Arquivo de 14 de Janeiro de 2008

Do que a arte é feita

Jorge Coli

A arte tem sua junção entre aquilo que a obra oferece ao espectador e o que é captado por ele; está em uma terceira margem do rio, o que lhe permite passar do original para as cópias

Paolo Veronese, mestre do Renascimento, pintara para o refeitório dos beneditinos, na ilha de San Giorgio Maggiore, em Veneza, uma pintura representando o episódio bíblico das bodas de Caná.
Veronese adaptara a tela enorme, 6,77 m x 9,94 m, à sala criada por Palladio. É em 1563 que, maravilhados, os venezianos assistem à conjunção criadora desses dois gênios. Porém, no final do século 18, o general Bonaparte invade a Itália. Como butim, leva obras de arte para o Louvre, museu universal que então se formava em Paris.
Entre elas estava a imensa pintura de Veronese. Até hoje os venezianos não se conformaram com o rapto. Ora, o “New York Times” traz um artigo contando que “As Bodas de Caná” voltaram para o velho refeitório do convento.
Não o original, que continua no Louvre. Dele foi feita uma cópia digital idêntica. Nada desses sucedâneos aproximativos, tristes e anêmicos. Um clone, com o mesmo exato colorido, com matéria equivalente, com os acidentes e o relevo sutil da superfície pictural sobre tela. A palavra clone foi usada como sinônimo de monstruosidade por um universitário italiano a respeito dessa réplica.
Adam Lowe, autor da reprodução, a recusa: “Nossa obra não é um clone, mas um profundo estudo detalhado”. Resta que, monstro ou não, a metáfora do clone é bem tentadora. Outro crítico, Pierluigi Panza celebra: para ele trata-se do “terceiro milagre”.
Entende-se: o primeiro foi quando, em Caná, Cristo transformou a água em vinho. O segundo, a própria pintura de Veronese, grande obra-prima. O terceiro, a reprodução que, dizem, o olho não consegue distinguir do original.

Impalpável
Pode ser que haja exagero. Pode se tratar de um mero factóide. No entanto a hipótese de uma identidade absoluta entre “As Bodas de Caná” e sua cópia reforça várias questões teóricas. Mesmo quando a perfeita imitação não ocorre, situações desse tipo indicam que a dimensão mais crucial da arte está na aparência, não na matéria.
Essa dimensão se vincula à idéia de semelhança que, ao contrário da imitação, suscitou pouca teoria. Proust a emprega como formidável meio de compreensão do mundo. Seu narrador discorre sobre pinturas a partir dos mais diversos tipos de reprodução: gravuras, cópias, fotos. Embora não seja o universo da teoria, mas do romance, Proust sugere que a característica mais definidora da arte é imaterial.

Faz-de-conta
A arte tem sua junção entre aquilo que a obra oferece ao espectador e o que é captado por ele. Está numa terceira margem do rio. Perder sua materialidade de coisa é o que lhe permite passar do original para as cópias, réplicas, citações, lembranças, múltiplos.

Sonhos
A existência da obra para além de sua materialidade contraria o fetichismo do objeto artístico, que os românticos sublinharam tanto, confundindo arte e relíquia. Walter Benjamin herdou deles as convicções expostas no texto conhecido sobre “a obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, em que vislumbra uma aura exclusiva própria dos originais, capaz de ser detectada sabe-se lá por quais poderes.
Uma tal imaterialidade contraria também o mercado das artes, que sempre engorda com a sobrevalorização dos originais. Qual é o autêntico: o quadro original de Veronese, que está no Louvre, fora do seu lugar, de sua escala, em concorrência com outras obras, ou a réplica perfeita, instalada na luz e no espaço únicos para os quais foi concebido?

Bresser Perereira Website
http://www.bresserpereira.org.br/

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O rei da mídia

Partida de dom João 6º mobilizou os jornais da época e foi motivo de controvérsias na Inglaterra, França e Espanha

ISABEL LUSTOSA

A partida da corte portuguesa para o Brasil foi notícia na “Gazeta Oficial de Londres” de 19 de dezembro de 1807, com a publicação de carta enviada em 29 de novembro pelo lorde Strangford, do navio Hibernia, que escoltava a família real. Segundo Strangford -representante de seu governo junto à corte de Lisboa-, aquele desfecho fora resultado da política de constante moderação adotada pelo Reino Unido.
No entanto, depois do decreto de 8 de novembro de 1807 que determinava a prisão e o seqüestro dos bens dos súditos do Reino Unido, ele deixara Lisboa e fora se juntar à esquadra comandada pelo Almirante Sidney Smith, ao qual sugeriu o bloqueio total e imediato da entrada do Tejo.
Segundo essa versão, no dia 27, Strangford fora ao encontro de dom João e lhe dera um ultimato: ou entregava a esquadra portuguesa, ou fazia uso dela para partir com toda a sua família para o Brasil. Diante disso, no dia 28, dom João mandara publicar o decreto anunciando sua intenção de se retirar para o Rio de Janeiro.
Poucos meses depois dessa publicação, circulou em Londres um folheto intitulado “Causas e Conseqüências da Recente Imigração para o Brasil”, em que o autor, Ralph Rylance, insulta os portugueses e dá como prova da deslealdade daquele povo o fato de o príncipe regente ter fechado seus portos aos britânicos por influência da França.

Outro lado Para reforçar seu argumento, Rylance lembra que a proclamação do príncipe regente anunciando a partida é do dia 26 e que Strangford só viu dom João no dia 27. Na opinião de Hipólito da Costa -que analisou os dois textos ao longo dos primeiros números de seu “Correio Braziliense” (1808-1822)-, isso demonstra que a resolução da retirada do príncipe nasceu dos conselhos de sua própria corte e que o mérito de Strangford foi, portanto, menor do que ele reivindicara.
Além da penosa conferência com Strangford, dom João teve também de ouvir de Sidney Smith que, caso insistisse em romper com a poderosa aliada, corria o risco de perder suas possessões coloniais.
Não interessava ao Reino Unido administrar a colônia portuguesa na América, sendo-lhe mais proveitoso reproduzir aqui a velha relação simbiótica que tinha com Portugal, com a vantagem de não mais pagar os elevados impostos pelas mercadorias brasileiras na alfândega de Lisboa.
A 25 de maio de 1808, logo que se teve notícia da abertura dos portos brasileiros, as gazetas londrinas publicaram anúncio convocando aqueles que tinham interesse em negociar com o Brasil. No dia 29 de junho de 1808, na Taverna da Cidade de Londres, foi fundada a Sociedade de Negociantes Ingleses Que Traficam Para o Brasil, com 113 sócios.
A partida de dom João e sua corte era matéria controversa e mereceria tratamento diferente de acordo com o ponto de vista. O “Moniteur”, que se publicava em Paris, noticiava em 7 de julho de 1808 a “favorável recepção” que Bonaparte dera a uma comissão de nobres e eclesiásticos portugueses que tinham ido saudá-lo em Bayonne, no mês de abril.
Um dos membros daquela comissão, em carta datada de 27 daquele mês, conta, entre outras coisas, que Napoleão “falou-nos com algum desgosto, mas sem grande calor, do príncipe que nos governou e de sua real família”.
Em Portugal, um suplemento extraordinário à “Gazeta de Lisboa” publicado em 5 de fevereiro de 1808 trazia mensagem de Junot aos habitantes do país onde dizia: “O príncipe do Brasil abandonando Portugal renunciou a todos os seus direitos à soberania deste reino. A casa de Bragança acabou de reinar em Portugal”.

Brindes à família real
Os espanhóis experimentavam suas próprias turbulências, com o rei Carlos 4º, pai de Carlota Joaquina, tendo sido obrigado a renunciar em favor do filho, Fernando 7º, e este, por sua vez, a renunciar em favor de José Bonaparte.
Ambos se encontravam na França, como hóspedes compulsórios do imperador. A rebelião dos espanhóis contra os franceses provocou a organização de um governo provisório em Sevilha. Dali, a Junta Suprema do Povo da Espanha, em 30/5/1808, enviou mensagem ao povo de Portugal: “Os vossos príncipes foram obrigados a deixar-vos e os acontecimentos da Espanha são uma prova irrefragável da absoluta necessidade daquela medida”.
Como se pode ver, se as razões e a forma pelas quais dom João optou por se mudar para estes seus domínios na América ainda hoje são motivo de controvérsia, em seu tempo o assunto já mobilizava a imprensa. No entanto prova do prestígio de que então gozava o príncipe regente foi o jantar promovido em Londres por ocasião de seu primeiro aniversário no Brasil.
Conforme foi registrado pela “Gazeta de Londres” de 14 de maio de 1808, foram feitos brindes à família real, aos compatriotas que sofriam sob o despotismo francês e até à memória de Pedro Álvares Cabral.
A festa culminou com o grupo cantando uma versão em português de “God Save the King” [Deus Salve o Rei] que dizia: “Deus guarde o nosso Rei,/ Sua vontade é lei,/ (…) Viva em nós respeitado/ Desde o Tejo dourado,/ té o pólo gelado/ o nosso Rei”.

Jornal Folha de S. Paulo
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Mudança da família real foi “projeto meticuloso”

Para historiadores portugueses, dom João 6º foi sábio e prudente ao decidir partir para o Rio

DO ENVIADO A PORTUGAL

A decisão de transferir a corte para o Brasil não só foi “prudente e acertada” como resultado de um projeto meticuloso e trabalhoso que não pode ter sido decidido às pressas, no calor dos acontecimentos dos dias que antecederam a partida.
Tudo isso se soma para provar que dom João 6º estava longe de ser um monarca tolo e covarde, imagem que certa historiografia posterior ajudou a construir.
A opinião é do historiador português António Ventura, professor na Universidade de Lisboa e um dos organizadores da exposição que ocorre na Biblioteca Nacional de Portugal sobre o bicentenário das Guerras Peninsulares, ou seja, da invasão francesa em 1807 até sua expulsão definitiva, em 1814.
Para Ventura, convinha a Junot retratar o príncipe regente como fraco e a corte portuguesa como covarde no momento em que invadia o país. Também parte da historiografia portuguesa do século 19 e início do 20 contribuiu para essa imagem, que ainda hoje se encontra em Portugal e no Brasil.
Ventura diz que já à época houve distinções no modo como a decisão foi encarada pelos portugueses. A maioria dos comentários no início do século 19, diz, é favorável à transferência, tida como acertada por “preservar a legitimidade” da coroa, “mesmo que do outro lado do Atlântico”.
Segundo Ventura, o objetivo principal da transferência da corte era “a preservação física da família real”. “Desse modo, os franceses não puderam fazer em Portugal o que haviam feito na Espanha, ou seja, forçar o rei a abdicar do trono.”

Parte de uma monarquia
Em um artigo para a revista “Atlântico” deste mês, o historiador português Rui Ramos, doutor pela Universidade de Oxford e também professor na Universidade de Lisboa, afirma que, então, “Portugal não era um Estado-nação, mas apenas parte de uma monarquia”.
Só assim é possível entender melhor o que significava a decisão de preservar a integridade da família real e como era possível fazer a opção de deslocá-la para outro território.
“Dom Rodrigo de Sousa Coutinho, o mais importante ministro do governo do príncipe regente dom João”, escreve Ramos, “já concluíra que Portugal não era “a melhor e mais essencial parte da monarquia”. Essa “melhor e mais essencial parte” era o Brasil”.
A importância da colônia americana, segundo António Ventura, também contou para a decisão, especialmente pela pressão do Reino Unido, que tinha interesse em comercializar diretamente com o Brasil (de fato, dom João 6º abriu os portos brasileiros “às nações amigas” ao chegar ao país).
De todo modo, a decisão “não foi tomada de última hora”. “Uma viagem como aquela não poderia ser preparada em pouco tempo. A viagem foi planejada com bastante antecedência. Toda uma biblioteca [A Real Biblioteca, hoje parte da Biblioteca Nacional] foi catalogada e transferida, por exemplo.”
Outro fator a impulsionar a decisão de deixar Portugal, de acordo com o historiador, era a fraqueza conhecida do Exército português. “Dom João 6º tinha consciência da fraqueza do Exército. Qualquer resistência seria suicida.”
A transferência da corte, afinal, terminou sendo mais importante para o Brasil do que para Portugal, diz o historiador. “É o seu momento fundador. De 1808 a 1822, o Brasil é o centro da monarquia”, afirma.
“E são assim criadas as condições para a independência do país. Costumo dizer aos meus alunos que, em 1822, fazer a independência do Brasil era como colher um fruto maduro.”

Jornal Folha de S. Paulo
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Uma promessa de felicidade

Ao completar 50 anos em 2008, a bossa nova nos convida a rever João Gilberto e seu projeto nacional

Mario Sergio Conti*

Ainda se discute se a bossa nova é um movimento ou um estilo, um momento do jazz ou um capítulo da música brasileira. Mas todos concordam que em 2008 ela completa meio século de existência. Ela nasceu em dois discos. O primeiro foi o LP de Elizeth Cardoso Canção do Amor Demais, gravado em abril. Nele, a cantora era acompanhada ao violão, em duas músicas (Chega de Saudade, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, e Outra Vez, só de Jobim), por João Gilberto. Como foi a primeira vez que se ouviu a batida do violão do músico baiano (que tinha na época 26 anos), o disco é considerado o marco inicial da bossa nova.
Está certo: a batida rompeu com a cadência do samba quadrado, elasteceu as possibilidades do instrumento, deu aos violonistas a liberdade de criar novas harmonias. Com o mindinho e o polegar esticados, quase retos, e os três dedos do meio puxando as cordas, a batida compacta que atrasava e adiantava o ritmo era, além de nova, moderna.
Mas também está errado: em julho, João Gilberto gravou um segundo disco, um compacto com duas músicas, Hô-bá-lá-lá, dele mesmo, e Desafinado, de Jobim e Newton Mendonça. Aí se pôde ouvir que, para além da batida de violão, a voz do cantor era essencial ao novo som. No disco, a bossa nova estava completa: a integração de voz e violão formavam um todo, no qual a voz fazia as vezes também de instrumento, em que o fraseado se adiantava ou atrasava em relação ao instrumento. Era algo diferente. Era bossa nova.
A invenção comportava outros elementos. A interpretação era contida, sem vibratos e derramamento, dando a impressão de ser um canto íntimo, quase falado, espontâneo, no qual se notava pouco o esforço, o trabalho que estava na sua base. João Gilberto, no entanto, já disse que aquilo tudo era samba mesmo, e os ouvintes foram avisados logo de cara “Eis aqui este sambinha…”
Como relata Ruy Castro em Chega de Saudade, o som de João Gilberto teve um impacto imediato nos músicos jovens da zona sul carioca. Ele era diverso de tudo o que ouviam e, ao mesmo tempo, estava sintonizado com a vida que levavam e com as suas aspirações. O sucesso de público, contudo, aconteceu primeiro em São Paulo, e só depois no Rio.
Apesar de tudo isso, a bossa nova ainda não estava completa. A expressão “bossa nova” só apareceu em março do ano seguinte, 1959, quando foi lançado o primeiro LP de João Gilberto, Chega de Saudade. Nele, a expressão aparecia na letra de Desafinado, de Jobim e Newton Mendonça - “isto é bossa nova, isto é muito natural” - e na primeira frase da apresentação do disco, na contracapa: “João Gilberto é um baiano ‘bossa nova’ de vinte e sete anos”. Jobim, que escreveu o texto, na frase seguinte dá bem a dimensão do impacto do som de João Gilberto nos jovens músicos músicos cariocas: “Em pouquíssimo tempo influenciou toda uma geração de arranjadores, guitarristas, músicos e cantores.”
Depois de dizer que João Gilberto fez praticamente tudo no LP (“seus palpites, suas idéias, estão todas aí. Quando João Gilberto se acompanha, o violão é ele. Quando a orquestra o acompanha, a orquestra também é ele”), Jobim capta com precisão a sensibilidade e intenção do seu companheiro: “João Gilberto não subestima a sensibilidade do povo. Ele acredita que há sempre lugar para uma coisa nova, diferente e pura (…). Porque o povo compreende o Amor, as notas, a simplicidade e a sinceridade”.
Jobim corrobora a visão do autor de Bim Bom: “Eu acredito em João Gilberto, porque ele é simples, sincero e extraordinariamente musical”. E acrescenta um P.S.: “Caymmi também acha”. Foi só no LP Chega de Saudade que a bossa nova surgiu por inteira: na voz e violão de João Gilberto, nos arranjos, regência e composições de Tom Jobim e nas suas parcerias com Vinicius de Moraes (Brigas Nunca Mais e a faixa-título), na bateria de Milton Banana e na dobradinha de Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli (Lobo Bobo e Saudade Fez um Samba).
As letras do disco, e dos outros dois de João Gilberto que se seguiram, eram diretas e coloquiais, falavam do amor, do sorriso e da flor, de um ambiente carioca de zona sul, de sol, de mar. Era uma música aberta e ensolarada, sem gaiatices, sem dor-de-cotovelo e sátiras a isso ou aquilo, sem saudade de zabumba e sertão.
Em que pese tanta novidade, o passado e a continuidade também estavam lá. Além do atestado no PS da contracapa - “Caymmi também acha” - o compositor baiano tinha a sua Rosa Morena interpretada por João Gilberto. Havia também Aos Pés da Cruz, de Marino Pinto e Zé Gonçalves, um sucesso na voz de Orlando Silva (que João Gilberto considerava o melhor cantor do mundo). E havia a interpretação de dois sambas de Ary Barroso, É Luxo Só e Morena Boca de Ouro.
O projeto de João Gilberto tinha assim, desde o início, uma dimensão histórica: a de buscar no passado e na tradição da música popular tudo aquilo que, retrabalhado, sensibilizaria o presente. Por isso, já no primeiro disco, gravou Caymmi e Ary Barroso. Ao longo de cinco décadas, essa busca se repetiu, se aprofundou, se radicalizou.
Daí as interpretações de Janet de Almeida, de Herivelto Martins, de Noel Rosa, de Jayme Silva e Neusa Teixeira, de Lúcio Alves e Haroldo Barbosa, de Geraldo Pereira, de Garoto, de Carlos Coqueijo, de Bororó, de Denis Brean, de Lamartine Babo, de Wilson Batista. A operação se estendeu à música de fora do Brasil, quando ele cantou em espanhol (Besame Mucho e Farolito), em inglês (You Do Something to me), em italiano (Estate) e em francês (Que Reste-t-il de nos Amours).
O projeto de atualização do passado foi, e é, altamente pessoal, indiossincrático. Ele é de João Gilberto, e não da bossa nova. A sua seleção de músicas antigas obedece a critérios existenciais. Ele só cantou, e canta, músicas que conheceu e amou na infância, em Juazeiro, onde nasceu, em Aracaju, onde estudou interno, e em Salvador, onde começou a carreira. E, depois, na mocidade no Rio, das figuras de gerações passadas que conheceu pessoalmente.
É o caso de Caymmi, de quem foi amigo. De Wilson Batista, com quem conversava em Copacabana. E de Ary Barroso, que ele conheceu num restaurante no Flamengo, em 1963. (O compositor de Aquarela do Brasil o chamou à mesa, o elogiou e disse: “Se eu estiver vivo daqui a um ano, me procure”; Barroso morreu alguns meses depois.)
A bossa nova se internacionalizou. Repetiu no exterior o percurso seguido internamente: primeiro, atraiu músicos, e depois os ouvintes. Entre os músicos, os americanos foram os primeiros a admirarem o som da bossa, formando um arco formidável que vai de Miles Davis (que gravou Aos Pés da Cruz), Stan Getz (que fez dois discos com João Gilberto), Frank Sinatra (que tocou com Tom Jobim) a Ella Fitzagerald (que fez um disco só com músicas de Jobim). O marco inicial da internacionalização foi o concerto no Carnegie Hall, em Nova York, em 1962, no qual Tom Jobim e João Gilberto se apresentaram - e Dizzy Gillespie estava na platéia.
Depois, foi a vez da Europa, sobretudo na França, onde a bossa nova se beneficiou do sucesso de Orfeu do Carnaval, o filme de Marcel Camus, baseado numa peça de Vinicius de Moraes com músicas de Jobim e Luiz Bonfá, que recebera a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1959. E, por fim, o Japão, onde hoje se ouve mais João Gilberto e Nara Leão do que no Brasil.
Depois do show no Carnegie Hall, João Gilberto ficou nos Estados Unidos. Até 1980, morou no exterior, nos Estados Unidos e no México, e fez extensas temporadas na Itália e na França. Tom Jobim, igualmente, viveu longos períodos nos Estados Unidos. De certa forma, eles seguiram o caminho trilhado antes por Ary Barroso, que em 1944 foi pela primeira vez aos Estados Unidos, ano em que concorreu ao Oscar com a música Rio de Janeiro. São de Ary Barroso duas das músicas brasileiras mais conhecidas internacionalmente, Aquarela do Brasil e Na Baixa do Sapateiro, ambas gravadas por João Gilberto.
No esquema criado pelo poeta americano Ezra Pound, os inventores criam uma nova forma de abordar a literatura, e os mestres são aqueles que dominam essa nova forma, dela tirando todas as possibilidades e influenciando todo o panorama artístico. A eles se seguem os beletristas e os diluidores. O esquema, além de a-histórico, é reducionista. Mas serve para um começo de conversa.
Nessa chave, João Gilberto seria o inventor da bossa nova, e Jobim, o mestre. Ocorre que Jobim participou da invenção da música, e João Gilberto é também o seu mestre. Mestre no sentido mais imediato: o daquele que ensina diretamente. Antes mesmo da bossa nova, duas cantoras (injustamente esquecidas) se beneficiaram do contato com João Gilberto: Silvinha Telles e Mariza Gata Mansa. Depois, Astrud Gilberto e Miúcha, com quem foi casado, desenvolveram seu enorme talento junto a ele.
O mesmo vale para figuras tão díspares, e de personalidade forte, como Gal Costa, Rita Lee, os Novos Baianos, Caetano Veloso. Todos eles tiveram contato com João Gilberto, e com ele aprenderam. Grandes momentos deles estão definitivamente atados ao convívio com o criador da bossa nova.
Exemplo dessa maestria é o LP Brasil, a obra prima que ele gravou, em 1981, com Caetano, Bethânia, Gal e Gilberto Gil. Numa resenha daquele ano, no Jornal da Tarde, Sérgio Vaz foi certeiro, inclusive no uso da palavra “mestre”.
São três vozes - mas três vozes em uníssono, mais parecendo três vozes de João Gilberto mixadas em estúdio. É preciso ouvir várias vezes para perceber claramente que ali estão, ao lado da voz-guia, da voz do mestre, as vozes personalíssimas de Caetano e Gil. Você jamais ouviu Maria Betânia cantar daquela forma. Ela é outra. Não grita, não geme, não faz drama. Apenas canta - belissimamente, como jamais cantou.
Essa influência se manifesta agora na modernidade de sua filha, Bebel Gilberto, umas das cantoras brasileiras hoje mais conhecidas e admiradas no exterior.
No cinqüentenário da bossa nova, é preciso voltar a João Gilberto. Na sua arte existe um projeto nacional, uma aspiração ao que o Brasil poderia ser. Não é acaso que, em alguns shows, ele tenha reinventado até o Hino Nacional (e cumprido, de certa forma, a apreciação de Miles Davis: se João Gilberto ler um jornal em voz alta, isso será música).
Num ensaio de 1992, publicado na revista Novos Estudos, Lorenzo Mammì sustenta que a música de João Gilberto “se projeta no futuro, possui uma carga utópica”. Ele diz: “O caráter indefinido, impressionístico, com que pensávamos uma melodia sem cantá-la, de repente o reencontramos nítido, objetivo, mas ainda indefinido e íntimo, numa gravação de João Gilberto”. Valentemente, Mammì aproxima João Gilberto de Marcel Proust. E conclui: “Se o jazz é vontade de potência, a bossa nova é promessa de felicidade”.
*Mario Sergio Conti, diretor de redação da revista Piauí, é autor de Notícias do Planalto
(Companhia das Letras)

Uma promessa de felicidade :: TXT Estado

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Fazendo a corte

A Folha visitou os palácios de Mafra e Queluz, onde vivia a família real antes da partida para o Brasil, para apurar o que restou da imagem de dom João 6º e da antiga opulência

Ao chegar a Mafra e encontrar o local deserto, sem mobília, o general francês teria perguntado: “Mas que rei tão pelintra é esse que vive neste palácio?”

RAFAEL CARIELLO

A funcionária responsável por acompanhar os visitantes gira uma chave do tamanho de um revólver e abre a pesada porta de madeira que, com cerca de quatro metros de altura, dá acesso à área interna do Palácio de Mafra, já anunciado numa placa à entrada como “o mais importante monumento do barroco português”, construído por ordem do rei dom João 5º, no início do século 18.
“Tal magnificência só foi possível devido ao ouro do Brasil, que permitiu ao monarca pôr em prática uma política mecênica e de reforço da autoridade régia”, diz o mesmo aviso, que, além da bandeira do país, traz impresso o símbolo da União Européia.
Palácio de caça e de férias localizado a 40 km de Lisboa, a construção opulenta só serviu efetivamente de moradia para a monarquia portuguesa com o príncipe regente dom João 6º, e isso por apenas um ano. Dali saiu no final de novembro de 1807, fugindo para o Brasil, enquanto Portugal era invadido por tropas napoleônicas.
A imagem que deixou para trás -e que perdura até hoje- tem grande dose de ambivalência. Celebrado atualmente pela historiografia portuguesa como o autor de uma estratégia sofisticada, responsável pela manutenção da integridade da família real e, em última instância, da futura autonomia portuguesa, seu gesto ainda divide opiniões entre os habitantes do país -enquanto permanece, para muitos, a caracterização de um soberano tolo, feio e covarde.
É de forma no mínimo ambivalente que ele é apresentado, por exemplo, aos visitantes de um dos principais monumentos nacionais portugueses.
Domingas Filipe, 46, a guia que acompanha a reportagem, repete, ao início do caminho pelos corredores internos do palácio, a declaração de que tudo que seria visto dali por diante -40 mil metros quadrados de construção, 4.300 portas e janelas, 880 salas - só foi possível “com o ouro do Brasil”.
Ainda no primeiro salão, em homenagem a Diana, a deusa da caça, explica que dom João 6º viveu no palácio até “transferir toda a corte para o Brasil quando fomos invadidos, em 1807″.
Domingas garante que tais informações, sobre o ouro e a fuga, são repetidas a todos os visitantes.
Por isso mesmo, afirma, é freqüente ouvir reações dos portugueses sobre o gesto do monarca. “Há alguns que dizem que dom João 6º era muito rude, que teria deixado o país ao abandono”, explica. Outros -como ela própria, acrescenta- “acham até que foi uma estratégia bem pensada”.
“No fundo, acho que ele fez o que os britânicos mandaram. Os britânicos são o que chamamos em Portugal de “amigos da onça”. Mas a verdade é que, desde que os franceses não pudessem prender o rei, não podiam dar o país como conquistado.”
O taxista Alexandre Pedro, 75, que trabalha na praça local, discorda de Domingas. “Acho que não fez bem. Se era o rei, tinha que ter ficado e ajudado a defender o país”, ele diz.
A idéia de covardia e de abandono dos portugueses foi explorada no calor dos acontecimentos pelos próprios franceses. Na edição de 4 de dezembro de 1807 da “Gazeta de Lisboa”, espécie de diário oficial da época, que era impresso, ainda naqueles dias que se seguiram à invasão, sob a inscrição “com privilégio de Sua Alteza Real” (o que indicaria conhecimento e eventual censura do príncipe regente), o general Jean-Andoche Junot anuncia aos habitantes locais:
“O meu Exército vai invadir a vossa cidade. Eu vinha salvar o vosso porto e o vosso príncipe da influência maligna do Reino Unido. Mas esse príncipe, aliás respeitável pelas suas virtudes, deixou-se arrastar pelos conselheiros pérfidos de que era cercado, para ser por eles entregue aos seus inimigos. Atreveram-se a assustá-lo quanto à sua segurança pessoal. Os seus vassalos não foram tidos em conta alguma, e os vossos interesses foram sacrificados à covardia de uns poucos cortesãos.”

Corredor de 232 metros
Na primeira edição do “Correio Braziliense”, editado em Londres após a fuga da família real para o Brasil, de junho de 1808, é reproduzido o decreto em que dom João comunicava aos seus vassalos a decisão de partir para o Brasil.
“Vejo que pelo interior de meu reino marcham tropas do imperador dos franceses e rei de Itália, a quem eu me havia unido no continente na persuasão de não ser mais inquietado, e que as mesmas se dirigem a essa capital”, escreve ele no texto datado de 26 de novembro de 1807.
A seguir diz ser ele próprio, e não seus vassalos, quem é perseguido pelas tropas invasoras, usando um argumento oposto ao de Junot -ou seja, dizendo que fugia para manter a segurança dos portugueses- como justificativa para sua decisão.
“Conhecendo igualmente que elas se dirigem muito particularmente contra a minha real pessoa, e que os meus reais vassalos serão menos inquietados ausentando-me eu deste reino, tenho resolvido, em benefício dos mesmos vassalos, passar com a rainha minha senhora e mãe e com toda a real família para os Estados da América e estabelecer-me na cidade do Rio de Janeiro até a paz geral.”
Após nomear alguns nobres que ficavam para governar Portugal durante sua ausência, dom João 6º pede que os invasores sejam em tudo muito bem tratados. “E que as tropas do imperador dos franceses e rei de Itália sejam bem aquarteladas e assistidas de tudo que lhes for preciso enquanto se detiverem neste reino, evitando todo e qualquer insulto que se possa perpetrar.”
A sala onde provavelmente assinou esse decreto fica ao final de um corredor de 232 metros, responsável pela ligação entre o seu quarto e o de sua mulher, a princesa do Brasil, dona Carlota Joaquina. Em toda a sua extensão, há vários quadros em que dom João 6º aparece retratado.
Ao passar pelo primeiro deles, Domingas não hesita em dizer: “Seu aspecto talvez tenha a ver com o fato de os sangues estarem muito misturados. Não sei se sabes, mas o pai de dom João 6º casou-se com a sobrinha”.
Como assim, seu aspecto? “Sempre que olho para esses quadros, dom João me parece mongolóide. Ele era muito feio. E o pintor tinha que o favorecer, porque era o rei. Imagina o que seria na realidade.”

Shopping Dona Maria 1ª
No salão seguinte, a guia aponta para os móveis ali dispostos, explicando que obviamente eles não ficaram na residência após a fuga -quase tudo que havia no palácio foi transportado com o príncipe para o porto e, de lá, para o Brasil.
Domingas afirma que se conta a história de que Junot, ao chegar a Mafra e encontrar o local deserto, sem mobília, teria perguntado: “Mas que rei tão pelintra [pobre] é esse que vive neste palácio?”.
O mesmo procedimento foi tomado no Palácio de Queluz, a uns 30 km de distância e próximo à cidade de Sintra, onde estava, no momento da partida, o restante da família real, incluindo a mãe de dom João. Na cidade há hoje um shopping center Dona Maria 1ª, em sua homenagem.
Rosa Correia, 57, que recolhe os bilhetes à porta do monumento e tem curiosidade sobre a quantas anda a violência no Brasil, não chega a uma conclusão sobre a decisão de transferir a corte para os trópicos.
“Ele talvez se sentisse mais seguro no Brasil àquela altura”, diz. “Também é verdade que deveria ter ficado, mas talvez não tivesse coragem.”
Lá dentro predominam os estilos rococó e neoclássico, num ambiente bastante distinto da grandeza barroca de Mafra e bem mais aconchegante, com muitos detalhes em ouro e espelhos nas paredes.
Um grupo de atores com roupas de época vem apressado pelos corredores após um ensaio, e uma das atrizes brinca com a outra ao passarem pela reportagem: “Olha aqui a nossa casinha de antigamente”.
Na “casinha” há coleções de prataria e porcelanas dos séculos 18 e 19, finos móveis, salas de café e de “fumo”. O serviço de chá traz imagens, em cada xícara, da Viena do Setecentos, e um dos serviços de jantar tem gravado em cada peça o monograma “CJPB”, que significa Carlota Joaquina, Princesa do Brasil.
A alcunha valia para os príncipes herdeiros, destinados a se tornarem rei e rainha, mas terminou por se tornar mais literal do que eles próprios teriam imaginado.
Também em Mafra, numa das alas do palácio, é possível ver hoje confortos semelhantes aos de Queluz, mas eles foram instalados após o retorno da família real ao país, no século 19. Numa sala de jogos, com mesas de bilhar de mais de cem anos, Domingas aponta um retrato do imperador dom Pedro 2º e tece considerações sobre ele e seu pai, dom Pedro 1º no Brasil, que foi o rei dom Pedro 4º em Portugal.
“Dom Pedro foi buscar essa veia à mãe”, ela diz, “de trocar sempre de mulher”. “De dona Carlota, dizem que trocava de amante a cada dois anos”, continua a guia justamente ao entrar na sala da caça, onde cabeças e chifres de veados são expostos na parede.

Coxas e asas de frango
O salão seguinte é certamente o mais bonito do palácio de Mafra.
Uma biblioteca de sala única, a maior desse tipo na Europa, com estantes de madeira clara e 40 mil livros dos séculos 15 ao 19 encadernados em couro com lombadas douradas. Era controlada pelos franciscanos (Mafra era um palácio, mas também um convento; a residência é na verdade organizada ao redor de uma basílica, e é dela o frontispício característico de todo o conjunto).
Na fuga apressada para o Brasil, os livros ficaram, afirma Domingas. Mesmo o Exército francês não chegou a tirá-los de lá. Uma das lendas que se contam, segundo a guia, é que os frades esconderam a chave que permite a entrada na biblioteca, protegendo-a de um possível assalto francês.
Outra versão afirma que Junot, ao chegar ao palácio e encontrar tudo vazio, nem se deu ao trabalho de percorrê-lo e, assim, descobrir suas obras.
A imagem final que fica de dom João 6º, segundo o relato da encarregada de apresentá-lo aos visitantes, é bem mais positiva do que a de um rei “pelintra” ou “mongolóide”.
Domingas pergunta se a reportagem sabe da fama que o príncipe regente tinha de esconder asas e coxas de frango nos bolsos para comê-los mais tarde. Pois o hábito, diz, guarda relação com o fato de o monarca ter sido grande apreciador de música sacra e de gostar de cantá-la com os frades.
Os pedaços de frango eram levados nos bolsos, diz Domingas, para comer enquanto ouvia os frades cantarem ou nos intervalos das peças em que o príncipe-regente acompanhava os religiosos no grande salão da biblioteca, entre madeiras e ouro para lombadas de livros vindos do Brasil.

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“Isso é armação de carioca”, diz Cabral de Mello

DA REPORTAGEM LOCAL

Essa história de comemoração da vinda da corte ao Brasil é armação de carioca para promover o Rio de Janeiro.” Destoando do alvoroço em que se encontram historiadores, prefeitura do Rio, monarquistas e festeiros de plantão, o pernambucano Evaldo Cabral de Mello diz que não existem comemorações históricas autênticas e que a efeméride dos 200 anos pode servir para reforçar interpretações equivocadas sobre o período joanino e a Independência.
Leia, abaixo, trechos da entrevista que o autor de “A Fronda dos Mazombos” (ed. 34) e “Rubro Veio” (ed. Topbooks) concedeu à Folha, por telefone. (SYLVIA COLOMBO)

FOLHA - O que o sr. está achando da comemoração dos 200 anos da vinda da corte ao Brasil?
EVALDO CABRAL DE MELLO - Não gosto de celebrações de efemérides em geral. Não acredito em comemorações históricas que sejam autênticas. Não quis me envolver nas comemorações dos 500 anos do Descobrimento, por exemplo. Essa coisa de fazer festa em torno de dom João 6º é armação de carioca para promover o Rio.

FOLHA - Que problemas o sr. vê no modo como esse debate está vindo à tona?
MELLO - Há no Brasil uma insistência em reforçar o lugar-comum segundo o qual foi dom João 6º o responsável pela unidade do país. É até difícil reagir contra a historiografia que celebra a manutenção dessa integridade como resultado da vinda da família real. Isso não é verdade. A unidade do Brasil foi construída ao longo do tempo e é, antes de tudo, uma fabricação da coroa, mas não com o objetivo de que se criasse a partir dela um país independente.
Ela está relacionada à situação de Portugal no contexto europeu daquela época. Os poderosos eram a França e a Inglaterra e era preciso pensar estratégias para garantir o futuro do país naquele panorama.
A idéia de que era preciso fortalecer um império com os territórios de Portugal e Brasil começou no século 18, com dom Luís da Cunha [1662-1740, influente diplomata português que viveu em Londres, Madri e Paris], e foi desenvolvida depois com o Conde de Linhares, dom Rodrigo de Sousa Coutinho (1755-1812).
Além disso, é um absurdo que hoje se celebre a unidade antes de tudo -quando se pensa nesse momento da nossa história-, em vez de discutir que tipo de instituições republicanas e constitucionais estavam surgindo. Parece que herdamos o complexo de pequenez de Portugal para valorizar tanto essa questão.

FOLHA - O Brasil não melhorou depois da vinda da família real?
MELLO - A corte portuguesa que aqui chegou era uma corte parasita, que explorava as Províncias para manter a mesma estrutura que tinha na Europa. Nem sequer houve um esforço de adaptar a máquina administrativa a uma nova situação, a uma extensão territorial tão grande.
Estando aqui, dom João 6º foi levando as coisas com a barriga. Só um raciocínio tortuoso pode relacionar suas atitudes diretamente com a questão da unidade. Quando os historiadores pensam assim, não estão distinguindo os resultados das ações de dom João 6º das conseqüências inesperadas que elas provocaram.
Em geral, aqueles que se dedicam a esse tema não deixam claro o que era intencional e o que não era, por parte do rei.
Também ninguém dá importância ao fato de que dom João 6º esvaziou nosso erário antes de partir. Todos lembram que ele fundou o Banco do Brasil, mas nunca que deixou o Brasil falido quando foi embora daqui.
A verdade é que nós herdamos desse período o pior, uma monarquia unitária que todo o país teve de sustentar.
A própria urbanização do Rio se deu às custas das Províncias. Deve-se lembrar que, nos primeiros tempos, a corte desalojou os moradores da cidade para que os nobres tivessem onde viver. No período joanino, o Rio virou uma cidade portuguesa, um corpo estranho dentro do Brasil. E as outras regiões é que pagaram a conta. Foi só depois de muito tempo que o Rio foi se tornar uma cidade brasileira.

FOLHA - E quanto à relação entre a vinda da família e a Independência?
MELLO - Nunca se reconheceu que a Independência foi uma manobra contra-revolucionária encabeçada por dom Pedro 1º, cuja intenção era imunizar o Brasil do contágio da onda liberal que estava tomando Portugal [com a revolta constitucionalista do Porto, em 1820].
Originalmente, os problemas no Rio se deram entre portugueses liberais e absolutistas. Estes queriam impedir que aqui se passasse o mesmo que estava sucedendo em Portugal. Depois é que os brasileiros se integraram ao processo. É muito pertinente a idéia de “interiorização da metrópole”, formulada por Maria Odila Leite da Silva Dias [”A Interiorização da Metrópole e Outros Estudos”, ed. Alameda].

FOLHA - Vê um viés conservador no resgate que está sendo feito dos personagens da monarquia?
MELLO - Sim, isso existe. E os personagens são todos lamentáveis, de uma mediocridade impressionante. E agora ficam com essa história de que dom João 6º se apaixonou pelo Brasil, pelo Rio, por São Cristóvão… É tudo de um sentimentalismo muito besta e apelativo.

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O primeiro ano do resto de nossas vidas

José Murilo de Carvalho e Kenneth Maxwell defendem que a vinda da família real foi o marco zero da existência política do Brasil; já para Evaldo Cabral de Mello, “herdamos desse período o pior” que havia
“O Brasil não existiria”, afirma Carvalho


SYLVIA COLOMBO

Autor de uma biografia do imperador dom Pedro 2º (”Dom Pedro 2º -Ser ou Não Ser”, Cia. das Letras) que passou meses nas listas de livros mais vendidos, o historiador mineiro José Murilo de Carvalho acredita que a unidade territorial é uma das questões mais importantes a serem debatidas na efeméride dos 200 anos da vinda da família real. Ela teria sido responsável pelo “Brasil de hoje”.
Mas, ao ponderar sobre se isso é bom ou ruim, Carvalho prefere evocar Guimarães Rosa: “pãos ou pães, questão de opiniães”. Leia abaixo trechos da entrevista que o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro concedeu à Folha, por e-mail.

FOLHA - As celebrações dos 200 anos da vinda da família real estão começando a tomar espaço na mídia e na academia. Que aspectos o sr. acredita serem mais importante levantar para a discussão sobre esse episódio hoje?
JOSÉ MURILO DE CARVALHO - Há dois momentos distintos igualmente importantes. O primeiro, a vinda da corte em si. O segundo, as conseqüências dessa vinda. Em nenhum dos dois casos houve determinismos históricos. O príncipe dom João podia ter decidido ficar em Portugal. Nesse caso, o Brasil com certeza não existiria.
A colônia se fragmentaria, como se fragmentou a parte espanhola da América. Teríamos, em vez do Brasil de hoje, cinco ou seis países distintos. Uma vez decidida a vinda, as coisas também poderiam ter tomado caminhos distintos, inclusive a fragmentação. Discutir essas alternativas e os fatores que conduziram os acontecimentos para a direção que tomaram me parece ser um tema relevante.

FOLHA - Quais incorreções nas interpretações sobre essa passagem da história deveriam ser revistas?
CARVALHO - Há excessiva, quase exclusiva, ênfase na decisão de dom João 6º de fugir da Europa. Ora, o grau de liberdade que tinha era mínimo. Toda sua ação foi pautada pelo conflito europeu, pela rivalidade entre a França napoleônica e o Reino Unido. Suas únicas opções, grandes opções sem dúvida, eram fugir ou não fugir.
Sem a França, ele não teria pensado em sair. Sem o Reino Unido, ele não teria conseguido sair. O estudo desse condicionamento está quase totalmente abandonado.
É positiva a recuperação das imagens de dom João 6º e de Carlota Joaquina e seu resgate em relação às abordagens caricatas do tipo exibido no filme de Carla Camurati (”Carlota Joaquina - Princesa do Brazil”, 1995). A respeito desta, o trabalho foi feito pela historiadora Francisca de Azevedo [autora de “Carlota Joaquina na Corte do Brasil” (Civilização Brasileira) e organizadora da correspondência da princesa, recém-lançada pela Casa da Palavra].

FOLHA - Do ponto de vista da academia, o sr. acredita que a efeméride trará um elemento novo ao debate, que possa contemporizar vertentes historiográficas diferentes? A saber: os historiadores mais ligados ao marxismo, que acreditam que o processo de ruptura do Antigo Regime levaria o Brasil à Independência, inevitavelmente, e, por outro lado, os historiadores que privilegiam a dinâmica interna na constituição do Brasil livre. Há conciliação possível?
CARVALHO - Creio que o debate a que você se refere tem a ver com ênfases distintas em diferentes determinações do processo e da natureza da Independência: fatores externos ou internos, econômicos ou políticos. As diferenças continuarão.
Quanto a mim, não concebo história sem ação humana e não concebo ação humana sem contexto histórico. Daí não acreditar em determinismos nem em aleatoriedade.
Sobre a Independência, o importante é discutir como ela se deu. A grande diferença em relação à América espanhola foi a manutenção da unidade da colônia portuguesa e a monarquia. Daí veio o Brasil de hoje. Se para o bem ou para o mal, é [o escritor] Guimarães Rosa quem decide: “Pãos ou pães, questão de opiniães”.

FOLHA - Seu livro sobre dom Pedro 2º é um best-seller. A que o sr. atribui esse sucesso? O que tem atraído tanto a atenção dos leitores?
CARVALHO - Creio que a boa recepção do livro tem a ver com o momento histórico.
Depois do mensalão e de outras bandalheiras políticas, da conseqüente desmoralização dos poderes constitucionais, sobretudo do Congresso, da predominância na vida pública do interesse privado e da ausência de virtude republicana os cidadãos estavam em busca de exemplos de governantes com espírito público.

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Aluno garante na Justiça direito de estudar na FSA

Por: Júlio Gardesani  (julio@abcdmaior.com.br)

Fábio: direito de estudar garantido na Justiça. Foto: Luciano Vicioni

Fábio: direito de estudar garantido na Justiça. Foto: Luciano Vicioni

Fábio Cardoso alega que sofreu perseguição polítca do reitor Odair Bermelho

O educador Fábio Luiz Cardoso conquistou na Justiça o direito de voltar a frequentar as aulas do curso de História do Centro Universitário Fundação Santo André. Nesta terça-feira (08/01), Fábio Cardoso foi até o prédio da direção da universidade e apresentou o ofício cível que lhe garante pleno acesso às intalações da Fundação até que termine a graduação.

Fábio teve sua matrícula cancelada devido ao rompimento do contrato da agência canadense CIDA (Canadian International Development Agency) com a Fundação Santo André, devido ao descumprimento do contrato pela universidade. O estudante ainda atribui seu afastamento à perseguição política que sofreu durante as manifestações dos alunos da Fafil (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras) durante os anos de 2006 e 2007.

“O reitor Odair Bermleho é um facista que não aceita divergências de idéias. Fiz o vestibular e entrei como qualquer aluno na Fundação, mas devido a todas as medidas autoritárias que ele implantou na universidade resolvi me manifestar. Desde então sofri com a caça as bruxas aplicada por Bermelho, que não afasta apenas os alunos, mas também professores e funcionários”, desabafou Fábio Cardoso.

Além da bolsa de estudos, a parceria entre a agência canadense e a Fundação previa ajuda com materiais e formação de catadores de todo o ABCD e também de algumas regiões da Capital. A diretora da Fafil, Mirian Lemic, já garantiu a Fábio que ele poderá fazer sua matrícula normalmente. Os mais de um milhão de dolares canadenses que seriam repassados à Fundação para a realização da parceria foram encaminhados para a USP (Universidade de São Paulo), que irá continuar com o projeto.

“Terei um gostinho especial de voltar para a Fundação depois de tudo o que passei. Os estudantes que lutam pela melhoria da universidade devem me ter como exemplo de que não podemos desistir. Bermelho está levando a Fundação para o buraco, e ele terá que me aceitar. Iremos mobilizar o Diretório Acadêmico da Fafil para fazermos um ato de desagravo contra o que Bermelho fez comigo. Ele me tirou da universidade e os alunos irão me recolocar na sala de aula”, afirmou Fábio Cardoso.

A assessoria de imprensa da Fundação Santo André foi procurada, mas não respondeu à reportagem.

ABCD Maior

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Esquerda, versão Uruguai

Sensível aos temas sociais e duro com os militares que têm saudades da ditadura, o governo Tabaré Vasquez faz, porém, concessões às transnacionais. Parte de seus ministros flerta com os EUA e despreza o Mercosul

Edouard Bailby

Mais de vinte anos depois, as cinzas da ditadura uruguaia ainda estão quentes. Deu-se mal, em 18 de outubro de 2006, o general Carlos Diaz, comandante do Exército, por tê-lo esquecido. Sem pedir autorização ao Poder Executivo, como exige a Constituição, convidou duas personalidades da oposição de direita para um asado (churrasco à moda uruguaia), no quartel do Batalhão 14, periferia de Montevidéu. Ao ler a informação, publicada no dia seguinte, no semanário Búsqueda, a ministra da Defesa Azucena Berrutti telefonou imediatamente ao presidente Tabaré Vázquez. Com seu acordo, comunicou ao general Diaz que ele estava demitido de seu comando, por “falta grave”.

Conseqüências de uma conspiração? Desde que a pinça se fechou sobre os responsáveis por violações de direitos humanos durante a ditadura (1973-85), a oposição de direita começou a reagir. Por que, no banco dos réus, não estão apenas os militares e antigos policiais. Nos últimos meses, provas conclusivas acumularam-se contra o ex-presidente Juan Maria Bordaberry, hoje com 77 anos. Eleito em 1971, ele dissolveu o Congresso dois anos mais tarde, suprimiu todas as liberdades constitucionais e deu plenos poderes ao exército para “reestabelecer a ordem”, ameaçada pelo descontentamento popular e pelas ações de guerrilha dos tupamaros.

A busca de uma verdade esclarecedora
Em 16 de novembro de 2006, o juiz Roberto Timbal expediu uma ordem de detenção a Bordaberry e seu ministro de Relações Exteriores, à época, Juan Carlos Blanco. Eles são acusados de ter assassinado os parlamentares Zelmar Michelini e Héctor Gutiérrez, e os militantes tupamaros Rosario Barredo e William Whitelaw, cujos corpos, crivados de balas, foram encontrados em Buenos Aires, em 18 de maio de 1976, num automóvel abandonado [1]. Detidos em Montevidéu, os antigos governantes podem pegar de dez a trinta anos de prisão. Foram necessárias três décadas para que a justiça pudesse processá-los. É um fato histórico.

Para encerrar a ditadura, os dois partidos que se revezavam no poder desde 1865 — o Partido Colorado (liberal), quase hegemônico, e o Partido Nacional (conservador) — haviam assinado, com os generais, a lei de caducidade da vocação punitiva do Estado. Ela anistiava os militares e policiais implicados em crimes contra os direitos humanos, sem levar em conta a ascensão das forças de esquerda reunidas na Frente Ampla (Frente Amplio). Desde 1990, e em três pleitos consecutivos, essa elegeu o prefeito da capital, Montevidéu. Em 2004, nova virada: Tabaré Vázquez, candidato socialista da Frente, é eleito para a Presidência, já no primeiro turno, com 50,4% dos votos válidos. A esquerda obtém, além disso, maioria absoluta na Câmara de Deputados e no Senado. Pela primeira vez na história do país, os dois partidos tradicionais são deslocados do poder por meio de uma eleição democrática.

Desde a posse de Tabaré, em 1o. de maio de 2005, cresce o coro de vozes em favor de que apareça toda a verdade sobre “el pasado reciente”. Lançam-se estudos, falam testemunhas, exumam-se restos humanos em zonas militares. Pouco a pouco, as provas se multiplicam. Militares e antigos policiais são detidos e presos. Muitos são amaçados de extradição para a Argentina e o Chile.

Alguns dirigentes da oposição exaltam-se, ruidosos. Alegam que o governo faz uma aposta insana, ao ir tão longe em busca da verdade. Duas vezes presidente da República após a volta da democracia, Julio Maria Sanguinetti (Partido Colorado) está entre eles. Acompanhado de seu antigo ministro da Defesa, Yamandú Fau, julgou conveniente compareecer ao asado do general Díaz. Com que objetivo? “Era apenas uma reunião entre bons companheiros”, afirmou ele, sem oferecer outra explicação.

Os que têm saudades da Operação Condor
Ao assumir seu posto de comando, em 1o. de fevereiro de 2006, o general Díaz não escondera o fato de estar incomodado com a suspeição que pesava sobre o conjunto das forças armadas. “Porque eu deveria pedir perdão? Perdão de que?” Aos 57 anos, ele jamais foi acusado de abusos. Mas terminou sentindo-se indiretamente envolvido, na condição de oficial, por essa pesquisa aprofundada sobre o passado. Sentado entre duas cadeiras, quis ser, ao mesmo tempo, leal ao governo, segundo suas palavras, e a seus camaradas de armas. Atitude difícil, num país tão traumatizado pela ditadura. [2]

Encarregado de redigir, em conjunto com seu antecessor, um relatório sobre os “desaparecidos”, o general Díaz foi, segundo os olhos de muitos, pouco rigoroso em suas conclusões. As críticas concentraram-se, essencialmente, sobre o mistério do “segundo vuelo”, o segundo vôo que levou de volta, em 5 de outubro de 1976, vinte opositores uruguaios presos na Argentina de Buenos Aires a Montevidéu. Enquanto os sobreviventes do primeiro vôo, realizado em julho do mesmo ano, foram encontrados, perderam-se as pistas dos cativos do segundo. Teriam sido atirados do avião no estuário do rio da Prata, ou executados sumariamente, ao chegarem a uma base militar? O exército nega qualquer responsabilidade, admitindo no máximo que membros dos serviços de espionagem (SID) estavam a bordo. A questão é grave: se for estabelecido que o comando uruguaio agiu em cooperação com os militares argentinos, estará provado seu envolvimento na “Operação Condor” — o plano de cooperação das ditaduras do Cone Sul.

Jogo de pingue-pongue? Quem são os culpados?
De qualquer forma, um homem — o coronel Gilberto Vázquez — já confirmou que a repressão no Cone Sul foi coordenada no mais alto nível. Encarcerado na sede do 1o. Corpo do Exército, à espera de seu julgamento, ele escapou da prisão em 3 de julho de 2006, em condições suspeitas. Três dias mais tarde, em local clandestino, publicou uma carta aberta ao chefe do Estado, na qual afirma que o general Díaz lhe propôs reconhecer sua responsabilidade nos fatos que lhe são imputados. Em troca, não seria enviado à Argentina, país que reclama sua extradição. Díaz nega categoricamente a hipótese, e coloca à disposição do Executivo seu posto de comandante-em-chefe. A demissão é negada. Finalmente recapturado, o coronel Vázquez é de novo preso, agora num hospital militar, a pretexto de “doença grave”.

Seis semanas mais tarde, em 23 de agosto, novo incidente. Diante de uma comissão parlamentar, Gonzalo Fernández, secretário-geral da Presidência, afirma que os militantes de esquerda do “segundo vuelo” foram executados no momento de sua chegada a solo uruguaio. Ele acrescenta que obteve a informação do general Díaz em pessoa. Novo desmentido desse. Quem diz a verdade? Em 10 de setembro, agravando o mal-estar no seio do exército, o coronel reformado José Antonio Rodríguez Buratti mata-se com um tiro na cabeça, no momento em que a polícia vai conduzi-lo ao tribunal para ser julgado. No momento de seu funeral, enquanto oficiais de alta patente lhe prestam homenagem, o general Díaz discute com o general Gregorio Alvarez, antigo comandante-em-chefe do exército, que reprova sua conduta no caso do segundo vôo.

“A busca da verdade não se trata de vingança, mas de restituir a justiça”, enfatizou o senador Alberto Couriel, personalidade influente da Frente Ampla. “É essencial para o futuro da democracia que todas as culpas estejam, claramente, estabelecidas.”

Um acordo de livre comércio contestado
Criada em 1971, a Frente Ampla foi composta de quinze movimentos: dos antigos Tupamaros aos democratas-cristãos de esquerda, passando pelos comunistas e socialistas. Diferente do Brasil, onde o presidente Luiz Inácio Lula da Silva busca um entendimento entre os partidos conservadores, o governo de esquerda uruguaio acumulou forças suficientes que o permitem agir com um distanciamento dos partidos tradicionais. Ao perseguir, sem descanso, os responsáveis pelos atentados aos direitos humanos durante a ditadura, ele deu provas de sua determinação nesse âmbito. Contudo, no contexto da associação, que a Constituição prevê, tinha proposto, aos seus adversários, cargos nos organismos estratégicos do Estado [3]. Foi recusado. Nessa situação, o presidente Vásquez necessitou de flexibilidade e competência para governar.

Desde a chegada da esquerda no poder, a situação econômica tem melhorado progressivamente [4]. Após quatro anos de recessão, o desemprego caiu de 16,5% (2002) para 10,5%. A inflação oscila em torno de 5%, e o PIB aumentou 6%. O poder de compra dos salários está sendo, aos poucos, restaurado. Pelo relatório de 2005, as exportações cresceram 19%, graças à alta das vendas de matérias-primas e às encomendas da China. Grande produtor de carne, arroz, soja (700 mil toneladas), couro e laticínios, o Uruguai necessita de novas oportunidades. Para isso, não cumpre suas responsabilidades no Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela. A questão de um tratado de livre comércio (TLC) com os EUA foi rapidamente apresentado. Em discordância com certos governos de esquerda da região - Argentina , Brasil, Bolívia, Equador e Venezuela -, Vásquez era favorável ao tratado, mas com o estabelecimento de diversos limites que salvaguardariam os interesses do país.

Em junho de 2006, uma crise eclodiu. Danilo Astori, ministro da economia e e das finanças, e Jorge Lepra, ministro da indústria, desejavam tal tratado, avaliando necessária a abertura econômica para contrabalançar a deteriorização do comércio com o Brasil [5] Opostos a essa idéia, dois membros do primeiro escalão do governo estão ameaçados de demissão: José Mujica, ministro da Agricultura e da Pecuária, antigo militante tupamaro, eleito senador com um número recorde de votos, e Reinaldo Gargano, ministro das Relações Exteriores, um dos pais do Mercosul.

Hostil ao TLC, o principal sindicato do país, PIT-CNT, relembrou no seu 9º Congresso, em outubro, sua posição contra as prioridades atuais do modelo econômico, apesar do seu apoio global ao governo. Definitivamente, Vásquez decidiu não assinar. “Nosso embaixador em Washington telefonou para dizer que os EUA não farão nenhuma concessão”, explicou. “Eu recusei a fim de proteger nossa soberania”.

TCL e as transnacionais de papel
Com 3,3 milhões de habitantes, o Uruguai não cede às pressões por parte dos EUA ou dos poderosos parceiros do Mercosul - Argentina e Brasil. Possui uma taxa de 97% de alfabetização, a mais moderna rede de telefonia da América do Sul e direitos sociais sem equivalência no resto do continente. Orgulha-se: “Se o pequeno Luxemburgo sabe defender seus interesses dentro da UE, eu não vejo porque não podemos fazer o mesmo. O Mercosul conhece os problemas cujas consequências sofremos, mas o Uruguai não está à venda”. Aos 72 anos, o antigo exilado político na Argentina e Espanha Gargano continua firme em seus princípíos - sem possibilidade de ceder. Ainda mais no que diz respeito ao desacordo, entre Montevidéu e Buenos Aires, sobre a construção de duas fábricas de papel por duas multinacionais européias. Esse seria destinado à exportação, pelo rio Uruguai.

O governo do presidente Jorge Batle (2000-2005) estabeleceu um acordo com a empresa espanhola Ence. Concedeu o direito de construir um porto Franco e uma usina, perto da localidade de Frei Bentos. Duas semanas antes de Váquez assumir o poder, a empresa finlandesa Botnia se beneficiou do mesmo privilégio.

Receiando as emissões de poluentes de cloro, as chuvas ácidas e o odor repugnate inerente ao branqueamento do papel, os residentes de Gualeguaychú, cidade localizada na costa argentina do rio, intervieram contra os riscos de destruição de suas principais fontes de renda. Entre elas, o turismo e agricultura. Buenos Aires acusou Montevidéu de violar o estatuto bilateral do rio, assinado em 1975, sobre a proteção ambiental.

Ameaça ambiental e social: a controvérsia com a Argentina
No litoral da Argentina, um grupo de cidadãos bloqueou o tráfego da estrada que cruza o rio Uruguai, fronteira natural entre os dois países. Declarações para exigir o fechamento das usinas, ameaçam de ’deixar os uruguais loucos’ por meio de ações drámaticas, incluindo a destruição da usina Botnia [6]. Para protegê-la, o exército enviou, no fim de novembro, 20 militares. “Poderíamos crer que nos encontrávamos na época colonial”, provocou o ministro Mujica. “Os argentinos querem ter um direito de ’passar a perna’ no Uruguai”, argumentou Sergio Abreu, antigo ministro das Relações Exteriores (Partido Nacional) dos anos 1990. Amedontrado, Ence renunciou ao seu projeto, deslocando sua instalação, a partir de setembro, a uma outra região do Uruguai [7]. A empresa finlandesa Botnia e seu parceiro local, o grupo Otegui, não fizeram o mesmo.

Frei Bentos situa-se a trezentos quilômetros de Montevidéu. Localizada nas proximidades da foz do Rio Uruguai no Prata, a cidade de 22 mil habitantes está voltada para as chaminés da Botnia. A empresa está instalada ao redor da ponte internacional Geral San Martín. Uma centena de engenheiros e técnicos, finlandeses e europeus, trabalham no canteiro de obras onde, em breve, se encontrarão 3,2 mil operários uruguaios. Dentro de alguns meses, a usina estará pronta e produzirá 1 milhão de toneladas de papel por ano destinado à exportação [8]. Será uma das mais modernas do mundo, graças ao comportamento Kraft que a UE homologou recentemente. Nesse sentido, o Uruguai considera que não há nada a se acusar.

Mas, os argentinos permanecem intratáveis. Exasperados, os habitantes de Frei Bentos chegam a dizer: “Melhor morrer de câncer do que de fome”. A usina frigorífica da cidade, que empregava mais de 4 mil assalariados, faliu nos anos 1970. Com o bloqueio, os milhares de turistas argentinos que usavam a ponte para chegar a Montevidéu e às praias do Atlântico, não o fazem mais. Os hotéis da região estão vazios, os comércio definha.

No início de 2006, a Argentina levou o assunto à Corte Internacional de Justiça de Haia. Essa deu um parecer favorável ao Uruguai. O mesmo aconteceu, meses depois, no Tribunal de Justiça do Mercosul. A tensão entre os dois países agrava-se. “Não há possibilidade de fechar a Botnia”, repetem os uruguaios que dizem lutar por uma causa patriótica.

Desastroso conflito. Efetuado por dois governos aliados ideologicamente, ele prejudica o Mercosul. Isso é muito prazeroso para Washington, já que nunca viu com bons olhos essa formação regional organizada e a dinâmica de mudanças que atravessa o continente.

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[1] “Para el juicio de la historia”, Brecha, Montevidéu, 20 de outubro de 2006.

[2] Em relatório apresentado ao 7o. Fórum de Biarritz, em 5 e 6 de outubro de 2006, o Centro Latino-americano e Caribenho de Demografia, ligado à Comissão Econômica para a América Latina (Cepal) estima em 178 mil o número de expatriados uruguaios pelo mundo.

[3] Ler Jorge Lanzaro, “La gauche em Uruguay. Le chemin vers e gouvernement”, Problemas da América Latina, nº55, Paris, 2004-2005

[4] “Tendencias y perspectivas de la economia uruguaya”, Instituto de economia da Faculdade de ciências econômicas e de administração, Montevidéu, setembro de 2006

[5] As exportações para o Brasil, em 2005, caíram para 13,6%. Em 2006, subiram novamente para 21%. Com os EUA, elas permaneceram em alta constante - 22,5%.

[6] Independentemente do receio de poluição do rio, os ecologistas uruguaios observaram que 60 mil hectares de plantações de eucalipto necessárias para a produção de papel das usinas causarão problemas ao ecossistema mais rico do país e à gestão de água.

[7] Essa sociedade já estava condenada, em 2003, após 12 anos de batalha jurídica, por ’crime ecológico’, na Galícia

[8] Botnia é a segunda produtora européia, com 3 milhões de toneladas por ano

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Humanismo na ponta do lápis

Contra o império do ar condicionado, a moda dos prédios envidraçados e a invasão dos carros, ele pratica a arquitetura que emociona. E diz que é bom negócio

Laura Greenhalgh

Depois de lançar Sonhos Construídos, primeiro volume da coleção Educação do Olhar, da Bei Editora, o arquiteto mexicano Ricardo Legorreta encerrou seus trâmites com a Bienal do Livro, no Rio, e voou para São Paulo no meio da semana passada. Esperavam-no duas conferências em universidades paulistanas - na Fundação Armando Álvares Penteado e no Mackenzie. Foi quando enfrentou platéias apinhadas, entrevistas, fotos, autógrafos, com a simplicidade que o transforma num grande demolidor da soberba dos arquitetos. “Por que temos de ser superiores? Arquitetura é serviço social”, define o sorridente senhor de 76 anos, jeito esportivo e gestos enfáticos, moldados por mãos grandes.

Ainda que dedique parte de seu tempo a projetos de moradia popular, como revela nesta entrevista ao Aliás, Legorreta é hoje um dos maiores nomes da arquitetura mundial, com projetos fincados em inúmeros países. Têm sua assinatura o Museu de Arte Contemporânea de Monterrey, a Catedral de Manágua, instalações em universidades como Stanford e Chicago, a sede do grupo Televisa, conjuntos habitacionais na Califórnia, em El Salvador, na Espanha, hotéis, praças e por aí vai. Atualmente, acompanha a construção de um complexo universitário no Qatar, que projetou no deserto, com toda modernidade e elegância.

Discípulo de José Villagrán García e Luis Barragán, conterrâneos que alçaram fama internacional nos anos 50, Legorreta, filho de banqueiro, seguiu caminho próprio ao desenvolver uma arquitetura de preocupação humanista, com escala mexicana e cores inspiradas em andanças pelo mundo - Chiapas, Granada, Marrocos, Ouro Preto, Bangladesh… Em 1988, foi quem propôs o nome de Oscar Niemeyer para o Prêmio Pritzker, espécie de Nobel da arquitetura, num júri do qual também participavam J. Carter Brown, o célebre diretor da National Gallery, de Washington, e Giovanni Agnelli, presidente da Fiat. Niemeyer ganhou. Pois na semana passada, eles se encontraram no Rio. É sobre o brasileiro o segundo livro da coleção Educação do Olhar. Quem presenciou o encontro confidencia: o falante Legorreta quase silenciou diante do centenário Niemeyer. Havia emoção no ar. Coisa de arquitetos.

Com tantas transformações no mundo, na maneira de viver e toda essa revolução tecnológica, mudou a missão do arquiteto?

A revolução tecnológica é uma circunstância impressionante. Mas é uma circunstância. O mundo é habitado por seres humanos. E somos essencialmente os mesmos. Aceleramos nossas vidas, porém o sol continua a nascer a cada 24 horas. Essa constatação para o arquiteto é fundamental.

Mas a tecnologia não o pressiona?

Ela nos deu ferramentas fantásticas, mas é preciso saber usá-las. Posso fazer projetos em diferentes partes do mundo ao mesmo tempo, o que seria impensável sem os computadores. Há programas que nos permitem analisar estruturalmente um edifício, com incrível rapidez. Ou mesmo analisar cinco diferentes estruturas para o mesmo edifício. Mas essas ferramentas também nos condicionam. Já tive de dizer a um jovem arquiteto da era das máquinas: “Olha, seu projeto está muito bom, mas você esqueceu de projetar a janela”. Ou a porta. Computadores também não são bons para trabalhar escalas. Tanto que estamos nos acostumando a ver as coisas muito reduzidas nos monitores. Mas a pior pressão vem desse mundo dominado pela economia, pelas relações de poder. Isso nos coloca numa posição difícil. Arquitetos são transformados em marcas, como Coca-Cola. Quero comprar um “Frank Gehry”, quero um “Richard Meier”. Há muito interesse em construir, construir, construir e ganhar dinheiro. A tecnologia é maravilhosa, não posso me furtar de dizer isso a um jovem arquiteto, mas sou da geração que encontrou enorme prazer no lápis.

E o prazer perdura?

Até hoje. Tenho um filho arquiteto, que é meu sócio, e quando terminamos de analisar um projeto, dizemos um para o outro: que ferramenta é o lápis!

Existe má arquitetura?

Não. Existe construção. E existe uma maneira de fazer arquitetura que não me parece boa. É a arquitetura que não participa, não interfere no mundo. Me incomoda pensar que estejamos ocupados apenas em desenhar para a elite, quando o problema da moradia popular não está equacionado. Temos de colocar a tecnologia a serviço da casa popular, pois nossos critérios neste campo não se renovaram: os mesmos elementos pré-fabricados, a monotonia insuportável. Por que não chegamos a uma tecnologia confiável de maneira que as pessoas possam construir seus espaços? Temos zero de mobiliário pensado para a vivienda social. Os pobres continuam comprando móveis fora de escala, que não têm nada a ver com o que precisam. Por outro lado, o que vemos nas cidades? Essa moda terrível dos prédios verdes, azuis, encapados de vidros, com interiores padronizados e ar condicionado na última potência. Por que insistir nessa direção?

Você diz que, de modo geral, os arquitetos não participam dos grandes debates. Não são chamados ou não querem participar?

Poderíamos participar mais. Há um distanciamento que começa no período de formação. Nas faculdades, o que se apresenta para o estudante de arquitetura é o profissional-estrela, ser superior ao resto da humanidade. Um amigo meu diz que aprendemos a falar como arquitetos, a nos vestir como arquitetos, a caminhar como arquitetos, a morar como arquitetos, ou seja, é uma egolatria absoluta. Quando arquitetos se juntam para conversar e tomar um trago, onde é que eles vão? A bares “feios” do ponto de vista dos standards da arquitetura. Buscam lugares desordenados, porém humanos. Porque precisam respirar fora dos padrões.

Quando começou a se interessar por moradia popular?

Há anos fiz um trabalho importante, que me trouxe outros projetos, como um que encerramos na Espanha. Hoje desenvolvo um programa no México, perto de Toluca, a 80 quilômetros da capital. Um conjunto de 3 mil casas. É uma sensação estranha chegar num lugar e construir 3 mil casas, de uma só vez, quando as cidades se fazem pouco a pouco. Quando me ponho a estudar arquitetura popular, seja em cidades brasileiras, seja em cidades no México, sempre acabo descobrindo elementos arquitetônicos que se repetem. Por exemplo, as casas populares do México, como no Brasil, têm caixas d’água aparentes, mal colocadas, ficam horríveis. Pois resolvemos esse problema construindo reservatórios em Toluca. Convencemos as pessoas de que elas não precisam ter o carro na entrada da casa, num espaço apertado, ao lado da sala. Também convencemos fabricantes de móveis a produzir linhas adequadas ao projeto e a vendê-las em lojas às quais os moradores têm acesso. Diante dessas propostas, o incorporador fez cálculos daqui e dali, e ao final me disse: “Vou receber 1% a menos. Vamos em frente”. Saímos pedindo que todos os profissionais envolvidos baixassem os honorários para investir em árvores, melhorar escolas. O projeto tem financiamento do governo, mas é da iniciativa privada.

Como o debate em torno de mudanças climáticas poderá influenciar o trabalho dos arquitetos?

Começa a influenciar. Creio que neste campo - uma arquitetura preocupada com as mudanças do clima - teremos a liderança de três países: Brasil, México e Índia. Dificilmente essa liderança virá de países ricos, mas de países com obstáculos a superar, com contradições em sua estrutura social e um sentido humano forte. Por isso cito os três. Quando se firmou o Nafta, há 13 anos, visitava o México o grande arquiteto indiano Charles Correa. Numa conversação pública perguntei a ele o que achava do acordo de livre comércio, e Charles disse: “Economicamente, vocês vão passar alguns anos mal. Mas, culturalmente, esse tratado trará mudanças inesperadas e incríveis. É como colocar numa jaula dois passarinhos e um tigre, e ver o que acontece”. Só um indiano para pensar assim.

O século 20 foi tempo de arquitetos que abriram horizontes, demoliram conceitos, mas trabalharam para as elites. Com a favelização do planeta, essa perspectiva muda?

A arquitetura como benefício coletivo vai se impor, porque temos de gerar uma vida urbana mais equilibrada. Certamente acabaremos fracionando as metrópoles para viver em bairros. Teremos de reorganizar a sociedade para que as pessoas possam morar perto do trabalho e dos amigos. Quanto às favelas, penso que são produtos dessa injustiça mundial que não se traduz apenas em desigualdade econômica, mas em desigualdade cultural. Nesse sentido, há quem diga que o México é a favela dos EUA. Ou que a África é a favela da Europa. O que devemos fazer é enfrentar carências de dignidade. Um garçom espanhol sente orgulho em servir. Sabe o valor do seu trabalho. O mesmo acontece com o taxista inglês. Mas, para boa parte dos trabalhadores do mundo, essa dignidade é negada por um sistema de exploração.

Voltar à convivência do bairro: essa idéia pode dar certo numa metrópole caótica como São Paulo?

Pode. Nova York é o metro quadrado mais caro do mundo, com seus belos e imponentes edifícios. Mas, se você percorrer a Madison Avenue, zona valorizada de Manhattan, vai encontrar a pequena florista, o café para entrar e descansar um pouco, a farmácia, o mercado pequeno. Como funciona esse comércio? Não sei, mas é maravilhoso! Este ano o ganhador do Pritzker Prize foi o arquiteto britânico Richard Rogers. Na cerimônia, ouviu-se o prefeito de Londres dizer: “Nenhum habitante pode avaliar, neste momento, o que Richard Rogers fez por esta cidade. Mas vamos fazê-lo dentro de 10, 15 anos”. Porque Rogers está lá, ativo, o tempo todo pensando e dando conselhos aos administradores. Somos velhos amigos. Recentemente mostrei-lhe um projeto para a região central da Cidade do México e Rogers me disse que tinha um grave defeito: estacionamento. Reagi: “Você quer comparar a Cidade do México com Londres?”. Ele me respondeu assim: “Em 1960, poderíamos tomar dois caminhos em Londres. Acho que escolhemos o correto. Hoje temos mais peixes no rio do que tínhamos naquele tempo”. É isso: hoje cobra-se pedágio para os automóveis entrarem em Londres. E já se fala em proibi-los. Rogers está certo. Temos de acreditar na força das idéias.

Que sinais você vê de revitalização dos bairros?

No México, vejo se multiplicarem as “miscelâneas”, pequenas lojas que vendem comida e um pouco de tudo. Vão muito bem. Há outros indícios. Estamos começando a ficar entediados de só andar dentro de shopping centers. Gosto de provocar os americanos quando participo nos EUA de reuniões com arquitetos. Eu lhes digo: “Então, vocês falam tanto de shopping centers, de elevadores panorâmicos, de sistemas de segurança, e, quando saem de férias, vão correndo para as ilhas gregas”. Não proponho que se eliminem os shopping centers das cidades, apenas quero pensar alternativas a uma arquitetura anti-humana, de luz e temperatura controladas.

Essa arquitetura não terá crescido pela necessidade de mais segurança nas cidades?

A verdadeira segurança se dá quando você conhece seu vizinho. Não creio na segurança que impõe guarda-costas por todos os lados, câmeras de monitoramento, etc. Não é solução. Nem vida. Os aeroportos viraram lugares realmente desagradáveis de estar. Qual é a sua sensação quando entra num edifício e lhe pedem documentos, tiram uma fotografia sua? Sou favorável a que se abram os espaços públicos.O México vai completar 200 anos de independência em 2010. Propus selecionar 200 praças públicas, de diferentes tamanhos, e recuperá-las. Cada praça envolverá um arquiteto, artistas e a comunidade.

A recuperação do Zócalo, a mais importante praça mexicana, e do centro histórico no entorno, está a cargo do seu escritório?

Sim. Houve projetos anteriores, alguns muito americanizados, que por diferentes razões não foram em frente. Então fomos convidados a apresentar uma proposta. O Zócalo é uma questão delicada. É lugar de encontro e manifestações políticas, portanto, mexer nele tem impacto até psicológico. Se você cava, vai encontrar restos pré-colombianos. Há ruínas de terremotos. O que fazer? Estamos trocando toda a pavimentação, ampliando as calçadas, agregando verde. A parte de trás da praça permanecerá aberta ao público. Recuperamos um quarteirão inteiro abalado por tremores de terra, reformamos prédios e construímos dois outros, com uma arquitetura forte. Esperamos que instituições que são o orgulho do país, como certos bancos, retornem para lá. Nos anos 50, construiu-se uma bela Cidade Universitária, deslocando as faculdades para outra região. E o centro começou a morrer.

Uma periferia como a de São Paulo ou complexos de favelas como os do Rio são processos urbanos irreversíveis?

A recuperação de áreas degradadas é lenta. Depende de iniciativas que paulatinamente surtem efeito. Como levar as autoridades ao local, para que vejam como vivem as pessoas. Ou abrir uma praça, construir uma escola… Há investidores interessados em áreas degradadas. Porque compram terrenos relativamente baratos, fazem casas, pequenos comércios e acabam melhorando os bairros.

Ao criar o plano piloto de Brasília, Niemeyer pensou em quadras com estruturas autônomas: moradias, comércio, serviços, etc. Mas a cidade não resistiu aos shopping centers, que acabaram chegando.

É verdade. Mas sejamos otimistas. Curitiba tornou-se um exemplo para o mundo pelo sistema de transporte coletivo concebido por Jaime Lerner. Em Cartagena, na Colômbia, a população tem orgulho do transporte público, criou consciência em relação ao problema do lixo, baixou índices de criminalidade. Aliás, em termos de desenvolvimento urbano, creio que a Colômbia passou México e Brasil. Veja como São Paulo mudou sem os outdoors, sem aquela poluição visual tremenda. Não conheço o prefeito de São Paulo, mas tenho certeza de que antes de apresentar o projeto de lei Cidade Limpa, ele deve ter pensado: não é uma medida popular. Acabou fazendo algo popular e de impacto político. Estou numa campanha semelhante na Cidade do México. Lá, se você tem uma casa, pode pendurar os anúncios que quiser na fachada, sem restrições.

Quando a lei entrou em vigor, houve quem dissesse que a feiúra de São Paulo ficaria mais evidente.

Em questões desse tipo, devemos lidar com a verdade. Sempre. Em geral, nos achamos feios diante do espelho. Daí dizemos “preciso melhorar aqui, melhorar ali”. O que é bom. Em termos de recuperação urbana, significa decidir pintar uma fachada, combinar com o vizinho e abrir umas janelas, colocar os fios da energia debaixo da terra… São ações que fortalecem o sentido de ordem e limpeza. Daí vem alguém e diz: ah, são medidas cosméticas. Não vejo assim. São decisões humanas que acabam por levar à essência do que é a cidade. Tanto em São Paulo quanto na capital do México convive-se com uma certa vergonha da “cidade onde vivemos”. Ora, vamos tratar de ter orgulho, fazendo pequenas coisas. As cidades são seus heróis anônimos. Quem terá construído Barcelona? Quem fez aquilo tudo? Jamais saberemos.

Como a arquitetura chegou a sua vida? Quem o influenciou?

Meu pai era banqueiro. Um tipo profundamente humano, queria muito bem ao México. Várias vezes viajamos juntos pelo país, então me acostumei a falar com os moradores dos pueblos. Foram contatos decisivos porque não há investigação consistente sobre arquitetura popular. Uma vez perguntei ao morador de um povoado: “Por que você abriu a janela nesta altura?” Ele respondeu: “Porque de manhã o sol entra por ela e vem bater no canto da mesa onde eu tomo café”. Perfeito, não? Assim fui descobrindo essa arquitetura sem arquitetos. Tive a sorte de herdar a disciplina do meu pai, que se prolongou na disciplina de meu mestre, o grande arquiteto mexicano Villagrán García. A disciplina de Villagrán era tão implacável que às vezes eu pensava em abandonar tudo. “Não faça isso”, dizia meu pai. “Nos primeiros dez anos de profissão você vai mesmo fazer muita bobagem”. Mais tarde, conheci Luis Barragán, outro grande nome da arquitetura do meu país, que me trouxe um outro modelo.

Que modelo?

Villagrán era um monge. Barragán, um playboy. Mostrou-me o que é joie de vivre. Certa vez falei de uma cor rara e Barragán disse que só havia uma flor com aquele tom. Ele me fez viajar um dia e caminhar três horas para descobri-la! Noutra ocasião eu estava no escritório, num fim de tarde, naquela hora crítica, e Barragán telefonou dizendo que eu fosse imediatamente para a casa dele. Disse-lhe que estava atolado em trabalho, mas não houve jeito: “Venha agora”. Encontrei-o numa cena kitsch. Barragán estava com duas australianas belíssimas, uma de cada lado, e admirava uma torre feita de taças de champanhe. Exclamava: “Existe coisa mais bela?” Combinava como ninguém banalidade e refinamento. Assim fui vendo que a arquitetura tem muito mais de emoção do que de teorias.

“Satisfação é padrão de qualidade.” Este é um dos seus motes. Que efeito surte nos clientes?

Projetando casas consegui estabelecer as melhores amizades da minha vida. E mais: o cliente é indispensável. Quando conseguimos travar um contato feito de respeito mútuo, discutindo tudo o que é preciso, cria-se uma relação maravilhosa. A ponto de hoje eu achar que certos clientes poderiam ter feito projetos melhores que os meus.

Sem um certo personalismo, Niemeyer, Mies van der Rohe ou Louis Kahn teriam feito o que fizeram?

Vou tomar um caso. Qual foi o grande mérito de Louis Kahn? O talento, não a dose de personalismo que pudesse ou necessitasse ter. Personalismo se controla. Talento, não.

O que há de verdadeiramente pessoal na sua arquitetura?

A busca de um prazer humano. Dizem por aí que faço uma “arquitetura da cor”. Esse tipo de juízo é superficial. Crio espaços e, pelo fato de ter nascido onde nasci, tenho essa irresponsabilidade mexicana com a escala, com o tamanho exagerado das coisas. E paixão por construir. É comum em meu país você ouvir alguém dizendo “estou fazendo um novo quarto”. E não sabe nem para quê. No Japão, se constrói por necessidade. No México, por prazer.

Você está construindo um centro universitário no Qatar. Que tal?

A arquitetura árabe sempre me inspirou e as descobertas no Qatar têm me gratificado. Sabemos pouco sobre o mundo árabe. E agora, por essa onda americana, passamos a vê-los, todos, como terroristas. A obra me foi encomendada pela segunda esposa do emir. Quando marcamos a primeira reunião, imaginei que iria encontrar uma senhora gorda, coberta de véus. Encontrei uma mulher moderna, culta, excepcionalmente bela. Alguém que discute projetos e decide. Ela me disse: “Um dia vai acabar o gás do Qatar. Por isso quero educar o meu povo”. Escolheu as melhores universidades do mundo para ter como referência. Dinheiro para o projeto não falta, ao contrário, sobra. Enquanto nos campi americanos tem-se em média 18m2 por aluno, no Qatar tem-se 60m2 por aluno. Alguns prédios já estão prontos, outros, a caminho. Lá descobri a beleza da escrita árabe. É tão especial que projetei grandes painéis, nos edifícios, só para realçá-la.

Há muita cópia em arquitetura?

Todos copiamos, e quem nega isso não fala a verdade. Há projetos meus com referências muito claras da arquitetura pré-colombiana. Ou do que vi no Marrocos. Ou dos telhados de Ouro Preto. Por isso soa estranho quando alguém fala do “estilo Legorreta”. Nem sei o que é isso e nem entendo essa superioridade que os arquitetos se dão. Não creio em gênios. Creio em gente que trabalha muito. E com paixão.

Jornal Estado de S. Paulo
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