Arquivo de 1 de Fevereiro de 2008

O aborto e a origem do mal

Relação entre interrupção da gravidez e criminalidade defendida por governador do Rio causa polêmica e é condenada por acadêmicos que estudam os dois temas

Gonçalo Junior

A idéia partiu do governador Sérgio Cabral Filho, no final de outubro: legalizar o aborto como forma de combater a violência no Rio de Janeiro. “Tem tudo a ver com violência. Você pega o número de filhos por mãe na Lagoa Rodrigo de Freitas, Tijuca, Méier e Copacabana, é padrão sueco. Agora, pega na Rocinha. É padrão Zâmbia, Gabão. Isso é uma fábrica de produzir marginal”, disse ele em entrevista exclusiva ao site G1. Para fundamentar sua afirmação, Cabral Filho recorreu aos norte-americanos Steven Levitt e Stephen J. Dubner, autores do livro Freakonomics, no qual defendem a tese que liga aborto com a redução da criminalidade nos EUA.

Se a interrupção da vida no útero costuma provocar debates enfurecidos num país de maioria católica como é o Brasil, sugerir que a violência está relacionada à pobreza e pode ser combatida na “origem” deu ainda mais o que falar. Na universidade, então, especialistas da área alertam para que se tenha cuidado ao tomar esse tipo de posição. Mestre pela Faculdade de Educação e advogado, Edison Prado de Andrade avalia que tratar dois graves problemas da sociedade contemporânea dessa forma é uma interpretação reducionista da realidade social e seu efeito mais nefasto é impedir que se compreendam os verdadeiros motivos pelos quais existem nas proporções que se tem observado.

Autor da dissertação “Gestão pública municipal e o problema do ato infracional”, Andrade afirma que “seguramente” essa abordagem representa uma forma ideológica, no sentido marxista do termo, de explicar a realidade e propor mudanças sociais, pois é um meio de ocultação do real. Assim como acontece com a redução da maioridade penal que, para parte significativa da sociedade brasileira, seria uma forma extremamente eficaz para reduzir drasticamente os índices de criminalidade. O binômio criminalidade-aborto, prossegue ele, também está eivado de conteúdo ideológico e desvia o foco para as análises e mudanças que se fazem necessárias.

Uma vez que a sociedade atual capitalista “é extremamente complexa”, explica ele, não existem respostas fáceis para solucionar seus problemas. “Apenas se nos debruçarmos com vontade para as verdadeiras causas de nossas mazelas e desenvolvermos a coragem e determinação para seu enfrentamento, seremos capazes de fazer com que a criminalidade subsista apenas dentro de seus parâmetros aceitáveis e normais.” Na opinião do pesquisador, dentre os aspectos que devem ter relevância na discussão estão o tráfico de entorpecentes e o desemprego. “E muitos outros que são temas que só podem ser analisados sob uma perspectiva real se compreendermos a crise fundamental existente.”

Para Andrade, o problema do ato infracional e da criminalidade – que se dá não apenas entre os mais pobres, como geralmente se pensa ou afirma, mas também entre os provenientes de classes mais privilegiadas da população – não pode ser reduzido a uma fórmula jurídica pura que o concebe apenas em termos de vontade de praticar o ato contrário ao direito e à lei, e que exclui inteiramente os fatores sociológicos e psicológicos ligados ao problema. “O preconceito existe na medida em que é fruto do desconhecimento, mas, na verdade, há mais do que preconceito.”

A criminalização da pobreza, acrescenta ele, é um fenômeno tradicional e reacionário da sociedade brasileira. “Esta vive comprometida com a manutenção das estruturas sociais vigentes e que argumentam em favor das políticas retributivas do tipo lei e ordem fundadas na repressão dos crimes e na aplicação rigorosa das leis penais, e fazem vista grossa para a quase que total ausência de reais políticas redistributivas.”

Aborto e criminalidade devem ser discutidos separadamente para a socióloga e doutora em saúde pública Kátia Cibelle Machado Pirotta, autora de uma tese de doutorado sobre o comportamento reprodutivo e de seu universo simbólico entre jovens universitários da Universidade de São Paulo (USP). “A proposta de legalização do aborto para diminuir a criminalidade não ajuda no debate sobre essas questões”, enfatiza. Do ponto de vista histórico, a descriminalização do aborto, lembra ela, é uma demanda do movimento feminista e de alguns setores da saúde, que vem sendo defendida através de uma extensa agenda de mobilização.

Revista da FAPESP
http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

Comentários

Morre ex-ditador indonésio Suharto

Internado desde o dia 4, ex-líder sofreu falência múltipla dos órgãos

Marilyn Berger, THE NEW YORK TIMES

O ex-presidente da Indonésia Suharto, cujos 32 anos de ditadura foram os mais brutais e corruptos do século 20, morreu ontem em Jacarta, aos 86 anos. Ele foi hospitalizado em 4 de janeiro com problemas respiratórios, renais e cardíacos. Segundo os médicos, Suharto ficou inconsciente e deixou de respirar naturalmente no fim de semana. O ex-presidente não resistiu e morreu de falência múltipla dos órgãos.
Suharto foi deposto em 1998, diante de distúrbios generalizados e caos político no país. No entanto, seu governo foi marcado por algumas realizações: ele conduziu a Indonésia à estabilidade e promoveu o crescimento econômico. Esses sucessos, porém, foram ofuscados no final pela onipresente e imensa corrupção dentro de seu governo, pelo regime militarizado e repressivo e o violento banho de sangue que se seguiu quando ele assumiu o poder no final dos anos 60, com a morte de pelo menos 500 mil pessoas.
Como líder de um dos mais populosos países do mundo, Suharto e sua família ficaram famosos pelo controle mantido sobre as empresas estatais, a cobrança de propinas em contratos do governo, o desvio de dinheiro das instituições de caridade do Estado e a violação dos direitos humanos. Suharto, porém, permaneceu quase intocável até o fim. Ele nunca foi acusado pelos assassinatos perpetrados sob seu comando e conseguiu escapar dos processos criminais abertos contra ele pelo desvio de fundos públicos de milhões - possivelmente bilhões - de dólares, tendo-se declarado mentalmente incapaz para enfrentar um julgamento (leia mais no box ao lado).
Como Sukarno, seu antecessor, Suharto empenhou-se para uma união nacional, num país dividido de 200 milhões de pessoas, abrangendo 300 grupos étnicos falando 250 idiomas. Sukarno também tinha sido derrubado numa onda de violência que tomou conta do país em 1965, após um ataque que foi descrito como um golpe de esquerda fracassado. Suharto, um dos poucos oficiais militares do alto escalão a escapar no primeiro dia dessa revolta, enfrentou decisivamente os insurgentes e assumiu o controle do país, em 1968.
Nos anos seguintes, Suharto governou usando a repressão militar e restaurou a ordem no país, que atravessou uma era de substancial desenvolvimento. Muitos indonésios beneficiaram-se de seus programas, mas ninguém se aproveitou mais do que os membros de sua família, que ficaram bilionários. No ano passado, Suharto encabeçou uma lista de lideres mundiais que roubaram os cofres públicos de seus países. De acordo com a lista, realizada pela ONU e o Banco Mundial, ele se apropriou indevidamente de US$ 15 bilhões a US$ 35 bilhões.
Quando os Estados Unidos se engajaram no Vietnã, ele foi o bastião contra o comunismo na Ásia. Os EUA o recompensaram com um programa de ajuda externa que chegou a mais de US$ 4 bilhões ao ano. Além disso, um consórcio de países ocidentais e o Japão estabeleceram um programa de apoio que só em 1997 totalizou quase US$ 5 bilhões. Muitos indonésios também apoiaram Suharto enquanto o país prosperava, mas a crise econômica asiática, em 1997, levou a economia do país à beira do colapso.
A moeda perdeu 30% de seu valor, o desemprego aumentou e a crescente desigualdade de renda dentro da população provocaram distúrbios e violência. Suharto pediu ajuda ao Fundo Monetário Internacional, que concordou com um pacote de ajuda de US$ 43 bilhões. Muitos viram a hesitação de Suharto em assinar o acordo como um esforço para proteger a fortuna de sua família e de amigos. Acredita-se que o dinheiro foi desviado para bancos estrangeiros.
CRONOLOGIA

1921 - Nasce em Kemusuk, perto da cidade real de Yogyakarta
1940 - Ingressa no Exército colonial holandês como cabo e depois no Exército indonésio
1962 - Lidera operação militar para controlar Papua Ocidental
1965 - Lidera repressão contra rebelião militar que acusa de comunista
1966 - Presidente Sukarno lhe transfere o poder. Lidera repressão que mata até milhares de comunistas, sindicalistas e outros membros da esquerda durante os próximos quatro anos
1968 - É eleito indiretamente para a presidência
1975 - Indonésia invade Timor Leste e o anexa como Província
1997 - Crise econômica atinge a Ásia; Indonésia recorre ao FMI
1998 - Renuncia após protestos contra sua reeleição à presidência. Mortos chegam a 1.200
2000 - Acusado de corrupção, não comparece à Justiça
2005 - Internado com problemas respiratórios e intestinais
2008 - Morre após 23 dias de internação hospitalar

Estado de S. Paulo

Comentários

Ásia Central na linha de frente na batalha por energia

Andrew A. Kramer

No deserto desta antiga cidade do Caminho da Seda, os poços de gás natural são construídos em plataformas modestas de concreto do tamanho de quadras de basquete. Como o gás é naturalmente pressurizado, não são necessárias bombas para trazê-lo à superfície. Os canos simplesmente beijam a terra, e o gás jorra por eles.

A questão é aonde o gás vai a partir daí.

Depois do desdobramento da União Soviética, os Estados Unidos e seus aliados europeus procuraram garantir que a enorme riqueza em petróleo e gás da Ásia Central fluiria por dutos que não dependessem da Rússia. Foi a mais recente versão do Grande Jogo, a competição do século 19 entre o império britânico e a Rússia czarista pelo domínio da região. O Ocidente, entretanto, está ficando para trás, como ficou claro em uma cerimônia com a tocha em novembro.

Executivos da Lukoil, empresa de petróleo russa, e membros do governo de Moscou tinham vindo inaugurar o mais recente campo de gás da Ásia Central. Desenvolvido pela Lukoil, estima-se que o campo Khauzak tenha 400 bilhões de metros cúbicos de gás natural, que a Lukoil vendeu para os próximos 32 anos para a Gazprom, gigante de gás natural russa.

A cerimônia de 29 de novembro -com jornalistas trazidos de Moscou especialmente para a ocasião- parecia feita sob medida para lembrar ao mundo da liderança russa no Grande Jogo, apesar de alguns desdobramentos políticos na região terem renovado as esperanças das empresas ocidentais.

“Temos agora um bom início e vamos usá-lo”, disse o vice-primeiro-ministro da Rússia, Sergei B. Ivanov, de um pódio improvisado acima das areias vermelhas do deserto de Kyzylkum.

O governo Bush tinha identificado a Ásia Central como uma alternativa promissora ao volátil Oriente Médio como fonte de petróleo e gás natural. Enquanto as autoridades americanas estimulam exportações de energia que ultrapassem a Rússia, elas também estão tentando abrir a Ásia Central ao investimento ocidental em petróleo.

A Rússia está reagindo aumentando seu investimento nos campos e dutos da Ásia Central.

Muito está em jogo. A Rússia é a maior produtora de gás natural do mundo e importante fornecedora da Europa. Ela depende do fornecimento da Ásia Central para cumprir seus compromissos.

“Os russos vão defender seu canto na Ásia Central”, disse Jonathan Stern, especialista em gás natural do Instituto Oxford de Estudos de Energia, em entrevista telefônica. “Os russos não estão apenas se aproximando” dos líderes autocratas da Ásia Central para atingir seus alvos, disse Stern. “As empresas russas estão cumprindo suas promessas de investimento.”

Abarrotados de dinheiro da expansão de petróleo, os russos estão investindo pesadamente em novos desenvolvimentos, impondo um desafio às empresas ocidentais como ExxonMobil, Chevron e Conoco Phillips, que estão ansiosas em expandir suas operações na Ásia Central.

Depois de um investimento de US$ 3,5 bilhões (em torno de R$ 7 bilhões), o projeto da Lukoil vai associar três grandes campos de gás natural e gás condensado até 2011 para produzir 11 bilhões de metros cúbicos de gás natural por ano para exportação.

Nos três anos desde que a Lukoil assinou o acordo de compartilhar a produção com o governo uzbeque para Khauzak, a política uzbeque virou fortemente em favor da Rússia, deixando de fora do Uzbequistão as principais empresas ocidentais.

Em maio de 2005, as tropas do presidente Islam A. Karimov abriram fogo contra uma multidão de prisioneiros fugitivos, atiradores e manifestantes em uma praça na cidade de Andijon, no Vale Fergana, matando centenas no que grupos de direitos humanos dizem que foi o pior massacre de manifestantes de rua desde a praça Tiananmen da China em 1989.

O episódio levou a profundas tensões nas relações diplomáticas com os EUA. Mesmo antes do tiroteio, grupos de direitos humanos acusavam as autoridades uzbeques de abusos, incluindo dois incidentes nos quais prisioneiros políticos teriam sido fervidos até a morte em uma prisão uzbeque. As perspectivas de um papel ocidental na indústria de gás natural do país se esvaziaram.

Em contraste, o presidente Vladimir V. Putin, da Rússia, visitou Karimov no Uzbequistão após os tiros de Andijon e endossou sua justificativa.

Em 2006, a Lukoil expandiu sua presença aqui em um consórcio com a China National Petroleum Corp., Petronas da Malásia e a Korea National Oil Co. para explorar o depósito de gás natural abaixo da camada seca do Mar de Aral, estimado em mais de 1 trilhão de metros cúbicos de gás.

E no vizinho Turcomenistão, Putin garantiu um acordo em maio para expandir as exportações de gás natural via um ramo do gasoduto da Ásia Central que corre pela costa leste do Mar Cáspio, ao norte para a Rússia. Foi o mais significativo acordo de energia naquele país neste ano. E, neste verão, equipes da China, outro país ascendente na Ásia Central, começaram a exploração para gás na margem oeste do rio Amu Darya, de acordo com Stern.

Nos anos 90, as empresas européias e americanas fizeram grandes avanços no Cazaquistão -que emergiu como principal força comercial na Ásia Central. O principal desses ganhos foi o Kashagan, a maior descoberta de petróleo no mundo desde a baía de Prudhoe, no Alasca. Mas o acordo foi prejudicado por brigas, com as autoridades cazaques forçando uma renegociação de termos com parceiros do consórcio Eni da Itália, ExxonMobil e Conoco Phillips dos EUA, Royal Dutch Shell e Inpex Holdings do Japão.

O Cazaquistão também voltou sua atenção para o Oriente, planejando um gasoduto pelas montanhas de Tian Shan para a província vizinha de Xinjian, esnobando as empresas e governos americanos e europeus. O Ocidente apóia uma rota ocidental sob o mar Cáspio, via Azerbaijão, Geórgia e Turquia para os mercados mundiais -passando os dutos pelo estreito corredor entre a Rússia e o Irã para entrar nos campos de gás e petróleo da Ásia Central.

O gasoduto BTC da BP e um gasoduto paralelo atualmente param no Azerbaijão e na costa oeste do mar Cáspio, e o grande projeto parece estar parado ali por enquanto.

O próximo passo é construir o braço trans-cáspio, que a Rússia está bloqueando com uma combinação de estratégia política e empresarial. Os russos estão comprando grande parte da produção de gás natural para tornar o plano ocidental comercialmente inviável pela falta de gás disponível. Com a ajuda do Irã, eles também estão contestando o status legal do mar Cáspio que os dutos de petróleo e gás atravessariam.

Moscou também está oferecendo garantias de apoio aos potentados da Ásia Central, caso ocorra um levante doméstico ao estilo ucraniano, levando a uma mudança no governo, algo que os EUA e a Europa não podem fazer.

Em um sinal encorajador para as grandes empresas ocidentais, a morte na última primavera do antigo líder do Turcomenistão Saparmurat Niyazov levou um derretimento político modesto e a expectativas de novas concessões de petróleo e gás. Durante o governo de Niyazov, que deu a si mesmo o nome de Turkmenbashi, ou Pai dos turcomanos, e que tinha encomendado estátuas douradas dele mesmo, o Turcomenistão tinha abandonado as empresas de petróleo ocidentais.

Então, não foi surpresa que as empresas ocidentais apressaram-se em promover a Conferência de Petróleo e Gás do Turcomenistão em Ashgabat, em novembro; Chevron, Conoco Phillips, Baker Hughes, Schlumberger e Statoil estavam entre os patrocinadores, apesar de nenhum acordo ter sido assinado.

Compartilhando a animação, o secretário de energia dos EUA, Samuel Bodman, fez um discurso no dia 15 de novembro observando que “estão se abrindo oportunidades que não seriam imagináveis até um ano atrás”, de acordo com o Departamento de Energia.

Ainda assim, como disse Bodman, a centenas de quilômetros de distância, pelo deserto Kyzylkum no Uzbequistão, engenheiros russos estavam soldando os últimos dutos no campo de Lukoil. Na cerimônia de abertura do dia 29 de novembro, os dutos brilhavam com tinta fresca e ressoavam com gás natural fluindo ao norte, para a Rússia.

The New York Times
http://www.nytimes.com/

Comentários

Não culpem a Al Qaeda, culpem Musharraf

Robert Fisk

Que estranho, não é verdade? A forma como rapidamente nos apresentam o conto de Benazir Bhutto: a valorosa líder do Partido Popular do Paquistão (PPP) assassinada em Rawalpindi, lugar próximo à capital, Islamabad, onde vive o ex-general Pervez Musharraf. E George W. Bush nos diz que seus assassinos eram “extremistas” e “terroristas”. Bem, isso não se pode contestar.

Mas a insinuação do comentário de Bush era que islamitas estavam por trás do assassinato. Teriam sido novamente os loucos talibans, essa aranha da Al Qaeda que atacou esta mulher só e valente que se atreveu a pedir a democracia para o seu país.

Naturalmente, dada a cobertura infantil desta tragédia atroz, e independentemente de quão corrupta possa ter sido a senhora Bhutto, não tenhamos ilusões de que essa valente dama é com certeza uma verdadeira mártir. Não é surpresa que o velho cavalinho de batalha do “bem contra o mal” seja utilizado novamente para explicar a carnificina em Rawalpindi.

A julgar pelo que informaram quinta-feira a BBC e a CNN, quem teria imaginado que os dois irmãos da ex-primeira-ministra, Murtaza e Shahawaz, sequestraram um avião comercial paquistanês em 1981 e levaram-no até Cabul, onde Murtaza exigiu a libertação de prisioneiros políticos do Paquistão. No episódio, um oficial militar a bordo da nave foi assassinado. Havia estado-unidenses entre os passageiros, o que provavelmente explica porque todos os prisioneiros foram libertados.

Há apenas uns poucos dias, num dos mais notáveis pronunciamentos do ano (e que, como é típico, foi ignorado), Tariq Ali dissecou de forma brilhante a corrupção no Paquistão (incluindo o governo de Bhutto) na revista London Revies of Books. Deu ênfase a Benazir e chamou-a no título “A filha do Ocidente”. De facto, o artigo estava no meu gabinete, pronto para ser fotocopiado, quando a sua protagonista era assassinada em Rawalpindi.

No fim desta análise, Tariq Ali pormenorizou amplamente o assassnato de Murtaza Bhutto às mãos da polícia, próximo à sua residência, quando Benazir era primeira-ministra e estava furiosa com Murtaza porque este exigia o regresso aos valores tradicionais do PPP e criticava-a por haver nomeado o seu próprio marido como ministro da Indústria, um posto altamente lucrativo.

Numa passagem da análise, que continua válida mesmo depois do assassinato e suas consequências, afirma-se: “A bala fatal foi disparada a curta distância. A armadilha foi estendida, como é costume no Paquistão, com uma grosseira, relatórios falsos na repartições policiais, evidências perdidas, testemunhas que foram detidas e intimidadas, um polícia assassinado por se temer que falasse. Tudo isto evidencia o facto de que executar o irmão da primeira-ministra foi uma decisão tomada a muito alto nível”.

Quando Fátima, a filha de 14 anos de Murtaza, telefonou à sua tia para perguntar-lhe porque estavam a deter as testemunhas e não os assassinos do seu pai, ela afirma que Benazir lhe explicou: “Olhe, é demasiado jovem. Não entendes as coisas”, ou pelo menos isso nos diz Tariq Ali na sua exposição.

Sobre tudo isto, entretanto, paira o assombroso poder dos serviços secretos do Paquistão (ISI). Esta vasta, corrupta e brutal instituição trabalha para Musharraf.

Mas também trabalhou e ainda trabalha para os talibans. Também trabalha para os Estados Unidos. De facto, trabalha para todo o mundo. Mas é a chave que Musharraf pode utilizar para abrir conversações com os inimigos de Washington quando ele se sente ameaçado ou quer pressionar o Afeganistão, ou então aplacar os “extremistas” e “terroristas” que tanto preocupam o presidente Bush.

Recordemos a propósito que Daniel Pearl, o repórter do Wall Street Journal decapitado pelos seus sequestradores islamitas em Carachi, combinou o seu encontro fatal com os seus futuros assassinos no gabinete do comandante dos ISI.

O livro “Taliban”, de Ahmed Rashid, contem provas fascinantes da rede de corrupção e violência dos ISI. Leiam-no, e verão que tudo o que disse faz muito mais sentido.

Mas voltando à narrativa oficial, George W. Bush anunciou na quinta-feira anterior que “esperava” falar com o seu velho amigo Musharraf. Naturalmente, falarão de Benazir. Seguramente não conversarão sobre o facto de que Musharraf continua a proteger o seu velho conhecido, um certo senhor Khan, o qual proporcionou segredos nucleares paquistaneses à Líbia e ao Irão. Não, mas é melhor não levantarmos esse pequeno assunto do “eixo do mal”.

Naturalmente, pediram-nos mais uma vez para nos concentrarmos nesses “extremistas” e “terroristas”, e que nos afastemos da lógica de questionar aquilo que muitos paquistaneses sentiram após os assassinato de Benazir.

Não é preciso ser um perito para compreender que as odiadas eleições legislativas que assombravam Musharraf seriam adiadas indefinidamente se o seu principal opositor político fosse liquidado antes do dia das eleições.

Analisemos esta lógica tal como o faria o inspector Ian Blair, no seu caderno, antes de se converter no mais importante polícia de Londres.

Pergunta: Quem obrigou Benazir Bhutto a permanecer em Londres e quis evitar o seu regresso ao Paquistão? Resposta: O general Musharraf. Pergunta: Quem ordenou este mês a prisão de centenas de simpatizantes de Bhutto? Resposta: O general Musharraf. Pergunta: Quem impôs a Benazir uma prisão domiciliar temporária este mês? Resposta: O general Musharraf. Pergunta: Quem declarou o estado de emergência este mês? Resposta: O general Musharraf.

Pergunta: Quem matou Benazir Bhutto? Bem, sim, humm, sim…

Vêm qual é o problema? Ontem os nossos guerreiros da televisão nos informaram que os membros do PPP gritavam que Musharraf era um “assassino”, queixando-se de não ter dado suficiente protecção a Benazir. Erro. Gritavam isto porque acreditavam que foi ele que a matou.

Resitir
http://resistir.info/

Comentários

Irã: alianças, energia e futuro

Chico Villela

A segunda Cúpula do Cáspio (Caspian Summit) reuniu em 17 de outubro em Teheran, no Irã, chefes de governo e representantes de Irã, Rússia, Azerbaijão, Casaquistão e Turcmenistão, países cujas fronteiras reúnem-se ao redor do Mar Cáspio, e gerou decisões que podem afetar a região e o mundo e alterar os lances do xadrez geopolítico e estratégico. O respeitado analista independente Mahdi Darius Nazemroaya foi além: “A Segunda Cúpula dos Estados do Cáspio em Teheran mudará o ambiente geopolítico global”, e ainda: “O que ocorrer em Teheran pode decidir o curso do resto deste século.”

ANTECEDENTES
Duas citações são freqüentes no trato de temas do Cáspio, da Ásia Central e do futuro regional e global: Great Game (Grande Jogo) e chessboard (tabuleiro de xadrez). A expressão Great Game vem da Inteligência britânica, e foi popularizada em 1901 pela obra “Kim”, do escritor Rudyard Kipling. Foi o nome dado à disputa entre os impérios inglês e russo czarista pelo controle da região da Ásia Central, Tibet e Índia, e ainda do Irã e da região do Cáucaso, que correu por algumas décadas do século XIX e chegou até o raiar do século XX. País insular, a sede do império inglês duelava pelo mando na maior porção contínua de terra do planeta, principalmente pela Ásia Central, que se interpõe entre a Europa e as partes mais setentrionais e orientais da Ásia, e onde se situam hoje Casaquistão, Turcmenistão, Quirguistão, Tadjiquistão, Uzbequistão, Afeganistão, Mongólia e vizinhanças russas, chinesas, iranianas, caucasianas e outras. Digna de nota é a opinião de núcleos conservadores euamericanos sobre a não-existência de um Great Game na região, talvez pelos revezes que lhes vêm sucedendo. Outros especialistas consideram a extinta guerra fria como a sua continuação.

Chessboard faz referência à obra exaustivamente citada, de 1997, do ex-assessor de segurança nacional do governo Carter e respeitado analista e estrategista Zbigniew Brzezinski, “The Grand Chessboard: American Primacy and Its Geostrategic Imperatives”. Brzezinski discute as condições a serem atendidas, ou criadas, ou impostas, para que a supremacia euamericana possa tornar-se permanente e garantir a si e a seus aliados o acesso, o controle e a certeza de fornecimento das imensas riquezas da região, com destaque para petróleo e gás.

Stan Stão (Stan) posposto ao nome da etnia seria para nós ‘terra de’ (‘land’); assim, Uzbequistão é a terra dos uzbeques; Casaquistão, a dos cazaques; Baluchistão, a dos baluches. Em verdade, a Eurásia congrega centenas de povos e de línguas, de origens indo-européias, turcas, chinesas, mongóis, irânicas, caucasianas, etc. Mas mesmo essa caracterização genérica é inadequada, já que, por exemplo, ‘China’ abriga uma reunião de uma etnia dominante, a Han (92%), e 55 etnias menores. Algumas dessas etnias eurasianas associam-se a Estados; a maioria dispersa-se por países. São exemplos dessa maioria os curdos, 30 milhões de pessoas, que ocupam territórios de Turquia, Irã e Iraque e uma diminuta porção de Síria e Armênia, e os baluches, 10 milhões de pessoas, que ocupam mais de um terço do Paquistão e parte do sul do Afeganistão e do sudeste do Irã.

Esta é, aliás, uma constante da região que facilita condições para tentativas divisionistas, partição de países, recomposições territoriais, etc. O fato é relevante porque um dos pilares da política aliada EUA-Reino Unido para a região é o esfacelamento de países, o que multiplica as forças de mando e abre espaços para alianças novas contra os velhos inimigos Rússia, China e Irã. O plano da dupla Bush-Cheney para o Iraque, por exemplo, prevê um norte curdo, um sul xiita e um centro-oeste sunita. Como vários outros, esse plano está suspenso enquanto o imbroglio das guerras e a crise entre a guerrilha curda e a Turquia não se desenrolam.

Alianças e Traições
Após a dissolução da União comunista, quinze repúblicas tornaram-se independentes; algumas mantiveram-se vinculadas à Rússia, e outras aproximaram-se do Ocidente. Fundou-se a Comunidade dos Estados Independentes (CEI), que hoje tem papel menor nos eventos. Hoje, Georgia (terra natal de Stálin), Ucrânia e Moldávia são próximas do Ocidente; Casaquistão, Belarus, Tadjiquistão, Quirguistão, Uzbequistão, Turcmenistão, Armênia e outras são aliadas da Rússia. Logo após o fim da URSS, a aliança EUA-Reino Unido ganhou adeptos, com apoio da Otan, e a partir de então é grande a disputa por apoios e ampla a ação de serviços diplomáticos e de segurança de ambos os lados.

A Rússia, abalada pelo fim do império soviético e em grave crise econômica, com queda de mais de 20% do produto interno bruto, perdeu aliados e terreno. Tudo indicava que iria submergir sob o cerco progressivo da aliança ocidental, que instalava bases militares nos países recém-aliados da Europa e da região, sempre com a mente nos três inimigos principais e o olho gordo na imensa riqueza em petróleo e gás da região, cujo controle estratégico permitiria, além do mais, manter em pé o combalido e decadente sistema financeiro do dólar. Chegou a constituir-se um agrupamento, conhecido como GUUAM, que reunia Geórgia, Uzbequistão, Ucrânia, Azerbaijão e Moldávia, além de outros sócios menores que cediam espaços para bases e instalações e facilitavam a ação dos serviços ocidentais de segurança e espionagem. Hoje, sem Uzbequistão e Azerbaijão, o grupo seria mais propriamente conhecido como GUM; em inglês, chiclete.

Uma exceção na região é o Turcmenistão, dos turcmenos ou turcomanos, único país neutro a ter seu status de neutralidade reconhecido pela ONU; os outros dois países tradicionalmente neutros são Áustria e Suíça. A história dos turcmenos guarda muitos exemplos de pacifismo e de políticas de ‘portas abertas’. Embora parte da etnia habite o norte do Afeganistão, os turcmenos não participam da guerra, como o fazem outras etnias vizinhas.

Putin Com Putin, oriundo do serviço soviético de segurança do Estado KGB, a situação foi revertida. Com a segunda maior produção mundial de petróleo e detentora das maiores reservas de petróleo (10%), gás (30%) e carvão (20%) do planeta, e forte fornecedora de petróleo (20%) e gás (50%) para a União Européia, a Rússia de Putin beneficiou-se com a subida acelerada dos preços da energia (em 1970, o barril de petróleo valia US$ 10; hoje, anda próximo de US$ 100). Entre 2000 e 2007 o PIB russo subiu de rasos US$ 250 bilhões para mais de US$ 1,2 trilhão. Recompôs sua posição de líder regional e voltou a ‘flexionar músculos’ de grande potência nuclear contraposta aos interesses e à política de invasões e força bruta da aliança anglo-euamericana.

O diretor da área de estudos russos de um instituto europeu situou o enigma Putin em declaração recente. Para ele, na época soviética, os planos eram de longo prazo, e as ações das lideranças geriátricas eram razoavelmente previsíveis. Hoje, a equipe de governo, que abriga também um núcleo mais jovem de egressos da KGB, é mais dinâmica em suas ações e resoluções. A força de Putin pode ser vista nas últimas eleições de 2 de dezembro: seu partido teve mais de 60% dos votos, e discute-se seu futuro papel, seja como um super primeiro ministro, seja como um árbitro tipo ‘Pai da Nação’, um grão-conselheiro.

Há, no entanto, outros campos em que existe cooperação entre Oriente e Ocidente, a exemplo do combate aos agrupamentos terroristas e movimentos separatistas e de fundo político-religioso, temas que interessam tanto à aliança anglo-euamericana quanto à oriental. O movimento fundamentalista afegão-paquistanês Talibã, por exemplo, é hostilizado hoje por russos e aliados ocidentais, e também pelo Irã, que nunca o apoiou. Os talibãs foram armados e apoiados pela aliança ocidental e pelo Paquistão nos tempos em que combatiam os invasores russos. Mas isso não impede que os dois lados continuem estimulando nos adversários revoltas e as chamadas ‘revoluções de veludo’. A Ucrânia se coloca ao lado da aliança ocidental e candidata-se a aderir à União Européia e talvez à Otan, tanto quanto a Geórgia, sacudida hoje por movimentos favoráveis ao realinhamento do país.

Erros e equívocos Com o Uzbequistão errou-se de modo drástico. De início pendente a aliar-se com o Ocidente, o Uzbequistão sofreu uma fermentação interna auxiliada pelos serviços secretos aliados, pois havia insatisfação com a condução do jogo pelo presidente Karimov. Uma revolta estimulada por agentes na cidade de Andijan foi brutalmente reprimida pelo governo. Após tomar conhecimento de que o governo Bush-Cheney pretendia animar uma comissão para levantar os acontecimentos de Andijan, além de ser responsabilizado por uma tentativa anterior de assassiná-lo, o Uzbequistão de Karimov repeliu a aliança, defenestrou as tropas ocidentais e aproximou-se em caráter definitivo da Rússia. Em 2005, finalmente foi fechada a base euamericana que ainda se mantinha no país. A importância do Uzbequistão também vem de possuir o maior exército da região depois do russo.

Ocorrência similar deu-se no Tadjiquistão, que também colocou para fora do país essas tropas. O Quirguistão ainda permite a presença de uma base euamericana, situada a 30 km de uma base russa, mas cobra um aluguel tão elevado que os EUA pretendem abandoná-la.

Em 1953, o líder iraniano e primeiro-ministro Mohammad Mossadegh estatizou as multinacionais do petróleo do Irã e nacionalizou as reservas. Mossadegh foi derrubado num golpe armado (e hoje fartamente documentado) pela CIA e pelo MI6 inglês. Em 1979, o aiatolá Ruhollah Khomeini liderou da Europa um golpe que depôs o aliado do Ocidente, o xá Pahlevi, e proclamou a primeira república islâmica da história. O nacionalismo iraniano, reprimido no país, ganhara refúgio nos templos e escolas islâmicos. Alguns analistas consideram a instalação da república islâmica iraniana como o fato político mais decisivo do século, além mesmo do fim da URSS. A julgar pelos fatos atuais, em que o futuro do mundo decide-se em torno da região, a idéia parece merecer fundamento. Ganham relevo nesse contexto as palavras do veterano repórter Robert Fisk sobre a ‘esquerda’ no Oriente Médio: para Fisk, não existem mais organizações de esquerda entre árabes; existem apenas agrupamentos islâmicos.

[Em posição menor mas não desimportante, organizações não governamentais tomam partido e são peças-chave nos embates. Organizações ambientalistas ou voltadas a direitos humanos e liberdades civis, como Greenpeace, WWF (World Wildlife Fund), Human Rights Watch, Transparência Internacional, atuam como atores do jogo político a serviço dos capitais internacionais que financiam suas atividades. O WWF foi fundado pela Casa Real inglesa, e o Greenpeace, pela Casa Real belga. É parte da história da época o fato de valores que hoje se incorporam ao exercício da cidadania serem também moeda de troca no Grande Jogo.]

A Aliança Oriental
Ainda na presidência do pândego Boris Ieltsin, em dezembro de 1999, a Rússia celebrou com a China de Jiang Zemin um acordo histórico de apoio mútuo e de oposição à aspiração euamericana de poder imperial num mundo então pretendido como unipolar, após o fim da guerra fria. Em meados de 2001, os dois países assinaram um tratado de boa vizinhança e cooperação amigável, que previa um pacto de defesa mútua. Nesse período, na chinesa Xangai, Rússia, China, Cazaquistão, Quirguistão e Tadjiquistão, já em sua sexta reunião conjunta, convidaram o Uzbequistão e formaram juntos a Organização de Cooperação de Xangai (Shangai Cooperation Organization, SCO).

SCO A segunda cúpula da SCO reuniu-se em 2002 na Rússia, em São Petersburgo; a terceira, em 2003, em Moscou; a quarta, em Tashkent, capital do Uzbequistão, em 2004, com a presença da Mongólia na posição de observador, ocasião em que se estreitaram os laços de cooperação econômica e de defesa. A quinta reunião, realizada em 2005 em Astana, capital do Cazaquistão, contou com Mongólia e os novos observadores Índia,

Paquistão e Irã.
A sexta reunião, em 2006, novamente em Xangai, contou com os quatro observadores anteriores mais o convidado Afeganistão. À exceção da Índia, que enviou seu ministro de petróleo e gás, os três outros países observadores e o convidado Afeganistão, além dos membros plenos, foram representados pelos seus presidentes. Participaram também o chefe do comitê executivo da Comunidade de Estados Independentes - CEI e o secretário geral da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean).

Na sétima e última cúpula, realizada em agosto deste ano em Bishkek, capital do Quirguistão, participaram os mesmos quatro observadores. Destaque-se que a posição de observador é um status, e o passo seguinte seria a incorporação do país à SCO, com status de membro pleno. Na mensagem que endereçou à cúpula, o presidente chinês Hu Jintao encareceu a necessidade de aprofundar a cooperação econômica entre os membros, oferecendo crédito e suporte

financeiro para os projetos multi e bilaterais, em especial nas áreas de transportes, energia e comunicações.
O ensaísta Alexander Lukin analisa a SCO e anota algumas sugestões sobre seu futuro. De início, destaca o que se convencionou chamar de “Espírito de Xangai” e que a SCO não tem inimigos, é um grande projeto de cooperação e desenvolvimento. Destaca ainda que a SCO não se coloca contra o Ocidente, e que seus membros estão abertos à cooperação com empresas e governos de todo o mundo, como ocorre hoje na China e, em menor escala após Putin, também na Rússia.

No capítulo ‘Segurança’, a SCO vê intimidade entre o terrorismo internacional e o separatismo e extremismo religioso. Assim, coloca ênfase na garantia da integridade territorial e na manutenção dos regimes leigos, posição contrária às pretendidas por Washington com sua política de ‘dividir para reinar’.

Lukin alerta para fatos como projetos fracamente implementados, entre eles as complexas interligações de transportes e de energia entre os parceiros. Em parte, atribui o atraso à política individualista chinesa, que termina por ser pouco atraente para todos. Outro fator limitante à expansão da colaboração é a não-constituição ainda de um fundo de desenvolvimento, embora já existam um Conselho de Negócios e uma Associação Interbancária.

Os EUA chegaram tarde a esses lances. Só em 2005, quando o Uzbequistão decidiu desfazer-se da aliança e voltar-se para a Rússia, a diplomacia euamericana acordou. Ainda em 2005, Frederick Starr publicou na revista “Foreign Affairs” seu projeto, endossado pelo governo, da constituição da Greater Central Asia Partnership for Cooperation and Development, para implementar programas conduzidos pelos EUA, com centro no Afeganistão. Os papéis de Rússia e China seriam irrisórios; o Irã não seria admitido; Paquistão e Afeganistão entrariam, com Índia e Turquia para, junto com o autor, zelarem pela segurança e a estabilidade na região.

No ano seguinte, 2006, numa audiência no Congresso, o secretário assistente de Estado para Assuntos da Ásia Central e Sul, Richard Boucher, nem sequer conseguiu nomear os seis países membros nem se referiu à SCO, numa omissão que aclarou seu desconhecimento. O agravamento da situação no Afeganistão atrapalhou em definitivo os planos euamericanos. Além disso, a imagem dos EUA é negativa entre os países da região, principalmente após os eventos do Uzbequistão, e muitos temem que a aproximação com os EUA lhes traga problemas.

Lukin aponta algumas mudanças necessárias ao fortalecimento da SCO e ao esvaziamento das propostas ocidentais. São: (1) interessar Índia, Paquistão e Mongólia a se tornarem membros plenos, e dar a Turquia e Afeganistão status de observadores; (2) envolver mais o Irã em seus propósitos pacíficos e construtivos; (3) criar mais cooperação econômica via fundos estatais alocados para projetos multilaterais; (4) abrir mais canais para a cooperação da China; (5) estabelecer uma universidade e um instituto de estudos; e (6) estimular as trocas culturais, esportivas e artísticas entre os membros.

A Aliança Militar
São muitos os acordos gerais, bilaterais e multilaterais que vêm se concertando no âmbito da SCO e seus parceiros observadores. Questões como energia, meio ambiente, infra-estrutura, finanças e educação têm recebido tanta atenção e investimentos quanto segurança e combate às manifestações separatistas, terroristas e extremistas, religiosas ou não. Para Nazemroaya, o Irã é um membro de fato, e sua aparente situação de observador destina-se a ocultar a natureza da cooperação trilateral entre Rússia, China e Irã e evitar a caracterização da SCO como um grupo anti-ocidental.

Segundo Brzezinzki em seu “The Grand Chessboard…”, para a aliança anglo-euamericana a formação de um eixo desse calibre é o que poderia acontecer de mais ameaçador a seus planos de hegemonia. Brzezinski alertava sobre a “emergência de uma coalisão que poderia eventualmente opor-se à supremacia” euamericana. Profeticamente, citou uma “aliança anti-hegemônica” que poderia “ser formada por China, Rússia e Irã”.

Além de a SCO implicar compromissos de defesa e colaboração contra eventuais ataques a um país-membro, embora não seja uma organização militar, existe ainda a CSTO (Collective Security Treaty Organization), sucessora da entidade que reuniu alguns países da ex-URSS logo após a sua dissolução. Compõem hoje a CSTO Rússia, Armênia, Belarus, Quirguistão, Cazaquistão, Tadjiquistão e Uzbequistão. Um general russo é o secretário geral da organização. A Otan não tem ligações com a SCO ou a SCTO, tanto quanto não as tem com a China.
Em outubro de 2007, foi assinado um acordo entre a CSTO e a SCO para ampliação da colaboração em campos como segurança, combate ao crime organizado e tráfico de drogas. O Irã analisa convite da Rússia para aderir à CSTO; seria o primeiro país fora da órbita da ex-URSS a compor a organização, que tem status de observador junto à Assembléia Geral da ONU. Embora a mídia pró-ocidental ainda não se tenha dado conta, existem hoje duas grandes alianças militares, a velha Otan que emergiu da Segunda Guerra e a CSTO recente, além de pactos que ampliam seu alcance, como os que envolvem a China e suas poderosas forças armadas.

Aliados e inimigos A posição de aliado de um ou outro lado é sempre dinâmica, e nesse jogo, se datado do início da década de 1990, os aliados ocidentais começaram bem e vêm desde então deixando escorrer pelos dedos suas conquistas iniciais. A Otan hoje acha-se mergulhada na interminável guerra no Afeganistão, e as tropas anglo-euamericanas vêm patinando na guerra no Iraque. O caso da Turquia, principal aliado ocidental na região, é ilustrativo do choque entre os interesses militares e políticos da aliança ocidental e os mais elevados interesses geopolíticos do país.

Há duas guerrilhas curdas, ligadas ao partido PKK e a um ramo seu, que combatem tropas turcas e iranianas. Ambas são toleradas e, da parte dos curdos, estimuladas; a anti-iraniana tem laços com militares euamericanos. A Turquia, que sedia boa parte do apoio logístico à guerra no Iraque, chegou a movimentar tropas para invadir o Iraque ao norte e desmantelar as bases em que se escondem os guerrilheiros curdos-turcos. Ameaçada pela intenção do Congresso dos EUA de reconhecer o genocídio turco contra os armênios entre 1915 e 1923, tema tabu que leva à prisão, a Turquia ameaçou fechar a base de apoio aos aliados. A questão ainda se acha pendente de gestões diplomáticas, que, sem que se neutralizem os curdos, serão dadas como fracasso.

Sob protestos e pressões de todo tipo dos aliados, e invocações ao embargo econômico imposto ao Irã, a Turquia e o Irã acabam de celebrar vários acordos para projetos conjuntos de produção de energia. Juntos, seus ministros de Energia declararam que outros pactos viriam em seqüência. Os acordos incluem a construção de três centrais de energia térmica de 2 mil MW cada, duas no Irã e uma na Turquia; várias hidrelétricas no Irã, com total de 10 mil MW; melhoria e expansão dos sistemas de transmissão dos dois países.

A Turquia compra gás do Irã, entregue por um gasoduto que parte da iraniana Tabriz até a capital Ankara, e do Azerbaijão, por um gasoduto que passa pela Georgia. Em julho, já se havia assinado acordo internacional para captar gás do Oriente Médio e da Ásia Central, que seria dirigido à União Européia por um gasoduto em desenvolvimento, o Projeto Nabucco europeu, de 3,3 mil km, que passa pelos Bálcãs. A pretensão original do Nabucco era garantir gás da Ásia Central sem interferência da Rússia nem passagem por seu território. Mas a Cúpula do Cáspio relativizou de modo profundo essa pretensão.

A Cúpula do Cáspio
A região do Mar Cáspio é rica em gás, petróleo e recursos variados, e os cinco países que reúnem fronteiras no mar dedicam-se, todos, à sua produção. A importância estratégica da Cúpula de 17 de outubro transparece nas 25 declarações finais do encontro, sob o pano de fundo das declarações de Putin, reproduzidas por todos os jornais influentes do planeta: “Não se deve pensar em usar a força nessa região”. Alguns dias antes, havia oferecido em Moscou um chá-de-cadeira de 45 minutos à secretária de Estado e ao de Defesa, Condoleezza Rice e Robert Gates, já que a meta de sua viagem era pedir concordância para mais sanções ao Irã e também tentar dissuadir Putin de ir à Cúpula do Cáspio. Também a chanceler alemã Ângela Merkel, tanto quanto o presidente francês Nicholas Sarkozy, tentaram dissuadir Putin na ocasião. Dois dias antes, fez-se circular na imprensa européia uma notícia de um pretenso atentado suicida contra Putin, que ocorreria em Teheran. Putin reagiu bem-humorado: ‘Se ouvisse esses conselhos, nunca sairia de casa’.

Na mesma semana, explodia pela última vez o velho conflito entre a Turquia e a guerrilha curda, o Congresso dos EUA ameaçava reconhecer o genocídio turco contra os armênios, e Bush recebia na Casa Branca o dalai lama tibetano, atitude que revoltou os meios diplomáticos e militares chineses. A visita do dalai lama veio pouco mais de um ano após uma inédita seqüência de humilhações armada pelo staff do governo Bush-Cheney contra o presidente chinês Hu Jintao na sua visita ao país. Ao invés do protocolar banquete, Bush ofereceu um pequeno jantar a Hu. Na recepção solene, tocou-se o hino, não da China, mas da inimiga Taiwan. E na conferência de imprensa organizada pelo governo permitiu-se a entrada de um membro do grupo Falun Gong, proibido na China, que discursou com acusações por mais de três minutos sem que fosse interrompido. A dupla Bush-Cheney trata amigos e inimigos com a mesma irresponsabilidade, como nota Brzezinski. Definitivamente, foi uma semana de Putin e Ahmadinejad.

Resoluções Entre as 25 resoluções, o Mar Cáspio foi fechado à navegação civil ou militar de outras bandeiras. Projetos de exploração de seus vastos recursos (terceira maior bacia energética do planeta) e associações setoriais para desenvolver programas específicos passarão a ser discutidos no âmbito da Cúpula. Essa resolução deve ser vista do ângulo da extensa e interminável pendência sobre a propriedade dos recursos no Cáspio. Kevin Kallaugher escrevia em abril: “Ter acesso direto ao gás da Ásia Central e do Cáspio é vital para a segurança energética européia”; “A grande batalha estratégica agora será sobre a rica-em-gás Ásia Central”. E arrematava: “Mas uma disputa longa e não resolvida sobre a propriedade no Cáspio entre, Irã, Casaquistão, Azerbaijão e Rússia torna essa questão explosiva”. Com a Cúpula, abriu-se um largo caminho para a solução harmônica da questão.

Um dos artigos da declaração final estabelece um acordo de não-agressão entre os cinco países, de solução pacífica de conflitos, e desautoriza o uso dos territórios por outrem para ataques a um membro. Isso deixa à disposição da aliança anglo-euamericana apenas o Iraque e o Afeganistão, além dos oceanos, para um ataque contra o Irã. A edição de 18 de outubro da e-revista Turkish Weekly esclarece: “O fato de as opções militares dos EUA terem sido repentinamente limitadas é apenas um dos efeitos da Cúpula de Teheran”.

A decisão foi definitiva para o Azerbaijão, que chegou a aprofundar novas relações com a aliança ocidental. Na verdade, o país sempre se caracterizou por um jogo duplo, em que cedia a apelos da aliança, mas não abandonava seus antigos laços. O Irã decidiu a questão antes da Cúpula, por meio de duas missões diplomáticas bem cimentadas por contatos anteriores. Obteve-se, na capital Baku, uma declaração em que os dois países rejeitavam interferências externas e o uso da força para a solução de problemas, um golpe nas pretensões dos EUA de aprofundar sua presença e apoiar um eventual ataque ao Irã também a partir do vizinho Azerbaijão. Na capital armênia Yerevan, o Irã intermediou o encaminhamento amigável da solução de um antigo conflito de fronteira que opõe armênios e azerbaijanos.

Antes, os aliados ocidentais haviam ajudado movimentos entre a imensa população azerbaijana do Irã. Os azerbaijanos são uns 8 milhões em seu país e mais de 10 milhões no norte do Irã (os números variam entre 10 e 19 milhões). Na existência de clima de conflito, seria imaginável “libertar” o norte do Irã e associá-lo ao Azerbaijão. Um trecho de noticiário sobre esses conflitos anteriores coloca em jogo as forças e a linguagem da guerra, ao afirmar que o clima na região azerbaijana do Irã era de fermentação, com o governo iraniano prendendo “ativistas de direitos humanos” e combatendo o que alguns vêem como a “luta por mais democracia” e outros vêem como “separatismo”.
Entre as declarações da Cúpula do Cáspio, anotam-se alguns outros pontos fortes. Reconhece-se o direito aos países de implementarem programas pacíficos de uso de energia nuclear, sob as salvaguardas do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares, do qual o Irã é signatário (Israel, Índia e Paquistão não o são). A proteção ambiental e um sistema de consultas e adequação de leis foi sacramentado. Exatamente como nas proposições da SCO, a declaração 22 afirma que as partes consideram o terrorismo internacional, o separatismo agressivo, o tráfico de drogas, armas e outras ações ilegais uma ameaça a todo o mundo.

Corredor Norte-Sul Como fundamento e base da cooperação econômica, o Corredor Norte-Sul integra-se firmemente aos planos da Cúpula. Uma nova ferrovia Casaquistão-Turcmenistão-Irã está prevista. Com a interligação das vias de transporte de mercadorias e energia dos países ao gigantesco sistema russo, uma nova saída para o Golfo Pérsico via Irã se tornaria disponível. A SCO tem interesse direto no Corredor, com ênfase nas intenções do Turcmenistão, de ganhar uma saída ao mar, e da China, de reduzir o tempo de transporte das mercadorias até pontos como norte da África, Oriente Médio e Europa. O Corredor, que interligará a Rússia, ao norte, países do Cáspio e a Ásia Central ao Golfo Pérsico, ao sul, fortalece a posição da região como fonte de matérias-primas essenciais, como petróleo, gás e carvão, e solidifica ainda mais a posição da Rússia.

Sobre o Corredor Norte-Sul, a Turkish Weekly registra que, aspectos militares à parte, a integração do Corredor Norte-Sul na Cúpula do Cáspio é o fato maior que avultou. Acha que é difícil a alguém fabular sobre o enorme potencial do Corredor Norte-Sul. “Se a descoberta dos caminhos marítimos decretou a morte da Rota da Seda, o estabelecimento do Corredor Norte-Sul poderia reverter o curso da história.”, afirma com veemência a Turkish Weekly. Como irá reduzir o tempo de trânsito das mercadorias e baratear os fretes, o Corredor seria solução também para muitos países da Ásia fazerem chegar seus produtos até seus maiores mercados, e vice-versa. Iniciativas como áreas de livre comércio e de industrialização seriam abertas ao longo do Corredor. A Turkish Weekly finaliza seus comentários com a constatação de que, com metade da carga mundial de mercadorias passando pelo país, a Rússia sempre poderia habilitar-se a continuar participando do jogo global mesmo com o declínio de suas jazidas de energia.

Energia A posse das fontes de energia, questão central da época, vai-se firmando nas mãos dos próprios atores locais, como se viu na Cúpula do Cáspio. Ao lado disso, corre aos poucos a transformação das petroleiras, de antigas proprietárias e donas de jazidas, à posição atual de parceiras menores. A Rússia fornece gás, entre outros, à União Européia; para alguns países, chega a 100% da oferta, além de a poderosa estatal russa de energia Gazprom (terceira empresa em valor de mercado do mundo) deter participação em dezenas de empresas de energia européias.
Há muito os países da região vêm desenvolvendo esforços diplomáticos e comerciais para harmonizarem suas políticas de energia, e este é mais um ponto de atrito e desconforto nas relações com o Ocidente. Há uma profusão de projetos que atravessam, quando não ameaçam, alianças e conveniências políticas. A oposição dos EUA à construção de um gasoduto Irã-Paquistão-Índia contraria os governos aliados, interfere em seu desenvolvimento e altera a moldagem de seu futuro, além de prejudicar também empresas e forças políticas diversas. O gasoduto, de 2,8 mil km e US$ 7,7 bilhões, seria financiado e construído pela Gazprom.

O governo euamericano apoiou há pouco uma iniciativa de independência energética da Europa: o gasoduto Nabucco, que sai da Turquia e avança pelos Bálcãs e Europa Central até a Áustria, onde estão sendo construídas as instalações de um gigantesco reservatório de distribuição. O objetivo original seria entregar à Europa o gás da Ásia Central sem depender da Rússia e circundando seu território, afinal, hoje boa parte da União Européia já vive à mercê da torneira russa. Do lado russo, outros gasodutos são bem-vindos, a exemplo do que sai da Rússia pelo Mar Báltico direto para a Alemanha, em construção por consórcio de empresas dos dois países dirigido pelo ex-chanceler Gerhard Schroeder. O gasoduto do norte reduzirá o total do gás russo que passa pela Ucrânia, país ligado ao Ocidente. E inicia-se o projeto russo de um gasoduto via Grécia e Bulgária, sem passar pela Turquia, outro aliado do Ocidente.

Mas a dupla de governo Bush-Cheney não contava com a astúcia de Putin, cuja popularidade vem de sua gestão que levantou o país e o repôs no tabuleiro do Grande Jogo novamente em pé de igualdade com algumas potências. O Nabucco poderá transportar gás do Turcmenistão, Casaquistão etc., mas, após a Cúpula do Cáspio, qualquer negociação contará com a presença da Rússia. Dessa forma, o objetivo estratégico de obter gás sem a presença russa foi sumariamente eliminado. Além disso, Putin associou-se aos austríacos no empreendimento, por intermédio da Gazprom.

A ativa diplomacia do Irã, ignorada pela mídia ocidental, registra recentes articulações com países do Cáucaso, da África do Norte e da Ásia Central e o Conselho de Cooperação do Golfo, maiores produtores mundiais de petróleo. O Irã vem fechando acordos comerciais vitais com outros vizinhos, inclusive com a Turquia, membro da Otan (que vive hoje momentos de sério atrito com os EUA, cuja popularidade no país acha-se num recorde de baixa).

Sonhos e Pesadelos
A intenção da União Européia de garantir cada vez mais seu gás e seu petróleo sem Rússia e Irã vai se tornando inatingível. Mas a União Européia tem um mau sonho mais próximo e elementar. A ex-URSS e a Rússia por muito tempo aplicaram recursos e esforços na construção de uma imensa rede de oleodutos e gasodutos, mas não destinaram suficiente atenção à produção. Com uma Rússia em crescimento econômico firme e crescente demanda interna de sua própria produção, além de prazos dilatados para que novos supercampos comecem a produzir, um receio começa a manifestar-se entre especialistas europeus: o de que a Rússia em breve não tenha gás suficiente para vender a uma sempre ávida UE.

E o grande pesadelo da dupla Bush-Cheney também vai tomando corpo. A China, desde 2003 o segundo maior consumidor de energia do mundo, vai ocupando os espaços do Ocidente junto a produtores africanos e do Oriente Médio. Em visita em 2006 à China, primeiro país a ser visitado pelo rei Abdullah, da Arábia Saudita, firmaram-se acordos que dão sustentação ao comércio anual de US$ 16 bilhões entre os países. Após a humilhação nos Estados Unidos, em 2006, Hu Jintao aportou na Arábia Saudita, depois na nova aliada Nigéria, Marrocos e Quênia. Ao contrário dos financiamentos do Banco Mundial e FMI, repletos de juros e imposições, a China celebra acordos e simplesmente dá sua contrapartida, muitas vezes gratuita.

O grande pesadelo inclui ainda a futura imensa rede de petróleo e gás, que parte do norte da Rússia, passa pela Ásia Central e pelo Cáspio, cruza Irã e Síria, abarca o norte da África e os países do Golfo, e une as duas grandes regiões produtoras mundiais num só corpo. Nas mãos de Rússia, Irã, Arábia Saudita, Síria, Argélia… Anda aceso o debate acerca da criação do que vem sendo chamado “Opep do Gás”, liderada hoje por Rússia, Irã, Qatar, Argélia e Venezuela, que juntam 80% das reservas mundiais.

É relevante o imenso tabuleiro eurasiático de predominantes acordos bilaterais e também multilaterais estratégicos, entre países, organizações e empresas, que se destinam a construir entre os interessados relações pacíficas, amigáveis e prósperas, conduzidas no contexto do respeito às leis internacionais. Numa ponta do tabuleiro, a aliança EUA-Reino Unido assina até agora a recente invasão genocida de dois países, em ‘ataques preventivos’ decididos ao arrepio de normas internacionais e de resoluções da ONU, para combate ao ‘terrorismo internacional’, e assume o apoio à maior força de desestabilização do Oriente Médio, a nuclear Israel.

A Opep e o Dólar
Também fonte de maus sonhos para a aliança ocidental foi a recente reunião da Opep, em Riad, que abordou a diversificação da cesta de moedas habilitadas ao comércio de petróleo, desde 1974 praticamente restrita ao dólar, o que ainda ajuda a sustentá-lo como moeda. Apesar das promessas da Arábia Saudita de não abandonar o dólar-petróleo, torna-se a cada dia mais difícil aos países, governos e bancos centrais manter a moeda e, ao mesmo tempo, arcar com os riscos e prejuízos.

Outras notícias dão conta de que Coréia do Sul, Angola, Iraque, Nigéria, China, Irã, Venezuela, Rússia, Arábia Saudita e outros começam ou continuam a movimentar-se para trocar parte de suas reservas em dólar por moedas e papéis mais seguros. Mas não se deve tratar, conforme o analista Muriel Mirak-Weissbach, de derrubar o império junto com sua moeda, como deseja e expressou Chávez. O sistema financeiro internacional e o sistema de comércio mundial apóiam-se também no dólar, e por isso, para o analista, as transições devem ser articuladas com a participação dos EUA, ainda a maior economia do planeta; qualquer outro caminho provocaria apenas caos e anarquia, e, conseqüentemente, mais guerra.

Mirak-Weissbach expõe caminhos para a saída. Um deles seria a convocação de uma conferência internacional para reforma do sistema monetário, com a presença essencial de EUA, Rússia, China, etc. Seriam restabelecidas taxas fixas de câmbio entre as principais moedas, e a partir daí a especulação seria contida. Assim, qualquer dessas moedas poderia servir para a compra de petróleo. Seriam também retomados outros aspectos positivos, como o direcionamento dos investimentos à produção de bens e riquezas.

Outro caminho seria uma opção pela energia nuclear. Para Mirak-Weissbach, a Opep deveria organizar-se para o futuro de pouco petróleo investindo agora suas imensas reservas em centrais nucleares, a energia do futuro para todos. O analista registra as opiniões de vários chefes de Estado  inclusive do Irã, que põe à disposição sua tecnologia própria  de que um país neutro (a Suíça é citada) poderia centralizar as atividades de enriquecimento de urânio e fabricação dos combustíveis nucleares para as usinas. Isso afastaria o fantasma do desvio de produção para chegar a armas nucleares. E também permitiria redirecionar o petróleo para aplicações mais interessantes, por exemplo na petroquímica.

No discurso, os aliados ocidentais brilham. No terreno firme dos fatos econômicos e políticos, a aliança vai-se desfazendo em derrotas, dívidas de trilhões, recessão, crise financeira, isolamento e condenações. Por enquanto, as brancas jogam e perdem…

Rabo de artigo
O agudo comentário de Mirak-Weissbach não toca na existência de uma indústria e um estoque de armas nucleares nas mãos de aliados ocidentais, Rússia e China. A dupla Bush-Cheney ameaça uma guerra nuclear contra o Irã. Falta um motivo, real ou fictício. Entre 29 e 30 de agosto deste ano, um míssil nuclear com carga dez vezes maior que a da bomba de Hiroxima desapareceu nos Estados Unidos, numa história militar tão ou mais cheia de desencontros e mentiras quanto a dos ataques às torres gêmeas em 2001.
Em depoimento à Comissão de Relações Exteriores do Senado dos EUA, em 1º de fevereiro de 2007, Zbigniew Brzezinski iniciou com as palavras: “A guerra no Iraque é uma calamidade histórica, estratégica e moral”. Sobre a possível ação militar contra o Irã, afirmou que poderia vir após “alguma provocação no Iraque ou um ato terrorista nos Estados Unidos que seria atribuído ao Irã”.

Serviço
fontes: jornais e agências / globalresearch.ca / russia in global affairs // leap/e2020 // asia times / strategic foresight - turkish weekly / the washington quarterly / wsws / the economist / strategic culture foundation / pravda.ru / countercurrents / news central asia / globalsecurity / res / reseau voltaire / eir / resistir.info / counterpunch / info clearing house

pessoais: the geronimo manifesto / john pilger / chomsky.info / f w engdahl / robert fisk

Revista NovaE
http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=605

Comentários

FMI reduz previsão de crescimento global

Mas Fundo mantém expectativa anterior à crise para América Latina, principalmente por causa das commodities, e China. Ele volta a descartar recessão nos EUA e projeta expansão mundial de 4,1% em 2008, com emergentes atenuando a desaceleração global.

FERNANDO CANZIAN
DA REPORTAGEM LOCAL

O FMI (Fundo Monetário Internacional) revisou para baixo a expectativa de crescimento mundial em 2008 e espera agora uma desaceleração em quase todas as regiões do globo. Mas o Fundo voltou a descartar ontem uma recessão nos Estados Unidos.
As principais exceções a um desaquecimento global mais forte, segundo o FMI, serão a América Latina, que concentra vários países produtores de commodities minerais e agrícolas, e a China.
Para a América Latina, as previsões feitas em outubro, antes do início da atual crise financeira, foram mantidas. Além disso, o Fundo aumentou em 0,5 ponto percentual, para 5,4%, o crescimento projetado entre os latino-americanos ao longo de 2007.
Em divulgação extraordinária diante da recente crise nos mercados, o Fundo apresentou ontem em conferência pela internet revisões de dois de seus principais relatórios globais.
No "Panorama Econômico Mundial" previu um crescimento global de 4,1% neste ano, 0,3 ponto percentual menor do que projeção feita em outubro e abaixo dos 4,9% estimados para 2007. Se o FMI acertar, será a primeira vez em cinco anos que o crescimento da economia global cairá da casa dos 5%.
Os EUA puxarão a desaceleração. Segundo o FMI, a maior economia do mundo está "girando" neste momento em um ritmo de 0,8% apenas. Há um ano, os EUA "rodavam" em um ritmo anualizado de 2,6%.
Mesmo assim, a estimativa é que o país cresça 1,5% em 2008, graças principalmente ao "rescaldo" do crescimento de 2007, estimado em 2,2%.
No relatório de ontem, o Fundo reduziu em 0,4 ponto percentual a expectativa de crescimento norte-americano. Para a zona do euro, o corte foi maior, de 0,5 ponto, encolhendo a projeção de crescimento na região para 1,6% em 2008.
Apenas a América Latina e a China tiveram mantidas as expectativas de crescimento realizadas em outubro, antes da crise nos mercados. Para os países latino-americanos, permanece a projeção de 4,3% em 2008, e, para a China, de 10%.
Sem descolamento
Sem citar especificamente nenhum país latino-americanos, Simon Johnson, economista-chefe do FMI, disse que economias produtoras de commodities tendem a ir melhor na atual crise. Ele elogiou também a melhora nos " fundamentos econômicos" de vários países da região. Mas frisou que ninguém está imune a uma piora do cenário nos EUA.
"Notícias e comentários a respeito de um descolamento [de alguns países em relação aos EUA] têm sido extremamente exagerados. Ninguém está imune a um desaquecimento global", disse.
Durante a atualização de outro documento, o "Relatório sobre a Estabilidade Financeira Global", o economista do FMI Jaime Caruana afirmou que os países latino-americanos correm menos riscos de serem contaminados pela atual crise de crédito nos EUA.
Segundo ele, o sistema financeiro na região hoje é sólido e não estaria exposto a um eventual contágio a partir dos bancos americanos.
Para Caruana, o maior risco no horizonte latino-americano seria que um desaquecimento mais forte derrubasse as exportações da região para os EUA. O FMI, porém, descartou a ocorrência de uma recessão na maior economia do mundo.
Caruana afirmou ainda que, do ponto de vista dos mercados financeiros (que vivem dias de forte volatilidade), "boa parte do ajuste já ocorreu".
Emergentes à frente
Embora tenham individualmente peso relativo menor do que o das economias avançadas, os emergentes, segundo o FMI, devem compensar parte do desaquecimento nos EUA, na zona do euro e no Japão.
"A despeito de alguma desaceleração no ritmo das exportações, os mercados emergentes e economias em desenvolvimento continuam a se expandir fortemente, liderados por China e Índia", diz o FMI.
Mesmo para a África, que vem se consolidando como importante produtor de commodities destinadas à China, as previsões realizadas em outubro foram mantidas. Para a região, o FMI projeta um crescimento de 7% em 2008, acima dos 6% de 2007.
O FMI ressalta que muitos emergentes também crescem hoje mais apoiados na demanda doméstica (caso do Brasil) e que isso tende a atenuar os efeitos do desaquecimento nas economias mais avançadas.
Para o Fundo, a desaceleração entre as maiores economias do mundo tende a reduzir o risco de inflação. Para os emergentes, porém, o FMI diz que o controle dos preços permanece "um grande desafio".

Folha de S. Paulo

Comentários

Após 40 anos de sua morte, Martin Luther King ainda atrai políticos

Jim Auchmutey e Ernie Suggs

Quarenta anos após sua morte, o reverendo Martin Luther King Jr. atrai políticos como um desfile de dia da independência - especialmente políticos que almejam ser rei.

Três pré-candidatos presidenciais e um representante visitarão Atlanta neste fim de semana do Dia de Martin Luther King, o maior número nos 22 anos de história do feriado.

O senador Barack Obama falará na missa das 10h de domingo na Igreja Batista Ebenezer, onde King foi co-pastor. A campanha da senadora Hillary Clinton enviará seu marido, o ex-presidente Bill Clinton, à cerimônia oficial na igreja na segunda-feira. O ex-governador de Arkansas, Mike Huckabee, o único republicano com visita agendada a Atlanta, comparecerá à cerimônia de segunda-feira a convite de um membro da família King.

O ex-senador John Edwards planejava passar à frente de todos, fazendo uma parada no sábado no salão da Irmandade Internacional dos Trabalhadores do Setor Elétrico, perto do centro de Atlanta.

Do reverendo Jesse Jackson nos anos 80 ao presidente George W. Bush há quatro anos, os candidatos freqüentemente fazem peregrinação à Atlanta para prestar homenagem durante a semana de aniversário de Martin Luther King.

“Bill Clinton, Ted Kennedy, os Bushes - vi todos passarem pela Auburn Avenue”, disse o deputado estadual Tyrone Brooks, um democrata de Atlanta que trabalhou no movimento dos direitos civis. “Talvez nem todos tenham apreciado o que o dr. King fez enquanto estava vivo: as marchas, os boicotes e tudo mais. Mas eles vêem o valor de se associarem a ele agora. É boa política.”

E é uma política particularmente boa neste ano, com disputas abertas em ambos os partidos e o feriado caindo apenas duas semanas antes da Super Terça, quando mais de 20 Estados realizarão suas eleições primárias.

E há o fator Obama.

“Muita gente considerou o voto afro-americano certo ao longo dos anos”, disse o senador estadual Emanuel Jones, um democrata de Ellenwood que apóia Obama. “Agora que temos um candidato como o senador Obama, há uma disputa acirrada por tal voto. Eu acho que é o motivo para vermos a presença de tantos candidatos.”

A disputa pelos eleitores negros aqueceu recentemente, quando Hillary Clinton disse à “Fox News” que o sonho de King só começou a se concretizar quando um presidente, Lyndon B. Johnson, aprovou a lei de direitos civis. Obama criticou os comentários como um menosprezo a King, provocando um debate rancoroso.

O convite para Obama falar em Ebenezer foi feito pelo menos um ano antes da campanha presidencial. O pastor da igreja, o reverendo Raphael Warnock, começou a falar com Obama sobre vir a Atlanta no final de 2005.

“Ele representa a promessa do movimento dos direitos civis e da lei de direito ao voto. Ele é a resposta às orações de Ebenezer”, disse Warnock, que rapidamente acrescentou que Hillary Clinton também foi convidada para a cerimônia na igreja.

A campanha de Obama disse que ele aproveitará a oportunidade para discutir unidade, reconciliação e o legado de King.

O campo de Hillary Clinton terá sua vez no dia seguinte, quando o ex-presidente voltar a Ebenezer para a cerimônia do feriado.

“A presença dos Clintons não é incomum”, disse Verna Cleveland, a diretora do comitê eleitoral na Geórgia. “Isso demonstra o apreço deles pelos direitos civis, pelo que King fez para promover o avanço de nosso país e o compromisso deles com a continuidade de seu legado.”

O Centro King, que organiza os eventos de segunda-feira, tenta tratar os candidatos com igualdade.

“Nós reconheceremos a presença deles, mas eles não falarão”, disse o presidente do Centro King, Isaac Farris, sobrinho do líder dos direitos civis. “Se permitir que todos falem, se transformará em um evento político.”

Mas Bill Clinton não é candidato e poderá falar na condição de ex-presidente.

Huckabee, um pastor batista, será apresentado na segunda-feira. Ele planejava visitar Atlanta na terça-feira para participar de um comício antiaborto no aniversário da decisão “Roe contra Wade”. Ele mudou sua agenda a convite da reverenda Alveda King, uma sobrinha de King que não apóia Huckabee, mas é oponente do aborto e do casamento gay. Ela planeja acompanhá-lo ao café da manhã de oração da Conferência da Liderança Cristã do Sul, na segunda-feira, e depois à cerimônia em Ebenezer.

Participar do Dia de Martin Luther King só ajudará o governador, disse Farris. “Associar-se ao legado o ajudará a transmitir a mensagem de que não está demais à direita.”

Associar-se a King não era considerado prudente quando esta saga dos direitos civis e da política presidencial teve início nos anos 60.

Durante a campanha naquele ano, King foi preso na Geórgia por uma antiga infração de trânsito. O candidato democrata John F. Kennedy relutou em se envolver por achar que aquilo lhe custaria votos dos eleitores brancos, mas finalmente telefonou para Coretta Scott King para expressar sua solidariedade e oferecer apoio. Quando a notícia se espalhou, milhares de republicanos negros deixaram o partido de Lincoln para apoiar Kennedy.

Um deles foi o reverendo Martin Luther King Sr. - papai King - que disse durante uma missa em Ebenezer que planejava votar em Richard Nixon e contra o católico Kennedy, “por causa de sua religião”, mas que tinha mudado de idéia.

King Jr. não apoiou candidatos, mas duas vezes chegou perto.

Em 1964, ele fez campanha contra o candidato republicano Barry Goldwater, que era contrário à legislação de direitos civis, mas nunca apoiou formalmente o eleito Lyndon B. Johnson.

Em 1967, King viajou duas vezes para Cleveland para registrar eleitores que supostamente votariam em Carl Stokes em sua campanha para se tornar o primeiro prefeito negro de uma grande cidade americana.

Naquele ano, ativistas anti-Guerra do Vietnã pediram para King concorrer à presidência em uma chapa de protesto com o pediatra Benjamin Spock.

“Ele nunca considerou tal pedido”, lembrou Andrew Young, assistente de King. “Ele não considerava aquele o seu papel.”

Após sua morte, King se transformou em um ícone - um símbolo de irmandade e igualdade - reivindicado por políticos de todas as classes, pelo menos em parte.

“Os candidatos gostam de se identificar com ele porque ele lhes dá uma estatura moral”, disse Young. “Nenhum líder moral americano nos últimos 50 anos foi mais citado do que Martin Luther King Jr.”

A pergunta é se vir a Atlanta para o Dia de Martin Luther King de fato ajuda nas eleições.

“Eu não sei se influencia o voto de alguém. Pode ser”, disse Merle Black, cientista político da Universidade Emory. “Mas se você não comparecer, pode prejudicar porque terá que explicar o que estava fazendo que era mais importante.”

Cox Newspaper
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/cox/

Comentários

Pensamento do dia

Erro de português

Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português

Oswald de Andrade

Comentários

Tropa de Elite: matando pelo bem do Brasil

Mário Maestri

Em “Tropa de Elite”, o singular não é o filme em si, mas o estrondoso sucesso, antes mesmo do seu lançamento, obtido através da venda de cópias pirata de dvds. Como película, a obra de José Padilha repete em geral as receitas inovadoras de “Cidade de Deus”, sem o brilho do célebre longa-metragem de Fernando Meirelles: a criminalidade urbana como tema; o narrador como condutor da trama; os quadros dinâmicos em uma sucessão de clips. Uma espécie de plágio doce devido parcialmente ao fato de Bráulio Mantovani assinar os roteiros das duas películas.

Na essência, os filmes são opostos. Em “Cidade de Deus”, através da história da comunidade homônima, Fernando Meirelles relata a construção social do criminoso, para propor superação individual pela arte, pelo trabalho [fotografia] e pelo abandono do seu mundo, do destino do jovem favelado ao crime. Mantendo-se nos marcos da leitura da favela pela cidade, a câmara de Meirelles procura dar a voz aos protagonistas. No fundo, é leitura social otimista, ainda que ingênua.

Não há meias cores em “Tropa de Elite”, apesar do sinistro claro-escuro em que o filme se move permanentemente. Os protagonistas e antagonistas são feitos de uma só peça: corruptos ou honestos às vísceras. Os únicos heróis, profundamente humanizados, são os policiais do BOPE, a sinistra tropa de elite carioca que, no filme, tortura, mata e morre em desesperada e incompreendida última defesa da civilização contra a barbárie, da cidade contra o morro. Ao iniciar a película, o narrador traça o quadro geral maniqueísta, sumário e simplista: “Se o Rio dependesse só da polícia tradicional, os traficantes já teriam tomado a cidade […].”

“Tropa de Elite” não cria muito. Limita-se a encenar sentimentos que ultrapassam os limites das classes altas e médias endinheiradas: a certeza de que a única solução para o crime, corporificação da maldade absoluta, é a mão-de-ferro da repressão sem piedade. O “Brasil está em guerra”, grita-se de todos os lados, exigindo-se tratamento implacável para o inimigo próprio aos conflitos nacionais. Proposta com a qual a mídia martela uma imensa parcela da população que materializa e potencializa, no sentimento de insegurança pessoal, o stress permanente produzido pelas incertezas e insatisfações crescentes da vida quotidiana.

Nos seus limites, o filme possui soluções imaginosas, como a inversão da ordem normal dos fatores sociais, ao apresentar a execução do horrível traficante “Baiano”, branco, pelo honestíssimo e muito humano Matias, policial e acadêmico de Direito, negro. Ou a melodramática superposição de papéis de Nascimento, o capitão do BOPE, organizador dos assassinatos e de sessões de tortura e homem sensível à espera do primeiro filho, símbolo da inocência do mundo que defende, às custas de sua permanente descida ao inferno.

O deputado quer apenas saber o “quanto” vai ganhar, ao se associar a policiais que chafurdam no crime. Os estudantes discutem as causas e soluções da marginalização social, citam Foucault, mas são drogados hipócritas, traficantes e queridinhos de criminosos. São os verdadeiros responsáveis pelos crimes do traficante, ao pagar pela droga maldita. Nesse mundo em degringolada, o único remédio forte é a morte e a tortura ministradas profissionalmente por policiais incorruptíveis, que entregam dilacerados a vida se necessário no cumprimento de suas missões. Tudo pelo bem do Brasil.

José Padilha apenas dramatiza a apologia das execuções de populares pelas forças policiais, sob as ordens e cumplicidade das autoridades e os aplausos dos meios de comunicação. Em “Pixote”, Hector Babenco humanizou o delinqüente, como ser social fraco, eternamente perdedor. Em “Carandiru”, denunciou sem maior sucesso o mega-massacre da polícia militar paulista. Invertendo o sinal, “Tropa de Elite” glamouriza mortandades como as do Complexo do Alemão, em junho deste ano, levando a platéia ao orgasmo coletivo com a tortura do prisioneiro rendido, que expia na dor de seu corpo, o pecado social praticado, como o negro cativo, que pagava na senzala, com bolos nas mãos, pés e nádegas, a vagabundagem, desrespeito, furto e trabalho malfeito, sob o olhar aprovador da casa-grande, angustiada com o desbunde da ordem constituída.

Através da escusa da encenação do real, “Tropa de Elite” radicaliza as propostas de “Tolerância Zero” com a criminalidade, apresentadas incessantemente pela cinematografia estadunidenses de segunda linha. Sem pruridos, extrema insinuações de séries como “Lei & Ordem” sobre a legitimidade da execução e da tortura na obtenção de resultados louváveis: a eliminação do terrorista, a morte do traficante, a prisão do pedófilo.

Nos anos de chumbo, Fleury e sua escuderia maldita matavam e torturavam nas sombras, para manter através do medo e do terror a disciplina social. Hoje, Nascimento e seus boys fazem igual, tintim por tintim, no cinema e na vida real, sob os aplausos da mídia e de enormes setores da população. Embarcando no bonde do consenso fácil, intelectuais de todos os sabores clamam por medidas excepcionais, repetindo como o sicário da ditadura, debruçado sobre a vítima inerme: – “Guerra é guerra, meu filho”!

Em fins dos anos 1980, o sucesso da sub-literatura de tema esotérico de Paulo Coelho registrou a crise geral da confiança nas soluções sociais racionalistas, devido à vitória mundial da maré neoliberal. O sucesso multitudinário de Tropa de elite é sobretudo depoimento inarredável da barbarização social do Brasil de nossos dias, onde a tortura e a execução sumária, contra setores pobres da população, tornam-se medidas de profilaxia social geralmente aceitas.

No mundo fantástico do segundo governo Lula da Silva, enquanto cresce a dilaceração dos laços sociais e nacionais, os ricos tornam-se mais ricos e as classes médias viajam ao exterior despreocupadas com a inevitável ressaca do dia seguinte do real-maravilha. Ao povão imenso sem rosto visível, a bolsa-família, o trabalho precário, o salário miserável, o arranjar-se como for possível nas filas do INPS, do SUS, dos que procuram trabalho com carteira assinada, na luta cada vez mais dura e crua pela existência de cada dia.

O sucesso de “Tropa de Elite” registra o conservadorismo crescente da população nacional, na esteira da fragilização do mundo do trabalho e mergulho geral das lideranças populares tradicionais na corrupção. Tudo enquanto empresários, políticos e administradores farreiam-se seguros da impunidade total, com o recurso, a renda, o trabalho nacional. É enorme vitória dos poderosos que policiais fardados de preto encarnem a solução da insegurança e fragilidade nacional, distribuindo a morte entre os pobres, sob a bandeira da caveira sorridente. “Tropa de elite, osso duro de roer, pega um, pega geral, também vai pegar você!” E, se não te cuidares, meu chapa, vai te pegar, mesmo.

Revista Espaço Acadêmico
http://www.espacoacademico.com.br/

Comentários

Relatório sobre Irã mina estratégia americana de exagerar ameaças

Informação de que Teerã suspendeu programa de armas nucleares em 2003 abalou credibilidade da Casa Branca

Patrícia Campos Mello

Foram anos exagerando o perigo nuclear e a proliferação das armas de destruição em massa em várias nações. Agora, a estratégia de ‘turbinar ameaças’ do presidente americano, George W. Bush, voltou-se contra o feiticeiro.

A divulgação do relatório da Estimativa Nacional de Inteligência na semana passada, no qual as agências governamentais do setor revelam que o Irã suspendeu seu programa de armas nucleares em 2003, foi um duro golpe na credibilidade da Casa Branca e na sua capacidade de angariar apoio internacional para impor sanções contra os iranianos. Até pouco tempo atrás, Bush continuava alertando para o ‘perigo de uma 3ª Guerra Mundial’ com a possibilidade iminente de o Irã construir uma bomba nuclear.

O relatório de inteligência derrubou a tese do perigo iminente. ‘Não foi como em 2002, quando a comunidade de inteligência simplesmente endossou todos os exageros da Casa Branca (sobre as armas de destruição em massa do Iraque) - não se trata mais de George Tenet (ex-diretor da CIA)’, diz Ray Takeyh, pesquisador do Council of Foreign Relations .

‘A falha do governo Bush foi ter errado a medida de sua política externa, ao exagerar a capacidade nuclear e a ameaça iraniana’, diz o iraniano Vali Nasr, professor da Universidade Tufts e pesquisador do Council of Foreign Relations. Nasr e Takeyh são autores do artigo principal da revista Foreign Affairs de janeiro-fevereiro, ‘Os Custos da Contenção do Irã - a Equivocada Nova Política de Washington para o Oriente Médio’.

O problema é que o governo americano perdeu um pouco mais de sua credibilidade. E praticamente deu passe livre para o presidente iraniano, Mahmud Ahmadinejad, seguir com sua estratégia nuclear. ‘Agora o Irã tem um programa nuclear com crescente capacidade de enriquecer urânio que é essencialmente imune a um ataque militar dos EUA’, diz Takeyh.

Sem o argumento de perigo iminente de armas nucleares, os EUA não podem justificar para a comunidade internacional um ataque preventivo contra o Irã. E dificilmente fariam um ataque unilateral ao país agora, após se envolverem em guerras em duas nações islâmicas - o Iraque e o Afeganistão.

FÁBULA DE ESOPO

É mais ou menos como aquela fábula do Esopo, do menino que gritava ‘lobo’. Era um pastor que saía com suas ovelhas e sempre pedia socorro, mentindo que o lobo estava atacando. Os camponeses do vilarejo ficavam alarmados e corriam para ajudá-lo, chegavam lá e descobriam que era mentira. Certa ocasião, o lobo veio de verdade. O menino gritou, gritou, mas ninguém acreditou. Como dizem os americanos, ‘never cry wolf’ (dar um alarme desnecessário, segundo o Dicionário Merriam Webster).

Com a divulgação do relatório, Ahmadinejad foi encorajado a seguir em frente com seu programa nuclear e, quem sabe, chegar à bomba. E quando os EUA soarem o alarme, vai ser difícil convencer a comunidade internacional.

Segundo Gary Sick, professor da Universidade Columbia que serviu no Conselho de Segurança Nacional nos governos de Gerald Ford, Jimmy Carter e Ronald Reagan, não importa o fato de o Irã ter ou não suspendido seu programa nuclear em 2003 (muitos céticos contestam a informação do relatório).

‘De qualquer maneira, os iranianos têm infra-estrutura e capacidade nuclear suficientes para decidir se querem ter a bomba e, em 18 meses, efetivamente fabricar a bomba atômica’, diz Sick, para quem o Irã já poderia ter a bomba, se quisesse. ‘Na realidade, os programas nucleares secretos como os de Israel, Paquistão e Índia mostram que, do momento em que o país decide que quer ter a bomba até realmente produzi-la, passam-se cinco ou seis anos’, explica.

Segundo ele, o Irã tomou essa decisão em 1985. ‘Estúpidos eles não são, então existe algum motivo para, 20 anos depois, ainda não terem a bomba atômica. Eles estão deliberadamente conduzindo o programa de forma lenta’, diz Sick.

Se forem realmente espertos, nem irão até as últimas conseqüências, diz o acadêmico. Para Sick, ‘ter o potencial de fabricar a bomba é tão útil quando efetivamente ter a bomba, em termos de poder de barganha internacional. Aliás, não ter a bomba é até melhor, porque não deixa o Irã como alvo claro de ataque’.

Sick espera que o Irã opte pela estratégia mais ‘esperta’. Já que, dessa vez, não vai adiantar muito os EUA gritarem ‘lobo’.

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

Comentários

Ocupar a Universidade

O movimento de ocupações que emergiu nas instituições federais reivindica um legado que nunca deveria ter sido esquecido. Autonomia, democracia e liberdade são conceitos que ajudam na consciência de massas no Brasil, e fazem valer o princípio de universalidade do conhecimento

Vinicius Almeida, Allan Mesentier, Daniel Nunes

A sociedade espera que a universidade seja o lugar do saber, da produção de conhecimento e, conseqüentemente, um instrumento que enriqueça, desenvolva e aprimore inúmeros aspectos da vida cotidiana. Porém, em nosso país, a realidade das Instituições Federais de Ensino Superior (IFES) está muito distante desses marcos ideais. Nos últimos anos, elas têm se desenvolvido, cada vez mais, de forma acrítica, abandonando sua característica de pensar coletivamente a realidade. Mas isso de forma alguma quer dizer que elas não têm se transformado. Pelo contrário, desenvolvem-se e sofrem mudanças a cada dia, mas sem ciência e reflexão sobre seus rumos. É fato que existe uma imensa limitação na sua capacidade de crítica e, portanto, uma inevitável fragilidade diante de forças sociais externas a elas, como o mercado e governos.

Em outros momentos, a universidade foi condenada pela sua história de isolamento, como afirma Anísio Teixeira: “Em sua evolução, das mais lentas da história, a universidade procurou mais se isolar do que participar do tumulto dos tempos (…) O que andamos fazendo com o nosso Ensino Superior nunca representou originalidade, mas cópia ou eco dessas idéias de universidade” [1]. A bandeira da autonomia, no entanto, não afirma distanciamento, mas uma atuação reflexiva dessa instituição na realidade brasileira.

Com a proliferação de cursos pagos e fundações privadas, permitidas pelos últimos governos federais brasileiros, o patamar de cópia de modelos foi substituído pela subalternidade de seus dirigentes às regras e leis do mercado. Antes da ditadura militar, havia resistência no seio da universidade. Porém, a burocratização que tomou conta desses locais de saber no período da ditadura militar, permanece ainda hoje à frente das mesmas. Em tal situação, as IFES se apresentam muito enfraquecidas diante de quaisquer medidas provenientes dos espaços do governo.

“Fica clara a insuficiência de recursos para objetivos previstos no REUNI”
O movimento de ocupações que emergiu nas universidades federais (a exemplo da UFF, UFPR, UFRJ, UFJF, UFPE, UFC, UFRRJ, UNIRIO, UNIFESP, UFBA, UFU, dentre outras) foi impulsionado pelos estudantes em reação ao Decreto 6096/07 de 24 de abril de 2007, que prevê o “Programa de apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais – REUNI”. Como é evidente nas universidades federais, há uma enorme carência de qualidade e infra-estrutura, que denominamos como “sucateamento da universidade pública”, sendo gritante na assistência estudantil, além da falta de democracia nos fóruns da universidade, ocasionada pela já mencionada burocratização dessas instituições.

O REUNI, decreto assinado pelo Governo Lula em 24 de abril de 2007, prevê uma hipotética expansão das Universidades federais mediante ampliação de verbas para as instituições que cumprirem as metas de ampliação da proporção professor-aluno para 18/1 e de 90% de aprovação de alunos. Contudo, segundo o próprio MEC, “o total de investimentos projetados para o período de 2008 a 2011 é da ordem de 2 bilhões de reais. O valor acrescido ao orçamento de custeio e pessoal de cada Universidade aumentará gradativamente, no período de cinco anos, até atingir, ao final, o montante correspondente a 20% do previsto para 2007” [2]. Esta verba está sujeita ao orçamento anual destinado pelo MEC. O orçamento de 2008 que o governo federal executou para o REUNI é de R$ 480 milhões para todas as universidades federais que aderirem ao decreto.

Considerando que as 53 IFES venham a aderir (de fato, mais de 45 IFES já aderiram), a média para cada Universidade é de, aproximadamente, R$ 9 milhões. A projeção do prédio da Moradia Universitária da UFF, por exemplo, está orçada em R$ 10 milhões e, tratando-se de um prédio que sequer supriria a carência da atual demanda de assistência estudantil, visto que são cerca de 1000 vagas numa universidade com mais de 25 mil estudantes, fica clara a insuficiência monetária do previsto, na melhor das hipóteses, pelo REUNI.

“Ficamos estarrecidos com a proposta de diminuir o número de professores por aluno”
Fora o complexo quadro das “verbas possíveis”, o que mais causou indignação nas universidades foi o condicionamento para isso. Umas das mais gritantes é o aumento para 90% a taxa de conclusão média dos graduandos de cursos presenciais. Atualmente, esse número nas IFES está em torno dos 60% (na UFF, por exemplo, o índice é de 54%). Nos países mais desenvolvidos do mundo, esse índice é de 70%, situando-se abaixo desse valor países como França, EUA, Bélgica e Itália, este último com taxa inferior ao Brasil, chegando aos 42% [3].

Além disso, ficamos estarrecidos com a proposta de diminuição do número de professores para cada aluno na graduação de 1/12, índice atual, para 1/18. Considerando que a proposta de expansão das universidades federais pretende dobrar os matriculados, isso exigiria uma extensa contratação de docentes. O que é falado, como nunca foi feito, é a garantia por parte do governo federal e das reitorias, da contratação em massa desses profissionais. Para estudantes dessas universidades, que observam no dia-a-dia, alojamentos destruídos, escassez de bolsas de pesquisa, restaurantes universitários fechados, e a falta de garantia como um todo de infra-estrutura básica onde estudam, o discurso dos reitores é uma imensa contradição com a dura realidade vivenciadas por eles.

Mesmo assim, o movimento impulsionado por estudantes (e em muitos lugares por técnico-administrativos e professores) não tem significado somente a luta por reivindicações especificas, mas também a materialização da crítica à insuficiência da organização pouco inteligente, ineficiente e verticalizada das Universidades. Esses movimentos vão além, apresentando uma crítica a estrutura das universidades, desde a sua administração, voltada para as empresas privadas, até seus espaços de decisão, pretensamente democráticos, em especial os Conselhos Universitários. São muitos novos militantes do movimento estudantil que transbordam a luta interna sendo defensores de transformações sociais profundas, cuja Universidade deveria, na opinião dele e de nós, servir a um propósito completamente diferente do existente hoje.

“Alternativas para os fóruns de decisão das universidades federais”
Na UFRJ, ocupação da reitoria foi iniciada após a aprovação do REUNI no dia 18 de outubro. Duas semanas depois, houve eleições do Diretório Central dos Estudantes, quando defensores da ocupação obtiveram quase 80% dos votos em diversas chapas e demonstraram um repúdio da universidade às atitudes da reitoria e do Conselho Universitário. Vitórias como essas ocorreram nos DCEs da UFPR e UnB, também, contando com a mesma polarização e conjuntura adversa. Além disso, são movimentos que têm enfrentado uma repressão às suas ações como há muito tempo não era visto, contando com intervenções da polícia em várias universidades, como a UFF, UFBA, UNIFESP e UFJF. O papel da direção majoritária da UNE foi lamentável diante desses fatos: além de uma defesa intransigente do REUNI, não houve nenhum apoio ou, pelo menos, respeito às mobilizações e ocupações dos estudantes nesse período. Ao contrário disso, a Frente de Luta contra a Reforma Universitária, criada há um ano, simboliza a unidade de ação dessas ocupações pelo país, articulando militantes contrários à direção majoritária da UNE, reunindo diretores da oposição de esquerda e militantes que estão fora da entidade.

Nesse momento, cresce um movimento em defesa de alternativas para os fóruns de decisão, ultrapassados, das universidades federais. Propostas como Congressos Internos, plebiscitos, paridade nas instâncias e transparência na administração das instituições, têm o intuito de construir projetos para a universidade fora dos marcos do REUNI e de suas metas incabíveis. Mais do que um novo movimento, podemos afirmar que os atores que surgem nas federais reivindicam um legado que nunca deveria ter sido esquecido. Autonomia, democracia e liberdade são conceitos que, fora do conhecimento acadêmico, ajudam na consciência de massas no Brasil, e fazem valer o princípio de universalidade do conhecimento. Para isso, as ocupações, em término por quase todo o país, iniciam uma outra, feita pelos mesmos lutadores e lutadoras, agora por toda a Universidade e sem data para terminar.

——————————————

[1] Jornal da UFRJ – ano 3 – No 29 – Outubro de 2007. p. 12.

[2] Documento Elaborado pelo Grupo Assessor nomeado pela Portaria nº 552 SESu/MEC, de 25 de junho de 2007, em complemento ao art. 1º §2º do Decreto Presidencial nº 6.096, de 24 de abril de 2007.

[3] Cadernos ANDES – No 25 - Agosto de 2007. p. 24.

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

Comentários