquer idéia sobre as conclusões a que chegaria. Não estou certo de que cheguei a alguma.
Uma das características da chegada de espanhóis e portugueses ao continente hoje chamado de América foi a incerteza em relação à natureza da coisa. Eram as Índias, era um mundo novo, uma ilha, um continente? Colombo achava que eram as Índias Ocidentais, Cabral pensou que era uma ilha, Vespúcio desconfiou que era um continente novamente descoberto. A incerteza em relação ao todo reproduziu-se em relação às partes, sobretudo àquelas habitadas por povos nômades com baixo grau de organização social.

Foi o caso da parte visitada por Cabral em 1500. Ao longo dos séculos XVI e XVII, ela foi batizada com vários nomes. A disputa sobre como grafar Brasil estendeu-se até o século XX. E até hoje se discute a origem do nome. Difícil imaginar outro país com tão grande dificuldade de decidir até mesmo seu próprio nome. A nova terra foi denominada Pindorama (antes de 1500), Ilha (Terra) de Vera Cruz (1500), Terra de Santa Cruz (1501), Terra Papagalli (1502), Mundus novus (1503), América (1507), Terra do Brasil (1507), Índia Ocidental (1578), Brazil (século XIX), Brasil (século XX).

A terra a que Pedro Álvares Cabral aportou em 1500 era chamada pelos habitantes com quem travou conhecimento de Pindorama, ou Terra das Palmeiras. O capitão permaneceu dez dias em terra. Viu gentes estranhas, nem pretas nem brancas, que caminhavam totalmente nuas pelas praias, tinham furos nos beiços em que enfiavam ossos, estavam armadas de arcos e flechas. Viu ainda muitos papagaios e uma terra cheia de palmeiras e outras árvores. Pero Vaz de Caminha, afirma em sua carta que mandou ao rei D. Manuel que Cabral inicialmente deu à terra o nome de Terra de Vera Cruz. No mesmo documento, corrige para Ilha de Vera Cruz, indicando a incerteza sobre a geografia da região. Só não houve incerteza quanto a Vera Cruz. Cabral era cavaleiro da Ordem de Cristo, cuja bandeira trazia uma grande cruz. Essa bandeira lhe fora entregue por D. Manuel antes da partida da frota e mais tarde foi içada no mastro da nave principal e colocada ao lado do Evangelho durante a primeira missa celebrada em uma ilhota da nova terra.

O primeiro nome da terra durou pouco. Ao tomar conhecimento da descoberta, D. Manuel tratou de apressar seu casamento com a infanta de Espanha e enviou Gonçalo Coelho para confirmar o achado. Além de o confirmar, Coelho informou que a nova terra era grande demais para ser uma ilha. Na volta, carregou o navio com pau-brasil e papagaios. Já no ano seguinte, em 29 de julho, D. Manuel escreveu aos reis católicos Fernando e Isabel, agora seus sogros, informando sobre a descoberta da terra a que Cabral dera o nome de Terra de Santa Cruz. El-rei trocou Ilha por Terra e Vera Cruz por Santa Cruz. O novo nome foi logo adotado.

Era apenas a primeira mudança. O piloto e cosmógrafo florentino Américo Vespúcio participou de uma expedição exploradora da nova terra enviada por D. Manuel já no ano de 1501. Fez um relato da viagem em carta escrita no primeiro semestre de 1503 e enviada a Lorenzo de Médici. Publicada em tradução latina em 1503, já na segunda edição chamou-se Mundus Novus e se tornou um verdadeiro best-seller, com 22 edições em várias línguas até 1506. Vespúcio afirmou ser “lícito chamar [as novas terras] de Mundo Novo, porque nenhuma delas era conhecida dos nossos maiores”.

A notícia da descoberta se espalharou rapidamente por Lisboa, onde residiam muitos comerciantes, capitalistas e espiões italianos. Graças a eles, a novidade logo chegou a outras partes da Europa. Muitos deles se referiam à nova terra como Terra dos Papagaios, ou Terra Papagalli. A razão do novo nome tinha a ver com um dos aspectos que mais chamaram a atenção dos primeiros visitantes: o exotismo de alguns animais e a beleza de algumas aves, sobretudo as da família dos psitacídeos, papagaios, periquitos e araras.

Mais importante do que os papagaios, no entanto, era a madeira que encontraram, o pau-brasil: árvore alta e grossa de casca cinza, coberta de espinhos, cerne vermelho e flor amarela. Ceasalpinia Echinata para os cientistas, o pau-brasil era chamado de ibirapitanga, ou pau vermelho, pelos indígenas. Os exploradores portugueses a identificaram logo porque desde o século XII era conhecida árvore semelhante, a Caesalpinia Sappan, chamada de Brazil ou de variantes deste nome, importada da Ásia, sobretudo do Ceilão e da Indonésia. A madeira desta árvore era usada sobretudo como corante de panos e, em menor escala, para preparo de tintas. Por ser muito dura, usava-se também em construção e fabricação de instrumentos musicais. Há registros do nome na Itália desde o século XI e na Espanha desde o século XII. Marco Pólo fala em brésil, e no Roteiro da viagem de Vasco da Gama menciona-se a existência de “muito bom brasyll, o qual faz muito fino vermelho”.

Durante as três primeiras décadas após a chegada dos portugueses, o principal produto da nova terra comerciável na Europa era o pau-brasil. A madeira era cortada em toras de 1,5m pesando cerca de 30k. Os índios cortavam, desbastavam e carregavam as toras até os navios em troca de ferramentas e bugigangas. Vendidos em Amsterdã, 60 kg de pó de pau-brasil valiam no século XVI o equivalente aproximado de US$ 865,00 de hoje. Calcula-se que cerca de dois milhões de árvores tenham sido derrubadas no primeiro século de exploração, quantia correspondente a 6 mil km2 da Mata Atlântica. Essa intensa atividade comercial em torno da madeira teve como efeito imediato a adoção do nome Terra do Brasil para a nova descoberta. O mapa-múndi de Marini, de 1511, registra pela primeira vez o nome Brasil.

No fim da segunda década do século XVI, o novo nome já superara os de Ilha de Vera Cruz, Terra de Santa Cruz, Terra dos Papagaios, Mundo Novo e América. João de Barros e Pero de Magalhães Gandavo no século XVI, e frei Vicente do Salvador, no século XVII, entre outros, protestaram energicamente contra a mudança do nome de Santa Cruz para Brasil. Para Gandavo, a mudança tinha sido obra do demônio. Segundo frei Vicente do Salvador, importou mais “o nome de um pau com que tingem panos do que o daquele divino pau que deu tinta e virtude a todos os sacramentos da Igreja”. A mudança do nome, segundo o frei, causara a decadência da terra.

Entre os que adotam a versão, generalizada na época, de que o nome Brasil provinha da madeira vermelha, houve e continua a haver disputa sobre como grafar a palavra. A própria Academia Brasileira de Letras se envolveu nesta disputa. Podemos encontrar 23 versões registradas no período que vai do século XI ao XVII, entre as quais bersil, bresil, braxilis, brasyl, brisolium, verzino, braxille.

Mas a maior polêmica em torno do nome do país ainda estava por vir. Não dizia respeito apenas à ortografia, mas também à origem do nome. Se entre os cronistas coloniais, inclusive os contemporâneos da chegada dos portugueses, é unânime a versão de que o nome da nova terra tenha vindo da madeira brasil, a partir do início do século XX começa a ganhar força a versão que defende outra origem, alternativa ou complementar. Em notas à terceira edição da principal história geral do Brasil até então escrita, a História geral do Brasil, do visconde de Porto Seguro (Francisco Adolfo de Varnhagen), datada de 1906, outro respeitado historiador, Capistrano de Abreu, menciona uma outra vertente do nome brasil.

Trata-se de uma ilha mítica supostamente localizada à altura da costa irlandesa. Era uma das muitas ilhas ou terras fantásticas que povoaram o imaginário europeu desde a Idade Média, a Ilha Brazil, que aparece em vários mapas desde 1375, como no Atlas de Catalan, desse ano, e no de Mercator, de 1595. Ela constou dos mapas do Almirantado inglês até 1865. Velhas tradições célticas, como a do rei Brasal que nela teria fixado residência após a morte, falavam desta ilha coberta de brumas a que ninguém tinha acesso. Marinheiros procuravam em vão por ela, poetas a cantavam em pleno século XIX. Robert Dwyer Joyce fala da “linda Hy Brasil onde os amantes são abençoados para sempre”. Essa versão do nome do país também registra mais de 20 grafias, como Berzil, Bracil, Brasil, Brazil, Brazille, Brazir, Braxil.

Nenhum dos autores contemporâneos da chegada dos portugueses menciona a Ilha Brazil como possível inspiração para o batismo da nova terra. No entanto, os descontentes com a substituição do nome de Santa Cruz pelo nome da madeira brasil tiveram no século XX seus seguidores. Sem poder mais livrar-se do nome Brasil, os novos inconformados buscaram deslocar sua origem para a fantástica ilha. Se para os primeiros o lenho corante não podia substituir o lenho sagrado, para os segundos o lenho-mercadoria não podia prevalecer sobre a Ilha dos Abençoados.

Quem mais defendeu a nova versão foi Gustavo Barroso, em livro de 1941. Argumentando com a hipótese plausível de que os navegadores portugueses conheciam a Ilha Brazil, pois vinha reproduzida em vários mapas, Barroso afirma que houve fusão das duas tradições na definição do nome do país, ignorando as unânimes referências em favor da madeira. Barroso tinha o mesmo desprezo pela madeira alimentando por João de Barros e frei Vicente. Mas seus motivos não eram religiosos. Era mais digno para o país, segundo ele, derivar seu nome da Terra Abençoada do que da reles mercadoria comercializada por cristãos novos, isto é, judeus. A posição de Barroso, sem o anti-semitismo, foi retomada em livro de Geraldo Cantarino, publicado em 2004.

Se o nome Brasil-madeira incomodava muita gente, incomodava mais ainda o gentílico ‘brasileiro’. Brasileiro era comerciante de pau-brasil, uma profissão como pedreiro, carpinteiro. Nos primeiros séculos, os índios eram os brasis, os europeus eram portugueses. Na metade do século XVII ainda era ofensa chamar alguém de brasileiro. Um português nascido no Brasil era português do Brasil ou luso-americano. Na época da independência, ainda se usavam os gentílicos brasiliense, brasílico, brasiliano, muito mais apropriados do que brasileiro.

Embora não haja sustentação histórica para a hipótese de uma influência conjunta do pau-brasil e da fantástica Ilha Brazil na nomeação do país, o encontro se deu no imaginário nacional. A ênfase nas qualidades paradisíacas como característica da nova terra esteve presente desde a chegada dos conquistadores portugueses. Os cronistas, desde Caminha, não se cansaram de exaltar a riqueza e a beleza da terra.

Américo Vespúcio afirmou em sua Mundus Novus, que se existisse um paraíso, não seria longe destas terras. Tal visão, a que chamo de motivo edênico, repetiu-se ao longo dos séculos. Em 1576, Pero de Magalhães Gandavo afirmou que a terra era “sem contradição a melhor para a vida do homem que cada uma das outras de América, por ser comumente de bons ares e fertilíssima, e em grã maneira deleitosa e aprazível à vida humana”. A terra, segundo o autor, é sempre verde, o clima, de permanente primavera. Em 1618, 42 anos depois de Gandavo, o autor de Diálogos das grandezas do Brasil continuou na mesma linha: “A terra é disposta para se fazer nela todas as agriculturas do mundo pela sua muita fertilidade, excelente clima, bons céus, disposição de seu temperamento, salutíferos ares, e outros mil atributos que se lhe ajuntam”.

No século XVIII, surgiu a mais exaltada versão do edenismo na História da América Portuguesa (note-se a persistência do uso do nome América), escrita em 1730 por um brasileiro, Sebastião da Rocha Pita. O texto é uma verdadeira propaganda turística do país. Na época da independência, o argumento do tamanho, riqueza e beleza da terra foi usado para justificar a separação de Portugal. Em 1824, o francês , Ferdinand Denis insistiu em que a literatura brasileira baseasse sua originalidade na descrição da natureza tropical e dos costumes exóticos dos indígenas. O romantismo literário, iniciado na década de 1830, fez exatamente isso: exaltou a figura idealizada do indígena, que nada tinha a ver com os índios reais, e vangloriou-se da natureza.

Em 1900, por ocasião do quarto centenário da chegada de Cabral, o conde de Afonso Celso publicou um livro intitulado Por que me ufano de meu país, que ficou conhecido como o paradigma do ufanismo, isto é, do orgulho ingênuo da pátria. O autor lista treze razões para se ter orgulho do país. As seis primeiras são edênicas, repetem os argumentos usados desde Cabral: o país é grande, tem riquezas incalculáveis, é riquíssimo, goza de perpétua primavera e não tem desastres naturais como terremotos, vulcões, ciclones.

Duas pesquisas de opinião pública feitas em 1996, uma nacional, outra na região metropolitana do Rio de Janeiro, confirmam o fenômeno. Perguntados se tinham orgulho do Brasil, os entrevistados responderam maciçamente (85% na pesquisa nacional, 87% na pesquisa do Rio de Janeiro) que sim. Solicitados a dar três motivos de orgulho, muitos (30%) não souberam responder ou disseram que não havia motivo algum. Somando as três respostas e eliminando os que não sabiam ou não respondiam, chegou-se ao resultado de que a principal razão apontada para orgulho (35%) era a natureza. Em segundo lugar, com menos da metade da porcentagem (15,5%), vinha o caráter do povo.

A grande maioria das respostas classificadas como “natureza” coincidia com as características da tradição edênica. Alguns exemplos: terra maravilhosa, o céu, o ar puro, a beleza das praias, as matas, a Amazônia, a fertilidade do solo, país abençoado, o tamanho, as riquezas naturais, o clima, a ausência de terremotos e furacões. Esta visão paradisíaca do país foi estigmatizada pelo dramaturgo Nelson Rodrigues: “Ah, o Brasil não é uma pátria, não é uma nação, não é um povo, mas uma paisagem”.

Mas a generosidade de Deus com o país foi tão grande que, além da doação do paraíso natural, prometeu ainda um paraíso histórico. A grandeza natural era promessa de um futuro de grande e poderoso império. A origem dessa utopia remonta à batalha de Ourique, lutada em 1139 contra cinco reis mouros. De acordo com a lenda, Cristo teria então aparecido ao príncipe Afonso Henriques prometendo-lhe a vitória e, mais ainda, um grande império futuro para divulgar seu nome entre as nações. No Brasil, a partir da chegada de D. João, em 1808, tornou-se comum falar na formação de um grande império na ex-colônia, já que Portugal, por suas limitações geográficas e demográficas, não tinha condições de servir de base a tal empreendimento. Logo antes da Independência, o príncipe D. Pedro dirigiu-se aos brasileiros falando “desse vasto e poderoso império”. Um ano após a Independência, o bispo D. Marcos foi ainda mais explícito ao falar da realização no Brasil do Quinto Império. Não por acaso, o novo país, criado em 1822, não se chamou reino como a metrópole, mas Império. Só a designação império parecia adequar-se à dimensão geográfica e à dimensão de suas ambições para o futuro.

Este complexo de grandeza, ao lado do mito edênico, passou a fazer parte do imaginário do país. Aliás, o próprio Hino Nacional, que incorporou o edenismo, também endossou a idéia de grandeza no futuro, dizendo literalmente: “o teu futuro espelha esta grandeza”. A crença fora reforçada em 1942 pelo escritor austríaco Stefan Zweig, que escreveu um livro cujo título era Brasil, país do futuro. Refugiado no Brasil por causa da guerra, ficou encantado com a convivência racial que aqui encontrou. Diante de uma Europa que se destruía e da perseguição nazista aos judeus, viu no Brasil um exemplo de convivência humana. Em outra concepção, a visão de um grande futuro se manifestou no projeto de “Brasil grande potência” dos governos militares. O sonho afeta até hoje boa parte da população. Uma pesquisa nacional de opinião, realizada em 1996, revelou que 57% dos brasileiros ainda acreditavam na utopia do grande império.

O mito da natureza edênica, da flora, fauna, rios e florestas, foi destruído pela ação predadora dos colonizadores, ajudados pelos nativos e depois pelos próprios brasileiros. O brasileiro do pau-brasil destruiu o paraíso da Ilha Brazil. A utopia do grande império, por sua vez, se vê sistematicamente frustrada pelo desempenho do país. O Brasil chega ao século XXI com uma população de 185 milhões de habitantes, mas apresentando índices de desenvolvimento político, social e econômico que o deixam longe de qualquer veleidade de grande império. O país é hoje o décimo mais desigual do mundo e mal conseguiu estabilizar sua democracia. Só há poucos anos é que a educação básica se universalizou. No ensino médio e superior, o país exibe índices que estão entre os piores da América Latina. Mais recentemente, a violência comandada por traficantes tem transformado a vida das grandes cidades em pesadelo, sobretudo para a população pobre. A idéia de país do futuro cunhada por Zweig tornou-se uma piada: o Brasil é, e sempre será, um país do futuro.

A comparação é particularmente desvantajosa quando feita com os Estados Unidos. Na época da independência das colônias inglesas, os pais da pátria norte-americana alimentavam as mesmas ambições de seus equivalentes brasileiros. Eles falavam na potencialidade da ex-colônia de transformar-se em um império autônomo e poderoso do Novo Mundo. Na Convenção Constitucional de 1787, Franklin e outros usaram a mesma palavra “império” que encontramos no caso brasileiro. Para o bem ou para o mal, os norte-americanos foram capazes de transformar seu sonho em realidade.

Diante de tanta frustração, de tanta distância entre o sonho e a realidade, torna-se compreensível que se tenha desenvolvido no país uma paixão desenfreada pelo futebol. O entusiasmo pode ser em parte explicado pelo fato de que esse esporte é a única atividade de alcance popular em que o país se destaca internacionalmente. Uma partida de futebol é o único momento em que todos os brasileiros, inclusive as populações indígenas, se tornam brasilienses, se identificam em um sentimento comum, que a pátria política não fornece. Citando novamente Nelson Rodrigues, a seleção nacional é a pátria de chuteiras. É a pátria de que os brasileiros não se orgulham em outros ramos de atividade. A excelência nesse campo, atestada pela vitória em cinco Copas, apesar do vexame da última, torna-se então um sucedâneo do paraíso perdido e do império impossível. Um jogo da seleção é o único momento em que todos os brasileiros gritam juntos o nome do país, sem preocupações com materialidades, ilhas encantadas, paraísos e utopias. È, talvez, o único momento em que desmentimos Julieta.

Revista de História
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A feiúra concreta de São Paulo

No boom imobiliário há espaço para projetos que integrem a cidade, em lugar de isolar moradores

Hugo Segawa*

Não é preciso ser um leitor muito atento para perceber quão difícil ficou ler as matérias em nossos maiores jornais. Não me refiro a qualquer renovação gráfica na grande imprensa, mas à profusão de anúncios que há alguns meses toma páginas inteiras oferecendo produtos imobiliários em quase todos os quadrantes da cidade e fora dela. A “febre dos imóveis” se diagnostica em estatísticas eufóricas para o setor. Dados da Associação Brasileira de Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip) dão conta que a concessão de crédito imobiliário cresceu 141,34% de 2005 a 2006, o financiamento imobiliário em 2007 deverá dobrar em relação ao ano anterior e poderá continuar crescendo na ordem de 25% ao ano até 2010. Para o Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo, o PIB da construção civil deve fechar 2007 com crescimento da ordem de 9,3%, e para 2008 a expectativa é da ordem de até 14%. O setor deverá contribuir com 4,5% a 5,5% do total do PIB brasileiro. A capitalização do setor é bilionária: em 2007, o setor foi responsável por 22,6% dos novos lançamentos de ações na bolsa (IPO, na sigla em inglês).
Para aqueles ligados em estatísticas, os números são significativos e as notícias neste final de 2007 sugerem um panorama alentador. O Brasil é a décima maior economia do planeta, segundo o Banco Mundial. Recente é o anúncio de que o Brasil ingressou na lista dos países de alto desenvolvimento humano, conforme o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da Organização das Nações Unidas, apesar de ser o lanterninha do grupo. Classificação que disfarça contradições e evidencia a desconfiança sobre números. Outros indicadores socioeconômicos revelam que somos campeões em várias desgraças. Não é preciso muito tirocínio para perceber o descompasso entre a riqueza econômica, o desempenho social e a qualidade de vida do País. Oxalá essa afluência em 2007 deflagre a reversão desse quadro negativo. As vistosas páginas de lançamento nos grandes diários devem ser apenas a ponta do iceberg de megaoperações imobiliárias. Pode-se perguntar: o que o crescimento a “taxas chinesas” da construção civil representa para nossas cidades, em especial para São Paulo? Em que medida esses recursos podem contribuir para a melhora da qualidade de vida desta metrópole?
As propagandas de condomínios fechados, “prédios-clubes” ou “clubes residenciais”, exaltam as virtudes introvertidas de itens de lazer e segurança, “áreas verdes” ou boas “vistas” (até o novo condomínio vizinho estragá-las), e raramente mencionam as qualidades dos bairros em que se situam. Quase nenhum se prende a questões básicas, como transporte e outras facilidades urbanas. Revelam o completo descompromisso com o espaço público e/ou o seu melhoramento. O modo como se pulverizam os empreendimentos imobiliários pela área metropolitana e cidades vizinhas ratifica a concordata do espaço público.
O temor pelo público (entenda-se: que pertence à coletividade) manifestou-se em 2007 na intempestiva tentativa de um grupo de vereadores de cercear a autonomia do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Compresp). Uma restrição construtiva, de natureza quase pontual, no bairro do Ipiranga, perturbou os interesses de investidores, transtornados com a “interferência” do Compresp. O episódio é representativo, alegoricamente, das posições em defesa e em desrespeito à qualidade de vida urbana. Cidades com atividade imobiliária muito mais intensa, como Roterdã, na Holanda, possuem conselhos com quase mais poderes de decisão que o nosso Compresp - sobretudo, graças ao interesse e apoio da sociedade nas causas em defesa da cidade.
Espaços públicos são os lugares menos privilegiados em recentes intervenções urbanas. Em São Paulo, a nova Faria Lima reproduz os erros da avenida Luis Carlos Berrini. O novo eixo privilegia a circulação, com mal-ajambradas quadras lindeiras ao longo da via, e com o agravante de ostentar prédios que devem ser um sucesso imobiliário, mas, de modo geral, de arquitetura medíocre.
O maior empreendimento imobiliário em curso na cidade, o Parque Cidade Jardim (visível da Marginal de Pinheiros), pode ser comparado ao empreendimento Tokyo Midtown, um complexo de uso misto inaugurado em março de 2007 numa área de dez hectares no coração da capital japonesa. Situado em Roppongi, totalmente integrado ao meio e à infra-estrutura urbana, a realização em Tokyo abriga mais usos e franqueia à cidade um enorme jardim japonês, que o toquiota está descobrindo e paulatinamente se apropriando. A arquitetura, de linha contemporânea, resultou da associação entre a Nikken Sekkei (a maior construtora nipônica) e o escritório norte-americano SOM. Também conta com projetos de Kengo Kuma e Tadao Ando, responsáveis pelas áreas de museus do complexo. É parte dos compromissos do empreendimento um item sobre responsabilidade social, na qual a consciência ambiental, a economia de energia e recursos e as relações com a região são parâmetros na inserção do Tokyo Midtown na cidade. Além de uma atração para o consumo e diversões, trata-se de uma obra que faz parte do roteiro de arquitetura da cidade - como toda cidade aprazível oferece. Não será o caso do Parque Cidade Jardim. Não parece haver dúvida sobre seu potencial financeiro e imobiliário (assim apostam os agentes financeiros), mas sua arquitetura é bastante duvidosa. A publicidade do empreendimento não identifica o arquiteto, como seria natural e valorizador em bons empreendimentos europeus ou japoneses. Sua arquitetura retrô está na contramão de qualquer inventário ou roteiro de boa arquitetura neste início de milênio. O que alguns apregoam como uma jóia, não passa de um falso brilhante. E só reforça o caráter provinciano do gosto de certa elite. Aqui pode-se estabelecer uma outra correlação.
A construção civil brasileira se abriu para o investimento internacional. Fato inédito em tempo recente é que cerca de 70% dos recursos na área têm origem no capital estrangeiro, ingressando quer via bolsa, quer via associações com projetos locais. São Paulo é a nossa representante no rol das “cidades globais” pelos fluxos e sinergias do maior aglomerado sul-americano na rede mundial de metrópoles. Por ora, São Paulo não é uma cidade que se credencia a transformações na lógica da “cidade-espetáculo” ou “cidade-marketing”, modelada pela organização de eventos globais: exposições mundiais, jogos olímpicos ou, no caso específico da região do Euro, tornar-se a “capital cultural” no rodízio anual de cidades de interesse cultural. A pré-candidatura paulistana em 2003 aos jogos olímpicos de 2012 foi um tímido aceno em busca de um vetor para detonar transformações ambientais e de infra-estrutura urbana com mobilização de capital nacional e internacional. Nada se especula, ainda, sobre as diretrizes para receber os jogos da Copa do Mundo de 2014 em São Paulo, mas há de se ter cautela quanto à estratégia que se apresentará, a partir da experiência do Pan 2007 no Rio de Janeiro. Sobretudo quanto à arquitetura, cuja contribuição à paisagem carioca foi medíocre, para não dizer conflitiva com o próprio patrimônio ambiental do Rio de Janeiro, na polêmica tentativa de intervenção da Enseada da Glória e da Prainha, na área do Parque do Flamengo. Na lógica das cidades globais, a arquitetura tem um papel fundamental na afirmação e inserção nos circuitos internacionais. O Guggenheim de Bilbao é o principal case-study de planejamento estratégico de uma iniciativa em que um edifício foi capaz de provocar a revitalização de uma cidade sem que ela abrigasse particularmente qualquer evento global, senão o próprio edifício do arquiteto Frank Gehry. Mas boa (ou polêmica) arquitetura não é necessariamente ou apenas instrumento de mercantilização da cidade. Boa arquitetura é direito dos cidadãos.
Nesse sentido, pairam dúvidas sobre o que se sucede na área que se tornou conhecida como Cracolândia, que a administração municipal batiza de “Nova Luz”. Desde 2005, a prefeitura vem alardeando a remodelação de uma área cuja menção nos jornais se distribui entre o noticiário policial, local e político. De concreto, incentivos fiscais e outros benefícios administrativos tentam seduzir empresas - de tecnologia, call centers, cultura e publicidade, conforme anúncio do governo - sem, todavia, qualquer manifestação oficial das “interessadas”. E temos por ora a demolição de alguns imóveis que insinuam uma paisagem pós-bombardeio, numa guerra em que as partes não sabem bem quem são os adversários ou aliados. O informe mais recente é que o Estado pretende desapropriar o edifício da antiga estação rodoviária na Praça Julio Prestes para ali instalar um centro cultural. Todas essas notícias soam como factóides frente ao futuro da região. Outras notícias dão conta de que grandes construtoras estão interessadas em investir na área, incluindo uma que teria a consultoria do arquiteto, ex-prefeito de Curitiba e ex-governador do Paraná Jaime Lerner. O segredo imobiliário não permite ainda ao paulistano conhecer uma intervenção numa área de 269 mil metros quadrados, declarada de utilidade pública pela administração municipal. No coração da metrópole paulistana, são muito mais que duas vezes a área de Tokyo Midtown, e três vezes a do Parque Cidade Jardim. Sem uma proposta com desenho urbano, não há como avaliar o impacto e as responsabilidades inerentes a um possível megaempreendimento arquitetônico no centro de São Paulo. Retomo a pergunta inicial: em que medida a abundância de recursos pode contribuir pela melhora da qualidade de vida desta metrópole?
Lembro as palavras de Roger Bastide, um dos professores pioneiros da USP: “Se a beleza do Rio de Janeiro é uma beleza natural, a de São Paulo é beleza de cimento… A mão do arquiteto, aqui, substitui a mão de Deus”.
*Hugo Segawa é arquiteto, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo

Estado de S. Paulo

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Construção, (des)construção. Operário-livre?

Flora Bender Garcia

“Operário”: trabalhador ou artífice que, mediante salário, exerce uma ocupação manual. “Pedreiro”: operário que trabalha em obras de pedra, cimento e cal.”Construção”: ato ou efeito de construir. Edificação. “Construir”: dar estrutura a; edificar. Formar, conceber; elaborar.“Constructo”: aquilo que é elaborado ou sintetizado com base em dados simples; conceito. “Livre”: que é senhor de si e de suas obrigações; dotado do poder de escolha; que não está sob o jugo de outrem.

Pedreiro-livre:maçom. Do latim, sculptores lapidum liberorum. Durante o período medieval, a palavra “livre” foi prefixada ao nome “pedreiro”, formando a expressão “pedreiro-livre”. Em inglês, ,freemason; em francês, franc-mason; em alemão, freimaurer. Livre, porque tinha conhecimentos e técnicas não encontradas em poder dos outros artesãos; era muito mais trabalhador livre do que servo. Os pedreiros-livres construíram a maior parte das catedrais góticas e outros prédios públicos na Europa continental e na Grã-Bretanha.

Liberdade não é mais uma velha calça jeans desbotada. Terá sido um dia? Se nem os hippies velhos de guerra (algumas expressões populares são tão paradoxais!) eram livres, que dizer dos pedreiros?

O tema do operário da construção civil é uma constante na música popular brasileira. Menos comumente aparece na literatura ou no teatro. Neste último, é memorável a repercussão que teve o monólogo “Muro de arrimo”, de Carlos Queiroz Telles – interpretado por Antônio Fagundes e encenado por Antônio Abujamra. –, cuja ação se passa duas horas antes do jogo de futebol em que o Brasil é eliminado pela Holanda na Copa do Mundo, na Alemanha, em 1974. Segundo o autor, a idéia inicial surgiu de uma notícia de jornal: “No dia 28 de julho de 1974, jornais de São Paulo noticiaram a morte do pedreiro José Ribeiro, 35 anos, morador em Guarulhos. Tuberculoso, José morreu embrulhado numa bandeira brasileira, manchada de sangue, poucos dias depois de a seleção brasileira ter sido eliminada na Copa do Mundo”.

Lucas, a personagem da peça, está fazendo um muro no alto de um prédio em São Paulo. Atento ao trabalho interminável, ouve seu radinho/tijolo, acompanha o jogo. O muro, amontoado de tijolos, está sendo construído. Seu pedreiro, nada livre, desconstruído. José/Lucas revela seus sonhos e infortúnios e, assim como milhares de outros “construtores”, ilude-se com falso brado de “Pra frente, Brasill!” Não será um jogo de futebol, porém, que mudará o curso da história recente do país. O futebol é uma tábua de salvação, assim como o andaime é (seria?}, no caso de a corda arrebentar. Curioso que o operário que fica na corda bamba seja denominado, na construção civil, “ cordeiro”…

Teixeirinha, compositor gaúcho, entrou nesse clima de euforia, em “A vida de operário”: “ No outro dia é o mesmo/ Lá vai ele sorridente/ Pegado na construção/ Levando o Brasil pra frente/ Se não fosse o operário/ Não existia grandeza/ O nosso Brasil não era/ Um gigante de riquezas/ Que Deus não deixe, operário!/ Faltar pão na sua mesa!”

Difícil imaginar um pedreiro (desdentado?) sorridente às quatro horas da manhã…

Da importância do pedreiro para a edificação do país ninguém duvida, mas andamos fracos da memória. Alguns compositores insistem em reativá-la. Não que a denúncia vá mudar muita coisa; fica, porém, registrada em ata. É o caso de Zé Geraldo, em “Cidadão”: “Tá vendo aquele edifício, moço?/ Ajudei a levantar/ Foi um tempo de aflição/ Eram quatro condução/ Duas pra ir, duas pra voltar/ Hoje depois dele pronto/ Olho pra cima e fico tonto/ Mas me chega um cidadão/ E me diz desconfiado, / tu tá aí admirado/ Ou tá querendo roubar?/ Meu domingo tá perdido/ Vou pra casa entristecido/ Dá vontade de beber/ E pra aumentar o meu tédio/ Eu nem posso olhar pro prédio/ Que eu ajudei a fazer.”

No criativo mote de “Pedro Pedreiro”, de Chico Buarque, o artesão, Pedro, é construído da matéria de sua arte, as pedras. E o “P” maísculo, no sobrenome, nos permitiria a licença morfológica de considerá-lo nome próprio, de família: “Esperando, esperando, esperando, esperando o sol/ Esperando um filho pra esperar também”. Pedreiro de ofício e sobrenome. Pedra arraigada no sangue. Amanhã será outro dia? Difícil:”” Pedro pedreiro pedreiro esperando o trem/ Que já vem, que já vem, que já vem, que já vem…”

Um pedreiro espera, na “gare”, os trens que não virão, fica a ver navios. E um outro (na “Construção” dos prédios de Buarque) fica à deriva: “Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago/ Dançou e gargalhou como se ouvisse música/ E tropeçou no céu como se fosse um bêbado/ E flutuou no ar como se fosse um pássaro/ E se acabou no chão feito um pacote flácido/ Agonizou no meio do passeio público/ Morreu na contramão atrapalhando o tráfego”.

Vinicius de Moraes, que de Poetinha não tinha nada, constrói seu operário em “O operário em construção”. Há toda uma alegoria em que a epígrafe é retomada no desenrolar do poema: “E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:/ – Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu./ E Jesus, respondendo, disse-lhe:/
– Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás. (Lucas, cap. V, vs. 5-8). No clímax da narração poética, o Patrão/Satanás também tenta seduzir o Operário/Jesus: “– Dar-te-ei todo esse poder/ E a sua satisfação/ Porque a mim me foi entregue/ E dou-o a quem bem quiser./ Dou-te tempo de lazer/ Dou-te tempo de mulher./ Portanto, tudo o que vês/ Será teu se me adorares/ E, ainda mais, se abandonares/ O que te faz dizer não.”

Convicto, “O operário disse: Não!/ E o operário fez-se forte/ na sua resolução.”

Este pedreiro não morreu na contramão, conseguiu seguir a mão certa, que lhe garantiu a vida. Não foi um processo rápido, amadureceu à medida que empilhava tijolos e construía paredes:” Mas ele desconhecia/ Esse fato extraordinário:/ Que o operário faz a coisa/ E a coisa faz o operário./ De forma que, certo dia/ À mesa, ao cortar o pão/ O operário foi tomado/ De uma súbita emoção/ Ao constatar assombrado/ Que tudo naquela mesa/ – Garrafa, prato, facão – / Era ele quem os fazia / Ele, um humilde operário, / Um operário em construção. / Olhou em torno: gamela / Banco, enxerga, caldeirão / Vidro, parede, janela / Casa, cidade, nação! / Tudo, tudo o que existia / Era ele quem o fazia / Ele, um humilde operário / Um operário que sabia / Exercer a profissão”.

O processo de dupla mão mantém embrutecedores os brutos “pedra, cimento e cal”. .”Descoisifica”, entretanto, o pedreiro, deixando-o mais livre, na conclusão do poema: “Uma esperança sincera/ Cresceu no seu coração/ E dentro da tarde mansa/ Agigantou-se a razão/ De um homem pobre e esquecido/ Razão porém que fizera/ Em operário construído/ O operário em construção”.

Mais uma vez a velha gramática normativa serve para fundamentar a “trans-form-ação”. Já no título do poema, “O operário em construção”, há ambigüidade na expressão “em construção”: pode ser entendida como adjunto adverbial de lugar, “na construção”, e como epíteto de “operário” “que se está construindo”. O artigo definido “o” individualiza, define o pedreiro em questão, ao mesmo tempo em que ele também representa todos os operários que entrarem no processo de “em construção”. Nos últimos versos, o uso do particípio “construído”, na voz passiva, altera uma trajetória de vida. Aquele que numa primeira etapa tinha sido construído pelos outros, num segundo momento estava em construção, construindo-se e finalmente já se construiu, finalizou sua edificação. De sujeito paciente, objeto da história (é bom recordar que, na voz ativa, ele seria objeto direto, “Construíram o operário”), passa a ser agente da própria história. Individual, na primeira descoberta; social, depois:” E um fato novo se viu/ Que a todos admirava:/ O que o operário dizia/ Outro operário escutava.”

O processo de divulgador da nova ordem – mundial? – dá-se a partir de uma descoberta: “Não sabia, por exemplo/ Que a casa de um homem é um templo/ Um templo sem religião/ Como tampouco sabia/ Que a casa que ele fazia/ Sendo a sua liberdade/ Era a sua escravidão.(…}E como tudo que cresce/ Ele não cresceu em vão/ Pois além do que sabia/ – Exercer a profissão –/ O operário adquiriu/ Uma nova dimensão:/ A dimensão da poesia”. A poesia-libertação lhe permite reassumir a velha função medieval de artesão dono de seu próprio nariz, de pedreiro-livre, livre como o pedreirinho joão-de-barro, que constrói sua própria casa, para ele mesmo morar. Poderá, enfim, exercer a cidadania, tão perdida na não liberdade.

No Norte/Nordeste, o operário pelo menos era dono de sua terrinha, ao contrário das novas terras que “descobre” em outras plagas. Era cidadão; hoje, transformam-no -no em coisa. Como enfatiza Zé Geraldo: “ Fui eu quem criou a terra/ Enchi o rio fiz a serra/ Não deixei nada faltar/ Hoje o homem criou asas/ E na maioria das casas/ Eu também não posso entrar”.

“Criou asas” porque os proprietários querem edifícios altos? A ambição pelas alturas de cimento só não favorece o que está acostumado com a terra. “E tropeçou no céu como se fosse um bêbado/ E flutuou no ar como se fosse um pássaro/ E se acabou no chão feito um pacote flácido/ Agonizou no meio do passeio público/ Morreu na contramão atrapalhando o tráfego”.

Longe de nós querermos fazer qualquer proselitismo, todavia os maçons, pedreiros-livres, acabaram inspirando nossas elocubrações. De corporações que reuniam trabalhadores manuais passaram a constituir grupos pensantes. Do concreto ao abstrato. Da construção exclusivamente edificação de prédios ( os arquitetos ainda não se tinham encontrado realmente como desenhistas do desenho, mágico ou não) ao conceito: constructo.

“Uma esperança sincera/ Cresceu no seu coração/ E dentro da tarde mansa/ Agigantou-se a razão/ De um homem pobre e esquecido/ Razão porém que fizera/ Em operário construído/ O operário em construção.”

Revista Pangea
http://www.clubemundo.com.br/revistapangea/

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Ideologia da repressão

João Baptista Herkenhoff

O país redemocratizou-se há vinte anos. Uma Constituição foi votada com intensa participação popular, como nunca havia acontecido no transcurso de nossa História. A Assembléia Constituinte que votou a Constituição de 1988 abriu-se à escuta dos anseios da cidadania. Dessa escuta resultaram emendas populares assinadas por cerca de quinze milhões de eleitores. As vozes da rua pleitearam justiça social, educação, democracia, direitos humanos. Não houve emendas populares pedindo o retrocesso institucional, o endurecimento da repressão, a supressão de garantias. Chegava-se ao fim do túnel e a comunidade nacional queria respirar liberdade.

Entretanto, em contraste com a esperança de um novo ciclo histórico, bolsões de pensamento e comportamento ditatorial permaneceram em muitas instituições e espaços sociais, inclusive na Justiça, na polícia, em órgãos de governo, na universidade, nos meios de comunicação.

É esse substrato cultural autoritário que está atrás de atos de violência praticados por autoridades públicas contra o cidadão. É esse substrato cultural que faz com que a polícia, e até mesmo a Justiça, presuma a culpa e determine que a inocência seja provada. É esse substrato que admite que, na persecução do crime, vidas de inocentes possam ser sacrificadas.

Faço estas reflexões a propósito da morte do advogado Geraldo Gomes de Paula, nas dependências de uma Delegacia de Polícia de Vitória. Esse digníssimo advogado foi vítima da brutalidade quando se encontrava no estrito cumprimento do dever. Seu falecimento é chorado, não apenas por sua família, mas também por milhares de pessoas que testemunharam sua retidão moral e dignidade de espírito.

À luz da ideologia da repressão não se entende o papel do advogado criminal, que é visto como “inimigo público”. Não se compreende que o advogado é indispensável à Justiça e que sem respeito ao advogado a Democracia naufraga. O advogado não defende o crime, mas sim o acusado de um crime ou até mesmo o culpado. Julgamento criminal que se faça sem a presença independente e atuante do advogado não é julgamento, mas arremedo de julgamento, farsa.

A violência urbana que, com razão, amedronta o povo, encoraja a ideologia da repressão. Segundo essa ideologia, tropas especializadas, com atiradores de elite, estão autorizadas a matar, uma vez que se encontram no desempenho de papel estratégico para preservar a segurança pública. O resultado disso é uma ilusória segurança, como estamos vendo todo dia.

Sem prejuízo da honesta, transparente e integral apuração dos fatos que causaram a morte do advogado Geraldo Gomes de Paula, o trágico episódio deve ser motivo para uma discussão ampla sobre o papel da Polícia numa sociedade democrática, debate esse que deve ser travado na sociedade e dentro da corporação policial.

Correio da Cidadania
http://www.correiocidadania.com.br/

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Doutores da agonia

Eles utilizaram humanos como cobaias de pesquisas macabras. Agora estudos dizem que essas experiências guardam informações valiosas para a humanidade

Rodrigo Rezende

“Camarada, por favor, peça ao oficial que acabe conosco com uma bala”, suplicou o soldado russo. Depois de 3 horas dentro de um tanque de água gelada, ele já não suportava mais a sensação de congelamento no corpo. “Não espere compaixão daquele cão fascista”, respondeu o colega que dividia o tanque com ele. Quando o cientista responsável pelo experimento descobriu o significado das palavras de suas cobaias, retirou-se para o escritório. Voltou com um revólver na mão. Não para atender ao pedido do soldado, mas para ameaçar seus assistentes na experiência. “Não se intrometam. Nem se aproximem deles!” Passaram-se mais duas horas de agonia antes que o alívio da morte chegasse para os russos. Assim como eles, pelos menos outros 300 prisioneiros dos nazistas foram usados em experimentos destinados a entender os efeitos do frio no corpo humano - a hiportermia. A maioria não teve a sorte de um final rápido. Ao chegarem ao limite entre a vida e a morte, eram reanimados e expostos novamente a temperaturas baixas.

As descrições acima são apenas um exemplo de como alguns cientistas alemães se adaptaram ao ideário nazista sob o governo de Adolf Hitler. E não deixam qualquer dúvida de que, eticamente, a ciência produzida na Alemanha entre as décadas de 1930 e 1940 foi repugnante. Os experimentos causaram dor, humilhação e mortes terríveis às pessoas confinadas em campos de concentração - fossem elas judias, ciganas, homossexuais ou qualquer tipo de inimigo do regime. Acontece que os responsáveis por essas “pesquisas” podiam ser sádicos, mas não eram leigos. Pelo contrário. Muitos foram formados nas escolas mais tradicionais do planeta - antes da chegada dos nazistas ao poder, a Alemanha era um dos líderes mundiais em inovação científica. Metódicos como só pesquisadores alemães podem ser, eles sistematizaram as experiências, coletaram dados, chegaram a conclusões. E geraram informações que, além de inéditas na época, nunca mais foram reproduzidas em testes sérios - afinal de contas, e ainda bem, não é todo dia que aparece alguém propondo jogar ácido na pele de um ser humano para entender como nosso corpo reage à substância.

As pesquisas sobre hipotermia, por exemplo, além de matar centenas de prisioneiros do campo de Dachau, produziram dados que existem até hoje - e que alguns cientistas gostariam de usar em pesquisas atuais. O médico Robert Pozos, diretor do Laboratório de Hipotermia da Universidade de Minnesota, nos EUA, é um deles. Ele estuda como nosso corpo responde ao frio para descobrir a melhor maneira de reanimar pessoas que cheguem quase congeladas aos hospitais. Mas o trabalho de Pozos enfrenta um sério problema: muitas de suas pesquisas não podem ser concluídas, pois há risco de morte quando a temperatura dos voluntários do estudo cai abaixo de 36 ºC. A única fonte conhecida de dados sobre seres humanos nessas condições são os experimentos nazistas. É ético utilizá-los com o intuito de salvar vidas? Pozos respondeu que sim. Em seguida, viu a New England Journal of Medicine, uma das mais respeitadas revistas médicas do mundo, se recusar a publicar a pesquisa.

E você, o que faria se estivesse no lugar de Pozos? Para enfrentar essa delicada questão, é necessário encarar o extenso legado científico que o nazismo deixou. Até há pouco tempo, esse universo era bastante desconhecido. Estudos recentes, porém, lançaram nova luz em direção ao que sabemos sobre a ciência no período. Afinal, houve experimentos de qualidade no nazismo? O que acontece com a ciência sob um regime tão desumano?

Ciência e nazismo

Planície de Ypres, fronteira entre Bélgica e França, 17h do dia 22 de abril de 1915, Primeira Guerra Mundial. Entrincheirados, soldados do Exército francês observam, atônitos, um inimigo desconhecido se aproximar. Alguns compreendem logo que é impossível combatê-lo e batem em retirada. Outros permanecem parados, sem saber o que fazer. Não têm idéia de como lutar contra o oponente mais letal que já enfrentaram: uma espessa nuvem verde-amarelada, de 1,5 m de altura.

Dez minutos antes de a arma mortal varrer o ar, uma tropa que parecia saída de um filme de ficção científica havia tomado a dianteira do Exército alemão. O Pionierkommando 36 era um batalhão formado por cientistas com uniforme militar e máscaras protetoras, liderados por nada menos que um ganhador do Prêmio Nobel de Química, o alemão Fritz Haber. Ao sinal de Haber, foram abertos 730 cilindros, com 100 quilos cada um, de gás cloro em forma líquida. Assim nasceu a nuvem que, carregada pelo vento, partiu em direção à tropa inimiga, corroendo pulmões e cegando. Quando a bruma esverdeada se dissipou, os únicos integrantes do Exército aliado que permaneceram incólumes em seus postos foram 50 canhões. O saldo de estréia do novo gênero de combate: 10 mil mortos e 5 mil feridos.

A qualidade dos cientistas envolvidos no projeto científico-militar alemão dá a dimensão da importância e complexidade da parceria. Fritz Haber, por exemplo, foi responsável por uma descoberta que não só permitiu à Alemanha prolongar a Primeira Guerra, mas hoje nos permite produzir alimento para 6 bilhões de pessoas: a técnica de fixação da amônia a partir do nitrogênio do ar serviu tanto à criação de explosivos quanto ao desenvolvimento de fertilizantes baratos. Otto Hahn, outro laureado com o Nobel que liderou um ataque com gás, foi um dos descobridores do processo de fissão nuclear, que é usado em bombas atômicas, mas também em usinas de energia. “O Exército alemão se convenceu de que a ciência desenvolveria armas superiores, que compensariam as restrições à produção de armamento impostas pelo Tratado de Versalhes”, diz o pesquisador do Instituto Max Planck, Helmut Maier. “Após a guerra, a elite científica levou o país à liderança nos ramos de balística, química, aviação e construção de foguetes.”

Veterano da Primeira Guerra, Adolf Hitler conhecia bem o poder dessa ciência militar - ele chegou a ser internado com cegueira temporária após um ataque com gás nos campos de batalha. E sabia que, caso alcançasse o poder, faria da ciência um dos pilares da nova Alemanha.

Mas o interesse do führer trazia um problema. Ele podia até admirar a ciência, mas não entendia nada do assunto. “Hitler não era devidamente instruído em ciência. Ele apenas seguia seu instinto, seu feeling”, diz o historiador alemão Joachim Fest, um dos mais importantes biógrafos do líder nazista. Na cúpula nazista, a situação não era melhor. Heinrich Himmler, segundo homem na hierarquia, mandava cientistas investigar a relação entre os canhotos e a homossexualidade ou pesquisar a genealogia dos cavalos dos antigos reis nórdicos. “Himmler era a verdadeira encarnação da pseudociência”, diz Michael Kater, autor de Doctors Under Hitler (”Doutores de Hitler”, sem tradução em português).

Naturalmente, Hitler não via problema nessas idéias. Na verdade, ele se considerava um cientista de vanguarda - era um entusiasmado adepto da teoria da higiene racial, doutrina “científica” que prega a eliminação dos genes não arianos do povo alemão. Em seu livro Mein Kampf (”Minha Luta”), de 1925, ajudou a disseminar uma metáfora bastante útil para o progresso da nova doutrina: “O povo alemão é um só corpo, mas a sua integridade está ameaçada. Para manter a saúde do povo, é preciso curar o corpo infestado de parasitas”. Os parasitas eram os judeus. O que há de científico nisso? Nada. Mas, às vésperas da ascensão de Hitler, já estava bem difícil discernir o que era ou não ciência. “Desenvolveu-se uma relação simbiótica entre ideologia e ciência. A ciência, nessa época, começou a funcionar como legitimação das idéias racistas do nazismo”, diz Helmut Maier. E era essa mistura insólita que os cientistas teriam de enfrentar, se quisessem permanecer na Alemanha após 10 de janeiro de 1933, dia em que Hitler tomou o poder.

Hitler domina a ciência

Em 6 de maio de 1933, um dos mais importantes cientistas da Alemanha bateu à porta do escritório de Hitler, em Berlim. Foi bem recebido pelo führer, que ouviu com atenção sua tentativa de abrandar a perseguição a pesquisadores judeus: “Há diversos tipos de judeus, alguns valiosos e outros inúteis para a humanidade”, argumentou o pesquisador. Hitler respondeu: “Se a ciência não pode passar sem judeus, teremos de nos haver sem a ciência!” E começou a berrar, falando cada vez mais rápido e tremendo de raiva. Com isso, o visitante se calou e despediu-se, desapontado. Naquele dia, Max Planck, pai da física quântica e presidente do Kaiser Wilhelm Institute (hoje Instituto Max Planck), não conseguiu o que queria: evitar a demissão do amigo judeu Fritz Haber, aquele mesmo que comandara a primeira tropa de gás da história.

Planck foi um dos cientistas que optaram por continuar na Alemanha nazista, mesmo não concordando com os ideais do novo regime. O físico Max von Laue, que costumava sair de casa com um embrulho debaixo de cada braço para não ter de fazer a saudação nazista, tomou a mesma decisão. Planck e Laue encorajavam colegas a não deixar o país, dizendo que deveriam esperar por dias melhores. Nem todos no mundo da ciência, porém, compartilhavam da mesma opinião. “A conduta dos intelectuais alemães como grupo não foi melhor que a de uma ralé”, afirmou Albert Einstein a respeito da reação de seus pares ao nazismo. Einstein, que era judeu, foi criticado por Laue quando decidiu abandonar a Alemanha rumo aos EUA, em 10 de março de 1933 - um mês antes de uma lei expulsar todos os descendentes de judeus do funcionalismo público, fazendo cerca de 1000 cientistas de elite perderem o emprego. Passariam-se mais 30 dias até que universitários alemães saíssem às ruas para aplaudir as chamas que consumiram mais de 10 mil livros em praças públicas por toda a Alemanha. Se Einstein ainda estivesse no país, seria apenas um desempregado observando suas obras sobre a Teoria da Relatividade desaparecerem nas fogueiras do Reich. Mais um pouco de tempo e talvez o próprio Einstein cumprisse a profecia do poeta alemão Heinrich Heine: “Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas”.

Se alguns cientistas foram culpados por silenciar, outros não hesitaram em aderir ao ideário racista. Um ramo em especial aceitou com bons olhos a limpeza dos “parasitas” judeus: a medicina. Em 1933, 44,8% dos médicos alemães eram filiados ao partido nazista. Era a maior proporção de representação entre todas as profissões. Os advogados, que vinham em segundo lugar, não passavam de 25%. Além de profundamente anti-semita, a classe médica alemã era, em geral, favorável às políticas da higiene racial. Quando a lei de esterilização compulsória de doentes físicos e mentais foi lançada, em 1934, os médicos a implementaram imediatamente. Tampouco se opuseram quando a prática foi estendida à população não ariana. Com isso, mais de 350 mil pessoas foram esterilizadas à força no período de 1934 a 1945. Era a ciência ajudando a concretizar a nova sociedade sonhada por Hitler.

Mas nem todos tiveram estômago para embarcar no projeto do führer. Max Planck, por exemplo, não suportou o clima no país e deixou seu emprego em 1937. Já não estava na Alemanha quando seu filho Erwin foi executado por envolver-se num plano para matar Hitler. Seu amigo Fritz Haber teve um enfarto e morreu em 1934. Nunca soube que muitos de seus parentes seriam mortos pelo gás que ajudou a desenvolver. Na iminência das batalhas da Segunda Guerra Mundial, em 1939, apenas os cientistas considerados “mais fortes” pelos nazistas permaneceram no país. Se você pretende continuar lendo esta reportagem, saiba que, a partir deste ponto, também precisará ser forte.

Laboratórios do inferno

“Escutem, colegas, já que vocês vão matar toda essa gente, pelo menos arranquem os cérebros deles”, disse, em 1939, o professor de medicina Julius Hallervorden aos encarregados da eutanásia de doentes mentais, um programa que exterminava quem recebesse dos médicos o diagnóstico de lebensunwertes leben, ou “vida indigna de viver”. Foi assim que Hallervorden formou uma coleção que, em 1944, contava com 697 cérebros. Entre seus favoritos, estava o de uma menina cuja mãe fora envenenada acidentalmente por gás enquanto estava grávida.

August Hirt, médico da Universidade de Estrasburgo (então na Alemanha, hoje na França), não queria só cérebros, mas cabeças inteiras. E não poderiam ser entregues quaisquer cabeças, tinham de ser de judeus. Logo ele percebeu que, se conseguia cabeças sem problemas, por que não pedir corpos inteiros? Encomendou 115 prisioneiros a Auschwitz, que foram prontamente executados em junho de 1943 e enviados para Estrasburgo. Em agosto, chegou outro carregamento com cerca de 80 cadáveres, todos usados para estudos sobre a superioridade anatômica do povo ariano.

Mas médicos como Hirt e Hallevorden ainda não tinham as mesmas possibilidades que Sigmund Rascher, responsável pelo campo de concentração de Dachau: usar cobaias humanas vivas. “Sou, sem dúvida, o único que conhece por completo a fisiologia humana, porque faço experiências em homens e não em ratos”, costumava dizer com orgulho aos colegas. Rascher era admirado e protegido por Himmler, entusiasta das pesquisas “científicas” a ponto de assistir aos terríveis experimentos em câmaras de baixa pressão, para os quais forneceu prisioneiros em maio de 1941. Das cerca de 200 cobaias que passaram pelas câmaras de pressão até maio de 1942, 80 morreram durante os testes. Algumas tiveram o cérebro dissecado enquanto ainda estavam vivas para que o médico pudesse observar as bolhas de ar que se formavam nos vasos sanguíneos. Em seguida, Rascher começou as experiências sobre hipotermia. Era ele o médico responsável pelo experimento com os soldados russos do início desta reportagem.

Rascher foi um dos pioneiros entre os 350 médicos que oficialmente se envolveram em experiências nos campos de concentração. Se considerarmos o número de pacientes assassinados, Rascher não foi páreo para o mais sanguinário dos doutores de Hitler: Joseph Mengele, cujas experiências foram responsáveis pelo extermínio de 400 mil pessoas em Auschwitz. Mengele injetou tinta azul em olhos de crianças, uniu as veias de gêmeos, jogou pessoas em caldeirões de água fervente, amputou membros de prisioneiros, dissecou anões vivos e coletou milhares de órgãos em seu laboratório. Depois da guerra, conseguiu escapar e viveu escondido no Brasil até sua morte, em 1979. Oficialmente, comprou sua fuga com anéis de casamento e dentes de ouro que retirava dos cadáveres. Segundo o cientista alemão Benno Müller-Hill, a história não é bem essa. “Muito embaraço teria sido causado se ele tivesse revelado para onde mandou o material humano”, diz o autor de Murderous Science (”Ciência Assassina”, sem tradução em português), livro precursor da nova onda de estudos sobre a ciência nazista.

Se você chegou até aqui, deve estar há algum tempo com uma questão incômoda: “O que se passava na cabeça desses médicos?” O psiquiatra Robert Lifton tem uma teoria a respeito: um processo psicológico que chamou de doubling. “O doubling é a dissociação do eu, que leva à formação de uma espécie de segundo eu”, diz. Professor de Harvard e autor de The Nazi Doctors (”Os Doutores Nazistas”, sem tradução em português), Lifton percebeu as características do doubling em muitos dos “doutores” que entrevistou para seu livro. Na rua, eram éticos, carinhosos e respeitadores. Nos campos de concentração, monstros. “Eles falavam do que fizeram sem envolvimento emocional, como se estivessem narrando os atos de outra pessoa”, diz.

O horror nazista transformava a mente dos médicos. Mas e as vítimas? Na tentativa de entender o trauma causado pelas experiências, a Super procurou em São Paulo a judia polonesa Bluma Reicher, de 83 anos. Ao ouvir um pedido para descrever as cirurgias a sangue-frio pelas quais passou em Auschwitz há mais de 60 anos, a única resposta que Bluma deu foram lágrimas. A entrevista acabou aí.

Karl Hoellenrainer, um cigano, respondeu de outra maneira. Ao encontrar no tribunal de Nuremberg o homem que o obrigou a tomar água salgada por 4 semanas e depois arrancou pedaços do seu fígado, sacou uma adaga e pulou o balcão que separava testemunhas e réus. Queria matar seu algoz ali mesmo. Não teve sucesso e foi sentenciado no mesmo dia, 27 de junho de 1947, a 3 meses de prisão.

A exposição de tantos atos desumanos cometidos deixa a impressão de que, em pleno século 20, o nazismo levou a ciência de volta à idade das trevas. Até bem recentemente, era exatamente essa a visão que a maioria dos historiadores tinha do período. Novos estudos, porém, estão revelando a realidade muito mais complexa que se escondia sob um manto de atrocidades e absurdos científicos.

Outra visão

Naquela cidade, era preciso paciência para conseguir acender um cigarro. O fumo estava proibido em todas as áreas públicas, incluindo escritórios e salas de espera. No trem, havia risco de multa para quem não prestasse atenção e puxasse um isqueiro no vagão de não-fumantes. Até dentro do próprio carro era arriscado fumar. Se um guarda sentisse cheiro de fumaça em um automóvel envolvido numa batida, o dono poderia ir direto para a cadeia. Apesar de uma certa semelhança com as metrópoles atuais, a cidade em questão é a Berlim da década de 1940. E as medidas antitabagistas, só comparáveis às existentes nos nossos dias, foram implementadas pelos nazistas, os únicos que tinham acesso ao conhecimento científico necessário para desenvolvê-las.

“Os nazistas foram os primeiros a fazer estudos estatísticos rigorosos que provaram a relação entre o hábito de fumar e o câncer de pulmão”, afirma Robert Proctor, historiador da ciência e professor da Universidade Stanford, nos EUA, e autor de The Nazi War on Cancer (”A Guerra Nazista contra o Câncer”, sem tradução em português). É uma ironia que a origem de uma das maiores descobertas médicas do século 20 esteja relacionada a um efeito psicológico da doutrina de higiene racial. A esse efeito Proctor deu o nome de paranóia homeopática. “Os nazistas tinham pavor de agentes minúsculos que poderiam corromper o corpo alemão. Eram obcecados por ar limpo, comida natural e um estilo de vida saudável.” E foi justamente a obsessão que empurrou a ciência alemã em direção aos mais avançados estudos anticâncer. “O mesmo fanatismo que nos deu Mengele também nos deu a preciosa pesquisa antitabagista. A verdade é que a política científica nazista foi muito mais complexa que a maioria das pessoas imagina.”

Proctor não é exatamente uma unanimidade no mundo científico. Pelo contrário. Pesquisadores com muitos anos de experiência contestam os resultados de seus estudos sobre a ciência nos tempos de Hitler. “Proctor afirma que os nazistas fizeram boa ciência, ainda que com propósitos malignos. Isso é uma bobagem. Tenho estatísticas em meus livros que mostram que os nazistas não chegaram nem perto de derrotar o câncer. Na época em que as publiquei, Proctor ainda era um bebezinho recém-saído das fraldas”, diz o historiador Michael Kater. O professor de Stanford, porém, está longe de ser um acadêmico isolado por seus pares. Matérias favoráveis a respeito de seu trabalho foram publicadas nas conceituadas revistas científicas Nature, Science e New Scientist. Proctor acredita que a visão que se tem do nazismo ainda é simplificadora e estereotipada. “A ciência nazista tem de ser estudada em toda a sua complexidade”, afirma.

Lançar um novo olhar sobre a ciência alemã no período nazista foi exatamente o objetivo do mais ambicioso projeto histórico já feito pela Sociedade Max Planck, que controla 80 dos mais importantes institutos de pesquisa da Alemanha. O resultado do estudo, que consumiu mais de 6 anos de trabalho, foi divulgado no ano passado e chacoalhou tudo que sabíamos a respeito da ciência nazista. A antiga tese de que os laboratórios eram controlados por um punhado de monstros impiedosos e desumanos, que não produziram nenhum conhecimento valioso para a humanidade, caiu por terra. A nova pesquisa revelou que muitos dos então melhores cientistas da Alemanha viram o regime nazista não como uma ameaça, mas como uma oportunidade de adquirir status pessoal e financiamento para seus estudos. Para isso, eles deliberadamente procuraram fazer ciência sobre os temas que mais interessavam aos chefões nazistas e se engajaram em experimentos antiéticos que seguiam rigorosamente as regras dos métodos científicos mais avançados da época. O estudo da Sociedade Max Planck provou que as fronteiras que separaram os cientistas comuns dos torturadores nos campos de concentração não são tão claras e ressuscitou um espinhoso dilema que permanece em aberto na comunidade científica internacional: o que fazer com os resultados obtidos nas experiências?

Dados da discórdia

“Eu não queria ter de usar os dados nazistas. Mas não existem outras opções para a minha pesquisa. Nem nunca existirão num mundo ético”, diz o médico John Hayward, da Universidade de Victoria, no Canadá, que estuda os efeitos do frio no corpo humano. Apesar da defesa contundente de Hayward, a validade científica dos experimentos que ele usou é criticada por alguns pesquisadores. “Os dados são péssimos. Não havia livros de controle, métodos estatísticos nem repetição de experimentos em condições similares. Eles não têm uso nenhum para a ciência”, afirma Michael Kater, reconhecidamente uma das maiores autoridades mundiais no assunto. Robert Lifton, que entrevistou os doutores nazistas, também diz ter razões para duvidar da validade das experiências. Mesmo assim, defende sua utilização pela ciência. “Os médicos nazistas usavam como assistentes prisioneiros do campo, gente muito mais preocupada com a própria sobrevivência do que com a acuidade das pesquisas”, diz. “Mas qualquer dado que sirva para poupar sofrimento humano deve ser usado.”

Mas afinal, que dados são esses? Robert Proctor dá um exemplo: “Todos os coletes salva-vidas hoje em dia são desenhados para aquecer o pescoço justamente porque os nazistas provaram que isso aumenta as chances de sobrevivência dos náufragos em água gelada”.

Outro caso polêmico envolveu a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA). Em 1989, seus especialistas foram chamados a definir regras para a utilização do fosgênio, um gás tóxico usado na fabricação de plásticos e pesticidas. O problema é que não havia estudos detalhados sobre o efeito do fosgênio em humanos - os únicos dados conhecidos sobre o assunto foram produzidos em experiências nazistas durante a Segunda Guerra. Entre utilizar essas pesquisas e arriscar a vida da população americana com uma legislação perigosa, a EPA não hesitou em escolher a segunda opção.

Mas há razão para descartar sumariamente os dados? Segundo um editorial do jornal científico Nature, não deveríamos decidir precipitadamente. “O estudo da Sociedade Max Planck descobriu que grande parte das pesquisas mais criminosas conduzidas pelos nazistas não era pseudociência - na verdade, elas seguiam métodos científicos tradicionais e estavam na vanguarda dos estudos produzidos no período.” Dentro dessa revisão histórica e metodológica das pesquisas, não estão excluídas nem as do médico mais sanguinário que já passou pela face da Terra. “Agora ficou claro o que os relatos macabros que demonizaram Mengele tendiam a encobrir: seus experimentos não eram baseados em puro sadismo, e sim em interesses científicos que, levando-se em consideração os conhecimentos da época, não eram totalmente implausíveis”, afirma a alemã Susanne Heim, líder do estudo da Sociedade Max Planck.

Se ainda não há unanimidade em torno da criteriosa pesquisa nazista sobre o câncer, é compreensível que o uso dos dados obtidos de maneira antiética continue sendo polêmico. Mas negar a existência de progressos científicos no período nazista não parece ser uma atitude que vá contribuir para uma melhor compreensão da história. Olhar para o lado positivo, se é que ele existe, do período mais desumano pelo qual a ciência já passou é difícil para nós, que vivemos 60 anos depois de todas essas pesquisas macabras. Que dizer, então, para pessoas que passaram a vida debruçadas em estudos exaustivos sobre as atrocidades ou convivendo diariamente com os traumas que elas deixaram. “Não há ciência no inferno de Dante”, diz o historiador Michael Kater. Mas talvez, por mais duro que seja, tenhamos de admitir que existiu ciência mesmo no inferno. Se isso acontecer, será preciso refletir sobre uma nova e inquietadora questão: é justo usarmos o sofrimento de Bluma Reicher e dos milhares que passaram pelas mãos dos doutores de Hitler para tentar evitar que mais pessoas sofram no mundo de hoje? Para essa pergunta, infelizmente não existe fórmula, equação, experimento ou qualquer outro meio científico de obter uma resposta exata.

A CIÊNCIA SOB HITLER

Química
Não existia rival à altura da química alemã antes das guerras.

O país inventou a aspirina e a novocaína (anestesia usada por dentistas) e desenvolveu fertilizantes, corantes e microscópios muito mais baratos e eficientes. O setor foi um dos que mais se envolveram com o nazismo - a ponto de o maior conglomerado farmacêutico do mundo na época (e que depois da guerra se dividiria nas empresas Bayer, Hoechst e Basf) instalar uma fábrica dentro do campo de concentração de Auschwitz.

Matemática
Sob o regime de Hitler, o raciocínio matemático abstrato foi associado aos judeus e substituído pela “verdade empírica concreta” e a “intuição nórdica”. Perguntado certa vez sobre quanto a matemática havia sofrido, o alemão David Hilbert, um dos matemáticos mais importantes do século 20, respondeu: “Sofreu? Não sofreu, não. Ela simplesmente deixou de existir”.

Biologia
Entre 1933 e 1938, o financiamento para pesquisas aumentou em 10 vezes.

Biólogos trabalhavam com relativa tranqüilidade - apenas 14% deles foram perseguidos. Mas a profunda ligação dos nazistas com a genética faz o ramo ser visto com reservas até hoje na Alemanha. “Uma perseguição completamente irracional à genética ainda existe”, afirma o cientista Benno Muller-Hill.

Física
A Alemanha foi o berço das idéias mais revolucionárias da física teórica: a mecânica quântica e a relatividade. Mesmo assim, esse foi o ramo da ciência mais prejudicado pela ascensão do nazismo: 25% do total de físicos deixou o país - entre eles 6 vencedores de prêmios Nobel.

O MAPA DA INSENSATEZ

Para os cientistas de Hitler, campos de concentração eram fábricas de cobaias humanas.

Auschwitz-Birkenau - Polônia (abril de 1940 a janeiro de 1945)

Número de mortos: 1,1 milhão a 1,5 milhão.

Experiências: Pesquisas com gêmeos e anões; infecção com bactérias e vírus; eletrochoque; esterilização; remoção de partes de órgãos; ingestão de veneno; criação de feridas para testar novos medicamentos; operações e amputações desnecessárias.

Buchenwald - Alemanha (julho de 1937 a abril de 1945)

Número de mortos: 56 mil.

Experiências: Operações e amputações desnecessárias; contaminação com febre amarela, cólera e tuberculose; ingestão de comida envenenada; queimaduras com bombas incendiárias.

Ravensbrück - Alemanha (maio de 1939 a abril de 1945)

Número de mortos: Mínimo de 90 mil.

Experiências: Pesquisas fisiológicas, com remoção e transplante de nervos, músculos e ossos; esterilização; fuzilamento com balas envenenadas.

Dachau - Alemanha (março de 1933 a abril de 1945)

Número de mortos: Mínimo de 30 mil.

Experiências: Testes de hipotermia com exposição ao frio; câmeras de baixa pressão; infecção com protozoário da malária; privação de líquidos com ingestão de água salgada.

Sachsenhausen - Alemanha (julho de 1936 a abril de 1945)

Número de mortos: 100 mil.

Experiências: Inalação e ingestão de gás mostarda; infecção forçada pelo vírus da hepatite; fuzilamento com munição envenenada.

Natzweiller-Struthof - França (maio de 1941 a setembro de 1944)

Número de mortos: 25 mil.

Experiências: Utilização de prisioneiros como “viveiros” de bactérias e vírus como os do tifo, varíola, febre amarela, cólera e difteria.

DADOS E DILEMAS

Atlas Pernkopf
Em 1995, o médico Howard Israel consultou uma versão do atlas anatômico alemão Pernkopf. Quando leu o trecho “feliz conjunção de ilustradores brilhantes e corpos de criminosos executados”, ao lado de suásticas e insígnias da SS, ficou horrorizado e alertou seus colegas de profissão. Desde então, os médicos não sabem o que fazer com o livro, produzido com base na dissecação de corpos de 1377 prisioneiros. “O Pernkopf Atlas será sempre controverso. Para muitos, é o melhor trabalho de ilustração anatômica já feito na história”, afirma o professor de arte médica David J. Williams.

Cérebros da coleção Vogt
No ano de 1986, um encontro de neuropsicofarmacologia terminou em polêmica. Após a apresentação da pesquisa sobre esquizofrenia do psiquiatra alemão Berhard Bogerts, dois médicos acusaram Bogerts de não saber com certeza se dois dos cérebros que utilizara foram obtidos éticamente.

Os cérebros, pertencentes à coleção do Instituto Vogt, em Düsseldorf, na Alemanha, eram de gêmeos que podem ter sido mortos por médicos nazistas.

A polêmica colocou toda a coleção de cérebros do instituto sob suspeita.

PARA SABER MAIS

Doctors from Hell
Vivien Spitz, Sentient Publications, EUA, 2005

Os Cientistas de Hitler
John Cornwell, Editora Imago, 2003

The Nazi Doctors
Robert Jay Lifton, Basic Books, EUA, 2000

The Nazi War on Cancer
Robert N. Proctor, Princeton University Press, EUA, 2000

Murderous Science
Benno Müller-Hill, Cold Spring Harbor Lab Press, EUA, 1988

Site do United States Holocaust Memorial Museum (Museu Memorial do Holocausto dos EUA)
www.ushmm.org

Revista Superinteressante
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Xangai, sem teto nem leis.

Entre dez milhões de pessoas que ocupam os dez bairros urbanos do centro da metrópole chinesa, 2,5 milhões já perderam suas casas depois dos anos 1990. Hoje, o barulho das pás cobre a voz dos expropriados

Philippe Pataud Célérier

Os habitantes foram convidados a assinar a cessão de sua casa em troca de uma indenização compensatória que não lhes permite comprar imóveis perto do centro
Operários se afobam. Uma jovem bóia numa onda rosa e azul; uma força vertiginosa aspira seu corpo na órbita voluptuosa de sifões e de válvulas hidráulicas; vasos sanitários surgem com uma frescura de recifes: “American Standard”, anuncia o novo painel publicitário na lateral da estrada marginal. Alguns metros mais abaixo, curiosos se acotovelam diante de um cordão de isolamento. Este tipo de fita que circunscreve, em um local, a erupção do insólito, um acidentado deitado no chão, um imóvel ameaçando cair. Mas aqui não há nada disso. Nada com exceção de um restaurante solidamente instalado entre entulhos.

A sala está destruída. A pintura e o reboque das paredes caem aos borbotões. Como o estabelecimento ainda se mantém de pé neste quarteirão totalmente devastado ? Provavelmente, por simples acaso. As autoridades não se enganaram mantendo os idiotas afastados com cordões vermelhos e brancos que assinalam, geralmente, o que está deitado. Porém, aqui é o que ainda se mantém de pé.

Uma velha, testemunha: “Vieram uns homens muito cedo esta manhã. Quebraram tudo : cadeiras, mesas, louça, vitrine.O cozinheiro foi agredido. O proprietário não quer mais ir embora pois desde o momento em que aceitou vender seu restaurante, a municipalidade reduziu pela metade as indenizações prometidas !” Mas o que ele pode fazer ? Aqueles que tentam permanecer nas casas que ocupam há quatro gerações ficam sem água e sem eletricidade ! Se tiverem um emprego público, podem perder seu trabalho, serem incomodados por estranhos ladrões que andam por aí, durante o dia, com um boné na cabeça . “Os policiais recebem horas extras dos corretores das imobiliárias. A minha filha foi removida para vinte quilômetros distante daqui. Depois disso ela não tem mais trabalho. Ela entregava jornais ! O que vai ser dela ?” A cena se passa às margens do rio Suzhou, não longe da estação de Zhabei, bairro proletário situado ao norte de Xangai; aí, onde, tendo ao fundo industrias têxteis, surgiram os primeiros sindicatos operários entre 1924 e 19271 . Malraux escrevia na A Condição humana: “A greve geral foi proclamada em Chapei!” Os comunistas tomavam cianureto para escapar dos nacionalistas que chegavam ao apitar das locomotivas. Hoje, o barulho das pás cobre a voz dos expropriados.

Alojamentos por torres
Aqueles que aceitam imediatamente a compensação em espécie podem escolher entre diferentes alojamentos menos distantes do centro
Dos quinze milhões de habitantes permanentes desta cidade-província, mais especificamente entre dez milhões que ocupam os dez bairros urbanos do centro, 2,5 milhões já foram expropriados depois dos anos 1990. 2

Aqui, nesta margem norte, a mais cobiçada por sua completa exposição em frente ao rio, as autoridades levantaram uma bandeira: “Protejamos nosso povo ! Há oitenta anos que o Partido pratica sempre com sucesso a mesma política !” Uma segunda diz: “Melhoremos nossas vidas ! Melhoremos nossos bairros !” As televisões foram chamadas. Elas mostraram a insalubridade anárquica deste ambiente popular particularmente denso. Uma jovem testemunhou diante da câmera: “Nossas casas estão podres ! Prefiro morar numa torre e ver todas as manhãs o sol ! Há também a água corrente ! Fim da enfadonha faxina dos urinóis !”

Em seguida, desde o agente imobiliário até o agente administrativo, todos vieram