Arquivo de Fevereiro de 2008

A mudança de Obama tem a consistência da bolha das empresas pontocom

A ascensão do democrata Barack Obama significa uma vitória alarmante de estilo sobre substância. Como a loucura das pontocom, sua campanha promete mais do que pode oferecer. A única coisa que seus eleitores podem ter certeza é que, no fim, ficarão desapontados

Gabor Steingart

O pré-candidato democrata presidencial Barack Obama faz muitos pensarem no ex-presidente John F. Kennedy ou no líder de direitos civis Martin Luther King. Mas quando eu o ouço falar, ele me remete à loucura da Nova Economia.

Era uma época mágica, até para os executivos mais “pé no chão”. Por vários anos, promessas incríveis pareciam ser a moeda mais valiosa em circulação. Lucros? Sem problemas! Experiência? Não precisa! Realismo? É mais um obstáculo do que qualquer coisa. Alguns empresários sem dúvida tinham modelos realistas e talento administrativo, mas a maior parte estava simplesmente vendendo idéias.

A produção econômica mundial cresceu 80% em termos reais entre 1980 e 2000. Mas o valor das ações aumentou cerca de 1.000% no mesmo período. O mercado atingiu seu zênite no dia 10 de março de 2000, e então a bolha estourou. Subitamente, as empresas de bilhões de dólares listadas no Nasdaq desinflaram como suflês frios. Bernie Ebbers, ex-diretor da Worldcom e um dos astros na nova economia, não aparece mais no Larry King Live. Em vez disso, ele está atualmente cumprindo pena em Louisiana por fraude e conspiração.

O futuro é um bem fortemente negociado na campanha presidencial dos EUA em 2008. Os eleitores estão esfomeados por mudança e por um distanciamento radical de um presente que agora percebem como medíocre, especialmente depois de sete anos magros sob o atual presidente, George W. Bush. Um homem como Barack Obama sabe tirar vantagem deste desejo. Ele fala frases bonitas que massageiam a alma, como: “É por nós que estivemos esperando” e “nosso destino não vai ser escrito para nós, mas por nós”.

Em suas aparições de campanha, Obama e seus adoradores jogam seu lema de campanha, “sim, podemos”, de um lado para o outro até o salão ficar frenético. Seus eventos lembram as trocas nos cultos de domingo entre um pastor animado e sua congregação entusiasta, exceto que as multidões de Obama são ainda mais efervescentes.

Quem consegue enxergar através da retórica do candidato de 46 anos, entretanto, tem uma sensação de dúvida crescente -dúvida que Obama facilmente consegue reprimir em seu próximo discurso, ou no outro. O sucesso do senador nas primárias também tem um efeito intoxicante. Obama se define como um novo tipo de político, alguém que se recusa a ser julgado pelos antigos padrões.

A retórica também soa estranhamente familiar. Nos tempos da Nova Economia, a análise tradicional do valor das ações, baseada em seus fundamentos -indicadores econômicos cruciais como lucro, vendas e número de funcionários- subitamente se tornou coisa do passado e foi substituída pelo método chamado de momentum. A empresa passava a ser vista como um bom negócio se sua ação aumentasse e um excelente negócio se suas ações aumentassem rapidamente. O provérbio do dia? Eu cresço, portanto, eu sou. Bernie Ebbers era considerado um bom administrador. O preço das ações de sua empresa subiu de menos de US$ 5 (cerca de R$10) nos primeiros dias para uma alta de US$ 62 (em torno de R$ 124) em 1999. Ebbers estava nas alturas. Ele tinha momentum.

O jovem vendedor de idéias de Chicago está vivenciando o mesmo impulso, enquanto corre de um sucesso eleitoral ao próximo. O sucesso alimenta o sucesso. Obama também tem momentum.

As minas terrestres da política externa
Mesmo assim, se Obama for eleito, eventualmente vai ser forçado a desapontar seus eleitores. A política em uma sociedade democrática é um equilíbrio de interesses, não uma reunião de renascimento. É preciso elegância, experiência e o poder de transformar idéias em realidade. Esperança e otimismo podem reforçar essas qualidades, mas não podem substituí-las. A mensagem de Obama está mais para uma promessa de curar a nação do que para uma plataforma de campanha.

O futuro promissor de Obama parece velado e indistinto. Ele quer mudar as regras do engajamento na política, mas esquece de explicar como e em qual direção. Ele quer escrever uma nova página nos livros de história, mas com qual letra planeja fazê-lo? Ele quer expulsar lobistas, mas se o fizer, quem vai defender os interesses dos sindicalistas, veteranos de guerra e corporações químicas? Ele quer negociar com os ditadores do mundo, mas com que objetivo, exatamente?

De fato, as minas explosivas mais perigosas de Obama estão escondidas na política externa. Uma retirada rápida do Iraque? Parece ótimo. Mas o erro de ter começado essa guerra em primeiro lugar não pode ser corrigido terminando-a em uma correria louca para sair do Iraque. Uma retirada rápida dos militares americanos provavelmente seria seguida por uma guerra civil sangrenta. A Al Qaeda ia conseguir abocanhar o Iraque de uma vez por todas. O Irã ia se regozijar. Osama Bin Laden e o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, seriam os verdadeiros vencedores das eleições presidenciais americanas de 2008.

Ainda por cima, Obama, tentando mostrar força, criou um novo teatro para as forças armadas americanas. Ele fala de operações militares no Paquistão, que tem poder nuclear. Ele, como chefe do Estado maior, ia ordenar essas operações mesmo sem a aprovação da ONU. Essa é “a guerra que precisamos vencer”, repete sem parar.

Na realidade, contudo, uma campanha militar no Paquistão seria loucura, apesar de muitos na mídia americana terem decidido cuidadosamente ignorar os comentários de Obama. Uma comparação com o presidente John F. Kennedy, que tinha 43 anos quando foi eleito, revela que Kennedy de fato não queria entrar em guerra no Vietnã. Foi uma guerra para a qual o presidente inexperiente escorregou; se foi um presidente de guerra, foi por acidente, não por projeto.

No entanto, não há espaço para considerações no mundo turbulento da obamamania. Hillary Clinton, sua rival na luta pela nomeação democrata, sofre dos mesmos problemas que tiveram as empresas tradicionais da indústria automotiva e de engenharia quando confrontadas com a febre da Nova Economia. Ela perdeu o contato com seus defensores. Ela usa palavras para explicar, enquanto Obama usa retórica para intoxicar. Ela diz aos eleitores o que está trazendo à mesa. Ele diz a eles o que podem se tornar. Se Clinton é uma ação firme, Obama é uma opção. Se ela é um investimento seguro, ele é especulação.

Quando a Nova Economia atingiu sua conclusão, as pessoas subitamente entenderam que suas esperanças caíram por terra e seus desejos por fortunas rápidas não foram satisfeitos. Em 2002, o preço da ação da Worldcom caiu para menos de US$ 0,10 (cerca de R$ 0,20).

Se a democracia funcionar pelo menos um pouco como a economia de mercado, a bolha de Obama vai estourar. A questão é: quando? Acontecerá antes da nomeação democrata em agosto -ou só depois?

Der Spiegel
http://www.spiegel.de/

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Aumento do desemprego é presságio de recessão nos Estados Unidos

Floyd Norris

Quando o número de norte-americanos sem trabalho começa a aumentar drasticamente, ocorre uma recessão.

Segundo esta lógica, os últimos dados referentes ao número de trabalhadores desempregados são, no mínimo, um sinal de perigo.

O Departamento de Trabalho anunciou em dezembro que 7.665.000 pessoas estavam desempregadas, o que significa que elas ao mesmo tempo não tinham emprego e que não estavam procurando um trabalho. O número foi 13,2% mais elevado do que os 6.700.000 registrados em dezembro do ano anterior. No passado, um aumento anual de 13% consistiu, em todas as ocasiões, em um sinal de uma recessão.

Antes de dezembro, houve nove ciclos nos Estados Unidos desde 1950 durante os quais a variação positiva do número de desempregados foi de 13% ou maior.

Em oito daqueles casos, quando o aumento atingiu os 13%, a recessão já havia começado, segundo conclusões às quais posteriormente chegou o Departamento Nacional de Pesquisa Econômica dos Estados Unidos. No outro caso, a recessão teve início três meses depois.

Aliás, o departamento não define uma recessão como dois trimestres de queda do produto interno bruto real, embora esta definição seja amplamente utilizada. Em vez disso, a instituição diz que “uma recessão é um declínio significativo da atividade econômica disseminado por toda a economia, durando mais do que alguns meses, normalmente visível no produto interno bruto real, na renda real, no desemprego, na produção industrial e nas vendas no atacado e no varejo”.

O fato de o desemprego ser um dos indicadores ajuda a explicar historicamente essa correlação estreita, mas isso não aconteceria se tivesse havido ondas de desemprego que não coincidissem com desaquecimentos econômicos mais amplos.

A idéia de que uma recessão já esteja ocorrendo quando o índice de desemprego é de apenas 5% pode parecer estranha para quem tenha acompanhado a economia nas últimas décadas. Esse número é menos da metade do índice atingido em 1982, e menor do que o índice médio de desemprego das décadas de 1970, 1980 e 1990. Mas às vezes o que conta é a tendência, mais do que o nível absoluto de desemprego.

Em décadas passadas, não havia nada de incomum quanto ao fato de uma recessão ter início com um índice de desemprego de 5% ou menos. Das nove recessões registradas pelo departamento de pesquisa econômica desde 1950, cinco tiverem início com um índice de desemprego menor que 5%. Estas foram as recessões de 1953, 1957, 1969, 1973 e 2001.

O padrão normal é que o aumento anual de 13% do número de desempregados ocorra alguns meses após o início da recessão - embora geralmente bem antes disso fique claro para os economistas que a economia entrou em queda -, e que depois disso esse número fique bem maior. Geralmente os índices de aumento anual de desemprego permanecem acima dos 13% durante vários meses após o término da recessão.

A única ocasião na qual o aumento do número de desempregados ocorreu antes do início real da recessão foi em 1969, quando a elevação atingiu a marca dos 13% em setembro, mas o mês do início oficial da recessão foi mais tarde determinado como sendo dezembro. Aquela foi uma rara ocasião na qual o índice de aumento anual, após aumentar para 13%, caiu para abaixo deste nível durante dois meses. E ele não voltou a superar os 13% antes de janeiro de 1970, um mês após o início da recessão.

O desemprego é geralmente visto como um indicador econômico atrasado, já que as companhias podem relutar em demitir trabalhadores quando a demanda começa a diminuir, aguardando até que as más notícias de fato se confirmem. Quando a recessão acaba, há uma relutância semelhante em se contratar até que fique claro que o aquecimento dos negócios não é um fenômeno temporário.

É claro que não existe garantia de que uma recessão esteja chegando. Em 1956, e novamente em 1967, houve aumentos de 12% no número de pessoas desempregadas, mas esse índice recuou rapidamente sem que ocorresse rapidamente uma recessão. Mas o fato é que nunca antes este índice subiu para 13% sem que uma recessão fosse iminente ou que já estivesse ocorrendo…

The New York Times
http://www.nytimes.com/

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“Religião não se opõe à modernidade”, defende ex-presidente iraniano Khatami

Ángeles Espinosa

Já faz três anos que ele deixou a presidência do Irã, mas conserva os ares patrícios e o sorriso franco que lhe conquistaram o maior apoio popular a um político na República Islâmica.Agora, da Fundação para o Diálogo de Civilizações, Mohamed Khatami (nascido em Ardakan em 1943) continua defendendo suas convicções, apesar da mudança de rumo que deu o governo de seu país. “A religião não se opõe à modernidade”; “os seres humanos temos de encontrar o que nos une, e não o que nos separa”, declara às vésperas do Primeiro Fórum da Aliança de Civilizações, do qual não poderá participar, apesar de ter plantado a semente e colaborado com os especialistas que o prepararam.

El País - Desde que o senhor deixou a presidência, trabalha para promover o diálogo de civilizações. Quais foram os resultados?
Mohamed Khatami - Estabelecemos dois centros para promover esse diálogo, em Genebra e em Teerã. Além da repercussão em livros e periódicos, universidades do mundo todo organizam seminários e centros governamentais ou não-governamentais o promovem. Os primeiros-ministros da Espanha e da Turquia lançaram a Aliança de Civilizações, que se reunirá nos próximos dias em Madri. E nossa época precisa desse diálogo, porque o ser humano nunca sofreu tanto quanto agora. Só através do diálogo é possível alcançar um melhor entendimento e convivência.

EP - Que peso o senhor atribui às idéias religiosas na configuração desses sistemas de valores compartilhados que chamamos de civilizações ou culturas?
Khatami - As religiões são o elemento mais importante que há em cada cultura e em cada país, e por isso a interação entre elas é fundamental para resolver os problemas. Por exemplo, na Fundação, nos reunimos com representantes do Vaticano, da Catedral Nacional de Washington e da Universidade Islâmica de Al Abar para debater o caminho que é preciso seguir. Naturalmente, outras religiões poderão se incorporar. É muito importante esse diálogo inter-religioso.

EP - Que os doutos das diversas religiões entrem em acordo parece mais simples do que estes o façam com os ateus. Não é maior o abismo entre os religiosos militantes (qualquer que seja seu credo) e os que defendem a laicidade?
Khatami - Sem dúvida, mas o diálogo não termina nos religiosos. Temos muitos problemas humanitários nos quais podemos chegar a um acordo [com os ateus], como por exemplo a pobreza -o mais importante de todos- ou a grave crise do meio ambiente. Devemos pensar nas coisas que temos em comum como seres humanos, e não deixar que as diferenças nos separem.

EP - No fundo dessas diferenças estão as relações entre religião e Estado. Na sua opinião, quais são as normas que as devem reger?
Khatami - É um problema do mundo moderno. Na Idade Média não se planejava. Hoje triunfa a idéia de que se devem separar governo e religião. Diz-se com freqüência que a secularização acabou com as guerras de religião, mas houve outras, como a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, ou numerosos conflitos regionais que não têm nada a ver com religião. Não se pode afirmar que a separação de governo e religião põe fim a todos os problemas. Para que não haja guerra, o ser humano precisa deixar para trás seu egoísmo e não se considerar o centro do mundo. A religião não se opõe à liberdade, ao desenvolvimento e à democracia. Hoje não é mais como na Idade Média.

EP - No Irã a combinação de instituições republicanas e religiosas produz alguns atritos. Chegarão a ser insustentáveis?
Khatami - As bases da República Islâmica são republicanas, e o xiismo, o ramo do islã que seguimos no Irã, permite a interpretação, a “ijthad”. Isso evita que ambas as normas (islâmicas e republicanas) se contradigam. Na prática pode haver alguns problemas, mas se pode resolver e conseguir que a sociedade respeite as normas religiosas. O imã Khomeini disse que em uma sociedade islâmica se as normas religiosas contradizem a sociedade devem ser mudadas. Esse é um dos objetivos principais dos reformistas. Por isso não vejo contradição entre as duas.

EP - O senhor considera que houve um recuo em parte do caminho que o senhor percorreu no Irã?
Khatami - Devo explicar que o reformismo não começou nem terminou comigo. O reformismo iraniano tem um século de história. Faz cem anos que os iranianos querem três coisas: liberdade, independência e desenvolvimento. A revolução teve o mesmo objetivo. Por isso vai continuar. Mas a sociedade tem altos e baixos. Às vezes vai mais depressa e às vezes mais devagar, mas não deixa de avançar. As comparações sobre o governo atual e o que eu presidi deixo para a população.

EP - O senhor pensa em ajudar a chapa reformista nas eleições legislativas de março?
Khatami - Vou animá-los. Tive contatos com Rafsanjani, Karrubi e outros políticos. Temos muitas idéias em comum: o mais importante é nos coordenarmos e não deixarmos resquícios entre nós.

EP - Há alguma diferença prática entre uma vitória dos reformistas ou dos conservadores?
Khatami - Nossos objetivos não mudaram. Somos contra a intervenção estrangeira e acreditamos que é preciso defender a população. Pedimos mais liberdade e a defendemos; queremos melhorar nossas relações com outros países; melhorar nosso nível científico e tecnológico; conseguir o investimento estrangeiro que exige o desenvolvimento econômico; potencializar o setor privado… Confiamos no país. O programa que os reformistas divulgarão nos próximos dias incluirá esses pontos. E se chegarem ao poder os colocarão em prática. Esse é o nosso desejo. Quanto às comparações, deixo-as para os outros.

EP - Fora do Irã, sua ambição nuclear causa preocupação. Durante seu mandato parecia que o entendimento era possível. Por que com seu sucessor mudou?
Khatami - A crise explodiu quando eu era presidente. Acreditávamos na necessidade de ter energia nuclear (…) e como membros do Tratado de Não-Proliferação temos direito a ela. A preocupação das potências é compreensível, mas não suas formas. O Irã não tem armas nucleares, nem pretende ter. Já dissemos isso muitas vezes. Os inspetores da ONU o comprovaram e 16 organizações de inteligência dos EUA ratificaram…

EP - Sim, mas dizem que o programa foi suspenso em 2003…
Khatami - Nisso temos que corrigi-los. Antes de 2003 também não tínhamos um programa nuclear militar. Se há preocupação sobre armas atômicas, é preciso olhar para os que as possuem: nossos dois vizinhos do leste e Israel, que tem o maior arsenal de todos. Por que se pressiona o Irã por querer energia atômica? É uma questão política. Os EUA sabotaram a via amistosa. Para voltar a ela, se exige que todo o mundo reconheça o direito do Irã à energia nuclear e que o Irã dê garantias objetivas de que não desvia essa tecnologia para um programa militar. O Irã não mudou nesse sentido. Continua disposto a colaborar com outros países e com os inspetores. Confio que se chegará a uma solução pela via do diálogo. Um diálogo justo resolverá a tensão nuclear.

El País
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O estratégico Oriente Médio

Lejeune Mirhan

Em linguagem econômica, a região do Oriente Médio produz uma das commodities mais estratégicas no planeta hoje, ainda que não renovável: o petróleo, commoditie que atinge a marca astronômica dos US$100.00 por barril.

MohamedAbou[1]

Há um debate entre cientistas e pesquisadores sobre por quanto tempo ainda o petróleo vai durar para abastecer o mundo. Se por dez mil anos seguidos a humanidade consumiu uma média diária de 20 Watts de energia (equivalente a uma lâmpada de árvore de natal ligada por 24h seguidas), e hoje consome cem vezes mais, isso se deve à descoberta da exploração do petróleo a partir de 1859 por Edwin Drake, nos Estados Unidos, num campo da Pensilvânia.

Alguns falam que as reservas mundiais dariam para 40 anos, outros para os próximos 75, e alguns ainda mencionam que durante o século XXI inteiro não haverá problema de falta de petróleo no mundo. Independente da verdade dessas afirmações, o que queremos demonstrar aqui é o potencial estratégico das reservas petrolíferas do Oriente Médio, particularmente dos países árabes (excluídas as reservas do Irã, país persa).

Os números podem variar de fonte para fonte, mas em números redondos, é seguro que todas as reservas dos países árabes significam hoje 60% de todas as reservas mundiais, estimadas num total de um trilhão de barris (nosso Brasil, nesse cenário, antes das descobertas dos campos gigantes, estava na faixa de no máximo 1% das reservas mundiais provadas). Os países árabes têm, portanto, pelo menos 600 bilhões de barris provados e em exploração comercial. Pela ordem de grandeza, os seguintes países árabes são produtores e exportadores de petróle/ Arábia Saudita (com 25% de todo o petróleo do planeta), Iraque (11%), Emirados Árabes Unidos (9,3%), Kuwait (9,2%), Líbia (2,8%), Qatar (1,5%), Argélia (0,9%), o que totaliza exatos 59,4% já mencionados.

Os países árabes, ao todo 23, sabem que precisam diversificar seu comércio internacional, exportar e importar produtos além da conta-petróleo. Estão fazendo investimentos em indústria pesada, mas jogam pesado na questão turística. Uma grande força na região. Nos Emirados Árabes, que acabam de inaugurar a primeira linha aérea direta entre Brasil e um país árabe, com seis vôos diários (a empresa aérea é a Fly Emirates, cuja sede fica em Dubai, capital do país), tem o único hotel sete (!) estrelas do mundo, cuja diária no quarto mais barato custa astronômicos mil dólares (algo como R$1,7 mil reais). Esse grande hotel está contratando garçons de vários países, vários deles brasileiros inclusive, para trabalhar (paga-se pouco, a miséria de 400 dólares, menos da metade da diária mais barata).

Como disse um diplomata brasileiro ouvido pelo Estadão, em reportagem alusiva ao potencial comercial dos países árabes com o Brasil: estamos chegando tarde à região. As potências do mundo inteiro sabem disso e lá investem e mantêm relações comerciais intensas. Em contrapartida, os países árabes investem seus petrodólares em negócios, empresas, bancos e indústrias dos países desenvolvidos. O Brasil precisa se preparar – e está se preparando – para receber esses investimentos em dólares originados da riqueza do petróleo da região.

Lula, depois de Dom Pedro II, foi o único chefe de Estado brasileiro a visitar um país árabe e compreender a importância desse comércio bilateral. Tanto que realizou a 1ª Cúpula dos Países árabes com a América do Sul em maio de 2005, em Brasília, após o seu primeiro giro pela região no final de 2004, onde visitou nove países e foi efusivamente recebido.

As exportações do Brasil para os países árabes vêm crescendo a cada ano. Se compararmos 2006 e 2007, veremos um incremento de 12% de crescimento na movimentação de recursos em dólares. Delegações imensas de empresários brasileiros visitam mensalmente os países árabes, participam de feiras para vender seus produtos e vice-versa. Exportamos em 2007 mais de sete bilhões de dólares em produtos de diversas naturezas. Não devemos deixar de lembrar que quando Lula tomou posse, as exportações em 2002 eram de 2,6 bilhões de dólares e hoje quase que triplicaram. Mas têm potencial para crescer ainda mais como avaliam os analistas em comércio exterior e a própria Câmara do Comércio Árabe-Brasileira. A estimativa de crescimento para 2008 é de pelo menos 10%. Isso será ainda mais incrementado com a realização da 2ª Cúpula de Países Árabes e da América do Sul (em país ainda a ser definido). A nossa pauta de exportações é tão diversificada que, segundo dados da Câmara, atingiu em 2007 mais de 2,2 mil produtos diferentes.

O presidente Lula planeja a sua terceira rodada para os países árabes ainda neste ano. E deve levar consigo os governadores do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, e de Minas Gerais, Aécio Neves, que têm grandes interesses no comércio bilateral. Falta a discussão detalhada das tarifas de importação e exportação, de forma a não prejudicar nenhuma empresa de nenhum setor no Brasil e em algum país árabe. É a política positiva exterior do nosso país, incrementada pelo presidente Lula que, sem desprezar a importância e o comércio bilateral com os países do Norte desenvolvido, passou a olhar mais e com prioridade os países do Sul. É o chamado comércio Sul-Sul, ao qual apoiamos que siga ocorrendo dessa forma e com mais intensidade se possível, para que se desenvolvam mais e mais as nossas economias e que a riqueza produzida possa ser bem distribuída entre as que a produziram, desejo de todos nós.

O Icarabe publicou na edição 135 de sua newsletter o artigo “A política não faz mais heróis”, de Mohammed Salah, uma reflexão sobre a atitude de Mohamed Abu Treika, jogador egípcio que, ao comemorar um gol na Copa Africana das Nações, mostrou uma camisa com os dizeres “Solidarize-se com Gaza”. A foto foi banida do Google. A informação, atribuída ao jornal saudita Al-Watan, é de que Israel pressionou o site de procura a remover todas as imagens do gesto do egípcio. De fato, em Imagens, se digitar “Sympathize with Gaza”, as fotos não aparecerão. Acima, a foto que documentou o momento em que o atleta ergue o uniforme e mostra a mensagem de apoio aos palestinos.

* As fontes de dados deste artigo, editado de publicação original no site www.vermelho.org.br, foram a Câmara de Comércio Árabe-Brasil, http://www.ccab.org.br/site/, e Artigo “Brasil busca petrodólares dos países do Golfo”, publicado no Estadão no dia 6 de fevereiro de 2008, página B6, Economia.

Lejeune Mirhan, sociólogo da Fundação Unesp, arabista e professor. Presidente do Sindicato dos Sociólogos, membro da Academia de Altos Estudos Ibero-árabe de Lisboa e da International Sociological Association.

Icárabe

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Brasileiros nos EUA retornam em massa ao Brasil

Brian R. Ballou

Francisco Neto trocou o Brasil por Marlborough, em Massachusetts, em 1995, atraído pela sua versão do sonho norte-americano: a possibilidade de contar com um salário estável e uma taxa de câmbio que triplicaria o dinheiro que ele enviaria para casa a fim de ajudar os parentes em dificuldades.

Mas após quase 12 anos, ele pretende retornar para Goiânia, a sua cidade natal, na região centro-oeste do Brasil, juntando-se a grupo de milhares de brasileiros que não enxergam mais vantagem em morar aqui. O declínio do dólar reduziu pela metade o valor dos US$ 700 que Neto envia para casa todos os meses: cinco anos atrás, essa quantia valia RS$ 2.450. Hoje ela vale apenas RS$ 1.225.

Esse declínio do dólar, conjugado a uma economia brasileira em expansão, está fazendo com que os brasileiros reavaliem as dificuldades de se viver nos Estados Unidos, longe de suas famílias, em um país no qual muitas vezes é difícil ser imigrante, até mesmo para alguém que possui visto de residência, como Neto.

“Durante um longo período, foi ótimo”, afirma Neto, 39, fazendo uma pausa na semana passada no seu trabalho como entregador de encomendas para a Kodak. “Eu enviava a minha família cerca de US$ 700 mensais. Mas no ano passado a situação ficou muito pior. Tive que pagar pela minha gasolina, e, tendo uma família aqui, eu e a minha mulher trabalhávamos sem parar, e mesmo assim estávamos quebrados”.

Segundo estimativas do Centro Brasileiro do Imigrante, uma agência sem fins lucrativos com sede em Allston, no Estado de Massachusetts, um número estimado de 5.000 a 7.000 brasileiros deixou Massachusetts e retornou ao Brasil em 2007. O centro calcula que de 2.000 a 3.000 brasileiros retornaram a sua terra natal em 2006.

O censo dos Estados Unidos de 2000 registrou 39 mil pessoas de ascendência brasileira morando no Estado; o número aumentou para 73 mil em 2006, de acordo com a American Community Survey, uma pesquisa demográfica anual realizada pelo Birô do Censo dos Estados Unidos. Mas esse número não inclui os brasileiros que vivem aqui sem a documentação apropriada. Alguns estimam que o número total de imigrantes brasileiros chegue a 230 mil.

Fausto da Rocha, diretor executivo do Centro do Imigrante Brasileiro, diz que o dólar fraco é apenas um dos diversos motivos pelos quais os brasileiros estão voltando para casa. Os brasileiros são o segundo grupo de imigrantes ilegais que mais cresce nos Estados Unidos, e muitos ficaram profundamente desapontados no verão passado quando o Congresso norte-americano não aprovou um projeto de lei que daria a milhões de imigrantes uma chance de se inscrever para o visto de residência legal.

Ele prevê que em 2008, de 7.000 a 10 mil brasileiros poderão voltar ao Brasil.

“Isso tem muito a ver também com uma falta de esperança”, afirma Rocha. “Quando Deval Patrick foi eleito governador, houve muita esperança de que a situação melhoraria para os imigrantes, mas a condição deles tornou-se ainda pior. Uma alta percentagem de trabalhadores não conta com papéis de imigração, e eles precisam de um carro para trabalhar. Assim, eles estão dirigindo sem documentos, e a Polícia Estadual os têm parado e denunciado”.

Mário Saade, o cônsul geral do Brasil em Boston, diz que há provavelmente mais brasileiros partindo do que em qualquer outro período no passado. Mas Saade também diz achar que o número seja inferior a 7.000, baseado no número de brasileiros que procuram os serviços consulares, que manteve-se estável entre 300 e 400.

Saade diz que o fracasso da lei de reforma da imigração no ano passado foi um grande golpe para muitos brasileiros daqui, e afirma que a economia brasileira, que experimentou um crescimento de 5,5% no ano passado, pode estar estimulando muitos a retornar.

“A economia do Brasil está atualmente no seu melhor estado em vários anos, e existem mais oportunidades de trabalho lá”, diz ele. “Existem setores que estão prosperando, especialmente na construção civil, e a maioria dos brasileiros que estão aqui trabalha na construção civil”.

Álvaro Lima - o brasileiro que é diretor de pesquisa da Autoridade de Redesenvolvimento - calcula que o número total de brasileiros em Massachusetts não seja superior a 200 mil. Embora afirme que as pessoas estão retornando, ele duvida que 7.000 pessoas estejam voltando ao Brasil.

“Pode até estar acontecendo, mas não sei se está ocorrendo em tal escala”, afirma Lima.

Rocha diz que as suas estimativas baseiam-se em entrevistas com a Rede de Pastores Brasileiros e as agências de viagens. Os brasileiros recém-chegados costumam procurar igrejas da área para entrarem em contato com a comunidade, e muitas vezes tornam-se membros. Os pastores conversam com brasileiros que estão pretendendo voltar ao Brasil, e sabem quando eles partiram.

Rocha diz ter feito pesquisas junto a diversas agências de viagens que atendem aos brasileiros, tendo descoberto um aumento drástico da venda das passagens só de ida, especialmente para Minas Gerais, o Estado natal da maioria dos brasileiros que vivem na região.

Alguns donos de negócios brasileiros dizem ter notado um grande número de partidas e ditam uma queda drástica da clientela, nos bairros brasileiros das comunidades de Massachusetts, onde butiques, restaurantes e outros negócios exibem orgulhosamente a bandeira brasileira nas vitrines.

Em duas joalherias no centro de Framingham, os negócios caíram acentuadamente. Geni Luz, gerente da Joyce Jewelry, diz que a loja presenciou uma queda de 40% no número de clientes no último ano, em relação ao ano anterior, porque esses clientes retornaram ao Brasil.

“Eles dizem que estão voltando porque não querem ficar aqui ilegalmente, sem carteira de motorista ou o cartão de Social Security”, afirma Luz. “Eles estavam esperando que a lei de imigração fosse aprovada, mas isso não ocorreu”.

João Freitas, dono da Vera Jewelers, diz que dezenas dos seus clientes regulares voltaram ao Brasil.

“Começamos a perceber isso no início do ano passado”, conta Freitas. “Então, quando a lei de imigração não foi aprovada, as pessoas ficaram bastante desapontadas e começaram a comprar as passagens de volta”.

Freitas diz que muitos imigrantes que estão pensando em retornar ao Brasil estão aguardando para ver como se sai a primeira onda de brasileiros que retornaram. Segundo ele, vários outros estabelecimentos, como a Brazilian Pizza e o Adrianna’s Beauty Salon, faliram porque uma grande quantidade de seus clientes partiu.

Neto, que tem visto de residência permanente, juntamente com a mulher, Elaine, 38, decidiu em novembro passado que a família retornaria ao Brasil. Elaine e a filha de 14 anos do casal já voltaram, e ele pretende partir assim que consiga juntar dinheiro suficiente para abrir um pequeno negócio no Brasil.

Neto diz que trabalha até 70 horas por semana em vários empregos, e que a sua mulher tinha uma carga de trabalho quase igual. “Esta é uma maneira terrível de viver, de criar uma filha”, queixa-se ele. “Nunca nos víamos. Na nossa terra natal, pode ser que não ganhemos tanto dinheiro, mas poderemos passar mais tempo juntos”.

The Boston Globe
http://www.boston.com/news/globe/

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Liberdade para o topo do mundo

Encravado nas encostas do Himalaia, o Tibete sofre com a dominação de potências estrangeiras desde o século XIII. Há quase 100 anos, luta contra a supremacia chinesa sobre seu território

Charles Meyer

O país das neves eternas, abençoado pelos deuses. É assim que os tibetanos vêem sua terra natal. Situado no Himalaia, entre a China e a Índia, o Tibete entrou na história oficial apenas no início do século VII, quando se tornou um reino poderoso, que estendeu seu domínio desde a Alta Birmânia até o Turquistão. Um século depois, o budismo invadiu suas fronteiras e mudou para sempre a região. A conversão em massa acalmou os ardorosos guerreiros e grandes monastérios espalharam-se por seu território.

A partir daí, a trajetória desse pequeno reino encravado nas montanhas oscilou entre a dominação e a liberdade. No século XIII, foi conquistado pelos mongóis sob o comando de Gêngis Khan. Duzentos anos depois, livre da supremacia estrangeira, o poder passou aos dalai-lamas (ver glossário). Mas, no século XVIII, os imperadores chineses da dinastia Manchu anexaram o território tibetano e transformaram-no em província, mantendo dois ministros permanentemente encarregados de vigiar e controlar o governo local. Além disso, a China instalou lá uma força armada de 3 mil homens – mil em Lhasa, mil em Xigatse e mil nas fronteiras. O Tibete tornou-se assim um protetorado chinês, sob a autoridade de fachada do dalai-lama.

No século XIX, o país recuperou boa parte de sua independência quando a China enfrentou as intervenções armadas de potências européias e do Japão, que começaram a despedaçar o império dos Qing. No início do século XX, o problema do Tibete passou a ser a Grã-Bretanha: senhores das Índias, os ingleses desejavam o planalto tibetano, cobiçado também pelos russos engajados no Turquistão. Em 1904, a capital Lhasa foi ocupada por tropas britânicas que forçaram o governo a aceitar um tratado comercial com a Índia, já aceito pela China. O coronel Younghusband estava no comando e assim permaneceu até 1908, com uma centena de soldados britânicos e milhares de mercenários nativos, além de 10 mil carregadores e 30 mil animais de carga sob suas ordens.

Dois anos depois, um acordo anglo-chinês reconheceu a soberania da China sobre o Tibete, que imediatamente vivenciou um levante popular. Os chineses determinaram o restabelecimento da ordem a qualquer custo e designaram o comissário imperial Shao Erfeng para a missão. Com pulso de ferro, ele recebeu o apelido de “matador de lamas” depois de ter cumprido sua tarefa com precisão.

Para escapar dos ingleses e dos chineses, o 13o dalai-lama refugiou-se na Índia. Em 1911, com a proclamação da República da China, o líder voltou a Lhasa e declarou que se sentia libertado dos laços de submissão que ligavam seu país ao império deposto. Mas, em resposta, o governo de Pequim rapidamente disse que o Tibete ainda integrava seu território.

MINORIA ÉTNICA
Até 1932 a paz foi relativa. Mesmo com as querelas internas da China, entre os tibetanos não havia a impressão de que o compromisso dos dois países duraria muito. Porém, em 1927, o Tibete central foi proibido aos estrangeiros e conservou suas estruturas medievais e teocráticas durante a Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945) e até o fim da guerra civil entre nacionalistas e comunistas (1927 a 1949).

Nesse interím, em 1935, o 14o e atual dalai-lama foi escolhido e levado ao trono aos 6 anos, conforme a tradição. A ascensão de Mao Tse-tung em 1949 iria transformar esse quadro: em outubro de 1950, o exército chinês ocupou o país. Um acordo de “libertação pacífica” com 17 pontos, assinado em Pequim em 23 de maio de 1951, incorporou o Tibete à República Popular da China como uma “minoria étnica gozando de autonomia interna”. O texto assegurava que as autoridades centrais não modificariam o sistema político existente no Tibete, “tampouco as funções e os plenos poderes existentes do dalai-lama”. Além disso, “os funcionários das diversas categorias” permaneceriam “em seus postos”. E reafirmava a liberdade de crenças e a proteção dos monastérios, “no respeito às tradições existentes”. A Índia aprovou, o dalai-lama ratificou.

O novo regime de força instalado em Pequim, no entanto, pretendia impor sobre o Tibete o peso da autoridade, como todos os seus predecessores. Para a maioria dos tibetanos, monges ou laicos, a retomada do controle chinês ainda parecia uma espécie de fatalidade histórica e periódica, que não afetava muito sua vida cotidiana. Cinco anos depois, ficou evidente que a tutela política implicaria a integração dos tibetanos à nova sociedade comunista, para a qual ninguém os havia preparado, e a implementação de uma “modernização” que não fazia sentido para eles. A intromissão chinesa na vida econômica, social e cultural, as pressões sobre o dalai-lama e seu governo e a formação ideológica forçada da juventude também colaboraram para suscitar revoltas locais.

Em 1956, o exército cercou e bombardeou o monastério de Litang. Em 1958, os khampas, população de formação guerreira que habita a região do Khan, no leste, foram finalmente submetidos ao domínio estrangeiro, enquanto a tensão aumentava no sul. Nesse quadro de ebulição, o governo tibetano denunciou o acordo forçado de 1951 e foi imediatamente substituído por um “comitê preparatório para a região autônoma do Tibete”, que engajaria o país “na edificação do socialismo”, impondo de forma autoritária medidas incompreensíveis e insuportáveis para a maioria dos tibetanos. Mao Tse-tung reconheceu que eles “eram teimosos e não tinham nenhuma tendência a mudar suas idéias”. O alto clero budista, seguido por dezenas de milhares de monges, formou uma resistência passiva às transformações da sociedade tradicional e até à abolição da servidão.

Em 17 de março de 1959, o dalai-lama se refugiou entre os indianos, e dois dias depois, Lhasa foi tomada por uma insurreição. O levante seria derrotado em 72 horas pelo exército chinês, que bombardeou os palácios de Potala e Norbulinka. Os combates fizeram milhares de vítimas. Mais de 20 mil monges e laicos refugiaram-se na Índia e no Nepal. Chamada a responder pela “questão tibeteana”, a ONU (Organização das Nações Unidas) contornou o fato com uma resolução embaraçosa. No final de 1960, o exército chinês investiu sobre o grande monastério de Tashi Lhunpo, fundado em 1429, expulsando de lá seus 4 mil monges.

Quatro anos depois, o Tibete iniciaria uma longa agonia de 10 anos pela revolução cultural que agitava a China. Seus cultos foram proibidos e 2 mil monastérios e templos lamaístas, repletos de tesouros artísticos e grandiosas bibliotecas, foram saqueados. Os monges e os fiéis, perseguidos, tiveram de enfrentar o trabalho forçado no campo e muitos faleceram.

Em 1965, o governo central conferiu ao Tibete o estatuto de “região autônoma do Xizang” e declarou, mais uma vez, que ele seria para sempre “uma parte inalienável da China”. O termo se endereçava ao mundo chinês com o objetivo de reafirmar a unidade, e aos tibetanos, para adverti-los contra qualquer tentativa de independência.

A morte de Mao, em 9 de setembro de 1976, colocou um ponto final na revolução cultural. Entretanto, seria necessário esperar ainda cinco anos para que os dirigentes chineses tecessem um relatório dos méritos e dos erros do “Grande Timoneiro”, que “estava fora da realidade, confundindo o que era e o que não era justo…”, cujo “comportamento subjetivo e autoritário tinha se acentuado com a idade”. O governo central restabeleceria a liberdade dos cultos e da educação tradicional, restituindo aos camponeses os bens e os direitos que lhes foram confiscados. O panchen-lama, que havia passado nove anos e oito meses nos cárceres chineses, voltou às suas funções. Houve também tentativas de reaproximação com o dalai-lama e os exilados, convidados a voltar ao Tibete. Entre 1979 e 1987, cerca de 40 emissários enviados de Dharamsala – o vilarejo indiano onde o governo refugiado do Tibete está instalado –foram a Pequim, mas as negociações não resultaram num acordo.

As pequenas possibilidades de entendimento terminaram nos dias 27 de setembro e 1o de outubro de 1987, quando manifestações de jovens lamas que reclamavam a independência se transformaran em motim, reprimido com um banho de sangue. Um pouco antes, o dalai-lama havia elaborado o Plano de Paz de Cinco Pontos para o Tibete, um projeto para a pacificação da região que foi apresentado oficialmente no Congresso dos Estados Unidos. Da proposta constava a transformação de todo o Tibete em uma zona de paz; a cessação da política chinesa de transferência de população, considerada uma ameaça a existência dos tibetanos como povo; o respeito pelos direitos humanos fundamentais dos tibetanos, bem como de suas liberdades democráticas; a restauração e proteção do ambiente natural tibetano e abandono do uso de seu território para produção de armas nucleares para a China; e o início de negociações sérias sobre o futuro status do Tibete e das relações entre os povos chinês e tibetano. Porém, o governo chinês nunca deu uma resposta sobre o documento.

LEI MARCIAL
A efervescência voltaria no ano seguinte. Antes de sua morte, em janeiro de 1989, o panchen-lama enviou uma advertência ao governo central em que alertava para a dificuldade de encontrar uma solução caso a força continuasse sendo utilizada. Mas, em 5 de março, foi proclamada a lei marcial, que vigorou até 1o de maio de 1990.

Quase duas décadas se passaram e agora a situação é muito mais perversa: em vez da anexação pela força, o Tibete sofre com a pressão econômica. Há 30 anos, os chineses introduziram no país um modelo de desenvolvimento irreversível em comunicações – 21 mil km de estradas, rotas aéreas, televisão –, educação e saúde pública, o que modificou profundamente essa sociedade. Resta aos próprios tibetanos a sabedoria para conciliar a modernidade emergente e a conservação de seus valores culturais, que fazem parte do patrimônio da humanidade – sem intervenções exteriores “bem-intencionadas”.

CRONOLOGIA
127 a.C.
Ascensão da dinastia militar que reinará no Tibete por oito séculos

617 d.C.
O imperador Songtsen Gampo, 33o rei do Tibete, cria o alfabeto, estabelece o sistema legal e colabora com a expansão do budismo, construindo vários templos

755
Durante o reinado de Trisong Detsen (755 a 797), o budismo é estabelecido como religião oficial. Desenvolvem-se estudos em matemática, medicina, política, arquitetura e poesia

Século XIII
O Tibete é incorporado ao Império Mongol

1355
Nasce Tsongkhapa, um dos grandes reformadores do budismo tibetano e fundador da escola Gelug, de onde surgirão os dalai-lamas

1419
A morte de Tsongkhapa marca uma grande rivalidade entre as escolas budistas do Tibete. Segue-se então um período de lutas pelo poder entre as famílias nobres de Ü e Tsang, e a dinastia Ming (1368-1644), que reinava na China, toma territórios tibetanos nas fronteiras

1790
Guerra contra o Nepal

1904
Ingleses ocupam Lhasa e forçam o governo tibetano a aceitar o tratado comercial com a Índia. Tubten Gyatso, 13o dalai-lama parte para o refúgio e volta apenas cinco anos depois

1910
Tropas chinesas ocupam Lhasa

1937
O 14o dalai-lama é descoberto

1949
É fundada a República Popular da China

1951
O governo chinês impõe o Acordo pela Libertação Pacífica do Tibete

1959
Milhares de pessoas protestam contra a invasão chinesa. O dalai-lama foge para a Índia, onde pede asilo político

1987
O dalai-lama propõe o Plano de Paz de Cinco Pontos para o Tibete

1989
Declarada lei marcial no Tibete

1995
O menino tibetano Gedün Chökyi Nyima é reconhecido como o 11o panchen-lama. O governo chinês seqüestra Gedün por “motivos de segurança”, tornando-o o prisioneiro político mais jovem do mundo, segundo a Anistia Internacional

FONTE: COMITÊ BRASILEIRO DE APOIO AO TIBETE

MIAMAR: UM ENCONTRO COMPLEXO
Bem próximo ao Tibete, outro país vivencia a resistência pacífica dos monges budistas contra um regime autoritário: Mianmar. O território, antes conhecido como Birmânia, ganhou as páginas dos jornais no segundo semestre de 2007, quando religiosos saíram às ruas para reivindicar o fim da repressão militar que já dura duas décadas. Na ocasião, o dalai-lama divulgou uma nota em apoio aos manifestantes em que, “na qualidade de monge budista”, pedia “aos membros do regime militar que acreditam no budismo que atuassem com espírito de compaixão e não-violência”.

Os protestos começaram em repúdio ao aumento do preço dos combustíveis, imposto pelo governo. O transporte coletivo e os gêneros de primeira necesidade ficaram mais caros, o que provocou um impacto muito forte na vida cotidiana. Depois dos primeiros dias de levante, a pauta foi expandida e os manifestantes passaram a exigir a redemocratização do país. Antes disso, a última manifestação pró-democracia havia sido realizada em agosto de 1988 e foi duramente reprimida, deixando mais de 3 mil mortos. Desta vez, centenas de pessoas foram presas e feridas. Há também registros de assassinatos cometidos pelas tropas governamentais.

Os monges foram essenciais para que o levante crescesse. Em Mianmar, cerca de 90% da população é budista, e os religiosos exercem, muitas vezes, o papel de líderes comunitários. A sua influência política já é antiga, remonta à ocupação britânica no final do século XIX, quando os monges adotaram uma postura de conflito com os estrangeiros, inicialmente pela recusa deles em retirar os sapatos ao entrar nos templos budistas, sinônimo de desrespeito à religião. Além dos britânicos, os mongóis e os japoneses ocuparam o país, em uma história que esbarra na do Tibete. (Da redação)

GLOSSÁRIO
DALAI -LAMA: líder político e religioso do Tibete, é um monge formado pela escola Gelug e reconhecido por todas as escolas do budismo tibetano. “Dalai” significa oceano, em mongol, e “lama” é a palavra tibetana para mestre, guru. “Oceano de Sabedoria” é o título dado pelo regime mongoliano à Altan Khan, o terceiro dalai-lama, e agora aplicado a cada encarnação na sua linhagem. Qualificados de “preciosos soberanos”, são reconhecidos como reencarnações de Avalokistesvara, o Sábio da Compaixão. O atual e 14o dalai-lama é Tenzin Gyatso.

PANCHEN-LAMA: reencarnações de Amintabha, o Buda da Luz Infinita. No século XVII tornam-se conselheiros espirituais dos dalai-lamas.

História Viva
http://www2.uol.com.br/historiaviva/

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Prêmio Nobel diz ter sido mais feliz quando era louco

“Cheguei a um ponto em que era mais feliz louco que são”, diz John Forbes Nash, prêmio Nobel de Economia , cientista que foi esquizofrênico e inspirou o filme “Uma Mente Brilhante”

Lluís Amiguet

Tenho 79 anos. Nasci na Virgínia Ocidental. Tenho dois filhos: estive casado, deixei de estar e agora volto a estar. As estatísticas demonstram que é melhor estar casado. Seria penoso explicar toda a minha evolução religiosa. Votar é fácil e pouco. Colaboro com a Universidade Pompeu Fabra (Barcelona). A entrevista:

La Vanguardia - Por que lhe deram o prêmio Nobel de Economia?
John Forbes Nash - Descobri uma forma de equilíbrio -hoje chamado de Nash- na teoria dos jogos: um ponto em que nenhum dos jogadores pode melhorar sua situação. Hoje esse conceito é aplicado de forma interdisciplinar.

LV - Fez essa descoberta apesar de sua enfermidade mental?
Nash - Tenho um histórico, sim, de distúrbio mental temporário que se manifestava de diversas formas. Hoje temos medicamentos que na época não existiam, que tratam os sintomas e permitem continuar com o que se considera uma vida normal, mas têm efeitos indesejáveis.

LV - Quais?
Nash - Para restituir sua normalidade, reduzem sua atividade neurológica e suas funções cognitivas. O devolvem à normalidade, sim, mas às custas de sua capacidade pessoal de raciocínio.

LV - E hoje o senhor o exerce integralmente?
Nash - Eu posso trabalhar, mas meu filho, que também sofre esse distúrbio, toma esse medicamento que não lhe permite se dedicar a nada concretamente; mas pode observar um comportamento normal.

LV - Como se manifestou esse transtorno?
Nash - Tive de ser internado em um hospital depois de vários episódios de disfunção social, e afinal melhorei, mas não pude evitar um poço de infelicidade em meu ânimo e em minha conduta.

LV - A que se refere?
Nash - Era infeliz ao me recuperar, porque a normalidade não me deixava feliz. A loucura começa quando você descobre uma segunda realidade em sua mente e às vezes a prefere, porque o faz mais feliz que a normalidade. Assim, cheguei a um ponto em que eu era mais feliz louco do que são.

LV - Mas era capaz de distinguir entre a realidade e sua ilusão?
Nash - Chega um momento em que fica difícil distingui-las e você vai escolhendo cada vez mais a ilusória. Assim se transforma em disfuncional.

LV - Disfuncional em que sentido?
Nash - É natural que um ser humano deva atuar com o resto do grupo: trabalhar, observar as normas, comportar-se como todos…

LV - Há exceções.
Nash - Correto. Suponhamos que eu não trabalhe nem seja rico e diga que ouço vozes, tenho visões e as desenho ou escrevo: o que você pensaria?

LV - Talvez sugira que poderiam interná-lo.
Nash - Suponhamos que eu lhe diga que sou um monge enclausurado. Você aceitaria que uma freira ou um monge em seu convento pode não trabalhar, ter visões e explicá-las, no entanto esse monge não será considerado anormal por isso.

LV - Certamente.
Nash - A sociedade os aceita porque, fora eles, há muitos e suficientes outros homens e mulheres que se comportam de forma normal.

LV - A maioria tem senso comum.
Nash - Falso. O senso comum não é majoritário: por exemplo, na Espanha e no Ocidente o cristianismo é a religião majoritária…

LV - Continua sendo, sim.
Nash - … mas o cristianismo exige de seus fiéis fé cega em dogmas que em caso algum poderiam ser considerados senso comum.

LV - A trindade ou a virgindade de Maria.
Nash - Hoje eu vi a obra de Gaudí: magnífica.

LV - Sem dúvida.
Nash - Apesar de não conhecer sua vida, tenho certeza de que foi considerado um anormal, um louco.

LV - Creio lembrar-me que sim.
Nash - Van Gogh também tinha problemas para discernir a realidade de suas visões. O que me pergunto é se a medicação que temos hoje teria sido capaz de devolver a normalidade a Van Gogh sem privá-lo de seu talento.

LV - …
Nash - No entanto, o progresso teria sido difícil sem as visões de Van Gogh ou o autismo de Newton. Newton também foi considerado um tipo suspeito: não se casou, era estranho…

LV - O senhor acredita que Newton precisava de medicação?
Nash - Era Newton, mas nem todos os doentes são gênios. Muitas vezes a diferença entre um louco e um gênio esteve na quantidade de dinheiro que ganhava. Van Gogh acabou se suicidando também por ser pobre, e hoje meu filho recebe um subsídio federal que eu não ganhei porque não existia. Esse subsídio é importante para evitar que um doente mental seja marginalizado por não ser rico e não trabalhar.

LV - O que o senhor achou do livro e do filme sobre sua pessoa, “Uma Mente Brilhante”?
Nash - O livro foi feito sem contar comigo, e embora a autora tenha acumulado uma quantidade de informações notável também acumulou uma quantidade notável de erros.

LV - E o filme com Russell Crowe?
Nash - Os autores foram mais cooperativos conosco. Assinamos um acordo com a Universal Studios. Isso não quer dizer que esse filme tenha muito a ver com a minha vida.

LV - Isso não pareceu importar muito a eles…
Nash - … a ninguém exceto a mim. Na realidade, tem muito pouco a ver com a minha vida. Você acredita que me pareço com Russell Crowe? Mas é um filme com valores estéticos e uma boa mensagem proativa para os doentes mentais.

LV - Em que trabalha agora?
Nash - Questiono o conceito keynesiano de inflação. Também me interessa a teoria das cordas da física teórica e suas derivações na antropologia e nas ciências sociais.

LV - Conte-nos, por favor.
Nash - Talvez o universo não seja indiferente à nossa existência: temos um instinto descobridor manifesto na colonização da América que nos levará para fora do planeta antes que ele entre em colapso.

La Vanguardia

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Obama, Tocqueville e a ilusão americana

FRANCISCO DE OLIVEIRA

TOCQUEVILLE ESTÁ entre os mais reputados teóricos da democracia, e seu livro clássico sobre a democracia na América em nada se parece com os tratados enfadonhos e formais sobre a forma de governo inventada pelo gregos da época clássica. Trata-se de investigação sobre os fundamentos, eu diria, sociológicos, da democracia nos EUA; nosso Sérgio Buarque de Holanda fez, com o também clássico "Raízes do Brasil", a explicação de por que a forma democrática é quase inviável em Pindorama.
Mais de um século depois, o belicista Churchill cunhou outro paradoxo, plagiando Tocqueville: a democracia é o pior de todos os regimes, salvo todos os outros. O velho leão britânico somente aprenderia a não incentivar guerras coloniais -"remember" a Guerra dos Bôeres- depois que o nazismo ameaçou liquidar a velha Albion e submeter o mundo ocidental a uma nova idade das trevas.
Barack Obama, parece, será o indicado pelos democratas para a disputa da Casa Branca, desbancando a chata da Hillary, coisa que talvez se defina logo no próximo dia 4. Para os leitores de Tocqueville, talvez sua eleição à mansão sem estilo da avenida Pensilvânia pareça realizar os prognósticos do nobre francês. Mas aqui entra o famoso paradoxo de Tocqueville, segundo o qual a ampla democratização torna banal a participação dos cidadãos e desinteressante a democracia.
O forte absenteísmo dos próprios norte-americanos às suas eleições presidenciais confirmaria o pessimismo tocquevilleano. Em termos schmittianos, a democracia de massas é não-agônica, onde não se decide nada. Não falta ao paradoxo de Tocqueville, como é óbvio, um certo desdém aristocrático, que o autor francês disfarça todo o tempo.
Uma crítica de direita se alinharia apressadamente ao paradoxo, desqualificando imediatamente a eleição do primeiro negro à Presidência dos EUA. Uma crítica pela esquerda vê o problema de outro ângulo: o paradoxo de Tocqueville não decorre da banalização da democracia pelo predomínio das massas, mas é um produto da colonização da política pela economia. Em outras palavras, o capitalismo, em sua fase globalitária, torna inútil a política e irrelevante a participação dos cidadãos. Nos EUA, é certo que decisões como a invasão do Iraque foram até mesmo planejadas no Salão Oval, mas antes o celerado Bush filho teve que pedir permissão a Alan Greenspan, o ex-todo-poderoso presidente do Fed; aliás, esse senhor atravessou os dois mandatos de Clinton e entrou pelo mandato de Bush adentro, somente renunciando um ano e meio atrás, e os norte-americanos nunca votaram nele para coisa alguma. E o Senado norte-americano, que ratifica as indicações presidenciais, faz-lhe uma argüição que é tão contestadora quanto os programas de Silvio Santos. Isso é a colonização da política pela economia.
Entre nós, mesmo a própria democratização brasileira, de que o PT foi co-autor importante, é hoje irrelevante: em lugar da transformação prometida pelos longos anos da "invenção democrática", o PT e Lula transformaram-se em fiadores do capitalismo globalitário no Brasil. Vejam-se, como já se salientou aqui mesmo nesta Folha, os lucros do sistema bancário brasileiro e o tratamento do social: meros R$ 8 bilhões para o Bolsa Família, o ai-jesus de Lula e do lulo-petismo, e R$ 160 bilhões de juros da dívida pública interna. Ou em 2007, os R$ 20 bilhões do lucro dos quatro maiores bancos contra os R$ 21 bilhões de todo o Orçamento social de Lula (incluindo-se seguridade social, Bolsa Família et al).
Tomara que Obama desminta o paradoxo de Tocqueville; tomara que suspenda imediatamente o odioso embargo contra Cuba, aproveitando inclusive a oportunidade da retirada de Fidel da linha de frente do governo cubano; tomara que retire as tropas do Iraque, terminando de vez com esse desastre anunciado; tomara que retome a linha de um Jimmy Carter, não apoiando as ditaduras e o descarado intervencionismo gringo; tomara que inaugure uma linha próxima do New Deal rooseveltiano e detenha o empobrecimento das classes populares norteamericanas e a crescente desigualdade; tomara que um desastre como o Katrina não possa outra vez expor a olho nu a produção desapiedada da pobreza, escondida no charme da outrora francesa Nova Orleans. Tomara. Mas que é improvável, é. Ele é tão parecido com a Hillary, com seu terninho correto que faz par com o tailleur da ex-primeira-dama, quanto o PT com o PSDB. Tocqueville ri na tumba?


FRANCISCO DE OLIVEIRA, 74, é professor titular aposentado do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

Folha de S. Paulo

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Revista Veja: O professorado e a "baboseira ideológica"

Gabriel Perissé

A edição nº 2047 (de 13/2/2008) da revista Veja dedicou um espaço considerável ao tema da educação nacional. A entrevista com a secretária estadual de Educação em São Paulo, Maria Helena Guimarães de Castro, e os artigos dos economistas Claudio de Moura Castro e Gustavo Ioschpe compõem uma espécie de concepção "vejiana" da educação.
A secretária Maria Helena enfatiza que um dos maiores problemas da deplorável situação da educação em São Paulo (leia-se, por exemplo, matéria da Folha, publicada faz um ano) é o insatisfatório nível profissional dos professores. Os professores seriam incapazes de dar boas aulas. Quando a jornalista Monica Weinberg lhe pergunta qual o caminho para melhorar esse nível, a resposta da secretária é, digamos, corajosa: "Num mundo ideal, eu fecharia todas as faculdades de pedagogia do país, até mesmo as mais conceituadas, como a da USP e a da Unicamp, e recomeçaria tudo do zero." Essas faculdades apenas perpetuariam "baboseira ideológica".
Maria Helena é socióloga, mestre em Ciência Política pela Unicamp e, segundo informações oficiais, está concluindo doutorado na USP em Ciências Sociais. Sua crítica, portanto, é de quem se sente apta a julgar como totalmente ineficazes os professores que ao longo das últimas décadas deram o tom da formação pedagógica brasileira. Pensemos nas aulas, conferências e escritos de Dermeval Saviani (Unicamp) e Antonio Joaquim Severino (USP), para mencionar, entre tantos outros, dois acadêmicos de prestígio.

O modelo da gincana
Seriam os doutores em pedagogia os principais responsáveis por fomentar vários mitos que atrapalham a educação pública. Para Maria Helena, é um mito afirmar que o aumento salarial dos professores ou um plano de carreira influenciariam a melhoria do ensino. Na sua opinião, dinheiro (para falar curto e grosso) não resolve. A menos que esteja vinculado a uma "política de reconhecimento do mérito". Por isso, a secretária pretende pagar bônus a todos os que, numa escola - funcionários, professores e diretor - "levarem" os alunos a alcançar determinadas metas de bom desempenho. Os bônus poderão chegar a três salários por ano.
Imagina Maria Helena que os professores, motivados pela perspectiva de um prêmio pecuniário, insuflados pela súbita adoção da meritocracia (como se esta existisse no plano político…), realizarão o milagre de transformar a realidade educacional. Essa metodologia do burro atrás da cenoura sussurra aos ouvidos do professor: "Quer mais dinheiro? Então trabalhe mais!" Não leva em conta os problemas reais que tornam a boa vontade e o esforço do docente, por maiores que sejam, fonte de mais estresse. Contudo, e vai aqui simplória sugestão - uma vez que os bônus estarão condicionados ao desempenho dos alunos, por que não prometer também aos estudantes uma participação? Uns 5% poderiam incentivá-los a colaborar com essa escola de resultados!
A idéia simplista de que a repetência, o abandono escolar (vale a pena ler matéria do Correio Braziliense), o desinteresse crônico, a indisciplina, o fraco rendimento etc. devem-se sobretudo à falta de bons "dadores de aula" demonstra que o estilo "PSDB" de governar não tem condições de analisar a realidade educacional e oferecer soluções melhores do que o modelo da gincana. Quem correr mais, quem tiver sorte e/ou for mais criativo, atinge os objetivos, ganha pontos e arrebata o prêmio.

Formação humanística
Não poucos alunos enfrentam problemas fora da escola (famílias desestruturadas, ambiente social adverso, falta de valores, de referências, carências alimentares e de saúde) e esses problemas geram novas e complexas dificuldades na sala de aula, associadas a outros mil problemas que independem de uma boa aula. Aliás, impedem a boa aula que o bom professor porventura preparou. Como poderá a cenoura bonificadora fazer professores e diretores deterem o tráfico de drogas que invade as escolas, consertarem móveis quebrados, reformarem os banheiros, transformarem salas sem ventilação em paraísos didáticos, evitarem a violência entre os alunos?
Há professores despreparados? Há. Escolheram o magistério por idealismo (acreditaram na pedagogia do amor à la Gabriel Chalita, ex-secretário da Educação no tempo de Geraldo Alckmin) ou por falta de alternativas. São sobreviventes de um ensino básico sofrível, de um ensino médio deficiente, falta-lhes até mesmo estrutura física e emocional para dar conta da sobrecarga de classes, expediente necessário na luta por somar salários.
Há professores que faltam muito? Sim. Os que faltam, não raro, fogem das condições de trabalho: indisciplina incontrolável, humilhações e arbitrariedades que usurpam sua autonomia, falta de recursos materiais, falta de tempo e de saúde por excesso de atividades. Lembrando que a maioria feminina entre os docentes põe em jogo outra questão para além da sala de aula. São as mulheres que, professoras com 30 a 40 horas/aula por semana, estão sobrecarregadas também pelas tarefas domésticas.
E não só isso. Educar, ensinar, é tão ou mais exigente do que outras exigentes profissões. Requer a prática da comunicação, o dom da invenção, a capacidade de avaliar (intuitiva e objetivamente) o comportamento humano (de crianças e adolescentes!), forte autonomia profissional, virtudes que só se desenvolvem com formação humanística prévia e auto-aprendizagem contínua. Estas, por sua vez, implicam leitura, reflexão, acesso à cultura no sentido amplo, apoio profissional (bons cursos, boas oficinas, orientação didática, ajuda psicológica) e tranqüilidade econômica.

Salário não é tudo, mas…
Como uma espécie de comprovação das opiniões da secretária, Claudio de Moura Castro escreve na mesma edição da Veja um artigo igualmente curto e grosso: "Salário de professor". Baseado em que, segundo as sempre infalíveis estatísticas, os docentes brasileiros possuem remuneração compatível com a realidade empregatícia nacional, o articulista conclui que os sistemas públicos se tornariam mais eficazes se "conseguissem criar um ambiente mais positivo e estimulante". O exemplo estaria nas escolas privadas, em que os professores, com "níveis salariais parecidos", estão contentes.
O mais estimulante seria então a tal cenoura tentadora do bônus? Moura Castro não afirma nem nega. Menciona outro tema: o da gestão. "Como a escola tem a cara do diretor", dependeria então desse gerente do ensino, digamos assim, valorizar os professores, motivá-los, com bônus ou sem bônus. Mas se, na prática, os diretores são indicados pelo clientelismo dos governos locais ou, mediante concurso, estão politicamente compromissados de modo mais ou menos velado com estes mesmos governos, a escola desse diretor dificilmente terá a cara dos professores nem dos alunos que lá estão.
A propósito, recomendo que economistas e sociólogos que se autoproclamam especialistas em educação leiam outro uspiano (antes de se fecharem as faculdades de Educação): o pesquisador Vitor Henrique Paro, sobre a eleição de diretores em escola pública como experiência democrática de grande valor.
Nenhuma palavra da secretária e do articulista sobre a iniciativa do governo federal de estipular o salário mínimo dos professores em 850 reais, o que significará um aumento de quase 50%. Não concordam eles com o ministro Fernando Haddad? Salário, concordo eu com eles, não é tudo, mas, sem cuidar dos salários, tornando-os, inclusive, atrativos para melhores profissionais, o governo poderá jogar no sistema o dinheiro que bem quiser (contratar consultorias, investir em computadores, instalar câmeras para monitorar os alunos etc.), mas os problemas continuarão a se perpetuar.

Finlândia, o paradigma
O terceiro capítulo educacional dessa edição da Veja é assinado por Gustavo Ioschpe: "Pelo direito à ruindade". Gustavo critica o MEC pela iniciativa, que considera "antiliberal", de averiguar melhor a qualidade do ensino superior (em particular as faculdades de direito e pedagogia), sob pena de fazer reduzir a oferta de vagas ou mesmo fechar o curso. Ora, não dissera a secretária de Educação que, se fosse possível, fecharia todas as faculdades de pedagogia, mesmo as que têm a melhor avaliação? Não são essas faculdades que prejudicam a escola, transmitindo baboseiras ideológicas em lugar de ensinar os professores a serem professores?
A contradição é só aparente. No momento em que as faculdades de pedagogia estivessem todas fechadas, sobretudo as públicas, mais críticas, menos dóceis ao mando, tudo recomeçaria do zero. Ou ficaria tudo na estaca zero. Quem quisesse abrir fábricas de diplomas pedagógicos teria amplo direito de fazê-lo, sem maiores impedimentos ou muitas cobranças, como em outros tempos, e os professores formados nessas faculdades teriam o dever de superar sua posterior "ruindade", rezando pela cartilha da "pedagogia do bônus".
Estaria assim o mercado controlando as coisas ao seu modo: o famoso "salve-se quem puder".
Mas o espírito "vejiano" continua a dar lições sobre a arte de lecionar… Na edição desta semana (nº 2048, de 20/2/2008), a revista Veja publica a matéria "A melhor escola do mundo". Thomas Favoro, diretamente da Finlândia (país com características idênticas às do Brasil), revela o que podemos aprender em termos educacionais.
No quesito "salário", os professores finlandeses, infinitamente melhores do que nós, recebem cerca de 2.500 dólares/mês; nós embolsamos algo em torno de mil dólares/mês. Esclarece a matéria, em letras minúsculas, que se trata de professores do ensino fundamental com 15 anos de experiência.
Segundo o texto, e deve ser verdade, 100% dos professores finlandeses possuem o mestrado. Já no Brasil, somente 2%. Mas se depender da gestão do governador José Serra, essa disparidade continuará. Em meados do mês de janeiro de 2008, suspendeu-se o programa "Bolsa Mestrado" para os professores estaduais. O intuito deve ser viabilizar o tal bônus que aí vem!

Observatório da Imprensa

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Capital, propriedade e gestão

Há mais de um século, o capitalismo separou os proprietários jurídicos dos meios de produção de quem os administra. Diversos autores dedicaram-se ao estudo dessa cisão

Gérard Duménil, Jacqes Bidet

Jürgen Habermas estabelece uma relação entre dois “subsistemas”, um do mercado e do dinheiro (a economia), outro da administração e do poder (a política). Ele retoma assim uma divisão bastante tradicional do campo social, que, ao definir a economia pelo mercado, acaba por favorecer o liberalismo. Em seu esquema das classes dominantes, Pierre Bourdieu distingue dois grupos mais ou menos antagônicos: um mais bem dotado de capital econômico e o outro de “capital cultural”, de “competência”. Ele não relaciona esta especificamente às relações de produção, mas ressalta seu caráter socialmente arbitrário e seu papel na reprodução do sistema de classes. A referência a um capital cultural evoca vários trabalhos que utilizam o conceito de intelligentsia para definir a classe dominante no “socialismo real”. Mas Moshe Lewin demonstrou que, na União Soviética, as relações de classe se articulavam primordialmente a partir das hierarquias dos grupos diretivos.

No início do século 20, nos Estados Unidos, a separação entre a propriedade e a gestão das empresas suscitou inquietação nos proprietários, ameaçados de perder o controle do sistema produtivo. A partir de então, desenvolveram-se as teses relativas ao “capitalismo gerencial” ou capitalismo dos gerentes (ver a obra de síntese de Alfred Chandler, The Visible Hand, de 1977, uma alusão à “mão invisível do mercado” de Adam Smith, à qual Chandler opõe a decisão consciente do gerente). Essas teses tiveram seu auge nos anos 60, especialmente nos trabalhos de John Kenneth Galbraith relativos à “tecnoestrutura”, quando o compromisso social-democrata parecia reinar na gestão das empresas, nas políticas econômicas e nas práticas culturais. Ainda que as funções gerenciais não tenham deixado de ser reforçadas, inclusive no setor financeiro, a nova ascendência dos capitalistas no neoliberalismo provocou o declínio dessas teorias.

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

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A crise financeira internacional e a vulnerabilidade externa da economia brasileira

Entrevista Especial com Luiz Filgueiras

Antes mesmo de o presidente Lula ser eleito, em 2003, o economista e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Luiz Filgueiras já lançava severas críticas ao antecessor, Fernando Henrique Cardoso. Mudou o governo, mas permaneceu o modelo econômico, embora o discurso do governo seja outro, comenta o pesquisador. Os índices de crescimento que estão sendo apresentados na gestão de Lula, afirma Filgueiras, são conseqüências de “uma fase ascendente do ciclo econômico internacional, que afetou positivamente todos os países do planeta e, em especial, os da periferia do capitalismo”. Entretanto, ele alerta que o “crescimento por si mesmo não é condição suficiente para permitir uma melhora na distribuição de renda, embora possibilite uma redução da pobreza”

Em entrevista à IHU On-Line, realizada por e-mail, o economista comentou os possíveis impactos de a crise imobiliária americana atingir o Brasil. Sobre esse cenário, que assusta alguns e não preocupa outros, o economista se demonstra pessimista. Para ele, a potencialidade dessa crise sobre a economia brasileira tem duas portas de entrada: financeira e comercial. Em ambos os casos, “a vulnerabilidade externa da economia brasileira voltará a se manifestar, com impactos sobre as trajetórias da inflação da dívida pública; o que restringirá a capacidade de crescimento a partir do mercado interno”.

Critico ferrenho do governo federal, Luiz Filgueiras é autor, juntamente com Reinaldo Gonçalves, do livro A política econômica do governo Lula. Na entrevista a seguir, o economista questiona temas debatidos na obra e avalia as opções do governo na política econômica e social. 

Graduado em Ciências Econômicas, pela Universidade Federal da Bahia, Luiz Filgueiras concluiu, na mesma universidade, o mestrado em Economia. Durante o doutorado em Ciências Econômicas, realizado na Unicamp, Filgueiras pesquisou propostas de política econômica para a agricultura brasileira. Atualmente, ele leciona no curso de Ciências Econômicas da Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde também desenvolve pesquisas no Departamento de Economia Aplicada.

Eis a entrevista.

IHU On-Line - Por que o senhor é tão pessimista no que se refere à política econômica e social do governo atual? Há algo de positivo, na sua avaliação, que possa ser destacado?

Luiz Filgueiras - A minha visão crítica da política econômica e social do governo Lula é anterior ao início desse governo em 2003, pelo simples fato de que ela é, no fundamental, a continuação da política econômica do segundo governo de FHC (1999-2002): elevados superávits fiscais primários - tendo a DRU (Desvinculação de Receitas da União) como o seu instrumento principal -; metas de inflação - perseguidas com a manutenção de altas taxas de juros -; e câmbio flutuante, com a liberalização da conta de capitais do balanço de pagamentos. Essa foi a estratégia adotada, após a crise cambial de 1999, para a manutenção do que eu denomino de Modelo Econômico Liberal Periférico (abertura comercial e financeira, privatizações e desregulação do mercado de trabalho), quando ficou evidente a impossibilidade de continuação da chamada âncora cambial, tendo em vista a elevada vulnerabilidade externa da economia brasileira. A análise e a crítica desse modelo, bem como de suas políticas econômicas, já era feita no meu livro História do Plano Real (Editora Boitempo: 2000, 2003 e 2006).

Governo Lula. Uma continuidade de FHC?

O aparente paradoxo, agora, é o fato de que a mesma política econômica, do mesmo modelo econômico, apresenta resultados macroeconômicos menos decepcionantes a partir de 2003, levando a uma redução da vulnerabilidade externa conjuntural do país - o que abriu espaço para taxas de crescimento econômico um pouco maiores. A resposta cabal é de que isto se deveu a uma fase ascendente do ciclo econômico internacional, que afetou positivamente todos os países do planeta e, em especial, os da periferia do capitalismo. Portanto, a conjuntura internacional benigna é a variável-chave para se entender o que está acontecendo com esses países, inclusive o Brasil. No entanto, a crítica a esse modelo e às suas políticas econômicas tem perdido espaço no debate econômico mais recente, pois o pequeno ciclo de crescimento de curto prazo tem propiciado uma grande euforia, como é próprio dos tempos atuais de hegemonia do capital financeiro, onde o que vale, o que conta e o que é relevante é o aqui e o agora.     

IHU On-Line - No livro A política econômica do governo Lula, fala-se em mistificação da história brasileira. Como essa mistificação se apresenta e se relaciona na política econômica e social do atual governo?

Luiz Filgueiras - A mistificação se expressa de quatro maneiras: 1- Em virtude de o atual governo apresentar a sua política econômica como sendo fundamentalmente distinta do governo anterior, aproveitando-se da conjuntura econômica mainternacional favorável, que tem possibilitado resultados macroeconômicos de curto prazo marginalmente melhores; 2- Em razão de apresentar esses resultados como sendo um novo ciclo de crescimento econômico de maior fôlego, comparando-o com o período de Juscelino e também com o período do chamado “milagre brasileiro”; 3- E, como corolário das duas anteriores, em virtude de se apresentar essa situação como um dos melhores períodos macroeconômicos da história do país, o que não é, de forma alguma, verdadeiro. E isto é repetido, sistematicamente, na forma de “nunca na história desse país…”; 4- Por fim, em razão de se apresentar uma política social focalizada (Bolsa Família), originariamente gestada no interior do Banco Mundial e já aplicada também pelo governo anterior, como sendo a solução para a distribuição de renda no Brasil. Em particular, apresenta-se uma melhora extremamente marginal na distribuição dos rendimentos do trabalho (distribuição pessoal ou familiar da renda) como sendo uma melhora na distribuição da renda em geral. O que também não é verdadeiro; ao contrário, a distribuição funcional da renda (capital X trabalho) só tem piorado contra o trabalho.

IHU On-Line - O senhor percebeu mudanças no mercado internacional e na política econômica do país, no governo Lula? Ainda carregamos muitas heranças da época de FHC?

Luiz Filgueiras - No seu início (primeiro ano), o governo Lula utilizou-se do slogan “herança maldita” da era FHC para justificar a manutenção do mesmo modelo econômico e da mesma política econômica. Afirmava-se, então, que isto seria passageiro e que logo que a situação melhorasse haveria uma outra orientação. No entanto, um novo ciclo econômico mundial iniciou-se em 2003, o que ficou evidente a partir de 2004. Com isso, rapidamente esse discurso foi substituído pela comparação da melhor performance macroeconômica atual com a do período anterior, justificando esse fato como sendo produto de uma nova política econômica. Em suma, a ênfase voltou-se então para a afirmação de que, apesar da “herança maldita” o governo Lula conseguiu reorientar os rumos do país. Na realidade, o governo Lula ratificou e reproduziu essa herança numa outra conjuntura internacional, o que tem levado, lamentavelmente, a certa legitimação do modelo e da política econômica. Este processo só pode ser devidamente compreendido se entendermos o processo de transformismo político pelo qual passou o PT a partir dos anos 1990, quando se iniciou, com o governo Collor, a Era Neoliberal no Brasil

IHU On-Line - A recessão econômica devido a crise imobiliária nos Estados Unidos, poderá deixar a economia interna brasileira mais vulnerável? E no mercado externo as conseqüências serão mais drásticas?

Luiz Filgueiras - Os eventuais impactos da atual crise sobre a economia brasileira têm, potencialmente, duas portas de entrada. A primeira é o mercado financeiro, através da livre mobilidade dos fluxos de capitais, com a compra e venda de ações e títulos da dívida pública do estado brasileiro. Nesta porta, os impactos são imediatos e já se fizeram sentir, ainda que longe dos efeitos provocados pelas crises anteriores: caiu a bolsa, subiu o risco Brasil e desvalorizou-se o câmbio; em razão da venda de papéis brasileiros (ações, títulos públicos e outros papéis de empresas) pelos fundos de investimentos, para compensar as perdas no mercado americano. Além disso, o impacto da crise também se manifestou na política monetária, com a decisão da última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) de manter a atual taxa de juros e sinalizar para a sua manutenção até o final do ano, ou mesmo a sua elevação. De outro lado, em uma situação de acirramento da crise global, e na ausência de controle dos fluxos de capitais, uma fuga de capitais de grandes proporções será inevitável, em que pese a melhor situação atual do balanço de pagamentos do país, que permitiu, até agora, a redução da dívida externa e um acúmulo de reservas da ordem de US$ 185 bilhões - o que implicou a redução conjuntural da vulnerabilidade externa.

A motivação dessa fuga não dependerá do chamado “fundamentos da economia”: controle da inflação e trajetória da dívida pública, entre outros. A razão maior se situará, como das outras vezes, na própria dinâmica da especulação financeira, isto é, haverá uma busca por maior segurança através da aquisição de títulos do governo americano. A segunda porta de entrada da crise é o comércio internacional, caso a crise persista e se aprofunde. Neste caso, os impactos no balanço de pagamentos serão de médio e longo prazos, através da queda dos preços internacionais das commodities (agrícolas e industriais), que representam parte majoritária da pauta de exportações do país. Em ambos os casos, pelas portas financeira e comercial, a vulnerabilidade externa da economia brasileira voltará a se manifestar, com impactos sobre as trajetórias da inflação e da dívida pública; o que restringirá a capacidade de crescimento a partir do mercado interno. 

Adicionalmente, o custo do financiamento para empresas e o governo aumentará. De qualquer forma, mesmo que a crise retroceda a partir do atual ponto em que se encontra - o que não é nem um pouco evidente -, não há a menor possibilidade de que a mesma se restrinja apenas a perdas nos mercados financeiros, penalizando exclusivamente os seus participantes. A separação, postulada pela teoria econômica ortodoxa, entre os mercados financeiros e a economia real é, rigorosamente, inexistente; sendo produto de uma concepção equivocada sobre a moeda. Esta última é tão real quanto qualquer outra mercadoria, com a diferença crucial de que a sua demanda (preferência pela liquidez) tem poder de provocar estragos enormes no conjunto da economia, no curto e no longo prazo.

IHU On-Line - Os países da América Latina podem estar mais suscetíveis a crise internacional? Nesse contexto, qual a situação do Brasil em relação aos visinhos latino-americano?

Luiz Filgueiras - Todos os países, em particular os países periféricos, estão sendo afetados e, no futuro, serão afetados mais ainda caso a crise global se aprofunde. Entretanto, o grau de “sofrimento” de cada um deles, agora e no futuro, dependerá de suas respectivas inserções internacionais (comercial e financeira) e de suas políticas econômicas. Aqueles com menores restrições ao movimento dos fluxos de capitais e dependentes de uma pauta de exportação calcada, sobretudo, em commodities e produtos com baixa intensidade tecnológica, baixo valor agregado e com pouca dinâmica no comércio internacional, tendem agora, e tenderão no futuro, a sentirem mais os efeitos da crise - quer ela estanque nas próximas semanas, quer ela venha a se aprofundar.

Brasil retardará crescimento?

No caso do Brasil, dada a problemática inserção comercial-financeira do país na economia internacional - com uma grande dependência das exportações de commodities e livre mobilidade dos fluxos financeiros -, a eventual continuação e aprofundamento da crise comprometerão seriamente a continuação da retomada do crescimento. E isto será mais verdadeiro ainda, se a resposta à crise for a manutenção da mesma política econômica implementada até agora, pois isto implicará, como é de praxe em seu receituário, a retomada do aumento da taxa de juros e o aumento do superávit fiscal primário, isto é, mais aperto fiscal e monetário.  A alternativa a essa política, é o controle dos fluxos de capitais, no curto prazo, e a reconfiguração da pauta de exportações do país, no médio e longo prazos, em direção a produtos com maior intensidade tecnológica, maior valor agregado e com maior dinamismo no mercado internacional.

IHU On-Line - A equação econômica do governo apresenta uma política fiscal em que se aumenta a receita, corta-se gastos e mantêm-se os juros altos. Essa lógica será valida para pagar a dívida pública brasileira? Essas medidas conseguiram remover as principais restrições de crescimento econômico do país?

Luiz Filgueiras - A dívida pública subdivide-se em externa e interna. No governo Lula, a relação da dívida total com o PIB tem caído graças, mais uma vez, ao cenário internacional, que até o ano passado permitiu uma redução das taxas de juros, além de propiciar um maior crescimento do PIB. No entanto, isto se deve à redução, absoluta e relativa, da dívida pública líquida externa, porque a dívida interna cresceu sistematicamente, tanto de forma absoluta quanto como proporção do PIB. Isto vem acontecendo porque, com a atual política, está havendo uma troca de dívida externa (com prazos maiores e menores taxas de juros) por dívida interna (com prazos menores e maiores taxas de juros), em razão do volume de dólares que tem entrado no país. Isto significa dizer que se a crise mundial se aprofundar poderá haver um enorme salto na dívida pública interna e, por extensão, no total da dívida pública. Isto ocorrerá em razão do aumento da taxa de juros e da redução da taxa de crescimento do PIB, com a conseqüente redução da receita tributária.

IHU On-Line - Avaliando os últimos governos, como o senhor percebe a distribuição de renda no Brasil, levando em consideração que no ano passado, o desemprego foi considerado o menor nos últimos cinco anos, atingido 9,3%? O rendimento dos trabalhadores ainda continua baixo e a distribuição de renda desigual? Isso lhe parece uma contradição?

Luiz Filgueiras - A redução da taxa de desemprego é conseqüência direta de um maior crescimento econômico em relação ao período anterior. Como já mencionado, crescimento este associado direta e indiretamente à conjuntura internacional extremamente favorável a partir de 2003. Entretanto, o crescimento por si mesmo não é condição suficiente para permitir uma melhora na distribuição de renda, embora possibilite uma redução na pobreza. Para se avançar de fato em direção à desconcentração da renda teriam que ser tomadas medidas de caráter estrutural, como: 1- Reforma tributária, com taxação da propriedade e da renda de forma progressiva; 2- Realizar uma reforma agrária verdadeira; 3- Reformar e regular efetivamente o sistema financeiro; 4- Implementar uma política de salário mínimo de longo prazo, que garanta de fato o seu aumento real; e 5- Mudar a política econômica que transfere riqueza para os rentistas do estado e da sociedade.

IHU On-Line - Qual é a sua avaliação dos programas de incentivos propostos pelo governo? Alguns especialistas afirmam que o Bolsa Família foi responsável por cerca de 40% da redução da desigualdade social. Qual será a conseqüência desse tipo de assistência, a longo prazo?

Luiz Filgueiras - A distribuição pessoal/familiar da renda (que abarca fundamentalmente os rendimentos do trabalho) melhorou marginalmente. Isto se deveu, sobretudo, ao crescimento do salário mínimo que serve de base para os reajustes dos benefícios da previdência e da assistência social (que se referem à política social de estado, e não de governo como é o caso do Bolsa Família). Esse último programa é claramente assistencialista, não propiciando qualquer alternativa de saída aos seus beneficiários, que se tornam dependentes, permanecendo na condição de uma espécie de sub-cidadania. Mas esse foi o caminho escolhido pelo governo Lula, em vez de alterar, mesmo que gradativamente, as condições estruturais do alto grau de concentração de renda no país. Em suma, optou-se por uma política compensatória que funcionaliza a pobreza, que “alivia” (expressão do Banco Mundial) momentaneamente a pobreza, mas não acaba com ela.

IHU On-Line - Lula disse que, nesse ano, uma das prioridades de seu governo, será a reforma tributária. Que mudanças o senhor considera necessárias nesse cenário?

Luiz Filgueiras - Quando Lula e o grande capital falam da necessidade de uma reforma tributária estão se referindo, em geral, a uma maior racionalização e eficiência do sistema tributário e à desoneração do capital. O fundamental, que é a construção de um sistema tributário justo socialmente - o que implicaria taxação progressiva da propriedade e da renda, das grandes fortunas e das heranças -, não é nem de longe considerado. E isto sem falar na questão do pacto federativo, que exigiria uma nova relação entre as diversas instâncias de governo.

IHU On-Line - Durante o mandato, Lula reiterou varias vezes que "em time que está ganhando não se muda". Entretanto, no ano passado, vários críticos do governo como Marcio Pochmann, João Sicsu e Coutinho passaram a integrar "um novo time". Como o senhor avalia o ingresso desses desenvolvimentistas no segundo mandato de Lula?

Luiz Filgueiras - Esse “novo time” é produto, antes de tudo, do quadro macroeconômico mais favorável que, como já visto, foi resultado fundamentalmente da conjuntura internacional extremamente favorável que tem permitido uma maior folga para a operacionalização da política econômica ortodoxa. De qualquer forma, independentemente da reconhecida competência desses economistas e de suas concepções político-econômicas progressistas, o fato é que o núcleo duro da política econômica continua preservado. Na verdade, o discurso desenvolvimentista do governo acaba sendo mais retórico e também é produto da conjuntura, além de ser uma pequena concessão política à frações mais progressistas da aliança que sustenta o governo .

IHU On-Line - Como o senhor avalia a posição do governo frente à insistência na transposição do rio São Francisco? Lula e os movimentos sociais estão cada vez mais distantes?

Luiz Filgueiras - Não tenho conhecimentos técnicos para defender ou atacar a transposição. No entanto, é evidente que todos os movimentos sociais envolvidos com a problemática, e com atuação na região, se posicionaram contra e foram “olimpicamente” ignorados pelo governo. Mas, em razão do cenário econômico mais favorável, até 2007, com redução das taxas de desemprego, e da política assistencialista do Bolsa Família, a popularidade de Lula continua elevadíssima. E isto apesar da política econômica ortodoxa, da não realização da reforma agrária, da liberalização dos transgênicos, da reforma da previdência do funcionalismo público etc. Para isto, é fundamental também o fato das direções sindicais e mesmo da maioria dos movimentos sociais serem ligadas, direta ou indiretamente, ao PT e ao governo Lula - o que tem reduzido a disposição de luta dessas organizações populares. Por outro lado, com o Bolsa Família, Lula fincou as bases para a consolidação do “Lulismo”, a partir de uma espécie de populismo regressivo, que não integra ao mercado de trabalho (como era o de Getúlio Vargas).

IHU On-Line - A política do governo atual, ainda pode ser considerada de esquerda?

Luiz Filgueiras - Por tudo que já disse até aqui é evidente que a política econômica do governo, e o próprio governo Lula, não podem ser identificados, nem de longe como sendo de esquerda. Aliás, figuras importantes do grande capital percebem e verbalizam isto constantemente, ao elogiarem o governo e a sua política econômica, como, por exemplo, em entrevistas dadas recentemente pelos dirigentes maiores do Grupo Itaú e do Grupo Odebrecht.

IHU On-Line - Quais seriam os novos pilares para mudar e construir uma política econômica eficiente?

Luiz Filgueiras - A eficiência de uma política econômica não pode ser pensada apenas do ponto de vista técnico. A atual política econômica tem sido eficiente, sobretudo, para os rentistas e o agronegócio. Por isso, antes de tudo tem que se fazer a seguinte pergunta: eficiência para quem, resultados para quem? Além disso, toda política econômica é expressão de um certo arranjo político, da hegemonia de certas classes e frações de classe. Por isso, não se pode pensar uma alternativa à atual política econômica sem pensar na necessidade de se re-configurar o bloco de poder dominante no país. E isto não é nem um pouco fácil ou trivial. Medidas como controle do fluxo de capitais (com a regulação da conta de capitais do balanço de pagamentos), redução do superávit fiscal primário (com a retomada efetiva dos investimentos pelo estado), administração da taxa de câmbio (tornando-a competitiva para produção de bens de elevado conteúdo tecnológico), reforma e regulação do sistema financeiro (com taxação de seus lucros extraordinariamente elevados), reforma agrária efetiva (com o apoio através do crédito e da adoção de novas tecnologias) etc. contrariam direta e indiretamente o capital financeiro e o agronegócio, os dois principais pilares do bloco de poder dominante. A questão, portanto, está na dificuldade de se conseguir a reconfiguração política do bloco de poder dominante, numa conjuntura de fracionamento da esquerda e de desmobilização dos movimentos sociais. Basta ver que o principal protesto contra a transposição do rio São Francisco se resumiu a uma atitude individual de um bispo, com a sociedade praticamente assistindo passivamente o desenrolar da situação.

IHU

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