Arquivo de 2 de Fevereiro de 2008

Revisionismo e história: porque a pobre China parece ser mais rica do que é

Keith Bradsher

Será que a China deveria ser tratada de forma diferente porque ela pode não ser tão rica, no final das contas? Essa é uma das questões centrais levantadas pelos novos cálculos do Banco Mundial, sugerindo que a economia chinesa pode não ser tão grande como se pensava anteriormente.

Alguns economistas fazem questão de discutir se os novos dados são mais precisos que os anteriores, mas outros sustentam que eles retratam a imagem de uma China mais pobre, que justificaria uma revisão dos esforços ocidentais para mudar as políticas monetárias da China.

O Banco Mundial divulgou dados preliminares, que recalculavam o rendimento econômico de 146 países, incluindo a China, depois de excluir diferenças em preços internos e moedas.

Os cálculos da chamada paridade do poder aquisitivo, que compara o poder de compra de cidadãos de todo mundo, situou o rendimento da China em aproximadamente 40% a menos que estimativas anteriores do banco.

Os cálculos ajudam a explicar como os trabalhadores chineses conseguem equilibrar seu orçamento ganhando de US$ 100 a US$ 250 por mês em fábricas que produzem para exportação em Shenzhen. Os alimentos, de uma parte, são baratos; um grande prato de arroz com legumes, carne e outros ingredientes num restaurante de Shenzhen pode custar apenas 50 cents.

Ruas elegantes, mesmo em cidades do interior como Chongquing agora têm lojas vendendo capas Burberry e outros artigos de luxo para uma elite industrial emergente. Mas os novos cálculos do Banco Mundial dão ênfase ao fato de a China continuar sendo, no geral, um país pobre.

O chinês médio tem uma renda econômica -PIB per capita- no valor de US$ 1.721 (algo em torno de R$ 3.090), de acordo com os baixos preços de mercado da China. Isso corresponde ao poder de compra de alguém que gaste US$ 4.091 (cerca de R$ 7.340) em produtos e serviços avaliados segundo os preços de uma economia industrial -um nível de consumo que representaria pobreza para um norte-americano.

O Banco Mundial alerta que não calculou seus dados como um guia para valores monetários. Mas os novos números de certa forma reforçam a alegação da China de que sua moeda, o iuan, não está perigosamente desvalorizada e não necessita ser elevada drasticamente em relação às moedas ocidentais.

Jeffrey Frankel, professor da James W. Harpel em formação de capital e crescimento em Harvard, tem sido um dos mais diretos defensores da valorização do iuan. Ele citou os cálculos anteriores do Banco Mundial sobre poder de compra para justificar sua posição.

Frankel admitiu em uma entrevista por telefone, na última quinta-feira (20), que os novos dados do Banco Mundial não têm a força de prejudicar esse raciocínio. “Eu teria que escamoteá-lo com base nos números mais recentes,” ele disse.

Mas Frankel afirma que muitos outros indicadores mostram que o iuan está subvalorizado e deve ser permitido que seu valor aumente.

Ele citou o imenso e cada vez maior superávit comercial da China, suas reservas monetárias em alta constante, especulações de mercado e uma nova valorização do iuan -ele já subiu 5,9% este ano- e sinais de que a economia chinesa possa estar se superaquecendo com a grande alta nas exportações.

Alguns economistas, incluindo o ex-diretor da divisão de China no FMI (Fundo Monetário Internacional), questionam se o Banco Mundial não foi longe demais agora na direção contrária e exagerou os preços na China. Embora descreva a estimativa como um importante passo na realização de comparações internacionais de economias, ela indica que o banco levou em consideração principalmente as ricas cidades chinesas nas províncias litorâneas, com grandes indústrias exportadoras.

A renda econômica da China em 2005 foi avaliada em US$ 2,24 trilhões (algo perto dos R$ 4 trilhões) em preços correntes e taxas reais atuais de câmbio. Esse é o cálculo mais comumente usado por economistas e o melhor indicador da capacidade de um país de comprar e vender uma variedade diversa de produtos comercializados internacionalmente, como petróleo, aço e computadores.

O Banco Mundial havia calculado anteriormente que a produção da China estava avaliada em US$ 8,8 trilhões (R$ 15,8 trilhões) em 2005 se os bens e serviços produzidos no país eram avaliados com base em preços norte-americanos. Tal dado foi revisado para menos esta semana, para US$ 5,3 trilhões (quase R$ 10,5 trilhões).

Questionando os dados
O banco descobriu que os preços da China estavam mais próximos dos níveis mundiais do que se havia presumido. Então os economistas do Banco Mundial calcularam que a paridade do poder de compra da economia chinesa também estava mais perto do valor do mercado do câmbio.

Mesmo com a revisão, a China ainda é a segunda maior economia mundial em termos de paridade de poder de compra, depois dos Estados Unidos. Em taxas de câmbio do mercado, a China também fica atrás do Japão.

Eswar Prasad, que foi o chefe da divisão de China no FMI até janeiro e agora é professor sênior em política comercial em Cornell, descreveu os cálculos do Banco Mundial como um “esforço heróico”.

Mas ele manifestou apreensão quanto à forma usada pelo banco para levar em consideração as diferenças de preço entre as áreas rural e urbana e entre as regiões da China.

O banco usou dados que o Banco de Desenvolvimento da Ásia obteve da Agência Nacional de Estatísticas da China, que de sua parte colheu dados nas regiões administrativas de 11 das cidades mais prósperas.

O Banco Mundial calculou preços para os três quintos da população que vivem nas áreas rurais usando os preços correntes em áreas agrícolas nas periferias das 11 cidades e administradas por tais cidades.

Embora o banco tenha feito alguns ajustes, Pradad questionou se os números finais ainda avaliam a maior a média dos preços rurais em todo o país. Isso poderia subestimar o real tamanho da economia chinesa.

“A idéia de que a China é subitamente uma parte muito menor da economia mundial deve ser considerada com um imenso grau de cautela,” ele disse.

Mas Prasad reconhece que o Banco Mundial precisava atualizar os números sobre a paridade do poder de compra para a China. Os dados do banco haviam sido baseados anteriormente em preços primeiro calculados por dois economistas chineses em 1986 e apenas grosseiramente atualizados pela inflação desde então.

Frederic A. Vogel, economista do Banco Mundial, que supervisionou os cálculos sobre a paridade do poder de compra, disse que o cálculo “depende da pressuposição básica de que os preços das áreas rurais das 11 áreas administrativas são representativos da China rural.”

Mas ele observou que a maior parte dos países, incluindo os Estados Unidos, mede os preços principalmente nas áreas urbanas, portanto as comparações internacionais ainda são válidas.

Vogel também disse que o Banco Mundial tem pleno conhecimento de que as diferenças regionais nos preços na China são mais amplos que em muitos outros países. Ele observou que os números divulgados na segunda-feira eram preliminares e poderiam ser sujeitos a uma nova revisão no inverno (do hemisfério norte). Mesmo assim, acrescentou, “os dados que nós fornecemos desta vez realmente estabelecem uma referência.”

Os cálculos mais conhecidos de paridade de poder de compra além daqueles do Banco Mundial são feitos na Universidade de Pensilvânia. Alan Heston, professor emérito de economia na universidade e co-diretor do grupo que monta as estatísticas, disse que os dados da universidade para a China ficaram ligeiramente abaixo daqueles da estimativa antiga do Banco Mundial e bem acima dos novos números.

Mas Heston adiantou que a universidade está revisando seus números e provavelmente os rebaixará. O cálculo revisado vai mostrar que a economia chinesa é no mínimo tão grande quanto o calculado pelo Banco Mundial e é bem possível que maior, ele disse.

A Agência Nacional de Estatísticas da China preferiu não comentar os cálculos do Banco Mundial. Mas o governo sustenta há anos que a China é mais pobre e economicamente mais frágil do que o sugerido por muitos analistas ocidentais.

The New York Times
http://www.nytimes.com/

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"Kosovo será um Estado inexistente", diz candidato radical a presidente da Sérvia

Ramón Lobo
Enviado especial a Belgrado

Não parece que o candidato do Partido Radical à presidência da Sérvia se chame Tomislav Nikolic, nem que as pesquisas lhe dêem possibilidades de ganhar amanhã. Os militantes que pululam pelos corredores levam placas vistosas com o rosto de Vojislav Seselj, presidente dos radicais e preso há cinco anos em Haia (Holanda), acusado de crimes de guerra.
Nikolic, que completará 56 anos em 15 de fevereiro, parece descontraído depois de uma intensa campanha que foi dirigida por uma consultoria americana. Na entrevista realizada ontem, tentava manter a moderação que lhe deu um bom resultado no primeiro turno, em 20 de janeiro, quando conseguiu o apoio de 1,6 milhão de sérvios.

Andrej Isakovic/AFP - 31.jan.2008

O candidato ultranacionalista Tomislav Nikolic participa de comício em Belgrado

El País - A UE vê sua possível vitória como uma catástrofe.
Tomislav Nikolic -
Foi pior na última vez. Desta vez o tom da UE foi moderado. Se impôs o critério de deixar que os sérvios decidam e depois continuar falando sobre o convênio de associação. É um alívio, porque em 2004 parecia que os cidadãos iriam sofrer as conseqüências de minha eleição. É Tadic quem dissemina o medo. Os EUA e a UE não o apoiaram. Estão fartos de suas mentiras.
EP - Qual seria sua reação diante da independência imediata de Kosovo?
Nikolic -
A rápida proclamação da independência de Kosovo não seria uma conseqüência de minha vitória, porque já está preparada. A reação será igual, ganhe quem ganhar, porque a Sérvia é um Estado que não depende da vontade de um indivíduo. A decisão será tomada pelo Parlamento e será obrigatória para o presidente. Independentemente do resultado, vou propor várias medidas. Kosovo será para a Sérvia um Estado inexistente. Não aceitaremos seus passaportes nem seus contratos nem seus funcionários. Não poderão passar seus produtos nem seus habitantes, e teremos problemas com os países que ajam de forma hipócrita, que apliquem em Kosovo o que jamais permitiriam em seu território.
EP - O que acontecerá com o norte de Kosovo? Haverá separação?
Nikolic -
Não há norte nem sul. Vamos lutar política, jurídica e diplomaticamente por cada metro de terra.
EP - Está tudo perdido, ou o senhor crê que ainda há esperança?
Nikolic -
Os representantes da comunidade internacional fizeram o possível nesses nove anos para que os sérvios abandonem Kosovo. Aconteceu em Krajina e na República Srpska quando foram expulsos dezenas de milhares de sérvios. E acontece em Kosovo. Existe o perigo de que o processo continue em Sandzak (região sérvia habitada por bósnios muçulmanos) e no sul da Sérvia (vale de Presevo; 90% albaneses). Quem vai conter o processo de decomposição da Sérvia?
EP - Houve crimes de guerra cometidos pelo regime de Milosevic em Kosovo?
Nikolic -
Milosevic foi acusado pela UE de cometer esses crimes, inclusive quando estava agindo muito bem. Os albaneses foram animados ao boicote das instituições e isso foi apresentado na Europa ocidental como conseqüência da ditadura. Depois os albaneses passaram ao terrorismo e a Sérvia teve de se defender. Antes dos bombardeios da Otan não houve crimes de guerra em Kosovo. Depois houve, por parte de todos. A Sérvia pagou muito caro pelos crimes cometidos pelos indivíduos.
EP - Qual seria sua atitude diante da UE quando Kosovo se tornar independente?
Nikolic -
Depende de como a UE reagir. Se haverá um reconhecimento institucional ou se deixarão que cada país tome sua decisão. É óbvio que os países maiores e mais ricos vão reconhecer a independência. Isso freará as negociações.
EP - O senhor estaria disposto a negociar a mudança de política de vistos e assinar o Acordo de Associação e Estabilização?
Nikolic -
A assinatura depende de a UE reconhecer as fronteiras da Sérvia definidas pela ONU. Como presidente não posso pôr uma parte do país na UE e deixar outra fora. O que nos pedem não tem sentido.
EP - Sente isso como uma chantagem?
Nikolic -
Sinto como uma humilhação. A UE não pára de fazer exigências que a Sérvia não pode aceitar.
EP - Qual seria sua atitude no caso de Ratko Mladic?
Nikolic -
Se Mladic estivesse na Sérvia, Tadic o teria detido há muito tempo. Se eu tiver a oportunidade de ser presidente, vou comprovar se é verdade que mil agentes estrangeiros estão em território sérvio. Eles também não o encontraram.
EP - Tadic afirma que o verdadeiro líder de seu partido é Seselj.
Nikolic -
É um presidente que, por enquanto, não pôde exercer sua função. Está ocupado com o julgamento e não tem tempo de interferir no trabalho do partido. A Sérvia seria governada por mim.
EP - O senhor crê que há necessidade de uma catarse na Sérvia para que as pessoas tenham consciência do que aconteceu em Vukovar e Srebrenica?
Nikolic -
A Sérvia conhece a verdade: na guerra todos cometeram crimes, mas fomos os únicos acusados como população e como Estado. Não justifico nenhum crime, mas não permito que ninguém nos chame de animais. Houve bestas do nosso lado, mas também no dos outros. Só Milosevic foi declarado criminoso. Quando levam para Haia o presidente da República, o do Parlamento, o ministro da Política e o chefe do exército, estão levando um povo inteiro.
EP - Rússia ou UE?
Nikolic -
A Sérvia é uma casa com duas portas abertas tanto para a Rússia como para a UE. Com a Rússia vai ser mais fácil colaborar.
EP - Acabaram as guerras nos Bálcãs ou há perigo com Kosovo?
Nikolic -
Eu gostaria que não houvesse mais, mas quem pode garantir? Quem poderia, a ONU, tem membros importantes que se afastam de seus princípios básicos. Existe uma nova ordem mundial que não respeita os valores alheios. Há países em que não se pode estabelecer a democracia com bombas.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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Do ventre da baleia para a fogueira

Em pleno século XVIII, padre baiano quis unir judeus e cristãos

Carlos Haag

A palavra poderia até ser a semente de Deus, mas a Igreja dos séculos XVII e XVIII não apreciava que a cabeça de seu rebanho fosse arada em demasia. O próprio Antônio Vieira, que usou a citação de Lucas acima em seu Sermão da sexagésima (1655), logo aprendeu que a “agricultura” eclesiástica tinha limites muito estreitos: preso pela Inquisição, o Tribunal do Santo Ofício cassou-lhe a palavra em 1667 por causa de suas idéias milenaristas e por sua defesa da causa dos judeus, vistos na então anti-semita Portugal como “perversa gente”. Vieira se retratou e sobreviveu. Menos afortunado foi um seu discípulo baiano, o padre Manoel Lopes de Carvalho, nascido em Salvador em 1682 e queimado vivo, num auto-de-fé, em 1726, após anos nos cárceres da Inquisição.

“Profundamente influenciado pelo pensamento do Padre Vieira, que havia prognosticado um Terceiro Estado, no qual o uso das cerimônias judaicas seria permitido, a Igreja reverteria suas posições e concederia aos judeus convertidos ao catolicismo o uso de seus ritos, ele tentou criar um sistema teológico em que judeus e cristãos se tornariam um só povo em uma só religião no reino de Portugal e suas possessões, o chamado judeu-cristianismo”, explica Adalberto Gonçalves Araújo Júnior, autor da tese de doutorado “No ventre da baleia: o mundo de um padre judaizante no século XVIII”, orientada por Anita Novinsky e defendida recentemente no Departamento de História da USP. “Sua vida, marcada por uma atitude questionadora diante das principais instituições do seu tempo, o Estado, a Igreja e a Inquisição, foi uma saga que nos revela uma época em que liberdade e consciência eram privilégios de poucos.” O notável no processo do padre Manoel é que seu caso contém um sistemático tratado teológico, em que o réu fundamenta suas proposições, material inflamável nas mãos do inquisidor Thomas Feio Barbuda, para quem o padre era uma perigosíssima ameaça ao reino, tamanha a sua “contaminação pelo judaísmo”.

Mas qual a razão para tanta celeuma se ele provinha de uma região da colônia tão distante da metrópole? “A Bahia, ao longo dos séculos XVI a XVIII, foi um centro judaizante com ambiente onde pairavam o judaísmo e o sincretismo judaico-cristão em razão dos muitos cristãos-novos e criptojudeus” , observa Anita Novinsky em seu livro Cristãos-novos na Bahia. Eles também eram conhecidos como “marrano”, expressão depreciativa que significa “porco” e lhes era imputada pela Igreja. Neste ano, aliás, completam-se os 500 anos da chegada desses grupos ao Brasil, quando sua emigração da metrópole lusitana foi permitida. “Gente da nação”, “confessos”, “conversos”, “judaizantes”, “os batizados em pé”, todos epítetos usados para designar os judeus obrigados a abrir mão de suas crenças e tradições, os criptojudeus surgiram após serem expulsos da Espanha em 1492 pelos Reis Católicos, Fernando e Isabel, indo se refugiar em Portugal apenas para em 1497 novamente depararem com o anti-semitismo hispânico. Dom Manuel, embora admirador dos judeus, que considerava essenciais para o progresso da ciência e da economia lusitanas, ao se casar com uma princesa espanhola, recebeu dos sogros a ordem de expulsar todos os judeus de suas terras.

O rei português, porém, optou por uma solução com “jeitinho brasileiro”. Sabedor da importância dos judeus para Portugal, fingiu marcar uma data na Páscoa para a expulsão dos hebreus que se recusassem a se converter ao catolicismo (os cristãos-novos). Quando chegou a hora do embarque, alegou-se não haver navios suficientes e se determinou então um batismo em massa dos que tinham se concentrado no porto lisboeta à espera de transporte para outros países, em particular os Países Baixos, que eram tolerantes com os judeus. Surgiu aí a expressão “ficar a ver navios”; o rei decretou não haver mais hebreus em terras lusas e muitos foram arrastados até a pia batismal pelas barbas e pelos cabelos. A esperança de dom Manuel era que, cristianizados, em algum tempo eles se aculturariam e permaneceriam em Portugal. “Mas isso não se deu com facilidade e nasceu o conceito do criptojudeu, aquele que fingia ter aceito o cristianismo apenas para continuar praticando, em segredo, o judaísmo, logo tachado pela Igreja de heresia a ser punida com a morte”, afirma Anita Novinsky em Inquisição, prisioneiros do Brasil. Em 1531, com a nomeação do primeiro Inquisidor de Portugal, começaram as perseguições.

A “descoberta” de novas terras no Brasil deu chance aos criptojudeus de se livrarem da morte certa e de poderem praticar, com relativa liberdade, suas crenças. Ao menos até 1591, quando um visitador inquisitório foi enviado às novas terras para recolher indícios sobre os suspeitos de judaísmo. Antes disso, porém, a colônia era um espaço privilegiado para a resistência criptojudaica, motivada pela relativa harmonia e cumplicidade no convívio entre cristãos-novos e velhos, possível devido a uma ainda pálida estrutura eclesiástica (sem um tribunal da Inquisição), bem como pelo cotidiano duro para todos os credos. Havia doenças, índios hostis, falta de comida e água e problemas em demasia para que os colonos se dessem ao luxo de perder tempo e energia em querelas religiosas que só tinham sentido (se é que o tinham…) na Europa, tão distante do Novo Mundo. Ao mesmo tempo, por autorização de dom Manuel, os judeus convertidos puderam adotar nomes cristãos como os da população efetivamente católica ou, então, adotar sobrenomes ligados ao local onde moravam, à fauna e à flora, bem como a designação de sua ocupação profissional.

Tradições - O tempo, no entanto, fez com que várias das tradições fossem esquecidas ou reinterpretadas, seja por necessidade, seja pela ausência de rabinos e de livros sagrados, fundamentais numa religião intelectualizada como a judaica. Sabia-se algo sobre o shabat, sobre feriados, sobre a proibição de comer carne de porco ou de peixe sem escamas, mas a maior parte dos preceitos foi esquecida ou observada erradamente. Ainda assim, os criptojudeus mantiveram o hábito de “fazer esnoga” (sinagoga em português arcaico), ou seja, se reunir para as celebrações religiosas judaicas. Em geral, os “templos” eram improvisados nos engenhos mais distantes ou mesmo em casa, à porta fechada. Era preciso cuidado para não ser notado e denunciado pelos vizinhos.

No engenho de Camarajibe, em Pernambuco, por exemplo, havia a figura do “campainha”: uma pessoa andava pela vila descalço com um pano amarrado ao dedão do pé, sinal de que a reunião estava para começar. Nas “esnogas secretas” havia um revezamento: enquanto alguns rezavam outros vigiavam a entrada para anunciar a chegada de estranhos. Houve mesmo um casamento judaico nessa sinagoga. Mais fácil de preservar era o shabat e entre os que o faziam estava o poeta Bento Teixeira, autor de Prosopopéia. Ainda assim, nem tudo eram flores. Professor, o poeta sempre estava ausente das aulas nos sábados, o que lhe rendeu acusação de atos “judaizantes”.

Tal qual na maioridade judaica, o criptojudeu era informado de sua ancestralidade aos 13 anos e, ao mesmo tempo, avisado dos perigos de praticar sua religião abertamente. Tudo podia levar uma denúncia. Fazer refeições em mesa baixa em sinal de luto indicava um cristão-novo. A mesma mesa, porém, ao ser dotada de gavetões, em Minas Gerais, disfarçava a religião do morador, pois se acreditava que elas serviam para esconder a comida e, dessa forma, não precisar dividi-la com estranhos, símbolo de sovinice. Em verdade, esconder a comida nas gavetas era uma forma de não levantar suspeitas sobre a dieta específica que seguia os mandamentos dietéticos judaicos. Até mesmo na morte era preciso atenção. O moribundo, ao sentir a chegada do fim, chamava o “abafador” ou “afogador”, figuras que asfixiavam os doentes a fim de que, em sua inconsciência, não traíssem suas raízes judaicas ou revelassem nomes de outros criptojudeus. Externamente eram cristãos exemplares.

Aliança - Em 1643, Vieira chegou a enviar ao rei dom João IV uma proposta, em que advogava uma aliança com os mercadores e financistas cristãos-novos como forma de tirar Portugal da linha do desastre econômico a que se dirigia, permitindo o retorno deles à metrópole. Mas o anti-semitismo do senso comum estava muito incrustado na mentalidade lusitana do tempo. “Daí a medida da ousadia do padre Manoel em tentar ir a Roma e propor ao papa Clemente XI um projeto de reforma da Igreja à luz do judeu-cristianismo”, nota o pesquisador. Segundo ele, as principais teses preconizadas pelo padre eram: a observância do shabat no lugar do domingo cristão; a reforma do calendário litúrgico cristão, para dar maior atenção à Páscoa, de acordo com o calendário judaico; a observância das leis dietéticas judaicas; a circuncisão; a dúvida sobre a messianidade de Jesus. “Ele se refere também, no tratado, à situação dos cristãos-novos portugueses; o sofrimento como provação divina aos eleitos; e, horror, a responsabilidade do apóstolo Paulo na deformação dos ensinamentos de Jesus e na difusão destes no mundo gentílico.”

“A separação entre judeus e cristãos começou pouco depois do ano 70 d.C. Paulo de Tarso, fariseu convertido ao cristianismo, no esforço de ‘autocompreensão’ da Igreja primitiva, desconsiderou o judaísmo como caminho para chegar a Deus. Para isso bastava a fé em Cristo”, explica. Essa pregação paulina, continua o professor, era herética para os judeus, porque Paulo sustentava que Cristo havia ab-rogado a lei mosaica para todos, estabelecendo uma nova aliança em que só deviam conservar as observâncias mosaicas na medida em que serviam ao proveito das almas. O judaísmo de Cristo precisava sair de cena para o cristianismo vingar como religião. O padre Manoel foi mexer exatamente nesse vespeiro eclesiástico. “Assim como a lei é o fundamento da fé de Israel, para ele ela é a base, o alicerce da fé cristã, não sendo possível conceber um cristianismo desprovido da observância da Torá judaica.”

Não contentes em ter as idéias “heréticas” do padre por escrito, os inquisidores foram atrás das “raízes judaicas” do réu. “Os prisioneiros da Inquisição eram qualificados segundo a quantidade de sangue judaico que tinham nas veias, presumindo-se a heresia proporcional a essa porcentagem”, lembra o pesquisador. No futuro, outros iriam se basear nesse mesmo paradigma nefasto. Até a avó do padre Manoel foi usada como prova de que ele tinha sangue judeu. Ele não se abalou. “A grande afinidade do padre com o judaísmo o fez reivindicar sua condição judaica, chegando mesmo a convidar os inquisidores a confirmarem, por exame, que ele era circuncisado.”

Porém meses nos cárceres do Santo Ofício tiraram dele a agudeza e a lucidez. “Após seis meses preso, ele começou a se autodenominar o Messias. Para sustentar sua messianidade em detrimento da de Jesus, afirmou que o Messias cristão não tivera humanidade real, como exigiam as profecias bíblicas, mas que foi espécie subalterna de homem, porque não foi propagado do sêmen de Adão.” Para o pesquisador, é difícil saber se o padre perdera a razão ou se adotara uma lógica messiânica, em que a restituição da harmonia côsmica só ocorreria com um mediador terrestre. Eis o “ventre da baleia”.

“Engolido por uma baleia, todos deram Jonas por morto, mas que importava que ele tivesse morto no conceito dos homens se ele estava vivo (ainda que encoberto) no ventre da baleia. Para Araújo Júnior, “a história do padre representa a corrente de pensadores que defendiam uma transformação radical para uma sociedade mais justa”. Coisa, ainda hoje, de difícil digestão para a maioria dos cetáceos.

Revista da FAPESP
http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

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Passagem só de ida para Laika

Vôo histórico da cachorrinha, o primeiro ser vivo a ser enviado ao espaço, completa 50 anos


© Nasa

Após o sucesso do lançamento do primeiro satélite do mundo, o Sputnik 1, os engenheiros russos não tiveram nem tempo de descansar: a construção do “satélite simples nº2”, ou PS2, começou em 10 de outubro de 1957, apenas seis dias depois do primeiro chegar aos céus. E desta vez, o projetista chefe Sergei Korolev pensou em algo ainda mais espetacular especialmente para comemorar o 40º aniversário da revolução Bolchevique: o satélite entraria em órbita com um cão a bordo. A tripulante escolhida foi Laika, uma cachorrinha de rua, e que logo se tornaria o primeiro ser vivo a ser enviado ao espaço.
Como você pode ver em um dossiê preparado pelo site “Astronomia no Zênite” (www.zenite.nu), ela foi escolhida em um grupo de 10 cães de rua treinados no Instituto de Medicina da Força Aérea para participar em vôos na alta atmosfera. Oleg Gazenko era o principal cientista do projeto e treinador dos animais. Depois de passar por uma série de testes, Laika finalmente partiu a bordo do Sputnik 2 no dia 3 de novembro de 1957.
Os técnicos previam “adormecer” a pequena passageira com uma injeção letal automática antes que o oxigênio a bordo da cápsula se esgotasse. Mas o que muita gente não sabe é que o sistema de controle térmico do compartimento onde Laika estava não funcionou como deveria, e a cadela acabou morrendo no dia 7 de novembro por causa das altas temperaturas. O Sputnik 2 ficou na órbita da Terra por mais alguns meses, e reentrou na atmosfera terrestre no dia 14 de abril de 1958. A cápsula ardeu e transformou em cinzas o corpinho já sofrido de Laika. Em julho de 1998, Oleg Gazenko confessou seu arrependimento por ter enviado a cadela para uma viagem sem volta: “Houve uma hipótese de lançar Laika – e lançamos! Faltou-nos uma análise consciente do que estávamos fazendo”, desabafou.
No site há histórias de finais mais felizes com outros animais tripulantes, como chimpanzés, gatos e tartarugas – além das incríveis minhocas encontradas vivas nos destroços da missão Columbia, que em 2003 resultou na morte dos sete astronautas após 16 dias em órbita.

Scientif American Brasil

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Jorge Pereira Filho

As frases são carregadas de conteúdo não só discursivo. Têm emoção, histórias. Trajetória de quem além de pensar sobre a dependência, foi testemunha e participante. Vânia Bambirra chegou ao Chile exilada. Ao lado de intelectuais, como Rui Mauro Marini, Andre Gunter Frank, Theotônio dos Santos, formulou a Teoria da Dependência, uma leitura marxista, crítica, não-dogmática, dos processos de reprodução do subdesenvolvimento na periferia do capitalismo.
Em 1961, inscreveu-se com um grupo de intelectuais, entre eles Theotônio, como voluntária para defender a revolução cubana. Participou da Organização Revolucionária Marxista - Política Operária (ORM-Polop), organização que lutou contra o regime militar de 1964. No Chile, integrou o Centro de Estudos Sócio-econômicos (CESO) com um grupo de marxistas que desenvolveu uma nova leitura da realidade latino-americana. Elaboraram um instrumental analítico da realidade que influenciou o programa da Unidade Popular, partido de Salvador Allende, eleito presidente em 1970. Três anos depois, assiste o assassinato do primeiro presidente de esquerda eleito democraticamente em um golpe de Estado promovido pelas forças militares, com apoio dos Estados Unidos. Novo exílio, dessa vez no México, onde leciona na Universidade Nacional Autônoma do México (Unam). Volta ao Brasil apenas nos anos de 1980.
Mais conhecida na América Hispânica do que no próprio Brasil, tem apenas dois livros publicados em terras tupiniquins. Ainda não se encontra nas livrarias uma de suas mais famosas obras, “A Revolução Cubana – uma reinterpretação”, tido como um dos melhores trabalhos produzidos fora de Cuba sobre o processo revolucionário. Hoje vive no Rio de Janeiro, com sua filha e seu neto. Em entrevista ao Brasil de Fato, concedida no final de novembro, Bambirra expõe suas idéias sobre os processos capitalistas contemporâneos, as transformações na América Latina e a decepção com o governo Lula.

A Teoria da Dependência foi formulada na década de 1960. O que mudou hoje na relação dos países da América Latina com o resto do mundo?
Vânia Bambirra – É preciso dizer que a Teoria da Dependência, que surgiu nos anos 1960, sofreu um baque com o golpe do Chile (1973). Foi muito criticada porque teria influenciado o governo de Salvador Allende; de fato, influenciou o seu programa. E seus críticos diziam que, assim como a experiência fracassou, a Teoria da Dependência teria tido o mesmo destino. Ela entrou em uma crise, não houve mais produção a partir a partir de então. E ela não captou as mudanças que ocorreram nos 1980. O que aconteceu depois? (Ronald) Reagan teve dois mantados (1980-1988) e consolidou o neoliberalismo na América Latina. A Teoria da Dependência não processou essa fase porque já estava em baixa. O próprio Rui Mauro Marini faz reflexões em vários artigos, mas não há uma análise profunda e sistemática do neoliberalismo. O mundo mudou, sim. O imperialismo transformou o mundo globalizado. A globalização é uma palavra moderna para esse fenômeno.

Você entende que hoje está em curso uma redivisão internacional do trabalho, com China e Índia assumindo um papel mais fabril no mercado global e os outros países passando por uma espécie de desindustrialização?
Não acho que seja por aí. O que ocorre é o processamento da revolução científico-tecnológica que em alguns países está muito mais avançado do que em outros. No caso da Índia, do ponto de vista de informática, está muito avançado. Eles exportam mão-de-obra. E, ao mesmo tempo, é um país atrasadíssimo. Uma miséria massiva, uma marginalização da maioria que não sabe ler, escrever. Essa realidade convive com um setor de elite. O problema é muito grave porque a revolução científico-tecnológica conduz inexoravelmente a um questionamento do capitalismo. É uma revolução típica nem de uma sociedade socialista, mas sim comunista, porque tira a mão-de-obra do processo produtivo, coloca a ciência como principal força produtiva. É a contradição absoluta que o capitalismo não pode resolver. A mais-valia vem da exploração do trabalho humano, e não dos robôs, de cérebros eletrônicos. O capitalismo é reacionário porque não pode produzir progresso. E o socialismo como etapa de transição, que não é uma sociedade sem classes, pois conserva elementos fundamentais do capitalismo e até por isso que entrou em crise, também foi incapaz de trazer esse progresso. Esse é o grande problema do mundo que está aí. E que sem um instrumental marxista as pessoas não conseguem entender. São contradições que vão se acirrando. As forças produtivas querendo se desenvolver e, ao mesmo tempo, impossibilitadas de se desenvolver porque o capitalismo tem de manter a exploração do ser humano.

Reacionário no sentido de não permitir a ampliação dos avanços das forças produtivas?
A tendência é se acabar com o trabalho humano, que é o que gera mais-valia. Mas, sem isso, não há como o capitalismo sobreviver.

E a resposta do capitalismo é a massa desempregados?
Claro, e esses problemas absurdos de segurança. Eu dizia na sala de aula: se visse um filho meu com fome, eu roubava. É uma questão de sobrevivência do ser humano. Isso é uma caricatura que tenho coragem de dizer. O que está acontecendo com nossa população marginalizada, os pobres que não têm sequer acesso ao trabalho? Essa população quer sobreviver, é um instinto, e para isso tem de se alimentar.

O ingresso de massas trabalhadoras nos parques industriais da China e da Índia e a redução do trabalho operário na Europa, nos países centrais, trazem mudanças no conceito de superexploração?
Traz, evidentemente. Na China, por exemplo, essas massas que deixam o campo e vão para as cidades recebem salários irrisórios. Por que as coisas feitas na China são tão baratas? Porque há uma intensificação da superexploração. Remunera-se o trabalho muito abaixo. É uma hipersuperexploração. Quanto é o salário de um trabalhador na China? 30 dólares? Vão surgindo nesse país, que foi socialista, as mazelas típicas das sociedades capitalistas. É uma população que não estava acostumada com isso. Por que na Rússia, na Alemanha e em ex-repúblicas socialistas começa a surgir um saudosismo daqueles velhos tempos? Isso se manifesta, claro, entre os mais idosos. Mas é muito significativo isso. Porque a hecatombe foi em 1990, não foi há tanto tempo assim. Eles vivem uma sociedade de consumo, mas não podem desfrutar dela.

Uma pesquisa feita na antiga Alemanha Oriental mostrou exatamente isso: 92% dos mais velhos (35 e 50 anos) preferem o comunismo ao atual capitalismo; entre os mais novos, 60% disseram o mesmo.
Quando eu morava no México, um amigo cubano veio me visitar durante um congresso e, quando chegou, viu aqueles hipermercados, com prateleiras imensas. Ele ficou deslumbrado. No dia seguinte, me disse que não dormiu direito, sonhou com aquilo. E me contou: “Mas, pensando bem, eu acho que nós cubanos não temos do que nos queixar. O que adianta ter tudo aquilo se para adquirir qualquer coisa eu preciso de dinheiro”. Você vê tudo o que você pode consumir, mas só tem acesso a uma ínfima parte.

As senhora acredita que há alguma forma de superar essa etapa neoliberal nos marcos do próprio capitalismo, como a reativação do Estado de bem-estar social, o neokeynesianismo?
Nenhuma viabilidade. Como é que vai superar, se o progresso vai na direção de superar o trabalho humano? É nesse sentido que o capitalismo é reacionário, porque precisa do trabalho humano. E o socialismo tampouco conseguiu essas respostas. Veja bem, Marx, os clássicos, pensavam o socialismo em uma sociedade desenvolvida. Foi uma audácia fazer a Revolução Russa. Os bolcheviques foram muito atrevidos, porque ousaram tomar o poder e tentar construir o socialismo em uma sociedade cheia de vestígios feudais que não tinha tido um desenvolvimento suficiente do capitalismo. A Rússia era muito atrasada. E ainda mais grave: foi um país cercado, bloqueado, dizimado fisicamente, invadido pelos países desenvolvidos europeus. A infra-estrutura incipiente capitalista que existia lá foi fisicamente destruída. Começou-se a construir sob os escombros. Então era para dar no que deu, todo mundo torcia que não. Era uma epopéia incrível. O socialismo completa quase 100 anos. E quantos anos o capitalismo demorou para se desenvolver? O socialismo ainda é uma experiência muito rudimentar, frágil, porque triunfou em países muito débeis.

Como em Cuba?
Sim, veja bem, o socialismo cubano é um socialismo heróico. Mas ele se manteve porque teve ajuda soviética. Sem isso, Cuba seria inviável. Uma ilha não só no sentido físico. Era atrasada, o cabaré dos Estados Unidos. Que viabilidade tinha para construir o socialismo ali? E, contudo, Cuba existe, está lá. Precisou da ajuda soviética, veio a hecatombe em 1990, Cuba continuou sobrevivendo. Buscou formas de negociar o que tinha, açúcar, charuto. E foi sobrevivendo, e o povo se sacrificou. Sem nenhuma dúvida. A concepção do socialismo não é a generalização da miséria. O que o socialismo quer e sobretudo a etapa superior, o comunismo, é que todas as pessoas possam usufruir das benesses. Todo mundo quer comer bem, presentear seus amigos, andar com bons meios de transportes. A pessoa quer viver bem. E em uma sociedade capitalista isso é um luxo, só poucos podem ter. Na sociedade do futuro, a idéia é que todos tenham tudo isso. Essa é a utopia marxista. O problema é que até agora o socialismo triunfou em outros países. Já pensou uma revolução socialista na Inglaterra? Ou na Alemanha?

Como a senhora coloca a questão do consumismo nisso? Por exemplo, fala-se que seria inviável expandir para o planeta o padrão de consumo estadunidense ou europeu.
O modelo de vida da maioria dos americanos, e a maioria é classe média, é modesto. Não vamos esquecer que os Estados Unidos têm milhões e milhões de miseráveis, sendo o país mais rico do planeta. Vamos falar da classe média americana. Eles têm um modelo de vida muito restrito, muito medíocre. Nova York é uma cidade violentíssima, muito perigosa, com níveis de violência que não fazem inveja ao Rio de Janeiro. Entre no Central Park à noite para ver o que ocorre. A maior parte dos americanos tem uma vida medíocre, mas vive no país mais rico do mundo. É um absurdo. É um povo que não usufrui em sua maioria das riquezas que o sistema produtivo conquistou.

Na América Latina, discute-se o socialismo do século 21. No entanto, esses processos não tem seguido os processos tidos como padrão de movimentos revolucionários, como a criação de um partido de massas, a formação política do povo…
É muito interessante o que está acontecendo hoje. Todos foram eleitos, Evo (Bolívia), Rafael (Equador), Chávez (Venezuela)… Eu fico entusiasmada, mas com um pé atrás. A gente tinha muita esperança em Allende, que também foi eleito, sobretudo porque a direita se dividiu naquela época. Bolívia, Equador e Venezuela são os três casos mais impactantes, mas estão ocorrendo fenômenos de questionamento da ordem também quando se elege na Nicarágua um antigo sandinista. Eu acho que o povo está querendo mudança.

E o Lula?
Isso é a continuidade de Fernando Henrique, é o neoliberalismo, sim. E aí eu acho mais inconcebível. Não sou moralista, não vou entrar na história de “mensalão”, corrupção, isso é secundário. O que é substantivo é a amizade que ele tem com Bush. Eu votei nele e não votei num cara que iria ser o amiguinho número 1 do Bush. Não votei em um cara que quer transformar o campo brasileiro em zona de produção de agrocombustível para abastecer os Estados Unidos. Tirar comida da boca do povo brasileiro para dar combustível para os países desenvolvidos? Isso não.

Essa política focada na agroexportação reconduz o país a uma condição primário-exportadora?
Não, não acho. O parque industrial brasileiro é fantástico, apesar de o Fernando Henrique ter tentado sucatear tudo. O Brasil produz aviões; equipamentos de prospecção submarinas de petróleo em águas profundas. Isso é um produto de tecnologia de ponta. É diferente da Venezuela, por exemplo, que tem de importar tecnologia. Brasil, México, Argentina, Chile e Uruguai têm mais autonomia. Romper a dependência, para essas nações, é uma questão política. O socialismo seria muito menos doloroso no Brasil, México e Argentina do que no Equador, Bolívia e Venezuela. Mas é lá que está ocorrendo o fenômeno. Porque nesses países as contradições se tornaram incontroláveis. O sistema está invertido.

A senhora acha que esses países caminham para uma saída mais desenvolvimentista ou para uma transformação mais radical?
Olha, o ritmo da radicalização é marcado pela contra-revolução. Assim foi em Cuba. É contra-partida. Se a direita avança, força esse processo. Isso está ocorrendo assim na Bolívia, querem tornar independentes as regiões mais ricas. Não somos nós que definimos o ritmo das mudanças. E como quem é proprietário privado nunca vai abrir mão, a tendência é sempre essa, de radicalização. Já vimos esse filme antes. O Evo vai chegar a um ponto em que precisará entregar ao povo as defesas daquilo que conquistou. As respostas a gente já conhece. E nenhum processo avança se não tem a confiança do povo em definitivo. Em Cuba, por exemplo, se a população quisesse depor Fidel Castro, tinha feito isso. Mas eles o adoram. Saúde de altíssimo nível, escola, comida, mesmo que racionada, porque é um país que importa alimentos, não produz. Não há uma abundância generalizada em Cuba.

Cuba vive hoje um debate interno, impulsionado por Raúl Castro, no qual a população está opinando sobre os rumos da revolução…
Com a enfermidade do Fidel Castro, os Estados Unidos têm a expectativa de que ele morra e de que o país vai mudar. É exatamente nesse momento que Cuba tem espaço para abrir mais. Sempre houve consulta popular. O problema é que parece inacreditável que o povo adore Fidel. Isso não se transfere para Raul, mas ele não pensa diferente de Fidel. Tenho só a impressão de que está atuando sem tanta pressão.

Ainda sobre o mundo socialista, há pesquisadores que apontam a existência de um suposto imperialismo soviético sobre as outras repúblicas socialistas…
Essa é uma visão de direita. A questão é que a União Soviética salvou Cuba; sem o petróleo, a revolução não teria sucesso. Para os soviéticos, interessava o sucesso da revolução. Mas é óbvio que, junto com esse apoio, veio toda um influência. Os cubanos passaram a adotar típicos manuais soviéticos nas universidades. E foram assimilando certas mazelas do sistema soviético. Isso é inquestionável. Foi um período terrível, à beira de uma guerra nuclear. A primeira vez que fui a Cuba foi em 1963. Eu conheci intelectuais cubanos que tinham uma independência muito grande em seu pensamento. Claro, não podiam expressar isso. Uma revista como Pensamiento Crítico acabou fechada, o que foi terrível, muito ruim. Mas foi um preço alto que se teve de pagar pela manutenção da revolução cubana. Um preço alto. Valeu a pena? Eu acho que valeu. Porque o exemplo de Cuba está aí e é onde a Venezuela se inspira. A bandeira do socialismo está lá hasteada, em uma ilha. O país tem uma das melhores taxas de mortalidade infantil do mundo, está exportando médicos, acabou a miséria.

Voltando ao Brasil e ao governo Lula. A senhora acha que, levando em conta tamanha a presença do capital internacional no país, haveria espaço político para um governo caminhar para uma ruptura?
Eu acho que sim, e acho também que Lula exerce um papel um pouco de ópio do povo. O Bolsa Família, que chega aos grotões, no Nordeste inteiro, dá uma miséria. Mas o povo precisa. O problema é que o Lula com isso está se transformando em um baita populista, assistencialista, difícil derrotar. Sou pessimista a curto prazo, acho que o PSDB ganhará as eleições. Mas, a médio prazo, sou mais otimista. O problema é que não temos uma alternativa de esquerda viável. A burguesia brasileira é de alto nível. Dão aqueles minutos de televisão e o povo não vota em desconhecido. O candidato do partido pequenininho fica com essa votação mínima. Se a gente lançar uma candidatura de esquerda mesmo, o povo não vai conhecer.

E como a senhora entende, hoje, a questão dos partidos?
Eu acho fundamental. Não sou dinossauro, nem nada, cabeça bem aberta, tentando analisar as coisas objetivamente. Partido é um grande instrumento para se formar quadros, organizar militância. Partido nada mais é do que um instrumento, mas um instrumento muito importante de organização do povo. Senão caímos no anarquismo, o que não leva nada em nenhum lugar. Os anarquistas tinham uma força histórica tremenda no começo do século no Brasil, fizeram greves sensacionais, mas levaram alguma coisa? Não levaram nada. Na revolução mexicana, o Pancho Villa e Emilliano Zapata tomaram o Zócalo (praça central da Cidade do México, onde fica o Palácio Nacional, sede do governo), tiram fotos e, depois, vão embora. Não tinham o que propor para o conjunto da sociedade. O partido é muito importante. Não o operário, vamos modernizar essa concepção, mas sim um partido que englobe todas as forças progressistas.

Você falou do México. Há uma frase muito famosa do subcomandante Marcos, “O poder está vazio”, pela qual ele se referia às limitações hoje do Estado capitalista, no sentido de que os governos estão tão amarrados com os instrumentos jurídicos e econômicos que tomar o poder não é uma finalidade…
Mas então qual é a finalidade? Sem esse poder, não se faz nada. Foi a grande discussão que se teve no Chile, na época do governo Allende. “Nós não tomamos o poder, chegamos ao governo”. O poder não é o governo, são as instâncias. O governo é o Executivo. Você tem o Legislativo, o Judiciário, os movimentos sociais, as Forças Armadas, uma série de instâncias que conforma o poder. Você tem de controlar isso para tomar o poder. Sabemos que precisamos destruir esse poder para construir um outro, socialista. Mas isso não se faz do dia para a noite. Tarefas construtivas coexistem com um processo de destruição. O desafio é construir uma nova sociedade. Quando você tiver se apoderado das partes cruciais, dos eixos, aí sim você vai poder mudar. Mas com as armas na mão também. Porque nenhum poder se mantém sem armas na mão. Eu já vi muita história ser derrotada quando estávamos com arma na mão, mas com menos armas que os outros. No golpe de 1964, a Marinha dos Estados Unidos estava em nossa costa. Não desembarcaram porque não precisou. Esse é um período em que estamos questionando muitas coisas, mas os pontos cruciais postos pela experiência revolucionária são os mesmos.

Que lembranças você tem dos anos 1960 em termos de luta, militância e atividade?
A lembrança dos anos 1960. Para destacar algo, eu me lembro muito do grupo de pesquisa na Universidade do Chile, onde elaborávamos em debates a Teoria da Dependência. E a minha melhor lembrança é a do Rui Mauro Marini, um intelectual brilhante. Organizamos um seminário de leitura do Capital. Eu já tinha lido, mas individualmente. A leitura coletiva é mais rica. Foi um contato muito marcante, do ponto de vista acadêmico e político.

E como a senhora avalia hoje a relação entre a questão de gênero e luta de classes?
Há muito tempo, eu escrevi em um artigo que a mulher trabalhadora tem a dupla jornada – um emprego fora e os afazeres domésticos – e é duplamente superexplorada em um ambiente social e doméstico. Por isso, eu acho que ela tem uma dupla razão para ser revolucionária e transformar esse sistema. Tem um potencial de luta fantástico. Mas o machismo é uma coisa muito forte. Na Revolução Cubana, por exemplo, a Vilma Espín e outras mulheres eram para ser mais destacadas. Elas foram destacadas apenas por serem mulheres. A Vilma Espín era mulher do Raul. Virou presidente da Federação de Mulheres Cubanas. Ela pegou em armas, tinha capacidade estratégica. Em uma pesquisa, uma vez, eu a entrevistei e fiz isso também com outras comandantes cubanas, salvadorenhas… As mulheres tiveram posições cruciais nas revoluções, mas desaparecem da história.

Os dois governos de Fernando Henrique colocaram em prática as idéias proposta do debate que ele tinha com Rui Mauro? Você conviveu com ele, no Chile…
A Teoria da a Dependência de Fernando Henrique nunca foi marxista, ele conhecia o marxismo, mas sempre foi weberiano. Quando eu o conheci no Chile, uma coisa interessante é que ele nunca discutia nada político; apenas o acadêmico. Ele freqüentou minha casa no Chile, cheguei a me despedir dele no aeroporto quando fui embora do país. Ele falava em sociologia o tempo todo, era um chato. Quando voltei ao Brasil, ele veio jantar conosco e era senador. Mas eu acho que ninguém esperava que fosse fazer um governo tão neoliberal, tão traiçoeiro. Entregar todas as jóias da Coroa, as empresas nacionais, lucrativas. Entregar tudo a preço de banana, literalmente. O que ele fez com a Vale do Rio Doce? Eu chorei quando ele vendeu a empresa, trabalhava em uma assessoria técnica na Câmara dos Deputados. Eu não esperava que chegasse a esse ponto de ser tão reacionário. Mas queria encerrar a pergunta afirmando o seguinte: tive decepção com Fernando Henrique, sim; mas tive mil vezes mais decepção com o Lula. O Fernando Henrique eu sabia que não era um cara de esquerda, era um cara progressista à época. Um liberal-progressista. Mas o Lula era do PT; claro, eu sempre fiz crítica ao PT, mas era um operário e terminar como amigo do Bush? Seguir uma linha tão entreguista? É o fim.
As frases são carregadas de conteúdo não só discursivo. Têm emoção, histórias. Trajetória de quem além de pensar sobre a dependência, foi testemunha e participante. Vânia Bambirra chegou ao Chile exilada. Ao lado de intelectuais, como Rui Mauro Marini, Andre Gunter Frank, Theotônio dos Santos, formulou a Teoria da Dependência, uma leitura marxista, crítica, não-dogmática, dos processos de reprodução do subdesenvolvimento na periferia do capitalismo.
Em 1961, inscreveu-se com um grupo de intelectuais, entre eles Theotônio, como voluntária para defender a revolução cubana. Participou da Organização Revolucionária Marxista - Política Operária (ORM-Polop), organização que lutou contra o regime militar de 1964. No Chile, integrou o Centro de Estudos Sócio-econômicos (CESO) com um grupo de marxistas que desenvolveu uma nova leitura da realidade latino-americana. Elaboraram um instrumental analítico da realidade que influenciou o programa da Unidade Popular, partido de Salvador Allende, eleito presidente em 1970. Três anos depois, assiste o assassinato do primeiro presidente de esquerda eleito democraticamente em um golpe de Estado promovido pelas forças militares, com apoio dos Estados Unidos. Novo exílio, dessa vez no México, onde leciona na Universidade Nacional Autônoma do México (Unam). Volta ao Brasil apenas nos anos de 1980.
Mais conhecida na América Hispânica do que no próprio Brasil, tem apenas dois livros publicados em terras tupiniquins. Ainda não se encontra nas livrarias uma de suas mais famosas obras, “A Revolução Cubana – uma reinterpretação”, tido como um dos melhores trabalhos produzidos fora de Cuba sobre o processo revolucionário. Hoje vive no Rio de Janeiro, com sua filha e seu neto. Em entrevista ao Brasil de Fato, concedida no final de novembro, Bambirra expõe suas idéias sobre os processos capitalistas contemporâneos, as transformações na América Latina e a decepção com o governo Lula.

A Teoria da Dependência foi formulada na década de 1960. O que mudou hoje na relação dos países da América Latina com o resto do mundo?
Vânia Bambirra – É preciso dizer que a Teoria da Dependência, que surgiu nos anos 1960, sofreu um baque com o golpe do Chile (1973). Foi muito criticada porque teria influenciado o governo de Salvador Allende; de fato, influenciou o seu programa. E seus críticos diziam que, assim como a experiência fracassou, a Teoria da Dependência teria tido o mesmo destino. Ela entrou em uma crise, não houve mais produção a partir a partir de então. E ela não captou as mudanças que ocorreram nos 1980. O que aconteceu depois? (Ronald) Reagan teve dois mantados (1980-1988) e consolidou o neoliberalismo na América Latina. A Teoria da Dependência não processou essa fase porque já estava em baixa. O próprio Rui Mauro Marini faz reflexões em vários artigos, mas não há uma análise profunda e sistemática do neoliberalismo. O mundo mudou, sim. O imperialismo transformou o mundo globalizado. A globalização é uma palavra moderna para esse fenômeno.

Você entende que hoje está em curso uma redivisão internacional do trabalho, com China e Índia assumindo um papel mais fabril no mercado global e os outros países passando por uma espécie de desindustrialização?
Não acho que seja por aí. O que ocorre é o processamento da revolução científico-tecnológica que em alguns países está muito mais avançado do que em outros. No caso da Índia, do ponto de vista de informática, está muito avançado. Eles exportam mão-de-obra. E, ao mesmo tempo, é um país atrasadíssimo. Uma miséria massiva, uma marginalização da maioria que não sabe ler, escrever. Essa realidade convive com um setor de elite. O problema é muito grave porque a revolução científico-tecnológica conduz inexoravelmente a um questionamento do capitalismo. É uma revolução típica nem de uma sociedade socialista, mas sim comunista, porque tira a mão-de-obra do processo produtivo, coloca a ciência como principal força produtiva. É a contradição absoluta que o capitalismo não pode resolver. A mais-valia vem da exploração do trabalho humano, e não dos robôs, de cérebros eletrônicos. O capitalismo é reacionário porque não pode produzir progresso. E o socialismo como etapa de transição, que não é uma sociedade sem classes, pois conserva elementos fundamentais do capitalismo e até por isso que entrou em crise, também foi incapaz de trazer esse progresso. Esse é o grande problema do mundo que está aí. E que sem um instrumental marxista as pessoas não conseguem entender. São contradições que vão se acirrando. As forças produtivas querendo se desenvolver e, ao mesmo tempo, impossibilitadas de se desenvolver porque o capitalismo tem de manter a exploração do ser humano.

Reacionário no sentido de não permitir a ampliação dos avanços das forças produtivas?
A tendência é se acabar com o trabalho humano, que é o que gera mais-valia. Mas, sem isso, não há como o capitalismo sobreviver.

E a resposta do capitalismo é a massa desempregados?
Claro, e esses problemas absurdos de segurança. Eu dizia na sala de aula: se visse um filho meu com fome, eu roubava. É uma questão de sobrevivência do ser humano. Isso é uma caricatura que tenho coragem de dizer. O que está acontecendo com nossa população marginalizada, os pobres que não têm sequer acesso ao trabalho? Essa população quer sobreviver, é um instinto, e para isso tem de se alimentar.

O ingresso de massas trabalhadoras nos parques industriais da China e da Índia e a redução do trabalho operário na Europa, nos países centrais, trazem mudanças no conceito de superexploração?
Traz, evidentemente. Na China, por exemplo, essas massas que deixam o campo e vão para as cidades recebem salários irrisórios. Por que as coisas feitas na China são tão baratas? Porque há uma intensificação da superexploração. Remunera-se o trabalho muito abaixo. É uma hipersuperexploração. Quanto é o salário de um trabalhador na China? 30 dólares? Vão surgindo nesse país, que foi socialista, as mazelas típicas das sociedades capitalistas. É uma população que não estava acostumada com isso. Por que na Rússia, na Alemanha e em ex-repúblicas socialistas começa a surgir um saudosismo daqueles velhos tempos? Isso se manifesta, claro, entre os mais idosos. Mas é muito significativo isso. Porque a hecatombe foi em 1990, não foi há tanto tempo assim. Eles vivem uma sociedade de consumo, mas não podem desfrutar dela.

Uma pesquisa feita na antiga Alemanha Oriental mostrou exatamente isso: 92% dos mais velhos (35 e 50 anos) preferem o comunismo ao atual capitalismo; entre os mais novos, 60% disseram o mesmo.
Quando eu morava no México, um amigo cubano veio me visitar durante um congresso e, quando chegou, viu aqueles hipermercados, com prateleiras imensas. Ele ficou deslumbrado. No dia seguinte, me disse que não dormiu direito, sonhou com aquilo. E me contou: “Mas, pensando bem, eu acho que nós cubanos não temos do que nos queixar. O que adianta ter tudo aquilo se para adquirir qualquer coisa eu preciso de dinheiro”. Você vê tudo o que você pode consumir, mas só tem acesso a uma ínfima parte.

As senhora acredita que há alguma forma de superar essa etapa neoliberal nos marcos do próprio capitalismo, como a reativação do Estado de bem-estar social, o neokeynesianismo?
Nenhuma viabilidade. Como é que vai superar, se o progresso vai na direção de superar o trabalho humano? É nesse sentido que o capitalismo é reacionário, porque precisa do trabalho humano. E o socialismo tampouco conseguiu essas respostas. Veja bem, Marx, os clássicos, pensavam o socialismo em uma sociedade desenvolvida. Foi uma audácia fazer a Revolução Russa. Os bolcheviques foram muito atrevidos, porque ousaram tomar o poder e tentar construir o socialismo em uma sociedade cheia de vestígios feudais que não tinha tido um desenvolvimento suficiente do capitalismo. A Rússia era muito atrasada. E ainda mais grave: foi um país cercado, bloqueado, dizimado fisicamente, invadido pelos países desenvolvidos europeus. A infra-estrutura incipiente capitalista que existia lá foi fisicamente destruída. Começou-se a construir sob os escombros. Então era para dar no que deu, todo mundo torcia que não. Era uma epopéia incrível. O socialismo completa quase 100 anos. E quantos anos o capitalismo demorou para se desenvolver? O socialismo ainda é uma experiência muito rudimentar, frágil, porque triunfou em países muito débeis.

Como em Cuba?
Sim, veja bem, o socialismo cubano é um socialismo heróico. Mas ele se manteve porque teve ajuda soviética. Sem isso, Cuba seria inviável. Uma ilha não só no sentido físico. Era atrasada, o cabaré dos Estados Unidos. Que viabilidade tinha para construir o socialismo ali? E, contudo, Cuba existe, está lá. Precisou da ajuda soviética, veio a hecatombe em 1990, Cuba continuou sobrevivendo. Buscou formas de negociar o que tinha, açúcar, charuto. E foi sobrevivendo, e o povo se sacrificou. Sem nenhuma dúvida. A concepção do socialismo não é a generalização da miséria. O que o socialismo quer e sobretudo a etapa superior, o comunismo, é que todas as pessoas possam usufruir das benesses. Todo mundo quer comer bem, presentear seus amigos, andar com bons meios de transportes. A pessoa quer viver bem. E em uma sociedade capitalista isso é um luxo, só poucos podem ter. Na sociedade do futuro, a idéia é que todos tenham tudo isso. Essa é a utopia marxista. O problema é que até agora o socialismo triunfou em outros países. Já pensou uma revolução socialista na Inglaterra? Ou na Alemanha?

Como a senhora coloca a questão do consumismo nisso? Por exemplo, fala-se que seria inviável expandir para o planeta o padrão de consumo estadunidense ou europeu.
O modelo de vida da maioria dos americanos, e a maioria é classe média, é modesto. Não vamos esquecer que os Estados Unidos têm milhões e milhões de miseráveis, sendo o país mais rico do planeta. Vamos falar da classe média americana. Eles têm um modelo de vida muito restrito, muito medíocre. Nova York é uma cidade violentíssima, muito perigosa, com níveis de violência que não fazem inveja ao Rio de Janeiro. Entre no Central Park à noite para ver o que ocorre. A maior parte dos americanos tem uma vida medíocre, mas vive no país mais rico do mundo. É um absurdo. É um povo que não usufrui em sua maioria das riquezas que o sistema produtivo conquistou.

Na América Latina, discute-se o socialismo do século 21. No entanto, esses processos não tem seguido os processos tidos como padrão de movimentos revolucionários, como a criação de um partido de massas, a formação política do povo…
É muito interessante o que está acontecendo hoje. Todos foram eleitos, Evo (Bolívia), Rafael (Equador), Chávez (Venezuela)… Eu fico entusiasmada, mas com um pé atrás. A gente tinha muita esperança em Allende, que também foi eleito, sobretudo porque a direita se dividiu naquela época. Bolívia, Equador e Venezuela são os três casos mais impactantes, mas estão ocorrendo fenômenos de questionamento da ordem também quando se elege na Nicarágua um antigo sandinista. Eu acho que o povo está querendo mudança.

E o Lula?
Isso é a continuidade de Fernando Henrique, é o neoliberalismo, sim. E aí eu acho mais inconcebível. Não sou moralista, não vou entrar na história de “mensalão”, corrupção, isso é secundário. O que é substantivo é a amizade que ele tem com Bush. Eu votei nele e não votei num cara que iria ser o amiguinho número 1 do Bush. Não votei em um cara que quer transformar o campo brasileiro em zona de produção de agrocombustível para abastecer os Estados Unidos. Tirar comida da boca do povo brasileiro para dar combustível para os países desenvolvidos? Isso não.

Essa política focada na agroexportação reconduz o país a uma condição primário-exportadora?
Não, não acho. O parque industrial brasileiro é fantástico, apesar de o Fernando Henrique ter tentado sucatear tudo. O Brasil produz aviões; equipamentos de prospecção submarinas de petróleo em águas profundas. Isso é um produto de tecnologia de ponta. É diferente da Venezuela, por exemplo, que tem de importar tecnologia. Brasil, México, Argentina, Chile e Uruguai têm mais autonomia. Romper a dependência, para essas nações, é uma questão política. O socialismo seria muito menos doloroso no Brasil, México e Argentina do que no Equador, Bolívia e Venezuela. Mas é lá que está ocorrendo o fenômeno. Porque nesses países as contradições se tornaram incontroláveis. O sistema está invertido.

A senhora acha que esses países caminham para uma saída mais desenvolvimentista ou para uma transformação mais radical?
Olha, o ritmo da radicalização é marcado pela contra-revolução. Assim foi em Cuba. É contra-partida. Se a direita avança, força esse processo. Isso está ocorrendo assim na Bolívia, querem tornar independentes as regiões mais ricas. Não somos nós que definimos o ritmo das mudanças. E como quem é proprietário privado nunca vai abrir mão, a tendência é sempre essa, de radicalização. Já vimos esse filme antes. O Evo vai chegar a um ponto em que precisará entregar ao povo as defesas daquilo que conquistou. As respostas a gente já conhece. E nenhum processo avança se não tem a confiança do povo em definitivo. Em Cuba, por exemplo, se a população quisesse depor Fidel Castro, tinha feito isso. Mas eles o adoram. Saúde de altíssimo nível, escola, comida, mesmo que racionada, porque é um país que importa alimentos, não produz. Não há uma abundância generalizada em Cuba.

Cuba vive hoje um debate interno, impulsionado por Raúl Castro, no qual a população está opinando sobre os rumos da revolução…
Com a enfermidade do Fidel Castro, os Estados Unidos têm a expectativa de que ele morra e de que o país vai mudar. É exatamente nesse momento que Cuba tem espaço para abrir mais. Sempre houve consulta popular. O problema é que parece inacreditável que o povo adore Fidel. Isso não se transfere para Raul, mas ele não pensa diferente de Fidel. Tenho só a impressão de que está atuando sem tanta pressão.

Ainda sobre o mundo socialista, há pesquisadores que apontam a existência de um suposto imperialismo soviético sobre as outras repúblicas socialistas…
Essa é uma visão de direita. A questão é que a União Soviética salvou Cuba; sem o petróleo, a revolução não teria sucesso. Para os soviéticos, interessava o sucesso da revolução. Mas é óbvio que, junto com esse apoio, veio toda um influência. Os cubanos passaram a adotar típicos manuais soviéticos nas universidades. E foram assimilando certas mazelas do sistema soviético. Isso é inquestionável. Foi um período terrível, à beira de uma guerra nuclear. A primeira vez que fui a Cuba foi em 1963. Eu conheci intelectuais cubanos que tinham uma independência muito grande em seu pensamento. Claro, não podiam expressar isso. Uma revista como Pensamiento Crítico acabou fechada, o que foi terrível, muito ruim. Mas foi um preço alto que se teve de pagar pela manutenção da revolução cubana. Um preço alto. Valeu a pena? Eu acho que valeu. Porque o exemplo de Cuba está aí e é onde a Venezuela se inspira. A bandeira do socialismo está lá hasteada, em uma ilha. O país tem uma das melhores taxas de mortalidade infantil do mundo, está exportando médicos, acabou a miséria.

Voltando ao Brasil e ao governo Lula. A senhora acha que, levando em conta tamanha a presença do capital internacional no país, haveria espaço político para um governo caminhar para uma ruptura?
Eu acho que sim, e acho também que Lula exerce um papel um pouco de ópio do povo. O Bolsa Família, que chega aos grotões, no Nordeste inteiro, dá uma miséria. Mas o povo precisa. O problema é que o Lula com isso está se transformando em um baita populista, assistencialista, difícil derrotar. Sou pessimista a curto prazo, acho que o PSDB ganhará as eleições. Mas, a médio prazo, sou mais otimista. O problema é que não temos uma alternativa de esquerda viável. A burguesia brasileira é de alto nível. Dão aqueles minutos de televisão e o povo não vota em desconhecido. O candidato do partido pequenininho fica com essa votação mínima. Se a gente lançar uma candidatura de esquerda mesmo, o povo não vai conhecer.

E como a senhora entende, hoje, a questão dos partidos?
Eu acho fundamental. Não sou dinossauro, nem nada, cabeça bem aberta, tentando analisar as coisas objetivamente. Partido é um grande instrumento para se formar quadros, organizar militância. Partido nada mais é do que um instrumento, mas um instrumento muito importante de organização do povo. Senão caímos no anarquismo, o que não leva nada em nenhum lugar. Os anarquistas tinham uma força histórica tremenda no começo do século no Brasil, fizeram greves sensacionais, mas levaram alguma coisa? Não levaram nada. Na revolução mexicana, o Pancho Villa e Emilliano Zapata tomaram o Zócalo (praça central da Cidade do México, onde fica o Palácio Nacional, sede do governo), tiram fotos e, depois, vão embora. Não tinham o que propor para o conjunto da sociedade. O partido é muito importante. Não o operário, vamos modernizar essa concepção, mas sim um partido que englobe todas as forças progressistas.

Você falou do México. Há uma frase muito famosa do subcomandante Marcos, “O poder está vazio”, pela qual ele se referia às limitações hoje do Estado capitalista, no sentido de que os governos estão tão amarrados com os instrumentos jurídicos e econômicos que tomar o poder não é uma finalidade…
Mas então qual é a finalidade? Sem esse poder, não se faz nada. Foi a grande discussão que se teve no Chile, na época do governo Allende. “Nós não tomamos o poder, chegamos ao governo”. O poder não é o governo, são as instâncias. O governo é o Executivo. Você tem o Legislativo, o Judiciário, os movimentos sociais, as Forças Armadas, uma série de instâncias que conforma o poder. Você tem de controlar isso para tomar o poder. Sabemos que precisamos destruir esse poder para construir um outro, socialista. Mas isso não se faz do dia para a noite. Tarefas construtivas coexistem com um processo de destruição. O desafio é construir uma nova sociedade. Quando você tiver se apoderado das partes cruciais, dos eixos, aí sim você vai poder mudar. Mas com as armas na mão também. Porque nenhum poder se mantém sem armas na mão. Eu já vi muita história ser derrotada quando estávamos com arma na mão, mas com menos armas que os outros. No golpe de 1964, a Marinha dos Estados Unidos estava em nossa costa. Não desembarcaram porque não precisou. Esse é um período em que estamos questionando muitas coisas, mas os pontos cruciais postos pela experiência revolucionária são os mesmos.

Que lembranças você tem dos anos 1960 em termos de luta, militância e atividade?
A lembrança dos anos 1960. Para destacar algo, eu me lembro muito do grupo de pesquisa na Universidade do Chile, onde elaborávamos em debates a Teoria da Dependência. E a minha melhor lembrança é a do Rui Mauro Marini, um intelectual brilhante. Organizamos um seminário de leitura do Capital. Eu já tinha lido, mas individualmente. A leitura coletiva é mais rica. Foi um contato muito marcante, do ponto de vista acadêmico e político.

E como a senhora avalia hoje a relação entre a questão de gênero e luta de classes?
Há muito tempo, eu escrevi em um artigo que a mulher trabalhadora tem a dupla jornada – um emprego fora e os afazeres domésticos – e é duplamente superexplorada em um ambiente social e doméstico. Por isso, eu acho que ela tem uma dupla razão para ser revolucionária e transformar esse sistema. Tem um potencial de luta fantástico. Mas o machismo é uma coisa muito forte. Na Revolução Cubana, por exemplo, a Vilma Espín e outras mulheres eram para ser mais destacadas. Elas foram destacadas apenas por serem mulheres. A Vilma Espín era mulher do Raul. Virou presidente da Federação de Mulheres Cubanas. Ela pegou em armas, tinha capacidade estratégica. Em uma pesquisa, uma vez, eu a entrevistei e fiz isso também com outras comandantes cubanas, salvadorenhas… As mulheres tiveram posições cruciais nas revoluções, mas desaparecem da história.

Os dois governos de Fernando Henrique colocaram em prática as idéias proposta do debate que ele tinha com Rui Mauro? Você conviveu com ele, no Chile…
A Teoria da a Dependência de Fernando Henrique nunca foi marxista, ele conhecia o marxismo, mas sempre foi weberiano. Quando eu o conheci no Chile, uma coisa interessante é que ele nunca discutia nada político; apenas o acadêmico. Ele freqüentou minha casa no Chile, cheguei a me despedir dele no aeroporto quando fui embora do país. Ele falava em sociologia o tempo todo, era um chato. Quando voltei ao Brasil, ele veio jantar conosco e era senador. Mas eu acho que ninguém esperava que fosse fazer um governo tão neoliberal, tão traiçoeiro. Entregar todas as jóias da Coroa, as empresas nacionais, lucrativas. Entregar tudo a preço de banana, literalmente. O que ele fez com a Vale do Rio Doce? Eu chorei quando ele vendeu a empresa, trabalhava em uma assessoria técnica na Câmara dos Deputados. Eu não esperava que chegasse a esse ponto de ser tão reacionário. Mas queria encerrar a pergunta afirmando o seguinte: tive decepção com Fernando Henrique, sim; mas tive mil vezes mais decepção com o Lula. O Fernando Henrique eu sabia que não era um cara de esquerda, era um cara progressista à época. Um liberal-progressista. Mas o Lula era do PT; claro, eu sempre fiz crítica ao PT, mas era um operário e terminar como amigo do Bush? Seguir uma linha tão entreguista? É o fim.

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O subcontinente da revolução inacabada

Movimentos latino-americanos têm sido tardiamente anticoloniais, um acerto com o passado que não acaba

José de Souza Martins

Em entrevistas que deu na visita a Cuba e após seu retorno ao Brasil, o presidente Luiz Inácio fez duas afirmações carregadas de significado. Uma delas quanto à paixão de sua geração pela Revolução Cubana. Outra, ao considerar abominável o seqüestro de pessoas desarmadas e inocentes, como arma de luta política, pelas Farc, na Colômbia. Na aparente contradição dessas duas declarações, as transformações lentas e sofridas da América Latina estão propostas à nossa consciência dilacerada, bem como seus impasses e bloqueios.

A paixão romântica pela Revolução Cubana tem muito a ver com o fato de que não foi, originalmente, uma revolução comunista. Embora, na falta de melhor aparato conceitual, tenha adotado uma linguagem social e de esquerda para exprimir o anseio de justiça e de modernidade não só dos pobres, dos oprimidos, do povo, mas sobretudo dos setores esclarecidos da classe média e das elites. Os três irmãos Castro - Fidel, Raul e Ramón, com os quais conversei em Havana, em 1981 (guardo de Fidel um toco de seu charuto, amassado pelo peso de sua bota),- vêm de uma família de fazendeiros.

As revoluções latino-americanas têm sido e continuam sendo tardiamente anticoloniais, bloqueadas pelo passado que nos atormenta e engana. Da Revolução Cubana à in-revolução petista no Brasil, passando pelas Farc, na Colômbia, aprisionada na fortaleza da selva e da malária, o passado tem sido o pretexto enganador, o acerto de contas que não pode se consumar no vazio de historicidade. O tormento de uma falta de nexo entre a realidade social problemática, de um lado, e as ideologias com que se pretende compreendê-la, situá-la e superá-la, de outro, acompanha paralisias e derrotas políticas neste subcontinente de revoluções inacabadas, como as definiu o sociólogo colombiano Orlando Fals-Borda.

A Revolução Cubana, que depôs o ditador Fulgencio Batista, em 1959, não era uma revolução comunista nem Fidel Castro era comunista nem foi a revolução apoiada pelos comunistas. Uns dias antes da tomada do poder, Fidel falou em socialismo pela primeira vez. Ocorreu quando já era forte, em toda a América Latina, a resistência ao stalinismo, ao autoritarismo e ao dogmatismo dos partidos comunistas, sobretudo entre os intelectuais de esquerda. A simpatia e o afeto que aquela geração tinha pela Revolução Cubana não era, pois, adesão ao comunismo. Era rejeição ao imperialismo americano e a sua diplomacia, na América Latina mais conduzida pelo anticomunismo da CIA do que por efetivas orientações diplomáticas do Departamento de Estado.

A paixão romântica e juvenil pela Revolução Cubana decorria da esperança de que em Cuba estivesse ocorrendo uma revolução ao mesmo tempo antiimperialista e humanista, no marco da utopia da liberdade, que nos reconciliasse com os valores universais que um dia constituíram o cerne do pensamento da Revolução Francesa e, um século depois, do pensamento marxiano, completamente mutilado pela União Soviética e pelos partidos comunistas.

Mas a Revolução Cubana, como as revoluções latino-americanas, foi uma revolução tardia e descontextualizada, embora inevitável e necessária. Ocorreu numa época de polarização das nações pelo conflito da Guerra Fria, entre Estados Unidos e União Soviética. Quem não estava de um lado, tinha que estar de outro, pois do contrário não sobreviveria. As revoluções latino-americanas, revoluções nacionalistas, sem dúvida antiamericanas, mas, no fundo, pró-capitalistas, defrontaram-se com a diplomacia vesga das potências, especialmente dos Estados Unidos, que ainda concebiam o lucro como pilhagem.

Foi assim na Bolívia e foi assim na Guatemala, nos anos 1950, no Brasil, no Chile, na Argentina, no Uruguai, nos anos 60. Com Cuba não foi diferente. Não restou alternativa à Revolução Cubana senão a de abrigar-se na proteção política e econômica da União Soviética, agregar ao poder o Partido Comunista e sujeitar-se a uma dominação externa que colocava o país no miolo do conflito internacional. No fundo, a política externa americana, por meio do bloqueio econômico, fez de Cuba país de um socialismo rígido e o congelou. Isso não impediu que Cuba lograsse grandes avanços sociais, na educação, na saúde, na alimentação, mas impediu que seu socialismo fosse criativo e inovador.

Uma poderosa contribuição à sovietização da Revolução Cubana foi a da Igreja Católica, que também decretou seu bloqueio, um bloqueio religioso, congelando suas relações com Cuba. Durante anos, Cuba ficou sem um cardeal, como represália da Santa Sé, em boa parte, à prisão e deportação de padres espanhóis apanhados de armas nas mãos no desembarque americano na Baía dos Porcos, em 1961. Ainda que poupados do fuzilamento. Por muito tempo, as igrejas, fora do horário de missa, ficaram fechadas. Cuba tornara-se independente da Espanha em 1898, mas não se tornara independente do clero espanhol, que continuou a tutelar seu catolicismo de elite, já que esse país pobre, negro e mestiço é de certo modo um país do candomblé. Elite que, ao debandar para Miami, esvaziou as paróquias da ilha. Processo que só terminaria com a visita de João Paulo II a Cuba e a nomeação de um cardeal para Havana.

No outro pólo das considerações de Lula, as Farc, da Colômbia, representam outra expressão da política continental de bloqueio da liberdade e do querer político dos discordantes, dos insurgentes, dos diferentes. Outra sobrevivência da Guerra Fria e da herança de um país que não existe mais. Confinadas na selva, não interagem politicamente com a sociedade colombiana a não ser pelo terror. Sua ideologia de esquerda se derrete na prática de direita do forno úmido da selva, do isolamento, do narcotráfico, dos seqüestros e do terrorismo. Isso não é esquerda nem marxismo. Nelas, a dimensão propriamente política da insurgência foi castrada e perdeu-se na falta de horizontes de uma geração perdida. As Farc encarceram-se na selva para não ver a história passar.

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

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Nazismo contra o Modernismo

Durante o Congresso do Partido Nazista reunido em Nuremberg, em 1933, Hitler citou a si mesmo utilizando-se de uma passagem do Mein Kampf referente à opinião dele sobre a arte moderna. Considerava-a obra de loucos e degenerados, parecer não muito distante do público comum perante os experimentos estéticos dos cubistas, dos expressionistas, e demais vanguardistas que vinham desde o período anterior à Guerra de 1914-1918.

Roisenberg entra em ação

Walter Laqueur, estudioso da cultura alemã daquela época, indica que os nazistas não tiveram inicialmente participação muito ativa nas polêmicas sobre a arte e a estética moderna que inundavam as revistas e semanários alemães dos anos vinte. Mas isso não demorou a mudar.

Foi por atuação pessoal de Alfred Rosenberg, o ideólogo oficial do partido nazista, que a luta contra o modernismo se materializou. Em 1927, ele publicou uma série de ensaios no jornal Völkische Beobachter sob o título geral de "Der Sumpf" (O pântano), em que acusava a estética do seu tempo de ser uma doença da alma, do desequilíbrio, da alienação, do resultado do capitalismo (dominado pelo mamonismo, isto é, pelo dinheirismo) em conjugação com o coletivismo, a cultura de massas manobrada por comunistas.

Tratava-se, segundo ele, de retirar as críticas à arte moderna feitas em nichos intelectuais reacionários ou elitistas e transformá-la numa luta. Em vista de tal propósito, Rosenberg associou-se com um pintor e arquiteto, Paul Schultze-Naumburg, para lançar-se numa campanha organizada contra a chamada "arte degenerada" no periódico Weltkampf.

Em 1929, os dois aliaram-se para estruturar a Kampfbund für Deutsche Kultur, que seria um instrumento de combate do partido nazista e voltado contra a arte do seu tempo, contra o que chamavam de Kulturbolchevismus, a cultura bolchevista.

Pode-se dizer que poucas vezes na história da cultura, a arte foi objeto de tanta polêmica, ódio e difamação como durante os anos vinte na Alemanha. Parte deste destempero deveu-se aos próprios artistas que, desde os tempos do futurismo não paravam de lançar manifestos arrogantes em que insultavam o mau gosto da gente comum e jogavam no opróbrio aqueles que se lhes opunham ou simplesmente não os entendiam, englobando-os todos sobre a palavra infamante de "filisteus".

A mão negra

"Jovem mulher e um homem (Nolde, 1921), exemplo de ‘arte degenerada’"

Em 1911, Vassily Kandinsky, um dos mais famosos expressionistas, nascido na Rússia, em seu tratado Über das geistige in der Kunst, (Sobre o espiritual na arte), afirmou que as grandes realizações da pintura da vanguarda tinham o status de gestos simbólicos de liberação universal e – premonitoriamente - denunciava a existência de uma "mão negra", o mal, o princípio negativo, que procurava limitar a liberdade dos artistas com seu espírito medíocre e conservador. A ela, contrapunha o "raio branco", o espírito livre, construtivo, capaz de sozinho demolir os preconceitos dos reacionários e do público medíocre em geral contra as inovações apresentadas pelos artistas em geral.
A tragédia que se abateu sobre a arte moderna alemã (e de certo modo sopre parte considerável da arte moderna de outros países) foi que ela se difundiu num momento de desgraça nacional. A estreita relação histórica entre sua complexidade, abstração, niilismo, deformação propositada, com a decadência socioeconômica ocorrida na Alemanha depois de 1918, foi-lhe fatal. A Catástrofe de 1918 e o Movimento Modernista pareciam andar de mãos dadas.Ela passou a ser vítima dos ataques de extremistas ultranacionalistas que denunciaram suas tortuosidades e inquietações como responsáveis pelo clima derrotista e pessimista que passou a imperar no país nos anos vinte.

Em pouco tempo os grandes nomes da inovação estética alemã, tais como Ernst Nolde, Kirchner, Müller, Purrmann, Max Beckmann, Franc Marc, Kokoschka, Feininger, Paul Klee, Otto Dix, George Grosz e Vassily Kandinsky, entraram na lista dos criadores a serem política e ideologicamente execrados. Eles, os artistas, estavam numa situação deveras perigosa. Ao afirmarem enfaticamente o primado expressionista, cujo princípio básico era a pureza dos sentimentos sobre todo o resto, terminavam por retratar em seus quadros e gravuras uma sociedade dilacerada, desmoralizada pelo Tratado de Versalhes, atormentada pela depressão econômica e por violentas convulsões políticas (como a rebelião espartaquista de 1919, o putsch Kapp, de 1920, e o levante nazista de 1923, em Munique, demonstravam). Não havia nada de belo a ser levado em consideração, ou que fosse digno de merecer uma obra de arte otimista na Alemanha do tempo deles.

Nas ruas de Berlim, Hamburgo , Frankfurt, e de tantas outras, espalhavam-se os mendigos, os mutilados, os desempregados, os deserdados e desamparados de uma guerra em que a nação, outrora orgulhosa, resultara vencida.. Ao serem fiéis aos seus sentimentos e honestos na sua maneira de olhar a realidade circundante, mostrando aos alemães uma pátria deformada e dissoluta, os artistas atraíram para si o rancor dos extremistas da direita que os acusaram de produzir uma arte Volksverbunde (inacessível ao povo). As cores predominantes deles eram o preto e o cinza. O líder nazista os estigmatizou por isso. Para Hitler, os modernistas ou eram loucos ou charlatães:

Se cada coisa a que deram à luz - disse ele - foi resultado de uma experiência interior, então eles são um perigo público e devem ficar sob supervisão médica […] se era pura especulação, então deviam estar numa instituição apropriada para o engano e a fraude.

ADOLF HITLER, sobre o artista moderno, 1933

As exigências ideológicas

Cartaz nazista contra a arte moderna

Outros elementos, por igual, pesaram na perseguição que se desencadeou sobre eles. Nunca como até então as ideologias que irromperam no após Primeira Guerra Mundial utilizaram-se tão abertamente da estética para atingir seus objetivos políticos. Vivia-se na época da polit-art, quando a arte foi aparelhada, transformando-se em instrumento de uma monumental propaganda político-partidária, ocorrendo à restauração do naturalismo idealizado como a forma mais adequada e ajustada a serviço da política. de estado. Esperava-se do artista que, ao invés de concentrar-se em abstrações complicadas, descrevesse um mundo idílico, clássico, radioso, virtuoso, que imperaria no futuro não muito distante, desde que grande causa, fosse ela qual fosse, vencesse as suas rivais. Havia um imenso abismo entre os expoentes máximos da arte de vanguarda daquela época e as ambições estéticas feitas pelas ideologias dominantes em vários estados europeus nos anos vinte e trinta.(*)

A consagração histórica daqueles que foram então perseguidos, todavia, terminou se dando por meios transversos. Para afirmar a magnitude da arte nacional-socialista sobre a cultura "degenerada", Hitler orientou Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda e Cultura do Reich, que realizasse uma exposição concorrente na Haus der Deutschen Kunst, em Munique, em julho de 1937. O desejo do Führer era confrontar a "arte verdadeiramente alemã" com a "arte degenerada" para destacar o processo de purificação que ele desencadeara na Alemanha desde sua ascensão em 1933. Ocorre que nos dias de hoje praticamente nenhum daqueles artistas que se tornaram obedientes soldados da estética nacional-socialista são lembrados, ocorrendo o contrário com aqueles que os nazistas perseguiram ou desterraram. Os nomes de Kandinsky , Klee, e tantos outros, tidos como degenerados, foram universalmente consagrados no transcorrer do século XX.

(*) A posição dos comunistas soviéticos e alemães em relação às vanguardas artísticas ou ao Movimento Expressionistas não era um tanto diferentes das dos nazistas. Em 1938, pelas páginas do periódico Die Wort (A Palavra), jornal editado em alemão em Moscou, G.Lukács,crítico eminentes e grão-sacerdote da estética stalinista, atacou o expressionismo defendido pelo filósofo Ernst Bloch e seu parceiro, o compositor Hanns Eisler, ambos exilados nos Estados Unidos, considerando-o anti-realista e, portanto, contra os princípios progressistas do Realismo Socialista (desde 1934 política cultura oficial da Rússia Stalinista). Anna Seghers, romancista esquerdista não-dogmática, mulher culta, enfrentou Lukács por carta, remetida em 29 de julho de 1938, questionando-lhe os conceitos de "decadência" e mesmo de "realismo", defendendo a pluralidade artística como a mais adequada para expressar a época em que se vive (ver Essays über Realismus de G. Lukács). Alexander Abusch, um dirigente comunista, por sua vez, foi muito claro em afirmar que a defesa que faziam dos artistas perseguidos pelos nazistas não significava nenhum voto de simpatia do partido em favor do expressionismo ou das vanguardas em geral. As críticas aos comunistas centravam-se no fato deles retoricamente defenderem a liberdade de criação enquanto propunham que a arte estivesse submetida à linha do partido e do Estado Soviético.

Bibliografia

Haffmann, Werner – Banned and Persecuted: dictatorship of Art under Hitler.Colônia; DuMont Buchverlag, 1986.

Laqueur, Walter - Weimar, a Cultural History, 1918-1933, Londres: Weidenfeld and Nicolson, 1974.

Laqueur, Walter – Weimar: 1918-1933. Paris. Laffont, 1978.

Lukács, Georgy – Materiales sobre el realismo. Barcelona; Ediciones Grijalbo, 1977.

Richard, Lionel – Le nazisme & la culture. Paris: Frnaçois Maspero, 1978.

Kandinsky, Vassily – Gramática da Criação. Lisboa: Edições 70,1998.

Voltaire Schilling (Terra)

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Charles Baudelaire

A série de biografias de críticos e ensaístas da moderna cultura ocidental é uma relação eclética. Nela constam historiadores, críticos, ensaístas e escritores das mais diversas procedências (alemães, americanos, brasileiros, espanhóis, franceses, ingleses, italianos, latino-americanos, suíços) identificados com a crítica ,com a história da cultura e com a teoria das artes (arquitetura, pintura, escultura ou música). De um modo geral, podemos classificá-los, no trato como abordam as artes e a cultura, entre os que seguem a escola sociológica, os da escola estética/simbológica e, por fim, os da escola psicológica. Conheça um pouco mais sobre Charles Baudelaire.

Charles Baudelaire

Poeta extraordinário e crítico cultural. Generoso e profético, em meio ao vexame de uma infeliz estréia de uma ópera de Wagner em Paris, enalteceu o compositor como um poderoso intérprete da modernidade. Um dos nomes maiores do Movimento Simbolista, com dois ensaios tidos como clássicos no gênero, celebrizou-se como um dos primeiros teóricos das artes em traçar as linhas gerais da Era Modernista. Neles definiu como modernidade tudo o que é transitório, fugitivo, circunstancial e contingente. Em contraposição à estética de Aristóteles fixada no perene, no imutável, na beleza imorredoura, sempre na busca da harmonia, da ordem , da simetria e do ritmo, o artista contemporâneo se move para captar o fugaz, o que logo se esvaziará, o incidental, aquilo que logo deixará de ser e de existir.

Trata-se de uma estética que decorreu da época do barco a vapor, da locomotiva, do telégrafo e da fotografia, do vem-e-vai alucinante da vida nas grandes metrópoles, das multidões anônimas que se cruzam nas avenidas tomadas pela volúpia da moda, do que é e do que já foi. O desafio dos que se lançam nas artes é captar o momento passageiro e escorregadio, que se vai com o vento ou com o vôo dos pássaros. Como retratar ou reproduzir a multiplicidade da vida moderna com a chega incessante de novidades? Como flagrar o que passou como um raio? Como extrair o eterno do transitório? Somente por meio de imagens metafóricas isso seria possível. Era através de parábolas, já dissera Goethe, que o transitório poderia ser dito. Para isso procurou aproximar a poesia da pintura atrás de vínculos que lhes identificassem as afinidades ocultas, invisíveis, para que a linguagem pudesse fazer uso da imagem pictórica e assim habilitar-se a corresponder a sua função de retratar o seu tempo… esquivo, inaudito, moderno enfim. O poeta de hoje, portanto, fará seus versos de fragmentos de palavras encontradas nas ruas, de letreiros, de coisas mal lidas, de um sussurro ou de um grito, de um bilhete encontrado na calçada ou de um pedaço de jornal velho.

Obras: "O Salão de 1845"; "O Salão de 1846"; "Richard Wagner e Tannhäuser em Paris" (1861); "A arte romântica" e Curiosidades Estéticas "(ambas publicações póstumas, de 1868).

Voltaire Schilling (Terra)

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Natal, da igreja ao shopping center

O marketing em torno da festa do dia 25 de dezembro, apoiado em elementos do imaginário religioso, ajuda-nos aentender como o consumo se revela filho legítimo do monoteísmo

por Silvio Mieli


© LOSEVSKY PAVEL/SHUTTERSTOCK

Shopping: o templo do Natal moderno

O cenário do anúncio impresso,lançado às vésperas do Natal de 2005, reproduzia a atmosfera de um quadro renascentista. Uma cliente se aproxima do caixa para pagar suas compras na loja de decoração. Olhar entre virginal e maternal, vestes angelicais, a mão direita apoiada sobre as caixas brancas e a esquerda sutilmente inclinada, segurando um cartão de crédito. Por trás dos seus cabelos dourados, uma baixela de prata pendurada na prateleira da loja conferia à consumidora uma auréola de “madona rafaelita”. “Fazer o bem é mais fácil do que você imagina”, dizia o slogan do cartão de solidariedade do banco.
A peça publicitária parecia ter sido inspirada no tríptico Virtudes teologais (fé, esperança e caridade), pintado por Raffaello Sanzio em 1507. Só que, na versão original, a santa recosta a mão esquerda no peito e a outra segura o cálice sagrado. Mas cada época tem o Raffaello que merece. E reciclando o estoque de imagens universais para fins instrumentais, o
marketing pré-natalino nos ajuda a entender como o consumo é filho legítimo do monoteísmo. Já no Velho Testamento, no capítulo 1 do livro do Gênese, versículo 26, Deus franqueou ao homem o domínio “sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra”. Sabemos no que deu este apelo explícito ao consumo desmesurado da própria natureza.
No próprio feriado de “Ação de Graças”, comemorado na quarta quinta-feira de novembro, depois de comer o peru em família, uma procissão de americanos afl ui às compras na maior liquidação do planeta. O agradecimento a Deus pela boa colheita de outono, que está na origem da comemoração instituída em 1621, converte-se na celebração do consumo sem trégua, aquecendo o comércio às vésperas do Natal.
Para reagir ao marketing que mistura táticas religiosas com as do universo militar, surgiu a campanha mundial Buy nothing day (um dia sem compras), encabeçada pela canadense Media Foundation, que produz a revista antipublicitária Adbusters. Mas além
da campanha, o ritual fundamentalista do consumo também passou a ser questionado a partir das performances do reverendo Billy. Fundador da Igreja do Anticonsumo, Billy, ao estilo dos “sacerdotes” evangélicomidiáticos, invade lojas aos berros de “No shopping” (não compre). Sua pregação, acompanhada de denúncias contra a exploração de mão-de-obra infantil na fabricação de certos produtos, inspirou grupos de ativistas europeus, que passaram a organizar manifestações no interior das lojas de grandes marcas. Na versão européia, ativistas quedam-se prostrados diante, por exemplo, de um boné da Nike, entoando orações e mantras laudatórios ao venerado produto.


Silvio Mieli é jornalista e professor do Departamento de Comunicação Jornalística da PUCSP, onde desenvolve atividades ligadas ao midiativismo, à análise dos sistemas audiovisuais e à crítica à mídia

História Viva

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Nova prosperidade da Índia não beneficia classe trabalhadora

Quase 95% da força de trabalho indiana permanece na informalidade. “Queremos dar aposentadoria e benefícios de saúde a esses trabalhadores, mas isso está longe de acontecer”, diz representante do governo.

Raymond Thibodeaux

Mesmo em meio ao tráfego caótico de Nova Déli, com buzinas tocando e caminhões e ônibus em disparada, o local de trabalho de Omprekash Takur permanece um refúgio de calma e tranqüilidade. O que é bom, pois a especialidade de Takur são os cortes de barba.

Takur passou quase dez anos nesta barbearia, ou o que faz às vezes de barbearia: um pequeno pedaço de calçada com uma cadeira enferrujada, uma mesa de plástico para seu equipamento de barbeiro, dois pares de tesouras, um pente e um espelho quadrado pendurado no tronco de um tamarindeiro, com as folhas escurecidas pela fuligem e a poeira levantada pelo tráfego.

“Meu pai me ensinou a fazer isso quando eu tinha 7 anos e desde então o faço. Meus professores me batiam por faltar às aulas, mas eu gostava de ganhar dinheiro cortando cabelo”, disse Takur, 27 anos, magro e moreno, colocando uma nova lâmina no aparelho.

As ruas das cidades indianas estão cheias de pessoas como Takur - barbeiros, limpadores de ouvidos, sapateiros e alfaiates, um pelotão de assistentes pessoais para as massas urbanas do país, em plena rua.

Mas para muitos deles a ascensão econômica da Índia reduziu sua base de clientes, pois cada vez mais indianos são capazes de pagar versões mais caras de seus serviços nos novos shopping centers.

A enorme riqueza que está sendo gerada pela florescente economia da Índia demorou para chegar ao nível da rua, onde a maior parte dos 400 milhões de trabalhadores do país desempenha seus ofícios.

Geralmente, os empresários das ruas têm pouca educação e capacitação, e trabalham em uma economia informal e sombria que fica aquém da maioria das proteções do governo. Conforme a Índia cresce, a distância entre ricos e pobres parece aumentar.

Com um índice de inflação de 6%, a nova Índia parece estar prejudicando os pobres, que são mais duramente atingidos pelos aumentos no preço das necessidades básicas, como comida e aluguel. Isto aumentou os temores de inquietação social neste país de 1,1 bilhão de pessoas, enquanto uma crescente e cada vez mais inquieta subclasse é deixada à própria sorte na boa maré econômica do país.

“São nossos eletricistas, nossos encanadores, nossas empregadas domésticas e motoristas. São a espinha dorsal de nosso sucesso econômico, mas vivem em favelas”, disse Ranjana Kumari, diretor do Centro de Pesquisa Social em Nova Déli, uma agência não-governamental focada na mão-de-obra da Índia.

“Existe um grave defeito nas políticas do governo que regem nossa economia. Precisa haver mais iniciativa do governo para cuidar desses trabalhadores e lhes dar uma parcela maior da riqueza”, disse Kumari.

Até agora, o governo pró-crescimento da Índia não quis sobrecarregar as empresas com regulamentos caros que fariam exatamente isso. E muitas empresas indianas não estão dispostas a absorvê-los como empregados formais, que teriam direito aos poucos benefícios já exigidos por lei: benefícios de saúde, aposentadoria, férias e licenças remuneradas.

Em conseqüência, cerca de 95% da força de trabalho indiana permanece informal e desorganizada. “Idealmente, queremos formalizar toda a nossa força de trabalho, lhe dar aposentadoria e benefícios de saúde e assim por diante, mas isso vai levar muito tempo”, disse Pronab Sen, o principal estatístico do governo indiano.

Parte do impasse é que cada vez mais indianos das zonas rurais estão abandonando suas fazendas e mudando-se para áreas urbanas em busca de melhores empregos como motoristas de riquixás, varredores de rua e barbeiros. Esses trabalhadores são difíceis de contabilizar e muito mais difíceis de organizar.

“O setor informal é uma transição muito importante entre as áreas rurais e as cidades. E ele permite que as pessoas aprendam diferentes ofícios que são mais úteis e pagam melhor”, disse Sen.

À sombra do tamarindeiro, Takur mergulhou seu pincel de barba em água quente e fez espuma em mais um rosto, o terceiro em uma hora. Ele disse que geralmente consegue ganhar pelo menos US$ 6 por dia, o triplo do salário diário da maioria dos indianos. É o suficiente para sustentar sua mulher e seus três filhos, de 6, 4 e 2 anos.

Perguntado como o sucesso da Índia o beneficiou, ele disse: “Não sei”.

Mas Ranjit Singh, 25, um motorista de táxi riquixá que espera sua vez na cadeira de barbeiro, indicou que Takur aumentou seus preços no ano passado.

“Sim, é verdade, mas isso não foi realmente um lucro para mim”, disse Takur, usando a palma da mão para tirar a espuma da lâmina. “Meu suprimentos estão mais caros, por isso preciso transferir o custo para o cliente.”

“Seus custos aumentaram um pouco”, disse Singh. “Mas você mais que duplicou seus preços.”

Cox Newspaper
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/cox/

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