Arquivo de 15 de Janeiro de 2008

A singular batalha por uma tela plural

Gabriel Priolli

Um dos muitos aspectos positivos da nova TV pública federal – e que, por si só, já justificaria a resoluta aprovação da medida provisória que a institui – é o debate que ela vem suscitando sobre as relações entre o sistema de televisão implantado no país e a sociedade a que ele serve. Inúmeros grupos sociais, em particular os organizados, discutem intensamente as deficiências da televisão comercial e as limitações da televisão pública existente, apresentando as suas propostas de correção de rumos e as suas demandas específicas.

O movimento negro, por exemplo. Ou as feministas. Nas últimas semanas, dois eventos realizados em São Paulo dedicaram-se a examinar a questão da diversidade na televisão, no primeiro caso a de etnia, no segundo a de gênero. O ciclo de debates “Ações afirmativas: Ações para ampliar a democracia”, organizado pela Secretaria de Promoção da Igualdade Racial, do governo federal, e pela PUC-SP, analisou o impacto dessas ações na comunicação social. E o ciclo “A mulher e a mídia”, do Instituto Patrícia Galvão, pôs em foco o papel da TV pública na expressão da diversidade.

Como expositor nos dois eventos, tive a oportunidade de organizar algumas idéias em torno desse tema central da democracia – a diversidade. Também pude testemunhar, mais uma vez entre outras tantas numa longa carreira de militância, como são complexas as implicações psicossociais e políticas dessa questão, e como é fácil a análise racional perder terreno para o emocionalismo, em seu debate. Séculos de opressão, inconformismo e frustração geram uma formidável panela de pressão que pode explodir facilmente em raiva e vociferação, em prejuízo da análise serena dos fatos e da superação dos problemas pelo diálogo democrático.

Quintal dos EUA

A primeira questão a considerar, no debate sobre a diversidade na TV, é conceitual. De que diversidade estamos falando? Aquela restrita aos conceitos de gênero, etnia e orientação sexual? Ou aquela mais ampla, relativa à multiplicidade de experiências do ser humano, em todas as suas dimensões e em todas as partes do globo – a diversidade cultural? Os grupos militantes, compreensivelmente, priorizam a visão mais restrita, focados que estão na sua missão imediata. Mas é conveniente pensar a questão amplamente, considerando que a diversidade cultural é o grande valor a ser instaurado na televisão brasileira e que as representações de gênero, etnia e outras serão abrangidas por ele, quando o culto ao diverso for sagrado entre as emissoras.

A televisão brasileira, sem a menor dúvida, está a anos-luz da diversidade. Nas emissoras comerciais, a programação cultiva o oposto – a uniformidade –, quase como traço distintivo. Todas, no fundo, querem oferecer ao público a mesma grade, a que mais se aproxime da Globo, líder de mercado. Todas querem fazer novelas, shows, telejornais; todas querem transmitir futebol, filmes, desenhos animados, programas femininos. As que não oferecem alguns desses gêneros, não o fazem apenas por falta de recursos. Se pudessem, clonariam a grade da Globo com o mesmo empenho com que faz a Record. Uma fórmula de sucesso, na TV comercial, é sempre vista como filão aurífero que se deve garimpar até o esgotamento.

Também contribui muito para a uniformidade da programação o monopólio norte-americano na distribuição de filmes, desenhos e seriados. Da mesma forma como ele controla o mercado de exibição de cinema, domina amplamente as vendas para as emissoras brasileiras, graças ao marketing avassalador, que faz os produtos conhecidos dos brasileiros antes de surgirem por aqui, e às vendas casadas de produtos, que derrubam os preços. Não sobra nada para a televisão da França, Itália, Inglaterra ou de qualquer outro país fazer por aqui. O Brasil é quintal, jardim, garagem e playground da indústria audiovisual dos Estados Unidos.

Política indutiva

Na televisão pública, a situação é melhor, mas está longe do ideal. Há uma preocupação com a diversidade e a percepção de que a sua falta é um déficit democrático do país, mas isso não se traduz automaticamente em políticas universalistas de produção e de aquisição de programas. Os canais públicos têm, certamente, pautas culturais de abrangência muito mais ampla que os canais comerciais, e também exibem muito mais material europeu, asiático ou latino-americano. Mas estão aquém do que os programadores desejariam, em razão dos baixos orçamentos com que operam. A TV pública brasileira não faz co-produções com as suas congêneres de outros países, prática comum em outras regiões, nem prospecta programas regularmente em fontes produtoras incomuns. Quando escapa dos EUA, é para comprar na Europa Ocidental e no Japão.

Daí porque se deve saudar experiências como a do projeto “DOC TV Ibero América”, que mobiliza governos, emissoras públicas e produtores independentes de 15 países. Uma inteligente engenharia de produção, proposta pelo Ministério da Cultura do Brasil, permite que os produtores tenham recursos para realizar documentários e que as emissoras públicas os compartilhem, gerando trocas culturais bastante significativas. Da mesma forma, é alentadora a disposição anunciada pela direção da TV Brasil, o novo canal público federal, de cobrir intensamente a realidade política e cultural da América Latina e da África, regiões com as quais o país tem laços étnicos e históricos profundos.

Se há muito por fazer, no tocante à diversidade cultural ampla, na TV comercial ou na pública, há ainda mais a perseguir para a melhor representação de grupos étnicos, de mulheres e de minorias sexuais na tela. As organizações militantes queixam-se de que as suas temáticas não encontram o acolhimento desejável nas pautas dos programas, em particular nos telejornais. Mas ressentem-se, sobretudo, de maior equilíbrio na participação dos diversos grupos nas equipes profissionais da televisão, seja as da frente do vídeo, seja as da retaguarda.

De fato, ainda estamos em terreno privilegiado da “elite branca”, aquela apontada pelo ex-governador paulista Cláudio Lembo. A TV ainda mostra pouquíssimos negros e mestiços, se considerada a sua presença na população brasileira. Os afrodescendentes têm visibilidade equivalente à dos orientais, o que é um óbvio falseamento da composição étnica do país. Os índios, por sua vez, inexistem na tela e os homossexuais são quase sempre caricaturas. Há maior equilíbrio apenas na participação de mulheres, mas boa parte das faces femininas no vídeo não são consideradas, por suas pares, efetivamente representativas das aspirações de identidade e autonomia das mulheres.

Na retaguarda, nas equipes técnicas e de produção, também se repete o desequilíbrio observado na tela. E é para enfrentá-lo que os movimentos organizados propõem ações afirmativas, entre elas uma política de cotas igual à utilizada hoje para o preenchimento de vagas em universidades. Ou seja: uma política indutiva, impositiva, para promover mudanças profundas em prazo curto.

Avançar o debate

As questões que essa proposta coloca são inúmeras. Em primeiro lugar, há que considerar se é o caso de impor o equilíbrio na representação de gênero-etnia-orientação sexual, por força de lei, ou de fomentá-lo com políticas de estímulo às emissoras. Em outras palavras: obrigar as emissoras, penalizando-as com punições, ou convencê-las, premiando-as pela conversão à causa?

Vale lembrar que a Constituição federal não obriga os meios de comunicação à diversidade, embora o espírito do artigo 221 seja exatamente esse, ao estabelecer como princípios da produção e da programação do rádio e da TV a “promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação” (inciso II) e a “regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei” (inciso III). Se obedecidos esses preceitos, haveria um aumento notável da diversidade na tela.

Mas, avançando nas questões, o equilíbrio de representação que se busca deve ser matemático, considerado o perfil da população brasileira, ou admite-se alguma flexibilidade? O programador de TV deve ser livre para escolher seu elenco, seus produtores e seus técnicos por critérios de competência individual, ou deve obedecer a cotas para fazê-lo? Quais serão os critérios de aplicação de uma política de cotas na televisão? Como serão definidos e por quem? Essa política deve ser temporária ou permanente? E, acima de tudo: como os seus critérios interagirão com a criação artística e a informação jornalística, sem cerceá-las?

A televisão – em uníssono, privada ou pública – teme perder a liberdade de ação. Teme defrontar-se com uma situação em que montar uma equipe de produção, um elenco de novela, um time de apresentadores ou uma grade de programação exija uma complexíssima matriz combinatória, para acomodar todas as demandas de representação que se apresentam atualmente. Teme ser forçada a privilegiar o equilíbrio de representação em vez da qualificação individual de cada aspirante a um posto profissional.

Responder às questões acima, portanto, é imperioso, para fazer avançar o debate sobre a diversidade na TV. Os grupos organizados têm sido competentes em levantar o problema, mas devem evoluir para as proposições mais objetivas. E devem manter a pressão sobre as emissoras, seus organismos de gestão e suas entidades representativas, para trazê-las à discussão conseqüente e à disposição de mudar.

Será uma batalha difícil, mas vale a pena lutá-la.

Observatório da Imprensa
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A história ensinada pelos alunos

Nos 70 anos da UNE, estudo revela papel do movimento estudantil

Carlos Haag

Não é de hoje que os jovens fazem a hora e não esperam acontecer, batem o pé que é proibido proibir e não confiam em ninguém com mais de 30 anos. Mesmo o professor, apesar de seus mais de 30 conselhos, infelizmente, tem mais de 30 e, logo, não é digno de confiança. “Não é possível pensar em nenhum tipo de insurreição, resistência ou confronto político sem os jovens estudantes. Do século XIX, passando pelas grandes revoluções do século XX, bem como do maio de 1968 e a luta armada na América Latina, os jovens demonstram essa disponibilidade especial, difícil de ser encontrada nos adultos. Historicamente, essa situação tem gerado ações radicais, corajosas, voluntariosas. Para o bem e para o mal”, analisa Maria Paula Araújo, historiadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde coordena o núcleo de história oral, autora do recém-lançado Memórias estudantis: da fundação da UNE aos nossos dias (Relume Dumará). No ano em que a União Nacional dos Estudantes “completa” 70 anos, o livro recupera, por meio de 300 horas de depoimentos com cem militantes de ontem e de hoje, a história do Brasil contada do ponto de vista daqueles com menos de 30.

Em conjunto com o livro, o cineasta Sílvio Tendler lança dois média-metragens, Ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil e O afeto que se encerra em nosso peito juvenil, documentários que, ao lado do estudo de Maria Paula, fazem parte do projeto Memória do Movimento Estudantil (www.mme.org.br), fruto de uma curiosa parceria entre a UNE, a Fundação Roberto Marinho e a Petrobras. Afinal, se o tema é o movimento estudantil nem sempre é proibido proibir polêmicas. A própria data de criação da entidade, observa a autora, é contestada: “Para uns, ela nasceu em 1937; para outros, sua verdadeira fundação ocorreu em 1938”. Esse intervalo de um ano, porém, faz toda a diferença. “O projeto de criação de uma UNE, às vésperas do Estado Novo e sob a chancela do Ministério da Educação, de Gustavo Capanema, tinha o propósito político de submeter politicamente a força desse segmento social que começava a se expandir. A idéia era criar uma entidade despolitizada que permitisse o controle dos estudantes pelo Estado”, explica a pesquisadora. No ano seguinte, o clima era bem outro: “No II Congresso Nacional de Estudantes a disposição dos estudantes era claramente de participar do debate dos grandes temas nacionais, com um compromisso expressamente político”. Quem sabe faz a hora.

O ministério Capanema valorizava o ensino universitário, visto como celeiro das elites que dirigiriam o país. “Foi o reconhecimento da importância dos estudantes pelo governo que gerou as tensões entre UNE e Estado Novo”, avalia Maria Paula.

Ao contrário do esperado, já em 1938 eles saíram nas ruas denunciando a simpatia estatal pelo nazifascismo e, mais tarde, exigindo que o governo declarasse guerra ao Eixo. Simbolicamente, em 1942, desrespeitando Capanema, a UNE fez do Clube Germânia (ponto de encontro de nazistas), no Rio de Janeiro, sua sede até 1980, quando foi demolida pelo governo militar. No mesmo ano, Vargas, esperto, legalizou a entidade. Apenas a partir de 1947 é que a UNE iniciaria a chamada “fase de hegemonia socialista”, que se estenderia até 1950, lembra a autora, quando a entidade passa a ser dirigida por estudantes udenistas. Nesse interregno “isolado e estranho à tradição da entidade”, destacou-se a figura de Paulo Egydio Martins, estudante de engenharia e, mais tarde, governador de São Paulo. “O grupo dele à frente da UNE discordava da ênfase dada às questões nacionais em detrimento dos problemas estudantis”, observa Maria Paula. A esquerda esteve alijada do comando da organização, voltando apenas em 1956, momento em que Juscelino Kubitschek pediu a colaboração da UNE para a preservação do regime. Em 1961 a entidade participou da “campanha da legalidade”, que visava garantir a posse de Jango, após a renúncia de Jânio.

JUC – Então a UNE estava sob a direção de Aldo Arantes, apoiado pela Juventude Universitária Católica (JUC), associação civil criada para difundir a doutrina da Igreja no movimento estudantil. Em pouco tempo, essa ligação inusitada, nota Maria Paula, se romperia com a ascensão da Ação Popular (AP), uma dissidência da JUC. Em 1963 a facção elegeu José Serra como presidente da UNE, agora imbuída do espírito de transformação radical da sociedade brasileira. Os militares, porém, não esperaram acontecer. “Apesar de a primeira palavra de ordem da UNE ter sido ‘resistência’ ao golpe de 1964, não houve resistência”, conta a autora. “Não houve, no movimento estudantil, nenhuma manifestação. Eu atribuo isso ao fato de que as grandes maiorias, embora penetradas pelo nacionalismo e pelo reformismo, não estavam dispostas a se arriscar para salvar o governo Jango”, afirma, em depoimento, o cientista político Daniel Aarão Reis. Segundo ele, “há uma tendência de romantizar o movimento estudantil como revolucionário. Não é fato, embora boa parte das lideranças migrou para a revolução”. Assim, as posições dos militantes de esquerda estudantis e de líderes da UNE não expressavam mais exatamente o espírito da massa dos universitários, muitos filhos das classes médias que apoiaram o golpe. “O estudante comum, a grande massa deles, se deixou levar pelo discurso anticomunista”, observa o historiador José Roberto Martins Filho em seu artigo “O movimento estudantil na conjuntura do golpe”.

Com sua sede incendiada em abril de 1964, colocada na ilegalidade em novembro pela Lei Suplicy e pelo Decreto Aragão, que proibiu a organização estudantil em nível nacional, a UNE viu-se diante de um grande dilema. “Entre os anos 1960 e 1970 havia um desejo de ação política imediata que se expressou na luta armada com muitas organizações formadas por jovens universitários que abandonaram as salas de aula para pegar em armas, inspirados pelo Vietnã, Cuba e a ‘guerra popular’ da Revolução Chinesa”, nota a autora. Até a morte do estudante Edson Luís, no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro, estopim da revolta estudantil de 1968, a UNE ainda lutou contra o acordo MEC-Usaid, que, segundo a pesquisadora, queria a privatização do ensino, nos moldes americanos, em total contramão à principal bandeira da entidade. “Houve uma resposta ao trauma de 1964, quando não se agiu. Quando veio 1968, a reação foi: ‘Agora nós vamos reagir’. Luta armada até então era algo pequeno. A partir do AI-5, durante três anos há um movimento intenso de participação do movimento estudantil”, lembra Aarão Reis. Daí, a Passeata dos Cem Mil, após a morte do estudante, a invasão da Maria Antônia e o congresso da UNE em Ibiúna, em outubro de 1968, segundo Maria Paula, o “marco final de todo o processo político, de confronto e radicalização vividos pelo movimento estudantil. Depois da prisão dos estudantes a reação deles entrou em descenso”.

Reconstrução – Inusitadamente, a reconstrução da UNE, no congresso da entidade em Salvador, em 1979, deveu-se ao então governador da Bahia, Antonio Carlos Magalhães, que, desobedecendo ordens do ministro da Justiça, cedeu o Centro de Convenções da Bahia para os estudantes. Isso permitiu, no futuro, a participação da UNE na movimentação pelas eleições diretas e pelas manifestações que pediam a retirada de Collor do governo. O legado, porém, foi pesado para as novas gerações. “Quando se faz referência à juventude dos anos 1960 e 1970, focaliza-se aquela envolvida nas lutas democráticas, ignorando os demais, a grande maioria que não participava delas. Os estudantes são vistos, no geral, como uma geração combativa e revolucionária”, explica a antropóloga Regina Novaes em seu artigo “Juventude e participação social”. “O efeito dessa comparação é o de desconsiderar a possibilidade de o jovem de hoje agir motivado por interesses coletivos de transformação social.”

Daí as críticas a uma suposta “apatia social” dos estudantes atuais. “Os jovens de hoje têm outras formas organizativas que passam, em geral, longe das organizações tradicionais políticas. Eles assumiram pautas individuais e ficaram distantes de utopias revolucionárias, o que não significa que rejeitem engajar-se numa causa coletiva, desde que se respeite sua autonomia individual.” O que esperar do futuro? Talvez a resposta esteja numa pequena crônica de Drummond, em que uma garotinha exige, e consegue, do pai, lasanha: “Se, na conjuntura, o poder jovem cambaleia, vem aí, com força total, o poder ultrajovem”.

Lembrete amargo

Governo reconhece atrocidades do regime militar

Quem diria que, passadas mais de quatro décadas, a célebre frase do ministro da Educação Suplicy de Lacerda iria finalmente ganhar sentido (com certeza, não o esperado pelo implacável perseguidor da UNE): “Os estudantes são homens de amanhã, mas nós somos homens de hoje”. Foi o trabalho dos “homens de amanhã” que trouxe à luz, para os verdadeiros homens de hoje, o que fizeram os homens do passado. Com a presença do presidente Lula, foi lançado, no mês passado, o livro Direito à memória e à verdade, elaborado pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos e editado pela Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH), que relata os casos de 479 mortos e desaparecidos entre 1961 e 1988, prazo definido pela Lei 9.140, de 1995. O estudo, fruto de 11 anos de trabalho, descreve em detalhes casos de tortura, estupro, esquartejamento e ocultação de cadáveres, com os nomes dos militares responsáveis pelos crimes.

O levantamento inclui o nome e dados pessoais de cada vítima, com uma pequena biografia, descrição das ações políticas e de como aconteceu a prisão, perseguição e morte e que membros da comissão votaram pela aprovação ou indeferimento do direito à reparação. Este é o primeiro documento oficial do governo brasileiro reconhecendo que os órgãos de repressão do regime militar foram os responsáveis pelas mortes de centenas de militantes.

Revista da FAPESP
http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

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Argentina: pêndulo na política externa

Virgílio Arraes

Há outro aspecto importante do governo Kirchner, além da política de direitos humanos, que expressa posicionamento diferenciado com vistas à década menemista (1989-1999). No final de março deste ano, o país denunciou um acordo comercial com a Grã-Bretanha, firmado em 1995, com relação à exploração de petróleo nas ilhas Malvinas, às vésperas da efeméride de ¼ de século do começo da disputa militar.

Dias antes, o primeiro-ministro Tony Blair, do Partido Trabalhista, havia afirmado, em entrevista, que se portaria da mesma maneira que Margaret Thatcher em 1982. Isto pode ter estimulado a Casa Rosada a emitir uma nota em que asseveraria não reconhecer administrativamente as autoridades coloniais britânicas à frente do arquipélago, invadido em 1831.

Por meio da disputa de sua posse, a ditadura platina, já agonizante, almejou, em um lance bonapartista, granjear o apoio da população, ao ocupá-lo de forma desastrosa, por causa da decisão intempestiva. Destarte, os britânicos recuperariam a sua posse em apenas poucas semanas, após obter auxílio norte-americano e chileno.

Politicamente, o confronto acelerou o fim do regime autoritário na Argentina, mas, por outro lado, impulsionou o Partido Conservador a permanecer mais tempo no poder na Grã-Bretanha, ao recobrar um dos territórios do período de ouro do império britânico.

A Guerra das Malvinas significou, na prática, o fim da Operação Condor em solo argentino e a interrupção do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (Tiar), firmado em 1947. Entretanto, durante a gestão Menem, o relacionamento amero-argentino seria ‘carnal’, ou seja, extremamente próximo, a fim de, supostamente, impelir a inserção internacional do país.

No plano regional, em novembro de 2005, na realização da Quarta Cúpula das Américas, em Mar del Plata, Argentina – ao lado da Venezuela – contribuiu para a suspensão da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), a despeito do posicionamento dos Estados Unidos, país com o qual se relaciona comercialmente abaixo apenas do Mercosul e da União Européia.

Isto, contudo, não obstou Buenos Aires de opor-se à política externa de matiz bélico dos Estados Unidos – a título de lembrança, enquanto o Brasil havia elevado a sua representação em Washington a embaixada em 1905, com Joaquim Nabuco como primeiro titular, a Argentina o faria apenas em 1914. Meio século mais tarde, um acordo de cooperação militar seria assinado, também depois de o Brasil tê-lo efetivado.

Em Mar del Plata, o presidente do México, Vicente Fox, queixou-se do comportamento dos dois dirigentes, com destaque para Kirchner, que, em sua análise, estava embalado pela opinião pública, e, por conseguinte, não teria buscado o concerto político entre os países presentes para rumar para o estabelecimento de uma extensa área de livre comércio.

Na gestão Kirchner, a política externa na América do Sul foi pendular, ao aproveitar-se de uma concorrência oficiosa entre Brasil e Venezuela pela primazia da orientação político-econômica: assim, a Argentina conseguiu extrair concessões comerciais do Brasil dentro do Mercosul, com o fito de proteger determinados setores, por exemplo.

Simultaneamente, obteve auxílio financeiro do governo Chávez, recheado de petrodólares, por intermédio da venda de títulos públicos – em pouco mais de três anos, foram cinco bilhões e meio de dólares - em 2004. Chávez ajudou bastante Kirchner, ao aceitar a compra de títulos da dívida pública a taxas inferiores às pretendidas pelo mercado, em face da recente renegociação severa travada entre o governo e credores.

Ademais, a Venezuela concordou em trocar petróleo por produtos agrícolas quando da escassez de divisas da Argentina. Atualmente, Buenos Aires presta assistência técnica a Caracas no setor agroindustrial.

Como contraparte política, destaque-se que houve, por parte do governo argentino, interesse em compor o chamado Banco do Sul, iniciativa de Caracas, com o objetivo de fixar alternativas tanto ao Fundo Monetário Internacional (FMI) como ao Banco Mundial (BM). O norte da futura instituição seria o de financiar projetos não só de infra-estrutura, mas também nos setores de saúde e educação.

Embora apóie formalmente a sua criação, o Brasil não enxerga a proposta - a ser materializada até o final de 2007 - com entusiasmo, ao alegar a existência de instituições similares como a Corporación Andina de Fomento (CAF). Os Estados Unidos não vêem necessidade, visto que há o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), de cujo capital participam com 30%, algo que não aconteceria com o novo organismo.

É possível que a futura organização tenha, na prática, papel similar ao Banco de Desenvolvimento da América do Norte (Nadb), instituído em 1994 por Estados Unidos e México para financiar projetos em torno de suas fronteiras na esteira do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta).

A proposta é viabilizar o Banco do Sul com parte das reservas internacionais de que disporiam os membros fundadores, ao atingir o total de sete bilhões de dólares, algo com que não concorda o Brasil. Caracas disporia de 20% das cotas originais.

Outrossim, Argentina e Venezuela têm forte interesse em reforçar a integração energética por meio do estabelecimento de um gasoduto de extensão continental a partir do rio Orinoco. Em agosto último, a Bolívia aderiu ao projeto ao assinar acordos bilaterais com ambos os países.

No caso argento-boliviano, Buenos Aires financiaria com 500 milhões de dólares uma fábrica de separação de líquidos do gás natural - primeiro passo para a comercialização - na Bolívia, destinada a abastecer o noroeste argentino, o que abarca 40% da população e a parte mais significativa do parque industrial nacional.

Já aprovada pelo Uruguai e Argentina, a solicitação venezuelana para compor o Mercosul como membro pleno - apresentada em julho de 2006 –proporcionará à Casa Rosada ainda mais condições de barganhar, o que obrigaria a diplomacia brasileira a dedicar-se com afinco maior no plano regional e esquecer-se de propostas de mero efeito retórico, como um conselho informal de segurança na Organização das Nações Unidas, proposto no dia 12 de novembro pelo presidente Lula ao Secretário-Geral da instituição Ban Ki-Moon, quando de sua visita a Brasília.

Correio da Cidadania
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Brasil compra armas e reforça a defesa das fronteiras

O governo Lula aumentará em 50% os gastos bélicos em 2008

J. Marirrodriga

Mais armas e de melhor qualidade para ter mais peso político na América Latina. Desse modo o Brasil decidiu dar uma virada significativa em sua política de defesa. O governo de Luiz Inácio Lula da Silva, junto com a cúpula militar do país, está elaborando um plano estratégico que será revelado no início de 2008, baseado em um aumento de até 50% dos gastos em material bélico, uma reorganização das defesas de fronteira e costeiras e a adoção do papel de referência principal como árbitro nos conflitos que possam surgir no subcontinente.

O Brasil prevê gastar em 2008 cerca de US$ 4,6 bilhões em compras de material para defesa, sem contar os salários dos 310 mil integrantes das forças armadas, distribuídos em 190 mil militares no exército, 70 mil na aeronáutica e 50 mil na marinha. Um número que eleva em 50% os US$ 3 bilhões orçados para este ano.

Mas, diferentemente do que fizeram outros países da região, como Chile ou Venezuela, os brasileiros não empregarão a maior parte desse dinheiro em compras no mercado internacional de armas, e sim desenvolverão uma indústria bélica própria, que, além de garantir uma menor dependência de sistemas estrangeiros, colocará o Brasil como referência para outros países na hora de fazer suas próprias aquisições.

O Brasil vai intensificar a fabricação de aviões de combate e treinamento, sistemas antitanque, veículos blindados, pequenos navios, eletrônica, radares e munição, em um ambicioso programa apoiado por capital privado nacional. Paralelamente, começou a mobilização permanente de tropas na fronteira amazônica, com a construção de uma rede de bases militares para vigiar a fronteira mais extensa da América do Sul.

Os motivos dessa mudança foram explicados pelo próprio Lula: “As fronteiras terrestres, as águas jurisdicionais e o espaço aéreo com as dimensões de um país como o Brasil exigem forças armadas muito bem equipadas e treinadas para a defesa dos interesses nacionais”, salientou o presidente. Além disso, para efetuar a reorganização, Lula pôs em julho passado à frente do Ministério da Defesa Nelson Jobim, um ex-presidente do Supremo Tribunal que assumiu o cargo uma semana depois da pior tragédia aérea da história do país, em meio a uma forte polêmica sobre o controle do espaço aéreo, onde os militares têm um papel preponderante. Na época Jobim foi muito direto ao exigir a modernização do exército e reclamar dos empresários privados que participem do projeto.

Do ponto de vista brasileiro, a pressa é mais que justificada. Em 2008 o Chile terá concluído seu ambicioso programa de rearmamento, que inclui aviões de combate americanos, uma centena de carros de combate alemães, fragatas lança-mísseis, submarinos e radares de última geração, entre outras aquisições. A Venezuela também receberá grande parte das compras realizadas nos anos anteriores, entre as quais se destacam centenas de milhares de fuzis de assalto. São os dois países da região que mais gastaram em armas nos últimos dois anos.

O Brasil costuma ser chamado de gigante latino-americano, e agora setores importantes do exército começaram a reclamar que o gigante entre em ação. Segundo uma pesquisa publicada sábado pela revista “Veja”, 63,5% dos militares brasileiros acreditam que é possível um conflito armado com os países vizinhos. Em troca, em uma amostragem da população civil, 57,9% não consideram possível esse cenário. Sobre quem seriam os inimigos potenciais, 50% dos militares acreditam que seriam Venezuela e Bolívia.

Algumas vozes não-autorizadas mas significativas foram mais longe, e assim o general José Benedito de Barros Moreira salientou há dez dias que o Brasil precisa desenvolver armas atômicas para proteger seu patrimônio. E Moreira não é um general a mais, mas sim o titular da Secretaria de Política, Estratégia e Relações Internacionais do Ministério da Defesa. Moreira se soma, embora provavelmente passando dos limites, à tese de seu ministro, que assim que anunciou a descoberta de gigantescas reservas de gás e petróleo nas costas brasileiras se manifestou a favor de modificar a política de defesa. “O mundo carece de água, energia, alimentos e minerais. O Brasil é rico em tudo isso”, acrescentou Moreira para defender o argumento nuclear.

El País
http://www.elpais.com/

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A arma, o olho e o espetáculo

Ilana Feldman

Em “Guerra e cinema”, lançado no Brasil, o pensador francês Paul Virilio investiga a relação entre logística militar e dispositivos visuais

“Uma guerra não é para ser ganha, mas para ser eternizada”, escreveu George Orwell em “1984”, indicando a seminal relação entre a guerra e a sua divulgação e representação. A eternização a que se referia Orwell é assim garantida pela lógica do espetáculo que, desde a Primeira Guerra Mundial, rege a ordenação visual dos conflitos, quando a presença do visor telescópico da câmera a bordo dos aviões de reconhecimento prefigurou uma mutação das percepções e sensibilidades. A partir desse momento, uma des-realização crescente do engajamento militar se fará notar, “quando a imagem se prepara para triunfar sobre o objeto, o tempo sobre o espaço, em uma guerra industrial na qual a representação dos acontecimentos domina a apresentação dos fatos”.
Em “Guerra e cinema” (lançado agora pela Boitempo Editorial), o arquiteto e urbanista francês Paul Virilio lança-se nessa ousada empreitada: investigar historicamente a íntima relação entre a logística da guerra e o desenvolvimento de dispositivos de visualização a partir da cronofotografia1 e do cinematógrafo, tendo como foco principal o resultado do acoplamento dessas duas tecnologias, guerra e cinema, na percepção e na capacidade de afetação dos corpos.
Repleto de informações históricas descritas como se fossem detalhes picantes de uma história assombrosa, a nossa, o livro é o trabalho de alguém que conheceu a guerra e seus aparatos tecnológicos de perto. Como um “war-baby” durante a ocupação nazista na França, Virilio testemunhou a capacidade de mobilização e de alteração da percepção provocada pelo impacto psíquico das armas. Para ele, “não existe arma sofisticada sem mistificação psicológica”, assim como não existe guerra sem representação, já que além de instrumentos de destruição, elas são também “instrumentos de percepção”, ou seja, estimuladores que provocam fenômenos físico-químicos e neurológicos sobre os órgãos do sentido.
É por isso que, para Virilio, “a história das batalhas é, antes de mais nada, a história da metamorfose de seus campos de percepção”. Ou seja, a guerra consiste menos em conquistar vitórias materiais do que em apoderar-se da imaterialidade dos campos de percepção. Como escreveu Gustave Le Bon, autor de “Psicologia das massas”, no início do século passado, “a guerra não atinge somente a vida material dos povos, mas também seus pensamentos… e aqui voltamos a esta noção fundamental: não é o racional que conduz o mundo, mas as forças de origem afetiva, mítica ou coletiva que conduzem os homens. As forças imateriais são as verdadeiras condutoras dos combates”.
Mas quais seriam essas forças imateriais? Ou, ao menos, a partir do que elas seriam produzidas? O trabalho de Virilio vai justamente no sentido de associar a idéia de imaterialidade não só ao campo da percepção, como à produção de imaginário, a partir da logística espetacular que a guerra solicita, pois ela “não pode ser jamais separada do espetáculo mágico, já que sua principal finalidade é justamente a produção deste espetáculo: abater o adversário é menos capturá-lo do que cativá-lo, é infligir-lhes, antes da morte, o pavor da morte”.
Desse modo, “Guerra e cinema” (publicado originalmente em 1984, com o nome de “Guerra e cinema: Logística da percepção”) tratará de defender a existência de uma osmose entre guerra e cinema industriais. Virilio não analisa filmes “sobre” guerras, que contenham temáticas bélicas ou cenas de batalhas, mas, antes, busca compreender uma outra categoria, bastante ampla, a de filmes “de” guerra, nos quais a belicosidade está articulada na própria forma, na linguagem, “uma vez que o cinema entra para a categoria das armas a partir do momento em que está apto a criar a surpresa técnica ou psicológica”.
E de que ordem seria essa surpresa? Neste ponto, Virilio se abstém e apenas indica que “os cineastas vão oferecer esses efeitos tecnológicos ao grande público como um espetáculo inédito, um prolongamento da guerra e de suas destruições morfológicas”. No entanto, seria interessante explicitar, na lacuna deixada por Virilio, que o cinema de guerra é todo e qualquer cinema sinestésico, que afeta o corpo do espectador com estímulos sensórios-motores, efeitos físico-químicos, fazendo uso de choques perceptivos –e aqui não há como não lembrar da “estética do choque” proposta por Walter Benjamin a partir da obra de Baudelaire- e de toda sorte de intensificações e explosões, sejam elas visuais, sonoras ou dramáticas, ocorram em melodramas, tragédias ou filmes policiais.
Sendo assim, não interessam os gêneros, os conteúdos, mas a linguagem e seus artifícios, que, através do corte, o elemento bélico da filmagem e da montagem –associado pelo crítico André Bazin à idéia de morte, de interrupção-, organizará ou bombardeará a percepção do espectador.
Fascinado e com a percepção consciente e crítica estilhaçada pela velocidade, o espectador é conduzido à hipnose e ao delírio cinemático –e aqui caberia lembrar que os primeiros produtos dopantes foram produzidos para suprir as necessidades dos pilotos durante a Guerra do Vietnã, um combate que, segundo Virilio, não distinguia o real do imaginário.
Não por acaso, a grande contribuição ao cinema trazida por “Apocalypse now”, de Francis Ford Coppola (1979) -considerado por Virilio, sem qualquer explicação, uma “semidecepção”-, foi a expressão, através da linguagem cinematográfica, do estado de alucinação e delírio em que se encontravam os soldados americanos no Vietnã. O filme acaba alterando a própria percepção dos espectadores que, a partir de então, teriam uma experiência sensorial mais próxima da desrealização cinemática da realidade, bem como da “transformação da guerra na terceira dimensão do cinema”.
Nesse sentido, também em “Farenheit 11.9”, de Michael Moore (2004), encontramos duas passagens antológicas, a despeito de sua montagem de eventos espetaculares. A primeira delas diz respeito à propaganda das Forças Armadas, veiculada na televisão americana, para o recrutamento de jovens, quando são utilizados procedimentos ficcionais e apelativos, como uma animação em cores vibrantes e a tradicional linguagem fática da publicidade. Aqui, vê-se uma osmose entre o chamado oficial à prontidão da guerra e a propaganda de uma espécie de game do “Comandos em ação”.
Em um segundo momento, “a transformação da guerra na terceira dimensão do cinema”, a que se refere Virilio, está cristalizada na cena em que soldados americanos, já no Iraque, admitem entusiasmadamente que, enquanto atiram em seus inimigos com os olhos acoplados em armas no interior de seus tanques, estão com os ouvidos plugados em fones, escutando um rock que diz: “Burn, motherfuckers, burn!”, como se através da trilha sonora encenassem a própria realidade.
Tal encenação -não no sentido da falsificação ou ilusão, mas no sentido “teatralizado” das execuções- também se faz presente na atual mise-en-scène do terror e em seu subproduto, os vídeos-terroristas, quando se percebe uma clara consciência de cena e de público-alvo por parte dos terroristas-diretores. “O terrorismo”, já nos alertava Virilio, “lembra-nos insidiosamente que a guerra é um sintoma delirante que funciona na meia-luz do transe”.
O casamento entre a arma e o olho
Considerado o primeiro western da história do cinema, “The great train robery”, dirigido por Edwin Porter em 1903, apresenta, ao final, um plano-próximo de um personagem (o ladrão-caubói) que, olhando para a câmera, atira nos olhos do espectador.
Anos antes, por volta de 1882, Étienne-Jules Marey, médico fisiologista francês, pesquisando a decomposição do movimento, inventou o fuzil cronofotográfico, colocando a cronofotografia a serviço da pesquisa militar sobre o movimento. Marey, defende Virilio, foi um elo essencial entre a arma automática e a fotografia instantânea, pois seu fuzil cronofotográfico não só precedeu a câmera dos irmãos Lumière, como também era descendente direto das armas de tambor e cilindro giratório. Após a morte de Marey, em 1904, seu assistente, Georges Demeny, então membro da comissão de elaboração do manual de infantaria, deu continuidade às pesquisas sobre a utilidade da cronofotografia na dosagem dos esforços do combatente.
Se, no final do século XIX, as pesquisas científicas acerca de novos aparatos ópticos, motivadas por fins médicos e militares, acabaram por divulgá-los como entretenimento para o olhar nas feiras populares, contribuindo para a emergência de um novo regime de percepção baseado em um novo observador, as pesquisas na área da aviação também possibilitaram que, a partir de 1914, o avião deixasse de ser um simples meio de voar, de bater recordes, para tornar-se um modo de ver ou, talvez, segundo Virilio, “o último modo de ver”. Ao contrário do que geralmente se pensa, a aviação de reconhecimento está na origem da arma aérea.
Desde sua origem, o campo de batalha é um campo de percepção e a máquina de guerra um instrumento de representação, pois a mão do piloto dispara a câmera ao mesmo tempo em que aciona a arma. Assim, “para o homem de guerra a função da arma é a função do olho”. É normal, portanto, que o violento rompimento cinemático do continuum espacial -deflagrado pela arma aérea- e os fulminantes progressos das tecnologias de guerra tenham literalmente explodido, a partir de 1914, a antiga visão homogênea e engendrado a heterogeneidade dos campos de percepção.
Com a velocidade de penetração da guerra e a sua transmutação de um complexo militar-industrial (que Benjamin chamaria de “complexo místico-científico”) em um complexo comunicacional-informacional, logo se intensifica a criação de uma indústria de massa que trata o realismo do mundo pela aceleração cinemática, onde o cinema baseado no desarranjo psicotrópico e na perturbação sensorial torna-se o desenho de uma nova geometria da visão.
Tal aceleração cinemática, porém, já comparecia nos idos da narrativa clássica. Em 1930, Duhamel, citado por Benjamin em “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, dizia: “Já não posso mais pensar no que quero. As imagens em movimento substituíram meus pensamentos”.
Muitas décadas mais tarde, em “L’écran du désert: chroniques de la guerre” (A tela do deserto: crônicas da guerra), lançado apenas na França em 1991, Virilio desenvolveria ainda mais o tema, tendo como alvo a transmutação da aceleração cinemática na imediatez do tempo dito real: “Não há política possível na escala da velocidade da luz. A política é o tempo da reflexão. Hoje não temos mais tempo para refletir, as coisas que vemos já aconteceram. E é necessário reagir imediatamente. Uma política do tempo real é possível? Uma política autoritária, sim. Quando não há mais tempo para partilhar, o que partilhamos? Emoções”2.

Os “alvos nervosos” que nos tornamos
Sem nunca perder do horizonte a relação entre guerra e tecnologia, Virilio irá apostar, desde “Guerra e cinema”, na idéia de que todos nós, espectadores, somos “alvos nervosos” em potencial: corpos afetados e configurados por determinadas relações com as tecnologias de imagem e com as biotecnologias; corpos atravessados pela aceleração dos fluxos e por desejos de hiperestimulação e excitação; corpos turbinados, “bombados” e bombardeados.
Em “Do super-homem ao homem superexcitado”, texto publicado em “A arte do motor”, lançado aqui em 1996, Virilio lança como epígrafe a sugestiva frase de Nietzsche: “O que mais importa ao homem moderno não é mais o prazer ou o desprazer, mas estar excitado”, pensamento que já apontava para uma necessidade de constantes estimulações nervosas desde fins do século XIX.
Para Virilio, foi exatamente essa demanda por excitação que, junto com a precisão do tiro-câmera na origem do cinema, criou pânico entre os espectadores durante as “demonstrações de movimento” dos irmãos Lumière, com a famosa chegada do trem na estação de Ciotat. Segundo descrições da época, os espectadores tinham a sensação de poderem ser esmagados pelo trem, não porque fossem mais ingênuos, mas porque, já naquela época, havia um pacto em construção de crença na imagem cinemática.
Esse tipo de crença, que provinha das impressões de velocidade buscadas nos parques de diversões e trem-fantasmas desde a emergência da cultura das sensações em fins do século XIX, não desapareceu, pois a familiaridade tornava, segundo Virilio, o medo ainda mais pernicioso. A partir do momento em que aprende a controlar suas reações nervosas, o público começa a ver a morte como algo extremamente excitante.

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1 - Cronofotografia: Método de análise do movimento por meio de fotografias tiradas sucessivamente com intervalos iguais, considerado a base epistemológica a partir da qual pôde se desenvolver o cinematógrafo.

2 - Trecho citado e traduzido por Maria Cristina Franco Ferraz, no artigo “Guerra, televisão e superexcitação dos corpos: ensaio de reflexão acerca dos atentados de 11 de setembro de 2001”. In: Sergio Porto (org.). “A incompreensão das diferenças: 11 de setembro em Nova York”. Brasília, 2002, p. 177-189.

Revista Trópico
http://p.php.uol.com.br/tropico/html/index.shl

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Prostituição e prisões lotadas complicam combate à Aids na ilha Hispaniola

Antigone Barton

Ao brilho das luzes dos cassinos ao redor dos distritos turísticos da República Dominicana, prostitutas aguardam por clientes.

Atrás dos muros da extremamente lotada Penitenciária Nacional do Haiti, doenças infecciosas são incontáveis e não tratadas.

Na ilha que estes países compartilham, a duas horas da costa americana, as taxas de incidência do vírus responsável pela Aids são os maiores do hemisfério.

Mas apesar dos Estados Unidos terem enviado mais de US$ 100 milhões para combate ao HIV e Aids na ilha de Hispaniola nos últimos três anos, aqueles que lidam na ilha com a epidemia entre os profissionais do sexo e presidiários o fazem sem a ajuda americana.

Trabalhando com recursos limitados e com obstáculos aparentemente intransponíveis, tais combatentes nas linhas de frente da epidemia argumentam que se a Aids não for enfrentada nestes ambientes, a batalha contra ela não será vencida.

Dos presidiários aos turistas
Um turista à procura de sexo em Santo Domingo pode caminhar até um bordel localizado atrás do hotel mais caro, onde a noite com uma estranha custa cerca de US$ 85, ou economizar dinheiro e caminhar na direção oposta, escolhendo uma das prostitutas à espera na faixa ao longo do quebra-mar.

Esta ilha empobrecida é um mercado do comprador onde as mulheres vendem sexo para turistas, empresários, marinheiros e presidiários- e onde as taxas de incidência de HIV entre os profissionais do sexo são estimadas como sendo no mínimo o triplo dos quase 2% da população geral.

A prostituição é basicamente legal aqui, onde a lei exige que os quartos de hotel alugados por hora venham acompanhados de dois preservativos.

Também está entranhada o suficiente na vida local para as profissionais do sexo terem organizado um grupo -Movimiento de Mujeres Unidas- há mais de doze anos para ajudar umas às outras.

Entre aqueles sob maior risco na epidemia de HIV, elas assumiram um papel na busca por soluções, participando de testes de vacinas e ensinando o uso de preservativos, com apoio de laboratórios farmacêuticos, organizações sem fins lucrativos e seu próprio governo.

Elas não recebem dinheiro dos Estados Unidos, que no ano passado enviou US$ 6,4 milhões por meio do Plano de Emergência do Presidente para Combate à Aids (Pepfar) para enfrentar a epidemia aqui.

Isto se deve a uma estipulação presente nos termos da ajuda externa americana que não permite que dinheiro seja destinado a pessoas ou entidades que não condenem a prostituição.

Os críticos chamam a política de “compromisso antiprostituição” e dizem que impede a ajuda para aqueles que mais precisam.

“É um grande equívoco”, respondeu recentemente o coordenador global americano para Aids, o embaixador Mark Dybul.

Os fundos do Pepfar financiam 120 programas que ajudam profissionais do sexo, oferecendo atendimento e treinamento vocacional, ele disse.

Os críticos rebatem que os termos do compromisso são tão vagos que afugentam organizações que fornecem serviços aos profissionais do sexo.

A promessa seria difícil de ser aceita pelas profissionais de sexo aposentadas e ainda ativas que fazem parte do Movimiento de Mujeres Unidas.

“Nós falamos com mulheres de igual para igual para transmitir nossa mensagem. Eu falo de ‘nós’ para uma profissional do sexo”, disse Juliana, uma profissional do sexo aposentada que prega o uso de preservativos para amigas que ainda trabalham em bordéis.

Ela é uma das fundadoras do Movimiento de Mujeres Unidas e recrutou amigas que ainda estão ativas para testes de vacinas e trabalho comunitário.

Uma de suas amigas é uma mulher chamada Jocelyn, que sustenta três crianças atendendo marinheiros que chegam em navios de todo o mundo. Ela também vai de cidade em cidade, demonstrando o uso de preservativos para outras profissionais do sexo e enfatizando que as profissionais do sexo nunca devem negociar o uso deles.

“Nem por US$ 200, nem por US$ 500!”, ela disse.

Outra amiga leva preservativos adicionais ao presídio nos dias de visita, quando ela atende pessoalmente os presos, e onde as taxas de incidência do HIV são cinco vezes maiores do que fora de seus muros. Lá, os presos pagam cerca de 150 pesos por sexo -cerca de US$ 5- e as mulheres tentam atender presos suficientes para partirem com 1.500 pesos.

Muitas mulheres que visitam o presídio também trabalham nas ruas atendendo turistas. É um problema internacional que não pode ser resolvido com condenação, dizem algumas pessoas que trabalham aqui, que vão de médicos e assistentes sociais aos próprios profissionais do sexo. Eles enfatizam que as opções para as mulheres pobres neste país se limitam ao trabalho doméstico e em fábrica, quando tais empregos podem ser encontrados.

Mesmo algumas destas poucas opções são vedadas a muitas mulheres, disse Sonia Pierre, fundadora do Mudha, uma organização que luta pelos direitos das mulheres dominicanas de descendência haitiana. A discriminação contra imigrantes haitianos é uma barreira à educação, trabalho e moradia para aqueles forçados por uma pobreza ainda maior ao cruzarem a fronteira vindos do país mais pobre.

“Um lugar desesperador”
Enquanto as luzes brilhantes das áreas turísticas podem cegar os visitantes para a pobreza e doença naquele país, o Haiti não conta com tal fachada.

Mas, segundo muitos que combatem a epidemia aqui, o país está se saindo melhor do que seu vizinho mais rico no fornecimento de medicamentos anti-retrovirais para aqueles que necessitam.

O Haiti é um dos 15 países principais do Pepfar e as autoridades dizem que dois programas antigos que recebem dinheiro do Pepfar -a clínica Gheskio de Porto Príncipe e a rural Zanmi Lasante- estabeleceram um padrão que faz parte de uma crescente história de sucesso.

Ainda assim, enquanto US$ 55 milhões em dinheiro americano foram destinados para agências e organizações no Haiti apenas no último ano pelo Pepfar, nenhum centavo foi para a Penitenciária Nacional, onde as doenças infecciosas se disseminam com pouco controle.

Estima-se que a incidência de HIV entre os prisioneiros seja entre 3 a 10 vezes maior do que fora de seus muros, sob melhores condições do que estas.

Aqui, os homens aguardam exames que podem levar anos vivendo tão amontoados que alguns mal têm lugar para sentar ou deitar. Mesmo os blocos de celas construídos nos últimos anos com dinheiro internacional não contam com encanamento. E desde uma repressão ao crime no primeiro semestre, a lotação que ultrapassava em muito os padrões internacionais mais que dobrou, com quase 4 mil presos em um lugar para conter cerca de 1.000.

“Quando cheguei aqui era um lugar desesperador”, disse o dr. John May, chefe do Health Through Walls, um grupo sem fins lucrativos que leva suprimentos e atendimento de saúde a presídios em países em desenvolvimento. May, que também é diretor-chefe da empresa privada Armor Correctional Health Services do Sul da Flórida, que presta serviços de saúde a presídios, começou a visitar este presídio há seis anos.

“Ainda é um lugar desesperador”, ele disse recentemente.

Ele descobriu quão pior se tornou a superlotação em uma viagem em abril, quando quatro homens foram levados até ele com pernas inchadas por ficarem em pé por semanas.

O vírus responsável pela Aids se dissemina por ataques sexuais em celas que não deveriam conter mais que uma dúzia de presos, mas que agora contêm 60. As celas lotadas servem como incubadoras de tuberculose resistente a medicamentos.

As doenças matam alguns e dão a outros uma recordação contagiosa que levam consigo quando saem.

E a maioria desses presos sairá, disse May.

Uma rebelião em 2004 resultou na fuga de todos os seus 1.500 presos na época, e em fugas de lá para cá, entre uma dúzia e 600 presos desapareceram em meio à população em geral. Muitos prisioneiros têm tatuagens, que indicam que passaram algum tempo nos Estados Unidos, para onde podem voltar.

Com os presídios lotados além de sua capacidade, o quadro magro e saturado de funcionários não consegue monitorar as doenças aqui, disse May.

“A prioridade é fornecer o atendimento necessário para aqueles que morrerão desnecessariamente”, ele disse. “Há pacientes que vão morrer e que morreram por condições que são tratáveis.”

May requisitou verbas do Pepfar no ano passado e seu pedido foi recusado. Ele está tentando novamente neste ano.

Autoridades americanas, incluindo Dybul do Pepfar, disseram que discutiram o financiamento de um programa para o presídio.

Enquanto isso, May trouxe testes rápidos de HIV para a prisão durante uma visita em setembro e retornou duas semanas depois com medicamento anti-retroviral para um preso cujo exame de sangue aponto um quadro avançado de Aids.

“Como o sistema não vai fazer nada, eu preciso tratar pessoalmente deste paciente”, ele disse.

Cox Newspaper
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/cox/

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“Eu sou Deus”

Sai na Inglaterra o 3º volume da monumental biografia de Picasso escrita por John Richardson, que cobre de 1917 a 1932

TOM ROSENTHAL

A monumental biografia de Picasso [1881-1973] escrita por John Richardson torna pequenos em tamanho -e, possivelmente, no tempo dedicado à preparação- alguns trabalhos biográficos clássicos, como o “Marcel Proust” de George Painter, o “Berlioz” de David Cairns e o “Matisse” de Hilary Spurling.
Richardson, como os demais biógrafos mencionados, é inglês, e comprova a impressão de que os britânicos em geral superam os demais europeus -e especialmente os franceses- no que tange à produção de trabalhos detalhados sobre a vida e a obra dos gênios.
O primeiro volume da biografia de Picasso por Richardson foi publicado em 1990, e o segundo em 1997. “A Life of Picasso - The Triumphant Years, 1917-32″ [Uma Vida de Picasso - Os Anos de Triunfo, 1917-32, Knopf, 512 págs., US$ 40, R$ 70], o terceiro dos quatro tomos projetados para série, levou mais uma década para ser publicado.

Vida social intensa
O terceiro volume começa com a viagem de Picasso e Jean Cocteau a Roma, em 1917, para trabalhar nos cenários de “Parade”, um balé de Serguei Diaghilev, e com o encontro entre Picasso e uma das principais bailarinas dos Ballets Russes, Olga Khokhlova.
Ela foi provavelmente a primeira mulher bonita a resistir aos avanços do pintor e se manteve resoluta em sua defensiva até que tivesse garantia de que se tornaria a primeira senhora Picasso. O livro se encerra com as primeiras grandes retrospectivas do trabalho do pintor, em Paris e depois em Zurique, em 1932, quando ele já havia completado 50 anos.
Além de Cocteau e do principal bailarino e coreógrafo do grupo de Diaghilev, Léonid Massine -que, quando não estava satisfazendo os desejos de Diaghilev, era, como Picasso, um casanova compulsivo-, o grupo incluía Igor Stravinsky e sua ocasional amante Coco Chanel e, talvez para surpresa de alguns, o café society dos anos 1920.
Parece difícil acreditar que um gênio como Picasso dedicasse tanto tempo à princesa de Polignac (herdeira da fortuna das máquinas de costura Singer) e a diversas duquesas e condessas, seus maridos e seus dolorosamente detalhados bailes de máscaras e almoços intermináveis. É impossível não imaginar como é que Picasso conseguia, além disso, manter uma produção tão imensa e tão variada, sustentar casos amorosos com tantas mulheres e ainda recorrer a bordéis para satisfazer suas necessidades ocasionais de variação.
Enquanto Picasso se manteve apaixonado por Olga, ela serviu de modelo para muitos de seus quadros e continuou a fazê-lo mesmo depois que o pintor se entediou com o comportamento cada vez mais pretensioso de sua mulher. Picasso, com ironia mortal, fingiu assumir o papel de chefe de família burguês enquanto se deixava rejuvenescer pela descoberta de Marie-Thérèse Walter, que tinha então 17 anos. Marie-Thérèse era a personificação do ideal curvilíneo dos prazeres do pintor e uma amante ideal ou até perfeita, já que não aspirava de forma alguma a se tornar a segunda senhora Picasso.

Giacometti e Moore
Foi em seus anos de obsessão por Marie-Thérèse que Picasso primeiro arriscou -e depois aprendeu a dominar- as técnicas de escultura, em seu estúdio no castelo de Boisgeloup. Como diz o autor, ele antecipou tanto os contornos adelgaçados de Giacometti quanto as formas divididas e monumentais de Henry Moore.
Embora seja evidente que Richardson idolatra Picasso, seu trabalho não é uma hagiografia. O biógrafo trata com franqueza os altos e baixos nos relacionamentos entre o artista e seus rivais, especialmente Braque, Matisse e Brancusi. Deixa claro que o pintor, priápico quase a ponto da satiríase, tratava de maneira sádica as suas mulheres e os homens homossexuais que se apaixonavam desesperadamente por ele, como [o pintor e poeta francês] Max Jacob e Jean Cocteau.
Revela, também, a natureza profundamente supersticiosa do artista, sua religiosidade, sua generosidade para com as pessoas que enfrentavam dificuldades e seu medo de doenças e da morte.

Sol e praia
O Picasso que Richardson retrata cultua o sol, e em nenhum outro lugar se sente mais feliz do que nas praias mediterrâneas que costumava visitar e incluir em seus quadros.
Página após página, há exemplos da intransigência de Picasso, nascida primordialmente de sua imensa inteligência, que propiciava a ele não só um diferencial criativo mas também sabedoria mundana e política consideráveis, o que sempre permitiu que saísse em vantagem de seus relacionamentos com marchands, editores e companheiros -que, para a surpresa de ninguém, pretendiam se aproveitar seu talento.
O charme do pintor é revelado de maneira quase palpável, bem como seu encanto hipnótico. Richardson não hesita em corrigir erros e teimosias do trabalho alheio -e parece ter lido tudo que já foi escrito sobre Picasso. Quando o faz, age com habilidade, de forma breve e sempre sardônica.
O biógrafo é especialmente mordaz quanto à monstruosamente solipsista [escritora norte-americana] Gertrude Stein e deixa claro que não foi Gertrude, mas seu irmão Leo, que aderiu primeiro ao clã dos entusiastas do pintor. Os julgamentos e análises de Richardson me parecem sempre precisos e são expressos com uma refrescante ausência de jargão artístico.
Talvez o epílogo seja o capítulo mais intrigante, pois oferece um retrato verbal em miniatura do primo de Picasso, o general Juan Picasso González, genuíno herói militar e moral. O trecho precede um resumo magistral das origens da Guerra Civil Espanhola e mostra como os direitistas da Falange tentaram atrair o apoio de Federico García Lorca e de Picasso. O poeta, como sabemos, foi executado pelos fascistas. Em seguida, tentaram seduzir Picasso, mas fracassaram horrivelmente ao afirmar, em público, que o artista, essencialmente apolítico, apoiava sua causa.
Essa insensatez fez de Picasso um partidário instantâneo da causa republicana, o que ajudou a preparar o terreno para “Guernica” e forneceu a Richardson a amostra apetitosa sobre o relato quanto às origens da obra-prima que com certeza abrirá o próximo volume.
As palavras finais do livro são uma citação de uma conversa de Picasso com um amigo espanhol: “Deus, na verdade, é outro artista… Como eu… Eu sou Deus, eu sou Deus, eu sou Deus”.

Jornal Folha de S. Paulo
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O paradigma da colaboração

O padrão de produção e consumo típico do capitalismo, e hegemônico há séculos, está em crise. Em seu lugar, emergem relações sociais mais sustentáveis, democráticas e… prazerosas

Ladislau Dowbor

O deslocamento sísmico mais importante na teoria econômica se refere ao gradual esgotamento da competição como principal instrumento de regulação econômica, além de principal conceito na análise da motivação, da força propulsora que estaria por trás das nossas decisões econômicas.

A visão herdada, é que se nos esforçarmos todos o máximo possível para obter o máximo de vantagem pessoal na corrida econômica, no conjunto tudo vai avançar mais rápido. Misturando a visão de Adam Smith sobre a soma de vantagens individuais, de Jeremy Bentham e Stuart Mill sobre o utilitarismo, e de Charles Darwin sobre a sobrevivência do mais apto, geramos um tipo de guerra de todos contra todos, o que os americanos chamam de global rat race, que está se esgotando como mecanismo regulador, e que está inclusive nos levando a impasses planetários cada vez mais inquietantes.

O que está despontando com cada vez mais força, é que somos condenados, se quisermos sobreviver, a desenvolver formas inteligentes de articulação entre os diversos objetivos econômicos, sociais, ambientais e culturais, e consequentemente formas inteligentes de colaboração entre os diversos atores que participam da construção social destes objetivos. O deslocamento sísmico consiste na gradual substituição do paradigma da competição pelo paradigma da colaboração.

Hazel Henderson conta como “entrou” para a economia. Em Nova Iorque os apartamentos eram equipados com pequenos incineradores. Resolvia problemas individuais, mas o resultado era roupa suja nos varais de todos, crianças sujas nos parques onde a poeira negra se depositava, doenças respiratórias, etc. Quando protestou junto às autoridades, foi-lhe explicado que os incineradores geravam empregos, dinamizando a economia. Hazel ficou perplexa: construir com muito esforço coisas inúteis ou nocivas, é bom porque dinamiza a economia? E o esforço das mães que lavam a roupa e os filhos não é custo porque não custa? Não foi a máquina econômica que acabou com os incineradores, e sim o movimento de mães organizadas em torno aos seus interesses.

Hazel se voltou para a economia, chegando gradualmente à visão que hoje expõe no seu livro Construindo um mundo onde todos ganhem, em torno do hoje popular conceito de win-win [1]. A idéia básica é simples, e se reflete na popular imagem de dois burrinhos puxando em direções opostas para atingir cada um o seu monte de feno, e que descobrem o óbvio: comem juntos o primeiro, e depois comem juntos o segundo. Segundo Hazel, “as redes da atual era da informação funcionam melhor com base em princípios em que todos ganham (win-win), mas ainda são dominadas pelo paradigma da guerra econômica global” [2].

“Construindo um mundo onde todos ganhem explora o cenário e mapeia a colisão entre o paradigma do crescimento econômico externamente focalizado e tecnologicamente acionado, que culminou numa guerra econômica global insustentável, e a ascensão de preocupações globais populares no paradigma emergente e nos movimentos a favor do desenvolvimento humano sustentável…Uma mudança sistêmica do paradigma de maximização da competição econômica global e do crescimento do produto nacional bruto para um paradigma do desenvolvimento mais cooperativo, sustentável – o que, em épocas mais antigas, teria exigido centenas de anos –, é pelo menos possível no sistema mundial interdependente e em rápida evolução dos dias de hoje” [3].

Há uma dimensão que vai inclusive além da ética no processo: a colaboração para criar coisas novas ou simplesmente úteis é uma das fontes mais importantes de prazer. O conceito moderno de liderança, inclusive, evoluiu da visão do chefe que dá ordens para a visão do coordenador que organiza processos colaborativos. O sentimento de realização de uma equipe que terminou um trabalho bem feito é muito grande [4].

O mundo, naturalmente, não é um mar de rosas, e tende a predominar a esperteza burra de quem vê nos processos colaborativos uma oportunidade de aumentar as suas próprias vantagens: a colaboração, para esta gente, consiste em fazer com que os outros colaborem para os seus lucros. A visão da luta pela sobrevivência do mais apto está sem dúvida generalizada. Impregna a escola com as suas lutas pelo primeiro lugar ou a melhor nota, a competição pela sobrevivência que representa o vestibular, aparece em cada programa de televisão. A idéia é “vencer” os outros, ainda que a batalha seja fútil, e os resultados ruins para todos.

Vale a pena citar aqui o aporte de David Korten, no seu livro O Mundo Pós-Corporativo. Korten parte da compreensão que teve das limitações da visão biológica do mundo como um espaço de competição pela sobrevivência das espécies: na realidade, o pássaro que come a fruta dissemina a semente, a raiz que nasce precisa dos microorganismos para assimilar o nitrogênio e assim por diante. Ou seja, a dimensão colaborativa é amplamente dominante no processo, e assegura que a vida no planeta se desenvolva de forma sistêmica. Não se “arquiva” a competição, que é real: trata-se de entender a presença maior da dimensão colaborativa.

Na visão de Korten, o mercado, dentro de condições muito precisas, pode constituir um ambiente de colaboração sistêmica, mas não é o que acontece na economia real: “Os mercados, constituem uma instituição humana notável para agregar as escolhas de muitos indivíduos para conseguir uma alocação eficiente e equitável de recursos produtivos com o fim de responder às necessidades humanas. A sua função, no entanto, depende da presença de numerosas condições críticas. Reconhecendo o poder do ideal de mercado, o capitalismo se veste com uma retórica de mercado. Mas busca apenas o seu próprio crescimento, e assim as suas instituições procuram destruir sistematicamente as funções saudáveis dedo mercado. Eliminam as regulamentações que protegem os interesses humanos e ambientais, removem fronteiras econômicas para se colocar além do alcance do Estado, negam aos consumidores acesso a informações essenciais, buscam monopolizar tecnologias benéficas, e utilizam fusões, aquisições, alianças estratégicas e outras práticas anticompetitivas para minar a capacidade do mercado de auto-organizar” [5].

A realidade é que a economia está mudando, em geral mais rapidamente do que a nossa ciência. As atividades hoje se tornaram muito mais amplas, complexas e interativas, fazendo com que as economias de colaboração, materializadas no capital social, sejam cada vez mais importantes. Nas grandes empresas, esta necessidade em geral já foi compreendida, levando à redução do leque hierárquico, à organização de equipes e assim por diante. A partir dos anos 1980, ampliou-se a compreensão da necessidade de colaboração já não só dentro da empresa, mas entre empresas, dando lugar a conceitos como “capitalismo de alianças”, “arranjos colaborativos” inter-empresariais, managed market e assim por diante.

No plano das empresas, o livro que marcou um deslocamento da visão é Alliance Capitalism, de Michael Gerlach, que analisa as formas realmente existentes de colaboração inter-empresarial, em particular no Japão, e sugere que “a teoria econômica pode e deve enfrentar os limites dos mercados atomizados e anônimos, visando explicar as formas institucionais que se desenvolveram nas economias modernas para vencer estas limitações. Particularmente interessante tem sido o papel das contratações de longo prazo e a organização corporativa como alternativas aos mercados competitivos. Os mercados e as empresas capitalistas são vistas, assim, não como entidades isoladas que seguem a sua própria lógica, mas como arranjos institucionais complexos inseridos na ordem legal da sociedade e nas regras básicas sob as quais os atores operam” [6].

Na Terceira Italia formou-se a compreensão de que além dos processos colaborativos inter-empresariais, seria útil organizar a colaboração com iniciativas públicas e do Terceiro Setor que podem gerar economias que são externas à empresa, mas internas a uma região, tornando o trabalho de todos mais produtivo. O livro de Carlo Trigiglia, citado acima, representa bem esta compreensão do território como espaço de construção de arranjos colaborativos.

Esta dimensão prática está apoiada em mudanças estruturais dos processos de reprodução social vistos ao longo deste ensaio. Ao tornar-se o conhecimento crescentemente o principal fator de produtividade, e já que o conhecimento compartilhado não tira conhecimento de ninguém, pelo contrário tende a multiplicar-se, a evolução natural não é a de nos trancarmos numa floresta de patentes e proibições, mas sim de criar ambientes colaborativos abertos, como vemos por exemplo no caso do Linux, da Wikipedia, ou nas formas colaborativas da Pastoral da Criança. A guerra baseada no “isto é meu” não tem sentido quando se trata de conhecimento.

Outra dinâmica que torna a colaboração muito mais presente é a conectividade: é tão fácil colaborar inclusive entre agentes muito distantes, que a idéia medieval do castelo isolado e autosuficiente torna-se cada vez mais ridícula, como se torna cada vez mais limitada a visão da empresa com o seu “capitão” empresário, indo à luta contra todos, trancando os seus segredos. As redes inter-universitárias de colaboração neste sentido estão demonstrando caminhos mais inteligentes e modernos, ainda que o grosso do mundo universitário tenda também a se proteger nas suas torres.

Uma terceria dinâmica está ligada à nossa forma básica de organização demográfica, a cidade, com o seu entorno rural. Já não somos populações rurais dispersas, e mesmo os espaços rurais pertencem a um processo de modernização “rurbano”, como têm definido os pesq uisadores da Unicamp. Neste sentido, como vimos, cada cidade com o seu entorno passa a constituir uma unidade de acumulação econômica que será mais ou menos produtiva, como sistema, segundo consiga ou não organizar-se num espaço colaborativo e coerente dentro do seu território e na região onde está situada.

Enfim, uma quarta dinâmica que também vimos acima está ligada ao deslocamento da composição intersetorial das atividades econômicas, cada vez mais centradas em políticas sociais como saúde, educação, cultura, informação, lazer e outras. Estas atividades, muito mais do que a produção industrial, envolvem processos colaborativos intensos, não se regulam adequadamente pelo lucro, e dependem vitalmente da constituição do capital social e de processos participativos de decisão. A resitância a formas mais modernas de gestão é natural. Anos atrás, houve grandes lutas contra a vacinação obrigatória das crianças, em nome da liberdade de cada um decidir segundo as suas preferências. Naturalmente, vacinar uma parte da população não erradica doença alguma.

Estas quatro macro-tendências, da economia do conhecimento, da conectividade, da urbanização e da primazia do social, geraram condições profundamente renovadas no conjunto do processo de reprodução social, e as velhas práticas que privilegiam a competição, o segredo, os clubes fechados, constituem simplesmente a aplicação de uma ideologia econômica antiga a uma realidade nova. Ou seja, o paradigma da colaboração, além de constituir uma visão ética, e de materializar valores das pessoas que querem gozar uma vida agradável, trabalhar de maneira inteligente e útil, em vez de ter de matar um leão por dia, – constitui hoje bom senso econômico em termos de resultados para o conjunto da sociedade.

Voltando ao princípio, à “rentabilidade social” de que fala Celso Furtado, a colaboração tem de se dar em torno ao objetivo simples da alocação racional de recursos em função da qualidade de vida social.

Hoje sem dúvida as grandes empresas de medicamentos têm entre elas arranjos colaborativos que lhe permitem realizar lucros fabulosos, ao restringirem acesso à livre fabricação das drogas, o que por sua vez permite elevar os preços. Os banqueiros no Brasil colaboram intensamente na manutenção de um sistema de restrição ao crédito, de juros elevados e de tarifas caríssimas, o que lhes permite drenar grande parte da riqueza produzida pela sociedade, sem precisar contribuir para produzí-la. Os grandes grupos da mídia colaboram com as grandes empresas que compram espaço publicitário, e adaptam o conteúdo da informação aos interesses empresariais. Os exemplos não faltam deste tipo de círculos fechados em torno de interesses minoritários.

Putnam resume bem a questão, no seu Bowling Alone já citado, ao lembrar que a Ku Klux Klan é uma organização da sociedade civil, mas cujo objetivo é excluir um segmento da sociedade, em vez de incluir de forma equilibrada os diversos interesses. Isto não é colaboração, é corporativismo na sua pior manifestação. Ou seja, a construção dos processos colaborativos mecessários a uma economia moderna passa por romper os diversos tipos de fortificações que constituem os cartéis, trustes e outros clubes de ricos que desequilibram o desenvolvimento. Não há como escapar à busca ativa de processos econômicos mais democráticos, descentralizados e paticipativos.

Korten busca soluções na articulação dos espaços de desenvolvimento local, onde os agentes econômicos se conhecem e podem construir sistemas colaborativos: “Resolver a crise depende da mobilização da sociedade civil para resgatar o poder que as corporações e os mercados financeiros globais usurparam. A nossa maior esperança para o futuro está com economias apropriadas e geridas localmente que se apoiem predominantemente em recursos locais para responder às necessidades de vida locais dos seus membros em formas que mantenham um equilíbrio com a terra. Um tal deslocamento nas estruturas institucionais e prioridades poderá abrir caminho para a eliminação da escassez e extrema desigualdade das experiências humanas, instituindo uma verdadeira democracia cidadã, e liberando um potencial presentemente não realizado de crescimento e criatividade individuais e coletivos” [7].

Não há soluções simples nesta área, mas o paradigma da colaboração abre sem dúvida uma visão renovada, onde a simples competição não resolve, e os mercados se tornaram cada vez menos operantes. A visão renovada envolve o resgate do planejamento, mecanismos de gestão participativa local, articulações inter-empresariais, e também mecanismos tradicionais de mercado onde ainda sejam úteis, além de mecanismos de concertação internacional cada vez mais necessários, apontando no conjunto para uma articulação diversos mecanismos de regulação em vez das alternativas simplificadas em torno do estatização versus privatização [8].

A nossa intuição simplificada – aqueles argumentos não explicitados mas poderosos que temos em algum lugar profundo da nossa cabeça – nos sugere que a política não funcional, e que a economia de mercado, ao definir regras de jogo iguais para todos os agentes econômicos, ainda constitui o melhor mecanismo de regulação. A realidade é que a própria política está mudando, evoluindo para a democracia participativa, enquanto os mecanismos de mercado sobrevivem em espaços cada vez mais limitados da economia tradicional, substituídos pela força das articulações corporativas. A democracia econômica constitui um complemento necessário que pode racionalizar tanto a política como a economia.

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[1] Hazel Henderson – Construindo um mundo onde todos ganhem (Building a Win-Win World), ed. Cultrix, São Paulo 1996.

[2] id., ibid., p. 293 – É interessante ver também o texto de Daniel Cohen, em La Mondialisation et ses ennemis, sobre esta defasagem entre a economia real e as instituições: “A melhor maneira, em princípio, de encontrar uma idéia nova para resolver um problema dado é de coordenar a pesquisa dos que a desenvolvem e, uma vez realizada a descoberta, colocá-la à disposição de todos. O “bom” modelo de referência aqui não é o do mercado, mas o da pesquisa acadêmica que recompensa por diversas distinções o “bom pesquisador”, ao mesmo tempo que deixa as suas descobertas livres para todos. O sistema da propriedade intelectual conduz a fazer exatamente o contrário. As equipes que competem na mesma área, por um determinado medicamento por exemplo, não compartem os seus conhecimentos, e uma vez realizada, a descoberta será a propriedade exclusiva de quem a realizou primeiro. Temos aqui, para o mundo moderno, uma idéia que Marx havia enunciado, de uma contradição entre o desenvolvimento das forças produtivas, aqui da inovação, e o das relações de propriedade” – p. 228.

[3] Henderson, ibid., p. 19 e 24

[4] O texto já mencionado de Frey e Stutzer desenvolve este tema: “As pessoas têm tendência a se sentirem felizes não só pelo resultado mas também pelo próprio processo…Scitovsky propõe que ‘a diferença entre gostar ou não gostar do trabalho que se faz pode ser mais importante do que a diferença na satisfação econômica gerada pelas disparidades na nossa renda’. As pessoas podem também se sentir mais eatisfeitas ao agirem de maneira correta e ao serem honestas, independentemente do resultado…Assim, a utilidade é colhida do processo de tomada de decisão mais além do resultado gerado” (“Thus utility is reaped from the decision-making process itself over and above the outcome generated”.) – Happiness and Economics, op. cit., p. 153

[5] David Korten – The Post-Corporate World – Berrett-Koehler, San Francisco, 1999., p. 62 – Edição brasileira pela Editora. Vozes, Petrópolis, 2003

[6] Michael L. Gerlach – Alliance Capitalism – University of California Press, Berkeley, 1992, p. 39 – Gerlach constata que as trocas propriamente baseadas no espaço anônimo de mercado “na prática se tornaram raras e limitadas a uma faixa relativamente estreita de transações rotineiras” (p. 41); ver também os trabalhos de James E. Austin, The collaboration Challenge, publicado pela Drucker Foundation, bem como a visão institucionalista de Douglass C. North, Institutions, Institutional Change and Economic Performance, Cambridge University Press, 1990

[7] - Korten, op. cit. p. 7

[8] O argumento da articulação dos mecanismos de regulação foi desenvolvido no nosso A Reprodução Social, vol. II

Jornal Le Monde
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