No que se parecem

L. F. Veríssimo

No que Kaká e Tom Cruise se parecem? Os dois são admirados pelo que fazem e criticados pelo que acreditam. Não seriam criticados pelo que acreditam se não fossem artistas conhecidos com caras de bons moços. Um declara que pertence a Jesus, o que não deixa de ser elogiável nesta época em que tantos jogadores de futebol pertencem a empresários nem sempre escrupulosos, mas os líderes da sua igreja, a Renascer em Cristo, estão tendo que explicar à justiça americana o que fazem com o dinheiro dos fiéis. O outro é hoje o mais conhecido adepto da Cientologia, uma mistura de religião, filosofia e negócio de auto-ajuda que saiu pronta da cabeça de um escritor de ficção científica, entre outras coisas, chamado L. Ron Hubbard, nos anos 50. Ninguém teria nada a ver com a religião dos moços se eles não fossem celebridades e sua notoriedade não servisse para propagar suas crenças no mínimo discutíveis. Mas a discussão é boa: o que torna uma crença mais, digamos, exótica do que outra? É fácil lamentar a exploração da fé de certas seitas neopentecostais e ridicularizar as esquisitices da Cientologia, mas todas as religiões do mundo exigem a mesma suspensão do bom senso dos seus seguidores. O que católicos, protestantes históricos, muçulmanos e judeus precisam acreditar para serem fiéis sinceros só perde em estranheza para as novas igrejas porque suas religiões são mais antigas. A mais jovem delas tem quatro séculos. Todas têm a respeitabilidade indiscutível que vem com a idade. Nada a ver com a Igreja da Boa Vida em Miami apoiada por Kaká ou a invenção autopromocional de um excêntrico que Tom Cruise e outros em Hollywood (John Travolta, por exemplo) promovem. Mas com o tempo, apesar de suas doutrinas e práticas, estas também serão instituições antigas, e respeitáveis.

No que Jerome Kerviel, responsável por um rombo de 50 bi euros no banco Société Générale da França, se parece com o anônimo milionário da Arábia Saudita que encomendou o roubo dos quadros de Picasso e Portinari do Masp?

Se tivessem ficado com o produto do roubo, nenhum dos dois poderia ostentá-lo. Nada que Kerviel fizesse com o dinheiro desviado, mesmo que doasse ou queimasse a maior parte e ficasse só com um bi ou dois para os croissants deixaria de chamar atenção. O milionário saudita só poderia pendurar os quadros no seu quarto ou no seu banheiro e jamais mostrá-los em público. Mas nem o francês, pelo que se sabe até agora, queria ficar com o dinheiro nem o saudita tinha intenção de exibir os quadros. Os dois foram movidos pelo amor à arte. No caso do francês, a arte de manipular bilhões com o teclado de um computador e descobrir até onde poderia ir com o seu poder mágico antes de chegar ao absurdo, no caso do saudita a arte pela arte, pelo puro deleite da contemplação solitária. Dois heróis - ou que outro nome mereçam - do nosso estranho tempo.

Jornal Estado de S. Paulo
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