Contra o império do ar condicionado, a moda dos prédios envidraçados e a invasão dos carros, ele pratica a arquitetura que emociona. E diz que é bom negócio
Laura Greenhalgh
Depois de lançar Sonhos Construídos, primeiro volume da coleção Educação do Olhar, da Bei Editora, o arquiteto mexicano Ricardo Legorreta encerrou seus trâmites com a Bienal do Livro, no Rio, e voou para São Paulo no meio da semana passada. Esperavam-no duas conferências em universidades paulistanas - na Fundação Armando Álvares Penteado e no Mackenzie. Foi quando enfrentou platéias apinhadas, entrevistas, fotos, autógrafos, com a simplicidade que o transforma num grande demolidor da soberba dos arquitetos. “Por que temos de ser superiores? Arquitetura é serviço social”, define o sorridente senhor de 76 anos, jeito esportivo e gestos enfáticos, moldados por mãos grandes.
Ainda que dedique parte de seu tempo a projetos de moradia popular, como revela nesta entrevista ao Aliás, Legorreta é hoje um dos maiores nomes da arquitetura mundial, com projetos fincados em inúmeros países. Têm sua assinatura o Museu de Arte Contemporânea de Monterrey, a Catedral de Manágua, instalações em universidades como Stanford e Chicago, a sede do grupo Televisa, conjuntos habitacionais na Califórnia, em El Salvador, na Espanha, hotéis, praças e por aí vai. Atualmente, acompanha a construção de um complexo universitário no Qatar, que projetou no deserto, com toda modernidade e elegância.
Discípulo de José Villagrán García e Luis Barragán, conterrâneos que alçaram fama internacional nos anos 50, Legorreta, filho de banqueiro, seguiu caminho próprio ao desenvolver uma arquitetura de preocupação humanista, com escala mexicana e cores inspiradas em andanças pelo mundo - Chiapas, Granada, Marrocos, Ouro Preto, Bangladesh… Em 1988, foi quem propôs o nome de Oscar Niemeyer para o Prêmio Pritzker, espécie de Nobel da arquitetura, num júri do qual também participavam J. Carter Brown, o célebre diretor da National Gallery, de Washington, e Giovanni Agnelli, presidente da Fiat. Niemeyer ganhou. Pois na semana passada, eles se encontraram no Rio. É sobre o brasileiro o segundo livro da coleção Educação do Olhar. Quem presenciou o encontro confidencia: o falante Legorreta quase silenciou diante do centenário Niemeyer. Havia emoção no ar. Coisa de arquitetos.
Com tantas transformações no mundo, na maneira de viver e toda essa revolução tecnológica, mudou a missão do arquiteto?
A revolução tecnológica é uma circunstância impressionante. Mas é uma circunstância. O mundo é habitado por seres humanos. E somos essencialmente os mesmos. Aceleramos nossas vidas, porém o sol continua a nascer a cada 24 horas. Essa constatação para o arquiteto é fundamental.
Mas a tecnologia não o pressiona?
Ela nos deu ferramentas fantásticas, mas é preciso saber usá-las. Posso fazer projetos em diferentes partes do mundo ao mesmo tempo, o que seria impensável sem os computadores. Há programas que nos permitem analisar estruturalmente um edifício, com incrível rapidez. Ou mesmo analisar cinco diferentes estruturas para o mesmo edifício. Mas essas ferramentas também nos condicionam. Já tive de dizer a um jovem arquiteto da era das máquinas: “Olha, seu projeto está muito bom, mas você esqueceu de projetar a janela”. Ou a porta. Computadores também não são bons para trabalhar escalas. Tanto que estamos nos acostumando a ver as coisas muito reduzidas nos monitores. Mas a pior pressão vem desse mundo dominado pela economia, pelas relações de poder. Isso nos coloca numa posição difícil. Arquitetos são transformados em marcas, como Coca-Cola. Quero comprar um “Frank Gehry”, quero um “Richard Meier”. Há muito interesse em construir, construir, construir e ganhar dinheiro. A tecnologia é maravilhosa, não posso me furtar de dizer isso a um jovem arquiteto, mas sou da geração que encontrou enorme prazer no lápis.
E o prazer perdura?
Até hoje. Tenho um filho arquiteto, que é meu sócio, e quando terminamos de analisar um projeto, dizemos um para o outro: que ferramenta é o lápis!
Existe má arquitetura?
Não. Existe construção. E existe uma maneira de fazer arquitetura que não me parece boa. É a arquitetura que não participa, não interfere no mundo. Me incomoda pensar que estejamos ocupados apenas em desenhar para a elite, quando o problema da moradia popular não está equacionado. Temos de colocar a tecnologia a serviço da casa popular, pois nossos critérios neste campo não se renovaram: os mesmos elementos pré-fabricados, a monotonia insuportável. Por que não chegamos a uma tecnologia confiável de maneira que as pessoas possam construir seus espaços? Temos zero de mobiliário pensado para a vivienda social. Os pobres continuam comprando móveis fora de escala, que não têm nada a ver com o que precisam. Por outro lado, o que vemos nas cidades? Essa moda terrível dos prédios verdes, azuis, encapados de vidros, com interiores padronizados e ar condicionado na última potência. Por que insistir nessa direção?
Você diz que, de modo geral, os arquitetos não participam dos grandes debates. Não são chamados ou não querem participar?
Poderíamos participar mais. Há um distanciamento que começa no período de formação. Nas faculdades, o que se apresenta para o estudante de arquitetura é o profissional-estrela, ser superior ao resto da humanidade. Um amigo meu diz que aprendemos a falar como arquitetos, a nos vestir como arquitetos, a caminhar como arquitetos, a morar como arquitetos, ou seja, é uma egolatria absoluta. Quando arquitetos se juntam para conversar e tomar um trago, onde é que eles vão? A bares “feios” do ponto de vista dos standards da arquitetura. Buscam lugares desordenados, porém humanos. Porque precisam respirar fora dos padrões.
Quando começou a se interessar por moradia popular?
Há anos fiz um trabalho importante, que me trouxe outros projetos, como um que encerramos na Espanha. Hoje desenvolvo um programa no México, perto de Toluca, a 80 quilômetros da capital. Um conjunto de 3 mil casas. É uma sensação estranha chegar num lugar e construir 3 mil casas, de uma só vez, quando as cidades se fazem pouco a pouco. Quando me ponho a estudar arquitetura popular, seja em cidades brasileiras, seja em cidades no México, sempre acabo descobrindo elementos arquitetônicos que se repetem. Por exemplo, as casas populares do México, como no Brasil, têm caixas d’água aparentes, mal colocadas, ficam horríveis. Pois resolvemos esse problema construindo reservatórios em Toluca. Convencemos as pessoas de que elas não precisam ter o carro na entrada da casa, num espaço apertado, ao lado da sala. Também convencemos fabricantes de móveis a produzir linhas adequadas ao projeto e a vendê-las em lojas às quais os moradores têm acesso. Diante dessas propostas, o incorporador fez cálculos daqui e dali, e ao final me disse: “Vou receber 1% a menos. Vamos em frente”. Saímos pedindo que todos os profissionais envolvidos baixassem os honorários para investir em árvores, melhorar escolas. O projeto tem financiamento do governo, mas é da iniciativa privada.
Como o debate em torno de mudanças climáticas poderá influenciar o trabalho dos arquitetos?
Começa a influenciar. Creio que neste campo - uma arquitetura preocupada com as mudanças do clima - teremos a liderança de três países: Brasil, México e Índia. Dificilmente essa liderança virá de países ricos, mas de países com obstáculos a superar, com contradições em sua estrutura social e um sentido humano forte. Por isso cito os três. Quando se firmou o Nafta, há 13 anos, visitava o México o grande arquiteto indiano Charles Correa. Numa conversação pública perguntei a ele o que achava do acordo de livre comércio, e Charles disse: “Economicamente, vocês vão passar alguns anos mal. Mas, culturalmente, esse tratado trará mudanças inesperadas e incríveis. É como colocar numa jaula dois passarinhos e um tigre, e ver o que acontece”. Só um indiano para pensar assim.
O século 20 foi tempo de arquitetos que abriram horizontes, demoliram conceitos, mas trabalharam para as elites. Com a favelização do planeta, essa perspectiva muda?
A arquitetura como benefício coletivo vai se impor, porque temos de gerar uma vida urbana mais equilibrada. Certamente acabaremos fracionando as metrópoles para viver em bairros. Teremos de reorganizar a sociedade para que as pessoas possam morar perto do trabalho e dos amigos. Quanto às favelas, penso que são produtos dessa injustiça mundial que não se traduz apenas em desigualdade econômica, mas em desigualdade cultural. Nesse sentido, há quem diga que o México é a favela dos EUA. Ou que a África é a favela da Europa. O que devemos fazer é enfrentar carências de dignidade. Um garçom espanhol sente orgulho em servir. Sabe o valor do seu trabalho. O mesmo acontece com o taxista inglês. Mas, para boa parte dos trabalhadores do mundo, essa dignidade é negada por um sistema de exploração.
Voltar à convivência do bairro: essa idéia pode dar certo numa metrópole caótica como São Paulo?
Pode. Nova York é o metro quadrado mais caro do mundo, com seus belos e imponentes edifícios. Mas, se você percorrer a Madison Avenue, zona valorizada de Manhattan, vai encontrar a pequena florista, o café para entrar e descansar um pouco, a farmácia, o mercado pequeno. Como funciona esse comércio? Não sei, mas é maravilhoso! Este ano o ganhador do Pritzker Prize foi o arquiteto britânico Richard Rogers. Na cerimônia, ouviu-se o prefeito de Londres dizer: “Nenhum habitante pode avaliar, neste momento, o que Richard Rogers fez por esta cidade. Mas vamos fazê-lo dentro de 10, 15 anos”. Porque Rogers está lá, ativo, o tempo todo pensando e dando conselhos aos administradores. Somos velhos amigos. Recentemente mostrei-lhe um projeto para a região central da Cidade do México e Rogers me disse que tinha um grave defeito: estacionamento. Reagi: “Você quer comparar a Cidade do México com Londres?”. Ele me respondeu assim: “Em 1960, poderíamos tomar dois caminhos em Londres. Acho que escolhemos o correto. Hoje temos mais peixes no rio do que tínhamos naquele tempo”. É isso: hoje cobra-se pedágio para os automóveis entrarem em Londres. E já se fala em proibi-los. Rogers está certo. Temos de acreditar na força das idéias.
Que sinais você vê de revitalização dos bairros?
No México, vejo se multiplicarem as “miscelâneas”, pequenas lojas que vendem comida e um pouco de tudo. Vão muito bem. Há outros indícios. Estamos começando a ficar entediados de só andar dentro de shopping centers. Gosto de provocar os americanos quando participo nos EUA de reuniões com arquitetos. Eu lhes digo: “Então, vocês falam tanto de shopping centers, de elevadores panorâmicos, de sistemas de segurança, e, quando saem de férias, vão correndo para as ilhas gregas”. Não proponho que se eliminem os shopping centers das cidades, apenas quero pensar alternativas a uma arquitetura anti-humana, de luz e temperatura controladas.
Essa arquitetura não terá crescido pela necessidade de mais segurança nas cidades?
A verdadeira segurança se dá quando você conhece seu vizinho. Não creio na segurança que impõe guarda-costas por todos os lados, câmeras de monitoramento, etc. Não é solução. Nem vida. Os aeroportos viraram lugares realmente desagradáveis de estar. Qual é a sua sensação quando entra num edifício e lhe pedem documentos, tiram uma fotografia sua? Sou favorável a que se abram os espaços públicos.O México vai completar 200 anos de independência em 2010. Propus selecionar 200 praças públicas, de diferentes tamanhos, e recuperá-las. Cada praça envolverá um arquiteto, artistas e a comunidade.
A recuperação do Zócalo, a mais importante praça mexicana, e do centro histórico no entorno, está a cargo do seu escritório?
Sim. Houve projetos anteriores, alguns muito americanizados, que por diferentes razões não foram em frente. Então fomos convidados a apresentar uma proposta. O Zócalo é uma questão delicada. É lugar de encontro e manifestações políticas, portanto, mexer nele tem impacto até psicológico. Se você cava, vai encontrar restos pré-colombianos. Há ruínas de terremotos. O que fazer? Estamos trocando toda a pavimentação, ampliando as calçadas, agregando verde. A parte de trás da praça permanecerá aberta ao público. Recuperamos um quarteirão inteiro abalado por tremores de terra, reformamos prédios e construímos dois outros, com uma arquitetura forte. Esperamos que instituições que são o orgulho do país, como certos bancos, retornem para lá. Nos anos 50, construiu-se uma bela Cidade Universitária, deslocando as faculdades para outra região. E o centro começou a morrer.
Uma periferia como a de São Paulo ou complexos de favelas como os do Rio são processos urbanos irreversíveis?
A recuperação de áreas degradadas é lenta. Depende de iniciativas que paulatinamente surtem efeito. Como levar as autoridades ao local, para que vejam como vivem as pessoas. Ou abrir uma praça, construir uma escola… Há investidores interessados em áreas degradadas. Porque compram terrenos relativamente baratos, fazem casas, pequenos comércios e acabam melhorando os bairros.
Ao criar o plano piloto de Brasília, Niemeyer pensou em quadras com estruturas autônomas: moradias, comércio, serviços, etc. Mas a cidade não resistiu aos shopping centers, que acabaram chegando.
É verdade. Mas sejamos otimistas. Curitiba tornou-se um exemplo para o mundo pelo sistema de transporte coletivo concebido por Jaime Lerner. Em Cartagena, na Colômbia, a população tem orgulho do transporte público, criou consciência em relação ao problema do lixo, baixou índices de criminalidade. Aliás, em termos de desenvolvimento urbano, creio que a Colômbia passou México e Brasil. Veja como São Paulo mudou sem os outdoors, sem aquela poluição visual tremenda. Não conheço o prefeito de São Paulo, mas tenho certeza de que antes de apresentar o projeto de lei Cidade Limpa, ele deve ter pensado: não é uma medida popular. Acabou fazendo algo popular e de impacto político. Estou numa campanha semelhante na Cidade do México. Lá, se você tem uma casa, pode pendurar os anúncios que quiser na fachada, sem restrições.
Quando a lei entrou em vigor, houve quem dissesse que a feiúra de São Paulo ficaria mais evidente.
Em questões desse tipo, devemos lidar com a verdade. Sempre. Em geral, nos achamos feios diante do espelho. Daí dizemos “preciso melhorar aqui, melhorar ali”. O que é bom. Em termos de recuperação urbana, significa decidir pintar uma fachada, combinar com o vizinho e abrir umas janelas, colocar os fios da energia debaixo da terra… São ações que fortalecem o sentido de ordem e limpeza. Daí vem alguém e diz: ah, são medidas cosméticas. Não vejo assim. São decisões humanas que acabam por levar à essência do que é a cidade. Tanto em São Paulo quanto na capital do México convive-se com uma certa vergonha da “cidade onde vivemos”. Ora, vamos tratar de ter orgulho, fazendo pequenas coisas. As cidades são seus heróis anônimos. Quem terá construído Barcelona? Quem fez aquilo tudo? Jamais saberemos.
Como a arquitetura chegou a sua vida? Quem o influenciou?
Meu pai era banqueiro. Um tipo profundamente humano, queria muito bem ao México. Várias vezes viajamos juntos pelo país, então me acostumei a falar com os moradores dos pueblos. Foram contatos decisivos porque não há investigação consistente sobre arquitetura popular. Uma vez perguntei ao morador de um povoado: “Por que você abriu a janela nesta altura?” Ele respondeu: “Porque de manhã o sol entra por ela e vem bater no canto da mesa onde eu tomo café”. Perfeito, não? Assim fui descobrindo essa arquitetura sem arquitetos. Tive a sorte de herdar a disciplina do meu pai, que se prolongou na disciplina de meu mestre, o grande arquiteto mexicano Villagrán García. A disciplina de Villagrán era tão implacável que às vezes eu pensava em abandonar tudo. “Não faça isso”, dizia meu pai. “Nos primeiros dez anos de profissão você vai mesmo fazer muita bobagem”. Mais tarde, conheci Luis Barragán, outro grande nome da arquitetura do meu país, que me trouxe um outro modelo.
Que modelo?
Villagrán era um monge. Barragán, um playboy. Mostrou-me o que é joie de vivre. Certa vez falei de uma cor rara e Barragán disse que só havia uma flor com aquele tom. Ele me fez viajar um dia e caminhar três horas para descobri-la! Noutra ocasião eu estava no escritório, num fim de tarde, naquela hora crítica, e Barragán telefonou dizendo que eu fosse imediatamente para a casa dele. Disse-lhe que estava atolado em trabalho, mas não houve jeito: “Venha agora”. Encontrei-o numa cena kitsch. Barragán estava com duas australianas belíssimas, uma de cada lado, e admirava uma torre feita de taças de champanhe. Exclamava: “Existe coisa mais bela?” Combinava como ninguém banalidade e refinamento. Assim fui vendo que a arquitetura tem muito mais de emoção do que de teorias.
“Satisfação é padrão de qualidade.” Este é um dos seus motes. Que efeito surte nos clientes?
Projetando casas consegui estabelecer as melhores amizades da minha vida. E mais: o cliente é indispensável. Quando conseguimos travar um contato feito de respeito mútuo, discutindo tudo o que é preciso, cria-se uma relação maravilhosa. A ponto de hoje eu achar que certos clientes poderiam ter feito projetos melhores que os meus.
Sem um certo personalismo, Niemeyer, Mies van der Rohe ou Louis Kahn teriam feito o que fizeram?
Vou tomar um caso. Qual foi o grande mérito de Louis Kahn? O talento, não a dose de personalismo que pudesse ou necessitasse ter. Personalismo se controla. Talento, não.
O que há de verdadeiramente pessoal na sua arquitetura?
A busca de um prazer humano. Dizem por aí que faço uma “arquitetura da cor”. Esse tipo de juízo é superficial. Crio espaços e, pelo fato de ter nascido onde nasci, tenho essa irresponsabilidade mexicana com a escala, com o tamanho exagerado das coisas. E paixão por construir. É comum em meu país você ouvir alguém dizendo “estou fazendo um novo quarto”. E não sabe nem para quê. No Japão, se constrói por necessidade. No México, por prazer.
Você está construindo um centro universitário no Qatar. Que tal?
A arquitetura árabe sempre me inspirou e as descobertas no Qatar têm me gratificado. Sabemos pouco sobre o mundo árabe. E agora, por essa onda americana, passamos a vê-los, todos, como terroristas. A obra me foi encomendada pela segunda esposa do emir. Quando marcamos a primeira reunião, imaginei que iria encontrar uma senhora gorda, coberta de véus. Encontrei uma mulher moderna, culta, excepcionalmente bela. Alguém que discute projetos e decide. Ela me disse: “Um dia vai acabar o gás do Qatar. Por isso quero educar o meu povo”. Escolheu as melhores universidades do mundo para ter como referência. Dinheiro para o projeto não falta, ao contrário, sobra. Enquanto nos campi americanos tem-se em média 18m2 por aluno, no Qatar tem-se 60m2 por aluno. Alguns prédios já estão prontos, outros, a caminho. Lá descobri a beleza da escrita árabe. É tão especial que projetei grandes painéis, nos edifícios, só para realçá-la.
Há muita cópia em arquitetura?
Todos copiamos, e quem nega isso não fala a verdade. Há projetos meus com referências muito claras da arquitetura pré-colombiana. Ou do que vi no Marrocos. Ou dos telhados de Ouro Preto. Por isso soa estranho quando alguém fala do “estilo Legorreta”. Nem sei o que é isso e nem entendo essa superioridade que os arquitetos se dão. Não creio em gênios. Creio em gente que trabalha muito. E com paixão.
Jornal Estado de S. Paulo
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